Page 1


FLERTE COM O EX – Kimberly Lang A vida de Megan Lowe estava ótima... até a imprensa descobrir que ela é exesposa de Devin Kenney. Agora, a mídia está enlouquecida em busca de um furo. Com o lançamento de seu novo livro, o rosto e o sorriso de Devin estão estampados por todos os lados, deixando ainda mais impossível para Megan esquecê-lo. Ela sabia que chegara a hora de encará-lo. E este encontro certamente será digno de primeira página.

O ÚLTIMO DESAFIO – Andie Brock O conde Rafael Revaldi costumava viver o momento. Contudo, após enganar a morte, ele pensa no futuro. Rafael precisa de um herdeiro. Para isso, terá de enfrentar seu maior desafio: reconquistar a ex-esposa. Lottie não imaginava que voltaria ao castelo que, um dia, chamou de lar. E a química com seu ex-marido ainda existe... assim como as cicatrizes emocionais. Será que Lottie arriscará novamente o seu coração?

SUAVE, SENSUAL E ESCANDALOSO – Amanda Cinelli Leo Valente é tão implacável quanto os tabloides dizem. Porém, Dara Devlin não irá se intimidar! Ela precisa do castelo de Leo para promover a festa perfeita para sua maior cliente. Por isso, aceita a proposta ultrajante dele: fingir seu sua namorada. Ela fará de tudo para manter o profissionalistmo, mas ter uma noite com Dara esta no topo da lista deste playboy sedutor... e ele sempre consegue o que deseja!


Querida leitora, Em Flerte com o ex, de Kimberly Lang, a mídia enlouquece ao descobrir que o famoso advogado especialista em divórcios, Devin Kenney, tem uma exesposa… e que ela é terapeuta de casais. Para afastar a propaganda negativa, Megan Lowe precisa confrontá-lo. Ao se reencontrem, são surpreendidos pela intensa paixão que achavam estar enterrada. Em O último desafio, de Andie Brock, Lottie pensou que receberia os papéis da separação quando foi convocada ao palazzo de seu ex-marido, o conde di Monterrato. Contudo, fica chocada ao ouvir a proposta de Rafe: ele quer que Lottie lhe dê um herdeiro! Em Suave, sensual e escandaloso, de Amanda Cinelli, Dara Devlin tem nas mãos um contrato que poderá alavancar sua carreira. Mas, para isso, precisa convencer o sensual Leo Valente a ceder seu castelo. Para sua surpresa, o implacável playboy aceita, mas com uma condição: ela terá que trabalhar para ele… e fingir ser sua namorada! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Kimberly Lang Andie Brock Amanda Cinelli

DESTINOS MARCADOS

Tradução Ligia Chabú

2016


SUMÁRIO

Flerte com o ex O último desafio Suave, sensual e escandaloso


Kimberly Lang

FLERTE COM O EX

Tradução Ligia Chabú


CAPÍTULO 1

QUINZE MINUTOS de orientação psicológica para o sr. e a sra. Martin deixaram Megan Lowe com dor de cabeça. Ela precisava falar com a dra. Weiss sobre ajustar a medicação do casal, antes que um deles acabasse matando o outro. Megan tomou algumas anotações em seu arquivo, enquanto a sessão ainda estava fresca em sua mente, e adicionou-o à pilha em sua caixa de entrada. Então foi procurar uma aspirina. Julie, outra das três estagiárias que lidavam com a maior parte do aconselhamento na clínica Weiss, estendeu o pote de aspirina em sua direção quando Megan passou pela porta vaivém do saguão. – Eu pude ouvir aquilo daqui. Você deveria receber um extra por estar na zona de combate. Megan riu, abrindo uma garrafa de água e tomando duas aspirinas. – O nível de decibéis deles é de 75, esta semana. Não acho que há perigo real para alguém ou alguma coisa, exceto para meus tímpanos. – Mil anos fazendo pós-graduação, e você acaba como o equivalente de árbitro para uma luta livre. – Julie balançou a cabeça. – Apenas que meu salário não é tão bom. Julie bateu na folha de jornal sob sua mão, chamando a atenção para um anúncio colorido de página inteira do livro de Devin Kenney. – Bem, se você não pode fazê-los se entender, no mínimo, pode recomendar um bom advogado de divórcio. Megan sentiu seu olho começar a se contrair.


– Isso não tem graça, Julie. A menor graça. – Por que Devin não podia trabalhar na obscuridade, como todo mundo? Ela atraíra um pouco o interesse da imprensa no ano anterior, quando o programa de rádio de Devin, Cubra Seus Bens, entrara em Sindicância, mas, desde que o livro, com o mesmo nome, alcançara o topo de todas as listas de best-sellers, ela se sentia a ex-esposa mais famosa da América. Ou, pelo menos, de Chicago. – Na verdade, é engraçado. – Julie sorriu. – E a ironia é simplesmente deliciosa. – Não me faça odiá-la. É irritante, não irônico. Além disso, é história antiga. – História que deveria ter se perdido na névoa do tempo, se Dev não a tivesse tornado parte de sua carreira. – Uma terapeuta de casais cujo casamento deixou Devin Kenney tão amargo que ele fez do trabalho de sua vida separar outros casais? Desculpe, isso é delicioso. E digno de ser publicado. – Você tem uma definição muito liberal de publicações. – Megan virou o jornal, de modo que não visse mais o anúncio. – Novo tópico. Conseguiu permissão para entrar com aquela papelada? Ela não perdeu a careta que acompanhou o sorriso dramático de Julie, quando foi pegar seu almoço da geladeira, mas Julie embarcou no novo assunto, felizmente. A quantidade de tempo que Megan passava pensando em Devin nos últimos dias não era boa para sua saúde mental, e falar sobre aquilo também não ajudaria. Estrangular Devin por colocá-la nesta posição, talvez ajudasse, mas esta não era realmente uma opção. Por mais tentador que o pensamento fosse. Um minuto mais tarde, Alice, a recepcionista da clínica, se juntou a elas, levando diversos recados para ambas. Megan manuseou os papéis distraidamente, até que um despertou seu interesse. – Os Smith cancelaram? – Allen e Melissa Smith eram seus clientes mais fanáticos. Eles iam toda segunda-feira às 13h. Nunca faltavam. – Eles falaram por quê? Alice hesitou, enquanto punha seu almoço no micro-ondas. – Sim, eles falaram. Lá estava a contração do olho, novamente. Ela não ia gostar daquilo. – E?


– Eles estão muito desconfortáveis com o nível de notoriedade que você alcançou nos últimos tempos, especialmente desde que aquele blogueiro que tem rondado aqui ligou para a casa deles ontem perguntando sobre você. – Aquele cara identificou e ligou para um de meus clientes? – Ela viu o rosto chocado de Julie pelo canto de olho. – Por favor, diga que você está brincando. – Bem que eu gostaria. – Oh, meu Deus. Isso é... Isso é... – Uma invasão na privacidade dos Smith e uma marca negra na reputação desta clínica. – Dra. Weiss, a dona da Clínica Weiss, falou atrás de Megan, causando-lhe um sobressalto. – Dra. Weiss, eu sinto muito. Isso é loucura. – Eu concordo. – Dra. Weiss parecia calma, mas Megan sabia que aquela era apenas a “fisionomia de psicóloga” dela. Dra. Weiss era terapeuta há mais de trinta anos; não ficaria surpresa se Megan subisse na mesa e dançasse nua. – Eu tenho certeza de que isso vai passar logo – disse Megan. – Eu não sou tão interessante assim, sabe? E sabemos como o interesse das pessoas pode ser passageiro – concluiu com uma tentativa fraca de humor. – Fico contente em saber que você se sente assim, Megan. – A voz da dra. Weiss era compreensível e gentil, mas isso não impediu o nervosismo contraindo o estômago de Megan. – Acho que você deve tirar um tempo de folga até que esta fase passe. – O quê? Dra. Weiss sentou-se à mesa com elas e deu um gole de seu café. – Você tem muitas férias acumuladas, e agora pode ser um bom momento para tirá-las. – Mas meus clientes... – Nós podemos lidar com eles por algumas semanas. – Semanas? Dra. Weiss, eu sei que esta não é uma boa situação, mas... – Megan, eu não terei minha clínica transformada num circo. E não quero que nossos clientes sofram embaraço ou inconveniência. Ela sentiu-se como uma criança castigada, e raiva de Devin ferveu em suas veias. Julie e Alice estavam fingindo atenção em seus almoços, mas Megan podia sentir a pena delas, e isso adicionou combustível ao fogo. Ela apertou o lápis que segurava, forçando-se a permanecer externamente calma.


– Entendo. Trabalharei com Alice para rearranjar tudo, depois que eu terminar com meu grupo de gerenciamento de raiva, esta tarde. Dra. Weiss meneou a cabeça. – Eu lidarei com seu grupo. O lápis quebrou. Dra. Weiss arqueou as sobrancelhas. – Talvez, você deseje participar do grupo, esta tarde. – Não. – Megan forçou um sorriso. – Eu começarei a organizar tudo. Alice, quando você acabar de almoçar, tem alguns minutos para olhar a minha agenda? Alice assentiu, e dra. Weiss pareceu satisfeita. – Isso não é uma punição, Megan. Como você diz, esta fase vai passar logo, e você pode trabalhar naquelas assinaturas do jornal, enquanto esperamos as coisas voltarem ao normal. – Uma ideia maravilhosa, dra. Weiss. – Eu farei isso, depois que matar Devin Kenney. Megan conseguiu sair da sala de descanso, com um pouco de dignidade, mas suas unhas estavam enterrando dolorosamente na palma no momento que ela entrou em sua sala e fechou a porta. Tentando focar em alguma coisa além de Devin, checou sua agenda e começou a pegar arquivos e fazer anotações para Julie e Nate, o outro terapeuta, que estivera com um cliente e perdera a diversão. Mas, certamente, ele saberia de tudo trinta segundos depois que o cliente partisse. Eu não fui demitida. Não estou sendo punida. Isso vai passar. Maldito Dev. Quantas vezes mais ela teria de reorganizar sua vida por causa dele? Isso vai passar logo. Ela continuou repetindo esta frase até que uma leve batida à porta anunciou a entrada de Julie e Alice. – Nós lamentamos – disse Julie. – Não há nada para lamentar. Isso vai passar. Julie sentou do lado oposto da mesa, enquanto Alice pegava os arquivos das mãos de Megan. – Sabemos que ódio é uma emoção muito negativa – começou Julie –, mas também concordamos que não é uma emoção inapropriada nesta situação.


– Obrigada, Jules. – Ela suspirou. – Sabe, eu nunca odiei ninguém na minha vida inteira. – Nem mesmo Devin? – Por incrível que pareça, não. – Diante da óbvia incredulidade de Julie, ela tentou explicar: – Não foi assim. Eu me senti amarga, zangada e ferida, mas não o odiei. Fiquei desapontada, desiludida, com o coração partido... mas nunca senti ódio. – Ela deu de ombros. – Então eu segui em frente. Dev é obviamente quem tem assuntos pendentes. – Parece que ele precisa de um bom terapeuta. – Julie sorriu. – Conhece algum? – Infelizmente, estou afastada pelo futuro previsível. – Ela descansou a cabeça nas mãos. – O tempo inteiro me parabenizando porque eu segui em frente. Agora, estou zangada. Dev é um homem morto se eu puser as mãos nele. Como se eu pudesse – adicionou ela. – Duvido que a firma dele me deixaria entrar pela porta da frente. – Por que você não vai à tarde de autógrafos do livro dele? – sugeriu Alice. Aquilo chamou sua atenção. – Ele terá uma tarde de autógrafos? Alice assentiu. – Há um anúncio no jornal de hoje. Ele irá autografar livros no centro da cidade, hoje, das 15h às 17h. – Humm. – Devin estava na cidade... Sem fazer talk shows em Nova York ou Los Angeles. – Interessante. – Megan... – A voz de Julie continha um aviso. – Não piore as coisas. Megan já estava pesquisando a livraria na internet. – Como as coisas poderiam piorar? Ele já está destruindo minha carreira, minha reputação, minha vida. – Nada está em completa ruína, por enquanto. Não vamos nos precipitar. – Eu sou uma profissional, Julie. Acho que posso confrontar meu ex-marido de uma maneira positiva e apropriada. Julie bufou. – Você realmente acha isso? Megan ergueu o queixo. – Acho.


– Sabe que isso significa que você não pode matá-lo, certo? Nem mesmo socá-lo? Ela recostou-se na cadeira e fechou os olhos. – Infelizmente, sim. Mas preciso pôr um ponto final nisso, de alguma maneira. Antes que a situação saia mais do controle. – VOCÊ, DEVIN Kenney, é uma força da natureza, meu amigo. Incrível. Precisa de alguma coisa? Água? Um refrigerante? A propósito, adorei a camisa. Ficou ótima em você. Devin não se sentiu nem um pouco animado pela exuberância de Manny Field, ou insultado que Manny partiu quase antes que acabasse de falar. Manny via tudo em termos de seus 15 por cento, e Devin sabia que era o maior investimento de Manny no momento; consequentemente, valia a pena bajulá-lo. Todavia, Manny era seu empresário, não seu amigo, e, como seu empresário, ajudara Devin a ganhar muito dinheiro. E vice-versa... por conseguinte, o estímulo. A última pessoa da fila aproximou-se. Ele assinou seu nome mais uma vez e entregou o livro, tentando ignorar o sorriso e o decote exageradamente brilhantes da mulher que o olhava. Ela parecia estar no mercado por um marido, não querendo deixar um. As próximas palavras dela confirmaram sua hipótese. – Sabe, sr. Kenney, ou posso chamá-lo de Devin? Mesmo depois do meu último divórcio, no qual seu livro teria me ajudado, no fundo, eu ainda sou um pouco romântica. – Sorrindo, ela inclinou-se, oferecendo outra vista da frente da blusa. – E quanto a você? Ainda está procurando um amor verdadeiro e duradouro? Seu personagem de Sujeito Divorciado Amargo ajudava, um pouco, a evitar situações como esta, mas algumas mulheres viam isso como um desafio. – Se eu, ou qualquer outra pessoa, realmente acreditasse em amor verdadeiro e duradouro, eu estaria desempregado. Aquilo deveria tê-la calado, mas, em vez disso, ela inclinou-se para mais perto e murmurou com voz rouca: – Talvez, você ainda não tenha encontrado a mulher certa. Talvez, Manny precise vir aqui e interferir. Ele ouviu o barulhinho de uma câmera e soube que esta mulher e seus seios estavam prestes a fazerem a página


frontal do blog de alguém. Ótimo. Devin não queria insultar uma fã, mas não queria ouvir a próxima oferta. Onde estava Manny? Ele olhou ao redor da livraria, até encontrar Manny conversando com uma pequena loira. Ela estava de costas, de modo que ele não podia ver-lhe o rosto, mas Manny parecia agitado. A mulher falava animadamente, o longo rabo de cavalo balançando com os movimentos. Ela estava vestida casualmente, a camiseta branca delineando costas lindas e uma cintura fina, antes de desaparecer dentro do cós do jeans. Jeans que abraçavam o traseiro dela de uma maneira que chamou a atenção de seu corpo, muito mais do que o topo dos seios quase embaixo do seu nariz. A mulher mudou a bolsa a tiracolo de ombro e alguma coisa no movimento lhe pareceu muito familiar. Um momento depois, ela virou-se e olhou diretamente para ele. Megan. Ciente de que tinha a sua atenção, ela cruzou os braços sobre o peito e inclinou a cabeça de lado. Enquanto a observava, Devin percebeu duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, os anos tinham feito muito, muito bem a ela. Segundo, ela estava totalmente furiosa. Manny bateu no ombro de Megan. Instintivamente, Devin estava de pé antes que se desse conta. Manny podia ser cáustico e destruir pessoas com meras palavras, e, pela expressão no rosto dele, Megan estava a segundos de receber o tratamento completo de Manny. Ele mal olhou para a mulher a sua frente quando se levantou. – Aprecie o livro. Espero que ele ajude da próxima vez. Ele mal registrou o resmungo da mulher antes de atravessar a livraria. Enquanto cobria a distância até Megan, os olhos azuis dela se estreitaram, mas não antes que ele visse a ira queimando neles. Então, a raiva era dirigida a ele, pessoalmente. Interessante. Deveria deixar Manny lidar com aquilo, mas sua consciência não permitiria que os sentimentos de Megan fossem feridos. Ademais, ele estava muito curioso para ver o que a levara de volta ao seu universo, depois de sete anos.


A caloura de 18 anos que ela havia sido na faculdade desaparecera há muito tempo, trazendo saliência às maçãs do rosto e lhe dando uma aparência delicada que não combinava com a fisionomia furiosa. A camiseta era colada aos seios... Seios que a posição dos braços dela estava unindo, como se suplicassem por sua atenção. Como se percebesse a direção de seus pensamentos, Megan descruzou os braços e pôs as mãos nos quadris, pressionando os lábios numa linha fina. Com cabelo loiro, grandes olhos azuis, baixa estatura e expressão aborrecida, Megan parecia a personagem Sininho, zangada no momento. Manny estava parado ali perto, ainda falando, mas Megan nem o olhou. Ela encarava Devin fixamente, mesmo enquanto ele se aproximava. – Desculpe, Devin, mas esta mulher diz... – começou Manny. – Sem problemas – interrompeu ele seu empresário. Manny resmungou, e Megan parecia estar cerrando os dentes. Consciente da audiência, Devin deu seu sorriso mais charmoso, aquele treinado para a mídia. – Megan, que surpresa. Estou lisonjeado que você veio. Ela meneou a cabeça. – Não fique. Você é um homem morto, Dev. – A voz dela era baixa, mas o calor por trás desta era feroz. Manny deu um passo atrás. – Eu vou buscar seguranças. – Não é necessário. Esta é Megan Lowe. Minha ex-esposa. Manny olhou para ela. – Você não mencionou isso. Ela fez uma careta em resposta. – Você pode nos dar licença por um minuto? Eu preciso falar com Devin. Em particular – acrescentou ela entre dentes. Manny olhou para ele, e Devin assentiu. – Está tudo bem, Manny. Dê-nos um minuto. Tenho certeza de que Megan não pretende realmente me atacar. – Quer apostar? – desafiou ela. – Tenho certeza de que você não quer fazer uma cena na frente de cinquenta pessoas, quer? – avisou ele, não querendo que aquilo chegasse aos jornais.


Ela olhou em volta e deu um longo suspiro. Então, com o sorriso mais falso que ele já vira, voltou-se para Manny. – É claro que não. Eu só preciso de alguns minutos do tempo de Devin – murmurou ela com falsa doçura. Manny recuou alguns passos, e Devin tentou pegar o cotovelo de Megan. Ela esquivou-se antes que ele pudesse tocá-la. Deus, ela estava realmente furiosa, mas por que decidira confrontá-lo ali? Qualquer que fosse o assunto, no meio de uma livraria, durante sua tarde de autógrafos, não era lugar para discussão. Com um suspiro, ele indicou o depósito onde ficara escondido antes de o evento começar. – Que tal ali? Megan endireitou os ombros e andou rapidamente, o sorriso falso no rosto até que eles estivessem fechados dentro da sala. Então, ela voltou-se para ele. – Como você pôde, Dev? – Como eu pude, o quê? Você precisará ser mais específica. Megan tirou uma cópia do livro de Devin da bolsa e jogou-a em direção a ele. – Isto. Devin capturou o livro por reflexo. Quando ela não explicou, ele provocou-a: – Devo autografá-lo para você, ou é presente de um amigo? – Nenhuma das duas coisas. Eu já tenho seu autógrafo. Nos meus papéis de divórcio. – Então, o quê? – Ela não respondeu, mas ele podia ver o músculo no pequeno queixo trabalhando. – Precisa de algum conselho legal? Ela inclinou a cabeça, e a ponta do rabo de cavalo caiu sobre o topo de um seio, acima do decote da camisa. Megan corou levemente. – Na verdade, um conselho legal seria útil. Qual é a diferença entre difamação e calúnia? – O quê? – Que tal difamação de caráter? Eu posso processá-lo por isso? Meggie raramente era sensata quando ficava zangada, mas isso parecia ser o extremo, mesmo para ela. – Por que você não se acalma e me conta... – Não ouse agir de forma paternalista, Devin Kenney. Seu programa de rádio foi ruim o bastante, mas esse livro...


Velhos hábitos guerrearam entre si. Aplacar ou discutir de volta? – Eu não acho... – E aí está o problema. Você já pensou que pessoas possam estar interessadas na ex-esposa do advogado de divórcio mais popular da América? – Megan começou a andar de um lado para o outro, gesticulando as mãos enquanto falava. – Que pessoas podem pensar que algumas das coisas que você menciona no rádio ou as histórias deste livro são baseadas em sua experiência pessoal? Ou que elas pudessem me procurar, querendo detalhes sórdidos ou algo assim? Ah, notoriedade indesejada. – Está toda furiosa porque algum tabloide quer que você conte meus podres? Ela cruzou os braços sobre o peito, novamente, e o encarou. – Não apenas algum tabloide. Todos os tabloides. E os canais televisivos. Meia dúzia de talk shows e todos os blogueiros do universo. Você não acompanha sua própria publicidade? Não viu meu nome ao lado do seu, recentemente? Devin não acompanhava sua própria publicidade; não tinha tempo. Esta era função de Manny. E eles teriam uma conversa sobre isso mais tarde. A raiva de Megan fazia mais sentido agora. Ela era tão tímida que a perseguição da mídia lhe causaria estresse. Sentindo uma ponta de culpa por ela estar no circo da mídia, ele tentou tocar-lhe o braço, por hábito, para acalmá-la. Quando ela recuou, Devin lembrou que não tinha mais o direito de tocá-la. Recostou-se contra uma pilha de caixas. – O fato de que fomos casados uma vez é registro público. Não posso mudar isso. – Ela suspirou, e ele ergueu uma das mãos, tentando ser diplomático. – Mas eu lamento que você esteja sendo perturbada pela impressa. Esta fase vai passar logo. – Alguma coisa naquela frase fez Megan enrubescer ainda mais. – Sinta-se livre para explorar isso o quanto quiser, todavia. – Eu não quero explorar coisa alguma. Quero que isso pare. Do jeito que a situação está, talvez minha carreira nunca se recupere, mas se isso continuar... Devin tentou seguir a mudança de assunto. – Sua carreira? – Sei que você nunca pensou muito nisso, mas certamente lembra que eu queria uma carreira, não? Oh, ele lembrava bem. Ela se mudara para Albany e pedira o divórcio para perseguir a preciosa carreira. O gosto amargo daquela lembrança tornou suas


próximas palavras mais ríspidas do que ele pretendia. – Não vejo como um pouco de fama pode ter algum efeito prejudicial em sua carreira. – Eu sou terapeuta – replicou Megan entre dentes. – Essencialmente, uma terapeuta de casais. Devin arqueou as sobrancelhas e uma risada escapou de sua garganta. Megan fez uma careta. – Sim, estou ciente da ironia. Assim como todas as pessoas que me contatam sobre você. Mas eu sou muito boa no que faço. E estava construindo uma ótima clientela e uma reputação decente. Até agora. – E? – Vamos ver. A imprensa não me deixa em paz. Eles ligam no meu escritório e na minha casa o tempo inteiro. Minha caixa de e-mails está transbordando, e um jornalista até mesmo tentou se passar por um novo cliente. Eu consegui lidar com isso, mas, agora, meus clientes estão sendo importunados pela imprensa, o que é uma invasão horrível de privacidade, sem mencionar o embaraço para eles e para a clínica na qual trabalho. A especulação nos jornais sobre nosso casamento me faz parecer algum tipo de psicótica, o que faz as pessoas pensarem duas vezes, antes de ouvirem meus conselhos. – Ela recomeçou a andar de um lado para o outro. – Oh, e há a questão de eu ter sido obrigada a tirar férias, porque tudo isso prejudica o bom andamento da clínica. Então, obrigada, Devin, por estragar minha vida. De novo. A acusação machucou, mas ele não ia discutir quem estragara a vida de quem. Ele venceria essa batalha. Mas isso era história antiga. Devin sentia-se um pouco mal pela situação de Megan. Apesar de sua reputação, ele não era completamente cruel. Nem mesmo com ela. – Eu não sabia que isso estava acontecendo. Tentarei controlar os danos se você quiser. Deixando claro que estamos separados há tanto tempo que nada nosso é parte do livro. Ela deu de ombros. – É um começo. Mas duvido que isso ajude. Devin deu um suspiro frustrado. – Então, o que exatamente você quer que eu faça?


A PERGUNTA pairou no ar entre eles, e Megan não tinha uma resposta. Raiva e indignação a haviam levado tão longe, e agora ela lamentava ter cedido às duas emoções, perdendo a calma e a compostura. Se dra. Weiss tivesse ouvido sua explosão, mandaria que ela voltasse para o primeiro ano de Psicologia e começasse tudo de novo. O ultraje desapareceu, deixando-a se sentir superficial e tola. Era um sentimento familiar. Um que Megan não gostava. Apenas não estivera mentalmente preparada para ver Devin outra vez. Pessoalmente, pelo menos. Ela debatera aceitar aquele estágio, porque Devin era muito famoso, e Megan não tinha certeza se queria estar na mesma cidade. Todavia, um estágio na Clínica Weiss era prestigioso demais para rejeitar por causa de um ex-marido. Não numa cidade do tamanho desta, onde era praticamente garantido que eles nunca se esbarrassem. Então, ela se mudara para lá e a foto dele estava por toda a cidade: nas laterais dos ônibus, nos outdoors, nas revistas. O sorriso travesso de Devin estava em toda parte. O fato mexia com Megan, mas ela aprendera a ignorar a sensação... pela maior parte do tempo. No entanto, nem toda essa prática preparara-a para estar no mesmo cômodo que ele. Sozinha. O corpo alto e poderoso tomava muito espaço, e suas terminações nervosas pareciam saltar em alerta. Devin parecia absorver todo o oxigênio disponível na sala, deixando-a sem nada para respirar, exceto o aroma único dele, que ela reconheceu imediatamente. Aqueles olhos castanhos e profundos, o jeito que o cabelo escuro se curvava atrás das orelhas... Aquelas mãos... estranhamente elegantes para um homem que exalava testosterona por cada poro... trouxeram imagens das quais ela não precisava no momento. Era terrivelmente injusto descobrir que, depois de todos aqueles anos, Devin ainda lhe causava um efeito, especialmente quando ela obviamente não exercia efeito algum sobre ele. A garota de 18 anos em seu interior estava gaguejando apenas pela proximidade, e isso a irritava muito. E, agora, Megan havia ido lá e agido como algum tipo de ex-esposa louca. E, considerando como ele estava sendo sensato, ela queria se esconder embaixo da terra pelos próximos cinco anos. Talvez, até lá, já tivesse recuperado seu orgulho. Devin repetiu a pergunta, e a exasperação no tom dele fez Megan perceber como estava sendo ridícula.


Eu deveria ter ouvido Julie. – Então, Meggie? Você poderia começar por não me chamar de Meggie. Pois isso despertava memórias que ela estava se esforçando para reprimir. Mas a pergunta de Devin reduzira o ultraje que a levara ao centro da cidade para confrontá-lo. Megan suspirou e abaixou os ombros em derrota. – Eu não sei. Suponho que isso é tudo que você pode fazer. Mais cedo ou mais tarde, meus 15 minutos de fama vão passar, certo? Mordendo o lábio, ela buscou em seu interior um pouco do seu comportamento profissional. Sem a raiva e a indignação preenchendo-a, sentiase tola. E a proximidade de Dev era demais. – Peço desculpas. Eu não deveria ter vindo aqui, portanto vou embora. – Ela riu do absurdo da situação. – Não vou dizer que foi bom revê-lo, mas, pelo menos, posso lhe dar os parabéns pelo seu sucesso, pessoalmente. – Pronto. Essas palavras mostravam uma atitude mais madura. Dev assentiu, mas tinha uma expressão estranha no rosto, quase como se estivesse preocupado por ela não estar mentalmente bem. Megan não poderia culpá-lo. – Adeus, Dev. E boa sorte. – Ela estendeu a mão. Parecendo surpreso e não se incomodando em esconder isso, Devin pegoulhe a mão. E os dedos de Megan formigaram com o toque. – Para você também, Meggie. Forçando-se a parecer composta, ela liberou a mão e se recusou a olhar para trás enquanto saía do depósito. Abriu a porta e deu de cara com o empresário irritante. – Ouvindo atrás da porta? Adorável. Manny pareceu um pouco envergonhado por ter sido pego, mas então deu de ombros e sorriu. Era um sorriso falso, e Megan não foi nem um pouco enganada pelo mesmo. Ou pelo jeito amigável que se seguiu. – Não leve isso a nível pessoal. É apenas show business. Ela fingiu pensar sobre aquela declaração. – Show business. Bem, para aqueles que não queriam isso, é horrível. Muito como sua vida no momento.


CAPÍTULO 2

VINTE E quatro horas debaixo das cobertas, e com mais sorvete do que qualquer adulto deveria tomar, não tinham resolvido coisa alguma. Megan não se sentia melhor sobre nada daquilo. E, agora, seu estômago doía também. Estava cansada de ficar escondida em seu apartamento, principalmente porque ver Devin despertara cada velha memória reprimida, levando-a a reviver a história deles inteira. Ela sentia-se péssima agora, graças a ele. Quando o telefone tocou, novamente, Megan tirou-o debaixo da colcha para checar o número. Sem nome. Droga. Não atender não era uma opção, uma vez que podia ser um cliente. Todos eles tinham o número de seu celular, no caso de uma emergência. Ela mentalmente cruzou os dedos, depois se censurou por desejar que um de seus clientes estivesse tendo uma emergência. – Dra. Lowe? – Ela mesma. – Meu nome é Kate Wilson. Eu sou produtora... Megan suspirou. – Sem comentários. Adeus. – A imprensa a estava enlouquecendo. – Espere! Não desligue, por favor. – Alguma coisa na voz da mulher a fez pausar. – Eu sou produtora de Devin Kenney, de Cubra Seus Bens. Era por isso que a voz soava vagamente familiar. Ela a ouvira no rádio nas pouquíssimas vezes que ligara no programa de Devin, estritamente para propósito de pesquisa, é claro. – E eu ainda não tenho comentários.


Não era por falta de tentar, todavia. Ela passara horas tentando surgir com o comentário perfeito. Um que fosse conciso e parasse com mais questões. Infelizmente, tal comentário não existia. – Entendo sua relutância, mas, por favor, ouça-me. Eu não estou procurando uma história. – A mulher riu. – Este não é meu trabalho. Megan focou na mancha de água no teto e rezou por paciência. – Sra. Wilson, eu estou extremamente ocupada hoje, então... – Então, eu irei direto ao ponto. Entendo que você está recebendo atenção indesejada da mídia no momento. – Ela pausou. – Não sei como você lidou com a mídia no passado, mas sei uma maneira de controlar este circo. Aquilo seria pedir demais, especialmente uma vez que a mulher trabalhava para a mídia... e para Devin. Consequentemente, a oferta dela parecia suspeita. – E qual seria? – Mostre-se de um jeito que você possa controlar. – Sra. Wilson... – Chame-me de Kate. – Kate, eu não estou interessada em dar entrevistas ou nada do tipo. – Exatamente. É por isso que eu acho que você deveria vir ao programa de Devin. Que parte de “não dar entrevistas” Kate não entendia? – O quê? Empolgação exalava das palavras da mulher: – Você poderia contar o seu lado da história, com Devin ali para confirmar tudo. Poderia até mesmo responder perguntas, e acabar com a especulação. Se mostrar a eles que você e Devin não estão de lados opostos, o assunto perderá o interesse. Problema resolvido. Aquilo parecia bom demais para ser verdade. Fácil demais. – O que a faz pensar que alguém iria... – Dra. Lowe deve saber que o fato de você ser terapeuta de casais, e Devin, advogado de divórcio, é o que intriga todos. E quanto menos se diz sobre o assunto, mais a especulação aumenta. – Eu estou ciente disso. – Então, venha ao programa amanhã à noite. Você e Devin podem abordar este problema de cabeças erguidas. Exponham a verdade e acabem com a curiosidade de todos.


Não podia ser tão fácil. Além disso... – Eu nunca fiz nada no rádio antes. – Não se preocupe com isso. Você tem uma voz ótima, e Devin e eu podemos orientá-la no que for necessário. – Eu não sei. Talvez, eu deva falar com Devin primeiro. – Será ótimo para os índices de audiência de Devin também. Acho que muita gente irá ligar o rádio para ouvir vocês dois resolvendo as coisas. E, pense, você pode se tornar a terapeuta de casais mais popular de Chicago. Isso provavelmente vai aumentar sua lista de pacientes. Alguma coisa não parecia certa. – Por que Devin não me ligou pessoalmente com esta grande ideia? – Ele está em Atlanta para uma noite de autógrafos e não voltará até amanhã de tarde. A sugestão era tentadora. Muito tentadora. Exceto pela parte de falar com Devin. E pela parte de estar perto dele. Todavia, Kate tinha razão sobre assumir o controle, em vez de ser pressionada. E Megan não vivia dizendo aos seus clientes para agirem, em vez de reagirem? Mas o rádio? Devin possuía uma audiência de costa a costa. Ela não era a mesma garota tímida que costumava ser, mas ainda assim... Quem não ficaria nervoso diante da ideia de ser ouvido por tantas pessoas? As possibilidades de humilhação eram enormes. Por outro lado, se ela se saísse bem, poderia fechar aquela história e voltar ao trabalho. Colocar Devin para fora de sua vida de uma vez por todas. – Dra. Lowe? Para que dê certo, precisamos fazer isso logo. Antes que a especulação aumente. Megan respirou fundo. – Então, eu acho que irei ao programa. – Maravilhoso! Você precisa chegar aqui por volta das 18h, de modo que eu possa instruí-la. Precisa que eu lhe envie um carro? Kate continuou fazendo perguntas e dando instruções, mas Megan estava questionando sua sanidade, e mal as ouviu sobre o som de sua cabeça batendo gentilmente contra a cabeceira.


DEVIN COMETEU o erro de seguir o conselho de Megan sobre ler sua própria publicidade, no momento que o avião começou a descer em O’Hare. Ele pôs seu assento na posição certa, guardou seus eletrônicos e pegou o jornal para ocupar os últimos minutos do voo. Lá, na capa da seção de entretenimento, havia uma propaganda para o programa de rádio desta noite. E o nome de Megan estava bem ao lado do seu. Que diabos era aquilo? De acordo com a propaganda, a convidada especial desta noite seria sua exesposa, dra. Megan Lowe. A surpresa dele diante do título de doutora de Megan foi rapidamente esquecida pela notícia de que ela iria ao seu programa. De quem era aquela ideia? Ele pegou seu celular, apenas para lembrar que não podia usá-lo. Acenando para uma comissária de bordo, perguntou: – Quanto tempo até aterrissarmos? – Difícil dizer, sr. Kenny. Há uma pequena fila, e nós teremos de circular por um tempo. Eu o informarei quando recebermos o horário estimado. Devin não sabia para quem ligar primeiro quando eles aterrissassem... Kate, Manny ou Megan. Eliminou Megan, uma vez que não tinha o número dela. Isso cheirava à maquinação de Manny, mas Kate poderia ter ajudado também. Eles provavelmente estavam conspirando para enlouquecê-lo. Níveis de audiência e dinheiro: as duas coisas que levavam Kate e Manny a agarrarem as oportunidades mais estranhas. O piloto anunciou o atraso para o restante dos passageiros. Como eles haviam convencido Megan a ir ao programa? Megan tinha medo de falar em público. Detestava ser o centro das atenções. O pequeno casamento deles, só para a família, não fora somente por falta de recursos financeiros... Ela não suportara a ideia de ser o foco de tanta gente. O instinto protetor que surgira do nada, no dia anterior, voltou. O sentimento era familiar e estranho, ao mesmo tempo. Ele tinha sido tomado por esse sentimento na primeira vez que ela voltara aqueles enormes olhos azulclaros para ele, despertando-lhe algum instinto de homem das cavernas de protegê-la do lobo mau. Mas tal instinto já deveria ter desaparecido há muito tempo, destruído pelo jeito que ela o abandonara, enterrado pelo egoísmo e imaturidade de Megan...


Lá estava o sentimento que ele costumava experimentar nas raras ocasiões que pensava em Megan. O velho instinto havia sido despertado pela surpresa de vê-la no outro dia. A ponta de culpa que ele sentira na livraria fora facilmente reprimida, mesmo enquanto repórteres o tinham interrogado sobre o casamento deles, em entrevistas, no dia anterior. Devin se esquivara das perguntas o máximo possível. Megan não era parte de sua vida. E certamente não era relevante para sua carreira. E ele não a queria no seu programa. Homem algum deveria ter de lidar com sua ex-esposa numa plataforma nacional. Que drogas Manny e Kate tinham tomado para considerarem aquilo? Ele deveria demitir ambos. E talvez fizesse isso se o avião algum dia tocasse a pista e ele pudesse usar seu telefone. O PRÉDIO alto que hospedava Broad Horizons Broadcasting se parecia com qualquer outro edifício de escritórios de Chicago. Megan não sabia bem o que esperara quando o carro preto elegante parou a sua porta mais cedo, para levá-la ao centro da cidade, mas não sentia que tinha sido levada para uma estação de rádio. Parecia mais uma companhia de seguros ou algo assim. Ela agradeceu ao motorista, que segurava a porta do carro aberta, sentindo-se um pouco uma celebridade pelo tratamento respeitoso. Ao entrar no prédio e ler a lista das empresas na parede, Megan abafou uma risada, quando viu que o edifício era, realmente, uma companhia de seguros. E uma firma de investimento, uma firma de advocacia e diversas outras coisas em andares diferentes. Ela registrou-se na recepção, e as sobrancelhas do guarda de segurança se arquearam quando ele leu seu nome e destino. – Você não é o que eu estava esperando, dra. Lowe. Megan não sabia se aquilo era um elogio ou não. – Você estava me esperando? – Sra. Wilson pediu que eu a enviasse diretamente para o 15º andar, assim que você chegasse. Sra. Wilson. Kate. Não Devin. Ela ainda não tivera notícias dele, embora Kate tivesse prometido passar o recado para que Devin lhe telefonasse. Eles estariam


ao vivo em menos de uma hora, e ela gostaria de falar com ele antes disso. Eles precisavam de regras básicas e um plano de ação... E Megan precisava se certificar de que controlara os gaguejos que Devin parecia lhe causar antes que fizesse papel de tola ao vivo. O guarda conduziu-a para o hall dos elevadores. – Eu preciso liberar o andar para você. Do contrário, terá de ir para o 14º primeiro. – Ao olhar interrogativo dela, ele explicou: – É uma medida de segurança para os anfitriões e seus convidados. – Ele inseriu uma chave, apertou um botão e lhe deu um sorriso amigável, enquanto se afastava e as portas do elevador se fechavam. – Boa sorte. – Obrigada – respondeu ela, mas o elevador já estava subindo. Quando as portas se abriram, Megan saiu, cautelosamente. Mais uma vez, não soubera bem o que esperar, mas, até agora, Broad Horizons se parecia com qualquer outro escritório do tipo corporativo, cubículos de cor cinza, luzes fluorescentes, tapete grosso e o cheiro de café e de pipoca. A maioria dos cubículos estava vazia, o expediente do dia já tendo terminado. Ela ficou parada ali, sentindo-se tola e incerta do que fazer. – Dra. Lowe! Megan reconheceu a voz de Kate e se virou. Como tudo mais, Kate era completamente diferente do que Megan imaginara. Alta e magra, com cabelo preto caindo em ondas sedosas sobre os ombros, Kate parecia uma supermodelo. Alguém tão linda assim deveria estar na televisão, não escondida no rádio sem rosto. No mínimo, ela deveria estar compartilhando alguns outdoors com Dev. Megan sentiu-se comum e malvestida, numa saia simples, camiseta e cardigã. Kate parecia pertencer a uma passarela. Um sorriso perfeito a cegou quando Kate estendeu a mão e se apresentou: – Eu estou tão feliz que você veio, dra. Lowe. O programa de hoje será fantástico. Eu me contentaria com “não horrível”. – Por que não me chama de Megan? Kate assentiu, antes de indicar que Megan a seguisse pelo labirinto de escritórios. – Tenho de admitir, Kate, você não é como eu imaginava. – Percebendo a impressão que aquilo daria, Megan acrescentou: – Sua voz, quero dizer.


Imaginei que você fosse... – interrompeu ela, sem saber como continuar. Kate riu. – Eu entendo. As pessoas nunca são como você imagina uma vez que você as ouve no rádio. – Ela deu um sorriso dissimulado para Megan. – Exceto por Devin, é claro. Pessoas esperam um “rasgador de calcinhas” quando ouvem aquela voz profunda, e ele não desaponta. Megan tropeçou em seus próprios pés. Não poderia discordar daquela declaração, mas certamente não ia concordar em voz alta. Ora, ela havia sido culpada de algumas calcinhas rasgadas em mais de uma ocasião. Reprimiu o pensamento. História antiga. Kate continuou falando, inconsciente do calor no rosto de Megan. – Mas esta é a chave do atrativo de Devin. Os homens querem ser ele, e as mulheres o querem. Kate o queria? Existia alguma coisa entre Dev e a linda produtora? Megan disse a si mesma que aquilo era mera curiosidade profissional, mas isso não explicava o desconforto em seu estômago. – Então, onde ele está? Você deu meu recado a ele? – O avião de Devin atrasou, e ele estava muito ocupado durante a tarde. Talvez, não tenha tido a chance de ligar. Mas você o verá em breve. – Kate abriu uma porta para ela. – Nós não temos um camarim, mas você pode esperar aqui e ficar à vontade. Eu voltarei em poucos minutos para começar a prepará-la. Prepará-la? Como assim? Megan desejou que tivesse ideia do que acontecia numa estação de rádio. Quando a porta se fechou, ela percebeu que Kate a deixara numa sala de descanso. Mesa, geladeira, sofá, cafeteira, coisas que poderiam estar em qualquer escritório, exceto pelas fotos nas paredes. Ela assumiu que muitas delas eram de personalidades do rádio, mas não reconheceu seus rostos. Exceto o de Devin, é claro. Também reconheceu as pessoas nas fotos com ele, pilotos de carro, celebridades, políticos. Uau, aquele era o vice-presidente apertando a mão de Dev? A percepção atingiu-a tarde demais. Alguns dos programas de rádio mais populares e controversos eram transmitidos deste prédio. Pessoas famosas usando o mesmo microfone que ela provavelmente usaria. Aquilo era um pouco intimidador.


Megan sentou-se no sofá e passou uma das mãos pelo cabelo. Suspirou. Estaria no rádio; não importava sua aparência, uma vez que poucas pessoas a veriam. E uma destas pessoas seria Devin. Não foi vaidade ou querer ficar bonita para ele que a fez procurar seu batom. Iria falar para centenas de pessoas. Precisava sentir-se confiante. A confiança interna transpareceria em sua voz. Isso não tinha nada a ver com Devin. A porta se abriu. Imaginando que fosse Kate, ela acabou de passar o batom e guardou-o na bolsa antes de se virar. Devin estava lá, uma expressão zombeteira no rosto. – É rádio, sabe? Ninguém pode vê-la. Não morda a isca. – É um prazer ver você também. – O coração de Megan começou a disparar no peito. Devin assentiu. Ele não parecia feliz em vê-la ali. Estava arrependido de tê-la convidado para o programa? Ressentindo pelo comportamento dela no outro dia? Ele atravessou para a geladeira e pegou duas garrafas de água. Entregandolhe uma, confirmou a suposição de Megan. – Eu não acredito que Kate a convenceu a fazer isso. – Kate apontou argumentos válidos sobre controlar a imprensa e colocar um fim nesta situação. – Kate sacrificaria gatinhos no ar se achasse que isso melhoraria nossos índices de audiência. – Então seu plano é me sacrificar? – Medo a inundou. Aquilo iria piorar as coisas ainda mais? Ele meneou a cabeça. – Este não é meu plano. Eu só descobri sobre esta ideia brilhante quando estava aterrissando em O’Hare, hoje. Tive de rearranjar diversas coisas para acomodar você. – Para me acomodar? – Droga. Ela deveria... – Por que você não retornou a minha ligação? Nós poderíamos ter evitado isso. Ele deu de ombros. – A publicidade estava feita. E eu estava muito ocupado hoje.


Aquela observação lembrou-a de como ela não estava ocupada no momento, graças a ele e seu livro estúpido. – Eu posso imaginar. Um programa de rádio, um tour do livro, deve ser exaustivo. Como você arranja tempo para praticar advocacia? – Eu não pratico. Muito. – O quê? – Aquilo parecia impossível. Dev amava advocacia. Amava as táticas, os argumentos, a lógica requerida. Em outra época, passara horas explicando as nuances de um caso ou um estatuto para ela, e a paixão de Devin por lei e justiça tinha sido uma das coisas que ela amara sobre ele. Megan ficara abalada ao saber que ele se tornara um advogado de divórcio caro e famoso, mas desistir de tudo? – Meu nome pode estar na porta da firma, mas isso não significa que eu atendo cada caso. Para isso que sócios e assistentes de advogado servem. – Você não sente falta do trabalho como advogado? – Não tenho tempo nem para isso. – Então ele acrescentou: – Parece que você se deu muito bem, dra. Lowe. Tornou-se psiquiatra, afinal de contas. – Psicóloga clínica. – Não graças a você, pensou ela. E, em alguns meses, ela receberia sua licença oficial. – E sua profissão é tudo que você esperou que seria? Ela pôde ouvir uma leve ironia na voz dele e levantou o queixo. – E mais. – Bom para você. – Devin bebeu o resto da água num único gole e jogou a garrafa na lixeira reciclável. Megan lutou consigo mesma. Ela jurara que não deixaria suas emoções a controlarem e a levarem a fazer ou dizer alguma coisa que lembrasse o episódio na livraria. Sabia que Devin a estava provocando. De propósito. “Dra. Lowe” reconhecia e sabia como lidar com isso de maneira profissional. “Meggie”, todavia, queria retrucar. Meggie venceu. – E você? Gosta de ser o guru do divórcio da cidade? É tudo que esperava enquanto estudava Direito? – Ela fingiu confusão. – Oh, espere, não foi por isso que você foi para a faculdade de Direito em primeiro lugar. Deixe-me adivinhar. Há mais dinheiro em divórcios do que em proteger a Constituição.


– Muito mais dinheiro. – Dev teve a audácia de lhe sorrir, e ela se sentiu infantil por ter cedido à vontade de retrucar. – Um pouco mais de excitação também. – E pensar que você costumava ser um idealista. – O desapontamento na voz de Megan não era totalmente falso. – Idealismo cego é perigoso. – Por conseguinte, Cubra Seus Bens? – Exatamente. – E isso não o incomoda? – O quê? – O pessimismo que você transmite. Qualquer um que o ouvisse começaria a acreditar que todos os casamentos acabam em divórcio. Ele arqueou uma sobrancelha. – De onde será que eu tirei essa ideia? Ela não devia ter começado aquilo. Eles já estavam caindo de novo em velhos hábitos, e nem estavam juntos por 15 minutos, ainda. Hora de ser profissional e recuar graciosamente. – É o seguinte, não vamos tornar isso pessoal. – As sobrancelhas de Dev se uniram, e ela emendou: – Ou mais pessoal do que precisa ser, pelo menos. Ele assentiu em concordância. – Este é meu plano. – Ótimo. Que bom que você tem um. Por que não me conta mais detalhes do seu plano? – Não é muito complicado, mas, se tivermos sorte, isso pode funcionar para você. – E para você? Aquilo pareceu diverti-lo. – Megan, isso tem muito pouco a ver comigo. Eu ficarei bem, independentemente do que você disser ou fizer. – Em outras palavras, você está me fazendo um favor? – Megan não queria ficar em dívida com ele. Devin apenas deu de ombros. – Mas sua audiência irá aumentar também. – Eu tenho a maior audiência no horário. Não preciso aumentá-la.


– Mas Kate falou... – Kate é obcecada com nossa audiência. Você que é psicóloga, talvez pudesse ajudá-la com isso. – Se a ideia de Kate der certo e eu puder voltar ao trabalho, eu lhe darei quantas sessões de terapia grátis ela precisar. – Ela suspirou. – Então, o plano? – Simples. Primeiro, você precisa reprimir um pouco dessa hostilidade. Seja amigável, mas não muito amigável. Educada. Reservada. Kate escolheu algumas das especulações mais bombásticas dos jornais e blogs, nós riremos dessas. – Aquilo era uma instrução, não uma previsão, então, ela assentiu. – O truque é descrever para os ouvintes como nosso casamento foi sem graça e tedioso, então fazer nosso divórcio parecer ainda mais sem graça e tedioso. Receberemos telefonemas por um tempo, depois, estará acabado. Acabado. Megan pensara que ela e Dev tinham acabado tanto tempo atrás, entretanto, lá estavam eles. E ouvir Dev descrever o casamento deles como “sem graça” e “tedioso” era como levar um tapa no rosto. Certo, eles haviam tido problemas, e o último ano se tornara feio às vezes, mas, no começo, o casamento não tinha sido nem um pouco tedioso. Pelo menos, não para ela. Na época, eles viviam com um pouco mais do que amor, mas eram felizes. Dev obviamente não se sentira assim. Todo o estudo de Megan lhe dera o insight de por que o casamento deles fracassara, e ela aceitara aquilo. Até mesmo sabia o que dizer a casais passando pelo mesmo tipo de coisa que separara Devin e ela. Megan tinha perspectiva. Tinha distância. Tinha fechamento. Todavia, ouvir Dev desconsiderar os bons momentos deles abrira velhas feridas que ela nem percebera que ainda podiam doer. Até agora. Felizmente, Kate escolheu aquele minuto para retornar, dando a Megan a oportunidade de se recompor, enquanto Kate e Devin discutiam coisas relacionadas ao programa, que ela não entendia. Se ela fosse esperta, desistiria dessa ideia louca e voltaria para o Plano A: ficar quietinha e esperar. Plano B, trocar de nome e mudar-se para o Canadá, estava começando a ganhar força também. Mas, então, algum bipe tocou, e Kate e Devin estavam reunindo papéis e garrafas de água.


Kate voltou seu sorriso de supermodelo para Megan. – Pronta? Hora do programa. Devin manteve a porta aberta, esperando por ela, e quando Megan não se moveu, ele arqueou a sobrancelha. Irritada, ela forçou seus pés a se mexerem. Estava indo para a forca por pura raiva. Diagnóstico oficial da dra. Lowe? Ela era insana.


CAPÍTULO 3

MEGAN PERDERA a excursão da escola para a estação de rádio, então, passara a noite anterior tentando descobrir o que pudesse sobre estações de rádio e como elas funcionavam. Mas ainda sentia que não tinha ideia. E detestava não ter ideia. Sentia-se em desvantagem na situação presente. E não queria estar em desvantagem, de nenhum tipo, em relação a Devin. Precisava se sentir igual. E era, lembrou a si mesma. Não era a mesma pessoa de todos aqueles anos atrás. Não era inferior a Devin Kenney, intelectual, profissional ou sarcasticamente. Endireitou os ombros quando Devin abriu uma porta marcada Estúdio A. Eu posso fazer isso. Duas cadeiras de lados opostos de uma pequena mesa, dois microfones, algumas telas de computador... A cabine parecia muito com o que ela vira em sua pesquisa. Kate estava do outro lado de uma grande janela de vidro que corria perpendicular à mesa deles, sentando-se em sua cadeira e pondo fones de ouvido nas orelhas. Devin indicou uma cadeira para Megan. – Sente-se aí. Esse é seu microfone... Certifique-se de ficar perto dele, ou as pessoas não conseguirão ouvi-la. Aqui – ele entregou-lhe fones de ouvido –, coloque estes. E não toque em nada. Megan irritou-se. – Eu não tenho 5 anos. Acho que posso lidar com isso. – Tentando parecer como se fizesse aquele tipo de coisa o tempo inteiro, ela sentou-se e sorriu para Kate através da janela.


– Esta é sua última chance de desistir, Megan. Nós estaremos ao vivo, e, embora haja um atraso de cinco segundos, eu não serei capaz de acalmar um de seus ataques de pânico. Megan quase fez um comentário sarcástico, antes de perceber que Dev tinha o direito de estar preocupado com o programa. Ele estava sendo profissional, e ela precisava respeitar isso, pelo menos enquanto eles estivessem no ar. Ela tentou um tom neutro. – Eu não tenho um ataque de pânico há anos, mas obrigada por sua preocupação. Dev pareceu surpreso. – Não? – Acha que eu poderia ajudar outras pessoas se não aprendesse a me ajudar primeiro? Eu não teria durado na minha profissão se não fosse capaz de conversar com pessoas. – Impressionante, Meggie. Bom para você. Ela não tinha certeza se o tom de voz dele continha admiração ou sarcasmo. Escolheu aceitar o elogio, independentemente de sua sinceridade. – Obrigada. Significa que eu sou capaz de enfrentar isso. – Assim espero. Megan podia sentir velhas inseguranças subindo à superfície, e elas se pareciam muito com um ataque de pânico. Quando Devin sentou-se, ela percebeu como a cabine era pequena. Não claustrofóbica, mas não grande o bastante para respirar o mesmo oxigênio que seu ex-marido. Ela pôs os pés debaixo da cadeira, não querendo tocá-lo acidentalmente. Sem brincadeira de pés debaixo da mesa esta noite. Kate sinalizou então, e Devin pôs os fones de ouvido. Megan fez o mesmo. Uma onda de pânico ameaçou, e ela respirou fundo diversas vezes. Através dos fones, ela ouviu a música de introdução do programa de Devin. Então, ele inclinou-se sobre o microfone e começou a falar. Era como se os lábios dele estivessem a poucos centímetros de sua orelha. Megan teve um sobressalto e levou as mãos aos fones, quase os removendo em resposta àquela voz profunda parecendo falar somente para ela. Controlou-se e fingiu estar ajeitando os fones nas orelhas. Mais uma coisa para a qual não estivera preparada. Sua necessidade de gaguejar parecia forte,


mas Kate e Devin estavam brincando um pouco, e a menção do seu nome levou sua atenção de volta ao lugar certo. – ... dar as boas-vindas à dra. Megan Lowe, minha ex-esposa, ao programa. Devin e Kate olharam para ela, obviamente esperando uma resposta. Por um momento, Megan hesitou, seu coração disparando. Quantas pessoas estavam ouvindo? Então Devin deu-lhe um sorriso sarcástico. E uma onda de raiva ajudou-a a recuperar o controle de si mesma. Tentando imitar a zombaria, ela pôs um sorriso falso no rosto e inclinou-se sobre o microfone. – Obrigada, Dev. Eu não posso dizer que estou feliz em estar aqui, mas apreciei o convite, de qualquer maneira. DEVIN ESPERARA que Megan fracassasse muito antes de agora. Dizer que ela superara a timidez era muito diferente de realmente fazer isso, e ele estivera preparado para cobrir qualquer tipo de embaraço se ela desmoronasse. Porém, vinte minutos no programa, e Megan soava fria e composta, a voz contendo uma ponta de cinismo. Ele vira uma pequena chama de pânico vir à tona, mas somente alguém que a conhecesse muito bem saberia que a ruga na testa de Megan era um sinal de seu desconforto. Mas o pânico desaparecera em seguida, e ela conseguira soar tanto divertida quanto entediada com o circo que a mídia fizera de sua vida e com a estranha especulação que Kate encontrara nos blogs. A voz de Megan abaixou de volume, assumindo um tom rouco e sedutor que, sem dúvida, chamava a atenção de metade de seus ouvintes do sexo masculino. Certamente, chamava a sua atenção. Quando Kate comentou o fato de que Megan aconselhava casais a permanecerem juntos, quando ela mesma era divorciada, Megan riu. E foi como se ela tivesse deslizado a mão sobre ele. O som pareceu reverberar pelo seu corpo, como se eles estivessem sozinhos. Em intimidade. Devin tentou reprimir o sentimento, mas, quando Megan inclinou o queixo na sua direção, ele imaginou se ela fizera aquilo de propósito. Não, Megan não podia achar que ainda tinha um efeito sobre ele, depois de tantos anos. Ora, ele não teria sonhado que isso era possível se não tivesse


sentido o tremor elétrico sobre sua pele. Através da janela, Kate apontou para seu computador, indicando que os ouvintes estavam ligando. Uma olhada para sua tela confirmou isso. Parecia que Megan estava tendo seus 15 minutos de fama, em vez de 15 minutos de vergonha. Devin sentiu-se inexplicavelmente orgulhoso dela. Ele atendeu o primeiro ouvinte. – Ouvinte, você está no ar. – Aqui é Andrea, de Las Vegas. Sou uma grande fã do seu programa, Devin, mas minha pergunta é para a dra. Megan. Megan cobriu uma risada com uma pequena tosse antes de balbuciar para ele. – Dra. Megan? Realmente? Ele deu de ombros. Megan meneou a cabeça e inclinou-se sobre o microfone. – Oi, Andrea. Qual é a sua pergunta? – Por que vocês dois se divorciaram? Quem deixou quem? Oh, Devin mal podia esperar para ouvi-la responder àquilo. Quando ela o olhou com expressão interrogativa, ele cruzou os braços e deu de ombros. Megan mostrou-lhe a língua antes de responder: – Devin e eu éramos muito jovens quando nos casamos; tínhamos alguns problemas de maturidade e alguns desacordos sobre o que queríamos de nossas vidas e um do outro. Tais diferenças provaram ser irreconciliáveis. – Então, Devin a deixou? – Era mais uma declaração do que uma pergunta. Talvez, ele devesse ter avisado Megan que seus ouvintes não aceitariam nada vago. Ele viu os ombros de Megan se endireitarem. – Na verdade, eu deixei Devin e pedi o divórcio. Quando a ouvinte arfou em incredulidade, ele interrompeu, desafiando Megan com um sorriso. – Difícil acreditar, huh? Ela fez uma careta, mas respondeu à provocação. – Acredite, Andrea, ele mereceu isso. – O tom era de conspiração. – Ele nem sempre foi tão charmoso, sabe? – Mas, certamente, ele sempre foi sexy, mesmo naquela época. Você devia ser louca para abandonar aquilo – continuou a ouvinte, e, pela janela da cabine, ela


podia ver Kate sorrindo de felicidade, enquanto a lista de chamadas crescia. Megan pigarreou. – É preciso muito mais para um bom casamento do que parceiros sexies. Luxúria pode manter um casal unido apenas por um tempo... Em algum momento, terá de haver mais do que isso. Algum compartilhamento. Algum tipo de encontro de mentes. Eu não estou implicando que Dev é apenas um rosto bonito... – Ela parou, fazendo exatamente aquilo. Kate estava prestes a cair da cadeira, em sua excitação, e Megan deu um olhar de triunfo para Devin. O computador na frente dele piscou, indicando e-mails de ouvintes inundando a caixa de entrada. Era hora de ele recuperar o domínio de seu programa. – Estabilidade emocional também ajuda um relacionamento. Ambos os parceiros precisam ser adultos mentais. – Megan ficou boquiaberta diante do insulto, estreitando os olhos para ele. Devin ignorou-a. – Obrigada pela pergunta, Andrea. Kate, quem é o próximo da fila? As próximas ligações foram previsíveis... pessoas comentando sobre o exagero e a ironia das fofocas, pedindo-lhes para confirmarem ou negarem mais rumores... Porém, conforme o programa prosseguia, havia alguns ouvintes que estavam mais interessados em sair de seus próprios casamentos do que em como ou por que Devin acabara o seu. Ele estava tentando explicar, pela milésima vez, que cobrir os bens não significava esconder bens, uma vez que esconder bens era ilegal em todos os estados. O ouvinte continuou interrompendo com condenações amargas de sua esposa, como se estas fossem livrá-lo de pagar pensão. Pete, do Tennessee, falou quando Devin parou para respirar. – Com licença, posso me intrometer por um segundo? Era a primeira vez que Megan tinha comentado sobre qualquer questão não dirigida a ela ou ao passado deles. Ele a vira balançar a cabeça, algumas vezes, e ela provavelmente mordera a língua ainda mais vezes, mas se mantivera fora do “terreno” dele. Quando Devin a olhou, viu que ela estava franzindo o cenho e tamborilando os dedos sobre o topo da mesa. – Você tem algo a acrescentar, dra. Megan?


Ela uniu as sobrancelhas diante do uso de seu novo apelido, mas assentiu antes de se virar para o microfone. – Pete, eu estou ouvindo muita raiva e muita amargura. Não digo que tais emoções sejam injustificáveis, e, sem conversar mais com você, ou ouvir a versão de sua esposa da história, eu não posso lhe oferecer qualquer conselho. Mas – ela enfatizou a palavra quando tanto Devin como o ouvinte tentaram interromper –, também estou ouvindo mágoa e ciúme, e isso me diz que há alguma outra coisa acontecendo. Você conversou sobre esses assuntos com sua esposa? Ou com uma terapeuta? – Megan... – começou Devin, mas ela ergueu uma das mãos para detê-lo. – Então, Pete? Pete murmurou alguma coisa ininteligível. Então pigarreou. – Nem todo mundo precisa de terapia. Ou quer fazer terapia, dra. Megan. – Eu entendo isso. Mas algo me diz que você e sua esposa têm problemas de comunicação. Talvez, pudessem se beneficiar de algumas sessões de terapia. – Você é psicóloga. É como ganha seu dinheiro. É claro que não quer que pessoas se divorciem – resmungou Pete. – Pelo contrário, eu nunca persuadi ninguém a continuar num casamento onde eles correm algum tipo de risco mental, emocional ou físico. Há alguns casamentos que podem ser salvos. – Ela encontrou os olhos de Devin. – E há outros que não podem. Então a voz de Megan adotou um tom sincero e quase hipnótico. A combinação de compaixão e preocupação, combinada com um tom sensato, fez até mesmo Devin escutar com atenção. – Mas pelo que você está dizendo, Pete, não tenho certeza se seu casamento está em qualquer um desses campos. Casamento não é fácil. Às vezes, é preciso lutar por este. Mas a luta pode valer a pena. Megan devia ter aprendido aquilo na pós-graduação, porque ela certamente não pensava assim quando o abandonara. O ouvinte tinha ficado em silêncio, então Devin fez a pergunta pairando no ar: – Você concorda, todavia, que, às vezes, o divórcio é a melhor coisa? Megan encontrou-lhe os olhos novamente, e a atmosfera na cabine mudou. – Eu concordo. Às vezes, divórcio é a opção mais saudável para ambos os parceiros. Algumas pessoas simplesmente não devem estar juntas. É um fato


duro, que pode ser difícil de admitir, mas uma vez que os casais se separam, geralmente se descobrem mais felizes. – O quê? Sem noções românticas de “felizes para sempre” ou psicologismo barato... – “Felizes para sempre” não é uma noção romântica, mas não é algo garantido também. Amor e paixão irão levá-lo... talvez até o altar. Nem sempre bastam para um casamento bem-sucedido. Oh, ele sabia tudo sobre amor e paixão, e, pela expressão no rosto de Megan, ela também estava se recordando de alguns momentos da história deles. Mas ambos sabiam que aquilo não era o bastante. Devin não quebrou o contato ocular, mas tentou injetar um tom mais leve em suas próximas palavras, para o bem da audiência. – Isso não é verdade? Megan franziu o cenho, e o olhar intenso dele mudou para um malicioso. – Pete, faça-me um favor, certo? Converse com sua esposa antes de obter mais conselhos de um advogado de divórcio. Você pode estar parcialmente certo... Eu tendo a procurar maneiras de salvar um casamento. É a minha natureza e o meu trabalho. Mas um advogado de divórcio ganha dinheiro de sua infelicidade, e, consequentemente, não tem interesse que você tente se reconciliar com sua esposa. Devin ouviu Pete respirar fundo. – Eu vou pensar no que você falou, dra. Megan. Megan era boa, ele tinha de admitir, mas o sorriso presunçoso e a expressão zombeteira nos olhos azuis lhe diziam que ela também sabia disso. Muita coisa acontecera nas últimas 48 horas, mas esse novo lado de Megan era o mais difícil de entender. – Isso é tudo que peço. Boa sorte, Pete, para você e para sua esposa. Espero que possam descobrir o que é o melhor para ambos. Kate aproveitou a oportunidade para interromper: – E agora, precisamos fazer um pequeno intervalo para as notícias da região e para uma mensagem de nossos patrocinadores. – Um segundo depois, ela indicou que eles estavam fora do ar, e começou a falar: – Vocês dois são fabulosos juntos! A química é incrível, e a audiência está aumentando. Viram a fila de telefonemas? Os infinitos e-mails? Vocês são um sucesso! Eu sabia que seriam! – Kate balançou


em sua cadeira, algo que ele reconheceu como a “dança da audiência” dela. – Oh, e vocês têm três minutos. Ele tirou os fones de ouvido e Megan fez o mesmo, uma expressão confusa no rosto. – Três minutos do quê? – De intervalo. – Devin tirou os microfones do caminho. – Sobre o que foi aquilo? – Aquilo, o quê? – Aconselhar meus ouvintes. – Sinto muito, mas este é meu trabalho. – Megan não parecia sentir nem um pouco, e isso o irritou ainda mais. – Não no meu programa. Meus ouvintes querem conselhos sobre como se separarem, não psicologismo barato sobre fazer as pazes. – Não houve qualquer psicologismo barato no que eu disse para o ouvinte. Falei apenas a verdade. Talvez, divórcio seja a melhor coisa para Pete e a esposa, mas não ficar sentada aqui, ouvindo você despejar toda aquela amargura em alguém que talvez possa ser feliz, se você não o tivesse feito acreditar que divórcio é a melhor ideia do mundo. – Às vezes, é. Você mesma disse isso. E você saberia, é claro. O olho de Megan começou a pulsar. – Você não está errado sobre isso. Acredite quando eu digo que me divorciar de você foi, sem dúvida, a melhor ideia que eu já tive. EU REALMENTE preciso de algumas aulas sobre como lidar com a raiva. Megan encolheu-se diante da observação cruel que pairava no ar entre eles. Estar perto de Devin, e a tensão que tal proximidade causava, estava fazendo coisas ruins com seu cérebro e liberando o breque em sua língua. O que ela esperara? Que tudo fosse diferente? Fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes era a definição clássica de insanidade. Doutora, cure a si mesma. Mas ela já falara agora, e não podia ver um jeito gracioso de retirar suas palavras. Dev estreitou os olhos, dizendo-lhe que ela o atingira com aquela explosão. – Entretanto, você alega defender o casamento. A hipocrisia não a incomoda?


Oh, agora ele cruzara uma linha. – Hipocrisia? Olhe quem fala! Você é o maior hipócrita do planeta. E, novamente, eu estou numa posição para saber disso. Pena que hipocrisia não seja base para divórcio em Illinois. Eu teria conseguido uma pensão alimentícia maior. A voz de Kate soou no alto-falante. – Eu detesto interromper... Isso parece, hum, fascinante... mas vocês têm um minuto. Um músculo saltou no maxilar de Dev. Oh, ele estava louco por uma briga, agora. Mas então, ela também estava. Talvez fosse um grande erro entrar no ar com Devin agora. Mas ir embora, no meio do programa? Isso desfaria todo o controle de danos que Megan conseguira realizar esta noite. Dev a olhou enquanto puxava a cadeira para mais perto da mesa e pegava os fones de ouvido. – Nós terminaremos esta conversa mais tarde. – Ele gesticulou para que ela ficasse em silêncio, quando a luz vermelha acendeu e Kate os trouxe de volta o comercial. Megan tinha de dar crédito a ele... Nenhum dos ouvintes saberia que Devin estava lhe atirando adagas quando ela moveu a cadeira e posicionou seu microfone. A falta de calor na voz dele enviou arrepios de aviso pela coluna dela. Kate sinalizou para que Megan pusesse os fones de ouvido. Com um suspiro, ela obedeceu. – Olá, ouvinte, você está no ar. – Oi, Devin. Aqui é Terri, de Albuquerque. Sou sua ouvinte há muito tempo, mas é a primeira vez que ligo. E preciso perguntar uma coisa para você e a dra. Megan. – Vá em frente, Terri. Megan e eu somos livros abertos esta noite. Megan moveu-se desconfortavelmente na cadeira. – Qual é a história de vocês dois? Ainda não contaram realmente qual era o problema. Devin lhe deu um olhar que fez Megan se arrepender de ter deixado Kate convencê-la a fazer aquilo. Ela ia definitivamente se mudar para o Canadá.


CAPÍTULO 4

MEGAN MANTEVE um bom jogo para os ouvintes pelo restante do programa, mas Devin podia dizer que alguma coisa estava acontecendo. Ela evitava contato ocular, a menos que fosse absolutamente necessário, e, quando encontrava seu olhar, não conseguia sustentá-lo. A tecnologia na cabine parecia fasciná-la, mas ele podia ver que o interesse era fingido. Durante os intervalos, ela fez perguntas sobre como tudo funcionava e até conversou um pouco com Kate, porém, após a primeira troca ardente, todo o fogo pareceu drenar de Megan. – Ótimo programa, pessoal. – Kate cortou a alimentação do estúdio, encerrando a transmissão. – Os poderosos na corporação vão ficar radiantes. Eu recebi diversos telefonemas de programas matinais lá. – O que você quer dizer com programas matinais? – perguntou Megan. – Quero dizer que vocês foram um sucesso, e todos estão ansiosos para saber mais. Eu passarei a noite em claro, cortando e sincronizando para preparar os clipes. – Kate deu um suspiro dramático, mas a alegria em suas palavras não poderia ser mascarada. Megan, todavia, empalideceu. – A ideia era que o programa de hoje fosse o fim de tudo. “Dê-lhes o que eles querem, e eles a esquecerão.” Lembra? Devin riu, fazendo Megan finalmente encontrar-lhe os olhos diretamente. Raiva e acusação estavam neles... – O que lhe deu a ideia de que a mídia a esqueceria? – Ela me deu a ideia. – Megan apontou para Kate, que deu de ombros, enquanto desligava microfones e alto-falantes, efetivamente escapando da


conversa. Ele não tinha dúvida de que Kate levara Megan a acreditar exatamente naquilo. – Ela mentiu. Megan enviou um olhar mortal através do vidro para Kate, que estava ocupada revendo a gravação, e não viu. Então Megan o rodeou. – E você também mentiu. – Eu nunca falei nada como isso. – Sim, falou. “Nós receberemos telefonemas por um tempo, e então, estará acabado.” Suas palavras, no saguão, pouco mais de duas horas atrás. Devin pensou por um momento. – Eu estava me referindo ao programa. – Oh, meu Deus. – Ela começou a andar, mexendo no cabelo, um sinal de frustração que ele reconheceu de dias passados. – Os programas matinais... Isso só vai piorar a situação. Certo, aquela era uma reação exagerada, mesmo para Megan. – A atenção da mídia não desaparece da noite para o dia. Mas isso vai tirar o aspecto negativo da situação, até que eles percam o interesse. Megan sentou-se e enterrou o rosto nas mãos. – Isso pode acontecer mais cedo do que você pensa, principalmente se alguma coisa mais interessante surgir. – E o que é mais interessante que Devin Kenney? – murmurou ela dentro das mãos. Não era uma pergunta, então ele não se incomodou em responder. Não tinha culpa se seu livro e programa eram tão populares, mas Megan estava agindo como se ele fizesse tudo aquilo para irritá-la. Como se para confirmar seu pensamento, ela levantou a cabeça, girou a cadeira e o encarou. – Eu odeio você, Devin. Realmente odeio. Ouvir as palavras machucou mais do que o esperado. – Eu deveria estar surpreso? Percebi isso muito tempo atrás, Meggie. É dificilmente uma novidade. A atitude de Megan mudou. Os ombros delgados abaixaram, e, embora ela ainda estivesse obviamente zangada, nem toda a raiva era dirigida a ele agora. – É novidade para mim. Eu nunca percebi que fosse capaz de tal emoção até agora.


– Verdade? Se você abandona pessoas que não odeia, o que será que faz com aquelas que odeia? O maxilar de Megan enrijeceu. – Eu não o abandonei, simplesmente. Tive de partir, porque você estava tão fechado em si mesmo que esqueceu que havia outra pessoa merecendo um pensamento de sua parte. – Está implicando que eu esqueci que nós estávamos casados? Que eu a confundi com uma colega de quarto? – BASICAMENTE ISSO. – O sarcasmo de Megan era novo. Parecia que a pósgraduação ensinara muito mais a ela do que apenas sair da concha. – Isso é insano, Meggie. – Em primeiro lugar, não me chame de Meggie. – Ela levantou-se para encará-lo. – Segundo, acho que eu sou um pouco mais qualificada para decidir o que é insano e o que não é. E, uma vez que eu estava lá, uma vez que era eu sendo tratada como uma companheira de quarto, sei do que estou falando. Memórias surgiram... Imagens visuais vívidas de Megan sentada de pernas abertas sobre seus quadris, o cabelo loiro caindo em volta deles como uma cortina, os olhos fechados e a boca entreaberta em prazer, enquanto ela se movia contra ele. Um calor familiar o inundou. Ele lutou para reprimi-lo. – Eu estou subitamente intrigado pela definição companheiro de quarto. Você dorme com todos os seus colegas, Megan? Ela enrubesceu, obviamente lembrando-se da intimidade dos dois. Então, mordeu o lábio. Os braços estavam cruzados sobre o peito, unindo o cardigã fino, mas não rapidamente o bastante para esconder a visão dos mamilos rijos pressionados contra o algodão da blusa. Outra onda de desejo o preencheu. – Não há necessidade de ser rude, Devin. – É uma pergunta justa. Pessoalmente, eu não tenho o hábito de fazer sexo com meus companheiros de quarto, então estou curioso para entender onde você confundiu esposa e colega. Ela ergueu o queixo. – Uma esposa geralmente recebe muito mais respeito que uma companheira de quarto – replicou ela com frieza. – Especialmente quando se trata de assuntos importantes, como onde você vai morar, ou o que vai fazer com seu futuro...


Com o futuro do casal. Sua colega de quarto não pode esperar que você leve os planos dela em consideração, ao fazer os seus. Sua esposa, todavia, deveria poder dar palpite. Uma vez que isso parecia ser uma coisa nova para você, só posso assumir que era você que tinha problemas com vocabulário. – E eu pensei que uma esposa fosse ficar feliz que o marido recebera a oferta de um excelente emprego, depois de tantos anos comendo macarrão e lutando para pagar o aluguel. Eu não lhe pedi para se mudar para Camboja, pelo amor de Deus. Não é como se você não pudesse ter estudado aqui em Chicago. E, ei, veja onde você acabou, de qualquer maneira. – E você ainda não entendeu o ponto principal, Dev. Eu me mudei por você, de modo que você pudesse fazer a faculdade de Direito, perdendo créditos e deixando minha pós-graduação para trás, porque você prometeu que faria o mesmo por mim. Mas quando a hora chegou, foi esperado que eu abrisse mão dos meus planos e sonhos a favor dos seus. – E a solução óbvia para um desacordo sobre empregos é, claro, o divórcio. Estou surpreso que você tenha permissão de aconselhar casais, considerando quão rapidamente procurou um advogado de divórcio. – A amargura estava de volta, surpreendendo-o com sua intensidade, mas ele não tinha mais motivo para escondê-la. – Oh, cresça, Devin. – Megan estava furiosa agora, e era uma postura completamente distinta da que ele se recordava. Em algum lugar ao longo do tempo, ela encontrara uma determinação férrea. – Nunca foi somente sobre seu emprego ou meus estudos. Foi o fato de que você era muito egoísta para perceber que meus planos deveriam ter alguma relevância na discussão. Eu não podia continuar casada com alguém que era indiferente a mim e aos meus sonhos... – Eu sou o egoísta? Ouça a si mesma... Tudo que sai da sua boca é “eu, eu, eu”. Nisso, você não mudou. Ainda é tudo sobre você. Ora, esta situação é praticamente uma reprise. Você não gosta de alguma coisa, então vem a mim e espera que eu a conserte. – Idio... – Megan parou e respirou fundo. – Sim, eu admito que era jovem e imatura quando nos casamos, e provavelmente dependia demais de você. Mas tive de crescer muito depressa depois que me mudei.


– Você se mudou porque queria ir para Albany, e eu queria ir para Chicago. E, em vez de buscar uma solução, você pediu o divórcio. – Se você tivesse me pedido para mudar para Chicago, eu teria ido sem pensar duas vezes, porque o ama... – Ela parou e pigarreou. – Eu teria vindo para Chicago por você. Rearranjado minha vida novamente. Mas você não pediu. Apenas esperou, e se transformou num grande machista quando eu não atendi à sua expectativa. – Pensei que sua formação fosse psicologia, não história revisionista. Que conveniente para você. Megan arregalou os olhos. – Perdão? – Você se convenceu de que foi tudo culpa minha. Eu era o grande imbecil, e você era a pobre vítima inocente. Ela balançou a cabeça. – Pare. Apenas pare. Eu juro, Dev... Megan pareceu controlar-se naquele momento. Fechando os olhos, ela respirou fundo e exalou devagar. Então, repetiu a ação. Quando reabriu os olhos e falou, estava mais calma. – Meu Deus, eu não acredito que estamos revivendo isso. Não é benéfico para nenhum de nós. Nem saudável. Vamos encerrar este assunto. – Ela sentou-se. – De acordo. – Eles haviam passado da conversa sobre a mídia para remoer mágoas do passado. – Se a Associação Americana dos Psicólogos ou a Associação dos Advogados tivesse testemunhado isso, eles caçariam nossos diplomas. Megan meneou a cabeça. – O mais triste é que eu sei que não deveria ter entrado neste assunto. – Ela recostou-se e suspirou. – Agora há aproximadamente quatro capítulos de minha dissertação que talvez eu queira revisar antes de publicar. – Megan... – Ouça, Dev – disse ela ao mesmo tempo. – Desculpe, fale. – Primeiro as damas. Megan respirou fundo. – Sabe, eu apreciei o que você tentou fazer esta noite. É culpa minha não ter entendido o que aconteceria. Na verdade, se eu tivesse pensado melhor, teria


percebido que isso não poderia fazer a mágica que esperei que fizesse. Mas não é culpa sua. Esperançosamente, vai ajudar um pouquinho, talvez, fazer o assunto morrer mais rápido. – Ela pegou sua bolsa e a pendurou no ombro. – Mas, agora, vou arrumar a mala e ir para o Canadá. – É uma boa ideia. Férias lhe farão bem. Talvez, isso tenha acabado quando você voltar. – Ele duvidava, mas era melhor que Megan acreditasse naquilo. Ela poderia aproveitar as férias e estar mais bem preparada para enfrentar o que ainda estivesse fervendo na imprensa quando retornasse. Megan levantou-se, então se virou para ele. – Desculpe. É sua vez agora. O que você ia dizer? Devin pensou por um momento. Megan parecia estar se acalmando, e cutucála novamente não ajudaria em nada. Assim como continuar a viagem deles ao passado não ajudaria. O passado era passado, e, como adulto, ele deveria libertar-se deste e seguir em frente. Ele lhe mostrara quem tinha crescido e quem não tinha. Seria o maduro, nem se isso o matasse no processo. – Precisa de uma carona para casa? MEGAN FINALMENTE entendeu o que levava alguns de seus clientes a beberem. Ela sempre dissera a eles que a bebida era uma desculpa ou uma muleta, mas, neste momento, soube por que tantas pessoas procuravam consolo numa garrafa. Ela precisava desesperadamente de um drinque para acalmar seus nervos e entorpecer um pouco as emoções conflitantes que a preenchiam. Mas Devin, depois de tudo que acontecera naquela noite, inclusive a abertura dolorosa de velhas cicatrizes, parecia capaz de ignorar tudo. Devin se tornara realmente tão insensível? Ou tal frieza se estendia somente a ela? A ideia a perturbava, ao mesmo tempo em que ela invejava tal habilidade. Ele estivera olhando-a como se quisesse estrangulá-la, para então, casualmente, lhe oferecer uma carona. – Não, obrigada. Kate enviou um carro... – Megan parou quando Devin meneou a cabeça. – Kate pode ter enviado um carro para você, mas prometo que ela não arranjou um para levá-la para casa.


Cada sentimento amigável que ela tivera em relação a Kate morrera pouco tempo atrás, e começava a sentir raiva da outra mulher agora. Deu um olhar fulminante para a produtora, através da janela, mas Kate estava ocupada com seu computador. – Eu pedirei que o guarda na recepção me chame um táxi, então. – Não seja ridícula. Eu vim dirigindo, esta noite, e posso levá-la para casa. Megan não ia admitir que não queria uma carona de Devin. Não queria compartilhar outro espaço fechado e pequeno com ele. Embora a tensão pela discussão e pela conversa sobre o passado deles a estivesse fazendo ansiar por uma taça de vinho, ela poderia lidar com isso. Ficaria bem quando tivesse um pouco de tempo e distância para processar o redemoinho de emoções que a percorria. Não, ela não queria entrar num carro com Devin, porque uma coisa que não poderia processar no momento era a reação perturbadora de seu corpo em relação a ele. Compartilhar um espaço escuro e íntimo com seu ex-marido? Melhor não. – Obrigada pela oferta, mas tenho certeza de que não é seu caminho... – Eu não me importo. Isso é provavelmente o mínimo que posso fazer. Hora da decisão. Continuar discutindo seria infantilidade, mas não existia um jeito gracioso de recusar a carona sem parecer petulante. Então havia a voz de seu contador interior, que calculara o preço do táxi para casa e estava gritando para ela aceitar a carona, se quisesse pagar o aluguel este mês. Impulsividade financeira para opor resistência? Isso era estupidez. – Então eu aceito. – Ela forçou-se a sorrir quando Devin abriu a porta do estúdio. Kate acenou enquanto eles saíam, e Megan teve de se conter para não fazer um gesto rude em retorno. Felizmente, Devin ficou silencioso durante a viagem de elevador até a garagem do prédio. Ele pegou seu celular e começou a checar mensagens, então ela fez o mesmo. A garagem estava deserta, e o barulhinho das lâmpadas fluorescentes balançando nas paredes de concreto parecia o cenário para um daqueles filmes de horror que Devin costumava adorar. Aquilo lhe deu calafrios. Devin devia ter notado, porque comentou. Ela deu de ombros.


– Não posso evitar me sentir como aquela garota loira em cada filme de horror, antes que o assassino em série salta com uma serra corrente. Aquilo fez Dev rir, e o som teve um efeito perturbador na pulsação dela. – A loira que morre está sempre sozinha. E, geralmente, usando muito menos roupas que você. O jeito que ele a olhou desconcertou-a. Megan tentou pensar em alguma coisa para dizer, mas acabou se contentando com: – Bom ponto. O carro esporte vermelho que Devin destrancou era a fantasia de todo adolescente. Quando ele abriu a porta para ela, Megan assobiou em apreciação. – Belo carro. Parece que divórcio paga bem. – Com certeza – replicou ele, então fechou a porta e o assunto. Ela não entendia muito sobre carros, mas podia apreciar os assentos de couro cor de creme e o painel que parecia uma cabine de avião. Quando Devin sentou-se atrás do volante e ligou o motor, ela pôde sentir a potência do mesmo. Devin estendeu o braço sobre o assento dela, lembrando-a do porquê aquilo era uma má ideia. Ele estava a poucos centímetros, e o menor movimento da mão faria os dedos longos roçarem em sua nuca. O mero pensamento causou arrepios em sua pele. – Um carro esporte vermelho é um clichê, não acha? Devin deu de ombros. – Eu sempre quis um. Você não lembra? Ela lembrava, agora que ele mencionou. Um carro como este sempre tinha sido o sonho de Dev quando eles brincavam de “Um Dia, Quando Nós Formos Ricos”. Eles bebiam cerveja e fingiam que era champanhe, enquanto planejavam as férias fabulosas que passariam na casa de campo que comprariam. A lembrança pôs um pequeno sorriso no rosto de Megan, antes que um sentimento de tristeza e perda pelas crianças que eles eram e os sonhos que haviam tido instalou-se sobre seus ombros. A sensação passou, todavia, quando ela percebeu que Devin alcançara parte dos sonhos deles, sem ela. – Mas agora eu sei que carros esportes são dispositivos de compensação para homens que estão... carentes. O sorriso de Dev foi malicioso, e ela respondeu: – Eu não me lembro de você reclamando sobre eu não lhe dar atenção. Na verdade, você parecia mais do que


satisfeito com minha compensação. Calor subiu ao seu rosto, e ela sentiu as orelhas queimando. Para disfarçar sua perturbação, ela lhe deu seu endereço. O trajeto foi feito em silêncio por alguns minutos, e Megan olhava pela janela, a fim de não observar Devin pelo canto do olho. Era ridículo se sentir tão desconfortável. Aquele era apenas Dev, pelo amor de Deus. Ao mesmo tempo, aquele era Dev, e isso descompassava seu coração. Quando ele falou, ela teve um sobressalto. – Aparte tudo mais, você foi bem esta noite. No ar, quero dizer. Megan virou-se a tempo de ver um sorriso curvando os lábios dele. – Obrigada. Foi um pouco mais fácil do que eu pensei. – Nem todo mundo se sai tão bem na primeira vez. – Você é muito bom no que faz... no ar, pelo menos – qualificou ela e ganhou outro sorriso de Devin. – Não posso dizer que concordo com metade do que você falou para seus ouvintes, mas estou impressionada de qualquer forma. Devin assentiu em reconhecimento ao elogio, e ela não pôde mais conter a pergunta que vinha querendo fazer a noite inteira. – O que aconteceu com você, Dev? Ele pareceu surpreso. – Como assim? – Você costumava ter tanta paixão por justiça, e agora é um advogado de divórcio. – Está dizendo que não há necessidade de justiça para ser servida nos procedimentos de divórcio? – Em absoluto. Mas eu sei que você veio para Chicago com o objetivo de fazer algo maior do que discutir pensão alimentícia. – As coisas acabam sendo diferentes do que planejamos às vezes. – Havia uma ponta de amargura naquelas palavras. – Meu chefe me pediu que eu ajudasse com um divórcio para um cliente. Não era nosso caso usual, mas estávamos fazendo aquilo como um favor pessoal para um cliente. Deveria ser um processo simples e discreto. Em vez disso, explodiu, saindo completamente de controle e chegando a todos os jornais. – Aquele jogador de futebol, certo? Eu me lembro de ter visto seu nome atado ao caso.


Devin assentiu. – Quanto mais o processo se arrastava, mais obsceno se tornava... Amantes, filhos ilegítimos e acusações de abuso e extorsão. E isso foi apenas o que saiu nos jornais. As coisas que não saíram eram piores ainda. A divisão de bens foi um pesadelo. Eu passei quase dois anos trabalhando naquele único divórcio. Quando os papéis foram finalmente assinados e a poeira baixou, eu tinha uma fila de pessoas com divórcios igualmente complicados me implorando para representá-las. Megan sentou-se de lado para encará-lo. – Está tentando me dizer que isso foi um acidente? – Especializar-me em divórcio, sim. – E o programa? O livro? – Oportunidades incríveis que eu seria um tolo se deixasse passar. A perspectiva dela mudou com essa nova informação. – Então, isso é puramente negócio. Nada pessoal? – Isso, o quê? – Há um blogueiro que insiste que sua carreira inteira foi lançada por nosso casamento e divórcio. Aquilo o fez rir. – Eu não tinha ideia de que você era tão egoísta, Meggie. Era típico de Dev chegar à pior conclusão. – Isso dificilmente seria algo de que eu me orgulhasse. Eu detestaria pensar... – Que você partiu meu coração e me deixou amargo e cínico? – O sarcasmo de Devin estava de volta, mas ela não podia negar que era apropriado. – Você não pode negar que é amargo e cínico por causa de alguma coisa. Estou apenas feliz em saber que não é por minha causa. – Se você tivesse testemunhado o que eu testemunhei nos últimos sete anos, seria cínica sobre casamento também. Ele estava brincando? – Você lembra o que eu faço para viver, certo? Vi alguns dos piores casamentos do universo... e algumas das piores pessoas, devo acrescentar. Não sou pessimista e zangada com o mundo. – Você sempre foi otimista. – E você era idealista.


– Pessoas mudam. Então, nenhum dos dois era mais quem costumava ser. – Tem razão. – E você certamente é uma prova viva disso. – Dev trocou de marcha e roçou o braço no dela, arrepiando seus pelos da nuca. Megan tentou colocar um pouco mais de distância entre eles. – Não tenho certeza se entendi. – Você se tornou muito determinada. E perdeu aquela timidez. – Havia admiração na voz dele, mas sem traço de sarcasmo desta vez. – Como falei antes, eu tive de mudar para fazer meu trabalho. Mudar-me para Albany e me virar sozinha foi um grande despertar. Precisei encontrar coragem. E minha voz. Eu não podia me esconder mais atrás de você. – Ela o fitou a tempo de ver o maxilar de Dev enrijecer. – Não digo isso para insultá-lo. Eu era uma pessoa diferente na época, e isso não era culpa sua. Mas depois que nós terminamos... De certa forma, eu lhe devo por quem sou hoje. Sinto muito se vê isso como algum tipo de insulto. – Bem, Meggie, certamente tudo funcionou bem para nós dois então. – A voz de Devin era tensa. A declaração podia ser verdadeira, mas a verdade não afrouxou o nó que se formara em seu estômago. Felizmente, a conversa estava prestes a acabar, e ela agarrou o momento. – Vire à esquerda aqui, e pare do lado direito. Devin estacionou numa vaga entre dois carros que, juntos, provavelmente não custavam o preço de uma de suas calotas. Ele olhou pela janela, enquanto ela tirava o cinto e pegava a bolsa. – Obrigada pela carona... Devin capturou o pulso dela. – É aqui que você mora? Ela se acostumara com as construções decadentes, os gramados excessivamente crescidos e a dilapidação geral, mas o tom apavorado de Devin trouxe de volta seu sentimento inicial sobre o bairro. – Sim. Boa noi... Ele apertou-lhe o pulso. – Não tenho certeza se é seguro você descer do carro.


Megan não estava no humor para aquilo. – Seu carro corre mais perigo do que eu. Portanto, é melhor você sair daqui antes... Dev não estava ouvindo. – Este prédio parece estar condenado. Diga-me que é melhor do lado de dentro. Ela deveria, mas não conseguiu mentir. – Onde eu moro não é da sua conta. – Eu não vou deixá-la sair deste carro, Megan, até que... Deus, ela detestava aquele tom. Trazia memórias que lhe incitavam raiva. Como se para provar seu ponto, Dev apertou o botão que trancava a porta dela. Irritação a envolveu. – Você vai me sequestrar na porta da minha casa? – Eu provavelmente lhe faria um favor, se a sequestrasse. Jesus, Megan, por que está morando assim? Você tem um emprego. – Eu tenho um estágio – corrigiu ela. – E? Megan suspirou. – Você nunca presta atenção em nada que eu falo, presta? Ele não mordeu a isca. Em vez disso, olhou-a intensamente enquanto esperava uma explicação. Eu não lhe devo uma, Megan lembrou a si mesma, mas pegou-se explicando, de qualquer maneira. – Eu tenho de fazer dois anos de residência antes de obter minha licença, de modo que possa atuar na profissão. Residências médicas são formas de escravidão modernas e politicamente corretas. Tenho sorte de a Clínica Weiss me pagar o suficiente para eu viver aqui. – Se você precisa de dinheiro... – Estou pagando minhas contas, como todo mundo. Em alguns meses, eu terei completado minhas horas e farei meu exame. Então poderei arrumar um emprego que pague um salário decente. Até lá, estou considerando esta uma experiência de construção de caráter. – Então sua determinação recém-descoberta vem de viver na pobreza? – Eu não vivo na pobreza. Na verdade, este lugar não é muito pior do que nosso primeiro apartamento.


Ele bufou. – Nosso primeiro apartamento era um buraco deplorável. Tinha sido exatamente aquilo. Mas, na época, não parecera... diferentemente de seu lar atual. E ela não precisava ser gênio para saber por que sua percepção havia sido pintada de cor-de-rosa. O aperto de Devin em seu braço aumentou, e, de repente, ele estava muito perto. Ela podia sentir o calor do corpo másculo aquecendo o ar entre eles, ver a pulsação no pescoço dele. Se ela inalasse quando Devin exalasse, eles compartilhariam a mesma respiração. Mas Megan não tinha certeza de que poderia respirar. E Dev parecia perceber isso também. A atenção dele mudara do bairro para seu rosto, e agora parecia focada em seus lábios. O coração de Megan disparou. Mais um centímetro e ela... O que eu estou pensando? Ela afastou-se, colocando o máximo de distância entre eles que o carro permitia. Pigarreou e escolheu as palavras cuidadosamente: – Obrigada pela preocupação, mas minha vida não é mais problema seu. Boa noite, boa sorte e, esperançosamente, nós nunca mais teremos de nos ver. Orgulhosa de seu pequeno discurso, Megan alcançou a maçaneta. Devin ainda segurava seu pulso, e ela olhou para a mão grande, até que ele liberou-a. Os sons e os cheiros do bairro entraram no carro quando ela abriu a porta, destruindo o casulo tranquilo, e a intimidade evaporou. – Adeus, Dev. – Droga, Megan... – começou Dev, mas ela fechou a porta e não ouviu mais nada. Subiu a escada sobre pernas trêmulas, a marca da mão dele ainda queimando em seu braço. Não ouviu o barulho do motor, então assumiu que ele estava esperando que ela estivesse seguramente do lado de dentro. Megan manteve a cabeça erguida. Só precisava entrar, tomar um drinque, entrar debaixo das cobertas e esquecer este dia infernal. Foi quase impossível resistir à vontade de olhar para trás, mas ela manteve os olhos à frente quando abriu a porta. Encostando-se contra a mesma, fechou os olhos e esperou o som do motor de Dev, indicando que ele partira. O que pareceu demorar uma eternidade.


Quando o barulho do motor distanciou-se, Megan pegou uma garrafa de vinho da geladeira e foi para seu quarto. Então, pela primeira vez na vida, mudou a mensagem de voz em seu telefone, para que os clientes com emergências ligassem para a secretária eletrônica da clínica. Não poderia lidar com problemas de qualquer outra pessoa, esta noite. Tinha o bastante de seus próprios problemas.


CAPÍTULO 5

A EXULTAÇÃO avarenta de Manny não era o que Devin queria encarar às 10h da manhã. Não depois da noite que tivera. Lidar com Megan e com o passado que eles haviam recordado o deixara com muito para pensar, e tinha sido quase impossível se concentrar em qualquer outra coisa. Depois de anos não pensando nela, tê-la constantemente em sua cabeça era desconcertante. Quando ele finalmente desistira e fora para cama, diferentes memórias o esperavam. Fazer amor com Megan em todas as posições conhecidas pela humanidade, durante horas, o deixara mal-humorado esta manhã, pela frustração residual dos sonhos eróticos. E, agora, Manny decidira aparecer logo cedo, e, para piorar as coisas, parecia que Manny só tinha um tópico de conversa: Megan. – Meu telefone começou a tocar cinco minutos depois que vocês dois estavam no ar. O programa foi incrível. Vocês são um sucesso. – Kate concordaria com você. – Devin pegou o arquivo mais próximo, sem saber o que continha, e o abriu, propositadamente. – Agora, eu tenho alguns... Manny ignorou a indireta e se sentou na cadeira ao lado da mesa de Devin. – Kate é um gênio por ter colocado vocês dois juntos. Com as ofertas que ouvi esta manhã, você deveria seriamente considerar uma parceria com Megan para outros projetos. – Você enlouqueceu? – Estou falando sério. Você deveria levar seu programa para a estrada, fazer algumas viagens com os talk shows, algumas aparições especiais...


– Não, obrigado. Eu não estou interessado, e acho seguro assumir que Megan também não está. – Mas, considerando a moradia precária de Megan, ela poderia se beneficiar de algumas tarefas remuneradas... Manny não pareceu ouvi-lo. – E os Powers That Be estão eufóricos esta manhã. Eles querem que Megan seja uma convidada regular no programa. Devin fechou o arquivo. – De jeito nenhum. O programa louco de ontem não precisa ser repetido. – Programa louco ou não, você e Megan juntos são mágica. Devin suspirou. Mágica. Sim, certo. Eles haviam tido alguma mágica anos atrás, mas esta definitivamente acabara. – Kate mentiu para Megan, e foi só por isso que ela veio ao programa. Megan gostaria que toda essa situação morresse rapidamente, e não posso dizer que sou contra a ideia. Mesmo que por razões diferentes. – Mas... – Sem “mas”. Isso acaba agora. Você trabalha para mim, não para os Powers That Be, e quero que descubra alguma outra coisa da qual ganhe dinheiro. Algo que não envolva Megan Lowe. – Eu não posso controlar a mídia. Sou bom, mas não tão bom. Até que algo melhor surja, você e a dra. Megan são o casal que o mundo quer ver. – Então faça alguma coisa melhor surgir. Certamente, um de seus outros clientes poderia ser convencido a ir para uma clínica de reabilitação. Talvez, um deles pudesse se envolver numa briga de bar e ser preso. Eu me certificaria de recompensá-los. – Qualquer coisa para acabar com aquilo. – E recompensar você, também. Manny pareceu ponderar suas palavras, então meneou a cabeça. – Sonhe, Devin. Você é o queridinho da mídia no momento. Cansado daquilo, Devin suspirou. – Ouça, eu tenho coisas para fazer hoje... Outros casamentos para dissolver, pessoas que estão dependendo de mim para acabar com seu sofrimento. A fim de fazer isso, eu preciso arquivar papéis. Você, o livro e o programa terão de esperar sua vez. – Ele agarrou o bíceps de Manny e o levantou. – Na verdade, eu o proíbo de me contatar até segunda-feira. Sem e-mails, sem telefonemas, sem


mensagens de texto e sem telegramas até segunda-feira. Isso lhe dará muito tempo para pensar em alguma outra coisa. – Mas, Devin... – Sem “mas”. Se eu ouvir qualquer coisa de você antes do meio-dia da segunda-feira, não 11h59, 12h, você está demitido. Entendeu? Manny tentou protestar, mas Devin estava se sentindo muito bem enquanto guiava Manny para o corredor do lado de fora de seu escritório. – Devin... – Este é o único aviso que você vai receber. Nem uma única palavra sua. Eles passaram por Kara, uma de suas assistentes, no corredor, e ela deu risadinhas quando Devin conduziu Manny para a área da recepção. – Kara, faça-me o favor e olhe a cláusula sobre a rescisão no contrato do sr. Field. Talvez, nós precisemos. – É claro, sr. Kenney. Verei isso imediatamente. Na área de recepção sofisticada, ele liberou o bíceps de Manny. – Falo com você na segunda. Aproveite seu fim de semana longo. Manny meramente assentiu, e Devin abafou uma risada. O silêncio de Manny, embora coagido, era tanto divertido quanto bem-vindo. Na verdade, a perspectiva de um fim de semana inteiro sem Manny melhorou seu humor consideravelmente, e ele sentiu-se quase alegre quando se viu livre de seu empresário. Sua recepcionista estava boquiaberta no momento que ele virou-se. E a expressão de satisfação no rosto dela o fez se perguntar quanto seu staff se ressentia das constantes intrusões de Manny em seu escritório e, consequentemente, no tempo de todo mundo. Dois advogados júniores, diversos assistentes de advogado e algumas secretárias, também usando expressões satisfeitas, estavam alinhados no corredor, quando ele voltou para sua sala. – Agora que estamos menos distraídos, vamos ver se conseguimos realizar algum trabalho hoje. Com isso, todos desapareceram dentro de suas salas e cubículos. Silêncio abençoado o esperava quando Devin entrou no seu escritório e fechou a porta. Deveria ter ameaçado demitir Manny meses atrás.


Mas quando ele começou a trabalhar, um pensamento insistente impediu sua concentração. Megan obviamente precisava de dinheiro. Talvez, ela pudesse se beneficiar daquela confusão. Sem dúvida, Manny saberia um jeito de fazer a “dra. Megan” ganhar um dinheiro rápido através de aparições ou algo assim. Sem ele, todavia. Megan e Devin não eram um par. Não mais. Se Megan estivesse interessada, ele enviaria um e-mail para Manny, que ficaria contente de bolar alguma coisa lucrativa no fim de semana. Estranhamente alegre, ele assobiou enquanto pegava o telefone. Esta era uma situação onde todos sairiam ganhando. Qualquer culpa que ele sentisse sobre Megan seria apaziguada, e ele faria seu empresário feliz também. Então, seria capaz de apreciar seu próprio fim de semana. Adorava ter um plano. – VOCÊ ESTÁ tentando ser demitida? Esse é seu plano? Se ela não tivesse ouvido o toque característico de Julie, Megan teria continuado a ignorar seu telefone, o qual vinha tocando a manhã inteira, perturbando seu sossego. Devin confundira sua cabeça na noite anterior, nem toda a autoterapia do mundo estava ajudando. A última coisa que ela precisava era do jeito dramático de Julie. – O que a faz pensar que eu tenho qualquer tipo de plano? – perguntou ela, pensando se queria se dar ao trabalho de fazer café. Não, a cafeína a despertaria, e ela pretendia voltar a dormir assim que dispensasse Julie. Se pudesse dormir até que aquilo acabasse... – De qualquer maneira, a dra. Weiss disse que eu não corria o risco de ser demitida. – Isso foi antes. Acho que esta é uma possibilidade distinta agora, a menos que a dra. Weiss se acalme. – O quê? – Aquilo a alarmou. – Por quê? – Você saiu daqui na segunda-feira com instruções de manter-se calada. Esperar os rumores passarem. Medo a inundou. – Hum, bem... – Que parte de “manter-se calada” você traduziu como “ir à rádio e agitar o país inteiro”? Dra. Weiss teve um ataque de nervos esta manhã.


Dra. Weiss era emocionalmente incapaz de ter um ataque de nervos. Mas se Julie achava que ela estava remotamente perto disso... – Ah, droga. Desde quando ela ouve o programa de Dev? – Ela ouve agora. Perdeu o segmento em Chicago A.M. esta manhã, graças a Deus. – Chicago A.M.? – A voz de Megan saiu estridente. – Oh, sim. Foi um ótimo programa – replicou Julie, sarcasticamente. – Completo com uma foto sua e uma menção da clínica. Oh, não. – O telefone não para de tocar desde as 8h – continuou Julie, enquanto o corpo de Megan esfriava. – A sala de espera está barulhenta, porque os clientes estão falando sobre isso. A adrenalina do pânico percorreu seu sangue, fazendo suas mãos tremerem. – Isso não é bom, Julie. – Não, não é. Por que você foi ao programa dele? Ela se fizera a mesma pergunta mil vezes, sem uma boa resposta. – Insanidade temporária? – ofereceu com fraqueza. – Tente isso com pessoas que não sabem o que esse termo realmente significa. – Eu estava tentando ajudar... – Megan, querida, caia na real. Não há ajuda para isso, exceto o tempo. – Sei disso agora. Eu só pensei... Tive a esperança... – Ela suspirou. – Devo ligar para a dra. Weiss? Tentar explicar? – No seu lugar, eu não faria isso. Ela está um pouco infeliz com você no momento. – Julie ficou em silêncio, e Megan rezou para que ela estivesse tendo uma ideia brilhante. – Deixe-me defender seu caso. Insanidade temporária não vai colar, mas, talvez, eu possa alegar capacidade intelectual diminuída, ou algo assim. – Obrigada. – Não me agradeça ainda. Não tenho certeza se a dra. Weiss está aberta para discussão sobre você no momento. Nós ouvimos muito seu nome esta manhã, se entende o que quero dizer. Megan entendia. Muito bem. – Peça desculpas para Alice também por mim. Diga-lhe que lamento por todos os telefonemas que ela está tendo de atender.


– Estranhamente, Alice está excitada com a tarefa. Não é algo que ela faz com muita frequência. – Megan podia quase ouvir o sorriso na voz de Julie. Pelo menos, havia alguma coisa não horrível sobre esta situação. – Ouça – acrescentou Julie –, não faça mais nada para irritar a dra. Weiss. Fique em casa. Fique longe da mídia. E longe do programa de Devin Kenney, pelo amor de Deus. – Sem problemas. Eu nem mesmo ligarei para o programa matinal amanhã. Prometo. – Não que isso fosse ajudar. – Ótimo. A propósito, Devin esteve procurando você esta manhã. Ele ligou aqui e pediu para lhe dar o recado. Huh? – Por que ele ligaria aí? – Segundo Alice, ele sabe que você não está atendendo seu celular, então nos ligou, imaginando que falaríamos com você em algum momento. Adorável. – E o recado? – Devin quer que você ligue para ele. – Ele disse por quê? – Isso importa? Nós não acabamos de concordar que você vai ficar longe dele? – Eu só estou curiosa – argumentou ela. Julie suspirou. – Ele não disse por quê. Essa curiosidade vai levá-la a fazer alguma coisa estúpida agora? Como ligar para ele? – Não. – Embora ela quisesse muito saber o que Dev queria, poderia resistir. – Obviamente, não é caso de vida ou morte. – Boa garota. Mantenha essa atitude e fique em casa pelos próximos dias. Eu tentarei acalmar a dra. Weiss hoje. Talvez ela se acalme durante o fim de semana e tenha uma atitude diferente na segunda-feira. – Eu farei isso. E obrigada. Fico lhe devendo uma. – Oh, definitivamente fica. Se eu for demitida por isso, jamais a perdoarei. Megan desligou seu telefone, mas então abriu de novo, vendo que tinha diversas mensagens de voz, mas, felizmente, nem todos que haviam ligado esta manhã tinham deixado recado. Ela olhou os números, imaginando se um


daqueles era de Dev. Ele teria deixado um recado explicando por que a estava procurando esta manhã? Isso não importa, lembra? Ela não precisava falar com Devin sobre coisa alguma. Nenhum bem resultaria daquilo. Com esse pensamento, ela forçou-se a sair da cama. Ficar deitada, lamentando-se, não ajudaria. Podia ter estragado tudo indo ao programa de Dev, mas aproveitaria aqueles dias de isolamento forçado. Revisaria aqueles artigos do jornal, faria pesquisas que vinha adiando, talvez até pintasse sua cozinha, se ficasse muito entediada. Quando tudo acabasse, poderia voltar ao trabalho com alguma coisa positiva para mostrar à dra. Weiss... ou, talvez, para impressioná-la. Todos os projetos que Megan vinha adiando até que tivesse tempo? Bem, tinha tempo agora. Ela foi para sua pequena cozinha e, enquanto o café coava, criou uma lista mental de coisas para fazer. O momento de autopiedade acabara. Aprenda e cresça através da experiência. Pense nas possibilidades. O que não a mata, torna-a mais forte. Ela ainda poderia sair bem da experiência e salvar um pouco de seu orgulho. E, esperançosamente, salvar sua carreira também. DEVIN NÃO sabia por que o fato de Megan não ter retornado sua ligação o perturbava tanto. Porém, perturbava mais do que ele queria admitir. Certamente, ela checara o correio de voz ou ligara no consultório. Devia saber que ele queria lhe falar. Então eles não tinham se despedido como amigos na noite anterior, mas Megan não era do tipo que guardava rancor. Ou, pelo menos, não costumava ser. Talvez, tivesse mudado nisso também. De qualquer forma, ele queria lhe falar, e ela não estava atendendo suas ligações. Ignorá-lo era infantilidade da parte de Megan, quando ele só estava tentando ajudar. E esta era a única razão pela qual ele estava atualmente subindo a escada para o apartamento dela. O lugar parecia ainda pior na luz do dia. Era inacreditável que Megan vivesse ali. Ela possuía um PhD, formara-se com notas altíssimas, se a imprensa pudesse ser acreditada, e isto era o melhor que podia conseguir? Megan o deixara para


perseguir sua carreira e seu sonho, e estava morando numa espelunca, agora. Era por isto que ela o trocara. A ideia era insultante. A porta rangeu quando ele bateu. Um momento depois, ele podia ter jurado que ouvira um suspiro antes do barulho de diversos trincos se abrindo. Não que trincos impediriam alguém de entrar... Um chute forte na porta fraca tiraria a utilidade dos trincos. Finalmente, Megan abriu a porta, com irritação estampada no rosto. – O que você quer, Dev? A resposta dele morreu na garganta. O cabelo de Megan estava erguido num anel enrolado, preso por um lápis. O rosto estava limpo, as sardas no nariz e faces escuras contra a pele clara. Óculos com armadura de chifre descansavam sobre a ponte do nariz. Devin nunca tivera a fantasia da bibliotecária sexy, mas, com o coração disparando, ele pôde visualizá-la removendo os óculos, puxando aquele lápis e balançando a cabeça para soltar o cabelo... – Dev? A irritação na voz dela levou-o de volta ao presente. A fantasia da bibliotecária acabava no pescoço de Megan, uma vez que ela estava usando short e camiseta, mas as coxas bem torneadas e reveladas pelo short despertaram uma nova fantasia. Ele pigarreou e tentou reprimir as imagens mentais. – Eu estava tentando entrar em contato com você. – Eu percebi isso. – E? Ela cruzou os braços sobre o peito. – E nada. Não entendeu ainda? Eu não quero falar com você. – Mas eu quero falar com você. Megan arqueou as sobrancelhas. – E isso tem precedência sobre meus desejos porque...? Oh, sim, porque você é Devin Kenney. Desejos. Ela deveria ter escolhido uma palavra diferente. Esta era difícil de ouvir, para alguém que ainda estava esperando seu sangue circular livremente de novo. Os desejos dela, seus desejos... Seu corpo adoraria explorar seus desejos mútuos.


– Eu tenho uma proposta de negócios para você. – Eu não estou interessada. Ela estava tentando irritá-lo? – Não seja assim. Você ainda nem ouviu. Não está, ao menos, curiosa? Ela suspirou. Removendo os óculos, mas, infelizmente, não soltando o cabelo, Megan concedeu: – Tudo bem. Entre. Megan atravessou a minúscula sala de estar e abaixou-se para levantar uma pilha de livros de uma cadeira, colocando-a sobre outra pilha no chão e indicando que ele se sentasse. – Gostaria de beber alguma coisa? Água? Refrigerante? Ele recusou e se sentou, e Megan acomodou-se no sofá do lado oposto. Curvou os pés sob si e inclinou-se contra o braço estofado. O cômodo, apesar de claro com o sol da tarde, era deprimente. O estofado tinha sido floral um dia, mas desbotara muito tempo atrás, tornando-se esfarrapado e cinza. O apartamento era limpo, mas décadas de negligência eram evidentes nas paredes rachadas. Ele reconheceu alguns dos quadros nas paredes como sendo do primeiro apartamento deles, mas, apesar da óbvia tentativa de Megan de tornar o lugar aconchegante ou alegre, nada podia disfarçar a sensação de decadência que pairava no ar. Ora, o notebook no canto oposto do sofá provavelmente custava mais do que os móveis da sala. Devin não pôde negar a ponta de satisfação que o envolveu. Se ela tivesse permanecido casada com ele, teria um estilo de vida muito diferente hoje. Megan notou que ele observava o apartamento. – Sim, eu sei que é precário. Mas é barato, limpo, e, mais importante, é temporário. – Eu não sabia que você ainda era residente. Quando obterá seu diploma? – Eu farei o exame em três ou quatro meses, dependendo de quanto tempo levarei para completar minhas horas como residente, é claro. – Ela suspirou. – Levará algumas semanas para sair o resultado oficial, mas posso começar a procurar um emprego imediatamente. – Tanta certeza assim que vai passar no exame? Quanto convencimento. Ela deu de ombros.


– Não é convencimento. Eu sou muito boa no que faço. Você estava bastante seguro para o exame dos advogados, lembra? – Pura bravata. – Mentiroso. – Mas ela sorriu. – Então, o que o traz aqui, Dev? Certo. Negócios. – Você foi um grande sucesso ontem à noite. – Com a careta de Megan, ele emendou: – Com os ouvintes e os tipos corporativos, pelo menos. Está ciente de sua nova popularidade? – Oh, sim. – Ela não parecia satisfeita sobre aquilo. – Você obviamente necessita de uma renda adicional. – Devin gesticulou para os móveis. – E eu posso uni-la a pessoas que poderiam transformar essa nova popularidade numa fonte de renda para você. – A que preço? – Apenas sendo “dra. Megan”. Ela assentiu em compreensão. – Entendo. Não, obrigada. Deus, ela era frustrante. – Você está se precipitando novamente. Nem me ouviu ainda. – Não preciso ouvi-lo. Eu não serei o equivalente de uma coluna de conselhos no jornal. – É lucrativo. – Mas não é real. Você não pode solucionar os problemas das pessoas com um discurso de dez minutos. – Ele começou a argumentar, mas ela ergueu uma das mãos. – As pessoas que ligam num programa de rádio ou vão à televisão não querem realmente ajuda. Elas querem uma solução rápida, e geralmente recebem uma dose substancial de psicologismo barato. Então, voltam para suas vidas. Isso faz diferença? Não há como saber. Não há acompanhamento. Não há soluções reais para essas pessoas. Isso não é para mim. Não é o que quero fazer com minha vida. Megan podia ser tão teimosa que o grande cenário frequentemente lhe escapava. – Então você faz algumas aparições, constrói um nome para si mesma. Essa fama irá construir sua prática real. Sei disso por experiência própria. Ela meneou a cabeça.


– A maioria das pessoas que procura terapia, que precisa de terapia, não quer que ninguém saiba que ela está fazendo terapia. Clientes reais temeriam que minha notoriedade expusesse suas fraquezas. Eles teriam medo que seus problemas fossem alimento para minha próxima aparição. Eu não posso construir uma carreira baseada numa técnica de “mostrar e contar”. – Então, você prefere viver assim? – Pelo menos, é honesto. E valerá a pena no final. E, pelo menos, eu não vendi meus princípios. – O queixo levantado em desafio transformou a última sentença numa acusação. Raiva o envolveu. – E você acha que eu vendi? Megan uniu as mãos e inclinou-se para a frente. – Mais importante, Devin, você acha? Como você se sente sobre as escolhas que fez? Frustrado, ele ignorou a tentativa de análise de Megan e se recostou. – Oh, não tente isso comigo. Eu não vou me deitar no seu sofá e lhe contar sobre meu relacionamento com minha mãe. – Isso não é necessário. Eu já sei tudo sobre sua mãe. – Ela deu um suspiro exasperado. – Infelizmente. Ela é alguém que precisa seriamente de terapia. – Megan balançou a cabeça. – Sei que ela deve ter celebrado o nosso divórcio, a velha rabugenta. Como ela tem passado? A pergunta o pegou de surpresa, mas não havia como suavizar a verdade. – Ela morreu há três anos. Megan empalideceu. – Oh, meu Deus. Sinto muito. Eu não tinha ideia. O que aconteceu? – Infarto. Parece que ela teve um afinal de contas. – Dev – censurou Megan. Esta era outra razão para não se relacionar com seu ex-marido. Ela sabia demais. – Não se preocupe, Megan, eu estou bem. – Você não está falando com a dra. Megan. Está falando comigo, e, embora eu saiba mais do que provavelmente o deixa confortável, ainda estou disposta a ouvir. A compaixão de Megan parecia genuína.


– Mamãe e eu fizemos as pazes antes de acontecer. Portanto, eu não tenho necessidade de fazer terapia. – Fico feliz em saber disso. De verdade. – Considerando como sua mãe tratara Megan, ele estava surpreso com a sinceridade dela. – E quanto ao seu pai? E sua irmã? – Ambos estão bem. Papai mudou-se para o Arizona, a fim de estar mais perto de Janice e os filhos dela. Megan arregalou os olhos. – Janice tem filhos? – Três meninos. – A conversa agora parecia surreal, sobre as novidades da família, mas estava gostosa ao mesmo tempo. – Uau. Mande-lhe um abraço na próxima vez que falar com ela. – Eu mandarei. Acho que Janice sentiu a sua falta depois do divórcio. – Eu também senti a dela. De mais alguém? Sentiu a minha falta? Sentiu falta de nós? As perguntas surgiram na mente de Devin, mas ele as reprimiu. – E seus pais? – perguntou ele. – Estão ótimos. Mamãe está tentando convencer papai a se mudar para a Flórida quando eles se aposentarem. Roger Lowe era muito enraizado. – Seu pai não vai mudar para o sul. – Eu sei. E acho que mamãe também sabe, mas ainda não está disposta a desistir da luta. – Bom para ela. Megan riu, uma risada verdadeira, e relaxou contra as almofadas, estendendo as pernas e pondo os pés sobre a mesinha de centro. A mesa balançou perigosamente. Aquilo o levou de volta ao propósito de sua visita. – Sobre aquela oferta... Megan ficou tensa, e a conversa perdeu a naturalidade fácil. – Novamente, obrigada, mas não. Sei que muita gente daria boas-vindas à chance de ser o centro das atenções, mas certamente você entende que eu não sou uma delas. Não me sinto confortável “em evidência”.


– Você me enganou. Pareceu tão natural no meu programa. Ninguém seria capaz de perceber que você costumava detestar falar em público. – Agradeço o voto de confiança, mas, apenas porque não sou mais dolorosamente tímida, não significa que estou pronta, ou disposta, a me expor dessa forma. Todavia, o fato de você me achar capaz disso significa muito para mim. Megan estendeu a mão e apertou a sua. O gesto era amigável, mas o contato aqueceu o sangue de Devin. O primeiro toque deliberado em mais de sete anos, e sua pele estava em chamas. Megan teve um sobressalto, informando-o de que também sentira aquilo. Tarde demais, ela tentou recolher a mão, mas ele não permitiu. Um rubor subiu pelo pescoço elegante e pintou as faces de Megan. Ela moveu o polegar de leve contra sua pele, um gesto provavelmente inconsciente, mas que o excitou. Devin retornou o movimento, seu polegar roçando a pele da palma delicada, e ela arfou. Silêncio estendeu-se, nenhum dos dois se movendo, exceto pelas carícias gentis dos dedos. A conexão e as sensações que estas causavam eram ridículas, mas ele não conseguia quebrar o contato. Megan parecia ter um problema similar enquanto mordia o lábio inferior. Seria tão fácil, tão fácil... Um puxão, e ela estaria em seu colo... – D-Dev... Eu... Eu... – Megan fechou os olhos, enquanto umedecia os lábios com a língua. Ela moveu o corpo para a frente, e ele fez o mesmo. A mesinha de centro caiu diante do peso aumentado, enviando livros e papéis para o chão. Com a mesa saindo debaixo dos pés de Megan, ela perdeu o equilíbrio e caiu sentada no chão, praguejando. A mão dela ainda estava na sua, e Devin puxou-a, ajudando-a a se levantar. – Você está bem? Grandes olhos azuis encontraram os seus, e ele observou diversas emoções lutando por domínio. O desejo ainda estava neles, mas divertimento, embaraço e irritação pareciam estar ganhando terreno. Ela recolheu a mão e a usou para arrumar o cabelo que escapara do rolo, quando caíra. – Eu juro, Dev, estar perto de você é um desastre procurando um lugar para acontecer.


CAPÍTULO 6

MEGAN PRETENDERA falar aquilo em tom leve, considerando a posição embaraçosa na qual estava... e a posição ainda mais embaraçosa da qual acabara de escapar. Porém, de alguma maneira, as palavras tinham soado erradas. Ela soubera, no momento que o vira a sua porta, que nada de bom poderia resultar em deixá-lo entrar. Passara o dia se convencendo disso, e se concentrando no futuro, em vez de no passado. Mas não podia mais fechar a porta do rosto dele. Dev possuía algum tipo de controle sobre ela. Megan pensara que o tivesse quebrado quando eles haviam se separado, mas os últimos dois dias provavam que esta noção era falsa. E, agora, Dev estava em sua pequena sala de estar, preenchendo o espaço e a deixando trêmula. Pior, o calor no olhar dele não diminuiu quando ela saiu do chão e voltou para o sofá. Ela pegou um pé da mesinha e o examinou, ansiosa para distrair Devin, enquanto colocava seus próprios hormônios sob controle. – O apartamento veio mobiliado. Pergunto-me quanto eles irão me cobrar para substituir a mesinha. – Eu pagarei por isso. – A voz rouca dele enviou arrepios por sua pele. – Megan... – Está tudo bem. – Ela interrompeu, e se detestou por tomar a saída covarde. O que acontecera com sua determinação de enfrentá-lo? – Tenho certeza de que encontrarei facilmente uma substituição barata. – Megan riu, mas Devin continuou sério, os olhos percorrendo seu corpo e deixando o calor em seu


rastro. Ele podia ter ido lá com uma proposta de negócios, mas ela conhecia aquele olhar, e sabia que ele tinha uma coisa inteiramente distinta na cabeça agora. Assim como seu corpo, que estava, convenientemente, esquecendo que eles não eram mais um casal, ela podia sentir os primeiros tremores de excitação em suas coxas, a sensação viajando para seu centro feminino. Pior, ela sabia que Devin sabia daquilo também. Eletricidade pairava no ar entre eles, a tensão crescente. Ela precisava fazer alguma coisa para quebrar a magia ou... – Meggie... Aquela voz rouca quase a fez derreter. Não, disse ela a sua libido. Isso não vai acontecer. Ela possuía problemas suficientes. Não ia causar mais um, ficando nua com Devin. Levantou-se, apenas para descobrir que seus joelhos não estavam firmes o bastante para suportá-la. Quando balançou, procurando equilíbrio, a mão de Devin fechou-se em seu pulso, puxando-a gentilmente na direção dele. Seja forte. O que acontecera com a raiva, a indignação que mantivera uma parede segura entre eles? Desfarelara-se sob um olhar ardente. E ela que pensava ter superado seus sentimentos por Dev. Megan precisou de toda a sua força de vontade para se desvencilhar do aperto de Devin. – Dev, eu... Eu apreciei sua oferta. Ele arqueou as sobrancelhas, e ela apressou-se em esclarecer. – A oferta de ajuda. Negócios, quero dizer. Você fez tudo que pôde e estava certo ontem ao dizer que levaria tempo para que os rumores passassem. Acho que vou voltar ao plano original, e esperar esta fase passar. Com o momento de conexão rompido, o ardor começou a desaparecer dos olhos de Devin. Então, com um balanço rápido da cabeça, desapareceu inteiramente. Megan desejou que pudesse fazer o mesmo, porém, ao mesmo tempo, sentiu-se um pouco magoada por ele conseguir desligar tão depressa. Ela, por outro lado, ainda não estava firme sobre os pés, e seu coração batia em descompasso. Devin pigarreou. – Essa é provavelmente uma escolha sábia.


– Sim. – Ela agachou-se e começou a mover papéis e livros em pilhas mais organizadas. Precisava de alguma coisa para olhar, além de para ele, enquanto reunia sua frágil resolução. – Então... Eu vou voltar ao trabalho. Tenho uma tonelada de pesquisas para fazer... – Então, eu a deixarei trabalhar. – Ele levantou-se, agigantando-se sobre sua posição ajoelhada ao chão. Megan ficou de pé. – Obrigada. – Se você mudar de ideia... Eu estou prestes a mudar se você não for embora. – Eu não mudarei – respondeu ela, agarrando um manual de psiquiatria junto ao peito, como um escudo. Devin sorriu. – Eu quis dizer sobre explorar aquelas outras opções da mídia. Megan corou com o embaraço. – Eu manterei isso em mente e o informarei, certo? – Certo. Adeus, Megan. – Assim que ele saiu, ela fechou a porta e todos os trincos. Somente então liberou o ar que estava prendendo. Foi para o quarto sobre pernas instáveis e deitou-se de bruços na cama. Sentia-se desgostosa consigo mesma. Embaraçada e humilhada. Todavia, sob isso, ela queimava. Por Devin. Não era uma adolescente sem controle sobre seus hormônios. Era adulta, pelo amor de Deus. Uma adulta que sabia exatamente o que Dev podia fazer com ela. Fisicamente, Dev podia fazer coisas incríveis, pensou Megan e pôs um travesseiro sobre a cabeça. Seu corpo estava gritando para que ela o chamasse de volta e aceitasse a oferta não falada, porém, óbvia. Ela podia quase sentir as mãos dele deslizando por sua pele, e arrepiou-se em antecipação. Devin era um amante generoso, frequentemente insaciável... Ah, sim, fisicamente, não havia desvantagem. Mas Megan também sabia o que Dev poderia fazer com ela emocionalmente. E sua reação a ele provava que seu estado emocional não estava tão estável quanto ela pensara. A atração magnética que ela sentira tinha sido mais do que


física, mais do que apenas uma reação química ou memórias de como aquilo seria bom. Isso era algo inteiramente distinto. Megan focou-se na única coisa que poderia ajudá-la... Na raiva e na mágoa que os tinham separado da última vez. Quando não teve sorte com isso, concentrou-se no presente: seus problemas que não seriam solucionados cedendo à química entre eles. Isso também não adiantou. Com um suspiro de desgosto, ela saiu da cama e foi para o banheiro. Tentaria o velho truque: um banho gelado. APRENDA COM seus erros. Devin não podia contar o número de vezes que dissera isso aos seus ouvintes. Por esta única razão, ele não tinha desculpa para o que quase acontecera. Se Megan não tivesse se acovardado e praticamente o expulsado de seu apartamento, não teria sido quase. E, apesar de censurar-se por seu comportamento, ele também sabia que não se arrependia do mesmo. Qualquer mentira que tivesse contado a si mesmo para ir procurar Megan, o verdadeiro motivo para a visita se tornara claro como cristal no segundo que ela o tocara. Envolver-se com Megan, de qualquer maneira, por qualquer razão, era estupidez, mas tal conhecimento não diminuía sua ereção ou apagava as imagens eróticas surgindo em sua mente. Claro, ele lamentava por ela, pela situação na qual Megan se encontrava. A notoriedade dela era, em parte, culpa sua, e qualquer ser humano decente desejaria ajudar. Mas esta outra necessidade não tinha nada a ver com ser um ser humano decente. Na verdade, um ser humano decente não criaria uma situação ruim agindo sobre o que ele estava sentindo no momento. Essa ideia não ia detê-lo todavia. Ele teria de aceitar que não era um ser humano decente. Já fora chamado de coisas piores. Por Megan, na verdade. Mas a reação de Megan provava que o desejo não era unilateral. Ela o queria, mas estava lutando contra. Provavelmente, pelas mesmas razões que ele já examinara e rejeitara. Devin rolou as mensagens em sua caixa de entrada mais uma vez. Havia muitas coisas nas quais deveria estar trabalhando, mas nenhuma capturava seu


interesse. Ele poderia estar na casa de Megan, explorando sua nova fantasia de bibliotecária. Ou múltiplas outras fantasias. Devin fechou sua janela de e-mails e desistiu de fingir. Isso era doentio. Era loucura até mesmo considerar explorar tais fantasias. Mas ia acontecer. Ele tinha certeza disso. E Megan provavelmente se sentia da mesma maneira. Talvez, se eles dessem vazão àquele desejo, então pudessem voltar para suas vidas separadas. A questão era convencer Megan a ver as coisas dessa forma. – EU ESTOU bem, mamãe. De verdade. – A mentira ficava mais fácil cada vez que Megan a contava. Mais umas trezentas vezes, e, talvez, ela começasse a acreditar naquilo também. – Bem, se isso a faz se sentir melhor, eu acho que você foi ótima no programa de Devin. Eu assinaria como sua cliente, sem pensar duas vezes. – Sua mãe estava no modo líder de torcida. – Obrigada, mamãe. Mas, por favor, diga-me que você e papai não estão tendo problemas. – Nada que uma mudança para a Flórida não resolva. – Juntos, eu espero. – É claro, querida. Não se preocupe conosco. Estamos casados há tanto tempo que o divórcio não é uma opção. Eu posso matá-lo, mas não me divorciarei dele. – Ótimo. Mas tente não matá-lo também. Ligue para mim, primeiro, e eu a acalmarei. – Por falar em matar pessoas – a voz de sua mãe assumiu um tom muito casual, e Megan preparou-se –, como você está se dando com Devin? – O que você quer dizer? Sua mãe suspirou. – Você obviamente teve de passar um tempo com ele... durante o programa, se nada mais. Como foi? – Tudo bem. – Felizmente, sua mãe não podia ver seu rosto, ou teria adivinhado a mentira na hora. – Nós dois amadurecemos e somos pessoas


diferentes agora, e aquela foi uma situação profissional, então... – Megan parou e sua mãe riu. – Certo – admitiu ela –, eu tive momentos melhores. Mas o importante é que tudo soou bem no rádio. – Se você diz... – Eu digo. – E preciso mudar de assunto. – Então, mamãe... – Você ouviu o programa dele esta manhã? Ela ouvira, mas não ia admitir. – Está me dizendo que você ouviu? – É claro. Eu queria ver para que lado o vento estava soprando. Certificar-me de que Devin não desfizesse nenhum do progresso que você fez. Ele não desfez, a propósito. – Eu não esperava outra coisa. – Mas ela ouvira o programa para ter certeza. – Devin está sendo excelente sobre isso. Ele entende a minha situação. – Vocês dois conversaram sobre alguma coisa...? Nem um pouco sutil, mamãe. – Oh, mamãe, há alguém batendo à porta. Posso lhe telefonar mais tarde? – É claro, querida. Cuide-se. Megan desligou e passou um momento se sentindo mal por ter mentido para sua mãe. Depois de todo o drama do passado com Devin, é claro que sua mãe estava preocupada com a proximidade dos dois. E tinha razão de estar. Megan também estava, mas, após uma noite em claro, pensando, ela sentia-se no controle. A confusão atual a deixava vulnerável. Tal vulnerabilidade a fizera procurar uma âncora segura. Anos atrás, essa âncora havia sido Devin, e, com ele aqui agora, ela estava colocando toda a angústia e desejo no lugar errado. Esta era a explicação para sua reação química do dia anterior. Agora que ela a identificara, poderia evitá-la. Sentia-se muito melhor hoje, com sua nova compreensão da situação. Infelizmente, tal compreensão não destruíra o desejo de seu corpo, mas o diminuíra um pouco. Uma vez que ela conseguisse frear o desejo em seu subconsciente, ficaria bem. Só precisava de um pouco de tempo. E esforço. Talvez em alguns dias, ou meses, seria capaz de explicar isso para sua mãe. Até lá, evitar discutir o assunto parecia sábio.


Ela deixou o telefone no sofá e foi para a cozinha pegar mais um café. Ao chegar lá, ouviu uma batida à porta. Espiou pelo olho mágico e quase caiu em choque. Devin. Ali. Novamente. Por quê? Megan pesou suas opções. Honestamente, tinha apenas duas: abrir a porta ou fingir que não estava em casa. Depois do dia anterior, ela deu um passo cauteloso atrás. – Megan, eu sei que você está em casa. – Surgiu a voz de Devin do outro lado da porta. – Posso ouvi-la se movendo. Droga. – Vamos. Abra. Ela respirou fundo e abriu a porta. Dev sorriu-lhe. – Oi. – Oi... O que é... – Ela parou ao ver o que ele estava segurando. – O que é isso? – O que parece? Uma mesinha de centro. – Bem, posso ver isso. Mas... por que você trouxe uma mesinha de centro? – Para substituir a que você quebrou ontem. – Isso não é necessá... – Este é o momento em que você diz “Obrigada, Dev”, e me convida para entrar. É mais pesada do que parece. Ela ficou parada, boquiaberta, enquanto Devin virava-se de lado para passar por ela e entrar. Ele levou a mesinha para o centro da sala e a colocou no chão. – Pronto. Não combina com o sofá, mas, então, nada aqui combina. Megan fechou a porta e o olhou. – A mesa é linda, Devin, e isso é muito gentil da sua parte, mas... – De nada. – Ele olhou para a bagunça cobrindo o chão. – Você certamente precisa de uma mesa. Como os artigos estão indo? Ela estava cada vez mais confusa. – Devin... Hum... Quero dizer... O que está acontecendo? Devin fitou-a com expressão interrogativa, então apontou para a mesinha. – Isso é um presente. Para você. Por que está me olhando assim?


– Porque você apareceu a minha porta com uma mesa por alguma razão desconhecida. Acho que tenho o direito de me sentir um pouco abalada por isso. Ele deu de ombros. – Não vejo por quê. Megan agarrou-se ao seu último fio de sanidade. – Devin... – Certo, estou me sentindo um pouco mal pela sua situação estressante, então tentei fazer alguma coisa boa para você. – E me comprou uma mesa? Devin sorriu. – Pareceu-me uma ideia melhor do que flores ou algo assim. Eu sabia que você precisava de uma mesa. Uma risada escapou da garganta de Megan, sem aviso. A sensação foi boa, depois de toda a tensão dos últimos dias. – Você é certamente cheio de surpresas, Dev. Ele pareceu satisfeito consigo mesmo. – Eu tento. Agora, você vai me convidar para sentar e ficar um pouco? Ela não deveria. Mas ele lhe levara um móvel; ela não podia mandá-lo embora, como se ele fosse um rapaz da entrega. Depois de sua autoterapia da noite anterior, ela certamente poderia ter uma conversa educada com Devin. – Gostaria de se sentar? Quer beber alguma coisa? – Quando ele meneou a cabeça, ela foi para o sofá, já procurando um assunto para abordar. – Eu ouvi o seu programa hoje. É um pouco diferente da versão noturna. Ele pareceu chocado pela revelação, mas então deu de ombros. – Diferente alvo demográfico. Há algumas partes sobrepostas, é claro. – Ele a estudou. – E você ainda não aprova. – Eu não tenho de aprovar, ou concordar com o que você está dizendo. Posso achar que você está errado, mas o programa é seu. Os ouvintes são seus. – E você diria algo diferente a eles? – Não necessariamente. Quero dizer, se as pessoas irão mesmo se divorciar, então elas precisam de bons conselhos legais. São as pessoas que ligam e parecem indecisas que me preocupam.


– Entretanto, você rejeita a ideia de aconselhá-las pelo rádio. Para algumas pessoas, esse pequeno discurso é o melhor que elas podem conseguir. – Verdade – concedeu Megan. – Mas eu não tenho de gostar disso. Por outro lado, o programa não é meu, e é um país livre. Você é obviamente popular, portanto, eu sou a minoria. Não tenho problemas com isso, e manterei minhas objeções para mim mesma. – Para provar aquilo, ela uniu as mãos no colo e sorriu. Devin deu um de seus sorrisos perigosos. – Deus, se eu recebo isso por trazer uma mesinha, o que receberei se aparecer com um sofá? – Não apareça a minha porta com um sofá, Devin Kenney. Ou com qualquer outro móvel. – Então, seu protesto é ao móvel, não ao entregador? – Dev piscou-lhe. – Bem... Eu não estava esperando você. Muito menos com uma mesa. – Boa recuperação. Dev riu. Hora de assumir o controle da situação. – Certo, eu sei por que estou em casa numa sexta à tarde, mas você não tem um emprego no qual precisa estar? Dev recostou-se na cadeira e apoiou os pés na mesa nova, a qual, vendo melhor agora, parecia muito cara. – Sim, mas eu também tenho muitas pessoas para quem delegar. Eles ligarão se precisarem de mim. Pensei que você pudesse precisar de companhia. Parece determinada a se isolar. – Isolamento faz bem às pessoas, dando-lhes tempo para pensar. Para realizar coisas. – Pare de tagarelar. – Coisas que você normalmente não faz. – Então posso convencê-la a jantar comigo? – Não! – Ela tentou consertar a resposta abrupta: – Quero dizer, obrigada, mas não. – Por que não? Isso não é uma coisa que você faz normalmente. Porque eu não sou tão louca assim. Deus, ela precisava controlar aquela situação. Rápido. – Há uma razão em particular pela qual você está aqui, Dev? Além da entrega do móvel?


Ela se arrependeu da pergunta imediatamente. Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Dev, dando-lhe a resposta que ela precisava. Megan deveria ter se sentido insultada, mas seu corpo traidor reagiu à corrente elétrica fluindo entre eles. Tal eletricidade a fez se levantar num sobressalto. O sorriso lento e sensual que Devin lhe deu causou fraqueza em seus joelhos. – Venha aqui, Meggie. – Ele suavizou o comando, segurando-lhe o pulso, antes de entrelaçar os dedos nos seus. Palma com palma, a conexão estava completa. O coração de Megan disparou violentamente. Devin abaixou os pés para o chão e a puxou para mais perto. Para a energia que se irradiava dele como uma aura sexual. No dia anterior, ela havia sido forte, sustentando sua posição. Até este momento, não admitira que se arrependia de sua postura. Poderia fazer uma escolha diferente hoje. Mais um pequeno passo e ela estava de pé entre as coxas dele. A cabeça de Dev estava no nível de seu peito, e seus mamilos enrijeceram em antecipação. Ele liberou-lhe os dedos, apenas para deslizar ambas as mãos pela parte traseira de suas pernas, os polegares roçando debaixo da bainha de seu short, provocando a pele sensível na curva de seu traseiro. – Dev... – Sua voz foi um sussurro quebrado, então ela pigarreou e tentou novamente: – Dev, eu não tenho certeza se essa é uma boa ideia. – É uma ótima ideia. – A voz rouca e profunda hipnotizou-a. – Nós estamos caminhando para isso desde que você apareceu na minha tarde de autógrafos na segunda-feira. Eu a conheço, Meggie. E sei que você me quer tão desesperadamente quanto eu a quero.


CAPÍTULO 7

AS PALAVRAS diretas de Devin a afetaram tão fortemente quanto os dedos que acariciavam o interior de suas coxas. Afaste-se, Meggie, afaste-se. Mas a mensagem não estava alcançando suas pernas. Elas tremeram, e ela teve de pôr uma das mãos no ombro de Devin para apoio. O calor da pele dele queimava-a, mesmo através da camisa, mas Megan não conseguia se mover. – Isso não é sobre desejo. – Ela não sabia qual deles estava tentando convencer. Devin respondeu colocando os lábios no seu pescoço, usando a língua para sentir as batidas frenéticas da pulsação dela. Deslizou as mãos para a cintura delgada e levantou a cabeça. – Você está certa – disse ele. – Isso é sobre necessidade. Esse foi todo o aviso que Megan recebeu antes que ele puxasse sua cabeça para baixo e lhe tomasse a boca. Com um toque da língua dele, tudo que ela vinha dizendo a si mesma desde o dia que partira provou-se ser mentira. Megan reconheceu o gosto de Devin. Como mágica, entregou-se ao beijo, correspondendo cada movimento delicioso. A mão que estava no ombro largo subiu para entrelaçar no cabelo na nuca dele. Dev segurou-lhe o queixo, mantendo sua cabeça firme, mas havia ternura sob a pressão que fez o coração dela disparar. Então, ele liberou-lhe o rosto, levando uma das mãos para seu cabelo e a outra para baixo da bainha de sua blusa. Seu corpo parecia lembrar e responder sem reservas, ansioso por receber o toque dele e o prazer que sabia que se seguiria. Quando Devin levantou sua


blusa, Megan ergueu os braços sem hesitação, oferecendo-lhe acesso. Uma vez que o tecido foi removido pela cabeça, os olhos de Dev a queimaram, enquanto as mãos grandes lhe seguravam os seios através do algodão fino do sutiã branco. Cada frase conhecida que ela aperfeiçoara com seus clientes gritou em sua cabeça. Você está confundindo as coisas... Emoções despertadas das profundezas de sua mente, devido aos acontecimentos dos últimos dias. Vasculhar o passado acordara todo tipo de memórias, e esse era simplesmente um efeito colateral. Ela sentiu o fecho de seu sutiã abrindo. Isso não é real. A língua de Devin traçou seu colo, enquanto ele deslizava as alças pelos seus braços e se livrara do sutiã. Essa é realmente uma má ideia. Ela arqueou-se quando o polegar de Devin roçou seu mamilo e a boca sensual achou o lugar sensível abaixo de seu lóbulo. Você se arrependerá disso mais tarde. Megan puxou a camisa de Devin, levantando-a e removendo-a, expondo o peito largo e traçando-o com os dedos. Isso não vai resolver nada. Na verdade, irá apenas piorar as coisas. Então, a boca quente de Devin estava em seu seio, fechando-se sobre um mamilo e traçando-o com a língua. E Megan não mais se importou com as possíveis consequências daquilo. Agarrou-lhe os ombros para apoio e entregou-se ao momento. Devin soube o instante que Megan parou de argumentar consigo mesma e cedeu, e o conhecimento o excitou ainda mais. Revê-la, ter Megan perseguindo seus sonhos, reviver o passado... Tudo tinha levado a isso. A tê-la nos seus braços, novamente, sentir seu gosto. Depois de mover-se para provocar o outro seio, ele levantou-se, envolveu as pernas de Megan em sua cintura, e, segurando-lhe os quadris, foi para o quarto dela. A cama de Megan era uma confusão de cobertas e travesseiros. Algumas coisas não mudavam, parecia, mas o fato de Megan nunca arrumar a cama o salvou de um passo hoje. Ele abaixou-a nos lençóis, e as pernas delgadas ao redor de sua cintura o puxaram com ela. Ali na cama, o aroma único de Megan o envolveu, enquanto ele se sentava sobre os calcanhares e trabalhava na remoção do short dela.


Megan arqueou-se, levantando os quadris para ajudá-lo a remover suas últimas peças de roupa. Uma pequena borboleta azul estava aninhada abaixo do osso do quadril direito. Megan possuía uma tatuagem. O pequeno trabalho de arte era lindo, os detalhes e cores cuidadosamente designados a capturar o momento exato antes do voo. As cores contrastavam com a pele clara de Megan, atraindo os dedos de Devin como um imã, para alisar as asas da borboleta. Ver aquele desenho no corpo dela era chocante. E inacreditavelmente excitante. Ela arfou quando ele traçou as asas, então tremeu sob sua língua. Capturando sua cabeça, Megan puxou-o para o nível do corpo dela novamente, e, encarandoo, desceu o zíper de seu jeans. A liberação causou tanto prazer como dor: alívio do confinamento, misturado com uma necessidade absurda de se enterrar dentro dela. Agora. Devin fechou os olhos e gemeu quando ela segurou o membro dele na mão e massageou-o com a prática que adquirira anos atrás, lembrando exatamente como enlouquecê-lo. O prazer beirou a tormento quando Meggie encaixou-se na curva de seu corpo, passando a perna por cima da sua, movimentando os quadris de modo irrequieto, em contraste com a massagem firme da mão. A ponto de explodir, Dev virou-a sobre as costas para explorar o corpo que conhecera tão bem. Havia tantas diferenças sutis, entretanto, era tudo muito familiar. As sardas salpicadas entre os seios, a curva da cintura, o músculo forte da coxa... A redescoberta das curvas e planos era como voltar para casa, apenas para encontrar alguma coisa nova. Mas o sentimento não era novo também. Ele não tinha sido o primeiro amante de Megan, mas a experiência anterior dela, com garotos do Ensino Médio, havia sido pobre. A timidez inerente de Megan mascarara uma paixão profunda esperando para ser vivenciada, e eles não tinham saído da cama por quase dois dias. Mesmo na época, Devin sentira que suas mãos pertenciam àquela pele, àquele corpo, e ele soubera...


A memória aqueceu seu sangue, mas não tanto quanto a mulher gloriosamente nua diante de si. Esta não era a mesma Meggie com quem ele se casara, e estava ansioso para descobrir quem ela se tornara. Como se lesse sua mente, Megan deu um sorriso sedutor. Sem abrir os olhos, ela segurou seu pulso, parando a exploração preguiçosa. – Você está me enlouquecendo. Ele sorriu, sabendo que ela não podia ver seu rosto. – Esse era o plano. – Toque-me, Dev. As palavras lhe roubaram o fôlego. – Mas eu estou tocando-a. Ela gemeu baixinho, e a frustração no som o abalou como uma corrente elétrica. – Dev... Sua mão livre deslizou da borboleta para os cachinhos loiros, e as pernas de Megan se abriram em boas-vindas. Ele deixou seus dedos provocarem gentilmente, apreciando a visão das mãos dela se fechando nos lençóis. Então ela praguejou e, finalmente, encontrou-lhe os olhos. – Devin! – demandou ela, a voz rouca de desejo. – Assim? – perguntou ele, segurando-lhe o sexo e sentindo o calor da excitação feminina. Ela mordeu o lábio enquanto tentava se pressionar contra sua mão. Devin não pôde continuar a brincadeira; precisava senti-la. Mergulhou o polegar no calor molhado, e um grito estrangulado escapou quando ele encontrou a pequena saliência e a circulou. A resposta de Meggie deixou suas mãos tremendo, enquanto ele deslizava um dedo para dentro do corpo dela. Um momento depois, os músculos femininos internos o agarraram poderosamente, enquanto ela começava a tremer pelo clímax iminente. Megan estava se afogando nas sensações, no prazer que o toque de Dev lhe dava. Seu lado hedonista, que estivera esquecido, aflorou com força total, e ela queria mais. Estava muito, muito perto do clímax. Mas não queria chegar lá sozinha. Não desta vez. Não depois de tanto tempo.


– Dev – sussurrou ela. Ele pareceu entender, cobrindo-a com o corpo grande e lhe apartando as pernas. O peso era bem-vindo, e Megan prendeu a respiração em antecipação, enquanto ele procurava entrada. Oh, sim, seu corpo pareceu suspirar quando ele a preencheu, e ela sentiu seus tremores de prazer ecoarem através dos ombros e braços de Dev. Não conseguia sustentar o olhar dele, pois isso fazia seu coração palpitar de um jeito estranho, e Megan só queria apreciar este momento. Fechando os olhos, encontrou a primeira investida dele, e estrelas brilharam atrás de suas pálpebras. Então, ela não foi mais capaz de pensar. Podia apenas se agarrar a Dev, enquanto a onda a levava cada vez mais alto. Vagamente, ouviu a respiração ofegante de Dev, ouviu-o murmurar seu nome contra seu cabelo. Braços fortes a seguraram quando ela começou a cair, prolongando o prazer, até que Megan o sentiu se juntar a ela naquele precipício. Devin tomou-lhe a boca num beijo ardente, e Megan explodiu de prazer quando ele enviou ambos sobre a extremidade, juntos. A REALIDADE estava demorando a retornar, e Megan não encorajou o retorno. Não queria ter de enfrentar os pensamentos desagradáveis que começavam a surgir nas extremidades de sua consciência. A sensação sonhadora de leveza após o ato sexual, a respiração de Devin contra seu pescoço, enquanto esta voltava ao normal, a carícia preguiçosa da mão grande sobre seu quadril e coxa... A realidade podia esperar. Ela estragaria o momento, e Megan queria que este momento durasse o máximo possível. Para sempre, o pensamento se formou e Megan o reprimiu. Ela e Devin não estavam destinados a ficarem juntos para sempre; ela aprendera isso da primeira vez. Todavia, estava mais do que disposta a apreciar o pequeno interlúdio da realidade, sem expectativa de qualquer outra coisa. – Bonita tatuagem – murmurou Devin contra sua orelha, enquanto traçava a borboleta com os dedos. – Obrigada. Doeu absurdamente, mas eu adorei o resultado. – Eu nunca imaginei que você fosse fazer uma tatuagem. Você...


– Não pareço o tipo? – terminou Megan por ele. – Você e todo mundo acham isso. – Dev enrijeceu por alguma razão, e a mão parou brevemente em seu quadril. Mas o momento passou logo, e Megan não o comentou. – O artista em Albany estava namorando minha companheira de casa na época, então nós nos conhecíamos um pouco. Ele fez de tudo para tentar me convencer a desistir da tatuagem, e acho que ficou surpreso quando não conseguiu. Lá estava aquela tensão novamente. Dev desaprovava sua tatuagem? Era por isso que parecia tão fascinado por esta? – Sujeito muito talentoso. – Concordo. Se você estiver pensando em fazer uma, eu lhe darei o nome e telefone dele. – Eu passo. – Dev puxou-a para mais perto, e ela se aconchegou, feliz, ao seu calor. – Ouvi dizer que este é um lugar dolorido para tatuar. – Bem, eu fiz no quadril, de modo que posso vê-la, mas meus clientes não podem. A maioria das pessoas não confia na capacidade de uma profissional quando vê uma tatuagem. Independentemente da qualidade. – E quando você se tornou uma grande fã de borboletas? Dev a conhecia, isso era uma certeza. Ela nunca fora o tipo de garota que gostava de unicórnios, borboletas e arcos-íris. Megan tentou um tom casual. – Pareceu apropriado na ocasião. – Por quê? Ela hesitou. Sua resposta usual para as poucas pessoas que sabiam sobre sua tatuagem não funcionaria agora. – Bem, foi um ano depois... Depois... – Depois de nós? – completou ele. – Sim, aproximadamente um ano depois de nós. Eu tinha acabado de me mudar para Albany, e sabia que estava começando uma vida nova. Cresci e mudei muito naquele ano, e não sentia que era a mesma pessoa que eu costumava ser. Ela sentiu Devin assentindo. – Transformação. – É uma imagem banal, eu sei. Um clichê. Mas pareceu certo. E Keith, o artista, entendeu. Ele me viu saindo do meu casulo, mas sabia que eu ainda não


tinha começado a voar. Por isso, ele fez como se a borboleta estivesse prestes a voar. – Ela suspirou. – É mais sobre as possibilidades que vêm da mudança. Uma risada baixa reverberou no peito de Devin, e as vibrações a abalaram também. – Falando como uma psicóloga. Megan o cutucou em resposta, mas deu um sorriso que sabia que ele não podia ver. Então Devin ficou sério, a mão pausando na cintura dela como um peso. – Independentemente do que você possa pensar, eu lhe garanto que não foi minha intenção reprimi-la de qualquer maneira. Ela rolou e lhe encontrou os olhos. – Eu sei – respondeu honestamente, mas Dev franziu o cenho em incredulidade. – Pelo menos, sei agora. O tempo me deu alguma perspectiva. E, apesar do que falei recentemente, eu não o culpo inteiramente pelo que nos aconteceu. Eu também cometi erros. – As tolices e empáfias da juventude. – Empáfias? Você realmente usou a palavra empáfia? Dev apoiou a cabeça num punho fechado. – Eu sou advogado. Tenho permissão de usar palavras arcaicas em conversas, por nenhuma razão em particular. Megan balançou a cabeça em censura, mas Dev continuou sorrindo. – Algumas pessoas escondem suas inseguranças atrás de um vocabulário rebuscado, usando palavras difíceis para fazê-las parecerem superiores às outras. – Dev arqueou uma sobrancelha, e ela quis socá-lo. – Você é a pessoa mais arrogante que eu já conheci. – Obrigada, Megan. Ela estava muito à vontade com Devin. As barreiras entre eles pareciam ter desaparecido com suas roupas... – Você é terrível, Devin Kenney. – E eu sou ainda pior. – O que vou fazer com você? Um sorriso travesso iluminou o rosto dele, e seu coração disparou. Cada célula de seu corpo ganhou vida diante da promessa naquele sorriso. – Acho que isso depende. Quando você viaja? Huh?


– O quê? – De férias? – O que o faz pensar que eu vou a algum lugar? – Como se eu tivesse condições financeiras para viajar. – Na outra noite, você disse que precisava fazer as malas. Para o Canadá. – Oh, isso. – Megan riu. – Trocar meu nome e me mudar para o Canadá eram meu plano reserva para resolver a situação da imprensa. Dev balançou a cabeça. – Ei, eu estava “catastrofizando”, então... – Isso nem mesmo é uma palavra. – Sim, é. – Agora, quem está compensando em demasia com um vocabulário rebuscado? Pegando o travesseiro debaixo de si, ela tentou socar-lhe a cabeça. Devin bloqueou o golpe facilmente, tirando-lhe o travesseiro da mão e jogando-o no chão, antes de deitá-la sobre as costas e prender-lhe as mãos acima da cabeça. O corpo de Megan reagiu instantaneamente, calor se formando em sua barriga e seus mamilos enrijecendo, quando Dev acomodou-se entre suas coxas. – E agora, estamos de volta ao tópico anterior. O que fazer...? – Os lábios de Dev acharam seu lóbulo, e as mordidinhas enviaram arrepios por todo seu corpo. – Humm... – O som vibrou contra seu pescoço. – Uma vez que você não vai a lugar algum, estou pensando que eu também não deveria ir. Ele estava planejando passar a noite lá? – Meu fim de semana está livre... Fim de semana? Oh, ela sabia que aquela não era uma boa ideia. Ceder a um pouco de sexo com seu ex, pelos velhos tempos, não era incomum, mas um fim de semana seria... Seu lado hedonista rapidamente brecou aquela linha de pensamento, levandoa a responder, antes que pudesse evitar: – Eu não tenho planos. O sorriso de Dev aqueceu seu coração. Mas as próximas palavras dele aqueceram seu sangue. – Agora você tem.


DEVIN OUVIU seu telefone tocar novamente, mas não estava interessado em nada além da mulher aconchegada contra si. Ele deslizou as mãos pelas mechas loiras que estavam espalhadas sobre seu peito e ouviu a respiração regular do sono profundo de Megan. Os círculos escuros em volta dos olhos dela falavam de exaustão, mas, considerando o que causara aquela exaustão... Ele sorriu quando Megan murmurou alguma coisa no sono e se mexeu. Deveria estar igualmente exausto, mas, apesar da sensação de relaxamento e preguiça, ele não estava com sono. Com fome, eles tinham pedido uma pizza um pouco antes das 22h, e, mesmo enquanto comiam, nus, Megan se refreara de discutir quaisquer das reservas que ele podia ver escritas no rosto dela durante muitos momentos. Devin também não levantara o assunto. Era egoísmo. Ele não se importava. Se houvesse repercussões ou arrependimentos na manhã seguinte, ele lidaria com eles, então. Não, corrigiu-se, eu lidarei com eles na segunda-feira. Eles tinham o fim de semana, e ele pretendia isolar-se do mundo até lá. Não ia questionar por que o destino colocara Megan de volta nos seus braços. Roçou os dedos sobre a borboleta de Megan novamente. Parecia irreal como uma tatuagem tão pequena o afetasse tanto. Desde a estranha excitação que a imagem lhe causava, ao ciúme por pensar quantos homens tinham visto a tatuagem, até o conhecimento de que o divórcio deles havia sido uma mudança tão positiva na vida de Megan que ela decidira comemorar com uma marca permanente, aquela borboleta estava queimando em seu cérebro. A tatuagem era um lembrete muito vivo do que se tratava tudo aquilo exatamente. Quaisquer ideias de que o relacionamento deles poderia ser mais foram rapidamente descartadas. Megan se mexeu, sem querer, batendo o braço no dele. Ela sentou-se num salto, tirando o cabelo do rosto. Então deu uma risada envergonhada. – Desculpe, eu não estou acostumada a dormir com alguém, e quando bati o braço em você... – Ela esfregou uma mão no rosto. – Desculpe se eu o acordei. Megan dormia sozinha. Foi a única mensagem que ele registrou. E por alguma razão que não queria explorar, com ou sem um terapeuta, ficou feliz em saber


disso. – Eu não estava dormindo. – Não? – Megan franziu a testa. – Você não está cansado? Não depois...? – Não passa muito da meia-noite, e eu não estou tão cansado assim. Um sorriso travesso curvou a boca de Megan. – Isso parece um desafio. – Ela deslizou uma das mãos por suas costelas e estômago, fazendo-o arfar. – Talvez seja. – Eu adoro um desafio – murmurou ela, abaixando a cabeça e circulando seu umbigo com a língua. Os últimos anos definitivamente tinham causado mudanças em Megan. Mudanças que Devin estava rapidamente passando a apreciar.


CAPÍTULO 8

NO ÚLTIMO Natal, os pais de Megan haviam lhe dado um kit de ferramentas feminino: martelo, chave de fenda, alicate, tudo em tamanho um pouco menor e cobertos de bolinhas cor-de-rosa. O kit tinha sido útil neste apartamento, permitindo-lhe fazer pequenos reparos sem envolver o proprietário do imóvel. Devin protestara usar ferramentas tão femininas, e Megan tinha de admitir que assisti-lo tentar colocar a porta do banheiro de volta em seu batente, com uma chave de fendas cor-de-rosa, era engraçado. Ela estava sentada na beirada na banheira, oferecendo conselhos não solicitados. – Você precisa de ferramentas de verdade – resmungou Dev, forçando um parafuso de volta no batente. A flexão e extensão dos bíceps e ombros poderosos tinham a total atenção de Megan, e, felizmente, ele não via a necessidade de vestir uma camisa enquanto trabalhava. A pequena chave de fendas escorregou, e ele praguejou. – E uma porta de verdade num apartamento de verdade. Passe-me o martelo. – Não há nada errado com este apartamento. – Levantando-se e entregandolhe o martelo, ela acrescentou: – E você foi o culpado pelo dano. Ele deu-lhe um sorriso que derreteu seus joelhos. – Verdade? Quem pulou em cima de quem no Box? Ela deu de ombros, tentando parecer inabalada diante da memória que esquentou sua pele. – Mas foi a sua... exuberância que destruiu a minha porta. – As dobradiças velhas não tinham aguentado a força das investidas de Dev, quando ele a pressionara contra a porta... – Você quebra, você paga.


– Combinado. – Dev entregou-lhe as ferramentas. A porta ainda estava pendurada num ângulo torto. – Ei, a porta ainda não está consertada. – Eu escolhi pagar. Mandarei um carpinteiro aqui na segunda-feira de manhã. – Ele posicionou-se atrás dela, deixando-a olhando para a porta quebrada. – Devin... Ele abraçou-a pela cintura, puxando-a contra seu peito. A evidência do que Dev preferiria estar fazendo foi pressionada contra a parte baixa de suas costas. – De qualquer forma, há uma boa chance de que quebremos mais alguma coisa antes que nós acabemos aqui. É melhor começarmos uma lista de reparos: mesinha de centro, porta do banheiro... – Os dedos dele deslizaram sob a bainha de sua camiseta larga, que ela vestira depois que a porta quebrara, acariciando seus quadris e barriga. Megan inclinou a cabeça contra o peito dele quando uma das mãos quente subiu para segurar seu seio e provocar seu mamilo. A outra mão de Dev deslizou mais para baixo, arrancando um gemido dela ao primeiro toque em sua parte mais íntima. Estava cada vez mais fácil esquecer tudo que não era Devin. O mundo real parecia uma noção abstrata existindo apenas na sua mente. Só o momento presente e este homem pareciam reais. Concretos. Ela estava se afundando num território perigoso quando angulou o pescoço para lhe dar melhor acesso ao ponto sensível sob sua orelha. Megan sabia que Dev era perigoso para sua sanidade, mas era difícil lembrarse disso no momento. As palavras dele, antes que nós acabemos aqui, deveriam ter sido um lembrete de que esse pequeno interlúdio da realidade não duraria. De certa forma, tais palavras eram um alerta, causando uma dor em seu peito que ela não queria explorar. Porque, se explorasse, teria de desistir da mágica das mãos de Dev em seu corpo, do estranho conforto e segurança que sentia apenas por tê-lo ali. Não queria analisar esses sentimentos também. Só queria sentir. Quando suas pernas perderam a força para sustentar seu peso, o braço de Dev se apertou a sua volta, apoiando-a. A sensação era tão boa que a assustou. Não o bastante para mandá-lo embora, mas o suficiente para preocupá-la.


Mais do que seu apartamento estava em perigo de sofrer danos. TODOS OS interlúdios da realidade chegavam a um fim, e alguma coisa no suspiro de Dev disse a Megan que estava na hora. Eles estavam tomando um café depois do almoço de domingo, e, entre os longos períodos de silêncio e de conversas casuais, ela soubera que o momento estava chegando. Ora, soubera que estava chegando quando cozinhara a frittata favorita de Dev, no café da manhã, pelos velhos tempos. Como tantas vezes hoje, a frittata queimara, devido à habilidade de Dev de distraí-la. E como tantas vezes antes, eles tinham raspado as partes queimadas e comido, mesmo assim. A situação podia parecer os velhos tempos, mas não era. Megan sabia disso. E estava preparada para as palavras. – Eu tenho de ir. – Eu imaginei. – Vou fazer um programa matinal em Cincinnati amanhã, e meu voo sai... – Tudo bem, Dev. Você tem uma vida. Eu também – mentiu ela. – E devemos voltar para elas. – Orgulhosa por ter soado indiferente, ela levantou-se e tirou alguns pratos da mesa. – Eu estou tão atrasada com aqueles artigos. Devin a seguiu para a cozinha. – A agenda desta semana está um pesadelo para mim. Tenho o triplo de compromissos, praticamente todos os dias. E lá estavam as desculpas infinitas... – Eu entendo. Apenas não se esqueça de enviar o carpinteiro, certo? Devin franziu o cenho. – O que há de errado, Megan? – Você está ocupado. Eu entendo. Não precisa me dar explicações. Eu só estou tentando lhe dizer que não espero nada de você além de um carpinteiro para consertar minha porta. – Então é isso? – O fim de semana foi ótimo, mas nós dois sabemos que não significa nada. Devin pareceu ofendido com seu comentário. – Eu estava tentando explicar que, se você quiser jantar, ou fazer qualquer outra coisa esta semana, teria de ser tarde. Depois do programa de rádio. – Oh. – Ela se sentiu tola.


As mãos de Devin se fecharam em seus braços. – Sabe, eu sempre aconselho pessoas a ficarem longe de seus ex-parceiros. Oh, a ironia. – Sim. Eu também. Ele sorriu. – Então, nenhum de nós é bom em aceitar o próprio conselho. – A voz de Devin tornou-se mais séria: – Mas eu não me arrependo que esse fim de semana tenha acontecido. E você? – Não. Sem arrependimentos. – Por enquanto. – Então, vamos jantar amanhã? – Tudo bem. – Uma pequena fogueira aqueceu o coração de Megan. Então o beijo de Dev atiçou as chamas, deixando-a sem fôlego quando ele finalmente afastou-se com um gemido. – Eu gostaria que não precisasse ir. – Eu também – admitiu ela, agarrando-se ao balcão para apoio. – Eu lhe telefono mais tarde. Então, ele se foi, e o apartamento pareceu vazio. Os cômodos pequenos pareceram maiores, agora que Dev não os preenchia. Enquanto andava para seu quarto, Megan observou os danos que eles haviam feito no apartamento: uma mesa quebrada, uma porta quebrada, um abajur que fora chutado do criado-mudo. A lâmpada sobrevivera, mas a cúpula precisava ser desentortada. Mais tarde, pensou ela, indo para baixo das cobertas. O cheiro de Dev permanecia nos travesseiros, e ela inalou profundamente. Tinha sido uma semana louca. Nem mesmo uma semana inteira, percebeu após um rápido cálculo mental. Depois de anos evitando qualquer coisa relacionada a Devin, ela passara de ir acusá-lo na livraria, na segunda-feira, para aconchegar-se ao travesseiro dele no domingo. Devin possuía um talento para virar sua vida de cabeça para baixo. Sempre possuíra. Desde o dia que ele tropeçara em sua escadinha de três degraus na biblioteca e a fizera literalmente cair nos seus braços... Megan sorriu com a lembrança. E, embora a vida com Devin nem sempre tivesse sido fácil, nunca fora tediosa. Era desconcertante pensar em como sua vida vinha sendo sem graça nos


últimos anos. Ela estivera tão focada numa única coisa que se tornara muito enfadonha. Mas não percebera isso até que Dev reavivara essa semana. Ela realmente deveria levantar-se e fazer alguma coisa. Trabalhar naqueles artigos. Arrumar a cozinha. Qualquer coisa além de ficar deitada lá, obcecada por seu ex-marido. Mas estava aconchegada e apreciando a obsessão. O que só provava sua insanidade. ELE DEIXARA Megan por aquilo? Para passar a noite sozinho num hotel de Cincinnati, apenas para acordar antes de o dia clarear, a fim de responder as mesmas sete perguntas que já respondera centenas de vezes para diversos países? Só podia estar insano. Estava irritado com a máquina publicitária por um tempo agora, mas, esta noite, uma linha para o ridículo tinha sido cruzada. Ele, Manny e sua empresária iriam ter uma conversa sobre sua agenda. Era hora de retomar sua vida. Considerou ligar para Megan apenas para conversar, mas sabia que ela estava tentando trabalhar em algumas pesquisas que queria publicar num daqueles jornais acadêmicos. Não seria justo interromper o trabalho dela porque ele estava entediado e solitário em Cincinnati. Ele poderia usar seu tempo para realizar algum trabalho também. Em vez disso, pegou o arquivo que Simon lhe passara na sexta-feira de manhã. Devin contratara Simon, no ano anterior, para trabalhar meio período, como um favor para um amigo, a fim de dar ao jovem alguma experiência real, antes que ele começasse a faculdade de Direito. Privadamente, Devin achava o entusiasmo de Simon um aspecto revigorante na realidade diária de seu emprego, então, sempre arranjava tempo quando Simon o procurava com um caso interessante para discutir. Aquilo impedia sua mente de se atrofiar. Mas isso era diferente. Simon estava mudando da teoria e discussão do passado para assuntos mais atuais e complicados: um caso de um estudante universitário local, envolvendo direito à privacidade, o qual parecia estar com dificuldades no sistema governamental. Simon tinha muitas anotações impressas: perguntas, referências ao estatuto e um pedido perspicaz da Nona Emenda para apoiar seu argumento.


O rapaz era inteligente. Certo, a leitura dele da decisão da Suprema Corte de 1969 não seria sustentada por muito tempo sob pressão, mas a decisão de 1990 seria... Uma hora depois, Devin percebeu que o estudante em questão tinha um grande caso, mas um advogado que não era competente o bastante para cuidar do mesmo. E onde estava a mídia? Onde estava o ultraje diante do desrespeito descarado dos direitos constitucionais do estudante? Por que isso estava passando sob o radar? Ele ligou seu notebook e começou a enviar e-mails. Um para um velho colega de classe que trabalhava para a União Americana das Liberdades Civis agora, um para sua secretária e um para outra personalidade de rádio que adorava uma história como aquela. Isso alertaria todos, e, no momento que ele chegasse em casa, no dia seguinte... Então, lembrou como estava sua agenda para a semana e praguejou baixinho. Provavelmente, não teria tempo para pôr as mãos em alguma coisa tão complicada. E sabia agora que queria estar nesta briga. Bem, ele vinha planejando fazer algumas mudanças, e aí estava mais uma razão para abraçar a causa. A necessidade de ligar para Megan estava realmente forte agora. Ela sempre fora aquela que incentivava seu entusiasmo. Que apropriado que ele e Megan estivessem juntos de novo, ao mesmo tempo em que ele encontrara este caso. Devin sorriu. Definitivamente, o destino estava tentando lhe dizer alguma coisa. Mas era tarde; Megan devia estar dormindo, e ele precisava estar de pé em algumas horas, de qualquer forma. Ele lhe contaria sobre isso, amanhã durante o jantar. A LIGAÇÃO chegara mais cedo do que ela esperara, mas, quando Megan vira o número da clínica no seu telefone, soubera que estava acabado. Todavia, aquilo não a impediu de ter esperança de que as coisas pudessem ser diferentes. Pelo menos, Julie telefonara na noite anterior para alertá-la, então ela não tinha sido pega de surpresa. No tempo que levara para fazer uma pesquisa na internet, a alegria após o fim de semana incrível havia sido destruída pela notoriedade da internet e sua natureza viral.


Dra. Weiss estivera calma, nunca levantando o tom de voz enquanto passava um sermão em Megan sobre comportamento profissional, questões de privacidade, a reputação da clínica e más decisões. Ela até mesmo permitira a Megan uma chance de se explicar, aumentando as esperanças dela antes de destruí-las. Então, no mesmo tom calmo de voz, dra. Weiss a demitira. Megan poderia limpar sua mesa e devolver as chaves depois que a clínica fechasse naquela noite. Chocada, ela se sentara de pernas cruzadas sobre a cama e olhara para o telefone por um longo tempo, incapaz de processar completamente que sua carreira estava acabada. Mas agora, a autopiedade a atingira com força total. Tudo pelo que ela trabalhara estava no lixo, e não era culpa sua. Certo, então tinha agido de forma um pouco impulsiva e tomado uma má decisão, mas isso... Isso era inacreditável. Sua primeira reação foi culpar Devin, mas, ao pensar melhor, aquele não era o estilo dele. Ademais, depois do fim de semana que eles haviam compartilhado, ela não poderia acreditar que Devin tivesse tentado destruí-la, e depois a levado para cama. Não, aquilo fora obra de Kate. A mulher devia ter alguma desordem de personalidade para fazer algo assim. Todavia, saber quem culpar não alterava a situação. Ela estava perdida. Independentemente de como tentasse olhar para aquilo, não havia como salvar sua carreira. Megan estudara tanto na faculdade, lutara tanto para conseguir uma boa residência e, agora, encontrava-se num beco sem saída. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas não ofereciam catarse. Masoquista como era, ela voltou para o computador e checou o arquivo no site Agora Ouça Isto. Não se torturaria ouvindo o clipe novamente, mas podia ver que houvera mais duzentos clicks na última hora. Mais dezenas de comentários de outros sites. A velocidade da internet era uma força perigosa, mas, pelo menos, ela podia acompanhar a queda de sua reputação em tempo real. Megan abriu seu e-mail para encontrar uma mensagem de Devin. Tentei ligar, mas você não está atendendo ao telefone.


Aquilo não era inteiramente verdade. Ela vira o número dele no identificador de chamadas, mas não confiava em si mesma para falar com Dev no momento. Podia não culpá-lo pela situação, mas ele ainda estava muito envolvido na mesma. Apanharei você depois que eu terminar o programa. Estava pensando em onde você quer jantar. Oh, arrume uma sacola para uma noite. Sua casa não é forte o bastante.

Ou Devin não percebia a extensão do que o clipe de áudio fizera, ou estava completamente louco. Qualquer que fosse a opção, ela não planejava sair de casa esta noite. Retiraria suas coisas do consultório, como instruída, mas, depois, entraria debaixo das cobertas para um longo mergulho na tristeza. Pensou no que diria para Devin. Decidiu que o jeito mais fácil era evitá-lo. Se ela o confrontasse, desmoronaria; tudo estava muito cru no momento. Talvez, no dia seguinte, ela o encontrasse. Dev... Não esta noite. Talvez, amanhã possamos conversar.

M O e-mail curto e não explicativo de Megan deixou Devin confuso, mas, uma vez que este não chegara até que ele estivesse pronto para entrar no ar, ele não pôde responder. Ela estava doente? Seu programa de rádio começaria em quatro segundos, mas Devin ainda pretendia ir à casa de Megan mais tarde, obter algumas respostas. Ele entrou no ar, discutiu alguns casos de divórcios de celebridades, conversou com Kate sobre convidados especiais, mas não conseguiu afastar o sentimento desconfortável de que alguma coisa estava errada com Megan. Todavia, a fila de ouvintes estava crescendo, e Kate estava conectando o primeiro telefonema. Ele precisava concentrar-se no que estava fazendo. Felizmente, nenhum dos primeiros ouvintes tinha problemas complicados. Devin usou respostas prontas, recitadas de memória. Estranhamente, a pergunta que esperara não veio até depois do primeiro intervalo.


– Então, onde está a dra. Megan esta noite? – Levando a vida dela, salvando casamentos, esse tipo de coisa. – Ele tentou soar casual sobre aquilo. – Talvez, ela volte a nos visitar no futuro, mas essa não é exatamente a área de especialidade da dra. Megan. – Ele riu. – Ou de interesse, a propósito. Em que posso ajudá-lo? – Minha ex-esposa é tão louca quanto a sua, mas ela não tem problema em mostrar a loucura em público. Louca? – Então, o que eu quero saber é como você consegue manter aquela loucura sob controle na frente de outras pessoas. Não me importo com o que ela fala para mim, mas estou cansado de ter uma audiência. Vocês dois se saíram bem no programa da semana passada, então, como você consegue que ela aja de forma normal? Essa não era a pergunta que ele estivera esperando. Olhou para Kate, como se perguntando se o ouvinte era maluco. O dar de ombros e sorriso de sua empresária enviou sinos de alarme através dele. Devin escolheu suas palavras cuidadosamente: – Se sua ex-esposa é mentalmente doente... – Não, apenas neurótica como a sua. – Perdão? O homem riu. – Amigo, nós todos ouvimos o clipe. Você é um herói por manter a calma, como manteve, porque, minha nossa... Devin tinha perdido uma peça do quebra-cabeça, mas, graças ao ouvinte, agora ele sabia onde encontrá-la. Desconectou a ligação. – Ouvinte? Você está aí? Kate? Parece que estamos com alguma dificuldade técnica. Eu perdi o ouvinte. Kate olhou para a mesa de som. – Eu não sei o que aconteceu... – Ela olhou para cima, viu o sinal dele e assentiu em compreensão. – Desculpem, pessoal, há algo estranho aqui. Iremos para o intervalo enquanto eu resolvo o problema. Enquanto isso, Devin já estava digitando o site onde Kate carregara o que chamava de seus “maiores sucessos”... As ligações mais loucas, mais engraçadas ou mais ridículas. Não levou muito tempo para descobrir qual clipe estava


sendo o mais visto: “Por Trás dos Bastidores com Devin e dra. Megan”. O contador mostrava que milhares de pessoas tinham ouvido, e a barra de comentários... – O que está acontecendo? – Surgiu a voz de Kate através dos alto-falantes do estúdio. A raiva de Devin já estava aflorada, então, ele ignorou-a e clicou “play” no áudio. Dez segundos depois, entendeu as palavras do ouvinte. Mais dez segundos e soube por que Megan não estava no humor de sair para jantar. E o clip tinha cinco minutos e meio de duração. Seu sangue estava fervendo no primeiro minuto. Kate tinha sorte de estar do outro lado do vidro, onde ele não pudesse pôr as mãos nela imediatamente. Ela podia ter cortado a alimentação ao vivo nos microfones deles na outra noite, mas continuara gravando. Com alguns truques e combinações, Kate transformara suas discussões particulares com Megan num clipe malicioso, distorcendo totalmente o que realmente acontecera. Graças à edição de Kate, Megan parecia um pouco louca. – Delete. – Kate abriu a boca para argumentar, mas ele não estava interessado. – Delete agora. Ela pressionou os lábios, mas voltou-se para o computador. Segundos depois, assentiu, e quando ele reabriu a página, o clipe tinha sumido. – Ainda está lá, sabe? A internet nunca esquece. – Então é melhor você se ocupar de algum tipo de retratação ou pedido de desculpas. – Devin – argumentou ela através do vidro. – Esse é o clipe mais ouvido em Agora Ouça Isto desde sábado de manhã. Os acessos ao seu site não param de crescer. Seu livro é o número um na Amazon. A cegueira de Kate para qualquer coisa que não fosse audiência, classificação ou premiação nunca estivera tão clara. Ou tão perigosa. Ela podia não se importar com as pessoas, mas se importava com o próprio emprego. – Você está tentando que sejamos processados? Kate deu de ombros. – Megan não tem base para nos processar. Ela concordou com o programa. Concordou em ser gravada e, possivelmente, usada para propósitos promocionais.


– Ela não concordou que você editasse as palavras dela em alguma coisa que danificasse sua reputação. Em algum lugar, há um advogado tentando convencêla a nos processar. – Ótimo! Deixe-a nos processar. A publicidade adicionada... Devin inclinou-se para mais perto do microfone e declarou: – Você está demitida. – O quê? – Você me ouviu. – Estamos no meio de um programa, Devin. – Eu lidarei com isso. Kate cruzou os braços sobre o peito. – Eu trabalho para a estação, não para você. Não pode me demitir. – Quem você acha que a estação valoriza mais? Eu ou a pessoa que atende ao meu telefone? A declaração abalou-a e Kate ficou vermelha de raiva. – Seu desgraçado. Eu fiz deste programa um sucesso, você sabe disso. – Então, não terá problema em encontrar outra pessoa para quem trabalhar. Mas você não trabalha mais no meu programa. Kate jogou o fone de ouvido sobre a mesa quando Devin abriu a porta entre as cabines. – Vá para o inferno, Devin Kenney. Ela passou por ele, deixando o cheiro de perfume caro em seu rastro. Ele não tinha dúvida de que ouviria do estúdio Powers That Be, pela manhã, defendendo o caso dela. Ele produziria seu próprio programa antes de tê-la de volta à cabine. Falando nisso, seu programa ainda estava no intervalo, e os ouvintes deviam estar confusos. Sentando-se na cadeira de Kate, ele puxou o microfone para mais perto. – Desculpem, amigos, mas estamos tendo grandes dificuldades técnicas esta noite. Peço desculpas a todos que nos aguardam na linha, mas teremos de contar com algumas reprises favoritas para o resto do programa de hoje. Oh, ele ouviria sobre isso no dia seguinte também, mas, no momento, tinha problemas maiores para resolver.


No corredor, encontrou um dos técnicos de som e perguntou: – Você sabe operar uma mesa de som? O jovem assentiu. – Ótimo. Cuide do meu programa, por favor. Devin esperou que o técnico assentisse antes de lhe dar outras instruções. Com Cubra Seus Bens delegado, ele ligou para Manny enquanto esperava o elevador. – Devin! Excelente programa esta noite. Você foi fabuloso, como sempre... A bajulação de Manny irritou-o ainda mais. – O programa ainda está no ar, imbecil. Por que você não me contou que Kate tinha postado um vídeo ridículo na internet? – Porque você me disse para não lhe telefonar até meio-dia de hoje, e, até lá, já era notícia velha. – Manny fungou, mostrando que ainda não esquecera aquele insulto. – Mas a boa notícia é que seu livro subiu para número um na Amazon. Droga. De que tipo de idiotas ele se cercara? – É melhor você surgir com alguma estratégia espetacular de controle de danos para isso. – Devin, você não tem com o que se preocupar... – Para Megan, seu tolo. Pode pensar além de seus cinquenta por cento por um minuto? – O elevador começou a descer para a garagem. – Você e Kate têm os padrões éticos de chefes da máfia. – Kate e eu só queremos o que é melhor para você e sua carreira. E ouça! Você é o maior sucesso no momento. – E Kate está procurando um emprego novo. – Ele esperou que Manny calculasse a posição precária em que se encontrava no momento. – Ouça, eu sei que você e Megan estão revisitando o passado, e você está se sentindo nostálgico depois de seu fim de semana... Como Manny sabe onde eu passei o fim de semana? Maldita imprensa. – Mas, Devin, você tem uma imagem pública para manter. Um personagem que criou e que deve honrar pelos seus fãs. – Eu sou um advogado. Minha imagem pública não pode ferrar todo mundo. Você sabe o que a palavra ética significa? – Seus fãs não o veem como advogado.


– Então, você tem muito trabalho pela frente, a fim de consertar essa situação. – A porta do elevador abriu, e Devin estava perto de seu carro. – Amanhã, conversaremos sobre planos futuros para minha carreira e imagem pública. Enquanto isso, dê um jeito de reverter essa situação. Sem esperar resposta, Devin desligou o celular e deu partida no carro. Olhou para o telefone, então o jogou sobre o banco de passageiro. Não fazia sentido ligar para Megan agora; ela não atenderia, e ele estaria lá em poucos minutos. Devin perdera o controle sobre grande parte de sua vida sem perceber, e este era seu sinal de alerta.


CAPÍTULO 9

QUANDO DEVIN estacionou na frente do apartamento de Megan, uma sensação de medo instalou-se em seu estômago. No mínimo, uma dúzia de fotógrafos estava na frente do prédio de Megan, atraindo uma multidão de vizinhos para o circo. Eles o abordaram antes que o carro parasse completamente, seguindo-o até o prédio com uma enxurrada de perguntas e flashes. Ele não duvidava que a multidão tivesse muito a ver com a mensagem que Megan enviara mais cedo. Culpa de Devin ou não, havia uma boa chance de que Megan o culpasse pelo último fiasco. Se ela estivesse tentando se tornar a pessoa mais famosa de Chicago, sua equipe não poderia ter feito um trabalho melhor em conseguir isso para ela. Não era de admirar que Megan não quisesse vê-lo esta noite. Ela estivera lidando com isso o dia inteiro? Devin bateu à porta, chamando-a pelo nome, a fim de informá-la que era ele, e não outro repórter procurando uma história. Então ouviu o suspiro dela. Hora da verdade. Megan abriria a porta? Se ela não abrisse, os dois seriam alimento dos tabloides no dia seguinte. Megan abriu a porta, mas não parecia feliz em vê-lo. Estava pálida, com olheiras, como se tivesse passado a noite em claro, e Devin soube que Kate, e por extensão, ele, também, era culpada. – Dev, eu... – Dano de Kate. Eu não tinha ideia do que ela havia feito até meia hora atrás. – Eu acredito em você. – Ela soava sincera, mas não abriu mais a porta ou convidou-o para entrar.


– Eu a demiti. – Megan arqueou as sobrancelhas. – E Manny já está trabalhando para diminuir os danos. Sinto muito sobre isso. Megan assentiu, aceitando seu pedido de desculpas. – Você precisa me deixar entrar. Do contrário, nós estaremos em todos os blogs de fofoca em minutos. – Você acha que não estaremos, de qualquer forma? – Mas ela deu um passo atrás e abriu mais a porta para ele. Primeiro obstáculo ultrapassado. Todavia, ela manteve distância entre eles quando fechou a porta e atravessou para o sofá do outro lado da sala. Mudando de ideia, ela sentou-se na cadeira, presumivelmente para impedi-lo de sentar-se ao seu lado no sofá. Então a barreira fria em volta de Megan será meu próximo desafio. Antes que ele pudesse decidir como abordá-la, contudo, notou as quatro caixas ao lado da porta. Caixas que não estavam lá no dia anterior, quando ele partira. – O que é tudo isso? Ainda planejando viajar para o Canadá? – brincou ele. A risada sem humor de Megan o gelou. – Bem que eu gostaria. Esses são os conteúdos que estavam no meu consultório. Kate não foi a única que perdeu o emprego por causa disso hoje. O quê? – Você foi demitida? – Você parece surpreso. – E estou. Um clipe de áudio ridículo circula na internet e você perde seu emprego? – Devin sentou-se do lado do sofá mais próximo à cadeira. – Isso é loucura. – Mas explicava melhor a atitude dela. – Não, isso é o que acontece quando você trabalha numa profissão onde discrição é fundamental, e reputação é tudo. Minha falta da primeira destruiu a segunda. – O clipe foi removido da internet. Ela assentiu. – Obrigada, mas o dano já está feito. – Então, você arranja outro emprego, começa a reconstruir sua reputação... – Ele parou quando Megan meneou a cabeça. – Por que não? – Suponho que eu não expliquei isso claramente na outra noite. É muito difícil conseguir uma boa residência. – Ela suspirou. – Residências que pagam


um salário decente são pouquíssimas, e, a menos que eu queira morrer de fome e parar de pagar meus empréstimos de estudante, não estou em posição de aceitar uma residência não remunerada, mesmo se houver uma disponível. Não há lugar para eu reconstruir minha reputação. Não que isso importe agora. Megan devia estar reagindo de forma exagerada, nada era irremediável, mas, considerando o dia que ela tivera, ele não a pressionaria agora. – Por quê? – Dra. Weiss não é a única preocupada com a reputação da clínica dela. Nenhuma boa terapeuta irá contratar uma estagiária que saiu na internet com transtorno de personalidade limítrofe. – Mas você não tem transtorno algum. Isso foi invenção de Kate, e ela irá admitir o que fez em público. – Bem, uma retratação não irá se espalhar tão depressa, e ainda parecerá estranho para alguém contratando. – Ela suspirou novamente. – E mesmo que eu consiga que alguém me contrate e me deixe terminar minhas horas, o conselho de licenças não ficará impressionado. Eles checam seu passado, sabe? Essa confusão pôs tudo em questionamento: minhas habilidades, minha educação, minha ética, até mesmo minha estabilidade mental. Mesmo que eles possam perdoar o fato de que fui demitida de uma residência, acha que o estado vai dar uma licença para a mal afamada e possivelmente louca dra. Megan? Ela estava obviamente sofrendo, mas... – Há centenas de médicos muito mais mal afamados que você. Quem é aquele com o programa de tevê? Calmamente, quase calmamente demais, Megan meneou a cabeça. – Eles conseguiram suas licenças antes de se tornarem famosos. A maioria não tem licença agora, porque eles não conseguiram renová-la. Mas não é requerida uma licença para fazer esse tipo de programa, então... Devin queria estrangular Kate, mas tinha de admitir que também não era completamente inocente. Ele soubera quais podiam ser as repercussões, e não prejudicara a carreira dela intencionalmente, mas compartilhava a culpa. – Então, o que nós fazemos? – Nós não fazemos nada. Amanhã, eu irei procurar um emprego. – Ótimo. Onde? Megan deu de ombros.


– Eu posso atender num bar, servir mesas... Com as habilidades dela? – Você tem um PhD. – Assim como muitas outras pessoas. Você ficaria surpreso com o nível de instrução das pessoas que servem seu jantar. – Isso é ridículo – protestou ele. – Kate irá confessar que adulterou o clipe. Se alguém vai ficar com uma imagem manchada, é ela. Manny também está empenhado em reparar os danos. E se você precisar de dinheiro... – Você me empresta? – zombou ela. – Esqueça empréstimo. – Megan enrijeceu, e ele pensou numa maneira não insultante de lhe dar o dinheiro. – Manny foi rápido em me dizer o quanto eu estou escapando desse fiasco, portanto, é justo dizer que você mereceu o dinheiro. Ela meneou a cabeça, outra vez. – Dev, eu não estou procurando um protetor. Darei um jeito. Mulher teimosa. – Por que não me deixa ajudá-la? – Porque meus problemas não são seus problemas. Mas certamente pareciam ser. Ele tentou injetar um pouco de humor nas suas próximas palavras: – Na semana passada mesmo, você disse que eu era a fonte de seus problemas. Um pequeno sorriso curvou os lábios de Megan. – Verdade. – Então, deixe-me ajudá-la com essa situação. Ela ficou em silêncio e o sorriso desapareceu. Devin reconheceu o olhar no rosto de Megan. Ela estava tendo um debate interno, tomando uma decisão sobre alguma coisa. Ele apenas não sabia sobre o quê. Um momento depois, Megan respirou fundo. – Eu tive a impressão, quando você foi embora ontem, de que essa última semana foi um tipo de recomeço para nós. Estou errada sobre isso? A honestidade brutal naquelas palavras o pegou de surpresa. Ele não estava preparado para aquilo. Fazer tal pergunta a Devin requisitara toda a bravata que Megan pudera reunir. A expressão de choque no rosto dele agora a fez querer retirar suas


palavras. Não, é uma pergunta justa. Eu dormi com ele novamente, portanto tenho o direito de saber o que Dev está pensando sobre isso. Ela endireitou a coluna. – Então, Dev? Devin pigarreou. – É isso que você quer? – Não faça jogos. Eu não espero que você se ajoelhe e me peça em casamento, ou algo assim. Só preciso saber se isso é divertimento pelos velhos tempos, ou se existe uma possibilidade de futuro. Um longo momento se passou e o coração de Megan disparou no peito. Ela lera erroneamente a situação? – Eu lhe disse que não tenho expectativas a seu respeito, mas acho que pode ser útil saber se estamos pensando do mesmo jeito. Dev assentiu. – Há sempre uma possibilidade, certo? Aquela não era exatamente uma confirmação de qualquer futuro, mas, considerando o passado deles... Não, ela não podia se esconder atrás de Devin agora. Lutara muito para se tornar alguém, para ser alguém além de apenas a esposa de Devin. Não podia fazer isso. Não agora. – Então, eu não posso aceitar seu dinheiro. Aquilo irritou Dev. Ele levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. – Isso não faz o menor sentido, Megan. – Como já notou, eu sou uma pessoa diferente daquela que você costumava conhecer. Lutei arduamente, e só posso entrar numa situação de “possibilidades” como uma igual. Se eu aceitar que você brinque de cavaleiro rico, nós não seremos iguais. – Então, você aceitará ajuda não financeira? Como, por exemplo, se eu colocar Manny para trabalhar? – Apenas se Manny me quiser como uma cliente também. Dev esfregou o rosto em exasperação. – Você está sendo ridícula. – E você está sendo dominador. – Ela respirou fundo. – Tente ver as coisas do meu ponto de vista. Se eu quiser salvar minha carreira, então preciso salvar meu orgulho primeiro.


Dev bufou. – Você está errada. – Perdão? – Se você quiser salvar sua carreira, terá de engolir seu orgulho. Seu ego e seus sentimentos estão feridos, mas... – Espere aí. Qual de nós é o psicólogo? – Isso não tem nada a ver com Psicologia. Isso são Relações Públicas, e eu entendo o circo no qual você foi capturada. Esqueça seu orgulho pelo momento. Faça o que for necessário para superar isso, e seu orgulho irá se recuperar com sua carreira. – Você tem certa razão, Dev, mas... – Sem “mas”. Como acha que meus clientes superam divórcios públicos feios, onde todos os seus segredinhos sujos vão parar nos jornais, e ainda continuam com suas carreiras? Ele estava certo. E sabia que ela sabia disso. – Tudo bem. Eu me rendo. O que você sugere? Devin parou na frente dela e cruzou os braços sobre o peito. – Agora que você não precisa se preocupar com sua chefe, assuma o controle de sua mídia. De verdade, desta vez. – Isso da pessoa que nem mesmo lê sua própria mídia. – Quando Dev continuou olhando-a com expectativa, Megan acrescentou: – Eu já tentei isso, lembra? E a situação piorou, em vez de melhorar. – Meggie, Meggie, Meggie. – Ele balançou a cabeça. – Você entrou nisso com a atitude errada. Agora, vá colocar um vestido. – Você é bipolar? Por que eu faria isso? – Porque nós vamos sair para jantar. Este é o primeiro passo para desmentir o trabalho sujo de Kate. Ademais, eu estou com fome. – Eu não estou com vontade de sair. – Mesmo para seus próprios ouvidos, Megan soou como uma menina petulante de 5 anos. – Durona. – Devin inclinou-se para a frente e pôs as mãos nos braços da cadeira dela, efetivamente prendendo-a. Deixou seus olhos a percorrerem e a fez tremer. – Por mais que eu preferisse ficar aqui, você precisa ser vista em público. Precisa dar a todos uma foto sua de cabeça erguida, mostrando que está seguindo com sua vida. No momento, está agindo como se tivesse feito alguma


coisa do que se envergonhar, e eles se alimentarão disso. De qualquer forma, nós precisaremos da energia que uma boa refeição proporciona – prometeu ele com um sorriso malicioso. Sua carreira estava destruída, e ela passara o dia se lamentando, sem visualizar qualquer solução. Não acreditava necessariamente que o plano de Devin funcionaria, mas ainda era bom ter um plano. Ter alguém otimista ao seu lado. – Tudo bem. Eu vou me arrumar. Devin sorriu e inclinou-se para um beijo abençoado. E quando ele lhe ofereceu uma mão para ajudá-la a levantar, ela percebeu como se sentia mais leve. Que estranho. Hoje era o pior dia de sua vida, mas não parecia mais insuperável. Algo estava muito errado com ela. Este sentimento, todavia... Megan não soltou a mão que a colocou de pé. Em vez disso, entrelaçou os dedos nos dele e o puxou para mais perto. Considerando a história deles, ela e Dev provavelmente não eram uma boa ideia, e envolver-se com ele agora era uma ideia ainda pior, mas, com tudo que lhe acontecera, Megan não tinha nada além de possibilidades a sua frente. Devin era uma possibilidade que ela estava disposta a explorar. Os olhos de Dev se iluminaram quando ela deslizou a outra mão pelo seu peito e seu pescoço, puxando-lhe a cabeça para mais perto da sua. – Antes que eu me vista, preciso me despir, e se eu me despir... Ela não conseguiu terminar a sentença. Ou o pensamento. Ou quaisquer pensamentos durante um tempo maravilhoso. ANOS ATRÁS, Megan tinha idolatrado Dev. A força, a paixão, o carisma dele. Aos seus olhos, ele estivera a apenas um degrau da divindade. Durante a semana seguinte, todavia, ela imaginou se Dev subira na escada celestial enquanto ela não estivera olhando. Devin falava; pessoas ouviam. Ele queria alguma coisa; conseguia. Tinha servos, assistentes e estagiários à sua disposição. Diversos tipos de pessoas procuravam sua aprovação e apoio. Ele podia entrar em qualquer restaurante, e obtinha uma mesa imediatamente. Estranhos num bar lhe enviavam drinques ou pagavam sua conta. Devin jogava pôquer com o prefeito e golfe com o filho do governador.


Megan soubera que ele era famoso. Que era popular. Apenas não percebera quão famoso, popular, rico e influente ele era. E aquilo a incomodava um pouco. Mais do que um pouco, na verdade. Porque Devin era o centro das atenções, e, estando ao seu lado, ela era obrigada a compartilhar a notoriedade. Podia ver os problemas em potencial naquele envolvimento. E isso lhe dava uma desculpa, por mais esfarrapada que Dev a considerasse, para continuar voltando para seu próprio apartamento em bases regulares. Como estava fazendo agora. Apenas um fotógrafo a esperava esta manhã, quatro a menos do que no começo da semana, então Megan sorriu e acenou, enquanto subia a escada. Os blogs tinham tido um dia cheio com a reconciliação pública deles, exatamente como Dev previra, especialmente porque a reconciliação viera tão em seguida ao clipe de áudio desastroso, e agora desacreditado, de Kate. Outra aparição no programa de rádio de Dev, diversos jantares muito públicos e algumas fotos de Megan saindo do prédio de apartamento de Dev nas primeiras horas da manhã levaram a mídia para uma direção totalmente nova. Em questão de dias, ela passara da “ex-esposa louca” para “a mulher que poderia domar Devin Kenney”. Dev estivera certo sobre aquilo. Mas ela ainda não tinha um emprego ou um plano para o que faria a seguir. O foco da atenção da mídia se tornara positivo, o que era bom num nível pessoal, mas a atenção ainda estava lá. Sem emprego significava sem dinheiro, e suas economias não durariam muito. Megan não permitiria que Dev lhe desse dinheiro, portanto, tinha de fazer alguma coisa. Havia uma razão mais sólida por trás de seu retorno para seu apartamento todos os dias. Ela e Dev podiam estar “explorando possibilidades”, mas não era sensato acostumar-se ao edifício sofisticado de Dev em Lakeshore Drive, ou às limusines ou aos camarotes em teatros. Voltar para sua própria casa ajudava a lembrá-la de que, no momento, nada era permanente. Eles estavam se divertindo, curando velhas feridas e enterrando alguns fantasmas do passado. Isso era saudável. Positivo. O fato de que também estava reparando danos em seu ego e sua imagem profissional era um bônus. Mas ela recusava-se a ler alguma coisa a mais no relacionamento deles.


Também precisava encontrar um emprego. Megan jogou sua bolsa no sofá e acessou seus e-mails para ver se havia alguma resposta dos que enviara. Sua caixa de entrada estava cheia de mensagens, porém, a maioria inútil. Todavia, apesar de seus protestos, Devin colocara Manny para trabalhar no nome dela, e um e-mail de Manny chamou sua atenção. Desculpe, Megan. Ninguém está mordendo a isca. Honestamente, agora que você e Devin são um casal, você não é mais tão interessante.

Ser pronunciada como desinteressante magoava um pouco, mas aquilo não era inesperado. O jeito casual que Manny usou para descrevê-los como “casal”, todavia, era. Alguns blogs tinham especulado sobre a volta deles, principalmente porque Advogado de Divórcio e Terapeuta de Casais davam manchetes interessantes, mas Manny? Não. Manny está apenas cotando o sentimento público sobre minha pessoa desinteressante, nada mais. Seu celular tocou dentro de sua bolsa, o toque característico informando-a que era Dev. – Onde você está, Meggie? – Em casa. – Eu acabei de tentar o número de casa. Por que você não atendeu? Ela suspirou. – Na minha casa, Dev. Não na sua. – Por que você insiste em voltar para aí todos os dias? Minha casa é grande o bastante... – Nós já tivemos essa conversa, Dev – interrompeu ela, e o ouviu suspirar. – E você, o que conta? – Fechando seu e-mail, Megan pôs o computador sobre a mesinha de centro e se recostou contra as almofadas. – Dia louco, e eu deixei um arquivo na cozinha... – Sim, eu vi um quando fui fazer café. – Eu estava com a esperança de convencer você a trazê-lo para mim. – A voz dele era sedutora. – Eu a levo para almoçar depois. Dirigir para casa de Dev, pegar o arquivo, dirigir para o escritório dele... Já teria passado da hora do almoço quando ela chegasse lá. Olhou ao redor. Não


era como se tivesse alguma coisa para fazer hoje. – Acho que eu poderia fazer isso. – Obrigado. Até daqui a pouco. Ela nem mesmo tivera a chance de tirar os sapatos. Pegou suas chaves e bolsa e saiu, acenando para o fotógrafo novamente. No meio do caminho para o apartamento de Devin, lembrou-se do exército de assistentes dele. Por que ele não enviara um deles para pegar o arquivo, se este era tão importante? Teria sido mais rápido e mais fácil para todos. O próximo pensamento lhe causou um calafrio. Dev a estava tratando como sua esposa de novo. E não de um jeito bom. Atrasadamente, Megan percebeu que estava assumindo este exato papel, cozinhando, comprando coisas para casa dele... Eles haviam caído nos velhos hábitos, então, por que ela estava surpresa por isto? Afinal de contas, por que enviar um assistente para fazer algo que sua esposa podia fazer, e fizera, centenas de vezes? O que viria a seguir? Buscar as roupas dele na lavanderia? E pensar que ela queria uma parceria de igualdade... Oh, não. Isso não era nada bom. A RECEPCIONISTA interfonou para Devin para informá-lo que Megan estava a caminho de seu escritório. Ele consultou o relógio. Aquilo tinha sido rápido. Ótimo. Poderia dar o arquivo para Simon e enviá-lo para encontrar Mark da União Americana pelas Liberdades Civis. Assim que a publicidade cercando seu livro acabasse, e Manny estava trabalhando nisso, ele seria capaz de devotar algum tempo ao caso do jovem homem. Até lá, Simon teria alguma experiência real sendo assistente de Devin nas preliminares. Megan bateu à porta, e ele pediu que ela entrasse. Ela estivera aninhada embaixo das cobertas quando ele saíra esta manhã. O estresse estava abalando-a, Devin sabia. Ela ainda não conseguira emprego e estava preocupada com dinheiro e com o exame para obter a licença. Se ela apenas aceitasse sua ajuda... Não, Megan parecia determinada a superar aquilo sozinha. O que era um pouco insultante. Ela pousava ao seu lado para a imprensa, aquecia sua cama e seu corpo de noite, mas possuía uma parede intransponível ao redor de si mesma no que dizia respeito a qualquer outra coisa.


A expressão tensa de Megan ao entrar na sua sala informou-o que alguma outra coisa tinha dado errada. – Você está bem? – perguntou ele, sabendo que provavelmente não receberia uma resposta verdadeira. – Ótima. Aqui está o arquivo que você esqueceu. E outro que achei sobre a mesinha de centro. – Obrigado, Meggie. Você me salvou. – Ela aceitou o beijo leve em seus lábios, mas não correspondeu. – Deixe-me entregar isto para Simon, e eu a levarei para almoçar. – Eu não estou com fome, obrigada. Oh, ele conhecia aquele tom. Inclinou-se contra a mesa. – O que está errado? – Nada. Devin esperou. – Eu não sou sua empregada. Da próxima vez que precisar de uma coisa assim, peça para um de seus assistentes. – Eu não sabia que seria uma inconveniência... – Porque eu não tenho um emprego? – desafiou ela. Aquilo podia tê-lo incentivado um pouco a fazer o pedido, mas somente um tolo admitiria isso agora. Não com Meggie já tão irritada. – Você acreditaria que foi uma desculpa para que você viesse aqui e almoçasse comigo? – Isso também era verdade. – Não, mas você ganha pontos por tentar. – Você poderia ter negado se estava ocupada. – Acho que estabelecemos que eu não estava ocupada – resmungou ela. – Apenas não acho que nós deveríamos cair em velhos hábitos que um de nós, ou ambos, possa se ressentir. Não querendo discutir, Devin murmurou: – Da próxima vez, eu enviarei alguém, certo? – Obrigada. – Ela pareceu relaxar. – Agora você pode me levar para almoçar. Aquela era uma virada. – Então, você está com fome afinal de contas? – Talvez. – Estamos fazendo algum tipo de jogo?


– Sem jogos. – Ela arqueou uma sobrancelha. – Acho que estamos um pouco velhos para isso, não acha? – E nos conhecemos bem demais para que um jogo funcione. Megan sorriu. – Isso também. – Ela apontou para o arquivo. – Suponho que esse é o caso do qual você estava me falando? Ele assentiu. Pobre Megan tivera de ouvir seu sermão sobre a doutrina privada e a Décima-quarta Emenda por uma hora, noutra noite. E ouvira usando nada além de um lençol e um sorriso que Devin não vira desde que fizera a mesma coisa na faculdade de Direito. – Eu vou enviar Simon à União Americana pelas Liberdades Civis hoje. – É bom ver você tão empolgado com isso. Ele estava empolgado. Era um sentimento incomum. – Faz um tempo, certamente. – Mas quando você terá tempo para tanta coisa? Sua prática de advocacia, o programa de rádio, o livro, e agora isso. – Algumas coisas serão rearranjadas no futuro. – Ele levou o arquivo para o corredor e acenou para um assistente, com instruções para ele encontrar Simon. Então, voltou a entrar na sala e trancou a porta. – Eu estava tão envolvido no show business que esqueci que era advogado. – Bom para você, Dev. Este rapaz é muito sortudo... Você tem experiência para ajudar o caso, e o conhecimento de seu nome também irá ajudar. – Bem, definitivamente não vai atrapalhar. – Ele sentou-se na extremidade da mesa. – A mídia parece ter ignorado esse caso, mas... Ela também se sentou na beirada da mesa. – Mas nós sabemos o que acontece a alguém que entra em sua órbita. Manchete instantânea de jornal. – A pequena risada de Megan não pôde mascarar o tom seco. – Você se arrepende de estar de volta em minha órbita? – Não. – Ela o fitou de lado e sorriu. – Talvez, um pouco – corrigiu. – Eu gostaria que não tivesse perdido meu emprego por causa disso, mas estar com você de novo... Devin esperou enquanto ela pensava.


– Honestamente? Humm, estar com você não é nada ruim. – A mão sobre a mesa deslizou para se fechar ao redor da dele. Aquela não era exatamente a resposta entusiasta que seu ego esperara, mas ele aceitaria isso. Um pequeno puxão foi tudo que Devin precisou para tomá-la nos braços, e ela ergueu-se na ponta dos pés para lhe capturar os lábios. O beijo de Megan aqueceu seu sangue instantaneamente. Suas mãos envolveram a cintura dela, puxando-a mais para perto, encaixando seus corpos. Quando ele deslizou uma das mãos por baixo da blusa dela, Megan tentou afastar-se. – Dev! Alguém poderia... – Ninguém vai entrar aqui. Ela arfou quando ele abriu o fecho do sutiã e segurou seus seios. – Eu não vim aqui para fazer sexo em sua mesa – protestou ela com fraqueza. – Tudo bem – disse ele, então quase riu da expressão desapontada no rosto de Megan. Desceu da mesa e a conduziu para o outro lado de seu escritório. – Todavia, como você vai notar, psicólogos não são os únicos que têm sofás em seus escritórios.


CAPÍTULO 10

– VOCÊ TENTOU ligar para a clínica do dr. Kincaid? – Julie levou um copo de vinho para Megan e tentou parecer otimista. – Eu soube... – Ela parou quando Megan balançou a cabeça. – Eu tentei todo mundo. Ninguém quer me contratar. Bem – emendou ela –, dr. Hearst, da clínica em Elgin, pareceu interessado, mas ele é um pouco pedante. E eu tive a impressão de que ele queria... – Megan não pôde terminar. – Queria o quê? – Tocar em mim. – Eca. – Julie estremeceu. – Nem me fale. – O que eu posso fazer? – A preocupação era genuína. Julie vinha tentando ajudar mais do que Megan esperara. Primeiro, argumentando com dra. Weiss, depois enviando pedidos para sua lista de contatos, para ver se alguém precisava de uma estagiária. Julie não tivera mais sorte do que a própria Megan. – Você fez tudo que pôde, e eu sou muito grata. Então, isto – ela indicou o vinho – é exatamente o que preciso. Conversa com uma amiga. Drinques sem compaixão. Uma chance para sair um pouco. – Mi casa, su casa – ofereceu Julie. – E isso pode ser literal se necessário. – Eu não corro o risco de ser despejada. Ainda. – Mas era bom saber que ela teria um lugar para ir se necessário. O apartamento de Julie era um castelo comparado ao seu, mas, então, a família de Julie ainda a sustentava. Megan não queria pedir a ajuda de seus pais, embora eles tivessem oferecido, porque não


estava disposta a admitir derrota. – Na verdade, eu liguei para um de meus professores e ele me arranjou uma residência. – Verdade? Isso é ótimo. – É uma clínica pequena, com clientes de baixa renda, e eu trabalharia principalmente com viciados em álcool ou drogas. – Eu ouço um “mas” – murmurou Julie. – Mas o dinheiro é pouco. E é em Carbondale. Julie torceu o nariz. – Fica a quatro horas daqui? – Cinco e meia. – Ela tentou soar entusiasmada. – Mas o custo de vida lá é mais baixo, então, se eu pegasse um emprego de meio período à parte, talvez, pudesse dar certo. – O que Devin acha disso? – Ainda não lhe contei. Ele não entende por que eu não me mudo para o apartamento dele. – Honestamente, nem eu. – Jules, você iria morar com seu ex-marido? – Eu não tenho um ex-marido. – Touché. Mas morar com Dev não é uma boa ideia. – Diante do olhar duvidoso de Julie, ela acrescentou: – À parte os óbvios benefícios, é claro. – Megan deu um gole do vinho. – Não tenho certeza para onde Dev e eu estamos nos dirigindo no momento, e acho que nem ele. Mesmo se eu soubesse, esta ainda não é uma opção. – Por que não? – Porque eu sentiria como se tivesse fracassado em minha própria vida e voltado rastejando para ele. – Então, você prefere mudar de cidade? – Não, mas, pelo menos, eu estaria tendo sucesso ou fracassando sozinha. – Você estava tendo sucesso até que a carreira de Devin cruzou com a sua de maneira tão desastrosa. Isso não é um fracasso, e mesmo que fosse, não seria culpa sua. – Eu sei. Mas, se eu deixar Dev me salvar, vou me sentir como se não tivesse realizado nada nos últimos sete anos, porque eu seria Meggie novamente. Não posso fazer isso. Não farei isso.


Julie a estudou. – Há alguma coisa que você não me contou sobre seu casamento? – Não é nada do que você está pensando. – Ela deu outro gole do vinho. – Parte do que nos separou foi que eu era apenas “esposa de Devin”. Ele pode não ter sido o Devin Kenney na época, mas já era popular. Importante. Numa menor escala, mas ainda assim sempre me senti como a assistente, nem mesmo uma assistente útil. Mais do tipo inútil, de quem você sente pena e não entende por que o herói a suporta. Não posso passar o resto da minha vida como a assistente. – Não precisa ser assim. Eu não a conheci na época, mas a conheço agora, e você definitivamente não é apenas uma assistente. – Obrigada. – Ela girou o vinho no copo. – Então, é claro, sempre há a possibilidade de que Dev e eu nos separemos novamente. Eu não posso arriscar meu futuro em algo incerto. – Essa é uma possibilidade? – Qualquer coisa é uma possibilidade, mas pense, dra. Moss. Quais você acha que são nossas chances? Realisticamente. Julie franziu o cenho. – Exatamente. Reunir-se com seu ex é lembrar por que vocês se uniram em primeiro lugar. – E o sexo ardente. Megan fez uma careta. – Eu nunca deveria ter lhe contado isso. Sim, o sexo é fabuloso, mas você não pode pensar em qualquer tipo de futuro baseada no calor do sexo. Você e eu sabemos que o problema com reencontros é que todas as razões pelas quais o casamento acabou estão geralmente lá, sob a superfície, esperando para explodir. – Mas você sabe o que há sob a superfície, então... – Se eu fosse sua cliente, você me encorajaria a isso? – Provavelmente não. – Julie encheu o copo das duas. – Mas você não é minha cliente. É dra. Megan. – Ela levantou o copo num brinde zombeteiro. – Não posso lhe dizer o quanto detesto esse nome e o que ele implica. – Não seja tão esnobe. Então, quatro ou cinco meses em Carbondale, huh? – Julie estremeceu delicadamente. – Você fala como se eu estivesse sendo exilada para Sibéria. Carbondale não é no fim do mundo.


– Mas também não é Chicago. – Seria necessário um guindaste para tirar você da cidade, mas eu sou um pouco mais flexível. Em seis meses, no máximo, estarei de volta. Ademais, há a vantagem adicional de dar a tudo isso tempo para realmente morrer e ser esquecido. Eu voltarei, obterei minha licença, e nós poderemos começar nossa própria clínica, como planejamos. Apenas com um pequeno desvio. – Parece que você está decidida. – Quase. Não posso hesitar. A clínica precisa de alguém com urgência, e eu preciso de um emprego também. Alguma coisa tem de acontecer logo. – O que me leva de volta à questão anterior. E quanto a Devin? Megan não tinha uma resposta pronta. Julie, como a boa terapeuta que era, esperou pacientemente, enquanto Megan pensava. – Eu tomei muitas decisões na minha vida, onde Devin pesava na balança. Mudei-me para Urbana por ele, de modo que ele pudesse fazer a faculdade de Direito, depois, eu me mudei para Albany, apesar de Dev. Admito que Devin é um dos fatores nesta equação, mas preciso tomar uma decisão baseada no que eu quero e no que é melhor para mim a longo prazo. – E isso é...? Megan suspirou. – Como eu gostaria de saber. MEGAN ESTAVA estranhamente calada esta noite. Ela estava mais quieta por dois dias, mas, esta noite, o silêncio era quase completo. Algo estava acontecendo, porém Devin sabia que não tinha mais chance de receber uma resposta do que tivera ontem ou anteontem. Mas ela estava lá pelo menos. Não passava o tempo inteiro no seu apartamento, mas estava passando mais tempo lá do que no próprio, ultimamente, portanto, isso era um progresso. Megan estava aconchegada num dos cantos do sofá, assistindo ao noticiário, enquanto ele se estendia com seu notebook no canto oposto. Tinham caído no que Megan costumava chamar de “modo de pessoas casadas há muito tempo”, como se nunca tivessem se separado. Aquilo era familiar e prazeroso, e, pela primeira vez em longo tempo, Devin começava ansiar por suas noites de folga.


Até mesmo se descobriu procurando maneiras de limpar sua agenda, a fim de ter mais tempo livre e uma vida novamente. Então, estava contente em esperar que ela falasse. Sabia que a melhor abordagem ao silêncio de Megan era esperar até que ela estivesse pronta para se abrir. Como se ouvisse seus pensamentos, Megan desligou a televisão e o cutucou com o pé. – Eu recebi uma oferta de emprego. Uma chance para terminar minha residência quase no prazo. Devin pôs o notebook de lado. – Isso é ótimo, Meggie. Eu disse que você encontraria um. Há uma garrafa de champanhe ainda na geladeira... – Ele parou quando ela meneou a cabeça, e, atrasadamente, percebeu que ela deveria estar muito mais feliz sobre a notícia do que estava expressando. E, uma vez que ela demorara tanto a lhe contar sobre aquilo, ele provavelmente também não ficaria feliz. – Não é perfeito. O salário é baixo e as horas serão infinitas, mas eu não posso ser muito exigente. – E? – perguntou Devin, sabendo que havia mais. – E é em Carbondale. Agora, ele entendia o humor de Megan. – Por favor, diga-me que esse é um bairro no subúrbio, do qual eu nunca ouvi falar. – Não, é a cidade Carbondale. Devin escolheu as palavras cuidadosamente, não gostando da sensação de déjà vu que experimentava. – Você já aceitou? – Não, eu disse a eles que precisava pensar, e daria uma resposta até sextafeira. Se eu aceitar, terei uma semana para me instalar na cidade, e começarei na próxima segunda. Se ela ainda não aceitara, então talvez estivesse lhe dando a chance de confirmar sua última oferta. – Você não precisa se mudar para Carbondale. Eu já lhe disse... – Que você me ajudaria, eu sei. Mas eu lhe disse, repetidamente, que não estou procurando um protetor para me sustentar. Eu quero, preciso, conseguir isso por


mim mesma. Deus, ela era teimosa. – Então, você prefere se mudar para o lado oposto do estado, em vez de aceitar dinheiro de mim? Ela deu de ombros. – São seis meses no máximo. – E quanto a isto? – Ele indicou os dois. Aquilo a irritou. – Isto? Eu nem sei o que é isto. Certamente, não é o bastante para desistir da oportunidade de salvar minha carreira. É claro. A preciosa carreira de Megan era sempre a coisa mais importante. – Nunca é, verdade? – Oh, por favor. Nós vamos tocar esta música novamente? – Ela fez uma careta. – Cresça, Devin. Nem tudo pode ser sobre você. Algumas coisas têm de ser sobre mim, sabia? São seis meses. Nada pode resultar disto se você não pode lidar com seis meses. – Megan levantou-se do sofá, olhando-o. – Apenas uma vez seria bom se você pudesse pensar, por um momento, além de na sua vida e na sua conveniência. Eu aguentei muito mais do que seis meses em Carbondale por você e sua carreira. Mudando de estado, trocando de escola, atrasando minha formatura, porque todos os meus créditos não seriam transferidos... Ele já ouvira tudo aquilo antes, e, agora, Megan não era a única zangada. – Sim, e nada ia se colocar entre você e sua carreira. Então, você partiu. – Droga, Dev. Eu não estou lhe pedindo para se mudar para Carbondale. É claro que não. – Que bom. Ela ignorou o comentário dele. – Tudo que estou pedindo é seu apoio. Talvez um pouco de cooperação. Apenas um sinal de que me envolver com você novamente não vai me levar à outra queda. Eu tive de escolher da última vez... – E escolheu seu emprego. – Porque você não estava disposto a tentar chegar a um acordo, de modo que ambos pudéssemos ser felizes. – Chegar a um acordo? – Ele bufou. – Minha escolha era Albany ou nada. – Não é verdade, e você sabe disso.


– Realmente, Megan? Em que lugar de sua lista de prioridades eu estava? Não podia ser no topo. – Nem tente... – Oh, eu tentei. Na época e agora. Tive a esperança de que sua lista de prioridades pudesse ter mudado um pouco. Suponho que me enganei. – E eu pensei que você tivesse mudado. Que tentaria entender como adultos agem num relacionamento. Um relacionamento de igualdade. – Ela inclinou a cabeça daquele jeito que o irritava. – Suponho que ambos nos enganamos. Devin estivera se enganando que ela mudara. Que estivesse disposta a valorizar alguma coisa além da carreira. Como ele, para variar. Mas não. Eles estavam de volta onde haviam terminado da última vez. – Você tem razão. Megan respirou fundo. – Vamos apenas esquecer isso, certo? – Esquecer o quê? – Tudo. Tudo que aconteceu desde que cometi o erro de me aproximar de você novamente. Você volta para sua vida fabulosa, e eu tentarei salvar alguma coisa da minha. Em Carbondale. Ela o estava abandonando novamente. Pelo menos, desta vez, acontecera antes que ele se envolvesse como um tolo apaixonado. – Se é isso que você quer, Megan, assim seja. Assim seja. As mesmas palavras que ele usara quando ela dissera que o estava deixando da última vez. Os olhos de Dev continham a mesma frieza amarga. A sensação era puro déjà vu. Ela estava com 22 anos de novo, e seu coração parecia ter sido partido por uma lâmina enferrujada. Como podia doer tanto uma segunda vez? Seu coração esquecera que faziam sete anos? Ela se enganara o tempo inteiro, acreditando que deixara de amá-lo? Enquanto Devin a olhava, o maxilar rijo mostrando raiva, a dor no peito de Megan se espalhou, até que ficou difícil respirar. Ela engoliu em seco e falou cuidadosamente para impedir que sua voz tremesse: – Estou tão feliz que tivemos essa conversa, Devin. É bom ter certeza de que absolutamente nada mudou entre nós. – A dor que a assolou enfatizou a verdade daquela declaração. Oh, sim, ela estivera se enganando. E fazendo um bom trabalho disso até agora.


Pensara sobre aquilo, sobre Devin, o emprego em Carbondale, sobre si mesma, sua carreira... de todos os ângulos possíveis. Obviamente, conseguira ignorar a maior questão bem na sua frente. Tinha sua resposta agora, todavia. E sabia o que precisava fazer. – E VOCÊ simplesmente foi embora? Sem mais discussões? – Julie ficara boquiaberta pela maior parte da conversa, mas, quando ela conseguiu falar, Megan não gostou das perguntas. Julie supostamente estava lá para ajudá-la a empacotar as coisas para a mudança, mas não fizera nada desde que Megan começara a lhe contar o que acontecera com Devin. – O que mais havia para discutir? Devin não quer que eu aceite o emprego, embora este seja o único jeito que tenho de terminar uma coisa que é muito importante para mim. É muito egoísmo da parte dele. – Ela fechou a caixa com objetos de vidro e passou fita adesiva no topo. Felizmente, não possuía muitas coisas, e Julie oferecera guardar na casa dela o que Megan não queria levar, enquanto ela estivesse fora. – Da última vez, apoiei os objetivos de Devin, e ele não apoiou os meus. Eu esperava mais desta vez. – Posso apostar que você não deu realmente uma chance a ele? Megan sentou-se nos calcanhares. – Eu acho que dei. Devin não vê meio termo na questão. Ou eu fico ou vou. Não farei esse jogo novamente. – Ouça, concordo que Devin está sendo um pouco tolo, e eu adoraria estrangulá-lo por fazer você passar por tudo isso. Mas, querida, acho que você está sendo um pouco irracional. – E eu não acho que pedi sua opinião. – Alguém está irritada. – Julie balançou a cabeça em censura. – Você não ficaria? Eu passei semanas terríveis. Minha vida inteira foi virada de cabeça para baixo. – E a de Devin não foi? – Talvez, mas não tanto quanto a minha. Ele tem uma firma de advocacia bem-sucedida, um programa de rádio popular e um best-seller. O pobrezinho não está exatamente sofrendo por causa de uma mídia ruim causada pela exesposa. Eu, por outro lado... – Megan esfregou as têmporas, tentando liberar a


tensão crescente. – Devin age como se qualquer ambição que eu tenha seja um ataque direto a ele. – Desculpe, querida, mas essa parece conversa de velha bagagem e autopiedade. A crítica doeu. – Você não é uma psicóloga muito boa, sabia? Julie sorriu. – Uma vez que esta é uma conversa entre amigas, e livre, eu tenho permissão de lhe dizer que você precisa crescer e agir como adulta. Foi a vez de Megan ficar boquiaberta. – E pensar que sou eu quem está procurando emprego. Você é a pior psicóloga que eu já conheci. Vou chamar dra. Weiss. Julie descartou a crítica com um gesto da mão. – Mas eu sou uma boa amiga, querida. E sei que você queria cumplicidade nesta conversa, mas, sem dúvida, sabe que não está pensando claramente. – Então, uma vez que esta é uma conversa entre amigas, e não uma terapia, diga-me o que você acha que eu devo fazer. – Você sabe o que deve fazer. É claro que sei. – Sim. – Então, ligue para Devin. Peça desculpas por agir como uma criança, e lhe diga claramente o que você quer. Dê-lhe a oportunidade de agir como adulto, e, talvez, vocês dois possam resolver esta situação. – Julie arqueou uma sobrancelha. – Você sabe o que quer, certo? – Eu sei o que não quero – murmurou Megan. – Aqui está minha visão não solicitada da situação. Vocês se divorciaram quando uma boa terapia de casais teria sido uma melhor opção. Então as coisas se tornaram frenéticas e seus caminhos se encontraram novamente. Problemas não resolvidos, emoções à flor da pele, alguns hormônios, e vocês estragaram tudo. Estou certa? Megan assentiu. – Mas você tem mais experiência agora. Trabalhou com casais que tinham situações muito mais complicadas do que a sua, e que deram certo. Não há nada


sem solução aqui, e vocês dois estão dispostos a trabalhar nisso. – Ela pigarreou. – Apenas minha opinião, como a pior psicóloga do mundo. – Mas a melhor amiga. – Megan refletiu por um minuto. – Você realmente acha que Dev e eu poderíamos fazer o relacionamento dar certo desta vez? – Será difícil, mas acho que vale a pena tentar. E, a essas alturas, você tem algo a perder? Sim, eu tenho. – Se eu fosse sua cliente, o que você diria? – Eu recomendaria uma conversa honesta, sem expectativas, talvez com um terapeuta presente, para ajudar a mantê-los no tópico. Você conhece o processo, Megan. Onde está Devin agora? Megan consultou seu relógio. – Às 19h15 de uma quarta-feira à noite... No estúdio. Suponho que posso ligar para ele depois do programa. – Excelente plano. – Julie tirou os pés do sofá e calçou seus sapatos. – Eu vou embora. Tome um banho e vista alguma roupa bonita. Convide-o para jantar e conversem. Como adultos. Megan considerou as possibilidades. A pequena esperança despertada pela conversa com Julie começou a crescer e a fez relaxar. – Obrigada, Julie. – De nada. – Julie pegou sua bolsa e foi para a porta. – Ligue-me amanhã e me conte como foi. Boa sorte, querida. – Ela piscou. – Minha conta chegará pelo correio. Assim que Julie saiu, Megan ligou o rádio. A voz de Devin preencheu a sala, arrepiando sua pele. Agora, ela não queria esperar o programa acabar. Não podia ligar para a fila de ouvintes para isso, e Dev não atenderia ao telefone enquanto estivesse no ar, mas poderia lhe enviar uma mensagem de texto, e pedir que ele lhe telefonasse durante o intervalo ou quando acabasse o programa. Talvez, um e-mail fosse melhor? Quanto mais ela pensava naquilo, mais excitada ficava. Poderia estar no estúdio antes que o programa terminasse. Poderia esperá-lo do lado de fora... A menção de seu nome interrompeu seus pensamentos e a fez congelar. Ela ouvira seu nome, mas não as palavras que o acompanhavam. Aumentou o volume.


– E eu lhe digo que não vale a pena. Você e seu ex-parceiro se separaram por uma razão. Às vezes, é fácil esquecer isso, até ser capturado na nostalgia dos velhos tempos, mas a verdade da situação nunca muda. – Mas – a voz da ouvinte interrompeu –, você e dra. Megan pareciam... A risada amarga de Dev causou dor em Megan. – Aí está a prova de que qualquer pessoa pode ser capturada nesta armadilha. Insanidade temporária pode afetar até os melhores de nós. Os joelhos de Megan tremeram. – Meu ex jura que mudou, e ele parece diferente agora. – Pessoas não mudam realmente. – O tom de Devin era sarcástico. – Elas dizem para si mesmas, e para você, que mudaram, mas não acredite nisso. A verdade é que pessoas, no seu íntimo, não podem mudar. Em qualquer outra situação, Megan teria desafiado aquela declaração, mas o mal-estar em seu estômago era mais forte do que qualquer ultraje profissional. – Aprendam com o meu erro, pessoal. Foi certamente público o bastante. – Ele riu. – Todavia, esse é o perigo dos ex-parceiros. Megan e eu nos divertimos por um tempo quando éramos crianças, mas não deveríamos ter nos casado. Eu senti pena dela quando a publicidade devido ao livro lhe causou problemas... Raiva começou a inundá-la. – E deixei que a ideia de “tudo velho é novo outra vez” confundir minha cabeça. Sim, envolver-se com sua ex é divertido e excitante por um tempo, mas nada de bom resultará disso. Este é um pensamento tolo, pessoal, e já falamos sobre pensamentos tolos neste programa dúzias de vezes. Pensamentos tolos fazem você perder a casa e o carro. Pensamento tolo, realmente. Parece que eu sou culpada disso. A ouvinte tentou argumentar. – Mas, às vezes, quando estamos juntos, parece tão certo. Megan não achou que a voz de Devin pudesse se tornar mais cruel, mas se tornou. – Quer dizer que você está dormindo com seu ex novamente? – Bem... – Isso realmente é tolice. Eu não me importo quão bom seu ex é na cama, e, honestamente, metade das vezes, a realidade não será tão boa quanto a memória. Um calafrio percorreu a coluna de Megan.


– Ouça, ouvinte, eu sei que violei uma das minhas dez regras principais, e que tal fato provavelmente a confundiu. Mas vamos ver isso como uma boa lição para todos. Todos nós somos suscetíveis ao calor de uma velha chama, inclusive eu. E, embora eu não recomende que alguém se envolva com seu ex novamente, se você estiver envolvida, aceite que cometeu um erro tolo e fuja. Corte o elo. Megan queria jogar alguma coisa nos alto-falantes. Queria bater em si mesma por sua estupidez. Eu sou uma idiota. Não deveria ter deixado Julie convencê-la a abandonar seu plano original, nem por um minuto. Estivera certa o tempo inteiro. – Você está certo, Devin. Obrigada. – Não tem de quê, ouvinte. Vamos fazer um pequeno intervalo e, quando voltarmos, falaremos mais sobre ex-parceiros, e quando você deve pedir uma modificação de seu acordo de divórcio original. Eu sou Devin Kenney e estou aqui em Cubra Seus Bens para ajudá-los. Eu posso ser uma idiota, mas Dev é pior. – Não precisava me jogar debaixo do ônibus para expor seu ponto de vista, Dev – disse ela para o rádio. Sua excitação anterior tinha sido substituída por indignação e resolução fortalecida. Ela usaria aquilo como uma experiência de aprendizado e um ponto de partida. Iria para o exílio em Carbondale, mas logo voltaria para Chicago. E quando voltasse... Oh, provavelmente não seria capaz de fazer muita coisa para Dev, pelo menos nada no nível do que ele lhe fizera recentemente, mas ela não teria as mãos amarradas como agora. Estivera certa. Dev não era bom para ela... Não tinha sido no passado, e não era agora. Assim seja.


CAPÍTULO 11

DEPOIS DE semanas ouvindo nada além de Megan isso e Megan aquilo, assim como a tendo em sua vida e cama novamente, a ausência dela parecia muito estranha para Devin. Com Megan tendo ido embora, havia pouco para alimentar o circo da mídia, e quando um escândalo sexual de um político da região estourou, ela foi completamente esquecida. Os 15 minutos de fama dela tinham finalmente acabado. A vida de Devin voltou ao que ele teria considerado normal: dias na firma de advocacia, três programas de rádio por semana e a ocasional aparição pelo programa ou pelo livro. Todavia, voltar ao normal parecia errado de alguma maneira. Era perturbador, porque tudo estava como deveria ser, entretanto, ele se sentia vazio. Estava ficando irritado e impaciente com seus ouvintes, até mesmo repreendendo uma pessoa no ar por ser superficial e gananciosa. Isso não tinha sido bom. Culpa de Megan... Na verdade, ele a cotara pelo menos uma vez... Então, considerava-a responsável por seu descontentamento. A única coisa boa em sua vida, a única coisa que prendia seu interesse no momento... era seu envolvimento no caso do estudante, o qual agora quase ganhara vida própria. Tal envolvimento encontrara ceticismo no começo... Afinal de contas, Devin se especializara em advocacia de divórcios, não em advocacia constitucionalista, mas ele logo acabara com o ceticismo. Aquilo era emocionante, exceto por ele não ter com quem compartilhar a excitação. Megan podia tê-lo acusado de estragar a vida dela, mas ele também não estava exatamente adorando a sua no momento. Eles estavam empatados.


Mas isso não o fazia se sentir melhor. A única pessoa mais infeliz que Devin no momento era Manny, um fato que ele lembrava Devin constantemente. Como agora. Devin tinha Manny no modo viva-voz do telefone, ouvindo apenas parcialmente, enquanto checava sua caixa de e-mail. – Aquela garota da horticultura orgânica está tirando você das listas. – Eu ainda estou no número oito. Dificilmente estou trabalhando na obscuridade. – Precisamos colocá-lo lá fora, encontrando pessoas e fazendo notícias nos jornais. – Eu não tenho tempo para isso agora. Este caso está tomando todo meu tempo livre. – E este é meu ponto. Boa ação gratuita não paga as contas. Pelo menos, Manny era consistente. Dinheiro falava. – Agiotas no seu caso, Manny? – Além disso, esse seu caso é desinteressante. – Estamos num estado lamentável neste país, onde a negação dos direitos de um cidadão é considerada desinteressante. Pensei que você pudesse transformar tudo em manchetes. – Isso está além até mesmo das minhas possibilidades, Devin. Se as pessoas não estão interessadas, não posso fazê-las ficar. Prefiro ter a esperança de que você tem outra ex-esposa escondida em algum lugar. – Meu Deus, não. Uma é suficiente. – O horror em sua voz era genuíno, assim como a dor interna que o preencheu. – Ora, Devin, dê-me alguma coisa substancial na qual trabalhar. – A Décima-quarta Emenda é bastante enigmática. Tem muita substância. Manny gemeu. – Você está tentando me matar, certo? Que tal ligarmos para a dra. Megan e ver se ela está interessada em... – Não. – Quando vocês dois estão brigando, são excelentes. Eu acho que uma noite regular de “Ele Disse... Ela Disse” seria uma ideia vendável. Talvez, só uma vez por semana. O que você acha? – Não.


– Posso, pelo menos, ver se Megan está interessada? – Não. E fim da discussão. – Tudo bem. – Manny deu um suspiro dramático. – Você estaria interessado em participar de um leilão de solteiros? Um leilão de solteiros? – Você não deveria beber tão cedo no dia, Manny. Está afetando seu julgamento. Ligue-me quando estiver sóbrio. Adeus. Manny ainda estava resmungando quando Devin desligou. Aquilo pôs um pequeno sorriso no rosto de Devin. Por alguma razão doentia, ele gostava de irritar Manny. Principalmente porque era fácil fazer isso. Manny agia como se o mundo estivesse acabando, somente porque Devin não queria renovar seu contrato com Cubra Seus Bens. Pelo menos, não nesta encarnação. O programa tomava muito de seu tempo, e, honestamente, o pessimismo o estava contagiando. Se Manny quisesse continuar sendo seu empresário, precisava começar a pensar em coisas diferentes. – Sr. Kenney. – Sua recepcionista interfonou, interrompendo seus pensamentos. – Dra. Julie Moss está aqui com uma entrega para você. Julie Moss. Ela era uma das amigas de Megan. Ele não ouvia sobre Megan desde que ela saíra de sua casa, três semanas atrás. Sua primeira preocupação, que Megan estivesse doente ou machucada, foi aliviada pela menção de uma entrega. Talvez, a entrega fosse algum tipo de oferta de paz? Não, ele não tinha tanta sorte. Mas só havia um meio de saber com certeza. – Pode mandá-la entrar. – Humm... Certo. Era uma resposta estranha para sua funcionária normalmente muito profissional, e ele imaginou se a tal Julie era louca ou algo assim. Teve sua resposta quando uma mulher abriu sua porta, então, segurou-a aberta para um homem que carregava uma mesa. A mesinha de centro que ele dera a Megan. O homem pôs a mesa no chão e estendeu a mão. – Nate Adams. Eu trabalhei com Megan na Clínica Weiss. – E eu sou Julie Moss.


Nate parecia amigável, mas a expressão de Julie era de desaprovação. Aquilo ia ser interessante. – Megan mencionou vocês dois. – Ótimo – replicou Julie, friamente. – Então, pode assumir que ela também mencionou você para nós, e não precisamos nos fingir de amáveis. Hostilidade direta. Como amiga de Megan, ele não a culpava. – O que eu posso... – Nós só estamos retornando a mesa. Eu teria trazido antes, mas precisei da ajuda de Nate. É mais pesada do que parece. – Realmente. Julie pigarreou. – Megan pediu que eu lhe devolvesse o móvel, e aqui está. Iremos embora, e você pode voltar para sua vida importante e famosa. Sarcasmo adicionado à hostilidade. Ele quase perguntou por que Megan não tinha levado a mesa consigo, mas decidiu contra isso. – Eu não tenho notícias de Megan desde que ela partiu. – Ele dirigiu seu comentário a Nate. – Como ela está? O jovem pareceu desconfortável. – Bem, eu acho. Realmente não sei muita coisa. – Ele olhou para Julie, como se esperasse que ela respondesse. Julie ignorou-o, e Nate continuou: – Megan está em Carbondale. Trabalhando. Fazendo coisas incríveis na clínica deles. Ou assim ouvi dizer... – Bom para ela. – Sim, bom para ela – interrompeu Julie. – Megan está muito bem em Carbondale. Não graças a você – acrescentou, então, virou-se para o outro homem com um sorriso falso. – Nate, pode me esperar no saguão? Eu preciso falar com sr. Kenney por um minuto. Um profundo alívio cruzou o semblante do jovem. – É claro. Foi um prazer conhecê-lo. – Ele saiu rapidamente e fechou a porta. Julie olhou para Devin. – Vamos direto ao ponto. Ele inclinou-se contra a mesa e cruzou os braços sobre o peito. – Claro. – Eu não gosto de você.


– Obviamente. – Na verdade, acho que você é um imbecil. Mas, em sua defesa, Megan não está muito feliz ultimamente, então, parte disso pode ser uma simples reação do comportamento irracional dela. Uma vez que você é o maior culpado por tal comportamento, ainda é um imbecil. – Há um ponto que quer mostrar, dra. Moss, ou espera que eu fique aqui e permita que você continue a me insultar em meu próprio escritório? – Por mais encantador que pareça, sei que isso não é provável que aconteça. Certo, então Megan não tem sido o maior exemplo de saúde mental recentemente, mas eu estava do seu lado. – Perdoe-me se eu acho difícil acreditar nisso. – Eu até mesmo discuti em seu nome. Disse a Megan que ela estava sendo irracional, e fizemos um grande progresso. Isso teria sido depois que Megan me deixou. Pela segunda vez. Interessante. – É claro, então você a jogou debaixo do ônibus, no seu programa de rádio. Culpa o assolou. Ele estivera ferido e falara sem pensar, de forma rude. Mas o que dissera no rádio não deixava de ser verdade. – Depois disso – continuou Julie em tom gelado –, ela ficou desesperada para sair da cidade. Por isso, acabei com essa mesa no meio da minha sala de estar, e tenho tropeçado nela nas duas últimas semanas. Apesar da consciência culpada, ele não tinha de ouvir mais aquilo. – E agora você fez seu trabalho. – Ele andou para a porta e a abriu. – Obrigada, dra. Moss. Julie abriu a boca, como se quisesse falar mais, então voltou a fechá-la. – De nada, sr. Kenney. Quando ela passou por ele, todavia, parou e o olhou da cabeça aos pés, como se o estivesse medindo para uma luta. – Eu sei, no entanto, que Megan planeja voltar para Chicago. E se ela ainda estiver com muita raiva sua, eu não vou tentar acalmá-la. – Por que eu tenho a impressão de que você vai dirigir um carro de fuga? Julie deu de ombros. – O que ela precisar. – Com isso, ela desapareceu ao longo do corredor. Entre Megan e a amiga Julie, ele tinha sérias dúvidas sobre a sanidade dos chamados


profissionais da saúde mental. Loucura parecia ser um pré-requisito para o trabalho. Pelo menos, em algum momento, alguém, além dele, tentara convencer Megan de que ela estava reagindo de forma exagerada. O que lhe causava uma pequena satisfação. Mas as palavras de Julie sobre Megan estar com raiva dele o chocaram mais do que Devin queria admitir. Esse lado de Megan era novo. Juntamente com a coragem que ela adquirira ao longo dos anos, aprendera a guardar rancor também. Ela não era a mesma Megan que ele costumava conhecer. Aquilo o fez pensar. Megan não era a mesma. Era uma pessoa diferente. Ele aceitara e apreciara a nova confiança dela, mas não que ela quisesse ser tratada como uma igual, em vez de ser cuidada. Por que ele não entendera isso? Entendera, mas ignorara. Ela lhe dissera o que queria inúmeras vezes. Aparentemente, ele era tão teimoso quanto Megan o acusava de ser. Quando deparado com a possibilidade de reconciliação, esperara que eles recomeçassem de onde tinham parado. Devin apreciara a nova coragem e atitude dela, mas não processara o fato de que aquilo significava que ela não era a Megan que ele costumava conhecer. Insanidade era fazer sempre a mesma coisa e esperar um resultado diferente. Ele esperara alguma coisa diferente, então ficara surpreso quando obtivera o mesmo resultado da última vez: Megan partindo. Ou a loucura era contagiosa, ou ele merecia cada insulto que recebera de Megan. E obviamente ele não era louco. A única pergunta real era se havia alguma coisa para salvar dessa confusão. QUINTA-FEIRA ESTAVA se tornando o dia menos favorito de Megan. Era o dia de uma infinidade de clientes com problemas de vícios. Além de todos os problemas que o abuso de substâncias nocivas causavam, com esposos, filhos, a lei, lidar com aquilo também era deprimente e humilhante. Deprimente porque ela estava cansada de ver famílias sendo destruídas, e humilhante porque havia tão pouco que podia fazer para ajudar. Na maior parte do tempo, o dano já estava feito, e Megan apenas tentava recolher os cacos. Nem todo psicólogo nascera para atender qualquer tipo de cliente. Ela sabia disso.


Entretanto, agora estava mais difícil do que o usual. Racionalmente, ela sabia que seus sentimentos estavam sendo misturados pelo triste estado de sua vida pessoal. Megan não tinha com quem conversar. Estivera tão ocupada na clínica desde que chegara que não tivera tempo de fazer amigos ou explorar a cidade. No pouco tempo livre que tinha, estava geralmente tão exausta que tudo que queria era assistir televisão. Ela falava com sua mãe, e Julie ligava para mantê-la informada sobre as coisas em Chicago, mas fora isso... Estava entediada. Estava solitária. E estava grávida. Parecia que não havia fim para o caos que Devin Kenny podia causar em sua vida. Mudar-se para lá não a fizera esquecer Dev. Por mais que ela tentasse se focar no seu trabalho, ele estava sempre presente em sua mente, tentando tirar sua concentração. E se isso não bastasse, ele perseguia seus sonhos, fazendo-a se sentir vazia e frustrada pelas manhãs. Na verdade, Megan quase ignorara o fato de que seu ciclo não viera, assumindo que isso se devia ao estresse e à obsessão por Dev. Como estivera errada. Não conseguia tirá-lo da cabeça, e agora estava carregando o bebê dele em seu corpo também. Eles haviam falado sobre ter filhos. Até mesmo discutido alguns nomes de bebês, embora, como era esperado, nunca tivessem chegado a um acordo. O universo a odiava? Depois de se apaixonar por Devin, passar sete anos tentando esquecê-lo, então se apaixonar por ele outra vez, apenas para perdê-lo novamente, engravidara de um filho dele agora? Pelo menos, estava sendo honesta consigo mesma. Amava Devin, e percebia que, provavelmente, nunca deixara de amá-lo. Ter essa compreensão a ajudaria a enfrentar esta situação... mesmo que não doesse menos. E doía muito. Nenhuma quantidade de autoterapia ajudava. Estranhamente, desta vez parecia doer mais do que da última vez. Estar certa em princípios ajudara antes, mas agora isso era um conforto frio... E talvez nem isso, uma vez que Megan não sabia se estava certa em princípios agora. Ou se importava quem estava certo ou errado.


Ela estava arrasada, e a única coisa que a impedia de voltar para Chicago e contar a novidade a Devin era o conhecimento de que, nas palavras dele, ele a considerava um erro. Perguntou-se quanto tempo levaria para a dor diminuir o bastante para que ela falasse com Devin, sem admitir que tinha sido estúpida e errada e suplicar por outra chance. Teria de lhe contar sobre o bebê mais cedo ou mais tarde. Não fazê-lo não seria justo com Dev ou com o bebê. Mas não agora. No momento, queria ir para cama e acabar com o dia de hoje. O toque característico de Julie soou na mesinha atrás dela. Sem abrir os olhos, Megan alcançou seu celular. – O que foi, Ju... – Ligue o rádio. Agora. A urgência na voz de Julie colocou-a em ação, mesmo enquanto ela perguntava: – Por quê? O que está acontecendo? – É Devin. Você precisa ouvir isso. – O programa de Dev não é esta noite – argumentou ela, enquanto procurava a estação. – Ele está dando uma entrevista para Bruce Malaney, e agora eles estão falando sobre você. O coração de Megan disparou. Bruce Malaney compartilhava a filosofia de Kate de “qualquer coisa pela audiência”. Haveria um fim para aquilo? Ela conseguiu sintonizar a estação e aumentou o volume. A voz de Devin veio dos alto-falantes e, pelo menos, ele não soava zangado. – Nós não estamos nos falando no momento, mas eu soube que ela está bem. – Essa informação veio de mim – disse Julie. – Psiu! Eu quero ouvir. – É claro, seu relacionamento recente com ela foi uma grande novidade – disse Bruce. Dev riu. – Não tenho certeza se eu usaria a palavra novidade, mas foi algo que interessou as pessoas. Sinto mais compaixão por celebridades e seus relacionamentos agora, todavia. – Pessoas estão especulando que Megan Lowe pode ser, direta ou indiretamente, responsável pelo fim de seu programa.


O quê? – Julie, o que é isso sobre o programa de Devin? – perguntou Megan. – Eles falaram sobre isso mais cedo – replicou Julie. – Cubra Seus Bens está passando por uma revisão. Devin estava fazendo segredo sobre isso e sobre quando o programa voltará... Megan não podia ouvir Julie e Devin ao mesmo tempo. – Psiu. – A única coisa pela qual Megan é responsável – Devin falou – é por abrir meus olhos para detalhes que eu não estava vendo, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Em seu formato atual, Cubra Seus Bens já esgotou seu propósito original. Eu descobri que você não pode realmente ajudar pessoas com conselhos rápidos, durante uma conversa de dez minutos pelo rádio. Megan mordeu o lábio em incredulidade. – Então, o que vem a seguir para você, Devin? – Esquivou-se da pergunta mais cedo, então o entrevistador continuou insistindo. Devin respirou fundo. – Eu não quero manter um padrão negativo. A situação com Megan me mostrou que eu estava me encaminhando para isso. Pessoas temem a mudança, mas ela abre portas e acrescenta possibilidades. Irei explorar algumas possibilidades. Megan sentiu tontura e percebeu que era porque estava prendendo a respiração. Bruce riu. – Parece que seu próximo livro será de autoajuda. – Acho que as últimas semanas provaram, sem sombra de dúvida, que eu sou a última pessoa que deveria estar aconselhando outros como dirigir suas vidas. Deixo isso para boas especialistas como Megan. – Megan, você ouviu isso? – perguntou Julie, ofegante, mas Megan, em seu choque, não conseguiu falar. – Megan? – Nós faremos um breve intervalo. Voltaremos com mais sobre o especialista em divórcios, Devin Kenney, em alguns minutos. Eu sou Bruce Malaney, e este é Acabe com a Tensão. Megan não podia acreditar no que ouvira. Devia estar alucinando. Ou talvez, a gravidez a fizesse ouvir o que ela queria ouvir. Porque se o que Devin acabara de


dizer fosse real... – Megan! – O grito de Julie finalmente penetrou, e Megan abaixou o volume do rádio. – Estou aqui. Você ouviu o que acabei de ouvir? – Sim. Isso foi praticamente um pedido de desculpas público. Sem mencionar os elogios à dra. Megan. – Então, você não acha que eu estou lendo muito nisso? – Leia mais nisso, querida. Devin não teria como saber que você estava ouvindo, portanto, ele não falou para seu benefício. Você precisa ligar para ele. – E dizer o quê? – Comece com “Desculpe-me por ser louca”, e siga daí. Agora que o choque inicial passara, Megan sentia-se cheia de energia irrequieta. Levantou-se e começou a andar. – Tenho o celular de Dev. Eu poderia lhe telefonar depois do programa, me desculpando. Descobrindo se tudo aquilo foi sincero. – Excelente ideia. – Mas e se não foi? E se ele estiver apenas querendo passar uma imagem de bonzinho para as massas? Como você apontou, Dev não poderia ter certeza de que eu estaria ouvindo o programa. – Você não saberá até que fale com ele, certo? Ela precisava descobrir. Especialmente considerando... Pôs uma das mãos na barriga. Precisava descobrir o que Dev quisera dizer com tudo aquilo, antes de lhe contar sobre o bebê. E, do nada, uma pequena faísca de esperança surgiu na escuridão. Possibilidades, realmente. De súbito, havia muitas possibilidades para explorar, e algumas delas eram promissoras. – Eu preciso falar com Devin. – Mas preciso ver o rosto dele enquanto faço isso. – É o que eu estou dizendo. – Deixe-me dar alguns telefonemas. – Megan já estava rearranjando sua agenda mentalmente. – Posso dormir na sua casa hoje? – Você está vindo para cá? Esta noite? – Sim. Eu irei encontrar Devin pela manhã, antes do programa dele. – Você é uma garota corajosa.


Ela não se sentia corajosa. Se estivesse lendo o significado errado nas palavras de Dev, teria um grande arrependimento no dia seguinte. Mas havia a possibilidade de que não se arrependesse. DEVIN ESTAVA de olho no relógio enquanto aconselhava, de modo indiferente, seus ouvintes. Até agora, as ligações tinham se dividido entre perguntas sobre sua declaração de que o programa passaria por grandes mudanças e a notícia do último rompimento do casal poderoso de Hollywood. Apesar de suas melhores tentativas de afastar a discussão da vida particular do casal, era exatamente sobre isso que a audiência queria especular. Devin não ia adicionar combustível àquele fogo, então estava tentando mudar o foco para contratos pré-nupciais em geral. Mais vinte minutos e o programa acabaria. Ele ainda tinha uma longa viagem para Carbondale a sua frente e, possivelmente, uma longa noite, se Megan decidisse ser teimosa e cultivar rancor. Sua paciência estava acabando, e ele gesticulou para Mike, substituto de Kate, pedindo que ele escolhesse outra ligação para atender. – Aqui está uma moça que vem esperando pacientemente na fila por um tempo. Você está no ar, ouvinte. – Finalmente – uma voz que Devin reconheceu murmurou. – Aqui é Megan, de... Carbondale. Atônito, Devin olhou, através da janela, para Mike, que apenas deu de ombros. Depois de todo aquele tempo, Megan ligara para seu programa? – Alô? Alô? Eu fui desconectada? – Não, você está no ar, Megan. – Trate-a como qualquer outra ouvinte. – Tem uma pergunta ou um comentário? – Ambos, na verdade. Eu ouvi sua entrevista ontem à noite. Uma vez que não sou uma ouvinte regular, a maioria daquilo foi novidade para mim. – E? – incentivou ele. – Então minha pergunta é sobre possibilidades. Como aquelas que você mencionou ontem. Devin tentou lembrar o que falara exatamente. – No geral, sou fã de possibilidades, e, em minha linha de trabalho, tenho de ser, mas, recentemente, tenho tido problemas com a ideia.


– Este é o problema com possibilidades. Uma vez que você começa a questioná-las, começa a cortar opções. – Sim, Devin, eu sei disso. – Ela pareceu lembrar-se de onde estava e mudou de tom. – Quero dizer, como você sabe quando riscou totalmente uma possibilidade de sua lista? Do lado de fora da janela principal da cabine, uma multidão estava se reunindo. O staff saíra de seus cubículos para se reunir em volta da cabine. Em sua própria cabine, Mike movia-se rapidamente entre telefone e computador. Uma olhada para seu próprio computador disse a Devin por quê. As linhas telefônicas estavam iluminadas como uma árvore de Natal, e a fila de espera era enorme. Comentários já estavam sendo postados no quadro de avisos do site dele sob o título “Dra. Megan está de volta... agora”. Não foi assim que eu planejei ter uma conversa com Megan hoje. Ele ainda estava formando seu plano de ataque, e contara com a viagem para o sul de Illinois para refletir. – Não sei se eu sou a pessoa certa para responder essa pergunta, Megan. Minha especialidade é divórcio, não... – Você é a pessoa certa. Eu não estou usando um “você” genérico na minha pergunta. Quero saber como você, Devin Kenney, decide que uma possibilidade foi totalmente removida da lista? A cabine podia ser à prova de som, mas ele ainda podia ver a multidão do lado de fora dando um suspiro coletivo, mesmo se não ouvisse. Tudo pareceu congelar. – Megan, não tenho certeza se este é o lugar certo... – Sinto muito, Dev. Eu estava errada e peço desculpas. Sinto a sua falta e realmente gostaria de conversar sobre possibilidades. – Ela pausou. – Se você ainda estiver disposto, isto é. Devin engoliu em seco, incerto se a ouvira direito. – Megan... A voz de Mike veio através dos fones de ouvido. – Droga, o servidor parou de funcionar. Devin ignorou-o. – Nós precisamos conversar, mas aqui não é o melhor lugar. – Tem razão. Eu esperarei aqui embaixo, até que você termine o programa.


Aqui embaixo? – Megan, onde você está? – No saguão do 14º andar. O segurança não me deixou subir, e a recepcionista... – Fique aí. – Ele estava de pé e tirando os fones de ouvido quase antes de acabar de falar para Mike: – Vá para o comercial. Do lado de fora da cabine, ele passou pela audiência boquiaberta e foi para a escadaria. Quando abriu a porta do saguão do 14º andar, visualizou Megan imediatamente. Ela estava no meio do cômodo, com uma dúzia de pessoas olhando-a, mantendo uma distância segura, como se ela fosse uma bombarelógio. Quando ela o avistou, um pequeno sorriso tentou se formar, então desapareceu. Todos os olhos na sala se voltaram para Devin naquele momento, e ele congelou, incerto do que fazer em seguida. DEV PARECIA perturbado, e Megan imaginou se lidara com a situação de maneira errada. Devin parou a sua frente e a fitou com os ricos olhos castanhos. – Oi, Dev – murmurou ela, sentindo-se fraca e embaraçada ao mesmo tempo. – O que você está fazendo aqui? – Eu tentei lhe telefonar durante toda a manhã, mas você nunca atendeu e nunca me ligou de volta... – Você não é a única que pode ignorar um telefone depois que uma entrevista chama atenção. – E então a recepcionista deveria lhe dizer que eu estava aqui, e não pude esperar mais. Então liguei. Eu não queria causar tumulto no seu programa. Sinto muito sobre isso também. Deus, posso pedir desculpas por tudo e recomeçar? Pela primeira vez desde que ela podia lembrar, Dev parecia sem fala. Finalmente, ele perguntou: – O quê? A audiência agora os olhava abertamente, atenta a cada palavra. Em algum lugar, um telefone tocou, sem ser atendido. Ela podia sentir um calor subindo pelo seu pescoço. – Humm... Bem... Dev olhou para a multidão, então pegou a mão de Megan.


– Venha. Megan o seguiu sem questionar, enquanto ele a conduzia de volta para a escadaria. As paredes de cor cinza ecoaram o som da porta se fechando, e ela virou-se para encontrar Dev inclinado contra a mesma. Agora ou nunca. – Dev, sinto muito por tudo. Você estava certo sobre... Ele moveu-se, pressionando-a contra a parede. Um segundo depois, cobriulhe a boca com um beijo que lhe roubou o fôlego e fez seu corpo formigar em deleite. Ela estava ofegante quando ele se afastou e lhe acariciou o cabelo. – Eu aceitarei seu pedido de desculpas se você aceitar o meu. – O seu? – Você estava certa sobre algumas coisas também. Na verdade, eu ia para Carbondale, depois do programa, para lhe dizer exatamente isso. Uma esperança brotou no peito dela. – Você ia? – Eu estava sendo um idiota egoísta. Novamente. – Bem, eu não estava me comportando muito melhor – admitiu Megan. – Viu, nós nascemos um para o outro. Ninguém mais nos aguentaria. – Sobre Carbondale, todavia... – Como você falou, são seis meses, talvez menos. Nós daremos um jeito. Você me diz o que precisa, e eu farei minha parte. Aquilo era fácil demais. – Simplesmente assim? – Simplesmente assim. O mundo de Megan pareceu se encaixar no lugar certo. Talvez, fosse fácil assim. – Eu o amo, Dev. Acho que nunca deixei de amá-lo. – Ótimo. Porque eu sei que nunca deixei de amá-la. – O sorriso de Devin fez o coração de Megan se derreter. Ela envolveu os braços no pescoço dele e o puxou para outro beijo. O barulho da porta se abrindo acima a assustou. O produtor agitado de Devin desceu os degraus de dois em dois, antes de vê-los e parar. A expressão chocada no rosto dele derreteu-se num sorriso.


– Bem, isso responde uma pergunta. – Ele pigarreou. – Devin, está um caos aqui. O que você quer que eu faça? Devin beijou a testa de Megan, mas não se moveu de sua posição ou o olhou. – Megan, lembra-se de Mike? Sentindo-se um pouco envergonhada por sua posição atual, Megan conseguiu levantar a cabeça e acenar os dedos. – Oi, Mike. Desculpe-me pela confusão. – Oi, dra. Megan. Estou feliz com o seu retorno. Então, Devin? – Diga aos ouvintes que Devin e a dra. Megan estarão de volta em alguns minutos com um – ele pausou para lhe sorrir – grande anúncio. Falando em grandes anúncios... – Certo. – Mike partiu apressadamente. Quando Devin inclinou-se para outro beijo, Megan o deteve com uma das mãos no peito largo. Ele mudou a direção e foi para seu lóbulo. Ela lutou contra um tremor diante do toque. – Dev, há uma coisa que eu preciso lhe contar. – Agora? – murmurou ele contra a pele sensível de seu pescoço. – Sim. Preocupação marcou as feições de Dev quando ele afastou o rosto e lhe encontrou os olhos. – O quê? Segurando-lhe o maxilar, ela o encarou. – Antes que eu lhe conte, todavia, saiba que isso não tem nada a ver com qualquer coisa que eu acabei de falar. Eu estaria aqui independentemente disso. Apenas quero que você saiba de tudo antes de prosseguirmos. As sobrancelhas de Devin se uniram. – O que há de errado? – Não há nada errado. Pelo menos, não para mim. Estou ótima, na verdade. É apenas que... – Então, pare de enrolar e fale de uma vez. Megan respirou fundo. – Eu estou grávida. Desta vez, Dev realmente pareceu sem fala por um longo momento. – Tem certeza?


– Absoluta. – Quando ele não disse nada, tristeza começou a inundá-la. – Dev? Você está bem? Sei que precisaremos conversar sobre onde eu vou morar, mas... Ele a interrompeu com um beijo tão profundo que lhe tirou todas as dúvidas. – Como eu disse antes, nós daremos um jeito. Ontem, ela não teria acreditado naquilo, mas, hoje, acreditava. Era simples assim. – Case-se comigo. Foi a vez de Megan ficar chocada e quase sem fala. – Eu não lhe contei sobre o bebê para receber um pedido de casamento. – Eu não a estou pedindo em casamento por causa do bebê. Ele é somente um bônus. – Talvez, seja uma menina – relembrou-o ela. Dev sorriu. – Suponho que qualquer coisa é possível. – Ele olhou para a escadaria e para a porta acima, entrelaçando os dedos de ambos. – Vamos salvar Mike e contar a novidade aos ouvintes. No mês anterior, até mesmo contemplar uma coisa dessas teria convencido Megan de que ela era insana. Mas as coisas tinham mudado, e mudanças traziam possibilidades. Qualquer coisa é possível. Talvez até mesmo um final feliz para eles.


EPÍLOGO

QUANDO MEGAN saiu do quarto à procura de alguma coisa para beber, ficou surpresa em encontrar Devin totalmente vestido, manuseando o jornal. Ela o ouvira se levantar, e voltara a dormir, mas não achara que cochilara por tanto tempo. Estava dormindo quase tanto agora quanto dormira no primeiro trimestre. Nada daquelas “explosões de energia” que ela deveria estar tendo ao se aproximar do fim da gravidez. Ele olhou para cima quando ela entrou na cozinha. O dourado da gravata realçava a cor dos olhos de Dev, e a camisa branca contrastava lindamente com o cabelo escuro. – Bom dia. – Olhe só você, todo arrumado para impressionar os juízes. Fica sexy de gravata, sabia? Ele puxou o nó da gravata, como se fosse desconfortável. – Rumores dizem que você tem de usar uma gravata quando aparece na frente da Corte Suprema do Estado. Eu sinceramente espero que não seja porque os juízes acham sexy. Isso é muito perturbador para considerar. – Não importa. Ainda é sexy para mim. – Para provar seu ponto, ela puxoulhe a gravata até que os lábios dele encontrassem os seus para um beijo decente de bom dia. – Boa sorte hoje. – Obrigado, mas eu não preciso de sorte. Tenho a Constituição me apoiando. – Devin pegou alguma coisa ao lado de sua pasta. – Isso chegou para você ontem. Você dormiu antes que eu pudesse lhe mostrar.


A visão do longo envelope branco fez o coração de Megan acelerar antes mesmo que ela confirmasse o remetente: o Departamento de Regulamentos Profissionais. Era isso. Momento da verdade. Sua boca secou, e ela recusou-se a pegar o envelope. – Eu não posso abri-lo. Você lê. – Oito meses atrás, você tinha certeza de que passaria no exame até mesmo se o fizesse de olhos fechados. – Aquela era uma conversa de vanglória. Eu não estou tão convencida disso agora. Dev estudou o envelope. – Eu nem mesmo preciso abri-lo. Parabéns, Meggie. – Obrigada pelo voto de confiança, mas... Ele estendeu-lhe o envelope novamente, uma expressão exasperada no rosto. – Leia para quem está endereçado. Ela pegou o envelope e leu. Seu coração disparou ainda mais. Leu novamente em voz alta, para ter certeza: – Dra. Megan Lowe, PCL. – Belo conjunto de letras você tem aí. – Eu consegui. – Ela podia sentir o sorriso se abrindo em seu rosto. – Eu realmente consegui! Dra. Megan Lowe, Psicóloga Clínica Licenciada, às suas ordens. Como eu posso ajudá-lo em suas necessidades mentais hoje? Dev abraçou-a pela cintura... ou o que restava desta. – Bem, você poderia me tranquilizar um pouco. – Com prazer. Quer algumas afirmações positivas? – Ela olhou para os lindos olhos castanhos que esperava que seu bebê herdasse e sorriu. – Repita depois de mim: “Eu sou um excelente advogado. Vou derrubar a Suprema Corte com meus argumentos hoje.” Dev meneou a cabeça. – Eu estava pensando mais nas linhas de “Sim, Dev, eu me casarei com você antes de dar à luz seu filho”. – Sim, Dev, eu me casarei com você antes de dar à luz seu filho – repetiu ela. – Agora que eu tenho isto – ela balançou o envelope –, você pode marcar a data. – Na próxima semana – desafiou ele. Se ele estivesse provocando-a, teria uma grande surpresa.


– Combinado. Mas não posso mudar meu nome até que seja hora de renovar minha licença. – Justo. – Verdade? – Aquilo era tão fácil. – Eu não me importo com o nome que você usa profissionalmente... Dra. Lowe, dra. Kenney, dra. Megan... Ora, pode se chamar de dra. Zhivago se quiser. Megan socou-lhe o braço. – Não dra. Zhivago. Nem dra. Megan. Apesar de que será estranho ser Megan Kenney novamente. – Estranho como? – Quantas vezes uma pessoa pode mudar seu nome e voltar para o anterior? Levei um século para conseguir que tudo fosse trocado para Lowe da última vez. Eu ainda recebia catálogos endereçados a Megan Kenney no ano passado. – Bem, independentemente do que decidir, você nunca mais precisará trocar seu nome. – Ele piscou. – Ou se mudar para o Canadá. Para alguém que fizera uma pequena fortuna sendo o maior cínico do mundo no que dizia respeito a casamento, Dev mudara rapidamente. – Você realmente não tem preferência sobre eu mudar meu nome? Devin beijou-lhe a testa. – Você pode chamar a si mesma como quiser. Eu apenas quero chamá-la de minha. Lágrimas inundaram os olhos de Megan. – Esta é provavelmente a coisa mais doce que você já me falou. – Ótimo, agora o bebê está me deixando chorona também. Dev pareceu chocado. – Isso é muito triste. Não é de admirar que você tenha se divorciado de mim. – Não, eu me divorciei, porque achei que você não estava me dando o que eu precisava. – E agora? Megan fingiu pensar na pergunta dele, mas a resposta realmente não requeria pensamento ou discussão com um terapeuta de qualquer tipo. – Eu não poderia pedir mais nada.


Andie Brock

O ÚLTIMO DESAFIO

Tradução Ligia Chabú


CAPÍTULO 1

FOI A cicatriz que fez Lottie parar à porta. Um ferimento fino e arroxeado começava na sobrancelha, pulava o olho, antes de continuar ao longo da maçã do rosto do homem à sua frente. A visão lhe causou um aperto no peito. – Rafael? Silêncio se estendeu, eles se entreolhavam através da porta do escritório. – Charlotte. – Como... como você está? – Ainda vivo. – Ele levantou-se e parou contra a extremidade da mesa, a voz fria, sem emoção. – Como você pode ver. Lottie engoliu em seco. Com a coluna reta, ele estava com as mãos em suas laterais, os dedos ancorando-o à mesa. – Eu lamentei muito... ao saber sobre o acidente. – Obrigado. – A resposta em tom seco era claramente designada a impedir quaisquer demonstrações de sentimentos. Não que ela pretendesse mostrar algum, é claro. Sabia que não estava lá para demonstrar qualquer tipo de preocupação, ou para expressar compaixão. Rafael não era o tipo de homem que tolerava tais emoções. Muito menos dela. Lottie observou quando ele saiu de trás da mesa e andou na sua direção, alto e rígido, num terno cinza sóbrio, agigantando-se sobre ela ao se aproximar. Por um segundo, eles permaneceram lá, como ímãs se repelindo, até que Rafael inclinou-se para encostar no rosto dela uma, duas, três vezes. Lottie fechou os olhos ao sentir o toque, ao sentir a respiração dele em sua pele. Ele recolheu a mão, deixando-a olhar para seus ferimentos.


Havia arranhões de vários comprimentos e profundidades no rosto bonito, e uma mancha roxa numa das faces. A cicatriz, Lottie notou agora, parecia causada por um chicote. Aquilo não ajudou, em absoluto. – Então... seu rosto...? – Lottie sabia que ele detestaria falar sobre aquilo, mas ela precisava ser tranquilizada. – Presumo que os ferimentos são superficiais? – Você presume corretamente. – E o resto do seu corpo? – O olhar enervante de Rafael a fez corar. Ela pigarreou. – Quero dizer, que outros ferimentos você tem? – Tudo em consonância com alguém que despencou de uma altura de mais de 3,5 quilômetros. – Com certeza. – Lottie fez uma careta pela sua pergunta tola. Quantas pessoas tinham caído de uma altura dessas e sobrevivido para contar a história? De qualquer forma, ela já sabia da extensão dos ferimentos dele; estivera tudo no artigo de jornal: pulmão perfurado, ombro deslocado, três costelas quebradas. – Você descobriu... o que deu errado? Por que seu paraquedas não abriu? – Azar, destino... chame como quiser. – Rafael deu de ombros, como se já estivesse entediado com o assunto. – Isso não importa agora. – Suponho que não. – Apesar das palavras dele, Lottie não duvidava que o acidente tivesse sido investigado a fundo. E se um responsável tivesse sido apontado, devia estar correndo risco de vida agora. – Mas você teve muita sorte, no final das contas. – Sorte? – O tom de voz de Rafael sugeria o contrário. – Sorte que uma árvore parou sua queda. Poderia ter sido muito pior. – Verdade. – A fisionomia dele era impassível. – Eu poderia ter morrido. – Ha! Ha! – Por que ela estava rindo? Nada sobre aquilo tinha a menor graça. A situação era tortura absoluta. Lottie se preparara, é claro, ensaiando como se comportaria, o que diria quando o visse novamente. Ainda estivera revisando suas respostas calmas e calculadas durante o voo para lá. Ela se convencera de que estava preparada. Que poderia... sobreviver a este último encontro. Mas agora, enquanto olhava para o homem debaixo dos ferimentos, o homem por quem se apaixonara loucamente, toda a sua confiança parecia esvair-se. Lembrava-se de cada detalhe do rosto de Rafael. Das sobrancelhas grossas que quase se uniam acima de olhos castanhos de formato amendoado. O


maxilar forte, o queixo quadrado com uma pequena covinha, escuro com a barba despontando. Sim, ela se lembrava de tudo. Gostaria de não lembrar. – Bem, graças a Deus por aquela árvore, certo? – Mudando de posição, Lottie cruzou uma perna na frente da outra, a pose de bailarina estragada pela mão enfiada no bolso de seu jeans. Sua voz parecia horrivelmente alegre, mas, pelo menos, mascarava seu desejo de perguntar onde a árvore estava, de modo que ela pudesse se ajoelhar diante de suas raízes e agradecê-la por ter salvado a vida de Rafael. – Fico tão feliz que isso tenha acontecido no lugar certo. Os lábios perfeitamente formados de Rafael se curvaram numa expressão de desdém. – Gentileza sua se importar. Tudo no jeito frio e sarcástico dele... a luz dura nos olhos, a postura formal... estava lhe dizendo uma coisa. Ele a detestava. Se Lottie acreditara que o tempo pudesse apagar o passado deles, enganara-se redondamente. Fazia dois anos desde que ela partira, abandonando o casamento fracassado deles e fugindo para a Inglaterra. Contudo, estando de volta no Palazzo Monterrato, olhando para Rafael agora, soube que aqueles dois anos não tinham sido nada. A atmosfera entre eles era quase tão horrível e dolorosa quanto no dia que ela partira. – É claro que eu me importo. – O comentário absurdo de Rafael fez Lottie querer tentar esclarecer as coisas. Fazê-lo ver que, apesar de sua atuação muito convincente, ela não era tão ruim. – Isso nunca irá mudar. – Muito tocante. – As palavras de Rafael cortaram sua tentativa de confissão. – Mas sua compaixão não me interessa. – Ele voltou para seu lado da mesa. – Está aqui, porque há um assunto importante que preciso discutir com você. Sente-se, por favor. Lottie sentou-se do lado oposto ao dele, as mãos no colo, as costas retas. Sabia o que estava vindo; estava esperando por aquilo desde que recebera o e-mail dele. Tinha sido uma tarde comum no trabalho, quando ela abrira sua caixa de emails e vira uma mensagem de Rafael Revaldi. Ver o nome dele assim, do nada, lhe causara uma onda de pânico. Tivera de contar até três, antes de ousar abrir o e-mail, dando uma olhada para as únicas outras pessoas na galeria de artes em


Londres... um casal gay admirando um quadro grande que nunca iriam comprar... no caso de terem notado seu alarme. A mensagem breve e ditatorial declarara que eles precisavam se encontrar; duas datas diferentes da semana seguinte haviam sido oferecidas, para que ela escolhesse, e passagens de avião seriam enviadas por e-mail, após sua confirmação. Depois de pensar numa série de possibilidades, Lottie logo concluíra a verdade por trás da mensagem. Ele queria o divórcio. Erguendo o queixo agora, ela se forçou a encará-lo, reunindo o máximo de distanciamento de que foi capaz, determinada a ser forte. – Eu sei por que estou aqui. Deixe-me assegurá-lo que estou tão ansiosa para acabar com isso quanto você. Não tenho intenção de ser difícil, de prolongar a situação. Um brilho perigoso surgiu nos olhos de Rafael, antes que ele escondesse a expressão. Ele não disse nada. – Se você já tiver os papéis redigidos – ela estava tagarelando agora, em sua pressa de acabar com aquilo – e precisar apenas da minha assinatura, eu posso assinar agora e... – Deixe-me pará-la aí, Charlotte. – Levantando uma das mãos, ele a silenciou. – Não tenho ideia do que você está falando. – O divórcio, é claro. Eu sei que estou aqui porque você quer o divórcio. Rafael inclinava-se para a frente, o tecido do paletó esticando-se sobre os ombros largos, enquanto ele descansava os cotovelos sobre a mesa, as mãos unidas. – E o que a faz pensar que eu quero o divórcio? Lottie olhou para baixo, mexendo em suas cutículas. – Porque faz dois anos. – Podia sentir os olhos dele queimando em sua cabeça abaixada, e forçou-se a olhar para cima e confrontá-lo. – E dois anos é o tempo legal necessário para pedir um divórcio amigável. – E você acha que foi por isso que eu a trouxe aqui? – O tom era zombeteiro. – Bem, não foi? – Acredite, Charlotte, se e quando eu quiser o divórcio, isso irá acontecer. Os caprichos da lei inglesa não me interessam. É claro, Lottie pensou. Que tola fora. Deveria ter sabido que, no que dizia respeito a Rafael, leis eram feitas para serem obedecidas por outras pessoas. Ele


possuía o poder de contorná-las, de adaptá-las às suas próprias necessidades. Ela estudou o homem à sua frente. Os planos esculpidos do rosto bonito revelavam dureza, inflexibilidade. Por que ele estava negando aquilo? Sentia algum prazer perverso em vê-la se contorcer? Em caso positivo, tal prazer estava enterrado profundamente dentro de Rafael, pois ela nunca o vira mais sério, mais hostil. Sabia que ele queria o divórcio; receber aquele e-mail apenas confirmara a percepção que a vinha consumindo por quase três semanas agora. Desde que, inocentemente, se deparara com aquele artigo de jornal on-line. Rafael Revaldi, Conte di Monterrato, engana a morte num terrível acidente de paraquedas. As palavras da manchete tinham feito o cappuccino tremer em sua mão, a mordida do sanduíche se transformar numa bola de concreto em sua boca. Agarrando o mouse do computador, ela lera o artigo, freneticamente, desesperada para encontrar o máximo de informações que pudesse, sua promessa de não digitar o nome de Rafael num programa de busca desaparecendo como vapor no ar. Mas não foi necessária extensa busca para muitas informações. As revistas de celebridades italianas estavam explodindo com detalhes sensacionais sobre o conde valente, que despencara de mais de 3,5 quilômetros para a terra e, milagrosamente, vivera para contar a história. Qualquer preocupação legítima logo se transformara numa sede frenética para descobrir cada pequena fofoca sobre ele que conseguisse. E o que ela descobrira... à parte as imagens previsíveis de Rafael escalando montanhas ou andando de caiaque pelas cachoeiras... eram mulheres. Mulheres lindas. Sempre ao lado de Rafael, sorriam em bailes beneficentes, apertavam mãos de dignitários, andavam ao lado dele sobre o tapete vermelho. E todas elas tinham uma coisa em comum: um aperto forte no braço dele e uma expressão que dizia: Esta noite, ele é meu, e eu pretendo manter isso assim. Quaisquer ideias que Lottie tivera de pegar um avião para estar com ele, para se certificar pessoalmente de que ele estava bem, haviam se desfeito enquanto ela olhava para os rostos congelados daquelas mulheres. Elas eram a prova que Rafael seguira em frente. Que ela não tinha mais lugar na vida dele.


O que Lottie aceitara. Mesmo se estar com Rafael agora, falando sobre cortar todos os laços entre eles, fizesse com que ela se sentisse devastada. Ela apenas precisava lembrar quão longe chegara. Sim, sua vida finalmente voltara aos trilhos, e tal percepção fortaleceu sua resolução. Aprumando os ombros, ela tentou um olhar altivo para combinar com a expressão mal-humorada de Rafael. Precisava de uma explicação. – Então, se, como parece estar implicado, eu não estou aqui porque você quer o divórcio, talvez possa fazer a cortesia de me esclarecer por que eu estou aqui? Um silêncio pesado se estendeu. – Você está aqui porque eu tenho um pedido a lhe fazer. – Ele pausou, um músculo se movendo abaixo da máscara rígida de autoridade. Lottie observou quando ele, de maneira não característica, virou uma caneta dourada entre os dedos fortes. Ela descobriu que estava prendendo a respiração diante da percepção absurda de que Rafael estava nervoso. – Eu acho que nós deveríamos tentar novamente. Um choque percorreu o corpo de Lottie. E, apesar de tudo, a gangorra carregando seu coração subiu no ar. – Tentar novamente? – Sua boca estava tão seca que ela mal conseguiu falar. – Sim. Eu acho que deveríamos tentar novamente. Um bebê. A gangorra caiu no chão de maneira abrupta. – Um bebê? – Sim, um bebê, Charlotte. Não vejo razão para que não consideremos a ideia. Nenhuma razão em absoluto, pensou Lottie, além do fato de que o casamento deles tinha sido um desastre, ele não falava com ela havia dois anos, e obviamente ainda a odiava. – Por que nós pensaríamos...? – Eu achei um novo especialista em fertilização in vitro... alguém do Irã – continuou Rafael com uma lógica confusa. – Ele sabe da situação... que nós ainda temos um embrião congelado. Está muito confiante que, desta vez, vai dar certo; que, desta vez, nós teremos sucesso. Um especialista iraniano em fertilização in vitro? O que estava acontecendo ali? Apesar da voz controlada, do tom neutro, a convicção poderosa de Rafael era perturbadoramente inconfundível.


Ela vira aquilo antes, é claro. A determinação de Rafael em engravidá-la. Mas isso havia sido numa vida anterior, antes que eles tivessem se separado. Depois que Seraphina morrera. Nascida com apenas 25 semanas, a filha deles vivera somente por algumas horas preciosas. O trauma do acidente, seguido pelo trabalho de parto prematuro e um nascimento complicado, era agora pouco mais do que um borrão... quase como se aquilo tivesse acontecido com outra pessoa. Mas a dor de assistir sua filhinha lutar pela vida, em vão, ficaria com Lottie para sempre. Quando Seraphina morrera, e os fios e tubos tinham sido removidos do pequeno corpo sem respiração, Lottie olhara para o pacotinho ainda quente em seus braços, acariciara o rosto de sua filha, convencida de que nada poderia ser pior do que aquilo. Mas o destino lhe enviara outro golpe. Parecia que o acidente significava que ela nunca mais seria capaz de conceber naturalmente... que FIV era a única esperança deles para terem outro filho, algum dia. Rafael se determinara a fazer aquilo acontecer, com uma teimosia que beirava à obsessão. Eles haviam embarcado numa série de tratamentos para fertilização in vitro, nenhum dos quais funcionara, e, após cada desapontamento doloroso, ele parecera mais obstinado, insistindo que nada o impediria de alcançar seu objetivo. Isso dominara a vida deles e, por fim, destruíra o casamento. Lottie afastou os cabelos loiros do rosto, com uma das mãos que tremia de leve, do jeito que a memória de Seraphina sempre enfraquecia seus membros. Ela precisava pôr um fim naquela loucura agora. Respirou fundo. – Bem, você desperdiçou o tempo desse homem. A ideia de termos um bebê é totalmente ridícula. Por que consideraríamos isso agora? Depois de todo esse tempo? Quando nosso casamento está obviamente acabado? Rafael olhou para os grandes olhos azul-violeta que estudavam seu rosto por uma explicação. Certamente, o casamento deles estava acabado. Tinha acabado no dia que Lottie o abandonara. No dia que ela lhe dissera que não o amava. Que nunca o amara. Ele praguejou silenciosamente, esforçando-se para controlar sua frustração, seus sentimentos tempestuosos. Precisava permanecer calmo. Não se permitir irritar-se pela demonstração falsa de preocupação de Lottie, ou pelo jeito que ela


descartava o passado que eles tinham compartilhado. Ele estava prestes a estragar tudo e sabia disso. Mas o que não soubera era que seu coração dispararia freneticamente no peito no segundo em que ela entrou na sala. O que era aquela emoção? Raiva? Sentimento de traição? Luxúria? O que quer que fosse, era muito irritante. Rafael estivera tão certo que dois anos de separação teria matado qualquer desejo que ele pudesse ter sentido por ela. Agora, sabia que esse não era o caso, e amaldiçoou-a por isso. Lottie não tinha o direito de ter aquela aparência... o rosto em formato de coração e lábios rosados e macios, o corpo delgado vestido em jeans justo e uma blusa branca abotoada até o topo, mas ainda incapaz de esconder a saliência dos seios perfeitos. Ele passou uma das mãos pelos cabelos. – Porque um acidente como esse faz você pensar, Charlotte. Faz você perceber que não é invencível, que precisa planejar para o futuro... um futuro quando você não estiver mais por aqui. Dez dias numa cama de hospital foca a mente, acredite, e lhe dá muito tempo para decidir o que é importante. – Continue... A voz gentil dela estava ameaçando liberar um lado de Rafael que não tinha nada a ver com o propósito deste encontro. – O que é importante é este lugar. Gesticulando ao seu redor, ele foi recompensado por uma forte dor no ombro. Mas não deixaria Lottie ver sua fraqueza. Sabia que ela estava observando cada movimento de seus lábios, analisando cada palavra sua. – O principado é minha maior prioridade – continuou ele. – Gerações de Revaldi vêm mantendo o título de Conte di Monterrato. Agora, é a minha vez, e farei tudo que estiver em meu poder para assegurar sua proteção e prosperidade. – Ele pausou. – Como você sabe, Charlotte, eu sou o último na linha, e, como tal, é meu dever providenciar um herdeiro. Monterrato. Um herdeiro. Lottie sentiu os dedos frios do passado agarrando-a. Então, nada mudara. Tudo ainda era sobre Monterrato, sobre continuar a linhagem. O lugar era como uma obsessão para Rafael... era sua vida, seu sangue. Ela também era a última na linhagem... a filha única de John Lamb, falecido, e Greta Lamb, agora Lawrence,


casada novamente e vivendo na América do Sul. Mas ninguém a ouvia alardeando isso. – Bem, se você quer ter um filho, sugiro que encontre alguém com quem têlo. – Lottie ergueu o queixo. Sabia que soava amarga, mas não podia evitar. – Julgando pelo número de mulheres que parecem cercá-lo constantemente, tenho certeza que você pode escolher um exército de socialites que ficariam felizes em produzir infinitos Monterrato para você. O semblante de Rafael tornou-se furioso. – Pelo amor de Deus, Charlotte. – Ele bateu com o punho fechado na mesa, os olhos parecendo selvagens. – Por que você não pode entender? É o nosso bebê que eu quero. Lottie estava atônita. Este não era o Rafael calmo e composto que ela conhecia. O homem no controle total de suas emoções... não perdendo tal controle nem mesmo quando o bebê deles tinha morrido. Então, um pensamento lhe ocorreu. Ele sofrera um acidente horrível... um acidente que resultara em ferimentos na cabeça. Era possível que Rafael estivesse sofrendo de algum tipo de desordem emocional pós-traumática? Isso explicaria o homem volátil, quase descontrolado à sua frente? – Você está certo, Rafe, eu não entendo. – Ela baixou o tom de voz. – Isso tem algo a ver com o acidente? Afetou-o de alguma maneira? Ele levantou-se, inclinando-se sobre a mesa com a imobilidade de uma víbora prestes a atacar. – Por que você diz isso? – Não sei. Eu só pensei... – E, julgando pela atitude dele, ela acertara em cheio. – Você quer falar sobre isso? Talvez o ajude. Virando-se, Rafael andou em direção às janelas. – Não há nada que falar. Aconteceu. – Ele respondeu por sobre o ombro. Maledizione. Falar sobre o acidente era a última coisa que Rafael queria. Sentiu sua respiração pesar no peito com frustração, experimentou a sensação não familiar de impotência. Mas o que esperara? Que Lottie fosse concordar, sem maiores explicações, a ter um filho seu? Ele poderia mentir, é claro. Conquistar Lottie de volta, até atingir seu objetivo, então lhe contar que era tudo uma farsa. Apenas o pensamento do


desafio esquentou seu sangue. Podia sentir os olhos dela em suas costas. Podia imaginá-la mordendo o interior da bochecha enquanto esperava, colocando a mão entre as coxas unidas enquanto se sentava mais na beirada da cadeira. Tudo isso enviou ondas de desejo pelo seu corpo, fazendo-o querer tomá-la ali mesmo, em sua mesa. E quem o culparia, depois do jeito que Lottie o tratara, de usá-la para seu próprio prazer? Mas, não, sexo não era a resposta... por mais tentador que fosse. Do lado de fora, começava a escurecer, e com as luzes ainda não acesas na sala, o ambiente adotara um tom acinzentado. Lottie olhou para a silhueta alta e musculosa contra a luz parca, gravando a imagem na memória, antes de desviar o olhar novamente. – Bem, neste caso, não há mais nada a ser dito. – Ela levantou-se. – Não faz sentido eu continuar aqui. – Não! Pare! – Apesar dos ferimentos, Rafael estava do seu lado em dois passos longos, segurando-lhe o braço quando ela ia pegar sua bolsa. Eles se entreolharam por um segundo, então os olhos de Lottie se moveram para a mão que segurava seu braço. Instantaneamente soltando-lhe o braço, ele deu um passo atrás. – Perdoe-me. – Rafe? O que está acontecendo? Ele a olhou de maneira penetrante. – Muito bem, Lottie, se você precisa saber, eu vou lhe contar. A angústia que ela viu nos olhos dele enviou calafrios por sua coluna. – O fato é que, desde o acidente, eu não sou mais capaz de engravidar uma mulher. Você e nosso embrião congelado são minhas únicas chances de produzir um herdeiro.


CAPÍTULO 2

– VOCÊ NÃO pode ter filhos? – Lottie o olhou com a expressão horrorizada. – Correto. – Rafael permaneceu onde estava, os pés firmemente plantados no chão, os braços atrás das costas. – Você está... infértil? – Acho que já estabelecemos isso. E antes que sua imaginação vá mais longe, isso é tudo que significa. Todo o resto está funcionando normalmente, obrigado. Lottie corou. Ele tinha, é claro, lido sua mente. – Mas por quê? Como? – Eu a pouparei dos detalhes, mas, basicamente, a árvore que salvou a minha vida me incapacitou de produzir outro ser. Uma volta bizarra do destino. Lottie não sabia o que dizer. Podia apenas imaginar o efeito devastador que aquilo tivera em Rafael. Sem mencionar a dor física na ocasião. – Mas isso é permanente? Não existe algum procedimento médico que possa ser feito para reverter a situação? – Parece que não. – Rafael mudou de posição, alertando Lottie para o fato que ela estava olhando para o sexo dele. – Acredite, eu explorei cada possibilidade. – Oh, Rafe. – Subitamente, Lottie estava correndo para ele, envolvendo os braços ao redor de seu pescoço e abraçando o corpo rígido. – Eu sinto muito. Pegando-lhe os braços com uma expressão desgostosa, Rafael os abaixou para as laterais dela e deu um passo atrás. – Não é sua piedade que estou querendo. É algo muito mais prático. Lottie o fitou, os olhos grandes com preocupação. – Eu sinto tanto – repetiu ela. – Deve ser muito difícil para você aceitar isso.


Ela estendeu uma das mãos para tocá-lo, mas ele saiu de seu alcance, cruzando os braços para formar uma barreira. – Você conversou sobre isso com alguém? Fez algum tipo de terapia? Não deve manter tudo trancado em seu interior. – Bobagem! – Rafael bufou. – Eu não preciso de terapia e sim de uma solução para o problema. Nenhuma mudança ali; Lottie nem sabia por que fizera a pergunta. Olhou para o homem orgulhoso a poucos metros de distância. Ali estava alguém que preferiria morrer a extravasar suas emoções, sua abordagem a qualquer problema era consertá-lo e seguir em frente, em vez de se dar tempo para sofrer a dor e curar-se. – Às vezes, não há solução, Rafe. Você simplesmente tem de aceitar isso. – É claro que há uma solução – retrucou ele. – E a solução está em suas mãos. Então era isso. O motivo pelo qual ela estava lá. Não para assinar papéis de divórcio, mas como parte de uma última tentativa desesperada de Rafael produzir um herdeiro Revaldi. Lottie abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com a mão, tentava ordenar seus pensamentos, formular algum tipo de resposta, explicar-lhe que, por mais que lamentasse a situação dele, não poderia fazer aquilo. – Eu percebo que você detém todo o poder – continuou Rafael, antes que ela pudesse falar qualquer coisa negativa. – E isso me coloca em desvantagem. Poder? Desvantagem? Por que ele estava falando assim? Como se aquilo fosse uma fusão de negócios, em vez da criação de uma nova vida, que deveria nascer do amor e do comprometimento. Isso explicava o terno, pensou ela. Rafael estava tentando fechar uma negociação. – Eu concordarei com seus termos, Lottie. Qualquer coisa. Diga o que quer, e será seu. – Não, Rafe... – Se é uma questão de dinheiro... Lottie sentiu calor subindo pelo seu pescoço, inundava seu rosto, enquanto absorvia a sugestão horrorosa. – Pare! Ela estava começando a tremer com um misto de ultraje e tristeza... tristeza porque ele nunca a conhecera, em absoluto.


– Você seriamente acredita que pode me comprar? Comprar nosso bebê? – Não há necessidade de ser tão melodramática. – Ele a encarou, friamente. – Estou apenas tentando encontrar um acordo mutuamente satisfatório. Não me diga que você gosta de trabalhar naquela... suposta galeria de artes em Londres. – Isso se chama ganhar a vida – replicou ela. – É o que as pessoas normalmente fazem. E, a propósito, como você sabe onde eu trabalho? – Eu decidi descobrir. – Você estava me espionando? – perguntou ela, já sabendo a resposta. – Você pode chamar isso de espionagem. Chamo de pesquisa. Eu precisava me certificar de ter todos os fatos disponíveis à minha disposição, antes de contatá-la. A voz calma e racional dele estava adicionando combustível ao fogo já queimando dentro de Lottie. – Havia certas coisas que eu necessitava averiguar: sua carreira, por exemplo, o estado de suas finanças, se existia um homem em sua vida. Lottie arfou. Como ele ousava? E pior, como ousava olhá-la agora como se aquele fosse um comportamento perfeitamente aceitável? Ela se sentiu violada, exposta. – Você está me dizendo que contratou um investigador particular para me seguir, para espreitar nas sombras, mexer no meu lixo, colocar binóculos nojentos nas minhas janelas? Rafael riu. – Uma imagem charmosa, mas as coisas mudaram desde a época dos chapéus de feltro. As maravilhas da internet assumiram o comando. – Bem, independentemente de como você fez isso, é desprezível. Não tem o menor direito de investigar sobre minha vida. Rafael abaixou as sobrancelhas numa carranca. – Circunstâncias excepcionais pedem medidas excepcionais, Lottie. Acredite, eu não estaria fazendo nada disso se houvesse outra maneira. E aquela declaração deveria fazê-la se sentir melhor? Em caso positivo, o tempo claramente não melhorara a compreensão de Rafael sobre a mente feminina. Lottie tentou manter a expressão neutra, temendo que, apesar de sua raiva, seu rosto pudesse trair a imensa tristeza que ela sentia por tudo aquilo. Porque, é


claro, Rafael não estava tentando fazê-la se sentir melhor, estava? Como sempre, estava sendo brutalmente honesto. Mesmo num momento como este, ele não era capaz de contornar a situação para o próprio ganho. A natureza dele era falar a verdade, então alcançar seu objetivo através do poder de sua convicção. Silenciosamente, Lottie virou-se de costas, sabendo o que tinha de dizer, mas não confiando em si mesma para lhe fitar os olhos ao falar aquilo. – Sinto muito, Rafe, mas minha resposta tem de ser não. Nós dois sabemos que isso nunca daria certo. Instantaneamente, Rafael aproximou-se, repelindo suas palavras com um gesto do braço. – Você não sabe disso. – A voz dele era dura, assim como os olhos que a encaravam. – Houve muitos avanços nos procedimentos de fertilização in vitro nos últimos dois anos. Estou certo de que temos todas as chances... – Eu não estou falando sobre os procedimentos de FIV. – Inclinando a cabeça para trás, Lottie confrontou a força do olhar dele. – Estou falando sobre nós... você e eu como um casal. Estou dizendo que nós nunca daríamos certo. – A hostilidade em sua voz estava lá para mascarar a dor que ela sentia diante do casamento fracassado... uma dor que se recusava a passar. – Talvez, eu não tenha sido muito claro. – Rafael deu-lhe um olhar de puro desgosto. – Eu não estou lhe pedindo qualquer tipo de reconciliação. Estou apenas lhe pedindo para ser a mãe do meu filho. Nada mais. Nada mais? Apesar da atmosfera opressiva, o jeito que descrevia aquilo era quase risível... como se estivesse lhe pedindo para redecorar sua cozinha. Exceto que ela não sentiu vontade de rir, mas de chorar. – O que estou tentando dizer é que eu não esperarei mais nada de você. – De forma implacável, Rafael continuou: – Sei que este lado do nosso casamento acabou. Fique tranquila, pois eu não lhe farei nenhuma requisição. – Desgosto contorcia as feições bonitas. – Você tem a minha palavra quanto a isso. Lottie sentiu alguma coisa morrer em seu interior. Sabia que, sexualmente, ela não o interessava mais. Aquele lado do relacionamento deles fora destruído depois que Seraphina morrera, golpeado pelos tratamentos invasivos para fertilidade e pelas decepções. Entretanto, ouvi-lo falar tais palavras estendeu a tristeza em seu interior, até que ela pensou que seu coração pudesse partir ao meio.


Mas precisava aceitar aquilo. Rafael tinha infinitas mulheres para satisfazer suas necessidades físicas agora. Flashes daquelas fotos na internet lhe vieram à mente... as mulheres com sorrisos deslumbrantes e seios esculpidos. Ela olhou para si mesma, para o jeans justo que vestira para viajar, para as botas surradas que iam até os tornozelos, então ergueu os olhos para Rafael. Lá estava ele, aquela aura de concentração intensa quase brilhando em volta da figura escura. O terno impecável, o corpo poderoso, sexy. Ele resumia tudo que ela não era, e estar de volta no Palazzo Monterrato apenas enfatizava tal fato. Reunindo o que restava de sua compostura, Lottie ergueu o queixo em desafio. – Obrigada por sua explicação, Rafael. Embora você não precisasse ter apontado isso. Quando eu disse que não daria certo entre nós, estava falando em termos das praticidades do nosso relacionamento. – Mais firme agora, ela continuou: – Supondo que eu conseguisse engravidar, como poderíamos criar um filho juntos? Nós nem sequer vivemos no mesmo país. Com passos silenciosos de uma pantera perseguindo sua presa, Rafael fechou o espaço entre eles, e Lottie subitamente encontrou-se olhando para um peito largo e poderoso. – Praticidades sempre podem ser resolvidas. Enquanto ele falava sobre o topo de sua cabeça, Lottie havia percebido, tarde demais, que escolhera um argumento tolo. Rafael era mestre em ser prático, em resolver coisas. Como Conte di Monterrato, era o que ele fazia diariamente... supervisionava o funcionamento do principado, planejava para o futuro, resolvia problemas. E era exatamente o que estava fazendo agora. Com tanta proximidade agora, Lottie sentiu o cheiro familiar dele... um misto da colônia pós-barba com sabonete e um aroma que era único de Rafael. Ela quase podia sentir a intensidade que emanava dele, ameaçando envolvê-la. – Eu não quero que você pense, por um minuto, que estou subestimando a enormidade do que estou lhe pedindo. – A voz de Rafe era baixa, sincera. – Porém, ao mesmo tempo, não considero este um pedido inteiramente egoísta. Sei o que ser mãe significa para você. Lottie engoliu o nó na garganta, arregalando os olhos perante a suposição dele. – Por que diz isso?


– Porque eu vi você, Lottie. Vi a euforia no seu rosto quando nós descobrimos sobre sua gravidez... vi seu instinto maternal aflorando, mais forte do que qualquer outro elo. E então – ele continuou, embora parecesse estar sofrendo por dentro –, vi o jeito que você segurou nossa filha nos braços. – Não. Pare! – Aquilo era mais do que Lottie podia suportar, e cobriu suas orelhas com as mãos. – Admita, Lottie. Nunca fui eu que você queria. Era o bebê. O bebê era a única coisa que importava. A única razão pela qual você concordou em se casar comigo. Nosso casamento não passou de uma farsa. Sua declaração final... tudo sobre seu comportamento... aponta para essa verdade inegável. – Eu não vou ouvir mais isso! – Virando-se, Lottie andou para a porta, mas ele a seguiu, parando ao seu lado. – Você ainda pode realizar este sonho, Lottie. Mesmo que nosso casamento seja só no nome, ainda podemos ser pais... você ainda pode ser mãe. – Eu não sei por que você está falando essas coisas. – Piscando contra a emoção, Lottie o rodeou, reunindo toda a força que possuía. – Só posso assumir que está confundindo isso com o que você quer. – Talvez eu tenha pensado assim, no começo. – Rafael posicionou-se na frente da porta, bloqueando a saída dela. – Até ver a expressão no seu rosto, momentos atrás. Estou certo, não é? Você quer um bebê tanto quanto eu. – Não, você não está certo. – Inutilmente, tentando tirá-lo do caminho, Lottie segurou a maçaneta da porta e puxou-a com força. A porta se abriu dois centímetros antes de bater contra as costas de Rafael. – Cuidado com o que você decide, Lottie. – Ele olhou-a calmamente, ignorando a porta batendo em seus calcanhares, que ela continuava puxando. – Não deixe que seu desprezo por mim influencie sua decisão... interferindo em sua própria felicidade. Finalmente, ele moveu-se para o lado e a porta abriu, fazendo Lottie quase perder o equilíbrio. – Isso nunca vai acontecer. TIRANDO SUAS botas, Lottie jogou-se na cama de quatro colunas e olhou para a tapeçaria acima, sua respiração ofegante, lágrimas ainda ameaçando cair. Como Rafe podia fazer isso com ela? Insultá-la com sua tentativa fracassada de


maternidade, usando as memórias preciosamente dolorosas de Seraphina. Era cruel demais. Mas este era Rafael. Lottie sabia que ele usaria qualquer coisa que estivesse à sua disposição para alcançar o que queria. Mesmo se isso significasse despedaçar o coração dela no processo. Como uma espada de ponta dupla, a dor cortava nos dois sentidos, e um talho, sem dúvida, revelava a verdade. Ela sempre quisera ser mãe. Não de forma superficial, apenas escolhendo nomes bonitinhos, mas como um desejo profundo que fazia parte de quem ela era. Talvez, sua própria criação complicada, com pai falecido e mãe casada novamente e morando longe, a fizera perceber que a maternidade era o trabalho mais importante da vida, e, em vez de isso desestimulá-la a ter filhos, incutiralhe um desejo de fazer aquilo direito. Não havia dúvida que, quando ela descobrira que estava grávida do bebê de Rafael, sentira-se eufórica e radiante. Ali estava a chance de ser o tipo de mãe que sempre quisera, em vez daquela que tivera. Como filha única de uma mulher que, francamente, tivera coisas melhores para fazer do que estimular os caprichos de uma criança irritante, Lottie havia sido criada, na maior parte do tempo, por empregadas ou por qualquer vizinho que estivesse por perto. Isso deixava Greta livre para ceder à sua paixão verdadeira: viajar. Ou, mais especificamente, dar a volta ao mundo em cruzeiros luxuosos, enquanto Lottie vivia num estado de terror de que um dia não haveria ninguém para encontrá-la nos portões da escola. Financiada pelo pai muito mais velho de Lottie, que fizera um bom seguro de vida antes de morrer, quando Lottie estava apenas com sete anos, Greta tornarase viciada no glamour do estilo de vida dos cruzeiros: os comissários de bordo bonitos em seus uniformes brancos, os dançarinos de pernas bronzeadas, os capitães elegantes. Finalmente, ela acabara num cais seco, com um capitão, quando se casara novamente e construíra uma vida nova na Argentina. Mas o outro talho da espada de Rafael... Lottie fechou os olhos contra a dor diante da percepção que ele entendera tudo errado. Nunca fui eu que você queria. Era o bebê. O bebê era a única coisa que importava. Seria possível que ele realmente acreditasse naquilo? Que ela fizera um trabalho tão bom de enganá-lo? E, se assim fosse, por que isso a deixava tão triste?


Respirando fundo, ela ergueu-se para se recostar contra os travesseiros e olhou em volta do quarto. Era o mesmo quarto que compartilhara com Rafael... bem, metade dele, pelo menos. As enormes portas duplas no meio do quarto estavam agora firmemente fechadas, como uma metáfora para o casamento deles. Quão diferente as coisas teriam sido se eles não tivessem perdido Seraphina? Se o acidente não tivesse acontecido? Se tudo não tivesse dado desastrosamente errado? A filha deles estaria com três anos agora, correndo em volta do mausoléu, colocando vida nova ali, talvez na companhia de um irmãozinho ou uma irmãzinha. Mas o acidente acontecera, assim como a sequência de eventos ocorridos após, levando-a a voltar para a Inglaterra, começar uma vida nova em Londres e deixar o passado para trás. Mesmo se aquela nova vida significara evitar bebês de todas as formas... bebês em carrinhos, propagandas de bebê na televisão... e até mesmo se virando de costas para bebês que lhe sorriam sobre os ombros das mães no ônibus. Mas Lottie nunca perdera seu desejo de ter um bebê, o bebê de Rafael. E nunca esquecera o último embrião que lhes restava. A minúscula bolha de células guardada num tanque de nitrogênio líquido representava os últimos vestígios do relacionamento deles, e estava sempre lá, trancada no fundo de seu subconsciente. Ocasionalmente, ela se pegava fantasiando sobre o tipo de criança que o embrião se tornaria, antes de guardar o pensamento de volta em sua caixa e passar a chave, mais uma vez. E agora... agora uma chance de viver estava sendo oferecida ao embrião. Nunca, nem em seus sonhos mais loucos, Lottie imaginara que circunstâncias pudessem trazer uma possibilidade como essa. Era uma ideia louca e ridícula. Não era? RAFAEL ANDAVA de um lado para o outro na grande sala formal de jantar, pausando para consultar seu relógio novamente. Onde ela estava? Lottie sabia que o jantar seria servido às 20h30, e já estava uma hora atrasada. Estaria provocando-o deliberadamente? Meia hora atrás, ele subira para encontrá-la, quando o medo súbito e irracional o envolvera. Ele tinha andado ao longo do corredor, para o quarto de Lottie, convencido de que ela fugira... como fizera uma vez. Então, batera à


porta e os trinta segundos de silêncio antes que ele a ouvisse se mover haviam parecido uma eternidade. Mas então, a porta se abrira, e lá estava ela... com olhos sonolentos e cabelos desalinhados. E a visão lhe despertara outra onda de desejo. Agora que Lottie ainda não aparecera, ele podia sentir o mesmo medo envolvendo-o. Dez minutos, ela dissera... apenas tempo suficiente para um banho rápido. Andando para a cabeceira da mesa, Rafael disse a si mesmo para se acalmar. Parar de se comportar como um tolo. Estava olhando para a porta pesada, quando esta finalmente se abriu e Lottie entrou, pedindo desculpas e evitando contato ocular. Pegando o sino que tocava na cozinha, ele a observava enquanto ela se aproximava e se sentava, abrindo um guardanapo no colo. Desviando o olhar, Rafael sentou-se ao seu lado, à cabeceira da mesa, recusando-se a reconhecer como Lottie estava adorável. Os cabelos lavados e secados às pressas tinham resultado numa nuvem de cachos loiros que ela prendera num nó frouxo no topo da cabeça, com mechas já escapando e emoldurando as feições delicadas. Um vestido roxo de malha abraçava as curvas delgadas de um jeito que fez seu sangue ferver nas veias. Levantando uma garrafa de cristal, ele começou a servir a taça de Lottie, observando os dedos delgados se curvarem nervosamente ao redor da haste. Então, erguendo sua própria taça entre eles, ele viu Lottie automaticamente fazer o mesmo. A que eles estavam brindando? – A sua saúde – murmurou ele. Aquele era dificilmente o mais caloroso dos brindes. Lottie olhou-o por sobre a borda da taça de vinho; ele já estivera mal-humorado quando a acordara de sua soneca inesperada, batendo à porta de seu quarto, exigindo saber por que ela estava demorando. Mas sua promessa de dez minutos se provara impossível de cumprir, e, dividida entre deixá-lo esperando e um desejo de se arrumar, o último vencera. Todavia, agora, perguntou-se por que se incomodara. Parecia que sua maquiagem piorara ainda mais o humor de Rafael. – Sim... salute. – Lottie deu um pequeno gole de seu vinho. Quase imediatamente, dois membros do staff apareceram, e, enquanto a comida foi servida em seus pratos, Lottie conseguiu ignorar,


momentaneamente, o homem mal-humorado ao seu lado. Quando os criados saíram, ele esperou que ela pegasse os talheres, antes de fazer o mesmo. – Sugiro que comamos agora, antes que a comida esteja arruinada. Ele realmente estava num péssimo humor. A noite seria horrível. Mas a refeição estava deliciosa, e, sentada na enorme sala magnífica, bebendo um excelente vinho tinto, Lottie podia se sentir sendo transportada para a vida de riqueza e privilégios da qual fugira tão violentamente dois anos atrás. O mundo de Rafael. E, apesar de estar vestido de modo casual agora, em jeans e camisa aberta no colarinho, ele ainda parecia o amo... o Conte di Monterrato. A conversa foi limitada, com Lottie tentado puxar assunto, e Rafael parecendo muito concentrado na refeição para discutir o assunto mais pesado, embora este pairasse entre eles como um hóspede não convidado para o jantar. Então Lottie observou-o, atraída pelo formato da boca bonita que se movia, pela linha forte do maxilar, que agora estava sombreada com pelos que escondiam parte dos ferimentos. Na luz tremulante do candelabro sobre a mesa, os ferimentos de Rafe eram menos visíveis, e ele parecia assustadoramente o velho Rafael magnífico. Quando a refeição acabou, Rafael sugeriu que eles fossem para o salão, e, relutantemente, Lottie o seguiu ao longo do piso de mármore, para o calor da sala relativamente modesta. Café e conhaque esperavam por eles numa mesa baixa na frente do fogo, e eles se sentaram lado a lado no sofá antigo. Rafael começou a lhe servir conhaque, mas ela meneou a cabeça. Já tinha bebido demais; podia sentir o efeito ameaçando alterar seus sentidos. Café era uma ideia muito mais sensata. Lutando com o bule pesado de prata, ela serviu café em duas xícaras e passou uma para Rafael. Então, cruzando as pernas, usou a mão livre para puxar o vestido sobre suas coxas. – Você pensou melhor sobre minha sugestão? A trégua obviamente acabara, e o ar foi preenchido com a magnitude da pergunta dele. – É claro que pensei. – Ela virou-se de lado para encará-lo. – E devo dizer que não aprecio a chantagem emocional.


Rafael abriu uma das mãos sobre as têmporas, protegendo os olhos, como se sentisse dor ao olhar para ela. – Eu apenas apontei que você tem um forte instinto maternal. Não há razão para se envergonhar disso. – Eu não estou envergonhada! – Então você não está negando que, na teoria, gostaria de ter um bebê? – Sim... não. Essa não é a questão. – Se você quiser um filho, Lottie, agora é sua chance de fazer algo sobre isso. Não preciso lhe dizer que, com os problemas de fertilidade que você sofreu, suas chances de ter um bebê com outra pessoa podem ser... desafiadoras. – E as suas são inexistentes. Era uma resposta cruel, Lottie sabia. Mas não ia retirá-la; ele a merecia. – Touché. Silêncio se seguiu, e Lottie se sentiu pior com cada segundo que passava. – Então, estamos ambos na mesma situação. Mais um motivo para que você tome a decisão certa. Lottie pôs sua xícara sobre a mesa. Rafael tinha uma resposta para tudo, não é? Exceto para o que dizia respeito a Seraphina. Ele nunca queria falar sobre a filha deles. Bem, agora ela o obrigaria. Respirou fundo. – Você alguma vez pensa em Seraphina? – É claro que eu penso. – O maxilar de Rafael enrijeceu, e ele não conseguiu esconder a emoção da voz. – Como pode perguntar uma coisa dessas? Seraphina era meu bebê, também, caso você tenha esquecido. A vulnerabilidade desaparecera, substituída pela animosidade mais familiar, mas Lottie tivera um vislumbre daquela... ouvira-o dizer o nome da filha. Seraphina. Falado com o lindo sotaque italiano. Ela teve de lutar para não pedir que ele repetisse o nome. Ela desviou os olhos do rosto dele para a mão grande descansando sobre a coxa musculosa, as cicatrizes e arranhões no dorso lembrando-a pelo que ele havia passado. Impulsivamente, Lottie estendeu o braço e cobriu a mão dele com a sua. – Talvez eu tenha esquecido. Sinto muito.


A conexão entre eles foi imediata, fazendo-a tremer por dentro, até que Rafael recolheu a mão e passou-a pelos cabelos. Ele movimentou-se no assento e tomou o controle da situação, novamente. – Eu sei que nós nunca poderemos substituir Seraphina, nem iríamos querer fazer isso, mas nada nos impede de termos um bebê saudável, Lottie. Quero que você entenda isso. – Rafe... – Apenas imagine, Lottie... dentro de um ano, nós poderíamos ser pais. Podemos fazer isso acontecer... eu sei que podemos. – Você não sabe. – Tentando agarrar-se ao último vestígio de sanidade, Lottie desafiou-o. – Mesmo se eu concordasse com o transplante do embrião, não há nada que garanta que vai dar certo. – Mas há uma certeza. – A voz autoritária era muito baixa. – Se nós não tentarmos, nunca saberemos. Subitamente, a sala estava abafada, o silêncio apenas quebrado pelo crepitar do fogo na lareira. Com a intensidade dos olhos escuros de Rafael nos seus, Lottie sentiu calor inundando seu corpo, derretendo sua resolução. Ela poderia dizer sim? De alguma maneira, Rafael fazia tudo parecer possível. Mas então, ele não tinha consideração alguma pela vida que ela construíra para si mesma na Inglaterra. Uma vida construída tijolo por tijolo, a partir da demolição do casamento deles. Ela finalmente alcançara o estágio em que se sentia financeira e emocionalmente estável. Na maior parte do tempo, pelo menos. Seria capaz de arriscar aquela enormidade, e jogar cautela, bom senso e autopreservação ao vento? A ideia era tão tentadora. Rafael esperou, como se sentindo que palavras não eram mais necessárias. Tão perto agora que ela podia sentir a respiração dele no seu rosto, sentir-se fraquejando diante da sensualidade inebriante daquela aproximação. Sentando-se ereta, ela imitou o olhar penetrante de Rafael. Aquela decisão era sua, e ela iria tomá-la. – Certo, eu tomei uma decisão. O brilho nos olhos de Rafael foi tão intenso que Lottie teve de piscar, sua boca subitamente muito seca.


– Minha resposta Ê sim. Eu farei isso.


CAPÍTULO 3

HOUVE UM longo segundo de perplexidade. Então, reagindo, Rafael pegou as mãos de Lottie nas suas e apertou-as. – Você fala sério? – Ele inclinou a cabeça para vê-la melhor, para se certificar de que entendera corretamente. – Sim. – Você concorda em usar nosso embrião congelado? – Sim. É disso que estamos falando aqui, não é? – Ela tentou uma risada, mas o som saiu mais como um grito, o pânico do que acabara de concordar confundindo suas cordas vocais. – Então, eu lhe agradeço. – Profundamente sério agora, Rafael soltou-lhe as mãos e, inclinando-lhe o queixo, encontrou seu olhar. – Vi ringrazio dal profondo del mio cuore. Obrigado do fundo do meu coração. – Tudo bem. Lottie encolheu-se diante de suas próprias palavras. “Tudo bem” dificilmente era uma resposta adequada para a gratidão sincera de Rafael. Ou para a magnitude do que ela concordara. Mas não podia raciocinar com clareza, não quando ele estava tão perto, os dedos roçando contra sua pele. Ela precisava fugir... fugir de Rafael e dos sentimentos que ele estava lhe causando. Se ela tomara a decisão mais louca de sua vida, queria ficar sozinha agora, de modo que pudesse gritar consigo mesma, em paz. – Bem, acho que vou dormir. – Lottie levantou-se. – Eu estou cansada. – É claro. – Rafael estava imediatamente ao seu lado, segurando seu cotovelo. – Podemos discutir todos os arranjos amanhã.


A pequena declaração não fez nada para acalmar seus nervos. Ela ia se afastar, mas Rafe segurou-a, puxando-a para mais perto, os braços fortes circulando-a, pressionando-a contra o peito sólido. Lottie congelou sob o abraço. – Você não vai se arrepender de sua decisão, Lottie. Eu me certificarei disso. Desta vez, vai dar certo... sei que vai. – Espero que sim. – As palavras dela eram abafadas contra o algodão macio da camisa dele. Ela não sabia se iria ou não dar certo, mas no momento, tinha uma preocupação mais urgente. O jeito chocante que seu corpo estava respondendo ao dele. A pequena onda de desejo proibido se espalhara por todo o seu corpo, parando no baixo-ventre, onde pulsava agora, esperando que alguma coisa acontecesse. – Eu sei que sim. Ele puxou-a para mais perto ainda, e Lottie sentiu o calor entre eles se intensificando. Era tão bom estar ali que, ignorando cada aviso interno, ela descobriu-se arqueando o corpo de leve, empurrando sua pélvis para mais perto dele, a fim de sentir mais. E não ficou desapontada. A ereção masculina poderosa tornou-se instantaneamente evidente, fazendo seu corpo responder com espasmos de desejo. Triunfo a envolveu pelo fato de que ainda podia fazer aquilo com ele... que Rafael não era indiferente a ela como sua fachada sugeria. Erguendo-se na ponta dos pés agora, ela enlaçou os braços em volta do pescoço de Rafe, querendo mais, querendo que ele quisesse mais. Ouviu o gemido gutural, então ele praguejou, tirou-lhe os braços de volta de seu pescoço e afastou-se. – Não! A palavra foi como uma chicotada na carne exposta do desejo de Lottie. – Não é disso que este assunto se trata. Parada ali, rejeitada e exposta, Lottie olhava-o em confusão, enquanto ele andava para a lareira, chutando um pedaço de lenha para lá, produzindo uma chuva de faíscas. – Acho que precisamos estabelecer algumas regras. – Rafael falou, de costas para ela. – Eu não quero que você tenha a ideia errada. A ideia errada.


Lottie desviou o olhar das costas largas para o espaço vazio onde ele estivera antes. Seu corpo ainda tremia de desejo. Mas as palavras de Rafael tinham feito seu coração murchar. Nós não queremos que Lottie tenha a ideia errada, queremos? Como se ele tivesse algum sentimento por ela. Lottie endireitou o vestido e pigarreou. Precisava assumir o controle agora... convencê-lo de que não estava preocupada, que ele reagira de forma exagerada. – Sem problemas. Não foi nada. – Ela forçou uma risada. – Não há necessidade de ficar nervoso sobre isso. Rafael virou-se e deu-lhe um olhar que beirava a ódio. – Sì, certo. Nada. Lottie mordeu seu lábio trêmulo. O que ele queria dizer? Ela estava tentando melhorar as coisas. O jeito vergonhoso com que o desejava, a humilhação de ser rejeitada, a expressão de puro desgosto no rosto de Rafael agora... tudo conspirava para deixá-la arrasada. Ela precisava encontrar uma forma de defesa. – O que eu quis dizer é que estou muito consciente da situação. Concordei em tentar este bebê com você, Rafael, não em ressuscitar nosso casamento. Rafael a encarou com olhos tempestuosos. – Contanto que ambos saibamos qual é a nossa posição. – Tenho certeza que sabemos. Você deixou seus sentimentos por mim perfeitamente claros. – Assim como você deixou os seus por mim. – Sim. Lottie encolheu-se. Sua grande mentira. Impossível removê-la agora. A mentira já estava impregnada em Rafael... em cada músculo do corpo poderoso, no brilho dos olhos pretos como carvão. Com alguns passos, ele estava à sua frente de novo, olhando para seu corpo defensivo. Lottie observou-o lutar para controlar a respiração, para conter o temperamento, o desgosto por ela. Finalmente, ele deu um passo atrás, ainda a encarando. – Então, estou satisfeito que não há confusão. RAFAEL BEBEU o resto de seu conhaque e pôs o copo sobre a mesa, a montanharussa emocional da noite ainda abalando seu corpo. Ele passou uma das mãos na testa, a cicatriz lembrando-o do acidente que começara tudo aquilo.


Deveria estar se sentindo radiante, tinha conseguido convencer Lottie a usar o embrião congelado deles. Agora, ele precisava agilizar as coisas antes que ela mudasse de ideia... ou, pior, voltasse para a Inglaterra, encontrasse alguém, esquecesse tudo sobre ele. Tivera sorte que isso ainda não acontecera. Que Lottie não estava envolvida com um jovem descomplicado, começando uma vida de “felizes para sempre”, que não o incluía. Mas suas investigações não revelavam nada além de um chefe desagradável na galeria de arte onde ela trabalhava. Todavia, mesmo que Lottie estivesse descomprometida agora, não era possível saber por quanto tempo tal situação continuaria. Ele precisava agir depressa. Mas não do jeito que acabara de agir. Dio... O que estivera pensando para pressioná-la junto a si como um adolescente excitado? Mostrando... tão fisicamente... a facilidade com a qual ela ainda podia excitá-lo. Mas não tinha sido só ele. A lembrança de como Lottie respondera ainda pulsava em suas veias. Aquilo havia sido deliberado? Um teste para ver o que seria necessário para fazê-lo reagir? Em caso positivo, Rafael se mostrara a mais fraca das criaturas. Ela saíra da sala, parecendo ansiosa para se livrar dele, presumivelmente satisfeita por saber que ainda podia excitá-lo, como sempre pudera. Bem, bastava. Levantando-se do sofá, ele movimentou os ombros para relaxar a tensão, quase apreciando a dor física que atingiu um lado de seu corpo. Precisava resistir, ser forte. Andando para a lareira, viu seu reflexo abatido no enorme espelho dourado, demonstrando novamente a confusão que fizera em sua vida. Desviou o olhar, apenas para ser confrontado pelos querubins de mármore entalhados de cada lado seu, zombando dele com seus rostos adoráveis. Às vezes, parecia que o mundo inteiro estava zombando dele. O DIA seguinte amanheceu claro e brilhante, e Lottie testemunhou cada estágio do amanhecer. Depois de algumas horas intermitentes de sono, ela desistira e passara o que restava da noite aconchegada no assento sob a janela, com um edredom ao seu redor. De lá, tinha visto a noite estrelada dar lugar ao sol, que se ergueu com velocidade surpreendente, até bater em sua cama desarrumada, anunciando o dia.


Aquelas horas silenciosas haviam lhe dado muito tempo para refletir... até que ela achou que sua cabeça fosse explodir. Mas agora, de pé e vestida, aquecida pelo café... a única coisa que consumira de sua bandeja do café da manhã... descobriu que sua mente estava clara, e que ela sabia o que precisava fazer. Tirando seu celular da bolsa, enviou uma mensagem de texto para Alex... a amiga que dividia o apartamento com ela... dizendo-lhe que pretendia ficar em Monterrato “por mais algumas semanas”. Alex não estaria acordada ainda, portanto, Lottie tinha a desculpa de não falar com sua amiga e enfrentar o interrogatório que sua declaração, sem dúvida, produziria. Apertando “enviar”, ela sorriu ao imaginar a reação de Alex, já imaginando a resposta entusiasmada dela. A tarefa seguinte era mais difícil. Informar Ibrahim, seu chefe na galeria, que os “três ou quatro dias” que ela tirara de folga do trabalho poderiam se tornar três ou quatro semanas. Ele tendia a crises de histeria no melhor dos tempos, e aquilo o enfureceria. Entretanto, tinha de ser feito. Então, digitando o número dele em seu telefone, Lottie esperou que o toque suave da linha chamando fosse atendido pelo familiar tom mal-humorado de Ibrahim. O PALAZZO estava silencioso quando Lottie finalmente saiu no corredor, o ar cheirando a flores frescas. Descendo a escada, ela olhou ao redor, sentindo o corrimão de mogno correr sob sua mão. Atravessou o hall e, abrindo a porta pesada da frente, inalou profundamente. A propriedade Monterrato espalhava-se em todas as direções, brilhando com orvalho matinal. À sua frente, estendiam-se duas fileiras de choupo, lançando sombras diagonais ao longo do caminho que atravessava o gramado impecável de cada lado. Lottie desceu a escadaria e pegou o caminho de cascalho que seguia a lateral do palazzo. O ar frio contra seu rosto era agradável, e ela respirou fundo, andando com propósito, sabendo exatamente para onde estava indo... passando pelos jardins da cozinha, pelo estábulo deserto e pela piscina, para um caminho sinuoso através da área florestal. Os primeiros sinais da primavera começavam a aparecer: galantos e açafrões brotavam do solo, espalhados ao redor dos pés das árvores. O caminho gradualmente subia, até que as árvores acabavam, e, lá, erguida sobre o topo de


um morro, estava a capela de Monterrato, suas paredes castanho-avermelhadas contrastando com o céu azul da manhã. Um lance de degraus de pedra, onde cresciam musgos e erva-daninhas, levava à capela e aos túmulos espalhados a sua volta, suas lápides inclinadas num ângulo torto. Ali era o último local de descanso para as gerações dos Revaldi, em paz nas lindas redondezas. Lottie andou respeitosamente entre eles, pegando o caminho em direção a um pequeno túmulo em particular. Ao avistá-lo, seu coração apertou. Havia o anjo esculpido, ainda guardando fielmente a fatia de mármore branca, uma face descansando nas mãos, as asas abertas atrás do corpo. Agachando-se, Lottie levou um momento para se firmar, as memórias vinham: a visão do pequeno caixão branco sendo abaixado na terra, o som das primeiras pás de terra caindo sobre a tampa. Inclinando-se, ela tocou a lápide, seus dedos frios traçando a inscrição, as palavras gravadas no seu coração. Alguém tinha colocado um ramalhete de flores na pequena urna, e, enquanto o rearranjava distraidamente, um pintarroxo pousou sobre a cabeça do anjo, observando-a com seus olhos pequenos. Tudo era pacífico. Saboreando o momento precioso, Lottie fez uma oração para sua filha e viu o pintarroxo levantar voo, carregando sua prece para o céu. – Lottie? Lottie virou-se com um susto. Rafael estava a alguns metros de distância, alto e forte num sobretudo preto, a gola erguida roçando-lhe o maxilar ferido, como um lindo vilão da era vitoriana. – Eu achei que pudesse encontrá-la aqui. Levantando-se, Lottie aninhou mais o casaco a sua volta. – Eu... eu apenas precisava pensar... estar com Seraphina. – É claro. Você não precisa explicar. Irei embora... eu a deixarei em paz. – Ele já estava se virando. – Não. – De repente, ela soube que não queria que ele fosse embora. Queria que ele ficasse ali, ao lado do túmulo da filha deles, juntos. Que não se distanciasse do jeito que sempre fizera. – Por que você não se junta a nós? Lottie observou quando Rafael, hesitantemente, moveu-se entre os túmulos para se aproximar, parando ao lado do anjo.


Houve um momento de silêncio doloroso, abruptamente terminado quando Rafael pigarreou. – Você parece estar com frio, Lottie. Nós deveríamos voltar para o palazzo. Há coisas que precisamos discutir. – Eu estou bem. – Um tremor tão violento que sacudiu seus ombros disse o contrário. Registrando o desafio na voz dela, ele aumentou a autoridade na sua própria voz. – Então vamos entrar na capela. Estará mais quente lá. Não adiantava discutir. Lottie o seguiu para a porta arcada da capela, e observou-o girar a maçaneta de ferro. O pequeno espaço os recebeu com seu teto convexo azul, repleto de estrelas douradas. O altar era guardado pela imagem da Virgem Maria e seu bebê. O cheiro que permeava o ar era um misto de madeira, umidade e incenso. Andando entre as fileiras de bancos, Rafael foi acender uma vela no altar, depois se juntou a Lottie no primeiro banco, as longas pernas estendidas à frente. Eles permaneceram em silêncio por um momento, não querendo quebrar a magia. – Então... sua decisão de ontem à noite – Rafael finalmente falou, virando-se para encará-la – ainda continua de pé? – Sim, é claro. – Ela retornou o olhar dele. – Ótimo. – Ele deu um suspiro aliviado. – Então eu a agradeço novamente. Acho que não preciso lhe dizer o quanto isso significa para mim? – Não, você não precisa, Rafael. – Lottie uniu as mãos frias. – E, por favor, não pense que precisa me agradecer o tempo todo. – Como quiser. – Ele a olhou curiosamente, tentando avaliar o humor dela. – Talvez, você prefira que eu me mova para as praticidades? Lottie não preferia aquilo, na verdade, mas sabia que não tinha escolha. Não respondeu. – Dr. Oveisi chegará amanhã, às 14h30. – O quê? – O ar ficou preso na garganta de Lottie. – Sim. Nós tivemos sorte. Ele tinha um dia livre. É claro que tinha. Especialistas em FIV mundialmente famosos deviam ter muito tempo nas mãos... agendas vazias, apenas esperando por um telefonema.


Pelo menos, era como tudo parecia funcionar no mundo de Rafael. – Amanhã – repetiu ela, tentando absorver a ideia. Não sabia por que estava surpresa. Rafael era um homem que, uma vez tendo a decisão tomada, agia sem demora. Ele dificilmente lhe daria tempo para mudar de ideia, cancelar o contrato. E, apesar da onda de pânico, ela teve de conceder que seria inútil adiar as coisas. Ela não ia mudar de ideia. Quanto antes eles fizessem isso, mais depressa saberiam se daria certo. E se desse...? Apenas o pensamento preencheu-a com excitação e alegria. No dia anterior, quando tomara sua decisão, quase sentira como se alguém tivesse se apossado do seu corpo. Suspeitara fortemente que, pela manhã, teria se arrependido da ideia. Todavia, sua noite de insônia produzira mais do que círculos escuros sob seus olhos. Aquelas horas frias de escuridão haviam focado sua mente, fazendo-a ver as coisas mais claramente do que sempre. Percebera que Rafael estava certo; ela queria ser mãe, e, embora detestasse admitir até para si mesma, mais do que qualquer coisa no mundo, queria ser mãe de um filho de Rafael. Esta era sua única oportunidade de fazer isso acontecer... a única chance de vida do embrião. Dizer não agora seria fechar a porta para aquele sonho para sempre, concordando efetivamente que o embrião deles fosse destruído. Algo que Lottie sabia que jamais poderia fazer. Hoje, estava surpresa ao descobrir que se sentia mais forte... até mesmo mais poderosa... por sua decisão. Estava correndo um risco enorme, mas o que as pessoas diziam? Que os maiores arrependimentos da vida não vinham de coisas que você fazia, mas de coisas que deixava de fazer. Bem, ela não ia ser acusada disso... não desta vez. Olhando em volta da capela, sentiu uma onda de antecipação envolvê-la. Se a chance de paternidade futura deles estivesse agora no colo dos deuses, este era o lugar certo para estar: sentada ao lado de Rafael naquela cápsula eterna de calma, com a Virgem Maria e o menino Jesus diante deles. Ela tirou sua força dali. – Amanhã está bem para você? – Rafael interrompeu seus pensamentos. – Eu pensei que deveríamos fazer isso o mais rapidamente possível. – Amanhã está bem. – Ela virou-se para olhá-lo, arriscando um sorriso. – Quanto antes, melhor.


DR. OVEISI era um homem agradável de meia-idade, com cabelos lisos, grisalhos e um gosto por joias de ouro. Quando Lottie nervosamente apertou-lhe a mão estendida, pôde sentir os anéis volumosos contra sua palma suave. Eles estavam sentados no grande salão... Lottie e Rafael lado a lado no sofá, dr. Oveisi numa poltrona do lado oposto. Logo se tornou aparente que ele era tanto muito inteligente como prático. O tipo de homem que Rafael gostava. Após uma breve apresentação, ele questionou sobre a história de fertilidade de Lottie, as tentativas de fertilização in vitro fracassadas e seu ciclo de ovulação atual. Durante o tempo todo, ele tomava anotações num bloquinho sobre o colo, fazendo marcas pretas indecifráveis ali. Todavia, apesar da falta de habilidades sociais do médico, Lottie logo descobriu que confiava nele. Ao seu lado, Rafael estava silencioso, ouvindo atentamente. Lottie podia sentir a concentração dele, o significado da conversa apenas evidente na postura rígida do corpo grande. Finalizando o assunto sobre os problemas de fertilidade de Lottie, dr. Oveisi voltou sua atenção para o precioso embrião. Mais anotações eram tomadas, enquanto Rafael confirmava que, sim, tinha sido congelado com cinco dias de idade, e dava o nome da clínica de fertilidade onde o embrião estava estocado. – E há apenas uma blástula? – Dr. Oveisi direcionou a pergunta para Rafael. Ambos conheciam o termo blástula: um embrião que tinha sido cultivado por cinco dias. Três tentativas fracassadas em FIV tinham deixado Rafael e Lottie familiarizados com toda a terminologia médica. – Sim. – A falta de emoção na resposta de Rafael era reveladora. – Apenas uma. – Certo. – Guardando a caneta no bolso, dr. Oveisi se levantou. – Creio que isso é tudo. Providenciarei uma visita de uma de nossas enfermeiras de fertilidade para discutir as injeções de hormônio da Contessa Revaldi. Uma vez que marcarmos a data para a transferência, eu vejo vocês na clínica. Permitindo-se o mais breve dos sorrisos, ele apertou a mão de Lottie, antes de sair da sala com Rafael. Lottie olhou para o lugar que o médico vagara. Aquilo estava acontecendo tão depressa. Dr. Oveisi, apesar do jeito impessoal, fizera tudo parecer tão real, tão tangível. Seria realmente possível que, dentro de algumas semanas, ela estivesse grávida? De um filho de Rafael?


COMO PROMETIDO, a enfermeira de fertilidade apareceu no dia seguinte, carregando uma sacola cheia de medicamentos. Lottie imediatamente gostou dela... uma jovem chamada Gina, obviamente brilhante, assim como atraente. O uniforme branco impecável realçava o corpo delgado, os cabelos estavam presos num rabo de cavalo e os olhos azuis inteligentes falavam de firmeza. Até que ela visse Rafael, é claro. Lottie podia praticamente vê-la tentando controlar sua reação, lutando para permanecer profissional diante daquele homem impressionantemente lindo. Rafael deu-lhe um sorriso educado, antes de anunciar que as deixariam a sós. Sozinhas, as duas mulheres trocaram um olhar, e um rubor cobriu o rosto de Gina, antes que ela abrisse sua sacola, procurando o que queria de lá. Gina pretendera ir ao palazzo administrar as injeções de hormônio todos os dias, mas Lottie lhe disse que podia fazer aquilo sozinha. Não era como se não tivesse feito antes. Gina observou quando Lottie aplicou a primeira injeção em sua própria coxa, e, obviamente satisfeita ao ver que ela sabia o que estava fazendo, deixou-a com instruções sobre a rotina rígida que Lottie deveria seguir até sua próxima visita. – E eu também não preciso lhe dizer sobre os possíveis efeitos colaterais? – Gina deu um sorriso compassivo a Lottie. – Dores de cabeça, cólicas estomacais, oscilações de humor, ondas de calor... Eu já estou ansiosa por estes. – Lottie sorriu de volta. – Já passei por tudo isso. – Então, você só precisa de um pouco de paciência, e logo sua barriga começará a crescer. – Vamos esperar que sim. As duas mulheres se entreolharam. – É do dr. Oveisi que estamos falando aqui – disse Gina. – Ele pega a esperança e a transforma em realidade. A confiança de Gina era tocante, mesmo que soasse um pouco como uma propaganda de uma clínica de fertilidade. Olhar para os medicamentos espalhados sobre a mesa à sua frente fez Lottie pensar pelo que teria de passar... no que concordara em fazer. Mas não havia volta agora.


– SIM, PROMETO lhe contar tudo quando eu voltar. Sim... Não... Eu estou bem. Honestamente, Alex, não há motivo para você se preocupar. Agora, volte para seu Pinot Grigio e deixe-me dormir. Já passa da meia-noite aqui. Lottie terminou a ligação e virou-se para pôr o telefone sobre o criado-mudo. Amava Alex, realmente amava, mas estava ficando cada vez mais difícil enganála... especialmente depois que algumas taças de vinho tinham deixado sua amiga determinada a descobrir: “O que está acontecendo aí, Lots?” Lottie passara os últimos dias numa bolha de irrealidade... a situação tão louca que ela mal podia acreditar, quanto mais explicar para alguém tão entusiasmada como Alex. Ela chegara a Monterrato convencida de que assinaria papéis de divórcio, cortando todos os elos com Rafael, entretanto agora, lá estava ela, tentando engravidar do bebê dele e querendo isso mais desesperadamente do que ousava admitir para si mesma. Apagando a luz, aninhou-se embaixo do edredom. Sua vida na Inglaterra parecia muito distante agora, embora ela soubesse que teria de enfrentá-la em algum ponto... principalmente a questão de seu emprego na Galeria Ibrahim. Ibrahim deixara bem claro que não autorizava mais dias de licença, e que se ela não voltasse dentro daquela semana, não precisava voltar mais. Pensando na ameaça, ela agora imaginou se ainda tinha um emprego. Enquanto isso, seu tempo no palazzo entrara num padrão bizarro. Rafael viajava muito a negócios, e, mesmo quando ele estava lá, Lottie o via muito pouco. Se ele não estava enterrado no escritório, estava presidindo reuniões na sala de conferências, ou lidando com muitos dos assuntos complexos que ser o Conte di Monterrato envolviam. Quando eles se encontravam, ele perguntava educadamente sobre seu bemestar. Parecia sincero, mesmo se estivesse apenas verificando se ela estava seguindo as instruções de dr. Oveisi ao pé da letra. Mas o jeito que Rafael olhava para o relógio ou procurava o celular no bolso deixava claro que ele não tinha intenção de prolongar as conversas. Era quase como se ela fosse outro de seus projetos, mas, embora aquela frieza a magoasse, não a enganava nem por um momento. Ela sabia que esse era o comportamento típico de Rafael Revaldi. Que quanto mais uma coisa significava para ele, menos ele deixava transparecer.


As noites eram piores... especialmente quando Lottie sabia que ele estava por perto. O pensamento de tê-lo tão próximo, dormindo apenas do outro lado das portas de conexão, porém tão distante emocionalmente, preenchia-a com tristeza. Ela percebeu que nunca se sentira mais sozinha que agora. Enquanto estava deitada imóvel, podia ouvir sons vindos do outro lado da porta. Ouviu os passos de Rafael no piso de madeira, o barulho do chuveiro. Visualizou-o com uma toalha baixa em volta dos quadris, os pelos molhados no peito, os bíceps se flexionando enquanto ele seca os cabelos... Ouvindo o estalar da cama, ela soube que a toalha fora jogada no chão, e que o corpo nu e musculoso estava se aconchegando entre os lençóis frios... FINALMENTE, O dia da transferência do embrião chegou. Tinha sido combinado que Lottie iria de carro para a clínica, e Rafael... que estivera em Paris nos últimos dias... a encontraria lá. Era uma viagem de aproximadamente duas horas, mas Lottie conhecia bem o caminho. Era a mesma clínica onde ela se submetera aos tratamentos, antes... onde o último embrião precioso deles estava guardado. Porém, de alguma maneira, desta vez, com dr. Oveisi no comando, tudo parecia diferente, pensou ela, admirando a paisagem campestre. Ela adorava dirigir este carro... um da frota de veículos que Rafael possuía. Era preto e elegante, com um motor potente e silencioso. E era um alívio sair um pouco do palazzo... escapando dos olhos inquisitivos do staff. Sabia que eles deviam estar curiosos sobre o que estava acontecendo entre o Conte e sua esposa fugitiva. Se aquela fosse uma reconciliação, era uma peculiar. Metade do tempo, Rafael não estava por perto, e a outra metade, ele mantinha uma distância gelada. Dificilmente os dois pombinhos eram vistos reunidos. Mas, com cada quilômetro rodado, Lottie sentia seus nervos aumentarem. O rádio não a distraía. As canções de amor pareciam enfatizar, deliberadamente, o absurdo de sua situação. Diminuindo a velocidade, ela alcançou uma garrafa de água ao seu lado e deu alguns goles. O que estava prestes a fazer ainda parecia loucura... inacreditável. Mesmo que ela só pensasse nisso nas últimas semanas. Era difícil não pensar, quando defrontada com um coquetel diário de drogas e injeções, mas ela nunca se permitia pensar além desse estágio... além do estágio


da implantação do embrião. Não poderia adiar aquilo por muito mais tempo. Em algum momento, teria de confrontar a realidade do que estava fazendo. Se ela engravidasse ou não, haveria consequências que mudariam sua vida. E, no momento, todas pareciam assustadoras. Rafael estava esperando Lottie nos degraus da clínica, e beijou-a formalmente no rosto. Eles adentraram as portas de vidro juntos. Ele estava bonito, usando terno cinza-chumbo e camisa branca, aberta no colarinho, uma gravata cinza afrouxada. Lottie, mais uma vez, ficou impressionada pela beleza, presença carismática e estilo de Rafael. Os ferimentos estavam desaparecendo, e a cicatriz maior tinha clareado, tornando-se uma linha levemente rosada. Eles trocaram um olhar silencioso na área da recepção, antes que dr. Oveisi chegasse, e os três pegassem o elevador para o terceiro andar, onde o especialista informou-os que a incubação assistida do embrião congelado tinha sido completada com sucesso e tudo estava pronto para o procedimento. A expressão de alívio no rosto de Rafael foi refletida nas paredes espelhadas em volta deles. Menos de meia hora depois, todo o procedimento fora completado. Lottie não quisera a presença de Rafael lá... tentara convencê-lo de que ele preferiria ficar na sala de estar, subitamente se sentindo tímida na frente dele. Mas, amarrando o avental verde atrás das costas, ele deu-lhe um olhar altivo que não precisou de palavras para esclarecê-lo. E Lottie tinha de admitir que a presença dele ajudara. A postura absolutamente determinada de Rafael parecia suficiente para fazer aquilo dar certo. E quando ele segurara sua mão, Lottie a apertara como se sua vida dependesse disso. Ou, pelo menos, a vida do bebê deles. Agora, ele estava parado atrás dela, enquanto eles olhavam para uma tela de computador, e o médico corria o scanner sobre o estômago de Lottie, apontando para a minúscula bolha de ar, mostrando onde o embrião tinha sido colocado. Lottie olhou para a bolha, enviando-lhe vibrações positivas, rezando para que desse certo. – Agora... – Dr. Oveisi virou-se e olhou para os pais em potencial. – Há algumas regras que vocês precisam obedecer pelas próximas duas semanas. De sua posição deitada, Lottie assentiu. Rafael esperou, tenso e alerta.


– Eu acredito piamente que estresse é o pior inimigo do corpo no que diz respeito à implantação de um embrião bem-sucedido, portanto deve ser evitado a qualquer custo. Pesquisas estão apenas começando a descobrir a importância do estado mental do recipiente. Isso não significa que a condessa deva ficar na cama, sem fazer nada... longe disso. – Ele olhou diretamente para Lottie. – Eu quero que você use as duas próximas semanas para fazer coisas que lhe dão prazer... atividades que tirarão sua cabeça do resultado do procedimento. Então, exercícios moderados, estimulação mental e relações maritais são todos aconselhados. Relações maritais? Aquela era uma coisa que Lottie podia garantir que não ia acontecer. O triste absurdo da situação lhe ocorreu mais uma vez. Finalmente, Rafael e dr. Oveisi saíram da sala, deixando Lottie na cama pelos 15 minutos requisitados. Ela olhava para o espaço, enquanto pensamentos confusos e conflitantes povoavam sua mente. Aquilo realmente acontecera? Ela estava mesmo deitada ali, com o embrião deles implantado em seu interior? De pé e vestida, Lottie desceu para a área da recepção. Rafael estava encostado contra uma parede, falando ao celular. Avistando-a, ele gesticulou para chamá-la. – Oui, oui, d’accord, deux semaines. – Ele arqueou as sobrancelhas para ela, antes de retornar a sua ligação, falando num francês rápido. Lottie sempre ficara impressionada com a facilidade que ele trocava de um idioma para outro. Fluente em inglês, francês e alemão, assim como em seu italiano nativo, aquilo lhe parecia tão natural como respirar. Enquanto esperava que ele terminasse a ligação, ela subitamente lembrou-se de um evento passado. Os dois aconchegados na cama estreita do pequeno apartamento de estudante que Lottie alugava na época que eles haviam se conhecido, com o sol da tarde se infiltrando pelas cortinas de algodão baratas. Rafael a provocava sobre seu francês de escola, obrigando-a a repetir palavras, enquanto trilhava dedos em sua pele nua, seguindo-os com uma linha de beijos suaves. Conforme cada palavra se tornava mais erótica do que a última, ele finalmente tomara seus lábios, e a lição acabara com algo nunca ensinado na escola.


– Bene... tudo está resolvido. – Guardando o telefone no bolso da calça, ele voltou-se para Lottie. – Eu arranjei uma pequena viagem para nós. – Como assim? – Vamos para Villa Varenna. Achei que você fosse gostar disso. – Sim... talvez. Lottie franziu o cenho. Os Revaldi tinham propriedades em muitos lugares, mas essa era a favorita dela... uma linda casa, erguida sobre a lateral de um lago italiano espetacular. – Quando você está pensando em ir? – Parecia um momento estranho para tirar férias, quando suas vidas estavam em suspenso, até que soubessem se ela estava grávida. – Agora. – Os olhos escuros de Rafael a fitaram calmamente. – Agora? – repetiu ela incrédula. – Como isso é possível? – Fácil. O helicóptero já está aqui. Podemos chegar lá em duas horas. – Mas não podemos. Quero dizer... não agora. Eu não tenho roupas, artigos de higiene... – Você não está falando sério quando diz que não pode ir porque não tem uma escova de dentes, certo? Lottie deu-lhe seu melhor olhar imperial. – Eu só estou tentando ser prática. E quanto ao carro... aquele que dirigi para cá? – Tudo resolvido. Não há nada com o que se preocupar. – Eu não estou preocupada – replicou ela. – Quanto tempo nós ficaremos lá? – Até sabermos, com certeza, que você está grávida. – Duas semanas! – Sua voz soou incrédula mais uma vez. – Você pode largar tudo e ficar longe duas semanas? – Existem coisas como computadores, Lottie, telefones e tecnologia moderna. Não estou sugerindo irmos para o Amazonas e nos hospedarmos numa cabana. Eu posso trabalhar de Villa Varenna. Também não estou sugerindo que larguemos tudo. Fique tranquila quanto a isso. Bem, ele a colocara em seu devido lugar. – Há uma coisa, todavia. Não há empregados na casa, esta tendo sido uma decisão de última hora. Eu poderia resolver isso, é claro, mas decidi não fazê-lo.


Pensei que pud茅ssemos ter o lugar somente para n贸s.


CAPÍTULO 4

SENTAR-SE NO terraço de Villa Varenna era como ser transportada para um mundo diferente. Apenas poucas horas atrás, ela estivera deitada numa cama de hospital, olhando para tubos de aquecimento central. Agora, a noite estava caindo sobre o lago Varenna e as luzes coloridas das propriedades ao longo da costa brilhavam como joias. Conforme o céu escurecia aos poucos contra as montanhas, a água adotava um tom roxo luminoso. Lottie nunca se acostumara com a riqueza e privilégios da família Revaldi. Era um mundo tão diferente de sua própria criação que ela nunca se sentira confortável com aquilo. Sua vida tinha sido bisbilhotada por vizinhos... sua própria mãe dando a eles muito que falar, quando voltara de outras férias com um cavalheiro bronzeado e lembrancinhas de algum lugar exótico que ela, sem dúvida, vira do deck de um cruzeiro de navio. Era diferente para Rafael, é claro; ele nascera dentro desse estilo de vida, que fazia parte do que ele era. E, juntamente com riqueza e privilégio, vinha uma enorme quantidade de comprometimento e trabalho duro. Lottie vira o peso da responsabilidade que acompanhava o título de Conte di Monterrato... um título que fora passado para Rafael na morte do pai dele. Lottie nunca conhecera seu sogro, Georgio Revaldi. Ele morrera subitamente quando ela e Rafael ainda moravam em Oxford, efetivamente terminando a vida de conto de fadas deles naquele momento. Porque era isso que tinha sido, percebeu Lottie agora. Um conto de fadas... um caso amoroso apaixonado que fora perfeito demais para continuar no mundo real. Havia sido inevitável que a história chegasse a um fim, que o livro tivesse de ser fechado.


Eles se conheceram numa tarde chuvosa em Oxford, quando Rafael aparecera, através do vapor da máquina de expresso, no Café onde Lottie trabalhava. Depois de duas horas, diversas xícaras de café e uma fila impaciente de clientes, eles estavam envolvidos. Na época, Rafael estava terminando seu doutorado em Administração de Empresas; Lottie estava no terceiro ano da escola de artes. Parecera a coisa mais natural do mundo que ele a esperasse terminar seu turno no trabalho, que eles então corressem na chuva forte para o pub favorito de Rafael, rindo e pingando sobre os tapetes do bar, já total e impulsivamente apaixonados. Porque aquilo tinha sido impulsivo... especialmente Lottie engravidando tão depressa. Apesar de eles terem ficado radiantes, o fato significara um casamento às pressas num cartório de Oxford, e agora, Lottie podia ver que aquilo dificilmente era o que o pai de Rafael iria querer para seu único filho e herdeiro. Era muito provável que ela não fosse o que ele gostaria para seu único filho e herdeiro. Mas Lottie nunca tivera a chance de descobrir, porque Georgio falecera logo após o casamento deles, e tinha sido quando tudo mudara. Rafael voltara correndo para Monterrato, levando sua esposa grávida consigo, jogando-a num papel totalmente desconhecido da esposa do conde. E com o principado parecendo ocupar todo o tempo de Rafael, problemas começaram a aparecer no relacionamento deles, mesmo antes da tragédia da morte de Seraphina. Lottie se sentira solitária, ressentida com aquele lugar... Monterrato... que lhe roubara o marido por quem ela se apaixonara na Inglaterra, substituindo-o por um homem de negócios viciado em trabalho. E nada mudara agora. O principado de Monterrato ainda vinha em primeiro lugar. A única razão pela qual ela estava lá era para proteger o principado, proporcionando-lhe um herdeiro. Mas mesmo esta percepção não podia apagar a felicidade que a percorria ao pensar que talvez este herdeiro... apenas talvez... estivesse começando a viver em seu interior. Ouvindo um som atrás de si, ela virou-se para ver Rafael andando na sua direção, segurando um cobertor. – Eu pensei que você pudesse precisar disto. – Abrindo o cobertor, ele começou a colocá-lo sobre os joelhos dela, mas Lottie se inclinou para a frente do banco e impediu-o.


– Eu não estou inválida, sabia? – Eu sei. Só pensei que você pudesse estar com frio. – Não estou. – Certo. Apenas mal-humorada, então. – Jogando o cobertor sobre o ombro, ele a olhou. – O que você gostaria de fazer esta noite? Lottie estudou a figura alta e imponente à sua frente, esperando uma resposta. Certamente, ele não esperava que eles fizessem mais alguma coisa hoje? Um transplante de embrião seguido por uma viagem de helicóptero para este lugar não era suficiente por um dia? – Fazer? – Estou falando sobre comida. Você quer sair para jantar? – Não, obrigada. Eu estou cansada. – Neste caso, eu cozinharei alguma coisa para nós. – Você realmente está determinado a fazer de mim uma inválida, não está? O golpe atingiu seu alvo, e Rafael comprimiu os lábios para reprimir um sorriso. – Isso foi desnecessário, mocinha. Além do mais, acho que você não está numa posição de fazer acusações. A menos que, recentemente, tenha adquirido habilidades que até agora lhe faltavam? – Talvez eu tenha. – Lottie ergueu o queixo em desafio. Não tinha, na verdade... continuava tão inútil na cozinha como sempre fora. Mas ele não precisava saber disso. – Bem, neste caso, eu estou ansioso para provar algumas refeições gourmet durante as próximas duas semanas aqui. O coração de Lottie disparou. Como Lottie ia sobreviver a duas semanas lá, sozinha com Rafael? Olhando para ele parado ali, sentindo o brilho observador dos olhos escuros, comida era a menor de suas preocupações. – Vamos entrar agora? – Num minuto. Eu quero ficar sentada aqui mais um pouco. Rafael sentou-se ao seu lado. Na verdade, ela quisera dizer “ficar sentada ali sozinha”. De repente, o banco parecia muito pequeno para duas pessoas... especialmente quando uma delas tinha 1,95m, com a musculatura de alguém que se exercitava regularmente. – A paisagem é linda, não é?


Afastando-se um pouco dele, Lottie comentou sobre a vista, observando o jeito que a cor da água mudara, vendo as primeiras estrelas brilharem no céu, que ainda exibia diferentes tonalidades. – Sì, molto bella. Lottie prendeu a respiração quando o braço dele deslizou ao longo do banco, atrás dela. – Pensei que talvez você quisesse pintar um pouco, enquanto está aqui. – Talvez. – Ela arfou. O braço atrás de si de súbito parecia dominador, mesmo se a ideia de pintar de novo a empolgasse. Fazia tanto tempo que ela não pintava. E este seria o lugar perfeito para pintar. – Você não devia desistir, sabia? – Interpretando erroneamente sua frieza, Rafael virou-se para encará-la, o joelho tocando-lhe a coxa. – Tem muito talento. Seria uma pena desperdiçá-lo. – Eu manterei isso em mente. – Venha. – Levantando-se, ele gesticulou para que ela fizesse o mesmo. – Nós precisamos entrar, de modo que você possa comer alguma coisa. Talvez, isso melhore seu humor. A cozinha era elegante e moderna. No começo, pareceu desprovida de alimentos, mas a geladeira revelou-se estocada com ovos, leite, frios e queijo, e a despensa continha uma incrível variedade de embalagens e latas, todas organizadamente alinhadas para a inspeção deles. – Eu pedi que alguns suprimentos fossem trazidos. – A voz de Rafael veio de dentro da geladeira. – O que você gostaria de comer? – Não sei. – Momentaneamente distraída pela visão do traseiro dele, ela desviou o olhar. – Omeletes? – Boa ideia. – Pegando os ovos, ele começou a abrir armários, encontrando tigela, frigideira e talheres. Lottie sentou-se num banco à ilha da cozinha, e observava Rafael reunir ingredientes. Estava secretamente apreciando aquilo... não somente a novidade de tê-lo cozinhando para ela, mas também por ser capaz de observá-lo na tarefa. – Posso ajudar em alguma coisa? Ele estava cortando pimentões agora, a faca descendo com rapidez na tábua de madeira. Este era o ponto que Lottie tinha de desviar o olhar... nunca gostara de ver sangue.


– Você pode abrir um vinho, se quiser. – Acho que vou beber água. Subitamente, a faca pausou no ar. Quando Rafael afastou cabelos da testa marcada, ela pôde ver a enormidade dos eventos do dia refletidos nos olhos dele. Engoliu um nó na garganta. – Mas eu servirei uma taça para você. Depois de um alarme de fumaça, uma mistura de legumes meio-cozidos e uma omelete queimada, a refeição deles estava pronta. Lottie olhou para o homem no banco ao seu lado, tentando adivinhar o que se passava pela cabeça dele. Rafael era um homem complicado, apaixonado, controlador... e mais algumas coisas. Ele não mudara, e ela teve de admitir que não desejava que ele tivesse mudado. – Bem, obrigada. Isso foi... interessante. – Ela piscou-lhe inocentemente. – Estava horrível, não estava? – Cortando um pedaço de pão seco, Rafael, obviamente ainda com fome, pôs na boca e mastigou-o. – Mas antes de zombar, não esqueça que amanhã é a sua vez. Sua chance de me mostrar essas suas habilidades recém-descobertas. – Eu nunca disse que elas eram habilidades culinárias. Rafael enrijeceu, virando-se no banco para encará-la. – E de que outras habilidades nós estamos falando? – De repente, ele estava muito sério, o humor tendo mudado. – Nenhuma... nada. – Lottie franziu o cenho. – Eu só estava brincando. – Mas houve outros homens, Lottie? Repentinamente zangada, Lottie retrucou: – Isso não é da sua conta. – Ela podia sentir o calor subindo as suas faces, raiva misturando-se com indignação. – Ademais, por que você precisa perguntar? Seus investigadores particulares já não lhe deram todas as informações necessárias? Na verdade, por que você não me conta o que eu estive fazendo? Provavelmente, sabe melhor do que eu. – Agora você está sendo ridícula. – Então, nada, heim? Seus espiões não conseguiram descobrir nada? – desafiou ela. – Mas ainda deixaram você na dúvida, não é? Imaginando que, talvez, eles tenham falhado de alguma forma... imaginando que eu tenho um amante escondido?


– E você tem? – A voz dele era mortalmente baixa, os olhos avisando-a que ela estava entrando em território perigoso com aquela provocação. – Não, eu não tenho. Mas e se tivesse? Que direito você tem de se intrometer na minha vida amorosa, quando na sua cama, sem dúvida, há uma fila de mulheres? – Lottie o desafiou a negar. Mas ele apenas continuou olhando-a, o egoísmo, a audácia, a arrogância sexual de Rafael preenchendo-a com ultraje. – Qualquer mulher que eu possa ter tido não é da sua conta. Descendo do banco, Lottie soube que tinha de sair dali. Não ia se jogar naquela situação de tortura. Não hoje, pelo menos. – Eu vou dormir. Subitamente, ele estava ao seu lado, puxando-a para si, envolvendo-a nos braços poderosos. – Solte-me. Ela lutou para se libertar, então parou quando o contato entre eles ameaçou tomar uma direção muito mais perigosa. Quando ele afastou-se apenas o bastante para lhe fitar o rosto, os olhos escuros lhe disseram que ele também sentira aquilo. Abaixando os braços, ele virou-se de costas, distanciando-se. – Acho que precisa se lembrar do que dr. Oveisi falou – murmurou Rafael por sobre o ombro. – Você realmente não deveria ficar tão agitada. Isso não lhe fará bem. Ou bem para as chances de engravidar. Ele podia ser mais irritante? Lottie não sabia o que mais a enfurecia. A audácia de Rafael em questionar sua vida amorosa, ou o fato de ele pensar que poderia controlá-la. – Não ouse começar a me dizer como eu devo me comportar. – Ela falou para as costas dele. – Você começou esta briga... distorcendo minhas palavras, questionando sobre minha vida amorosa. – Sugiro que você tente ter uma boa noite de sono. – Virando-se, Rafael a encarou. – Tenho certeza de que se sentirá melhor pela manhã. SAINDO NO terraço, Rafael seguiu o caminho em direção aos portões ornados de ferro que se abriam diretamente no lago. Girando a chave pesada na fechadura, deixou os portões se abrirem e desceu o lance de escada para a água. Uma fileira


de ancoradouros estava a sua frente, o mais distante contendo uma lancha elegante, a água batendo gentilmente em suas laterais. Sentando-se no deck de tábuas, ele deixou as pernas pendurarem sobre a água, distraidamente olhando para a ondulação preta. Hoje, o primeiro estágio de sua missão havia sido completado. Sua única esperança de paternidade finalmente recebera uma chance de vida. Ele deveria estar se sentindo feliz... exultante. Esse era seu objetivo desde que recebera a notícia devastadora que o acidente o deixara estéril. Mas não havia exultação... apenas raiva... de si mesmo e da situação. O que estivera pensando, entrando numa discussão com Lottie na primeira noite? O objetivo daquelas duas semanas não era liberá-la de qualquer estresse? O ciúme... a fúria... de que ela pudesse ter estado com outro homem viera do nada. Rafael não suportava o pensamento. Suas investigações não tinham revelado nada, e ela dissera que não havia ninguém. Entretanto, o pensamento de Lottie nos braços de outro homem o torturava tanto agora quanto o torturara na época que ela o deixara. A ideia de que algum cretino a tivesse tocado, feito amor com ela, preenchia-o com uma fúria irracional. Não era como se ele tivesse permanecido celibatário. Lottie estava certa. Houve outras mulheres... provavelmente não tantas como Lottie imaginava, mas mulheres que haviam compartilhado sua cama, satisfeito suas necessidades. No entanto, nenhuma delas significara coisa alguma. Desde o dia que Lottie o abandonara, dizendo-lhe que nunca o amara, era como se parte dele tivesse morrido... a parte que era capaz de sentir, capaz de amar. Mas agora que Lottie estava de volta em sua vida, Rafael percebia que os sentimentos que ele pensara ter morrido estavam apenas enterrados no seu interior. Vê-la novamente os levara de volta à superfície, deixando-o vulnerável à dor emocional. Bem, isso não ia acontecer. Por mais excitante, sexy e linda que ela fosse, ele não ia abrir seu coração para Lottie, novamente. Afinal de contas, ela não lhe falara com todas as letras como se sentia a seu respeito? Que tipo de tolo procuraria ser rejeitado uma segunda vez?


NO ANDAR de cima, no quarto pintado de branco e cor de creme, Lottie estava usando uma camisola de algodão discreta que estivera misteriosamente esperando por ela, subindo na cama recentemente arrumada, ajeitando os travesseiros atrás de si. Sua cabeça parecia que ia explodir com tudo que acontecera naquele dia. Puxando a colcha até o queixo, ela dobrou os joelhos contra o peito e abraçou-os, tentando encontrar alguma razão lógica para justificar aquela loucura. Exceto que não havia uma. Lógica racional teria lhe dito para não fazer aquilo, para entrar num avião e voltar para a Inglaterra, fugindo do coquetel mortal de desejo e tormento que era Rafael Revaldi. Lógica racional a teria salvado do jeito que ela se sentia agora... ressentida e impotente. Como ele ousava se comportar como um homem das cavernas? Que direito tinha de desafiá-la sobre sua vida amorosa, quando estava sempre cercado de mulheres se jogando aos seus pés? Ela tivera de aceitar aquilo, mesmo se ainda doía como uma faca apunhalando-a? Lottie saíra com rapazes... jovens que queriam continuar os encontros, alguns até com sinceras declarações de amor, mas nenhum deles a afetara. Não depois de Rafael. Ela estava praticamente resignada diante do fato de que ele tinha sido o único homem para ela. Lottie sempre soubera disso. O que tornara o deixar Rafael a coisa mais difícil que ela já fizera na vida. Mas Lottie tivera de encontrar forças para partir. O futuro dos dois, juntos, morrera com Seraphina... apesar... ou talvez por causa da obsessão de Rafael de engravidá-la novamente. Tinha sido como se um bebê fosse a única coisa que validaria o casamento deles, que, sem um filho ou uma filha, ele teria de encarar a realidade da situação. Que nunca deveria ter se casado com ela. Que ela era um erro. Sua cama era posicionada do lado oposto da janela, com vista para o lago e as montanhas adiante. Lottie deixara as persianas abertas, e agora, saiu da cama e andou para a janela. Viu uma silhueta alta trancando os portões de ferro da área do lago, então andando com propósito em direção a casa. Escondida nas sombras do quarto, Lottie observou a figura imponente de Rafael se aproximar, até que ele parou abruptamente, e olhou para cima, para a janela dela. Lottie o encarou de volta por um momento. Então, assentindo


brevemente com a cabeça, ele recomeçou a andar até que a casa o escondeu de vista.


CAPÍTULO 5

POR UM segundo, quando Lottie abriu os olhos na manhã seguinte, ela não pôde lembrar onde estava. Luz natural inundava o quarto, e a vista perfeita de montanhas e céu era como uma pintura, pendurada na parede diante dela. Mas realidade logo voltou, trazendo consigo uma série de preocupações. A transferência do embrião, estar em Villa Varenna, duas semanas sozinha com Rafael, sem mencionar o comportamento rude dele na noite anterior. Saindo da cama, ela foi para o banheiro anexo, parando ao ver seu reflexo no espelho de corpo inteiro. Seus longos cabelos loiros caíam nos ombros e nos olhos ainda estreitos de sono. Dando um passo atrás, Lottie examinou-se de lado, alisando o algodão da camisola sobre sua barriga muito reta. O que estava acontecendo ali dentro? Ela poderia estar grávida? A percepção do quanto queria este bebê era chocante. Um estranho poderia ter assumido que ela estava fazendo isso por Rafael... seu último presente para ele, uma última tentativa de reparar a maneira brutal com que ela o abandonara. Por que outro motivo consideraria condenar-se a um casamento sem amor, somente para carregar um filho dele? Mas o estranho estaria errado. Lottie queria este bebê com cada fibra de seu ser. Não para ajudar Rafael, não por culpa ou altruísmo, e certamente não porque se importava em proporcionar um herdeiro para Monterrato. Queria o bebê por si mesma. Era sua chance de maternidade. De ser a mãe que sempre quisera ser. Murmurando algumas palavras de encorajamento para sua barriga, ela foi para o banho e deixou o forte jato de água lavar todos os pensamentos de sua cabeça.


– BUONGIORNO. – RAFAEL ergueu os olhos de seu notebook quando Lottie entrou na cozinha, registrando os cachos loiros recentemente lavados, o aroma floral do gel de banho. Ela usava um roupão com uma faixa amarrada tão fortemente na cintura que parecia em perigo de cortá-la em duas. – Suas coisas chegaram. Eu as teria levado para cima, mas achei que talvez você precisasse dormir mais. – Quanta consideração. – Ela encolheu-se diante de seu próprio tom. Hoje deveria ser um novo dia, com a amargura do dia anterior ficando para trás. – Dormiu bem? – Ignorando seu mau-humor, Rafael lhe puxou um banco. Ele estava usando uma camisa branca com mangas dobradas, revelando antebraços musculosos e bronzeados, salpicados de pelos escuros. – Sim... bem, obrigada. – Está com fome? – Rafael gesticulou para o prato de pães doces atrás dele. – Hmmm... Ele deslizou o prato na sua direção e observou ela sentar ao seu lado, puxando o roupão para cobrir as pernas. – Parecem bons. – Cornetti, frescos da panificio. Eu saí de barco esta manhã. Abrindo um dos pães doces, ela passou manteiga e deu uma mordida. – Então, como você está se sentindo? – Fechando seu notebook, Rafael se virou para lhe dar total atenção. – Se você quer saber se eu me sinto grávida, então não... eu me sinto igual a ontem. – Ela concentrou-se em comer. – Na verdade, eu queria saber se seu humor melhorou. Mas suponho que você já respondeu isso. – Meu humor está ótimo, obrigada. – Ela ergueu o queixo para olhá-lo. – Ótimo... ótimo. Rafael inclinou-se para a frente, vendo os olhos de Lottie se arregalarem quando ele fez isso, ele removeu um floco de pão doce do lábio dela e então lambeu o dedo. A intimidade do gesto chocou-o. O que ele pensava que estava fazendo? Lottie parecia igualmente assustada. – Você não precisa ser assim, sabia? – Segurando a gola do roupão, ela o fechou mais contra o peito. – Assim como? – Não sei... Acho que... falsamente educado.


– Significando? – Não sinta que precisa agir com extrema cautela perto de mim pelas próximas duas semanas. Não parece certo... e o esforço irá matá-lo. – Agir com extrema cautela? – Ele arqueou as sobrancelhas. – Eu não tinha ideia que estava fazendo isso. – Eu só quero dizer que nós devemos tentar agir com normalidade. – Ela o olhou. – Conhecemos a situação; não é como se precisássemos fingir um para o outro. Fazer o papel de marido devoto não vai me tornar mais grávida, e pareceria uma farsa. – Bem, obrigado por apontar isso. Rafael pensou nas palavras de Lottie. Era óbvio o que ela estava fazendo: estabelecendo regras, construindo uma barreira segura entre eles, de modo a evitar a atenção indesejada dele. Apenas a ideia de que ela pensasse que tinha de fazer aquilo lhe revolvia o estômago. – Certo – disse ele com voz gelada. – Eu concordo que não deve haver nenhum mal-entendido entre nós. Como o fato de apreciarmos a companhia um do outro, ou algo do tipo. Lottie sentiu um calafrio. Por que estava se sentindo mal por apontar a verdade? A hostilidade que ele lhe mostrara, logo que ela chegara ao palazzo, tinha demonstrado claramente o que Rafael pensava a seu respeito. – Acho que é importante sermos honestos, nada mais. Sei o que dr. Oveisi falou, mas isso não significa que devemos tentar nos enganar. – Como você quiser. – Entediado com o assunto, Rafael levantou-se, dandolhe um olhar duro. – Acabou seu café da manhã? Bem, aquela conversa desconcertante estava obviamente acabada. – Sim, obrigada. Eu irei me vestir agora. – Espere. – Ele observou o brilho imediato de cautela surgir nos olhos azuis. – Eu tenho algo para lhe mostrar, antes. – O que é? – Venha comigo e descobrirá. Após uma pequena hesitação, Lottie desceu do banco. – Espero que você aceite uma coisa que eu planejei como resultado do conselho do dr. Oveisi, sem sentir a necessidade de discutir sobre isso.


Lottie o seguiu para a cozinha e para o andar de cima, seu coração batendo mais depressa com cada passo. O que ele planejara? Embora soubesse que aquilo era tolice, um conselho do dr. Oveisi não saía de sua cabeça. Relações maritais. Eles pareciam estar indo para um quarto. Ela podia sentir seu corpo traidor já reagindo. Certamente, ele não estava pensando... Atravessando o corredor, Rafael abriu uma porta e gesticulou para que ela entrasse. Cautelosamente, Lottie entrou. – O que você acha? Ao seu lado agora, ele observou-a olhar os conteúdos do quarto. Um cavalete de artista estava armado no centro, e havia um grande número de telas de diferentes tamanhos apoiadas contra a parede. Uma palheta de cores, um pote de pincéis e uma variedade imensa de tubos de tinta estavam dispostos numa mesa ao lado do cavalete. – Achei que este quarto seria o melhor... por causa da luz. Ele dá para o norte. Lottie não disse nada. – Alguma coisa errada? – Não... não, é claro que não. – O que foi, então? Tentando compor suas feições, para não mostrar qualquer sinal de desapontamento, Lottie começou a andar pelo espaço. – É apenas um pouco de exagero. – Com uma risada, ela gesticulou ao seu redor. – Quero dizer, ficaremos aqui somente por duas semanas... nem mesmo Van Gogh conseguia pintar tantas telas em duas semanas! – Quem disse alguma coisa sobre duas semanas? Nós podemos deixar o quarto assim, e você pode vir sempre que quiser... ficar quando tempo desejar durante a gravidez. É lindo aqui na primavera. – Vendo a expressão no rosto de Lottie, ele acrescentou: – Todas as tintas e solventes são seguros para mulheres grávidas... eu chequei isso. Se apenas fosse a tinta que a preocupasse. Muito mais preocupante era o jeito que ele começava a controlar sua vida, manipulando-a, tomando decisões sobre o futuro dela, sem consultá-la. E mais preocupante ainda era a maneira que seu corpo pulsara com excitação diante da ideia errônea de que ele poderia estar levando-a para cama.


– Nós ainda não sabemos se eu estou grávida, Rafael. – Irritada consigo mesma, ela sabia que as palavras tinham soado mais duras do que deveriam. Parando na frente da janela, Lottie amarrou o cinto do roupão com mais força. – E mesmo se eu estiver, gostaria de lembrá-lo que nada foi decidido ainda. Não sei por que você está assumindo que eu morarei aqui. – Bem, não necessariamente aqui... – Quero dizer, aqui em Monterrato. Eu tenho uma vida própria, sabia? Um apartamento, amigos, um emprego. A última parte não era verdade. Um telefonema final de Ibrahim a informara disso. Ele ficara previsivelmente furioso que ela não havia obedecido as suas instruções e voltado dentro daquela semana, e a demitira. Todavia, estranhamente, tudo que Lottie sentia era alívio. Seus doze meses na Galeria Ibrahim tinham se tornado cada vez mais tensos, enquanto Ibrahim, um negociante de arte famoso e respeitado, pressionava para que o relacionamento deles fosse mais do que apenas profissional. “Encontrar clientes” passara a envolver uma passada em algum bar primeiro, seguida por trajetos em táxis escuros, com ele se inclinando sobre ela, o cheiro de uísque no hálito. Lottie deixara claro, em mais de uma ocasião, que não iria a casa dele para nenhum debriefing. Pensando agora, a maneira com que ela o ofendera no último telefonema não tinha sido a atitude mais sábia... especialmente quando Ibrahim se despedira dizendo que ela nunca mais trabalharia no mundo da arte. O que talvez fosse verdade. Ele era vingativo o bastante para se certificar disso. Mas ela encontraria outro emprego. Já recomeçara antes, e recusava-se a ter medo da perspectiva agora. O problema mais urgente no momento era o homem alto olhando para ela do outro lado do quarto. Olhando-a com tanta intensidade que Lottie podia sentir seu corpo inteiro esquentando. – Tenho certeza de que todas essas coisas podem esperar. A magia foi quebrada, e as palavras de Rafael mais uma vez deixaram Lottie indignada. Por que ele sempre assumia que sua vida era desimportante? – Uma vez que tivermos certeza que você está grávida, obviamente a coisa sensata será você ficar em Monterrato.


– Bem, sua definição de “óbvio” obviamente não é a mesma que a minha. Se eu estiver grávida, não vejo razão para não retornar à Inglaterra, pelo menos até que o bebê nasça. – Não, Lottie. – A voz calma dele não a enganou nem por um segundo. – Não é assim que vai funcionar. Quando nós tivermos certeza de sua gravidez, você ficará em Monterrato. Durante todo o período de gestação. O ar entre eles pareceu pulsar com tensão. – Acho que preciso apontar algo importante. – Lottie plantou as mãos nos quadris. – Eu concordei em tentar este bebê, Rafael, não em lhe dar o direito de controlar minha vida. É bom que você se lembre disso. Dio! Rafael estava tendo dificuldade de se lembrar de qualquer coisa no momento. Ela obviamente não tinha ideia que, parada na frente da janela naquele roupão de algodão, estava lhe dando uma silhueta perfeita do seu corpo. Ele tentara não notar, mas o contorno da cintura fina, a curva dos quadris, as pernas longas e bem torneadas continuavam atraindo-o. – Você precisa vestir algumas roupas. Ele viu Lottie franzir o cenho. Diante de sua voz rouca. Da mudança abrupta de assunto. Rafael sabia que precisava sair dali... escapar da dor física do desejo sexual que Lottie lhe despertava. Andando em direção à porta, ele virou-se e deu uma última olhada para trás, antes de sair e descer a escada. Estava indo para o estúdio, mas mudou de ideia. Primeiro, precisava fazer alguma coisa física... queimar um pouco do excesso de energia que subitamente o bombeava. O próximo lance de escada o levou ao porão, ao ginásio e à piscina coberta. Acendendo as luzes da academia de ginástica, ele pegou pesos e começou a trabalhar os músculos. Necessitava se exercitar para se livrar da imagem de Lottie e do efeito visceral que ela lhe causava. Se tivesse de aguentar aquela tentação pelas próximas duas semanas, ele ia passar muito tempo na academia. PRESSIONANDO A carne na frigideira, Lottie viu sangue saindo. Gostava de seu bife bem passado, quase torrado; Rafael gostava malpassado. Até mesmo coordenar a comida deles parecia um esforço.


Os últimos dias em Villa Varenna tinham sido horríveis. Como atores numa peça, ela e Rafael se moviam no lindo palco, oscilando entre desacordos zangados e educação antinatural, a cautela de ambos com a situação, com a fragilidade do acordo, sendo óbvia e escondida ao mesmo tempo. Lottie perguntava-se como eles iriam sobreviver a duas semanas. Não era apenas o problema da gravidez. A parte mais difícil era estar perto de Rafael, compartilhando o mesmo espaço que ele, percebendo como ele ainda a fazia sentir... do jeito que, no fundo, ela sempre soubera que se sentia. Os dois anos de separação, os incontáveis sermões que dera a si mesma, desapareciam numa onda de desejo quando ela estava diante de Rafael. Sobre o chiado na panela, ela podia ouvi-lo se mexendo no outro cômodo, então música preencheu o ar. Ópera. La Traviata... triste e italiana. O que ele estava tentando fazer com ela? – A refeição está pronta? – Rafael entrou na cozinha, usando jeans preto e uma camisa preta com as mangas dobradas. Lindo como sempre. – Quase. – Lottie virou seu bife. – Não podemos ouvir alguma coisa um pouco mais alegre? – Ela indicou a música com uma inclinação da cabeça. Ele desapareceu novamente, e houve um breve silêncio, antes que Johnny Cash começasse a tocar. – Eu achei que esta música combinaria com seu bife. – Rafael estava atrás dela agora, olhando por sobre seu ombro. – Ou do que restou dele. Este é meu? – perguntou, indicando o prato ao lado do fogão. – Sim. – Ela mudou de posição para bloquear a visão dele. – Está descansando. – Certo. – Estendendo o braço para pegar o prato, ele olhou para o bife com desconfiança. O silêncio que se seguiu fez Lottie virar-se. – Algum problema? – No, di certo... nenhum. Vou levar a salada para lá. Eles tinham decidido comer à pequena mesa sob a janela, na sala de estar. A vista do lago era uma distração útil das inadequações da refeição, sem mencionar das inadequações da conversa deles. Nenhum dos assuntos importantes tinha sido abordado por eles desde o desacordo no estúdio, no dia anterior, e as


praticidades do que aconteceria se Lottie estivesse grávida estavam sendo adiadas. Do seu lado, Lottie decidira que era bobagem discutir com Rafael sobre algo que talvez nem acontecesse. – Como foi a pintura hoje? – Cortando o bife, Rafael levou o garfo à boca. – Boa. – Lottie comeu uma garfada de salada. – Eu só estou fazendo alguns pequenos estudos no momento; espero poder escalá-los para uma pintura maior. – Ela pausou ao ver a expressão no rosto dele. – Isso se eu ficar aqui tempo suficiente, quero dizer. Rafael enrijeceu o maxilar, mas não disse nada. – Tentar capturar a luz na água é incrivelmente difícil. – Ela apressou-se em mudar o foco do assunto. – Quando eu penso que estou conseguindo, olho de novo e a luz já mudou. – Um pouco como a vida, realmente. – Rafael voltou a atenção para o prato de comida. Lottie olhou para o seu. – Você pintou muito desde... desde que nós nos vimos pela última vez? Lottie notou como ele fraseou a pergunta... como se estivesse se contendo para não gritar Desde que você me abandonou. – Não realmente. Eu não tive tempo, com um emprego de período integral e tudo mais. – Ela brincou com um tomatinho no seu prato. – Mas continuei desenhando. Na verdade, tenho feito muitos esboços... para amigos... retratos de pessoas, animais de estimação, esse tipo de coisa. – Fico feliz que você tem usado seu talento. Então, esse seu emprego... Pondo os talheres sobre a mesa, Rafael a encarou. Lottie preparou-se para um interrogatório, imediatamente na defensiva. – Conte-me como é trabalhar para um sujeito como Ibrahim. – É normal. – Ela deu de ombros. – O emprego é bem-remunerado. – Era bem-remunerado, pensou silenciosamente. – O que ele espera, exatamente, pelo dinheiro que paga? – O que você está sugerindo, Rafael? – Nada. – Ótimo, porque se estivesse, seria muito insultante.


– Estou apenas tentando entender por que você recusaria um acordo meu a favor de trabalhar para um idiota como ele. Se você precisava de dinheiro, era só pedir. Lottie pensou na quantidade absurda de dinheiro que os advogados de Rafael tinham lhe oferecido alguns meses depois que ela o deixara. Oferta que ela rejeitara sem pensar duas vezes. A sensação havia sido de que ele a estava comprando. – E eu não entendo por que você não percebe que quero ser independente. – É claro. Que tolice minha sempre esquecer isso. – A voz era repleta de sarcasmo. – Então, diga-me... como é essa independência, estando sempre à disposição daquele cretino? – Melhor do que ser uma mulher mantida. – Lottie o fitou com raiva. – Ademais, eu não estou sempre à disposição dele. Sou perfeitamente capaz de lidar com alguém como Ibrahim. Posso cuidar de mim mesma, não se preocupe. Rafael estudou a mulher a sua frente e percebeu que ela estava provavelmente certa... podia cuidar de si mesma. Não era mais a garota inocente de 21 anos por quem ele se apaixonara, mas alguém que, apesar da aparência delicada, possuía a maturidade para lidar com qualquer coisa que a vida lhe atirasse. Não que ele algum dia fosse conseguir abrir mão de seu instinto protetor completamente. Sabia que, apesar de tudo, ainda se colocaria na frente de Lottie para protegê-la de uma bala, sem pensar duas vezes. – Eu não estou preocupado. – Ótimo. – Lottie mordeu o lábio, desejando que aquela conversa tivesse acabado. – Principalmente quando sei que você não trabalha mais para ele. – Sabe? – perguntou Lottie incrédula. – Como você sabe? Rafael meramente deu de ombros. – Por que pergunto? – A voz dela soou irritada. – Eu já deveria ter percebido que você não tem escrúpulos quando se trata de espionar minha vida. – Na verdade, foi Ibrahim quem me contatou. – A voz de Rafael era enervantemente calma. – Ele me convidou para uma première exclusiva... algum artista conceitual sobre quem ele parecia muito empolgado. Parece que o rapaz tem enorme potencial de investimento.


Lottie franziu a testa. – E por que ele contatou você? – Porque eu estou na lista de clientes de Ibrahim, é claro. Fico surpreso que você não saiba disso. Mas então, suponho que não importa mais. – E, presumivelmente, a única razão pela qual você estava na lista de clientes dele era porque queria me espionar. Novamente, Rafael deu de ombros. – De qualquer forma, eu aproveitei a oportunidade para mencionar seu nome, e foi quando descobri que você não trabalha mais para ele. – E ele lhe contou por quê? – Estranhamente, Ibrahim pareceu não querer discutir sobre você. – Então, deixe-me esclarecê-lo. Ibrahim me demitiu por causa disto. – Usando ambas as mãos, Lottie gesticulou a sua volta, acabando com dois dedos apontados para si mesma. – Ele recusou-se a me dar mais tempo de folga. Demitiu-me por telefone. – Ah. – Sim... então, basicamente, eu não tenho um emprego para o qual voltar. Mas, por favor, não se sinta culpado por isso. – Eu não me sinto. Tudo sobre a resposta fácil dele disse a Lottie que sua tentativa de sarcasmo fora desperdiçada. – Na verdade, eu estava pensando que esta é uma complicação a mais que tiramos do caminho. Típico! Rafael conseguira transformar o que era uma preocupação para Lottie... havia contas para pagar, afinal de contas... em algo para sua própria vantagem. Todavia, quanto mais Lottie pensava sobre aquilo, mais grata se sentia por não trabalhar mais para Ibrahim. Sabia que seria capaz de arranjar outro emprego. Deixar Rafael a ensinara a ser independente. Chegando à Inglaterra com nada, exceto uma mala e uma quantidade muito pequena de dinheiro, ela tomara a decisão de se mudar para Londres. Necessitava de um recomeço, longe das memórias que, sem dúvida, a perseguiriam em Oxford. Também não queria que Rafael soubesse onde ela estava... que ele a procurasse, exigindo respostas. Não que precisaria ter se


preocupado com isso. Além de um único e-mail do advogado dele, Lottie não tivera notícias de Rafael. Estar sozinha em Londres havia sido horrível no começo. Parecia um lugar tão solitário naquele primeiro inverno, enquanto ela procurava um emprego e um lugar para morar, finalmente alugando uma quitinete deprimente, dormindo com a cabeça embaixo do travesseiro para tentar bloquear os gritos e silêncios assustadores de seus vizinhos. Ela pensara que o inverno jamais terminaria. Mas terminara, sendo seguido por uma primavera particularmente linda. O que parecera ainda pior. Vendo namorados no parque, deitados na grama, se beijando, pais orgulhosamente empurrando carrinhos de bebê, crianças brincando... Era como se o mundo inteiro estivesse feliz e amando, deliberadamente provocando-a com sua alegria. Mas o tempo passara, e Lottie fizera algumas amizades e conseguira um emprego, podendo então pagar um apartamento melhor. Aos poucos, ela percebera que não estava mais acordando para a sensação nauseante de medo. O emprego na Galeria Ibrahim lhe proporcionara um bom salário, mesmo se o chefe lhe causava calafrios, e subitamente ela percebera que tinha seguido em frente, crescido, e que estava no controle de sua própria vida de novo. Até que recebera o e-mail de Rafael. Até que sua vida anterior reaparecera e a jogara na situação extraordinária na qual eles estavam agora. Ela observou quando Rafael afastou-se da mesa, inclinando a cadeira sobre as pernas traseiras, estendendo os braços atrás da cabeça. Ele virou-se para olhar pela janela, e ela viu o reflexo dele no vidro. Fechado, pensativo, mas atraente, como sempre. Rafael usava sua beleza casualmente, como se nem a notasse. Não tinha vaidade, ou interesse de se exibir para o mundo... apenas uma confiança interna, um poder inconsciente que lhe dava a habilidade de conseguir o que quisesse. Até o acidente. Lottie ficou impressionada, mais uma vez, diante de como aquilo devia tê-lo afetado. Olhou para o perfil esculpido, para a cicatriz que, embora jamais pudesse desfigurar o rosto lindo, era um lembrete permanente do que ele sofrera. Desde aquele primeiro dia no escritório do palazzo, ele nunca falara sobre o acidente. Assim como nunca falava sobre nada que importava. E Lottie decidiu


tentar fazê-lo se abrir. – Conte-me sobre o acidente. Ele virou-se para olhá-la, a expressão reservada derretendo o coração dela, novamente. – Como foi, Rafe? – Não uma experiência que eu recomendaria. – Ele voltou a cadeira para a posição original e começou a reunir coisas sobre a mesa. – Devo fazer um café? Ele estava tentando fugir de qualquer conversa sobre o acidente. Mas Lottie impediu-o. – Num minuto. – Inclinando-se para a frente, ela descansou a mão no braço dele, sentindo os músculos fortes se flexionarem sob seu toque. – Não há pressa. Quando ela aumentou a pressão no braço dele, tornou-se mais consciente do contato de pele com pele, da sensação dos pelos escuros erguidos sob as pontas de seus dedos, antes que Rafael recolhesse o braço e cruzasse os dois, defensivamente. – O que você sentiu quando percebeu que o paraquedas não ia abrir? Rafael olhou-a com expressão irritada. – O que você acha que eu senti? – Eu não sei... por isso estou perguntando. – Teimosamente, ela recusou-se a desistir. – Incredulidade, pavor, pânico. Escolha a palavra. Não houve muito tempo para uma crise existencial. O sarcasmo continuava. – Você perdeu a consciência assim que atingiu a árvore? – Sim. – Ele deu um suspiro exasperado, sabendo que ela não ia deixar o assunto morrer. – Não vi mais nada, até que acordei numa cama de hospital, pensando como eu era tolo. – Tolo? Pensei que você tivesse se sentido sortudo. – Isso também. Mas perceber o que eu tinha feito comigo mesmo... o dano permanente, quero dizer. Tudo aquilo poderia ter sido evitado. – Mas você não tinha como saber... sobre o paraquedas, quero dizer. – Não. Mas se eu não estivesse saltando de aviões, em primeiro lugar... – Rafael parou, como se percebesse que estava falando demais. – De qualquer forma, eu parei com este tipo de coisa.


Lottie o estudou por sob os cílios. – Você fala isso agora. Aposto que quando estiver completamente recuperado, irá se jogar no caminho do perigo em cada chance que tiver. – É isso que você achava que eu fazia? – Ele a olhou em surpresa. Lottie sentiu-se enfraquecer sob o olhar penetrante. – Basicamente. Vamos encarar a realidade... você estava sempre esquiando em montanhas perigosas, ou escalando-as ou saltando delas. Especialmente – ela pausou – depois que Seraphina morreu. – Você fala como isso fosse alguma espécie de desejo de morte. – Isso é um pouco extremo demais. Uma tática de diversão, talvez, uma forma de fuga. – Fugindo do quê? – De mim. Do nosso casamento. Da morte de Seraphina. – Che assurdità! Ele virou-se, praguejando em italiano. – Como sempre, sua psicologia amadora a fez tirar a conclusão errada. Agora, se me der licença, eu tenho trabalho a fazer. Deixando os pratos onde estavam, Rafael saiu da sala, seu orgulho e dignidade apressando-se para acompanhá-lo. ELA ESTAVA certa? É claro que estava. Fechando a porta de seu estúdio, Rafael inclinou-se sobre a porta e cerrou os olhos contra a percepção de Lottie. Aquilo era o que mais o irritava... por que ele detestava entrar em qualquer tipo de “conversa” com Lottie. O jeito que ela lhe arrancava coisas, abordava assuntos sobre os quais ele não queria falar, tentava descobrir as verdades que deveriam permanecer enterradas... Por que ele lhe contara que desistira dos esportes radicais? Mesmo se isso fosse verdade. Rafael passara cada vez mais tempo praticando esportes radicais nos últimos anos, transformando um hobby de fuga numa obsessão, uma maneira de purificar-se. Dissera a si mesmo que precisava de algo para aliviar as pressões de administrar o principado, e havia alguma verdade nisso. Muitas vezes a responsabilidade massiva pesara em seus ombros, e saltar de uma montanha, por exemplo, dera-lhe certo alívio. Desafiar seus limites se tornara quase um vício, e ele se consolava com o fato de que aquilo era feito em nome de uma boa causa,


uma vez que ele levantara grandes somas de dinheiro para instituições beneficentes. Mas houve outra razão, é claro, aquela que Lottie tão sabiamente adivinhara. Rafael sabia que o verdadeiro motivo pelo qual desafiara seus limites, que assumira cada vez mais riscos, era pela adrenalina que aquilo lhe dava. E ele precisava da adrenalina porque essa era a única coisa que lhe proporcionava uma trégua temporária de seu sentimento de perda. A perda do seu bebê, do seu casamento, da sua esposa. Porém, não mais. Recebera uma segunda chance. Uma segunda chance de viver e uma segunda chance de produzir uma vida. E não faria nada que colocasse isso em risco.


CAPÍTULO 6

– ENTRE. Diante da batida suave à porta, Rafael ergueu os olhos de seu notebook e viu Lottie equilibrando uma bandeja nas mãos, empurrando a porta com o quadril. – Você mencionou café depois do jantar, então pensei em lhe trazer um... trazer para nós. – Ela indicou duas canecas ao lado da cafeteira. – Obrigado. Ele não se mexeu para abrir um espaço entre a papelada na mesa, então Lottie balançou a bandeja de propósito, até que ele entendesse a mensagem. – Pronto. – Ela sentou-se do lado oposto dele e serviu as canecas. – Você ainda está trabalhando? – perguntou, segurando sua caneca nas duas mãos, inalando o vapor. – É o que parece. – No que você está trabalhando? – Lottie pegou uma folha de papel da mesa, fingindo interesse, mas, percebendo a carranca dele, colocou-a de volta no lugar. – Nada em que você estaria remotamente interessada. Agora, eu realmente não tenho tempo para isso, então, se você puder sair... – Talvez eu me interessasse, se você me contasse o que é. – Por que você está aqui, Lottie? – As palavras geladas cortaram o ar entre eles. Lottie enrolou uma mecha de cabelo no dedo. – Pensei que, talvez, pudéssemos continuar a conversa que estávamos tendo mais cedo. Aquela que você interrompeu abruptamente quando foi embora.


– Você não está numa posição de me criticar por “ir embora”. – As palavras em tom agudo vieram do nada. – Isso é algo que você conseguiu fazer de maneira espetacular. Ai! Lottie não previra aquilo. Agora, questionou a sabedoria de ter ido procurá-lo. Especialmente uma vez que ele estava fechando o notebook e voltando os olhos escuros na sua direção. – Não era sobre isso que estávamos falando. – Bem, estamos agora. Já que você parece tão determinada a examinar o passado, por que não examinamos sua parte nele? – Não, Rafe... pare com isso. – Que tal começarmos com a noite que você foi embora? Fale-me sobre isso, Lottie, relembre a sequência de eventos, de modo que eu possa tê-la clara na minha cabeça. – Eu não quero fazer isso. – Que pena... porque eu quero. Você queria conversar, então vamos conversar. Há quanto tempo estava planejando aquilo, Lottie? Foi uma percepção repentina? Algo que aconteceu no calor do momento? Oh, não pode ter sido. A risada cruel dele feriu Lottie como uma faca. – Não quando eu tenho em mente que você nunca me amou. Devia estar desesperada para se livrar de mim... planejando sua fuga por meses. Ele estava errado... tão errado sobre tudo. Mas Lottie recusava-se a encarar a intensidade dos olhos pretos penetrantes e lembrar-se daquela noite terrível. Embora cada minuto passado estivesse impregnado em sua alma para sempre. A decisão mais difícil de sua vida tinha sido tomada rapidamente. O resultado negativo da terceira tentativa de fertilização in vitro fora a gota-d’água no fracasso que era o casamento deles. Após um telefonema para o aeroporto, ela havia arrumado uma pequena mala com roupas e descido para o táxi que chamara. Estava escuro e, apesar de saber que Rafael não estava no palazzo, Lottie se encolhera no banco de trás, quando o motorista ligara o motor e partira. Entorpecida pela enormidade de sua decisão, ela estivera esperando seu voo, olhando para seu reflexo na parede de janelas, quando vira Rafael atrás dela, como uma aparição de mau presságio.


Furioso, ele tinha perguntado o que ela pensava que estava fazendo. Teria sido diferente se ele tivesse lhe pedido para ficar? Mostrado alguma compaixão, talvez até vulnerabilidade? Lottie não sabia. Mas a atitude grosseira dele apenas reforçara de que o relacionamento acabara... de que ela precisava partir. Precisava fazê-lo ver que ela não ia mudar de ideia... que ele tinha de ir embora, deixá-la sozinha com seu sofrimento. E só houvera uma maneira de fazer isso. Ela ainda podia ver a expressão no rosto de Rafael quando falara as palavras. Com os alto-falantes acima de suas cabeças anunciando a última chamada para seu voo, Lottie reunira toda a sua bravata e habilidade de atuação e declarara: – Eu não amo você, Rafael, e nunca o amei. – E tais palavras a atormentavam desde então. – Eu ainda estou esperando, Lottie. – E eu estou indo dormir. Ela começou a se mover, mas Rafael inclinou-se para a frente e segurou-lhe o pulso. – Oh, não, você não vai. Não até que me explique o que deu errado com nosso casamento. – Eu realmente preciso explicar? – Liberando o pulso, ela escondeu-se atrás de seu olhar desafiador. – Sim, precisa. Porque, obviamente, eu não consigo entender, sozinho. – Tudo bem. – Se ataque era a melhor forma de defesa, ela o enfrentaria de cabeça erguida. – Você estava trabalhando o tempo inteiro, e quando não estava trabalhando, estava fazendo alguma atividade louca, sozinho. Depois que nós perdemos Seraphina, nunca nos demos tempo para tentar superar a dor. Em vez disso, minha vida se transformou numa sucessão terrível de tratamentos FIV e procedimentos invasivos em sua busca por um herdeiro precioso, e quando esses não deram certo você se tornou cada vez mais distante e mais frio. Nunca prestava atenção em mim, nunca queria conversar comigo. Eu me sentia perdida, solitária e triste. Engolindo o soluço que ameaçava escapar, ela cobriu o rosto com as mãos e sentiu seu corpo tremer. Silêncio se seguiu.


Através dos dedos entreabertos, ela viu o rosto de Rafael, tão contorcido com desgosto que Lottie teve de desviar o olhar. Ela fungou, chorando baixinho. – Bem, você perguntou. – Sim. – A voz dele era gelada. – E você certamente respondeu. Acabou agora? Ou há mais que gostaria de tirar de seu peito? – Na verdade, há. – A frieza e sarcasmo de Rafael serviram apenas para enfurecê-la. Ela queria feri-lo agora, como ele a estava ferindo. – Nossa vida sexual. Rafael estreitou os olhos. – Continue. – Bem... – Lottie fungou, novamente. – Como pode fingir que achava que estava tudo bem com nosso casamento, quando você não chegava perto de mim há meses? – Ela pausou, ciente de que estava abrindo seu peito para expor seu coração, mas incapaz de parar agora. – Quando você percebeu que a fertilização in vitro não ia funcionar, quando percebeu que eu nunca lhe daria seu herdeiro precioso, nós nem sequer compartilhávamos mais a mesma cama. Você nunca queria fazer amor comigo... na verdade, não queria me tocar, em absoluto. Como acha que me senti com isso? Rafael parecia que tinha sido golpeado no estômago, mas Lottie não se sentiu triunfante. A paixão intensa que eles haviam compartilhado no começo do relacionamento fora tão potente que Lottie nunca teria imaginado Rafael rejeitando-a, como ele fizera após a morte de Seraphina. Aquilo a torturara na época, e a torturava agora. Especialmente quando sabia que seus sentimentos por ele continuavam tão fortes como sempre. Que seu corpo o queria novamente. Praguejando em italiano, Rafael passou uma das mãos pelos cabelos. – Você é inacreditável... sabia, Lottie? Tem a audácia de vir com essa bobagem, fingir que, de alguma forma, eu tive culpa pelo fracasso do nosso casamento, quando ambos sabemos muito bem o verdadeiro motivo. Eles se entreolharam. Lottie estava tanto esperando quanto temendo ouvir o que ele diria a seguir. – O verdadeiro motivo é que você não se importava o bastante. Na verdade, acho que nunca se importou, em absoluto.


LOTTIE FECHOU a porta da casa e saiu no terraço. Estava uma linda noite, estrelada e fria, mas ela não sentiu frio. Seu corpo ainda estava queimando do calor pela discussão deles, mágoa e angústia inundando-a, enquanto ela pensava nas coisas que eles tinham falado. No oceano de mal-entendidos e erros entre os dois. Olhando para o lago, sem ver nada, Lottie podia sentir a ansiedade consumindo-a. As consequências do que eles haviam feito, o jeito que isso podia mudar suas vidas para sempre, ainda estavam sendo ignorados por ambos. Não tinham feito nada para resolver seus problemas, tentar encontrar uma maneira através da agonia compartilhada de seu passado, acertar as coisas para o futuro. Em vez disso, evitavam o assunto, ou, pior, explodiam, como acontecera há pouco. Que tipo de base era essa para trazer uma criança ao mundo? – AÍ ESTÁ você. Rafael estava balançando as chaves do carro na mão, quando Lottie finalmente desceu a escada. Ele usava jeans e camiseta, com uma jaqueta por cima e um cachecol de cashmere em volta do pescoço. O estilo italiano que lhe caía tão bem. – Espero que eu não tenha demorado muito. Rafael apenas a estudou, os olhos escuros percorrendo-a de uma maneira desconcertante. – O que foi? – perguntou ela. Ele ainda não respondeu, a boca apertada numa linha fina, o maxilar rígido. Lottie olhou para seu próprio traje. Por que ele a estava olhando daquele jeito? Quando Rafael anunciara, no café da manhã, que iria levá-la para jantar fora, Lottie não gostara da ideia. Aquela seria outra noite torturante, juntos, apenas pior, porque não haveria como escapar. Todavia, concedendo que ele estava tentando fazer um esforço, ela decidira tentar o mesmo. Talvez, eles conseguissem melhorar a atmosfera tensa que permeava a casa nos últimos dias. Ademais, seria bom se arrumar um pouco... trocar o jeans sujo de tinta por um dos vestidos pendurados em seu guardaroupa. Ela ficara chocada, no primeiro dia ali, ao descobrir, juntamente com sua pequena mala, enviada do palazzo, outra muito maior, contendo diversos


vestidos de noite: vestígios de sua vida prévia com Rafael. A vida na qual ela fora repentinamente jogada na ocasião da morte do pai de Rafael, e ao papel no qual não tivera tempo de se ajustar: o papel de Contessa di Monterrato. De alguma maneira, Lottie pensara que Rafael teria se livrado de todas aquelas roupas... doando-as ou queimando-as. Ela não o teria culpado. Ao rever suas roupas, ela se lembrara da mulher que tinha sido... indo a eventos tediosos com Rafael, observando o modo que ele se comportava nas festas, sabendo que cada evento, independentemente do nome que recebesse, era apenas outro exercício de relações públicas... uma reunião de negócios. Aquelas não eram memórias felizes, e Lottie selecionara um traje, antes de guardar o resto, juntamente com as lembranças, dentro do armário. O vestido que escolhera era simples e elegante, a seda num tom de azul que capturava a luz quando ela se mexia. E, apesar de tudo, ela se sentira bem no traje. Pelo menos, até que estivesse sob a força do olhar de Rafael. Agora seria o momento para Rafael lhe fazer um elogio... dizer-lhe como Lottie estava bonita. – Você passará frio. E ela que esperara um elogio! Lottie apenas comprimiu os lábios numa expressão irritada. – Você não tem uma estola ou algo assim? Uma estola? Em que século ele vivia? Eles iriam a um restaurante no carro luxuoso dele, não numa carruagem. – Eu estou bem. Ela respirou fundo, de súbito zangada consigo mesma. Por que passara horas tentando ficar atraente para ele? Lutando com os cabelos, até que se decidira por um coque frouxo na altura da nuca, aplicando maquiagem sutil e cuidadosa, pondo o vestido sobre o corpo limpo e perfumado. Por que se incomodara? – Coloque isto. – Aproximando-se, ele removeu o cachecol que usava e abriuos sobre os ombros dela. – Obrigada. – Lottie teve de se afastar antes que pudesse respirar. Algo lhe dizia que esta noite seria horrível. Mas ela estava errada. O restaurante da região era pequeno e informal, e, depois dos cumprimentos entusiastas do staff, que sempre acompanhava Rafael


em todos os lugares, eles se sentaram num canto tranquilo, com uma única vela tremulando sobre a mesa entre os dois. A comida estava deliciosa... uma seleção de peixes frescos, servidos com molhos aromáticos e massa. Enquanto comiam, a conversa, surpreendentemente, fluía. Rafael começou, como sempre, perguntando sobre seu dia de pintura, depois respondeu a pergunta dela sobre o dia dele, contandolhe sobre os planos para uma nova marina que começaria a ser construída, sobre as vinícolas que precisavam ser monitoradas de perto nesta época do ano, sobre as eleições locais que haviam acabado de acontecer. Ele parecia tão composto, tão lindo, tão como o velho Rafael por quem ela se apaixonara loucamente. Lottie tentou se concentrar nos muitos problemas e oportunidades envolvidos em ser chefe de um principado como Monterrato. Todavia, descobriu-se sendo atraída pela magia hipnótica da voz profunda, pelo sotaque italiano sensual. Observava como a boca maravilhosa se movia enquanto ele falava, o lábio inferior um pouco mais cheio que o superior, ambos irresistivelmente beijáveis. Os ferimentos no rosto tinham quase desaparecido agora, e a cicatriz na testa estava escondida por uma mecha de cabelo, mas ainda visível na parte da face. Uma sombra de pelos escuros despontando no maxilar lembrou-a da sensação da barba por fazer roçando no seu rosto, e em outras partes do seu corpo... Bastava! Ela precisava parar com isso, antes que traísse a si mesma de alguma maneira embaraçosa. Nem mesmo podia culpar o álcool. Optando por água, ela não dera mais do que um único gole, quando Rafael lhe pedira para experimentar o vinho local que pedira. Você não podia ficar embriagada com um gole de vinho, podia? Outras forças estavam em jogo ali... forças muito mais perigosas. – Posso lhe perguntar uma coisa? – Pondo os talheres unidos sobre o prato, Rafael pegou o guardanapo e tocou-o nos lábios. Subitamente, os olhos escuros estavam intensos no rosto dela. – É claro. – Lottie riu nervosamente. – Contanto que não seja se eu acho que estou grávida. Porque eu não tenho ideia – acrescentou ela quando ele arqueou uma sobrancelha. – Não mais ideia do que você tem. – Sei disso. – Ele girou os ombros para trás, o olhar nunca deixando o rosto de Lottie. – Sei que precisamos esperar duas semanas, antes que possamos fazer


um teste de gravidez. Antes disso, é improvável que haja quaisquer manifestações discerníveis. Eu conheço o processo, Lottie. Não esqueci que já passamos por isso. – Não, é claro que não. Manifestações discerníveis? Como ele podia ter uma visão tão clínica, tão objetiva daquilo? Porque para Rafael era assim, Lottie lembrou dolorosamente. – Mas minha pergunta é relacionada a isso. – Vá em frente. – Apenas para me esclarecer, Lottie, por que você concordou em ter um filho meu? Lottie engoliu em seco. Típico de Rafael. Justamente quando as coisas estavam pacíficas, ele dava um jeito de arruinar a atmosfera. Ela olhou para baixo. – Eu não sei exatamente. – Ela levantou a cabeça e imediatamente foi capturada pelo olhar dele. – Suponho que foi uma combinação de coisas. Rafael inclinou a cabeça de lado e esperou que ela continuasse. – Basicamente, suponho que você estava certo quando disse que sabia que eu sempre quis ser mãe. Foi provavelmente meu instinto maternal que me fez dizer sim... simples assim. – Estas coisas nunca são simples, Lottie. – Bem, talvez eu precisasse provar que posso ser uma boa mãe. Uma mãe melhor daquela que tive, pelo menos. – Ela sorriu, não querendo que o assunto pesasse. – Pelo que eu ouvi, isso não será difícil. Como está a adorável Greta? – Muito bem. – Lottie riu. – Até onde sei, ela e capitão Birdseye estão morando juntos na Argentina, e felizes. Rafael nunca conhecera a mãe dela. O relacionamento deles fora tão louco, com Lottie engravidando apenas semanas depois que ela e Rafael tinham se conhecido, então o casamento e a mudança para Monterrato... tudo acontecendo antes que Greta conseguisse encontrar tempo para vir. Convites subsequentes haviam sido educadamente recusados, por causa da “distância considerável” entre eles. – Acho que minha mãe finalmente encontrou o que estava procurando.


– Vamos esperar que sim. E você encontrou o que estava procurando? – questionou ele. – O bebê, quero dizer? – Nós ainda não sabemos se há um bebê. – Lottie baixou os olhos, dobrando o guardanapo, tentava injetar alguma realidade na conversa. – Mas você caindo do céu certamente abriu a possibilidade, nada mais. Ele sorriu. – Então você deveria estar me agradecendo, na verdade? – Se você quiser. – Ela arriscou outro sorriso, então se sentiu ridiculamente magoada quando, em vez de retorná-lo, ele desviou o olhar de modo abrupto. – Suponho que estou dizendo que eu concordei em usar nosso último embrião porque quero esse bebê tanto quanto você. Ainda que que por razões diferentes. – Diferentes como? – Meu motivo é puramente emocional... maternal. O seu é sensato, prático. Sei como é importante para você, para Monterrato, produzir um herdeiro. Mas não foi por isso que concordei. Eu concordei porque quero um filho ou uma filha. Nada mais complicado que isso. Lottie recostou-se, certa de que Rafael ficaria aliviado. Afinal de contas, não acabara de informá-lo que ele não precisava ser grato a ela? Mas ficou desapontada. Porque, em vez de aliviado, ele parecia raivoso. Rafael ouvia-se arfar enquanto olhava para Lottie. Achara que sair para uma refeição seria uma boa ideia. Mas estivera errado. Ficar sentado diante dela, na atmosfera íntima do restaurante à luz de velas, não parecia mais uma boa ideia, em absoluto. A noite começara mal quando ela aparecera naquele vestido fino. O jeito que o tecido marcava o corpo delgado, realçando o contorno dos seios e quadris, então parando nos joelhos para revelar pernas longas e bem torneadas... Apenas a visão de Lottie o excitara. E quando ele lhe segurara a porta aberta e vira aquelas alcinhas cruzadas sobre as escápulas, precisara de todo seu controle para não rasgá-las, até que o vestido caísse aos pés dela. E agora, ainda estava sendo provocado pelos ombros desnudos, pelo decote do vestido, pelo pescoço elegante... por tudo que ela, inconscientemente, lhe causava. Lutar contra seu desejo estava cada vez mais difícil, e Rafael sabia que tinha de usar a única arma de seu arsenal. Animosidade.


– Apenas para sua informação, você não é a única com emoções, Lottie. Não é a única que tem sentimentos. Apesar de sua opinião fria e calculista a meu respeito, também sou de carne e osso. Posso ser sensato e prático, mas isso não significa que eu não sinto as coisas tão profundamente quanto você. Talvez, devesse se lembrar disso. – Sim, é claro. – Lottie sentiu o rosto tão quente como se tivesse sido esbofeteada. – Eu não quis dizer o contrário. Estava apenas tentando explicar as diferenças entre nós. – Isso não é necessário – retrucou ele. – Creio que as diferenças entre nós estão muito claras. – Sim. Mordendo o lábio, Lottie lutou para suprimir a dor que sentia diante das palavras zangadas. A dor de saber que, embora Rafael ainda lhe despertasse saudade e desejo, ela apenas invocava amargura e ressentimento nele. Procurou uma resposta que o magoasse, como ele a magoara, mas era tarde demais. Virando-se, Rafael já tinha pedido a conta.


CAPÍTULO 7

RAFAEL ACORDOU com um susto. Podia ouvir alguma coisa... um barulho em algum lugar da casa. Ao sair da cama, uma olhada no relógio informou-o que eram 2h45 da manhã. Vestindo seu jeans, ele atravessou o corredor para o quarto de Lottie. A porta estava fechada, e ele ficou lá por um momento, ouvindo. Nada. Ela provavelmente estava dormindo; fazia várias horas que ela se recolhera, recusando sua oferta de um drinque, deixando-o com um copo de uísque e um mau humor. A noite não acabara bem... assim como todas as outras noites desde que eles estavam em Villa Varenna. Todas as noites desde que Lottie voltara para sua vida, na verdade. Rafael sabia que estava fracassando no que dizia respeito a seguir as instruções do dr. Oveisi de tornar aquelas duas semanas o menos estressante possível para Lottie. Mas só havia um conselho do dr. Oveisi que ele sabia que poderia seguir... e com muita facilidade. Lutava para controlá-lo cada segundo que passava com ela. E a cada dia que passava ficava mais difícil. A casa estava silenciosa. Talvez, ele tivesse imaginado o barulho. Após descer a escada, parou no hall, tentando ouvir algo. Sim, o som estava lá novamente, vindo do porão. Um plano começou a se formar em sua cabeça, imediatamente. Se ele conseguisse entrar na academia de ginástica, poderia pegar um dos pesos de lá e golpear a cabeça do invasor antes que ele tivesse a chance de fugir. Sentiu a adrenalina bombear seu corpo. Lentamente, desceu a outra escada. O barulho estava vindo da piscina... ele podia ouvir água espirrando claramente agora. Ladrões não davam um mergulho antes de roubarem uma casa.


Parando nas sombras, atrás da parede de vidro, ele distinguiu o formato do corpo de Lottie nadando de uma ponta à outra. A única iluminação vinha das luzes submersas da piscina. Ele deveria sair dali. Quando se virou, o botão de metal de seu jeans bateu contra o vidro, e Rafael congelou, baixando os olhos, como se tentando se tornar invisível. – Quem está aí? Ele ouviu o tom alarmado na voz de Lottie. Que diabos estava fazendo, espreitando-a na escuridão? – Sou eu. – Ele abriu a porta de vidro. – Ouvi um barulho. Desci para ver o que era. – Oh. – Ela o olhou por um minuto, antes de nadar para a borda da piscina. – Você me assustou. – Desculpe. Rafael olhou para a cabeça e os ombros de Lottie, antes que seu olhar descesse mais um pouco e ele percebesse que, por baixo da água azul, ela estava nua. Dio. Desviou o olhar rapidamente. – Que diabos você está fazendo aqui esta hora da madrugada, de qualquer forma? Sabe que são quase 3h? – Eu não consegui dormir. – Ela afastou-se da beira da piscina, deu algumas braçadas, então parou e olhou-o. – Decidi nadar de madrugada. A ideia ocorrera a Lottie depois de diversas horas se virando na cama. A noite deles acabara de maneira amarga, com um trajeto de carro silencioso para casa, e com Rafael recusando-se até mesmo a olhá-la quando ia para a cozinha, servir-se de outro drinque. Deitada na cama, olhando para o teto, ela tentara entender o que dera errado... por que sempre dava errado. Sabia que a tensão entre eles se devia a mais do que apenas a mágoa do passado, embora esta nunca fosse abandoná-los. Era o assalto fresco do presente, também. A conexão sensual, sexual, que o confinamento deles revelara. Era por isso que estavam brigando. Era isso que tornava a convivência atual tão insuportável. Seu nado à noite havia sido uma boa ideia, e feito Lottie se sentir estranhamente calma. Talvez fosse a falta de sono, mas a água morna acariciando seu corpo nu não lavara apenas seu estresse, mas também intensificara sua


sensualidade, produzindo um efeito quase hipnótico. Estava num lugar lindo, com um homem lindo, e havia uma chance... talvez uma boa chance... de que estivesse grávida com o bebê deles. E lá estava ele, parado à beira da piscina, olhando-a, o magnífico torso nu brilhando na luz parca. A visão de Rafael despertou uma impulsividade nela. – Eu vou deixá-la nadar, então. – Com um último olhar intenso, Rafael estava se virando para partir. – Por que você não se junta a mim? – As palavras escaparam antes que ela pudesse pensar, fazendo Rafael parar. Ele olhou para trás. – Por que eu desejaria fazer isso? – Por diversão, Rafe. Nós deveríamos estar nos divertindo, lembra? Ordens médicas. – Nadando para mais perto, ela parou e deu-lhe um olhar desafiador. Diversão. Rafael percebeu que isso era algo que Lottie oferecia em abundância... certamente, tinha sido quando ele a conhecera. Na época, ele a achara tão diferente de qualquer pessoa que conhecera antes... diferente das mulheres com quem ele era forçado a se socializar em Monterrato. Aquelas mulheres eram como peões estratégicos, cuidadosamente escolhidas porque eram filhas de chefes de estado ou de homens de negócios influentes. Parte da razão pela qual ele insistira em fazer seu doutorado na Inglaterra tinha sido para fugir do ridículo ritual casamenteiro. Mas nunca esperara encontrar Lottie... nunca imaginara que se apaixonaria tão cegamente, e que Lottie engravidaria tão rapidamente. Aquilo levara a um casamento apressado e ao que, agora, parecia o momento mais feliz de sua vida. Seu pai ficara irado, é claro. Rafael ainda tinha aquela carta furiosa em algum lugar... a última troca antes que Georgio morresse de um enfarte fulminante. O que tinha de ser uma coincidência. Ele não era responsável pela morte de seu pai. Apenas desejava que Georgio tivesse tido a chance de conhecer Lottie. Ela teria amaciado o coração zangado dele. Rafael podia ver Lottie, esperando, olhando-o, os braços e pernas se movendo silenciosamente para mantê-la na superfície da água. Ela o estava provocando, sem dúvida, pensando que ele nunca faria aquilo. Porque ele não era divertido, era? E, pior, ele drenara a alegria de Lottie. Podia ver isso agora.


Como um vampiro, Rafael enfraquecera o espírito livre de Lottie, a alegria de viver dela, primeiro, jogando-a, totalmente despreparada, no papel de Contessa di Monterrato, e depois, com a morte do bebê deles e sua subsequente determinação em engravidá-la novamente. Não era de admirar que não restasse alegria em Lottie. Bem, ele lhe mostraria. Andando para a parte final da piscina, ele removeu seu jeans, posicionou-se na beira e mergulhou, subindo à superfície segundos depois, bem na frente de Lottie. E a expressão no rosto dela era inestimável. Subitamente, ela estava nadando para longe dele, mas ainda perto o bastante para que ele visse as lindas nádegas embaixo da água. – Pegue-me se for capaz! – Lottie falou por sobre o ombro. Ela devia estar brincando. Observando-a escapar, Rafael contou até três antes de segui-la, chegando ao seu lado em poucas braçadas. Ele agarrou-lhe a perna quando ela tentou fugir. A cabeça de Lottie mergulhou, depois reapareceu, com ela tossindo. – Isso é roubo. – Não lance um desafio que você não pode vencer, Lottie. – Ele era alto o bastante para ficar de pé nesta parte da piscina, mas ela estava movendo braços e pernas para manter a cabeça acima da superfície. Inclinando-se para a frente, Rafael colocou os braços fortes sob as axilas dela, para firmá-la. Subitamente, o movimento da água os uniu e seus corpos nus estavam a centímetros de distância. Rafael praguejou silenciosamente. O que estava fazendo? Sabia que deveria distanciar-se... agora... antes que fizesse alguma coisa da qual se arrependeria amargamente. Mas Lottie ainda o torturava com seu olhar firme e audacioso. Ele sentiu seu corpo traidor entrar em ação debaixo d’água, tentando roubar-lhe o último resquício de autocontrole. – Às vezes, um desafio não é lançado para ganhar ou perder. – A voz de Lottie era séria e sedutora agora. Ela inclinou o rosto para o seu, os lábios carnudos tão tentadores. Rafael abaixou a cabeça. – No entanto, se este for um desafio, eu preciso avisá-la que é perigoso. – Vamos chamar isso de outra coisa então.


Ela estava tão perto agora que Rafael podia ver os cílios escuros emoldurando os olhos azuis. – É mais alguma coisa que precisa ser confrontada. Quem fez o movimento final? Rafael não tinha certeza, mas de súbito, toda a resistência cedeu para a inevitabilidade, e seus lábios se tocaram. De forma experimental, no começo, mas logo se tornando um beijo ardente e apaixonado, com ambos dando e recebendo em igual medida, capturados no delírio proibido do beijo. Suas línguas provaram e brincaram, suas respirações ofegantes, o poder do desejo os dominava, apagando todos os pensamentos racionais. Entrelaçando as mãos nos cabelos de Rafael, Lottie puxou-o para mais perto ainda, seus rostos selados pela umidade e pelo beijo. Após um momento, Rafael afastou-se um pouco e perguntou: – É isso que você quer, Lottie? – Seu coração estava bombeando freneticamente no peito. – Porque se não for, precisa me falar agora... antes que seja tarde demais. Lottie o encarou, seus olhos pesados, seu corpo doendo com uma necessidade consumidora. Isso era o que ela queria... o que queria tanto que chegava a tremer com o poder do desejo. Incapaz de vociferar as palavras, ela apenas fechou a pequena distância entre eles e uniu seus corpos, novamente, moldando-os num encaixe perfeito de intimidade sexual. Rafael deu um gemido gutural e pausou por uma fração de segundo... tudo que levou para o último pensamento racional desaparecer. Então, erguendo Lottie em seus braços, carregou-a até os degraus azulejados da piscina e subiuos, antes de abrir a porta da academia de ginástica. Então, andou para o tapete de borracha no meio da sala escura e deitou-a ali, posicionando-se acima dela numa posição de flexão. Aquilo era loucura... loucura total. Mas parecia inevitável. Desde aquela primeira vez que ela entrara em seu escritório no palazzo, isso era tudo que Rafael queria fazer. Tomá-la, consumi-la, tentar preencher o abismo que se abrira em seu peito desde o dia que ela partira. Com os músculos de seus bíceps se ondulando, ele começou a dobrar os braços e se abaixar lentamente sobre o corpo molhado e trêmulo de Lottie,


beijando-lhe os lábios outra vez, precisando se assegurar de que era isso que ela queria. E era. Rafael abaixou a cabeça, descendo a boca para os seios dela, beijando, lambendo e provocando cada um deles, Lottie se contorcia eroticamente sob ele. Aquilo era tão bom. Ela podia não amá-lo, mas ele ainda era capaz de excitála... ainda conseguia fazer o corpo deleitoso se contorcer sob seus toques. Arfou quando sentiu a mão de Lottie se mover para o lugar onde ele mais a queria, segurando sua ereção e manipulando-a com dedos trêmulos. O corpo de Lottie se contorcia sobre o tapete molhado, enquanto ela se posicionava para ele, pronta para recebê-lo em seu interior. Relutantemente, pegando-lhe a mão, Rafael moveu-a de seu sexo para seu ombro. Se não quisesse acabar em segundos, precisava tomar o controle. Deslizou sua própria mão entre eles, encontrando os pelos pubianos úmidos e inserindo um dedo dentro dela, abrindo as dobras quentes e suaves, sentia os músculos femininos o apertarem, enquanto lhe massageava o clitóris. Ouvindo o gemido de Lottie, ele cobriu-lhe a boca com a sua, novamente, querendo absorver a energia do prazer dela em seu próprio corpo, sentir aquilo com ela. Quando o corpo delgado arqueou-se contra seu dedo, ele aumentou a velocidade, até saber que ela estava quase lá. Movimentando os quadris, substituiu seu dedo pela ponta do pênis, então parou, saboreando aquele segundo, antes de penetrá-la, devagar no começo, e depois, até que toda a sua extensão pulsante a preenchesse completamente. Com um pequeno grito, Lottie enterrou as unhas nos ombros dele. – Lottie? – murmurou ele, erguendo-se para lhe fitar os olhos. – Não pare. O tremor profundo na voz dela, juntamente com a expressão desejosa nos olhos azuis, da qual ele lembrava tão bem, foi toda a confirmação que Rafael precisava. Quando ela o puxou para cima de si novamente, ele sentiu os músculos de Lottie o comprimindo. Tinha de se mover mais rápido agora, aumentar o ritmo. O desejo crescente demandava liberação. E Lottie o seguia em cada passo, indicando que também não aguentaria muito mais tempo. Após mais algumas investidas profundas, Rafael sentiu o corpo de Lottie estremecer, ouviu-a ofegar fortemente, e soube que ela estava lá, e que ele não


podia esperar mais. Um clímax explosivo abalou seu corpo inteiro, tão poderoso que pareceu levar Lottie consigo, e Rafael cobriu-lhe os lábios com os seus para silenciar seu próprio grito animal. Enquanto seus corpos se convulsionavam juntos, a sensação era que, se o mundo acabasse agora, nenhum deles notaria.


CAPÍTULO 8

MAS O mundo não acabara. E antes mesmo dos últimos espasmos do prazer deixarem seus corpos, Rafael estava se afastando, o ardor de desejo nos olhos dando lugar a uma expressão cautelosa. – Eu vou pegar toalhas para nós. Ele estava de pé agora, e Lottie observou o corpo nu atravessar o cômodo e retornar com duas toalhas. – Aqui. – Entregando-lhe uma, ele evitava olhá-la enquanto ela pegava a toalha e a enrolava em volta do corpo. – Você não deve passar frio. – Não. – Ele estava amarrando a própria toalha em volta da cintura. – Rafe... – Lottie parou, incerta do que dizer, mas desesperada para espantar o frio que não podia ser aquecido por uma toalha. – Você precisa ir para cama, Lottie – disse ele. – Nós dois precisamos. Tudo sobre a postura de Rafael, o tom de voz, a boca comprimida, deixou claro que ele estava falando de camas separadas. – Está ficando muito tarde. SE ELA não abrisse os olhos, não seria verdade. Lottie podia sentir o sol batendo contra suas pálpebras fechadas, informando-a que o dia seguinte chegara, ela gostasse disso ou não. Que o tempo não parara apenas por causa do que eles tinham feito na noite anterior. Imagens coloridas preenchiam sua mente como um filme. A piscina, a sala de ginástica, o tapete... o que eles haviam feito no tapete... E, pior, o jeito que Rafael se comportara depois.


Ela não podia culpar ninguém, exceto a si mesma. Infelizmente, lembrava a sequência de eventos com clareza, e sabia que começara aquilo. Talvez, pudesse culpar seus hormônios. Depois de tudo pelo que ela passara, eles deviam estar descontrolados. Ou o efeito hipnótico da piscina, talvez. Mas no fundo, sabia que só podia culpar uma coisa. O efeito erótico e carnal que Rafael exercia sobre seu corpo. E ela era humana. Havia apenas certa quantidade de tentação que uma mulher podia aguentar. O sexo fora incrível, é claro. Eles sempre tiveram a conexão mais incrível... como se seus corpos fossem designados a se encaixarem para o mais explosivo dos resultados. Todavia, na noite anterior tinha sido diferente... como se a tampa da panela de pressão tivesse explodido de suas vidas, naquele cômodo escuro, naquele tapete de ginástica escorregadio. A dor do passado, a tensão do presente, as esperanças do futuro... tudo detonando numa nuvem de intensidade sexual poderosa. Ela ainda podia sentir os espasmos pós-clímax a percorrendo. Mas não eram essas memórias do intenso prazer vivenciado que a perturbavam agora. Nem mesmo a percepção de que ninguém jamais poderia fazer amor com ela daquela forma e causar-lhe sensações tão mágicas. Não. A dor de agora era pelo que acontecera depois: a expressão de desgosto no rosto de Rafael, quando ele lhe entregara a toalha, o modo como ele observara quando ela fechara a porta do quarto, quase como se ela não pudesse ser confiável, como se, a qualquer momento, ela pudesse atacá-lo novamente, forçando-o a amá-la. Era isso que a estava crucificando agora. Abrindo os olhos, ela afastou a coberta e saiu da cama. Precisava ser forte, não agonizar sobre seus erros. Precisava focar-se no futuro, no motivo pelo qual estava lá. O bebê... se houvesse um bebê... era a coisa importante. Dolorida no lugar onde Rafael estivera, ela deu passos determinados em direção ao banheiro. Rafael não estava em parte alguma quando Lottie finalmente desceu. O que era um alívio. Ela não queria vê-lo. Ainda que tivesse passado a última hora preparando-se para o encontro desconcertante, treinando mentalmente como deveria agir com ele: de maneira alegre e casual, como quem estivesse dizendo: Foi divertido, mas obviamente não significou nada e não acontecerá de novo. Mas, no final, suas habilidades de representação não foram necessárias. A hora do almoço chegou e passou, e ainda não havia sinal de Rafael. Lottie passou pela


porta do estúdio dele, pausando do lado de fora para ver se conseguia ouvir alguma coisa. Mas o silêncio era total, e certamente ela não arriscaria abrir a porta e demonstrar que se importava, caso ele estivesse lá. Perto de anoitecer, quando ele ainda não aparecera, ela convenceu-se de que Rafael tinha ido embora para sempre, abandonando-a sozinha naquele lindo lugar. E ela não se importava. Na verdade, seria melhor se ele tivesse partido. Pouparia muitos momentos de embaraço. Quando a luz do crepúsculo começou a dar lugar à escuridão, Lottie decidiu que precisava de ar fresco, e, vestindo um casaco, saiu no terraço. A lua estava cheia esta noite, iluminando o jardim, acentuando o contorno das plantas e árvores. Abrindo os portões de ferro, Lottie pausou, olhando para o reflexo da lua na água ondulante. Era espetacular. Lentamente, ela começou a descer os degraus para a água, andando com cuidado. A última coisa que queria era cair agora... agora que tinha sido efetivamente abandonada. Só Deus sabia quando alguém a encontraria. No momento que chegou à margem do lago, ouviu o som de um motor, e, olhando para cima, viu uma lancha se aproximando. Rafael ao leme. Ele estava de pé, a parte superior do corpo visível acima do painel de vidro, uma das mãos no leme, manobrando o barco com confiança em direção a seu ancoradouro. Desligando o motor, ele deixou o marco ser levado ao ancoradouro pela correnteza e saltou em terra firme com uma corda nas mãos. – O que você está fazendo aqui? Não era o mais caloroso dos cumprimentos. – Admirando a vista. Do lago – acrescentou ela, rapidamente, no caso de Rafael pensar que ele era a vista. – Você comeu? – Puxando o barco na sua direção, ele inclinou-se para remover duas sacolas de dentro, antes de voltar a olhá-la. – Hmmm... não... ainda não. – Bem, há muita comida aqui. – Ele sacudiu as sacolas nas mãos. – Eu irei trabalhar esta noite, então vou comer apenas um sanduíche, mas prepare uma refeição adequada para si mesma. – Certo. – O tom inflexível não deixava espaço para negociação, mas Lottie ainda tentou: – Se eu vou cozinhar, posso fazer alguma coisa para você também.


– Não, obrigado. Como eu disse, vou comer apenas um sanduíche. – Certo. – Se ele queria aquele clima, então assim seria. Por um momento, eles se entreolharam, a luz da lua iluminando seus perfis, somente o barulho da água suave quebrando o silêncio. Lottie se preparara para uma situação desconcertante, mas isso era mais hostilidade. Percebeu que todos seus medos eram fundados. Ela não estivera enganada sobre a expressão no rosto dele na noite anterior. Rafael realmente a achava repugnante. Até agora, ela pensara que a noite anterior tinha sido apenas um erro... algo que não deveria ter acontecido. Agora, via aquilo como uma enorme traição, um desastre abominável que a envergonhava. E tudo sobre o homem frio e arrogante à sua frente deixava claro que ele pensava o mesmo. Dando-lhe as costas, Lottie começou a descer o lance de escadas, a caminho do terraço, furiosa consigo mesma quando lágrimas de autopiedade escorreram por suas faces já queimando com vergonha e humilhação. Podia ouvi-lo atrás de si, as sacolas farfalhando nas mãos dele. – Lottie, espere. – Alcançando-a, ele largou as sacolas no chão, pondo uma das mãos no ombro dela numa tentativa de detê-la. – Sobre ontem à noite... – Esqueça isso, Rafael. – Desvencilhando-se, ela continuou descendo os degraus, determinada a não deixá-lo ver suas lágrimas. Também não queria ouvi-lo dizer que tinha sido um erro, ou pior, que ele se arrependia. Isso era mais do que Lottie poderia suportar. Com cada passo, sua vergonha era acrescida por mais raiva, até o momento que esta chegou ao auge e ela quase começou a correr... caindo de uma maneira desajeitada que fez seu coração disparar no peito. – Lottie! – Um segundo depois do grito, ele estava ao seu lado. – Você está bem? – Sim, estou. – Levantando-se, Lottie esforçava-se para recuperar o equilíbrio, antes de continuar andando para o terraço, enquanto falava em tom desafiador: – Você realmente não precisa se preocupar comigo. RAFAEL ESTAVA tirando as compras das sacolas na cozinha, quando percebeu que Lottie o observava da porta. Ele registou as faces coradas dela, a blusa de moletom que ela acabara de vestir, o movimento do peito com a respiração


levemente ofegante. Ela parecia sexy e vulnerável, mas, acima de tudo, parecia estar lutando para conter muitas coisas que queria falar. – Eu sairei do caminho num minuto. Lottie apenas deu de ombros. – Eu trouxe prosciutto e massa fresca, e há muitos legumes ou salada, se você preferir. – Obrigada. Ela entrara na cozinha agora e passou por ele para encher a chaleira. O ar estava carregado do aroma floral da hostilidade. – Ouça, Lottie, se isso é sobre ontem à noite... – Ontem à noite? – Ela enviou-lhe um olhar de desprezo. – Aconteceu alguma coisa ontem à noite? – Não precisa ser infantil. A paciência dele estava acabando. Sentia-se cansado pela falta de sono e pela conferência longa e tediosa ao telefone, que ele tivera de fazer longe da casa, por causa dela. Também estava com fome, e Lottie estava furiosa porque ele deixara a noite anterior acontecer. – Acho que precisamos reconhecer a tolice que fizemos e nos assegurarmos de que não nos encontraremos naquela posição novamente. O gelo nos olhos azuis de Lottie quase congelou as palavras na garganta de Rafael. – Tenho certeza de que estamos ambos arrependidos. Ele certamente estava. Apesar de ter passado semanas desesperado para fazer amor com Lottie. Mas estivera convencido de que poderia se controlar, que não cederia à sua fraqueza. Quando eles estavam no palazzo, controlar-se não tinha sido tão difícil. Com a pressão do trabalho, reuniões e viagens a negócios... nem todas tendo sido estritamente necessárias... ele conseguira tirá-la de seu caminho, distraindo-se com centena de coisas que exigiam sua atenção. Entretanto, nesta casa, não havia como escapar dela. O efeito visceral que Lottie tinha sobre ele chocava-o. Quase lhe tirava o ar, e Rafael precisava de todo seu autocontrole para manter a fachada de indiferença, para impedir que a máscara caísse e revelasse a completa luxúria abaixo. Agora, soube que todo seu fingimento tinha sido para nada, e mostrara o tolo que era... um tolo por se


expor novamente à mulher que partira seu coração, e um tolo por achar que poderia resistir a ela. Como se para provar tal ponto, Lottie passou por ele outra vez, dando-lhe as costas e abaixando-se para pegar uma panela do armário, oferecendo-lhe uma vista do traseiro perfeito coberto pelo jeans justo. Dio! – É bom saber. – Pondo a panela sobre o fogão, Lottie pegou a chaleira de água. – Obrigada por me esclarecer como você se sente. Por me dizer que eu me arrependo do que aconteceu, tanto quanto você. Isso faz eu me sentir muito melhor. – Lottie... – Rafael tentou segurar seu braço, mas ela esquivou-se com agilidade. – Não me toque, Rafael. Não chegue perto de mim. Ontem à noite foi um erro. Você deixou isso perfeitamente claro. Agora, se puder sair da cozinha, eu gostaria de preparar minha refeição em paz. Pegando uma faca, ela tirou o plástico cobrindo uma embalagem e jogou o macarrão na panela. – A refeição que eu farei sozinha, porque você está muito ocupado para se juntar a mim. – Eu só estou dizendo, Lottie, que, depois de ontem, é provavelmente melhor darmos espaço um ao outro. – Bem, o que você está esperando? – Ela gesticulou em direção à porta. – Há muito espaço lá fora. – Se eu chateei você, então... – Não ouse. – Os olhos azuis passaram de frios a ameaçadores. – Não ouse me dizer que sente muito. OLHANDO PARA a tela de computador à sua frente, Rafael recostou-se em sua cadeira. Supostamente, tinha trabalho mais do que suficiente para manter sua cabeça ocupada... no entanto, iria dar um jantar beneficente dentro de uma semana, um evento de arrecadação de fundos para a fundação de bebês prematuros que ele estabelecera no nome de sua filha. Todavia, apesar de estudar as planilhas eletrônicas e enviar alguns e-mails, a tensão pelo seu confronto com Lottie recusava-se a diminuir.


Com um suspiro, ele levantou-se, estendendo os músculos dos braços à sua frente. O que tornava a situação tão insuportável... o que deixava seu humor tão ruim... era esse sentimento da perda de controle. Controle que ele perdera completamente na noite anterior. Cedendo aos seus instintos carnais. Não, mais do que isso, ele tinha cedido a Lottie. E doía reconhecer que aquilo significava muito mais do que sexo. Apesar de seus melhores esforços para recobrar o controle esta noite, ele só piorara as coisas. Seu comportamento mal-educado apenas atiçara a tensão não falada e os sentimentos recentemente inflamados. Tudo isso o fazia querer chutar alguma coisa. Com força. Fazia-o querer sair e praticar algum esporte extremamente perigoso. Porque era o que fazia quando se sentia assim. Necessitava de uma carga de adrenalina... era a única coisa que aliviava um pouco sua dor. Mas não desta vez. Arriscar sua vida não era a resposta... podia ver isso agora. Tinha de encarar a realidade da situação e enfrentá-la. Eles ficariam lá somente mais seis dias. Certamente, ele podia suportar? Se brincar de família feliz não estava dando certo, Rafael teria de pensar em alguma outra estratégia. Mais seis dias antes que eles pudessem fazer o teste de gravidez, descobrirem o que o futuro lhes reservava. Indo para a janela, ele olhou para a noite escura. Se o teste fosse positivo... bem, eles teriam de discutir como iriam proceder. Mas a alegria de saber que ia ser pai compensaria quaisquer decisões difíceis. Se o resultado fosse negativo... Pressionando a testa contra o vidro frio, Rafael sentiu um aperto no coração. Se o teste desse negativo, ele não perderia apenas sua única chance de ter um filho, como também perderia Lottie. Virando-se, pegou alguns arquivos da mesa e dirigiu-se para a porta. Não havia dúvida que, se não houvesse bebê, Lottie desapareceria da sua vida para sempre. Amaldiçoando-se por se importar, Rafael saiu da sala e bateu a porta.


CAPÍTULO 9

LOTTIE ACHOU o bilhete quando desceu, apoiado contra a cafeteira. Negócios urgentes em Milão. Volto amanhã. Ligue no meu celular, se precisar. A qualquer hora. Segurando o pedaço de papel nas mãos, ela olhou para a letra familiar. Podia quase sentir o gelo saindo da página, das palavras. Então, ele viajara. Eles só tinham mais duas noites na casa, mas Rafael não fora capaz de ficar, de aguentar ficar mais tempo perto dela. Lottie não acreditava, nem por um momento, que ele viajara a negócios, urgentes ou não. Tudo sobre o comportamento de Rafael nos últimos dias tornava isso perfeitamente claro. Frieza nem começava a descrever o comportamento dele. A temperatura parecia abaixo de zero toda vez que eles estavam perto um do outro. O que acontecera cada vez menos nos últimos dias. Rafael ficava trabalhando em seu estúdio ou se punindo na academia de ginástica, enquanto Lottie passava o tempo no andar de cima, pintando, o tempo todo tentando ouvir os passos de Rafael para se certificar de que não teria de encontrá-lo na escada, ou compartilhar a cozinha com ele, quando eles iam preparar alguma coisa apressadamente, antes de desaparecerem para comerem, sozinhos. Lottie sentia-se péssima sobre o que eles haviam feito... o Grande Erro. Estava furiosa consigo mesma pela maneira que se comportara, por convidá-lo a entrar na piscina com ela, por deixar tão óbvio o quanto o queria. A imagem dos dois


naquele tapete recusava-se a desaparecer. Ela repassava os momentos de puro êxtase em sua cabeça infinitas vezes, mas ainda não estava mais perto de entender como acontecera. Mas acontecera, e agora sua fúria não era mais limitada apenas a si mesma, mas englobava Rafael também. Certo, então ela começara aquilo, mas não assumiria responsabilidade por todo o ato. Se Rafael a achasse tão desagradável... como o comportamento dele nos últimos dias claramente indicava... por que ele sucumbira e fizera amor com ela? Não... correção... por que fizera sexo com ela daquela maneira tão ardente? Sexo o tentava tanto assim? Mesmo com alguém tão ofensivo como Lottie? Porque, se este fosse o caso, então era problema dele. Certamente, não lhe dava o direito de tratá-la como Rafael a tratara nos últimos dias. Enchendo a chaleira, Lottie sentou-se no banco de bar, observando a água começar a ferver, através do painel de plástico. Sob sua raiva, havia outra emoção: tristeza. Tristeza que ela e Rafael não podiam passar duas semanas juntos, sem chegarem a esse ponto. Suas esperanças de que eles pudessem se dar bem... ser amigos... tinham sido completamente tolas. Quanto a eles serem pais... Pondo um saquinho de chá dentro da caneca, ela despejou a água. Não podia começar a encarar este problema ainda. Talvez, nunca pudesse. E isso em si traria uma angústia na qual Lottie não queria pensar agora. Apertando o saquinho de chá, ela jogou-o numa lixeira de metal. Por enquanto, ela se concentraria no positivo. Tinha 24 horas para si mesma... 24 horas para respirar normalmente, sem a sombra constante de Rafael para atormentá-la. Decidiu que aproveitaria bem seu tempo... começando com um bom dia de pintura. Canalizar suas energias em algo criativo parecia a melhor ideia. Pegando o bilhete para uma última olhada, Lottie o amassou numa bolinha e jogou-o no cesto de lixo, antes de subir a escada com seu chá. O DIA seguinte amanheceu claro e azul. Dia catorze. O dia que alteraria todo o curso de sua vida. Sem Rafael por perto, Lottie dormira surpreendentemente bem, e agora, de pé e vestida, já estava em sua terceira xícara de café descafeinado.


Olhara para seu corpo no banho naquela manhã, certa de que, se estivesse grávida, alguma coisa tinha de estar diferente. Sabia que seios doloridos eram os primeiros sinais, então, prestara atenção neles, ensaboando-os sob o jato forte e tentando se convencer de que estavam mais sensíveis do que o usual. No momento que acabara o banho, sentira seus seios um pouco diferentes... mas então, sentiria o mesmo com qualquer parte do seu corpo que tivesse esfregado por cinco minutos. A verdade era que não havia sinais; Lottie não tinha a menor ideia se estava grávida ou não. Agora, brincava com o celular na mão. Não houvera mensagens de Rafael. Mas por que haveria... mesmo que ela estivesse obsessivamente checando pela última hora? Sem dúvida, ele apreciara a noite de liberdade tanto quanto ela. Por que Rafael estragaria o alívio de não estar perto dela, enviando-lhe uma mensagem de texto? Não pela primeira vez, Lottie pegou-se imaginando o que ele fizera na noite anterior, sua mente torturada visualizando-o nos braços de uma mulher linda e exótica, que ficaria muito feliz em lhe dar uma noite de prazer para que ele esquecesse os problemas. Ela reprimiu o pensamento. Então percebeu que não tinha ideia que horas Rafael voltaria, e não lhe daria a satisfação de perguntar. Distraidamente sentindo o peso de seu telefone, considerou o que fazer. Talvez, ele estivesse a caminho agora, mas ela não ficaria sentada ali, esperando-o. Não. Iria sair e comprar um teste de gravidez. O mero pensamento a fez tremer, ela experimentava um misto de excitação, ansiedade e medo. Com mão trêmula, começou a procurar o número de uma firma de táxi para levá-la à cidade mais próxima. Mas então parou. Tinha uma ideia melhor. VILLA VARENNA estava deserta quando Rafael chegou, mais tarde naquele dia. Ele pôde perceber o silêncio assim que entrou na casa, mesmo antes que checasse os cômodos do andar de baixo e começasse a subir a escada, dois degraus de cada vez. Abrindo a primeira porta, sentia o cheiro de tinta a óleo e terebintina, enquanto olhava para a grande tela que estava sobre um cavalete no meio da sala, as cores vibrantes de um pôr do sol lindamente retratadas pelas pinceladas inconfundíveis de Lottie. Mas Lottie não estava lá.


Virando-se, ele sentiu seu coração disparar quando um pensamento horrível lhe ocorreu. Rafael foi para o quarto dela, seus olhos percorrendo a cama desarrumada, procurando dicas. Andando para o armário, abriu as portas; lá estavam as roupas dela, penduradas em cabides, uma pequena pilha de sapatos espalhada abaixo. Ofegando, Rafael sentou-se na beira da cama, alívio o percorrendo. Grazie a Dio. Ela ainda estava lá, então. Ele olhou para o criado-mudo. Lá estava o livro que Lottie estava lendo, juntamente com uma pulseira, alguma maquiagem, um batom. Pegando o último, Rafael sentiu-o entre os dedos, removendo a tampa e girando-o para revelar a cor vermelho vivo. Ela usara este batom na noite que eles haviam ido jantar fora. A mesma noite que tinham acabado fazendo sexo apaixonado no tapete de ginástica. Ele passou uma das mãos nos olhos diante da lembrança da maneira horrorosa que se comportara. Mas quando olhou para a cama desfeita, os lençóis emaranhados, soube que Lottie era como uma substância proibida para ele. Ela mexia com ele de um jeito que mulher alguma jamais mexera. Não sabia por que, e por mais que tivesse tentado entender, tentado negar, agora percebia que aquele era um fato irrefutável. Mas onde ela estava? O alívio inicial deu lugar à outra onda de ansiedade. Supondo que Lottie já tivesse feito o teste de gravidez e o resultado tivesse sido negativo. Ela fora a algum lugar para cuidar de suas feridas? Era por isso que tinha desaparecido? Rafael sabia o quanto Lottie queria esse bebê. Pensou em quando eles haviam discutido aquilo... quando ela tentara explicar sobre seu desejo profundo de ser mãe, sobre querer fazer certo todas as coisas que a mãe fizera errado. E como ele reagira? Com compaixão e compreensão? Ou mesmo com alívio por ela saber o que queria, por estar fazendo aquilo por si mesma, não como um favor para ele? Não, Rafael não reagira de nenhuma dessas formas. Ele a atacara com palavras, dizendo-lhe que também tinha sentimentos. Ainda podia ver a expressão de mágoa nos olhos azuis. O que ele não sabia era quando se tornara tão cretino. Indo para o corredor, verificou seu celular de novo, a fim de ver se ela respondera suas mensagens. Raiva começou a inundá-lo, empurrando a ansiedade de lado. Raiva era uma emoção muito mais confortável para ele.


Digitando o número de Lottie, praguejou quando o correio de voz atendeu. Ouviu-se gritando: – Onde diabos você está? – antes de guardar o telefone no bolso e sair no terraço. Olhando para o lago ensolarado, observou os barcos na água. Sem um plano específico em mente, começou a descer os degraus para a margem da água, parando com um sobressalto e com um disparo no coração. A lancha desaparecera. Medo o inundou, e centenas de diferentes cenários surgiram em sua mente, um pior que o outro. O que acontecera lá? O que o possuíra para deixá-la sozinha na noite anterior? Como, em nome de Deus, ele podia ter sido tão egoísta? Com pânico apertando sua garganta, ele desceu o resto dos degraus correndo, tirando o celular do bolso, acessando o número de sua equipe de segurança, já visualizando os pedidos de resgate, o perigo horrível em que Lottie podia estar. Uma buzina alta o fez olhar para cima. Uma lancha... sua lancha... estava vindo na sua direção, com Lottie ao leme, acenando casualmente. Que diabos...? Uma ansiedade nova, porém não menos urgente, envolveu Rafael; ela estava navegando rápido demais, usando apenas uma das mãos, e indo direto para os ancoradouros. – Diminua a velocidade! – Fazendo uma concha com as mãos nas laterais da boca, ele gritou sobre o barulho do motor. – Desligue o motor! O barco fez um ziguezague errático quando Lottie se inclinou para a frente, tentando ouvir o que ele estava dizendo. – Desligue o motor! Finalmente compreendendo, Lottie fez um sinal de positivo com o polegar, e o barulho do motor parou. Mas a velocidade anterior ainda estava carregando a lancha mais depressa do que deveria. – Para o lado! Ele podia vê-la claramente agora, as faces coradas pelo ar fresco, os cabelos loiros esvoaçando atrás dela. Pelo menos, ela estava com as duas mãos no leme agora. – Vire! – Indicando com movimento frenético dos braços, Rafael tentou mostrar-lhe o que fazer. – Vire o leme. Entre de lado! Houve o som de uma longa raspada, seguido por um delicado: – Ops...


Abaixando as mãos, Rafael viu sua lancha descansando agora, de maneira indigna, contra a extremidade do cais. E Lottie, vacilando tentava se levantar, calmamente se preparando para desembarcar. – Dio Mio! – Ele estava ao seu lado num segundo, estendendo um braço para ajudá-la a descer. – Você está machucada? – Não, é claro que não. – Recusando-se a fazer contato ocular, Lottie soltoulhe a mão no segundo que estava em terra seca. – Mas não tenho certeza quanto ao barco. Acho que pode estar um pouco arranhado... Quando ela virou-se a fim de olhar para a lancha, Rafe segurou-lhe o braço, girando-a de frente para si. – Eu não ligo a mínima para o barco. – Ele estudou-a, a voz rouca com imenso alívio. – O que você pensa que estava fazendo? Não tem ideia como dirige uma lancha. Poderia ter se matado. – Bem, eu não me matei. – Liberando seu cotovelo, Lottie o olhou em desafio. – E para sua informação, eu me saí muito bem até você começar a interferir. – Certo. – Rafael sustentou o olhar dela. – Então a culpa foi minha? Minha culpa que você estava indo em direção à margem a 100 quilômetros por hora? – Sim... sim, foi. – Ela não ia dar o braço a torcer. – Você me fez perder a concentração. – Bem, tudo que posso dizer é que eu fiz um bom trabalho. Sua “concentração” ia acabar levando-a para o fundo do lago... juntamente com uma pilha de fibras de vidro que uma vez tinham sido meu barco. – Não exagere. – Lottie virou-se para pegar sua bolsa do assento da lancha. – Aonde você foi, de qualquer maneira? – Comprar umas coisinhas. – Por que não atendeu aos meus telefonemas? Tirando o celular da bolsa, Lottie viu as sete chamadas perdidas. – Eu estava dirigindo, lembra? Certamente, você sabe que não se deve usar o telefone enquanto dirige? Ela ergueu as sobrancelhas para ele, consciente, mas não se importando que o estava irritando. – Então, onde estão suas compras? – Não que aquilo importasse. Mas, precisando da distração, Rafael olhou ao redor e não pôde ver uma única sacola.


– Aqui. Os olhos deles se encontraram sobre o saco da farmácia que Lottie vagarosamente tirou da bolsa, e o mundo pareceu parar. – Ah. Entendo. Silêncio se seguiu. – Você vai fazer o teste agora? – A voz de Rafael parecia vir de longa distância, os olhos fixos no saco de papel. Lottie assentiu. – Acho que sim. – Ela deu uma risada. – Agora é um momento tão bom quanto qualquer outro. Mais um breve silêncio. – Buono. Assumindo uma postura de homem de negócios agora, Rafael passou um braço em volta dos ombros dela. Mas Lottie recusou-se a responder. O clima subitamente desconcertante os separou. Rafael pigarreou. – Vamos fazer isso, então. RAFAEL ESTAVA parado junto à janela, de costas para ela, quando Lottie emergiu do banheiro. Ela segurava a vareta do teste a sua frente, como se fosse uma bomba, capaz de destruir as vidas deles. – Quanto tempo? – Virando-se, Rafael olhou para ela, então para a vareta, a voz trêmula traindo sua tensão. – Diz que até três minutos. Lottie mal podia falar. Sentando-se na cama, tentou regular a respiração... a respirar, na verdade. Sentia-se tonta, suas mãos tremiam e transpiravam, enquanto seguravam a bomba plástica do tempo. Atravessando para a cama, Rafael gentilmente tirou-lhe a vareta da mão e colocou-a sobre a mesa, com a parte onde se leria o resultado virada para baixo. Agachou-se na frente de Lottie, pegando-lhe as mãos nas suas, transmitindo sua força para ela. – Eu quero lhe dizer uma coisa, Lottie. Lottie não queria ouvir... não agora, não nunca, na verdade. Não podia encarar mais um trauma emocional. Esta espera estava ameaçando matá-la,


literalmente. Ela percebeu que não conseguia mais respirar, e o quarto começou a girar. – Lottie. – Sacudindo as mãos dela, Rafael parou seu ataque de pânico o bastante para fazê-la inalar e fitá-lo. – Eu quero agradecê-la por fazer isso. – Não há necessidade... – Sim, há. Independentemente do resultado, eu realmente apreciei o fato de que você estava disposta a tentar me dar minha última chance de ser pai. Por que ele estava falando assim? Como se já soubesse que o resultado seria negativo? Ele, que sempre estivera tão convencido que, desta vez, daria certo. Rafael sabia alguma coisa que ela não sabia? Lottie o encarou com medo nos olhos. – Eu sei que essa era a última coisa que você esperava quando eu lhe pedi para ir ao Palazzo Monterrato. Que pensou que tinha ido para assinar papéis de divórcio – murmurou ele. – E se não houver bebê, você irá, é claro, ter seu desejo realizado. Eu agilizarei o procedimento do divórcio imediatamente, e você terá sua liberdade. Mas, qualquer que seja o resultado, quero que saiba que tem minha gratidão sincera. Bem, graças ao pequeno discurso, Lottie agora se sentia muito pior. Enquanto estudava os olhos escuros, perguntava-se mais uma vez como tudo tinha dado tão errado. Como alguma coisa que começara com tanto amor, paixão, esperança e excitação acabara com ela sentada ali, na beira de uma cama, esperando para saber se estava grávida de um homem que não a amava, na esperança de ter um filho que eles nunca poderiam criar juntos. A última coisa que ela queria era a gratidão sincera dele, ou, pior ainda, sua liberdade. Subitamente, soube o que queria que ele dissesse, mais que qualquer coisa no mundo. Queria que Rafael dissesse que tudo daria certo... que, independentemente se ela estivesse grávida ou não, ele a amava, e isso bastava. Que eles poderiam construir um futuro juntos, ter uma vida feliz, envelhecer juntos. Lottie suspirou. O pensamento de que aquela vareta, a poucos centímetros de distância, continha, não apenas seu destino, mas também seu coração era quase mais do que ela podia suportar. Após seu discurso, Rafael liberou-lhe as mãos e se levantou. Então, olhando para seu relógio, arqueou as sobrancelhas para ela.


– Não. – As mãos de Lottie tremiam tanto que ela não conseguiria pegar a vareta nem se tentasse. Seu estômago estava se revolvendo de nervoso. – Eu não posso fazer isso. – Você quer que eu pegue? Lottie assentiu, olhando, como se em câmera lenta, quando ele estendia o braço para pegar a vareta de teste e a virava. Então, ela fechou os olhos com força. Por um segundo, não houve nada exceto silêncio. – Então? – ela ouviu sua voz irreconhecível fazer a pergunta. Ainda nada. Lottie abriu os olhos. Lá estava Rafael, ainda na sua frente, ainda segurando a vareta do teste. A expressão dele era... o quê? Neutra? Perplexa? Com uma onda de medo, Lottie subitamente percebeu que os olhos escuros continham o brilho de lágrimas. Oh, Deus. Oh, não. – Deu positivo, Lottie. – Ele olhou da vareta para o rosto incrédulo dela. – Nós vamos ter um bebê. O RESTAURANTE estava cheio, casais em todas as mesas, com velas, rosas e amor no ar. Quando eles foram levados à mesa por um garçom, Lottie percebeu que dia era... Dia dos Namorados. E apenas por esta noite, ela se permitiria mergulhar naquela atmosfera. Estava com o homem mais lindo do restaurante, provavelmente do planeta, como os olhares de diversas mulheres seguindo a entrada deles confirmavam, sentia-se eufórica de tanta felicidade, e estava grávida. Sim, definitivamente grávida. Os dois testes de gravidez que ela comprara tinham dado positivo, e um deles ainda estava em sua bolsa, como se jogá-lo fora pudesse torná-la não grávida novamente. Ela nunca vira Rafael deste jeito antes. Pura felicidade irradiava-se dele. Um estranho talvez não notasse a diferença... não era como se ele estivesse sorrindo de orelha à orelha, ou batendo nas costas das pessoas e comprando drinques para elas. Mas Lottie podia ver a felicidade de Rafael, e isso tornava tudo ainda mais especial.


Lottie abraçou a percepção de que ela era responsável pela mudança em Rafael. Poderia ter olhado para ele a noite inteira... ele estava tão maravilhoso. Mas, obviamente, não faria isso, porque seria estranho. Ademais, estava com fome... morrendo de fome, na verdade. Uma garrafa de champanhe rosé apareceu à mesa deles, e, após servir duas taças, Rafael ergueu a sua, esperando que Lottie fizesse o mesmo. – Buon San Valentino. – Obrigada. E Feliz Dia dos Namorados para você, também. – Eles bateram as taças, e Lottie olhou para a sua. – Mas talvez seja melhor eu não beber. – Tenho certeza que meia taça não vai fazer mal. Além disso, você tem de beber champanhe rosé no Dia dos Namorados. É a lei. – Verdade? – Dando um gole delicado, Lottie apreciou o sabor. Isto era felicidade... esta pequena cápsula onde eles estavam agora... ela, Rafael e o bebê iminente. Embora soubesse que as coisas seriam difíceis, que ela e Rafael enfrentariam todo tipo de desafios com o bebê e com o relacionamento deles, Lottie recusava-se a pensar sobre isso agora. Esta noite, ela se permitiria ser feliz sem questionamento, sem reservas. Levantando a cabeça, percebeu que Rafael a estudava intensamente. Ela olhou para baixo, por alguma razão, sentindo-se tímida, temendo que ele pudesse ler sua mente, mas ele estendeu o braço sobre a mesa e cobriu-lhe a mão com a sua. – O que você está pensando? – Nada. – Nada que ela iria lhe contar. – Feliz? – Sim. – Lottie o olhou, solenemente. – Você? – Mais do que você pode imaginar. Obrigado, Lottie. – Sem problemas. Eu não fiquei grávida sozinha, sabia? – Verdade. Suponho que devo ficar um pouco orgulhoso de mim mesmo, também. – Eu estava falando sobre dr. Oveisi. – Os olhos dela brilharam com travessura. – Isso é cruel, mocinha, e sabe disso. – Ele sorriu-lhe. – Agora, comece a ser boazinha comigo, e eu chamarei aquele violinista e o farei tocar para você a noite inteira.


– Não ouse. – Rafael sabia que ela achava aquele tipo de coisa muito embaraçosa. – De agora em diante, eu prometo ser doce e leve. Eles comeram alcachofras e linguado grelhado, compartilharam garfadas de comida e conversa agradável, o tempo inteiro, a química sexual entre eles fervendo, como sempre acontecia quando eles estavam juntos. Apenas que, desta vez, aconteceu de maneira livre, unindo-os cada vez mais. Eles sorriram um para o outro, brincaram e flertaram, deliciaram-se com sorvete de limão, antes de finalmente saírem de braços dados, a fim de voltarem para a lancha e para casa. – Aquecida o bastante? – O barco deslizava silenciosamente pela água e Rafael olhou para Lottie. – Sim, estou bem. – O ar noturno estava frio, mas ela estava usando o casaco de lã de Rafael, adorando o cheiro dele que vinha do tecido. – Olhe para todas essas estrelas. Inclinando a cabeça para trás, ela observou os milhares de estrelas no céu. Elas a faziam se sentir corajosa, de alguma maneira, como se o que eles estivessem fazendo fosse certo, parte do futuro, parte dos planos do universo. Voltando o olhar para a frente, ela percebeu que Rafael a estudava. – Ei... mantenha seus olhos na água. – Acho que você não está em posição de me dizer como dirigir esta lancha. – Sorrindo, Rafael continuou olhando-a. – A pobrezinha ainda tem as cicatrizes de sua pequena saída. Cicatrizes muito caras, devo acrescentar. – Sim, lamento sobre isso. Suponho que eu estava correndo um pouco demais. – Totalmente fora de controle, eu diria. Permita-me lhe mostrar como a ancoragem deve ser feita. – Ele desligou o motor, e a velocidade do barco diminuiu imediatamente. Rafael guiou-o para o ancoradouro com perfeição. – Exibido. Ele deu de ombros. Saltando da lancha, prendeu-a, então estendeu uma das mãos para Lottie. A noite tinha sido tão perfeita que ela percebeu que não queria que acabasse. Enquanto eles subiam os degraus para o terraço e entravam na casa, ela sentia como se estivesse num conto de fadas frágil... um que podia se transformar em abóboras e ratos a qualquer momento, se ela não fosse cuidadosa.


Uma vez do lado de dentro, Rafe removeu seu casaco dos ombros dela. – Uma bebida? – Uma xícara de chá seria bom. – Num minuto. Lottie sentou-se no peitoril da janela, olhando para o lago. Grávida. Mal podia acreditar. E instinto lhe dizia que, desta vez, tudo daria certo. Rafael retornou com uma bandeja, e, depois de colocar uma xícara de chá na frente de Lottie, serviu-se de uma dose de uísque e sentou-se ao seu lado no sofá. Lottie percebeu que ele tinha alguma coisa na outra mão. – Eu lhe comprei isto. – A voz dele era baixa, quase rouca, enquanto ele abria a mão para revelar uma pequena caixa de veludo azul. Lottie olhou da caixa para Rafael, os olhos inquisitivos. – Obrigada. – Surpresa, ela não sabia o que dizer. – Lamento, mas não tenho nada para você. Rafael franziu o cenho intrigado. – Por que você teria? – Esse é um presente de Dia dos Namorados? – Dificilmente! – Rafael meneou a cabeça. – Por acaso, eu os vi e achei que você gostaria deles. – Ele entregou-lhe a caixa. – Pense neles como uma lembrança da minha gratidão, se quiser. – Certo... – Gratidão era tudo que ela receberia. Abrindo a caixa, Lottie revelou um par de brincos de ouro e esmeralda, em formato de pequenas violetas, suas pétalas perfeitas e o centro roxo, onde uma pequena pepita de ouro estava aninhada. – São lindos! – Com um brinco em cada mão, Lottie ergueu-os a sua frente. – Que bom que você gostou. Eu achei a cor bonita... combina com seus olhos... – Eu adorei. Obrigada. – Você vai experimentá-los? – Sim, é claro. – Mas ele estava muito perto, observando-a muito intensamente, e, apesar de lutar com seus lóbulos, Lottie não conseguiu colocálos. – Eu preciso de um espelho. – Aqui... deixe-me fazer isso. – Rafael agachou-se na sua frente, pregou os brincos de sua mão e procedeu, muito delicadamente, a fixar primeiro um


depois o outro, em suas orelhas. Sentindo a respiração de Rafe soprar contra seu rosto, Lottie prendeu a respiração. – Pronto. – Trabalho feito, ele sentou-se sobre os calcanhares. Tocando seus lóbulos, Lottie o fitou. – Obrigada. Ela inclinou-se para a frente, pretendendo dar-lhe um beijo educado na face, mas ele impediu-a, capturando-lhe o rosto nas mãos. Eles se entreolharam. O coração dela disparou freneticamente. Por um segundo, nenhum dos dois se moveu, cada um tentando avaliar a reação do outro. Então, Lottie, percebendo que não tinha ideia do que se passava na cabeça do homem agachado a sua frente, desistiu. Ora, esta era a sua noite para fazer o que ela quisesse. E o que queria mais do que qualquer coisa era Rafael. Ao olhar para o lindo rosto, nunca se sentira mais certa de algo na vida. A alegria de saber que estava grávida com o bebê dele preenchia-a com felicidade e orgulho. Porém, havia mais uma coisa que poderia tornar o dia completamente perfeito. E estava diante de si agora. Unindo as mãos atrás do pescoço de Rafael, ela o puxou para mais perto. Rafael soltou-lhe o rosto, mas em vez de espelhar suas ações, ele baixou os braços em suas laterais. Sem desanimar, Lottie pressionou a boca contra a dele e entrelaçou os dedos nos cabelos escuros. Rafael ainda resistiu, mas quando ela abriu a boca, deslizou a língua entre os lábios dele, gentilmente pedindo entrada, sentiu a resistência evaporar, ele correspondeu ao beijo da única maneira que podia... com ardor e profunda paixão. O que enviou um tremor de puro desejo pelo corpo de Lottie. Passando os braços em volta dela, Rafael levantava-se, levando-a consigo, enquanto aprofundava o beijo. Pressionada contra ele, Lottie deleitou-se no calor do corpo poderoso, da sensação dos braços musculosos aprisionando-a contra o peito sólido, na evidência da excitação masculina contra sua pélvis. E esta noite, seria impossível resistir a isso. Como se ambos estivessem sob a mesma magia louca, começaram a puxar as roupas um do outro. Lottie abriu-lhe os botões da camisa, deslizando as mãos pelo peito largo, sentindo os mamilos masculinos enrijecerem sob seu toque. Removendo-lhe a camisa pelos ombros, ela desceu o zíper da calça dele e abaixou-a sobre os


quadris estreitos. A calça caiu em volta dos tornozelos de Rafe, revelando a cueca justa. Oh, sim! Ela deslizou a mão sobre o enorme membro ereto, e o sentiu pulsar sob seu toque. Rafael mexeu-se um pouquinho, removendo meias e calça e descartando-as. Então, voltou a atenção para Lottie, segurando-lhe os ombros e girando-a. Com dedos trêmulos, desceu o zíper traseiro do vestido, expondo a pele suave das costas, a bonita curva da cintura, o traseiro firme e arredondado sob a calcinha branca. Deixou o vestido escorregar para o chão e virou-a de frente para si. Ela estava tão sexy, parada ali, o queixo erguido em algum tipo de desafio, usando nada, exceto sutiã e calcinha, com um brilho violeta nos olhos que dizia: Eu o desafio a não me tomar... um desafio que Rafael já sabia que perdera. Dando um passo à frente, ele abaixou a cabeça para o nível dos seios dela, dando beijinhos leves sobre a carne acima do sutiã, antes de lamber o vale entre os seios. Lottie agarrou seus cabelos, puxando-o para mais perto, ondas de prazer percorriam seu corpo. Ela queria mais. Agora. Abrindo o fecho do sutiã, Rafael deixou-o cair no chão e segurou-lhe os seios, erguendo-os, de modo que pudesse tomar os mamilos na boca, seus dentes roçando os pequenos botões rígidos. Ele desceu a língua pelo peito dela, sentindo os músculos do estômago de Lottie se contraírem, antes de passar para o umbigo e chegar ao topo da calcinha. Levando uma das mãos para cada lado dos quadris dela, removeu-lhe a última peça de roupa e jogou-a de lado. Então, segurando-lhe os quadris, movimentouse até estar na posição perfeita para penetrá-la com a língua. Ela estava tão molhada. Rafael tivera apenas de tocá-la, iniciar o primeiro movimento do ato de amor, e o corpo de Lottie começara a gritar para que ele a tomasse. Agora, ela estava de pé ali, tão excitada que literalmente tremia, arqueando o corpo para aumentar a pressão de sua língua contra ela, a cabeça jogada para trás em abandono, os dedos enterrados em seus cabelos, enquanto ele a enlouquecia. Quando os primeiros espasmos do orgasmo começaram a percorrê-la, Lottie o sentiu parar, endireitar o corpo, tirar a cueca e pressionar a ereção contra sua barriga. – Não, cara... – A voz de Rafael era um sussurro sexy. – Ainda não.


Erguendo os pés dela do chão, ele atravessou os poucos passos para o sofá, deitando-a lá, pronto para lhe cobrir o corpo com o seu. Mas, posicionando-se de lado, Lottie abriu espaço para ele ao seu lado, antes de rapidamente colocar-se em cima dele. Queria fazer isso do seu jeito, desta vez. E ao fitar os olhos escuros, viu que Rafael não tinha intenção de impedi-la. Desejo voraz fluía entre eles. Como uma força incapaz de ser detida. Abrindo as pernas, ela segurou o sexo pulsante contra a umidade quente de seu desejo. Com um gemido baixo, sentiu Rafael começar a penetrá-la. Tremeu de modo erótico. Precisava dele em seu interior agora... dele inteiro, preenchendo-a completamente. E foi isso que aconteceu. Arfando, ela o comprimiu com seus músculos internos, deleitando-se na sensação e, imediatamente, começando a se mover. Encontrando-lhe as investidas com as suas próprias, Rafael aumentava o ritmo o tempo inteiro, juntamente com o êxtase total, até que ela estivesse perdida nesse êxtase, apenas cientes de suas palavras roucas. – Ainda não, cara, continue... você pode fazer isso... mais um pouco... mais um pouco. Finalmente, as palavras pararam quando ela tombou sobre ele, e o orgasmo violento abalou o corpo de Rafael, levando-a consigo para o topo do mundo... um lugar absolutamente incrível.


CAPÍTULO 10

QUANDO LOTTIE acordou na manhã seguinte, estava na cama de Rafael, com ele ao seu lado, apoiado sobre um cotovelo, fitando-a com aqueles lindos olhos castanhos. – Buongiorno. – Bom dia. – Ela aninhou-se contra ele, inclinando o rosto, o pequeno brinco de violeta enterrando na pele atrás da orelha. Tirando uma mecha de cabelo loiro dos olhos dela, Rafael deu um beijo leve em seus lábios. – Você dormiu bem? – Hummm... muito bem, obrigada. Levantando os braços, ela o empurrou de volta para baixo das cobertas, aconchegando seu corpo nu ao dele. Passar a noite na mesma cama que Rafael parecera tão certo. Especialmente depois do que eles tinham feito na noite anterior. – Como você está se sentindo esta manhã? – Apesar da pergunta inocente, ela podia sentir a tentação nele. – Grávida. – A palavra foi abafada contra a pele quente do pescoço de Rafael. Ela o sentiu tentar mudar de posição para ver seu rosto, mas resistiu, sorrindo sozinha naquele lugar feliz e sensual. – Verdade? – Ele descansou o queixo no topo da cabeça dela. – Você realmente se sente diferente? Diferente? A palavra era muito fraca para descrever a total mudança do estado mental de Lottie. Depois da tensão de estar aprisionada em Villa Varenna com


Rafael, a mágoa e raiva dos últimos dias, a terrível ansiedade do teste de gravidez, ela agora se sentia livre, relaxada, eufórica... como se, de repente, tudo fosse ficar bem. E, julgando pela sensação de Rafael ao seu lado agora, o humor completamente diferente que eles compartilhavam esta manhã, era igual para ele. – Não diferente desta maneira. – Lottie levantou a cabeça. – Eu disse que me sinto grávida, porque foi a primeira coisa que pensei quando acordei. – Ela sorriu. – A percepção de que isso é realmente verdade. Rafael fitou-a, os profundos olhos castanhos brilhando suavemente. – Eu sei. É incrível, não é? Sorprendente. Mas temos nove meses para nos acostumarmos com a ideia. – Sim. Nós não temos sorte? – Com certeza. – Por baixo das cobertas, ele encontrou-lhe a barriga reta e acariciou-a. Ela sabia que Rafael estava pensando no bebê, mas sua mente estava indo numa outra direção. – Acho que devemos nos levantar. – Tem razão. A mão de Rafael deslizou mais para baixo, até que ele encontrou o lugar que ela queria. Talvez, ele não estivesse pensando no bebê, afinal de contas. – Nós realmente precisamos voltar para o palazzo? – Lottie arqueou as costas, roçando os seios contra ele. – Não podemos ficar aqui para sempre? – Boa tentativa. – Ele tocou-a intimamente com um dedo. – Mas eu tenho uma pilha de trabalho me esperando. Sem mencionar um jantar beneficente para supervisionar – acrescentou, a voz se tornando gutural. – Hmmm, é melhor irmos então. – Levando sua própria mão para baixo das cobertas agora, ela observou quando os olhos dele se arregalaram. – Eu não poderia concordar mais, Contessa Revaldi. Segurando-lhe os ombros, Rafael deslizou para baixo dela, transferindo as mãos para os quadris delgados, de modo a posicioná-la em cima dele. – Mas antes, há um pequeno negócio aqui que precisa da minha atenção. – Entendo o que você quer dizer. – Lottie se contorceu. – E não tão pequeno assim... A VIAGEM de helicóptero de volta para o Palazzo Monterrato pareceu não levar tempo algum... o que era bom, considerando que a manhã deles na cama, de


alguma forma, se transformara na tarde, e já começava a escurecer quando Rafael aterrissou a máquina barulhenta no heliporto. Lottie observou quando ele removeu os fones de ouvido e cinto de segurança, então, virou-se para esperar que ela fizesse o mesmo. Era tolice, mas ela estava relutante em descer. Teria desejado que a jornada deles continuasse para sempre, que ficasse envolta na bolha de vidro de felicidade que compartilhara com seu piloto bonito. Mas aquilo acabara, e enquanto eles subiam o caminho de acesso para o palazzo, Rafael pigarreou, obviamente queria falar alguma coisa. – Então, sobre o jantar beneficente... – Ele olhava à frente enquanto andava ao seu lado. – Obviamente, eu quero que tudo saia perfeito... – Jantar beneficente? – Lottie virou-se para olhá-lo. – Que jantar beneficente? – Aquele sobre o qual lhe falei mais cedo. Lottie franziu o cenho. – Eu não lembro. Quando é? – Amanhã. – Amanhã? Aqui no palazzo? – É claro. Ela esperou, porém, mais nenhuma informação veio. – Então, o que você está dizendo? Que quer que eu não apareça no jantar? – Por que eu desejaria isso? – Eu não sei – respondeu Lottie, subitamente insegura. – O que eu gostaria era que você fizesse o papel de anfitriã. – Oh. – Ela detestava essas coisas, e o jeito frio que ele sugeria aquilo tornava a ideia ainda mais desagradável. – Tem certeza? As pessoas não acharão estranho... não terão a impressão errada sobre nós? – Eu não ligo o mínimo para o que as pessoas pensam. – O tom frio de Rafael passou a ser duro. – E eu disse fazer o papel, Lottie. Não é como se eu esperasse que você acreditasse nele. Apenas acho que seria apropriado tê-la ao meu lado pela noite. – Ele parou de modo abrupto do lado de fora da casa. – Especialmente considerando qual é a instituição de caridade. – E qual é essa instituição? – perguntou Lottie, usando o mesmo tom hostil dele. – A Fundação Seraphina.


– A Fundação Seraphina? – Os olhos de Lottie se arregalaram, e o coração dela se apertou ao ouvir o nome de sua filha. – Eu nem sabia da existência de tal fundação. – Bem, você não estava por aqui para saber, estava? – Ele deu-lhe um olhar fulminante. – A fundação levantou muito dinheiro para a terapia intensiva neonatal. – Isso é bom... Mas não lhe causava uma sensação boa. Quanto mais ela pensava sobre aquilo, mais ressentida e excluída se sentia. A instituição beneficente tinha o nome de sua filha, entretanto, ela nem soubera da existência da mesma. Era como se Seraphina lhe tivesse sido roubada por Rafael e sua equipe de contadores. Ela passou por Rafael e subiu os degraus para o palazzo. Estava sendo ridícula... sabia. Como podia se ressentir de algo que estava salvando as vidas de bebês prematuros? Dando-lhes a chance que Seraphina nunca tivera? Como Lottie podia ser tão egoísta? Assim que eles entraram, Rafael fechou a porta. – Imagino que você deva estar cansada. – Era uma afirmação... que certamente não buscava suavizar seu humor. – Eu preciso trabalhar agora, mas vou informar na cozinha que queremos comer alguma coisa. Onde você quer fazer sua refeição? O QUE havia neste lugar? Palazzo Monterrato? Parecia a Lottie que o lugar se recusava a deixá-la feliz, como se alguma coisa nos tijolos da construção enrijecesse toda vez que ela estava por perto. Estivera chovendo quando ela acordara naquela manhã, a água batendo contra as janelas fechadas. E ela estava de volta em “sua metade” do quarto enorme, sozinha na cama, novamente. Apenas que, desta vez, sentia-se mais sozinha do que sempre. Rafael não saíra de seu escritório pelo resto da noite, depois da conversa deles, abandonando-a com nada, exceto um jantar frio e um péssimo humor. Ela tentara não se chatear... tinha tomado um banho, levado seu livro para cama e se recostado contra os travesseiros, ainda desejando que ele batesse à porta, entrasse no quarto e deslizasse o corpo quente ao lado do seu. Um desejo em vão... como a luz acinzentada desta manhã mostrara. A cama ao seu lado ainda estava vazia,


seu livro no chão, onde caíra de suas mãos, e seu pescoço doía pela posição errada que ela adormecera. E hoje, teria de enfrentar aquele jantar horrível. Vestindo seu jeans, ela desceu os dois lances de escada para a cozinha, com a ideia de fazer um chá. Mas o lugar estava em plena atividade, o staff na agitação da preparação para a noite, e Lottie foi educadamente informada que seu café da manhã seria levado para onde ela quisesse tomá-lo. Uma hora depois, seu humor ainda não melhorara, e ela decidiu compartilhálo. Batendo à porta do escritório de Rafael, entrou sem esperar resposta. – Sì, verremo più tardi. – Ele ergueu os olhos de sua conversa ao telefone, não contente pela interrupção, julgando pela carranca. – Sì... ciao. – Terminando a ligação, murmurou: – Lottie. Posso ajudá-la? – Na verdade, pode. – Ela queria dizer que ele poderia ajudá-la contando por que ele não fora para sua cama, por que ela tivera de dormir sozinha, novamente. Mas não lhe daria essa satisfação. Em vez disso, abordou o rancor mais seguro. – Você pode me dizer por que abriu uma fundação no nome de Seraphina sem me contar. Rafael suspirou. – Não isso de novo. Eu não sabia que precisava da sua permissão. – Pois precisava... Bem, não da minha permissão, mas poderia ter perguntado... ou pelo menos, me contado o que estava fazendo. – E isso teria feito alguma diferença? – Sim, teria. Se eu soubesse, poderia ter participado. Talvez, levantado algum fundo na Inglaterra. Rafael bufou em zombaria. – Por acaso, você conhece muitos benfeitores ricos? Lottie o olhou, furiosamente. – Conheço, na verdade. O mundo da arte é cheio de pessoas com mais dinheiro do que podem gastar. Com certeza, eu teria conseguido doações substanciais... isso se você tivesse feito a cortesia de me contar. – E o que você teria de fazer para conseguir essas doações substanciais? A insinuação desprezível de Rafael fez seu sangue ferver nas veias.


– Certamente, não o que você está sugerindo. Por que acha que a única maneira que eu posso atuar no mundo é dormindo com homens ricos? – Porque eu sou homem, Lottie, e sei como a mente deles funciona. – Bem, você não sabe como a minha funciona. – Isso é verdade. – Pressionando os dedos nas têmporas, Rafael recostou-se na cadeira, a expressão amarga mostrando que ele não estava concordando com ela... mas apenas reconhecendo o desastre do casamento deles. Sentando-se ereto novamente, ele a encarou. – Se você quer contribuir para a Fundação Seraphina, sugiro que comece sendo a anfitriã perfeita, esta noite. Tenho certeza que você pode ser charmosa quando é por uma boa causa. Pessoas pagaram muito dinheiro por este evento, e nosso trabalho será persuadi-los a doarem mais. Lottie fez uma careta. Ele praticamente lhe dissera para ir se arrumar e ficar bonita. Bem, ela não seria dispensada tão facilmente. Puxando uma cadeira, sentou-se do outro lado da mesa. – Então, conte-me sobre a Fundação Seraphina. Há quanto tempo existe? Rafael suspirou. – Aproximadamente dois anos. – Você a começou logo depois que eu... – Lottie hesitou, mas então terminou: – Depois que eu parti? – Sim. – O olhar de Rafael dizia que ele não tinha intenção de aliviar seu desconforto. – E quando dinheiro a fundação já levantou? – Eu não sei os números exatos de cor. Lottie ficou em silêncio, esperando, e ele acrescentou: – É uma soma considerável. Pessoas podem ser muito generosas com um pouco de persuasão. – E para onde o dinheiro foi? Quero dizer, para unidades neonatais do principado, ou apenas para um hospital em particular? – Originalmente, era para Ospedale D’Aosta, mas agora que o projeto foi completado, nós pretendemos continuar. Há muitos outros hospitais cujas unidades neonatais precisam desesperadamente de dinheiro para atualizar seus equipamentos e instalações, e atrair os melhores especialistas nesta área. Ele parou abruptamente, como se Lottie o tivesse forçado a falar sobre aquilo.


– Agora, se me der licença, eu tenho muito trabalho a fazer. – Rafael olhou para seu computador. – Se você precisa de mais informações, sugiro que olhe no site. Lottie ficou tentada a lhe dizer o que fazer com a sugestão. Mas havia alguma coisa na tensão dos ombros dele, na voz levemente instável, que a deteve. Ela percebeu que ele não estava dispensando-a, somente porque ela o irritava... embora isso fosse, sem dúvida, verdade... mas porque aquele era um assunto doloroso para Rafael... e ele não queria que Lottie visse sua vulnerabilidade. Bem, que pena. – Então, Ospedale D’Aosta tem todos os equipamentos modernos agora? Apenas falar o nome do lugar doía. Era o hospital onde Seraphina tinha nascido... e morrido tão pouco tempo depois. – Isso será útil se eu entrar em trabalho de parto prematuro novamente. Rafael levantou a cabeça, uma expressão tão ultrajada no rosto que ela desejou que pudesse retirar as palavras. – Isso não vai acontecer! Você ouviu o que dr. Oveisi disse. Que, apesar do acidente... do que aconteceu... você não corre mais risco de parto prematuro do que qualquer outra pessoa. Não há razão para que não complete os nove meses, desta vez. – Eu sei... sei disso, Rafe. Lottie observou que ele lutava contra o impulso de falar mais. Sabia que seu comentário tinha sido tolo, mas nunca esperara uma reação assim de Rafael. Aquela resposta emocional viera diretamente do coração dele, de um lugar tão enterrado que ela começara a pensar que não existia. – Eu tenho certeza que, desta vez, tudo dará certo – murmurou Lottie com um nó de emoção na garganta. – Não é como se a mesma coisa pudesse acontecer de novo. – Não – confirmou Rafael. – Nós podemos ter certeza disso. A corrente catastrófica de eventos que mudara as vidas deles tão dramaticamente começara num dia de verão, quando Rafael saíra para o estábulo, a fim de cumprimentar um cavalo recém-chegado. Lottie havia ido com ele... apenas porque estava um lindo dia de verão. Houve uma época quando o estábulo de Monterrato estivera repleto de cavalos ferozes. Outra das diversões de adrenalina de Rafael. Ele adorara o


desafio de treinar aqueles animais selvagens imprevisíveis. Tinha uma paciência infinita com eles, e respeito também, saboreando a excitação de ganhar a confiança deles, vendo os medos dos cavalos diminuírem, e, por fim, sendo capaz de montá-los. Naquela noite em particular, o enorme garanhão preto, chamado Abraxas, chegara. Permanecendo a certa distância, Lottie ouvira o barulho furioso de cascos de dentro do veículo que transportava cavalos, embora estivesse obedecendo às instruções de Rafe para “ficar longe”, e assistira ao animal magnífico pular e levantar-se sobre as patas traseiras na rampa de madeira. O que aconteceu depois foi pouco mais do que um borrão. Com um movimento violento da cabeça, Abraxas conseguiu se libertar das rédeas seguradas por Rafael, e saiu galopando loucamente na direção de Lottie. A próxima coisa que ela soube, estava curvada no chão, segurando sua barriga grávida, ciente de que alguma coisa ruim... muito ruim... acontecera. Agora, alguns anos tinham se passado e o estábulo estava vazio e negligenciado. Todavia, enquanto Rafael e Lottie se entreolhavam, no escritório silencioso, era claro que a memória daquela noite horrível estava na mente de ambos. A viagem de helicóptero para o hospital... o pânico e a dor do parto... Rafael ia de um lado para o outro em corredores, impotência dando combustível para sua raiva, enquanto ele tentava fazer alguma coisa... qualquer coisa... para acabar com a agonia de Lottie, para que o bebê nascesse seguramente, para salvar a vida dos dois. E depois, quando a vida de Lottie estivera fora de perigo, e a filhinha frágil deles lutava pela sua, seu alívio inicial se transformara em desespero quando lhe informaram que eles não tinham o equipamento especial para salvar sua filha... a única esperança de sobrevivência para o bebê seria uma transferência para outro hospital. Rafael gritara ordens ao telefone, insistindo que a levaria em seu helicóptero... ele quase tivera de ser fisicamente refreado de abraçar a pequena Seraphina contra seu peito e sair com ela para a noite. Mas no final, ela provara ser muito pequena, muito fraca, e falecera antes que Rafael pudesse fazer alguma coisa sobre aquilo. Levantando-se, Lottie rodeou a mesa em direção a ele. Queria tanto ser abraçada por ele, confortada, poder confortá-lo. Ansiava para que eles


finalmente fossem capazes de compartilhar sua dor, em vez permitir que essa dor os distanciasse, como sempre acontecera. Mas Rafael estava de pé antes que ela pudesse alcançá-lo, os braços cruzados contra o peito, a expressão sombria. – Você precisa ir agora. Eu tenho telefonemas a dar. – Por que você faz isso, Rafe? – Ela o encarou, determinada a não desistir. – Por que você me rejeita e se fecha toda vez que Seraphina é mencionada? – Eu não sei do que você está falando. – Sim, sabe. Você sabe exatamente do que eu estou falando. Está fazendo isso agora... olhe para si mesmo! – Lottie deu um passou atrás, gesticulando para ele. – Está praticamente ordenando que eu saia da sala. – Eu não tenho tempo para isso, Lottie. – É isso, não é? Você nunca tem tempo para falar sobre Seraphina, sobre como a morte dela nos afetou. Como nós poderemos seguir em frente, quando você se recusa a discutir o assunto? – Não há nada para discutir. Aconteceu. É um fato. E nenhuma quantidade de conversa vai mudar isso. – E não falar sobre o fato não fará com que este desapareça. – Ela observou quando os olhos dele escureceram. – Por que você não tenta, Rafe? Tenta se abrir? Com certeza, será melhor do que... este abismo gelado de silêncio. – Abaixando o tom de voz, Lottie lutou contra as lágrimas. – Por que não pode compartilhar seus sentimentos comigo? Dando diversos passos até a janela, Rafael parou e virou-se para olhá-la, o rosto, uma máscara de agonia. – Acredite... você não desejaria compartilhar meus sentimentos. – O que quer dizer com isso? – Que você realmente não quereria estar na minha cabeça no que diz respeito a Seraphina. – Como pode dizer isso? – Lottie estava atônita. – Por favor, Rafe, eu estou implorando, seja honesto comigo. Pare de me fechar do lado de fora. – Certo. – Marchando de volta para a mesa, ele bateu a palma da mão na superfície, enviando um olhar fulminante para Lottie. – Você pediu, Lottie. Diz que quer saber meus sentimentos... então, aqui estão eles. – Respirando fundo, ele inclinou a cabeça para trás, cerrando as mãos em suas laterais. – Eu sinto a


perda de Seraphina cada dia da minha vida. Sinto raiva, tristeza, amargura e frustração. Mas, acima de tudo, sinto culpa. Uma culpa profunda que estará comigo até o dia de minha morte. Eles se entreolharam em terrível silêncio. – Pronto... era isso que você queria ouvir? Está feliz agora? Lottie segurou a extremidade da mesa para se firmar contra uma onda de tontura. – Mas foi um acidente trágico... você precisa aceitar isso. Ninguém teve culpa. Levantando a mão, Rafael a silenciou. – Como posso aceitar isso, quando fui eu quem trouxe o maldito cavalo para o palazzo? Que deveria ser responsável por controlá-lo? Fui eu quem levou você para o hospital errado... que não consegui transferir Seraphina rapidamente o bastante. – O sofrimento nas palavras dele contorcia o rosto bonito. – Preciso continuar? – Pare com isso, Rafe, você está sendo ridículo. Não foi culpa sua. Não foi culpa de ninguém. Ninguém poderia ter previsto que aquilo aconteceria. – Ela estendeu o braço para tocá-lo, querendo aliviar o sofrimento dele, mas Rafael esquivou-se do toque. – Eu sou culpado, Lottie. Sou responsável pela morte de Seraphina. E nada que você diga irá mudar isso. O GRANDE salão de bailes brilhava para a ocasião, seus enormes candelabros reluzindo acima das cabeças dos convidados, que estavam sentados ao redor de dúzias de mesas. Garçons circulavam entre eles, servindo os mais finos vinhos de Monterrato e prato após prato de comida deliciosa. Nos fundos, imensos arranjos florais alinhavam as paredes, e um pianista tocava música clássica. E, sentados lado a lado, à mesa do topo, estavam o anfitrião e a anfitriã. Lottie achou que a noite nunca acabaria. Ela estava se esforçando, realmente se esforçando para manter a fachada, quando, durante o tempo inteiro, tudo que podia pensar era sobre a conversa que tivera com Rafael, mais cedo. As palavras dele giravam em sua cabeça. Ela ficara perplexa pela confissão amarga de Rafael de que ele se sentia responsável pela morte de Seraphina, que estava consumido de culpa pelo que acontecera. Por que ela nunca percebera isso antes? Mas então, por que teria


percebido? Ele sempre se recusara a discutir qualquer coisa que tivesse a ver com Seraphina. E, julgando pelo jeito que ele a dispensara de seu escritório, arrependia-se de sua confissão, agora. Lottie tentava cumprir seu papel, fazer seu dever... ficando ao lado de Rafael, em seu lindo vestido longo, enquanto eles cumprimentavam os convidados, apertando infinitas mãos, dando beijinhos no ar em rostos exageradamente perfumados, sorrindo com educação. Podia sentir, nos olhares, nos cochichos discretos, a especulação das pessoas sobre a súbita reaparição da Condessa. Bem, quem teria previsto isso? Lottie olhou para os convidados em volta da mesa deles, agora: um político famoso, um embaixador italiano, um banqueiro bilionário e suas esposas imaculadas. Desejava que todos fossem embora. As esposas logo tinham perdido o interesse nela, concentrando-se no lindo conde, competindo pela atenção dele cada vez menos sutilmente, conforme a noite passava e o efeito do álcool aumentava. A esposa do banqueiro, Eleanora, parecia particularmente determinada a jogar seu charme para Rafael, inclinando-se para tocar a mão dele, sussurrar em seu ouvido, certificando-lhe de lhe dar uma boa vista de seu decote. Lottie a detestou silenciosamente... detestava todas elas, enquanto as observava flertando com seu marido. Porém, acima de tudo, detestou a si mesma por se importar, por permitir que seu monstro interior apontasse que Rafael deveria ter se casado com uma daquelas mulheres ricas e glamorosas. Como Lottie poderia ter competido com elas? O casamento deles estivera condenado desde o começo. Para piorar as coisas, Rafael estava particularmente maravilhoso esta noite, num terno escuro e gravata borboleta preta. Mas não eram apenas as roupas; era o magnetismo dele, o sex appeal sob a camisa branca impecável que fazia todas as mulheres na sala olharem em sua direção. Ele tinha sido muito educado com ela, durante a noite toda, mas Lottie podia sentir a reserva fria, a barreira impenetrável entre eles. Finalmente, a noite acabou e os convidados foram embora em suas limusines dirigidas por motoristas. Ela queria encontrar Rafael, conversar mais com ele, fazê-lo ver que nada daquilo tinha sido culpa dele. Encontrou-o nos fundos do salão de bailes, agradecendo os membros do staff, chamando cada um deles pelo nome, e dispensando-os. Lottie observou da porta


quando, sozinho agora, ele puxou uma das cadeiras da sala de jantar e sentava-se pesadamente, estendendo as pernas e colocando as mãos atrás da cabeça, enquanto se recostava. – Rafe? Instantaneamente, sentando-se ereto, ele virou-se para olhá-la. – Lottie. Eu pensei que você tivesse ido dormir. – Ainda não. – Aproximando-se, Lottie sentou-se ao lado dele. – Eu achei que a noite transcorreu bem. – Sim... muito bem. Obrigado por ter participado. Eu sei que você não acha essas coisas fáceis. Lottie irritou-se. Por que ele estava lhe agradecendo, como se ela fosse apenas outro membro do staff? E o que queria dizer com “ela não achar aquilo fácil”? Ela parecera tão desajeitada como se sentira? Sentando-se muito ereta, Lottie escondeu-se atrás de uma máscara de dignidade. – Bem, eu espero ter me comportado de maneira apropriada. – Quando Rafael voltou os olhos escuros na sua direção, Lottie acrescentou: – Obviamente, eu quero fazer tudo que puder para ajudar a Fundação Seraphina. Agora que eu sei que ela existe, isto é. – Sim, é claro. – Ele ignorou a farpa. – Foi um desempenho digno. Desempenho digno? Calor inundou o corpo de Lottie diante do comentário zombeteiro e arrogante. Respirando fundo para se acalmar, ela sentiu o corpete de seu vestido se apertar, impulsionando os seios para a frente. Rafael desviou o olhar. – E como você descreveria o seu desempenho, então? – perguntou ela. Ele voltou a olhá-la. – Eu fiz o que tinha de fazer. – Oh, certo. Você estava se deleitando na atenção daquelas mulheres bajuladoras, não estava? Por que não admite que adorou cada minuto daquilo? A horrível Eleanora estava praticamente entrando na sua calça, e você não fez nada para impedi-la. Ele deu de ombros, e Lottie enterrou as unhas nas palmas. Sem pronunciar uma única palavra, Rafael conseguira transmitir não apenas desrespeito por sua


opinião, como também o desprezo pelos seus sentimentos. As observações dela tinham sido tão insignificantes que não eram dignas de uma resposta. Lottie ainda estava lutando com o silêncio, com uma raiva impotente, censurando-se por ter deixado o ciúme ridículo escapar, quando ouviu Rafael se levantando, murmurando alguma coisa em italiano. – Ouça, Lottie, por que nós não concordamos que demos o melhor de nós, que a noite foi um sucesso, e encerramos o assunto? Agora, está tarde e você precisa ir dormir. É importante que não fique cansada demais. Lottie o olhou com fúria. Era importante que ela não se estressasse demais, também. Mas ele parecia não se importar com isso. – E presumo que eu irei para cama, sozinha? As palavras escaparam antes que ela pudesse detê-las. Já sabia que Rafael não iria para sua cama, esta noite. Ele deixara isso perfeitamente claro, sem a necessidade de palavras. Por que ela estava se humilhando com a pergunta tola? Mas o choque de sua pergunta foi totalmente encoberto pela devastação da resposta de Rafael. – Sim. Eu pretendia conversar com você sobre isso. Obviamente, irá precisar de seu próprio espaço no palazzo. Eu pedi para que uma suíte de cômodos na ala sul ficasse disponível para você. Suas coisas serão transferidas para lá amanhã. A raiva de Lottie foi substituída por uma emoção muito pior. Como uma gigante onda de tristeza, a emoção a inundou, fazendo-a se sentir fraca, ofegante e sozinha... terrivelmente sozinha. Então, era assim que seria. Esta era a visão de Rafael para o futuro deles. Ela ficaria trancada pela duração da gravidez... exilada na ala sul. E depois que o bebê nascesse? Quem sabia o que ele tinha planejado? Presumivelmente, algo ainda mais horrível. Uma ilha em algum lugar tão remoto que ele seria capaz de fingir que ela não existia, em absoluto? Lottie ergueu os olhos tão pesados de tristeza que mal conseguiu fitá-lo, tentando desesperadamente encontrar alguma coisa na máscara do rosto dele, nos olhos pretos frios, que pudesse confortá-la. Mas não havia nada. Apenas o pulsar de um músculo sob a cicatriz da face. – A ala sul, você diz? – A voz dela não passou de um sussurro. – Isso mesmo. Achei que assim seria melhor. – Melhor para quem, exatamente?


– Para você... para nós dois. Acho importante estabelecermos as regras desde o começo. De modo que ambos saibamos nossas posições. – Oh, eu acho que você fez isso, Rafael. – Lottie mordeu o lábio para tentar impedi-lo de tremer. – Fique tranquilo. Eu sei exatamente qual é a minha posição. Levantando-se, ela virou-se e saiu praticamente correndo da sala.


CAPÍTULO 11

LOTTIE ABRIU os olhos para a realidade fria de um novo dia. Entrando no banheiro, ela lavou o rosto e secou-o, antes de retornar ao quarto e olhar a sua volta. Tinha tomado sua decisão e estava estranhamente calma. Iria embora. Deixaria Monterrato e deixaria Rafael. E, desta vez, não haveria volta. Ela passara a noite refletindo. Olhando para cada aspecto do relacionamento deles, tentando analisá-los. E quanto mais pensava, mais óbvio tudo se tornava. Rafael a queria para uma única coisa. Para que ela lhe desse um herdeiro. Lottie soubera disso desde o começo, mas, de alguma maneira, a verdade se perdera ao longo do caminho, obscurecida pelas noções fantasiosas se desenvolvendo, levando-a a pensar que, talvez, ele tivesse alguns sentimentos por ela, que, talvez, houvesse uma chance de eles se reunirem como um casal. Todavia, na noite anterior, tais noções tinham sido cruelmente esmagadas. A visão de Rafael para o futuro não deixava espaço para ideias tolas sobre famílias felizes. E a verdade doía... muito. Era uma agonia que nunca passaria. Mas Lottie sabia que tinha de usar essa dor para lhe dar forças para partir agora. Porque força era a única linguagem que Rafael entendia... a única forma de lutar com ele. Se ela mostrasse alguma fraqueza, permitindo que ele visse seus verdadeiros sentimentos, ele os usaria, torcendo-os para sua própria vantagem, assegurando-se de que ela nunca se livrasse dele. Lottie precisava ser forte... por si mesma e pelo bebê. Rafael sempre seria o pai do bebê, é claro, mas isso não lhe dava o direito de destruir o resto de sua vida. Porque era isso que aconteceria, se ela continuasse lá. Nada mais do que meia-vida, constantemente


atormentada pelo amor que sentia por ele... um amor que Rafael nunca retornaria. Andando em volta do quarto, Lottie reuniu seus pertences, colocando-os em sua mala. Pegando o vestido de seda que usara no jantar da noite anterior, levouo para o armário e pendurou-o juntamente com os outros vestidos que nunca mais usaria. Teve um vislumbre de seu reflexo ao fechar a porta, chocada por um momento pelo que viu: as olheiras profundas, a palidez não característica de sua pele. Sim, isso era o que Rafael Revaldi fizera com ela. Erguendo o queixo, Lottie tentou uma postura desafiadora... praticando como queria estar quando contasse a Rafael sobre sua decisão. Só de pensar em confrontá-lo lhe causara tontura, mas isso tinha de ser feito, e tinha de ser feito agora. Enquanto ainda lhe restavam forças. Descendo a escadaria, Lottie tentou ouvir a voz de Rafael em algum lugar do palazzo, mas os únicos sons vinham do salão de bailes, onde a operação limpeza estava obviamente em progresso. Ele não estava no escritório, ou na sala de jantar, nem no grande salão ou no salão de bailes. Ansiosa, Lottie apressou-se para o lado de fora da casa. Desceu os degraus, rodeou para os fundos do palazzo, procurando-o por toda a parte, ficando cada vez mais frenética ao não ver sinal dele. Onde ele estava? Ela podia sentir pânico começando a inundá-la, apertando seu peito, dificultando sua respiração. Encontrando-se na extremidade do bosque, Lottie parou e respirou fundo. Uma brisa tinha aumentado de velocidade e jogou mechas de cabelo no seu rosto, embaçando sua visão. Ela iria para o cemitério. Iria ver Seraphina... tirar alguns minutos para se acalmar, reunir suas forças. Tremia enquanto andava pelo bosque em direção à capela. O sol fraco que se infiltrava pelas árvores não oferecia calor algum. Finalmente, chegando ao túmulo de Seraphina, ela tombou contra o anjo fiel, sentindo o frio do mármore penetrar seus ossos. Não sabia por quanto tempo ficou inclinada ali, antes que um barulho súbito fizesse seu coração disparar. – Lottie! – De repente, Rafael apareceu no nada, correndo na sua direção. – O que você está fazendo aqui?


Lottie endireitou o corpo, sentindo um misto de raiva, medo, e, acima de tudo, dor diante da visão dele. – Eu vim passar um tempo no túmulo de nossa filha. – Ela ergueu o queixo. – Não que isso seja da sua conta. – Seu comportamento irresponsável é da minha conta. – Ele soava furioso. – Per l’amor di Dio, você nem sequer vestiu um casaco. O que está tentando fazer? Ficar doente? Antes que ela pudesse responder, ele estava ao seu lado, removendo a jaqueta e colocando-a sobre os ombros dela. – Dio, você está congelando... venha aqui. – Rafael pressionou-a contra seu peito, passando braços fortes ao seu redor, esfregando-lhe as costas para aquecêla. – Solte-me. – A voz de Lottie foi abafada contra a camisa dele, e ela contorceu-se para se libertar, indo para o outro lado do túmulo de Seraphina, de onde o olhou com raiva. – Deixe-me em paz. Rafael estudou-a mistificado. – O que há com você? – Então, quando um pensamento horrível ocorreu-lhe, acrescentou: – Está tudo bem? – Sim. – Lottie sustentou o olhar dele. – Se você se refere ao bebê, tudo está bem. Alívio inundou os olhos de Rafael, mas segundos depois, eles escureceram de novo. – O que houve, então? O que você está fazendo aqui? Por que está se comportando dessa maneira? – Posso me comportar como eu quiser. – Não, não pode. Não se isso põe meu filho ou filha em risco. – A voz dele era fria. – No que diz respeito a proteger a vida de meu bebê, você fará exatamente como eu digo. – Oh, você acha mesmo? – desafiou Lottie também raivosa. – Bem, é aí que se engana. Na verdade, eu estava procurando você. – A expressão de aviso nos olhos de Rafael ameaçou roubar-lhe a coragem, mas ela continuou: – Para informá-lo que vou voltar para casa... para a Inglaterra. – Ela podia sentir seu coração batendo freneticamente diante da enormidade do que estava dizendo. – Para sempre.


Houve um momento de silêncio, pontuado por um único grasno de um corvo acima. – Não. Você não vai. – A voz de Rafael era perigosamente baixa, os olhos queimando com fogo. – Sim. – Lottie endireitou mais os ombros, tremendo sob a jaqueta dele. – Eu estou decidida. – Eu posso lhe assegurar, Charlotte, que você não vai fazer uma coisa dessas – disse ele com firmeza. – Você não pode me impedir, Rafael. Eu voltarei para a Inglaterra, terei meu bebê lá e... – Charlotte, se você pensa, por um segundo, que eu a deixarei sair do país, levar meu bebê embora, então está muito enganada. – Ele arfou de maneira zangada. – Do que se trata tudo isso, de qualquer forma? O que está acontecendo? – Eu lhe disse o que está acontecendo. Tomei minha decisão e voltarei para a Inglaterra. Rafael meneou a cabeça, fúria diminuindo o movimento. – E eu estou dizendo que você não vai fazer isso. Não sei o que a levou a tomar tal decisão, mas pode parar com esta bobagem agora mesmo. Meu bebê vai nascer aqui e ser criado aqui... pelo pai... no Palazzo Monterrato. Ele hesitou, antes de prosseguir: – Você fugiu uma vez, e tenho certeza que é capaz de fazer isso novamente. Se escolher partir depois que o bebê nascer, então, que assim seja. Mas o bebê ficará aqui. E por enquanto, você não irá a lugar algum. Lottie lutou para controlar as lágrimas de ira e desespero. As palavras dele eram como apunhaladas em sua carne. Se ela quisesse provas dos sentimentos de Rafael por ela, então lá estavam. Se escolher partir depois que o bebê nascer, então, que assim seja. Ela não significava nada para ele. Sem o bebê, ela nem precisava existir. Reprimindo a dor dilacerante, Lottie o rodeou, usando sua raiva para mascarar a agonia. – Tenho certeza de que você adoraria isso – atacou ela. – Depois que o bebê nascer, tudo que você mais quer é que eu desapareça completamente. Rafael a encarou.


– Do que você está falando? – Estou falando sobre você... sobre mim... da ideia ridícula de que algum dia poderíamos viver juntos, ter algum tipo de relacionamento, com ou sem bebê. – Ouça... – Fazendo um esforço visível agora, Rafael abaixou o tom de voz, aproximou-se devagar, como se estivesse lidando com um de seus cavalos ferozes. – Não sei do que se trata isso, mas talvez, se você se acalmasse... Ele estendeu o braço na sua direção, mas ela bateu neste com força. – Trata-se do fato de que eu não significo nada para você... absolutamente nada! Não passo de uma espécie de mãe de aluguel... pior que isso. Porque você não pode apenas me pagar e esquecer sobre mim. Em vez disso, precisa me trancar numa ala isolada do palazzo. Mas eu sou sua última, sua única chance de proporcionar um herdeiro para Monterrato, e você me odeia por isso. Nem tente negar. Ela respirou fundo e continuou rapidamente, negando a Rafael qualquer tipo de resposta: – Se não fosse pelo seu acidente, você teria se livrado de mim para sempre. Teria continuado com seu estilo de vida de solteiro por quanto tempo quisesse, até, finalmente, escolher uma mãe adequada para seus filhos preciosos... uma mulher sofisticada e afetada, como uma daquelas que o bajularam ontem à noite. Rafael balançou a cabeça, olhando-a. – Então é isso? Este comportamento ridículo? – acusou ele. – Uma rivalidade patética com as mulheres no jantar de ontem? Talvez, você devesse tomar cuidado, Lottie. – A voz de Rafael era, de súbito, assustadoramente suave. – Nós não queremos interpretar essa pequena explosão como um acesso de ciúme, queremos? Não queremos nos enganar ao pensar que você se importa. Sabemos que não. Talvez, eu deva relembrá-la que as mulheres que levo para cama... – Pare! – Com um grito agudo, Lottie tampou as orelhas. – Eu não quero ouvir mais. – Não são da sua conta – terminou ele. – Você me abandonou... lembra? As palavras de Rafael pairaram através do grande abismo de mal-entendido e dor que destruíra suas vidas. – Isso não é algo que eu poderia esquecer. – As palavras de Lottie mal foram audíveis.


Aquela mentira... aquela mentira horrível. Eu não amo você, Rafael, e nunca o amei. Faladas num momento de pânico, e aceitas como um fato brutal e irrevogável. – Bem, somos dois. – Ele bufou em zombaria. – Você me enganou, Lottie, eu lhe dou esse crédito. Eu não tinha a menor ideia de que aquilo aconteceria. Idiota como eu era, pensei que ficaríamos juntos para sempre. E, durante o tempo inteiro, eu não significava nada para você, que estava desesperada para se livrar de mim. Quando finalmente confessou que não me amava... – Ele parou, engolindo em seco visivelmente. – Se você quer a verdade, eu lhe contarei. Fiquei destruído, Lottie, totalmente destruído. Isso era mais do que Lottie podia suportar. Vendo o sofrimento contorcendo o lindo rosto de Rafael, sentiu-se compelida a confessar: – Eu menti. – Chiedo scusa? Perdão? – Eu menti, Rafe. Quando disse que não o amava. – Sì, certo... é claro que mentiu. Eu estava lá, Lottie, ouvi suas palavras, vi a expressão nos seus olhos enquanto você as falava. – Eu menti... porque sabia que era o único jeito de você me deixar ir. – Che diavolo? – protestou Rafael. – Se esse é algum jeito torto de tentar fazer eu me sentir melhor, então não se incomode. – Você estava falando sobre dizer a verdade... bem, esta é a minha verdade. Eu disse o que disse para seu benefício, de modo que você pudesse se livrar de mim. – Quanta gentileza – ironizou Rafael. – E por que eu desejaria me livrar de você? – Porque nosso casamento estava horrível... nada além de infinitas viagens a clínicas de fertilidade e tentativas fracassadas de FIV. Porque eu não via motivo para que a morte de Seraphina arruinasse nossas vidas. – Lottie respirou fundo. – Pensei que, se eu partisse, poderia levar a dor da morte de Seraphina comigo. Que você ficaria melhor sem mim. Fúria contorceu as feições de Rafael. – Não ouse colocar Seraphina nisso. Você nunca teve direitos únicos àquela dor, independentemente do que possa pensar. Ela era minha filha, também, minha garotinha, tanto minha quanto sua, e eu senti a dor da perda de


Seraphina... ainda sinto... tão profundamente quanto você. Mais, na verdade, uma vez que carrego a culpa pela morte dela nos ombros. – Bem, eu não sabia disso, na época. Como poderia saber, quando você se recusava a falar sobre ela? – Lottie falou entre soluços estrangulados. – Eu sentia que estava sofrendo totalmente sozinha. – Como ousa dizer isso? – Eu precisava do seu apoio, mas você não pensava em nada, exceto em produzir outro bebê. Era como uma obsessão... como se, sem um bebê, não houvesse razão para nosso casamento, para continuarmos juntos. – Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi. – E quando a nova gravidez não aconteceu... quando todas as drogas, médicos e clínicas falharam... eu soube que tinha fracassado. Sentime deprimida, vazia e inútil. – Fraca agora, Lottie alcançou o anjo ao seu lado para apoio, para se impedir de deslizar para o chão. – Dio, Lottie. – Rafael parecia chocado. – Não percebe que eu estava tentando ser forte? Vê-la sofrer partiu meu coração. A última coisa que eu queria era piorar as coisas, mostrando-lhe minha dor. Lottie fungou, tentando não desmoronar. – Você não percebe que, não mostrando sua dor, piorou tudo um milhão de vezes? Se nós tivéssemos sido um casal normal, teríamos sofrido juntos, e então pensado em tentar outro bebê quando a hora fosse certa. Mas não foi assim. Engravidar-me novamente era tudo que lhe importava. – Não, Lottie, não permitirei que você reescreva o passado. Eu estava tentando resgatar o que restava do desastre que eu tinha causado. Fui responsável pela morte do nosso bebê, pelo fato que você nunca mais poderia conceber naturalmente. Eu precisava tentar consertar as coisas da melhor maneira possível. Esta é a verdade da questão. – Bem, essa pode ser a sua verdade, mas não foi assim que me pareceu. – Ela suspirou. – Para mim, parecia como se você só tivesse se casado comigo porque eu estava grávida. E quando nós perdemos Seraphina, você percebeu que tinha sido um erro, que estava preso comigo por nenhuma razão. Motivo pelo qual estava tão determinado a me engravidar novamente... para justificar nosso casamento para si mesmo.


– Dio! – Rafael meneou a cabeça. – Eu não acredito que estou ouvindo isso. Só posso assumir que você inventou essa história ridícula para tentar se sentir melhor. Para aliviar sua culpa, convenceu a si mesma que era tudo culpa minha... que eu tive culpa por você ter abandonado nosso casamento. – Não é uma questão de culpa. Eu nunca disse que foi culpa sua. Estou tentando explicar porque eu falei o que falei. – Então, ao me dizer que nunca me amara, ao fugir no meio da noite, sem sequer me contar o que faria, você estava, na verdade, me fazendo um favor? Estava me libertando das correntes da responsabilidade marital? – Sim. – Nada a ver com o fato de que você queria sair do nosso relacionamento? Que se cansara de mim? – Não, nada a ver com isso. – E espera que eu acredite em você? – Sim, porque é a verdade. E eu estava certa. Você levou uma vida melhor sem mim. Seguiu em frente... formou novos relacionamentos. Se não fosse pelo seu acidente, nunca mais precisaria ter me visto. – Não ouse me dizer como eu conduzi minha vida. – Rafael parecia prestes a explodir. – Você não sabe de nada, Charlotte... de nada. – Eu sei que você não foi atrás de mim. Tentar me trazer de volta. Incredulidade brilhou nos olhos dele. – Depois do que você me disse? – Ele não conseguia encará-la. – Existe uma coisa chamada orgulho, sabia? Eu não ia implorar. Posso controlar a maioria das coisas na minha vida, mas não posso obrigar alguém a me amar. Subitamente, as lágrimas estavam correndo livremente pelas faces de Lottie. – Você não precisava me obrigar a amá-lo, Rafe. Eu sempre o amei. – Ela cobriu o rosto com as mãos. – E sempre o amarei.


CAPÍTULO 12

RAFAEL OLHOU para a figura tremendo do outro lado do túmulo de Seraphina. Ela parecia tão vulnerável, tão frágil, parada ali, as mãos tremendo na frente do rosto. Cada fibra de seu ser queria ir até ela e abraçá-la apertado. Dizer-lhe que ele poderia melhorar tudo. Mas não poderia. A revelação de Lottie de que ela lhe mentira naquela noite o desestruturara. Não podia ser verdade. O jeito cruel que ela falara aquelas palavras, a expressão no rosto, não deixara espaço para dúvida. Lottie tinha sido sincera na época. Agora, ela moldara suas palavras em algo mais agradável, moldara-as numa mentira conveniente que aliviaria sua consciência. Bem, ele não acreditaria nisso... não deixaria que ela o ferisse novamente. Ainda podia sentir a dor da declaração cruel de Lottie, mesmo depois de todo esse tempo, e isso lhe dava força. A força que ele tanto precisava para se impedir de segurar-lhe o rosto nas mãos e beijar-lhe a boca, removendo todo o sofrimento da terrível situação. – Você não vai dizer nada? A voz angustiada de Lottie cortou o silêncio, e ela o olhou. – O que há para dizer? Rafael virou a cabeça. Não suportava olhar para ela... sabia que, se a olhasse, ele enfraqueceria, que toda resolução que construíra nos últimos dois anos se desmancharia numa onda de emoção diante do lindo rosto torturado dela. – Você obviamente acha que já sabe de tudo. Manipulou minha vida brutalmente, sem nunca perguntar se era aquilo que eu queria.


– Se você tivesse perguntado o que eu queria, saberia que não podia estar mais errada. Eu nunca vi nosso casamento puramente em termos de ter filhos. – Ele se permitiu dar uma olhada rápida na direção de Lottie, viu as lágrimas escorrendo pelo rosto dela. Precisava se manter forte. – Todavia, se pensar assim faz você se sentir melhor, se alivia sua culpa, então vá em frente... continue pensando assim. Não é como se isso ainda importasse. Apenas não espere que eu acredite em você. – Rafe! – O nome saiu num grito estrangulado. – Eu só estou tentando explicar como me sentia... explicar porque abandonei você. – Bem, não se incomode. É tarde demais para isso. Eu fui enganado por você uma vez, Charlotte. Não vai acontecer de novo. Afastando-se dela, Rafael enfiou as mãos nos bolsos de seu jeans. – Eu vou voltar para o palazzo agora. Sugiro que você faça o mesmo. Ficar congelando até a morte aqui não vai resolver coisa alguma. Lottie observou quando ele virou-se e marchou entre as lápides antigas. No topo dos degraus, ele pausou, virando-se para olhá-la, a raiva canalizada numa autoridade inflexível. – E nem pense em fugir, Lottie. – As palavras dele cortaram o ar frio. – Eu ficarei de olho em você. De volta no palazzo, Rafael entrou no seu escritório e fechou a porta. Longe da visão patética de Lottie, sentiu a raiva aumentando cada vez mais, até ameaçar dominá-lo completamente. Ele nunca se sentira assim antes, tão consumido por frustração. Ligando o computador, percebeu que suas mãos tremiam enquanto pairavam sobre o teclado. Como Lottie podia falar em fugir? Novamente. Como Lottie ousava fazer isso com ele? E, desta vez, estava carregando seu filho, pelo amor de Deus. Seu peito pesava com ira e pela injustiça de tudo aquilo. Ele abriu sua caixa de e-mails, procurando por uma distração para regular seu batimento cardíaco e sua respiração, para se impedir de sair e fazer alguma coisa estúpida. Como encontrar Lottie novamente e exigir que ela ficasse lá, com ele. Não somente até o bebê nascer, mas para sempre. Sua mente voltou para o jantar da noite anterior, para a agonia de sentar-se ao lado dela a noite inteira. Lottie estivera tão encantadora naquele vestido de seda, a cor clara contra a pele dela dando-lhe uma beleza etérea, uma delicadeza que o


fizera querer tanto protegê-la quanto violá-la... não necessariamente nesta ordem. Ela prendera os cabelos no topo da cabeça. E, com os brincos de violeta que ele lhe dera capturando a luz nos olhos azuis, ele nunca a vira mais deslumbrante. Rafael soubera então, com certeza absoluta, que sua decisão de mudá-la para a ala sul era certa. Se ele tivesse alguma chance de agarrar-se a sua sanidade, teria de mantê-la longe de si. Acordara esta manhã sabendo que alguma coisa estava errada, medo apertando seu coração quando, horas depois, ainda não houvera sinal de Lottie. Finalmente, tinha cedido à tentação e batido à porta dela, mas se proibido de entrar quando não houvera resposta. Em vez disso, ele a procurara dentro e fora do palazzo, finalmente encontrando-a junto ao túmulo de Seraphina. Apenas para ouvir a revelação devastadora de que ela iria embora. Mas não ia mesmo. Rafael suspirou e obrigou-se a se concentrar nos e-mails. Havia um do consultório do dr. Oveisi, pedindo informações sobre o transplante do embrião da Condessa Revaldi. Ela já fizera o teste de gravidez? Rafael respondeu a mensagem, contando que a Condessa fizera o teste e estava realmente grávida. Grávida. De alguma forma, agora que a notícia estava vazando, parecia mais real. Lottie estava grávida, e ele ia ser pai. Deveria estar radiante, eufórico. Quando estivera deitado naquela cama de hospital, tentando aceitar a notícia devastadora de que estava estéril, isso era tudo no que pudera pensar. No fato de que tinha uma última chance de ser pai. Ele havia planejado para alcançar seu objetivo e obtido sucesso. Então, por que estava se sentindo assim? Por que seu corpo doía mais do que tinha doído quando ele acordara do acidente, machucado e quebrado? Por causa de Lottie... é claro. LOTTIE ESTAVA de pé, imóvel, as nuvens se movendo no céu acima. Sentia-se congelada, entorpecida pelo confronto angustiante que tivera com Rafael. Ela soubera que dizer a ele que estava indo embora seria a coisa mais difícil que já tivera de fazer na vida. Da última vez, escolhera o caminho covarde... fugindo no meio da noite, como Rafael a lembrara de maneira tão dolorosa. Desta vez, tentara convencer a si mesma que seria capaz de convencê-lo, de fazê-lo ver


que essa era a única solução prática. Que eles nunca poderiam morar juntos, nem mesmo num lugar tão grande como o palazzo, nem mesmo se ela fosse exilada na ala sul... Mas nada a preparara para o assalto de sofrimento que tinha acontecido. Nunca imaginara que admitiria para ele que ainda o amava. O que a possuíra para fazer isso? Alguma coisa em seu subconsciente a persuadira que Rafael pudesse dizer o mesmo, dizer que também a amava, que eles poderiam ficar juntos para sempre? Se assim fosse, seu subconsciente merecia uma morte longa e dolorida. Porque agora, ela não tinha nem mesmo a única coisa que podia chamar de sua. Seu orgulho. Lottie vestiu a jaqueta de Rafael, que estava sobre seus ombros, fechando as laterais, seu corpo ainda tremendo descontroladamente. Ela precisava ir embora. Não havia dúvida quanto a isso. Tinha de encontrar forças para explicar a Rafael, fria e claramente, por que era impossível ficar. ANDANDO NERVOSAMENTE em volta de seu escritório, Rafael parou na frente da janela. Nunca se sentira assim antes. Tão perto de perder o controle. Era como se tudo que ele achava que conhecia... tudo sobre seu caráter, sua vida... estivesse sendo desafiado. E descoberto insatisfatório. Tinha sido tão protetor de seu próprio orgulho que se recusara a ouvir Lottie, a se abrir com ela. Por que nem mesmo considerara que ela pudesse estar falando a verdade? Que, talvez, ele tivesse lidado mal com as coisas após a morte de Seraphina. Que, talvez, ele não tivesse dado tempo para eles sofrerem. Que, talvez, apenas talvez, ela ainda o amasse. E o que ele pensava que estava fazendo? Trancando-se no seu escritório, quando Lottie estava em algum lugar lá fora, sofrendo? Lottie... a mulher que estava grávida do seu bebê, a mulher que significava para ele mais do que tudo no mundo. Uma coisa era certa: se ele a deixasse escapar pelos seus dedos novamente, nunca se perdoaria. Precisava fazer algo sobre isso agora. Antes que fosse tarde demais. Eles colidiram no corredor. Lottie entrou correndo na casa e deparou-se com o peito sólido de Rafael. Quando os braços dele se estenderam para firmá-la, ela afastou-se, e eles permaneceram ali, se encarando, por longos segundos silenciosos.


– Eu estava indo procurá-lo. – Lottie tirou mechas de cabelos do rosto, o qual estava manchado de lágrimas. Então forçou-se a continuar: – Para lhe dizer que eu sinto muito, Rafael, muito mesmo... mas falei sério sobre... – Sobre sempre ter me amado? Ela congelou. – Sobre... sobre... – Lottie gaguejou, seu coração disparando no peito. – Sobre ter de ir embora. Os olhos de Rafael estudavam seu rosto com tanta intensidade que ele parecia estar procurando a verdade em sua alma. Mas ela não podia fraquejar agora... não quando chegara tão longe. Respirou fundo. – Ambos sabemos que eu não posso continuar aqui, Rafael. Voltarei a Monterrato a tempo de ter o bebê, e então, podemos decidir a melhor maneira de proceder, depois disso. Pronto... ela falara. Abaixou seu olhar para o chão. – Você foi sincera, Lottie? Quando disse que sempre me amou? Os padrões quadrados em branco e preto do mármore embaçaram sob seus pés. Por que ele estava fazendo isso? Ela esperara raiva, negação, recusa. Podia lidar com tais emoções. Mas isso...? Essa era a pior forma de tortura. – Sim – respondeu Lottie num sussurro. Erguendo-lhe o queixo com um dedo, Rafael prendeu-lhe o olhar. – Então, quando você foi embora... quando me disse aquelas palavras... – Ele parou, fitando os olhos azul-violeta, ainda procurando a resposta. – Era mentira, Rafe. A maior mentira da minha vida. – E agora? Esta é a verdade? Quando Rafael removeu o dedo de seu queixo, Lottie percebeu que a mão dele estava tremendo. – Sim... sim, Rafael. Esta é a verdade. – Então fale – pediu ele com voz rouca. – Fale as palavras, Lottie. Lottie estudou o rosto lindo, como se pela última vez, antes de render-se à força dos olhos castanhos. – Eu amo você, Rafael. Abaixando a cabeça, Rafael roçou a boca contra a sua, capturando suas palavras com os lábios, provando-as, absorvendo a verdade do corpo dela.


Com incrível ternura, a pressão do beijo aumentou, até que inundou o corpo de Lottie como água quente, lavando tudo mais que já acontecera entre eles. Fechando os olhos, ela entregou-se, derretendo-se contra ele. Se aquele fosse o beijo de despedida, então ela se renderia à gloriosa sensação que apagava qualquer outro pensamento. E se lembraria deste beijo para sempre. Finalmente, Rafael afastou os lábios dos seus, e ela soube que teria de abrir os olhos para a fria realidade do futuro. Encarando-o, esperou. Houve uma pausa agonizante antes que Rafael levantasse as mãos, segurasse seu rosto e prendesse seu olhar com intensidade. – Anch’io ti amo. Eu também a amo, Lottie. SEPARANDO-SE FINALMENTE, eles foram para o salão. Rafael abaixou-se para acender o fogo que estava preparado na lareira, então puxou Lottie para seu lado, e eles assistiram às chamas ganhando vida. Quando ele virou-se para olhá-la, os olhos escuros brilhavam com amor de um jeito que Lottie nunca, jamais pensara que veria novamente. Então, ele puxou-a para si e envolveu-a num abraço apertado. – Vai esquentar num minuto. – Eu não estou com frio. Como Lottie poderia estar com frio, nos braços fortes, com as incríveis palavras dele ainda ressonando em sua cabeça? – Ótimo. – Rafael pausou, acariciando-lhe os cabelos. – Eu sinto muito, Lottie. – Não. – Movendo-se apenas o bastante para lhe ver o rosto, Lottie o deteve. – Eu deveria estar me desculpando, não você. Fui eu que fugi, que não tive a coragem de lhe dizer como eu me sentia. – Eu não lhe dei a chance. – Puxando-a de volta contra seu peito, ele falou as palavras suavemente sobre sua cabeça. – Eu estava tão consumido pela culpa... Lottie tentou afastar-se para falar, mas ele a impediu. – Não, deixe-me dizer isso... preciso falar. Eu estava tão consumido de culpa pela morte de Seraphina que tal culpa dominou tudo na minha vida. Eu me recusei a ficar de luto, recusei-me até mesmo a testemunhar sua dor, porque isso torceria ainda mais a faca no meu coração. Toda vez que eu olhava para você, era


como um lembrete permanente do que eu tinha feito... com nosso bebê, com você. Pensei que eu tivesse lhe tirado a única coisa que importava. – Não, é claro que não, Rafe. – Forçando-o a afrouxar o abraço, Lottie levantou a cabeça para olhá-lo. – Não foi assim, em absoluto. Você precisa parar de se torturar. – Então, em vez disso, eu assumi a missão de tentar mudar aquele destino horrível. E quando não aconteceu, quando a fertilização in vitro não funcionou, em vez de parar e analisar o que eu estava fazendo, em vez de me devotar em tentar fazê-la feliz, eu me tornei viciado em adrenalina, desafiando cada vez mais meus limites físicos e me distanciando de você. – Rafael parou abruptamente, com lágrimas nos olhos. – Algum dia você poderá me perdoar, Lottie? – Rafael. – Afastando os braços dele da testa, ela segurou-lhe o rosto, alisando a cicatriz com os dedos. – Ouça-me. Ele não teve escolha senão encontrar o olhar dela, ver que o que Lottie estava dizendo era verdade. – Você não foi responsável pela morte de Seraphina. Está me ouvindo? – Mas se eu a tivesse levado para o hospital em Milão... Eles tinham equipamentos melhores lá... talvez tivessem conseguido salvá-la... – Era uma viagem muito mais longa, Rafe. Eu poderia ter dado à luz no helicóptero, e mesmo se tivéssemos chegado a Milão, é quase certo que Seraphina teria morrido. Ela era muito prematura, Rafe. Muito pequena... muito frágil. Precisa aceitar isso. Você fez tudo que pôde. Mas o que aconteceu estava além de seu controle. – Ela estudou o lindo rosto agoniado, desesperada para remover a dor dele, para fazê-lo enxergar que ele não tinha culpa. Abaixou o tom de voz, gentilmente: – Nem mesmo você pode controlar tudo, sabia, Rafe? – Disso eu sei. – O suspiro de aceitação de Rafael finalmente liberou um pouco da tensão, e um sorriso tocou os lábios dele. – Eu não posso controlar meus sentimentos por você. Tentei deixar de amá-la, Lottie... Dio, como tentei. Mas não importava o que eu fazia, não importava o quanto lembrasse que você tinha me abandonado, que nunca me amara, eu não consegui parar de amá-la. E me detestei por isso. – Eu lamento tanto... Rafael abaixou a cabeça para outro beijo silencioso.


– Sem mais lamentações. Sem mais arrependimentos. Nós estragamos o passado, mas agora temos o futuro inteiro para endireitar as coisas. E o futuro começa aqui. Rafael pegou-lhe a mão, e Lottie observou quando ele colocou-a sobre seu abdômen, descansando a própria mão no topo. Então, seus olhos se encontraram novamente com a percepção milagrosa. Eles já eram uma família: Rafael, Lottie e o bebê. Tudo ia dar certo. O fogo crepitou em celebração.


EPÍLOGO

Ontem à noite, Contessa Charlotte Revaldi, esposa do Conte Rafael Revaldi, deu à luz um menino, Valentine Rafael John, em Ospedale D’Aosta. Quando o Conte di Monterrato chegou para visitar mãe e filho esta manhã, anunciou que eles estão muito bem, e que ele e sua esposa não podiam estar mais orgulhosos de seu segundo filho, desejado há tanto tempo... um irmão de Seraphina. A primeira filha do casal morreu tragicamente, três anos atrás, depois de um parto prematuro. Uma grande quantidade de amigos e conhecidos visitou o hospital o dia inteiro, hoje, com flores e presentes para a família feliz. PONDO O jornal sobre a cama de hospital, Lottie olhou para Rafael, que estava aninhando o bebê nos braços, embalando o corpo lentamente de um lado para o outro, enquanto olhava para o rosto adormecido de seu filho. Eles pareciam tão perfeitos juntos... aquele pacotinho de vida aconchegado nos braços poderosamente musculosos do pai. O presente e o futuro. Lottie já podia imaginar o problema que eles lhe causariam. E mal podia esperar. – Eu me esqueci de contar, minha mãe ligou esta manhã para nos dar os parabéns. – Greta? Gentileza dela. – Sim, eu fiquei surpresa, na verdade. Nunca a imaginei como vovó, mas ela pareceu genuinamente empolgada. Disse até que virá nos visitar. – Eu terei de praticar meu melhor comportamento. – Rafael sorriu-lhe sobre o topo da cabeça do bebê, fazendo Lottie saber, sem sombra de dúvida, que sua


mãe ficaria totalmente encantada por ele. – E Alex, é claro... ela ligou exigindo fotos de Valentine e todos os detalhes dolorosos sobre o parto. Acho que consegui fazê-la desistir para sempre da ideia de ter um bebê. – Que amiga você é. – Rafael riu. – Mas, seriamente, Lottie, você foi magnífica. Estou tão orgulhoso de você. – Isso porque você estava lá comigo. E eu passaria por isso mais centenas de vezes... porque, olhe o que temos. – Ela inclinou a cabeça de lado. – Eu não consigo parar de olhar para ele. – Rafael voltou a olhar para seu filho. – Acho que ele puxou a você... estes grandes olhos lindos. E veja este narizinho, e os lábios, as orelhas perfeitinhas. – Então, você aprova? Quando ele levantou a cabeça, novamente, Lottie viu que os olhos escuros brilhavam com emoção, e quando o viu menear a cabeça e engolir em seco, soube que Rafael estava lutando para encontrar as palavras. – Eu ainda mal posso acreditar nisso. Que ele é realmente nosso, Lottie, seu e meu. – Bem, é melhor você acreditar. Especialmente quando ele estiver berrando de madrugada. E Valentine se parece mais com você, só para informá-lo. Esses certamente não são os meus cabelos! Rafael acariciou os cabelinhos escuros de seu filho, então observou quando estes espetaram um pouco para cima. – Ouça sua mamma sendo má sobre seus cabelos. Você e eu sabemos que você é perfeito de todas as maneiras. – Ele realmente é... – Lottie suspirou com prazer e exaustão, e deitou a cabeça no travesseiro. – Nós fizemos um bom trabalho, não fizemos? – Fizemos mais do que um bom trabalho. Sentando-se na beira da cama com o bebê nos braços, Rafael inclinou-se para dar um beijo terno nos lábios de Lottie. – Nós fizemos um trabalho assolutamente magnífico. E este é apenas o começo, Lottie... o começo de uma vida maravilhosa, juntos: você, eu e nosso filho. Uma família feliz, finalmente. Agora e para sempre.


Amanda Cinelli

SUAVE, SENSUAL E ESCANDALOSO

Tradução Ligia Chabú


CAPÍTULO 1

DARA DEVLIN já se encontrara em algumas situações difíceis naquele emprego, mas essa era, de longe, a pior. Uma planejadora profissional de eventos nunca deveria participar da festa. Isso estava escrito em algum lugar no manual da empresa. Entretanto, lá estava ela, subindo no peitoril do terraço do segundo andar da boate mais exclusiva de Milão, em seus saltos de grife. Tudo em nome dos negócios, é claro. Os saltos certamente eram responsáveis por tê-la atrasado a subir a escada de emergência escorregadia, mas deixá-los no jardim abaixo era impensável. Uma mulher ficava com seus sapatos, por mais complicada que a situação fosse. E aquela situação definitivamente se qualificava como complicada. Com sua bolsa em uma das mãos, ela silenciosamente rezou para que sua saia não rasgasse, enquanto se movimentava nada graciosamente sobre o peitoril de pedra fria, aterrissando em mármore duro. Seu relógio informou-a de que não passava muito das 22 horas. Um pouco cedo demais para ir a boates naquela parte do mundo, mas dançar não estava em seus planos, nessa noite. O principal lugar de celebridades da cidade, Platinum I, estava celebrando sua grande reabertura naquele fim de semana, e somente pessoas com convite podiam entrar. Nenhum charme irlandês amoleceria a anfitriã arrogante, com sua pequena prancheta preta em mãos. Todavia, Dara estava determinada a entrar no lugar de um jeito ou de outro. Ela só estava na cidade pelo fim de semana, antes que tivesse de voltar para o sul,


e para o escritório de sua firma em Syracuse. Fracassar nessa tarefa simplesmente não era uma opção. Quando seus vários contatos haviam dito que Leonardo Valente era intocável, Dara aceitara o desafio com entusiasmo. Tinha a oportunidade de planejar o casamento mais famoso de sua carreira... tudo que precisava era da cooperação de um homem. Quão difícil isso poderia ser? Mesmo depois de três semanas de e-mails rejeitados e telefonemas não atendidos, ela se recusara a desistir. Armada com seu tablet e seu traje de grife impecável, ela tolamente acreditara que poderia viajar para o escritório dele em Milão e exigir ser recebida. Engano seu. Porque parecia que o escritório de Leonardo Valente nem mesmo existia. O endereço de e-mail da secretária dele a levara até um profissional de um centro de operações que atendia ligações, que se recusara a responder todas as perguntas que ela fizera. Era pura sorte que Dara descobrira sobre essa noite. A primeira boate da cadeia mundial Platinum estava completando dez anos e comemorando com um fim de semana de relançamento, com uma festa para atores e atrizes famosos. Seu domínio da língua italiana estava longe de ser perfeito, mas uma coisa era certa: Leonardo Valente estava ali naquela noite, dentro daquelas paredes. E tudo que ela precisava era descobrir um jeito de entrar. Olhou em volta do terraço vazio e sentiu seu estômago se apertar. Esperara que ali fosse algum tipo de área de estar ao ar livre, onde ela poderia pular o muro e se misturar com a multidão. Mordeu o lábio. Entretanto, aquela ainda era uma parte da boate, e sua única esperança era entrar. A parede do prédio era quase inteira feita de vidro escuro, impossibilitando-a de ver o que havia do lado de dentro. O barulho da música era ensurdecedor no térreo, mas no terraço era completamente abafado. Ela ignorou o nó desconfortável em seu estômago. Estava se infiltrando num evento exclusivo; nervosismo era esperado. Na vida, às vezes, você precisava violar regras para seguir em frente, mas o que Dara estava fazendo ia completamente contra sua natureza. Afastando uma mecha de cabelos loiros do rosto, ela pôs uma mão na janela. Sua pele clara refletiu brilhantemente no vidro preto, seus olhos acinzentados


focando-se, enquanto ela ia, lentamente, de vidraça a vidraça. Começou a pressionar os dedos ao longo de cada lacuna estreita, procurando algum tipo de dobradiça... alguma coisa que indicasse uma abertura. Depois de explorar cada ângulo possível, ela deu um passo atrás e estudou o resto do terraço, franzindo o cenho. Aquilo não fazia sentido. Certamente, tinha de haver um caminho para dentro da boate. Ela sentiu uma vontade irracional de chutar o vidro e forçar sua entrada. Mas isso nunca aconteceria. Dara Devlin simplesmente não perdia o controle... por mais difícil que a situação se tornasse. Esse era o principal motivo pelo qual noivas do mundo inteiro a chamavam para planejar seus casamentos sicilianos dos sonhos. Respirando fundo, ela se forçou a pensar. Embora subir a escada para o terraço tivesse valido a pena, infelizmente, ela agora estava dois pisos acima do térreo, e sem chegar a lugar algum. Suas mãos agarraram a pedra fria, e ela espiou sobre o peitoril. A rua parecia muito mais distante de lá, e Dara subitamente se sentiu muito menos corajosa. – Signorina, há uma razão em particular pela qual você está espreitando aqui fora, no escuro? A voz profunda e sensual surgiu de repente atrás dela, fazendo-a arfar. Dara virou-se lentamente, seus olhos se arregalando quando ela viu que uma das vidraças tinha, de alguma maneira, desaparecido, e um homem agora estava ali, observando-a. Como ela não ouvira alguém se aproximando? Era tarde demais para tentar descer a escada e fugir agora. Sua mente girou, enquanto ela pensava numa resposta que não a levasse presa. – Eu estou esperando uma explicação. O rosto dele estava meio obscurecido pelas sombras, mas ela podia dizer, pelo terno escuro e braços cruzados, que ele era definitivamente alguém no comando... talvez o chefe da equipe de Segurança. Droga. Aquilo não estava indo bem. Hora de pensar, Devlin. Forçando um tom de voz leve, ela riu e falou num inglês rápido. Ninguém prendia uma loira tola em apuros. – Bem, finalmente alguém se incomodou em sair e me ajudar. – Dara suspirou, aumentando o efeito dramático de suas palavras. – Eu fiquei batendo


no vidro por vinte minutos, tentando entrar. – Você não achou a porta? O inglês dele surpreendeu-a, mas o tom zombeteiro disse-lhe que o homem não estava acreditando naquilo. Ela continuou falando, de qualquer forma. – Isso é um risco para a segurança. Eu estava querendo tomar ar fresco, e alguém disse que eu poderia sair aqui por um momento... – Então, você decidiu escalar o prédio para chegar aqui? – disse ele. Não era uma pergunta, e sim mais uma afirmação divertida. – Você tem o hábito de usar saltos altos para escalar prédios? Esse é um talento e tanto. Dara abriu a boca para protestar, mas decidiu não o fazer. – Vidro espelhado. – Ele gesticulou por sobre o ombro. Estava muito escuro para vê-lo, mas havia um sorriso zombeteiro em sua voz. – O momento que você percebeu que não ia entrar foi muito divertido. Eu estava convencido de que você teria um acesso de raiva. Dara exalou o ar que nem percebera que estivera prendendo. Bem, era ótimo que ele achasse a situação tão engraçada, porque, pelo que ela podia ver, sua missão tinha sido interrompida. Ela provavelmente seria arrastada de lá pela gola de sua camisa branca, e talvez até denunciada por invasão de domicílio. – Eu entendo a impressão que isso dá... – começou ela, tentando manter o pânico longe de sua voz. – Entende? Porque daqui parece que você estava tentando invadir meu andar particular, então eu só posso assumir que seja um traje de secretária perversa. Dara franziu o cenho. – O quê? Eu não sou... – O cérebro dela congelou, processando a primeira parte das acusações dele. O homem deu um passo para dentro da luz, revelando um rosto que ela já vira inúmeras vezes nos jornais. Dara sentiu seu corpo inteiro congelar, enquanto percebia para quem estivera mentindo. – Oh, meu Deus, você é ele. Seus aguçados reflexos profissionais se desmancharam, enquanto ela olhava para o siciliano musculoso de quase 1,90m. – Se por “ele” você quer dizer o dono do prédio que acabou de tentar invadir, então a resposta é sim. – O brilho parecia ter saído dos olhos dele agora, tendo sido substituído por uma expressão cínica. – Suponho que você vai querer


entrar, agora? Começar a me contar como tudo isso foi um louco malentendido? Com braços cruzados sobre um peito impressionante, ele esperou que ela cavasse seu buraco ainda mais fundo. Calor de embaraço subiu pelo pescoço de Dara. Ele claramente achava que aquele era um esquema para capturá-lo sozinho. Ela lera as revistas. Mulheres se jogavam em cima de Leo Valente aonde quer que ele fosse. E não apenas porque ele era bilionário... embora, para algumas mulheres, isso fosse mais do que suficiente. Com aquele homem, as palavras que elas usavam eram “de dar água na boca”, “delicioso” e “delírio dos deuses”. Ouvir homens sendo descritos como sobremesas sempre a fizera rir, mas agora, parada a poucos metros de distância dele, Dara podia entender perfeitamente aquela definição. Ele era muito diferente de seu tipo usual. Os cabelos escuros cobriam o colarinho e estavam um pouco desalinhados, os cílios eram muito longos e havia uma barba por fazer no maxilar forte. Mas nem mesmo ela podia negar que ele era uma visão. E ele dera uma olhada para sua blusa e seu blazer comportados e presumira que ela fosse alguma fã, que estava ali para tentar seduzi-lo. Dara quase gemeu com embaraço. Essa não era a primeira impressão que quisera passar. – Bem, por mais que eu aprecie ser admirado, não tenho a noite inteira. O coração de Dara disparou. – Eu não estava admirando você – disse ela, rapidamente demais. – Estava só... pensando. Oh, agora aquilo estava piorando cada vez mais. O momento pelo qual ela vinha trabalhando há três semanas finalmente se apresentava, e sua mente decidira ficar entorpecida. Uma sobrancelha escura se arqueou, zombando dela. – Você estava pensando sobre esta situação em particular, ou há outros atos criminosos que cometeu esta noite? Criminosos? Dara sentiu pânico apertar seu peito. – Senhor Valente, eu posso lhe assegurar que não estava tentando cometer um crime.


– Relaxe. Eu não vou chamar os seguranças por enquanto. Mas você fracassou em notar a câmera de segurança observando cada movimento seu. – Ele apontou para uma pequena luz vermelha piscando acima da cabeça dela. – Minha equipe estava na metade do caminho para cá quando eu lhes disse para esperarem. – Por que você fez isso? – A pergunta saiu antes que ela pudesse se conter. Ele deu de ombros. – Eu estava entediado. Você pareceu interessante. Dara pensou por um momento, mas não conseguiu achar uma única resposta para aquele comentário. Talvez, se ele a achava tão interessante, ela poderia cativá-lo por tempo o bastante para fazer sua proposta. Ela pigarreou. – Apenas para esclarecer as coisas: eu não sou uma criminosa. Sou planejadora de casamentos. – Ela observou quando ele estreitou os olhos. – A mesma coisa, em minha opinião. – Ele sorriu. – Prefiro a minha teoria da secretária perversa. E, simplesmente assim, Dara descobriu-se sendo o objeto do famoso olhar ardente de Leonardo Valente. Ela pigarreou, tentando pensar em alguma coisa – qualquer coisa – para quebrar a tensão. O ar estava começando a parecer muito fino ali naquele terraço escuro, e não tinha nada a ver com altitude. – Sua teoria é incorreta. Eu não estou aqui para nada... nada desse tipo. – Que pena. De qualquer forma, você tem a minha atenção. – Ele virou-se abruptamente para entrar, pausando quando ela não o seguiu. – A menos que você pretenda descer por aquela escada novamente, eu sugiro que me siga. Com isso, ele se foi, não dando escolha a Dara senão obedecê-lo. A sala do outro lado do vidro era duas vezes o tamanho de seu apartamento inteiro. Ela o viu pressionar alguns botões num painel na parede, e, subitamente, uma luz suave iluminou o ambiente. Não era um escritório, mas também não era um apartamento. Parecia mais um saguão de um hotel muito chique, com assentos cúbicos modernos e uma enorme lareira de vidro. Dara não sabia por que exatamente uma boate precisava de um salão como aquele... Talvez ele o usasse para entreter convidados particulares. O pensamento a fez apertar mais a mão na bolsa a sua frente, e, sentindo o contorno de seu tablet, ela lembrou por que estava lá.


Ele pressionou outro botão no painel e a porta moderna deslizou silenciosamente para trás. Ela pôde ver que o vidro era realmente espelhado, e suas orelhas queimaram com o pensamento de ele observando-a o tempo inteiro. Leonardo Valente virou-se para encará-la, e, pela primeira vez, ela notou a cor vívida dos olhos dele. Não eram escuros, como ela pensara pelas fotografias que vira, mas de um tom único de verde-musgo. Dara meneou a cabeça. Por que estava observando os olhos do homem, pelo amor de Deus? Aquele era um encontro profissional, não um baile escolar. – Então, você tem um nome... ou devo chamá-la de Mulher Aranha? – Aquele sorriso irônico ainda estava firmemente no lugar quando ele deu dois passos em direção a ela. O instinto profissional de Dara era aguçado o bastante para ver o momento perfeito. – Na verdade, eu tenho meu cartão aqui... se você me der um segundo... – Ela começou a mexer dentro da bolsa... talvez devesse fazer a apresentação completa agora, antes que ele tivesse a chance de mandá-la embora. Sem aviso, ele estava na sua frente, tirando a bolsa de suas mãos e colocando-a gentilmente no chão. – Eu não pedi um cartão. Quero saber seu nome... dos seus lábios, de preferência. O olhar dele viajou pela boca de Dara, e ela sentiu um friozinho na barriga em resposta. Ignorou a sensação, erguendo o queixo e encontrando-lhe o olhar de cabeça erguida. – Dara Devlin. Ele assentiu, como se ela tivesse respondido corretamente. – Então... Dara, a planejadora de casamentos... – A voz profunda pronunciou o nome dela como se ele o estivesse experimentando na língua. – O que me dá o prazer de sua companhia, esta noite? – Eu não estou aqui por prazer. – Ela deu um passo atrás, querendo colocar o máximo de distância possível entre eles. – O que quero dizer é... eu vim para encontrar você. Para falar de negócios. Ele arqueou uma sobrancelha escura. – Quem vai a uma boate para falar de negócios?


– Bem, você vai – disse Dara de maneira confiante, e ganhou um olhar intrigado. – Eu estou aqui para discutir uma possível negociação entre você e uma cliente muito importante minha. Tudo que peço são apenas cinco minutos do seu tempo. – Eu tenho um mar de exploradores da mídia na boate, no andar de baixo. Todos estão esperando por “apenas cinco minutos”. Por que você deveria pular a fila? – Se eles merecessem tal tempo, já teriam subido aqui a essas alturas. Sem aviso, Leonardo jogou a cabeça escura para trás e riu... um som profundo que pareceu ressonar no centro de Dara. O gesto chocou-a por um momento, e os seus olhos absorveram a coluna forte do pescoço dele, os cabelos escuros que desapareciam dentro do colarinho da camisa casualmente aberta. Dara engoliu saliva, sentindo sua garganta estranhamente seca. Olhou para cima... apenas para ser presa por aqueles olhos verdes zombeteiros. – Sabe, apesar do fato de que você poderia ter se matado subindo aqui esta noite, admito que estou impressionado – murmurou ele. – Considerando sua coragem e criatividade, você merece aqueles cinco minutos. Dara sorriu com triunfo e, ansiosamente, pegou o tablet dentro de sua bolsa. – Maravilhoso. Na verdade, eu preparei uma breve apresentação... Se você quiser se sentar...? – Não – replicou ele, simplesmente. A bolsa caiu no chão quando ela percebeu a súbita mudança no tom de voz dele. – Mas você falou... – Falei que lhe daria seus cinco minutos, Dara Devlin. Eu não disse quando. Ela sentiu-se franzindo a testa e rapidamente suavizou-a. Aquele homem era impossível. Eram somente cinco minutos, pelo amor de Deus! Eles já tinham facilmente gastado três minutos ali. Ele gesticulou para que ela fosse em direção à porta, fechando um botão no paletó do terno no processo. – Você pode marcar uma hora com minha secretária. Enquanto isso, a festa está só começando lá embaixo. Dara sentiu a raiva finalmente subir à superfície.


– Eu venho ligando para sua secretária há três semanas... por que acha que armei esta façanha? – Presumi que você gostasse de um pouco de espionagem numa sexta-feira à noite. – Ele deu um sorriso sarcástico. Ela lutou contra a vontade de bater o pé no chão, em frustração. Precisava chegar ao tema daquela reunião, mas isso teria de ser feito de maneira correta, ou Leonardo Valente recusaria sua proposta... assim como fizera com todos os outros que o tinham abordado antes. Sua apresentação era construída lentamente, de modo a lhe dar tempo para influenciar o pensamento dele. Leonardo claramente não ia lhe dar essa chance. – Você não está nem um pouco curioso sobre o que me fez subir aqui? – perguntou ela, desesperada para mantê-lo ali. Ele aproximou-se, de modo que eles ficassem a poucos passos de distância no salão silencioso. – Surpreende-me descobrir que eu estou bastante intrigado em relação a você. – Os olhos verdes percorreram rapidamente cada centímetro do corpo dela. Dara sentiu uma onda de calor subir ao rosto. Podia não ter muita experiência com flertes, mas não havia engano no brilho dos olhos dele. Aquele homem era tudo que os jornais diziam: charmoso, sensual e altamente escandaloso. – Eu não me recordo da última vez que fiz uma mulher corar. – Ele deu outro passo para mais perto, a voz se aprofundando. – Tome um drinque comigo, Dara. Solte esses lindos cabelos loiros. – Eu não acho que isso seria apropriado, sr. Valente. – Ela pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha, sentindo-se mais do que um pouco envergonhada sob o olhar intenso dele. – Senhor Valente era meu pai... você pode me chamar de Leo. – Ele sorriu. – Que assunto de negócios poderia ser tão importante que não poderia esperar até segunda-feira de manhã? Dara enxergou sua chance de mudar a conversa. – Minhas condolências pelo falecimento recente de seu pai. Pelo que sei, o funeral aconteceu no seu castello em Ragusa? – Assim me informaram. – Ele deu de ombros. – Pessoas morrem todos os dias, srta. Devlin. Eu prefiro focar em coisas mais agradáveis.


Mesmo depois que ela levantara o assunto da morte do pai, o homem continuava flertando. Ele era um perfeito playboy. Ela decidiu que uma abordagem direta era definitivamente necessária. – O castello representa um lindo pedaço de história. É uma pena tão grande que ele fique inativo na maior parte do tempo... – Por que eu tenho a impressão de que isso é mais do que uma conversa inocente? – Os olhos verdes se estreitaram, todos os traços de flerte desaparecendo. – Bem, isso é parte da razão pela qual estou aqui. – Sentindo um mau pressentimento, Dara continuou: – Eu estou aqui para propor um negócio para o Castello Bellamo, do qual acredito que você irá se beneficiar muito. Ela falou com o máximo de confiança de que foi capaz, e sentiu o gosto do fracasso quando ele congelou no lugar. O conquistador charmoso desapareceu diante de seus olhos, a expressão dele assumindo uma completa dureza. Ele encontrou-lhe os olhos, um único músculo pulsando no maxilar. Quando falou, a voz era, de alguma maneira, mais profunda do que antes, e o sotaque, mais pronunciado. – Bem, parece que você desperdiçou tanto o seu tempo quanto o meu, esta noite. Eu lhe direi a mesma coisa que falei para todos os abutres que me abordaram desde a morte de meu pai. O castelo não está à venda. Dara balançou a cabeça, desesperada para que ele entendesse. – Eu não quero comprá-lo... quero fazer um casamento lá. Tenho certeza de que nós podemos entrar em algum tipo de... Um aceno da mão de Leonardo Valente interrompeu-a no meio da sentença. – Eu não me importo se você quer usar o castelo para hospedar órfãos cegos. O assunto não está aberto para discussão. – Pelo que sei, o castello está abandonado, sem conservação, por um tempo agora. – E, por mim, pode continuar desse jeito. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, estes joguinhos não funcionam comigo... independentemente de quão bonita seja a mensageira. – Os olhos dele desceram para os pés dela, então subiram por cada centímetro de seu corpo com uma lentidão exagerada, antes de encontrar-lhe os olhos, mais uma vez.


– Esta conversa acabou – disse ele entre dentes. – Eu pedirei que alguém suba para escoltá-la até lá fora. Agora, se me der licença, tenho uma festa para ir. Sem outra palavra, ele saiu da sala, deixando Dara olhando para suas costas com incredulidade. Aquela tinha sido uma virada de eventos dramática. Ela sabia que o pai dele falecera recentemente, e fora falta de tato usar isso como parte de seu argumento. Mas que outra escolha tivera? O casamento mais lucrativo de sua carreira estava ao alcance de suas mãos, e ela prometera pessoalmente o Castello Bellamo para a noiva. Se fracassasse em cumprir sua promessa, poderia dizer adeus a sua entrada milagrosa nos casamentos da alta sociedade. Seu nome seria desprezado. Dara não seria arruinada sem uma briga. LEO FOI para trás do bar do mezanino superior vazio da boate e acenou, com uma mão impaciente, para dispensar o jovem barman. Pegando uma garrafa de uísque envelhecido, serviu-se de um copo generoso e deixou o líquido cor de âmbar queimar sua garganta num único movimento fluido. A loira o pegara de surpresa... não havia dúvida de que mulheres lindas não eram raridade no mundo... supermodelos e socialites faziam fila para ser vistas em seus braços... mas houvera alguma coisa sobre aqueles olhos acinzentados que despertara seu interesse de um jeito que mulher alguma fazia há meses. Ninguém ousava lhe falar sobre seu pai desde que a morte dele havia sido notícia no mundo inteiro. Mas começar com isso, e então mudar o assunto para o castelo... Ele deu outro gole do uísque, uma risada ríspida escapando de sua garganta. A garota definitivamente tinha coragem... ele lhe dava esse crédito. Conforme ele se acalmava lentamente, percebeu que não estava mais sozinho no bar privado. A srta. Devlin parara do outro lado do balcão. – Só para deixar claro: eu não sou uma mensageira e não faço jogos. Nunca. Ela estava zangada, e aquela era uma visão e tanto. – Nunca? Você continua destruindo minhas fantasias esta noite, srta. Devlin. – Leo olhou para a camisa branca impecável que ela usava, para o contorno do sutiã branco de renda pouco visível. Seus dedos se apertaram no copo, quando calor percorreu suas veias. Fazia muito tempo que a visão de um sutiã não o excitava. – Você leva alguma coisa a sério, sr. Valente?


Ela fez uma careta, consultando a hora em seu relógio de pulso, como se estivesse entediada. Mas Leo pôde ver o rubor colorindo as faces dela, mostrando que ela não era tão indiferente a ele quanto fingia ser. Ele deu um passo à frente, apoiando as mãos no bar entre eles. – Acredite, há certas coisas que eu posso levar muito a sério. – Leo deixou seus olhos descansarem sobre os lábios dela por um momento, e sorriu quando, envergonhada, Dara deu um passo atrás. – Olhe ao seu redor, srta. Devlin. Eu abri esta boate dez anos atrás. Agora, possuo uma em cada grande cidade do mundo, então pode ver que eu levo os negócios do prazer muito a sério. – Eu estou aqui para falar sobre minha proposta... não sobre prazer. – Ela balançou a cabeça. – Uma pena. Eu sinto que nós nos comunicaríamos muito bem nessa questão. Ela colocou a bolsa forçosamente sobre o balcão. – Você é sempre tão direto? – A voz dela era calma e furiosa, ao mesmo tempo. Droga, ela estava certa. Ele estava se comportando como um homem das cavernas. O que havia sobre essa mulher que o deixava assim? Ela era irascível, direta e muito sexy. Mas estava lá para falar de algo que Leo estava determinado a ignorar. – Você parece ter me pegado de surpresa. Ter uma mulher desarmada passando pelo sistema de segurança de um milhão de euros faz isso com um homem. – Se eu fosse homem, você ficaria bem menos impressionado, imagino? – Ela aprumou o corpo, encarando-o. Leo riu, oferecendo-lhe um copo de uísque. – Você é revigorante, Dara. Considere isto uma oferta de paz por meu comportamento inapropriado. – Obrigada. Ela pegou o copo com ambas as mãos, segurando-o perto do nariz para inalar o aroma. Era um gesto ridicularmente feminino. Leo observou-a por um momento, bebendo o resto de seu drinque num gole só.


– Sabe, considerando sua posição, pergunto-me como fui eu quem acabou se desculpando. – Eu posso ser muito persuasiva. – Ela sorriu e deu um gole do uísque, emitindo um delicado som de aprovação. Leo sentiu seu coração bater um pouco mais acelerado. – Algo que temos em comum. Ele saiu de trás do bar, notando o traje profissional de Dara mais uma vez. Ela era uma contradição ambulante. Delicada e profissional por fora, mas com a coragem de escalar um prédio usando saia e saltos altos. Ele se perguntou por que ainda não a mandara embora. Ela pôs o copo sobre o balcão, virando-se para olhá-lo de cabeça erguida e ombros retos, numa postura determinada. – Eu irei para a Sicília pela manhã. Estou lhe pedindo para considerar minha proposta. – Acaba de violar a lei e espera que eu faça negócios com você? – Estou lhe pedindo para, pelo menos, me dar uma chance. – A voz dela permanecia firme, sem traço de remorso pelas ações da noite. – Você honestamente espera que eu a deixe usar um castelo de setecentos anos para um circo glorificado? – Em primeiro lugar, é um casamento. Em segundo, pelo que eu sei, o castelo está desocupado pela maior parte do tempo há anos. Muitos empregos foram perdidos quando seu pai o fechou para o público. Nós dois sabemos que pobreza já é um problema na Sicília. – Eu acho que você está superestimando minha habilidade de sentir empatia. – Ele ouvira o mesmo argumento incontáveis vezes antes. – Talvez, mas um casamento de alto nível como esse traria muitas oportunidades para uma cidade em dificuldades como Monterocca. Leo sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem diante da menção daquele nome. Não havia razão para que ele sentisse qualquer coisa pelo lugar. O povo de sua cidade natal não significava nada para ele. Entretanto, as palavras dela lhe causaram um desconforto no estômago. – Isso traria uma tempestade de paparazzi – apontou ele. – Naturalmente. Mas, pelo que sei, isso não seria uma coisa tão ruim. Ele arqueou uma sobrancelha em surpresa.


– Você tem lido os jornais, Dara? – Eu fui informada de que você tem uma má reputação entre o povo da Sicília. – Reputação do meu pai. Não minha – corrigiu ele. – Sim, mas a reputação dele atrapalhou você no passado. As pessoas sabem que você possui uma boate em sua região nativa. Leo lutou contra a vontade de gritar. Esse era um ponto particularmente fraco seu. Optando por dar de ombros, ele inclinou-se para a frente. – Você fala quase como alguém que se importa. Ela endireitou o corpo, a guarda firmemente no lugar. – Felizmente, ambos sabemos que se importar não faz parte dos planos aqui. – Dara gesticulou para as mesas vazias em volta deles. – Então, esta é a grande festa de lançamento exclusiva? – É apenas um pré-lançamento. Os andares de baixo estão abertos para alguns convidados selecionados. Amanhã é o evento oficial. – Leo olhou para baixo, onde havia muitas pessoas. Ela o seguiu para a janela do chão ao teto, que dava vista para a boate inteira. – Você só se mistura com as pessoas comuns em eventos oficiais? – perguntou ela. – Bem, eu estava ocupado aqui em cima com uma loira muito persistente, parece. Ela ignorou o comentário, as feições delicadas absorvendo alguma coisa através da janela. – Você sabia que aquelas fontes de água estão bloqueando a área do saguão do resto da boate? – perguntou ela. Leo piscou, seguindo o olhar dela para observar a cena abaixo deles. Dara continuou: – As luzes também estão um pouco fortes demais na pista de dança. Uma luz avermelhada suavizaria a transição para dentro das áreas onde estão os assentos. Leo seguiu-lhe o olhar com interesse. – Mais alguma coisa que você gostaria de apontar? Ela abriu a boca brevemente, então a fechou, como se repensando suas ações. – Ora, vamos lá, você já começou... não se contenha por minha causa. – Ele arqueou uma sobrancelha em desafio, notando o delicado rubor no rosto


bonito, enquanto ela mordiscava o lábio inferior. – É só... os uniformes dos seus funcionários. Eles não combinam com a imagem, em absoluto. São muito... berrantes e banais. – Platina é a cor padrão da corrente de boates – argumentou ele. – Eles não são berrantes... eles são brilhantes. Ela deu de ombros. – Parecem berrantes para mim. Eu não estava tentando insultar seu estilo. – Eu pensei que você fosse super-honesta? – ralhou ele, franzindo o cenho. – Eu só estou tentando lhe provar que sei sobre o que estou falando. Independentemente do tipo de evento que você está dando, o princípio é sempre o mesmo. Torne-o memorável, e faça uma declaração. Você está lidando com uma clientela exclusiva aqui... pessoas que esperam eventos únicos todas as vezes. E, por acaso, essa é minha área de especialidade. – Você pôde ver tudo isso daqui de cima? – Eu tenho um olho experiente para detalhes. Posso não ser a convidada de destaque da festa, mas sei como planejar uma. – E minha boate não atende aos seus padrões usuais? – Eu não tenho um “padrão usual”. No meu mundo, há perfeição ou fracasso. – Ah, então esta boate seria um fracasso? – Ele esperou pacientemente pela resposta dela. Dara permaneceu silenciosa. Leo deu uma risada baixa. – Honestamente, ninguém nunca tentou me insultar para me convencer a assinar um contrato. – Eu acredito em honestidade. E, se você escolher Devlin Events para representar o castello, honestidade é o que terá. Ele olhou para a multidão abaixo por um momento. – Então, seu plano é fazer um casamento chique e consertar minha imagem pública, ao mesmo tempo? Eu diria que você é um pouco presunçosa demais. – Meu currículo fala por si. Eu fechei contratos com algumas das maiores cadeias de resort da ilha... Santo, Lucchesi e Ottanta. – Você trabalhou para o Grupo Lucchesi? – Sou uma consultora freelance. Eles me contratam em algumas ocasiões. A mais notável foram as Bodas de Ouro de Umberto e Gloria. Foi apenas uma


pequena festa no jardim da casa da família, mas... A mente empresarial de Leo aguçou-se diante daquilo. – Você chama Umberto Lucchesi pelo primeiro nome? – Sim. Ele me ofereceu um emprego, o qual eu recusei educadamente. Prefiro ser minha própria chefe. Leo andou para a parede de vidro e olhou para o outro lado da boate cheia abaixo do mezanino. Bem, aquilo tinha passado de interessante a maravilhosamente inesperado. Ele imaginou se Dara percebia o significado do que acabara de divulgar. Talvez fosse tudo invenção... ela pesquisara sobre ele, afinal de contas. Mas Leo sabia que não havia registro de sua história com Lucchesi... seus desacordos recentes. Negócios era um assunto particular entre homens sicilianos, e, embora ele não colocasse os pés na Sicília por mais de 18 anos, ainda era um verdadeiro siciliano. Praguejou quando seu telefone tocou, e a ligação durou menos de dez segundos, antes que ele a terminasse. – Eu sou necessário lá embaixo. Alguns convidados estão ficando impacientes. Ela baixou os olhos e os ombros, mostrando claramente que se sentia derrotada. – Bem, obrigada pelo seu tempo, sr. Valente. – Ela estendeu a mão. Ele ignorou-a. – É Leo. E você não me entendeu. Esta conversa não acabou. – Não? – Nem de longe. – Ele sorriu. – Uma hora. Nós continuaremos a conversa, então. Dara se mexeu desconfortavelmente. – Eu devo ficar aqui em cima? – Você merece relaxar depois de sua pequena travessura, esta noite, Dara. Desça para a boate... beba, dance. Pratique usar a escada, talvez. – Leo começou a sair, indo em direção ao seu elevador particular. – Mas como eu saberei onde encontrá-lo? – Ela chamou. – Não se preocupe. Eu acharei você.


Leo sorriu para si mesmo quando as portas do elevador se fecharam lentamente, a linda silhueta de Dara desaparecendo de vista. Ele terminaria esse interlĂşdio interessante, e isso era uma promessa.


CAPÍTULO 2

BANCOS DE bar de couro eram os piores inimigos de uma garota. Dara suspirou e ajustou a bainha de sua saia reta pelo que parecia a centésima vez. Socialites glamorosas e homens de negócios poderosos preenchiam a pista de dança, um traje mais chique do que o outro. Ela sentiu-se muito malvestida em seu conjunto preto de saia e blazer. Acessou a caixa de e-mail em seu celular, embora não fizesse nem cinco minutos desde que a checara pela última vez. Com uma piscadela dupla, seus e-mails desapareceram diante de seus olhos. A tela apagou completamente. É claro... sem bateria. Dara guardou o telefone inútil dentro da bolsa. Havia alguma coisa que não tinha dado errado naquela noite? Ela não era uma pessoa impaciente, mas a música ali era muito alta, e estava quente demais. Além disso, um grupo de modelos extremamente rude comentara sobre sua aparência no momento em que Dara se sentara. Seu conjunto de grife parecia trapo perto dos vestidos glamorosos das outras mulheres. Em eventos como aquele, ela era aquela que geralmente ficava atrás dos bastidores, dando ordens, através de fones de ouvido, para sua equipe. Ficar sentada preguiçosamente num bar a deixava nervosa. Por hábito, ela estudou suas redondezas, notando detalhes sobre o layout e a decoração do local. Para um evento de uma elite como aquela, a organização não era, nem de perto, tão boa quanto ela esperaria. E, como dissera para Leo Valente, o uniforme dos funcionários eram túnicas prateadas berrantes que pretendiam representar o nome da marca: Platinum.


Quanto antes ela conversasse com Leo Valente, melhor. Ficava inquieta quando não estava fazendo alguma coisa produtiva. Inverno era uma estação fraca para o seu negócio, quando ela utilizava a maior parte do tempo para tarefas administrativas. Dara já sentia falta do esquema frenético que sua lista de casamentos proporcionava no verão. Ela respirou fundo e esticou o pescoço para estudar a multidão mais uma vez. Sentiu um friozinho na barriga ao avistá-lo. Ele estava do lado oposto da pista de dança, cercado por membros da mídia. De seu ponto estratégico, ela podia ver que ele era mais alto que os outros homens, os ombros largos preenchendo o paletó de grife à perfeição. Ela não deveria estar notando os ombros dele. Deveria estar furiosa que Leo parecia ter esquecido sobre sua promessa. Aquela “uma hora” tinha passado vinte minutos atrás. Dara se abanou com um porta-copo e olhou para cima a tempo de ver um barman vestido de prateado colocar um drinque elaborado a sua frente. – Desculpe, eu não pedi isto. – Ela empurrou o copo na direção dele, apenas para que ele o deslizasse de volta na sua direção. – Cortesia do Signor Valente. Para sua linda companhia loira. – Ele sorriu de maneira educada. Aparentemente, ele não a esquecera, pensou Dara. Talvez esse fosse um pedido de desculpas por deixá-la esperando? Ela olhou para o drinque. Era um coquetel creme que cheirava a algum licor rico. – O que é isto? – perguntou Dara, enquanto dava um pequeno gole. O jovem barman sorriu, inclinando-se para mais perto. – Eu acredito que em inglês chama-se Orgasmo Explosivo. O quê? Ela engasgou com o gole do coquetel ofensivo, mostrando seu ultraje ao tossir de forma barulhenta, enquanto se inclinava contra o balcão. Dara sentiu seu rosto enrubescer. O barman afastou-se, mas não antes que ela o visse rindo baixinho. Aquilo era ultrajante. Ela olhou em volta e, como era esperado, o grupo de modelos agora a observava ainda mais intensamente. Uma delas comentou, em tom claro e alto, que os padrões de Valente deviam estar caindo.


Dara sentiu suas faces queimando com embaraço. Era por isso que ele lhe pedira para ficar lá? Leo Valente esperava que ela dormisse com ele, em troca de assinar seu contrato? O pensamento enviou um arrepio de alguma coisa que parecia excitação por sua coluna. Dara reprimiu a sensação estranha, franzindo o cenho. Precisava da ajuda dele... isso era verdade. Mas não a custo de seu orgulho. Havia sido uma tola em prometer Castello Bellamo para Portia Palmer sem consultar o dono do castelo primeiro. Sua escolha era ficar sentada ali e agir como um brinquedinho do bilionário pela noite, ou partir e enfrentar as consequências. Sua reputação profissional talvez fosse salva, mas seu orgulho... isso era outra questão. Tomando sua decisão, Dara pegou sua bolsa e atravessou a multidão em direção à saída. Seus pés doíam com cada passo, e a música parecia estar ficando cada vez mais alta. Quando ela finalmente emergiu no ar frio da noite, sentiu como se tivesse escapado do próprio inferno. Leo Valente e seu castelo inalcançável perfeito que fossem para o inferno. Parada no ar gelado de outubro, ela lembrou que seu telefone estava morto. Voltou para a entrada da boate e pediu para a anfitriã lhe chamar um táxi. A mulher de cabelos escuros pareceu, por um momento, que iria recusar, mas felizmente assentiu e desapareceu do lado de dentro. Dara ficou parada na extremidade da calçada e abraçou seu blazer mais apertado em volta dos ombros. Estaria reagindo de forma exagerada? Talvez devesse entrar e fazer uma última tentativa. A alternativa era admitir a Portia Palmer que ela mentira sobre ser capaz de transformar o sonho da garota de um casamento em Monterocca em realidade. A atriz era famosa por colocar na lista negra qualquer um que a decepcionasse. Prometer um local que todo mundo tentava, sem sucesso, conseguir por anos, e depois retirar a promessa, definitivamente se qualificava como decepção. Dara não sabia o que lhe dera para fazer uma afirmação tão ridícula. Ela geralmente jogava conforme as regras, e sempre se saía bem. Por que não acabara tentando convencer uma senhora idosa gentil de alguma coisa, em vez de um siciliano de sangue quente com um senso de humor cruel? A porta da boate bateu e tirou-a de seus devaneios. Dara virou-se e se deparou com o objeto de seus pensamentos.


– Você sempre foge de reuniões de negócios ou eu sou uma exceção? – perguntou ele, parando diante dela na calçada. Ele estava respirando com dificuldade, como se tivesse corrido por toda a boate. – Eu dificilmente chamaria ficar sentada num bar e ser servida com um drinque de nome obsceno de reunião de negócios. – Ela cruzou os braços contra o peito. – Você estava precisando rir. Tudo bem, talvez tenha sido uma brincadeira de mau gosto. – Ele deu de ombros. – Você realmente tem um senso de humor distorcido. – Dara suspirou. – Eu não estou disposta a... a fazer jogos para conseguir o que quero aqui. Ele arqueou uma sobrancelha, obviamente entendendo o que ela quisera dizer. – Lamento desapontá-la, mas eu não tenho o hábito de coagir mulheres para a minha cama. O rosto de Dara queimou com embaraço. – De qualquer forma, eu ficaria esperando até que o inferno congelasse antes que você alugasse seu castelo. Você praticamente disse isso, em outras palavras. – Castello Bellamo é minha carta de regateio. Prove seu talento para mim, e eu considerarei o contrato. – Provar meu talento para você como, exatamente? – O evento do lançamento amanhã à noite será grandioso. Você parece ter muitas opiniões... Eu gostaria de vê-la em ação. Dara franziu o cenho. – Eu não entendo... você está tentando me oferecer um emprego? – Eu estou lhe oferecendo uma espécie de audição, para que me convença por que eu deveria confiar em você. Um tipo de posição temporária de consultoria. Impressione-me e eu estudarei sua proposta. Isso é mais do que qualquer outra pessoa já recebeu. Ela ignorou o tom sedoso na voz dele. – Mas por que você está me oferecendo uma chance, em primeiro lugar? Qual é o seu jogo? Ele meneou a cabeça. – Tão desconfiada, Dara. Estou curioso para ver se você é tão ambiciosa quanto diz que é.


– Então, se eu passar no teste, você vai confiar em mim? – Talvez... Mas que tipo de homem de negócios eu seria se confiasse em cada loira linda que me faz uma proposta profissional? – Ele estendeu a mão para ela. – Então, Dara Devlin, está disposta a arriscar sua reputação perfeita por um velho castelo em ruinas? – “Arriscar” significa que eu tenho chance de fracassar. Ela aceitou a mão dele e sentiu um tremor de eletricidade quando o olhar de Leo se intensificou. O calor do corpo dele pareceu penetrar suas veias. De súbito, ele estava mais perto, o aroma masculino bombardeando seus sentidos, enquanto ele se inclinava na sua direção, pressionando os lábios numa de suas faces, e então, vagarosamente, progredindo para outra. Dara ficou congelada quando ele se afastou. Aquele tipo de beijo era costumeiro – ela tivera de se acostumar com o gesto logo depois que se mudara para aquele país –, mas estar tão perto de Leo Valente, sentir o calor daquele corpo másculo a centímetros do seu... Ela tentou anular a surpresa de sua expressão ao descobrir que ele a observava com atenção. – Meu motorista a levará para seu hotel, com segurança. – Ele gesticulou para o carro que parara perto deles. – Até amanhã, Dara... Uma última olhada, e ele se foi, entrando de novo na toca do pecado. Dara observou-o ir, a percepção daquilo com que acabara de concordar fazendo-a tremer por dentro. Ela havia ido mais longe com Castello Bellamo do que qualquer pessoa antes. Mas sentia como se tivesse concordado calmamente em nadar num tanque cheio de tubarões famintos. Não, corrigiu-se, não tubarões no plural. Um tubarão em particular. Leo Valente era um predador com lábia, e, de alguma maneira, ela chamara a atenção dele. E não desperdiçaria essa chance. Primeiro, ela o impressionaria com sua habilidade em organizar eventos... depois lhe apresentaria sua proposta para o castelo. Dara sorriu ao pensar na confiança arrogante dele. Às vezes, até mesmo tubarões precisavam aprender uma lição. O HOTEL de Dara não era particularmente chique, mas, por ter sido reservado tão em cima da hora, era bem razoável, e não tinha insetos nas camas. Estava bom o bastante para ela.


Decidiu descer a escada para o saguão, a fim de gastar um pouco da energia nervosa que acumulara desde que tinha deixado a boate na noite anterior. Depois de ficar deitada e acordada até amanhecer, olhando a distância, ela havia saído da cama e começado a digitar algumas ideias que tivera para o evento daquela noite. Eram ideias boas – talvez até ótimas –, mas isso não significava que elas seriam ouvidas. Após se arrumar e andar de um lado para o outro do quarto, por uma hora, Dara decidira dar o melhor de si para conseguir aquele negócio. Qualquer que fosse o plano de Leo Valente para aquela noite, ela duvidava que aquilo tivesse alguma coisa a ver com suas habilidades de organizar um evento. Dependia de Dara convencê-lo a assinar o contrato de aluguel de Castello Bellamo, não lhe dando uma chance de ignorar sua lógica. Ela decidiu que também podia ver os pontos turísticos enquanto se torturava mentalmente. Independentemente do que ele tivesse planejado para ela, Dara iria dar tudo de si. O saguão do hotel tinha um pequeno quiosque turístico. Ela abordou a guia atrás do balcão e pediu algumas ferramentas básicas para ver os principais pontos turísticos de Milão em poucas horas. A garota começou a reunir vários mapas e brochuras para que ela planejasse sua jornada. Dara precisaria de passagens para os bondes, anunciou a garota, e atravessou uma pequena porta atrás do balcão. Dara pegou uma revista italiana e começou a folheá-la enquanto esperava. Suas mãos pararam numa imagem de um dono de boates siciliano alto numa página intitulada: “A Boate dos Corações Solitários”. Dara quase riu diante do pensamento de Leo Valente sendo solitário. O homem tinha mulheres caindo aos seus pés em todos os lugares aonde ia. Nessa fotografia, em particular, ele estava com o peito desnudo, sentado perto de uma piscina, e a expressão no rosto era de tédio absoluto, não de alguém sofrendo de solidão. O texto ao lado indicava que o “pobre Leo” estava cansado de uma vida de casos com supermodelos, e estava pronto para se casar. “Há uma leoa corajosa o bastante para domá-lo?, questionava a frase final do texto. Ela virou a página, recusando-se a olhar para ele. Um leão realmente... isso combinava mais com ele do que um tubarão. Ela lera, em algum lugar, que leões


gostavam de brincar com sua comida antes de comê-la. Se houvesse uma descrição precisa para Leo Valente, era essa. Dara recordou-se da maneira como ele a olhara na noite anterior, e ignorou o tremor de consciência que a percorreu. Claro, ele era um homem atraente... ela não podia negar tal fato. Mas ela passara os últimos cinco anos ignorando incontáveis homens atraentes, e não pararia de ignorá-los agora. Seu plano de carreira não deixava espaço para homens, e Dara estava contente em manter as coisas assim. – Informando-se dos eventos atuais, Dara? Ela virou a cabeça em surpresa, apenas para ser capturada por olhos verdes familiares. Leo arqueou uma sobrancelha numa pergunta silenciosa. – Meu “coração solitário” aparentemente é digno de sua atenção, esta manhã... Eu não imaginei que você fosse o tipo que lia fofocas. Dara olhou para baixo e percebeu que ainda estava segurando a revista. – Eu não leio – replicou ela, um pouco rapidamente demais. – Eu só estava folheando uma enquanto espero por informações de viagem. Ela pôs a revista de volta onde a encontrara, então colocou uma mecha de cabelos atrás da orelha. Ele parecia mais alto e mais imponente do que na noite anterior, se isso fosse possível. Jeans escuro e uma jaqueta de couro marrom acentuavam o ar rústico e casual que parecia envolvê-lo. Como ele soubera que ela estava lá? Ela não se lembrava de ter mencionado o nome de seu hotel para ele. Além do mais, o evento de Leo Valente não estava agendado para antes de oito horas. Ele estaria lá para lhe dizer que tinha decidido não lhe dar uma chance, afinal de contas? Na noite anterior, ela tivera sorte, pegando-o desprevenido e despertando-lhe o interesse. Talvez ele tivesse acordado esta manhã e percebido que esse era um impulso que poderia apagar. Dara pensou em seu jeans justo e suéter de lã surrado, desejando que tivesse vestido alguma coisa mais profissional. Decidira ser sensata hoje, escolhendo sapatos sem salto para seu plano de andar pela cidade. Agora, com ele parado a sua frente, Dara sentiu-se baixa pela primeira vez na vida. Medindo 1,75m, ela era alta... especialmente para os padrões italianos. Todavia, mal alcançava o queixo dele.


Naquele momento, a atendente do quiosque voltou para trás do balcão e pôs um pequeno cartão de bonde ao lado de seus mapas e brochuras. – Ela não precisa mais disso. – Leo empurrou os itens sobre o balcão na direção da garota, com um gesto educado de cabeça. A pobre garota estava claramente fascinada por ele, assentindo de maneira enfática, enquanto duas manchas vermelhas pintavam-lhe as faces. Dara gemeu. Era assim que havia ficado na noite anterior? Precisava lembrar a si mesma de pensar em coisas tristes quando sua pele irlandesa muito clara decidisse corar. – Eu estava planejando usá-los. – Ela estendeu a mão para os documentos sobre o balcão. Não se importava com quem ele era... Dara não permitiria que ele roubasse seu dia por outro capricho pessoal. – Pelo que sei, você é minha por hoje. – Os olhos verde-esmeralda brilharam enquanto ele se inclinava casualmente contra o balcão. – Como você falou ontem à noite, Dara, eu sou um homem impulsivo. Se você quer tanto trabalhar comigo, precisa aprender a viver de acordo com minhas regras. Se eu decido levá-la para almoçar, você abandona seus planos. Dara sentiu um arrepio correr por sua nuca. Isso era ridículo. Ele estava praticamente obrigando-a a obedecê-lo. Ela tentou pensar numa resposta espirituosa... algo para remover aquele ar confiante de Leo. Nada veio. Ela estava lá para uma audição, a fim de conseguir um papel, e, por conseguinte, tinha de fazer o jogo dele. Se isso significava abrir mão de seus planos, então que assim fosse. – Considere-os abandonados. – Ela ajeitou a bolsa debaixo do braço e inclinou o queixo no que esperava ser uma expressão confiante. – Eu estou inteiramente a sua disposição. Um canto da boca dele levantou em meio-sorriso. – Parabéns. Você acabou de passar no primeiro teste. Mas eu não pretendo dispensá-la, Dara... ainda não. LEO NUNCA imaginara que sentiria tanto prazer em ver uma mulher comer. A trattoria que ele escolhera era uma pequena joia que ele gostava de visitar quando estava em Milão, mas não podia se lembrar de alguma vez ter se sentido tão hipnotizado por uma companhia feminina antes. Ela comia


cuidadosamente, girando cada garfada de espaguete, até que ficasse firmemente enrolada no garfo, antes de deslizá-lo para a boca. Recusava-se a falar com a boca cheia, e pareceu horrorizada quando ele fez isso, sem pensar. Dara escolhera espaguete com frutos do mar, depois de perguntar sobre os pratos especiais da casa. Ela não pedira um cardápio, e graciosamente aceitara as recomendações do garçom de um prato de entrada misto que eles poderiam compartilhar. O toscano de cabelos grisalhos sorriu em deleite com o sotaque de Dara, quando ela falou. Uma loira estrangeira tão educada, com um dialeto siciliano claro... era uma novidade e tanto. Leo deu um gole de sua água com gás, observando-a colocar a última garfada da refeição na boca. Ela havia comido com tanta delicadeza que ele mal notara que ela devorara todo o conteúdo do prato. – Posso ver que comida é outra paixão sua. – Ele sorriu. Ela tocou o guardanapo nos lábios. – Desde que eu me mudei para cá... definitivamente. Ele seguiu o movimento das mãos delicadas no momento em que ela pôs o garfo atravessado sobre o prato. O garçom imediatamente veio tirar a mesa, oferecendo-lhes uma seleção de sobremesas, a qual ambos recusaram educadamente. Ela suspirou e recostou-se na cadeira, dando um suspiro satisfeito pela grande refeição. Leo imaginou que Dara deveria ficar com essa aparência depois de outros tipos de satisfação, e seu baixo-ventre pulsou diante de tal pensamento. Distraindo-se, ele mexeu o açúcar em seu café. – Uma mulher que gosta de comer é uma raridade no meu mundo. Ela virou a cabeça e olhou, através da janela, para a linha do horizonte de Milão. – As mulheres no seu mundo devem ser muito tristes e famintas. Leo sorriu. – Os siciliani devem ter pensado que estavam sonhando ao encontrar uma mulher tão linda que termina a refeição inteira. – Ele deu um gole do café, provando o gosto forte familiar. Ela ignorou seu elogio. – Na verdade, logo que me mudei para Syracuse, tudo que eu comia era sanduíche de presunto e espaguete com molho de tomate.


– Isso é punido por lei neste país – ralhou ele. Dara sorriu, assentindo com a cabeça. – Eu logo descobri isso. Acho que durei mais ou menos uma semana, antes que uma colega me arrastasse para a casa da avó e me fizesse confessar meus crimes. – Avós italianas não costumam perdoar... especialmente no que diz respeito à comida. Fico surpreso que você sobreviveu. Leo pensou em sua própria criação. A quantidade de empregados na cozinha do castelo. As refeições silenciosas, sozinho com sua babá. Surpreendendo-se com a direção de seus pensamentos, ele sentou-se mais para a frente, focando-se nas feições sorridentes de Dara. – Não foi uma situação engraçada. Aquela mulher cozinhava 12 tipos diferentes de massa no intervalo de uma hora. – Ela balançou a cabeça. – Aquela foi a reação mais dramática à comida que eu já tinha visto. – Meus compatriotas não são conhecidos por suas sensibilidades delicadas. – Leo terminou seu café, observando-a, enquanto ela ainda olhava pensativamente pela janela. – Fale a verdade: você comeu algum molho de tomate simples desde então? Aquilo lhe rendeu um sorriso. – Nem se minha vida dependesse disso. – Então você passou no segundo teste – declarou ele. Ele viu a expressão de Dara mudar, todos os traços da conversa brincalhona desaparecendo. – Exatamente quantos testes você tem para mim? – perguntou ela, antes de dar um gole da água. Ele recostou-se em seu assento, sentindo-se no controle. – Eu não gosto de pôr um limite no progresso, Dara. Como uma mulher de negócios, tenho certeza de que você entende isso. – Fico feliz em ouvir isso, na verdade. Eu estava considerando lhe mostrar algumas ideias que me ocorreram para seu evento desta noite. – Ela pegou sua bolsa, então pausou. – A menos que isso viole meu papel como consultora temporária? – acrescentou, arqueando uma sobrancelha. Leo suspirou. A mulher estava determinada a irritá-lo. – Seja rápida.


Ela retirou um tablet da bolsa e o colocou numa posição ereta, de modo que ele pudesse ver a tela. Então acessou alguns esboços, apontando as áreas nas quais sentia que faltava variedade no plano atual dele. – Então, veja, se você dividir a noite em duas partes, evitará alienar a clientela de negócios – concluiu Dara, finalmente. Leo recostou-se e inclinou a cabeça para um lado. O fluxograma na tela era genial. Ela conseguira, numa única sessão de brainstorming, o que uma equipe de sete organizadores de evento não tinha conseguido. O relançamento da boate em Milão fora debatido longamente por semanas, devido à estranha combinação de convidados que eram celebridades e gostavam de festejar com homens de negócios e políticos mais sérios. Encontrar uma estrutura de evento que pudesse manter todos os grupos entretidos se provara impossível, entretanto Dara vira a solução após apenas olhar para baixo, através de uma janela no piso superior. – Você poderia conseguir tudo isso antes de chegar ao evento desta noite? – Sem dúvida. – Ela assentiu confiantemente, os olhos acinzentados se iluminando com determinação. – Eu chamarei a minha equipe, e você pode começar a trabalhar. Ela pareceu surpresa por um momento. – Sua equipe não vai se ressentir de ter uma recém-chegada interferindo em seu trabalho? – Começo a me perguntar se eu deveria me ressentir deles. Dara visivelmente relaxou na cadeira. – Fico feliz que você esteja aberto a mudanças. Ele riu, dando um gole de seu café. – “Mudança” é uma palavra fraca para isso. As coisas claramente precisam de uma chacoalhada. Eles são tão bem remunerados que perderam a criatividade. – Leo inclinou-se para a frente, rolando a tela do computador dela para ver as imagens mais uma vez. – Eu terei minha equipe de gerenciamento à mão... qualquer coisa que você precisar, eles estão a sua disposição. – Você me faz parecer tão importante. – Os olhos acinzentados brilharam, enquanto ela fechava a tela e guardava o tablet de volta na bolsa. – E quanto aos uniformes? – perguntou ele casualmente, e sorriu quando a expressão de Dara se tornou triste.


– Eu não espero que você reformule sua marca depois de uma pequena declaração. – Ah, mas eu sou um homem impulsivo, Dara. – Ele acenou com uma mão, sinalizando para o garçom levar os casacos deles. – Seus comentários ontem à noite feriram meu ego grande demais. Esperarei que isso seja remediado esta noite, também. Os olhos dela se arregalaram, as mãos delicadas se torcendo no colo, enquanto ela absorvia seu desafio. – Suponho que isso seja outro teste? – Você disse que nunca perde um desafio. Considere isso um experimento. Dara endireitou os ombros. – Você confia em mim para fazer mudanças em seu evento e trocar os uniformes em menos de sete horas? – Está me dizendo que você não pode fazer isso? – Eu posso fazer isso – respondeu ela, cheia de confiança. – Apenas não entendo por que você está me dando essa oportunidade, quando recusou tantas outras. Leo recostou-se, mais uma vez atônito pela abordagem honesta dela em relação aos negócios. Ele a convidara naquela noite por causa de sua atração por ela. Mas agora, depois que Dara provara novamente que era mais cérebro do que corpo, ele ficou tentado a lhe contar pelo menos meia-verdade. – Dez anos atrás, eu encomendei aqueles uniformes como um acessório de propaganda. Nós só estávamos abertos há poucos meses, e era o primeiro evento de véspera de Ano-Novo que fazíamos. A festa estava no auge quando um designer famoso entrou tropeçando. Ele estava bêbado, como sempre, e, parando no meio de uma multidão de jornalistas, começou a gritar que podia ver a si mesmo num daqueles trajes. Leo riu ao se recordar claramente da noite. – O homem estava completamente embriagado, e ficou impressionado pelo seu próprio reflexo no tecido brilhante. – Ele fez uma careta. – Mas não foi assim que todos os outros viram aquilo. De qualquer forma... resumindo a longa história: a fofoca logo se espalhou e nossos uniformes se tornaram uma declaração da marca. Eu achei a situação toda hilariante. Ele deu outro gole do café.


– Foi um truque publicitário que funcionou, e eu parecia ser a única pessoa que podia ver como os meus funcionários estavam ridículos naquele uniforme. Até você, é claro. – Leo ergueu sua xícara de café numa saudação zombeteira. – Minha atenção aos detalhes é o que me mantém nos negócios. – Bem, eu imagino que ser associada a uma grande marca como Lucchesi não a prejudica em nada. – Leo falou o nome casualmente, observando a reação dela com interesse. – Eu dificilmente sou “associada” à marca. Fui contratada para alguns eventos... um com a Fundação Lucchesi, a instituição beneficente deles para os hospitais da Sicília. – Você deve ter causado uma excelente impressão. É difícil, para uma pessoa relativamente desconhecida daquela família, conseguir sua confiança. – Por acaso, eu conversei com Gloria Lucchesi e as filhas dela enquanto estava planejando um casamento em Syracuse. – Dara deu de ombros. – Eu gostaria de tê-los impressionado muito, mas foi mais uma coincidência. – De qualquer forma, você tem um relacionamento próximo com uma família muito poderosa. Próximo o bastante para chamá-los pelo primeiro nome. Isso em si é uma conquista. – Suponho que sim. – Ela sorriu. Leo pensou sobre a conexão dela com Umberto Lucchesi. O recente desacordo entre eles causara um grande problema, que ele estava demorando a resolver. Não que uma planejadora de casamentos pudesse oferecer uma solução, mas talvez ela pudesse ser útil. Ele observou quando Dara recostou-se na cadeira, casualmente olhando na sua direção enquanto dobrava seu guardanapo sobre a mesa, então fazia o mesmo com o dele. Ela olhou para cima e notou a expressão divertida de Leo ao observar suas ações. – Desculpe, é a força do hábito. Organização é um impulso natural para mim. Consequentemente, minha escolha de profissão. – E o que a minha escolha de profissão fala sobre mim? Ela torceu os lábios. – Não acho que seria apropriado dizer.


– Sabe, não muitas mulheres podem me fazer sentir como se eu estivesse sob escrutínio. Entretanto, é como se tudo que eu dissesse ou fizesse ofendesse você. – Eu não estou ofendida. Estou bem ciente do fato de que seus impulsos são a única razão pela qual estou sentada aqui. – Ela deu de ombros. – Oh, eu não diria que essa é a única razão... – Ele deixou sua voz se aprofundar um pouco, enquanto se inclinava para a frente e encontrava os olhos de Dara. Cílios loiro-escuros se abaixaram por um segundo, e as pupilas dela se dilataram, deixando apenas uma borda acinzentada em volta delas. Aquele único reflexo foi suficiente para lhe dizer o que ele tinha ido descobrir lá. Não importava quão indiferente Dara alegava ser, ela se sentia definitivamente afetada pela química intensa entre os dois. – Você está aqui porque eu quero que esteja. Sempre consigo o que quero. Ele sorriu quando os olhos dela escureceram ainda mais, porém, desta vez, de raiva. Oh, sim, ela era exatamente o que ele precisava para quebrar seu período de inquietação. Ele derrubaria cada uma daquelas barreiras educadas, até que ela não pudesse mais raciocinar com clareza. Ela respondeu dando-lhe seu sorriso mais educado. – Eu entendo que você é um homem poderoso, Leo, e que foi criado de certa maneira. Todavia, mais cedo ou mais tarde, irá descobrir que nem todo mundo se curva ao seu desejo. Por mais que você insista. Ele ignorou o comentário sobre seu passado privilegiado. Estava acostumado com as presunções ignorantes das pessoas. Leo definitivamente crescera de certa maneira... mas não da maneira como a maioria das pessoas imaginava. Ele inclinou-se sobre a mesa, arqueando uma sobrancelha em desafio. – Tem certeza sobre isso? Eu sou famoso por ser muito persuasivo. – Bem, isso é algo que nós temos em comum. – Dara sorriu, e, por um segundo, ele capturou um brilho de fogo enterrado sob todo aquele gelo. Estava gostando de estar sentado ali com ela, gostando da discussão deles. Dara não era como qualquer mulher que já despertara seu interesse antes. Ela levantou-se quando o garçom chegou com os casacos deles. – Eu vim aqui com um objetivo, Leo. E nunca saio do trilho... por mais que o cenário tente me distrair. – Eu não esperaria nada menos. – Ele assentiu em concordância.


– Ótimo. Porque eu não farei mais nenhum de seus jogos. Sou uma profissional, e gosto que as coisas sejam feitas rapidamente. – Assim como eu, Dara – murmurou ele. Sempre cavalheiro, Leo segurou o casaco aberto para ela, ajudou-a a acomodálo confortavelmente em volta dos ombros. Um dedo errante roçou a pele do pescoço delicado, e ele sentiu o arrepio dela em resposta. Sorrindo, deu um passo atrás, quando ela se virou para encará-lo. – Allora, eu acho que nós nos entendemos – disse ele, vestindo seu próprio casaco rapidamente. Dara continuou observando-o com um misto de acusação e consciência relutante, enquanto eles saíam na tarde gelada de outono. Leo parou quando seu chofer os abordou, abrindo a porta da limusine com eficiência e educação. – Meu motorista a levará para a boate. Minha equipe estará ao seu comando. Leo lutou contra o impulso de deslizar para o lado dela no assento. Dara sentia a tensão entre eles... ele vira isso nos olhos acinzentados. Ela o queria, mas não se permitiria ter o que queria. Essa era uma lição que só vinha depois de tentação prolongada. Ele lhe mostraria o que significava perder o controle... mas, antes, teria de tirá-la daquela zona de conforto.


CAPÍTULO 3

DARA ESTAVA no piso inferior da boate e deu uma última checada nas redondezas. A equipe de Leo tinha sido muito responsiva aos seus conselhos... na verdade, eles pareciam particularmente alegres por estar planejando um evento de tão alto nível. Talvez Leo estivesse certo: eles estavam exaustos pelo sucesso e falta de motivação para progredir. Bem, sem problemas para ela. Estar próximo a convidados tão importantes era um sonho de networking se transformando em realidade. Ela faria alguns novos contatos, teria seu próprio contrato assinado, e então voltaria para casa a fim de planejar o casamento de sua carreira. Finalmente, seus planos profissionais estavam gerando o tipo de resultados com que ela sonhara quando tinha deixado sua vida em Dublin para trás. Inconscientemente, mordeu o lábio inferior, tentando suprimir as memórias que sua mente acessava toda vez que ela pensava em sua vida passada. Os olhares bem-intencionados cheios de piedade... as conversas sussurradas. Ela sempre seria conhecida como a pobre Dara Devlin que voltara ao lar – e essa fora a principal razão pela qual deixara tudo para trás. Teria sido impossível formar uma vida nova num lugar repleto de lembranças doloridas. Ela se lembrava de ficar sentada no hospital, seu sonho de ter um filho lhe tendo sido roubado. Apenas para se descobrir observando seu noivo pela última vez, abandonando-a friamente. Não. Ela reprimiu os pensamentos antes que eles pudessem dominá-la. Já chorara o bastante durante as semanas antes de decidir se mudar para a Itália. Sua vida era boa agora. Ela deveria agradecer a Daniel, na verdade. Ele a deixara


livre para focar no que Dara realmente amava. Sua carreira lhe dava mais satisfação do que vida familiar alguma vez lhe dera. Estava feliz... de verdade... e agora tinha a chance de realmente fazer um nome para si mesma. Portia Palmer era a maior atriz que a Irlanda produzira nos últimos dez anos, e ela escolhera Dara para planejar seu enorme casamento. Ela gostava de pensar que a atriz, de alguma maneira, ouvira um relato excelente de algum de seus clientes felizes. Mas, infelizmente, a escolha devia ter mais a ver com o fato de Dara ser a única planejadora de casamento irlandesa na ilha. A srta. Palmer era muito patriota com sua herança celta. Mas sem problemas para Dara. Publicidade era publicidade, e, se ela quisesse que seu nome ganhasse status, ter uma atriz de Hollywood mundialmente famosa em seu currículo somente ajudaria. Agora, depois de ver a lista de convidados dessa noite, ela sentia borboletas de nervosismo e ansiedade dançando em seu estômago. Leo não estivera brincando ao dizer que tinha convidados muito importantes. Uma rápida olhada na lista da anfitriã revelara diversos políticos europeus famosos, pelo menos três pilotos de corrida, um designer de modas mundialmente famoso e o elenco inteiro do catálogo Luscious Lingerie. Pessoas como aquelas poderiam abrir mais do que portas para ela em sua carreira. Elas poderiam derrubar paredes. A anfitriã esnobe da noite anterior subitamente apareceu ao seu lado. Dara fechou a lista, tentando não parecer culpada. – Signor Valente me instruiu para lhe dar isto. – A mulher fungou, estendendo um cartão pessoal. Ela parecia não gostar do fato de estar executando uma tarefa de tão baixo nível para seu empregador. Dara pegou o cartão, murmurando um agradecimento. Era um cartão inteiro preto, com a única linha de um endereço impresso na frente. Nada indicava que tipo de negócio era aquele. – Eu devo ir lá? – perguntou ela rapidamente, quando a anfitriã começou a ir embora. – Ele não lhe disse mais nada? A mulher virou-se e deu de ombros, como se estivesse entediada com a conversa. – Eu fui instruída a lhe entregar isso e me certificar de que você vá ao endereço.


O evento aconteceria em menos de duas horas, então Dara não perdeu tempo, pegando suas coisas e entrando no carro elegante com chofer, que Leo tinha providenciado. Qualquer que fosse a tarefa, ela precisava voltar logo para seu hotel, se quisesse uma chance de se arrumar um pouco. O carro parou numa das ruas mais sofisticadas de Milão. Gigantes da moda italiana ficavam ombro a ombro ali, com vitrines que gritavam luxo. Mas o endereço no cartão preto levou-a para uma viela estreita e para uma porta também inteira preta, sem qualquer indicação de que lugar era aquele. Sua mão estava pairando de modo incerto acima da aldrava, quando a porta se abriu para revelar um homem alto de cabelos loiros num elegante terno listrado. – Mademoiselle, nós estamos esperando você – disse ele, pegando-a pela mão e conduzindo-a para dentro. – Perdão? Eu nem conheço... Ele continuou a conduzi-la pela mão. – Apenas me siga. Ele era definitivamente francês, pensou Dara enquanto eles subiam uma escadaria curta para um grande loft aberto, com um tapete tão branco que fez seus olhos doerem. As paredes eram espelhadas de um lado, e algumas cortinas longas roxas alinhavam a parede oposta. Dara tirou um momento para olhar ao redor, sentindo-se confusa pela situação. Ela estava lá para coletar alguma coisa? – Eu fui enviada aqui por Leo Valente... – começou ela, em tom inseguro. – Ele não mencionou por que... O homem loiro silenciou-a com um súbito estalar dos dedos. – Nós não temos tempo para conversa fiada. Minha equipe e eu precisamos começar. Como se tivesse ouvido, um pequeno exército de mulheres em jalecos pretos saiu de trás de uma das cortinas roxas. Dara teve um vislumbre de fileira após fileira de araras de roupas antes que a cortina voltasse a se fechar, bloqueando sua vista. – Espere um minuto... o que é tudo isso? Ela levantou uma mão para deter o homem de terno listrado, que se agigantava sobre ela, uma fita métrica na mão. Um nó de tensão se formou em seu estômago quando uma das mulheres pendurou um vestido de seda vermelho num cabide ao lado do espelho.


O homem francês deu um suspiro impaciente. – Nós estamos aqui para arrumá-la, querida. Desde os cabelos até as unhas. – Ele olhou para as unhas curtas dela e franziu o cenho. Dara cerrou os punhos, um misto de embaraço e raiva forçando-a a morder o lábio. Como aquele siciliano arrogante ousava organizar aquela pequena façanha? Como se ela fosse algum tipo de indigente, indo lá para ser transformada numa das lindas pessoas para a noite. Tomada por indignação, ela tirou seu celular da bolsa, pronta para lançar um ataque verbal em certo magnata de boates, apenas para perceber que nem sequer tinha o número do telefone dele. A lembrança do rosto dele durante o almoço lhe veio à mente... aquele sorriso travesso quando ela tremera sob seu toque. Leo dissera que não estava fazendo mais jogos, mas isso havia sido mentira. Essa pequena manobra era designada a lhe tirar o equilíbrio, a colocá-lo de volta no controle. Ele claramente não gostava do fato de que ela estava provando ser fundamental no evento daquela noite. Dizendo a si mesma para se acalmar, Dara respirou fundo e olhou para o vestido vermelho zombando dela no canto da sala. – Signor Valente escolheu esse vestido para mim? – perguntou ela num sussurro ameaçador, observando, com olhos estreitos, quando a bravata do homem loiro vacilou. – Ele mesmo o escolheu esta tarde, mademoiselle. – O homem endireitou o corpo para enfatizar seu ponto. – Só existe um desses. Assim como o próprio homem, pensou ela com sarcasmo. Esse era o mesmo tipo de truque do coquetel da noite anterior. Nenhum outro homem seria tão atrevido escolhendo um vestido para uma mulher que mal conhecia. Ela atravessou a sala e deslizou a mão pela seda vermelha. Se Leo a enviara lá para perturbá-la... bem, ele tinha conseguido fazê-lo. O pensamento de usar alguma coisa tão descaradamente sensual era tão dolorido como arrancar suas próprias unhas. Dara não se vestia de maneira sensual... nem mesmo fazia mais sexo. Pela primeira vez em cinco anos, ela sentiu-se mais uma vez como se não fosse boa o bastante. Como se precisasse mudar para se encaixar no universo de outra pessoa. E isso não podia acontecer.


O homem loiro e sua equipe de lindas assassinas estavam em silêncio, observando-a, escovas de cabelo e maquiagens como armas em seus cintos de utilidade. Ela virou-se para encará-los, os olhos brilhando com determinação. – Eu escolherei alguma coisa pessoalmente. O francês meneou a cabeça. – Monsieur Valente deixou seus desejos muito claros para minha equipe. – Diga-me honestamente: esse vestido parece alguma coisa que eu poderia usar? – Dara gesticulou para o vestido. Ele virou a cabeça para um lado, examinando-a da cabeça aos pés com intensidade agonizante. – Sinceramente não. Seu peito é muito reto para usar um decote tão baixo. E a cor é muito forte para uma pele tão clara. Mesmo assim, eu me recuso a ir contra os desejos de meu cliente. Dara ignorou a descrição muito direta de seus defeitos, atravessando a sala para parar na frente dele, as mãos nos quadris. – Vamos esclarecer uma coisa. Eu sou a sua cliente. O que será de seus negócios se você me enviar num traje que não combina comigo, em absoluto? Será um evento com muitas pessoas famosas... Ela deixou o resto da sentença no ar e observou os olhos dele se arregalando com horror. – Fico feliz que tenhamos nos entendido. Dara sorriu com satisfação, antes de virar-se para a equipe dele e começar a dar ordens para que mais vestidos fossem levados para ela. LEO CONSULTOU seu relógio de pulso enquanto os convidados começavam a chegar para a hora do champanhe. Começava a imaginar se a “Pequena Srta. Apropriada” decidira desistir de ir. Sua limusine tinha ido buscá-la mais de uma hora atrás. Dando outro gole de seu uísque, ele olhou preguiçosamente em volta do salão que Dara e sua equipe haviam passado a tarde finalizando. Suas fontes de água cobiçadas agora estavam posicionadas em cada canto da pista de dança. O efeito geral fazia o salão parecer maior, e levava muito mais atenção às fontes. Sofás baixos ladeavam a pista de dança, agora um espaço ideal para o cenário mais jovem de celebridades. A área aberta da boate estava


preenchida com música alta e alegre, e a pista de dança brilhava com uma iluminação sedutora, dando-lhe uma aparência quase mística. No saguão de entrada, uma torre de champanhe de três metros fora colocada no centro do cenário, e um pequeno mecanismo inteligente estava enviando líquido brilhante numa cachoeira infinita. Os convidados se reuniam ali e se espalhavam facilmente, tornando a atmosfera geral elegante e relaxada. A área do saguão superior tinha sido transformada num bar de coquetéis para os convidados da elite social, seu teto mais baixo e distância da pista de dança deixando o barulho menos invasivo e ideal para conversas sobre negócios. No geral, ele estava impressionado. Não tinha muita certeza do que o compelira a oferecer essa pequena audição a Dara... provavelmente um misto de curiosidade e uma pequena atração. Certo, talvez pequena não fosse a palavra certa para descrever a atração que sentia... Ele estava no bar do saguão inferior, observando os convidados chegarem, um a um. A noite estava só começando, mas ele não estava no humor de bancar o anfitrião. Geralmente, seria ele no meio da multidão, com pessoas atentas a cada palavra sua. Elas implorariam para ouvir sobre cada uma das aventuras únicas que ele vivenciara. As festas loucas, as façanhas valentes que os jornais de fofoca adoravam cobrir. Leo criara uma imagem para si mesmo e para sua marca que atraía pessoas para ele. Todavia, ultimamente, vinha ficando cada vez mais cansado da repetição de seu estilo de vida. Até a noite anterior. Dara despertara uma faísca em seu interior, e ele sentira a familiar onda de atração incentivando-o pela primeira vez em meses. Mulheres tinham estado fora de seus planos, enquanto ele lidava com as consequências da morte de seu pai. Seu apetite sexual, geralmente insaciável, passara a ser inexistente, enquanto ele mergulhava no trabalho. Leo pensou em como ela teria reagido ao ver aquele vestido vermelho hoje. Sabia que Dara não estaria preparada para um evento tão glamoroso, mas precisava admitir que suas intenções não tinham sido inteiramente inocentes. Ele estava ansioso, esperando pela explosão inevitável quando ela chegasse. Estava até mesmo considerando dar um telefonema para seu motorista, quando uma mão tocou seu ombro.


Leo virou-se e imediatamente agarrou a mão do homem de cabelos grisalhos parado a sua frente. – Gianni... você recebeu o convite. – Bem, eu dificilmente iria recusar uma chance de ver o que mais você fez com minha boate, rapaz – replicou ele. Leo lutou contra a vontade de sorrir. Seu velho amigo não havia mudado nem um pouco. Gianni Marcello era um dragão, mas era a coisa mais próxima de um pai que Leo já tivera. – Da última vez que eu chequei, esta boate ainda era minha – corrigiu ele. O velho homem acenou uma mão no ar. – Uma questão técnica. Você habilmente me convenceu a vendê-la... assim como, habilmente, chegou aonde está agora. – Ele pausou para pedir dois copos de aguardente de uva para um garçom assustado. – Você foi ao meu hotel hoje. Desde quando começou a entregar convites em mãos? Leo sorriu. – Eu achei que você apreciaria o gesto. Gianni bufou, imperturbável. – Eu tive a impressão de que você esqueceu onde eu morava, depois de todo esse tempo. Leo deu de ombros casualmente, mas, por dentro, sentiu-se envergonhado. Soubera que Gianni não facilitaria aquele encontro, mas talvez aquele não fosse o melhor dos cenários para discutir as diferenças entre eles. Leo contemplou se retirar dali, sob o pretexto de ter responsabilidades profissionais, mas o velho homem o conhecia melhor do que qualquer um. Olhando em volta do saguão, Gianni zombou em voz alta: – Você tem cadeiras neste lugar, ou eu terei de construir uma? Leo riu, liderando o caminho para os degraus espelhados e para o saguão superior. Avistou um lugar para eles num canto tranquilo, afastado da multidão. Alguns homens de negócios de Paris o pararam para cumprimentá-lo, antes que ele pudesse se sentar do lado oposto de Gianni a uma mesa baixa. Os drinques deles chegaram em seguida, e Leo deu um gole do líquido forte, sentindo-o queimar sua garganta e esquentar seu peito. Gianni permaneceu silencioso por um momento, observando-o por sobre a borda do copo. O homem mais velho sempre gostara de um ar de suspense.


– Você fez alguns amigos poderosos, eu posso ver. – Ele gesticulou para um grupo de políticos famosos, bebendo champanhe no piso inferior. – Um homem sábio uma vez me disse para nunca chamar um político de amigo – corrigiu Leo. Gianni assentiu com a cabeça uma vez. – Você sempre me ouve, rapaz. – Ele tomou o resto de seu drinque num gole só, colocando o copo sobre o tampo de vidro temperado. – Exceto quando se trata de uma coisa. Leo recostou-se em seu assento. Sabia o que viria a seguir. Soubera no momento que decidira convidar seu velho mentor. – Vá em frente e fale o que veio falar. Eu lhe devo o suficiente para ouvi-lo, desta vez. – Isso é um pedido de desculpas por ter me abandonado, seis meses atrás? Leo desviou o olhar, sentindo-se como uma criança ingovernável levando uma bronca por ter desobedecido às regras. Gianni Marcello era o único homem que ele sempre respeitara o bastante para não fazer piadas no meio de uma conversa séria. – Você deveria ter ido ao funeral. A acusação foi calma, entretanto atingiu Leo como uma faca em seu âmago. Ele soubera que as palavras estavam vindo, mas, ainda assim, subitamente se sentiu traído. – Eu pensei que você, de todas as pessoas, entenderia. – Entendo que você agiu por raiva. E eu lhe ensinei a fazer melhor do que isso. – Gianni inclinou-se sobre a mesa, os olhos escuros cheios de acusação. Leo sentiu seu corpo enrijecer, até que achou que quebraria o copo em sua mão. Esforçando-se para se acalmar, respirou fundo e encontrou os olhos familiares do homem a quem ele confiava seus segredos mais profundos. – Eu lhe asseguro, Gianni, raiva foi a coisa mais distante da minha cabeça. Tomei a decisão de não prestar respeitos vazios a um homem que eu não via ou falava havia anos. Parei de perder o controle por causa do meu pai, muito tempo atrás. – É por isso que você vendeu cada ação que ele lhe deixou? – Gianni questionou com calma mortal. – Não minta para mim, rapaz. Esse foi um ato de vingança fria, e ambos sabemos disso.


– Ele me deixou aquelas ações na esperança de que eu ficasse tentado a assumir meu lugar como seu herdeiro. Meu pai sabia que eu nunca aceitaria isso. Gianni não sabia do que seu pai era capaz. Ninguém sabia. Gianni balançou a cabeça. – Eu não estou lhe dizendo que você tomou a decisão errada. Estou dizendo que sua motivação foi injustificada. Leo esperou um momento antes de falar: – Você ficaria desapontado ao descobrir que eu sou exatamente como ele, afinal de contas? – Se você fosse como ele, não teria aberto mão de uma herança bilionária, doze anos atrás, e então ter a coragem de fazer tudo de novo na primeira chance que teve. Vittorio Valente deve estar se revirando no túmulo, sabendo que sua corporação inteira está em pedaços. – Meu pai fez suas próprias escolhas e morreu com as consequências. Lindos olhos verdes brilharam na mente de Leo, juntamente com um rosto que transmitia juventude e vitalidade... o rosto de sua mãe... um rosto no qual ele não pensava há 12 anos. Apagou a imagem, recusando-se a deixar a memória vir à tona. Gianni franziu o cenho. – Não permita que a memória de um fantasma o persiga para sempre. Você é um homem bom, Leo, mas está seguindo um caminho solitário. – Você tem lido revistas de fofoca? – Ele riu. – Eu estou perfeitamente contente em trabalhar duro e me divertir muito, por enquanto. – Leo recostouse em seu assento, estendendo os músculos do pescoço num esforço de aliviar a dor terrível em suas têmporas. – Eu fui casado por 35 anos. E olhe para mim agora. Um viúvo solitário, morando em minhas próprias suítes de hotel como um maldito vendedor. – Gianni deu outro gole da aguardente de uva, os olhos brilhando de maneira suspeita. – Mas minha esposa me deu três filhos. Um homem sempre deve ter filhos para continuarem seu legado. – Algum dia, talvez. – Leo deu de ombros. O pensamento de se casar não lhe era repulsivo. Ele apenas não nascera para aquele estilo de vida. Podia ser necessário em qualquer lugar do mundo, de um dia para o outro. Nunca ficava no mesmo lugar tempo suficiente para criar


raízes. Além disso, raízes o prendiam num único local. Se houvesse alguma coisa que ele não podia suportar era se sentir preso. Reprimiu o pensamento indesejado, observando quando Gianni olhou com óbvio desejo para uma morena que passava. – Talvez eu deva seguir seu exemplo e encontrar algumas dessas supermodelos para mim. – Gianni riu baixinho. – Ah, elas não comem o bastante – brincou Leo, e a súbita memória de Dara com seus lábios deliciosos surgiu em sua mente. – Você nunca bebeu como um verdadeiro siciliano. Uísque é para ocidentais. – Você continua sendo tão politicamente incorreto quanto eu me lembro – murmurou Leo, sorrindo. O velho homem desviou o olhar por um momento, a expressão repleta de tristeza. – Você deveria ter ido a mim, Leonardo. Sempre veio. Ele pareceu confuso, adotando a aparência dos setenta anos que tinha. Pela primeira vez, Leo percebeu que o grande dragão não ia viver para sempre. O pensamento causou um nó desconfortável em seu estômago. Ele olhou para o outro lado do saguão, querendo acabar aquela conversa. Vasculhar o passado não fazia nada por seu temperamento. Um movimento atraiu seus olhos para o canto do salão, no momento em que um dos políticos parou de falar no meio de uma sentença e apontou em direção à loira alta graciosa subindo a escada. Ela não estava usando o vestido vermelho. Ele quase desejou que ela estivesse. O vestido que escolhera para Dara era deliberadamente quase obsceno... uma tentativa de tirá-la de sua zona de conforto. O que ela usava agora era a tentação personificada. Um vestido de seda dourada que era como uma segunda pele. Marcava cada curva com tanta perfeição que poderia ter sido pintado no corpo. Leo sentiu uma onda de calor em suas veias enquanto se levantava lentamente, e seus olhos se encontraram quando ela parou perto do bar. Arqueando uma sobrancelha, deixou claro que ele teria de ir até ela. Gianni seguiu seu olhar com interesse. – A garota poderia congelar o inferno com aqueles olhos. Finalmente, você encontrou uma mulher de verdade, hein?


Leo ouviu Gianni rir atrás de si, mas já estava atravessando o saguão em passos longos. Ela sorriu docemente quando ele parou a sua frente. – Peço desculpas pelo atraso. Pareceu levar muito tempo para que eu me tornasse apresentável. – Você trocou o vestido. Dara inclinou a cabeça para um lado. – Há algo errado com este? Leo resistiu à vontade de correr os olhos pelas curvas deleitosas, novamente. O vestido não era indecente. Na verdade, segundo alguns padrões, era até mesmo modesto. Pequenas mangas delicadas paravam na altura dos ombros dela, e o decote circulava graciosamente seu colo. Mas era justo e abraçava cada curva deliciosa do corpo dela... um corpo que ele estava tentando arduamente ignorar naquele momento. – Eu decidi que a sua escolha não era apropriada para esta noite. Ela virou-se de leve, e a garganta de Leo secou. O vestido era aberto atrás, deixando a curva da coluna elegante desnuda para todos verem. Ele pigarreou. – Não era um pedido, Dara. Pensei que você entenderia isso. Dara aproximou-se, a voz baixando para um sussurro perigoso. – Estou confusa. Em algum ponto durante nossa reunião desta tarde, eu indiquei que tenho dificuldade em escolher minhas próprias roupas? – Ela arqueou uma sobrancelha loira. – Você estava despreparada para o tipo de traje formal exigido para este evento. Eu quis me assegurar de que você estivesse vestida de maneira apropriada para ser apresentada como minha planejadora de eventos. – Consultora temporária – corrigiu ela. – Por curiosidade, você se assegura de que todas as suas parceiras de negócios em potencial tenham a oportunidade de desnudar seus colos? Leo hesitou diante daquela pergunta. Isso não estava saindo conforme o plano. Naquele momento, uma voz familiar veio de trás de seu ombro esquerdo. – Leonardo, você vai me apresentar a esta linda criatura?


Ele virou-se para ver Gianni, os olhos castanho-claros brilhando com divertimento. Leo fechou a boca e voltou-se para o homem, um brilho brincalhão nos olhos. – Eu estava pretendendo mantê-la longe de você, na verdade. – Ela parece estar planejando ficar longe de você, também. – Ele riu, estendendo uma mão. – Gianni Marcello. Acho que não nos conhecemos. Dara deu um passo à frente e, educadamente, apresentou-se, todos os traços de hostilidade desaparecendo do rosto. – Dara é minha planejadora de eventos – explicou Leo, casualmente. – Na verdade, eu só estou aqui por esta noite – corrigiu ela, com um rápido olhar em sua direção. – Leo está no processo de negociar com minha firma. – Uma mulher de negócios! – exclamou Gianni, batendo palmas com alegria. – Graças a Deus, ele encontrou alguém com quem pode realmente manter uma conversa. Dara abriu a boca para responder, quando eles foram subitamente interrompidos pelo gerente da boate. Depois de uma conversa em tom baixo com o homem, Leo virou-se para eles de modo apologético. – Parece que está na hora de o anfitrião atuar – explicou ele. – Tente não a entediar com conversas sobre negócios. – ELE É muito charmoso, não é? Dara parou de observar Leo atravessando o salão abaixo e virou-se para encontrar o homem mais velho, Gianni, observando-a com interesse. – Eu dei o primeiro emprego a Leonardo, sabia? Como atendente de bar no meu hotel principal em Paris. Agora, olhe para ele... tomando champanhe com supermodelos. – Ele riu. – Você é o dono da cadeia de hotéis Marcello? – Sim, sou. – Ele sorriu. – Mas, no que diz respeito a trabalho, meus filhos fazem isso agora. Eu estou apenas apreciando meus anos dourados na cidade que me fez. – Você nasceu em Milão? – perguntou ela.


– Eu nasci e fui criado na bela Sicília. – Ele sorriu, os olhos brilhando novamente. – Os negócios me trouxeram para o norte industrial. Abri meu primeiro hotel aqui, quarenta anos atrás. – O Grand Marcello Milan foi seu primeiro hotel? – Foi meu maior feito. Por esse motivo, meu apartamento fica na cobertura, lá. Ela sorriu de volta. – Eu adoro o lema de sua cadeia de hotéis. “Nova cidade, velhos amigos”. – Esse slogan é provavelmente a única parte de meu trabalho original que ainda vive – murmurou ele. – Pessoas jovens querem sempre tudo moderno. Dara assentiu em concordância. O velho homem era simpático. Havia algo caloroso sobre ele que a deixou instantaneamente à vontade. A hora do champanhe estava transcorrendo bem, pensou ela, enquanto olhava para a elite de Milão reunida ali. Todos estavam lá para ser fotografados e sair nas colunas sociais, sem dúvida. Logo as luzes diminuiriam e o evento oficial se desfaria num pano de fundo, permitindo-lhes usar a boate para seu verdadeiro propósito. Privacidade, anonimato e pecado. O volume da música foi abaixado e um som que lembrava uma campainha ressoou no ar. Dara olhou para baixo e viu que Leo tinha subido no pequeno palco erguido no meio da pista de dança. Gianni segurou-lhe o cotovelo e eles desceram para o piso inferior, quando Leo começou a falar. Ele discursou sobre o conceito da renovação da boate, explicando as linhas fluidas e o pano de fundo espelhado. Gianni resmungou ao seu lado, comentando que a boate era muito boa do jeito antigo. Leo sorriu brilhantemente, sempre o anfitrião carismático, e terminou agradecendo, em detalhes, sua equipe de funcionários pelo apoio deles. – Finalmente, eu tenho o grande prazer de apresentar a todos vocês uma estrela em ascensão na indústria... Senhorita Dara Devlin. Para seu horror, ele apontou-a no meio da multidão, e ela subitamente tornou-se o foco de trezentos olhares curiosos. No que ele estava pensando? Ela não era ninguém lá. Aquelas pessoas a olhavam como se esperando que ela começasse a cantar. Leo sorriu, não notando seu terror.


– A srta. Devlin é uma recente descoberta minha, sendo um talento criativo raro na indústria. Possui tamanha dedicação a detalhes que até mesmo reformulou o uniforme Platinum para combinar com nosso novo tema. A multidão aplaudiu, olhos curiosos indo do rosto vermelho da planejadora de eventos para os garçons muito elegantes, circulando todos de preto. Dara rezou para que Leo mudasse de assunto, respirando aliviada quando ele começou a fechar o discurso. Gianni arqueou as sobrancelhas ao seu lado, parecendo bastante entretido pelos acontecimentos. – Ele parece muito impressionado com você, carina. – Ele sorriu. Dara endireitou os ombros, tentando, em vão, dissipar o calor de seu rosto. – Senhor Valente é um homem muito bem-sucedido. Eu sou grata por estar trabalhando com ele. – Ela deu um gole de sua água com gás, sentindo-a deslizar por sua garganta dolorosamente seca. – Você é muito ingênua se acha que Leonardo só está pensando em trabalho. – Os olhos de Gianni reluziram. Dara ignorou a sensação desconfortável em seu estômago diante daquelas palavras. Leo a estava levando a sério, agora que ela provara seu talento. Havia uma tensão provocante entre eles, é claro, mas ela não tinha planos de agir sobre isso. Em absoluto. Decidiu ignorar o comentário de Gianni, aprumando os ombros e falando: – Na verdade, eu estou negociando um contrato para um evento no Castello Bellamo. O velho homem enrijeceu, claramente pego de surpresa por aquela informação. Dara esperou que ele falasse, mas Gianni permaneceu em silêncio. Achando melhor lhe dar um momento, ela olhou para o outro lado da pista de dança. Leo havia acabado de descer do pódio e conversava com um grupo de homens em ternos sofisticados. Então ela percebeu que ele a fitava enquanto falava. Os olhos verdes a observavam com intensidade, parecendo alcançá-la do outro lado da pista de dança. Ela deveria desviar o olhar. Deveria recomeçar uma conversa com Gianni... fazer alguma coisa. Virou-se para ver Gianni observando Leo com a expressão mais feroz que ela já vira.


– Senhor Marcello, está tudo bem? – perguntou ela, experimentalmente. – Ele está fazendo jogos perigosos. Com licença por um momento. – Os olhos castanhos escureceram em fúria, e, sem outra palavra, o homem começou a atravessar a multidão com alguma óbvia intenção. Dara o seguiu, seus saltos forçando-a a andar com mais cuidado. – Eu não sei o que falei que o perturbou, mas este não é o lugar para causar uma cena. Gianni virou a cabeça, ainda andando. – Você não precisa testemunhar isso. Leo os viu se aproximando e, instantaneamente, afastou-se do grupo de pessoas que o cercavam. – Gianni, você está um pouco mais corado. – Ele sorriu. O outro homem pôs um dedo no peito de Leo, parando tão perto que seus narizes quase se tocavam. – Você disse que não está fazendo jogos, rapaz? Então, explique que tipo de acordo tem com esta jovem dama? Pretende vender o único elo que lhe restou com sua família? Leo pareceu genuinamente chocado por um momento. – Pode falar baixo, por favor? Gianni meneou a cabeça, uma risada sarcástica escapando de seus lábios. – Sempre preocupado com sua imagem preciosa, Leo. Eu pensei que estivesse sofrendo quando você fez o que fez com as Empresas Valente, mas isso... – A voz dele falhou. – Eu não estou vendendo o maldito castelo – declarou Leo em tom ríspido. – Ele não vai vender. Eu sou uma planejadora de casamentos. Nós estamos discutindo um contrato de evento. – Fique fora disso, Dara – avisou Leo. – E eu pensei que você estivesse apenas entretendo a moça com o objetivo de levá-la para cama – disse Gianni. – Seria melhor se você vendesse o castelo, em vez de fazer planos de explorá-lo como um hotel barato. – Nada será feito naquele maldito castelo... entendeu? Ele ficará daquele jeito até apodrecer. Dara sentiu a respiração ficar presa nos pulmões enquanto absorvia a realidade daquela declaração. Nenhum dos homens olhou na sua direção,


enquanto continuavam se enfrentando. Felizmente, ninguém notara o pequeno drama acontecendo naquele canto isolado da boate. – Então, por que ela está aqui? – questionou Gianni, vociferando a própria pergunta de Dara. Leo permaneceu em silêncio por um momento, os olhos se movendo para ela, como se apenas agora ele lembrasse que ela estava lá. – Isso não é da sua conta, Gianni. Dara observou quando a raiva do homem mais velho desapareceu, sendo substituída por uma expressão de mágoa genuína. Os olhos de Leo estavam tão escuros que pareciam quase pretos na luz parca. Dara falou, endireitando os ombros: – Parece que não é da minha conta, também. Recusando-se a encontrar os olhos de Leo, ela abaixou a cabeça. – Obrigada por trazer alguma luz à situação, senhor Marcello. Com isso, ela virou-se e saiu da boate.


CAPÍTULO 4

PARANDO PARA pegar seu casaco e bolsa na chapelaria, Dara forçou-se a se acalmar. Podia sentir a tensão interna se estendendo a ponto de explodir. Depois de devotar o dia inteiro trabalhando arduamente para impressionálo... Depois de passar uma hora estressante ao telefone com cada grande designer, procurando uniformes... Depois de permitir que ele a fizesse se sentir envergonhada... Ela honestamente pensou que, se ele a seguisse, ela poderia acabar batendo em alguém pela primeira vez na vida. Saiu na noite gelada de Milão, o ar frio fazendo-a tremer mais do que já estava tremendo de raiva. Ele atravessou as portas e seguiu-a da mesma maneira explosiva da noite anterior. – Dara, pare e me permita explicar. – Por quanto tempo você planejava me enganar? – Ela virou-se para encará-lo. – Não vamos discutir na rua. – Leo olhou para onde os seguranças estavam parados como sentinelas silenciosas, do lado de dentro da porta. – Oh, desculpe-me... eu esqueci sobre sua preciosa reputação. Faça um favor a si mesmo e volte para seu público adorado. Uma longa limusine escura parou na frente deles, as janelas impenetravelmente pretas. – Você não vai chegar a lugar algum parada na rua. Meu carro está aqui. Eu não quero mais nada em minha consciência, esta noite.


– Oh, acho que nós dois sabemos que você não tem consciência – zombou ela. Entretanto, Dara franziu o cenho. Tinha esquecido sobre o problema de conseguir um táxi em Milão. Se ele estava lhe oferecendo sua limusine, ela aceitaria sem pensar duas vezes. Qualquer coisa para se livrar dele o mais depressa possível. – Bem, parece que você é tão generoso quanto eu esperei que fosse, sr. Valente. Meu humilde agradecimento por este prêmio de consolação. – Ela abriu a porta e entrou no interior quente do veículo, seu corpo ainda tremendo com raiva. A porta do lado oposto abriu de repente, e seus olhos se arregalaram quando Leo deslizou sobre o assento, ao seu lado. – O que você está fazendo? – gritou ela. – Eu disse que a deixaria usar a limusine. Não disse que você estaria sozinha. – Ele deu de ombros, batendo na janela do motorista e colocando o carro em movimento. Então, virou-se para olhar para ela, a voz com sotaque profundo no interior escuro e silencioso da limusine. – Nosso assunto ainda não acabou, Dara. Dara sentiu a voz de Leo alcançar o espaço entre eles, quente e sedutora. Ignorando a atração, permaneceu quieta e fingiu indiferença. – Você pode me ignorar, se quiser, mas eu ainda tenho de cumprir minha parte do nosso acordo. – Ele esperou que ela falasse, por um momento, antes de continuar: – Seu trabalho esta noite foi excelente. Você ganhou sua chance de me convencer. Indignação tomou conta dela, e Dara virou-se para encará-lo. – Perdoe-me se eu subitamente perdi a vontade de quebrar uma parede de tijolo. – Você não entende a situação com Gianni Marcello. Ele balançou a cabeça, o pequeno movimento incendiando-a mais do que qualquer outra coisa. – Eu acho que entendo perfeitamente bem. O playboy entediado decidiu que se divertiria um pouco enquanto estivesse na cidade. Um bônus adicional era a consultora de eventos desimpedida. Uma pena que seu amigo arruinou as coisas


antes que você tentasse pôr suas mãos no prêmio final, não? – Ela cruzou os braços em frente ao peito de maneira defensiva. – O que você conseguiu esta noite foi sem precedentes. Eu não estava mentindo ao falar que você tem um grande talento. Conseguiu mais em sete horas do que minha equipe pôde reunir em três meses. – Isso não significa nada para mim. Tudo que fiz foi para conseguir meu contrato. – Meu relacionamento com Gianni é complexo. Ele não entende algumas das escolhas que faço. Eu disse aquilo para evitar uma cena. A verdade é que eu estou considerando sua proposta. Dara o observou silenciosamente. Aquela mudança de tática estava fazendo sua cabeça girar. Ele recostou-se no banco, estendendo longas pernas musculosas à frente. – Eu estou lhe oferecendo uma chance para me convencer. Uma chance que não será oferecida novamente. Dara pensou por um momento. Ele a fizera de boba, mas ela ainda tinha a vantagem ali. Se havia uma chance de salvar aquele contrato de casamento, ela a agarraria. Por mais que a irritasse participar daquele joguinho de Leo... por mais que isso ferisse seu orgulho. – O casamento é para uma atriz famosa... com um número moderado de pessoas. A mídia será limitada a uma equipe de revista. Levaria talvez três dias desde a arrumação até a limpeza, com acomodação requerida para os convidados. Ela detalhou seus planos o mais clara e efetivamente que foi capaz, considerando o ambiente íntimo e o fato de não ter conseguido dormir. Sem mencionar o homem grande e relaxado sentado ao seu lado, observando cada movimento seu com interesse. – Parece que você pensou em tudo. – Ele deslizou uma mão ao longo dos pelos despontando no maxilar. – E parece um acordo com benefícios mútuos. Dara sentiu um estranho desconforto no fundo de sua mente. Ele tinha sido mortalmente contra qualquer conversa sobre o castelo na noite anterior... por que estava considerando seus planos de maneira tão aberta? Ela fizera um trabalho fantástico hoje... admitia isso. Mas não era tão ingênua para não perceber o fato de que alguma coisa causara essa mudança de ideia repentina.


– O que mudou exatamente para fazer você pensar duas vezes antes de rejeitar meu evento? – questionou Dara, observando quando ele arqueou as sobrancelhas e estreitou os olhos. – Talvez eu tenha a esperança de deixá-la com uma impressão melhor de mim do que aquela que você teve até agora. – De alguma forma, eu não acho que você se importe muito com a impressão de qualquer pessoa a seu respeito. Ele deu de ombros. – Depende da pessoa em questão. Todavia, você está correta ao pensar que tenho um motivo maior. Eu estava apenas lhe dando uma chance de expor sua proposta antes. Leo sentou-se mais para a frente no banco, os olhos verdes prendendo os seus com intensidade. – Você precisa da minha ajuda, Dara. E provou quão longe está disposta a ir para consegui-la. Eu estou lhe pedindo que vá um pouco mais longe ainda. Ele pôs uma mão no banco de couro escuro entre eles, ainda lhe prendendo o olhar. Era um gesto de dominação, designado a fazê-la se sentir encurralada, certamente? Dara lutou contra a vontade de se afastar no assento. – Quão mais longe nós estamos falando aqui? – Dara reprimiu os pensamentos relativamente indecentes que sua mente formou. Leo pareceu refletir por um momento, olhando pela janela do carro antes de falar: – Você sabe muita coisa sobre o mais novo empreendimento de Lucchesi? Dara pensou por um momento, a mudança de tópico confundindo sua mente já cansada. – A ilha que ele possui perto de Lampedone? Ele a está transformando em algum tipo de resort independente de luxo, eu ouvi dizer. Leo assentiu. – Apesar do que você ouviu ou leu até agora, eu não fiz qualquer tentativa de expandir meu império para a Sicília. Não há mercado para uma marca exclusiva como a minha em nenhuma das cidades maiores. Isso aconteceu até que esse projeto Isola foi descoberto. – Leo inclinou-se para a frente, gesticulando com as mãos enquanto falava. – A ilha será um centro de hotéis, boutiques e restaurantes exclusivos. Cada centímetro da propriedade será totalmente luxuoso. Cinco estrelas. Um lugar único.


– Eu não entendo o que seu interesse num novo desenvolvimento imobiliário tem a ver com meu contrato de casamento. – Dara falou em voz baixa, tentando dar sentido às palavras dele. – Umberto Lucchesi é o chefe do quadro de diretores. Ele tem a palavra final em todas as oportunidades de investimento em potencial. Eu não fiz segredo do fato de que quero participar do projeto, e, francamente, eles precisam de minhas habilidades e influências. Isso ficou claro quando o quadro inteiro de diretores aprovou meu investimento. Todos, exceto Lucchesi. Ela balançou a cabeça. – Sinto muito, mas não acho que minha pequena conexão com ele ajudaria você a fechar um grande negócio. – Tudo que eu precisaria é da sua presença, Dara. Ele é notoriamente privado, e só faz reuniões em sua própria casa ou com o quadro de diretores. Haverá uma ópera para levantamento de fundos no Teatro Massimo em Palermo amanhã à noite. Lucchesi e a esposa serão os anfitriões. Palermo? Na noite seguinte? Dara lutou contra a vontade de rir em incredulidade. Aquilo era ridículo. Ela voara para Milão para uma simples tarefa, e agora ali estava, recebendo um pedido para acompanhar um playboy notório a uma ópera. – Por que exatamente minha presença beneficiaria a situação? – perguntou ela, um pouco ofegante. – Eu entendo que isso não seja muito convencional. Mas acredito que encontrá-lo num ambiente cordial, com um rosto familiar ao meu lado, possa fazê-lo me olhar de uma maneira mais favorável. Lucchesi me vê como filho de meu pai... um playboy frívolo sem moral. Ele claramente a aprova, se já trabalhou com você em mais de uma ocasião. Tê-la como minha companhia seria altamente benéfico. – Você está me pedindo para pousar como um tipo de namorada sua? – Que outra razão nós teríamos para estar em Palermo, juntos? É o cenário mais acreditável. Talvez fosse o cansaço, depois das últimas 24 horas, atingindo-a, mas Dara sentiu uma onda de risada histérica ameaçando subir à superfície. O pensamento de que alguém acreditaria que um homem como Leo Valente estivesse saindo com uma irlandesa comum como ela era absolutamente ridículo.


Ele continuou, alheia à reação de perplexidade dela. – Deixe a conversa sobre negócios por minha conta. Tudo que eu preciso é que você aja como um tipo de intermediária. Alguém com uma conexão pessoal para suavizar o caminho. – Uma intermediária. Bem, isso parece tão lisonjeiro... – murmurou ela. – Você receberia todos os benefícios de ser minha companhia, sendo uma convidada num evento tão exclusivo. Seria uma noite agradável. – Umberto Lucchesi é um homem poderoso. Ele deve ter um bom motivo para não confiar em você – disse ela. – Não tenho certeza de que eu posso arriscar minha reputação. – Eu sou um homem poderoso, Dara. Você escalou um prédio para conseguir falar comigo. Estou lhe oferecendo uma oportunidade de ter exatamente o que você quer. É pegar ou largar. A limusine parou. Dara olhou para o exterior acinzentado do hotel, tentando desesperadamente compreender a situação. Ele estava essencialmente lhe oferecendo o castello numa bandeja de prata. Tudo que ela precisava fazer era representar um papel por uma noite. – O que acontece se você estiver enganado? Se a minha presença ao seu lado não fizer diferença? – Deixe que eu me preocupe com isso. Minha oferta é simples. Vá comigo para Palermo e eu assinarei seu contrato para o evento. Ela pensou sobre o risco de confiar nele. Leo não lhe dera motivo algum para confiar nele até então. Mas que outras possíveis razões ele poderia ter para pedir que ela o acompanhasse a Palermo? Um homem como Leo podia ter qualquer mulher que quisesse, então isso não era apenas sobre a química entre eles. Ela estava certa disso. Ele devia querer muito negociar com Lucchesi, se isso o incentivara a considerar seu evento. A reação inicial de Leo, a recusa absoluta dele, tinha sido um contraste completo à oferta atual. Era um risco mentir para um homem como Umberto Lucchesi, mas, na escala das coisas, aquela era uma mentirinha inocente. E a alternativa era perder o contrato. Perder tudo pelo que ela trabalhara tão arduamente. – Se eu for com você – disse Dara rapidamente, antes que mudasse de ideia –, quero um contrato para o castello de antemão.


LEO EXPERIMENTOU uma onda de triunfo enquanto sentia Dara começando a aceitar sua oferta. Ele vira a incerteza no rosto dela; sabia a posição difícil em que a colocara. – Você não confia em mim, Dara? – Nem um pouco. – Eu não esperaria nada menos. Terei um contrato redigido até amanhã. E prometo devolvê-la ao seu escritório na segunda-feira de manhã. – Nós passaremos a noite em Palermo? Ela fez a pergunta inocentemente, mas ele a viu movimentando nervosamente as pequenas mãos no colo. Ela não estava inconsciente da tensão entre eles, como queria demonstrar. – A suíte terá mais do que um quarto. – Eu quero a sua palavra de que não haverá mais de seus jogos. Este é um acordo profissional. – Você está pedindo que eu me comporte? Que ignore a atração entre nós? – perguntou ele com voz sedosa. – Sim. É exatamente o que estou pedindo. – Este é um acordo profissional, Dara. Você vai posar como minha namorada pela noite, mas posso lhe assegurar que eu sou capaz de separar as duas coisas. Independentemente da impressão que você causou em mim, garanto-lhe que sou um homem de palavra no que diz respeito a negócios. Leo bateu na janela no motorista, e o homem desceu e segurou a porta da limusine aberta para que Dara saísse. – Meu avião sairá ao meio-dia, então você tem muito tempo para o sono da beleza. Ele observou até que ela desaparecesse através das portas do hotel sem luxo. Não mentira quando dissera que era capaz de separar negócios de prazer. Era perfeitamente capaz disso, no geral. Mas sua atração por Dara era algo que o pegara de surpresa. Depois de meses sem interesse no sexo oposto, essa súbita consciência aguda era quase dolorosa. E ela também a sentia... ele tinha certeza disso. Dara se provaria muito útil no dia seguinte, no que dizia respeito a Lucchesi. Mas, se ele fosse honesto consigo mesmo, esse não era seu único objetivo. Leo ainda não estava pronto para abandonar o desafio que ela apresentava.


Talvez fosse tédio... talvez seu orgulho estivesse ferido. Mas alguma coisa o atraía para Dara Devlin mais do que qualquer mulher que ele já conhecera. Ela o intrigava, e talvez fosse por isso que ele insistira em provocá-la com aquelas pequenas façanhas na boate. Ele era um homem adulto, não um adolescente, pelo amor de Deus. Se quisesse impressioná-la, então precisava agradá-la. Era da natureza dele ser rebelde e provocante, mas, talvez, uma abordagem mais sutil fosse necessária. De qualquer maneira, Leo sempre conseguia o que queria. E estava determinado a mostrar a Dara exatamente o que ela poderia ter, se cedesse à tentação. O CARRO virou bruscamente numa outra rua estreita e Dara sentiu seu estômago embrulhar. Ela estava sentada ereta no banco de camurça do Porsche, uma mão agarrando seu telefone como um talismã, a outra segurando a porta com força. Leo dirigia como se estivesse numa pista de corridas, não nas ruazinhas com paralelepípedos de Palermo. Fazendo a última curva, ele parou o veículo poderoso. Ela estava fora do carro num instante, endireitando a saia e tentando recuperar sua compostura. – Você não apreciou o passeio de carro? Leo entregou as chaves ao manobrista e foi para o lado de Dara, enquanto ela subia o caminho para a fachada do prédio antigo ao qual eles tinham chegado. – Eu geralmente prefiro viajar num ritmo menos acelerado. Ela olhou para o palazzo histórico, impressionada que ficaria num lugar assim. Eles subiram degraus de mármore e entraram num saguão brilhante e ornado. Dara arfou diante da decoração verdadeiramente opulenta. – Eu sempre soube que alguns desses velhos palácios haviam sido convertidos em suítes luxuosas, mas nunca pensei que eu entraria em uma. Ela inclinou o pescoço a fim de olhar para o trabalho de arte no teto. A maior parte dos aspectos originais fora preservada, e era como entrar no século XVIII. O interior do apartamento era tão ostentoso quanto o saguão. Decorado em estilo barroco, tinha tetos altos e grandes candelabros ornados, com uma varanda grande dando vista para os telhados terracota da cidade. Leo conduziu-a pela área de estar até um conjunto de portas duplas que iam do chão ao teto. – Seu quarto é por aqui. Sua bolsa deve ter sido trazida para cima.


– Já? – Ela arqueou as sobrancelhas com surpresa, quando ele abriu as portas duplas e, como esperado, sua pequena bolsa de viagem preta estava aos pés da cama. – Eu espero eficiência em todos os lugares aonde vou. – Ele deu de ombros. Dara olhou para a gigantesca cama de quatro colunas, coberta com uma colcha dourada e cercada por cortinas vermelhas. Era o tipo de cama que demandava atos de amor e romance. Uma pena que não receberia nenhuma dessas coisas naquela noite. Subitamente lhe ocorreu que, em algumas horas, ela estaria posando como namorada de Leo Valente. E dormindo sob o mesmo teto que ele. A vontade insana de sair correndo do prédio era tentadora, mas ela se manteve firme. Lembre-se de seu objetivo aqui, Devlin. Uma mentirinha inocente e o castello será seu. – Nós sairemos para a casa de ópera às 19 horas. Você encontrará alguma coisa para usar a tempo? – Eu já consegui sete vestidos de madrinha na véspera de um casamento que estava planejando, uma vez. Em verde-menta, devo acrescentar – declarou ela, orgulhosamente. Ele não respondeu com suas provocações usuais. Em vez disso, deu uma olhada na tela de seu telefone e falou: – Eu tenho alguns assuntos para resolver, mas fique à vontade para se mimar. Sapatos, joias. Qualquer coisa que você desejar. Ele tirou um cartão de crédito prateado da carteira e estendeu para ela. – Eu posso pagar por minhas próprias roupas, mas aprecio o gesto. – Ela empurrou o cartão de volta para ele. Leo fez uma careta. – Certo. Eu pedirei que o carro venha nos apanhar às 19 horas. Ele saiu e fechou a porta. Dara perguntou-se sobre a mudança no comportamento brincalhão de Leo. Talvez ele estivesse nervoso por causa da importância desta noite. Ela precisaria comprar uma roupa, mas uma coisa de cada vez... Tirou seus sapatos e jogou-se na cama com um suspiro de contentamento e apreciação. Era como afundar numa nuvem. Brevemente, imaginou como seria não estar


sozinha naquela cama. Ter um corpo quente ao lado do seu, tocando-a em todos os lugares certos. Que diabos estava lhe acontecendo? Ela teria de manter a guarda quando estivesse perto de Leo. Sua libido normalmente controlada parecia estar saindo de sua hibernação forçada. Ele nem mesmo era seu tipo usual. Dara pensou em seu ex-noivo, com cabelos castanhos sempre bem-penteados, as camisas e calças perfeitamente passadas. Dan nunca a teria olhado do jeito que Leo a olhava. Como se ela fosse a mulher mais atraente na sala. Mas ele ainda não havia descoberto que ela era tão estéril como o deserto. A frase feia abalou-a momentaneamente. Era a frase que ela ouvira Daniel usar com seu pai numa conversa que Dara nunca deveria ter ouvido. Pensamentos de seu passado penetraram seu controle, preenchendo seu peito com emoção. A notícia de que ela nunca teria filhos a abalara até o âmago. Ela sempre se orgulhara de não ser carente nos relacionamentos, diferentemente da maioria de suas amigas. Dan era o único homem com quem Dara dormira. A vida sexual deles não tinha sido nada espetacular, mas ela dissera a si mesma que a conexão mental entre os dois era muito mais valiosa do que a falta de uma química potente na cama. Aparentemente, ele não se sentira da mesma maneira. Dara reprimiu a irritação que sempre surgia ao pensar sobre o rompimento deles. Movendo-se para parar na frente do espelho longo perto da cama, ela franziu o cenho para seu reflexo. Não era uma mulher sexy... sabia disso. Mas, uma vez, sentira-se moderadamente atraente... e tinha aceitado atenção masculina graciosamente. Não era vaidosa, em absoluto. Sabia que possuía um corpo delgado e pernas longas, mas suas feições eram comuns, e seus seios, muito pequenos. Dara não sabia por que um homem como Leo se sentiria atraído por ela. Talvez fosse o simples fato de que ela deixara claro que nada aconteceria entre eles. Todavia, o problema era que, quanto mais tempo eles passavam juntos, mais ela queria que alguma coisa acontecesse. Dara afastou-se do espelho, tentando não gemer. O que havia sobre aquele homem que a levava a fazer críticas a si mesma? Leo Valente era problema com “P” maiúsculo, e ela precisava controlar sua própria atração, se quisesse ter qualquer esperança de mantê-lo a distância.


LEO PEGOU duas taças de champanhe de um garçom que passava e retornou para seu assento no camarote particular. Ele vira que Dara havia tirado o celular da bolsa e estava ocupada, digitando alguma coisa. – O vício em tecnologia não é exatamente o que eu quero numa companhia para a noite – ralhou ele. – Dê-me apenas um minuto e eu acabarei. – Ela digitou mais algumas vezes no teclado da tela. – Você está comigo esta noite, Dara. – Ele roubou-lhe o celular num movimento rápido e guardou-o no bolso interno de seu paletó. – Eu lhe devolverei depois da ópera, se você se comportar. Ela o encarou. – Esta é uma abordagem muito dominadora para recuperar minha atenção. – Você não achou isso charmoso? – Leo colocou a taça de champanhe na mão dela. – Nem um pouco. – Ela endireitou a coluna, dando um gole do champanhe e desviando o olhar, de maneira significativa, para a multidão abaixo deles no teatro. Leo se sentiu mais do que um pouco irritado pela dispensa dela. Ele passara a tarde inteira em teleconferências, de modo que pudesse ter algum tempo livre. Apenas para ser friamente ignorado por Dara desde o momento em que a apanhara no palazzo. Ela estava espetacular, com os cabelos loiros penteados para trás do rosto e presos num coque elegante, revelando brincos delicados de diamante em forma de gotas. O vestido era sofisticado e bonito... de seda prateada e formando um coração sedutor na frente. Deixava à mostra pouco do corpo dela, criando um pequeno mistério. Ele aproximou-se, falando baixinho: – Eu imagino que você prefira um homem muito dócil. Um que você possa organizar e controlar, talvez? – Eu não tenho realmente uma preferência. – Ela deu de ombros. – Tenho uma carreira muito movimentada que me preenche. Sair com homens não está muito nos meus planos. – Novamente, a coisa dos planos, Dara? Você parece ter tudo organizado em pequenas caixas. Isso parece tão perfeito.


– Você está zombando de mim, mas há muitas vantagens em se ter um plano. – Para construir um império de boates, com certeza. Porém, todo o resto é queda livre para mim. Eu gosto de surpresas. Se não fosse pelas surpresas, nós não estaríamos aqui, esta noite. – De volta ao ponto principal: quando eu vou ter de enganar Lucchesi? – Não até o primeiro intervalo. Siga minha liderança e não saia do roteiro. Dara lutou contra o impulso de dar uma resposta petulante; em vez disso, relaxou quando a música começou. A casa de ópera antiga era linda, com sua arquitetura icônica dourada e cortinas de veludo vermelhas. Ela prometera a si mesma, anos atrás, que assistiria a um espetáculo no Teatro Massimo... estava em sua lista de coisas turísticas para fazer enquanto estivesse morando lá. Uma lista que nunca parecia possível de cumprir, com sua carga de trabalho... Quando a cortina desceu para o primeiro intervalo, ela sentiu borboletas dançarem em seu estômago. Leo gesticulou para que ela o seguisse em direção à multidão se reunindo do lado de fora da porta. Lá estava. O momento da verdade. Ele pôs uma mão na parte baixa de suas costas, enquanto eles andavam ao longo dos corredores para o camarote da realeza, onde a família de Lucchesi estava sentada. O calor da mão dele queimava em sua pele, fazendo aquelas borboletas se agitarem ainda mais. Um grupo de pessoas estava reunido em volta da entrada, conversando alto sobre a apresentação. Uma mulher se destacava, joias de diamantes ofuscadas apenas pela estola de pele mais branca que Dara já tinha visto. Leo capturou o olhar de Dara, gesticulando para que ela desse um passo à frente e interceptasse a atenção da mulher. Dara pôs seu sorriso mais brilhante no rosto no momento em que Gloria Lucchesi saiu da multidão, abraçando-a calorosamente. Ela tentou não olhar para Leo, notando a expressão convencida no rosto dele. – Dara, querida... o que você está fazendo em público, sem seus fones de ouvido? – brincou a mulher mais velha. Dara riu gentilmente da brincadeira, sentindo-se desconfortável quando Leo se colocou ao seu lado, deslizando uma mão em volta de sua cintura, de maneira possessiva. – Eu estou aqui com meu... meu namorado, Leo Valente.


Ela gaguejou, seu coração batendo freneticamente no peito. Se era o efeito de mentir tão descaradamente, ou o resultado de ser tocada tão intimamente, Dara não sabia, mas sentia como se seu coração estivesse prestes a saltar do peito. Seu nervosismo evaporou uma vez que ela notou que Gloria Lucchesi literalmente congelara no lugar, a mão agarrando o colar num gesto que era muito mais do que simples surpresa. Dara foi tomada por um mau pressentimento quando Umberto Lucchesi aproximou-se e parou do lado da esposa, o rosto ruborizado com raiva mal contida. Gloria pôs uma mão no braço do marido antes de falar com Dara diretamente: – Senhorita Devlin, pode, por favor, explicar o que você está fazendo aqui com o sobrinho do meu marido? UMBERTO LUCCHESI parecia um homem pronto para atacar. Leo continuou olhando-o, sem piscar. – Que prazer ver você, tio. – Como você ousa me armar uma cilada num evento beneficente? – O homem mais velho praticamente sussurrou, olhando em volta para ver se pessoas os ouviam. – Eu comprei um ingresso... como todo mundo aqui. De forma típica, tia Gloria deu um passo à frente para acalmar a situação. – Umberto, por favor, pare de ser tão dramático – censurou ela, num tom de voz calmo e confiante. – Meu marido esquece que está no meio do Teatro Massimo, e não gritando numa sala de reuniões. Gloria colocou uma mão amigável no braço de Dara. Leo notou o sorriso educado de Dara, o tom gentil, enquanto ela amenizava a situação com perguntas sobre as filhas de Gloria. Umberto permaneceu em silêncio e continuou a olhar para ele. – Nós não faremos isso aqui, Valente – sussurrou ele. – É claro que não – palpitou Gloria. – Já é mais do que hora de vocês, homens ridículos, acabarem com essa rixa e se perdoarem. Leonardo, eu quero lhe dar as boas-vindas à Sicília, querido. Senti a sua falta. – Obrigado, Zia. É uma pena que seu marido não se sinta da mesma maneira. – Esse é um modo suave de colocar as coisas – resmungou Umberto.


Gloria falou diretamente para ele: – Vá jantar na nossa casa amanhã. Vocês poderão conversar sobre negócios, então. Por enquanto, vamos todos apreciar o resto da noite. – Ela começou a conduzir o marido para dentro da multidão, olhando para trás e piscando para Dara. Leo sorriu para Dara. Acontecera exatamente como ele tinha planejado. Um encontro particular marcado, no território de Lucchesi. Mas Dara franziu o cenho, virando-se em direção ao camarote. Leo a seguiu, confuso diante da súbita mudança de humor dela. DARA ESPEROU até que eles estivessem de volta no camarote, antes de se voltar para ele. Pressionou um dedo acusatório no ombro largo. O gesto fez os olhos de Leo se arregalarem. – Você poderia ter me avisado que eu estava entrando num episódio de uma novela, pelo amor de Deus. – Eu não achei que o fato de você conhecer minha história com Umberto ajudaria a situação. – Não achou que isso beneficiaria você. – Ela virou-se, furiosa. – Como eu não sabia que vocês eram parentes? Como isso não é de conhecimento comum? – Ele é o irmão mais novo de minha mãe. Fez questão de cortar qualquer conexão com o nome Valente quando minha mãe faleceu. – Leo falou de modo casual, mas raiva estava evidente no maxilar rígido. Dara sentiu a irritação diminuir, pega de surpresa pela declaração franca dele. – Isso deve ter sido muito difícil. – Minha mãe morreu de repente... tinha apenas 38 anos. O funeral foi muito triste. E a família dela culpa meu pai. E a mim. – Meu Deus, ela era muito jovem. A vida pode ser cruel, às vezes. Leo dispensou os comentários gentis dela com um aceno da mão. – Eu estou apenas divulgando os fatos para você... não procurando compaixão. Tive 12 anos para superar o ocorrido. Ele enfiou as mãos nos bolos do paletó, arqueando as sobrancelhas numa expressão sardônica. Esse era um homem que mantinha os verdadeiros sentimentos enterrados. Ela não podia se imaginar revelando suas próprias memórias doloridas de maneira tão casual.


Dara pensou no jeito como os dois homens tinham parado tão perto um do outro, os olhos emitindo faíscas de raiva, no hall dourado e glamoroso do teatro. – Leo, eu o ajudei a conseguir seu encontro. Cumpri minha parte no nosso acordo. Nós concordamos que eu agiria como sua namorada somente por esta noite. – Eu não posso ir ao jantar sozinho. Você me acompanhará para mantermos a farsa de que somos um casal. Gloria gosta de você, e ela é a chave para manter a paz. Dara levantou-se, alisando a seda cor de pérola do seu vestido. Sentira-se como uma princesa mais cedo, descendo os degraus do palazzo para encontrar Leo inclinado contra a porta da limusine, vestido num smoking preto elegante. Ele estava pecadoramente lindo e poderoso, e fazendo coisas estranhas com a respiração dela, toda vez que lhe segurava o braço ou lhe dava aquele olhar ardente. Ela precisava se afastar antes que fizesse alguma bobagem. Mais uma noite com Leo era um risco que ela não poderia correr. Ele a estava observando com intensidade. – O que a preocupa, carina? Que eles não acreditarão que somos um casal? Porque isso não será um problema. – É muito arriscado. Nós não sabemos nada um sobre o outro. E se eles fizerem perguntas? – argumentou Dara. – Eles não precisarão fazer perguntas. – Leo deu um passo para mais perto. – Dara, nós praticamente fervilhamos quando estamos sozinhos, juntos. A química entre nós é bastante óbvia. – É? – Dara se sentiu um pouco tonta diante do escrutínio dele. – Oh, sim. – Ele abaixou o tom de voz. – Nós naturalmente reagimos à presença um do outro. Não é algo que pode ser fingido com facilidade, e podemos usar isso para nossa vantagem. – Eu não vejo como nossas discussões farão parecer que somos um casal. Ela virou-se, lutando contra si mesma. Estava apreciando a pequena charada na qual eles tinham embarcado. Aquilo começava a parecer uma realidade alternativa à vida frenética, porém solitária, que ela levava em Syracuse. – Tensão pode ser interpretada de diversas maneiras.


Leo posicionou-se atrás dela, perto o bastante para que Dara pudesse sentir a respiração dele abaixo de sua orelha. – Sinais físicos são as primeiras coisas que as pessoas notam. Demonstrações inconscientes de intimidade. – Ele alcançou-lhe a mão, entrelaçando os dedos nos seus. A respiração de Dara ficou presa no peito, com o efeito do contato inocente, contudo explosivo, em seus sentidos já aguçados. – Então, nós nos damos as mãos e tudo ficará bem? – Não há necessidade de exagerar, quando sutileza funcionará muito melhor. Talvez eu descanse uma mão em suas costas, enquanto conversamos. Mostrando sentimento de posse. Dara tentou se concentrar nas palavras dele, mas tudo em que podia pensar era sobre como aquela mão na sua era quente e firme. Fazia tanto tempo que ninguém segurava sua mão. Ela reprimiu o pensamento confuso. Tentou parecer indiferente, mal notando o movimento de Leo, até que sentiu a mão grande deslizar por suas costas de maneira sensual. – O que você está fazendo? – gritou ela. – Dara, ninguém irá acreditar nisso se sua voz aumentar de volume cada vez que eu a tocar – sussurrou ele em seu ouvido, enquanto eles se reuniam com os outros convidados no camarote. Ela aproveitou a oportunidade para retomar seu assento e estudar o programa, enquanto acalmava sua respiração errática. A música começou e Leo acomodouse ao seu lado. Muito perto. – Vamos tentar isso outra vez – sussurrou ele, suavemente. A mão dele cobriu a sua, que estava sobre o colo, os dedos longos massageando o dorso, exatamente como um namorado faria. Leo olhava à frente, concentrado na linda apresentação, nem um pouco afetado pelo contato deles. Dara estava, de súbito, muito consciente da respiração dele, enquanto tentava se concentrar no palco abaixo. Os dedos de Leo entrelaçaram nos seus, antes que ele inclinasse a cabeça e sussurrasse em seu ouvido: – Muito melhor, Dara. Um equilíbrio perfeito entre indiferença tranquila e tremor em antecipação.


– Eu não tremi – negou ela, virando-se para encontrar os olhos verdes repletos de humor. O casal ao lado deles resmungou em desaprovação. – Você está atrapalhando os outros. – Ela meneou a cabeça, focando-se no espetáculo abaixo. – Eu não posso evitar. – Ele inclinou a cabeça mais uma vez, sua atenção agora completamente focada nela. – Bem, tente mais arduamente – ralhou Dara, unindo as mãos no colo. – Este não é o lugar para me ensinar como mentir de modo eficaz. Eu nem sequer concordei em continuar com essa farsa. – Você está certa. – Ele se levantou, segurando-lhe a mão e falando baixinho para o casal atrás deles: – Desculpe-nos... minha linda companhia não está se sentindo muito bem. – Leo a puxou de seu assento com facilidade e gesticulou para que ela o precedesse para fora do camarote. Dara saiu no corredor, virando-se para encará-lo, assim que ele fechou a porta. – Eu não quis dizer que nós precisamos ir embora – protestou ela, exasperada. – Minha atenção não estava exatamente no espetáculo sendo apresentado. – Leo deu um passo para mais perto dela. – Uma coisa me ocorreu lá dentro. Dara o observou quando ele deu outro passo, parando tão perto que eles estavam quase peito com peito. Os olhos verdes não deixaram os seus enquanto ele se inclinava para mais perto, o olhar descendo para seus lábios com clara intenção. Ocorreu a Dara que ela iria permitir que ele a beijasse. Até mesmo pior... ela queria que ele a beijasse. – O que ocorreu a você? – sussurrou ela, umedecendo os lábios com a língua, antes que pudesse se deter. Ele seguiu o movimento, ansiosamente. – Você não tem motivo para me ajudar, depois desta noite. – Suponho que você está certo. – Dara suprimiu a sensação de desapontamento diante daquelas palavras. Ele estava correto. Depois daquela noite, eles não tinham motivo para continuar a trabalhar juntos, exceto, talvez, pela troca de e-mails em relação ao castello.


– E se eu lhe oferecesse mais do que um contrato para o seu casamento da celebridade? – perguntou ele em tom calmo. Dara sentiu sua pulsação acelerar diante da palavra mais. – Eu tenho pensado... O castelo está praticamente abandonado, sem qualquer propósito. Sua visão para esse casamento levará vitalidade ao castelo, novamente. Talvez isso até ajude a produzir alguma renda para Monterocca. Deus sabe que eles precisam de dinheiro, estando tão distantes dos resorts turísticos mais movimentados. – Eu me sinto lisonjeada que você prestou tanta atenção na exibição de slides no meu tablet. – Ela sorriu. – Eu posso lhe oferecer direitos exclusivos para fazer uma quantidade pequena de casamentos selecionados no castello. Eu a contratarei para supervisionar a reforma do lugar e assegurar que fique adequado para tais propósitos. – Leo, isso seria... incrível... – exclamou ela. – Uma vez que a negociação for finalizada, eu não quero ter mais nada a ver com o lugar. Então, não é uma atitude altruísta. Confio que você fará um bom trabalho, Dara? – Eu lhe garanto que você não terá com o que se preocupar – replicou Dara, a excitação por aquela revelação pegando-a completamente de surpresa. – Você me acompanhará amanhã à noite, então? – perguntou ele, sem rodeios. Dara riu. – Suponho que terei de fazer isso, agora. – Será a última coisa que eu lhe peço. A expressão de Leo era sincera, antes que eles seguissem o corredor para o grande hall de entrada e saíssem na rua, em direção ao carro esperando. O pensamento de passar mais uma noite como o foco de atenção dele, de tê-lo tocando-a e lhe falando como um amante, a fez se sentir nervosa. Ela permaneceu silenciosa durante o trajeto para o apartamento deles, seus pensamentos ainda confusos pelo encontro deles no camarote do teatro. Leo mal a tocara, e ela estivera a ponto de se jogar sobre ele. Tivera tanta certeza de que ele iria beijá-la no corredor...


O medo de ser considerada mentirosa por Umberto Lucchesi era nada comparado ao medo de ser beijada por Leo Valente. Ele ainda não a beijara, mas, com a noite seguinte inteira pela frente na companhia dele, certamente era inevitável que isso acontecesse. Fazia tanto tempo que Dara não era beijada que temia ter esquecido como beijar. Talvez fosse melhor tratar aquilo como uma tarefa. Ela nunca entrava em tarefas despreparada. Trataria aquilo como tirar um curativo adesivo da pele. Rápido e indolor. Afinal de contas, o medo do desconhecido geralmente era pior do que o ato em si. Quando eles entraram no apartamento, Leo removeu sua gravata-borboleta num único movimento, jogando-a numa mesa lateral e movendo-se em direção à porta de seu quarto. – Espere. – Ela falou com o máximo de confiança que foi capaz de reunir. – Eu só quero tentar uma coisa antes. Sobre pés firmes, Dara andou até ele, vendo os olhos verdes se arregalaram diante de sua aproximação. Então, ela tocou-lhe os lábios com os seus... de maneira hesitante, no começo; depois, ardentemente. O cheiro de Leo era incrível assim tão de perto, e os lábios estavam firmes e quentes sob os seus. Ela deu um passo atrás, antes que pudesse se sentir confortável demais, percebendo que suas pernas tremeram só um pouquinho, quando ela colocou alguma distância entre eles mais uma vez. – Pronto... acabou o embaraço do primeiro beijo. – Dara sorriu, orgulhosa de si mesma por encontrar uma maneira lógica de lidar com uma situação desconfortável. Leo permaneceu em silêncio por um momento, a expressão ilegível. Então deu um passo à frente, fechando a distância entre os dois. – Se você queria experimentar isso, tudo que tinha de fazer era pedir, Dara. – Foi só para praticar. Para amanhã. – Ela sentiu o corpo reagir quando ele se aproximou ainda mais. Como se sua pele se lembrasse dele e estivesse pedindo por mais contato. O que dera nela, pelo amor de Deus? – Neste caso, acho que precisamos de outra tentativa. Os lábios de Leo cobriram os seus, antes que ela pudesse formular uma resposta. Mas o beijo dele não foi simples como o seu tinha sido. Houve uma urgência no primeiro toque, que, apesar de nunca ter experimentado antes, Dara


também sentiu. Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido e tudo que importasse fosse aquele momento. Sentindo a boca de Leo na sua, as mãos grandes envolvendo sua cintura. A língua sensual traçou uma trilha de fogo sobre seus lábios, demandando acesso. Ela tentou raciocinar com clareza. Aquilo estava tão errado. Começara com um beijo simples, e agora, de repente, ela estava sendo devorada. Dara inclinou a cabeça para trás, e ele se aproveitou do movimento. Mãos quentes deslizaram de sua cintura para seu traseiro, puxando-a para ele. Ela nunca tivera tanta consciência de si mesma ou de um momento, antes. A sensação do peito sólido contra seu próprio peito fez seus mamilos enrijecerem de desejo. Seus seios pareciam pesados, doendo com a demanda de se libertarem das roupas. Ela sentia-se devassa e livre, e rezou para que sua sanidade retornasse a qualquer momento, em breve. Permitiu que sua própria língua se movesse contra a de Leo, seguindo o ritmo e sentindo a ereção viril pressionada contra ela. Leo começou uma trilha de beijos ardentes ao longo da pele sensível de seu pescoço. Dara gemeu, chocada diante da sensação de calor e umidade instalando-se entre suas coxas. Ela o queria mais do que algum dia quisera qualquer homem, antes. O cheiro e o toque dele estavam enlouquecendo-a tanto que ela mal conseguia pensar. Tudo que podia ouvir era o som de seu coração batendo alto em seus ouvidos. A respiração de Leo estava tão ofegante quanto a sua, enquanto ele mordiscava seu lóbulo e puxava o decote do vestido para baixo, de modo que ele descansasse no alto de sua cintura. Dara sentiu seu corpo reagindo em reflexo, suavizando-se para ele, inconscientemente oferecendo mais. Razão abandonou-a, enquanto ela se entregava ao calor do corpo musculoso que a cercava. Leo empurrou-lhe os ombros até que ela estivesse deitada no sofá da sala de estar. No momento em que ele abaixou a boca para a pele sensível de seus seios, os últimos remanescentes de sua decisão pareceram se dissolver. Tudo que podia sentir era Leo e os movimentos loucos e primitivos dos lábios e dentes dele, enquanto eles provavam e provocavam. A língua quente circulou o bico de um dos seios, enquanto ele usava o polegar e o indicador para, lentamente, torturar o outro. Dara se contorceu sob o


toque, seus quadris se arqueando para encontrar o membro rijo abaixo do abdômen reto. Leo levantou a cabeça para beijá-la novamente, os lábios mais suaves dessa vez, enquanto ele continuava a provocar um bico com os dedos, antes de abaixar a mão, deslizando-a pelo seu estômago e descendo para a parte mais baixa de suas coxas. Ele levantou a seda do vestido até os quadris dela. Dedos longos acariciaram o interior de suas coxas, enquanto os lábios sensuais continuavam demandando uma resposta voraz de Dara. Ela agarrou um punhado de cabelos escuros, sentindo uma onda de triunfo quando ele gemeu e beijou-a mais intensamente. A mão que estava em sua coxa subiu, segurando-lhe o sexo através da renda fina de sua calcinha. Dara sentiu seu baixo-ventre se contrair em resposta, e levantou os quadris para encontrá-lo, enquanto os dedos de Leo pressionavam aquele ponto sensível através do tecido fino. Ela precisava de pele com pele... precisava da liberação que podia sentir se construindo. Leo emitiu um gemido baixo quando ela lhe cobriu a mão com a sua, guiando-o em direção à extremidade da renda francesa, implorando-lhe para alcançar o lado de dentro. As mãos dele estavam em todos os lugares... os lábios estavam junto a sua orelha, murmurando palavras incompreensíveis em italiano. Ele parou momentaneamente, os quadris pressionados contra os seus, enquanto Dara estava deitada sob ele no sofá. – Dio, você me deixa louco – murmurou ele com voz rouca. – Precisamos ir mais devagar por um momento... Eu preciso ir buscar proteção no quarto – acrescentou, trilhando a língua ao longo do pescoço dela, lambendo a depressão na altura da garganta. Dara sentiu como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre sua cabeça, quando percebeu o que estivera prestes a acontecer. Ela mal o conhecia, e estivera prestes a fazer sexo selvagem e desprotegido com ele, no sofá. Onde estava seu autocontrole? Saindo de baixo do corpo poderoso, ela lutou contra a emoção se construindo em seu peito. – O que houve? Leo a abraçou, o peito largo desnudo ainda queimando contra sua pele. Ela empurrou-o com mais força desta vez, notando a expressão dele se tornar


confusa enquanto ele se afastava, deixando-a se levantar. – Eu não posso fazer isso – disse ela, puxando o vestido amassado para baixo, a fim de cobrir sua pele exposta. Sentia-se completamente nua, mortificada diante de seu próprio comportamento. Leo se levantou, então permaneceu muito imóvel, a respiração ofegante e as maçãs do rosto ruborizadas. – Foi você quem começou isso, Dara. – Eu não beijei você... assim – gaguejou ela, tentando desesperadamente controlar sua própria respiração dificultada. – Você está zangada porque eu a beijei ou porque você gostou do beijo mais do que deveria? – Nós mal nos conhecemos. Eu não faço coisas como essa. Não era mentira. O pensamento de sexo casual era um conceito totalmente estranho para ela. Mas, no momento, seu pânico não tinha nada a ver com moral, e mais a ver com o pensamento de se aproximar de qualquer homem, novamente. – Eu a faço perder o controle, Dara. É por isso que você não gosta. Não sei por que tem tanto medo de se permitir sentir prazer. – Não presuma que você me conhece... ou sabe como eu me sinto. – Ela meneou a cabeça. Ele não sabia como era ter sua vida planejada tirada de você sem aviso. Ter um homem em quem você confiava destruindo seu valor, sua autoestima. Dara poderia facilmente usar sexo com Leo para relaxar e esquecer sobre o passado. Mas não o faria, e essa era a sua escolha de como lidar com a situação. Leo deu de ombros, claramente não querendo mais discutir a questão. – Tudo bem. Informe-me quando você mudar de ideia. Ela andou para a porta do seu quarto, olhando para trás mais uma vez, para onde ele estava parado como um deus grego, no meio da sala de estar ornada. – Eu não mudarei. – É TÃO bom ter nosso Leo de volta... não é, garotas? A família Lucchesi estava reunida na sala de estar formal do palacete histórico deles em Palermo. Umberto Lucchesi era famoso por colecionar o que


considerava preciosidades entre seus grandes tesouros do país. Seu amor por arquitetura histórica era herdado de sua linhagem aristocrática. Gloria sorriu quando suas duas filhas adolescentes assentiram com a cabeça, em uníssono, e Leo pôs a mão sobre a de Dara, sentindo-a ficar um pouco tensa. A expressão facial traía o desconforto interno, mas ela sorriu-lhe... um sorriso caloroso, sem dúvida, designado para mostrar afeição. Ele podia ver a confusão nos olhos acinzentados, sentir como ela se tornara distante desde a noite anterior. A noite de Leo tinha consistido de um banho gelado e um copo de uísque muito necessário. Dara gostara de beijá-lo, e do que se seguira, muito mais do que pretendera. Ele se lembrava da sensação das curvas suaves dos seios dela sob suas mãos. Ela era puro calor sob todo aquele gelo. Mas agora, conhecendo o gosto maravilhoso da pele de Dara, era ainda mais difícil se sentar perto dela sem jogála por sobre seu ombro, como um homem das cavernas, e achar a cama mais próxima. O único problema agora era que ele imaginava se algum dia teria o bastante. Ela era inebriante. Desde que eles haviam chegado ao jantar, Leo se descobria tocando-a por qualquer motivo. Não tinha dúvidas de que ela viria a ele antes que a noite terminasse... podia ver isso no jeito sedutor como ela o fitava toda vez que ele não estava olhando. Dara estava em guerra com suas regras, mas Leo tinha a impressão de que sabia quem venceria. Dara enviou-lhe outro olhar quando ele descansou a mão nas costas dela. Seu tio interrompeu seus pensamentos eróticos. – Leo, vamos fumar um charuto lá fora e deixar as mulheres conversarem. – Umberto gesticulou para que ele o seguisse para o terraço dos fundos. Com relutância, Leo saiu e fechou a porta, deixando Dara do lado de dentro, com sua tia e primas. Era óbvio que seu tio sabia por que ele estava lá. Ele conseguira ficar a sós com Umberto... agora tudo que precisava era apelar para a lógica do homem e tentar convencê-lo de seu valor. Depois, poderia focar-se em Dara. – Então, sobrinho. Você fez uma boa jogada. – Umberto acendeu um charuto, deixando a fumaça girar no ar entre eles, antes de oferecer um para Leo. Leo recusou-o com um aceno da mão.


Umberto soltou uma nuvem de fumaça, olhando para o céu que estava escurecendo. – Então, conte-me, usar a loira é uma parte vital de seu plano, ou apenas um pequeno divertimento extra, enquanto você está aqui? – Dara e eu estamos saindo juntos por um tempo, agora. – Poupe-me das mentiras, Valente. Você sabe que eu não as recebo bem – ralhou o homem mais velho. – Ela é muito boa para um patife como você. Dara tem caráter. Leo sentiu um calafrio estranho na nuca. – Umberto, qualquer coisa que tenha acontecido entre meu pai e o seu é passado. Eu sou completamente diferente dele. – Eu posso dizer, pela sua reputação, que você não valoriza família. Essa é a pior característica dos Valente. Um homem siciliano põe a família em primeiro lugar. – Meu estilo de vida é irrelevante. Eu sou a escolha mais óbvia para seu projeto de desenvolvimento. Isso está claro para todos ao seu redor, entretanto você se recusar a me deixar participar. Eu tenho a especialidade e os recursos. – Não estou falando sobre seu lado mulherengo, embora eu prefira fazer negócios com homens de família que conhecem o verdadeiro significado da responsabilidade. – Umberto estreitou os olhos, encarando Leo com raiva. – Quer saber por que eu estou bloqueando essa negociação? Eu me recuso a fazer negócios com alguém que trata pessoas de seu próprio sangue como lixo. Leo sentiu o comentário feri-lo profundamente. Sabia que Umberto estava se referindo a sua mãe. Ao jeito como ela havia sido tratada pelo seu pai... e por Leo, até certo ponto. – Seu pai acabou matando minha irmã cedo demais. O nome Valente não significa nada para mim, exceto egoísmo e traição. – Minha mãe se matou, tio. Ela cometeu suicídio. Não era a mulher que você pensa que ela era. – Ela não era perfeita, eu sei. Mas merecia mais do que ser trancada como um segredinho sujo. Leo sentiu a dor nas palavras de seu tio atingi-lo. Sua mãe tinha merecido mais... os dois tinham. A única pessoa culpada pela vida que eles haviam levado era seu pai. Mas Leo se recusava a discutir sobre fantasmas, quando seu objetivo


estava ao alcance de suas mãos. Memórias pertenciam ao passado, e não podiam mais machucar ninguém. – Eu não estou aqui para falar sobre histórias antigas. Estou aqui para falar sobre o projeto Isola. Pensei que, vindo aqui pacificamente, curando a rixa entre nós, poderíamos, por fim, nos ver como iguais. – Nós nunca seremos iguais enquanto um Valente possuir terras Lucchesi. Leo pensou no castello em Monterocca. A família de sua mãe fora dona do Castello Bellamo por centenas de anos, até que ela se casasse com um Valente e o transferisse de nome. Ele falou em voz baixa, ciente da raiva desenfreada de Umberto diante do que ele percebia como outro insulto ao nome de sua família. – Eu sou metade Lucchesi, lembra? Umberto meneou a cabeça. – Minha mãe não ficaria feliz em saber que seu irmão está tratando seu filho assim, Zio. Umberto arqueou uma sobrancelha grisalha. – Não brinque com meu sentimentalismo. Ele não existe. Leo estava exasperado. O homem o estava atacando por todos os lados, não deixando espaço para negociação. – O que eu devo fazer para lhe provar meu valor? – Você sabe o que eu quero. A mesma coisa que eu disse ao seu pai que queria no dia em que ele colocou minha irmã debaixo da terra. Leo esfregou uma mão no rosto. Tivera o pressentimento de que a conversa poderia chegar a isso. – Eu sou o primogênito e tenho direito ao castello. – Foi construído com o sangue Lucchesi. Minha família tem muito mais direito a Bellamo. – Você está me pedindo para que eu me desfaça do lugar que chamei de lar durante a maior parte da minha infância. – Se o castelo tem tanto valor sentimental para você, por que o deixou apodrecer? Quer participar do projeto Isola? Você sabe o que eu quero. O homem mais velho entrou na casa, deixando Leo sozinho no terraço com nada, exceto o som das ondas batendo contra as pedras no golfo.


Muito silêncio o deixava irritado, e ele ficou grato quando Dara foi encontrálo, momentos depois. – Como foi a conversa? – perguntou ela. – Tão bem quanto eu imaginei que seria. – Ele deu de ombros. – Umberto deixou claro o que será necessário para me deixar entrar no projeto. – É algo que você pode fazer? – perguntou ela inocentemente, entregando-lhe uma taça de vinho. – Complicaria muitas coisas. Chatearia muitas pessoas. Ele pensou na fisionomia de Dara quando ele lhe contara seu plano para o castello. Ele a ouvira ao telefone com a cliente, confirmando os detalhes do contrato delas. Leo oferecera a Dara uma solução completa para os problemas dela... uma chance de levar sua carreira para um próximo nível e evitar a ruína. Como iria dizer que precisava lhe tirar tudo? O contrato deles tinha aberturas a seu favor... ele se certificara disso, no caso de acontecer o que estava acontecendo agora. Soubera que havia uma possibilidade de Umberto usar o projeto Isola para obrigá-lo a vender o castelo, mas não planejara ter de se preocupar com os possíveis efeitos disso. Dara o olhou pensativamente. – Você quer esse negócio o bastante para ter aceitado meu evento no castelo. Não vejo o que pode ser tão importante para você considerar desistir agora? Leo sabia que Dara não tinha ideia do que estava falando, mas estava certa. Eles não se conheciam bem o bastante para que ele levasse os sentimentos dela em consideração. Não tinha motivo para se sentir culpado. A perda do espaço para o casamento da atriz talvez causasse problema a ela, mas ele a pagaria, certificando-se de diminuir o golpe financeiro. Ele não lhe contaria imediatamente. Esperaria, pelo menos, até que tomasse sua decisão. DARA NOTOU o maxilar rijo de Leo quando eles entraram na limusine. Tinha sido uma noite longa de conversa educada. O tipo de conversa que surgia quando havia muita tensão no ar. Ela notou que o ar de travessura, que geralmente o cercava, evaporara, sendo substituído por uma distância fria. Descobriu-se imaginando por que ele mudara de humor, desejando que Leo falasse alguma coisa inapropriada e quebrasse o silêncio. Ela passara a noite


inteira argumentando todas as razões pelas quais não deveria atravessar o corredor e subir na cama dele. Aquilo fora pura tortura, com cada fibra de seu corpo incentivando-a a ceder ao desejo que ele lhe despertava. – Você não para de me olhar – disse ele com seriedade. – Algo a dizer? Dara arqueou as sobrancelhas diante do tom de voz dele. – Eu só estava me perguntando por que você está sentado aí como uma criança petulante, de repente. – Eu não estou no humor para isso, agora – avisou ele. – Você pode ser imbecil o quanto quiser, mas, se isso volta para você, fica irritado? – Ela riu, tentando suavizar o humor. – Eu fui avisado para não fazer jogos, para me comportar, se bem me recordo. Depois que o espetáculo acabasse. Ou você já se esqueceu de ontem à noite? Dara sentiu calor inundar suas faces. Como algum dia se esqueceria da noite anterior? A lembrança daquela boca deliciosa devorando a sua e da mão grande deslizando entre suas coxas a mantivera acordada pela maior parte da noite. Ela não tinha conseguido dormir, sabendo que ele estava tão perto, confusa pelo desejo repentino que a consumia. Não era assim que ela normalmente reagia aos homens... não desde que tomara a decisão de nunca estar com um homem novamente. Era incapaz de raciocinar com clareza perto de Leo, e incapaz de resistir à tentação que ele oferecia. – Como eu disse, não estou no humor de fazer jogos. – Ele olhou para fora da janela, inconsciente da natureza dos pensamentos dela. – E se eu não estiver mais fazendo jogos? – Dara falou em voz baixa, não sabendo exatamente o que estivera prestes a fazer até que as palavras saíssem de seus lábios. – E se eu mudei de ideia, Leo? Leo observou-a por um momento, movendo uma mão para descansá-la casualmente na coxa dela. – Acho que talvez você precise me falar com todas as letras, carina. Caso eu esteja entendendo errado. Com dedos trêmulos, Dara cobriu-lhe a mão com a sua. Ancorando-o ali. Aquilo era loucura. Ela deveria se afastar, fazer um comentário irritadiço ou mostrar indiferença, e não segurar a mão dele como uma devassa. Este era o problema, todavia: ela se sentia devassa.


Sentia-se mais excitada sexualmente do que já se sentira em seu relacionamento inteiro com seu ex-noivo. Com Dan, tinha sido respeito mútuo, afeição. Isso era pura luxúria. Ele estava completamente imóvel, observando sua reação com intensidade. Dara podia sentir os olhos verdes queimando-a. Ela parou de pensar, agarrou a frente da camisa dele e beijou-lhe os lábios.


CAPÍTULO 5

LEO SENTIU o último resquício de contenção desaparecer numa onda de calor, enquanto deslizava as mãos pelas laterais do corpo de Dara e beijava-lhe a boca com paixão. Toda a frustração contida estava sendo liberada de ambos, enquanto os dedos dela entrelaçavam em seus cabelos, puxando sua cabeça para mais perto, no momento em que ele se abaixou para lhe beijar o pescoço. Leo começou a abrir os primeiros botões da blusa de Dara e sentiu-a hesitar. Ele arqueou uma sobrancelha numa pergunta silenciosa. Dara respondeu, puxando-lhe a cabeça de volta para cima e beijando-o novamente. Emitindo um gemido baixo, Leo ergueu-a do assento e colocou-a sobre seu colo. Moldou as curvas deleitosas ao seu corpo, levantando a saia até acima dos quadris de Dara e deslizando as palmas ao longo das coxas delgadas. – Meu Deus, você é perfeita. Ele gemeu, segurando-lhe ambos os seios nas mãos e massageando-os gentilmente. Então, levantou os quadris, moldando seus corpos de um jeito que a fez arfar. Podia sentir a umidade entre as pernas de Dara. Ela já estava queimando por ele. – Nós não deveríamos estar fazendo isso aqui no banco de trás – sussurrou ela. – O motorista pode ver. Ele ignorou o sussurro e moveu-se contra ela novamente, sorrindo quando Dara gemeu mais alto. – Eu acho que você está apreciando o risco. – Sim... – concordou ela, fechando os olhos numa onda sensual no momento em que ele se moveu contra ela num ritmo firme.


Leo se sentiu vitorioso ao observá-la perder o controle e se entregar ao prazer que ele estava lhe dando. Ele puxou o sutiã para baixo, expondo os mamilos para sua visão. – Lindos – murmurou, tomando um bico rijo na boca, depois o outro. A limusine percorreu um terreno irregular, e seus corpos se moveram juntos com as vibrações, enquanto ele se deleitava, como se ela fosse uma sobremesa. Sua ereção pressionou o centro feminino, torturando os dois com a fricção deliciosa. Leo vagamente a ouviu praguejar, e sentiu o corpo de Dara ficar mais tenso quando ele mordiscou um bico gentilmente. O tremor repentino da liberação dela pegou a ambos completamente de surpresa, fazendo-a tombar ofegante em cima dele. – Dio, essa foi a coisa mais erótica que eu já vi na vida – disse ele, beijando uma trilha ao longo do pescoço dela. Dara se sentou de pernas abertas sobre ele, com as mãos unidas atrás de seu pescoço. Leo se mexeu, dolorosamente cônscio de sua ereção ainda pressionando a calcinha molhada dela, de maneira insistente. Ela acomodou-se mais para trás no colo dele, as faces rosadas do efeito do orgasmo. O sorriso tímido nos lábios bonitos era de tirar o fôlego, antes que ela descesse o braço e pusesse a mão sobre a saliência de seu jeans, mordendo o lábio quando ele gemeu em resposta. Ver, mais uma vez, o quanto ele a afetava era mais do aquilo com que Leo podia lidar. Era como uma droga. Agora que ele experimentara, queria mais e mais. O pensamento de tomá-la ali, no banco traseiro da limusine, no escuro, quase o levou ao clímax na hora. Com extrema força de vontade, Leo cobriu-lhe a mão com a sua, no momento em que Dara começou a descer o zíper de seu jeans. Ela congelou, confusa sobre o motivo pelo qual eles estavam parando. – Nós estamos quase chegando ao palazzo – disse ele, sorrindo diante do evidente desapontamento dela. Leo tinha sido bem-sucedido em seus esforços de seduzi-la. Ela agora era sua para que ele a tomasse. Entretanto, ele experimentou uma estranha dor na consciência, ameaçando esfriar seu desejo.


Dara desceu do seu colo e começou a abotoar a blusa branca com dedos trêmulos. Os cabelos loiros estavam desalinhados, caindo sobre os ombros... a saia havia se torcido em volta da cintura fina. Ele praticamente a violentara no banco traseiro de um veículo em movimento, e agora, como um típico Valente, estava planejando tomar o que queria, antes de dispensá-la. Dara não quereria ter mais nada a ver com ele, se Leo aceitasse o acordo de seu tio. As palavras de Umberto se repetiram em sua mente: ele era exatamente como seu pai. O pensamento teve o mesmo efeito de um balde de água fria em sua cabeça. Ela deu-lhe um sorriso sedutor, enquanto eles subiam, lado a lado, os degraus de mármore do palazzo. No momento em que eles entraram, Leo hesitou. – Eu acho... que você deve subir sozinha daqui. – Ele evitou-lhe os olhos. – Você não vai subir? – perguntou ela, confusa diante da súbita frieza dele. Dara claramente presumira que eles continuariam seu encontro, depois do que acabara de acontecer no carro. Ela não percebia que ele estava precisando de cada fibra de seu autocontrole para não a carregar para aquela cama ridiculamente erótica dela e amá-la durante a noite inteira. Os lábios de Dara estavam rosados pelos seus beijos, os cabelos, deliciosamente embaraçados. E, mais uma vez, aquele sutiã de renda o estava provocando através da blusa branca. – Eu tenho algumas coisas para fazer, antes de irmos para Ragusa, amanhã. Ele evitou-lhe o olhar, gesticulando para o manobrista, que lhe entregou as chaves de seu Porsche. Dirigir um pouco talvez clareasse sua cabeça dessa culpa ridícula. E talvez o livrasse dos fantasmas que perseguiam cada pensamento seu. – Você vai ficar fora por muito tempo? – perguntou ela. Leo continuou a andar, recusando-se a se virar, com medo de mudar de ideia. – Eu vejo você no café da manhã, Dara. Durma bem. A VIAGEM deles para a província de Ragusa foi feita, na maior parte, em silêncio, exceto por uma breve parada para almoço num restaurante de estrada. Em menos de três horas, eles chegaram à margem do Mar Jônico, e, vinte minutos depois, estavam subindo a longa extensão da estrada costeira e entrando na pequena cidade adormecida de Monterocca.


Continuaram na estrada sinuosa para onde os penhascos começavam a baixar para praias e pequenas docas de pesca. Quando eles fizeram a última curva em volta do promontório, Dara inalou profundamente. O cenário era espetacular. O castelo erguia-se sobre um promontório rochoso, dominando a paisagem ao redor com suas torres altas e muros imponentes. Quando eles passaram pela entrada com pilares de pedra, Dara se sentiu subitamente minúscula diante da enormidade do lugar. Tinha apenas visto fotos de lá antes de agora, e fotografias eram nada quando confrontadas com a coisa real. Os muros de pedra pareciam brilhar em tom rosado em alguns lugares, com torres medievais oferecendo os pontos mais altos. A longa alameda reta saindo da estrada principal era acidentada e indomada. Folhagens selvagens pareciam se fechar em envolver o carro completamente em alguns pontos. Finalmente, eles chegaram a um grande pátio asfaltado, com uma fonte circular no meio. Estátuas esfarelando estavam erguidas de maneira arbitrária por toda a parte, algumas tendo perdido suas cabeças, outras sem membros. Dara saiu do carro e esticou o pescoço para olhar o majestoso trabalho em pedra que decorava a entrada. Assim de perto, ela podia ver o estado precário no qual o castelo tinha sido deixado. Blocos de pedra haviam caído das paredes em alguns lugares. As janelas pareciam pretas de poeira, e sujeira e ervas daninhas cresciam em cada fenda. Mesmo assim, estar cercada por tanta história era uma sensação poderosa. – Este lugar é de tirar o fôlego. – Ela suspirou quando falou em detalhes sobre a fachada. Apontou para uma ala que se estendia num ângulo incomum da torre quadrada principal. – Aquela parte é medieval, não é? – perguntou curiosamente. Seu conhecimento de arquitetura era bem básico... no geral, ela deixava detalhes históricos para os especialistas. Leo rodeou o carro para parar ao seu lado, cruzando os braços sobre o peito e inclinando-se casualmente contra a porta. – O lugar inteiro é apenas uma grande colcha de retalhos de várias eras. Eu nunca pensei nele como particularmente bonito. Dara balançou a cabeça com incredulidade. – Como você pode dizer isso? São as imperfeições que tornam o lugar tão incrível.


Ele estava usando óculos escuros, mas ela ainda podia ver a inclinação sardônica das sobrancelhas, quando Leo se virou para encará-la. – Então, sua atriz de Hollywood está reservando o castelo baseada em todas as suas imperfeições incríveis, certo? – Na verdade, eu acho que ela quer o lugar porque seu primeiro filme foi sobre um príncipe siciliano. Eles filmaram em Palermo, mas aquele castelo em particular foi demolido. Aparentemente, este é bastante similar. – Ela deu de ombros. – De qualquer maneira, eu não discuto com boa publicidade. Ele emitiu um som em concordância e tirou um molho de chaves do bolso. Não falou mais uma palavra, ainda no mesmo humor distraído da noite anterior. Eles entraram no grande hall com um teto que devia ter a altura mínima de três andares. As janelas estavam tão imundas que a luz mal conseguia entrar. Leo lhe dissera que os únicos empregados do castelo eram uma mulher que morava na região, Maria, e seu marido, que cuidavam das tarefas básicas. Pelo que Dara podia dizer, eles tinham feito o possível para impedir que o terreno fosse invadido por ervas daninhas e para manter a poeira o mínimo possível, com o castelo fechado por tanto tempo. – Certo, vamos acabar logo com isso – falou Leo em tom ríspido. Dara pegou a prancheta que levara para tomar notas, dando de ombros quando ele a olhou com curiosidade. – Eu achei que poderia anotar minhas ideias enquanto fazemos o tour. – Sempre tão eficiente. – Ele suspirou. – Não fique para trás. Acredite, você irá se perder. As vozes deles ecoavam alto nas paredes de pedra, enquanto Leo lhe mostrava o nível inferior da ala principal. O lugar era gigantesco, e Dara já sabia que realmente se perderia, se não o seguisse de perto. Ela correu os dedos ao longo de um aparador empoeirado, olhando para uma fileira de fotografias emolduradas de um Leo pequeno. Com cabelos encaracolados, olhos verdes-esmeralda, ele sorria de modo travesso para a câmera. Dara não pôde evitar sorrir diante das fotos. – Não posso acreditar que você viveu num lugar como este quando criança. Deve ter sido uma grande aventura, dia após dia.


Ele seguiu seu olhar, os próprios olhos se estreitando em suas fotos de criança. – Não foi nada como você imagina. Ele continuou descendo o corredor, nomeando cada cômodo por onde eles passavam num tom de voz entediado. Eles subiram a escadaria em espiral, e Dara começou a andar mais lentamente ao longo dos corredores, atrás de seu guia mal-humorado. Ela queria ver o lugar propriamente... não de maneira apressada. Parou quando eles passaram por um conjunto de largas portas duplas. Ela sabia, pelo resto do castelo, que tais portas levariam à outra área privada. – Você não disse o que há além destas portas – chamou ela, quando ele continuou andando em frente. – Essa é uma área restrita. Continue andando. – Leo parou no topo do hall, impacientemente. Dara franziu o cenho. Eles deveriam inspecionar o castelo inteiro, para que ela pudesse fazer os arranjos para a reforma. Como qualquer área podia ser restrita? – Isso está começando a parecer uma cena de um conto de fadas muito fraco. É lá que a fera mora? – Ela riu, esperando suavizar a atmosfera. Podia ver a silhueta de Leo, imóvel nos fundos do hall, uma mão descansando sobre uma mesa lateral, enquanto ele esperava que ela o seguisse. Dara sentiu frustração subir à superfície. Ele estivera extremamente irritadiço durante toda a manhã, e, desde a chegada ao castelo, parara de interagir com ela completamente. Era evidente que não estava disposto a fazer aquele trabalho de maneira apropriada, mas isso não significava que ela não o faria. – Eu preciso dar uma olhada em tudo que há aqui dentro. Sem exceções. Ela virou a maçaneta da porta para a ala lentamente, observando a reação dele. Leo não se mexeu quando o som das dobradiças se abrindo ecoou através do hall. Bem, ele podia ficar à vontade, podia ficar parado ali com seu mau humor o quanto quisesse, pensou ela, teimosamente. Agarrando a prancheta, ela abriu mais as portas e atravessou para a misteriosa área proibida. LEO FICOU congelado no hall, ouvindo os passos de Dara ecoarem ao longo de seu passado. Ele lhe dissera para não entrar lá. É claro que ela não ouvira. Dara estava


determinada a cavar cada memória que aquele lugar esquecido por Deus tinha a oferecer. Sua visão inicial do castelo não o perturbara tanto quanto ele imaginara que o perturbaria. Depois de 12 anos, Leo ainda se lembrava de cada janela, cada fenda na fachada. Jurara permanecer sem emoção e lógico. Era uma construção... não um demônio. Ele lhe mostraria o lugar de maneira prática, arranjaria a firma que realizaria a reforma, e depois faria um esforço para se desculpar pela noite anterior. Após seu encontro com Umberto, e toda a conversa deles sobre o castelo, Leo se descobrira momentaneamente arrependido de seu interesse em conquistar Dara. A oferta de seu tio era tentadora, mas concordar com ela significava mentir e enganar. Ele não deveria se importar em magoá-la. Deveria ter apenas tomado o que ela claramente estivera pronta para oferecer. Todavia, alguma coisa em seu interior o detivera, e Leo passara a noite dirigindo furiosamente por diversas estradas costeiras, antes de retornar para o palazzo, uma vez que tivera certeza de que Dara tinha ido dormir. Ele virou-se em direção às portas através das quais ela desaparecera. Não ia entrar lá. Havia apenas certa quantidade de coisas que podia absorver em um dia. Aquele castelo hospedava mais do que suas próprias memórias de infância. Um barulho alto de algo caindo veio do corredor, seguido pelo grito de uma mulher. Droga, Dara, pensou ele, zangado, enquanto ia para a maior ala do castelo, descendo o longo corredor acarpetado e entrando na suíte máster, onde seus pais uma vez haviam dormido. Dara estava de pé numa das cadeiras cobertas por lençol branco, os olhos varrendo o chão de modo selvagem. – Desculpe, havia ratos em cima da cama! – gritou ela, agarrando a prancheta amassada como um escudo na frente do peito. – Ratos enormes – acrescentou, tremendo. Os olhos de Leo percorreram a grande cama que dominava o quarto. Um dossel majestoso caía do teto para descansar nas quatro colunas da cama. Sua mãe o importara de Paris. Ele lembrava-se de ouvi-la se gabando sobre o dossel para uma de suas amigas. Tinha pertencido à rainha. Aquela fora sua mãe... sempre fascinada pela realeza.


O peso das memórias há muito reprimidas estava começando a esmagar sua autocontenção. Ele precisava sair daquele castelo agora... antes que perdesse a cabeça. – Eu lhe disse para não entrar aqui – murmurou Leo, observando os olhos acinzentados se arregalarem. – Desça dessa cadeira. Não há ratos. Dara abaixou um pé no chão, ainda ansiosamente estudando cada perímetro do cômodo escuro. – Havia, no mínimo, três ratos. Eles correram quando eu derrubei minha prancheta – disse ela, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o escudo improvisado. – Eu não ligo a mínima para ratos. O lugar está provavelmente infestado com todo tipo de insetos e outros animais nojentos. Leo apertou a ponta do nariz, tentando ignorar as lembranças que ameaçavam sufocá-lo. Seus olhos castanhos estavam sem vida, olhando para nada... – Eu terei de me certificar de que todos os cômodos sejam esvaziados antes que possamos consultar um empreiteiro para a restauração – murmurou ela, indo para seu lado, inconsciente de seu tumulto interno. – Leo, você está me ouvindo? Nós precisamos anotar todos os detalhes... Dara aproximou-se mais, e ele virou-se para ela sem aviso. – Apenas pare com seus detalhes por uma vez e desapareça deste quarto. – Sua voz foi ríspida, e ele viu os olhos dela aumentaram com choque. – Leo... sinto muito se eu disse alguma coisa que o aborreceu. – Eu estou bem – replicou ele entre dentes cerrados. – Preciso ir encontrar a empregada. Você pode terminar o resto de seu tour, sozinha. Leo virou-se e saiu do quarto. Precisou de todo seu esforço para não correr, como se estivesse sendo perseguido pelos fantasmas que atormentavam sua memória. Nunca deveria ter voltado para esse lugar. Um lugar que o fazia sentir coisas que ele jurara nunca mais sentir. Mas não era culpa de Dara que Leo estivesse nervoso, e ele fez uma anotação mental para recompensá-la, uma vez que recuperasse seu controle emocional. DEPOIS DE três horas catalogando cada cômodo do castello, Dara precisava de um banho. Muito. Da residência inteira, apenas três quartos eram mantidos abertos


e conservados limpos, juntamente com a cozinha, uma das salas de jantar e um salão no andar de baixo. Todos os outros cômodos estavam fechados, os móveis, cobertos por lençóis brancos empoeirados. Ainda assim, ser a única pessoa andando por um lugar preenchido com tanta personalidade era mágico. Leo saíra do castelo completamente, deixando um recado para ela com a empregada, dizendo que eles jantariam às 18 horas. O abandono dele não a importunou. Ela apreciou seu tempo, sozinha com seu trabalho. O pensamento de todas as possibilidades que aquele local continha deixou-a zonza, enquanto ela escolhia uma das suítes para tomar um banho e lavar toda a poeira de seu corpo e cabelos. Casamentos poderiam acontecer lá em qualquer estação, pensou, sentando-se à penteadeira dourada perto da cama e enxugando seus cabelos com uma toalha. Cerimônias de verão ao ar livre com vista para os penhascos... festas de inverno à luz de velas no salão de bailes. Dara realmente amava seu trabalho, e sabia que podia deixar aquele castello lindo novamente... levá-lo de volta à vida. Ela não seria somente conhecida por planejar o casamento do ano, mas também teria direitos exclusivos a um dos lugares mais cobiçados do país. Uma vez que estava pronta, num vestido preto estilo envelope e em seus sapatos confiáveis, ela desceu para a sala de jantar. Leo estava parado diante da lareira, e deu um passo à frente quando ela entrou no cômodo. – Que bom ver que você voltou. – Dara passou por ele, determinada a não demonstrar como a frieza dele estava afetando-a. Leo ajudou-a a se sentar numa da cadeiras localizada à extremidade de uma mesa absurdamente longa. – Espero que você esteja com fome. Maria se excedeu. Os lugares deles estavam postos à mesa lado a lado... muito mais conveniente do que ter de gritar um para o outro de cada extremidade da sala. – Isto é bastante íntimo para uma simples refeição. – Dara se serviu de uma taça de vinho, notando que cada um dos candelabros antigos tinha sido aceso em volta da sala. O efeito geral era lindo, e estrategicamente romântico. – Tudo que está faltando é um violinista, e eu me sentiria uma verdadeira aristocrata – brincou ela.


– Eu tomarei nota disso. – Ele sorriu quando Maria começou a servir um prato de frutos do mar delicadamente preparado. O cheiro de camarões com molho de limão preencheu o ar, para ser seguido por pesce spada e legumes cozidos no forno. Peixe-espada era seu favorito desde que ela se mudara para a Sicília. Eles conversaram sobre as ideias de Dara nas renovações, e Leo ouviu seus planos animados com atenção. No momento em que Maria tirou a mesa, a fome de Dara havia sido mais que satisfeita. Leo terminou sua taça de vinho, agradecendo Maria pelo serviço e recusando sobremesa. Ambos concordaram em permitir que a mulher mais velha voltasse para a própria casa, depois de ter preparado uma refeição tão espetacular. Uma vez que eles estavam a sós, Leo inclinou-se para a frente em seu assento, os olhos verdes mais escuros do que o usual na luz parca. – Eu quero me desculpar por meu comportamento, Dara. – Você não precisa se desculpar por nada. Nós dois temos direito de mudar de ideia. – É isso que você acha que aconteceu? – Ele meneou a cabeça. – Dara, olhe para mim. Eu não mudei de ideia sobre coisa alguma. Nem um pouco. Apenas sinto que eu a coagi a essa situação. Que fui grosseiro. Ela sentiu uma onda de alegria inundando-a, ao saber que ele não a rejeitara. Não que isso tornasse menos duro o modo como Leo a tratava. – Sou uma mulher adulta que pode fazer suas próprias escolhas, sabe? Eu não estaria disposta a... você sabe... se aquilo não fosse algo que eu queria. Leo riu. – Parece que eu fiz uma confusão total disso. Ele prendeu-lhe o olhar por um momento, antes de se levantar. – Eu quero lhe mostrar a praia, antes que escureça. Vamos caminhar? Dara hesitou, olhando para seus sapatos. – É outubro... – Nós podemos tirar dez minutos para apreciar o pôr do sol... você não vai congelar. Não negue a si mesma um pouco de prazer na vida. Nem sempre é sobre o cenário maior. Dara seguiu-o pela cozinha, antes que eles descessem alguns degraus de pedra nos fundos do castelo. O pátio estava ficando mais escuro a cada minuto,


enquanto eles atravessavam os jardins, em direção ao penhasco. Leo removeu os sapatos, deixando-os no topo dos degraus de pedra. Virou-se para Dara, onde ela estava parada no degrau mais alto. – Vamos, faça alguma coisa espontânea por uma vez. – Eu não sou tão rígida quanto você pensa que sou – disse ela, e tirou as sandálias delicadas. Ela aceitou o braço de Leo quando eles desceram os degraus para a praia abaixo dos penhascos. Dara tinha um pouco de medo de altura, mas ele segurou sua mão com força, até que eles estivessem com os pés na areia. – Meu tutor me trazia aqui embaixo, às vezes, para aulas de ciências. – Leo pegou uma pequena pedra e atirou-a na água. – Ele era o homem mais desinteressante que eu já conheci. Dara estava intrigada pela súbita disposição dele de falar sobre o próprio passado. – Você não frequentou uma escola? – As escolas da região eram muito comuns para meu pai, que acreditava que ele e a família eram importantes demais para elas. Eu tive muitos tutores. Todos dentro do castelo. – Isso parece solitário. – Eu nunca conheci nada diferente. – Leo deu de ombros. – Esse era simplesmente o jeito como as coisas eram. Dara imaginou o jovem garoto que vira nas fotografias totalmente sozinho, vagando pelos terrenos do castelo. – Sua mãe aprovava seu isolamento? Leo andou mais para a frente na praia, indo em direção a uma pequena marinha aninhada na face do penhasco. – Minha mãe não tinha realmente uma opinião em muita coisa. Dara o seguiu de perto. – Você pareceu muito zangado quando eu entrei no quarto dela, hoje. – História da família não é meu tópico favorito – replicou ele, olhando para o pequeno cais. – Eu entendo. – Dara entendia muito bem. Observou quando Leo deu um passo à frente, subindo no píer de madeira fraca. Havia um barco amarrado a um poste. Com madeira apodrecida e preta


em algumas partes, era um milagre que o píer ainda não tivesse sucumbido ao oceano. Ela imaginava que o clima poderia se tornar violento ali, durante a maré alta. Leo limpou um lugar no cais, de modo que eles pudessem se sentar e assistir ao sol se pondo no mar. – E quanto a você, Dara? Alguns esqueletos no seu armário perfeitamente organizado? Ela deu de ombros. – Suponho que todo mundo tem um evento ou um relacionamento em seu passado que molda seu futuro. – Essa foi uma maneira muito educada de se esquivar da minha pergunta. – Eu não tenho um segredo profundo e terrível, se é isso que você quer dizer. Minha infância foi normal. Sem histórias tristes ou eventos traumáticos. Ele virou-se para olhá-la brevemente. – Bem, então, o que fez você se mudar de país e de uma vida perfeitamente feliz? – Minha carreira me trouxe para cá, e eu decidi ficar. – Entretanto, você nunca substituiu seu ex-noivo. O relacionamento acabou mal? – Muito poucos relacionamentos acabam de forma calma e lógica. – Ela brincou com a bainha do vestido, sentindo-se desconfortável diante da virada que a conversa tinha tomado. – Então, o que houve para que você decidisse que não ia se casar com ele? – questionou Leo. Ela suspirou, movimentando um dos ombros em sinal de indiferença. Claramente, Leo não ia desistir dessa linha de questionamento tão cedo, então era melhor lhe contar alguma coisa. – Dan era um médico muito bem-sucedido... um cirurgião altamente respeitado. O melhor no campo dele. E deixou claro que queria a família profissional típica. Sabe... a esposa amorosa com o jantar na mesa, dois filhos para lhe dar um beijo de boa noite. Ele tinha todos os detalhes planejados... incluindo o nome do Golden Retriever que nós teríamos. – Parece muito detalhado. Uma combinação feita no paraíso, eu diria.


– No papel, talvez. Pensei que fosse aquilo que eu queria. Achei que esse tipo de vida nos faria felizes. Mas, no final, eu não preenchia todos os requisitos dele. – Você não pôde lhe dar o Golden Retriever? – perguntou Leo, em tom brincalhão. Dara sentiu o ar ficar preso na garganta, a lembrança daquele dia no hospital abalando-a. – Eu não pude dar filhos a ele. O sorriso de Leo desapareceu. – E isso era um problema para seu ex-noivo? Ela assentiu. – Eu descobri quando estávamos noivos por pouco mais de um ano. Três meses antes que o nosso casamento acontecesse. Eu estava me sentindo mal e fui ao hospital fazer alguns exames. Os médicos começaram a se preocupar que havia alguma coisa errada acontecendo. Dara lembrou-se de seu medo, quando ninguém fora capaz de lhe dar respostas para seus sintomas estranhos. Estava com 23 anos, na época. Os médicos nem sequer tinham considerado que menopausa precoce pudesse ser a causa de suas dores de cabeça crônicas, insônias, ondas de calor. O dia que o médico a sentara e lhe dissera que ela estava começando a se tornar infértil, e que não havia cura... – Quando eu contei a Dan, ele foi muito compreensivo no começo. A mente médica nele o fez querer conhecer todos os detalhes e consultar alguns colegas. Nós tentamos salvar alguns óvulos que poderiam ter restado no meu corpo, porém era tarde demais. Leo cobriu-lhe a mão com a sua, e ela lutou contra a vontade de puxá-la. Ele sentiria pena dela agora... assim como sua família inteira sentira. Pobre Dara estéril e seu corpo inútil. A velha autodepreciação ameaçou dominá-la. Ela levantou-se rapidamente, batendo a areia de seu vestido com movimentos bruscos. – O que aconteceu com seu noivo? – Leo também se levantou, olhando-a com cautela, como se estivesse com medo de que ela fugisse a qualquer momento. – Não é óbvio? – Dara balançou a cabeça, uma risada amarga escapando de seus lábios. – Ele queria uma esposa que pudesse procriar. Era uma situação clara.


– Ele a deixou por causa de sua condição? Que cretino cruel. – Leo pareceu furioso. Dara suspirou, olhando para o céu tingido de vermelho. Leo não entendia como as coisas tinham sido difíceis durante os meses que conduziram ao seu diagnóstico. Ela sentira dor de cabeça todos os dias, e um cansaço mortal. E sexo era tão doloroso que eles haviam parado completamente. A sensação era de que cada traço seu de feminilidade morrera no hospital naquele dia, juntamente com suas esperanças de algum dia ser mãe. Deitada numa cama de hospital, Dara ouvira seu pai conversando com Dan em voz baixa no corredor do lado de fora. Os dois homens, que supostamente a amavam, falando sobre como ela estava “estéril como o deserto”, o que era uma pena, uma vez que ela era tão linda... como se a nova realidade a tivesse manchado de alguma forma. Leo pareceu horrorizado. – Esse Dan tratava todas as mulheres como fêmeas parideiras, ou era só você? – Ele tinha um plano muito claro para sua vida. Nós dois tínhamos. Eu decidi oferecer a Dan uma chance de reconsiderar nosso relacionamento. Sabia que não era fácil para ele estar comigo durante todos aqueles meses. Eu ficava irritada o tempo todo, e não tinha o menor interesse em sexo. Se ele tivesse continuado comigo, nunca seria pai do jeito normal. – Como eu falei... ele foi cruel – murmurou Leo, fitando-lhe os olhos diretamente. – Não é culpa sua que a natureza fez isso com você. Ninguém jamais deveria tê-la feito se sentir inferior. – Eu nunca fui muito orientada pela família, mas suponho que sempre presumi que teria filhos, um dia. Agora que a escolha foi tirada de minhas mãos, sinto-me feliz por focar em minha carreira. Ela estava com os braços cruzados na frente do corpo. Leo teve vontade de abraçá-la, mas decidiu não o fazer. Agora entendia por que Dara era tão ambiciosa, tão motivada e séria. Ela mergulhara na carreira, mudara-se para um país novo... tudo num esforço de superar a dor do passado. De certa maneira, eles eram muito similares. Essa conversa se tornara muito profunda para duas pessoas que tinham se conhecido poucos dias atrás. Dara o olhou, a fisionomia de contemplação tranquila.


– Sinto muito. Eu nunca deveria ter permitido que isso se tornasse tão pessoal. – Nunca se desculpe comigo, Dara. – Leo se aproximou mais. – Não por isso. Nunca deixe alguém pensar que você é menos mulher por causa de sua condição. – Do jeito como as coisas estavam com Dan, eu pensei que estivesse destinada a levar uma vida de celibato. E então você apareceu e, de repente, eu me senti... sexual outra vez. Quase me senti normal. – Na minha experiência, o que sentimos quando nos tocamos está longe de ser “normal”. – Leo sentiu excitação percorrer suas veias, quando ela mordiscou o lábio inferior. – Tudo que eu mais quero neste momento é arrastá-la para a cama mais próxima e me enterrar em seu interior, até que você não possa mais pensar. – Oh... – Ela arfou, a voz rouca de desejo. – Eu deveria estar horrorizada diante de uma declaração tão primitiva... – Mas não está, certo? – Ele deu mais um passo, moldando seu corpo contra as curvas suaves de Dara; abraçando-a apertado, de modo que ela pudesse sentir quão desesperadamente ele a queria. – Não. Eu quero que você me tome aqui, nesta praia – disse ela sem rodeios, um sorriso brincando na boca sensual. Leo cobriu-lhe a boca num beijo ardente, qualquer pensamento de sedução gentil desaparecendo de sua cabeça. Beijou-a até deixá-la ofegante, com lábios inchados e rosados. Segurando-a pela mão, ele começou a atravessar a areia para os degraus de pedra. – O que aconteceu com fazer isso aqui mesmo? – perguntou ela, sem fôlego, as faces coradas enquanto eles praticamente corriam pela praia. – Eu acho que posso conseguir levá-la para uma cama, pelo menos uma vez. Não quero que pense que sou um bárbaro completo. Ele piscou, erguendo-a nos braços rapidamente, antes que ela pudesse protestar. – Não, não um bárbaro, em absoluto. – Dara riu, enquanto ele a carregava, subindo dois degraus de cada vez.


CAPÍTULO 6

LEO PÔS Dara no chão no meio de seu quarto, sua respiração apenas levemente ofegante pelo exercício. – Não haverá parada esta noite – avisou ele, removendo a camisa. Ela começou a desamarrar a faixa do seu vestido, as mãos tremendo com excitação enquanto o observava descer o zíper do jeans. Vendo-o se despir, ela parou o progresso de suas próprias mãos. Sua boca estava completamente seca, enquanto ela admirava o abdômen musculoso, a trilha de pelos macios que descia para a barriga numa linha perfeita... – Você vai apenas me observar, ou tirar algumas de suas roupas, também? – desafiou ele. – Cale-se e me beije – murmurou Dara, jogando os braços em volta do pescoço dele e glorificando-se na sensação de ter aquela boca deliciosa na sua, novamente. Não foi o bastante. Ela gemeu, acariciando os ombros largos, sentindo os músculos se flexionarem sob seu toque. De repente, as mãos de Leo estavam por toda a parte, acariciando seu pescoço, segurando seus seios. Ele pressionou-a contra a porta atrás dela. Dara se sentiu presa entre a superfície dura e o corpo sólido, e gemeu novamente. Ele acabou de desatar a faixa, descendo o tecido pelos ombros dela e deixando-o cair no chão. Ela ficou parada ali, em seu sutiã branco simples e pequena calcinha de renda, deleitando-se no olhar de apreciação no rosto dele. Removendo-lhe o sutiã para liberar seus seios, ele beijou cada um de seus mamilos, antes de deslizar as mãos lentamente por seu abdômen. Sem aviso, Leo


ajoelhou-se a sua frente. Dara sentiu o corpo congelar por um momento, quando lábios quentes tocaram o tecido de sua calcinha. Ela tentara isso no passado, mas não gostara da sensação de exposição que o ato lhe causara. Pensou em puxá-lo para cima e beijá-lo novamente, apenas para sentir as mãos dele puxando a renda da calcinha para um lado. A boca sensual pressionou contra seu sexo, a língua brincando entre suas dobras, massageando-a num ritmo tão lento e firme que ela pensou que pudesse se derreter. A sensação de ser beijada e lambida tão intimamente por Leo era muito diferente de tudo que ela experimentara antes. Ela não se sentia exposta... sentia-se adorada. Seu orgasmo se construiu vagarosamente, cada centímetro do seu corpo indo em direção a um pico quase doloroso, antes de explodir numa liberação espetacular. Ela se permitiu entregar-se ao presente que ele estava lhe dando, gemendo com satisfação enquanto os tremores diminuíam. Aqueles sons baixinhos pareceram enlouquecê-lo. Ele levantou-se e entrelaçou as mãos nos cabelos dela, antes de tomar-lhe a boca novamente. O beijo foi voraz, a língua de Leo como fogo contra a sua. Dara podia sentir seu próprio gosto nos lábios dele, e o pensamento erótico excitou-a ainda mais, quando ela arranhou as costas largas com as unhas. Precisava dele agora... antes que entrasse em combustão. Leo pareceu entender sua urgência. Um puxão forte, e sua calcinha estava no chão. Leo fechou os olhos e emitiu um gemido gutural no momento em que ela levou as mãos para baixo, a fim de lhe remover a cueca. Ele estava tão rijo, tão grande que ela ficou impressionada que a ereção não rasgara o tecido. Quando seus dedos se fecharam em volta do sexo poderoso, Dara o ouviu arfar, depois gemer. Ambos estavam respirando freneticamente, urgência os dominando. Ele removeu a cueca e levantou uma das pernas dela para rodear sua cintura. Dara precisava dele em seu interior agora. Sem mais espera. Seus quadris se arquearam para encontrar os de Leo, e ela sentiu a longa extensão penetrá-la numa única investida deliberadamente lenta. Ele roçou-lhe o pescoço com o nariz enquanto se retirava, então investiu novamente, a sensação fazendo-a tremer. Ele acelerou o ritmo, erguendo sua outra perna, de modo que ela o envolvesse completamente.


Ela entendeu o movimento frenético dos quadris de Leo. Sentiu a mesma voracidade que o estava consumindo. Precisava de mais... muito mais. Suas costas estavam contra a porta enquanto ele fazia mágica entre suas coxas, e Dara sentiu a pressão se construir em seu interior mais uma vez. A respiração de Leo era ofegante contra seu pescoço, a língua quente provando-a e provocando sua pele, enquanto ela movia as mãos com ferocidade nos cabelos dele. De súbito, ela foi erguida e carregada alguns passos. Esperando ser jogada numa cama, Dara mordeu o lábio quando suas costas tocaram o topo de uma mesa de madeira, o contato íntimo entre eles não sendo desfeito. Os olhos verdes escureceram diante da expressão de surpresa no rosto dela, antes que Leo recomeçasse os movimentos em seu interior, desta vez, com as mãos em seus seios, os dedos nos bicos rijos, enlouquecendo-a ainda mais. – Isto é... atinja o clímax para mim, de novo – murmurou ele, observando-a, enquanto ela se contorcia com cada investida. Dara meneou a cabeça. O clímax estava ao seu alcance... ela estava a ponto de explodir... apenas parecia precisar alcançar um ponto mais alto. Como se lesse seus pensamentos, ele deslizou um dedo entre seus corpos, acariciando-a onde o fogo queimava mais. Luz explodiu atrás de suas pálpebras quando ela alcançou o topo. As investidas de Leo se tornaram cada vez mais rápidas, a boca devorando seus seios, enquanto ele procurava a própria liberação. Ela despedaçou-se num milhão de partes, e ele gemeu, as mãos agarrando-lhe os quadris quando o orgasmo o abalou. Os tremores e espasmos de ambos diminuíram, e ela vagamente sentiu o peso da cabeça de Leo descansando sobre seus seios desnudos. Nenhum deles emitiu um único som por um momento, esperando a respiração voltar ao normal. Dara sentiu que desmaiaria se tentasse se mover tão cedo. Ele se mexeu para dar um beijo entre seus seios antes de erguer-se para fitá-la. Olhos verdes profundos se fixaram nos seus com um calor intenso. – Eu pensei que nós poderíamos ter, pelo menos, chegado à cama, desta vez – disse Leo, deslizando os dedos lentamente dos seios dela para a barriga, enquanto endireitava o corpo. Ela tremeu em resposta e sorriu. Um sorriso predatório de completa satisfação.


Apesar do calor ainda pulsando em suas veias, Dara sentiu subitamente que estava muito nua. Sentou-se sobre a mesa e desceu para o chão, sentindo o calor do corpo dele pressionar-se contra o seu. Aquilo era insano... eles mal tinham acabado e Leo a estava beijando de novo, deslizando as mãos pelo seu corpo. Ela nunca fora saboreada assim antes... como se sua pele fosse irresistível. – Eu não consigo raciocinar com clareza – sussurrou ele, inclinando-se e tocando a testa na sua. – Não consigo parar de tocá-la. Eles ficaram imóveis por um momento, apenas se entreolhando. Leo pegou-a pela mão e conduziu-a lentamente para o banheiro da suíte. Eles foram para dentro do box, e ele ligou o chuveiro a todo vapor, ajustando a temperatura de modo que ficasse agradavelmente morna. Leo puxou-a para seus braços num único movimento, a água cascateando sobre eles, e Dara suspirou e moldou seu corpo ao dele. A sensação da pele quente e molhada os fundindo era pecadoramente erótica. Ele pegou um frasco de xampu e massageou primeiro os próprios cabelos, depois os dela. Dara não pensara que os toques de Leo pudessem se tornar ainda mais incríveis. Estivera errada. As grandes mãos ensaboadas se moveram por cada centímetro de sua pele, os dedos hábeis deixando um traço de fogo em seu rastro. Ele inclinou-lhe a cabeça para trás, dentro do jato, e a água removeu o sabão de seus cabelos e corpo, enquanto ele continuava trilhando beijos suaves ao longo de seu pescoço. Dara movimentou-se contra o corpo poderoso, sentindo a ereção viril deslizar contra sua barriga. – Sabe... tem uma coisa que eu nunca fiz... – Ela tentou manter a voz firme e confiante quando a imagem do que estava prestes a sugerir inundou seus sentidos. – Humm...? E o que seria? – Leo continuou beijando seu pescoço, dedos fortes agarrando a carne macia de seu traseiro, enquanto eles se roçavam sob o jato de água. Dara quebrou o contato entre eles, saindo do abraço dele e encontrando-lhe os olhos intensamente. – Sente-se – comandou ela, gesticulando para o banco longo que alinhava a parede do box.


Leo arqueou as sobrancelhas, mas obedeceu, abaixando sua forma alta no banco com facilidade. Ela o olhou e pensou que aquela devia ser a imagem mais erótica que já vira. A pele cor de oliva molhada contrastava com o branco dos azulejos. Os cabelos molhados estavam curvados em volta do rosto bonito. Ela ficou estranhamente excitada pela sensação de poder sensual que exercia sobre um homem como aquele. Ajoelhando-se, posicionou-se entre as pernas grossas e sentiu os músculos fortes se agruparem em resposta. Envolveu os dedos na longa extensão rígida e levou um momento para apenas mover a mão sobre a pele sedosa que cobria a rigidez. Dara nunca se permitira fazer isso antes. E a sensação era de estar fazendo algo deliciosamente proibido. Quando a respiração de Leo acelerou, ela inclinou-se para prová-lo com a ponta de sua língua. Ele arqueou as costas em resposta e arfou. – Isto está bom para você? – perguntou ela, incerta. A risada dele foi meio estrangulada. – Oh, muito melhor que bom. Ele entrelaçou os dedos em seus cabelos, aplicando pressão em sua nuca, quando ela o tomou mais profundamente na boca. Leo gemeu em resposta, e Dara aumentou o ritmo do movimento, deleitando-se quando ele gemeu mais alto. Ele abaixou os braços e puxou-a para cima rapidamente, erguendo-a, até que Dara estivesse sentada em seu colo. Ela uniu as mãos atrás do pescoço dele e o sentiu penetrá-la, sem demora. – Vê o que você faz comigo? – Ele gemeu quando ela começou a se mover. Estar por cima deu a Dara a sensação de estar completamente no poder, completamente no controle do prazer deles. Apenas isso foi suficiente para levála ao topo. Ela movimentou os quadris para a frente e para trás, gemendo quando Leo agarrou seus quadris e incentivou-a a acelerar o ritmo das investidas. – Não pare – murmurou ele, acariciando suas costas, beijando-lhe o pescoço com lábios que pareciam fogo. Dara sentiu seu orgasmo se construindo mais uma vez, e sentiu as batidas frenéticas do coração de Leo, que sinalizavam o orgasmo dele. Ela diminuiu o


ritmo, percebendo que ele começava a perder o controle. Uma última torção de seus quadris fez ambos caírem do precipício, e Dara tombou sobre ele, enquanto os tremores sacudiam seu corpo. DARA ACORDOU para um som desconhecido interferindo em seus sonhos. Ela levou um momento para observar suas redondezas não familiares, então descobriu que estava sozinha na grande cama. Os lençóis estavam emaranhados pelos eventos da noite anterior. Eles tinham feito amor incontáveis vezes durante a noite. O apetite de Leo era insaciável. As cortinas em volta da cama balançavam na brisa... ela podia sentir o cheiro de laranjas e sal vindo da praia. Experimentando uma sensação travessa de satisfação, Dara sorriu, saindo da cama para olhar pela janela, vendo as ondas batendo contra os penhascos abaixo das torres do castelo. Não se permitiria se arrepender da noite anterior. Sentia-se feliz, atraente e sensual novamente, e não se envergonhava disso. Ele lhe dera um presente maravilhoso sem ao menos perceber isso. Quando ela abriu a porta do quarto, o cheiro de queimado atingiu suas narinas, e Dara instintivamente começou a correr, seus pés descalços batendo no piso de mármore. Chegou à cozinha a tempo de ver Leo jogar uma jarra de café fervendo na pia com um gemido gutural. – Está tudo bem? – perguntou ela, olhando para os grãos de café espalhados pelo balcão e pelo chão. Era como se uma criancinha tivesse decidido brincar de chef. – Não, não está tudo bem. Esta é a segunda vez que o café queima – resmungou ele. – Aparentemente, Maria não trabalha até meio-dia. De que adianta contratar uma empregada, se ela não está aqui para o café da manhã? Ele franziu o cenho, enquanto esvaziava o conteúdo da jarra e espiava dentro da tampa. Dara parou ao seu lado e também espiou dentro. O fundo da jarra estava coberto com uma camada grossa de grãos de café queimados. Ele pusera o café e a água nos compartimentos errados. – Você alguma vez já fez seu próprio café? A testa dele enrugou mais. – Não pode ser tão difícil, certamente?


– Você é realmente um playboy mimado. – Ela riu, pegando a jarra arruinada e colocando-a de molho em água fria. – Você parece bastante descansada esta manhã. – Leo sorriu, parando atrás dela. – Eu não vejo como. Nós não dormimos muito. Dara tentou parecer casual, incerta de como deveria se comportar esta manhã. Leo esperaria que ela fosse embora logo depois do café? Não havia uma necessidade real para que ela ficasse mais... poderia combinar sobre a reforma do castelo pelo telefone, sem problemas. Subitamente, sentiu-se insegura. – Eu nunca fui acusado de ser mimado, antes. – Ele riu, virando-a e beijandolhe a boca profundamente. Então, gemeu em aprovação, deslizando as mãos da cintura fina para o traseiro dela e sorrindo. – Bom dia. – Bom dia para você também. – Dara se sentiu um pouco menos tensa, mas continuava incerta de como agir. Observou quando Leo se moveu para se sentar preguiçosamente no banco do balcão para o café da manhã. – Não fique muito confortável aí... eu vou ensiná-lo a fazer café, e não fazer o café para você. Ela mostrou-lhe, passo a passo, como preencher a base da jarra com água e colocar os grãos de café na cesta acima. Com um ar de triunfo masculino, ele inalou o aroma quando o líquido escuro começou a subir para dentro da câmara do topo. Dara ocupou-se preparando uma bandeja com alimentos e pratos, a fim de levá-la para o terraço, onde eles se sentaram à mesa ao ar livre, um toldo grande protegendo-os do sol da manhã. Leo pôs duas canecas de café quente sobre a mesa. – Parabéns. Você acabou de se tornar autossuficiente. – Ela fingiu aplausos, enquanto Leo se servia de deliciosos brioches. – Eu sempre fui autossuficiente – argumentou ele, dando uma mordida do brioche. – Apenas prefiro pagar pessoas para servirem meu café da manhã. – Pagar pessoas para cuidar de você não é o mesmo que ser autossuficiente. Você acaba contando com seu estilo de vida para sobreviver.


Ele parou de comer e inclinou-se para a frente, estudando-a por cima da borda da caneca. – E quanto a você, Dara? Com quem conta? Ela pensou por um momento, então deu de ombros. – Honestamente? Com ninguém. Eu gosto de ser independente, então faço a maioria das coisas, sozinha. – Sua família apoia sua escolha de morar tão longe deles? Dara deu uma mordida na toronja, usando a chance para refletir sobre a pergunta. Sua família era a unidade menos apoiadora que ela já conhecera, mas ela não estava prestes a desnudar sua alma sobre isso para Leo. Pensou em seu pai e na lógica machista dele. Se dependesse do pai, ela estaria cozinhando café da manhã agora para um marido e filhos, não progredindo em sua carreira. Uma visão de crianças de cabelos escuros sentadas a uma mesa, de súbito, veio a sua mente. O pai delas tinha olhos verdes suspeitamente familiares. Dara balançou a cabeça, reprimindo os pensamentos. Família não era importante para ela. Não mais. Ela preferia não pensar em coisas que nunca teria. Olhou para cima e percebeu que Leo ainda estava esperando sua resposta. – Nós não somos particularmente próximos na minha família. Talvez isso seja uma coisa ruim para algumas pessoas... para a grande família italiana, por exemplo. Meus pais enviam um cartão nos Natais e aniversários. Eu faço o mesmo. Funciona para nós. – Ela deu de ombros. – Não estou julgando você, acredite. Sou a última pessoa a dar sermão em alguém sobre valores de família. Eu nem mesmo tenho um lar. – Oh? Eu presumo que você tenha uma coleção de coberturas de luxo espalhadas pelo mundo. – Eu possuo muitas propriedades, é claro. Em Paris, Barcelona, Nova York... e por aí vai. Apartamentos luxuosos, na maioria. Mas isso não é a mesma coisa que ter um local que você possa chamar de lar. Ele recostou-se na cadeira, olhando para a vista do oceano abaixo deles. De repente, Dara estava muito curiosa. – Se você não possui um lar, então onde mora? – Não moro em lugar algum em particular. Hospedo-me em qualquer lugar que meu trabalho me leve. É prático. – Leo acabou de beber seu café, colocando a caneca sobre a mesa e voltando a se recostar.


Dara deu de ombros, também olhando para o mar. Sentia que a questão era um pouco mais profunda do que aquilo. Um homem não vivia o ano inteiro em suítes de hotel apenas porque isso era “prático”. Leo se levantou, decidindo acabar a conversa, puxando Dara para seus braços. Ela abriu uma mão no peito dele, segurando-o longe de seus lábios. – Leo, o que nós estamos fazendo aqui? – perguntou calmamente. – Somos dois adultos que estamos prestes a subir a escada para fazer sexo fantástico pelo resto da tarde – respondeu ele em tom confiante, descendo a alça da camisola dela pelo ombro. – Quero dizer, o que eu estou fazendo aqui? Tenho um emprego em Syracuse... tenho clientes. E você tem sua própria empresa para dirigir. Isso é loucura. Era loucura... ambos sabiam. Mas ele nunca se sentira tão fascinado por uma mulher, antes. Era rico o bastante para ter pessoas cuidando de seus assuntos profissionais por alguns dias, enquanto ele se permitia um tempo de lazer. E Dara já dissera que podia conduzir seus negócios de longe durante a baixa temporada. Depois da noite anterior, a perspectiva de vender o castello e magoar Dara era ainda mais desconfortável. Mas isso não era sobre sentimentos... era sobre sexo, e ambos sabiam disso. – Acho que nós dois sabemos o que queremos, Dara. E eu estou disposto a tirar alguns dias de folga da realidade para ter isso. – Quer que eu fique aqui? Com você? – Eu a quero na minha cama quantas noites forem necessárias para nos cansarmos um do outro. Ele inclinou-se para lhe beijar o pescoço, sentindo seu sexo enrijecer quando ela gemeu em resposta. – Acho que isso pode ser arranjado – murmurou Dara, sem fôlego. – Acho que esta é a minha negociação favorita. Leo sorriu de modo sedutor, pegando-lhe a mão e conduzindo-a de volta para o quarto.


CAPÍTULO 7

OS DOIS dias que se seguiram passaram numa névoa sexual. A maior parte do tempo deles foi desfrutada no quarto – eles só saíram para se alimentar e para tomar um pouco de ar fresco. O ar fresco consistira de uma caminhada na praia tarde da noite, quando, então, eles faziam amor lentamente no píer de madeira, com a água do mar batendo em volta deles. Naturalmente, Dara ainda encontrou tempo para arranjar algumas inspeções para o trabalho estrutural que precisava ser feito. E uma equipe de remoção estava organizada para aquela manhã, para garantir que nenhum daqueles móveis antigos fosse danificado durante o trabalho de construção. Montanhas de móveis agora estavam no grande hall, abarrotando o espaço. Leo parou no hall no momento em que um grupo de homens acabava de carregar uma penteadeira elegante de cerejeira escada abaixo. – O que vocês pensam que estão fazendo com isso? – perguntou ele, sentindo uma onda de raiva percorrê-lo diante da visão das mãos sujas de graxa deles. Os homens estavam rindo de alguma piada particular, mas pararam ao som de sua voz, deixando um lado da mesa tombar contra o piso de cerâmica com um barulho forte. Leo observou, com horror, quando o precioso espelho quebrou. Ele sentiu medo apertar sua garganta e moveu-se com a velocidade da luz, aproximando-se de um dos trabalhadores de maneira ameaçadora. – Viu o que você fez? – gritou ele. Uma memória surgiu em sua mente... Os olhos dela estavam escuros e preenchidos com raiva, enquanto ela se agigantava sobre ele...


Leo mal registrou as mãos de Dara em sua camisa, puxando-o de perto do homem assustado. – Leo. Ele só está fazendo seu trabalho – disse ela, os olhos grandes com preocupação. Ele virou-se para ela. – Nada deve ser removido da suíte máster... está ouvindo? Deixe-a como está, ou o negócio inteiro será cancelado. Dara deu um passo atrás, confusão e mágoa nublando seus olhos. – Mas o trabalho cobre o castelo inteiro, Leo. Todos esses móveis foram arruinados pelo dano da água... eles não têm valor agora. Eles nunca tinham tido valor para ele, pensou Leo, lembrando-se do reflexo de sua mãe no espelho brilhante. Tudo sobre aquele quarto era tóxico. Mas as coisas precisavam ficar onde estavam, ou sairiam e o arrastariam para baixo outra vez. – Devolvam os móveis ao quarto – disse ele entre dentes, virando-se e saindo da casa. Sua respiração estava ofegante quando ele começou a atravessar o pátio. Os ciprestes o protegiam do sol, enquanto ele seguia o caminho de pedras ao longo da vertente. Aquele lugar inteiro era um grande ponto negro em sua memória... um buraco preto de solidão e desespero. Dara achava que ele o detestava por causa da lembrança sobre a morte. Ela não entendia que as memórias da vida podiam ser muito piores. Leo não sabia para onde estava indo até que ouviu o triturar das pedrinhas desaparecer e percebeu que estava se dirigindo, através dos jardins formais, à grande cripta de pedra da família. A estrutura era uma parte original do castelo, restaurada pelo seu avô, num esforço de criar algum tipo de tradição para a família. Ele precisava entrar... precisava se lembrar de quem era. Não era mais aquele garotinho solitário. Seus pés ecoaram nos degraus de mármore, antes que ele alcançasse a porta preta de ferro. Era uma porta que nunca estava trancada, mas sempre aberta para parentes que quisessem prestar seus respeitos aos mortos. Descansando os dedos no metal frio, Leo respirou fundo e empurrou a porta. Uma rajada de ar frio o atingiu como dedos da morte em seu rosto. E, simplesmente assim, ele foi engolfado pelo cheiro de umidade de sua infância.


– Leonardo, você precisa aprender a ficar quieto – comandara ela, empurrando a mão suave contra sua cabeça, até que ele estivesse dentro da escuridão do lugar. Ele olhara para o rosto lindo de sua mãe, para os olhos verdes iguais aos seus, os cachos escuros banhados pela luz do lado de fora. Ela se inclinara para lhe beijar a testa, os dedos ainda agarrando o colarinho de sua camisa, lembrando-o do poder que exercia sobre ele. Leo suplicara que ela o perdoasse, dizendo que não pretendera entrar no quarto dela, não pretendera falar alto. Tinha esquecido a regra da Mamma novamente. Sua mãe meneara a cabeça e o empurrara de volta. – Silêncio, piccolo mio. Quando você aprender a ficar quieto, Mamma o deixará sair. A porta fora fechada com um estrondo, o som ecoando nas tumbas de mármore que alinhavam as paredes. Ele cobrira as orelhas com as mãos até que as vibrações tivessem parado. Então, não houvera nada. Apenas escuridão absoluta. Tão absoluta que era como se a luz nunca tivesse existido. Ele se sentara contra os túmulos frios de pedra, onde os corpos mortos de seus ancestrais descansavam, até que o frio tivesse penetrado seus ossos... Leo arfou quando a respiração voltou aos seus pulmões, e ele sentiu uma mão quente em seu ombro. Levantou a cabeça para ver Dara, o sol brilhando nos cabelos loiros através da porta aberta da cripta. Ele se tornou ciente de que estava encolhido, sentado contra a tumba mais perto da porta. Há quanto tempo estava sentado lá? E quanto ela vira? Ele se levantou, batendo a poeira do jeans e evitando os olhos acinzentados, enquanto tentava diminuir o ritmo frenético das batidas de seu coração. – Você está bem? – Ela parecia preocupada, as sobrancelhas unidas numa linha fina. – Eu estou bem – replicou ele entre dentes. – Você está suando. – Dara estendeu uma mão para tocar sua testa. – Droga, Dara, eu disse que estou bem. Ele agarrou-lhe a mão, sentindo o calor da pele sedosa penetrar a sua. Tocar a pele de Dara pareceu lembrá-lo que suas palavras eram verdadeiras. Era um homem adulto, e fantasmas não tinham poder sobre ele.


Segurando-lhe a mão com força, Leo a tirou de seu pesadelo e conduziu-a para a luz dos jardins. – Aonde nós estamos indo? – perguntou ela ofegante, quando eles atravessaram o gramado exageradamente crescido em direção a um muro baixo de pedra do perímetro do castelo. – Eu quero lhe mostrar uma coisa. Ele os conduziu ao longo do “seu” caminho... o caminho que sempre tomara quando criança. O cheiro do mar preencheu suas narinas, afrouxando o aperto em seu peito. As pedras eram altas e lisas, enquanto eles desciam a ladeira íngreme do castelo para o mar. Seus passos eram firmes, e ele segurava a mão de Dara com força, envolvendo-lhe a cintura, às vezes, para que ela não caísse. O vento da tarde os atingia, enquanto o tempo virara e anunciava uma tempestade. A última das pedras lisas acabou de maneira abrupta, e Leo pulou na areia da praia, segurando-a pela cintura e abaixando-a com segurança. Sua fortaleza continuava aninhada nas pedras. Era uma estrutura firme e segura, feita de pedras e cimento. Leo empurrou a porta, sentindo as dobradiças rangerem antes de ceder. O telhado e as paredes ainda estavam intactos... a água ainda não reivindicara seu pequeno refúgio. – Que lugar é este? – perguntou Dara, os cabelos loiros desalinhados pelo vento, em volta do rosto. O pequeno espaço quadrado tinha piso de pedra e pequenas janelas de treliça. Ele lembrava vagamente que as paredes haviam sido pintadas de branco, mas agora, depois de anos de umidade, elas estavam quase pretas em algumas partes. – Foi usado como uma casa de barco uma vez, na época em que meu pai ainda morava aqui. Um dia, eu estava fugindo de casa e encontrei este lugar, que se tornou meu próprio pequeno castelo. – Ele sorriu diante da memória. – Você fugia de casa com muita frequência? – Dara franziu a testa. – Oh, o tempo todo. Eu planejava minha fuga em detalhes, arrumava uma mala e comidas e partia. Leo andou para a janela suja, olhando para o mar violento do lado de fora. – Eu costumava imaginar que era um pirata, esperando que meu navio viesse me resgatar de uma ilha deserta. As fantasias variavam, na verdade... a mente de uma criança é inconstante. Um dia, um pirata, no dia seguinte, um assassino de dragões. Eu nunca pude escolher uma única.


Ela sorriu, passando os braços ao redor de si mesma, com frio. – Isso parece muito excitante. Você sempre voltava para casa, depois de suas aventuras? – Um garoto fica sem comida muito depressa, quando está matando dragões, Dara. – Sua mãe não ficava preocupada com seu paradeiro? – Não. Nunca. Eu raramente a via. Este era meu castelo, e o quarto de minha mãe era o dela. Nossos caminhos raramente se cruzavam. – Ele reprimiu as memórias. – É por isso que você não quer que mexam no quarto de sua mãe? Porque era o lugar dela? Leo foi até onde Dara estava, tremendo perto da porta. – Eu não quero mais falar sobre fantasmas. – Ele sorriu, esfregando os braços dela, a fim de aquecê-la. – No meu castelo, nós brincamos até que sejamos forçados a voltar para comer. Ela arqueou uma sobrancelha. – Adultos não brincam, Leo. – Ah, minha pobre Dara séria, eu tenho de discordar. – Ele inclinou-se em direção a ela, mordiscando o lóbulo delicado de leve. – Você não pode querer dizer...? – Ela arfou. – Aqui? Mas está muito frio. – Prometo que podemos encontrar maneiras de nos aquecermos. DARA ESTAVA deitada sem forças e relaxada, ouvindo o som da respiração de Leo voltar ao normal. Os olhos dele estavam fechados, mas ela podia sentir a tensão retornando lentamente para o corpo poderoso. O ato de amor, dessa vez, parecia ter sido mais intenso do que antes, com uma pilha de redes e cobertores proporcionando uma cama improvisada para seus corpos aquecidos. Apesar de Leo ter sido atencioso e sensual, ela não fora capaz de tirar as sombras dos olhos dele. Era como se alguma força desconhecida ainda estivesse lá, e ele estivesse fugindo, usando o prazer intenso entre eles para escapar de tal força. Dara apoiou-se em seus cotovelos, olhando para os cachos desalinhados contra sua barriga desnuda. – Conte-me o que aconteceu lá – pediu ela gentilmente.


A voz dele soou rouca contra sua pele. – Você quer dizer, quando eu a deitei e disse que seria o dragão, desta vez? – Seja sério uma vez na vida, certo? Você estava sentado naquela cripta com uma expressão de terror no rosto, Leo. Uma expressão que me assustou. – Eu sou um homem adulto, Dara... – protestou ele, sentando-se na cama improvisada e pegando seu jeans da pilha amassada de roupas sobre o piso de pedra empoeirado. Ela também se sentou, pondo uma mão no ombro dele, impedindo-o de se distanciar. – Mesmo homens adultos têm pesadelos. Ele riu. – Pesadelos teriam deixado minha infância um pouco mais emocionante. Como você pode ver, eu sofri de tédio. – Crianças não fogem de casa porque estão entediadas. Ele suspirou. Levantando-se, andou para uma caixa de bugigangas, o jeans baixo sobre os quadris. – Minha mãe gostava de silêncio. – Ele falou num tom de voz monótono, traçando os dedos ao longo da tampa prateada da caixa. – Ela ficava furiosa toda vez que sua paz era perturbada. Imagino que isso tinha a ver com a quantidade absurda de medicamentos que ela tomava todos os dias. De qualquer forma, às vezes, um menino gosta de fazer barulho. Quando eu fazia muito barulho, ela me enviava para lá para passar um tempo em silêncio. – Para a cripta? – Dara sentiu choque percorrer suas veias. Lembrou-se de como Leo parecera pálido e apavorado, encostado contra a parede de mármore. – Não sei quando eu percebi que havia alguma coisa errada com minha mãe – continuou ele. – Ela ficava bem alguns dias, e então outros... não ficava. Eu devia ter cinco ou seis anos quando ela me pôs lá dentro pela primeira vez. Eu tinha perdido meu primeiro dente e corri para o quarto de minha mãe, a fim de contar-lhe. Esqueci que não podia gritar ou falar alto. Tive a impressão de ter ficado naquele lugar por horas, antes que ela me soltasse. Dara sentiu a chegada do choro fechando sua garganta. Como uma mãe podia ser tão cruel com o próprio filho? A reação de Leo quando os homens haviam derrubado a mesa de repente fez sentido... ele estava acostumado a ser punido por tocar em qualquer coisa naquele quarto. Estava acostumado a ser mantido


do lado de fora. Ela sentou-se mais ereta, forçando-se a não chorar, por medo que ele parasse de lhe contar. Ele continuou falando naquele tom monótono, virando as bugigangas nas mãos, uma por uma. – Quando eu tinha 12 anos, minha mãe foi me procurar, um dia. Fazia meses desde o último episódio. Eu havia aprendido a não falar com ela ou provocá-la. Aprendido a me manter silencioso. Ela estava num acesso de ódio cego... e me chamava de Vittorio. Aparentemente, eu estava começando a me parecer um pouco demais com meu pai. Eu não iria para a cripta daquela vez. Ela nunca me machucava fisicamente, então eu sabia que ela não poderia me obrigar a ir. Fiquei em silêncio, até que ela foi embora. – Parece que você foi forçado a crescer muito depressa. – Pensei que eu tivesse aprendido como me manter seguro. Como mantê-la feliz. Mas acordei naquela noite, e ela estava tentando pôr fogo no meu quarto. Dara arfou, a respiração parando na garganta. Leo virou-se para encará-la, os olhos tristes e marcados com linhas. – Ninguém se feriu. A empregada estava acordada e ouviu meus gritos. Ela e o marido apagaram o fogo, antes que pudesse se espalhar. Aquilo foi o bastante para que meu pai voltasse para casa, de uma viagem de negócios, a fim de me colocar num colégio interno em Sienna. – O que ele fez com sua mãe? – Ela ficou lá. A empregada sabia ficar em silêncio. Meu pai comprou mais remédios para ajudá-la a dormir. Ele dizia que ela sofria dos nervos. Eu não a vi por seis meses depois daquela noite. Leo balançou a cabeça. Passando os dedos pelos cabelos, atravessou para a janela, olhando para o lado de fora. – Minha mãe continuou em seu ciclo de loucura por anos, depois daquilo. Eu passava os Natais e as férias de verão com meu pai. Ele me levava para vê-la, de vez em quando, mas ela nunca falava comigo. Às vezes, eu me perguntava por que nós até mesmo nos incomodávamos em ir visitá-la. O colégio interno me mudou... eu me tornei rebelde e barulhento, e voltar para o castelo fazia com que eu me sentisse como se estivesse sufocando. Lar tornou-se um pesadelo distante. Algumas semanas antes do meu aniversário de 18 anos, eu fui aceito em Oxford, na Inglaterra. Meu pai estava determinado que seu futuro diretor-geral tivesse os


melhores estudos. Não sei o que me deu para que eu viajasse para vê-la. Pensei que, talvez, se ela soubesse que eu estava deixando o país, pudesse ter algum tipo de reação. Quando cheguei aqui, o castelo estava vazio. Jamais esquecerei o silêncio. Dara podia perceber, pela postura de Leo, que aquilo era difícil para ele. Ela queria lhe dizer que estava tudo bem, que ele não precisava mais lhe contar coisa alguma. – Eu fui para o quarto de minha mãe, e ela estava deitada na cama em seu melhor vestido. Recordo-me de ter pensado que ela parecia a Bela Adormecida. Eu não a toquei. Simplesmente sabia. Há um peso no ar quando você está na presença da morte. Dara cobriu a boca com as mãos, lágrimas inundando seus olhos. – Ela estava lá há mais de um dia... apenas deitada na cama. Uma dosagem para uma semana de calmantes no estômago. Todos os empregados tinham sido dispensados num dos acessos de raiva de minha mãe. Eles tentaram ligar para meu pai, mas ele estava num iate, em algum lugar, com uma de suas amantes. Dara levantou-se e andou até ele, tocando-lhe o ombro para descobrir que ele estava muito frio. – Não havia nada que você pudesse ter feito. Doença mental não é algo que pode ser curado pelo amor de um filho. – Eu não me lembro de ter sentido qualquer coisa em relação a minha mãe, além de medo. Desde meus seis anos de idade, eu sabia que ela era doente. Aprendi a me adaptar. E, no dia do funeral dela, parado ali e observando pessoas deslizarem o caixão para dentro da tumba – Leo virou-se para fitá-la, angústia genuína endurecendo suas feições –, eu honestamente senti como se um peso morto tivesse sido tirado dos meus ombros. Havia sempre um medo em mim... mesmo depois que eu fui para a escola. Temia que ela voltasse para me perseguir. Minha mãe verdadeiramente me odiava. E, quando estudei os olhos de meu pai, vi o mesmo alívio e soube que ela estivera certa. Eu era igual a ele. – Leo, sua mãe era doente. Pessoas nesse tipo de estado mental podem ver coisas de maneira diferente da realidade. – Quando a cerimônia acabou, eu vi meu pai terminando seu charuto e esmagando-o no chão do lado de fora da cripta. Senti alguma coisa borbulhar em meu interior, como nunca tinha sentido antes. Eu sempre me esforçava para


fazer o melhor, para ser aprovado. Sempre quis que ele me notasse. Ele não era doente... não tinha desculpa para seu comportamento. Andei até meu pai e perguntei por que ele nunca fizera nada para ajudá-la. Ele meneou a cabeça e disse que não podia controlar a personalidade dela, que era uma mulher fraca e levara vergonha para o nome de nossa família. Mantendo aquilo em segredo, ele a poupara de muito embaraço. Então, eu lhe soquei o maxilar e fui embora. Decidi que, talvez, eu me parecesse com ele, mas nunca seria tão cruel como ele. – Então, foi por isso que você vendeu a empresa de seu pai? Vingança? – Infantilidade, talvez. – Leo deu de ombros, colocou-se atrás dela e puxou-a para seu peito. – Não foi infantilidade. Ele não merecia seu respeito, Leo. Dara sentiu o calor dele contra sua pele... Aquele homem maravilhoso lhe abrira os olhos para tantas coisas... Ele vivera com intensidade e negligenciara as regras, a fim de escapar de tudo aquilo. Por baixo do bad boy charmoso havia alguém que queria simplesmente ser amado. O pensamento era quase demais para ser suportado. Ela estava começando a gostar muito de Leo, e o sentimento a assustava. Saber que ele tinha sido tão ferido quanto ela dificultava pensar no relacionamento deles como era. Essa nova proximidade entre os dois estava complicando as coisas, confundindo suas emoções. Leo segurou Dara em seus braços e tentou processar os sentimentos que pareciam querer explodir de seu peito. Estava com 30 anos, e aquela era a primeira vez que falava sobre sua infância para alguém. O que havia sobre essa mulher que o fazia querer desnudar sua alma? Seu passado era algo que sempre estivera enterrado no fundo de sua mente, num lugar preenchido com vergonha e confusão. Mas agora, depois de falar tudo aquilo em voz alta e ouvi-la dizer que ele era normal, Leo se sentia mais leve do que se sentira em anos. As memórias de medo de repente eram apenas isto: velhas memórias. Pela primeira vez, sentiu-se inteiramente presente no momento, naquela casa de barco, com a mulher incrível em seus braços. Sentia que poderia ficar imóvel com ela e não experimentar medo. Como se Dara fosse um lugar seguro para permanecer por um tempinho... talvez por um tempo até mais longo.


MAIS TARDE naquela noite, Leo estava parado junto à porta da suíte deles, enquanto Dara dormia profundamente. Quando o telefonema de sua boate de Paris o acordara, ele pensara se deveria acordá-la ou não. Todavia, após outra noite de uma maratona de atos de amor, decidira deixá-la dormir. Dara vinha trabalhando duro no castello durante os dias, e passando todas as noites em sua cama. Ela merecia um sono de qualidade. A boate Platinum em Paris estava com alguma dificuldade legal com a licença, e Leo era requerido lá antes do meio-dia, para encontrar sua equipe de conselheiros. O avião estava pronto, e ele precisava partir assim que possível. A percepção de que não queria ir embora o deixou ainda mais determinado a ir. Necessitava de algum espaço mental para processar os eventos das últimas semanas. Por muito tempo ele vinha evitando elos emocionais e mantendo seus casos amorosos a distância. Revelara muita coisa para ela na noite anterior. Dara tinha todo o direito de querer pôr um fim no que quer que eles estivessem fazendo. Ela não pedira por um caso sem elos com um homem emocionalmente perturbado. Os olhos dela se abriram no momento em que ele ia sair no corredor. – Leo... aonde você está indo? – Paris. Eu preciso cuidar de alguns assuntos lá. Ele lutou contra a vontade de voltar para a cama com ela. O pensamento de uma manhã num avião, seguida por uma tarde num fórum judicial, era dificilmente agradável em comparação a isso. – Você vai ficar fora por muito tempo? – Ela moveu as cobertas para perto dos mamilos, provocando-o, sorrindo como a mulher sedutora que se tornara. – Eu voltarei assim que resolver o problema lá. Você também tem trabalho para completar aqui. Leo pausou, considerando suas palavras cuidadosamente, enquanto ela se sentava na cama. – Está na hora de começarmos a fechar este negócio – disse ele, vendo o olhar de confusão no rosto dela. – Há alguma coisa errada? – Eu sou um homem muito ocupado, Dara. – Ele virou-se para sair do quarto. – Nós conversaremos quando eu retornar.


DARA OBSERVOU o carro de Leo desaparecendo ao longo do caminho e sentiu seu coração se apertar de tristeza. Isso não deveria acontecer. Ela se sentou na varanda, assistindo ao sol começar a se levantar sobre o oceano, cor de laranja e vermelho se misturando com a água calma e transparente. Ele dissera que aquilo era apenas divertimento... dois adultos apreciando bons momentos e extinguindo uma atração. Quando se tornara mais do que isso? Leo sabia que ela não podia lhe dar nenhum tipo de futuro. Ela lhe dissera que era um caso sem esperança. Seria típico de Dara pôr na cabeça que ele sentia algo mais apenas porque eles haviam compartilhado suas histórias de vida. Ela passara os últimos cinco anos se convencendo de que estava feliz sozinha, e quase começara a acreditar nisso. Agora, depois de uma única semana com Leo, sabia o que estivera negando a si mesma. Irritada, levantou-se e foi se vestir. Talvez ele tivesse pena dela, por causa de sua condição. Talvez Leo tivesse ficado tanto tempo apenas por um senso equivocado de cavalheirismo. Ela não queria realmente mais, queria? Ele nunca seria feliz ao seu lado. Era siciliano... estava em seu sangue querer filhos. Ele nunca falara o contrário. Certo, então Leo levava um estilo de vida de solteiro agora, mas em algum momento do futuro iria se casar e começar a própria família. Pelo menos, ele tinha essa escolha. O pensamento de Leo com outra mulher causou um nó de emoção em sua garganta. Quando ela começara a pensar nele como seu? DARA PASSOU a manhã ocupada, inspecionando o trabalho de reforma na sala de jantar. Todos os traços de umidade haviam desaparecido, e as paredes estavam pintadas em um tom alaranjado queimado, como no estilo original. Ela olhou para as vigas de madeira no teto, lembrando-se da aparência delas quando eles tinham chegado. Era difícil acreditar que ela estava na vida de Leo apenas pouco mais de uma semana. Já sentia a falta dele, e ele partira apenas algumas horas atrás. Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de um carro subindo o caminho de acesso. Leo não poderia ter chegado a Paris e voltado. Ela se dirigiu para a porta a tempo de ver um carro esporte prateado parando no pátio.


Umberto Lucchesi saiu do carro, um sorriso caloroso no rosto quando se aproximou e abraçou-a. – Dara, que bom ver você novamente. – Leo não está aqui, lamento. Ele foi chamado para resolver problemas urgentes. – Na verdade, eu vim aqui para falar com você. – Ele sorriu, dando um passo atrás para olhar a fachada do castello antigo. – Não pareça tão preocupada. Eu só quero me explicar para você. Dara franziu o cenho. – Explicar-se? Sobre o quê? – Bem, eu presumo que Leo lhe contou que, em breve, irá vender o castelo para mim? Dara sentiu a traição atingi-la como um tiro. Suas mãos caíram em suas laterais, enquanto ela absorvia as palavras de Umberto. – Não, ele não mencionou isso. – Ela falou com o máximo de firmeza que foi capaz. – Sim, o negócio foi combinado em Palermo. Você sabe que o castello originalmente pertencia a minha família? Dara assentiu, tentando acompanhar as palavras dele, mas o conhecimento de que o negócio fora combinado em Palermo a feriu ainda mais. Leo soubera daquilo há dias. Soubera que iria destruir a vida dela, e ainda assim a seduzira. Lágrimas ameaçaram escorrer de seus olhos. Um nó apertava seu peito. – Ele mandou você aqui para me contar? – questionou ela, tentando – e fracassando – esconder o tremor em sua voz. Umberto meneou a cabeça. – Ouça, eu não quero interferir no que está acontecendo entre você e meu sobrinho. Apenas quero que saiba que o Grupo Lucchesi ficará feliz em honrar seu contrato com a srta. Palmer, uma vez que o castello estiver em nosso nome. – Com todo o respeito, acabei de descobrir que meu contrato está anulado. Não acho que eu o entregarei a você. – Não estou sugerindo isso. Vejo que eu a peguei de surpresa, então eu a deixarei para organizar seus pensamentos. Vá almoçar no resort amanhã, e nós conversaremos mais.


Dara mal registrou o homem mais velho entrando no carro e partindo. Ela se sentou num dos bancos de mármore na extremidade do pátio, finalmente dando vazão às lágrimas, que escorriam pelo seu rosto e caíam em seu colo.


CAPÍTULO 8

LEO ENTROU no saguão principal do resort de seu tio em Syracuse. O velho homem tinha sido muito enigmático sobre encontrá-lo lá. Depois de passar dois dias inteiros em Paris, pensando, ele tomara a decisão de terminar seus negócios com seu tio, antes de voltar para Monterocca. Dara era a única razão pela qual ele voltara para sua casa de infância. Era por causa dela que ele enfrentara seus demônios e libertara-se da tristeza que sentira desde a morte de sua mãe. Seus sentimentos por ela eram intensos e novos, mas o que eles tinham descoberto no castello, juntos, valia dez vezes mais do que qualquer negociação profissional. Umberto desceu a escada principal, e Leo levantou a mão para cumprimentar seu tio... mas congelou ao notar a linda loira sair de trás dele. Enquanto ele observava, Dara apertou a mão de Umberto, o rosto uma máscara educada de gratidão profissional. Ela virou-se e o viu no exato momento em que Leo chegou ao primeiro degrau da escadaria. As feições de Dara enrijeceram, antes que ela agradecesse a Umberto novamente e começasse a andar na direção oposta. Leo sentiu como se um trem o tivesse atropelado. Congelou no lugar, observando-a ir, antes que seu cérebro voltasse a funcionar. Umberto lhe deu um tapa forte nas costas, pegando sua mão num cumprimento. – Estou feliz por você ter arranjado tempo para mim, rapaz – disse ele. – Nós tivemos uma pequena mudança de planos com o resort, então eu estou conseguindo aprovar os contratos hoje.


Leo ignorou-o e começou a seguir Dara, que tinha ido em direção ao saguão... apenas para que seu tio o detivesse. – Eu não terei uma cena aqui, Valente – avisou ele. – O que ela está fazendo aqui? – perguntou Leo entre dentes. – A srta. Devlin aceitou a minha oferta de emprego. – Seu desgraçado – xingou Leo, inundado de raiva. – Você fez isso para me convencer a vender o castello? – Você se esquivou de meus telefonemas durante a semana inteira. Eu senti que precisava de algum incentivo. Mas, à parte isso, a garota tem um contrato com Portia Palmer. Um nome famoso no meu novo hotel é uma oportunidade boa demais para perder. Eu queria me certificar de que estamos todos na mesma sintonia. – Você queria remover todos os obstáculos em potencial. Umberto deu de ombros. – Leo, é assim que negócios de verdade são conduzidos. Se você quer participar do meu projeto, então precisa desenvolver uma pele mais grossa. – Eu prefiro ter uma consciência. Leo virou-se e atravessou o saguão, atrás de Dara. Alcançou-a no momento em que ela virou o corredor para os escritórios do resort. Ela virou o rosto para encará-lo, e ele notou as olheiras profundas. Parecia que ela não dormia ou comia há dias. Como uma mulher que tinha sido traída. – Não há mais nada a dizer, Leo. – Oh, eu acho que há muito a dizer. Ele falou calmamente, escondendo a raiva que o percorria. Abriu a porta de uma sala de conferência vazia, gesticulando para que ela entrasse. Dara entrou e afastou-se, indo para a cabeceira da mesa, suas mãos descansando no encosto da cadeira de couro alta. Leo fechou a porta, virando-se para encará-la. – Você deu um grande salto de fé, confiando naquela cobra, sem falar comigo, primeiro. – Ele me contou que ia permitir seu investimento no projeto em troca da venda do castello... isso é mentira? – Ela cruzou os braços, mágoa evidente no brilho úmido dos olhos. Leo sentiu vergonha por ser a causa da raiva de Dara.


– Eu não concordei com coisa alguma. – Mas ia concordar. – Ela estava tão certa em sua declaração. Ela acreditaria se ele lhe dissesse que tinha ido lá hoje para dizer não à proposta? Que queria manter o castelo? Leo não associava mais Castello Bellamo com tristeza e medo. Agora, o lugar estava repleto de memórias de corpos quentes e paixão desenfreada. Dara continuou: – Quero dizer, por que você negaria uma negociação de um milhão de euros por uma pequena planejadora de casamentos com quem está tendo apenas um caso? Somos ambos adultos, Leo. Sabíamos o que era isso. E, para ser honesta, eu não o culpo. É melhor assim. Lucchesi me prometeu minha própria divisão aqui, de modo que eu serei minha própria chefe. Minha firma seria arruinada, de qualquer forma. Assim, ainda poderei planejar o casamento da srta. Palmer. Eu ficarei bem. – Vim aqui hoje para dizer ao meu tio que eu não ia fechar o negócio. Que quero manter o castello, afinal de contas. – Por que você faria isso? – Porque, durante a última semana, eu fui mais honesto e real do que jamais fui. Você tem alguma ideia de qual é a sensação disso para alguém como eu? – Leo balançou a cabeça, andando para os fundos da sala. – E agora está me contando que Umberto lhe disse que eu venderia o castelo, e você saltaria do navio? – Considerando sua mudança repentina de comportamento, não foi muito difícil acreditar. Aceitar uma posição aqui é uma atitude lógica para mim. – Dane-se a lógica! – gritou ele, virando para ela e batendo a mão sobre a mesa de reuniões. – Você está tão disposta a entregar para alguém aquele contrato da festa de casamento? A desistir sem uma luta? O que houve com a mulher que escalou um prédio para lutar por sua carreira? – Eu não tenho outra escolha. – Você sempre tem uma escolha, Dara. Ninguém está apontando uma arma para sua cabeça. Quer saber o que eu acho? Acho que está com medo. Você também sente... o que está acontecendo entre nós, seja lá o nome que isso tenha. E fugir ao primeiro sinal de perigo é mais fácil do que ficar e arriscar se machucar.


DARA OLHOU para o homem parado a sua frente. Respirou fundo, tentando acalmar as batidas frenéticas de seu coração. Leo circulou a mesa e aproximou-se. – Você pode continuar me rejeitando com lógica e assunto profissional, mas eu sei que é tudo uma farsa. Ele removeu-lhe uma mecha de cabelos do rosto, fazendo-a tremer em resposta. Dara enrijeceu, dando um passo atrás. – Leo... o que tivemos foi apenas sexo. – Sua voz era quase um sussurro, o nó de emoção na garganta dificultando-lhe formar as palavras. – Nada mais. Ela meneou a cabeça, olhando para fora da janela, para a baía abaixo. Como poderia encará-lo, quando Leo acabara de lhe oferecer mais, e ela estava jogando isso de volta no rosto dele? Estava mostrando seu amor por ele ao tomar essa decisão. Fazendo-o ver que aquela tinha sido apenas uma semana de loucura. Ele nunca seria feliz com uma mulher como ela. Leo merecia uma pessoa inteira. Alguém melhor. Leo também se distanciou um passo. – Bem, obviamente, você fez a sua escolha. Dara permaneceu em silêncio quando ele andou em direção à porta, pausando para olhá-la. Por um momento, pensou que ele falaria mais alguma coisa, o que, talvez, fizesse Dara desmoronar. Para seu alívio, ele virou-se e saiu da sala sem outra palavra. Ela esperou até que o som dos passos no corredor desaparecesse, antes de dar vazão às lágrimas. A emoção dos últimos vinte minutos a deixara se sentindo fisicamente mal. Leo voltaria para seu estilo de vida no dia seguinte. Não havia dúvida sobre isso. Homens como Leo Valente não sofriam por mulheres. Moviam-se rapidamente para a próxima parceira disposta. Dara lembrou-se do dia na casa de barco... quando Leo desnudara seu passado. Ela vira o homem de verdade por trás da fachada de playboy. Realmente acreditava que ele fosse capaz de enganá-la daquela forma, ou aproveitara a oportunidade para deixar o castello e escapar de seus próprios sentimentos? Talvez as coisas tivessem sido diferentes se ela tivesse esperado a explicação dele, primeiro.


Enxugando as lágrimas do rosto, ela balançou decididamente a cabeça. O que estava feito estava feito. Ela não tinha certeza se algum dia superaria seus sentimentos por Leo Valente. Nem mesmo tinha certeza se queria superá-los. DARA ACHARA que a semana, desde o último encontro deles, fora difícil. Mas nada se comparava ao conhecimento de que Leo estaria no prédio hoje, para finalizar o contrato de seu investimento no projeto imobiliário do tio. Ela quase esperara olhar para cima e vê-lo a sua porta, com um sorriso charmoso e fala mansa. Quase desejara vê-lo. Sua decisão de abrir mão do planejamento do jantar comemorativo de Umberto naquela noite havia sido tomada por autopreservação. Ela não suportaria ver a mágoa nos olhos de Leo mais uma vez. Ou, pior, ver que ele levara alguma linda acompanhante ao jantar. Censurou-se mentalmente. Isso era ridículo. Ela não tinha direito algum sobre ele. Nunca tivera, na verdade, e muito menos depois que o deixara. A lembrança das palavras de Leo causou um nó em sua garganta. “Você sempre tem uma escolha, Dara.” – O que você está fazendo aqui em cima? O jantar começa em vinte minutos. Umberto Lucchesi estava parado à porta do escritório de Dara, uma taça de champanhe na mão. – Não acho que a minha participação no evento desta noite seria apropriada. Considerando minha história recente com o sr. Valente. – Leo não virá ao jantar. Esta noite é uma boa oportunidade para que eu lhe apresente a família do Grupo Lucchesi. Para celebrar a negociação do século. – Eu pensei que ele fosse assinar o contrato hoje? – Leo adiou a assinatura, mais uma vez. Disse que tinha outro compromisso. Isso é somente um detalhe técnico – argumentou o homem mais velho. Dara sentiu os lábios se comprimirem diante do pensamento do que seria aquele “outro compromisso”. – Se o negócio não foi fechado ainda, por que você está celebrando? – Entre os homens de negócios sicilianos, um acordo verbal é tão sério quanto um contrato escrito. Eu mandarei alguém levar o contrato ao castello amanhã... ele pode assinar, então. Esta noite, nós celebramos.


O conhecimento de que Leo ainda estava em Monterocca pegou Dara de surpresa. Ela pensara que ele já estaria viajando em volta do mundo a essas alturas. Saber que ele estava no castelo... no lugar onde eles tinham compartilhado tanto... Ela imaginou se a relutância de Leo em partir era por causa dos negócios ou mais de natureza sentimental. Umberto continuou falando: – Ninguém está surpreso que o castelo será meu, novamente. É como sempre deveria ter sido. Fora das mãos daqueles traidores. – Ele falou isso quase que para si mesmo. – O castelo nunca foi seu – disse Dara calmamente, e observou o homem congelar e fitá-la com olhos estreitos. – Aquele castello pertenceu a minha mãe... e todo o terreno que o acompanha. É meu por sangue. Não pertence a nenhum Valente desrespeitoso. Dara se levantou, perdendo a calma. – Não ouse falar sobre o homem que eu amo desse jeito. – Você está esquecendo seu lugar aqui, Dara. É minha empregada agora, não dele. Deve lealdade a mim. – Eu estou começando a perceber que cometi um erro. Você é rancoroso e cruel. Veneno parecia sair de cada linha do rosto furioso enquanto ele a olhava. – O casamento de Portia Palmer está contratado comigo agora. Se você for embora, perde sua cliente e descobre que todo seu trabalho duro foi por nada. – Não foi por nada. Dara sorriu para si mesma. Não era por nada, em absoluto. Era pela maior “coisa” que ela já experimentara na vida. Pegou seu casaco e bolsa e passou por Umberto Lucchesi a caminho da porta. Mesmo se Leo a mandasse embora... mesmo se ela tivesse perdido sua chance... ainda precisava tentar. DARA PAROU do lado de fora do Castello Bellamo e inalou o aroma familiar do oceano e de laranjas. A porta da frente estava aberta, e Maria veio correndo para o lado de fora. – Pensei que fosse você! – Ela envolveu-a num abraço caloroso. – Eu disse a ele que você voltaria... eu disse a ele...


– Ele está aqui? – interrompeu Dara, a necessidade urgente de falar com Leo sendo mais forte que seus bons modos. – Ele esteve no píer o dia inteiro. – Ela sorriu. – Ele precisa de uma mulher como você, Dara, que é uma alma gentil. Os olhos de Dara se encheram de lágrimas. Ela provavelmente causara muito dano para esperar perdão, mas precisava, pelo menos, tentar. Os degraus de pedra para a praia lhe deram tempo suficiente para planejar um discurso em sua cabeça. Mas as palavras desapareceram no momento em que se encontrou a poucos passos de distância de Leo. Ele estava de costas para ela, a atenção focada numa tábua de madeira que ele estava reparando no píer. Usava jeans baixo nos quadris... a camiseta branca estava rasgada e coberta de sujeira. Ele virou-se e viu-a, seus olhos se encontrando. Lentamente, Dara aproximouse do pequeno píer de madeira, cônscia do olhar dele o tempo inteiro. – Eu não sabia que você tinha jeito para esse tipo de trabalho – comentou ela, olhando para as diversas ferramentas ao lado dele. – Olá para você também, Dara. – O semblante de Leo era reservado, a expressão ilegível, quando ele desceu do píer e limpou as mãos numa toalha ali perto. – Meu tio a enviou aqui, suponho? – Ninguém me enviou. Eu estou aqui porque quero. – Estou honrado. – Ele riu. – Por favor, sem brincadeiras. – Dara estava enjoada pelo nervosismo, e isso devia ter transparecido em seu rosto, porque a expressão de Leo subitamente se tornou muito séria. – Alguma coisa errada? Ele a está tratando mal? – Leo aproximou-se. – Não, nada tão dramático. – O que foi, então? – Ele olhou-a com intensidade. – Eu senti a sua falta – sussurrou ela, suavemente pondo a mão no peito dele. Leo estudou-a e, por um segundo, Dara imaginou que ele pudesse beijá-la. Mas então, ele se afastou, colocando distância entre eles. – Suponho que eu mereço isso – disse ela. – Você viajou até aqui somente para me dizer isso? – Não. Eu vim para lhe pedir que não venda o castello para Umberto Lucchesi. Percebi que cometi um erro. Que você só ia vendê-lo por minha causa


agora. E eu seria a razão de um lugar tão lindo ser explorado por aquele homem. – Decidiu tudo isso hoje... quando o contrato está praticamente assinado? Mais uma vez, você agiu na hora errada, Dara. O que seu novo chefe tem a dizer sobre isso? – Não importa, porque eu me demiti. Os olhos de Leo se estreitaram. – Dara, por favor, diga-me que você reteve seus direitos ao contrato Palmer? – Eu não retive. O contrato vai para Lucchesi. Mas o castello não precisa ir. – Ela respirou fundo, aproximando-se. – O que você falou sobre descobrir seu lar aqui... Isso significa muito mais para mim do que um casamento de uma celebridade. Quero que você seja feliz. Quero que tenha este lindo castelo e que construa uma família aqui. Você merece felicidade. – Como se você se importasse comigo... – Eu me importo com você. Eu o amo por sacrificar sua felicidade pela minha, mas não poderia conviver comigo mesma se permitisse que você fizesse isso. – Dara... – Leo estendeu o braço para tocá-la, mas ela o impediu, sabendo que, se ele a tocasse, ela desmoronaria completamente. – Eu nunca me senti tão feliz como durante o tempo que passei aqui com você – sussurrou Dara. – Guardarei a lembrança como um tesouro, mas é melhor que cada um de nós siga com sua vida, separadamente. Como sabe, alguém como eu... – Eu vou detê-la aqui. Leo cobriu-lhe a boca com a sua, os lábios provando-a de forma lenta e deliberada. Ela levantou os braços e puxou-o para mais perto, incapaz de controlar a emoção que a envolvia. Essa noite seria a última vez que ela o beijaria, portanto precisava saborear cada momento. Percebeu o choque de Leo quando ele aprofundou o beijo, controlando-o com uma urgência que ela nunca sentira antes. Pressionou-se mais a ele, de modo que seus corpos ficassem completamente em contato. Podia sentir as batidas frenéticas do coração dele contra sua mão. Foi Leo quem parou o beijo. Afastou-a o bastante para olhá-la, um sorriso lento se abrindo no rosto bonito. – Eu esqueci o que estava dizendo... – murmurou ela, levando uma mão aos seus lábios inchados.


– Você estava prestes a me dizer que não era boa para mim, porque não pode me dar filhos, e eu mereço uma mulher completa. Ou alguma coisa ridícula desse tipo, eu imagino. – Certo. Bem, agora você tirou o poder do meu argumento, esvaziando-me de antemão. – Dara riu. – Não havia poder no seu argumento, para começar, porque é um monte de mentiras, e você sabe disso. Dara começou a discordar, mas ele deu um passo para mais perto, abraçandoa pela cintura. – Eu preciso beijá-la de novo? – avisou ele. – Eu a amo por quem você é... não por quantos filhos pode me dar. Quero construir uma vida com você, Dara. Para que possamos rir juntos, viajar juntos e voltar para casa juntos, depois de um dia de trabalho duro, e discutir quem lava a louça. – Você é muito mimado para algum dia lavar sua própria louça. – Isso é verdade. – Ele riu. – Sinto muito por quase ter arruinado isso. Estou tão acostumada a sentir que não sou o bastante... O pensamento de que você pode se contentar apenas comigo é assustador. E ainda mais assustador é que quando você diz que eu sou perfeita... eu quase acredito que sou. – Eu direi que você é perfeita todos os dias, até o dia em que acredite nisso. Porque é a verdade. – Eu amo você – sussurrou ela. – Dio, você demorou a perceber isso. Leo riu contra o pescoço dela, roçando-lhe a pele gentilmente.


EPÍLOGO

LEO ESPERAVA impacientemente junto à entrada do castello. Os brindes finais tinham sido feitos na marquise, e os convidados do casamento estavam se acomodando para uma noite de danças e celebrações. O sol de junho brilhara forte o dia inteiro, deixando o ar da noite agradável e o mar calmo. Tudo transcorrera muito bem, sem intercorrências... Dara se certificara disso. Ele finalmente avistou-a saindo da tenda, ainda com os cabelos loiros impecáveis, sem um fio fora do lugar. Vê-la em ação hoje, planejando o casamento principal de sua carreira, fez os últimos oito meses de estresse valerem a pena. Portia Palmer provara ser uma noiva exigente demais para o Grupo Lucchesi, então, quando a venda do castello fora cancelada, Umberto ficara mais do que feliz em passar a atriz para uma planejadora de casamento mais capaz. Dara aceitara o desafio com prazer e, uma vez que a notícia de que ela era a planejadora do casamento de Portia se espalhara, os pedidos começaram a chover. Sua agenda para o ano seguinte já estava lotada, e o verão, por enquanto, incluía eventos para políticos, personalidades de televisão e algumas realezas britânicas. Ela era uma sensação. Todavia, por mais que as carreiras deles os tivessem mantido ocupados, eles ainda encontravam tempo um para o outro. Esse fim de semana marcava o começo de férias de duas semanas que ele vinha planejando há semanas. Começava esta noite. – Aí está você. – Dara aproximou-se, dando um beijo em seus lábios. – Você sumiu depois do jantar.


– Eu tenho uma surpresa. Posso roubá-la agora, ou você ainda está trabalhando com seus fones de ouvido? Ela tocou o pequeno dispositivo preto atado ao seu lóbulo. – Eu oficialmente encerrei minhas tarefas. A equipe cuida do resto, a partir de agora. – Excelente. – Ele tirou-lhe os fones das orelhas e jogou-os, sem cerimônia, sobre o ombro dela. – Leo! Esta coisa custa dinheiro, sabia? Minha firma ainda não está exatamente bilionária. Ele riu, puxando-a pela mão para dentro do castelo e conduzindo-a para a suíte deles no andar de cima. – Se você está tão ansioso para me levar para cama, era só ter falado. – Dara sorriu de modo sedutor, puxando-lhe a gravata. – Não ainda... primeiro a surpresa. – Tão misterioso... – murmurou ela, seguindo-o para a varanda. O céu estava preenchido com uma erupção de cores. Explosões de vermelho e azul refletiam na baía. – Oh, Leo, é lindo – disse ela. – Portia ficará tão feliz. Que jeito maravilhoso de acabar a noite. – Eu queria tornar esta noite mágica para você. Este momento. É algo que venho querendo fazer há um bom tempo. Dara arfou quando ele tirou uma caixinha do bolso, sabendo o que havia dentro. – Você diz que eu sou impulsivo, mas comprei este anel no dia em que fui para Paris. Eu já sabia então. Leo abriu a pequena caixa para revelar uma safira espetacular, escolhida por ele mesmo. Uma joia com história e classe. – Você tinha tanta certeza de que eu diria sim? – provocou ela. – Bem, suponho que eu posso devolver o anel na loja... – Ele fechou a caixa, guardando-a de volta no bolso. Dara plantou uma mão no quadril. – Sabe, eu estava planejando pedir você em casamento. Você arruinou a surpresa agora. – Ela tentou não sorrir, mas fracassou miseravelmente.


Leo retirou a caixa do bolso e colocou o anel no dedo dela... que coube com perfeição. – Eu não vejo a hora de chamá-lo de meu marido. Que tal nos casarmos em algum lugar exótico? – Não quer um casamento tradicional? Eu pensei que você iria querer planejar um festival de extravagância para seu próprio casamento. Dara meneou a cabeça, fitando-o com lágrimas nos olhos. – Não me importa onde ou quando, contanto que eu me torne sua esposa. Tudo que eu sempre quis está bem aqui, na minha frente. Ele inclinou-se e capturou-lhe a boca num beijo que prometia amor eterno. Sua Dara perfeita... seu lar.


CATIVADA POR DESEJO Julia James – O que você está fazendo aqui? – perguntou ela.

Nikos se aproximou e ficou particularmente satisfeito em vê-la dar um passo para trás, na defensiva. Aquilo significava que Mel sentia a necessidade de erguer defesas contra ele... o que significava, por sua vez, que estava vulnerável a ele e ao efeito que ele lhe causava. Que era exatamente o Nikos queria lhe causar. Ele sabia disso porque vira em seus olhos, no jeito que tinham sido subitamente velados, mas não antes que traíssem emoção. Uma emoção que era tão velha quanto o tempo, e que ele vira antes, quando deliberadamente deixara seus olhos a percorrerem, tornando sua própria reação à beleza da garota tão tangível como uma carícia... E, apesar de velada, tal emoção lhe dissera tudo o que ele precisava saber. Que, apesar da atitude irritadiça dela, por trás daquela camada de defesa, ela também estava reagindo a ele. E, mais uma vez, Nikos experimentou satisfação diante do conhecimento de que ela estava tão atraída por ele quanto ele por ela. Ele a estudou novamente. Sentia uma vontade louca de absorver tudo em Mel para lembrar a si mesmo o que o atraía tanto. A beleza extraordinária da mulher, mesmo naquele ambiente de trabalho e vestida naquela camiseta sem graça. Não havia o menor adorno à beleza natural no que dizia respeito à maquiagem ou estilo de cabelo... que continuava escondido sob o boné de beisebol. – Eu queria vê-la de novo – disse ele, chegando ao balcão.


– Por quê? – questionou ela, a expressão fria. Nikos ignorou a pergunta. – Você recebeu minhas flores? – Ele manteve o tom de voz casual. Seus próprios olhos estavam velados agora... por enquanto. – Sim. – A resposta de uma única palavra foi tensa e... não apreciativa. Uma sobrancelha arqueou-se. – Elas não eram de seu gosto? Ela ergueu o queixo. – Aposto que você nem sabe que flores são. Aposto que apenas mandou sua secretária enviá-las. Nikos sorriu. – Desconfio que sejam lírios – replicou ele. – Minha secretária gosta de lírios. – Bem, envie-os para ela da próxima vez! – veio a resposta imediata. – Mas não é com minha secretária que eu preciso me desculpar – retornou ele, entrando no espírito da discussão. – Além disso, não era ela que deveria melhorar de humor. Foi uma provocação deliberada... e tola, considerando que ele queria que Mel aceitasse seu convite para a noite, mas Nikos não conseguiu resistir ao prazer de discutir com ela, e aquilo lhe deu sua recompensa. Aquele brilho nos olhos cor de safira... tornando-a ainda mais linda. – Bem, as flores não melhoraram meu humor – retrucou ela. – E sua presença aqui também não está ajudando. Então, se isso é tudo que queria dizer, considere dito. – Não é – murmurou Nikos, abandonando a discussão e adotando uma postura mais profissional. – Eu tenho um convite a lhe fazer. Por um momento, ela pareceu estupefata. Então perguntou desconfiada: – O quê? – Gostaria de convidá-la para um baile beneficente na sexta à noite. – O quê? – A palavra foi repetida, e com uma expressão ainda mais estupefata. – Permita-me explicar melhor – disse Nikos, e procedeu em fazer isso. Seus olhos velados estavam observando a reação dela. Apesar da atitude hostil da mulher, ele podia ver que ela estava ouvindo. Podia ver, também, que ela estava tentando não olhar para ele. Tentando... e fracassando.


Ela está consciente de mim, responsiva a mim... luta contra isso, mas não pode evitar. – Eu descobri, em cima da hora, que estou sem uma acompanhante para esta sexta... para o baile beneficente que me comprometi a comparecer. – Ele a encarou, mantendo o tom neutro. – Consequentemente, ficaria muito grato se você concordasse em ser esta “acompanhante”. Tenho certeza que irá se divertir... a festa é no Hotel Viscari St James, que espero que você concorde que é um lugar memorável. Ele fez uma breve pausa, então deu um sorriso rápido. – Por favor, diga que você irá.

E leia também em Vingança & Desejo, edição 267, de Harlequin Jessica, Promessa de vingança, de Dani Collins


Lançamento do mês: JESSICA MINISSÉRIE 003 – PROPOSTAS OUSADAS 1 DE 2 Sorte inesperada – Joss Wood Willa mal pôde acreditar na sorte quando descobriu que o poderoso Rob Hanson está à procura de um contador. Esse trabalho era a chance que ela estava procurando. Só há um problema: Willa já conhece o novo chefe… intimamente. Amigos com benefício – Avril Tremayne A proposta que Scott Knight fez para Kate Cleary era simples: Duas noites por semana durante um mês, confidencialidade garantida. Esse era o acordo perfeito, já que nenhum dos dois estava em busca de um relacionamento sério… Ao menos, era o que pensavam! Próximo lançamento: JESSICA MINISSÉRIE 004 – PROPOSTAS OUSADAS 2 DE 2 Paixão proibida – Stefanie London Brodie Mitchell era um solteiro convicto. Por isso, só poderia oferecer um caso passageiro à bela Chantal Turner. Porém, explorar a paixão e o desejo que sentem faz com que Brodie perceba que ela é a mulher com a qual sempre sonhou. E fará de tudo para cativá-la… para sempre! Doce tentação – Jennifer Rae Após fechar o acordo do século, o magnata Luke Moore precisava relaxar. Quando reencontra Amy McCarthy, a mulher que sempre desejou, soube que havia encontrado a distração perfeita. E seduzi-la passa a ser sua prioridade.


Lançamentos do mês: JESSICA 266 – AMOR & DISPUTA Furacão de emoções – Bella Frances Rocco Hermida passou pela vida de Francesca Ryan como um furacão. Ao reencontrá-lo, ela percebe que o desejo que sentem ainda é intenso. E foi preciso apenas um beijo para que esta paixão pegasse fogo novamente. Além do limite – Anne McAllister Holly estava prestes a conseguir o tão sonhado recomeço quando reencontra Lukas Antonides. Ela o detestava… Porém, jamais conseguiu tirá-lo da cabeça. E quanto maior é a tensão entre eles, maior é o desejo. Logo ambos percebem que a linha entre o amor e o ódio é bastante tênue. Próximo lançamento: JESSICA 267 – VINGANÇA & DESEJO Cativada por desejo – Julia James Mesmo sabendo que não faz o tipo de Nikos Parakis, Mel Cooper aceita a proposta de viver um romance passageiro, livre de compromissos e repleto de desejo. Contudo, Mel logo descobre as consequências de entregar-se por completo a esse grego cativante! Promessa de vingança – Dani Collins Melodie Parnell sonhava em viver um desejo insaciável. E pensou que havia encontrado na cama do atraente Roman Killian. Porém, após a noite apaixonante, Roman revela sua verdadeira intenção: destruí-la!

Destinos Marcados - Kimberly Lang, Andie Brock, Amanda Cinelli  

Harlequin Jessica Especial #01

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you