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Destinos


Destinos Helena Solon & Kacau Tiamo


Copyright Destinos 2015 por Editora Bezz Este livro é uma obra de ficção. Nomes, lugares, personagens e incidentes são produtos da imaginação do autor ou são usados ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, empresas, organizações, eventos ou lugares é mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL DESTINOS CAPA Natyelle Pinho REVISÃO Ariane Silva [2015] Todos os direitos dessa edição reservados à Editora Bezz www.editorabezz.com Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou por qualquer sistema de armazenamento e recuperação de informações, sem a permissão por escrito das autoras e editora.


Índice Capítulo Um Capítulo Dois Capítulo Três Capítulo Quatro Capítulo Cinco Capítulo Seis Capítulo Sete Capítulo Oito Capítulo Nove Capítulo Dez Capítulo Onze Capítulo Doze Capítulo Treze Capítulo Quatorze Capítulo Quinze Capítulo Dezesseis Capítulo Dezessete Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Capítulo Vinte e Um Capítulo Vinte e Dois Capítulo Vinte e Três Capítulo Vinte e Quatro Capítulo Vinte e Cinco Capítulo Vinte e Seis


Capítulo Um Meu apartamento está sufocante! Não tenho dinheiro para colocar um maldito ar-condicionado. Eu não estou mais aguentando ter que dividi-lo com outras duas amigas. Sinto-me sem nenhuma privacidade, mas sei que se não for dessa maneira, jamais conseguiria morar nesta cidade maravilhosa, que é meu Rio de Janeiro. Aqui tudo é muito caro, principalmente para mim, que ganho pouco. Já não sei o que fazer para aumentar minha renda, trabalho durante o dia dando aulas de inglês em três escolas públicas e, mesmo tendo acabado a faculdade, continuo dura. Guardo parte do dinheiro que pagava a mensalidade da faculdade com muito sacrifício, esse dinheiro é sagrado, com ele consigo viajar uma vez por ano. Tento compensar meus gastos dando aulas particulares, mas a coisa não está fácil. Minha única distração é minha escola de samba, dou a vida por ela. Duas vezes por semana frequento a quadra para ensaiar. Foi com muita dificuldade que consegui chegar onde estou. Sou rainha de bateria, tenho muito orgulho em dizer isso, mas só Deus sabe como lutei para ser chamada assim. Fora minha escola de samba, tenho um sonho, que é o de conhecer muitos países, mas isso é puro sonho. Há dois anos consegui juntar um pouco de dinheiro, comprei minha passagem em dez vezes no cartão e fui realizar um dos meus desejos, que era conhecer a Itália. Fiz uma viagem supereconômica, mas consegui meu intento, deu para conhecer muitos lugares, fiquei apaixonada pela Itália. Ano passado, depois de muita economia, fui à Espanha, quase fiquei morando por lá, achei tudo maravilhoso. Mas, ir à Europa, me custou muitas aulas particulares, pois nosso dinheiro é muito desvalorizado em relação ao Euro. Mas viajar é o dinheiro mais bem gasto do mundo, eu diria até que é um investimento, conhecer outros países, outras culturas, dá mais bagagem. Volto dessas viagens renovada e ainda mais cheia de sonhos, por enquanto, sonhar ainda é de graça nesse país. Este ano, depois de muito pensar, pois são tantos os lugares que ainda pretendo conhecer, optei por conhecer Israel, Jordânia, Iraque, Irã e Kuwait. Sempre tive muita curiosidade por esses países, gostava de ler a respeito de seus costumes e agora, iria conhecer tudo pessoalmente. Sempre procurei disponibilizar meu tempo para viajar no mês de dezembro, no período das férias escolares. Não tenho família, fui criada por uma tia que morreu há mais de 15 anos. Passei parte de minha infância em um orfanato, foi lá que comecei a me interessar pelos estudos, sabia que se não me dedicasse, jamais seria alguém. Não conto com ninguém para me ajudar, acostumei-me com a falta de uma família, afinal, estava até me saindo muito bem. Eu que havia crescido em um orfanato, saído de lá com uma mão na frente e outra atrás, até que tinha conseguido muita coisa sozinha. Quem diria que um dia me formaria. Fazer


faculdade nesse país não é fácil, principalmente quando não se tem dinheiro. A faculdade é caríssima e, quanto aos livros, melhor nem falar. Às vezes, ficava mais barato pegar na biblioteca e tirar cópias. Eu rebolava para sobressair, varava noites estudando. Sem dinheiro, tinha que pelo menos mostrar para que vim a esse mundo. Sempre sofri preconceitos por parte de muitas pessoas, quando dizia que havia sido criada em um orfanato, sentia que já me olhavam torto, parecia que estava dizendo que estive internada em um sanatório. Consegui me formar com muita dificuldade, mas isso era bom, gostava de grandes desafios. Encontrei pessoas muito boas nesse orfanato, onde permaneci até meus 16 anos, e foram elas que me incentivaram a estudar. Depois que sai, fui para uma pensão indicada pela instituição, para dar continuidade aos estudos. Pagava minha estadia com serviços prestados, mas tinha as noites livres para me dedicar aos estudos. Quando me formei, logo arrumei um emprego, depois outro, e assim, consegui alugar um apartamento em Jacarepaguá, onde moro até hoje. Para não gastar todo o dinheiro com aluguel, subloco para mais duas amigas. O apartamento tem apenas dois quartos, fico com um e minhas duas amigas, que não podem ajudar muito, dividem o outro. Não posso dizer que escolhi certo minha faculdade, apesar de adorar advocacia, mas o que gosto mesmo é aprender línguas, já que tenho muita facilidade para isso. Fiz muitos amigos na quadra, homens e mulheres, mas há um casal em especial, pelos quais tenho muito carinho. Ele se chama Odair e, sua mulher, Maria, são como pais para mim, digo que são meus pais pretos, pois sou loura de olhos verdes. Odair diz que tenho porte de rainha, alta com um corpo magnífico, mas, isso é primordial para minha função como rainha de bateria. Cuidar muito bem do corpo é quase que uma obrigação. Faço exercícios diariamente, como direitinho, não uso açúcar, nem tomo refrigerantes. Tenho uma vida bem saudável. Quer dizer, saudável entre aspas, pois tenho apenas um vício, que é fumar. Saio muito pouco, e não tenho por hábito dormir tarde, mas acordo todos os dias muito cedo. Acho um desperdício ficar na cama até tarde. Odair e Maria são meus fãs número um, e dizem que preciso arrumar um namorado, mas tenho só 22 anos e nenhuma intenção de casar cedo. Quem sabe depois dos 30 anos? Odair perguntou por que resolvi conhecer um país onde só havia brigas e discórdias. Dizia: – Você deveria ir para a Grécia, minha querida, é mais sua cara. – Meu amigo, se todos pensassem como você, não haveria turistas nesses países. Você foi testemunha do quanto foi difícil encontrar uma passagem, todos os voos estavam lotados. No fundo, entendia muito bem o que meu amigo queria dizer, ouvimos e vemos muitas histórias a respeito desses países, mas minha curiosidade era maior que meu medo. Não poderia acreditar em


tudo que ouvia, sempre fui teimosa. Odair dizia que eu era como São Tomé, só acreditava vendo. Resolvi que deveria apostar minhas fichas nessa viagem, adorava histórias a respeito do mundo árabe, e lá, não poderia haver só desgraças, tinha que ter alguma coisa boa. Mas isso eu iria ver com meus próprios olhos. Procurava planejar muito bem minhas viagens, me dedicava em dobro na quadra, precisava ensaiar muito, já que iria me ausentar por um mês. Eu frequentava a quadra quase que diariamente, e fazia minha ginástica com a mesma frequência, não podia esquecer que o carnaval estava batendo à nossa porta, que nesse ano, graças a Deus, cairia no começo de março e isso me dava certa tranquilidade, pois teria bastante tempo na volta para ensaiar e tomar meu querido sol, diariamente. Até o carnaval tinha que estar com a cor maravilhosa, isso era uma exigência para ser rainha de bateria. As branquinhas como eu tinham que ficar bem morenas, para usar aqueles microbiquínis. Fora isso, ainda tinha que perder aqueles quilinhos indesejados que ganhava quando viajava, pois sempre relaxava um pouco na alimentação, comendo coisas que não estava acostumada, como doce, fritura e refrigerantes, fora que não havia um horário certo para fazer as refeições e tudo isso influenciava no peso. O negócio era relaxar, afinal, estava de férias, depois correria atrás do prejuízo, era só malhar bastante e comer direitinho, que logo chegaria ao peso ideal, só queria mesmo era curtir minhas férias tão esperadas. Sempre tive o hábito de pagar todas as minhas contas antes de viajar, pois sabia que quando voltasse, teria que passar apertado por alguns meses, para saldar meus cartões de crédito. Na quadra da escola de samba, eu tinha muitos admiradores, mas não queria me envolver com ninguém no momento, tinha muitos sonhos a realizar, um namorado agora só me traria complicações. Viajei no dia 8 de dezembro, e voltaria no dia 13 de janeiro. Odair e Maria me acompanharam até ao aeroporto. Sempre que viajava faziam questão de me acompanhar, mas nossas despedidas eram sempre a mesma coisa, eles choravam e me faziam chorar também. – Gente, estou indo viajar, não me façam sentir que estou indo a uma guerra. Apesar de que, no meu íntimo, era exatamente como me sentia, mas essa guerra era comigo mesma. Ficava noites sem dormir antes de viajar, tinha até pesadelos, mas tinha que perder esse medo incontrolável de avião. Como poderia conhecer o mundo se morria de medo de voar? Minhas duas únicas viagens foram um suplício, mas tinha uma coisa de bom, quando chegava ao meu destino, esquecia completamente que havia sentido medo.


Capítulo Dois Quando cheguei ao aeroporto, fui fazer o check-in, despachei minha mala e me dirigi à sala de embarque. Adorava viajar, mas meu medo... Se é que poderia chamar aquilo de medo, porque na verdade não era medo .. era pavor! Assim que entrei na aeronave, a aeromoça indicou o assento, sentei-me e fiquei esperando o avião decolar. Minhas mãos começaram a transpirar, o coração disparou, já me via estatelada no solo com a aeronave em chamas. Quando o avião decolou, pensei comigo: É, Aretha, agora não tem mais jeito. Tentei relaxar, mas não conseguia, peguei um livro e nada, coloquei o fone de ouvidos, logo tirei. Estava tão nervosa e agitada que tudo me incomodava. Olhei para os outros passageiros, será que também sentiam medo? Se sentiam, sabiam disfarçar muito bem, pois todos estavam relaxados. Alguns liam, outros dormiam, e alguns estavam no maior bate-papo... E eu em um pânico total e absoluto. Chamei a aeromoça para pedir uma bebida, queria tentar relaxar. Ela perguntou o quê gostaria de beber, minha vontade foi pedir uma branquinha, mas disse: – Uma dose de uísque, por favor. Ela me olhou e perguntou: – Tem medo de voar? Caramba, estava tão visível assim meu medo? ─ Não, tenho pavor! – Relaxe, quando menos esperar já estará aterrissando. Por que não coloca um filme para assistir? Isso ajuda o tempo passar. Só me falta o filme ser de avião que cai ou avião que é sequestrado. Agradeci a sua gentileza e fiquei quietinha tomando meu drink. Estava sentada na janela do lado esquerdo da aeronave. Do meu lado direito havia um senhor lendo seu jornal, e que por certo, percebeu minha ansiedade, já que eu não parava de me mexer, e olhava o relógio a cada cinco minutos. Acho até que estava incomodando o coitado de tanto que me mexia. Minha vontade, na verdade, era poder abrir a janelinha do avião e colocar a cabeça para fora, precisava de ar puro. Tinha que me controlar, não havia nem dez minutos que o avião havia levantado voo, e teria muitas horas de pavor pela frente ainda, mas como das outras vezes, conseguiria sair viva daquele avião. Deveria estar chamando muita atenção com os meus chiliques, pois o senhor que estava ao meu lado não parava de olhar, ele tentava disfarçar, fingia estar olhando para a janela, mas sabia que seu olhar era para mim. Sentia que ele queria puxar assunto, mas fiquei sem graça. Sei que estava morrendo de vergonha, onde já se viu, uma mulher desse tamanho se portanto dessa forma? Mas


aquele medo era incontrolável. Muito educadamente, me olhou e disse: – Você tem medo de avião? Balancei a cabeça, afirmando que “sim”. – Pois não tenha, esse é o meio de transporte mais seguro que existe. – Mais seguro e o mais fatal também, pois se cair, não haverá ninguém para contar história – disse a ele com um sorriso torto. Ele perguntou: – É sua primeira vez? – Não, é a terceira! Depois da décima, você se acostuma. Agradeci com um sorriso pouco amigável. Ele deve ter ficado com pena e resolveu puxar assunto. Perguntou-me onde morava, o que fazia, qual era meu nome, se estava viajando a trabalho ou a passeio. Demorei um pouco a responder, pois a enxurrada de perguntas me deixou meio zonza. Comecei pelo principal, meu nome. – Aretha, esse é meu nome. – Bonito nome, achei lindo! – Moro no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, sou professora de inglês e estou viajando a passeio. Ele deu um tremendo sorriso. – Rio de Janeiro, que cidade linda. Lá é a cidade que tem as mulheres mais bonitas, não acha? – É o que todos dizem. – Aretha, já que estamos viajando juntos, por que não conversamos em inglês? Estou precisando treinar um pouco esse idioma. Falei que adoraria poder ajudá-lo. Ficamos conversando a respeito de política, de praia... Nosso assunto era muito variado; eclético, eu diria. Ele tinha uma dicção muito boa, e quando errava alguma palavra, eu explicava a pronúncia correta. Ficamos por muito tempo treinando. Quando olhei meu relógio, levei um susto, já haviam passado quatro horas desde que entramos naquele avião, comecei a gostar muito daquela brincadeira. Ele perguntou sobre muitas coisas do Brasil. Quando ficou sabendo que eu era rainha de bateria da escola da Barra, ficou encantado, disse que adorava carnaval e ainda acrescentou que eu tinha mesmo porte de rainha. Falou uma palavra que não entendi, então perguntei: – Que língua é essa?


– Árabe. Não está indo pra lá? Que tal eu te dar algumas aulas sobre meu país? – Você mora onde? – perguntei curiosa. – Moro em Israel. Meu nome é Aziz, tenho negócios no Brasil, e é lá que passo maior parte do tempo. Ele então começou dar algumas dicas. Peguei meu bloquinho, comecei anotar tudo que interessava, afinal, estava conversando com um morador de Israel. Anotei algumas frases que usaria muito como, perguntar onde havia um banheiro, pedir comida e outras coisas importantes. Tinha um dicionário, mas achei legal anotar o que ele estava passando. Olhei meu relógio, haviam passado mais quatro horas, no total, estávamos voando há oito horas. Já estávamos mais da metade do caminho. Ele sorriu quando viu que eu olhava para o relógio. – Não se preocupe, Aretha, em poucas horas chegaremos! Continuamos a conversar, seu Aziz era um homem muito inteligente, falava de sua terra com muito orgulho, dizia que jamais moraria em outro lugar. Perguntou-me para onde mais iria, e eu disse que ficaria em seu país apenas quatro dias, depois iria para o Iraque, Jordânia, Irã e, finalmente, Kuwait. Ele me deu algumas dicas de passeios que achei interessante. Depois olhou seu relógio e sorriu. – Estamos quase chegando, rainha da bateria, agora só faltam sessenta minutos e você já está em território israelense. Viu como passou rápido? Agradeci por ele ter conseguido me distrair, pois nem havia notado as horas passarem. – Eu é que agradeço pelas aulas de inglês. Quando o avião pousou, Aziz me ajudou com a mala e a passar pelo o balcão de desembarque. Quando estávamos na frente do aeroporto, desejou-me boa viagem e entregou-me um cartão dizendo que estaria ali até março, se precisasse, era só ligar, depois olhou-me de cima a baixo e disse: – Realmente, você é brasileira. Basta olhar suas curvas, sua pele e esses seus olhos. Agradeci com a cabeça, não sabia se estava sendo gentil ou me dando uma cantada. Peguei um táxi para o hotel. No caminho, fui tirando fotos, estava encantada com a cidade. Cheguei ao hotel, preenchi a ficha e fui para o quarto. Era um hotel muito bom, mas não era um cinco estrelas. Quando viajava, nunca me importava com a quantidade de estrelas que o hotel possuía, ia mais pelo preço. Pensava: Para que gastar dinheiro com isso? Só venho para dormir. Preocupavame apenas com a limpeza e com a comida. Esse hotel parecia ser bom, pelo menos as roupas de cama estavam cheirosas e as toalhas de banho macias e limpinhas, o resto não me importava, só queria poder me enxugar com toalhas limpas e dormir em uma cama com um cheirinho bom. Minhas viagens tinham que ser econômicas, uma vez que não tinha dinheiro para ficar desperdiçando com hotéis caros, pois hotel era tudo igual, só mudava a fachada e o preço. Preferia gastar em outras coisas, hotel era só para guardar a mala e descansar.


Arrumei as coisas, guardei os pertences mais importantes no cofre e descansei um pouco. Depois de uma hora tomei banho, coloquei uma saia até os joelhos e uma camiseta branca, precisava sentir nas ruas como deveria me vestir para sair, tinha receio de ser mal vista. Fui passear. Levei minha máquina e meu notebook para entrar na internet, caso eu precisasse de alguma informação. Também teria que trocar um pouco de dólar por Dinar. Andei o dia todo. Visitei a Basílica do Sepulcro, a Cidade Antiga, a Mesquita de Oman e o Museu do Holocausto. Nem acreditava que havia estado em todos aqueles lugares sagrados. Sempre via pela televisão o Muro das Lamentações e já achava bonito, mas quando coloquei meus olhos sobre aquilo tudo, fiquei sem ar, me emocionei demais, cheguei a chorar de tanta emoção. Claro que deixei um bilhete pedindo que Deus me ajudasse naquela viagem. Voltei para o hotel, estava moída, só dei uma olhada nas fotos que havia tirado e dormi em seguida. No dia seguinte, queria sair cedo para poder pegar o tempo mais fresco, estava muito calor. Quando acordei, coloquei uma calça e uma camiseta, calcei o tênis, desci para tomar café, se é que poderia chamar aquilo de café. Saí para conhecer o bairro de Shearim, depois fui à Colina de Massada, Kibutzim, os sítios arqueológicos, e ainda deu para ir à cidade velha de Jerusalém. Aziz havia me indicado quase todos esses lugares, fiquei encantada, como me fazia bem conhecer outras culturas. Ficava entusiasmada com tudo que via, procurava sempre seguir as dicas do senhor Aziz, realmente ele tinha razão, era tudo maravilhoso. As mesquitas eram uma mais linda que a outra, mas no final do dia estava acabada. Voltei para o hotel, tomei um banho, comi algumas amêndoas, uma fruta e fui dormir, tinha muita coisa para ver no dia seguinte. Acordei cedo como de costume, havia visto muitos turistas no dia anterior, cada um se vestia de um jeito. Resolvi colocar uma bermuda até os joelhos e uma regata, claro, chamei atenção de alguns árabes, mas fazia de conta que não era comigo. As mulheres árabes eram muito discriminadas, além de usarem aquelas roupas que cobriam todo seu corpo, chamada burca, também não podiam frequentar os mesmos lugares que os homens. Quando se entrava em uma mesquita, tinha que se colocar um lenço preto em volta dos braços, caso contrário, não poderia entrar. As mulheres ficavam em uma ala, e os homens em outra, não conseguia entender o porquê disso. Nas ruas, era uma loucura. Bicicletas, elefantes, camelos misturados com carros, era tudo muito barulhento, fora os ambulantes, pois lá se vendia de tudo. Fiquei imaginando aqueles elefantes e camelos enormes na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ria só em pensar.


Capítulo Três Os quatro dias passaram muito rápido. No dia seguinte, iria alugar um carro para seguir viagem, minha próxima parada seria o Iraque. Saí antes do almoço para conhecer mais alguns lugares. Tirei aquele dia para conhecer Tel Aviv, Safed e Haifa e, por fim, o Monte das Oliveiras. Não tinha palavras para descrever o que estava sentindo, só em pensar que Jesus havia estado ali, já me causava arrepios. Tirei muitas fotos, uma mais linda que a outra, pena que teria que seguir viagem, iria sair do Iraque com dor no coração, mas ainda deu tempo de conhecer outra mesquita. Depois fui à agência pegar o carro alugado, teria que dirigir mais de 1.000 km. O carro que havia escolhido era uma perua com tração nas quatro rodas, tinha direção hidráulica e, graças a Deus, ar-condicionado. O calor era insuportável naquela época do ano. Amava o calor, mas o nosso era diferente. Aqui o clima era seco, mal conseguíamos puxar o ar, minha pele estava sentindo demais, meus lábios estavam machucados de tão ressecados. Vivia passando manteiga de cacau e na pele passava protetor solar fator 30. À noite, tinha que hidratar. Acho que por essa razão, os árabes tinham a pele mais enrugada que as pessoas de outros países. Não economizei com o aluguel do carro, pois já que não conhecia as estradas, tinha que ter um veículo confiável. Só neguei pagar o absurdo que me pediram para por um GPS. Iria continuar com meu mapa, isso sim seria jogar dinheiro fora. Saí logo depois, precisava ficar atenta ao mapa. Cada cidadezinha que passava, dava uma parada rápida para ir ao banheiro, comprar uma água, ou alguma coisa para comer. Já havia feito quase a metade do caminho, o carro era bom, mas a estrada era péssima. Parei em um hotelzinho à beira da estrada, que não era lá essas coisas, mas só precisava de um chuveiro e uma cama. E como sempre fazia, primeiro olhei as roupas de cama. Não eram muito cheirosas, mas pareciam limpas, as toalhas também não eram de boa qualidade, mas só iria passar uma noite e não estava em condições de escolher coisa melhor, naquele fim de mundo. Isso era uma coisa que não entendia. Nas cidades havia hotéis maravilhosos, mas quando se saía do centro, a coisa ficava preta. Só existiam umas pousadas mais ou menos, era isso ou seguir viagem para outra cidadezinha, mas não mudava quase nada, eram praticamente todos da mesma categoria. Deitei-me e fiquei planejando o dia seguinte; iria seguir as dicas do Senhor Aziz e as minhas anotações. Logo senti sono, estava muito cansada, nem vi a noite passar. Dormi como um anjo. No dia seguinte, tomei um café com pão árabe no hotel e peguei a estrada. Cada lugar que passava, era uma surpresa. Às vezes, tinha impressão que estava no deserto, alguns quilômetros à frente havia um oásis. Isso era tudo que mais gostava, cada cidade com seus costumes. Cada lugar que parava, chamava atenção das pessoas, talvez pelas minhas roupas, por estar viajando sozinha ou


até mesmo pela minha altura, pois isso não era muito comum nas mulheres árabes. Elas eram sempre menores que os homens, salvo algumas que escaparam de suas genéticas. No final da tarde, cheguei ao Iraque, uma cidade cheia de cores. Fiquei em um hotel bem localizado, teria que aproveitar bem meu tempo, pois só passaria quatro noites nessa cidade, claro que procurei fazer esses dias renderem muito. Só parava para ir ao banheiro, comia andando para não perder tempo. O Iraque era uma cidade mágica. Fui à Babilônia, coisa mais linda deste mundo, ao Templo Zigurate, Fallajá, Najaf e Somorra. O que estava vendo não tinha nada a ver com o que via pela televisão. Tive a impressão que muitas pessoas deixam de fazer essa viagem porque acham que só verão destruição. Mas os canais de TV só mostram o que querem, por essa razão, Odair me criticava por ter escolhido esses países, mas depois que mandei algumas fotos, com certeza, ele mudaria de ideia, pois tudo que havia visto até agora, me deixou de boca aberta. Achei a cidade linda, as mesquitas maravilhosas, o povo super acolhedor. Naquele segundo dia fui ao Museu Nacional, à Torre de Bagdá, ao Palácio Abássido e ao Museu de Bagdá. Mas as mulheres... Essas eram as mesmas em todos os lugares que já havia passado, submissas... não participavam de nada, acredito que as mais velhas não podiam sequer falar em público, achava muita humilhação. Como seriam fora daquelas roupas? Sempre me questionava a respeito das mulheres, não me conformava com a forma que elas eram tratadas, jamais me casaria com um homem árabe. Estava aproveitando cada momento, e o tempo passou em um passe de mágica. No dia seguinte, iria para Jordânia, mas acho que não haveria muita diferença, pelo menos no quesito mulher. Os homens viviam me olhando, ficava muitas vezes constrangida com seus olhares, tinha a impressão que estavam sempre observando meus seios e minha bunda. Alguns diziam coisas e, muitas vezes até tentavam se aproximar, mas não entendia uma só palavra do que diziam, não sabia se estavam me elogiando ou xingando. Que se danem, nunca mais os verei mesmo. Aproveitei cada minuto que estive no Iraque, o que mais amei foi a Babilônia, só não conseguia entender como essas pessoas suportavam aquele calor, por isso eram de pele morena. Na manhã seguinte, parti do Iraque rumo à Jordânia, sua capital era Amã, anotava tudo isso em minha agenda. Pelos meus cálculos, viajaria o dia todo. Entrei na internet para saber a distância, 750 km mais ou menos, isso tiraria de letra. Os países que estava visitando eram divididos em quatro regiões, Israel, ao sudeste, Jordânia ao sul, Iraque, ao leste e Turquia, ao norte. Peguei a estrada, coloquei minhas músicas preferidas e lá fui eu. Como era bom andar com carro novo. Esse havia custado os olhos da cara para alugá-lo, mas estava valendo cada centavo. Parei diversas vezes. Cada vez que via um vilarejo, parava para abastecer ou para usar o banheiro, comprava água e cigarros. Às vezes, pegava algo para comer, outras vezes, deixava para comer mais à frente, o que não conseguia era ficar sem água.


Cheguei na Jordânia por volta das quatro horas da tarde, arrumei um hotel que era muito bonito, parecia um castelo antigo. O quarto era bom, mas o que mais gostei foi da banheira de hidromassagem, isso era tudo que eu precisava naquele momento. Havia dirigido o dia todo, minhas costas estavam arrebentadas. Naquela noite não saí. Tomei um banho de banheira, escovei os cabelos. Estes não davam trabalho. Adorava usá-los ao natural, cheio de cachinhos, só os lavava e dava umas amassadinhas com as mãos e ficavam maravilhosos. Minhas amigas viviam fazendo escova progressiva, escova inteligente, chapinha, isso para ter os cabelos lisos, eu já gostava dos meus do jeito que eram. Pedi um lanche simples, pão árabe com pepinos e coalhada. Depois que comi, peguei meu mapa e minhas anotações, queria saber por onde iria começar o passeio pela Jordânia. Depois de muito ler as anotações, resolvi que me levantaria cedo, iria visitar mais algumas mesquitas e um parque muito charmoso. Aziz havia dito que era muito bonito. Naquela noite, adormeci rápido. Acordei, coloquei uma bermuda jeans e uma camiseta regata e desci para tomar aquele café árabe, que era mais chá do que café. O interessante é que o pó ficava no fundo da xícara, ou seja, engolia aquela água escura sem gosto de nada e o final não conseguia beber porque era apenas uma pasta de pó. Que saudades eu sentia de nosso cafezinho! Mas estava viajando, deveria me adaptar a tudo. Saí por volta das oito horas da manhã, a essa hora, ainda não estava tão quente. Fui visitar os famosos Sete Pilares da Sabedoria, coisa maravilhosa, não entendia como aquilo tudo fora construído há centenas ou milhares de anos. Comi uma fruta e fui para o deserto de Wadi Rum, tudo ficava mais difícil com aquele calor insuportável, mas a beleza era tamanha que até me esquecia que estava fritando sem óleo. Que saudade do meu Rio de Janeiro, estava derretendo literalmente. Quando voltei para o hotel, já era tarde, mas valeu a pena, era tudo muito bonito. Passei para comprar algumas frutas que comeria no hotel, tomei novamente banho de banheira, me arrumei e desci para acessar à internet e mandar alguns e-mails com mais fotos para Odair e Maria. Dei umas voltas pela redondeza, e como sempre, não se viam mulheres caminhando sozinhas durante a noite, só turistas. Subi e fui deitar-me. Aquele calor estava de lascar, e estava tão cansada que logo adormeci, no dia seguinte tentaria conhecer o máximo que pudesse da Jordânia, pois no outro dia, pegaria a estrada rumo ao Irã. Quando acordei, me vesti. Desta vez iria usar um vestido não muito curto, afinal, ali não era meu Rio de Janeiro. Desci para tomar aquele café horroroso, comi um pedaço de pão, peguei uma fruta e saí para visitar mais algumas mesquitas. Estas diziam ser as mais lindas que havia na Jordânia. E eram mesmo, uma mais bela que a outra. Em seguida, fui para Petra, a cidade mais encantadora que já havia visto até agora, fiquei tão deslumbrada que mal vi as horas passarem. Nem sei como não me


perdi no meio daquelas ruínas. Tive que correr para dar tempo de visitar as Tumbas e o Tesouro. Quando estava retornando ao hotel, sentei-me em uma praça e fiquei comendo uma fruta. Para variar, ficava olhando os transeuntes e imaginando como seriam suas vidas. O que será que faziam nos finais de semana? Será que eram bons de cama? E as mulheres será que usavam aquelas burcas também em suas casas? Meu Deus, com todo esse calor se pudesse andaria nua em pelos. Fiquei sentada na praça por alguns minutos, já era tarde e ainda não havia escurecido. De repente, uma mulher se aproxima e fala comigo, mas não entendi uma só palavra do que ela dizia. Tentei falar em inglês, mas ela não entendia. Ela saiu e logo retornou com um rapazinho que deveria ser seu filho, falou com ele, e ele me disse: – A senhorita permitiria que minha mãe lesse sua sorte através da borra do café? Ele falava o inglês fluentemente. Disse a ele: – Quanto isso vai me custar? – A senhorita pode dar o quanto quiser. Não sei por que, mas aceitei. Ela então colocou uma água quente que trazia em uma garrafa térmica, em cima de um pó, que imaginei ser café. Depois de alguns segundos, pediu que tomasse o líquido e lhe entregasse a caneca para que ela pudesse interpretar o que ficou no fundo. Tomei aquele café com um pouco de nojo, já que não sabia se aquela caneca estava limpa, mas engoli e passei a caneca para ela. A senhora se ajoelhou à minha frente, ficou por mais de cinco minutos olhando para dentro da caneca. Depois, começou a falar. Ela falava rápido e seu filho só ficou ouvindo. Quando terminou, esperou que seu filho traduzisse tudo que havia dito, então ele começou a falar: – Minha santa mãezinha diz que a senhorita irá conhecer o amor de sua vida nessa viagem. Será uma paixão abrasadora, sofrerá muito por causa desse amor, mas, no final, ficarão juntos por toda eternidade. Enquanto o filho falava, ela não tirava os olhos de mim, balançava a cabeça como se estivesse confirmando o que ele dizia. Logo depois, ela deu mais uma girada na caneca e falou mais um pouco, colocou sua mão sobre a minha, fez o sinal de Allah. Seu filho, então, terminou dizendo: – A senhorita irá conhecer esse homem antes de voltar à sua terra natal, ele é um homem de muitas posses, irá cobri-la de joias e de muito amor, será conhecida por todos os povos e aclamada. Agradeci em inglês aos dois, tirei uma nota de valor alto de dinar, passei para ela, logo os dois saíram, e se perderam na multidão. Fiquei pensando: Era só o que me faltava, além de não acreditar em nada, ainda tive que gastar. Nunca havia acreditado nessas coisas de ler a sorte, ou as mãos. Minhas amigas viviam indo em cartomantes e videntes, no começo, me chamavam, depois acho que se cansaram, eu era completamente descrente de tudo isso. Agora vem essa senhora e me diz um monte de tolices. Será que ela achava que eu acreditaria em todas aquelas baboseiras? Onde já se


viu? S贸 me faltava conhecer um 谩rabe.


Capítulo Quatro Já tinha caminhado tantos dias e nunca havia encontrado unzinho sequer que chamasse minha atenção. Imagine me apaixonar e viver aqui, coberta por essas burcas? Isso estava fora de cogitação, jamais aconteceria comigo, só em pensar nisso me dava urticárias. Preferia morrer solteira a ter que me envolver com algum desses homens tarados e machistas. Nem conseguia imaginar, eu, Aretha, morando nesse país quente como a boca de um vulcão, e usando aquelas roupas horrorosas, principalmente dormindo com um árabe. Se não me interessava nem pelos saradões do Rio de Janeiro, como poderia me apaixonar por estes homens tão diferentes de mim? Minha vida era no Rio de Janeiro, não largaria meu país por nada desse mundo, adorava meu povo. No Brasil cada um se vestia do jeito que queria. Já imaginou, Aretha, saindo aqui na rua com um de meus biquínis? Aqueles que usava diariamente para ir à praia? Eram tão pequenos que às vezes, até os perdia na máquina de lavar. Para começar, mataria centenas desses tarados, e depois acho que me prenderiam ou melhor, me fuzilariam no paredão em plena praça pública. No meu país tínhamos liberdade e o direito de ir e vir. Ficaria no Brasil com ou sem amor, aquilo não fazia o menor sentido para mim. Assim como falou aquelas coisas pra mim, poderia ter dito a qualquer outra que estivesse cruzando seu caminho, naquele momento. Deveria ser como horóscopo, para alguém deveria servir. Achei melhor esquecer aquele assunto, só de pensar em usar aquelas roupas, já me dava suador. Voltei ao hotel em passos lentos, não queria encontrar ninguém na recepção. Parei para tomar um suco, coisa que não era muito comum encontrar, mas quando vi, tive vontade. Não tinha nada a ver com o suco do Brasil, mas deu para matar um pouco a saudade. Encostei-me em uma praça para fumar, não era de bom tom ver uma mulher fumando na rua, mas não estava nem aí. Depois caminhei em direção ao hotel, já era muito tarde. Nunca fiquei tanto tempo na rua como hoje, mas valeu a pena, pois, tudo que visitei, superou minhas expectativas. Depois iria ver as fotos com calma, pois esse era o lugar que mais tinha aproveitado até agora. Arrumei minha mala, tomei banho, e fui olhar meu mapa. Amanhã teria que acordar cedo, pois iria para o Irã, seria mais um dia de viagem, mas não estava nem um pouco cansada, aquele carro era tudo de bom. Dormi muito bem. Quando o celular despertou, me arrumei, coloquei outro vestido, mais esse era de um ombro só e um pouco mais curto. Já não estava mais preocupada com o que iria usar como no começo, eles que se danassem, quando iam para minha terra usavam aquelas roupas esquisitas até para entrar no mar, a essa altura eu não teria escrúpulos com relação ao que vestir. Desci, paguei o hotel e saí para pegar a estrada. Tinha verdadeira adoração por dirigir, aquilo me acalmava. Mandava muito bem no volante, melhor que muitos homens, pena que no Brasil não


poderia ter um carro daquele, pois me custaria muito caro. Tinha um modelo popular e estava muito feliz com meu carrinho. A estrada para o Irã era um pouco pior que as demais, fui devagar, não havia trânsito algum, ninguém naquela cidade deveria ter carro. Onde já se viu, no país do petróleo, ninguém ter carro? Parei algumas vezes para descansar, às vezes, via alguma coisa interessante, parava, tirava algumas fotos. Mas tirei de letra aqueles 700 km. Cheguei ao Irã, por volta das cinco horas da tarde, isso porque parei muito, mas só iria sair para conhecer a cidade no dia seguinte, hoje faria algumas anotações em meu diário, estudaria meu mapa e comeria alguma coisa para só então, dormir. Consegui um hotel perto de uma praça, era aconchegante, mas simples. Antes de subir, pedi uma salada que tinha visto em uma mesa. Depois de comer, peguei minha mala e subi, tomei banho, fiz o que já havia programado, coloquei meu celular para despertar às 07h00 horas e fui dormir. Quando o celular tocou, levei o maior susto. Levantei, me arrumei e desci, comi um pão e tomei café. Peguei minha câmera e percebi que precisava descarregar um pouco no computador, faria isso assim que voltasse ao hotel, já que tinha mais de novecentas fotos arquivadas na memória, e tinha medo de perdê-las, ou de alguém roubá-las. A primeira vista achei a cidade um encanto, cada lugar era diferente de tudo que já tinha visto, acho que foi um dos lugares mais tranquilos em que estive até agora. Visitei as ruínas de Persépolis, a capital do antigo Império e o Palácio de Ali-Kapu. As mulheres eram iguais em todos os lugares, não mudavam absolutamente nada. Ainda vinha aquela velha dizer que me apaixonaria por um árabe, cruz credo! Não haveria amor capaz de me fazer morar naquele lugar, principalmente me vestir daquele jeito. Justo eu que adorava me vestir bem. Não comprava roupas sempre porque o dinheiro era curto, mas toda vez que sobrava algum, a primeira coisa que fazia era ir a uma boa loja de departamentos, pagava mais barato e comprava muito mais coisas. Sempre tive feeling para me vestir. Caminhei muito naquele dia. Quando cheguei perto do hotel, me sentei para fumar, estava precisando de uma boa dose de bebida, mas tinha até medo de pedir alguma coisa deste tipo. E por não saber o que se bebia naquele país, achei melhor tomar minha água e ficar sonhando com a cervejinha. Fiquei por algum tempo sentada na praça, estava batendo uma brisa deliciosa, mas tive que entrar. Passando pelo saguão, dei uma olhada no menu e nada me interessou, pedi coalhada e uma porção de pão árabe. Me sentei em uma mesa, e todos ficaram me olhando. O interessante era que eles sequer disfarçavam, olhavam descaradamente. Que inferno esses homens, será que não posso sequer comer em paz? Estou vestida, não estou pelada! Terminei rapidamente e subi para o quarto. Dei uma arrumada na mala, havia trazido muitas roupas bonitas, mas quem disse que tinha coragem de colocá-las? Esses homens tapavam suas


mulheres e ficavam olhando as outras. Queria acessar à internet, mas nem tive coragem de descer. Tomei banho, anotei algumas coisas no diário, coloquei o fone de ouvido e fui descarregar as fotos no computador. Logo dormir. Na manhã seguinte, fui visitar a fortaleza de Bam e depois fui ao local onde se confeccionava tapetes persas. Nossa! Aquilo era deslumbrante. Depois fui conhecer o comércio e quem sabe fazer umas compras. Coisa pouco provável, isso era como encontrar uma agulha no palheiro. Já não aguentava mais conhecer mesquitas, ainda bem que até aqui tinha visitado muitos lugares maravilhosos, mas as mesquitas eram sempre a mesma coisa. Será que meu amigo Odair estava certo? Será que deveria ter escolhido a Grécia? Agora era tarde demais, só faltava o Kuwait. Pelo que tinha lido, o Kuwait era soberano, não tinha capital, era uma monarquia, além da quinta maior reserva de petróleo do mundo, e a cidade mais desenvolvida do mundo árabe. Por tudo isso, decidi ficar bem mais tempo por lá. Os campos de petróleo ficavam em Burgan, ficaria lá uma semana, depois retornaria de carro até Israel para pegar meu voo de volta ao Brasil. Todos diziam que o Kuwait era uma cidade de primeiro mundo, ver para crer. Não via nenhuma diferença dos lugares que já havia passado em relação às mulheres, nem visitava mais mesquitas, agora estava mais interessada em outras descobertas. O mais difícil era ter jogo de cintura com os tarados. Depois do almoço, que para variar foi só frutas, fui dar umas voltas no centro comercial. Lá tinha de tudo um pouco, e o que mais vi foram alguns tecidos brocados e adamascados, um mais lindo que o outro. Alguns bordados com filigranas em ouro, outros com pedras. As mulheres usavam esse tecido todo enrolado ao corpo, mas nada me encantou, que iria fazer com aquilo? No Brasil, só me serviriam como canga. Caminhei durante a tarde toda e não consegui comprar nada, mas pelo menos me diverti pensando no que faria com aquelas bugigangas no Brasil. Fiquei fascinada quando vi um homem tecendo um tapete na calçada. Ele fazia isso sem olhar. A mistura de tons era de encantar qualquer ser vivo. Voltei para o hotel, não quis comer nada, estava achando até que havia emagrecido, já que estava comendo mal pra burro. Tomei banho, escovei os dentes e fui dormir, no dia seguinte iria para o primeiro mundo, como poderia ser? A distância era menos de 400 km. Vi pela internet, e iria me basear pelo meu mapa, que até agora não havia me deixado na mão. Acordei cedo, como de costume. Hoje estava com a macaca, nem quis saber, peguei um short jeans, coloquei uma camiseta regata, calcei uma sandália alta, coloquei um chapéu e desci para tomar café. Quando cheguei, todos ficaram em silêncio. Pedi meu café, comi aquele pão que já não aguentava mais e me dirigi à recepção para acertar minhas diárias. Sentia os olhares pelas minhas costas. Subi, peguei minha mala e saí sem olhar para trás. Estava cansada daqueles homens


machistas. Coloquei meu fone de ouvido, e de vez em quando parava para olhar o mapa. As placas de sinalização não faziam parte do sistema rodoviário dos árabes. Nunca tinha visto uma placa sequer, ia pelo olhômetro ou pelo meu guia Quatro Rodas. Depois de ter rodado uns 200 km, parei para descansar e tomar água. Quando pego minha garrafa... vazia! Liguei o carro novamente, precisava urgentemente de água. Andei mais uns 50 km, nada nem ninguém, mas a estrada estava diferente, agora havia muitas árvores e um cheirinho de chuva, aquele cheiro de quando chove e molha as plantas. Era esse cheiro que estava sentindo. Desliguei o ar, coloquei a cabeça pra fora para poder sentir um pouco mais daquele cheiro delicioso, aquilo me era muito familiar. A cada quilômetro, a estrada ficava mais bonita, as árvores cheias de flores. O colorido era maravilhoso, me senti no Jardim Botânico no Rio. Resolvi parar para consultar o mapa. Olhei com muita calma, estava certa e indo de acordo com meu guia. Resolvi descansar, a água poderia esperar, agora faltava muito pouco para chegar. Aquele silêncio estava maravilhoso, tinha a impressão de que estava em outro país. Comecei a ouvir sons de pássaros e de água. Desci, tranquei o carro, fui pela minha intuição, passei por muitas árvores floridas. Caminhei por uns dez minutos, quando parei, notei que estava em um lugar lindo, havia uma fonte nas pedras, a água descia por entre elas e caia em um lago cheio de garças e com muitos pássaros à volta. Cheguei a pensar: Acho que morri e estou no paraíso. Quando os pássaros notaram minha presença, saíram em revoada fazendo o maior alvoroço, imaginei: Que fominhas, só quero tomar um pouco d’água, esses bichos não sabem mesmo dividir. Olhei para a fonte que jorrava água, tinha que saciar minha sede, mas para isso teria que entrar no lago, não existia outro caminho para chegar até lá. Que se danem minhas roupas, estou morrendo de calor mesmo. Pensei. Entrei e nadei em direção à fonte, me abaixei e tomei muita água, o lago estava delicioso, então resolvi nadar um pouco. Dei um mergulho e notei que havia muitos peixes coloridos, fiquei encantada. A temperatura da água estava uma delícia, fiquei encharcada e com os cabelos pingando, mas pelo menos havia me refrescado e matado minha sede. Fiquei ali por algum tempo admirando aquela maravilha no meio do nada, mergulhei novamente; se pudesse, ficaria dentro daquele lago. De repente, ouvi passos nas folhas secas. Fiquei superassustada. Pensei ser algum animal, afinal, estava no meio de uma selva, eram tantas árvores que mal dava pra ver o céu. Olhei pro lado e vi um homem com uma arma, apontada para baixo. Olhei novamente e percebi que era um homem bem alto, sua pele era morena, seus cabelos meio compridos e encaracolados nas pontas, os olhos eram azuis cor de piscina. Era bem musculoso, devia frequentar alguma academia. Ele ficou me olhando, e, com certeza, também estava me analisando. Senti-me envergonhada, porque estava toda molhada e minha blusa havia grudado em


meu corpo, mostrando meus seios. Ele fez sinal com a arma para eu sair, eu disse em inglês que só havia entrado para tomar água, mas pelo visto, ele não entendeu. Pegou-me pelo braço e foi me levando para dentro daquele matagal. Será que era mais um tarado? Tentei mais uma vez falar em inglês, nada. Falei em espanhol, também não tive resultado. Achei melhor nem falar mais, pois de nada iria adiantar, ele não entendia o que eu dizia, por isso, apenas me deixei levar. Ao chegarmos, finalmente, a uma clareira, fiquei sem ar. Havia um castelo ao fundo, esses de contos de fadas. Foi quando entendi, eu tinha invadido sua propriedade! Como vou vai sair dessa? Se pelo menos aparecesse alguém que me entendesse. Fiquei à mercê daquele homem, e só pensava no carro que havia deixado estacionado, em minha bolsa, com todos os meus documentos, inclusive passaporte, cartões de crédito e a mala com toda minha roupa. O que iria acontecer? Será que seria levada para o dono daquele castelo? Talvez ele fosse um empregado, e quem sabe seu patrão poderia me entender... Caramba! só entrei pra tomar água, nem precisava de tanto alarde, era só me mandar sair, para que aquela arma? Odiava armas de fogo, principalmente quando estavam apontadas em minha direção.


Capítulo Cinco Eu o segui até dentro daquele castelo, e ele apertava tanto meu braço, que já estava me sentindo incomodada. Quem ele pensava que era?... Só por causa de um gole de água. Pena que não posso vomitá-la, se não a devolveria, mas só que em cima dele. Quando estávamos chegando perto da entrada principal, vi meu carro, dei um puxão em meu braço, me desvencilhei de suas garras, e fui correndo até o carro. Como puderam trazê-lo? Eu estava com as chaves. Coloquei a mão no bolso, e me certifiquei que estavam comigo, disse: – Vocês tiveram a coragem de arrombar um carro que nem é meu? É alugado. Por que estão fazendo isso? Só tomei um pouco de água! Ele pegou meu braço novamente, só que desta vez mais apertado, me conduzindo para dentro. Entramos em uma sala muito grande e com muitos seguranças. A mobília era maravilhosa, as peças de decoração eram todas de porcelana fina, ele me sentou em uma poltrona. Quando olhei para o lado, um dos seus seguranças estava com minha mala e minha bolsa, ele pediu para colocá-las em cima de uma mesa. Ele a abriu, e começou a tirar minhas roupas. A cada peça que tirava, olhava-me. Foi quando pegou um moletom e atirou-o na minha direção, caindo em meu colo. Meus cabelos estavam pingando, peguei-o e coloquei por cima da camiseta molhada, fechei o zíper e com cuidado, fui tirando a blusa molhada. Quando consegui, segurei-a em minhas mãos. Ele pegou uma calcinha, olhou, depois olhou para mim. Fez isso com todas as roupas. Ao terminar de mexer na mala, pegou minha bolsa. Irritei-me e comecei a dizer: – O que é? Estão achando que roubei o quê? Uma árvore, uma garça ou quem sabe um tonel de sua bendita água? Você não tem o direito de mexer em minhas coisas. Nem sei quem você é! Será que não existe ninguém nessa merda de país que fale inglês? Não vou permitir que mexa em minha bolsa! Ele agiu como se não estendesse, começou a retirar as coisas de dentro. Primeiro pegou minha carteira. Abriu, tirou tudo que havia nela, guardou tudo novamente, e direitinho, ficando apenas com um cartão, acho que era o cartão do senhor Aziz. Colocou minha carteira de lado e pegou um pacote de absorventes, eu disse: – Acha que guardaria o que aí? Uma metralhadora? Já pedi para não mexer em minhas coisas! Ele nem ligou. Colocou o pacote de absorventes ao lado da minha carteira, depois pegou minha nécessaire e tirou tudo de dentro, e quando pegou minha pinça, eu disse: – Acha que poderia cortar sua jugular com ela? Faria isso com o maior prazer, basta se aproximar de mim novamente. Mostrei meu braço vermelho, ele continuou. Guardou tudo, colocou ao lado, depois pegou meus cigarros, olhou, cheirou, colocou-os do lado, quando pegou meu diário, fui para cima dele.


– Você não se atreveria, isso é meu diário! Arranquei de suas mãos com tanta raiva, que ele ficou assustado com minha reação, e eu disse: – Dá para perceber que não entende nada sobre mulheres, nunca mexa no diário de uma mulher, principalmente se essa mulher for eu! Você poderia se assustar com o que escrevi a respeito de seu povo, principalmente dos homens, que são todos como você, loucos e tarados! Fique longe de mim e de minhas coisas! Ele não moveu um músculo sequer do rosto. Comecei a falar sozinha, já que ninguém entendia mesmo. – O que eu vim fazer aqui nesta merda de país, meu Deus? Deveria ter ido para Grécia como sugeriu Odair, já estou com o saco cheio desses homens ignorantes que não dão um mínimo de valor a uma mulher. Pra mim, já basta, não irei mais para lugar algum. Assim que acabar essa invasão de privacidade, mudarei a data da minha passagem, e volto para meu país nem que seja a nado. Se arrependimento matasse, estaria mortinha. Por que tive a santa ideia de entrar naquele maldito lago? Será que tem ouro lá? Se tiver, devem estar dentro dos meus bolsos ou da minha calcinha. Tudo por causa de um pouco de água, como se eu precisasse disso. Na minha terra, água é o que não falta. Como se já não bastasse não poder andar nas ruas sem ser assediada, ainda me deparo com um lunático. De que me adianta falar fluentemente inglês e espanhol? Deveria ter ido para os EUA ou para Espanha, dessa forma todos me entenderiam. Foi quando pensei: Que loucura, agora deu para falar sozinha, Aretha?. Quando ergo a cabeça, ele estava me olhando. Como ele conseguia não mover um músculo sequer do rosto? Parecia um robô. Levantei-me, pois estava incomodada com aquele short molhado. E minhas sandálias, onde as teria deixado? Andava de um lado para o outro. De repente, me virei. – Já olhou minha mala e minha bolsa, encontrou alguma coisa? A única coisa que peguei foi a água que tomei, mas se quiser, posso vomitá-la para te devolver, só que de preferência, em cima de você. Só está faltando me revistar, fique à vontade! Tirei o moletom e a bermuda molhada, fiquei nua em sua frente e de seus seguranças, ele rapidamente fez sinal com as mãos para todos saírem. Estava nua e a sós com ele naquela sala, e ele sequer estava constrangido. Pegou uma manta do sofá e veio me cobrir, enrolando a manta em meu corpo e apertando com um nó. Olhei pra ele, era realmente lindo, nunca tinha visto um homem tão bonito. Sentei-me novamente e comecei a chorar, estava em pânico. Ele se aproximou e me pegou no colo. Levou-me escada acima, abrindo uma porta com o pé. Era um quarto, ele me colocou na cama, mostrou com as mãos o banheiro e um roupão, depois saiu sem dizer nada. Entrei no banheiro, abri o chuveiro e lá fiquei, deixei a água cair sobre meu corpo e chorei. O que estava acontecendo? Tomei banho, passei os dedos nos cabelos, pois não tinha minhas coisas, nem mesmo calcinhas.


Vesti o roupão, e sentei na cama pensando que não podia ser real o que estava acontecendo comigo. O que havia de errado com essas pessoas? Será que as guerras haviam deixado todos loucos? Passei os olhos na mobília, tudo era perfeito, cada peça, cada quadro, aquilo era realmente um castelo. Estava tão exausta que adormeci. Mesmo dormindo, sentia frio, muito frio, e me enrolei na colcha que cobria a cama. Quando acordei, estava toda coberta, ouvi alguém abrindo a porta, e era ele. Entrou, colocou as mãos em minha testa, falou alguma coisa no rádio e saiu. Coloquei a mão em meu pescoço, e percebi que estava com febre, por isso aquele frio durante a noite. Olhei para o lado, vi minha mala e a bolsa no canto do quarto e pensei: Vou me vestir e sair desse inferno, aqui todo mundo é louco, o que havia dado errado no meu trajeto para o Kuwait? Quero sair antes que aquele lunático volte. O que será que esse homem está querendo comigo? Levantei-me com muita dificuldade, precisava colocar uma roupa, tentei chegar até minha mala, mas tudo começou a girar. Acho que caí no chão, porque ao acordar, estava deitada novamente. Havia uma empregada de uniforme azul-marinho ao meu lado, e um senhor vestido de branco, que devia ser médico. Meu Deus, eu estava doente. Há quantos anos não ficava doente? E justo agora em um país que eu mal conhecia e que para piorar ainda mais, estava sozinha. Desabei a chorar. Ele estava lá, ficou me olhando, mas logo saiu e eu dormi novamente. Quando acordei, estava vestida com um pijama de seda, ia abrir a boca para perguntar a enfermeira que estava ao meu lado, o que estava acontecendo, mas resolvi ficar em silêncio, ninguém me entenderia mesmo. De tempo em tempo, ela me dava algo para beber, tinha um gosto muito bom, mas me dava muito sono, acordava e dormia. Cada vez que acordava, estava com um pijama diferente, acho que estava suando muito e a enfermeira me trocava. De quem seriam esses pijamas? Estava muito assustada, o que estava acontecendo comigo? Não conseguia ficar com meus olhos abertos, só dormia, ouvia as pessoas falarem em seu idioma, uns saíam, outros entravam, mas eu não tinha forças para falar. Queria perguntar o que estava acontecendo comigo, mas quando pensava em abrir a boca, logo adormecia novamente. Ao despertar, vi um senhor bem vestido ao meu lado, ele usava um turbante xadrez e tinha os olhos azuis. Seus olhos não eram só apenas bonitos... Eram doces. Olhava-me com meiguice, com um carinho quase fraternal; o outro, aquele que havia me tratado mal, estava ao seu lado, eles eram bem parecidos. Aquele senhor passou as mãos em minha testa, tirou um cachinho de cabelos que estava em meus olhos, falou alguma coisa em árabe com o homem que estava em pé, fez o sinal de Allah, e saiu. O outro me olhou e saiu em seguida. A empregada ficou ao meu lado com a enfermeira. Ergui a cabeça, com a ajuda das duas, mas me doía tudo. Consegui erguer o tronco, quis me sentar e elas apoiaram os travesseiros em minhas costas. Como gostaria de poder conversar com alguém, nem que


fosse só em inglês, precisava ouvir o som da voz de uma pessoa respondendo minhas perguntas. E eram tantas... Não sabia onde estava, nem o que estava acontecendo comigo. Tinha muita dor no corpo, nas costas e na cabeça, parecia que havia levado uma surra, nunca senti nada parecido. Raramente ficava resfriada, não me lembrava de quando havia tido qualquer enfermidade. Nem dor de cabeça tinha, minha saúde era de ferro. Fiquei um pouco sentada, as dores em meu corpo eram fortes, tentei ficar em pé, mas estava muito fraca. Tinha que conseguir, precisava sair dali. Quanto tempo será que estava assim? Será que já havia perdido meu voo? Queria ligar para Odair, mas agora estava precisando de um banho e queria fazer isso sozinha. Como dizer isso à enfermeira e à empregada? Elas não entendiam uma palavra do que eu falava. Consegui ficar de pé, as duas vieram para segurar em meu braço, mas, com um simples gesto das mão, pedi que se afastassem. Caminhei lentamente até o banheiro e tranquei a porta, precisava ficar sozinha. Abri o chuveiro e entrei embaixo da água, aquilo estava me fazendo bem, parecia que minhas forças estavam voltando. Fiquei lá por mais de trinta minutos, saí me sentindo revigorada, peguei a toalha, sequei-me calmamente. Olhei para o chão onde havia jogado o pijama, agachei-me devagar, e o peguei nas mãos. O tecido era maravilhoso, só poderia ser seda, olhei a etiqueta, estava escrito Dior. De quem serão esses pijamas? Devem ser de alguma mulher muito sensual, pois são de muito bom gosto, são lindos. Enrolei-me na toalha e abri a porta. Quando estava saindo, dei de cara com aquele rapaz da lagoa, ele estava em pé na porta. Estávamos apenas nós dois no quarto, as duas mulheres já haviam saído, ele tentou me amparar, mas me esquivei de seus braços. Ele se sentou em uma poltrona e ficou me olhando, enquanto fui até minha mala. Peguei um short branco, uma regata lilás e uma calcinha, olhei para ele dizendo com meus olhos: Ei, não vai sair? Quero me vestir. Como sempre, ele não mexeu um músculo sequer do rosto. Ah, não tive dúvidas, deixei meu roupão cair, olhei-o e nada. Continuava me olhando enquanto vesti a calcinha, o short e... Nada! Ele não se movia, será que era cego? Como um homem poderia não esboçar nenhum sinal? Não falar nada, principalmente diante de uma estranha que está nua na sua frente. Se não estava incomodando a ele, pra mim que se danasse, tinha muita raiva desse homem. Coloquei a camiseta, peguei minha nécessaire, e fui para o banheiro. O tal sujeito foi atrás e continuou olhando-me da porta, enquanto secava meus cabelos com a toalha e passava desodorante. Saí do banheiro, fechei a mala e peguei minha bolsa, estava saindo do quarto quando senti suas mãos em meu braço. Tentei me soltar, mas claro que não consegui, ele era muito mais forte que eu. E apenas com uma das mãos, tirou a bolsa do meu ombro e, calmamente, colocou-a sobre a cama. Fez um gesto com a cabeça para descermos, mais uma vez estava refém daquele homem e tudo isso só porque havia tomado daquela maldita água. Será que alguém poderia me explicar o que estava acontecendo?


Ele me levou até uma sala grande, que não era a mesma onde estive naquele dia da mala. Havia muitos livros, devia ser um escritório ou uma biblioteca, tinha uma mesa muito grande; atrás dela estava aquele senhor de olhos doces, que deu um tremendo sorriso quando me viu. Pediu para me aproximar, e foi quando começou a conversar comigo em árabe, quase tive um treco. – Meu Deus, será que não existe um ser humano capaz de falar outro idioma que não seja o árabe? Não adianta falarem comigo, não entendo uma sílaba sequer do que dizem. Preciso de respostas, preciso de alguém que me entenda, não sei por que estou aqui e não sei o que fiz de tão errado, só tomei um pouco daquela maldita água e isso não é motivo para esse monstro me maltratar! Há quanto tempo estou aqui? Tinha passagem marcada para dia l3 de janeiro, e não sei que dia é hoje! Se queriam me enlouquecer, conseguiram. O senhor saiu de trás da mesa e em inglês disse: – Sou o rei Abdalla, esse que diz ter-lhe maltratado é meu filho, príncipe Abdul, seu nome é Aretha, não é? Fiz um gesto afirmativo com a cabeça. Ele disse: – Você passou muito mal, está aqui há exatamente quatro dias, ou seja, hoje é dia 26 de dezembro, como pode ver, ainda não perdeu seu voo, só perdeu o Natal e sua visita ao nosso país, mas ainda há uma pergunta que não foi respondida. Meu filho, quando a viu na lagoa, pensou que poderia ser uma terrorista infiltrada em nossos domínios, ele não agiu cordialmente com você, peço desculpas por ele. Quando o príncipe ouviu seu pai tentando defendê-lo, se colocou em minha frente e falou, também em inglês: – Sinto muito, não era para ser assim, mas confesso que estava me divertindo, até você tirar a roupa! Estava a pouco mais de um metro dele, dei um pulo e parti pra cima. – Como pôde fazer isso comigo? Você fala inglês. Por que não respondeu minhas perguntas? Por que não conversou comigo? Por que não explicou o que havia feito de tão errado? Estava se divertindo comigo! Você é uma pessoa sádica, é um monstro. Se tivesse me ouvido ou respondido naquela tarde, nada disso teria acontecido. Você acabou com a minha viagem! Pensa que porque é um príncipe, pode tudo? Que pode usar e abusar das pessoas? Você é um homem desprezível. Aliás, foi só isso que encontrei desde que cheguei nessa merda de país, só homens tarados e desprezíveis. Saí da sala, subi as escadas, peguei minha mala, minha bolsa e desci de elevador. Quando cheguei ao saguão, ele estava me esperando. – Sinto muito por tudo isso, não era para ser dessa forma. Quando a vi na lagoa, tinha que te trazer para dentro para nos certificarmos que não era nenhuma terrorista, mas você estava tão divertida,


dizendo aquele monte de coisas, que resolvi te dar um pouco de corda. Não podia imaginar que ficaria doente justo em minha casa. Quero que me perdoe. – O quê? Será que ouvi bem o que acaba de dizer? Quer que te perdoe... Será que é louco? Ainda não tomou consciência do que fez comigo? Eu, uma terrorista? Será que estou em algum filme de ficção e ainda não me dei conta? – Sei que errei muito com você, mas te peço, fique mais alguns dias. Seu carro foi devolvido e ainda não está de alta médica, teve uma pneumonia muito grave. Nisto também sou culpado, não deveria tê-la deixado ficar molhada por tanto tempo. – Como devolveu meu carro? Quem lhe deu permissão pra isso? Eu ainda iria usá-lo, sequer paguei pelo aluguel! Muito obrigada pelo convite forçado, você não está me pedindo para ficar, eu é que não posso ir embora, certo? Ele fez um gesto com a cabeça confirmando. – Que se dane se estou ou não de alta, vou embora desse manicômio o mais depressa possível, onde já se viu, eu terrorista e fonte das águas encantadas! – Quer dar uma volta comigo pelo bosque? Nem esperou que respondesse e me pegou pelo braço, enquanto pedia para que levassem minhas coisas para cima novamente. Soltei-me de suas mãos, sentei em um tronco de árvore, olhei para ele. – Acho que estou dormindo, e este é o pior pesadelo que já tive. Você me maltrata, mexe em minhas coisas, me deixa molhada, até eu pegar uma pneumonia, devolve o carro no qual estava viajando e ainda pede para dar uma volta com você no bosque?! Onde estamos, afinal? Isso só pode ser uma versão barata de Chapeuzinho Vermelho. Meu Deus, o que vim fazer nesse fim de mundo? Ele deu uma tremenda gargalhada. – Isso, ria bastante dessa, idiota. Se já não bastasse o que tive que passar para chegar até aqui, ainda pego o caminho errado e me deparo com outro lunático! – levantei-me e comecei caminhar sozinha, estava fascinada com a quantidade de flores que havia naquele bosque. Os pássaros, estes, eu não parava de admirar, quando ele quebrou o silêncio. – Você é uma mulher muito bonita e muito bem-humorada. Tirou suas roupas duas vezes perto de mim. Não sente vergonha ou está acostumada a tirar a roupa perto de qualquer pessoa? – Respondendo sua primeira pergunta: sim, tenho um senso de humor à flor da pele, e estou pouco me lixando se me acha ou não bonita. Só tirei minhas roupas perto de você porque me provocou, nunca aceito provocações, estava me irritando muito, e nunca admiti que mexessem em minhas coisas. Nunca mais faça isso com uma mulher. Quanto à outra pergunta, não tive vergonha alguma em tirar a roupa perto de você, daqui a alguns dias não o verei mais mesmo. E não tenho por hábito me despir perto de estranhos, com você foi uma exceção. Aliás, isso deve tê-lo chocado bastante, já que


aqui nessa merda de país as mulheres não mostram sequer seus calcanhares. Achei que já tinha visto de tudo aqui: mulheres maltratadas, submissas, homens tarados, mas para encerrar essa maldita viagem com chave de ouro, me deparo com um louco desequilibrado, ou um maníaco sexual. Cada vez que me lembro que entrei naquela lagoa só para tomar um pouco de água... Se contar essa história para alguém... Quem em sã consciência faria uma coisa dessas por causa de alguns golinhos de água? Recapitulando, eu estava na estrada, seguia religiosamente o guia, Quatro Rodas, quando fiquei encantada com a quantidade de árvores e flores que estavam na estrada. Ouvi barulho de água e resolvi procurar de onde vinha, descobri a fonte, entrei, tomei a água e o vi. Pode me explicar qual foi meu crime, senhor príncipe? Se era proibido tomar água em seu lago, por que não colocaram avisos na estrada dizendo “se beberem desta água sua vida estará ferrada?” Deveriam cercar seus domínios com uma cerca elétrica, ficaria mais feliz se houvesse tomado um choque de 220 volts, do que ter passado por tudo isso. Continuamos a caminhar. – É muito bom saber que você é do tipo esquentadinha, mas prometo que assim que tiver alta, te levo para conhecer nosso país, o Kuwait. Comigo você irá conhecer tudo que temos de melhor, não vai precisar dirigir nem invadir casa de ninguém para tomar água. Fiz você perder seu passeio, portanto, é meu dever retribuir o que perdeu. – Espere aí, quem disse a você que quero conhecer o Kuwait? E mesmo que quisesse, jamais iria acompanhada de você. Para seu governo, não invadi sua propriedade, e falando dessa maneira, dá a impressão que montei uma barraca em seu quintal, quando, na verdade, apenas tomei um pouco de água, como se isso fosse o fim do mundo. No Brasil, água é que não nos falta. E pensar que me meti nessa encrenca por conta de um gole de água. Já lhe disse que não vou esperar nenhuma alta, sou dona dos meus atos, e já me dei alta, só quero que devolva o carro, preciso dele para sair daqui. Onde estava seu pai naquele dia? Por que permitiu que agisse daquela forma comigo? Ele também estava se divertindo? – Claro que não. Meu pai não estava no castelo naquele dia, ele só chegou dois dias depois porque mandei chamá-lo, não sabia o que fazer com você. – Onde está a dona dos pijamas? Ela é sua esposa? Sei que pelos seus costumes, vocês podem ter muitas esposas, onde elas estão? Qual calabouço as prende? Porque com você deve ser assim, mulher é só para diversão. Deve ter mandado construir um local para enclausurar todas que chegam perto daquele maldito lago, devo ser apenas mais uma. Ele começou a rir. Dava gargalhadas. – Qual foi a piada? Por que está rindo desse jeito? – Acha mesmo, que nós árabes, colocamos nossas mulheres em calabouços?


– Nada que façam me espanta mais. Meu Deus, quando penso que já vi tudo, ainda consigo me surpreender. – Em relação à sua pergunta, não tem que ser necessariamente assim. Se o homem achar que deve, ele poderá ter quantas esposas quiser, caso não queira, ele poderá ter apenas uma. E a dona dos pijamas chama-se Aretha. Deu uma tremenda gargalhada e continuou. – Sua tolinha, eu comprei aqueles pijamas para você. Acha que te daria um pijama usado? – Por que comprou pijamas? Não gosto de dormir com esse tipo de roupas, durmo só com os meus, que estão em minha mala! Ele riu. – Aquilo não são pijamas e sim uma indecência. A propósito, ainda não tenho esposa, quero eu mesmo escolher minha princesa. – Está dizendo na minha cara que meus pijamas são indecentes? Acho que vive na idade da pedra, meu caro. Também não tem nada a ver com isso, me visto como quiser, Abdul. Ou devo fazer reverência e chamá-lo de príncipe Abdul? Ele soltou outra gargalhada. – Adoro seu senso de humor. – Não sabe a raiva que tenho de você. Minha vontade é pular em sua jugular. Não deve mexer sob hipótese alguma na bolsa de uma mulher, principalmente se essa mulher for eu. Preciso subir, tenho que mandar alguns e-mails e fazer uma ligação muito importante, antes de sair. Ele me ofereceu seu escritório, lá havia tudo que eu precisava, internet e telefone. – Não é necessário, já fiquei tempo suficiente ao seu lado. Já deu para perceber que é como todo homem rico e mimado, e se considera o máximo. Quando subi, tentei de todas as formas acessar à internet, não consegui. Peguei meu celular, mas estava sem bateria, pois havia ficado muitos dias parado. Procurei meu carregador e não achava, verifiquei em minha bolsa, na mala, nos bolsos da calça, realmente havia perdido. Peguei meu computador e desci, tentaria mudar de lugar para ver se encontrava um meio de entrar na internet. Dei a volta e nada. Vi uma árvore enorme que ficava ao lado da sala, não tive dúvidas, me certifiquei se os galhos suportariam meu peso, subi bem devagar, sentei-me no telhado da sala principal, tentei mais uma vez, agora nas alturas talvez recebesse algum sinal, mas nada! Ali não entraria sinal nem que subisse no pé de feijão do Joãozinho. Os seguranças avisaram Abdul sobre minhas peripécias, logo o ouvi chamando-me. Olhei para baixo. – Que está fazendo aí, sua louca? Como subiu?


Apontei a árvore, ele disse: – Quer que eu vá te apanhar? – Subi sozinha, desço sozinha. – gritei. Cada passo que dava no telhado, ele se contorcia. Cheguei ao lado da árvore, coloquei o notebook embaixo da camiseta e desci calmamente. Quando cheguei embaixo, ele estava me esperando e rindo. – Você é completamente louca. O que estava fazendo no telhado? Quer morrer, menina? – Não, quero quebrar essa merda! – Você me surpreende, como pode ser tão espontânea? – Quer mesmo saber? Economize o ano inteiro para fazer uma viagem, erre completamente na escolha de seu roteiro, encontre nessa droga de viagem, homens idiotas e tarados, depois sem mais nem menos, se depare com um lunático, descubra que não tem mais carro, nem celular, muito menos internet. Mas o que estou dizendo? Claro que nunca entenderá o que acabei de dizer. É rico! Nunca precisou ou precisará economizar para viajar. Aproveita seu tempo ocioso para brincar com as pessoas e isso deve lhe dar muito prazer. Acha que não notei que estava gostando da brincadeira? Estava se divertindo às minhas custas. Mas dessa vez, mexeu com a pessoa errada. Não me conhece, meu pavio é muito curto, principalmente esta semana, que estou de TPM, tenho vontade de matá-lo. Você não tem mais nada de interessante para fazer na vida, além de ficar o dia todo vigiando aquela maldita fonte, para ver quem será a próxima vítima que cairá nas suas teias? Pior ainda é saber que devolveu meu carro com o carregador de celular e meu Ipod dentro do porta-luvas, quer mais azar que isso? Como pôde fazer isso comigo? Mandou devolver meu carro, sem se quer olhar o que havia dentro, agora não poderei mais usá-los. Você arrombou aquele carro, pode pelo menos dizer o que procurava lá? Achou que era um carro-bomba com uma mulher bomba dentro? Mas que idiota eu sou, é um príncipe. Os príncipes podem tudo neste país. Só falta dizer, que como castigo, terei que ficar acorrentada aos pés da mesa, ou até quem sabe, em um tronco, levando chicotadas a cada hora do dia. Meu Deus, o que estou dizendo? Sempre fui uma pessoa tão equilibrada, veja o que fez comigo, passei da raiva para o delírio! Acho que terei que aceitar seu convite, tenho que usar seu escritório.


Capítulo Seis Deus, se queria me castigar acho que conseguiu, estou novamente à mercê desse homem. Que saudades da minha terra. Quando penso que poderia estar em Madri ou na Grécia, fico com mais raiva ainda. Como pude ser tão idiota? Sempre me disseram que nesse país os homens maltratavam as mulheres, nunca acreditei, mas agora estou sentindo em minha própria pele. Ele me olhava, estava sério. – Me desculpe, sei que está tentando ser gentil comigo, mas esse é meu gênio. Não é obrigado a ficar ao meu lado, estou num tremendo mal humor, estou no meu limite, nunca me senti tão mal assim. Perdi minhas férias e não sabe como foi difícil para eu fazer essa viagem, mas você não tem culpa que eu tenha errado o roteiro, com tantos outros lugares que queria conhecer, mas agora já foi, não vejo a hora de voltar para minha casa, tenho saudades de tudo, até das coisas ruins. Mas isso é bom para aprendermos a não falar mal de nosso país. Eu, principalmente, estava precisando de uma lição. Ultimamente, reclamava tanto do calor, sendo que nosso é fichinha perto do que já passei aqui. Não vejo a hora de poder tomar um banho de mar, tomar sol, sair às ruas sem ter medo de ser atacada. Vestir as roupas que estamos acostumadas e tomar um café brasileiríssimo, não esse chá que servem aqui, ou uma cerveja bem gelada. Igual aquela não existe em lugar algum do mundo, fico até emocionada quando me lembro do meu país e do meu querido Rio de Janeiro. Ele só ouvia. Me acompanhou até o escritório, me mostrou como deveria usar a internet, falei que ele poderia ficar, não tinha nada a esconder. Claro que ele ficou. Respondi alguns e-mails, mandei outros, mandei uma porção de fotos que havia tirado, ele perguntou se poderia ver. – Claro que não. Por que acha que te mostraria minhas fotos? – Está exagerando com essas malcriações, Aretha. Sei que errei, já pedi desculpas e não preciso ficar ouvindo você me ofender dessa forma. Estou tentando nem levar a sério as coisas que está me dizendo, sabe que poderia mandar matá-la por estar insultando a coroa kuaitiana? – Não brinca! Sério? Por que não o faz? Só falta isso pra fazer comigo. Acha que tenho medo de você ou de sua coroa? Sou do signo de libra, meu caro príncipe, acha mesmo que estou sendo maleducada? É simples. Me dê um carro e se livrará de mim. Como acha que eu poderia classificar o que fez comigo? Pena que não tenho coroa para mandar matá-lo. Peguei o telefone e pedi que me desse o código de DDD, ele falou. Fiz a ligação e, quando ouvi a voz do Odair, comecei a chorar. Ele disse que estava preocupado comigo, fazia mais de uma semana que eu não ligava, contei que havia perdido meu celular, conversamos bastante. Odair falou sobre minha fantasia, disse que já estava pronta, pedi que fotografasse e mandasse para meu e-mail. Nós nos despedimos e falei que alguns dias depois, ligaria novamente.


– Deixou seu marido no Brasil? – Claro que não. Como poderia deixar alguém que não tenho? Estava falando com um grande amigo, um pai, eu diria. Não sei por que estou te dando tantas explicações. – Está me dando explicações porque é assim que tem que ser. Agora chega de me agredir, se está em seu limite, também estou no meu. Como consegue ser tão desagradável? Tenho sido gentil e cavalheiro com você, mas vejo que de nada adiantou, continua me alfinetando de todos os lados. Basta, dona Aretha, falou tudo que queria, não quero mais ouvir uma palavra. – Que medo! Vai me mandar pro calabouço? – Não. Gostaria de ver um filme comigo? Temos uma boa sala aqui no castelo e uma bela variedade de filmes, quem sabe isso não te deixará mais relaxada. – Espere aí... Acho que não entendi! Está me convidando para assistir um filme com você? Só pode estar de brincadeira. Não quero ver filme algum, quero meu carro. Preciso ir embora. – Já pedi para não me agredir mais, Aretha. Se continuar, terei que mandar puni-la por tanto insulto. – Faça isso, senhor príncipe. Só assim para poder me calar. Acha que estou brincando? Odeio você e tudo que está à sua volta. Ele pegou em minha mão me puxando para um andar acima. Havia uma sala enorme, a tela ficava no teto, as poltronas era quase uma cama. Pediu que eu escolhesse o filme que gostaria de ver. – Acha que tudo se resolve assim? Tenho que fazer sempre o que quer? Não quero ver filme algum com você. Se não tem mais o que fazer, vá até sua preciosa fonte, quem sabe caiu outra trouxa em sua armadilha. – Aretha, não fale assim comigo, estou tentando fazer o melhor, mas paciência também tem limites, e a minha já está se esgotando. Acho melhor escolher logo um filme, ou prefere que eu a tranque em seu quarto? – Você não teria coragem. – Não aposte, minha cara. Dei uma olhada nos DVDs, achei um que ainda não havia assistido. – Coloque esse. Era Eclipse, o filme dos vampiros. Ele colocou e se sentou perto de mim. As luzes se apagaram. Eu realmente amava aquele filme, chorei quase o tempo inteiro, toda hora limpava os olhos. Quando o filme terminou, meus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ele acendeu as luzes, olhou para mim. – Você é uma mulher muito interessante, e pelo visto, muito romântica. Virou-se para meu lado e me beijou. Seus lábios se apossaram dos meus num beijo possessivo,


sua língua explorando minha boca. Me arrepiei por inteira, e tão rápido como havia começado, o beijo terminou. Me levantei rapidamente. – O que pensa que está fazendo? Acha que sou o quê? Pensa que pode chegar e ir me beijando assim? Nota-se que entende muito pouco de mulheres, caro príncipe. Deveria ter pedido permissão para me tocar, não lhe dei essa liberdade. Agora me leve de volta ao meu quarto. – Cuidado. Posso entender mal essa sua rejeição. – Será que devo esperar mais algum castigo por isso? Vai me trancar em alguma masmorra? Isso é um Castelo, deve ter alguma desocupada. – Aretha, está indo longe demais com esse mal humor, se tem um gênio ruim ainda não conhece o meu. – Bem, nesse caso a única coisa que lhe resta fazer é me dar um carro, já que devolveu o meu. Te garanto que nunca mais irá ter que ouvir nenhuma malcriação minha. Saímos da sala, e fui para meu quarto. Estava com as pernas bambas, porque ele havia me tocado, e o pior é que tinha gostado. Seus lábios eram macios. Um beijo digno de um membro da realeza. Tomei banho, coloquei um macacão curto e decotado, e fiquei lendo um pouco até ouvir alguém bater em minha porta. Fui abrir, era uma empregada, ela me entregou um bilhete e uma caixinha. Abri primeiro a caixinha, dentro estava meu Ipod e um celular novinho. Peguei o bilhete e li. “ Amei te beijar. Sinto informar, mas não será hoje que irá embora. Te espero às 20h00na porta do elevador para jantarmos ”. Olhei-me no espelho, estava muito bem, mas não sabia se estava com uma roupa adequada para jantar com um rei e um príncipe. Meus costumes são diferentes, eles terão que me aceitar do jeito que sou, afinal, estou aqui contra minha vontade. Olhei o relógio, faltavam apenas dez minutos. Fui até o banheiro, me maquiei, arrumei meus cabelos, saí do quarto e peguei o elevador. Quando abri a porta, ele estava me esperando. Estava lindo. Vestia calça jeans justa, uma camisa xadrez e um tênis lindo nos pés, olhou-me. – Está linda, acho que vai fazer meus criados e seguranças subirem pelas paredes. – Deixe-os se divertirem um pouco, não sei como aguentam olhar todos os dias aquelas mulheres com roupas pretas. Eu que sou mulher, já não estou aguentando. Ele pegou em minha mão e fomos para a sala de jantar, aquele Castelo era muito grande, se me deixasse sozinha, com certeza me perderia. O rei estava nos esperando, sentamos, éramos apenas os três, mais a quantidade de comida dava para um exército. Comi apenas uma salada e um pedaço de cordeiro. Recusei a sobremesa, preferi apenas um café. Seu pai perguntou como estava me sentindo, falei que muito bem. Elogiou minha roupa, dizendo que meus olhos eram da cor do Mar Morto.


– Isso é um elogio ou uma crítica? Porque se meus olhos estão da cor que está dizendo, também devo isso a seu filho? Ele deu uma gargalhada. – Meu filho tem razão, você é uma mulher espirituosa, gosto disso. Pediu licença, pois tinha umas coisas para resolver. Fomos para o jardim, sentei-me em uma poltrona, ele em outra. Eu disse que gostaria dos meus cigarros, e ele foi correndo pegar. Fumei com gosto e me deitei em silêncio, ele pegou em minha mão, eu retirei. Ouvi uma voz feminina, era uma empregada, ela trazia uma bandeja com damascos secos, café, chá e muitas outras guloseimas. – Está apaixonada por alguém? — ele perguntou. – Claro que não. Por que essa pergunta? – Você está cantando com o coração. Mulher quando canta com o coração é porque está pensando em alguém. – Nem notei que estava cantando, se o fiz, deve ter sido para afastar os maus espíritos, estou é com muita saudade da minha terra. Ele se virou quase tocando seus lábios nos meus. – Gostou do meu presente? – Obrigada, não precisava se preocupar, perdi apenas meu carregador. – Você não tem culpa, Aretha, fui eu quem mandou entregar aquele carro com suas coisas dentro. – A propósito, não entendi o porquê. Eu havia combinado de entregá-lo um dia antes do meu embarque. – Tive medo que fosse embora sem que eu visse, estava me sentindo muito culpado por tê-la feito ficar doente. – Você não me fez ficar doente, a coroa não lhe dá esse poder, fiquei doente porque tinha que ficar. Ele chegou mais perto. – Posso tocar seus lábios? Nem esperou a resposta, encostou seus lábios nos meus bem devagarzinho, o calor tomou conta de mim e senti um arrepio pelo corpo todo. – Adorei cada uma de suas tatuagens, são lindas. Quer ir para a cidade comigo amanhã? – Está querendo dizer, em meias palavras, que não trará meu carro? – Não posso trazê-lo, eu e meu pai estamos convidando você para passar uns dias aqui no Castelo, tentarei fazer o melhor possível para amenizar um pouco os transtornos que lhe causei. – Não. Nem teria cabimento. Se tiver que conhecer sua cidade, irei sozinha, corro menos perigo longe de você.


– Não corre perigo algum comigo, Aretha, muito pelo contrário. Ele sorriu e tocou meus lábios novamente, sabia que aquilo não iria acabar bem. – Vou subir, estou cansada. Se não pode devolver meu carro, alugue outro, preciso ir embora. - Você não vai a lugar algum. Amanhã às 10h00 está bom para você? – Vai me manter presa aqui? – Sim. É minha prisioneira. Ficaremos três dias. Leve sua mala, vai precisar de roupas. Se preferir, quando estiver comigo, poderá ficar sem elas. Dei um boa-noite e subi. No quarto, não parava de pensar: Iria dar um jeito de sumir, assim que chegássemos à cidade. Isso não vai dar certo, ele é um príncipe, somos diferentes um do outro literalmente. Por que não mandava trazer logo um carro pra mim? Seria melhor para todos. Não estava entendendo o porquê daquele convite. Será que eu era apenas um brinquedinho para ele? Mas em uma coisa ele estava certo: havia acabado com minhas férias. Mas ficar assim tão próxima dele, não iria prestar, já havia notado que ele era muito saidinho, mal havíamos nos conhecido e já tinha me beijado. Por que será que não recuei? Pelo contrário, eu havia gostado. Aretha, tome tenência. Sabe que isso não vai acabar bem. Estou carente e longe dos meus amigos, isso me deixa mais vulnerável. Ele deve ter percebido e está se aproveitando, acho que fazia tempo que não via uma mulher sem roupas. Levando em conta que as mulheres que vivem em seu país se cobrem inteiras, eu estava quebrando todos os tabus daquela cidade. Iria com ele, mas tentaria ficar o mais distante possível de suas investidas, e assim que desse uma brecha, eu iria embora. Ele era um homem incrivelmente atraente e sedutor, o pior de tudo é que mexia demais comigo. Estava correndo perigo ao seu lado, não beijava havia algum tempo, não por falta de interessados, mas por mim mesma. Para beijar alguém tinha que me sentir atraída. Abdul me atraia, esse era meu medo. Como pode, em pouco menos de uma semana, mudar tanto? Do ódio à atração. Isso não ia prestar. Sabia que ele iria tentar novamente, tinha que ser forte e resistir a todas as suas investidas, ou sairia machucada dessa brincadeira. Nem tinha cabimento isso. Fui dormir pensando naquele beijo, tinha que tirar aquilo da cabeça, sempre fui uma mulher com os pés no chão, agora estava me questionando. O que estava acontecendo comigo? Ele era um homem lindo, um homem que deixaria qualquer mulher louca, mas era só isso. Eu não queria nem poderia ter nenhum tipo de ilusão com ele.


Capítulo Sete Dormi um sono muito tumultuado, acordei com o som do celular às 8h00 horas. Tomei banho, me vesti, coloquei uma calça de linho larga e uma camiseta verde, maquiei somente os olhos, e desci para tomar café. Às 9h30 ele já estava me esperando. Tomamos café juntos, ele pediu para os empregados pegarem minha mala e bolsa, e saímos exatamente às 10h00. Ele dirigia um Audi preto, estava com uma calça saruel bege e uma camiseta que mostrava seus músculos, havia muitos carros nos acompanhando, afinal, ele era um príncipe. – Mostre-me onde errei naquela terrível tarde. Ele voltou, pegou a estrada e indicou onde eu deveria entrar e onde havia entrado, falei que jogaria no lixo meu guia. – Não quero acreditar que aquela tarde tenha sido tão horrível assim para você. – Acha que estou gostando de tudo isso, Abdul? Não passa pela sua cabeça que gostaria de estar longe daqui? Se aquela tarde foi boa, foi apenas para você. Pelo menos passou uma tarde diferente, se divertiu bastante comigo. Abdul colocou a mão em meu rosto. – Não sou esse canalha que está falando. Sei que errei, já pedi desculpas inúmeras vezes por isso, será que terei que ouvir você me ofender o tempo todo? Seguimos por uma estrada linda, tudo no Kuwait me parecia diferente, realmente era uma cidade encantadora, de primeiro mundo. Os prédios eram modernos, havia muitas lojas de grife. Ficamos no hotel de sua família, eles tinham até um hotel e era maravilhoso. Deixamos nossas malas no quarto, e fomos conhecer a cidade. – O que necessariamente deve fazer um príncipe? – Sou um kuaitiano americanizado, fico mais tempo em Nova York do que em minha pátria. Temos um prédio de escritórios, cuido das vendas de petróleo, dos negócios em geral. – Adoraria conhecer Nova York. – Não vá embora, fique e irá comigo para Nova York. –Como tudo se resolve fácil com você! Tenho meu trabalho, responsabilidades. Você acha que minha vida é como a sua? Tenho que ralar muito para pelo menos uma vez por ano fazer uma viagem. A próxima com certeza será mais bem planejada, basta errar uma única vez para aprendermos. ─ Não faça com que me sinta pior do que já estou me sentindo, Aretha. Vai falar sobreeste assunto até quando? Resolvi não falar mais nada, sabia que estava abusando. Passamos o dia andando e por onde ele passava, todos o reverenciavam. Me sentia um peixe fora d’água, mas ele sempre procurava me


deixar muito à vontade. Voltamos para o hotel quando já era noite e fui para meu quarto me arrumar. Marcamos de jantar às 21h00, ele iria me levar a um restaurante que amava, eu não sabia o que vestir. Resolvi que iria de calça jeans com uma blusa de paetês dourada. Abdul estava lindo de calça caqui e camisa branca com os punhos virados. Antes do jantar, ele pediu as bebidas, depois de perguntar o que gostaria de beber. Pedi um uísque, ele me acompanhou, ficamos bebendo por mais de uma hora. Eu já estava altinha quando ele pediu o jantar, mas estava sem fome. Realmente a comida era maravilhosa. Abdul me convidou para dançar, aceitei, estava com saudades de dançar. Ele começou a lembrar daquela tarde, o que havia dito quando pegou meus absorventes, depois falou da pinça, e do meu diário, ele disse que enlouqueci, e teve que se segurar muito para não rir. – Você se divertiu muito comigo, não foi? Confessou que jamais havia encontrado uma mulher tão brava, e que quando tirei a roupa e pedi que me revistasse, ele quase teve um treco. – Quem brinca com fogo, meu querido, com certeza acorda queimado. Não sou de brincadeira, mas acho que tenho exagerado muito com você. Subimos para nossos quartos, os seguranças nos acompanhavam por todos os lugares, isso não me incomodava, sabia que fazia parte do seu cotidiano. Chegamos à porta do meu quarto. Quando ia dar boa-noite, ele me agarrou pelos braços e me beijou. Um beijo muito ardente, ele era bom nisso. Perguntou se poderia entrar, disse que sim, já estava louca por aquele homem. De qualquer maneira, depois eu iria embora mesmo, melhor pecar por fazer do que me arrepender por não ter feito. Ele me pegou no colo, colocou-me na cama e começou me beijar. Estava ficando louca. Ele fazia tudo com muita calma, acho que queria me enlouquecer mesmo. Devagar tirou minhas roupas, e ficou olhando minhas tatuagens. Tinha uma flor ao lado da orelha, um beija-flor nas costas, três corações perto da nuca, uma flor pequena em meu pé direito, as iniciais de minha escola de samba no punho direito, uma frase escrita em japonês nas costas, abaixo da cintura, e meu nome na virilha. Ao todo, tinha sete tatuagens, e adorava cada uma delas. Ele ficou olhando; a cada uma, me perguntava o significado. Eu dizia, ele dava um beijo, ia para a outra. Quando chegou na virilha. Agora o bicho vai pegar. Se ele encostar os lábios aí, não respondo por mim. Foi justamente o que aconteceu. Beijou meu nome, e distribuindo beijos pelo caminho, chegando ao meu sexo. Sua língua explorava minha intimidade com maestria, chegando próximo a minha entrada, provocando, mas retardando o contato direto. Estava a ponto de desmaiar, tamanho era meu desejo. Ele fazia amor diferente dos outros, a penetração era a última coisa com que se preocupava. Explorava meu corpo todo, acariciando, passando aquelas mãos pela minha pele, que se arrepiava em resposta. Beijando cada reentrância do meu corpo, provando o sabor, descobrindo minhas áreas


de maior prazer. Minha respiração estava ofegante, meu coração fora de sintonia, ele não me deixava tocar muito nele, acho que estava tentando me mostrar como um árabe conseguia fazer uma mulher ficar doida. Se levantou e diante dos meus olhos, retirou a roupa. Eu fiquei babando a cada pedaço dele que me era revelado. Seus braços fortes, peitoral e abdômen perfeitos. Suas pernas faziam jus ao resto do corpo, com músculos delineados a cada movimento. Quando a última peça foi retirada, fiquei sem fôlego. Deus, ele era grande. Engoli em seco e olhei em seus olhos. Ele percebendo minha hesitação, me acalmou. –Não tema, Aretha. Vou te amar devagar. Se posicionou entre minhas pernas, nossos sexos a milímetros de distância. Sua boca cobriu a minha e me perdi em seu beijo. Com cuidado, ele me penetrou e gememos deliciados com a sensação de plenitude. Nossos movimentos foram se intensificando, suor brotando, respirações e gemidos se misturando, levando a um clímax intenso e consumidor. – O que achou de minha performance? Dei-lhe um beijo. – Aprovadíssimo, meu príncipe! Ele se deitou ao meu lado, e foi minha vez de perguntar. – Foi bom para você? Ele ergueu o tronco, ficou apoiado no cotovelo, pegou com sua mão esquerda meu rosto e disse: – Não tenho explicação para isso no momento, mas para não te deixar preocupada, só posso te adiantar que você é a mulher mais quente que conheci, tem tudo que um homem gosta. – Isso quer dizer que gostou ou ainda quer pensar um pouco mais no assunto? Ele deu uma gargalhada, me abraçou, ficamos quietinhos. Quebrei o silêncio. – Quero te pedir desculpas. Eu tenho sido muito intolerante e mal-educada, mas estava um pouco assustada com tudo, e isso foi uma forma de defesa. Ele me beijou. – Não me peça desculpas, Aretha, eu sim, devo pedir, fiz tudo errado. Adormeci nos braços dele. Quando acordei, Abdul já não estava mais ao meu lado. Olhei as horas, e já passava das dez horas da manhã. Levantei-me rapidamente e fui tomar banho, vesti um short saruel branco e uma camiseta amarela, essa cor me caia muito bem, já que tinha a pele muito bronzeada. Adorava tomar sol, nunca usava nada por baixo da blusa, meus seios eram bonitos e naturais. Desci rapidamente. Quando cheguei às escadas, no saguão do hotel, uma recepcionista me entregou um bilhete, era de Abdul. Dizia que havia saído cedo para resolver alguns assuntos, que eu


tomasse meu café, e que quando ele chegasse, me procuraria. Tinha uma observação: “ Quanto a ontem, devo confessar que você me fez sentir o homem mais realizado do mundo .” Coloquei o bilhete no bolso, e entrei no restaurante para tomar café. Fui tratada como uma princesa, estava me sentindo nas nuvens. Subi para o quarto, peguei meus cigarros e fui me sentar no jardim do hotel. Deitei-me em uma espreguiçadeira, acendi um cigarro, depois de apagá-lo, coloquei o fone de ouvido, e fiquei pensando que faltavam mais ou menos quinze dias para voltar ao Brasil. O que estava acontecendo comigo? Há menos de uma semana estava com vontade de sumir daquele país, não aguentava mais ver aquelas pessoas, disse até que jamais me casaria com um árabe. Agora estava hospedada em um hotel maravilhoso acompanhada de quem? Um árabe! Isso só poderia ser castigo. Será que estava louca? Aquilo jamais daria certo, não pertencíamos a mesma classe social; ele era o príncipe, eu apenas uma rainha de bateria que desfilava seminua na avenida... Que homem com todos esses requisitos se interessaria por uma mulher como eu? E ainda tinha outro agravante, nem família tinha. Estava muito nervosa de pensar que logo me despediria dele definitivamente. Levantei-me e fui passear no bosque do hotel. Caminhei bastante. Nesse hotel havia muitos turistas brasileiros. O que será que diriam se soubessem que era brasileira e estava hospedada naquele hotel em companhia do príncipe do Kuwait? Com certeza, não acreditariam. Nem eu acreditava que estava ali acompanhada de um príncipe. E pensar que eu tinha dito tantos impropérios a ele, não sei como me aguentou. Agora cá estava eu, já havia passado a noite com o homem que até dias atrás detestava. Na verdade, acho que nunca o detestei, gostei dele assim que o vi. Será que meu destino seria esse? Conhecer alguém instantaneamente, ficar com essa pessoa alguns dias, ser muito feliz, depois voltar para minha terra e ficar vivendo só de lembranças. Acho realmente que esse seria meu fim. Sabia que estava vivendo um conto de fadas, logo voltaria a realidade, e minha realidade estava bem longe dali, mas decidi que aproveitaria cada minuto ao lado dele, depois tentaria esquecê-lo.


Capítulo Oito Sentei-me ao lado da fonte, com uma das mãos, volvia a água. Estava com fone de ouvido e a música me relaxava, mas meus pensamentos, estes não me largavam. Ele nunca havia perguntado sobre minha vida, isso era bom ou ruim? Nunca havia dito a ele que era sambista e rainha de bateria, que minha vida era muito simples, vivia com poucos recursos, que havia passado parte de minha infância em um orfanato. O que ele faria quando soubesse? Será que isso teria muita importância para ele? Claro, era um príncipe. Como poderia ficar com uma pessoa como eu? Seu pai jamais aprovaria esse relacionamento. Devia fazer questão que ele se casasse com uma mulher rica e de família nobre. Senti uma mão em minhas costas, virei-me, lá estava ele com aquele sorriso: – Um dinar pelos seus pensamentos. – Como soube que estava aqui? – Seu segurança me informou pelo rádio. – Meu segurança? Nem sabia que tinha um. – Você corre os mesmos perigos que eu, só pelo fato de estarmos juntos. Meu pai já recebeu um bilhete anônimo dizendo que sabem de você, por isso, achou melhor protegê-la. – Caramba! Sabem de mim como? Se alguém me matasse, nem saberia por que tinha morrido, não sei nada a respeito dessas brigas. – Melhor assim, Aretha. Quando olhei para ele novamente, notei que vestia terno azul-marinho e gravata vermelha, estava lindo, vestido socialmente. – Nossa, que homem mais sedutor! – São os ossos do ofício, minha querida. Me aguarde aqui, vou subir para trocar de roupa, daqui a dez minutos estarei de volta. Vou levá-la para conhecer nosso centro comercial, depois iremos almoçar em um lugar muito especial. Saiu me deixando só com meus pensamentos. Voltou em seguida, usando camiseta branca e calça jeans. Pegou-me pela mão, e fomos para o estacionamento pegar o carro, que agora era um BMW conversível. Seus seguranças sempre estavam atrás em outro carro, que logicamente era blindado. Ele se dirigiu até uma praça, estacionou o carro, abriu a porta para eu descer, levou-me para o meio da praça, e, mostrando-me uma estátua de bronze. – Esse é meu pai, rei Abdallah, o homem mais respeitado por todo o mundo árabe, e esta é minha querida cidade, Aretha. Dizia isso com tamanha alegria que chegou a me contagiar. Sentamos um pouco ao lado da estátua de seu pai, peguei em suas mãos.


– Seu pai é do tipo que tem muitas mulheres? – Meu pai teve apenas duas mulheres até agora; minha mãe, que morreu há vinte anos em um atentado; e agora sua segunda esposa, que mora aqui na cidade. Aquele castelo é só meu e de meu pai. Fiquei tão chocada com o fato de sua mãe ter morrido dessa forma brutal. – Por que sua mãe morreu? Como isso aconteceu? – Uma mulher bomba entrou em uma loja onde minha mãe estava. A bomba era para ela. Algumas lágrimas desceram pelo meu rosto. – Que história triste! Quantos anos você tinha? – Acho que uns dezoito anos. Me revoltei muito, mas agora já passou. Por isso temos todo esse aparato de seguranças. No castelo são 30 homens, aqui mais de 50, eles estão por toda parte, como soldados, como homens comuns e como seguranças uniformizados. – Isso não te incomoda? – Claro que não, isso faz parte da minha vida. Mas vamos parar de falar em coisas tristes, trouxe você aqui para conhecer um pouco da minha cidade, não é linda? Prédios novos e modernos, e mais, todas as lojas de grife que existem no mundo você encontra aqui. Meu pai faz questão de dar tudo do bom e do melhor para esse povo que o ama. Pegou minha mão e me levou para conhecer a rua principal da cidade do Kuwait. Realmente tinha de tudo Chanel, Gucci, YSL, Prada, e todas as outras grifes que eu só conhecia de nome. Ele me levou a uma loja de roupas femininas, era o Ateliê YSL, coisa de outro mundo. Percebia que quando estava com outras pessoas, ele era completamente diferente de quando estava comigo. Ele chegava e todos já se curvavam e faziam reverência. Todos largavam o que estavam fazendo ou quem estavam atendendo e vinham saber no que poderiam ajudá-lo. Perto dessas pessoas era exatamente como havia sido comigo no dia que nos conhecemos, sério, muito sério. Não movia um músculo sequer do rosto. Fez um sinal para as vendedoras me apontando. Falou alguma coisa em sua língua, depois sentou-se em uma poltrona junto comigo. À nossa frente havia um corredor com um tapete vermelho, ele apertou minha mão, em seguida começou um desfile exclusivo de vestidos, eram a coisa mais linda, cada um mais belo que o outro. Quando ele gostava de algum, fazia sinal com a mão. Separou mais de 10 modelos, me olhou. – Acha que tenho bom gosto? – Excelente gosto, amor. Mas para quem está escolhendo essas maravilhas? – Para você, é claro. – Agradeço sua intenção, mas nem tenho onde usar essas roupas, meu estilo é outro, sou mais simples, diria até que mais prática. Onde usaria estes modelos de roupas tão sofisticadas?


Ele fez um sinal com as mãos, saíram todos, olhou para mim. – Pensei que estavam lhe agradando, mas tem razão, vou deixá-la escolher. Bateu palmas, logo vieram dois homens, ele falou por mais de cinco minutos com os dois, se levantou, pegou minha mão e colocou em cima da mão de um deles. Esse homem me acompanhou por um corredor, entramos em uma sala, ele apontou um corredor de araras, com uma grande variedade de roupas, falou comigo em inglês disse que havia entendido o que eu queria. Me mostrou alguns modelos mais arrojados, separei alguns que havia gostado, e ele ficou segurando. Depois me levou a outra sala toda de espelhos, colocou as roupas que eu havia gostado em uma arara, e pediu que experimentasse. Primeiro, experimentei um macacão de seda verde-esmeralda, era meu número, caiu como uma luva. Saí do provador e fui até o corredor, ele me olhou e bateu palmas com um sorriso de orelha a orelha. Depois me conduziu para a sala onde estava Abdul que ficou encantado ao me ver. Falou alguma coisa com o homem, voltei e experimentei um vestido estampado. Era comprido, mas tinha as costas toda de fora, na frente um drapeado que deixava parte dos meus seios à mostra. Abdul fez sinal de positivo, depois experimentei uma calça saruel de seda preta com uma camiseta de seda estampado de vermelho, novamente Abdul aplaudiu. Depois um macacão florido, tomara que caia de modelo cinturado, embaixo era todo folgado, quando chegava na canela se ajustava, isso fazia o modelo parecer a calça de Aladim. Abdul deu um grande sorriso, cheguei bem perto do seu ouvido e disse: – Agora já chega, não estou com vontade de provar mais roupas. Ele pediu para encerrar, mandou que entregassem no hotel. Saímos e fiquei pensando: Estava acostumada a só comprar em liquidações de lojas de departamentos, agora tinha acabado de sair do ateliê de YSL, mas nada havia me deixado eufórica, não apreciava aquele tipo de roupa. Quando estávamos na praça, ele disse novamente: – Você tinha toda razão, aqueles vestidos não iriam combinar com seu porte físico, realmente me surpreendeu, não só a mim, mas também ao senhor YSL. – Caramba! Fui atendida pelo próprio estilista? Mas isso é uma honra para mim. – Não minha, querida, a honra é dele. Acho que nunca viu uma mulher tão linda, com tanto bom gosto e despojada de valores materiais. Sabia que tudo que comprou não pagaria um “único” vestido daqueles que separei? Fiquei indignada, mas ele era um príncipe. Entramos na Chanel, ele comprou três bolsas maravilhosas, desta vez deixei que escolhesse. Depois fomos aos calçados, comprei duas sandálias de salto transparente, uma preta, outra ouro velho. Pedi que fôssemos almoçar, já passava das três horas, e estava faminta. Abdul me levou a um restaurante ao ar livre, quando entramos, todos o reverenciaram. Nos deram


a melhor mesa, sentamos e ficamos olhando o cardápio, como não entendia o que estava escrito, ele lia em inglês para mim. Depois de escolhermos, pedimos um aperitivo, resolvi experimentar uma bebida que ele sempre tomava, era doce com gostinho de anis. Pedi para repetir. – Isso é forte. É bebida de homem. As mulheres aqui só tomam sucos e batidas de frutas. – Que peninha, elas não sabem o que estão perdendo, isso para mim é água com açúcar. No meu país, adoro tomar uma branquinha. Por lá é mais comum os homens tomarem esta bebida. Expliquei o que era branquinha, ele me deu um beijinho de leve nos lábios. Nossa comida estava ótima, ele perguntou se queria provar os doces árabes. – Não como doces. – Como não come doces? Toda mulher adora doces! – Toda mulher gorda você quer dizer. Porque aqui só vi mulheres gordas, preciso manter meu peso. Ele pediu a conta e saímos. Entramos no carro e nos dirigimos ao hotel. Sentei para fumar na varanda, e quando terminei disse que iria subir para descansar, estava realmente cansada, tudo estava acontecendo muito rápido em minha vida. Quando estava saindo, ele me puxou e falou em meu ouvido: – Vai subir sozinha ou quer a companhia de um homem apaixonado? Subimos juntos, era a primeira vez que o ouvia dizer estar apaixonado. Quando entramos, me atirei na cama. Ele percebeu, mas não disse nada, apenas ficou ao meu lado, mexendo em meus cabelos e fazendo carinho em minhas costas. Adormeci, e tive um sonho horrível. Sonhei que estávamos em uma loja, uma mulher entrava, abraçava Abdul e eles explodiam juntos. Acho que o assustei, pois acordei com ele me sacudindo. Contei com o que havia sonhado e, carinhosamente, ele me pegou em seus braços dizendo que eu deveria me acalmar, que havia tido apenas um pesadelo por conta do que ele havia contado sobre sua mãe. Ele me colocou na cama e notei que estava só de cueca. – Isso que está fazendo é assédio sexual, sabia que poderia te processar? Está quase nu em minha cama. – Então me processe, querida. Deitei-me em cima dele. – Agora vou mostrar a você o que é uma pegada à brasileira. Comecei a beijar sua boca, contornei seus lábios com a língua, exigindo que eles se abrissem. Com um suspiro, ele entreabriu-os e minha língua tocou a dele. O beijo se intensificou e escorreguei minha boca por seu queixo, indo para sua orelha, lambendo e mordendo a pontinha. Fui distribuindo beijos e descendo pelo seu corpo, mordiscando seus mamilos, passando a língua pelo seu abdômen,


contornando seu umbigo. Me abaixei um pouco mais e por cima da cueca, fiquei somente a alguns centímetros de seu membro, apenas atiçando, mas não encostando. Voltei para cima e o beijei novamente. Ele me agarrou. – Como consegue fazer isso comigo? Onde você estava, meu amor? Por que não te conheci antes? Está mexendo demais comigo. Pegou-me de um jeito que vi estrelas. O peso de seu corpo sobre o meu, aqueles músculos do tórax, seus braços me apertando... Eu gemia, alucinada. Fizemos amor de uma forma estonteante, ele sabia exatamente como me nocautear, fiquei exausta. – Você acaba comigo desse jeito. Ele deu aquela gargalhada que deixava à mostra seus dentes perfeitos. Ficamos deitados por um tempo até que quebrei o silêncio. – Por que nunca perguntou nada sobre minha vida? Não tem curiosidade de saber quem sou, o que faço, como vivo? – Você é Aretha de Andrade, tem 22 anos, nasceu e vive no Brasil, mora no bairro de Jacarepaguá, no estado do Rio de Janeiro. Perdeu seus pais ainda criança, foi criada por uma tia que logo morreu, e por este motivo foi mandada para um orfanato, onde deu início aos estudos. Saiu de lá com 16 anos e foi morar em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, com uma família que tinha uma pensão. Trabalhava durante o dia para ajudar seus benfeitores e estudava à noite, além de fazer curso de inglês nos finais de semana. Quando terminou os estudos, conseguiu emprego em três escolas públicas, onde leciona até hoje. Alugou um apartamento em Jacarepaguá, que divide com mais duas amigas. Nos finais de semana dá aulas particulares para ajudar no orçamento. Adora viajar e conhecer outras culturas. Já esteve na Itália, Espanha e Argentina, agora veio para... Como você se referiu mesmo? Ah, me lembrei: esse país de merda. Além disso, morre de medo de avião. É uma mulher que tem muitos amigos, adotou um casal como seus pais, senhor Odair e dona Maria, e chama-os de “meus pais pretos”. Por ter um corpo maravilhoso, e muita garra, conseguiu com muito sacrifício entrar para a escola de samba de seu coração, e hoje é rainha de bateria por mérito. Está bom ou quer mais? Encostei-me ao seu peito e comecei a chorar, ele acariciou minha cabeça. – Minha narração foi assim tão ruim ou falei alguma besteira? Olhei para ele. – Não, meu amor, você narrou da mesma forma que eu narraria, mas ouvir minha vida contada por outra pessoa mexeu muito comigo. Não sou uma pessoa triste por tudo isso que aconteceu comigo, pelo contrário, sou agradecida por ter tido garra e coragem para vencer todas essas etapas. Sou uma pessoa muito feliz, nada me abala. Gosto do que faço, gosto de como sou... Mas como soube de tudo


isso? Então, ele me contou que quando fiquei doente, estava sozinho e se sentia muito culpado por eu estar daquele jeito. Ligou para seu pai, que achou melhor procurar em minha bolsa o telefone de alguém com quem pudesse conversar, foi aí que ele se lembrou do cartão do senhor Aziz que havia encontrado em minha bolsa. Ligou para ele explicando exatamente tudo que estava acontecendo, mas o que senhor Aziz sabia era muito pouco, apenas o que havíamos conversado durante o voo. Decidiu recorrer a um profissional para descobrir tudo a respeito da minha vida, dando apenas as dicas que tinha. Em dois dias já sabia tudo que precisava. – O que sentiu quando soube quem eu era? Abdul me olhou de um jeito tão lindo. – Orgulho. Não é sempre que se pode encontrar mulheres com seu perfil, Allah sabia o que estava fazendo quando te mandou entrar em meu lago. Dei risada e contei para ele sobre a borra de café. Contei exatamente tudo que aquela mulher havia me dito. – Não estou lhe dizendo? Allah sabe exatamente quem é merecedor. – Você acredita mesmo nisso? – Claro! Que outra explicação teríamos para tudo o que aconteceu há dez dias? Como acha que me comportaria se fosse outra pessoa que estivesse tomando banho em meu lago? No mínimo, daria umas broncas e mandaria sair. Naquela tarde, estava no escritório, havia chegado um dia antes para uma reunião, e no dia seguinte iria voltar para Nova York. Ouvi o som dos pássaros e não achei aquilo natural, eles nunca saem em revoadas, só quando se sentem ameaçados. Pedi a um de meus seguranças para dar uma olhada, ele voltou todo suado dizendo que havia uma mulher nadando no lago. Aquilo não era comum, todos sabem que aquelas terras pertence ao rei. Peguei a arma, pedi para alguns seguranças ficarem escondidos entre as árvores e os demais deveriam fazer a ronda pelos arredores dos nossos domínios, porque achávamos que não deveria estar sozinha. Fui na frente contra vontade dos meus seguranças, fiquei um pouco distante, só te observando. Você estava se divertindo e ainda falava sozinha, quase morri de rir. Precisava ver como estava encharcada, te achei linda. Seus olhos eram o reflexo daquelas árvores. Depois, tive uma vontade irresistível de me aproximar um pouco mais, e um desejo quase incontrolável de te tocar, pensei na hora: Que mulher é essa? Será que caiu do céu? Se eu a mandar sair da fonte, não a verei mais. A única coisa que me passou pela cabeça foi fazer aquilo, nem sabia que meus seguranças haviam levado seu carro para o palácio, mas não me arrependo de nada do que fiz, só lamento você ter ficado doente. Fui tão egoísta que adorei tê-la ali ao meu lado mesmo doente. Passava horas te olhando, mil coisas me passavam pela cabeça, e tive por diversas vezes vontade de te beijar. Contei ao meu pai e ele até riu


de mim. Me perdoe, querida, mas se não fosse dessa maneira jamais nos conheceríamos. Hoje você está aqui comigo, estamos na mesma cama. ─ Sabe, Aretha, nunca me envolvi com mulher alguma até hoje, saía com algumas em Nova York ou até mesmo aqui, mas era somente sexo, nunca havia conhecido ninguém que mexesse com meus sentidos. Sempre acreditei no amor platônico, tentava ver isso nas mulheres com quem saía, mas nunca encontrava ninguém que me completasse. Meu pai vivia me cobrando, dizendo que estava ficando velho demais para pensar em paixão, que deveria arrumar uma esposa ou mais de uma para encher a casa de filhos. Nunca pensei dessa forma, sabia que a qualquer hora encontraria a mulher da minha vida. Quando via uma mulher bonita ficava entusiasmado, em seguida a convidava para sair, mas quando conversava com a pessoa, meus sonhos caíam por terra. Elas só falavam em moda, roupa, e isso acabava comigo. Me enganei diversas vezes buscando uma mulher completa. Não precisava ser linda, mas deveria ser elegante, saber conversar sobre qualquer assunto, e não deveria ser vulgar e nem evasiva, isso está cada vez mais raro nas cidades grandes. Assim como você, nunca gostei das mulheres que levavam muito a sério suas crenças, também detestava as que se cobriam tanto. Sou um homem de cidade grande, sei o que é bom. E de repente, dou de cara com você, na hora me veio a lembrança: Abdul, essa mulher tem seu perfil, não a deixe escapar. Quando você começou a falar aquele monte de bobagens, percebi que era inteligente e com um humor de fazer inveja, fiquei encantado com você à primeira vista. Não estava enganado, você era tudo o que procurava. Disse isso ao meu pai diversas vezes, ele também gostou de você, não poderia deixá-la ir embora, teria que tentar te conhecer melhor. Por essa razão mandei embora seu carro, sem ele você teria que ficar mais um pouco. Sei que apelei muito, mas isso já estava predestinado. – Que palavras lindas, amor, não achei que as coisas haviam acontecido dessa maneira. Acha tudo isso de mim, Abdul? Ou está apenas empolgado por eu ser uma pessoa diferente de todas que conheceu? – Não, Aretha, você me faz bem. Gosto de estar com você, sinto uma vontade incontrolável de ficar assim, juntinho. Adoro seu cheiro, seu corpo, sua forma de falar, de se vestir, isso só pode ser amor. – Por quanto tempo, Abdul? Sabe que em alguns dias estarei voltando para meu país, não posso ficar e você não pode ir comigo, o que faremos? O que Allah nos sugere? – Allah está sugerindo que você vá comigo para Nova York amanhã, e ficará comigo até o dia da sua partida; por enquanto, as ordens são essas. – Não acha que sou uma mulher muito simples para um príncipe? – Não, minha querida, você é a mulher na medida certa para um príncipe. Não coloque coisas em


sua cabeça, sou um homem como outro qualquer. Mas agora se levante, são 22h, precisamos comer. Vou levá-la para jantar, coloque uma de suas roupas novas, que já estão no armário. Te pego daqui a meia hora, se apresse.


Capítulo Nove Ele vestiu suas roupas e saiu. Tomei banho, coloquei um macacão verde que havíamos comprado e sandálias pretas, me maquiei e fiquei esperando por ele. O que estava acontecendo comigo? Nunca havia me apaixonado antes, agora queria estar com ele a qualquer custo, não conseguiria mais viver sem Abdul. Pedi a Deus que me ajudasse. O que faria daqui doze dias? Como poderia deixá-lo? Resolvi aproveitar o pouco tempo que tinha, e nestes doze dias faria todo possível para ser feliz, depois pensaria em como resolveríamos nossas vidas. Abdul entrou no quarto todo arrumado, estava de calça branca e camiseta rosa, olhei-o. Obrigada, Senhor, por ter me dado a oportunidade de conhecer esse homem. Ele pediu para que eu desse uma voltinha, bateu palmas dizendo que eu seria a mulher mais linda daquele restaurante, pegou minha mão e descemos para garagem. Entramos em outro carro, esse era uma Porsche vermelha. – Por que troca de carro a cada saída? Abdul me explicou que isso era um plano estratégico, ninguém poderia saber qual carro ele usaria, nem mesmo ele o sabia. Só na hora o segurança falava pelo rádio, informando qual ele deveria usar. Abracei meu amor. – Como suporta isso? – Já me acostumei, tiro de letra, mas em Nova York as coisas são mais lights. Ele me levou a um restaurante que ficava na praia, muito bonito por sinal. Quando entramos, todos se abaixaram para cumprimentá-lo, em reverência. Acompanharam-nos até a mesa. Resolvi repetir o que havia tomado no almoço, quando nossas bebidas chegaram, ouvimos uns rumores vindos de fora. – O que será isso? Ele sorriu. – Seu sogro. O rei está chegando. – Seu pai está aqui? – Está. Aqui também é sua casa. Ficamos um pouco em cada lugar, depende sempre do que temos que fazer. Se a reunião for no castelo, vamos para lá, se temos compromisso aqui, nos deslocamos para cá, ou estamos viajando. O rei veio em nossa direção, as pessoas todas nos olhavam. Ele sentou-se ao meu lado, me deu um beijo na testa, e perguntou como tinha sido minha hospedagem em sua cidade nesses dois dias. Falei que estava de parabéns, a cidade era e sem dúvida nenhuma, a mais bela que havia visto em minha permanência naquela região. Ele agradeceu com um sorriso de satisfação, perguntou o que estávamos bebendo, e olhando o conteúdo em meu copo.


– Essa bebida não é muito forte para você? Seu filho respondeu por mim. Que eu já havia experimentado e gostado. Ele sorriu. – Você está mais linda hoje, se é que isso é possível. Agradeci e falei que era um presente do seu filho. Ele pediu uma bebida estranha, quando esvaziei meu copo disse que queria uma igual a dele. Abdul olhou-me, mas pediu a bebida. Quando coloquei o primeiro gole em minha boca: – Isso é água? Ele deu uma gargalhada. – Nem sempre um rei bebe fora de sua casa. Pedi uma dose de uísque que tomei bem devagar. Pedimos a comida, Abdul já conhecia meu paladar, pediu salada e carne de cordeiro. Quando terminamos, Abdul começou a falar com seu pai em árabe, acho que era alguma coisa que não deveria saber, pedi licença, fui caminhar. Tirei minhas sandálias e caminhei pela orla da praia. Logo Abdul veio ao meu encontro, disse que seu pai já havia ido embora, e que na volta passaríamos na casa dele para conversarmos. Fumei um cigarro calmamente, depois saímos a caminho da garagem. Abdul estava muito calado, achei melhor não perguntar nada. A casa de seu pai era uma mansão, um pouco afastada da cidade, os guardas abriram os portões para entrarmos. Quando entramos, meu queixo quase caiu. Era a casa mais bela que já havia visto. Ele estava nos esperando na sala com alguns doces e chás, pediu que nos sentássemos, chamou sua mulher. Ela tinha uns 40 anos mais ou menos, não usava a tal de burca, mas sim um tecido amarrado em seu corpo, que deixava o colo de fora, mas o tecido caía até seus pés, e era maravilhoso, todo bordado, parecido com aqueles que eu havia visto no comércio do Irã. Ela tinha um sorriso bonito e franco, gostei dela. Usava muitos adereços, lógico que eram todos de ouro e pedras preciosas. Cumprimentou-me da forma tradicional, mas depois me deu um beijo na cabeça, em seguida sentou-se bem distante de onde estávamos. Eu jamais iria entender esses costumes. Por que, por exemplo, ela não se sentava ao nosso lado? O pai de Abdul me olhou por alguns segundos. – Sei que estão vivendo uma grande paixão, disse agora pouco a meu filho que você é a mulher encantadora, meu filho soube escolher. Além de bela é generosa, tem muitos predicados, só não é árabe, mas hoje não interferimos mais nas escolhas de nossos filhos, apenas das filhas. Como não tenho uma, gostaria de tê-la como filha daqui para frente. Não sei como será a vida de vocês depois que for embora, mas com certeza encontrarão uma saída. Não se sinta mal com o que vou lhe dizer, mas sei tudo a seu respeito. Meu filho me colocou a par de tudo, e me sinto orgulhoso em tê-la entre nós, mas não podemos esquecer-nos de alertá-la dos perigos que corre ao nosso lado, estando ou não em nosso país. O que quero dizer é que mesmo que esteja no Brasil, seu risco não diminui. Recebi


algumas ameaças anônimas e isso não é nada bom, será que estou me fazendo entender? O interrompi. – Sei exatamente o que está tentando dizer. Acha mesmo que devo acreditar que sou uma mulher à altura de seu filho? Me responda sem mentir, preciso saber o que pensa sobre mim. Deve estar assustado com esse relacionamento relâmpago, confesso que também estou, por isso sua opinião é muito importante. – Acabei de dizer que você é especial, não tenho nada contra a paixão relâmpago, só torço para que dê certo. Se estivesse no lugar de meu filho faria a mesma coisa, não se deve perder uma mulher como você. Allah já havia determinado esse encontro, ele saberá o que fazer. – Acredita mesmo nisso? Porque agora não tem mais volta. Não sei ainda como iremos resolver nossa situação. Mas quero que saiba que te amei assim que o vi ao lado da minha cama. Você inspira confiança, por isso é tão querido pelo seu povo. Sabe da minha vida, sabe que não tenho nada, mas sei que também que está ciente que sou correta, não sou e nunca serei uma pessoa interesseira. Agradeço de coração o que fez e ainda possa fazer por mim. Amo seu filho como jamais pensei amar alguém. Eu nunca acreditei em amor à primeira vista, mas fui surpreendida por ele. Foi isso que aconteceu conosco. Sei que não tenho nada a oferecer, apenas meu amor e minha cumplicidade. Como disse anteriormente, ainda não sei que rumo dar à minha vida, só acho que não precisa se preocupar tanto com estas ameaças. E não preciso de seguranças, nem aqui, nem no Brasil, se me permitem dizer, vejo isso tudo como um exagero. – Acha exagero o que fizeram com minha mãe, Aretha? – Não, meu amor, não foi isso que quis dizer. Sua mãe era uma rainha, sou uma simples professora de inglês, não uso coroa, que risco acha que estaria correndo? Nós nos conhecemos há tão pouco tempo, acha mesmo que alguém poderá me usar para tentar feri-lo? Ainda não entendo o que está acontecendo neste país, mas sinto que estão neuróticos com tudo isso, mas para ser mais clara, não gosto de me sentir vigiada. Sou obrigada a dizer o que penso, e não gostaria de sair acompanhada de seguranças, principalmente no meu país. Não sei o que minha presença poderia interferir, já que ninguém sequer ouviu falar de Aretha. Sou uma pessoa sem identidade ainda. Acha que alguém perderia seu tempo tentando me matar? Essas pessoas nem sabem da minha existência, mas entendo sua preocupação. – Aretha, já lhe disse que recebi alguns bilhetes anônimos dizendo saber que meu filho está muito bem acompanhado de uma mulher de olhos verdes. De quem acha que se referiam? Você foi vista com meu filho e comigo, só isso já é o suficiente para chamar atenção dos nossos inimigos e minha obrigação é protegê-la a qualquer custo. Sei que não entende nossas diferenças com nossos inimigos, acho isso louvável, dessa forma não se envolverá mais do que já está envolvida, mas quero que


acredite que isso não é paranoia, como acabou de dizer, isso é proteção. A partir de agora, não pode mais levar a vida que estava acostumada. As coisas mudaram, nunca mais poderá sair sem seguranças, somos vigiados no mundo todo, os terroristas estão por todos os lados e, acredite, eles não estão interessados em você, mas sim, em Abdul e em mim, e com certeza não a poupariam para nos ferir. Sinto muito colocá-la nesta situação, mas agora não tem mais jeito. – Se é dessa forma, não tenho escolha alguma, farei o que me pedem, mas ainda acho que tudo isso é um exagero. Farei isso por vocês dois, imagino o quanto ficam preocupados e também não quero que nada de mal aconteça a nenhum de vocês. Podem providenciar os seguranças que irão para o Brasil comigo, sei que não será fácil para mim, mas se é para deixá-los mais aliviados, farei isso, e que Deus e Allah nos ajudem. – Esta foi a decisão mais acertada no momento, te dou minha palavra que isso não é exagero, é cautela e cuidado, com o tempo irá entender melhor, por hora, melhor ficar sem saber. O rei se levantou, me abraçou e disse que jamais havia conhecido uma pessoa tão transparente quanto eu, que daria sua bênção e torceria para que chegássemos a uma solução sem nos machucarmos, mas que estava errada no que dizia com respeito a minha segurança. Se queria ter um relacionamento com seu filho, teria que seguir as regras, Abdul era seu único filho, homem, correto e integro, merecia ser feliz, mas jamais abriria mão da sua segurança. Abdul se levantou e curvou-se aos pés de seu pai, os dois se beijaram no rosto. Os dois se abraçaram e nos despedimos. No caminho, fomos calados. Quando estacionou, disse a ele que iria à varanda fumar, ele saiu me deixando sozinha. O que estou fazendo da minha vida? Não quero ficar nesse país, não posso me afastar deste homem e ele jamais poderá viver comigo no Brasil. Além de tudo, o que estava acontecendo agora? Também estava na mira dos terroristas; eu, que era leiga sobre esse assunto, e sequer sabia na integra por que aquele povo brigava tanto. Como seria nosso relacionamento? Fumei outro cigarro, sentada no banco do jardim, fiquei lá por algum tempo, depois resolvi subir ao quarto. Quando entrei, ele estava deitado de cueca branca me esperando. Tirei minhas roupas ficando apenas de calcinha e me deitei no seu peito, pensativa. – Estou aqui! Não finja que não está me vendo. O que aconteceu para deixá-la assim? – Não aconteceu nada ainda. Estou na mira dos terroristas e nem sei por que, nunca me interessei em me aprofundar sobre esse assunto. Não me agrada pensar que sairei com seguranças. Aqui tudo bem, mas em meu país isso não dará certo. Além do mais, amor, daqui a exatamente onze dias, irei embora. Como poderei viver sem você, agora? Ele afagou meus cabelos, e me beijou. – Agora durma, minha querida, amanhã tenho que levá-la às compras.


– De novo? – Não vai para Nova York comigo? Lá está dez graus abaixo de zero, temos que comprar algumas roupas de frio, só para os primeiros dias. Depois, compraremos o restante lá. – Que horas é nosso voo? – A hora que minha querida quiser. – Como assim? – O avião é meu, portanto, decolamos quando quisermos. Dei um beijo em seus olhos. – Esqueço sempre de que é um príncipe, acho que nunca vou me acostumar com tudo isso. Até agora, não fiquei incomodada com seus seguranças, mas isso no Brasil não dará certo, o que um segurança ficaria fazendo ao meu lado? Tenho que começar a me acostumar com tudo isso. Será que consigo, Abdul? – Claro, logo nem vai notar que está sendo vigiada, acredite em mim, isso não é de todo mal.


Capítulo Dez Fui até o banheiro, escovei meus dentes e voltei para seu lado. Naquela noite não nos tocamos, apenas dormimos agarradinhos. Acordei com ele me chamando. – Aretha, minha querida, tem que se levantar. Dei-lhe beijo de bom dia, ele já estava arrumado, fui até o banheiro e, ao voltar para o quarto, ele falava ao celular, coloquei uma calça jeans e uma sapatilha, penteie os cabelos, fiz uma maquiagem só nos olhos. Ele pegou minha mão e descemos. Fomos direto a uma loja da Gucci, ele falou com o vendedor, logo vieram algumas araras cheias de roupas, ele me pediu para escolher o que gostaria de levar. Peguei umas calças de lã, umas blusas também de lã, um casaco de couro com pele dentro, duas botas, uma preta, outra marrom e saímos, com um dos seguranças carregando as sacolas. Depois, entramos na loja Chanel, peguei mais uma bota curta, uma calça de couro preta e outro casaco, só que agora, todo de couro. Voltamos para o hotel, ele chamou a camareira, ela trouxe uma mala maior e arrumou todas as minhas roupas dentro. Guardei meus pertences pessoais e troquei de bolsa e de roupa. Coloquei a calça de couro com a jaqueta também de couro, a bota de cano curto, e uma bolsa preta da Chanel, ele olhou-me. – Está maravilhosa! Saímos com os seguranças carregando minha mala. Perguntei a ele sobre sua mala. – Não preciso de mala. Tenho roupas aqui e em NY. – Ah, me esqueci que é um príncipe! – Está debochando? – Claro que não, só me dê um tempo para me acostumar com tudo isso. Ele estava com um carro todo preto, fomos direto para o aeroporto. Quando entrei no avião foi que percebi o quanto era grande, tinha mais de trinta acentos, todos pareciam camas, e tinham o brasão da coroa Kuwaitiana. Tinha uma pequena copa, sala de reunião e até um quarto. As minhas mãos começaram a suar frio. – Quanto tempo até Nova York? – Umas onze horas, isso porque estamos com nosso avião. Em voo comum pode durar até doze horas e meia. Balancei a cabeça. – Será que vou resistir? – Agora está comigo, não tema este...


O interrompi. – Já sei o que vai dizer, este é o meio de transporte mais seguro que existe. Ele me deu um beijo, sentamos juntos. Eu segurava sua mão com muita força, parecia que iria quebrá-la. Ele pediu para me servir um uísque, virei o copo num gole só, enchi o copo novamente e virei, ele segurou minha mão. – Quero sua companhia acordada, não desmaiada. E não é que relaxei? Disse a ele que agora todas às vezes que fosse entrar em um avião, já sabia o que fazer para relaxar. Abdul sempre muito carinhoso comigo, afagava meus cabelos e me olhava com paixão, sabia que estava sendo sincero quando dizia que me amava. Estávamos deitados, claro que adormeci. Quando acordei, olhei para ele. – Não precisa me poupar, diga: estamos no céu? Ele riu. – Não, estamos quase perto dele. – E quem é esse anjo de olhos azuis que está ao meu lado? Ele me abraçou. – Onde arrumaria uma mulher que acorda tão bem-humorada? – No Brasil, amor! Ele me carregou para o fundo do avião, onde havia pequeno dormitório, trancou a porta. – Já fez amor nas alturas? – Ainda não, mas gostaria de experimentar. Ele me beijou, tirou minhas botas e minhas roupas, me deixando só de calcinha. Em seguida, começou a beijar meu corpo todo, quando sua boca sugou meu mamilo e mordeu, quase gritei de prazer. Quando me penetrou, o avião deve ter entrado em uma zona de turbulência e a sensação de falta de gravidade aliada ao seu membro grosso me invadindo quase me levou ao êxtase. Eu estava toda envolvida em seus braços e louca por ele. Abdul era um amante perfeito, amava quando ele me envolvia em seus braços e me beijava, seu beijo era tudo de bom. Não entendia o poder que suas mãos exerciam sobre meu corpo, era só me tocar que meu corpo se transformava em um vulcão. Fizemos amor e ele me olhou, sussurrando. – O que achou? – Gostei tanto que, daqui pra frente, só viajo fazendo amor. – Que engraçadinha minha mulher. – Repita! – Minha mulher! Beijei-o tanto, que ele teve que me afastar.


– Espere, preciso respirar. Você é uma louca, se prepare, em menos de duas horas estaremos pousando em Nova York. Fui até o banheiro, me arrumei um pouco e sentei ao seu lado, ele pediu para nos servirem um lanche. Depois de comermos, apertamos o cinto para descer. Ele segurou minhas mãos. – Está gelada! Está com medo? – Pavor – disse a ele. – Pensei que havia um pouco de exagero nesse seu medo, agora sinto que realmente tem pavor, meu bem. Ele beijou-me, ficou me beijando até o avião pousar. – O que achou? – Achei uma solução mágica, amor, só viajo com uma garrafa de uísque e com você ao meu lado. Como consegue me relaxar tanto? Se estivesse sozinha, com certeza, teria sido mil vezes pior, até nisso me faz ser diferente. Descemos, ele sempre segurando minha mão. Os carros já estavam na pista, entramos em um deles e fomos direto para seu apartamento. Fiquei admirada, o apartamento era muito grande, na verdade, era um tríplex que ficava de frente para o Central Park. Ele me mostrou tudo, onde ficava cada coisa, me levou ao quarto, pediu para a camareira arrumar minhas coisas no armário, pegou minha mão e fomos ao terraço. Dava para ver o Central Park todo, então ele esticou os braços para frente. – Esta é minha segunda casa, passo mais tempo aqui do que no meu país. Amanhã te levarei para conhecer um pouquinho de Nova York. Tenho certeza que irá adorar essa cidade, principalmente no verão, quem sabe não resolve ficar por aqui mais algum tempo? – Quem me dera poder ficar ao seu lado. Não fosse pelo carnaval, poderia ficar mais alguns dias, mas sabe que não posso, não fique pedindo o que não posso lhe dar. Realmente estava um frio daqueles, mas dentro do apartamento era superquentinho, andávamos quase sem roupas, mas lá fora, o frio era de lascar. Saímos à noite para jantarmos, eu o agarrava, me aninhava ao seu corpo, não estava acostumada com frio, meu país era tropical. Nosso inverno era calor para aquele povo. Depois que jantamos, voltamos para o apartamento. Abdul pediu que eu escolhesse um filme para assistirmos, claro que escolhi um de amor. Nos deitamos agarradinhos para assistir, chorei quase o filme inteiro. – Ficou tão emocionada assim com o filme? – me perguntou, quando acabou o filme. – Sabe, amor, sou assim mesmo, choro até com desenho animado. Ele deu aquela gargalhada gostosa. – Como pode ter todas as respostas na ponta da língua?


– Prática, se esqueceu de que dou aulas em escola pública, para adolescentes? Aquilo não é brincadeira, tenho que ser mais esperta que os trinta diabinhos! Dormimos agarradinhos. Na manhã seguinte, ele olhou o termômetro, estava mais quente, mesmo assim me agasalhei bastante. Saímos rumo à Quinta Avenida, ele caminhando na frente comigo e um batalhão de seguranças por todos os lados. Comecei a brincar, parava todos paravam, andava todos andavam, comecei a achar aquilo divertido, repeti algumas vezes, Abdul ria. – Parece uma criança grande, venha cá e me deixe abraçá-la, está muito frio. Andamos o dia todo, só paramos para comer, o restaurante ficava dentro de uma galeria, lá pelo menos não fazia frio. Ele me levou a alguns pontos turísticos. Voltamos para casa quase de noite. Tomamos banho e ele pediu à cozinheira para preparar alguma coisa para comermos. Após o jantar, fomos para o quarto, deitamos juntinhos. Este ano não tive Natal, no seu país não se comemora, mas no Brasil é festa, todas as pessoas se juntam para se confraternizar, é um dia para estarmos junto da família, temos por hábito trocar presentes e ceiar ─ expliquei o significado da ceia para meu amor. Como nunca tive família, sempre passei meus Natais com pessoas que amo, como Odair e Maria. O Ano-Novo também não vi passar, o nosso é diferente do Natal, é comemorado entre amigos, geralmente em lugares em que haja praias, temos queima de fogos, bebemos muito, pulamos sete ondas para dar sorte. Como pude me esquecer de tudo Isso? Hoje é dia 03 de janeiro e nem me dei conta do tempo! – Não pensei que essas datas tivessem tanto significado para você; se soubesse, com certeza a teria lembrado. O Ano-Novo aqui em NY é maravilhoso, se eu soubesse que você curtia, teríamos vindo antes. Sei que você iria adorar. Viu como a cidade está toda enfeitada? - Está linda mesmo. Só me dei conta dessa data depois que vi esta cidade toda iluminada. – Abdul, amanhã estará faltando nove dias para eu voltar ao Brasil. Talvez não saiba, mas meu voo sai de Israel. Tenho que sair dois dias antes, já pesquisei na internet, saio daqui direto para Israel e de lá para o Brasil. O que faremos? – Não conte os dias, querida, conte apenas nossos momentos. – Como posso não contar? O tempo não para! Como vou voltar para Israel deixando você aqui sozinho? Meu voo sai de lá no dia 13. Ele tocou meu rosto com as mãos, me fez um carinho. – Você não terá que ir mais para Israel, mudei suas passagens, agora sairá de Nova York rumo ao Brasil, fiz isso para poder ficar um pouco mais com você, minha querida, espero que não fique brava comigo. – Brava com você? Como poderia? Acaba de tirar um grande peso do meu coração! Teremos


esses nove dias só para nos dois, quero curti-lo cada segundo, prometa que não me deixará um segundo sequer sozinha. Ele me abraçou bem forte. – Prometo tudo que quiser, mas vamos mudar de assunto, falar sobre isso me entristece. Dormimos juntinhos. No dia seguinte, ele me levou à Broadway, ao Rockfeller Center, depois fomos a uma loja de eletrônicos, ele me comprou um notebook novo, supermoderno e menor que o meu, poderia andar com ele em minha bolsa. Depois, fomos a uma loja só de óculos importados, ele exagerado, como sempre, me fez experimentar uma dúzia deles, todos que experimentava ele dizia que estava lindo, mas comprei apenas dois. Voltamos para nosso ninho de amor. No dia 11 de janeiro, Abdul acordou muito calado. Ele, que vivia me enchendo de beijos a toda hora, agora estava frio comigo, perguntei se havia feito alguma coisa que ele não tivesse gostado. – Fez sim, fez me apaixonar perdidamente por você. Daqui dois dias irá embora, me deixando sozinho. Abracei-o, sabia como estava sendo difícil para nós dois, aqueles dias haviam passado muito rápido, já não saíamos de casa, passávamos o dia todo juntinhos, fazíamos amor duas vezes ao dia, a cada intimidade, ele me apertava contra seu peito como se fosse a última. Na véspera da minha partida, eu o ouvi falando com seu pai, me parecia desesperado, falava muito com as mãos, quando desligou, me abraçou forte e disse que já estava sentindo minha falta. Falou que seu pai havia me mandado um presente de despedida e que me esperaria em breve. Abri a caixa, era uma joia linda, um colar todo de esmeralda. Olhei para ele. – Amor, não posso levar essa joia ao Brasil, é muito cara, peço que as guarde para mim em seu cofre. Ele guardou a caixa em sua escrivaninha, deu-me a carta que seu pai havia mandado, comecei a ler: “ Desejo a você uma ótima viagem. Sabe que estará deixando seu coração com meu filho; o dele, com certeza, estará indo junto com você. Este colar, eu escolhi pessoalmente, são esmeraldas, iguais a cor dos seus olhos. Sei que está fazendo a coisa certa, mas nem sempre fazer o que achamos certo, é verdadeiramente correto. Espero tornar a vê-la em breve. Abraços. Rei Abdallah .” Entreguei para Abdul ler. – Meu pai te adorou, nunca havia visto tomar uma atitude dessas. Mandar presente e carta, até isso conseguiu. Você conquistou o amor de meu velho pai. Naquela noite, não conseguia dormir, me virei a noite toda, cada vez que me virava sentia as mãos


dele me cobrindo. Na manhã seguinte, tomamos nosso café na cama, estávamos sem assunto, nenhum dos dois desejava se levantar, sai da cama quase quatro horas da tarde, fui para o banheiro, aproveitaria que ele estava no celular, queria lhe escrever um poema. Fui até o escritório, me sentei, abri seu notebook e comecei a escrever um pequeno poema que havia lido alguns anos atrás, achei tão lindo que acabei até decorando. “ Você me deu paz, você chegou e o mundo te fez meu. Você me olhou, e não foi só, você me viu. Você tomou minhas mãos, me abraçou, me beijou e não foi só, meu coração sorriu. Você promessa, você verdade, e não foi só você ficou. Você um sonho, você a vida, você me amou. Você meu céu, você meu sol, você e eu. Você meu ontem, você meu hoje. Você é meu .” Deixei meu poema gravado em seu notebook, quando ele abrisse já não estaria mais lá, como era difícil pensar assim... Até quando será que aguentaria? Por que Deus ou Allah estava fazendo isso conosco? Demorei tanto para me apaixonar, fui buscar meu amor do outro lado do mundo e agora teria que me separar dele, isso não estava certo, mas sabia que aquilo iria acontecer, entrei nessa relação sabendo que não iríamos ficar juntos para sempre. Nossas vidas eram diferentes, nós nos amávamos de verdade, mas as coisas não poderiam ser do jeito que queríamos, iria voltar para o meu país e sabe-se lá quando nos veríamos novamente. Fui até o banheiro. Tomei banho e me vesti, coloquei apenas uma calça de couro com botas e uma jaqueta, Abdul me chamou a atenção, dizendo estar muito frio. Falei que não poderia chegar ao Brasil cheia de roupas, lá a temperatura estava em torno de 40 graus. Meu voo era às 23h00, portanto, deveríamos estar no aeroporto às 20h00. Abdul disse que não iria comigo, não gostava de despedidas, mas alguns seguranças me acompanhariam, falou que iria ficar pedindo a Allah para nos ajudar suportar a separação, prometi que, nas férias de junho, viria passar com ele trinta dias. Ele me beijou, ficamos um pouco juntinhos, depois ele deu-me umas dicas de como falar com ele através do meu notebook novo, disse também que um segurança iria junto comigo no avião, mas que eu não sentasse perto dele, pois sabendo do meu medo, tinha receio que eu o agarrasse. Falei que não corria esse perigo, pois para mim, o único homem que importava era ele. Saí deixando meu amor muito triste, se não fosse tão importante desfilar, ficaria com ele até o final das férias. Chegando ao aeroporto, peguei minha passagem, meu segurança fez o check-in, nos dirigimos para o saguão, quando estava prestes a sentar, Jamal (esse era nome de meu segurança particular), me pegou pelo braço e apontou a sala VIP, olhei minha passagem. Esse meu amor. Primeira classe e nem me avisou. Entramos na sala VIP, todos me olhavam, já estava ficando preocupada, pena que Jamal não falava


uma palavra em inglês, acessei a internet, tentei falar com Abdul, mas ele não estava online, tentei o celular, liguei nada! Caixa postal! Onde estava Abdul? Por que não atendia? Por que todos estavam me olhando? Chamei Jamal, fiz sinal pra ele, tentei por sinal perguntar por que todos estavam nos olhando, mas Jamal ou não entendia ou também não sabia o que estava acontecendo. Fiquei online. Chegou a hora de entrarmos no avião, passei primeiro, entreguei meu bilhete para a aeromoça, ela olhou o bilhete depois olhou para mim, deu um tremendo sorriso e falou comigo, em inglês: – Seja bem-vinda, princesa Aretha, está tudo conforme foi exigido pelo príncipe Abdul. Apontou com a mão a classe executiva, me sentei em uma das poltronas, logo depois veio Jamal, ele também estava na classe executiva, afinal, era meu segurança. As pessoas iam passando e ficavam nos olhando, acho que agora entendia o que estava acontecendo, o boato da princesa Aretha deveria ter se espalhado como rastilho de pólvora, por isso todos estavam nos olhando tanto. Eu, princesa Aretha? Só meu homem para pensar uma coisa dessa. Tive que afivelar meu sinto, rezei para não ter que dar vexame, afinal, era uma princesa, mas meu medo estava à flor da pele, segurei tão forte no braço da cadeira, que se fosse a mão de alguém, com certeza a teria quebrado.


Capítulo Onze Depois que o avião decolou, relaxei um pouco as mãos, elas estavam até roxas, chamei a aeromoça, ela me atendeu prontamente, já vinha com uma bandeja de prata com uma garrafa de uísque e um copo. Até nisso ele pensou. Enchi o copo e tomei em uma golada só, tentei novamente acessar à internet, dessa vez ele estava off-line, chamei-o, ele logo se mostrou, apertei o botão webcam, consegui que ele me visualizasse. Mandei um beijo. – Nós nos casamos e não me contou? Ele deu uma gargalhada. – Gostou da surpresa, querida? – Adorei. Jamal está incluído nesse pacote? Bem que poderia ter me mandado um segurança que falasse inglês, ele aqui e nada é a mesma coisa. – Como foi sua decolagem? – Péssima! Quase arranquei o braço da poltrona, pena não estar do meu lado para me beijar. – Não estou fisicamente, mas em pensamento, estava até agora lendo e relendo o poema que você deixou gravado no computador, como pode ser tão eclética? A cada dia me surpreende mais. Já lhe serviram seu anestésico? Agora fui eu quem deu uma gargalhada. – Como ficar sem você, amor? Faz algumas horas que não o vejo e já estou morrendo de saudades. Meu príncipe tem alguma sugestão para sua princesa? – Continue falando comigo, querida, quando menos esperar já estará no Brasil. Ficamos conversando a viagem toda, ele estava certo, não vi as horas passarem, logo ouvi a aeromoça dizer que dentro de trinta minutos estaríamos aterrissando no aeroporto Galeão. – Acho que terei que desligar, do aeroporto ao meu apartamento não é muito distante. Assim que colocar meus pés em casa, entro na internet novamente para conversarmos. Mas ele mais do que depressa me interpelou. – Ligue seu celular, assim que sair do avião, vou ligar, farei isso, antes mesmo que você pegue sua mala. – Por favor, não desligue, tenho uma pergunta muito importante, onde colocarei Jamal? Será que em minha cama? Não pensou nisso? – Sua tolinha, claro que pensei, ele já está com hotel reservado ao lado do seu prédio, seu homem pensa em tudo. Tivemos que desligar. Quando saí, fui direto para as escadas rolantes, peguei Jamal pela mão, ele estava se distraindo


demais com as coisas, coitado, era tudo novidade para ele. Fomos direto apanhar nossas malas, depois pegamos a fila para passar na polícia federal, quando me aproximei da fila, um homem pegou meu braço e nos acompanhou até a saída, mais um truque do meu amado. Estava procurando meu amigo Odair, havíamos combinado que ele viria me apanhar. Logo os encontrei, nos abraçamos, estávamos há mais de um mês sem nos vermos. Enquanto Odair colocava nossas malas no carro, meu celular tocou. Lógico que era Abdul. – Não disse que ligaria enquanto estivesse pegando as malas? Está atrasado, já estamos entrando no carro com o Odair. Primeiro deixaremos Jamal no hotel... Ele me interrompeu, falando rápido. – Coloque Jamal na linha. Passei o celular para ele. Eles falavam tão alto, pareciam estar brigando. Os árabes eram assim mesmo, sempre falavam alto e gesticulando, como se estivessem quebrando o maior pau. Jamal me passou o celular. Continuamos a conversar enquanto Odair dirigia, disse que iria desligar, não havia dado tempo de conversar com meu amigo, assim que chegasse em casa conversaríamos, ele falou diversas vezes que me amava, que estava sendo muito difícil ficar sem mim, então nós nos despedimos. Agora vinha a pior parte: teria que me acostumar a ver Abdul só pela internet, isso era de lascar. Ainda nem sabia como contaria para meus amigos a presença de Jamal. Claro que teria que contar a história toda, desde aquele dia na fonte. Será que eles acreditariam? Nem eu mesma acreditava, parecia um sonho, mas Jamal estava ali para confirmar minha realidade. Odair estava muito ansioso para saber quem era o homem de terno que estava no carro, disse que depois contaria tudo, hoje não daria, não via a hora de chegar em casa. Meu amigo, mesmo inconformado, aceitou. Deixamos Jamal no hotel, que ficava a menos de um quarteirão da minha casa. Antes de descer, passei o endereço para ele, pois no dia seguinte, com certeza, ele iria ficar plantado na entrada do meu prédio. Quando Odair me deixou em casa, disse que eu estava muito estranha, falei que era só cansaço, prometi que no dia seguinte, depois de uma boa noite de sono, contaria tudo a eles sobre minha viagem. Despedimo-nos, ele foi para sua casa e eu subi. Quando entrei, minhas amigas já haviam saído para o trabalho, afinal, era uma quarta-feira, 10h00 da manhã. Izabel era manicure, Cleide, esteticista, as duas trabalhavam em um salão em Copacabana, achei ótimo estar sozinha. Tomei banho com meu celular tocando, coloquei um roupão e fui à sala ligar meu computador. Logo me conectei com Abdul, ele estava preocupado, disse a ele que estava no banho, ele aproximou-se do notebook. – Estou percebendo, dá até para sentir seu cheirinho.


Falei que estava preocupada com Jamal, como ele se viraria em uma cidade como o Rio de Janeiro sem falar absolutamente nada do português e nada de Inglês? Como iria pedir comida, como poderia me dar cobertura se não sabia se comunicar? Abdul disse sorrindo. – Tenha paciência, não fique tão agitada, sei o que estou fazendo, Jamal não é esse bobo que está pensando, ele só não deve ficar batendo papo com você, está proibido, mas ele fala todos os idiomas que imaginar. Fala fluentemente o inglês, o francês, o italiano, e para a senhorita se sentir menos preocupada, ele também fala espanhol. Fiquei boquiaberta, afinal, como ele falava todos esses idiomas e não respondia quando falava nem por sinais? Abdul me explicou que seguranças não deveriam se dirigir aos seus patrões, salvo se seu protegido estivesse em perigo. Disse que Jamal estaria comigo dia e noite se fosse preciso, sempre de terno preto e carro blindado, tinha porte de armas internacional por ser segurança real, portanto, nunca deveria sentir pena dele, era muito bem remunerado pelos seus serviços. – Que tal pararmos de falar em Jamal? Vou comer alguma coisa e entro na internet para te ver daqui a pouco, já estou morrendo de saudades. Fui até a cozinha, preparei um lanche, comi em pé, tamanha era minha ansiedade de falar com meu amor. Coloquei uma roupa, lá fui me conectar com meu amado. Ele logo entrou. Deu um assovio e sorriu. Meu Deus, como aquele sorriso me derrubava. – Minha princesa está linda de rosa, mostre-me seu apartamento! – Obrigada pelo elogio, amor, mas acho que não gostaria de ver o aperto que moro, mas vou lhe mostrar mesmo assim. Comecei pela sala, depois meu quarto, quarto das minhas amigas, cozinha, área de serviços e banheiro. Depois abri minha janela. – Olha, meu amor, esse é meu Rio de Janeiro, estamos às 11h30, horário local, temperatura 32 graus, hoje acho que chega aos 40 graus. Ele disse que meu apartamento era pequeno, mas muito aconchegante, minha cidade realmente era maravilhosa, pediu para que eu descansasse um pouco depois conversaríamos. Desliguei meu computador e fiquei sentada na sala pensando em como era a vida. Havia escolhido ir para Israel poucos meses antes de comprar as passagens, tive que me esforçar muito para conseguir fazer essa viagem, no começo estava adorando, depois comecei a ficar enjoada, tudo me parecia tão igual. Estava na expectativa de chegar ao Kuwait, a agência havia me dito que era um país de primeiro mundo, mas o destino resolveu me pregar uma peça, agora começava a acreditar em destino. Por que havia me desviado do caminho e ido direto às terras de Abdul? E ele, por que estava lá me esperando? Apaixonei-me perdidamente por ele, agora estava de volta à minha terra e


não sabia como seria daqui para frente. Fiz o que me sugeriu, mas antes tirei as coisas da mala, coloquei as roupas sujas na máquina, guardei as limpas, guardei também tudo que havia em minha nécessaire, depois separei os presentes que havia trazido para meus amigos. Dormi por mais de duas horas, acordei superassustada, alguém estava apertando minha campainha desesperadamente. Me levantei e fui atender a porta, era Odair, e estava agitado, disse que estava muito preocupado comigo, não dava para esperar até o dia seguinte, se estava acontecendo alguma coisa comigo, queria saber agora. Pedi que se sentasse, tínhamos muito que conversar, mas antes teria que entrar na internet, ele sentou e me entregou um pacote, perguntei o que era. – Maria mandou para você, é o seu doce predileto. Dei um gritinho e beijei-o: – Não acredito, ela fez a minha cocada? Vocês não existem! Acessei a internet, chamei por Abdul, ele demorou um pouco para entrar, deveria estar descansando, pois já era noite. Logo que o vi, meu coração disparou. – Antes que diga qualquer gracinha, temos visita. Odair está preocupado comigo, você me permite contar tudo a ele? De qualquer forma, ele terá que saber, Jamal estará sempre ao meu lado, não tenho como justificar sua presença, a menos que não se importe que eu diga que ele é meu namorado. Ele gargalhou e aquilo me deixou ainda mais certa do quanto o amava – Leve seu computador para perto de Odair, diga a ele exatamente o que eu disser. Sentei-me no sofá perto do Odair com meu notebook nas mãos. – Olhe, meu querido, essa pessoa que está na tela quer falar com você. Odair olhou a tela e viu Abdul, não disse nada, só ficou ouvindo. Deixei meu amor falar bastante, quase tudo. Fiquei emocionada com que havia dito a meu respeito, traduzi a Odair da mesma forma que ele falou. “Senhor Odair, tenho muito prazer em conhecê-lo, sou Abdul, príncipe do Kuwait, mais conhecido como Príncipe do Petróleo, conheci essa mulher que está ao seu lado de uma forma muito intempestiva, mas assim que coloquei meus olhos sobre ela, me apaixonei, ela é a mulher que estava procurando, Allah atendeu aos meus pedidos e me mandou Aretha. Vivemos muitos dias em verdadeira sintonia com o universo, nos apaixonamos de uma forma repentina, coisa de filme mesmo. Ontem ela saiu dos meus braços para voltar à sua pátria, me deixando sem chão. Não sei se conseguirei viver sem ela até suas novas férias. Em relação à pessoa que veio com ela, é e será para sempre seu segurança pessoal, pois sabe que só pelo fato de ter ficado hospedada em minha residência, já é alvo de terrorismo, mesmo estando no Brasil. Peço que me desculpe pelo transtorno que a presença de Jamal irá causar, mas é para o bem de minha princesa. Eu morreria se algo lhe


acontecesse, pois sou louco por essa mulher, ela é minha vida. Agora vou deixá-los conversar, depois nos falamos, meu amor.” Odair estava boquiaberto com os olhos arregalados, fui até a cozinha, passei um café, estava morrendo de vontade de tomar nosso cafezinho. Depois do café, acendi um cigarro, e olhei pra ele esperando que falasse alguma coisa. Como ele não disse nada, tive que perguntar. – O que você acha de tudo que ouviu? Ele, então, fez uma cara de quem havia visto um fantasma. – Aretha, você se apaixonou por um príncipe de verdade, ele fez até declaração de amor para você! Como o conheceu? Contei a meu amigo tudo que havia acontecido desde a decolagem do avião até o dia de hoje, ele prestava atenção em tudo que eu falava. Depois me abraçou apertado. – Você, minha filha, merece tudo de bom, pois é uma menina de ouro. Deus realmente existe, já sofreu tanto, agora chegou sua hora de ser feliz. Disse que fui para essa viagem contra sua vontade, sempre tentou me desencorajar, mas lá encontrei meu destino, ele acreditou em cada palavra que Abdul havia dito, pois sentiu que suas palavras vinham do seu coração, depois acrescentou: – Como vai justificar esse homem com você o dia todo? A menos que diga que está namorando um homem muito rico, que morre de ciúmes de você. Só assim para as pessoas acreditarem. Se disser a verdade, não terá paz. Tem que começar seus ensaios amanhã. Ele estava certo, não contaria nem para minhas amigas de quarto, falaria o que ele havia me sugerido, ele deu boa-noite, me chamou de rainha. Dei a ele seus presentes e os de Maria. Odair estava super emocionado, saiu prometendo nos encontrarmos na quadra depois do almoço, ele sabia que precisava ir à praia tomar sol, tinha que estar muito bronzeada para o carnaval. Conectei-me novamente com Abdul, contei o que havíamos resolvido falar a respeito do segurança, disse que no dia seguinte estaria na praia pela manhã, na academia durante toda a tarde e, à noite, na quadra. Ele me pediu para andar sempre ao lado do Jamal, sempre com meu computador ligado, queria saber tudo que estava fazendo durante o dia e a noite. Nós nos despedimos, fui dormir, precisava levantar cedo. Agora começaria outra etapa da minha vida, o carnaval era o sonho de todo brasileiro, tinha muitos compromissos. Jamal teria que rebolar para tentar me acompanhar, ainda bem que estava com o maior pique, esses dias com Abdul me fizeram muito bem, a única coisa que lamentava era que ele estava tão distante de mim. Se estivesse perto, aí sim minha vida estaria completa. Muitas vezes, achava que tudo não havia passado de um sonho, mas quando me lembrava dos seus beijos, ainda sentia o gosto de sua boca... Isso era real.


No dia seguinte, encontrei minhas amigas, disse que havia conhecido um homem muito rico que morava em São Paulo, que tinha muito ciúmes de mim, e agora teria que andar com segurança. Entreguei a elas os presentes e me despedi dizendo que precisava tomar sol, estava muito branca e tinha muito pouco tempo para me bronzear. Quando cheguei na saída do elevador, lá estava Jamal me esperando, tive que contar ao porteiro exatamente o que havia combinado com Odair. Jamal me acompanhou até a entrada do prédio, disse a ele que iria pegar meu carro, mas ele fez um sinal com as mãos e me apontou uma Mercedes preta blindada estacionada em frente do prédio, sabia que agora seria assim. Entrei no carro, sentei no banco de trás indicando o caminho para a praia, pedi que prestasse atenção no caminho, pois iríamos todos os dias aos mesmos lugares. Jamal olhou-me pelo retrovisor e fiz sim com a cabeça. – Por que não disse que falava outros idiomas? Se tivesse dito teria me poupado de fazer tantos sinais pra você. Pedi que estacionasse na praça, embaixo das árvores. Dessa forma, não ficaria sob o sol escaldante. Saí do carro, caminhei até a praia, estiquei minha canga, tirei minha saída de banho, passei meu protetor e deitei. As pessoas ficavam olhando, mas já estava acostumada com isso. Liguei meu notebook, chamei por meu amor. Dois minutos depois, lá estava ele. Antes de dizer um bom-dia, pediu que eu levantasse e mostrasse como estava vestida. Coloquei o computador bem em minha frente, ele deu um tremendo assovio. – Essa é minha garota. A propósito, dormiu bem? Espero que nenhum engraçadinho se aproxime de você, se isso acontecer, diga: “ já tenho meu homem”. Dei risada, depois mostrei minha praia, ele adorou e disse que iria sonhar com o dia que pudesse estar comigo ali. Despedimo-nos e continuei tomando meu sol.


Capítulo Doze Na hora do almoço, fui à casa de Odair para almoçar. Todo ano quando estávamos na correria do carnaval, Maria cuidava da minha alimentação, tinha meu ritual, comer pouco e só carboidrato e proteínas. Minha querida cuidava tão bem de mim, sempre do meu lado, esses dois realmente eram minha família. Odair e Maria eram mestre-sala e porta-bandeira da nossa escola, há mais de dez anos. Conversamos um pouco, depois acessei a internet, precisava mostrar Maria para meu amado. Logo que entrei, ele apareceu na tela, fiz as apresentações e Maria disse que ele era o homem mais bonito que ela havia conhecido, e que nós dois fazíamos um belo par. Ficamos nos olhando um pouco, ele estava lindo de terno, disse que estava a caminho de uma reunião, então nos despedimos. Eu iria para academia, onde ficaria a tarde toda. Disse que antes de sair, falaria novamente com ele. Cheguei na academia por volta das duas horas da tarde, meu personal era gay, nos dávamos muito bem, claro que Jamal estava do meu lado, tive que contar para todos a mesma história, ele dava gritinhos. – Caramba, Aretha, isso é chique demais! Como fazia muito tempo que não malhava, aquele dia estava muito difícil levantar peso, resolvemos pegar leve na primeira semana. Já era seis horas, precisava comer o sanduíche que Maria havia mandado. Aproveitei para entrar na internet, me conectar, meu amor que já havia tentado falar comigo duas vezes. Quando apareceu na tela estava ainda mais lindo. – Que está acontecendo com você? Está querendo me matar de preocupação? – Amor, que saudade da sua boca! Encosta seu rosto aqui na tela, preciso beijá-lo. – Fala isso porque sabe que estou distante, tente falar assim quando estiver na minha frente! Não provoque, Aretha. Mostrei a academia para ele, era muito grande, falei que agora tomaria banho e iria para a quadra, ele deu um suspiro e disse: – Seu dia está sendo muito puxado, não está cansada? Respondi que não, já estava acostumada, falaria com ele às 21h00. Despedimo-nos. Tomei banho, coloquei uma roupa adequada para ensaiar e lá fomos eu e Jamal para minha escola de samba. Quando chegamos foi a mesma coisa, contei a mesma história, todos ficaram impressionados com o ciúme do meu possível namorado. O treino estava puxado, não sambava havia mais de um mês, mas era como andar de bicicleta, uma hora depois o ritmo já estava nos pés. Jamal estava deslumbrado, já esboçava um sorriso, deveria estar encantado com quantidades de mulatas. Aproximei-me dele.


– Jamal, já que iremos ficar juntos o dia todo, quero que relaxe quando estiver perto de mim, me vigie, mas não fique tão tenso. Amanhã quero que venha mais despojado, com uma camisa sem gravata e uma calça de sarja, providencie isso hoje, os shoppings ficam abertos até às 22h00, assim chamará menos atenção das pessoas, e passará menos calor. Gostaria também que conversasse comigo de vez em quando, tenho curiosidade de saber o que você está achando do meu país. Conversei com ele em espanhol, dominava essa língua tão bem quanto o inglês. Jamal me olhou, esboçou um pequeno sorriso. Voltamos para meu apartamento, disse que não havia necessidade de ficar na portaria, pois não iria mais sair de casa. Estava muito cansada, o primeiro dia de treino era sempre o pior, principalmente depois de estar parada a mais de um mês. No dia seguinte, quando desci, Jamal estava com uma camisa branca, sem gravata e uma calça social, mas claro que armado. Dei um ok com o dedo e seguimos nossa rotina. Abdul não gostou muito da minha atitude, mas expliquei que estávamos em um país tropical, com sol a quase 40 graus, portanto, ele chamava mais atenção de terno. Disse a Abdul que se não fosse dessa forma, eu o mandaria de volta, já bastava tê-lo no meu pé noite e dia. Meu amado deu um sorriso e concordou, mas claro, deve ter dito alguma coisa para Jamal. Nossos dias eram iguais, já estava com uma cor maravilhosa, sempre que alguém se aproximava para fazer qualquer tipo de gracinhas, Jamal aparecia do nada, se punha do meu lado e colocava a mão na arma. Claro que os espertinhos davam o fora rapidamente. Agora só falava com meu amor antes de sair de casa e depois que voltava. Sempre soube que Jamal falava com Abdul, depois que me deixava em casa, claro que dava o relatório completo das minhas atividades, essa era sua obrigação para com o príncipe, mas isso não me incomodava, minha rotina não era segredo para ninguém. Na semana seguinte, nossa rotina deu uma pequena mudada, tinha que experimentar minhas fantasias. Desfilava pela minha escola do coração, e para mais duas, mas meus ensaios eram sempre na quadra da minha escola. Sambar era igual em qualquer escola e minha prioridade era sempre Unidos da Barra, pois era sua rainha de bateria. Para as demais, desfilava como passista, só sambava no asfalto, detestava carros alegóricos, meu feeling era pés no Chão. Jamal já era meu fã, às vezes, eu o pegava batendo palmas quando estava sambando. Realmente tinha o samba no sangue, Odair e Maria ficavam malucos com meu rebolado, diziam que eu tinha sangue de mulata, pois só as mulatas tinham esse dom; brancos sambavam de uma forma diferenciada, mas eu duvido que por dentro não tinha sangue de negro, poderia muito bem ser neta ou bisneta de negros. Ficava indignada, como podia existir pessoas racistas no mundo se, no fundo, todos nós tínhamos um pezinho na África? Mas isso ninguém queria admitir. Eu adorava as pessoas negras, não tinha qualquer tipo de preconceito com nada, me dava bem com todo mundo, e se alguém


queria comprar uma briga comigo, era só falar alguma coisa no sentido pejorativo da raça negra. A prova disso era Odair e Maria, eles eram negros e nem só por isso eu os amava menos, eles eram minha família, independente de nossas diferenças raciais. Minhas três fantasias estavam prontas, eu fazia questão de acompanhar as confecções, verificava todos os detalhes, para não ter nenhuma surpresa na avenida. Nunca permiti que Jamal visse nenhuma, queria mandar gravar meus desfiles para mandar a Abdul, queria fazer surpresa de todas. Faltava menos de uma semana para o carnaval, todas as escolas de samba estavam à flor da pele, pois nada poderia dar errado. Ensaiava com minha escola, mas tinha que participar das reuniões das outras duas. Fora isso tinha que decorar o samba enredo das três. À noite, sempre arrumava um tempinho para falar com Abdul, contava como havia sido meu dia, onde havia estado e tudo que havia feito, ele me ouvia com carinho, isso já me dava forças. Esse era meu homem. Todas às vezes que falávamos em nos ver, ele dizia: “ Estou te esperando assim que terminar o carnaval, já não estou aguentando mais sua falta, só vê-la não é o bastante, preciso tocá-la, sentir seu cheiro, passar as mãos em suas curvas”. Ficava encantada com o que ele dizia. Jamal estava cada vez mais simpático, treinava meu francês com ele, havia feito um curso intensivo alguns anos atrás, mas como não usava, já havia até esquecido. Porém, com Jamal, dava para treinar bastante. Ele falava muito bem a língua, aliás, ele falava bem qualquer língua. Continuei com a mesma rotina, pela manhã ficava pelo menos duas horas tomando sol, depois ia para casa de Maria, lá almoçava e depois ia para academia, passava quatro horas treinando, depois ia para quadra. Muitas vezes, ainda tinha que ir ao supermercado para abastecer a casa. Nossas despesas eram divididas em três, eu vivia com a comida supercontrolada, comia pouco, mas com regularidade, pelo menos a cada duas horas tinha que comer alguma coisa. Depois que tomava banho, falava com Abdul e desmaiava. Meu cansaço era também mental, pois ficava o dia todo pensando nele. Faltavam quatro dias para o carnaval, estava muito tranquila, só me preocupava com meu amor, tinha que arrumar pelo menos uma semana para vê-lo depois do carnaval. Às vezes, tinha vontade de largar tudo, estava sendo muito difícil ficar longe de Abdul, cada vez que o via, meu coração disparava, não conseguia ficar um segundo sem lembrar dos seus beijos. Como poderia viver assim, ele em Nova York e eu no Brasil? Tinha tanto medo que Abdul se cansasse da minha ausência e arrumasse outra mulher, menos compromissada. Nenhum homem suportaria isso, teria que esperar passar o carnaval e com calma pensar em uma solução. Dois dias antes do carnaval, estava falando com Abdul, dizia que estava muito nervosa, pois o carnaval no Brasil era um evento mundial, vinham pessoas de todos os países para assistir aos desfiles, haviam jornalistas do mundo todo para cobrir a festa. Os hotéis ficavam lotados, já não se


conseguia fazer reservas, salvo os hotéis 6 estrelas que enfiavam a faca nos turistas internacionais, encontrava-se ainda quartos disponíveis. Abdul disse que tinha uma reunião muito importante no dia seguinte, que assim que desse, ligaria no celular, isso caso não houvesse como acessar à internet. Fiquei triste em saber que não poderia falar com meu amor às vésperas do carnaval, mas ele tinha seus compromissos, assim como tinha os meus. Dormi cedo, precisava estar bem descansada. No dia seguinte, acordei bem cedo, precisava passar para ver os últimos detalhes das fantasias. Meu dia seria agitadíssimo. Jamal não me largava um minuto sequer, era meu guarda-costas, meu segurança e meu carregador de malas, ele me ajudava no que podia. Tentei falar com Abdul, mas não tive sucesso, deixei para tentar mais tarde, mas pedi que Jamal ficasse de olho e caso ele ligasse, deveria me comunicar imediatamente. Almocei minha comida especial que Maria fazia antes do desfile, depois só comeria duas horas antes de entrar na passarela do samba. Minha escola sairia na avenida às 22h45, a próxima seria às 3h45 da manhã. A outra, só no dia seguinte, às 00h45 da madrugada. Jamal me levou a concentração às 20h00 e foi guardar o carro. Agora só nos veríamos depois do desfile. Isso era o que eu esperava. Logo veio o maquiador, fiquei apenas de roupão, dentro do furgão, onde faria a maquiagem e depois colocaria a fantasia. Minha maquiagem era olhos cor de prata com cílios postiços brancos, base normal e na boca, batom prata. Depois da maquiagem pronta, ficava mais fácil. Começamos pelo sutiã, pois ele seguraria as plumas que iriam presas às minhas costas, na frente, era tipo biquíni, tapava somente os bicos dos seios, tinha alças bem fininhas e era todo de paetês de escamas. Nas costas, preso ao sutiã, as plumas em forma de leque, muito brilho espalhado pelo corpo e uma pedra grudada no umbigo. O biquíni também era todo em paetês com escamas, tinha adereços de pluma branca também nos punhos e tornozelos; usava sandálias altíssimas prata e, na cabeça, uma tiara com penas em leque, meus cabelos estavam presos, para mostrar a tiara. Terminamos tudo era 22h15, tínhamos ainda trinta minutos para a escola entrar, eu entraria na frente com a bateria, antes entrava comissão de frente, porta-bandeira e mestre-sala, ou seja, Odair e Maria, depois do primeiro carro alegórico entrava a bateria. Tínhamos que caminhar quase simultaneamente. Tudo pronto, cada minuto passava alguém para verificar minha fantasia e a maquiagem, estava muito calor e corria o risco de borrar. Alguns jornalistas furavam o bloqueio para entrevistar algumas celebridades, e a maioria elogiaram minha fantasia, disseram que estava deslumbrante. Soube depois, que trinta minutos antes da escola entrar, havia chegado a comitiva do príncipe Abdul, eles estavam em nove pessoas, sendo que oito eram seguranças. No camarote do príncipe, a entrada era proibida para qualquer pessoa, principalmente repórteres e jornalistas. Todos estavam curiosos para saber quem o príncipe estava aplaudindo, e quem seria a mulher que havia fisgado esse


homem tão poderoso. Meu amor quis me fazer essa surpresa, por isso não havia conseguido falar com ele naquele dia. Seu camarote ficava em um lugar privilegiado, onde ele poderia me ver de qualquer ângulo, se soubesse que ele estava ali, acho que desistiria de desfilar, tamanha era minha saudade. Como eu amava desfilar! Quando ouvia minha bateria começar ritmar e logo em seguida os fogos, tinha vontade de chorar, só não o fazia para não borrar minha maquiagem, sentia um arrepio pelo corpo todo, tinha orgulho de puxar aquela bateria, conhecia e amava todos os integrantes. Chegou minha hora. Fiz o sinal da cruz como sempre fazia, me coloquei à frente da bateria e começamos nosso show. A plateia sempre gritava quando ouvia o som da bateria, a nossa era uma das melhores, as pessoas aplaudiam em pé. Eu estava muito tranquila, só ficava nervosa na hora de entrar, depois era só alegria. Puxei minha bateria com samba no pé. A cada canal de televisão, me curvava em sinal de agradecimento. Jamais poderia imaginar que meu homem estava me vendo lá de cima. Tinha um gingado que todos admiravam, mexia o corpo e os pés de uma forma muito sensual, rebolava só com o quadril, havia aprendido isso alguns anos atrás. Todos os canais de televisão focavam suas câmeras em mim, não porque era bonita, mas sim porque atrás de mim estava a mais bela bateria do carnaval do Rio. Soube depois que disseram que eu era linda e que tinha muito samba no pé. Quando a bateria dava aquela paradinha, era a deixa para mostrar o que tinha vindo fazer na avenida e sempre com o sorriso estampado no rosto. Acho que isso dava mais credibilidade ao meu desempenho. Minha bateria estava radiante e eu maravilhosa. Toda hora reverenciava o público e os camarotes onde estavam os jornalistas. Toda vez que olhava a plateia, ao lado, via Jamal com um sorriso encantador, não sei como conseguia se movimentar mais rápido do que eu. Soube depois que meu príncipe batia palmas, mandava beijos, mas ele sabia que eu não o veria, nem me passava pela cabeça que ele poderia estar ali. Ao chegar na apoteose, estava empolgada demais, sabia que tiraríamos nota dez com certeza. Dei um assovio para chamar Odair e Maria, nos abraçamos, estávamos felizes, tínhamos certeza de que nossa escola havia desfilado muito bem. Logo chegou uma jornalista para conversar comigo, estava cansada, e rouca de cantar o samba enredo da nossa escola. Ela disse que eu havia levantado a plateia, isso era muito bom. Perguntou como estava me sentindo, disse que estava maravilhada e muito emocionada, sabia que havia feito um bom desfile, naquela noite. Outro jornalista nos interrompeu e fez uma pergunta pouco convencional. – Aretha, seus seios são de silicone? – Não, aqui é tudo original de fábrica. Ele saiu sem graça, mas quem manda fazer uma pergunta dessas? Logo vejo Jamal com meu


roupão, pedi para Maria tirar meu adereço das costas, coloquei o roupão, pegamos carona no carro da escola e fomos novamente para a concentração. Era exatamente 00h05min, a outra escola só sairia às 3h45min da manhã, portanto, dava para descansar uma horinha. Tirei a pintura de rosto, tomei uma chuveirada (na concentração todos os banheiros tinham chuveiros). Pedi para Jamal levar minha fantasia para o carro e deitei no furgão, tinha que dormir um pouco. Peguei no sono rapidamente, tinha pedido a Jamal que me acordasse às 01h30, e ele, como sempre, foi pontual. Chamou-me delicadamente. Espreguicei-me e fui até o banheiro. Tomei outra chuveirada e fui para o maquiador que já estava me esperando. Minha fantasia era toda de caramujinhos, pois o enredo da segunda escola era sobre o fundo do mar. Minha maquiagem era simples, o maquiador pintou meus olhos em tons perolados, cílios negros, minha pele também com um pó perolado, a boca branca. Ia usar uma peruca branca tipo Chanel. Como seria somente passista, não tinha muitos adereços, apenas um tapaseios cobertos de caramujinhos, que cobriam apenas a parte dos seios; na frente, a mesma coisa, fio dental com tapa-sexo, coberto de caramujinhos e um bracelete em cada punho e tornozelos de pérolas. No corpo foi passada uma substância em tons perolados. Ficou linda aquela composição. As sandálias, como de toda passista, eram altas e também bordadas com caramujinhos. Estava pronta, olhei para Jamal e ele fez sinal de positivo. Todos da escola acharam que eu estava deslumbrante, iria me sobressair muito, pois estaria entre o final da bateria, que estava com roupas azul-claro, azulmarinho e branco, e o terceiro carro alegórico que vinha com muito vermelho. Portanto, eu, no meio, de pérola, iria aparecer bastante. Estava relaxada, muito confortável com minha fantasia e descansada. Aquela dormidinha havia feito maravilhas comigo.


Capítulo Treze Chegou a hora, recebi o ok para entrar, agora só dependia de mim. Fiz exatamente o que sabia e quando passava, todos batiam palmas. Ouvi até chamarem meu nome. Mandava beijinhos para a plateia e quando olhava para o lado, lá estava Jamal, ele deveria estar podre de cansado, não parava um minuto sequer. Quando eu parava, ele parava; eu sambava, ele andava, já havia me acostumado com sua companhia. Estava radiante, sambava com garra. Senti um pouco de dor no pé direito, mas quem está na chuva, é para se molhar. Uma hora depois de muito samba no pé, estávamos na apoteose, e mais uma enxurrada de repórteres para entrevista, respondi a todos sorrindo e com muito carinho, quase todos elogiavam meu desempenho. Essa escola de samba estava de parabéns, havia feito um carnaval deslumbrante. Procurei Jamal e não o encontrei, dei um assovio, em seguida apareceu com meu roupão nas mãos. Tirei aquela peruca que estava incomodando e disse a Jamal que precisava tomar uma bebida. Já havia recusado todos os convites para fazer parte dos camarotes, dizia que talvez fosse, ou até mesmo que tinha outro compromisso, não queria me expor, pois nesses camarotes depois de certa hora, só rolava sacanagem para servir de assunto para as revistas de fofocas. Jamal já estava sabendo da chegada do príncipe, estava radiante, pediu que eu fosse com ele para um camarote vazio, disse que havia estado lá para se certificar. Eu o segui, tamanha era minha vontade de beber uma geladinha. Estava com a peruca nas mãos, meu pé não parava de doer, precisava tirar as sandálias para ver o que havia acontecido. Quando Jamal abriu a porta e vi meu homem, corri para seus braços e ele me envolveu com os seus, pedindo para que todos saíssem, precisávamos ficar sozinhos. Eu o beijei diversas vezes, não acreditava que ele estava ali, que havia assistido ao desfile. Ele olhou-me, tirou meu roupão, soltou meus cabelos e disse: – Estou orgulhoso da minha pequena, você era a mulher mais linda dessa avenida, arrasou nas duas escolas, querida, nunca imaginei que sambasse tão bem! Ficamos agarradinhos. Lembrei-me do pé e tirei as sandálias, e para minha surpresa, meu pé direto estava cheio de sangue. Alguns caramujinhos haviam se soltado e fincado em meu pé. Chamei Jamal pelo rádio, pedi que trouxesse minhas havaianas que estavam no carro. Abdul olhou-me. – Muito bem, já sabe mandar, isso é um bom começo para uma princesa. – Não deboche, Jamal é um ótimo rapaz, e não estava mandando, estava pedindo um favor. Abdul agarrou-me e me deu um beijo que até me tirou o foco. Pedi que servisse uma bebida, estava com sede. Logo ele me serviu uma dose de uísque. Quando Jamal chegou, bateu na porta, pedi que entrasse e ele olhou meu pé, fez um sinal negativo com a cabeça e falou com o príncipe em árabe,


pegou as sandálias, a peruca e saiu. Abdul se aproximou e acariciou meu rosto com a ponto do dedo. – Está preparada para enfrentar os repórteres? Eles nos descobriram aqui, estão por todos os lados, o que acha? – Acho que devemos enfrentar, quero acabar logo com isso, tenho urgência em sair daqui para ficarmos sozinhos. Ele pegou em minhas mãos e me deu um beijo apaixonante. Saímos para enfrentar as feras. Quando abrimos a porta, era uma enxurrada de flashes. Havia seguranças que faziam uma barreira a nossa volta, os repórteres estavam alvoroçados, todos perguntando ao mesmo tempo sobre sua acompanhante. Ele apenas disse em inglês: – Por hoje basta, minha noiva está com o pé machucado e precisa de cuidados. Logo marcarei uma coletiva e prometo responder todas as perguntas. Saímos rapidamente e fomos direto ao seu hotel. Abdul estava no melhor hotel do Rio, na suíte presidencial. Era majestosa, já tinha ouvido falar muito a respeito, mas agora vendo, era deslumbrante. Fui direto tirar aquela roupa e a maquiagem, saí do banheiro enrolada em uma toalha, não tinha roupas para vestir, ele me deu uma de suas cuecas e uma camiseta. Quando me viu vestida com sua roupa, deu uma gargalhada. – Deveria andar sempre assim. Creio que fica melhor em você do que em mim! Fomos direto para a cama, nem tivemos preliminares, nossa saudade não permitiu; nos amamos desesperadamente, estávamos com tanta saudades, que mesmo estando exausta, consegui relaxar em seus braços. Ele contou-me como conseguiu me enganar, e perguntei como havia feito a reserva de última hora. – Não fiz nada, apenas liguei para a embaixada do Kuwait no Brasil, disse que estava chegando, onde iria e o que iria fazer. Claro que providenciaram tudo rapidamente. Perguntei quanto tempo poderia ficar e ele disse que talvez uma semana. – Só uma semana, meu amor? É muito pouco tempo, tenho tanta coisa para te mostrar. – Não se preocupe, faremos tudo que quiser. Se não der em uma semana, ficarei duas, está feliz? Respondi a ele com meus beijos ardentes e dormimos abraçadinhos. Acordei muito agitada, já passava das onze horas. Liguei para Odair ir com Maria pegar algumas roupas no meu apartamento, ela saberia exatamente tudo que deveria trazer, eles já sabiam que o príncipe estava no Brasil. Disse que depois marcaríamos um jantar para as apresentações. Recebi uma ligação de outra escola de samba, eles me queriam como passista. Pedi para ligarem por volta das 15h00. Pedimos nosso café no quarto, pois eu não tinha roupa para descer. Logo Odair e Maria chegaram com uma mala e fui direto mudar de roupa. Apresentei Abdul aos dois, só que agora pessoalmente. Contei para Odair sobre a proposta que havia recebido pela manhã, pedi sua opinião, ele me sugeriu que aceitasse, e


que pedisse um cachê alto, esse dinheiro seria revertido para as crianças da comunidade. Deixei que se encarregasse disso pessoalmente. Eles se encantaram com Abdul, apesar de ter que traduzir simultaneamente a conversa. Eu estava muito feliz em tê-lo ao meu lado nesse dia tão importante para mim... Essa surpresa, eu jamais esqueceria, agora o teria por alguns dias, precisava aproveitar cada segundo ao seu lado, não queria que nada nem ninguém nos atrapalhasse. Por volta das 14h00, descemos para almoçar no restaurante do hotel. Odair e Maria foram almoçar conosco. Quando descemos do elevador, havia dezenas de fotógrafos, jornalistas e curiosos, os seguranças nos protegeram até o restaurante, pelo menos ali ninguém poderia entrar. Abdul chamou Jamal pelo rádio, falou uns dez minutos com ele em árabe e Jamal saiu rapidamente. – Querida, para acabar logo com essa histeria, acho melhor marcarmos uma coletiva às 18h00, dessa forma, acabamos logo com essa perseguição. Concordei com ele, afinal, gostaria de poder ficar com meu amor sem medo de ter que enfrentar aqueles indesejáveis repórteres. Jamal foi pessoalmente levar um discriminativo das perguntas, que deveriam seguir um protocolo. No máximo, duas perguntas por emissora, essa coletiva não deveria durar mais que uma hora, afinal, era segunda-feira de carnaval, e eu teria ainda outra escola para desfilar. Depois de tudo acertado, pedimos nosso almoço, fiz questão de escolher o cardápio de Abdul. Ele ficou encantado com nossa comida. Após almoçarmos, subimos para o quarto, Odair teria que resolver sobre meu segundo desfile de hoje. Com certeza esse convite havia sido feito de última hora por conta do meu relacionamento com o príncipe, pois a mídia e canais de televisão não falavam em outra coisa, mas seria por uma boa causa. Claro, aceitaria, mas teríamos que discutir algumas coisas, como: o que iria usar, a que horas deveria estar na concentração e que não desfilaria em carros alegóricos. Odair marcou com o diretor às 16h00 da tarde, descansamos um pouco. Odair fez um curativo em meu pé, pois precisava dele inteiro. Ele era muito bom nisso, vivia ajudando as sambistas que se machucavam, sua pomada era milagrosa, ele fazia segredo absoluto do que era feita. Passou a pomada e enrolou meu pé com uma faixa. Logo depois chegou o diretor da escola de samba, ele veio com o maquiador e o carnavalesco. Abdul achou melhor nos deixar sozinhos, não seria conveniente o verem antes da coletiva. Desta forma, achou melhor esperar no quarto. Eles trouxeram algumas fotos e para nossa surpresa, não havia fantasia, mas sim, uma pintura sobre o corpo. A pintura seria dourada com tapa-seios e tapasexo, na cabeça apenas uma peruca dourada. Minha preocupação eram as sandálias, já que meu pé estava machucado, depois de muita conversa, decidimos optar por reformar as sandálias do desfile da Unidos da Barra que era muito confortável, só que era prateada. Mas isso para eles não seria


problema, só necessitavam de um spray. Quanto ao horário, dava perfeitamente para encaixar, os desfiles, pois o primeiro se daria às 00h45, e terminaria por volta das duas horas da manhã, a escola seguinte só começaria às 3h45 da manhã, portanto, teríamos tempo suficiente para as pinturas. Depois de tudo acertado comigo, deixei o resto com o Odair. Antes de me retirar, o diretor disse: – Acho que deve ter estranhado nosso convite de última hora, mas você está muito em evidência nos últimos dias. Agora, com a chegada do seu noivo, ficou ainda mais famosa. Mas não é só por isso, adoramos você. Sei que é fiel à sua escola, respeitamos muito isso, mas com ou sem príncipe, você é a melhor passista dos últimos tempos, tem todos os atributos necessários, é maravilhosa de corpo e linda de rosto. Seus olhos são encantadores, com a pintura no corpo, com certeza, irá arrasar. Nós nos despedimos, Odair cuidaria do resto. Quando entrei no quarto, contei como seria minha fantasia, que na verdade, não tinha. Perguntei se isso o incomodava, ele me olhou. – Seria falso e mentiroso se dissesse que não me incomoda, mas sei também que isso é importante para você e para as escolas que estará representando. Só torço para que tudo acabe bem e que depois possamos ficar juntos. Não sabe as saudades que eu estava de você, minha querida. Beijamo-nos e fomos nos arrumar para coletiva. Abdul colocou uma calça social, camisa e seu turbante, que o deixava ainda mais sexy. Coloquei uma calça de seda preta e um top de lantejoulas também preto. Descemos dez minutos antes. No hotel havia seguranças por todos os lados, isso se já não bastasse os que já faziam parte da comitiva de Abdul. A sala de convenções do hotel estava lotada de jornalistas. Havia um responsável para conduzir a entrevista, dessa forma ficou estipulado que seriam apenas duas perguntas por emissora. Então nos sentamos na frente, com Jamal do meu lado como sempre. Começaram as perguntas. A primeira foi feita por uma jornalista para Abdul. – Senhor príncipe, não tem ciúmes da sua noiva desfilar? Quanto tempo ficará em nosso país? Abdul muito educadamente disse: – Estaria mentindo se dissesse que não tenho, mas confio nela. Ficarei o tempo que for necessário para matar as saudades e conhecer um pouco do Rio de Janeiro. Logo depois, outras duas perguntas que ele respondeu tranquilamente, as perguntas eram feitas em inglês, já que meu amado não entendia uma sílaba do português. Depois da quarta rodada de perguntas, um rapaz, que era de uma emissora que não devo citar, fez uma pergunta para mim. – Como se sente sendo a rainha do petróleo? Soubemos que foi convidada hoje para desfilar pela quarta vez, isso foi por amor à escola ou pelo cachê? Apertei a mão do meu amor e ele deu seu aval, sabia que me sairia bem. – Quando conheci Abdul, não sabia que ele era o príncipe do petróleo. Só nos apaixonamos, mas isso não muda absolutamente nada para mim. Aceitei desfilar para nossa coirmã, por amor a minha


profissão de sambista. Sobre o cachê, realmente foi bem alto, muito além do que imaginava, mas esse dinheiro já foi doado para a instituição que cuida dos menores carentes da nossa comunidade. Meu amor apertou minha mão como aprovação, a próxima pergunta foi uma para mim e para Abdul, era a seguinte: – Aretha, ou devo chamá-la de princesa? Minha pergunta é: vai continuar morando no Rio ou vai embora para o Kuwait com seu noivo? – Primeiro, meu caro repórter, me chame apenas de Aretha. Sobre sair do Rio, ainda não decidi exatamente o que vou fazer. Amo meu país, mas quero também estar ao lado da pessoa que escolhi. Meu noivo não mora no Kuwait e sim, em Nova York. Só vou saber responder essa pergunta quando tiver certeza do que farei. A pergunta para meu noivo era: – Vossa majestade, gostaria de acompanhar sua noiva na avenida? Soube que ela desfilará nua na sua última apresentação. Ele calmamente respondeu. – Não, jamais faria isso, sou péssimo dançarino. Quanto ao fato de desfilar nua, não vejo razão para me importar, sei que na verdade é só profissionalismo. Estávamos cansados, Abdul pediu para dar por encerrada aquela coletiva, tinha que estar na avenida logo mais. Antes de sairmos, Abdul pediu a todos que o ouvissem. Ele então, se levantou. – Havia prometido essa coletiva a vocês e cumpri, agora gostaria que não nos abordassem mais, gostaria muito de poder conhecer sua cidade, mas seria inviável se vocês desrespeitassem nossa privacidade. Não posso impedir que tirem fotos, mas gostaria que fizessem isso sem nos incomodar, quero que minha estadia aqui seja muito proveitosa. Agradeço a todos pelas perguntas. Saímos acompanhados de uma porção de seguranças. Quando entrei no apartamento, estava com minhas mãos molhadas de nervoso, ele me deu um beijo e um tapinha na bunda. – Acho que nos saímos muito bem. Você, como sempre, me surpreendendo. Gostei muito das suas respostas. Já passava das oito horas da noite quando saímos rumo à Sapucaí. Quando cheguei, Jamal foi direto comigo até à concentração, só que agora, além de Jamal, tinha mais cinco seguranças. Começamos pela maquiagem. Minha fantasia era verde esmeralda, cor de meus olhos, e aquela maquiagem os ressaltava ainda mais. Na boca, apenas um batom nude com um pouco de glitter. No corpo, apenas um pouco de pó com brilho. Na parte de cima, um tapa-seios coberto por paetês verde-turquesa. Logo abaixo dos seios, um cordão com um monte de pedrinhas dependuradas que vinha até a altura do umbigo, dando um acabamento perfeito. Na frente, tapa-sexo com o mesmo acabamento do sutiã; nos pés, botas que vinham até meus joelhos. Alguns adereços de braços e na


cabeça, cabelos presos com um adorno com penas caídas nas costas e nos ombros. Já estava pronta, era só esperar. Pelo menos agora sabia que Abdul assistiria tudo de seu camarote junto com Odair e Maria. Olhei para o lado e lá estava Jamal esperando para caminhar na lateral quase no mesmo compasso que eu. Quando deram sinal, fui fazer meu trabalho prazeroso. Não fosse o cansaço, acho que desfilaria para todas as escolas. Estava empolgada, sempre sorridente, mandava beijos à plateia como sempre fazia, mas agora eles se erguiam quando eu passava. Meu amor estava em um camarote bem ao meio da avenida, quando passei por ele, curvei-me e fiz a reverência. Todos bateram palmas, alguns assoviavam. Vi meu amor me mandando um beijo e retribui com um coração feito com as mãos. Eu estava fazendo um grande desfile; eu e o Jamal... É claro, ele era muito versátil. Quando achava que estava em um lugar, já havia passado para o outro, seus olhos acompanhavam cada passo que eu dava. Sambava da mesma forma como se estivesse sambando para minha própria escola. Isso eu sabia fazer bem, tinha classe, era despojada e, às vezes, arriscava até demais. Samba no pé é assim mesmo. Ouvi diversas vezes me chamarem de Aretha e outras de princesa. Chegamos à apoteose. Jamal não esperou ninguém se aproximar, jogou um roupão por cima de minhas costas, pegou-me no colo e saiu em disparada. – Jamal, não precisa tanto, posso ir caminhando. – São ordens, minha senhora. Ele me carregou até o elevador que dava no camarote do príncipe. Abdul bateu em suas costas. – Bom trabalho, garoto. Depois Abdul me abraçou com força. – Cada vez te amo mais, adorei sua reverência, Allah também. Ficamos apenas quinze minutos juntos. Jamal já estava na porta para me levar à concentração. – Não se acabe, preciso de você inteirinha para mim. Dei uma golada em seu uísque e saí com Jamal. A pintura do corpo demorou mais do que o previsto, apesar de três pessoas trabalhando. Depois de tudo pronto, lá fui eu para mais um desafio. Agi da mesma forma que com as demais, fui ovacionada, minha nudez estava causando polêmica, mas meu corpo era perfeito para causar tanto espanto. Aquela noite fui alvo de muitos comentários bons, salvo alguns puritanos que achavam uma indecência desfilar nua, com certeza seria capa de muitas revistas, principalmente as de fofoca.


Capítulo Quatorze Quando terminamos, já era manhã. Fui direto para o carro. Meu amor já estava me esperando, ele passou a mão em minha pintura, depois colocou a mão no tapa-sexo, com um sorriso ordinário nos olhos. – Não me provoque, senhor meu noivo. – Como posso resistir a tanta beleza? Quero estar com você o mais rápido possível. Ao chegarmos, mencionei que iria tomar banho para retirar a pintura. Pra minha surpresa, ele disse: – Não tire, quero tê-la desse jeito. Fizemos amor alucinadamente, amava o jeito que ele me pegava. Sentia minhas pernas tremerem, minha boca secar, ele me levava da terra ao céu em fração de segundos. As mãos de Abdul faziam milagres quando tocava meu corpo. Era como uma magia. Como ele poderia exercer tanto poder sobre meu corpo? Sua boca se apoderou da minha, enquanto suas mãos tomaram posse do meu corpo. Abdul estava insano e me apalpava toda. Moldou meu seio com a mão e apertou meu mamilo entre os dedos, arrancando um gemido rouco de meus lábios. Com a outra mão, desceu pelo meu corpo, deslizando os dedos por minha intimidade, acariciando com perícia, me penetrando com seus dedos compridos e me deixando louca por algo mais. Eu o queria dentro de mim. — Amor, eu não suporto mais, preciso de você dentro de mim. Por favor, agora — implorei, sussurrando. — Amira, é o que eu mais quero — sussurrou de volta, com aquela voz rouca e moldou seu corpo ao meu, aninhando-se entre minhas pernas, penetrando-me lentamente. Abdul era grande, mas mesmo assim, nos encaixávamos com perfeição. Enrosquei as pernas em sua cintura, o trazendo para dentro de mim. Ele gemia e balbuciava palavras desconexas, enquanto entrava e saia do meu corpo. Eu me apertava a ele, o orgasmo construindo em meu corpo, pedindo passagem. Segurei-me o quanto pude, suor brotando em nossos corpos e o cheiro de amor impregnando o quarto, aumentando ainda mais nossa excitação. Abdul aumentou o ritmo, correu os lábios pelo meu rosto e mordeu o lóbulo de minha orelha. Êxtase me consumiu e quebrei em mil pedacinhos, levando meu amor comigo ao paraíso. Nos amamos com mais ímpeto ainda, e depois descansei a cabeça em seu peito. Era reconfortante estar assim grudadinha com ele. Fui tomar banho e demorei muito para tirar toda aquela tinta. Quando voltei, ele dormia. Deitei-


me ao seu lado, desliguei nossos celulares, olhei para seu rosto e fiquei beijando seus lábios, nem acreditava que ele seria inteirinho meu, por alguns dias. Como eu amava aquele homem. Ele também me amava, sentia isso cada vez que me beijava ou que fazíamos amor. Abdul havia rompido todos os protocolos de segurança para estar comigo. Só um grande amor para fazer isso, sabia que ele estava se expondo demais. Como dizia meu sogro, estávamos no alvo dos terroristas, rezava para que nada nos acontecesse, temia mais por ele do que por mim. Agarrei-me a ele e dormi. Quando acordei, olhei o relógio, passava das duas horas, liguei meu celular, tinha muitas ligações, acordei meu amado com muitos beijinhos. Ele abriu os olhos com um sorriso encantador. – Estou sonhando e morri, vim parar no céu e tem um anjo ao meu lado? Dei uma risada. – Não vale repetir minhas palavras! Beijamo-nos, ele foi tomar banho. Liguei para Odair, ele disse que as apurações começariam às 15h00, falei que ainda estava na cama e que meus pés estavam latejando, iríamos descer apenas para almoçar e que não pretendia sair. Pedi que me mantivesse informada. Ele também achou melhor não me expor mais. Quando Abdul saiu do banheiro, dei umas cafungadas em seu pescoço. – Que homem mais cheiroso! Ele me deu um beijo e foi ligar seu celular. Tomei banho, coloquei um short e uma camiseta, esperei que ele terminasse de falar e depois sugeri que descêssemos para almoçar. Ele passou rádio para seus seguranças e em seguida, fomos ao restaurante do hotel. Estava acabada, meus pés doíam, minha cabeça estava pesada, disse a ele que estava me sentindo moída, ele pediu para que ficássemos no quarto o resto do dia. Para nossa surpresa, não havia ninguém da imprensa. Almoçamos tranquilamente e subimos. Passamos o resto do dia deitados, estávamos assistindo a apuração, e a cada dez que eu ganhava, Odair ligava gritando: – Tirou dez de todos os jurados! Nossa escola estava na frente, Odair gritava tanto, estava acabada, nem consegui assistir o final da apuração. Abdul desligou meu celular, ele sabia que eu estava exausta. Acordei muito assustada com a voz de Odair, ele estava no apartamento para contar a novidade. Nossa escola era Campeã de 2001. Pediu que fossemos com ele para o barracão da escola, para comemorarmos. – Meu amigo, não sabe da minha felicidade, mas olhe para meus pés, estão inchados e com bolhas. Eu não vou, diga ao pessoal que se der, daremos uma passada no final da noite, depois do jantar. Ele saiu, e foi direto para quadra. Desliguei meu celular, sabia que não me deixariam em paz, principalmente a imprensa. Ficamos sentados na varanda de frente para o mar, fumei um cigarro. Depois nos aninhamos e ficamos juntinhos, ele me pegou no colo e me levou para cama.


– Querida, quero que descanse um pouco. Eu me agarrei em seu pescoço. – Não sem antes aproveitar mais um pouco deste corpo maravilhoso. Enrosquei-me nele, e comecei a beijá-lo com fúria. – Está mexendo com fogo, minha senhora, isso é demais, vou lhe mostrar que não se deve cutucar um homem desta forma, venha cá, minha princesa. Ele me agarrou de um jeito que eu adorava. Começou beijar meu rosto e foi descendo. Cada beijo, ele me olhava e sorria. Estava em alfa de tanto prazer, mas ele não parou. Foi descendo até minhas coxas e ali parou para apreciar melhor minhas partes íntimas. Ele se apoderou daquilo que ansiava por ele, dizendo que eu estava do jeito que ele gostava. Aquilo me deixou ainda mais acesa. Agarrei seus cabelos, enquanto ele passava a língua em movimentos circulares e ritmados. Enlouquecedor demais... Precisa dele dentro de mim, então implorei que me possuísse. Ele deitou-se sobre meu corpo e me penetrou com força. Abdul era criativo na cama, por essa razão, conseguia me fazer sentir esse turbilhão dentro de mim? Perto dele, eu ficava refém dos seus toques, ele me fazia sentir coisas que até duvidava, seu toque me dava arrepios na espinha, queria tê-lo dentro de mim cada vez mais. Quando pensava que logo estaria sem ele, ficava louca. Suas mãos deslizavam pelo meu corpo, me fazendo subir pelas paredes, sua língua passeava pela minha boca, me causando delírios, esse era o homem da minha vida. Passava das nove horas. Nós nos arrumamos para o jantar e o levei a um restaurante só de frutos do mar que ficava de frente à praia. As mesas estavam postas no gramado, para assim, podermos apreciar melhor aquela maravilha. Abdul adorou a decoração e a comida. Ficamos por algum tempo abraçados, só ouvindo o barulho do mar. Perguntei se ele gostaria de me acompanhar até a quadra, ele disse que iria para onde eu fosse. Dessa forma, pedi a Jamal para dirigir, ele sabia de cór o caminho. Ao chegarmos, foi aquele tumulto, mas ficamos muito pouco tempo, conversei com o diretor da escola, ele me parabenizou e disse que estava agradecido pela minha contribuição para o título que acabávamos de ganhar. Disse também que se sentia lisonjeado com a presença do meu noivo. Um príncipe de verdade em sua modesta quadra, era demais. Ficamos mais um pouco e fomos para o hotel. Lógico que fomos para cama, mas desta vez, apenas ficamos agarradinhos, ele pegou em meu rosto, colocou as mãos embaixo do travesseiro e tirou um molho de chaves, e as balançou dizendo: – Minha querida, isso é meu presente pelo seu lindo desfile. Peguei aquelas chaves – São as chaves do paraíso?


– Não, meu amor, será paraíso quando estivermos morando lá, estas são as chaves do nosso lar aqui no Brasil, escolhi para você, agora não terá que dividir seu cantinho com mais ninguém, só comigo. Abracei-o, aquilo era simplesmente demais. – Como pode ser tão gentil e se preocupar tanto comigo? Estou agradecida por pensar em tudo, amor. Combinamos que no dia seguinte iríamos visitar nosso ninho de amor. Dormi aninhada em seus braços fortes. Acordamos bem cedo no dia seguinte, levei-o para conhecer minha praia favorita, depois o Pão de Açúcar, o Corcovado e o Cristo Redentor, ele estava maravilhado com tudo, claro que os fotógrafos também, mas pelo menos mantiveram certa distância. Depois passamos no apartamento que ele havia comprado. Era simplesmente lindo! Ficava no Recreio dos Bandeirantes, lugar privilegiado. O apartamento era enorme, tinha cinco suítes e já estava decorado. A decoração era de muito bom gosto. Abdul disse que havia comprado por intermédio da embaixada, e que o vendedor lhe apresentou uma arquiteta. Falou com ela, disse mais ou menos o que queria, só para não termos trabalho e podermos usar logo, depois com o tempo, eu iria deixando com a minha cara. Falei que não mexeria em nada, estava perfeito. Nos beijamos e ficamos de trazer nossas coisas assim que desse. O prédio tinha um spa, serviço de salão de cabeleireiro, piscina e academia. Voltamos para o hotel tarde, tomamos banho e o levei para conhecer o que era uma roda de samba. Ele ficou encantado, experimentou nossa famosa cerveja e, claro, a minha branquinha e nossa famosíssima caipirinha. Dormimos rapidamente. Ele me acordou de madrugada dizendo que havia sonhado comigo, estava excitado, beijei-o inteirinho, quase enlouqueci meu homem, quando encostei minha boca em seu sexo. Contornava com a língua e o sugava, tomando a maior parte de seu comprimento, repetidamente. Ele suava em meus braços tamanho era nosso desejo. Nos dávamos maravilhosamente bem na cama, Abdul era um amante perfeito, ele dizia que eu era muito polivalente. E riamos muito quando ele falava isso. – Que predicado mais encantador, vou levar isso como uma declaração de amor. Ele me abraçou, deitei em seu peito e dormi. Acordamos quase perto do horário de almoço, demos muitas risadas, já estávamos no quarto há mais de dezoito horas. Levantamos, tomamos banho, e fui levá-lo para comer um cachorro-quente, pois quando estávamos juntos em Nova York, ele havia dito que adorava, agora queria que experimentasse o nosso. Realmente, ele adorou, comeu uns três, depois fomos caminhar na praia. Nos


sentamos na areia e ficamos até o pôr do sol. Passamos em meu apartamento e levamos todas as minhas coisas para meu novo lar. Deixei o outro apartamento com minhas amigas, com certeza elas logo arrumariam outra para dividir o aluguel. Abdul também levou suas coisas, Jamal fechou a conta do hotel e foi direto para o novo endereço. Meu amado ficou dez dias comigo, foram dez dias de paixão, de sexo e cumplicidade. Um dia antes de partir, me fez um monte de recomendações, disse que Jamal ficaria comigo, mas não abria mão de mais um segurança. Estávamos em todos os jornais e revistas, ele tinha medo que eu pudesse ser alvo de algum terrorista. Abracei-o e disse que se tranquilizasse, faria tudo conforme seu desejo, não queria que fosse embora preocupado. O rei havia telefonado um dia antes para me cumprimentar pela vitória da escola. Abdul estava levando todos os DVDs gravados com os desfiles. Quando ele saiu, chorei muito, disse que logo iria visitá-lo em Nova York. Queria passar pelo menos uma semana em sua companhia. Nós nos despedimos, com muita tristeza. – Como pensa que vou viver sem você agora, meu amor? Como minha cama ficará vazia? Ele brincou. – Espero que continue vazia até minha volta, ai de você se colocar outro em meu lugar! – Nem Jamal? Ele me deu um beijo. – Jamal pode, confio mais nele do que em mim mesmo. – Que estou ouvindo do meu noivo?! Você confia em Jamal e em mim não confia? Ele me abraçou e falou que aquele momento era o pior, separar de mim estava se tornando muito difícil, precisávamos encontrar uma solução urgente, ele não poderia mais viver assim longe, me queria junto dele. Depois que ele se foi, tranquei-me no quarto e chorei muito. Tomei uma decisão: ficaria no Brasil até junho, depois iria morar em Nova York, não queria ficar longe de Abdul, ele era um homem muito bonito para ficar solto, deveria tomar posse do que era meu. Conversei com Odair, disse que passaria três meses no Brasil: dezembro, janeiro e fevereiro, mas largar minha escola, jamais! Claro que meu amigo me apoiou, ele havia aprendido a gostar de Abdul, disse que eu estava coberta de razão. Pedi que mantivesse em segredo nossa conversa, principalmente perto de Jamal. Iria fazer uma surpresa ao meu homem. Na páscoa, iria ficar uma semana com ele, e contaria sobre o que havia decidido. Pensei muito antes, mas se alguém precisava se sacrificar, esse alguém teria que ser eu, ele jamais poderia largar seu país, afinal, era um príncipe, eu apenas uma professora de línguas. Adorava meu país, principalmente meu querido Rio de Janeiro, mas tinha que abrir mão de muita coisa para estar ao lado do homem que amava, só não abriria mão da minha escola de samba, mas isso eu poderia


resolver facilmente, pois Abdul sempre me deu força para desfilar. Eu estava tomando essa atitude mais por ele. Abdul estava muito preocupado com minha segurança, ligava pelo menos três vezes ao dia, fora às vezes que falava com os seguranças, disse que depois do carnaval, eu era alvo de comentários tanto no Kuwait como em Nova York. Saí em muitas capas de revistas e jornais, sempre com muitos elogios à minha beleza e à minha desenvoltura na avenida. Como era alvo de comentários, também era um alvo fácil para atingi-lo. Eu não queria mais preocupá-lo, abriria mão de muitas coisas, mas tiraria essa preocupação da sua cabeça, sabia o quanto seria difícil minha adaptação, mas estaria ao lado dele, isso me daria forças. O rei Abdallah também se preocupava com minha segurança, sempre que nos falávamos, ele se mostrava preocupado, acho que estava fazendo a escolha certa, também não estava mais suportando viver longe de Abdul. Nossa páscoa seria no final de abril, iria para Nova York de surpresa, lá contaria a ele minha decisão. Agora que já havia me decidido, não via a hora de chegar os feriados da páscoa. Mantive segredo absoluto. Tinha pedido a Odair para tocar neste assunto só quando estivéssemos sozinhos, e quando isso acontecia, pegávamo-nos a discutir os prós e os contras e sempre chagávamos a conclusão que estava no caminho certo. Quando falava com meu amor pela internet, ficava pensando em como ele era bonito. Se Deus o colocara em minha vida, não deveria ter sido por acaso, eu era louca por ele, não sabia mais viver sozinha, ele já fazia parte da minha vida. Eu tinha que aproveitar essa oportunidade que Deus havia me dado. Se dependesse de mim, não nos separaríamos mais. Jamal continuava fazer a sua parte, o outro segurança só se sentava ao lado dele e conversavam entre si. Ele deveria ter uns quarenta anos. Jamal havia dito que ele era casado e tinha três filhos. Às vezes me pegava olhando para ele e pensava, esse homem largou sua família só para me proteger, será que também não sofria de saudades da sua esposa e de seus filhos? Minha decisão também iria beneficiá-lo, acho que ele pensava dia e noite na sua família, mas tinha que servir ao seu príncipe. Soube por Jamal que todos que trabalhavam com o rei, tinham que se abdicar de tudo, pois viviam e morriam pelos seus reis. Faltando quatro dias para a páscoa, chamei Jamal em meu apartamento, ele entrou e pedi para que se sentasse. – Jamal, o que vou lhe falar é estritamente confidencial, você não deverá falar sequer com Lieser. Ele me olhou. – Nem para meu príncipe? – Principalmente para ele! – Não posso esconder nada de meu soberano.


– Mas desta vez será necessário, Jamal, te garanto que será por uma boa causa. Sabe, Jamal, estou decidida a fazer uma visita surpresa a Abdul na próxima semana. Quero aproveitar que terei uma semana de férias em virtude dos feriados da páscoa, portanto, gostaria que providenciasse nossas passagens para daqui três dias. Será que poderia contar com sua descrição Jamal? – Se é por essa razão, acho que posso me manter calado. Pedi que fosse comprar as passagens sem que Lieser soubesse. Ele só saberia na hora que estivéssemos no aeroporto, mesmo assim, teria que jurar por Allah que não avisaria seu príncipe.


Capítulo Quinze Procurei manter meu ritmo sem deixar transparecer nada. Uma noite antes, fiquei conversando com Odair, pedi que tomasse conta de meu apartamento, agora não tinha mais que pagar contas antes de viajar, todas as despesas eram pagas por Jamal, a pedido de Abdul, até minhas roupas, tudo Jamal pagava, nem sabia quanto gastava. Nós nos despedimos, disse que em uma semana estaria de volta. Arrumei minha mala com muito carinho, não levaria muita coisa, queria fazer umas compras em Nova York. Acordei cedo, fui tomar um banho de mar, precisava pedir proteção de Iemanjá, pedi que ela me ajudasse a fazer a coisa certa. Nadei, tomei sol, depois uma caipirinha na praia e voltamos para o apartamento. Pedi que Jamal subisse às 20h00 para apanhar minha mala, e quando chegássemos ao aeroporto, ele deveria conversar com Lieser e pedir sigilo até chegarmos a Nova York. Não iríamos abrir os computadores para Abdul não saber onde estávamos. Os celulares, se atendidos, tinham que disfarçar muito bem para ele não perceber que estávamos dentro de um avião. Dormi um pouco, me arrumei, coloquei uma calça jeans com botas e camiseta branca. Levei uma jaqueta, pois havia entrado na internet para ver o tempo e ainda fazia frio em NY, 13 graus, para uma carioca, já era nevasca. Jamal subiu na hora combinada e levou minha mala para baixo, ele já havia providenciado um táxi, pediu para Lieser guardar o carro na garagem do prédio, dizendo que depois explicaria tudo. Fomos para o aeroporto internacional. Fizemos o check-in e nos dirigimos para sala vip. Lá, Jamal explicou tudo ao seu companheiro, ele deve ter entendido, pois me olhou e fez sinal de positivo. Quando entrei naquele bicho, já fiquei neurótica, como podia sentir tanto medo? Nem poderia dizer que era trauma de infância, pois havia tido uma infância tão pobre que nem em pensamento poderia imaginar que um dia entraria em um avião. Jamal já conhecia sua patroa, pediu para a aeromoça me servir duas doses de uísque, mesmo depois de ter ingerido de uma só vez o conteúdo do copo, estava em pânico. Lieser teve um ataque de risos, Jamal se levantou. – Quer treinar o seu francês? Disse sim com a cabeça, pedi que ele esperasse a decolagem. Começou a decolagem, agarrei a mão de Jamal, mas dessa vez, ele não tentou se afastar, viu que meu medo era terror, eu ficava de todas as cores. Quando soltei suas mãos, elas estavam vermelhas, me desculpei com ele e fomos conversando. Ele falava comigo em inglês e eu tinha que responder em francês, eu gostava de desafios, aquilo estava ficando interessante, acho que errei muito pouco, Jamal bateu palmas e disse, em francês: – A princesa está falando muito bem. Tem muita facilidade em aprender outras línguas. Sabia que


eu tenho treinado o português durante à noite? – Sério? Vamos lá, agora é a minha vez de retribuir sua gentileza, vamos treinar seu português. Ele estava até bem adiantado, entendia quase tudo, mas ainda não tinha o feeling para dominar a língua, no sentido das gírias; cariocas usam muitas gírias. – E agora, Jamal, como poderei te xingar em português? Tudo perdeu a graça, eu me divertia falando palavrões para você. Ele deu uma gargalhada. Acho que todos davam gargalhadas em seu país. Me lembrei do meu Sheik. Acabamos nos divertindo, só tive outro acesso de pavor na hora do pouso, mas me mantive firme, tinha que tentar ser forte, logo encontraria meu amor. Quando descemos, Jamal foi pegar as malas, eu fiquei esperando junto a Lieser. Passamos pela alfândega, sem problemas, mas percebemos certo tumulto no aeroporto, as pessoas falavam e apontavam em minha direção. Jamal disse que todos já me conheciam, que eu já era uma princesa para eles. Pegamos um táxi, como combinado. Ao descermos, me dirigi à entrada do prédio e subi a escada. Na parte de baixo, não havia ninguém, fui para o andar de cima onde ficava o escritório, a sala de TV, e nada do meu amor. Achei melhor procurá-lo no último piso onde ficavam os quartos. Havia três seguranças na porta, Jamal já os conhecia. Quando ameacei colocar a mão na maçaneta, um dos seguranças me afastou, olhei para ele com uma cara feia e entrei. Jamal ficou conversando com ele. Coloquei minha mala na ante sala e me dirigi até o quarto. Abri a porta com tanta euforia, dizendo: - Surpree... Nem terminei a frase, tamanho foi meu desapontamento. Não acreditava no que meus olhos estavam vendo. Meu homem estava na cama com uma mulher. Minha única reação foi fechar a porta rapidamente. Minhas pernas tremiam e me faltou o ar. Fui até a sala e tive que me sentar. Jamal veio em minha direção todo aparvalhado. – Era isso que o segurança queria evitar, sinto muito. Minhas pernas tremiam, Jamal me deu um copo com uísque, mas nem aquilo me descia. Minha vontade era de sumir dali o quanto antes, mas precisava esperar minhas forças voltarem. Levanteime, acendi um cigarro, dei algumas baforadas e apaguei logo em seguida. Não sabia o que fazer. Olhei para Jamal e notei o quanto ele estava sem graça. – Jamal, pegue minha mala e me deixe em um hotel, depois volte ao aeroporto e transfira minha passagem para essa noite ou amanhã bem cedo. Abdul entrou na sala naquele exato momento. O maldito já estava vestido. – Jamal, não faça nada e saia! – Não saia, Jamal, isso é uma ordem!


O coitado ficou entre a cruz e a espada, mas respeitou seu Sheik. Vi quando a loira passou pelas costas de Abdul e saiu, ela estava com uma calça preta e uma camisa azul-marinho, e segurava um casaco nas mãos, notei que estava constrangida, pois saiu de cabeça baixa. Minha vontade era de matar Abdul ali mesmo, ele era o único culpado. Aquela loira não devia saber que ele era comprometido, ou não era, talvez só eu pensasse que fosse. Abdul então me olhou e tentou explicar, mas não havia nada para ser explicado. – Não é nada do que está pensando, é só... Nem permiti que continuasse, aquilo era pior do que ter visto ele nos braços de outra. – Corra, que ainda pega sua namorada na porta do elevador, está em sua casa, faça de conta que não estou aqui. Peguei minha mala e saí. Quando estava no hall do elevador, apertei o botão para descer, estava desesperada para sair dali, Abdul me pegou pelo braço e tentou me beijar a força. – Jamais toque em mim novamente, e nem tente encostar essa boca suja em mim, não sei por onde ela andou essa noite. – Espere – disse ele. – Tenho que explicar! – Não há explicação para o que acabo de ver. Pensei em te fazer uma surpresa, mas a surpreendida fui eu, mas foi melhor assim. Ele estava desesperado, pedia para eu entrar, dizia que precisávamos conversar. – Sempre fui honesta com você, mesmo tendo todos os homens me assediando, nunca o trai, sequer olhei para outro homem, sabe por quê? Porque te amava! Mas agora as palavras já não fazem sentido algum, depois do que vi. O elevador chegou, entrei rapidamente. Claro que Jamal estava comigo. Minhas lágrimas desceram, comecei a chorar compulsivamente. Jamal segurou em meus braços, me conduziu até o banco de trás de um dos carros de Abdul, sentou-se ao volante e olhando para trás e me perguntou: – O que quer fazer, senhora? – Sair daqui o mais rápido possível! Jamal me deixou em um hotel, precisava pensar. Em cinco segundos minha vida mudou. Abri minha mala, fui até o banheiro, abri o chuveiro e fiquei em baixo da água. Jamal já havia ido ao aeroporto, fiquei com a água caindo sobre meu corpo por um longo tempo. Quando Jamal chegou, estava sentada no sofá de roupão abraçada às minhas pernas e pensando no que havia acontecido. Jamal se aproximou. – Não há mais passagens para hoje, só amanhã às 20h00, senhora. Olhei para ele e supliquei, em lágrimas: – Não diga onde estou, nem quando partirei.


– Não posso mentir a meu líder, senhora, me desculpe, mas ele já sabe onde está e que nossas passagens foram remarcadas. Se precisar de mim, é só chamar, estarei lá em baixo. – Jamal, você disse “nossas passagens”, acham que vão comigo? – Claro, minha senhora, esse é meu trabalho. Ainda não fui dispensado, portanto, a senhora continua sendo minha prioridade. Onde a senhora for, irei junto. Nem quis discutir, fui para o quarto, precisava dormir um pouco, meu celular não parava de tocar, nem olhei, desliguei e dormi depois de muito chorar. Acordei com batidinhas na porta, perguntei quem era e ouvi a voz de Jamal, pedi que entrasse, ele estava com uma bandeja de café da manhã. – Trouxe seu café, ontem não comeu nada. Meu Sheik não parou de ligar, acho que nem dormiu, está preocupado com a senhora, ele quer marcar uma hora para conversarem, o que digo? – Jamal, diga que não quero vê-lo, e que me deixe em paz. – Por que não fala com ele, minha senhora? Pelo menos tente ouvi-lo, mesmo que não acredite no que disser, fale com ele. Olhei para Jamal. – Não posso, não tenho forças para tanto. Ele me olhou, estava triste por mim, me sentei na cama. – Por que ele fez isso comigo, Jamal? Isso deve acontecer sempre, ele deve trazer mulheres ao seu quarto todas às noites. E eu pensando que iria fazer uma surpresa para ele! – Não posso e não deveria falar com a senhora esse tipo de coisa, mas meu líder é um homem íntegro, senhora, essa foi a primeira vez que isso aconteceu. – Como pode saber, Jamal? Por acaso dorme aqui todas às noites? – Porque colocamos as mãos no fogo quando o assunto é nosso Sheik. Tenho certeza que se conversarem, talvez possam se entender. A senhora estava tão feliz, não saia sem pelo menos dizer o que pensa, isso vai aliviar seu coração. Ele estava certo, precisava por para fora aquela mágoa que sentia. Pedi a Jamal que marcasse um encontro para hora do almoço, ele saiu mais feliz do que entrou. Comi alguma coisa daquele desjejum e voltei para cama. Levantei-me por volta do meio-dia, tomei banho, me vesti. Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Tudo me parecia um sonho ruim. Será que iria aguentar olhar para ele? Mas Jamal tinha razão, havia coisas a serem ditas. Senteime na sala e fiquei esperando, logo Jamal bateu na porta. Ele abriu e Abdul entrou, estava lindo!... Como eu amava aquele homem. Ele perguntou se poderia sentar, fiz sinal com a cabeça, eu estava péssima, tinha dor de estômago e de cabeça, mas encarei-o com meu olhar em fúria. – Como está, querida? Sinto muito por tudo isso. Aretha, nunca pensei em te fazer sofrer, sabe o quanto sou louco por você, meu amor, mas havia bebido muito e estava nervoso, não sabia o que


havia acontecido com você, já que nenhum dos três celulares estavam funcionando. Nem pela internet conseguia me comunicar com vocês, liguei para nosso apartamento e ninguém atendia, liguei para Odair, ele também não atendeu. Entrei em pânico, porque meu pai havia recebido outra ameaça um dia antes. Aí me passou um monte de bobagens pela a cabeça. Fui até um barzinho e comecei a beber, estava muito nervoso, e te juro que não me lembro como levei aquela mulher para minha casa, nunca havia feito isso antes, eu juro por Allah, você tem que acreditar em mim. Diga alguma coisa, querida? Nisso, Jamal entra com um carrinho da copa, coloca-o ao meu lado, quando ele abre, vejo uma porção de frutas, doces, pães. Meu estômago veio na boca, falei com Jamal em francês, sabia que ele não iria entender: – Jamal, não quero comer, me diga quanto tempo ainda temos para ir ao aeroporto. Jamal disse que ainda tínhamos cinco horas, e que daria tempo de comer e conversar. Gritei com ele. – Não entende, Jamal, nada do que ele disser poderá mudar o que vi! Abdul se levantou. – Não finjam que não estou na sala, falem o dialeto que eu possa entender. Jamal repetiu tudo que eu havia dito e saiu. Abdul se ajoelhou aos meus pés, disse que não poderia viver sem mim, que eu era a mulher da sua vida. Olhei para ele e lamentei. Ele não era quem eu pensava, e aquilo me deixou ainda pior. – Quantas vezes me traiu, Abdul? Seja sincero pelo menos uma vez, quantas foram? Espere, não há necessidade de dizer, isso já não tem a menor importância, agora. Peço que vá embora, tenho que descansar um pouco, logo estarei retornando ao Brasil. Se está mesmo arrependido, não me impeça de ir, estou sufocada demais aqui, preciso voltar o mais rápido possível para minha terra. Ele me olhou quase suplicando, já não tinha mais o que fazer para me convencer da sua inocência. Chamei Jamal pelo rádio, ele entrou rapidamente, pedi que levasse aquela bandeja embora, aquele cheiro estava virando meu estômago, sai correndo para o banheiro, me ajoelhei no chão e vomitei aquilo que nem tinha. Abdul me segurou pelo braço, me sentou na cama, ele estava desesperado, sabia o quanto eu estava sofrendo, tomei um pouco de água que estava na cabeceira, respirei fundo, pois precisava de forças para dizer tudo que precisava. – A partir de hoje, não quero mais seus seguranças junto de mim, eu vou, eles ficam. Vou desocupar seu apartamento assim que arrumar outro lugar para morar. Não tem mais sentido eu ficar lá. Quero minha vida de volta do jeitinho que era antes de te conhecer. Ele quase teve um treco, se levantou bravo.


– Se não quer mais me ver ou falar comigo, eu suporto, mas não saia de Nova York sem seus seguranças. As coisas vão continuar da mesma forma, nada mudará, aquele apartamento é seu, está proibida de sair de lá. – Quem pensa que é para me dar ordens? Não está qualificado para dizer o que devo ou não fazer, perdeu todo direito que tinha sobre mim. Já disse e repito: não quero nenhum dos dois atrás de mim. Quero esquecer que um dia te conheci, quero retornar minha vida de onde parei e estes seguranças fazem parte do passado, agora será sem Abdul e sem seguranças. – Não brinque comigo, Aretha, eles irão com você e isso é uma ordem, não me faça dizer ou fazer o que não quero. Ele saiu batendo aporta, tomei um café puro e acendi um cigarro, fui até o quarto, olhei pela janela, ainda estava frio em Nova York, mas pra mim tanto fazia, logo estaria novamente na minha praia. Deitei-me um pouco, estava muito cansada, tinha a impressão que havia levado uma surra. Acordei duas horas depois, e fui me arrumar. Na hora marcada, Jamal entrou, pegou minha mala e descemos, ele estava com mais dois seguranças que iriam nos acompanhar ao aeroporto, pois iríamos viajar no avião do príncipe, seu Sheik estava temeroso, sabia que eu havia sido reconhecida no aeroporto. Quando entramos no avião, dei de cara com Abdul, ele estava louco. – Querida, não vá embora, passe esta semana aqui, assim terei tempo para esclarecer tudo. Se quiser, eu a levarei comigo para procurar aquela mulher, só ela poderá te dizer o que aconteceu, já que não acredita em mim. – Abdul, acha mesmo que me prestaria a um papel destes? Não subestime minha inteligência! Agora desça, sua presença só piora ainda mais minha raiva e o nojo que estou sentindo de você. Quero sair daqui o mais rápido possível. Abdul desceu bem contrariado, sabia que quanto mais insistisse, pior seria, teria que me dar tempo para digerir tudo aquilo. Jamal não se sentou ao meu lado. Desta vez, me deixou só com meus pensamentos. Nem senti a hora em que o avião decolou, estava anestesiada. Sabia que Jamal falava com seu líder toda hora, e passava informações minhas a ele, aquilo não me aborrecia, isso era um problema deles. Levantei-me a viagem toda, não via a hora de chegar. Fui até o quarto e me deitei, fiquei relembrando que havíamos feito amor naquela cama. Quantas mulheres já estiveram com ele ali? Levantei-me e fui me sentar novamente, pedi a Jamal um uísque, tinha que encontrar uma maneira de relaxar, era só Abdul em minha cabeça, precisava me esquecer daquele homem. Essa tinha sido a pior viagem da minha vida, ou talvez uma das piores. Mas a pior mesmo, foi quando resolvi ir para o Kuwait, foi lá que conheci esse homem com cara de santo e alma de diabo.


O medo que tinha de voar era fichinha diante do medo que estava de mim mesma, nunca havia sentido tanto ódio em minha vida. Que decepção! Descemos no Galeão sobre olhares curiosos, o avião tinha a bandeira da Kuwait, com certeza o príncipe havia pedido permissão ao nosso consulado para pousar, como fez da outra vez que veio. Jamal colocou as malas no carro que estava na pista a nossa espera e fomos direto ao meu apartamento. Ele me acompanhou até a sala, colocou minha mala em meu closet, perguntou se precisava de alguma coisa, em seguida, desceu. Ele sabia que eu precisava ficar sozinha. Tomei banho, coloquei um biquíni, fui até a varanda e fiquei olhando o mar, não queria pensar mais em Abdul, isso era uma página virada na minha vida, mas tudo me fazia lembrá-lo. Fui até a cozinha, preparei um lanche de atum e sentei na varanda para comer. Quando entrei na sala, me lembrei de Odair, liguei para ele e disse que estava de volta ao Brasil. Ele quis saber o que havia acontecido, falei que não queria tocar neste assunto agora, quando estivesse melhor, eu ligaria. Me deitei e acabei dormindo. Acordei de madrugada, não conseguia mais ficar na cama, fui para sala de TV, assisti a um filme, chorei o tempo todo.


Capítulo Dezesseis O sol nasceu, tomei banho, coloquei outro biquíni, chamei Jamal pelo rádio e disse que iria à praia. Jamal me deixou no mesmo lugar de sempre, estiquei minha canga e lá fiquei. Minha cabeça parecia um vulcão prestes a entrar em erupção, precisava pensar, afinar minha artilharia. Abdul iria me pagar muito caro por essa traição, meu corpo estava massacrado, parecia que havia passado um rolo compressor por cima. Perto da hora do almoço, Jamal se aproximou e me perguntou se não iria almoçar, disse que iria tomar um lanche na praia. Às vezes, gostava de comer um lanche natural. Pedi meu lanche preferido, que era de atum com cenouras raladas. Depois de uma hora que havia lanchado, pedi uma caipirinha, tomei pelo menos três. Logo depois Odair chegou. Ele me deu um beijo e sentou-se ao meu lado. – O que está tentando fazer da sua vida, minha filha? Vai chorar e beber até quando? Abracei meu amigo e chorei em seus ombros, ele me acompanhou até em casa, sentou no sofá e ficou esperando eu tomar um banho. Quando retornei, ele estava no mesmo lugar, e pensativo. – Assim que você saiu para o aeroporto, Abdul ligou. Não atendi, sabia que ele estava te procurando, não queria estragar sua surpresa. Depois que falou comigo ontem, percebi que alguma coisa havia dado errado, liguei para Abdul, ele chamou um segurança que falava espanhol e me explicou o que havia acontecido. Imagino o que deve está sentindo, mas será que não está exagerando um pouco? Ele está preocupado com você, pediu que dissesse para atender o celular, acho que é o que deve fazer. Não sofra tanto. Lembra quando me disse que os homens árabes podem ter diversas mulheres? Seu homem não pensa dessa maneira, já tem 34 anos e continua solteiro. É um homem rico, Príncipe do Petróleo e poderia ter todas as mulheres do mundo aos seus pés, no entanto, escolheu você. Releve, minha filha, não diria isso se não soubesse o quanto é apaixonada por ele. Vou deixá-la sozinha, pense um pouco nas palavras de seu pai. Ele saiu, fiquei pensando: será que deveria? Fui para a varanda com meu celular na mão, não sabia o que fazer, mas logo decidi, não ligaria, mas se me ligasse, atenderia. Fiquei lá olhando para o mar, fui até à cozinha, peguei uma fruta, voltei para comer na varanda, e enquanto fumava um cigarro, meu celular tocou. Olhei o número, era ele. Comecei a tremer, minhas pernas ficaram moles, nem precisei falar nada, ele devia estar ouvindo minha respiração, pois já foi falando com a voz embargada. – É você mesmo, Aretha? Que bom que atendeu, estou ficando louco de preocupação. Sei que está com muita raiva de mim, mas baixe a guarda, me deixe falar, apenas ouça. Tenho tanta coisa a dizer, te conheço bem, sei exatamente como está se sentindo. Sei que está em nossa varanda tomando um


drinque e fumando seu cigarrinho. Como gostaria de poder estar aí com você nesse momento, será que acertei...? Claro que acertei... Sei também que estes olhos lindos estão vermelhos de chorar, não chore, meu amor, não gaste suas lágrimas comigo, não as mereço, você é muito melhor que eu. Não soube aguentar sua falta e meti os pés pelas mãos. Você está certa em não querer falar comigo, mas me deixe falar com você, só ouça: amo você, minha querida, não sabe o que estou sofrendo, se me dissesse sim, estaria ao seu lado amanhã, mas vou respeitar seu tempo, todos os dias a essa hora, eu ligarei, não precisa falar nada, só me ouça, mas se não quiser atender, também entenderei, mas continuarei insistindo todos os dias, até que entenda o quanto sou louco por você. Ele desligou, fiquei sem saber o que pensar, mas foram apenas palavras jogadas ao vento. No dia seguinte, fui à praia novamente. Voltei para casa, tomei banho e pedi para a cozinheira fazer uma salada e um filé de frango grelhado, comi uma fruta, peguei minha bolsa e saí. Jamal, quando me viu, já foi em direção ao carro para abrir a porta, segurei seu braço. – Hoje não, Jamal, quero dirigir e irei sozinha. Vocês dois vão ficar aqui, não quero companhia, preciso ficar sozinha. Ele tentou me convencer, disse que seu príncipe ficaria bravo com eles, talvez até os mandasse de volta para o Kuwait, e mandaria outros para substituí-los. – Ele não seria louco a esse ponto, fiquem e deixem o resto por minha conta. Saí cantando pneus, queria ir a um shopping que ficava bem longe de onde morava. Acelerei na estrada, acho que até levei uma multa, mas não estava nem aí, aquilo estava me fazendo um bem danado. Quando cheguei, estacionei e subi as escadas rolantes, saí direto no spa, fiz meus cabelos, meus pés, minhas mãos e aproveitei para fazer uma massagem. Depois, fui olhar as vitrines, entrei em algumas lojas, comprei um vestido com um belo decote nas costas, e uma sandália bem alta. Me sentei em um restaurante, comi uma salada e depois tomei um sorvete. Jamal já havia ligado três vezes em meu celular, Abdul uma vez no mesmo horário de ontem, hoje não queria falar com ele, nem dei bola, estava cansada de tudo aquilo, como pude me enganar tanto com Abdul? Ele havia sido um cafajeste comigo, por que nunca notei isso antes? Quando pensava no que havia visto, meu sangue fervia .Como os homens eram egoístas, para tudo arrumavam desculpas, essa que ele havia arrumado jamais passaria pelo filtro da minha inteligência. Fui até o estacionamento, peguei meu carro e fiz outro caminho de volta, só que agora, vim bem devagar. Coloquei meu fone de ouvido, minha cabeça estava ainda na porta daquele quarto e no rosto daquela mulher. Incrível pensar que quando somos frágeis, aí é que nos tornamos fortes, estava decidida arrancar aquele homem da cabeça. Quando cheguei na porta do prédio, os dois seguranças vieram em minha direção, estavam muito nervosos. Perguntei o que havia acontecido, Jamal disse que seu amo estava possesso, havia despedido os dois.


– Sei que precisa ficar sozinha às vezes, mas poderia ter nos deixado levá-la, esperaríamos na garagem. Por favor, senhora, nunca mais faça isso. Jamal estava tirando as sacolas do carro quando seu celular tocou, ele começou a falar em árabe, logo deduzi que falava com Abdul, Jamal estava ficando vermelho, puxei o celular de sua mão, pois sabia com quem ele falava. – Qual é o problema, Jamal? Fale comigo em francês. Ele desligou o celular na cara de Abdul e me contou que seu Sheik queria que eles pegassem o próximo voo de volta à Nova York, pois seriam substituídos. Aquilo ferveu meu sangue. Então pedi a Jamal que ligasse ao seu príncipe, disse que era uma ordem, ele ligou e me passou o celular, nem disse alô e já fui falando: – Quando falar com meus seguranças, seja mais educado, quem pensa que é para dar ordens a meus funcionários? Se quiser que continue com esta palhaçada, terá que ser do meu jeito, caso contrário, peça para os dois irem embora e me deixe seguir minha vida. Você me deve isso, pois foi você quem acabou com a minha vida. Agora não tenho mais liberdade pra nada, e pra que isso? Pensa que por ser um príncipe pode tudo? Se pode, é na sua terra e não na minha. Se despediu os dois, só posso deduzir que, enfim, compreendeu que não quero mais ninguém ao meu lado. Hoje, percebi o quanto estava sendo infeliz, não estava vivendo, era apenas sua prisioneira. Só não consigo entender por que aceitei participar deste teatro. É criativo em destruir, mas inábil em concluir. Como pode notar, estes dois não podem me deter. Aqui é Brasil, meu caro! Ele que até então estava mudo, disse: – Eles não deveriam ter permitido que saísse sozinha dirigindo. – Acha por acaso que é meu dono? Que eles podem me segurar? Ainda pensa que te devo algum tipo de explicação? Vou para onde quero, e quando quero, aceitei todo esse teatro até agora porque pensei que você merecia. Hoje vejo que fui uma perfeita idiota! Abdul, não me provoque, não sabe do que sou capaz de fazer. Balanço nos extremos quando estou nos auge de minha psique. – Sei que está magoada comigo, mas o que não sabia era que me odiasse tanto. Não estou gostando da forma que está levando essa conversa, está falando comigo de uma forma que nem parece minha Aretha. Estava infeliz ao meu lado e nunca me disse nada? Está querendo acabar comigo? O que tenho que fazer para acreditar em mim, Aretha? – Mate aquela loira e morra junto com ela. Desliguei sem dar chance dele falar mais nada. Jamal pegou o celular da minhas mãos e disse assustado. – A senhora ficou louca? Mandou matar aquela coitada, que nem sabia com quem estava dormindo?


– Falei aquilo brincando, Jamal, claro que não quero que ele mate ninguém. – A senhora não conhece mesmo as regras do nosso país, pois acaba de sentenciar aquela coitada. Em nosso País, quando uma mulher pede para limpar sua honra, seu marido tem que dar cabo na vida da sua concubina. – Está de brincadeiras comigo, Jamal, isso não existe, estamos no século 21, isso deveria ser antigamente. – Não, minha senhora, em nosso país ainda é assim que as coisas funcionam. – Oh! Meu Deus... Ligue para seu chefe, Jamal. Quando ele atendeu, disse: – Me desculpe, não quero que mate ninguém, só estava nervosa, esqueça o que disse. – Só esquecerei se me pedir para ir ao Brasil vê-la. – O quê? Está me chantageando, agora? – Entenda como quiser, este final de semana está bom para você? – Não estou acreditando no que estou ouvindo, você usou isso a seu favor. Com que belo exemplar masculino fui me envolver! É pior que um vampiro, mata sem extrair sangue. – Estou esperando, esse final de semana? – Não, nem esse e nenhum outro. Se quiser, pode matar aquela loira, melhor ainda, se mate. Aquela coitada não devia sequer saber que espécie de homem é você. Atire em você e não nela. Não estou nem aí, não vou deixar me chantagear por você. Se você só sabe jogar sujo, desta vez, jogou com a pessoa errada, entre ela, você, e eu, fico comigo! – Está certo, se é assim, farei o que for necessário, mas carregará essa culpa pelo resto da sua vida, você está me pedindo pela segunda vez, não posso passar por cima de um pedido destes, essa é nossa regra. – Como consegue me manipular mesmo estando a quilômetros de distância? Cuidado comigo, Abdul, você pode cair em sua própria armadilha. Nesse final de semana, tenho umas fotos em São Paulo, volto só na segunda-feira. – Na terça-feira, estarei aí. Quando desliguei, quase matei Jamal: – Viu o que fez, Jamal? Agora, terei que recebê-lo aqui para salvar a vida daquela messalina. Salvo a vida dela e acabo com a minha. Acha essa troca justa, Jamal? Subi muito puta, ele havia me chantageado na cara dura. Cretino! Fui dormir e acordei muito cedo, tomei meu café da manhã na varanda, pedi a Jamal que fosse comprar nossas passagens para São Paulo para sexta-feira pela manhã. Eu havia sido convidada para fazer umas fotos com alguns modelos, para uma campanha do hospital do câncer infantil e eu não poderia negar um pedido destes.


Marcamos para o final de semana, iríamos sexta-feira, pois queria conhecer um pouco mais de São Paulo. Naquele dia fiquei em casa à tarde toda. Entrei na internet para me distrair, logo vejo meu sogro online. Abdallah me chamou pelo Skype e quando me viu, sorriu, sua carinha estava linda, cumprimenteio, ele disse que eu estava ainda mais bela do que da última vez que havia me visto, agradeci o galanteio. – Minha filha, o que está fazendo com a vida de Abdul e a sua? – Vivendo um dia de cada vez, tentando colar meus cacos, meu sogro. – Abdul não tem e nem nunca teve nada com aquela mulher, foi só... Como se diz aí em seu país, uma necessidade fisiológica. – E minhas necessidades? Acha que também não as tenho? Sabe como sou assediada por magnatas e homens de todo tipo? Recebo propostas para relacionamentos de todos os países, mas sempre me mantive fiel a seu filho, jamais o traí, nem em pensamentos. Abdul não me amava. Como dizem, quem ama não trai. Ele ficou muito sem jeito, mas não perdeu o sorriso e a simpatia, sabia que eu falava tudo que pensava, que tinha um gênio esquentadinho. Falou que estava pedindo a Allah para nos dar equilíbrio para podermos entrar em harmonia novamente, disse que também estava magoado comigo, pois havia dito que sairia do apartamento que Abdul havia me dado. Como eu poderia recusar um presente de um príncipe? Disse a ele que não via nenhuma lógica em ficar com um presente tão caro, já que eu e seu filho não estávamos mais juntos. – Filha, nunca tome nenhuma atitude sem antes falar comigo, me prometa. Disse que prometia, ficamos de conversar outro dia. Não falava mais com Abdul pelo notebook, eu o deletara da minha vida literalmente. Fui para a varanda, meu lugar preferido da casa. Estava uma tarde linda, passei um rádio para Jamal, disse que queria andar na praia, e desceria em alguns minutos. Vesti um biquíni, estava com vontade de ser admirada, isso faria muito bem para meu ego. Fomos a pé pelo calçadão, estava muito quente, depois fui caminhando pela água. Sentir a água batendo em meus pés, assim como ter as pessoas me olhando, me dava enorme satisfação. – Você gostaria de tirar os sapatos e pisar na água? tire-os. Vai te fazer bem. ─ Falei para Jamal. Ele tirou, arregaçou as calças e ficou caminhando comigo. Seu celular, para variar, tocou. – Se vai falar sobre minha pessoa, fale em uma língua que eu entenda. Ele começou falando em inglês, disse que eu estava caminhando na praia e que estava me acompanhando, depois respondeu mais algumas perguntas e desligou. Resolvi deixá-lo na beira d’água e fui mergulhar, nadei um pouco e depois sentei na areia. Alguns rapazes se aproximaram, e


um deles veio falar comigo. Sorri. – Pois não, desejam algo? Ele sentou-se ao meu lado e pegou no meu braço para falar alguma coisa em meu ouvido, quando fui reagir, Jamal já estava em cima do cara com a arma em punho, gritei com Jamal em francês, ele recuou e o rapaz saiu correndo. Meu sangue ferveu. – Jamais, em hipótese alguma, faça isso novamente, Jamal. Sei me defender desses tarados. Você poderia ter causado um acidente sem querer. Que isso nunca mais se repita. Venho à praia para me distrair e não para me estressar. – Tenho ordens para atirar em quem se aproximar da princesa. – Aqui é o Brasil, todo mundo dá em cima de todo mundo, não estamos no Kuwait, aqui as leis são outras, e nunca mais me chame de princesa, não sou e nunca serei uma princesa, não faça me arrepender de tê-lo defendido.


Capítulo Dezessete Voltamos para o apartamento. O que pensei ser uma diversão quase se transforma em tragédia. Isso era coisa de Abdul, estava ficando louca com essa mania de perseguição que ele e seu pai tinham, nunca iria entender esse povo. Os homens matam pela sua honra, as mulheres são submissas, veem seus maridos com um monte de mulheres e nada fazem. Realmente isso não era pra mim. Achei melhor ir dormir. No dia seguinte, teríamos que acordar cedo, iria dar uma corrida na praia, por volta das duas horas da tarde, iríamos para São Paulo. As fotos estavam marcadas para domingo, começariam às 10h00, sem hora para terminar. Jamal subiu para pegar minha mala, eram apenas quarenta e cinco minutos de voo, acho que desta vez não ficaria tão nervosa, mas que nada, só de pensar em entrar naquele bicho, já tremia na base, mas no final, não foi um dos piores. Chegamos em São Paulo, nos hospedamos em um hotel próximo de onde faria as fotos. Quis sair para conhecer a noite paulista. São Paulo era uma grande metrópole, Jamal havia providenciado um carro blindado, então demos uma volta usando o GPS. Paramos em um barzinho muito badalado que sempre tive vontade de conhecer. Quando chegamos, lógico que chamei atenção, ainda mais com dois seguranças ao meu lado. Ninguém se meteu a engraçadinho comigo, estava com um macacão curto roxo, usava uma sandália bem alta. Jamal não tirava os olhos das pessoas, mas eu não estava nem aí, só queria me divertir. Algumas pessoas me reconheceram e vieram me cumprimentar, conclusão: fiz alguns amigos e bebi pra caramba, na hora de ir embora tive que apelar pelos braços de Jamal. Dormi de roupas de tão ruim que estava. No outro dia, acordei tarde, disse a Jamal que queria ir ao shopping mais badalado de São Paulo. Usava um short saruel branco com top lilás. Fiz sucesso na área masculina, as mulheres agarravam os braços de seus maridos, deveriam ter um pé atrás comigo. O que poderia fazer se chamava atenção? Principalmente depois de haver saído em muitas revistas quase nua. Sabia que dava trabalho aos seguranças. Tudo que eu fazia, tinha plateia, levava isso na brincadeira ou ficaria louca. Almoçamos por lá, depois fomos ao cinema. Acabei tendo um acesso de riso, eu rainha de bateria, suposta namorada de um Príncipe do Petróleo, com um homem de cada lado, assistindo um filme da Disney e chorando feito uma criança, realmente era para rir, contagiei os dois. Saímos de lá direto para uma pizzaria, depois voltamos para o hotel. Dormi rapidamente, amanhã, meu dia seria cheio. Jamal me chamou pelo rádio, passava das nove horas da manhã, tomei um banho bem rápido, coloquei uma pantalona branca e um top amarelo. Quando chegamos na porta, notei um grande tumulto, todos corriam de um lado pro outro, estava tudo muito agitado, tinham seguranças para todos os lados. Perguntei a Jamal o que estava acontecendo, ele balançou a cabeça negativamente.


Seguimos pelo corredor para encontrar o estúdio onde iríamos gravar, a cada passo que dava havia mais movimento, pensei que era por causa dos garotos que eram modelos conhecidos, por mim é que não era. Quando chegamos, o estúdio estava lotado, tinha mais seguranças do que no castelo do rei Abdallah. Ao olhar para o lado, vejo o rei e o príncipe sentados. Tudo improvisado, ninguém os esperava com certeza. O fotógrafo veio ao meu encontro, nos cumprimentamos, disse a ele que não sabia que eles viriam. Ele disse que quiseram fazer uma surpresa para mim. - Acho que conseguiram, está pálida. Quer mudar alguma coisa? As fotos serão sensuais, e talvez seu noivo não aprove. Disse que não deveria mexer em nada, ele teria que se acostumar. Me aproximei do rei, e lhe dei um beijo na testa, olhei para o príncipe e o cumprimentei com a cabeça, mas ele não perdeu a oportunidade, sabia que eu não reagiria diante de tantas pessoas, e me deu um beijo na boca. Minhas pernas tremeram, quase perdi o foco, pedi licença, fui para o camarim me maquiar. As primeiras fotos seriam com um rapaz chamado Rodrigo, eram fotos sensuais, mas sem beijo, apenas alguns toques nos lábios e pescoço. Minha primeira troca de roupas foi calça jeans com top . Ele me pegava por trás, me envolvia com os braços, me virava e nos tocávamos com os lábios, depois beijava meu pescoço e roçava o rosto no meu colo. Achei lindo e sensual, era exatamente isso que estava programado, fotos muito sensuais, mas sem apelação. A segunda troca de roupa, uma minissaia com um biquíni na parte de cima, eu as faria com um rapaz chamado Diego. Essas eram um pouco mais sensuais, ele sem camisa e com os braços todo tatuados, me pegava pela cintura, e me erguia até o alto, depois ia me descendo bem devagar, roçando meu corpo ao dele. Em seguida, tinha que passar as pernas em sua cintura, enroscando-as em seu tronco, enquanto ele me girava e, por fim, me beijava. Era apenas um beijo técnico. A terceira troca de roupas, um vestido estampado de flores, meu par era Marcelo um belo espécime masculino, como diria minha amiga. Tinha que abraçá-lo e ficar com o rosto colado ao dele, enquanto suas mãos percorriam meu corpo, depois ele colocava as mãos em meus cabelos, encostava seu rosto em minha orelha, e as mordiscava. A quarta era com um modelo argentino, bastante conhecido pela mídia feminina, muitas dariam a vida para estar em meu lugar. Era um homem lindo, só o conhecia pelas revistas, pessoalmente era muito mais bonito. Eu usava um biquíni amarelo, ele estava apenas de sunga, achei que agora Abdul fosse sacar sua arma e atirar em nós dois, pois ele tinha que roçar a barba e os lábios em meu pescoço e deslizar as mãos sobre minha cintura. Por fim, eu teria que por as mãos em suas nádegas e apertá-lo contra meu corpo. Aquele homem tinha um perfume que até aguçou meus sentidos, mas já não estava me sentindo muito à vontade, já que o Rei estava assistindo, e isso me incomodava um pouco. Quanto a Abdul, ele bem


merecia ver tudo isso. Mas consegui terminar minha seção de fotos, aquele argentino era tudo de bom, seu perfume e seus lábios eram de tirar o fôlego. Depois das fotos, conversamos um pouco, ele era muito simpático, elogiou minha performance, disse que era meu fã nas passarelas do samba, que estava lisonjeado em poder participar daquele evento comigo, ainda me deu uma bela cantada dizendo que era ainda mais linda pessoalmente, que meu corpo era escultural. Agradeci com um beijo em seu rosto. Fui para o camarim, coloquei minhas roupas e quando saí, o fotógrafo me mostrou algumas fotos que estavam na máquina, assinei a doação, assim como os meninos. Despedi-me dos quatro com beijinhos e fiz isso para nocautear Abdul de uma só vez. Pedi a Jamal para perguntar a seu Sheik se iria embora conosco. Aproximei-me do rei. – Acho que não deve ter gostado do que viu. – Tudo pela filantropia, minha cara, esteve muito bem, deveria ser modelo. Olhei para Abdul, ele estava possesso. Ninguém o mandou vir, se não gostou, problema dele. Jamal disse que voltaríamos todos no avião do rei, que estava no aeroporto de Congonhas. O consulado havia conseguido autorização para o rei não ter que passar pela marginal. Saímos em uma comitiva, havia mais de vinte seguranças em sete carros blindados. Fui no carro com Abdul e o motorista, mas contra minha vontade. Confesso que pensei duas vezes antes de entrar, mas não tive escolha, ele já estava com a porta do carro aberta, só faltou me jogar para dentro. Jamal foi direto ao hotel pegar nossas malas junto com Lieser, nos encontraríamos no aeroporto. Nos sentamos no banco de trás, o rei estava em outro carro com alguns seguranças. Por onde passávamos, todos paravam para olhar nossa comitiva, mas isso já não me constrangia. Alguns minutos depois, Abdul resolver se manifestar. – Qual foi o valor do cheque que assinou para a doação? – Por que quer saber? – Me diga de quanto foi, eu triplicarei o valor para que esse comercial, seja lá o que for, não saia. Eu não gostei de vê-la se esfregando com aqueles rapazes, mas pelo visto, você deveria estar gostando muito. – Vossa Majestade não gostou? Que peninha, acabei de marcar um encontro com o argentino para amanhã. Pior seria se chegasse de surpresa em minha casa e encontrasse um deles em minha cama. Ele olhou-me com uma cara que senti até um arrepio. – Eu os mataria! – Mas que ideia maravilhosa! Por que será que não pensei nisso antes? Pena que naquele dia não estava armada. Mas confesso que seria uma pena matar um espécime tão lindo, realmente aqueles quatro são de deixar qualquer mulher louca.


Ele falou alguma coisa em árabe. – Está brincando com fogo, Aretha, acho melhor pararmos por aqui. – Estou morrendo de medo. O que acha que farei da minha vida daqui pra frente? Por acaso acha que entrarei para um convento? O que passa nessa cabeça? Acha que pensaria duas vezes em pôr um homem na minha cama? Mas fique tranquilo, ainda não lhe coloquei um belo par de chifres, não tive tempo pra isso, mas não duvide que logo os terá. Mas se quer mudar de assunto, muito bem, que tal começarmos pelo beijo que me roubou perto de todos, pensa que gostei daquilo? Para mim, era como se estivesse beijando um poste, pior que isso, pelo menos o poste só recebe xixi de cachorros, já sua boca, sabe-se lá por onde andou. Ele apertou meu braço. – Não me provoque mais, Aretha, está passando dos limites, minha paciência está se esgotando. – Vai me bater, caro príncipe? Só falta isso para me provar que é um canalha. Liguei para Jamal, perguntei onde estava, disse que já estávamos entrando no aeroporto, eles estavam a caminho, perguntei se havia pegado minha nécessaire no banheiro, ele disse que sim. – Fale com Jamal em inglês, não finja que não estou aqui. – Falo com Jamal do jeito que quiser, são coisas particulares e não vejo razão para dividi-las com você. E me faça um favor, quando voltar para Nova York, leve os dois com você, não quero mais brincar de princesa, voltarei a ser a gata borralheira, era muito mais feliz naquela época. Entrou na minha vida sem ser convidado e acabou me aprisionando em sua teia. Agora rompi definitivamente com tudo, depois que descobri quem é você, se não levá-los, eu mesma os mandarei embora assim que virar as costas. Quando os carros estacionaram, o rei foi o primeiro a descer, ficou conversando com um homem bem alto, soube depois que se tratava do cônsul do Kuwait, era ele quem providenciava tudo quando o príncipe vinha, estava muito sorridente com a visita do rei, pois era a primeira vez que ele vinha ao Brasil. Entramos todos no avião, inclusive o cônsul. Sentei-me bem ao fundo, queria estar sozinha. Jamal se aproximou. – Meu senhor não gostou nem um pouco daquelas fotos, será que não seria o caso de... – Não seria o caso de nada, não pedi sua opinião, da minha vida cuido eu, agora volte para seu assento, Jamal, ou nem sairá deste avião, voltará para Nova York sem passagem de volta. Abdul olhou para trás, acho que tinha ouvido tudo. Quando o avião decolou, percebi sua preocupação comigo, pois ele veio ao meu lado com um copo na mão e esticou o braço. Nem olhei para sua cara, peguei o copo e tomei em um gole só, ele sentou-se ao meu lado. Peguei meu computador e fiquei falando com Odair sobre o ensaio fotográfico, Abdul não entendia nada de português, aproveitei para falar também dele para Odair. O rei estava sentado com o cônsul, os dois


estavam conversando. Abdul não tirava os olhos de mim, estava muito incomodada, pedi licença e me levantei, fui ao toalete, dei uma ajeitada nos cabelos.


Capítulo Dezoito Na volta, fui me sentar perto de Jamal, Abdul balançou a cabeça negativamente, sabia o quanto seria difícil se aproximar de mim novamente, era brasileira, em meu país traição era coisa séria, ele teria que rebolar muito para que eu voltasse a confiar nele novamente. Foram quarenta e cinco minutos de puro silêncio, quando o avião aterrissou, segurei o braço da cadeira, olhei para Abdul, ele estava rindo. Filho da puta, sabia o quanto eu tinha medo e ainda achava graça nisso! Entramos nos carros, o rei falou que ficaria hospedado no hotel presidencial, e que me esperaria para jantarmos juntos. Disse a ele que não faltaria por nada a esse jantar. Nós nos separamos, ele foi para o hotel junto com o cônsul e mais três carros cheios de seguranças, o restante foram para meu apartamento. Quando chegamos, foi aquela confusão. Jamal acertou pessoalmente onde cada um deveria ficar. Dois deles ficaram na frente da minha porta de entrada. O fuzuê estava completo, só faltava agora chamar a imprensa para completar aquela aglomeração. Meu Deus, como iria conviver esses dias com aquele tumulto no prédio? As pessoas tinham até medo quando desciam no elevador e davam de cara com uns três homens vestidos de preto. Na portaria, mais alguns, até dentro do meu apartamento havia seguranças, fora Jamal. Tive um chilique. – Jamal, peça para esses seguranças ficarem na garagem, na rua, nos quinto dos infernos, aqui dentro da minha casa não quero ninguém, só você aí no seu canto como sempre. Meu Deus, o que fiz de tão errado nesse mundo? Não vou aguentar isso por muito tempo. A qualquer hora sumo do Rio de Janeiro, só para não ter que conviver com esse bando de homens me monitorando dia e noite. Estou ficando louca com todo esse movimento, já não basta ter que aturar um homem estranho no quarto de hóspedes, ainda tenho que dividir minha sala com uma porção de seguranças, isso é demais, sou apenas uma professora de línguas, nunca pude me imaginar em uma situação dessas. Meu Deus, o que fazer para que o tempo passe bem rápido? Morro de saudades da minha vida antiga, era tão feliz e nem sabia, vivia alegre, não tinha qualquer tipo de problemas. De que me vale ter tudo de bom se não tenho sequer o direito de ir e vir sem ser acompanhada por este bando de abutres? Por que não coloca um em meu banheiro e outro no meu quarto? Assim ficará tudo bem distribuído. Claro que eu falava alto, era para que Abdul ouvisse, ele estava bem ao lado de Jamal, enquanto eu falava, mas não estava brincando, aquilo estava acabando com o restinho de paciência que eu ainda tinha. Por essa razão, tive aquele ataque de histeria. Jamal saiu correndo para tentar ajeitar os seguranças, ele me conhecia, sabia que quando ficava nervosa, colocava todos os meus monstros para fora, não conseguia me adaptar àquelas intempéries. Sentei-me na varanda e fiquei calada, estava uma pilha. Se pudesse voltar no tempo, seria mais bem-humorada e menos pragmática, menos lógica e mais romântica, mais livre do presente e menos


escrava do futuro, tinha muito que aprender ainda com a vida. Jamal levou nossas malas para o closet, pedi que deixasse a do seu príncipe no quarto de hóspedes. Coitado, ele voltou com a mala e a colocou no outro quarto. Abdul ouviu quando falei com Jamal e foi para a varanda enquanto fui tomar banho. Coloquei um biquíni, uma saída de banho e voltei para sala. Abdul estava sentado tomando um uísque e fumando, nunca o tinha visto fumar antes. Me aproximei. – Bravo, vossa excelência agora adotou o hábito da nicotina? Achei que só usasse o narguilé. Ele me olhou dos pés a cabeça. – Onde pensa que vai vestida assim? – Vou caminhar na praia, está uma tarde linda. – Você ficou louca? Há pelo menos uma centena de jornalistas lá fora, todos querendo notícias do rei. Você não deve ir. – Sou louca e vou assim mesmo, não estou usando nenhuma coroa. Ele se levantou. – Não permitirei que saia daqui, Aretha, se for necessário, prendo você no quarto, não abuse da minha paciência. – Não abuse você da minha. Já atrapalhou meu ensaio fotográfico, agora quer atrapalhar ainda mais minha vida? Estou cheia de você, caro príncipe. E, quer saber? Agora fiquei com mais vontade ainda de sair e já adianto a você: não quero ninguém atrás de mim, vou à praia, nem que isso me custe a vida. Ainda não nasceu um homem para me dar ordens, você grita quando precisa calar e se cala quando precisa gritar. Não está errando de mulher, meu, caro príncipe? É com a outra que deveria gritar. Peguei minha nécessaire com meus cremes e fui em direção à porta. Quando abri, três seguranças me seguraram pelo braço, olhei para Abdul com ódio. – Não pense que vai conseguir me prender aqui por muito tempo, ora ou outra, quando piscar os olhos, não me verá mais. E não sabe com que prazer farei isso. Entrei no quarto com ele atrás. – Aretha, não fale dessa forma comigo, está me desrespeitando perante meus seguranças. – Coitadinho de você, lembre-se que só está aqui por causa da sua chantagem, deveria ter deixado que matasse aquela messalina. Assim, pelo menos, não teria que aguentá-lo aqui me dando ordens. Saber que minha vida era tão pacata. Agora se transformara em um circo. Pensa que poderá me deter? Se me conhecesse bem, nem estaria aqui, sua presença me incomoda. Por que não ficou em Nova York com sua loira fajuta? Ela deve ser bem melhor que eu. O que uma mulher daquelas não faria para prender um homem pelo volume da sua conta bancária? Bem que você merecia uma mulher


como aquela, que pena que a mandou embora naquele dia. Gostaria muito de ter conversado um pouquinho com ela, mas a noite deve ter sido muito boa, pois ela saiu até trançando as pernas. Agora saia do meu quarto. Chamei Jamal pelo rádio, disse que estava descendo para a piscina. Quando cheguei, já havia cinco seguranças posicionados. Entrei na piscina, nadei um pouco e depois sentei na borda, estava pensativa, minha vida havia se transformado em um caos total. Quando olho, noto que Abdul está em minha frente e vestido, puxou uma cadeira para ficar mais perto. – Até quando? Olhei-o, ele repetiu: – Até quando vai me castigar e me desprezar? Não vê que está acabando comigo? Morro de ciúmes de você, querida, por que teve que beijar aqueles rapazes? – É bom ter novas experiências, aprendi isso com você, meu caro. Pelo menos para alguma coisa aquela cena patética serviu, me ensinou que devemos aproveitar a vida, pena que não tive oportunidade de falar com aqueles belos rapazes a sós, até nisso empatou minha vida hoje. Apesar disso, tenho meus contatos, assim que virar as costas, verá o quanto aprendi com você. – Não me maltrate tanto, Aretha, nunca havia experimentado esse sentimento antes, e não é nada bom, dói demais, você não me poupa em nada, parece que faz tudo de propósito, faz questão absoluta de me provocar. Não respondi, apenas perguntei: – Por que trouxe seu pai? – Não trouxe meu pai, ele já havia agendado essa visita, apenas peguei uma carona, meu pai estava em dívida com a colônia árabe no Brasil. - Isso, de certa forma, tira um peso das minhas costas. Achei que estivesse vindo por minha causa, agora me sinto melhor, só não gostei da ideia de terem ido assistir meu ensaio fotográfico, fiquei pouco à vontade com ele por perto, apesar de ser somente um trabalho. – Pouco à vontade? O que mais precisava fazer para se sentir completamente à vontade? Fazer sexo com eles? – Acaba de me dar uma ótima ideia, se você pode, também posso, vou amadurecer essa ideia. Ele se aproximou e agarrou meu braço com força. – Considere-se morta, caso isso aconteça. – Solte meu braço, e me agradeça por ainda ter que suportar essa situação, gostaria que quando partisse, levasse todos daqui, estou cansada de ser rastreada. Coloque uma coisa na cabeça: eu, Aretha, não tenho mais nada com você, quero continuar levando minha vida como antes de conhecêlo, não faz mais sentido andar com seguranças, quero minha liberdade de volta, quero ir e vir sem me


sentir um GPS. – Isso eu não posso fazer, Aretha. Se acontecer alguma coisa a você, acho que me mataria, não percebeu ainda, que tudo que eu faço é pensando em seu bem? Já é conhecida, portanto, minha cara, terá que aguentar este desconforto. – O que você quer é poder me controlar, saber tudo o que faço, aonde vou, com quem falo, você não está pensando em minha segurança, está querendo controlar minha vida! – Talvez esteja certa, fico louco só de imaginar você sem contato algum comigo, isso seria meu fim, mesmo que morra de ódio de mim, nunca mais repita que vai dispensar os serviços dos seguranças. – Se gosta da frase “me engana que eu gosto”, tudo bem, muitas surpresas ainda estão reservadas para você, meu caro príncipe, não tenho pressa, sou paciente, saberei esperar o momento certo de lhe dar o golpe fatal, se tenho que morrer, pelo menos morrerei vingada de você. – Não faça nada que possa se arrepender. Aretha, você não me conhece. – Nem você a mim. Subimos em silêncio, quando entrei, fui direto para o quarto, dei uma descansada. Depois, levantei-me e fui até a varanda. Abdul estava lá, olhando o mar, estava com um copo de uísque nas mãos. Abdul estava bebendo muito, nunca o tinha visto beber tanto, deveria ser remorso. Com certeza deveria estar se corroendo por causa das fotos, mas era para ter mesmo, com que se preocupar, aqueles rapazes dariam um dedo mindinho para sair com a ex-noiva de um príncipe. Claro que esse rapazes viviam de imagem, portanto, sair comigo iria, de certa forma, fazê-los ainda mais conhecidos. Eu estava na capa de quase todas as revistas, bastaria uma ligação para nocautear Abdul, e faria isso com o maior prazer. – Seu pai me convidou para jantar com ele, você também irá? – Sim, isso te incomoda? – Nem um pouco, meu caro, nada que venha de você me incomoda, a única coisa que eu quero é que finja que nem me conhece, isso será melhor para nos dois. Ele abaixou a cabeça, mas continuou a falar. – Só te peço uma coisa, não brinque com os meus sentimentos, não me provoque com suas brincadeiras e sua ironias, você não sabe do que sou capaz de fazer se continuar me fazendo sentir ciúmes. – Muito interessante esse seu desabafo. Você acha que senti o que quando abri a porta daquele maldito quarto? Desci para o salão sem falar com os seguranças, mas subi bem depressa, só fui dar um jeito nos cabelos. Olhei o relógio e já passava das oito horas da noite. Fui me arrumar, havíamos combinado


com o rei às 21h00. Olhei meu armário, decidi colocar um vestido preto, ele não era curto, mas tinha um decote na frente que deixava um pouco do busto à mostra. Pintei os olhos, passei um batom e fui para sala. Abdul estava sentado no sofá. Vestia calça jeans e camisa xadrez. Como sempre, lindo e perfumado, ele me olhou, mas não disse nada, abriu a porta para eu passar e nos dirigimos ao elevador, estávamos tão próximos que até sentia seu hálito, minhas pernas tremiam, minhas mãos suavam. Quando chegamos na garagem, nos acomodamos no banco de trás. – Não dá para puxar um pouco esse vestido na parte da frente para tampar um pouco esse decote? Olhei para ele assustada. Que petulante!! – Meu Deus, acha mesmo que eu atenderia um pedido seu? Ainda por cima um pedido tão sem cabimento? Se não está se sentindo à vontade ao meu lado, a porta é a melhor saída. – Nunca tive desconfiança de você, mas agora sinto um ciúme incontrolável, não gostaria que todos ficassem olhando para seus seios. – Coloque uma coisa na cabeça: me conheceu exatamente assim, com meus decotes e minhas roupas curtas, não adianta ter ciúmes, esse corpinho não te pertence mais. Ele pegou meu pulso e apertou com toda força. – Já pedi para não me provocar, não sabe o que um kuaitiano é capaz de fazer quando se sente ameaçado, acho que não gostaria de brincar com um homem armado – soltei-me dele. – Pedi para não tocar em mim! Se queria me assustar, perdeu seu tempo, está andando armado agora? Ele colocou as mãos na cintura e me mostrou a arma, virei a cabeça rapidamente, detestava armas de fogo. – Abdul, armado ou não, terá que engolir seu ciúme, não pretendo puxar um milímetro sequer da minha roupa. Se quiser, fique à vontade, me mate. Já quase o fez quando resolveu colocar uma mulher na sua cama. Fizemos o restante do percurso em silêncio. Abdul era um homem lindo, muito alto para um árabe, corpo perfeito, seu abdômen era muito definido, seu tronco muito bem delineado, seus braços muito fortes, seus olhos eram de um azul límpido, cabelos lisos com ligeira ondulações nas pontas, fios compridos e repicados, eram repartidos ao meio e caíam sobre sua testa. Desde o primeiro dia que o tinha visto, notei seu porte esbelto, não conseguia imaginar minha vida sem ele, mas teria que me acostumar, para mim, traição era a pior coisa que um ser humano poderia suportar, sempre pensei desta forma. Quando ouvia uma amiga falar que havia sido traída, na hora pensava: “Dá um pé na bunda desse cara, sua idiota, vai confiar em um homem assim?”. Nada que digam poderá mudar o que penso. Abdul estava com ciúmes de mim, problema dele, não iria ficar com peninha. Nunca


esqueceria aquela cena quando abri a porta do seu quarto, os cabelos oxigenados daquela loira não saiam da minha cabeça, sonhava com aquela visão e nada poderia ter me magoado mais do que vê-lo deitado com outra mulher. Tinha que me acostumar a viver sem ele, jamais o perdoaria, isso para mim era questão de honra, nunca deixaria o amor falar mais alto que a minha incapacidade de perdoar uma traição. Ao chegarmos no hotel, esperamos um pouco no saguão, nossa presença estava causando certo tumulto, os seguranças ficavam de olho em tudo e em todos, logo a porta do elevador se abriu, eram tantos homens em torno do rei, que demorei para localizá-lo, ele como sempre, muito sorridente. Aproximou-se de mim, me pegou pelas mãos, me fez girar. – Você é encantadora, a cada dia fica mais bonita, como consegue isso? Agradeci dando um beijo em seu rosto, nunca me preocupei com cerimônia, tratava o rei como um grande amigo, isso o deixava mais à vontade. Nos dirigimos ao restaurante, sentei-me mais perto dele do que de Abdul. Conversamos sobre tudo, ele ria alto a cada coisa engraçada que eu dizia, estávamos só bebendo e comendo alguns antepastos, Abdul estava mudo, seu pai perguntou: – Meu querido filho, está se sentindo bem? Ele balançou a cabeça positivamente. Já eu, estava ficando cada vez mais alegre, o rei me incentivava beber, cada vez mais. Abdul não suportou. – Que meu pai está tentando fazer, embriagá-la? – Não, estou tentando mostrar ao meu filho querido, que mulher gosta de homens com atitude. – Me sugere o que então, meu pai? – Eu não lhe sugiro nada, meu filho. Eu estava no meio dos dois. – Calma lá, eu estou aqui, não falem de mim como se não estivesse. O rei deu uma tremenda gargalhada, encheu meu copo novamente, pedimos o jantar que ele mesmo escolheu, comemos muito calmamente, só conversando. – Amanhã, eu e Abdul teremos um dia cheio, teremos reunião no consulado, parece que nossa colônia está passando por uma série de dificuldades e tentaremos resolver. À noite nos será oferecido um jantar, não sei exatamente onde será, mas gostaria que estivesse presente. – Posso pensar? Amanhã darei a resposta. Ele concordou, apesar de estarmos bem reservados, havia muitos hóspedes no hotel, mas éramos o centro das atenções. – Você está chamando muito atenção, minha querida, todos estão admirados com sua beleza. – Eu estou chamando atenção? Acho que ainda não notou que quem está chamando atenção é o rei e o príncipe, não tenho esse poder ainda.


Ele deu uma gargalhada. – Não se subestime, minha cara, os olhares são todos para você. Terminamos nosso jantar, me levantei, caminhei até o jardim, acendi meu cigarro e fiquei sozinha com meus pensamentos, como poderia o pai ter mais jogo de cintura que o filho? Por que Abdul não acabava logo comigo? Por que ficava me olhando daquele jeito? Não sabia quando iriam embora e se fosse logo, acho que nunca mais o veria. Jamal se aproximou. – Meus Sheiks estão chamando a senhorita.


Capítulo Dezenove Apaguei o cigarro e fui até eles. O rei Abdallah e o príncipe já estavam em pé, disseram que íamos subir à sua suíte para continuar a conversa, apanhei minha bolsa e nos dirigimos ao elevador, o rei estava muito feliz, era todo sorriso, o mesmo não acontecia com Abdul, que não mexia um músculo do rosto, ele estava tenso. Quando entramos, fiquei encantada, a suíte presidencial era do tamanho do meu apartamento. Nos sentamos na sala, o rei pediu para um de seus homens trazer um narguilé, ele queria que eu provasse e me ensinou como deveria fazer, o que consegui na primeira tentativa. Ele disse que havia assistido todos os DVDs que Abdul havia lhe enviado dos desfiles, queria que lhe ensinasse a sambar, disse que teria o maior prazer. Comecei com os passos mais simples e fui aumentando, me empolguei tanto que logo ele se sentou e ficou hipnotizado com meu gingado, eu abaixava com as mãos sobre os joelhos e rebolava, subia o corpo e desfilava, ele batia palmas. Abdul não estava gostando muito, se levantou e disse alguma coisa em árabe a seu pai e pediu que eu calçasse minhas sandálias, dizendo que era tarde. Nos despedimos e saímos. No elevador, um silêncio mortal, no carro, mais parecia um funeral. Ao entrarmos no apartamento, tirei minhas sandálias na sala, fui até a varanda e deitei na espreguiçadeira. Abdul foi direto para seu quarto. Eu estava sozinha, enchi um copo de uísque e fiquei pensando na minha vida. Estava sem sono e já havia enchido meu copo três vezes, já estava anestesiada. Fui tentar me erguer para ir ao quarto, mas não consegui. Na segunda tentativa, consegui, só que caí na sala. Abdul veio em seguida e, abaixando, me pegou nos braços e levou-me para o quarto. Ele estava apenas de cueca e havia alguma coisa de diferente no seu corpo, eu mal conseguia abrir os olhos, ele tirou meu vestido, fiquei apenas de calcinha. Ele me cobriu e saiu. Acordei no dia seguinte, já passava do meio-dia. Levantei-me com uma tremenda dor de cabeça, não conseguia olhar no espelho, lembrei-me vagamente de Abdul me pegando no colo. Então, ele havia me tirado a roupa, pelo menos havia respeitado meu estado de total embriaguez. Andei por todo apartamento só de calcinha, e me recordei da reunião que teriam pela manhã. Tomei banho e fiquei sentada na varanda, eu realmente havia chutado o pau da barraca naquela noite, não me lembrava de algum dia ter bebido tanto. O que será que Abdul tinha de diferente? Será que estava mais musculoso? Como gostaria de lembrar. Passei a tarde toda à base de líquidos e frutas, tinha que me desintoxicar. Prometi a mim mesma que jamais tomaria outro porre, estava me sentindo mal, minha boca estava com gosto de cabo de guarda-chuva, comecei a pensar se iria ou não ao jantar. Chamei Jamal pelo rádio, ele bateu na porta e entrou, pedi que me respondesse uma pergunta:


– Jamal, você acha que devo aceitar esse convite do rei para o jantar em sua homenagem? Acha que tenho algum direito de estar lá, no meio da sua gente? – Minha senhora, eu acho que deveria ir, a senhora foi e continua sendo o assunto predileto do meu povo, todos a acham bonita e torcem para que seja sua princesa. Além do mais, pegaria muito mal se não fosse. Ninguém sabe do seu rompimento ainda, sua falta causaria certo constrangimento tanto para o rei quanto para o príncipe. Agradeci Jamal pelas palavras gentis, disse a ele que passasse um rádio para seu Sheik dizendo que estaria pronta às 21h00. Ele saiu e fiquei pensativa. Será que me sairia bem? Como seria recebida?. De uma coisa tinha certeza, não iria colocar uma só gota de álcool na boca. Fui até meu armário, olhei bem, não sabia o que vestir. Recordei-me de uma roupa que tinha e ainda não havia usado, era um espartilho todo bordado de pérolas, a calça era de seda fina um pouco transparente, tipo calça do Aladim, o punho era apertado com um detalhe em perolas também. Achei apropriado para aquela noite. Resolvi que iria com aquela roupa. Fui para varanda novamente, acendi um cigarro, dei até uma cochilada, olhei no relógio eram 19h00. Tomei banho, arrumei meus cabelos, que era a coisa mais fácil de fazer, só os lavava, secava com a toalha e dava uma amassadinha com as mãos e ficavam maravilhosos. Comecei minha maquiagem pelos olhos, caprichei bastante, pois como dizia Odair, meus olhos eram meu cartão de visitas, quem os olhava, jamais se esqueceria do resto. Cada vez que Odair dizia isso, eu caía na risada e, nesse momento, eu precisava ouvir a voz dele. Então, liguei, ele me deu a maior bronca, reclamou por eu não o ter convidado para conhecer o Rei pessoalmente. Pedi desculpas, contei por cima tudo que havia acontecido desde a chegada de Abdul, ele mais uma vez disse: – Você, com esse gênio, vai perder o homem que ama, todo mundo erra. Se ainda pensa que não errou, eu te digo, está errando agora, por ser tão teimosa! Nós nos despedimos, disse que no dia seguinte pretendia convidar o rei para conhecer um pouco da nossa cidade, se ele quisesse, poderia fazer parte dessa comitiva. Continuei minha maquiagem, ouvi o barulho da porta da frente batendo, logo em seguida, a porta do quarto de hóspedes. Ele estava em casa, acho que entrou no chuveiro, tive muita curiosidade de entrar sem que ele percebesse, precisava tirar uma dúvida. O que havia visto de diferente nele que não me lembrava? Mas não ia me prestar a um papel ridículo desses. Coloquei a roupa, me olhei, acho que estava bem, coloquei um pouco de perfume e fui até a sala. Ele ainda não estava lá, fui até a varanda, acendi um cigarro e fiquei em pé, estava encostada na porta de vidro quando ouvi seus passos. Virei-me, ele estava lindo de turbante azul-marinho e branco, seu terno era também azulmarinho, caimento perfeito. Ele me olhou dos pés a cabeça.


– Acha que estou digna de participar da homenagem ao seu pai? Ele me olhou novamente e disse: – Está maravilhosa, digna de qualquer evento de um rei, já podemos ir? Descemos calados, sentia sua respiração e seu perfume amadeirado, percebia seu olhar... O que esse homem tinha que mexia tanto com meus sentidos? Ele me tirava o foco; quando estava perto de mim, ficava quase que em estado de graça. Entramos no carro, ele continuava em silêncio, como sempre, seu rosto ficava petrificado, já conhecia muito bem meu homem. O que o estaria incomodando? – Tem alguma coisa errada comigo? Não estou de acordo com os protocolos exigidos? – Não há nada de errado com você, é só esta roupa, não acha que está muito provocante? Mas fique tranquila, está muito elegante. Chegamos, nem sabia onde estava, era um local bonito, me pareceu ser um clube. Abdul desceu, me pegou pela mão, haviam muitos repórteres e fotógrafos, todos estavam nos esperando. Fomos acompanhados por um guarda cerimonial, que nos levou até o rei. Por onde passávamos, os olhares nos acompanhavam, as mulheres me observavam, olhavam minhas roupas, os homens, estes, olhavam meu corpo, naquela calça transparente e aquele espartilho, estava chamando atenção. Será que havia exagerado? Segurava nos braços de Abdul, mas minha vontade era de pular em seu pescoço. Quando o rei nos viu, veio em minha direção, me abraçou apertado e cumprimentou seu filho. Em seguida, puxou a cadeira para que me sentasse, beijou minha mão. – Tenho uma surpresa para você, minha querida. Abriu uma caixa preta e me mostrou um colar todo de brilhantes, as pedras eram do tamanho de ervilhas, formavam flores com pétalas de rubi, esmeraldas e diamantes, achei lindo. Ele pediu licença e o colocou em meu pescoço, me virou, olhou meu colo. – Perfeito, agora está com mais cara de princesa. Todas as mulheres participaram da comemoração, claro que suas roupas eram todas comportadas, tecidos lindos, mas em minha opinião, mal estilizados, se me dessem um tecido daqueles, customizaria em uma bela saia pareô, mas, problemas delas, eu estava com uma roupa linda, só isso me importava. Serviram as bebidas, pedi água. – Não vai beber hoje, minha cara. – Depois que chegamos em casa, fui dormir, ela ficou na varanda, essa louca tomou quase um litro de uísque, ouvi um barulho, levantei e a vi caída no chão. Hoje está com uma tremenda ressaca. – Que pena, Aretha, acabo de perder minha companheira de porre. – Abdul, mais respeito comigo, juro que não foi o uísque, estou acostumada beber, acho que foi o


narguilé. O rei deu uma gargalhada e o salão inteiro nos olhou. – Adoro esse seu jeitinho. Isso mesmo, coloque sempre a culpa no menos responsável. Acabei relaxando, as pessoas estavam me tratando muito bem, lógico que era por causa do rei e do príncipe. Passamos horas conversando, Abdul como sempre, apenas respondia o que perguntavam. Uma mulher chamada Suraia, perguntou ao príncipe: – Como vossa majestade conheceu Aretha? Adoro histórias de amor, conte-nos. Abdul então contou. Estava empolgado em sua narrativa, claro que não contou todos os detalhes, apenas o essencial. Ela estava com os olhos grudados nele que sequer piscava, querendo muito saber o final da história. – Senhora Suraia, essa mulher foi a melhor coisa que me aconteceu, ela é minha razão de viver, morro só de pensar em perdê-la, mas ela tem um gênio, que por Allah, homem nenhum na Arábia aguentaria. Suraia ficou comovida com as palavras de Abdul, seus olhos se encheram de lágrimas, eu nem sabia o que dizer, mas ela não me poupou. – Aretha, acaba de receber uma declaração de amor e não diz nada? Sei que é uma mulher diferente, é bela e sensual, deve atrair milhares de olhares, mas aposto que nunca havia recebido uma declaração de amor como essa. Olhei para ela e para todos os demais que estavam em nossa mesa e tive uma irresistível vontade de dizer: “Essa declaração de amor, Suraia, é mais falsa que uma nota de trinta reais. Ele me traiu, levou uma mulher para nossa cama”, mas pensei bem. – Agradeço a cada elogio que acaba de me fazer, senhora Suraia. Quanto à declaração do meu noivo, vou deixar para falar em seu ouvido quando estivermos sozinhos. Todos bateram palmas, o rei estava eufórico. Depois do jantar, foi chamado para subir ao palco para receber sua condecoração, como ele gostava de falar e aproveitou a oportunidade para fazer um belo discurso, todos aplaudiram, ele retornou à mesa, fez sinal para começar a música e a dança. Estava me sentindo a maior celebridade do recinto, as pessoas não sabiam o que fazer e nem o que dizer para me agradar. Levantei-me e fui fumar em um canto onde havia uma fonte, chamei Jamal pelo rádio e disse a ele que estava com vontade de ir embora, se ele achava que iria demorar muito para acabar. Ele me disse que isso ia depender do rei, a festa acabava quando o rei se levantava e saía. – Jamal, estou frita, o rei está mais animado que churrasquinho na laje, esse homem não se cansa nunca! Jamal deu uma gargalhada. Desliguei, acendi outro cigarro, Abdul se aproximou e perguntou, com


quem estava falando no rádio. Disse a ele que estava perguntado a Jamal se havia algum remédio no carro, minha cabeça estava péssima, ainda era resquício da bebedeira da noite anterior. Ele se aproximou mais um pouco. – O que achou? Gostou da comemoração? Era isso que esperava ver? – Claro, está ótima, mas daria tudo para estar em casa, de preferência na minha cama. Abdul perguntou-me se havia algum remédio no carro para eu tomar, eu disse que não. Aí resolvi falar. – Podemos ir ou isso vai causar algum tipo de embaraço ao seu pai? – Acho que não, ele está bebendo tanto que logo terá que se retirar, vamos até ele. Eu o segui até a mesa do rei, ele estava ligado no 220. Quando me viu, se levantou. – Onde estava a mulher mais linda dessa festa? – Estava apenas dando uma volta, estava pensando se não gostaria de conhecer um pouco do Rio, amanhã. – Já pedi isso ao nosso consulado, amanhã iremos conhecer um pouco dessa terra maravilhosa. Abdul pediu que ele fosse embora com seus seguranças, para poder acordar cedo e bem disposto no dia seguinte. Ele prontamente aceitou. Começou a se despedir dos integrantes da mesa, agradeceu a calorosa recepção, pediu ao cônsul que cuidasse de tudo para a visita à cidade maravilhosa. Saímos quase juntos. No caminho de volta, estava morta, me doía a cabeça pra caramba, precisava urgentemente de um remédio. Abdul percebeu meu silêncio, perguntou se estava bem. – Estou bem mal, minha cabeça dói até com o sacolejar do carro. – Quer encostar sua cabeça em meu colo? Fiz sim com a cabeça. Deitei-me em seu colo, dormi rapidamente. Quando acordei, estava na minha cama, sem minhas roupas e com uma camisola. Fui até a cozinha, tomei água e um comprimido, quando olho, vejo Abdul na varanda, ainda estava com a mesma roupa, mas sem turbante, me aproximei. – Já está virando rotina você tirar minhas roupas? Espero que está seja a última vez, não me agrada saber que fica me observando sem roupas. Ele não respondeu, dei boa-noite e fui para o quarto. Acordei com o barulho do rádio. Era Abdul, perguntando se estava melhor. E quanto tempo eu demoraria a me arrumar. Disse a ele que uns quinze minutos. Coloquei um vestido estampado tomara que caia, uma sandália alta. Não sabia sair sem saltos. Coloquei um chapéu, passei pela cozinha, engoli um café, peguei uma maçã e desci, eles já estavam esperando. Entrei no carro, cumprimentei o motorista e Jamal, perguntei onde iríamos primeiro. Jamal


respondeu e passou-me todo o roteiro do rei. Primeiro, iríamos ao Cristo Redentor, corcovado, Pão de açúcar, Pedra da Gávea, Baía de Guanabara, Arcos da Lapa, Forte de Copacabana e Praia de Ipanema. O Rei também queria conhecer Búzios. Essa praia era muito famosa por conta de Brigitte Bardot. Primeiro fomos ao Cristo Redentor e ao corcovado, tinham reservado uma hora para o rei e para o príncipe do Kuwait. Assim era fácil fazer visita, queria ver se fosse aberto ao público. Quantas vezes estive lá?! Adorava aquele lugar, ficava vendo meu Rio de Janeiro de cima, amava aquela cidade. O rei ficou encantado com a vista, demorou mais do que o previsto na programação. Fomos ao Pão de açúcar, a Pedra da Gávea e ao Arco da Lapa. Paramos para almoçar em Copacabana, o cônsul já havia reservado o restaurante.. Depois, fomos a Ipanema. Já estava tarde, mas deu para ver tudo que havia de mais bonito. O rei voltou para seu hotel e nos fomos para o apartamento. No dia seguinte, iríamos de carro para Búzios, claro que teríamos que acordar bem cedo, pois ele queria fazer o percurso de carro, dizendo que queria curtir a paisagem. Fui para cama sem me despedir de Abdul, ele estava no computador, achei melhor não incomodá-lo. Acordamos com as galinhas; era 7h00 da manhã e já estávamos na estrada, pedi ao motorista que parasse em um posto de conveniência, precisava ir ao banheiro, tomar um café e comprar cigarros. Quando desci, Jamal avisou os outros carros que poderiam seguir, depois os alcançaríamos. Junto comigo, desceram quatro seguranças e Jamal. Fui ao toalete, quando abro a porta, dou de cara com Lieser, que quando me viu ficou sem graça, logo imaginei de quem teria sido a ideia, Jamal já estava com um copo com meu café e meus cigarros. Encostei-me no carro e comecei a falar sozinha em inglês, que era para Abdul atender: – Que diabos! Não posso fazer xixi sossegada, comprar meu próprio café, tomá-lo no balcão como qualquer mortal? Ainda por cima, a comitiva inteira sabe que parei para fazer xixi, isso é o mesmo que colocar na rádio patroa, que merda é essa? Abdul bateu no vidro e pediu que eu parasse de reclamar e entrasse logo no carro, não era prudente ficarmos parados ali. Entrei contrariada, coloquei meu fone de ouvido, o motorista pisou no acelerador com tudo para alcançar os carros da frente. Abdul me olhava, mas agora não tinha a cara fechada, deveria estar feliz com o passeio. Quando nos aproximamos dos demais, o motorista tirou um pouco o pé do acelerador, mais uma hora estaríamos em Angra.


Capítulo Vinte Chegamos e o encantamento era geral, aquela água era cor de esmeralda, eu conhecia tudo no Rio, não havia um lugar em que não tivesse ido. O rei estava encantado, não me conformava de ver todos de calças e camisas. Aproveitei a distração de todos e entrei no mar de roupas, Abdul ficou assustado, mas depois caiu na risada. – Parece um pinto de molhada, como irá trocar de roupas? – Não trocarei, daqui a pouco elas se secarão sozinhas. – Parece um cisne, não pode ver água que já vai entrando. Olhei bem para ele. – Não sabe como tenho raiva de mim por isso, se não fosse tão louca por água, não teria entrado naquele lago e não teria ido parar em seu maldito castelo e com isso, teria evitado todos esses problemas. Minha vida era tão boa, eu nem sabia. – Não acha que está falando muitos palavrões ultimamente, Aretha? – Agora também quer controlar meu vocabulário, senhor príncipe? Vá se danar, não veio para apreciar a paisagem? Foque-se apenas nela, finja que não estou aqui. Ele se calou. Depois pegamos a estrada rumo a Búzios. Aquele lugar era pura magia, eles se encantaram com a cidade, era pequena, mas tinha de tudo. Enquanto eles ficaram tirando fotos ao lado da estátua da Brigitte Bardot, pedi licença e entrei em uma loja, comprei um biquíni e um short, pedi para trocar no provador, quando saí, meu sogro disse: – Essas mulheres são iguais no mundo todo, não podem ver uma loja, que já entram para fazer compras. Levei aquilo como elogio, hoje não queria me estressar. Almoçamos em Búzios, o rei experimentava de tudo, tudo adorava, ele era o que chamávamos de bom de boca. Pegamos a estrada de volta para cidade do Rio. A viagem de volta fiquei com o fone de ouvido, não estava com vontade de conversar. O rei quis conhecer o Jardim Botânico, disse que tinha muita curiosidade. Lá fomos nós, teríamos que fazer aquele percurso a pé, lá não entrava carros, mas enfim, quem estava na chuva, é pra se molhar. Ele parava para olhar todas as flores e plantas ornamentais. Também nosso Jardim Botânico era tido como o melhor e com o maior número de plantas raras e exóticas da América Latina. Fui para o outro lado ver uma flor linda de tons alaranjado, era a coisa mais linda! Quando fui me virar para mostrar a Jamal, torci meu pé. Senti uma dor forte e tive de sentar no chão. Jamal que estava próximo falou com Abdul em árabe. Ele notou que já estava inchando. Perguntou-me se eu podia levantar. Tentei, mas não consegui colocar o pé no chão, então me sentei novamente. Abdul


estava nervoso, tirou minhas sandálias, e falou com seu pai. Pegou-me no colo e me levou para o carro. Deitou-me no banco de trás, sentou-se e colocou meus pés em seu colo e disse para Jamal que precisavam me levar a um hospital. Meu pé estava inchando ainda mais. Passaram rádio para comitiva do rei. Abdul pediu que seu pai fosse para seu hotel, ele iria me levar ao hospital. Meu sogro se aproximou e falou em árabe com seu filho. Depois se foram. Olhei meu pé. – Se acalme, está me deixando nervosa, isso é luxação. Será que até nessa hora tudo tem que ser um circo? Daqui a dois minutos, a cidade inteira do Rio estará sabendo que virei o pé. Pedi a Jamal que indicasse o caminho, pois ele já conhecia. Uma vez havíamos socorrido uma amiga bailarina que se machucara na quadra. Ele fez sinal de positivo e lá fomos nós. Quando chegamos, o hospital inteiro desceu para olhar meu pé, tirei mais radiografias do que o caso merecia. Mas o caso era pior do que eu pensava, pois eu havia rompido alguns ligamentos. Nem acreditei no diagnóstico, conhecia muito bem o que isso queria dizer: “ cirurgia”. Isso me deu um medo terrível, o médico disse que seria somente um dia de internação. Pior seria meu restabelecimento, repouso absoluto por pelo menos dez dias, depois muita fisioterapia. Não teve jeito, já fiquei por lá, se tinha que fazer, que fosse logo. Pedi que Jamal ligasse para Maria, para arrumar uma malinha, ela sabia exatamente do que eu iria precisar. Logo Odair me liga, pedi desculpas por não tê-lo levado conosco, mas, como sempre, as coisas aconteceram muito rápido, ele ficou de passar no hospital no final da noite. Naquele dia, ficaria para fazer alguns exames e, no dia seguinte pela manhã, operaria. Tinha muitas amigas que já haviam feito essa cirurgia, sabia que o restabelecimento não seria fácil, mas não tinha jeito. Abdul estava muito nervoso, passava a mão nos cabelos toda hora. Pedi que se acalmasse, não era nada de grave. – Até uma unha encravada em você, me deixa louco. Como consegue ser tão frágil e outras tão forte? Você me surpreende a cada dia, querida, fez isso de propósito para me castigar ainda mais. – Não conseguiria chegar a tanto. Por que não vai para casa? Tente dormir um pouco. Hospital não é lugar para um príncipe! – Nem para uma princesa, preciso estar ao seu lado, não ficaria tranquilo sabendo que está aqui sozinha. – Não estarei sozinha, daqui a pouco chega Maria com Odair. Além deles, Jamal pode passar a noite comigo. Ele ficou bravo. – Por que, Jamal? Ele é seu empregado e não sua babá, eu fico e ponto-final. Logo vieram os enfermeiros e me mudaram de quarto. Fui para uma suíte com uma sala maior que


o apartamento que morei, o que o dinheiro não comprava? Maria chegou com Odair e Jamal, trouxeram uma malinha com algumas peças, e minha nécessaire. Pedi que ajudasse tomar banho. Abdul me carregou até o banheiro. Ele saiu e Maria me ajudou com o banho. Coloquei uma camisola, ela penteou meus cabelos, chamou Abdul e ele me carregou de volta para cama. Pedi para Jamal pegar minha bolsa, precisava tomar minha pílula. Abdul me olhou de um jeito que até estranhei. – Por que tem que pedir tudo para o Jamal? Estou aqui, Aretha, até nesta hora vai bancar a turrona? – Não brinque de faz de conta comigo, Abdul, foi você que me fez ficar dependente de Jamal. Vá para casa, descanse e amanhã você volta mais calmo. Abdul continuou ali, se aproximou, passou suas mãos pelos meus ombros. – Olha a confiança, Abdul, não se pode dar o braço, que logo quer as pernas, machuquei somente meu pé, portanto, não estou com amnésia, ainda não esqueci o que me fez, quanto mais longe ficar, será melhor para nós dois. Jamal está aqui para isso, quanto menos contato com você, melhor. Acho que peguei pesado demais, ele se afastou e foi para outro canto do quarto. Quando menos esperava, meu sogro entra porta adentro. Foi aquele fuzuê. O hospital que já estava em polvorosa com nossa presença, agora se transforma em um manicômio, todos correndo de um lado para o outro, os médicos não paravam de entrar, as enfermeiras, cada hora vinha uma, já estava virando a casa da mãe Joana. Pedi a Jamal que não queria mais aquele entra e sai no quarto, só deveria entrar meu médico, seu assistente e três enfermeiras, e que fossem discretas. Tanto o rei quanto o príncipe não estavam em segurança com tanto entra e sai. Uma hora depois, estava tudo calmo, o rei foi embora depois das onze horas da noite, prometendo voltar no dia seguinte. Abdul o levou com seus seguranças até a porta. Quando voltou, disse que o hospital estava cheio de jornalistas. O telefone do quarto não parava de tocar, Jamal era quem atendia, ele era muito educado, já havia aprendido bem o português, ele se virava muito bem. O médico disse que eu já tinha que começar o jejum, resolvi dormir de uma vez. Maria e Odair foram para casa, voltariam no dia seguinte. Ficamos no quarto, dois seguranças do lado de dentro, um deles era Jamal; e três do lado de fora. Abdul estava com um olhar muito triste, sentou no sofá e ficou velando meu sono. Acordei e logo vieram me buscar para cirurgia. Abdul disse que só me levariam se dois seguranças fossem juntos, era muito preciosa para ficar sem proteção, os médico não impediram, ele ficou na sala ao lado, andava de um lado para o outro, parecia que eu iria dar a luz. A cirurgia durou duas horas. Quando acordei, já estava no quarto, só Abdul estava ao meu lado, ele havia proibido qualquer pessoa de se aproximar, menos meu médico e a enfermeira. Perguntou como estava me sentindo, disse que bem, mas com muita sede. Ele apertou a campainha, logo apareceu a enfermeira, ela disse que não deveria tomar água, pois estava acabando o efeito de minha


anestesia e eu poderia vomitar, olhei bem para ela, meu nervos que já estavam em frangalhos, piorou ainda mais. E pela primeira vez, fui indelicada com uma pessoa que só queria me ajudar. – Por favor, me traga água. Não tem nada ver uma coisa com outra, vomito com a boca e não com o pé. Ela saiu rapidinho. – Já vi que você não acordou muito bem da anestesia. ─ Abdul disse sorrindo. Tomei água como se estivesse de ressaca, logo veio o café da manhã. Estava comendo quando Maria e Odair chegaram, eles me conheciam melhor que ninguém, perceberam o meu mal humor, pediram que eu tivesse paciência, que logo estaria em casa. Ficaram apenas uma hora. Eles iriam para o meu apartamento e esperariam lá. O médico entrou, falou com Abdul e disse que só me daria alta em virtude do reboliço que estava na frente do hospital. E que eu deveria retornar dois dias depois. A cirurgia havia ocorrido dentro da normalidade. Mandou-me fazer repouso absoluto, o resto, a vida seguiria normalmente. Normal?Só se for pra ele. Abdul ligou para seu pai e disse que ele não viesse, eu já estava de alta; se quisesse, poderia ir ao nosso apartamento mais tarde. Pediu aos seguranças que ficassem em alerta, pois não queria nenhum repórter se aproximando de nós. Teria que passar comigo nos braços, já que não achou necessário eu sair na cadeira de rodas. Claro que isso era mais um desculpa para se aproximar de mim. Mas como estava ainda um pouco grogue, não dei bola. Os médicos já haviam conversado com os jornalistas, dizendo que eu já estava de alta e deram o boletim médico para a imprensa, portanto, não teríamos que falar absolutamente nada. Os seguranças nos ajudaram a sair. Abdul me colocou no banco de trás, subiu rapidamente e saímos. Alguns jornalistas ainda tentaram correr atrás do carro, mas nosso motorista foi mais esperto. Fiquei calada a viagem toda. Quando chegamos na frente do prédio, mais confusão, mas desta vez foi mais fácil, nosso carro passou rapidamente por eles e entrou na garagem. Abdul me pegou no colo com muito carinho. Odair e Maria estavam nos esperando, pedi para Abdul me deixar na varanda, estava nervosa, precisava fumar. Ele me sentou em uma espreguiçadeira, e ficou ao meu lado. – Está se sentindo bem acomodada? Precisa de mais alguma coisa? – Banho. Preciso de um banho descente, mas como tomar banho com tudo isso em meu pé? Ele chamou Maria, que me carregou até o banheiro. Ela enrolou meu pé com saco plástico e colocou um banquinho para eu me sentar. Não foi um banho como gostaria que fosse, mas pelo menos estava cheirosa. Minha amiga aproveitou para me dar umas bronquinhas. Disse que eu estava tratando Abdul muito mal e que ela não sabia como ele ainda tinha paciência comigo. Que ninguém


tinha culpa por eu ter virado o pé. Pedi desculpas e disse que não sabia por que estava de tão mal humor. Ela chamou Abdul, depois arrumou os travesseiros e saiu dizendo que iria preparar uma coisa bem gostosa para comermos. Ele sentou ao meu lado, eu estava com muito sono, deveria ser por causa da anestesia. Dormi por mais de duas horas. Acordei com muita dor no pé. Abdul ainda estava ao meu lado, e quando eu disse a ele, logo foi pegar a receita pra ver o que o médico havia receitado, caso sentisse dor. Havia alguns remédios pra dor e também antibióticos, mas esses teriam que ser ingeridos de estômago cheio. Maria apareceu toda sorridente, trazia uma bandeja com comida. – Adivinhe o que fiz para comer? Seu franguinho predileto! – Obrigada, Maria. Preciso mesmo comer para tomar o antibiótico. Pediu para Odair ir a escola avisar que não vou poder dar aulas? ─ Seu noivo fez isso, minha filha. A diretora achou melhor você tirar uma licença. Depois você assina, está tudo na sala. Melhor assim, não é? Ela abriu a tigela e veio aquele cheirinho! Minha mãe preta sabia tudo que eu gostava. Ela me serviu e comi com muito gosto. Maria era a melhor cozinheira que eu conhecia, sua feijoada era imbatível. E ficava muito feliz quando as pessoas elogiavam. Pedi para servir Abdul. Ele estava sem comer a muito tempo. Eles saíram para almoçar, fiquei sozinha pensando no que minha amiga havia dito no banheiro, será que estava tão insuportável assim? Para Maria ter me dado aquela bronca, era porque tinha feito muita coisa errada mesmo. Abdul voltou ao quarto e disse que havia adorado a comida da Maria. Contou que ela iria fazer uma feijoada no dia seguinte para ele provar. Expliquei o significado da feijoada, ele ouvia com atenção. Ele estava tão próximo que dava pra sentir seu hálito, minha vontade era de pular no pescoço dele. Odair veio com o antibiótico, pedi para me levarem para a varanda. Abdul me carregou e nós nos sentamos. Maria trouxe café, peguei nas suas mãos e beijei. – Estou sendo tão negligente com vocês, não é? Já não frequento tanto sua casa como fazia antigamente, e nem temos conversado tanto como fazíamos antes. Estou sendo relapsa com meus pais pretos. Devo tanto a vocês dois, mas não consigo entender o que está acontecendo comigo. Só pode ser por causa desta agitação, sabe que odeio quando não estou à vontade. Maria me beijou e disse que compreendia, que minha vida havia mudado muito depois daquela viagem. Ela saiu, Abdul quis saber o que havia acontecido, contei exatamente o que havia dito a ela, ele pegou minhas mãos. – Ama demais esses dois, não é? Como acha que podemos ajudá-los? Há alguma coisa que eu possa fazer para tornar a vida deles mais confortável?


– Acho que você poderia ajudar sim, Abdul. Na verdade, esse era uma das coisas que iria fazer ainda este ano, mas claro que iria me endividar até o pescoço. Você poderia comprar um apartamento para os dois, eles moram no morro, lá é muito perigoso. Sempre há tiroteios, eu mesma tenho medo de ficar lá. Odair trabalha com perua escolar, mas a perua não é dele, tudo que ganha tem que dividir com o proprietário do veículo. Por isso eles nunca puderam sair daquele barraco que moram. O apartamento não precisa ser grande, são só os dois. Faria isso por mim? – Claro, minha querida, sabe o quanto sou grato a eles por cuidarem de você. Eu vou providenciar isso amanhã, mas ainda hoje pretendo fazer alguns contatos para adiantar as coisas. Agradeci Abdul pela sua generosidade. – Como me suporta? Estou tão malcriada com você, sei que me magoou muito, mas mesmo assim, deveria tratá-lo com mais carinho. Por favor, esqueça tudo aquilo que eu disse no hospital. Claro que vou precisar da sua ajuda. Pedi que me levasse ao quarto, Maria e Odair estavam vendo televisão. Maria falou que depois que descansasse, iria comer o melhor bolo do mundo. Abdul me colocou na cama, perguntou se gostaria de ver um filme, pedi que colocasse, se dormisse no meio do filme, terminaríamos a noite. Ele colocou um filme romântico, dormi dois minutos depois de haver começado. Ele saiu e pediu para Maria me fazer companhia. Ela sentou ao meu lado. Quando acordei, perguntei por Abdul. – Acho que foi tomar banho, o coitadinho estava com aquela roupa desde ontem, deve ter dormido, pois faz tempo que saiu.


Capítulo Vinte e Um Pedi que Maria me ajudasse a levantar e fui até o banheiro dando pulinhos, depois pedi que chamasse Jamal. Ele me ajudou a ir até a cozinha. Maria lhe serviu bolo com café, Jamal era um homem muito educado e refinado, cuidava de mim com muito carinho. Peguei um pedaço de bolo e uma xícara de café. – Até quando vai ficar fazendo isso com Abdul? Ele não merece, já o castigou bastante! Deus foi muito generoso com você, minha filha! Ele colocou um homem que te ama no seu caminho, dá para ver na carinha dele o quanto é apaixonado por você. Escute bem! Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Existem muitas mulheres que dariam tudo para estar em seu lugar. Você se lembra de como era sua vida antes de conhecê-lo? Olhe agora para você! Eu não te entendo! Sei que é uma ótima pessoa, minha filha, mas acho que está exagerando com essa bobagem, pense com carinho em tudo que sua mãe está lhe dizendo. Falo essas coisas para seu bem. Pedi a Jamal que me levasse até a varanda, fiquei sentada pensando no que Maria havia falado. Logo ouvi a voz de Abdul conversando com Maria, ele estava perguntando sobre mim. Ele veio até a varanda, perguntou como estava, disse que já estava melhor. Maria apareceu com uma bandeja de bolo e café. Abdul comeu, achou o bolo maravilhoso. Eu disse a ele que era bolo de tapioca, expliquei o que era, ele sempre muito atencioso, prestava muito atenção em tudo que ensinava sobre nossas comidas e nossos costumes. Ouvimos um barulho de rádios. – Imagine se não é meu querido pai chegando! Ele estava certo, logo a porta se abre e lá estava ele com um sorriso enorme no rosto. Caminhou até onde estávamos, me deu um beijo. – Adivinhem de onde estou vindo, meninos? Estava na Bahia, que cidade aconchegante, adorei! Perguntei como havia ido. – Ontem, o cônsul me ligou para saber notícias suas. Eu disse que você estava bem, que seria operada, e desta forma, eu havia perdido meu cicerone. Ele então me fez o convite, lógico que aceitei. Fomos ontem à noite, estou voltando agora. Amanhã, meus filhos, este velho vai voltar ao seu país. Meu povo precisa de mim, não posso ficar por muito tempo fora, mas adorei cada minuto que passei aqui. Você tinha razão quando falava da maravilha que é seu País, mas antes de ir, gostaria de te fazer um convite. Sei que amanhã irá voltar ao hospital para ver como está seu pezinho. Bem, eu gostaria que fosse junto com Abdul para nosso castelo. Irei cuidar pessoalmente de você, contratarei uma enfermeira e um terapeuta para ficar ao seu lado e ajudar na sua recuperação. Também gostaria que fosse para tirar aquela primeira impressão que teve de lá. O castelo só é usado por mim e por meu filho, nunca recebemos ninguém, você foi e será a primeira mulher a frequentar nosso reduto


particular. Espero que aceite, isso me fará muito feliz. Disse a ele que eu iria pensar. Maria havia posto a mesa, meu sogro era bom de garfo e comeu o resto do bolo e tomou um bule de café. Acabamos dando muita risada. Sentia que ele gostava muito de mim, pois já não fazia segredo disso, passava as mãos em meus cabelos, beijava meu rosto. Abdul começou a conversar com ele em árabe. – Abdul, por que não aproveita a carona e volta com seu pai? Deve estar cheio de trabalho e aqui não há nada que possa fazer, agora só depende de mim. – Está me mandando embora, Aretha? – Não, estou apenas preocupada com seu trabalho. – Não se preocupe, logo se livrará de mim, não irei agora porque assumi um compromisso com você, mais logo depois irei. – Não quero que se prenda por mim, Abdul, não tem compromisso algum comigo. Ele não respondeu, notei que ficou magoado. Despedi-me do rei e Abdul desceu com seu pai até a garagem, acho que deveriam ter assuntos apara discutir. Quando Abdul retornou, eu estava na sala, ele perguntou se queria ficar lá ou ir para meu quarto. Preferi ir para o quarto. Dei boa-noite aos meus amigos, ele me carregou até o quarto e me acomodou na cama. Sentou-se ao meu lado. – Quer dormir ou assistir aquele filme? Pedi que colocasse o filme. Cada vez que estava próxima de Abdul, eu sentia arrepios. Não conseguia estar tão perto dele sem sentir seu perfume. O contato da sua pele alvoroçava meus sentidos. No meio do filme, já estávamos abraçadinhos. Dormi em cima do peito dele. Como era bom ficar assim juntinho do seu corpo. Tentava esquecer o que ele havia me feito, mas ainda era quase impossível. Acordamos com a Maria batendo em nossa porta, estava na hora de levantar, pois essa manhã, eu tinha retorno ao médico. Abdul me carregou até o banheiro e saiu, Maria me ajudou com o banho. Era difícil tomar banho com o pé cheio de bandagens. Maria pegou um short jeans e uma camiseta para me vestir e em seguida, chamou Abdul. Ele me olhou de um jeito que congelei. – Está ainda mais linda, amor. Então, levou-me até a copa para tomar meu café e o remédio. Logo em seguida, saímos. Ao chegarmos no hospital notamos que não havia nenhum movimento na entrada, isso era bom, nem um repórter a vista. Fomos direto à sala do médico. Ele tirou as ataduras e meu pé ainda estava muito inchado. Ele explicou que era normal, pois ainda não havia feito 48 horas de operado. Examinou, olhou, apertou um pouco e eu me retraí de dor. Disse que estava cicatrizando muito bem, que continuasse com os antibióticos, e quando terminasse teria que voltar para ser analisada novamente. Perguntei se poderia usar outro tipo de curativo, estava me sentindo mal com o pé


enfaixado daquela forma. Ele me sugeriu uma bota, teria que ficar com ela o dia todo, só poderia tirar na hora do banho. Foi bem claro: – Sua recuperação só depende de você, o que eu poderia fazer, já foi feito. Não force seu pé tentando andar, e evite coloca-lo no chão até a próxima consulta, depois lhe direi o que deve fazer. Além disso, receitou-me uma pomada para massagear depois do banho. Saímos de lá mais confiante. Não via a hora de poder andar sozinha, sem incomodar ninguém. Chegamos em casa e expliquei para meus amigos tudo que o médico havia dito. Sentei-me no sofá e fiquei conversando com os dois. Abdul se aproximou e disse que teria que sair, pediu que Jamal ficasse atento. Almocei junto com Odair e Maria, depois Jamal me levou para o quarto. Maria me ajudou mudar de roupa, pois estava muito calor naquele dia. Odair havia dito que hoje não passaria sem chuva, e ele sempre acertava. Coloquei um vestido tomara que caia florido e me deitei, hoje meu pé não estava dando tréguas. Latejava e coçava. Acordei por volta das cinco horas da tarde, com Maria no quarto. Ela disse que Abdul já havia ligado três vezes, e que meu celular estava desligado. Liguei para Abdul, ele perguntou como estava, disse que bem. Ele todo feliz contou: – Acabo de fechar a compra de um apartamento na Barra, como me pediu. É um apartamento de dois dormitórios, mas muito charmoso. Também comprei uma perua escolar, mas essa só será entregue dentro de alguns dias. Ele me contou ainda que havia escolhido na Barra, pois se lembrou que eu havia dito que Odair trabalhava nos arredores, isso iria facilitar sua vida. Falou que estava a caminho de casa, dentro de meia hora no máximo estaria chegando. Quando desliguei, fiquei pensando em como eles iriam ficar felizes, isso mudaria demais a vida dos dois, mas eles mereciam mais do que eu, eram pessoas maravilhosas, viviam fazendo trabalho voluntário no grêmio e na favela, eram pessoas de caráter e de fibra, nunca tinha ouvido os dois reclamarem de nada, tudo estava sempre bom. Estava emocionada em saber que Abdul estava proporcionando uma vida mais digna aos dois, e isso para Abdul não significaria absolutamente nada, somente alguns barris de petróleo. Por essa razão, não tive escrúpulos em pedir isso a ele. Abdul entrou no quarto e notei que estava com cara de cansado, perguntei como havia feito tudo sozinho se não entendia uma palavra em português. – Tenho meus truques. Bastou algumas ligações ontem e hoje. Havia uma porção de imóveis para visitar, separei apenas os que se encaixavam ao perfil dos dois. Sei que você vai adorar. Jamal me deu todos os dados de Odair, e comprei no nome dos dois, pedi urgência na documentação. Acho que daqui alguns dias eles receberão a escritura.


Pegou do seu bolso as chaves e as balançou perto de meu rosto, arranquei as chaves da sua mão dando risada. Abdul estava realizando um sonho meu, comprando aquele apartamento aos dois. – Como vamos contar a eles? Isso poderá ser feito na hora do jantar, o que acha? – Ótima ideia, querida. Ele foi tomar banho, perguntou se eu gostaria de ir à varanda, disse que esperaria por ele, depois iríamos juntos. Como eu estava feliz, estava louca para ver a carinha dos dois. Chamei Maria, ela entrou no quarto achando que eu iria tomar banho, mas meu pedido foi outro, pedi que caprichasse no jantar, pois queria um jantar à luz de velas. Ela disse toda feliz: – Que maravilha, isso é para os pombinhos? – Não! Nós quatro iremos jantar à luz de velas. Ela deu um sorriso maroto e saiu. Abdul entrou, me pegou no colo, ele estava com aquele perfume que me deixava louca, seus lábios estavam tão próximos dos meus, mas agora não era o momento de perder o foco. Ele me levou até a varanda e logo começou a relampejar e trovoar. De repente, começou chover, estava caindo o mundo, como dizia Odair. Voltamos para a sala. A varanda era gostosa para ver o mar, não para ver relâmpagos e raios. Odair, que me conhecia tão bem, disse: – Fugindo dos raios, minha filha? – Você é um bruxo, falou que iria chover e aí está! Expliquei a Abdul o que estávamos falando, não gostava de vê-lo nos ouvindo falar sem entender nada. Abdul disse: – Não sabia que tinha medo de trovão e relâmpagos, achei que só tivesse medo de avião. – Não tenho medo. Isso é brincadeira de Odair. Odair me mostrou uma revista com uma propaganda da Disney. – Essa seria sua próxima viagem, não é, Aretha? Olhei a revista. – Você não esquece nada mesmo, como foi se lembrar disso? Traduzi para Abdul o que havia conversado com Odair, ele pegou a revista e começou a rir – Quer dizer que por de traz dessa carapuça de durona existe uma criança que adora Mickey e Pateta? Cada vez fico mais estarrecido com as descobertas que faço sobre você. Suas próximas férias seriam para Disney? – Por que este espanto, Abdul? É do tipo que acha que só crianças curtem brinquedos? Sou fanática por desenhos animados, já disse a você que gosto tanto que até choro. Sabia que fui com uma amiga assistir um filme da Disney? Chorei tanto no cinema que tive que por óculos escuros para sair,


minha amiga disse que eu estava ridícula, mas fazer o quê? Sou uma sentimentaloide mesmo. Contei a ele sobre minha ida ao cinema em São Paulo, e o quanto havia rido, por estar com dois seguranças e chorando por causa de um desenho animado. Abdul passou as mãos em meus cabelos. – Amo seu jeito, querida. Sabia que às vezes parece uma garotinha? – Isso é um elogio, caro príncipe, ou está tentando dizer por meias palavras que me acha uma ridícula? Ele me olhou com carinho, sabia que estava me elogiando, apenas quis brincar um pouco com ele. Abdul sabia que eu adorava desenho, sempre procurava colocar alguns filmes da Disney para assistirmos. Eu realmente chorava quando o filme era triste, principalmente quando havia perseguições com animais, como os 101 Dálmatas, A Dama e o Vagabundo. Essa era a Areta durona, mas isso era o que as pessoas que não me conheciam achavam. No íntimo, era romântica e sentimental, me emocionava com tudo, muitas vezes chorava só de olhar para o mar. Odair dizia que eu era uma manteiga derretida. Quantas vezes eu chorei ao ver uma criança pedindo comida? Por isso, ajudava como podia as crianças da comunidade. Maria dizia que era porque havia tido uma infância sofrida. Será que ela estava certa? Perguntei a Odair o que tinha de bom para nosso jantar? – Tudo que gosta minha filha: arroz, feijão, farofa, e aquela carne de panela que ama. Fui pessoalmente ao açougue comprar, sabe como Maria é exigente com a escolha da carne. Passava das oito horas da noite quando nos sentamos para jantar. Abdul comeu muito, adorou tudo, principalmente quando soube que era uma das minhas comidas prediletas. Depois do jantar, Maria trouxe a sobremesa. Um divino manjar branco coberto com ameixas em calda. Tínhamos cozinheira e copeira e isso ajudava muito Maria, assim ela só cozinhava e o restante ficava por conta das empregadas. A copeira trouxe o café e quando Maria se distraiu, Abdul me ajudou colocar as chaves em baixo de seu guardanapo. Ela serviu a todos, depois colocou um pouco de café em sua xícara. Ao puxar o guardanapo, as chaves caíram aos seus pés, ela as pegou, olhou e disse: – O que estas chaves estão fazendo na mesa, alguém esqueceu aqui? – Não, minha amiga, essas chaves são suas, esse é um presente do príncipe Abdul para o casal que mais amo no mundo. Eles não entenderam nada, Abdul resolveu falar, eu traduzi. – Senhor e senhora Silveira, tomei a liberdade de presenteá-los. Essas chaves são da sua nova casa. Considerem como um agradecimento por terem cuidado da minha princesa esses anos todos. Vocês foram e continuam sendo os pais que Aretha não teve. Resolvi dar a vocês um pouco mais de conforto, sei das dificuldades que passam. Fora isso, vocês merecem, são pessoas dignas e possuem


uma coisa que admiro muito no ser humano, que é a honestidade. Espero que seja do seu agrado. Odair, tomei a liberdade de comprar para você uma perua escolar novinha, e essa será só sua. Não me olhem desta maneira, não tem que me agradecer. Foi Aretha quem deu a ideia, só espero que continuem a cuidar da minha amada, porque essa mulher é a coisa mais importante que eu tenho. Quando for embora, sei que darão a ela muito apoio, o mesmo que têm dado até hoje. Não sairia daqui tranquilo se não soubesse que vocês estão aqui ao lado dela. Assim que terminei de traduzir, olhei para os dois, eles estavam abraçadinhos e chorando, quis me levantar para abraçá-los, mas me lembrei que não podia ficar em pé, mesmo assim, me debrucei sobre a mesa e os beijei. Eles estavam em estado de choque. Saímos da mesa e fomos para o sofá. Sentei-me no meio dos dois, e expliquei que o príncipe havia comentado comigo como poderia agradecê-los e eu sugeri os presentes. Eu sempre tive muita vontade de poder tirá-los da favela, mas não tinha como, mal conseguia me sustentar, mas agora era diferente, essa despesa não representava nada para Abdul, apenas alguns barris de petróleo, portanto, achei justo ele ajudar os dois que eram minha única família. Depois de muita conversa, Odair resolveu falar. – Olha, senhor Abdul, nunca passou pela minha cabeça que um dia conheceria um rei e um príncipe. Via só pela televisão e achava que todos eram excêntricos e cheios de fricotes, mas quando os conheci, vi o quanto estava enganado. Eu que peço a você para cuidar de Aretha, sei que um dia se acertarão e ela irá nos deixar, tenho pensado em como viver sem nossa filha branca. No entanto, sei que não há no mundo uma pessoa mais capacitada para cuidar dela do que o senhor. Maria se levantou, deu um beijo no rosto de Abdul, foi até a cozinha pegar um café para brindarmos. Ficamos conversando sobre a nova casa, pedi a eles para doarem tudo que tinham, pois fazíamos questão de comprar tudo novo. Era madrugada quando fomos dormir, acho que os dois nem dormiram, tamanha era a felicidade. Deitei-me ao lado de Abdul, que passou as mãos em meus cabelos. – Hoje descobri, sem querer, que minha amada adoraria conhecer a cidade dos sonhos. – Vê algum mal nisso, Abdul? – Não, acho bonito isso em você. Ficamos só abraçados, ele me respeitava, sabia que tinha que me dar mais tempo, ainda tinha pesadelos com ele na cama com outra mulher.


Capítulo Vinte e Dois Acordei assustada, Abdul não estava do meu lado. Olhei o relógio: 11h00 da manhã. Chamei Jamal pelo rádio, pedi que chamasse Maria, pois precisava tomar banho. Logo ela entrou no quarto, estava toda arrumadinha. – Aonde pensa que vai? – Estávamos esperando a senhora acordar. Senhor Abdul quer nos levar para conhecer o apartamento novo. – Não sem antes me ajudar a tomar banho. Tirei com cuidado a botinha, ela me abraçou, me apoiei em seus braços e fui pulando até o banheiro. Tomei um banho de gato para ser sincera. Ora eu sentava no banquinho, ora levantava ficando em um pé só. Voltei ao quarto pulando, peguei uma pantalona branca e um top roxo, Maria trouxe o espelho e saiu, passei um pouco de rímel e um batom. Abdul entrou no quarto, perguntei por que não tinha vindo me ajudar. – Você está querendo me testar? Não se testa um homem apaixonado, não consigo ficar assim tão próximo de você. Daqui para frente, Jamal se encarregará de levá-la e Maria te ajudará com o banho, não me peça para ser mais forte do que tenho sido. – Se for assim, não vejo necessidade de você ficar aqui. Pode ir embora, já dei muito trabalho e você deve ter muitos problemas para resolver em Nova York. Ele não respondeu, mas me pegou no colo e me levou para sala. Maria estava com pressa, meu café já estava na mesa, tomei rapidamente para não atrasá-los. Jamal me carregou até o carro, fomos falando sobre o tempo. Quando chegamos, Maria e Odair começaram a chorar. Jamal subiu comigo no colo, depois fui conhecer o apartamento pulando em um só pé. O local estava limpinho, era novinho, tinha uma vista linda, me afastei e deixei os dois conhecer seu novo lar. Abdul se encostou na parede e falava no celular, enquanto eu estava apoiada em um pé só na janela da sala. Em seguida, os dois vieram com um sorriso enorme. Me abraçaram tão forte que acabei perdendo o equilíbrio. Estava caindo quando Abdul me segurou com apenas um braço, enquanto conversava no celular. Ao desligar, disse: – Foi por pouco que não machuca o outro pé. Usou as duas mãos para me segurar direito e perguntei se Maria e Odair haviam gostado do apartamento. Maria respondeu: – Adoramos. Nunca na minha vida poderia me imaginar morando em um lugar tão bonito. Nem sabemos o que dizer, minha filha!


– Não digam nada, meus queridos, apenas aproveitem. Saímos deixando os dois. Enquanto esperávamos o carro, meu celular tocou. Olhei o número e não reconheci, mas mesmo assim atendi. Era de uma agência, queriam falar comigo sobre trabalho, avisei a eles que não era modelo, mas disseram que tinham uma oferta para fazer, e que pagariam o que fosse necessário para que posasse nua para sua revista. Pedi que mandassem tudo por escrito para meu e-mail, que naquele momento não poderia falar, então, passei meu endereço eletrônico e desliguei. No carro, Abdul perguntou com quem eu falava ao celular. Meio irritada, respondi: – Por acaso perguntei com quem estava falando quando me deixou sozinha com um pé só? Quando chegamos, Maria foi ver alguma coisa para comermos. Não parava de pensar no quanto Abdul estava diferente comigo, já não estava tão preocupado como antes, será que estava se cansando de mim? Se estivesse, bem que merecia. E quanto ao convite do seu pai, o que faria? O que será que Abdul estava falando ao celular e com quem? Aqueles pensamentos estavam me causando dor de cabeça. Pedi para meus amigos irem à loja de eletrodomésticos, escolherem o que gostassem e depois compraríamos tudo pela internet. Eles saíram por volta das quatro horas da tarde. Maria deixou um café fresquinho no fogão. Entrei na internet para ver meus e-mails, e havia uma proposta da revista Playboy. Imprimi e apaguei. Abdul deveria estar no quarto, pois depois do almoço, ele desapareceu. Eu não estava interessada em posar nua para nenhuma revista, mas tinha curiosidade em saber o que estavam me oferecendo. Levantei-me e fui pulando feito saci até a cozinha para pegar um café, enchi a caneca e fui pulando de volta à varanda. Tive um contratempo no caminho e derramei todo o café em mim e estava muito quente. Conclusão, queimei minhas pernas e meu colo. Jamal veio me ajudar, mas pedi que me deixasse sozinha. Parecia que tudo estava dando errado. O que havia feito da minha vida? Era uma pessoa feliz mesmo não tendo quase nada, e agora tinha tudo e não me sentia feliz. Por que não conseguia esquecer aquela cena? Por que não poderia passar uma borracha em cima de tudo como Maria me sugeriu? Estava perdendo meu homem. Será que Maria estava certa? Eu sabia que estava fazendo tudo errado com Abdul. Detestava quando as coisas saíam do meu controle. Agora era Abdul quem estava no comando. Eu estava humilhando ele demais ultimamente, nem sei como Abdul ainda estava ali do meu lado, talvez fosse por remorso, ele sabia o quanto aquela cena havia mexido comigo, deveria estar se sentindo muito culpado. Isso era ainda bem pior, imaginar que ele estava ali por pena, me fazia sentir raiva, não gostava que as pessoas sentissem pena de mim. Sentia tanto a falta do mar, de sair caminhando pela praia, de ir à quadra rever meus amigos, de voltar às minhas aulas, de poder tomar um banho daqueles em que se lavava a alma, de fazer amor com meu homem que estava tão próximo de mim, e, às vezes, eu o sentia tão distante. Fazia apenas


quatro dias que estava de molho, mas parecia uma eternidade. Olhei para minha roupa toda suja de café, e chorei, tinha que tentar esquecer aquela cena, aquilo estava me fazendo mal, e eu estava mostrando uma pessoa que não era. Às vezes, nem eu mesma me reconhecia. Sempre fui dócil e de bem com a vida, agora era um poço de mal humor e de egoísmo. Como um homem poderia mexer tanto assim com meu interior? Era um gigante na cultura, mas uma menina nas emoções. Levantei-me, agora a dor não era só em meu pé, mas também na minha consciência. Fui até a sala, fiz sinal para Jamal não me ajudar, precisava me virar sozinha. Afinal, tinha dois pés. Não poderia ficar esperando que as pessoas me ajudassem. Peguei meus cigarros e meu fone de ouvido, olhei por dentro do meu top, estava com a pele vermelha, olhei minha perna, também estava vermelha, havia me queimado com o café quente, mas já não fazia muita diferença. Me deitei com o fone de ouvido, não sei quanto tempo passou. Senti uma mão no meu braço, era Abdul. – Jamal disse que se queimou! Por que não me chamou? Estava resolvendo alguns problemas pela internet. Por que não deixou Jamal me chamar e muito menos te ajudar? O que está acontecendo com você? Está assim desde que se levantou hoje? – Não sei. – Me fale, Aretha! – Está tudo errado na minha vida. Não posso ir e vir, pois dependo de todos para me ajudar, nunca dependi de ninguém, me sinto um estorvo. Eu sinto falta da praia, do grêmio, dos meus amigos e de dar minhas aulas. Minha vida está de ponta cabeça, mal consigo tomar um banho, tenho saudades de ficar embaixo d’água, sinto falta de me arrumar. O que está havendo comigo, Abdul? Nem eu me reconheço mais. – Vamos resolver uma coisa de cada vez. Primeiro: onde se queimou? Meu colo estava vermelho, ele tirou meu top, depois tirou minha pantalona, minha perna também estava vermelha, estava só de calcinhas e ele ali tão perto. Abdul me levou até o banheiro, sentandome no vaso. – Farei você tomar um banho decente, acho que nisso posso ajudar. Ele tirou suas roupas, ficando apenas de cueca. Olhei para ele e vi que nos seus braços havia tatuagens. Não poderia ler, estavam escritas em árabe, e nem deu tempo de perguntar, ele me tomou nos braços, abriu o chuveiro, me colocou em pé, mas sem apoiar o que estava machucado. Seguroume pela cintura e ficamos os dois embaixo do chuveiro. Com uma das mãos, ele segurava minha cintura, e com a outra, passava esponja pelo meu corpo, delicadamente. Passei os braços em volta do seu pescoço para aliviar o peso da perna. Ele passou as mãos nos meus seios, barriga, e região íntima. Estava a ponto de explodir de desejo. Depois ele lavou meus cabelos, me colocando mais na


direção da água. O xampu escorria, e seus dedos acariciavam minha cabeça. Estava de costas para ele agora, com os braços em seu pescoço, sentia sua ereção e aquilo estava me deixando louca. Ele alisou novamente meus seios, passou a bucha em minhas axilas, voltou para minha cintura, depois para minha região pélvica, eu já não estava mais aguentando. Precisava dele para saciar meus desejos. De repente, ele abriu água fria. Levei o maior susto. Sabia que não poderíamos transar por causa do meu pé, mas foi um banho de água fria, literalmente. Então ele pegou a toalha para me secar. Ele sabia fazer isso como ninguém. Quando terminou, levou-me de volta à cama. – Serviço completo! Pegou uma calcinha e a colocou em mim, depois escolheu uma camisola preta e me vestiu, pegou o pente, penteou meus cabelos, deu aquela amassadinha que eu costumo dar. – O que mais deseja fazer, minha princesa? – Desejo que me beije. – Pode ser daqui à pouco? Estou todo molhado. Saiu do quarto e voltou com uma cueca preta e deitou-se ao meu lado... – O que havia me pedido mesmo? Agarrei-me a ele e nos beijamos. Abdul me beijava com fúria, estava a sua mercê, agora nada mais me doía. Outra vez ele me deu uma banho de água fria, quando se afastou. – Hoje serão apenas beijinhos, minha princesa está dodói. Que saco, justo agora que o negócio estava ficando bom, ele se lembra do meu pé? Mas, enfim, ele tinha razão. Abdul sentou-se nos pés da cama, passou a pomada e colocou a botinha, olhei para ele. – Que tatuagem é essa? Nunca teve tatuagem, o que está escrito? – Fiz em Nova York. Está escrito: “Aretha, amor de minha vida”, no braço esquerdo e, no direto: “Aretha, minha princesa”. Dei uma tremenda gargalhada, claro que não acreditei. Quem, em sã consciência, tatuaria essas palavras em seus braços? – Não acredita, não é? Foi até a sala, chamou Jamal. – Caro Jamal, dá para dizer a esta dama o que está escrito em meus braços? Jamal olhou e disse: – Neste está escrito: “Aretha, amor de minha vida”, e no outro: “Aretha, minha princesa”. Ele agradeceu e pediu que saísse, olhou para mim, rindo. – Agora acredita ou quer entrar na internet para ter certeza?


– Por que não me mostrou quando chegou? – Queria te fazer uma surpresa na hora certa. – E essa hora foi certa? – Não. Gostaria que tivesse sido diferente, que você dissesse que me amava e que havia me perdoado, mas tive que me adiantar pelo estado deplorável pelo qual se encontrava. Dei um beijo em sua boca e depois em suas tatuagens. Adorava homens com tatuagens, principalmente se era eu a homenageada, ainda mais naqueles músculos fortes. Abdul me abraçou. Sua voz estava meio rouca. – Me diga o que eu quero ouvir, Aretha. – Ainda não posso, te amo demais. Hoje no chuveiro me deixou quase louca, mas depois me deu um banho de água fria, literalmente, mas sei que fez isso porque estou com o pé machucado. – Não! Eu fiz isso por mim, pois já estava a ponto de cometer uma loucura, mas preciso antes de tudo ouvir da sua boca que me perdoou. Sem isso, acho que vai ficar alguma coisa mal resolvida, e eu não gosto de coisas mal resolvidas. Ele se deitou ao meu lado, me virei, fiquei bem próxima do seu rosto. – Me perdoe, ainda não consigo olhar para você sem me lembrar daquela cena. Deitei-me no seu peito. – Não fuja de mim durante à noite, fique comigo. ─ Falei beijando seu peito. Acordamos no dia seguinte, e nos beijamos, adorava aquela boca, ele disse que iria me levar para dar uma volta na praia, mas que eu não poderia entrar na água, concordei com a cabeça. Ele pegou um biquíni, olhou. – Tem certeza que isso entra em você? Parece coisa de bebê! Tirou minha camisola, me colocou o biquíni e pediu que eu esperasse. Voltou de bermudas e camiseta regata, estava lindo, nunca tinha visto meu homem vestido assim. Dei um tremendo assovio, seus braços, as tatuagens, a bermuda: era o conjunto perfeito para mim. Ele me carregou até a copa, tomamos café, ele brincou. – Cuidado, agora está seminua. Se deixar cair café, vou apenas limpar com o pano, banho agora, só com Maria. Maria não entendeu, mas achou que estávamos muito felizes. Ele me levou no colo até a areia, me sentou colocando uma toalha em baixo do pé machucado, explicando que na areia haviam muitas bactérias e eu estava com corte que ainda não estava cicatrizado. Depois sentou em uma cadeira, ficamos juntinhos vendo o mar. Duas horas depois, voltamos para casa. Mudei de roupas e fui escolher com Maria os eletrodomésticos pela internet. Cada coisa que via, comprava, mas antes perguntava a Abdul.


– Compre tudo que quiser, sabe que tem passe livre para uso do seu cartão. Maria se sentia envergonhada de estar fazendo Abdul gastar tanto dinheiro com eles, dizia que não precisava de tanto, tinha muitas coisas em sua casa que daria para aproveitar. Como sempre, ela estava mais preocupada com os preços. Abdul estava no computador, deveria estar trabalhando. Comprei o que ela havia gostado, mas sempre ouvindo as mesmas coisas. – Isso não precisa, filha, o meu ainda está bom. Como se eu não soubesse há quanto tempo ela tinha aqueles utensílios domésticos. Depois fomos almoçar. Maria me perguntou discretamente se havíamos feito as pazes, respondi que havíamos feito em frações, ainda faltava a parte maior e essa ele teria que esperar. Depois do almoço, fomos descansar um pouco, ele continuava no computador, perguntei o que estava fazendo, disse estar fechando um negócio muito importante para o rei, coisas de milhões de euros. Achei melhor não atrapalhar aquela magnífica transação, peguei um livro e me lembrei da folha que havia impresso. Fui até a varanda pulando e fui ler o e-mail. Estavam me oferecendo muito dinheiro, achei que fosse trote, ninguém fazia fotos para Playboy com um cachê tão alto. Tinha que mostrar para Odair. Dobrei o papel, não queria que Abdul visse, pois era somente uma curiosidade da minha parte. Uma hora depois, ele apareceu na varanda. – Resolvido, acabo de fechar um grande negócio. – Meus parabéns! Estava com medo de perguntar, mas precisava fazê-lo. – Pretende ir para Nova York quando? – Depende de você. Vai aceitar o convite de meu pai? – Estou tentada a aceitar, o que acha? – Acho que não irá se arrepender. – Na sua próxima consulta falamos sobre isso com o médico. Faltam dois dias para terminar meus antibióticos, isso quer dizer que daqui a menos de quatro dias ele irá embora. Meu Deus! Eu não posso permitir que ele vá, tenho que me resolver logo. Então, virei-me e comecei beijar sua tatuagem. – Está com a Síndrome de Narciso, querida? Está beijando seu nome, gosta tanto assim de você, Aretha? – Não, gosto de você. Não beijo meu nome, beijo seus músculos. – Sei bem o que está querendo, quero ainda muito mais que você, mas antes, preciso ouvir o que tem a me dizer.


Mais um banho de água fria. Agora ele está tentando se vingar. Peguei minha folha dobrada e fui mancando para o quarto, ele veio atrás irritado. – Por que faz isso, Aretha? Não sabe pedir ajuda? Não respondi, melhor assim, ou diria algo que me arrependesse depois. Deitei e dormi. Quando acordei, ele não estava. Coloquei uma saída de banho e fui pulando para a sala. Estava escuro, perguntei às horas, Odair disse que eram 19h00 e iríamos jantar às 21h00. Perguntei onde estava Abdul, disse que ele estava falando no celular, sentei na sala e mostrei para Odair aquele email. Ele leu. – Caramba! Isso é muito dinheiro, será que não erraram nos zeros? Que pretende fazer? Sabe que Abdul jamais concordaria com isso. – Abdul não é meu dono, Odair, se achar que devo, claro que as farei. Quantas entidades acha que ajudaríamos com todo esse dinheiro? – Muitas, minha querida, muitas. – Vamos analisar essa proposta com mais atenção, quero que investigue isso para mim. Estou achando muito dinheiro, também. Desde que me levantei, percebi que estava com uma íngua na perna esquerda, Maria olhou e disse que eu deveria parar quieta, tinha de fazer repouso, falou que eu estava forçando a outra perna. Quando Abdul veio ao meu encontro, disse a ele o que Maria havia dito, ele concordou com ela, falou que eu não chamava ninguém para me carregar, Jamal estava ali para me servir, mas eu como sempre, queria fazer tudo sozinha, não gostava de pedir nada a ninguém. Fiquei magoada com a forma que ele falou comigo. Esse não era meu Abdul. Fui para o quarto e deitei-me, logo ele veio atrás, perguntando se não ia tomar banho. – Vou, mas preciso de ajuda. Quer me ajudar? – Você está mal intencionada? Sabe que quase morri ontem, precisei até de uma ducha de água fria. Você está tentando me seduzir, mas sabe o que eu quero ouvir de você. Ele me levou ao chuveiro, mas desta vez ficou de cueca e não tirou meu biquíni, olhei para ele. – Está com medo de mim, senhor príncipe? –Não diria que é medo, mas sim, precaução. Tirei a parte de cima do biquíni, depois a parte de baixo. – Está brincando com fogo, Aretha! Pegou a toalha, me enrolou e me colocou na cama, e logo depois saiu. Enxuguei-me sozinha, peguei uma roupa qualquer e me vesti. Uma hora depois, Maria entrou para avisar que iria servir o jantar. Falei que não iria jantar e que mais tarde, eu comeria uma fruta. Tirei a roupa e vesti um pijama.


Acordei, já era madrugada, ele estava ao meu lado, me aproximei e me encostei em seu peito. Como era bom ficar assim com meu amor. Sentia tanto sua falta, porque as coisas tinham que ser assim? Acordamos cedo, hoje teria que ir ao médico no final da tarde. Levantei-me bem devagar para não acordá-lo, quando estava quase com meu pé no chão, senti sua mão apertando meu braço, ele se levantou e me deixou no banheiro. Quando abri a porta, ele me pegou novamente, me levou até a copa e foi tomar banho. Maria e Odair haviam ido ao apartamento novo para receber as coisas que havíamos comprado.


Capítulo Vinte e Três Meu amor voltou, estava lindo, agora estava vestido com uma calça jeans clara, saruel, e uma regata rosa. Olhei para ele, mas não disse nada, tomamos café, depois ele me levou até a varanda para fumar. Esperou que apagasse o cigarro e perguntou onde gostaria de ficar, disse que ficaria na sala, a arrumadeira estava limpando nosso quarto. Ele me sentou na sala, disse a ele que aceitaria o convite do seu pai. Então ele me passou o celular. – Diga isso a ele você mesma, foi ele quem fez o convite, portanto, é a ele que deve dizer se vai ou não. Liguei, dizendo que iria aceitar seu convite, mas antes, teria que perguntar ao médico. Notei que ele ficou feliz. Ficamos de conversar depois, para acertar minha ida. Ele disse que mandaria seu avião, assim eu iria mais confortável. Desliguei, passei o celular para Abdul, logo depois ele chamou Jamal e pediu que cuidasse de mim, pois teria que sair. Fiquei curiosa e perguntei onde iria, já que ele não conhecia ninguém na cidade. – Vou receber o carro do Odair, ele vai se encontrar comigo na agência. Ele saiu sem sequer me dar um beijo, fiquei na sala até a arrumadeira sair, depois pedi a Jamal que me levasse até o quarto. Abdul estava diferente comigo, agora era eu que estava sendo castigada. Isso não era justo, pois foi ele quem me traiu. Fiquei no quarto o dia todo, e nada deles chegarem. Estou com o saco cheio de tudo isso. Olhei as horas, eram 16h30min e precisava me arrumar, tinha médico às 17h30min. Me arrumei e chamei Jamal pelo rádio, já estávamos atrasados para consulta. Quando saímos, não havia ninguém na sala, eu estava aos cuidados de Jamal, ninguém se lembrou que eu tinha médico. Ele me ajudou a entrar no carro, aproveitei para perguntar sobre seu Sheik. Jamal disse que ele ainda não havia voltado, só Maria e Odair haviam chegado, mas saíram logo em seguida. Estou mesmo jogada às traças. Chegamos ao hospital, Jamal me levou no colo até a sala do médico, porque tinha degraus demais. O médico olhou meu pé, disse que estava cicatrizado muito bem, mais alguns dias e eu poderia começar a fisioterapia. Como meu remédio já havia terminado, ele me passou só um para dor, caso houvesse. Olhou minha virilha depois que comentei sobre a dor, e ele disse que não era nada. Falou que era comum quando se forçava demais uma perna para poupar a outra. Aproveitei para perguntar se poderia viajar, pois estava pensando em ir ao Kuwait nos próximos dias. Então ele me passou tudo que deveria pedir para o fisioterapeuta fazer e me deu uma lista de remédios que eu deveria levar. Saí do hospital com Jamal me carregando. No caminho, passamos na farmácia para comprar os remédios. Ele estacionou o carro e pediu para Lieser ficar comigo. Comprou tudo que era necessário,


depois paramos em uma loja para comprar um par de muletas. Agora só poderia andar com elas. Até achei melhor, assim evitaria ficar pedindo que me levassem de um lado ao outro. Claro que eu deveria começar devagar, pois nos primeiros dias iria sentir muita dor nas axilas. Com o uso das muletas também poderia dar um descanso para perna esquerda. Jamal percebeu minha frustração, Abdul não havia chegado a tempo para me acompanhar e nem havia ligado. Jamal já me conhecia muito bem, todas às vezes que precisava, ele estava ali à minha disposição, percebia que fazia isso por prazer e não por obrigação. No caminho, fiquei pensando em uma maneira de acabar logo com tudo aquilo, Abdul estava passando dos limites comigo. Será que ele nunca se colocou em meu lugar? Os homens eram todos iguais. Se fosse ao contrário, ele já estaria bem longe de mim, mas ele achava que eu tinha que perdoá-lo. De que me adiantava um homem apaixonado e galinha? Preferia ficar sozinha a ter que engolir goela abaixo aquela traição. Agora me veio a cabeça que eu deveria aceitar aquela proposta da Playboy, dessa forma, daria o troco a Abdul em grande estilo, e ainda ajudaríamos muitas crianças carentes. Odair sabia de todas as dificuldades das crianças das favelas, pois estava sempre participando das reuniões que eram promovidas pelos grêmios, e esse dinheiro poderia ser bem empregado. E não seria por conta de algumas fotos que iria deixar de ajudar a comunidade, conversaria com Odair à noite, e que se danasse Abdul. Ele não teria que dizer nada, pois estava queimado comigo, ainda. Não era meu marido e pensando melhor, acho que nem meu noivo era mais. Quando estávamos voltando para casa, o celular de Jamal tocou, notei que ele falava com Abdul, ele me passou o celular, Abdul perguntou se eu estava bem e pediu desculpas por não poder ter me acompanhado, disse que tinha passado a tarde toda no consulado, resolvendo alguns probleminhas para o rei e não podia parar para fazer ligação, era uma reunião muito importante a portas fechadas, mas que já estava a caminho. Disse a ele que não se preocupasse. Desliguei e devolvi o celular para Jamal, meia hora depois, entrei na sala carregada por ele, que me colocou no sofá. Na sala estavam Maria com Odair e Abdul, expliquei já meio sem paciência o que meu médico havia dito. – Por que foi com essa roupa tão decotada e curta ao hospital? Poderia ter cruzado com algum jornalista! – Vestida como? Não vejo nada de errado na minha roupa. Não me aborreça com essas bobagens, já deu para perceber que não estou muito bem hoje, se quer arrumar encrenca comigo, vou lhe dar um belo motivo para isso. Levantei-me do sofá, pedi a Jamal que me desse as muletas. – Está chateada por que a deixamos ir sozinha ao médico? ─ Disse Abdul me olhando. Olhei para os três.


– Chateada por ir sozinha? Não, sou uma pessoa sozinha. Odair, me dê aquele e-mail, estou inclinada a aceitar. Estava indo para quarto, Maria disse: – Filha, já vamos servir o jantar. – Não vou jantar, vou para quarto, estou com dor de cabeça. Entrei, tirei minhas roupas me equilibrando nas muletas, pelo menos agora poderia fazer minhas coisas sem depender tanto dos outros. Fui até o banheiro, abri o chuveiro e fiquei embaixo de muletas. Adorava sentir a água caindo pelo meu corpo. Estava tão distraída, que não vi quando Abdul entrou. – Quer ajuda com o banho? – Não, obrigada, já estou me virando bem sozinha. – Sabe que não fiz de propósito, não deu mesmo para estar aqui para levá-la ao médico. Por que age desta forma? Por que não diz logo o que preciso ouvir? Por que é tão rancorosa? Precisa tirar isso de dentro do seu peito, isso está lhe fazendo mal. Desliguei o chuveiro, estava puta, me enrolei na toalha, ele estava me provocando com aquela conversa. – Que diabos está falando? Não aguento mais ouvi-lo falar a mesma coisa. Vê se me erra, Abdul. O que entende de rancor, caro príncipe? Já lhe fiz uma vez essa pergunta e me lembro perfeitamente de sua resposta, mas vou fazê-la novamente: o que faria se entrasse por essa porta e me visse deitada com outro homem? – Eu os mataria! – Bravo! Chegou aonde eu queria. Por que você continua respondendo a mesma coisa e só eu tenho que mudar e riscar da minha memória o que vi? Acha que não foi o bastante? Se coloque pelo menos uma vez em meu lugar. Ele ia falar, mas não permiti. – Abdul, saia deste quarto, preciso ficar sozinha, eu já tenho a resposta que precisava. Ele saiu. Me enxuguei, coloquei uma camisola branca de renda, me deitei de barriga para baixo. Estava tentando arrumar outra posição para dormir, de lado já estava me deixando com dor nas costas. Maria entrou. – Filha, quer conversar um pouco? – Não, quero ficar sozinha. Me desculpe pelo que disse na sala, mas estou apenas precisando ficar só. Peça a Odair para trazer aqui o e-mail que pedi. Ela saiu, continuei deitada na mesma posição. Logo Abdul entra e pergunta se estou mais calma, sem me virar, disse:


– Preciso que me deixe em paz. – Amanhã ficará livre de mim, estou voltando para Nova York, tenho muitos assuntos para resolver por lá. Você vai para o castelo? – Você não disse que o convite era de seu pai, só dele, então quando eu resolver ir, é com ele que devo falar. Quanto a você voltar para Nova York, agradeço o tempo que perdeu comigo, desejo que faça uma ótima viagem. – Só isso que tem para dizer ao seu homem? – Não, quero também comunicá-lo que farei fotos para Playboy, assim que melhorar meu pé. Boa noite. Ele não se conformou, pegou meu braço, me virou com raiva. – Como pode falar comigo dessa forma! Está me mandando embora da sua vida? E que conversa é esse de tirar foto nua? Está querendo acabar com minha reputação? – Não, Abdul, não tenho essa pretensão, não sou sua esposa e muito menos sua noiva, portanto, faço da minha vida o que quiser. Quanto à sua outra pergunta, digo que já o mandei embora da minha vida naquela noite que o vi com outra mulher na sua cama. Agora entenda como quiser, sei que esperava ouvir outro tipo de resposta, mas esta não posso dar. – E tudo que vivemos não conta para você, Aretha? – Conta, conta muito, mas não tenho estrutura para aguentar, acho que jamais confiarei em você novamente. Fui a Nova York tão cheia de sonhos, estava louca para te dizer que havia tomado a decisão de largar tudo para ficar ao seu lado. Tive que convencer Jamal e Lieser a mentir, não dizer a você que estávamos indo, queria muito te fazer uma surpresa. Nem passei mal no avião, tamanha era minha expectativa. Você não tem ideia do quanto sofri quando abri aquela maldita porta. Não imagina como entrei naquele avião na volta. Ainda assim se acha no direito de me cobrar? Nunca se colocou em meu lugar! Para você é muito fácil falar, não foi você quem me viu na cama com outro homem. Em relação às fotos, não há nada que possa fazer para me impedir. – Isso é nosso fim então, querida. – É! E leve seus seguranças com você, daqui para frente estarei sozinha como sempre estive. – Aretha, você está brincando com fogo, não seria capaz de fazer aquelas fotos só para me provocar! – Pior é que seria, não tenho mais nada a perder, meu caro príncipe, mas não estou pensando em você, minha prioridade é ajudar as crianças do grêmio, só por elas farei estas fotos. Sou uma mulher livre e dona do meu nariz. Eu quero fazer uma limpeza na minha vida e começarei por você e por seus seguranças; no mais, te eximo de qualquer responsabilidade. E não se preocupe, sou muito insignificante para ser sequestrada ou sofrer algum atentado. Agora, boa noite. Eu preciso dormir.


– Não faça isso comigo, está me magoando, sei que a fiz sofrer muito, mas o que está fazendo comigo é pior que traição, está arriscando sua vida e a minha, se acontecer alguma coisa com você, sabe que não aguentarei. Me deixe ficar ao seu lado essa noite? Eu preciso sentir seu calor, pois amanhã irei embora. Você está me expulsando da sua vida, acha isso certo, Aretha? – Sinto muito, Abdul, mas essa é minha última palavra. Ele saiu batendo a porta. Mal conseguia dormir, será que havia pegado pesado demais com ele? Ainda iria me arrepender por ter dito tudo aquilo. Eu não era assim, sempre fui uma pessoa calma, de bem com a vida, Abdul havia interferido até no meu humor, nem eu me aguentava quando ficava assim. Este episódio com Abdul havia despertado coisas em mim que nem eu nem sabia que um dia sentiria, era um misto de ódio e de amor. Quando acordei pela manhã, peguei minhas muletas e fui para sala de camisola, tomei café e fui à varanda fumar. Vi quando ele saiu do quarto, ele não levava mala, apenas seu notebook. Abdul tomou apenas um cafezinho. – Será que poderíamos conversar? Fomos para o quarto, pela cara dele não era boa coisa, pois ele estava tenso demais. – Diga que sonhei, que você não disse nada daquilo ontem. Não pode fazer aquelas fotos e muito menos ficar sem seus seguranças. Não me peça para matá-la, Aretha. Se fizer o que me disse, serei obrigado a matá-la antes de ir embora. Por que não consegue me perdoar? Já lhe dei tantas provas do meu amor, que mais quer que eu faça? – Mate-me, Abdul, só assim se sentirá melhor, porque a partir do momento que cruzar aquela porta, não me verá nunca mais. Ele me abraçou e começou a chorar, afaguei seus cabelos. – Sei que logo arrumará outra mulher, nosso relacionamento já começou errado, jamais daria certo. Não o culpo por isso, você é um homem bonito, rico, lógico que jamais ficará sozinho. Quanto a mim, só quero minha liberdade de volta. Não posso perdoá-lo, traição para mim é a pior coisa que pode acontecer entre um casal. Amo você, isso não posso negar, mas perdoar é outro coisa. Quanto aos seguranças, não os quero mais ao meu lado, isso não tem lógica, mas fique tranquilo, nada de mal irá me acontecer, logo todos esquecerão que fomos um casal. Quanto às fotos, eu as farei por uma boa causa, estão me oferecendo muito dinheiro e preciso dele para ajudar muitas entidades. Depois falarei com seu pai. Não sairei mais do Brasil, quero retornar ao meu trabalho. Sinto muito, Abdul. Ele me abraçou. Estava completamente abalado. – Não sairei daqui sem antes nos acertarmos, não posso ficar sem você, diga que me ama, estou precisando ouvir isso. – Amo você, Abdul, amo mais do que gostaria, sei que minha vida não terá mais sentido sem você


ao meu lado, mas não vejo saída para nós dois. Você me cobra uma coisa que não posso te dar, nem sei se um dia poderei esquecer o que vi naquele quarto. Ele se deitou em minha cama, ficou em silêncio, me aproximei do seu rosto e o beijei, ele se virou e encostou a cabeça em meu peito. – Acaba de me sentenciar a morte, não viverei sem você, também não tenho coragem de matá-la, mas sou capaz de tirar minha vida por você. Sem você ao meu lado nada faz sentido, minha vida acabou, Aretha. Acariciei seus cabelos, afaguei seu rosto, beijei seus lábios e me deitei ao lado dele. – Me perdoe, amor, não queria que sofresse tanto por minha causa. Se isso alivia seu coração, deixe os seguranças aqui, depois veremos o que fazer. Diga que me ama, Abdul, e que está arrependido do que me fez. Ele me beijou com paixão, não consegui aguentar, meu amor era maior que qualquer coisa. Precisava arrumar uma forma de tirar aquela imagem da cabeça, era aquilo que estava me bloqueando, e mudando até meu comportamento. Eu mesma não gostava desta Aretha rancorosa, mas em contrapartida, Abdul era o homem da minha vida e não iria perdê-lo. – Vá cuidar das suas coisas, eu ficarei aqui te esperando. E fique tranquilo que não farei nada sem seu aval. Vou mandar um e-mail para a revista e vou desistir das fotos, faço isso por nós dois, mas nunca mais me peça para dizer o que ainda não posso. Você precisa ir agora ou perderá seu avião. –Não irei mais embora hoje, vou amanhã. Hoje quero ficar o dia todo com você. Ele falou no rádio com Jamal, pediu que remarcasse sua passagem para o dia seguinte. Ficamos em silêncio por meia hora, depois ele beijou minha testa. – Quer dar uma volta na praia? – Não, quero ficar aqui com você, quero que me ame sem questionamentos. Ele tirou sua roupa, depois tirou minha camisola e começou me beijar. Seus beijos eram molhados e perturbadores demais. Como eu tive coragem de dizer tudo aquilo ao meu amor? Maria estava certa, eu perderia Abdul por causa de minha teimosia e do meu rancor, jamais poderia ter dito tudo aquilo. Olhei para ele. – Abdul, perdoe-me, não tinha a intenção de feri-lo tanto, mas ainda me dói demais pensar que me traiu. Ele estava irresistível, sua boca quente, seu coração descompassado. Ele beijava meu corpo todo, sentia que ele estava desesperado, eu a ponto de morrer de tanto amor. Seu toque me deixava nas nuvens, suas mãos delineavam os contornos do meu corpo, me fazendo arrepiar de tanto prazer. Sua língua passeava pela minha boca, era como uma dança erótica. Não conseguia parar de olhar para ele e de pensar no quanto ele me fazia feliz. Nossos corpos tinham uma química perfeita. Cada toque,


cada beijo, era como se fosse o primeiro. Beijei seu corpo todo e fiz isso com delicadeza. Sabia do que ele gostava. Abdul me puxou para o pé da cama, trancei minhas pernas ao redor do seu corpo e me ofereci a ele. Era só isso que estava querendo naquele momento, precisava dele dentro de mim. Queria poder sentir seu pênis pulsando entre minhas pernas. Ele me penetrou com carinho e logo pegamos um ritmo mais intenso. Como era bom estar assim com ele. Já fazia muito tempo que não tínhamos intimidades, mas agora não queria pensar em mais nada, só nele dentro de mim. Ele beijava meus seios, os mordiscava, enquanto suas mãos passeavam pelo meu corpo. Estávamos no auge. Ele acelerou os movimentos e gemeu pronunciando meu nome, foi uma descarga elétrica como jamais havia sentido. Ele se deitou ao meu lado. Abdul estava diferente, me apertava em seus braços, ele estava com medo de me perder, sabia que o que tinha feito, não tinha volta, desta forma teria que ter muita paciência comigo. Ficamos abraçadinhos por um longo tempo. Ele pegou no meu queixo. – Aretha, estava falando sério quando disse tudo aquilo? – Sim, estava. Eu não posso mentir para você, Abdul, há dias venho pensado nisso, mas não adianta, minha cabeça me diz uma coisa e meu coração outra. O que fez comigo, meu amor? Estou tão vulnerável, sinto tanto medo. Ele me pegou no colo e me levou ao banheiro. Abriu o chuveiro, tomamos banho juntos, ele me olhava, sentia tristeza em seu olhar, nos beijamos, senti sua virilidade aumentado e tomando um volume que me pôs louca. Acabamos nos amando novamente. Abdul virou-me de costas para ele e me apoiei na parede, abrindo as pernas, ele segurou a perna do pé machucado elevada, enquanto me penetrava por trás. Chegamos ao auge juntos, ele era um homem irresistível. Arrumamo-nos e fomos para a sala. Maria estava atenta a tudo, Odair havia deixado o e-mail na mesa, pois não quiseram nos incomodar, li para Abdul. – Acha isso muito dinheiro, querida? Seu corpo exposto na revista vale muito mais que isso, eu te darei o dobro para você ajudar as entidades, mas prometa que não fará essas fotos! Abracei Abdul, ele estava inseguro. – Amor, não quero que me dê nada, mas fique tranquilo, não farei as fotos, te dou minha palavra. Ele me beijou, ficamos na varanda, Jamal veio falar com Abdul, disse que havia conseguido uma passagem para as 3h30 da manhã. Abracei Abdul. Essa era a pior hora para nós dois, mas tinha que ser assim. – Como gostaria de ficar mais alguns dias aqui com você, querida, não quer ir comigo para Nova York? Depois iremos para o castelo. – Não, amor, sei que tem muito trabalho, em Nova York e não quero atrapalhá-lo. Também tenho


que começar a fisioterapia, mas vá tranquilo, esqueça tudo que eu disse. Você demorou tanto para encontrar uma mulher e acabou trombando com uma que vale por mil, não sei como me aguenta, meu amor. Ele me abraçou bem forte. – Você é a mulher que eu procurava. Para mim, é perfeita, entendo agora porque está tão magoada, e não direi mais nenhuma palavra sobre você me perdoar, darei a você o tempo que quiser, mas nunca mais fale aquelas coisas horrorosas. Se me deixar, não terei mais razão para viver. Ele me pegou no colo e me levou para o quarto, ficamos deitados juntinhos, ele afagava meus cabelos e nos beijávamos. – Preciso saber umas coisas que não saem da minha cabeça, mas quero que seja sincero comigo, Abdul, mesmo que sua resposta me doa, quero a verdade. Com quantas mulheres me traiu? Ele olhou dentro dos meus olhos. – Só aquela vez, juro a você que foi a primeira e a última. Acredita em mim? – Acredito, mas tenho outra pergunta: Você nunca havia visto aquela mulher antes? – Nunca, estava bebendo, ela se aproximou e ficamos conversando sobre você. Eu te juro que não me lembro de como a levei para casa, depois disso, nunca mais a vi. Acredita em mim, Aretha? – Sim, acredito. Há mais uma pergunta, preciso da sua sinceridade. Como foi sua noite com aquela mulher? Fez amor com ela como faz comigo? Você a beijou como beija a mim? Sentiu o mesmo prazer que sente quando faz amor comigo? – Por que isso? Não gostaria de falar sobre isso com você. – Mas quero saber tudo, Abdul, só assim poderei aquietar meu coração. – Já disse a você que estava bêbado, sei que transei com ela, me lembro vagamente de tê-lo feito, mas não posso contar detalhes, pois eu mesmo não me recordo. Agora vamos esquecer tudo isso, querida. – Não, Abdul, diga o que quero saber agora! – Não a beijei na boca e não senti o que sinto quando faço amor com você, apenas transei como se transa com qualquer outra mulher, sem paixão. Se não consigo me lembrar é porque não foi importante, não acha? – É muito difícil imaginar que tenha feito com ela o que faz comigo. Quando penso nisso, fico com muita raiva de você. Não posso imaginá-lo beijando outra mulher e muito menos fazendo amor, isso me dói demais. – Não pense, querida, não poderia fazer com ela o que faço com você porque você é a mulher que eu amo, é a mulher da minha vida. Não sabe como sofro em pensar que fiz isso com você, quando penso na sua carinha abrindo aquela porta, tenho vontade de acabar com minha vida.


– Amor, esse assunto morre aqui, jamais falaremos sobre isso novamente, quero que me beije e diga que me ama. – Amo você mais que tudo nesse mundo, Amira. Ficamos o dia todo no quarto, só saímos para jantar, depois fizemos amor novamente. Meia-noite, Jamal chamou Abdul para levá-lo ao aeroporto. Peguei em seu rosto. – Amor, estava falando sério quando disse que me mataria? Ele pegou seu revólver, colocou-o na cintura e confirmou: – Estava, minha querida, mataria você e a mim também, não posso imaginar minha vida sem você, agora entende o quanto a amo, Aretha? Abraçamo-nos, ele me deu um beijo delicioso e fomos para sala. Ele falou com Jamal, se despediu dos meus amigos, se aproximou de mim e disse: – Aretha, tem certeza que ficou tudo esclarecido? Não fará nada que possa se arrepender mais tarde? – Fique tranquilo, ficarei comportadinha aqui. Beijamo-nos novamente, disse que entraria na internet para falar com ele no avião. Quando ele saiu, senti um aperto enorme no peito, ele estava indo embora e eu não podia fazer nada. Chorei muito. Porque tinha que ser assim? Coloquei o celular para despertar às 4h00 da manhã, queria falar com Abdul pela internet.


Capítulo Vinte e Quatro Dormi até o despertador tocar, abri meu notebook, lá estava ele e senti que estava triste, acho que não havia acreditado no que eu tinha dito. Ficamos conversando bastante, passava das oito horas da manhã, quando nos despedimos. Maria me avisou que teriam que ir ao apartamento novo para receber o restante das coisas. Deixou comida pronta para a camareira me servir. Coloquei meu biquíni, chamei Jamal pelo rádio, pedi que preparasse o carro, iríamos à praia do arpoador. Desci com minhas muletas e Jamal me ajudou entrar no carro. Quando chegamos, procurei uma pedra para sentar, gostava muito dessa praia, tinha uma paisagem linda, muitas pedras e várias pessoas pescando. Fiquei por um bom tempo olhando o mar. Chamava muito atenção das pessoas, acho que era porque me conheciam da avenida ou dos jornais. Ultimamente saía em muitas revistas ao lado de Abdul e do rei. Todos já se referiam a mim como a princesa do Kuwait. Aquela tranquilidade, aquele sol que logo daria lugar ao frio, estava me fazendo bem. Estiquei a canga na areia e fiquei tomando sol. Por volta das duas horas da tarde, voltamos para casa. Estava sozinha, tomei banho, pedi para camareira me servir o almoço, depois fui até a varanda. Maria chegou sem Odair, disse que passaram o dia todo no apartamento, mas ainda faltavam entregar algumas coisas. Ela veio na frente, estava preocupada comigo. – Filha, o que vale tudo que estão nos dando, se não vejo felicidade em seus olhos? Não quer conversar um pouco? Quem sabe se desabafando, as coisas se tornam mais leves? Deitei-me no colo dela. Estava mesmo precisando de um colo. – Estou muito feliz por vocês dois, minha amiga, mas eu realmente não estou bem, sinto que estou perdendo o amor da minha vida, e não foi agora, foi quando o vi com outra mulher na cama. Maria, eu não consigo esquecer, é muito mais forte do que eu, achava que o tempo se encarregaria de apagar, muito pelo contrário. Quando olho para Abdul, vejo aquela cena perfeitamente, devo ter algum trauma de vidas passadas, pois não admito traição. Ela como sempre, muito generosa e carinhosa, começou acariciar meus cabelos e disse: – Sei exatamente o que está sentindo, já passei por isso com o Odair. Olhei para ela: – Nunca soube disso, nunca me contou. – Não contei, porque isso também me faz mal, por isso entendo perfeitamente o que sente, mas amava e amo demais meu marido, sei que foi só uma pisada de bola, ele ama só a mim, portanto, o perdoei. Também não sabia viver sem ele, até agora não me arrependi de ter passado por cima do meu orgulho, ele tem se mostrado esses anos todos que é um homem honesto e sincero. Será que você


não tem que rever seus conceitos? Tente pensar de outra forma, pois quem está perdendo mais com tudo isso, é você. Abdul é um homem bom, hoje não se encontra mais homens como ele, não o perca por causa dessa besteira, já passou, pense no quanto ainda poderão ser felizes. Sabia que ela tinha razão, por que será que eu não conseguia mudar minha postura? Pedi licença a ela, disse que iria para o quarto. Me deitei e fiquei pensando nas palavras de minha mãe, estava perdendo a coisa que mais amava nesse mundo, um homem gentil, carinhoso, romântico, companheiro e lindo. Como eu poderia viver sem ele? Fazia algumas horas que ele havia partido e eu já estava morrendo de saudades, sentia falta do seu perfume, da sua pele, dos seus beijos, dos seus abraços fortes, mas teria que esperar um pouco, pois ele mal havia saído. Esperaria alguns dias e ligaria para meu sogro, diria que já estava pronta para ir ao castelo. Não iria suportar viver sem meu amor. Naquela noite, custei muito a pegar no sono, tive que fazer malabarismo para conseguir dormir. Acordei de madrugada, chorei compulsivamente, fui para sala e me deitei no sofá. Precisava tirar aquilo de dentro de mim, estava sufocada, Jamal sentiu minha presença, logo apareceu na sala, disse que Abdul havia ligado, perguntado sobre mim. Até ele estava compadecido do meu sofrimento. – Meu Sheik a ama muito, trabalho para a coroa kuaitiana há mais de dez anos, nunca vi o rei tratar uma mulher como trata a senhora. Sabia que ele mal falava com as mulheres? A senhora conquistou seu coração e do Sheik Abdul. Esse, eu nunca o vi acompanhado por nenhuma mulher, sempre ia às festas e recepções sozinho, mas quando a conheceu, mudou, agora é um homem mais risonho, a senhora faz muito bem a ele. Aliás, se me permite, gostaria de fazer um comentário. A senhora é uma mulher bonita por dentro e por fora. Cativa qualquer pessoa, eu mesmo sou seu fã de carteirinha, como dizem os cariocas. Dei um sorriso, agradeci a ele: – Sabe, Jamal, você tem sido para mim não um empregado, mas um grande amigo, está comigo há muitos meses e sei exatamente o que represento para você, pois me prova isso a cada dia, tenho por você muita ternura, sei que está querendo me ajudar, mas será que mereço tanta lealdade? – A senhora merece; pela senhora, dou minha vida, assim como daria a Allah. – Não sente solidão, não gostaria de ter uma mulher? – perguntei curiosa. – Penso nisso todos os dias, senhora, mas, trabalhando, não tenho tempo para isso. – Sabe, Jamal, tenho uma amiga na quadra que gosta muito de você, quem sabe se eu der um empurrãozinho vocês não se acertam? A menos, é claro, que você queira namorar apenas mulheres do seu país. Ele ficou todo envergonhado. Deu um sorrisinho. – Adoro as mulheres brasileiras, senhora, vocês são mais alegres e mais bonitas. Quanto à sua amiga, sei de quem está falando, acho que namoraria sim, com ela, se ela me quisesse, é claro.


– Claro que ela quer, Jamal, vou ligar para ela e marcar para vir me visitar, vou dar o dia de folga para você levá-la a um lugar romântico, mas isso já é com você. E não se preocupe, não sairei de casa. Se Abdul ligar, diga que está me acompanhando em algum lugar. Vou ajudá-lo, quero vê-lo feliz. Tudo combinado, na manhã seguinte já tomei minhas providências, estava mesmo disposta a ajudar Jamal e convidei Alice para me fazer uma visita. Quando Alice chegou, contei a ela o porquê do meu convite, ela ficou envergonhada, mas aceitou, estava de olho em Jamal já havia algum tempo. Pedi que falasse com ele devagar, pois ele estava aprendendo ainda nossa língua. Os dois saíram, fiquei torcendo para tudo dar certo. Jamal precisava encontrar alguém, era uma pessoa especial, inteligente e viajada. Eu sabia que ele não era como os homens do seu país. Pelo contrário, ele dava valor às mulheres e as respeitava. Alice merecia tudo de bom, era uma ótima pessoa, mas tinha o dedo meio podre para escolher namorados, já estava na hora de ajudar alguém a ser feliz, já que não poderia ajudar a mim mesma. Passei a tarde toda separando as roupas que poria na mala para ir ao castelo. Quando Maria me chamou para o jantar, perguntou de Jamal, contei a ela sobre meu plano, ela adorou, disse que iria ajudar, pois tinha muito carinho por Alice e Jamal. Ficamos tramando outro encontro, Abdul não poderia desconfiar de nada, por isso tinha que ficar em casa, não poderia correr nenhum risco andando sem meu guarda-costa. O primeiro encontro deu tudo certo, Jamal adorou a companhia de Alice, disse que ela era a mulher que ele sempre sonhou, carinhosa, divertida, humilde e sincera. Olhei para ele. – Onde a levou, Jamal? – Eu a levei há um bom restaurante, depois ela que me levou para uma roda de samba. Ela samba muito bem, claro, que não é como a senhora, mas para mim está ótimo. Combinamos de nos falarmos amanhã. – Que ótimo, Jamal. Quer dizer que você já estava de olho em Alice? Eu sabia que Alice estava de olho em você, porque ela mesma havia me confidenciado na quadra. A pobre vivia me fazendo perguntas. Vou torcer para que se entendam, você é um homem especial, Jamal. Te acho bonito, inteligente e sensível, sou uma pessoa privilegiada em tê-lo ao meu lado, sei que daria sua vida por mim e não sabe como lhe agradeço por isso, confio demais em você, tem tido muita paciência com essa sua patroa. Sabia que muitas mulheres gostariam de estar no lugar de Alice? Três dias depois que Abdul havia voltado para Nova York, liguei para meu sogro, disse que uma semana depois, ele poderia mandar me buscar, teria muito prazer em ficar hospedada em seu castelo por alguns dias. Ele adorou, queria que eu fosse antes, mas já havia começado minha fisioterapia em casa, uma semana era o tempo que eu precisava. Ele falou que no próximo sábado o avião estaria à


minha disposição. Perguntou se eu havia falado com seu filho, disse a ele que não. – Que pena, Aretha, vocês tem que se acertar. Abdul vive recluso em seu apartamento, trabalha o dia todo, dorme cedo e não saí de casa. Ele está sofrendo muito com tudo isso, minha filha! Eu não gosto de ver meu menino triste. Por que não liga para ele e conta que estará aqui na próxima semana? Disse a ele que ligaria. No domingo, Jamal me levou à praia, depois foi buscar Alice. Eles estavam se entendo muito bem. Convidei Alice para almoçar conosco, e depois do almoço poderiam namorar à vontade em casa. Maria iria ficar em seu apartamento para deixar os dois sozinhos. Tranquei-me no quarto e liguei para o celular de Abdul, ele atendeu com uma voz sonolenta, pedi desculpas por tê-lo acordado, e já me veio à cabeça aquela desconfiança: “Será que estava dormindo sozinho?”. Ele perguntou se eu estava bem e como estava meu pé. Disse que bem, estava fazendo fisioterapia, contei que havia conversado com seu pai, e iria para o castelo no próximo sábado. Percebi pela mudança de voz que ele havia gostado, pediu para que ligasse mais vezes, gostava de ouvir minha voz. Prometi que ligaria, mas tive que dizer o que estava sentindo, não poderia mentir para Abdul. – Não leve a sério o que vou dizer, mas quando atendeu, tive a nítida impressão que estava com uma mulher. Como eu posso viver assim, amor? – Estou sozinho, ligue seu computador, já estou online. Ele estava deitado no sofá. O que eu estava fazendo com meu amor? – Acredita que estou sozinho, querida? Veja, não há ninguém aqui. Mostrou-me o quarto, conversamos mais um pouco e desliguei. Ouvi uma batida na porta, quando abri, era Alice. Pedi que sentasse. Notei que ela estava querendo conversar. – Vim falar com você em meu nome e em nome de Jamal. Estamos muito felizes juntos, está sendo muito gentil e muito amiga, sei que está pondo em risco sua pele para nos proporcionar esses momentos. Estou apaixonada por ele, sempre tive uma simpatia muito grande por Jamal. Se lembra que eu sempre queria saber da vida dele? Fazia mil perguntas para você. Depois do carnaval, vocês deram uma sumida, algumas vezes os via na praia e meu coração vinha à boca, acho que isso só pode ser amor. Ele também diz sentir por mim algo muito diferente, sei que também está começando a me amar. Olhei para Alice, ela era uma moça bonita. Morena, cabelos afros, corpo bonito. Eu sabia que sua vida não havia sido fácil, era uma pessoa sozinha, assim como eu. Claro que eu estava fazendo a coisa certa. – Não fiz nada demais, apenas uni o útil ao agradável, sei quem é você, nos conhecemos há alguns anos, e sempre foi uma boa moça. Jamal é um homem especial, portanto, acho que fiz o que era certo e não me deve nada por isso, fico feliz em saber que estão se entendendo. Só lamento ter que afastá-


los por alguns dias, sábado estaremos indo para o Kuwait, sinto muito ter que separá-los justamente agora que estão tão apaixonados. – Que nada, Aretha, isso só irá apimentar nosso relacionamento, estamos vivendo um conto de fadas, esses dias não nos separarão, já estamos até fazendo planos. Jamal disse que quando você for morar em Nova York, ele me levará para morar com ele. Aretha, sei que para você posso falar, ele tem uma pegada que pelo amor de Deus... – Vocês já...? – Claro, desde o primeiro dia. Temos uma química perfeita, na hora, ele me faz subir pelas paredes, acho que é do sangue árabe. – Tenho certeza, Alice, meu amor é igualzinho. Quando me toca, ouço sinos, vejo borboletas, carneirinhos, eles sabem como deixar uma mulher louca, é muito diferente dos homens daqui. Abdul é o melhor amante que uma mulher poderia ter, digo isso de carteirinha, estamos juntos faz algum tempo e a cada transa, ele me surpreende mais. Se é da etnia, não sei, o que sei é que estou a cada dia mais apaixonada. Somos mulheres de sorte, querida, temos homens carinhosos e estamos apaixonadas. Demos muitas risadas, pedi que aproveitasse bem essa semana, para depois aguentar os sete dias de separação. Ela poderia vir todos os dias em minha casa, depois do trabalho, para namorar com Jamal. Claro que eu não sairia de casa, não poderia dar sorte ao azar. Ela me deu um abraço e voltou para os braços do seu amor. Era bom fazer outras pessoas felizes, principalmente quando essa pessoa era Jamal, ele era meu companheiro há meses, a cada dia o admirava mais, além de inteligente, era solicito e amoroso para com Odair e Maria. Já comigo, nem tinha palavras para descrevê-lo, nem precisava falar nada, ele parecia ler meus pensamentos. Me lembro perfeitamente do seu desespero quando surpreendi Abdul com outra, e tenho certeza que se não fosse o Sheik, ele teria partido para cima dele. Jamal me defendia de tudo e de todos, apesar de trabalhar para coroa, ele era meu amigo, sabia que poderia contar com ele para tudo. Durante o dia, Jamal me levava para fazer compras, íamos à praia, mas à noite, ele era de Alice. Foi a única forma que encontrei de não separar o casal. Lieser sabia dos encontros de Jamal, mas era também a favor do namoro. Um dia, no carro, perguntei a Lieser se não estava com saudades da sua família, claro que Jamal foi meu intérprete. Lieser não entendia uma palavra em inglês. Ele disse que estava louco de saudades dos seus filhos e da sua esposa, e que se falavam por telefone quase todos os dias. Pedi a Jamal para dizer que estávamos embarcando no sábado, que quando chegássemos ao castelo, ele estaria de folga por sete dias, para ficar com sua família. Ele não sabia como me agradecer, sabia que o príncipe fazia todas as minhas vontades. Liguei para meu amor só dois dias depois, não queria criar muitas expectativas em torno do nosso


recomeço. Conversamos sobre diversas coisas, disse a ele que no Rio já estava fazendo muito frio, ele perguntou quantos graus, disse a ele: – Está frio pra burro, hoje deve estar uns 17 graus. – Abaixo de zero? – Claro que não! Ele deu uma gargalhada: – E isso lá é frio? – Aqui, quando está muito frio, é 17 graus abaixo de zero. Perguntou por que eu não havia ligado antes, disse a ele que estava dormindo cedo, a fisioterapia me deixava cansada, além do mais, odiava frio. Ele quis saber se eu já havia arrumado a mala, disse que sim, falei que estava levando a joia que seu pai havia me dado, não confiava deixar em nosso apartamento, ele concordou comigo, falamos também sobre Maria e Odair, da felicidade deles, eles iriam tomar conta do apartamento até eu voltar. Desliguei, mas antes prometi, ligar na sexta-feira, véspera da minha viagem. Na sexta-feira, fomos pela manhã à farmácia, precisava comprar alguns remédios para levar, depois fomos ao apartamento novo dos meus amigos. Estava ficando uma graça, Maria estava adorando decorar seu cantinho. Agora estava hospedada no meu apartamento, e só iria para o seu quando eu voltasse de viagem. Havia alugado sua antiga casa para uma casal de amigos. Tudo estava perfeito. Eu já estava com tremedeira em pensar que iria ter que passar a noite toda dentro de um avião. Fui cedo para cama, no sábado, ainda tinha alguns detalhes para resolver. Caminhar com aquelas muletas estava acabando comigo, agora minha perna já não doía, mas em compensação, minhas axilas doíam para burro. Ainda teria um bom tempo para ficar com elas, não conseguia ainda por o peso do corpo no pé operado. Naquela noite, falei com Abdul, disse que já estava nervosa, ele pediu que eu deixasse o computador ligado que iríamos conversando, brincou dizendo que dava autorização para eu apertar a mão de Jamal. Nos despedimos, pensei: “Será que tenho algum trauma de vidas passadas? Porque desta vida tenho certeza que não é”. Nunca havia entrado em um avião até quatro anos atrás. Estava até pensando em fazer terapia, não era normal meu comportamento. Conhecia muitas pessoas que tinham medo de viajar de avião, mas sabiam se comportar, ficavam um pouco tensos, mas depois relaxavam. Já eu tinha sintomas indefinidos, ora suava nas mãos, outras tinha tremedeira, até falta de ar já havia sentido, realmente tinha sérios problemas com qualquer tipo de aeronave. Acho que jamais faria uma viagem sem sentir qualquer tipo de neurose. Quando estava com Abdul, a coisa ficava um pouco mais amena. Ele, coitado, tentava me distrair de todas as formas. Me beijava, fazia cafuné, falava coisas bonitas. E isso só fazia amenizar, mas sabia que no fundo minha cabeça


continuava com todos aqueles delírios. Agora que havia me viciado no anestésico popular, conseguia relaxar uns 20%, se continuasse me embebedar para viajar, iria acabar adquirindo um cirrose hepática, o que seria pior: Ter uma cirrose ou deixar que meus delírios me levassem à loucura? Boa pergunta, diria isso ao meu possível terapeuta. Chegou a hora de embarcar, Maria e Odair foram nos levar ao aeroporto, ele insistiu que fôssemos em sua perua nova, queria mostrar o quanto era espaçosa. Claro que os seguranças não aprovaram a ideia, sabiam que só poderiam sair comigo em carros blindados, mas ao mesmo tempo, era perto e não poderíamos fazer essa desfeita a Odair. Quando chegamos, Jamal já entrou em contato com a guarda do rei e fomos direto para o avião. Entrei, Jamal guardou nossas malas, e disse-me: – Será que terei que ter aulas hoje de português? – Ainda não sei, tudo vai depender do meu estado. Ele sorriu e se sentou. O piloto veio falar comigo. – Será um prazer levá-la ao Kuwait, espero que façamos uma ótima viagem. O rei pediu que cuidasse muito bem da princesa. A senhora é muito importante para a coroa real. Sorri, mal sabia que eu me sentiria mal até com Tom Cruise ao meu lado. Tentei de todas as formas evitar tomar uísque, pois depois daquele pileque, essa bebida já não descia muito bem, mas preferia ficar bêbeda, ruim do estômago, a sentir o medo que estava sentindo. Quando o Avião começou decolar, Jamal perguntou se eu gostaria que ele se sentasse ao meu lado, disse que não, teria que me acostumar. Bem, rezei, fechei os olhos e me benzi. Logo o avião já estava no ar, Jamal se levantou e disse: – Hoje se comportou como uma Lady. – Não sabe o esforço que tive que fazer para me comportar como tal. Peguei meu notebook, acessei a internet, chamei Abdul, ele já estava na espera, estava ansioso, perguntou como eu estava, disse que havia sobrevivido a mais uma batalha, ele perguntou: – Quantas doses de uísque precisou para vencer essa batalha? – Nenhuma! Ele bateu palmas. – Está progredindo, já está voando a seco, isso merece uma comemoração. Pegou um copo de uísque e bateu na tela do seu computador. Disse a ele que não tinha com que brindar. – Então é sério que não tomou nada? – Não foi por falta de vontade, mas depois daquele pileque, uísque já não faz parte da minha carta de bebidas.


Ele então me sugeriu tomar vodca. – Vossa majestade está tentando me induzir a beber? Está tentando me embriagar? – Claro que não, só quero tornar sua viagem mais confortável. – Será confortável se continuarmos conversando. – Então, seu vício sou eu. – Pode considerar isso como elogio, meu amor. Ele disse que o clima estaria ótimo no castelo, perguntei se ele iria me ver qualquer dia, ele deu uma gargalhada. – Como pode me fazer esta pergunta? Estava contando os dias para vê-la! Eu já estou aqui, meu amor! Estou te esperando. Fiquei louca de ouvi-lo falar comigo daquele jeito. Ele sugeriu que eu deitasse um pouco. Assim o tempo passaria mais rápido. Aceitei sua ideia, pois tinha dormido muito mal na noite anterior. Deitei e me conectei novamente com ele. Falei brincando: – Sabe onde estou? – Claro, onde te levei às estrelas. – O senhor é muito convencido e pretensioso, como sabe que me levou às estrelas? – Sei quando a faço feliz, não consegue me enganar nesse quesito. Ficamos conversando, logo me deu um sono... – Não desligue, durma que vai te fazer bem, mas me deixe ficar te olhando. Coloquei o computador ao meu lado, ele disse que estava bem centralizado, dormi como um anjo. Acordei com Abdul me chamando, olhei para cama, estava sozinha, lembrei do computador. Abdul estava rindo. – Quero comunicar que acaba de pousar, minha princesa, e eu já estou no hangar te esperando. Caramba, que dormida! Levantei, desliguei o computador, olhei no espelho e dei uma arrumada nos cabelos. Estava com um vestido branco, que realçava minha pele morena. Coloquei minhas sapatilhas e peguei as benditas muletas. Jamal apareceu na porta. – Está realmente de parabéns, senhora. – Jamal, como estou? – Linda como sempre, minha senhora. Agradeci com um sorriso, logo descemos. Quando vi Abdul, meu coração disparou. Ele estava lindo, vestia uma calça branca e uma camiseta azul clara. Quando me viu, veio ao meu encontro, entregou as muletas para Jamal e me pegou no colo. Girou comigo, não parava de rir. – Que mulher corajosa, pensei que fosse dar mais trabalho, mas precisa me contar o que tomou.


– Nada, já disse, pergunte a Jamal, você me acalmou como sempre. Ele me colocou no carro e saímos em direção ao castelo. No carro, perguntei a Jamal: – Onde está Lieser? – No carro de trás, senhora. – Chame-o pelo rádio e diga que está livre para ver sua família, você entrará em contato para dizer que dia ele deverá retornar. Abdul não estava entendendo nada, expliquei a ele. – Você nasceu para ser princesa, minha querida, quem mais poderia se preocupar com os seguranças? Você fez muito bem. Quando chegamos ao portão de entrada, um filme me passou pela cabeça, pois foi exatamente naquele lugar que eu havia batido em Abdul, quando vi que meu carro havia sido arrombado. – Sei em que está pensando, pensei a mesma coisa ontem quando cruzei este portão. Ao entrarmos, vejo meu sogro correndo em nossa direção, com aquele sorriso que lhe era peculiar, me deu um beijo na testa. Parecia uma criança. – Quero que se sinta em sua casa, use e abuse de tudo e de todos, espero que goste do quarto que mandei reformar a toque de caixa para poder recebê-la do jeito que merece.Ele se abaixou, olhou meu pé. – Está muito melhor que dá última vez que a vi, suba para descansar da viagem, nos veremos no jantar. Abdul me levou para o quarto, não era o mesmo que havia estado da última vez, era enorme, muito bem decorado. Abdul tirou minhas sapatilhas, olhou meu pé e deu um beijo, achei seu gesto lindo. Jamal entrou com minha mala, colocou no closet, quando saiu, Abdul perguntou: – Quer tomar um banho? Esses meses são de muito calor em toda a Arábia. Disse que adoraria. Ele me carregou até o banheiro, quando entrei, não pude acreditar, a banheira era enorme, todos os metais dourados e com passarinhos coloridos adornando a volta toda da banheira. – Que lindo esse banheiro! – Meu pai o reformou para recebê-la. O que fez com os homens dessa família, meu amor? Meu pai sempre tão indulgente com as mulheres, mas com você parece uma criança. Ele saiu, tirei a roupa e abri o chuveiro e deixei a água escorrer pelo meu corpo. Maria sempre dizia que a água limpa o corpo e a mente, pura verdade, pois quando ficava assim, me sentia mais leve. Estava tão distraída que nem vi Abdul entrar, ouvi apenas sua voz. – Quer que eu tome banho com você ou que eu só fique te olhando? Agora não iria deixar passar, já havia perdido muito tempo.


– Tome banho comigo? Ele tirou a roupa, ficou só de cueca, entrou no chuveiro comigo e ficou na mesma posição que havia ficado no banheiro do nosso apartamento, quando me deu banho. Começou a passar a mãos em meus seios, depois em minha barriga, suas mãos escorregaram para o meio das minhas pernas, me deixando louca. Depois ele começou a beijar meus ombros e pescoço. Apertou meus seios novamente, eu estava em êxtase. Ele tirou a cueca e começou a roçar em mim, estava me deixando alucinada. Percebendo minha respiração ofegante, me pegou no colo e me levou para cama, estávamos molhados, mas quem se importava? Abdul beijava e acariciava meu corpo inteiro. Como ele sabia fazer aquilo tão bem? Lembrei-me de Alice falando de Jamal, com certeza era o sangue árabe, ele estava me deixando maluca, mas sabia exatamente a hora certa de me possuir. Primeiro deixava meu sangue fervendo, para só depois, me possuir. Não dava para explicar o que sentia quando estava nos seus braços. Sentia meu corpo formigar e minha parte íntima latejava. Eu queria ele por inteiro e pedi suplicando que me possuísse naquele momento. Para meu amor, a penetração não era tão importante, quanto às carícias, sabia me fazer sentir coisas que jamais imaginei sentir antes. Senti uma onda de calor e uma corrente elétrica percorrerem minha espinha. Acabamos juntos, com ele pronunciando palavras desconexas. Depois ficamos abraçados. Olhei pra ele e me lembrei do dia que o conheci naquele lago. – Amor, faça aquela cara amarrada, aquela que fez para mim quando estava mexendo em minha mala. – Por que isso agora? – Só para me lembrar de como estava quando me apaixonei por você. Ele ficou com o rosto sério, não movia um músculo, beijei-o: – Como consegue isso? Sabe que essa cara não combina com você, agora relaxe essa musculatura do rosto e dê aquela gargalhada que tanto amo! – Mas tem cada uma, Aretha, conte uma piada que eu darei quantas gargalhadas quiser. Comecei a fazer cócegas em Abdul, ele detestava, depois mordi seus lábios com força. Me levantei e fui tomar banho. Coloquei um macacão curto verde e quando voltei ao quarto, ele continuava deitado. Olhou-me dos pés a cabeça. – Essa cor combina com seus olhos, querida! Ele foi tomar banho e depois deitou-se ao meu lado. Disse que havia pedido muito a Allah para me trazer de volta inteirinha para ele, que eu era a coisa mais importante da sua vida. Depois perguntou quando eu iria morar em Nova York com ele, porque agora não iria mais conseguir ficar longe de mim. Como se eu fosse conseguir. – Onde estava esse tempo todo, meu bem? Por que demoramos tanto para nos encontrar? Sei que


não perguntou, mas vou te dizer mesmo assim. Amor, eu confio em você assim como confio em mim mesma. Não sei se o que fez foi consciente ou inconsciente, mas isso não importa mais, o importante é que estamos juntos e nada nem ninguém poderá nos separar. Amo você mais que tudo, sei que também me ama, pois sinto isso a cada toque seu, pertencemos um ao outro. Me perdoe por ter sido tão dura com você, quase provoquei nossa separação. Como conseguiu me perdoar? Acho que merecia um castigo por ter sido tão intolerante, agora sei que posso confiar em você, mas, por favor, troque tudo daquele quarto, mude tudo de lugar, não pode exigir que ao entrar em seu quarto, eu não vá me lembrar do que vi. Nós nos beijamos ardentemente, ele sabia beijar como ninguém, aliás bastava encostar em mim para eu me incendiar. Ele pegou minhas muletas com uma mão, com a outra, me pegou em seus braços. Para facilitar, enrosquei minhas pernas em sua cintura e descemos, ele me levou até o jardim. Estava muito florido, todo colorido, o perfume era inebriante, a mistura dos aromas dava um toque especial ao ambiente. Nos sentamos, ele acendeu um cigarro para mim e outro para ele. Poxa, eu havia induzido Abdul a fumar. – Seu pai irá me odiar, eu o viciei na nicotina e ainda o inspirei a fazer duas tatuagens com meu nome. – Aretha, não sou um garoto que precisa dar satisfação de tudo que faço ao meu pai. Eu caminho com minhas próprias pernas, meu relacionamento com meu pai é muito liberal, portanto, não se sinta culpada, ele te adora, nunca havia visto meu pai falar com uma mulher como fala com você, ele te admira e te respeita, como conseguiu essa proeza? Conquistou os dois homens mais temidos de toda a Arábia, ainda os dois homens da mesma família, só você, minha querida, para tamanho poder. – Abdul, tenho algo para lhe contar. Ajudei Jamal a conquistar uma namorada. Ele deu uma tremenda gargalhada, que até me assustei. – Me conte esta história direito. Contei a ele com todos os detalhes. Ele nem piscava. – Só você, meu amor, para ter uma atitude tão humana. Eu fui criado no meio de muitos empregados, nunca os vi como você os vê, agora conquistou mais um admirador. Você nasceu para ser princesa, só uma princesa para pensar dessa forma em seus súditos, acho que vou nomeá-la como advogada de meus funcionários, terá muito trabalho, pois são muitos. Ficamos abraçadinhos até a hora do jantar. Para variar, a mesa estava farta, nos sentamos, meu sogro me elogiou. – Minha filha, hoje está ainda mais bela, o descanso da tarde lhe fez bem, ou se não foi o descanso, mudo minhas palavras, meu filho lhe fez muito bem. Essa cor realça seus olhos. Onde está o colar que lhe dei de presente, aqueles de esmeraldas?


Disse que estava no cofre de Abdul, o de diamantes estava na minha mala, agradeci pelo quarto maravilhoso. – Não deu para deixá-lo melhor, princesa, o tempo era muito curto. Depois do jantar, nos sentamos na sala para tomar café, ele sempre com seu narguilé do lado, e se lembrou do que eu havia dito quando tomei aquele pileque, começou a rir. – Não posso oferecer a você, porque, conforme suas palavras, o narguilé lhe fez mal. Abdul o interrompeu. – Sabia que ela viajou sem tomar uma gota de álcool? Aquele pileque serviu para alguma coisa, pelo menos. Bati nas mãos de Abdul. – Por que diz isso? Por acaso me considerava uma alcoólatra? – Claro que não, mas você estava exagerando muito, estava bebendo mais do que eu e meu pai. Olhei para meu sogro que estava rindo. – Será que posso chamá-lo de sogro? – Me chame como quiser, de sogro, de pai, de rei, do que achar melhor! – Acho que o chamarei de sogro, é mais charmoso. Sabe, meu sogro, eu te adoro, adoro seu sorriso, sua meiguice, sua forma de me tratar, como diz Abdul, consegui fisgar os dois homens da família. Ele sorriu. – Faço de suas palavras as minhas. Se lembra quando estava com febre? Estava na cabeceira da sua cama, quando abriu os olhos, me cativou. Pensei, como uma mulher com esses olhos verdes lindos poderia ser uma espiã? Veja, agora faz parte da minha família, e pela família, faço tudo, portanto, daria minha vida a você. Levantei-me e o beijei no rosto. Não era comum uma mulher beijar um membro da coroa no rosto. – Gostei dessa moda, daqui para frente, só cumprimentará seu sogro assim, esteja onde estiver, este será nosso brasão, selo oficial da coroa. Ele se despediu e nós subimos. Abdul me ajudou tirar a roupa. Fui pegar minha mala, já não estava no mesmo lugar, perguntei a Abdul. – Olhe dentro do closet, a arrumadeira deve ter guardado para não amassar. Quando abri o closet, estava abarrotado de roupas, abri as gavetas, muitas blusas, calcinhas, pijamas, sapatos, bolsas. Chamei Abdul, e ele com aquele sorriso que eu amava. – São todas a sua cara, agora já conheço seu gosto e os costureiros também, deixei todos malucos, queria comprar o que lhe agradasse, mas se houver alguma que não seja de seu agrado, poderemos trocar em Nova York quando estiver comigo.


– Trouxe tudo isso de lá? – Claro, comprei sem pressa, cada dia comprava um pouco. Aproveitei que viria no avião do meu pai, e fiz isso antes que ele saísse para apanhá-la. Depois pedi para arrumadeira guardar, separando por cor, como você faz. Dei-lhe um beijo. – Meu homem tem muitas qualidades, além do bom gosto, ainda é curioso. Quer dizer que prestou atenção em como guardo minhas roupas? Coloquei uma camisola linda, todinha de renda transparente, rosa bebê. – Está linda em você. Viu como já conheço seu gosto? – disse ele com um sorriso. Pegou-me no colo, me jogou na cama, tirou minha camisola e começou me acariciar. Abdul me conhecia, sabia cada detalhe do meu corpo que me dava mais prazer. Quando estávamos juntos, nos amávamos sem reservas. A maneira como me possuía era inebriante, ainda teria muito que aprender com meu homem. Cada vez que tocava meus seios com a boca, eu ficava alucinada. Quando colocava o dedo dentro da minha abertura molhada, ele sorria, de ver minha cara de satisfação. Não tinha um lugar do meu corpo que ele não beijava e aquilo era bom demais. Não conseguia me segurar muito porque ele me deixava louca. Pedi que me possuísse e assim, acabamos juntos. Perguntei como conseguia segurar tanto seu orgasmo, se era muito treinamento, e ele deu risada. – Não tenho tanto treinamento como pensa, guardei o que tinha de melhor para uma pessoa especial, por isso emprego a técnica do meu povo para te dar o prazer máximo, isso é importante para nós homens. Gosto de ver em seus olhos quando explode de prazer. Contei para Abdul o que Alice havia comentado a respeito de Jamal, ele teve um acesso de riso. – Não deveria ter me contado isso, como poderei olhar para Jamal sem pensar nesse comentário? Dei um tremendo beliscão nele. – Está proibido de falar, rir ou insinuar qualquer coisa a Jamal. Ele me abraçou, perguntou se estava feliz, disse que nunca havia estado tão feliz em toda minha vida. Nos abraçamos. – Aretha, quer se casar comigo? – Claro, meu amor. Já me sinto sua mulher, casamento é só uma burocracia, o importante é o que sentimos, sou sua mulher e você é meu homem. – Sei disso, mas conosco terá que ser diferente, teremos que nos casar conforme nossos costumes, afinal, meu pai é o rei e eu sou seu sucessor. Faremos uma festa para a Arábia toda, nossos súditos merecem essa comemoração. Sabia que eles já te adoram? Amanhã iremos à cidade e você verá pessoalmente o que estou dizendo. Querida, isso não vai machucar, será apenas uma festa, faça isso por mim e pelo meu pai que te adora.


– Vou pensar, mas antes, quero todos os detalhes de como é essa festa. Ele prometeu me explicar como seria nosso casamento, disse que não precisava ser agora, poderíamos ir vendo com calma. – Você já está arrependida de ter aceitado omeu pedido? ─ ele falou me beijando. – Claro que não, seu bobo, só preciso saber em que mina estou pisando. Dormimos abraçadinhos. No dia seguinte, ele me levou ao lago onde havíamos nos conhecido, fiquei tão emocionada, que acabei chorando ao me lembrar como tudo aconteceu rápido demais. – Não chore, isso foi obra de Allah, ele colocou você aqui naquela tarde. Sabia que eu nem deveria estar aqui naquele dia? Eu estava em Nova York, meu pai mandou me chamar, tínhamos algumas coisas para resolver. Eu havia chegado um dia antes, voltaria para NY no dia seguinte, mas você com todo seu charme, conseguiu me prender. Lembro-me perfeitamente como estava, toda molhada com seus cachinhos pingando no rosto, sua camiseta grudada em seu corpo, aparecendo o contorno dos seus seios. Quando a olhei, a primeira coisa que chamou minha atenção, foram seus olhos. Vi neles o reflexo da mata, então me apaixonei naquele exato momento, depois fiz tudo errado, mas no final, acabou dando certo, agora estamos novamente aqui, loucamente apaixonados e com muitos planos para nosso casamento. – Amor, quando o vi me espiando, me assustei, tinha acabado de entrar no lago, estava falando que os pássaros eram egoístas, pois haviam fugido porque não queriam dividir esse paraíso com ninguém, mas quando te olhei, meu coração disparou. Eu não senti medo, apenas te analisei, disse a mim mesma: “Que homem lindo, que olhos azuis maravilhosos”. Logo você pediu para eu sair e aconteceu a mágica, pois, quando me tocou, senti minhas pernas tremerem. – Estou certo, então. Aretha, você foi posta em meu caminho por Allah. – Amor, gostaria tanto de reencontrar aquela senhora e seu filho, ela acertou tudo sobre meu destino, não sabe como a xinguei quando me disse que me apaixonaria por um árabe. Estava tão puta com aqueles homens tarados, eles não me davam trégua, não podia vacilar que já estava sendo assediada. Então pensei: “Que velha mais idiota, se pensa que vou acreditar em suas mentiras está enganada. Jamais irei me interessar por um homem destes, pois cobrem suas mulheres e olham as outras, nem posso me imaginar morando aqui e usando estas roupas”. – Aretha, nem me fale sobre isso, nem quero imaginar você andando sozinha por todos aqueles lugares que passou, foi corajosa, mas esse era o lugar que Allah havia reservado para nos conhecermos. Nos abraçamos e ficamos olhando aquela maravilha. Quando estávamos voltando, vi Jamal falando ao celular, logo depois o chamei.


– Estava falando com Alice? Ele, todo envergonhado, fez que sim com a cabeça. – Não tenha medo, Jamal. Abdul já sabe de tudo, não se preocupe, ele entendeu perfeitamente o que fiz. Abdul se aproximou de Jamal, bateu em seu ombro. – Quem sabe poderemos casar no mesmo dia, Jamal? Ele deu um tremendo sorriso de agradecimento. Naquela noite, meu amor estava ainda mais ousado, usou mais uma vez sua criatividade para me seduzir. Ele me surpreendia a cada dia, acho que nunca saberia o verdadeiro significado do sexo se não o houvesse conhecido, com ele me sentia plenamente realizada. Sempre dormíamos abraçados. Meu sogro vivia me cobrindo de elogios, não sabia o que fazer para me agradar.


Capítulo Vinte e Cinco A semana passou rápido demais. Abdul perguntou se gostaria de ir à cidade com ele, claro que aceitei. Fomos pela manhã, Abdul estava certo, todas as pessoas paravam para nos cumprimentar, me tratavam como princesa. Seu povo realmente me adorava, algumas pessoas se aproximavam e falavam comigo como se eu pudesse entender, outras olhavam minhas roupas, me tocavam, as crianças nos rodeavam. Mas o que mais me encantava eram as crianças e os velhos, sentia amor em seus olhos. No dia seguinte, meu sogro leu em voz alta o que falaram sobre minha visita: – O príncipe Abdul, filho do rei Abdallah, nos presenteou com a visita inesperada da sua bela princesa que, muito simpática, cativou a todos os seus súditos com sua beleza, charme e elegância, deixando homens e mulheres encantados. Abdul nos deu o privilégio de conhecermos nossa princesa, uma pessoa simples sem cerimônia, humilde e humana, que beijou todas as crianças e deu atenção a todos que encontrou. Nosso rei está de parabéns, terá uma princesa a altura do nosso país. Quando meu sogro terminou, estava com os olhos cheios de lágrimas, me abraçou e disse que era o dia mais feliz da sua vida, e que sempre soube que eu era a pessoa certa para ser sua representante. Deu um beijo em seu filho e depois eu lhe dei um beijinho no rosto. Ele sorriu. – Nosso brasão! Ficamos sozinhos. – Não te falei que depois que conhecesse meu povo iria pensar diferente? Eles já te adoravam antes de conhecer, agora passaram admirá-la, assim como eu admiro. Você tem a mágica no olhar, faz as pessoas se apaixonarem por você à primeira vista. – Sabe, você não é a primeira pessoa que me diz isso, Odair sempre falou: “Filha, seus olhos são seu cartão de visitas, quem os olha uma vez, jamais se esquece. – Sábias palavras de Odair. Ele conseguiu descrevê-la em apenas uma frase. Quando estávamos no quarto, disse a ele que estava chegando o dia de ir embora. Abdul já me olhou torto, perguntou-me até quando iria continuar com essa vida, ele me queria por inteira. Falei que havia tomado uma decisão. – Meu amor, estou determinada a morar com você em Nova York, mas antes, quero impor algumas regras básicas para nossa convivência. Primeiro: ─ quero combinar que pelo menos uma vez por mês gostaria de passar uma semana nesse castelo. Amo estar aqui com vocês dois. Segundo: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, passarei no Brasil. Não saberia viver e não seria feliz sem desfilar no carnaval. Terceiro: preciso ir essa semana ao Brasil, tenho coisas para resolver, pessoas


que quero ajudar, principalmente minha escola de samba que me acolheu quando mais precisava. Gostaria que fosse comigo, mas sei que deve estar atolado de coisas para fazer, pois nestes oito dias que estou aqui, não o vi trabalhar nenhum só dia. Irei na frente e você depois, não tenha pressa, mas faço questão de deixar meu país com você ao meu lado. Aproveite para demolir aquele quarto e fazer um novinho para sua mulher. E o que me diz? Ele me beijou. – Concordo com tudo, minha querida, estou muito feliz com sua decisão, não vejo a hora de podermos estar juntinhos para sempre. Irei ao seu encontro para voltarmos juntinhos como quer, mas ainda não posso te adiantar o dia. Agora pode preparar o documento que assino. - Assine aqui em minha boca. Ele me beijou e continuamos a fazer planos. Naquela noite não fizemos amor, estávamos decidindo nosso futuro. No dia seguinte, Abdul chamou seu pai e contou o que eu havia decidido, ele ficou todo emocionado, principalmente por saber que eu havia dito que queria passar alguns dias com meus dois homens no castelo. Marquei minha volta para dois dias depois. Jamal ficou radiante, passou um rádio para Lieser. Meu sogro não quis que viéssemos para o Brasil em voo normal, disse que no dia da minha partida, seu avião estaria no hangar me aguardando, e até comentou que já havia encomendado outro dizendo que agora a família estava aumentando. Uma noite antes do embarque, nos amamos como se fosse a primeira vez, ele me deixou até marcas no corpo, mas o que mais me doía era saber que iria ficar algum tempo sem nos vermos. No dia seguinte, ele me acompanhou até o aeroporto, subiu no avião comigo, não parava de me beijar, ficou comigo até o último minuto. Meu sogro já havia se despedido de mim, disse que iria ficar em sua casa na cidade até eu voltar. Falou que o castelo sem mim não tinha graça. Eu nunca entendi muito bem seu casamento, nunca o via com sua mulher, ele até me parecia solitário, mas isso eu resolveria quando estivesse morando em Nova York, teria muito tempo para pesquisar sobre seu relacionamento. Agora, minha prioridade, era me despedir do meu amado. Ele me fez tantas recomendações que até pedi para Jamal anotar para não esquecer. Dei muitos beijos em sua boca. Fiquei muito nervosa no avião, dessa vez nem a reza ajudou, e apelei pelo anestésico popular: a vodca. Tomei duas doses em um só gole. Jamal ria por me ver tremer, mas consegui superar, pelo menos, a decolagem. O resto iria tentar me segurar. Entrei na internet, Abdul já estava à espera. Me perguntou como tinha sido a decolagem. – Péssima. – Péssima a seco ou calibrada? – Calibradíssima, eu diria. Tomei dois copos de vodca.


Ele riu. – Ainda está de pé, acho melhor conversarmos na cama, daqui a pouco você cai dura. Fui até a cama, deitei e continuamos a conversar, disse que já estava com muitas saudades, ele começou falar uma porção de coisas bonitas, acho que o deixei falando sozinho. Acordei com Jamal me chamando. Abdul viu que eu havia adormecido, e o computador estava caído, ele pediu para Jamal não me assustar, só queria arrumar o computador. Quando abri os olhos, Jamal falou: – Senhora, o príncipe me pediu para acordá-la e pegar o notebook que deve estar caído no chão. Perguntei quanto faltava para chegar. – Duas horas, no máximo. Peguei o computador e lá estava ele. Abdul deu uma tremenda gargalhada. – Se era para me deixar embaixo da cama, deveria pelo menos ter dito boa-noite. Ri junto com ele. Minha cabeça estava doendo. Ele pediu para eu me levantar, lavar o rosto e comer alguma coisa, pois não havia comido nada. A cozinha do avião era como a casa do meu sogro, tinha de tudo. Fiz o que Abdul me sugeriu, lavei o rosto, me arrumei e fui até Jamal para pedir que me servissem alguma coisa. Comi salada, rosbife, frutas, tomei um suco de laranja e aproveitei para engolir um comprimido para dor de cabeça. Quando terminei, entrei novamente na internet, ele estava me esperando como sempre. – Sabe, amor, acabo de ficar com nojo de vodca, pode riscar também essa bebida do nosso bar. – Minha mulher não sabe beber e culpa a bebida! Ficamos conversando, até pedirem para apertar os cintos. Neste momento, fiquei dura. Comecei a tremer e suar. Quando aquele bichão aterrissou, dei graças a Deus, estava em terra firme. Despedime de Abdul, desliguei o computador, agradeci ao piloto e ao copiloto e descemos. Jamal já havia tirado as malas, entramos no carro que já estava esperando. Cheguei em meu apartamento, Maria disse que eu estava branca. – Você se esqueceu da paúra que tenho de avião? Nem sei como cheguei inteira aqui. Jamal logo ligou para Alice, dei o resto do dia de folga para ele, pois não iria mais sair de casa. Tomei banho, coloquei um pijama e fui dormir. Dormi o dia todo, acordei com uma ressaca daquelas, tomei quase um litro de água de uma só vez. Maria estava aflita, disse que Abdul estava ligando sem parar. Então liguei para ele e falei que estava péssima, nunca mais beberia em minha vida. Ele perguntou sobre Jamal, disse que havia dado o resto do dia de folga para ele. – Não acha que está exagerando? Sem ele ao seu lado não fico tranquilo. – Abdul, eu não vou sair, por que não o deixaria ver sua amada?


– Está bem, vê se come alguma coisa antes de dormir, nos falamos depois. Fui até a cozinha, tomei mais água, pedi para Maria fazer um café bem forte, e fui para varanda. O tempo no Rio estava frio e chuvoso, mas isso não tirava sua beleza. Tomei o café e aproveitei para contar como havia sido minha semana naquele castelo. E eles contaram as novidades sobre o apartamento novo. Quando Jamal chegou, expliquei que agora ele só teria folga no final de semana, pois Abdul achava que eu só estava segura com ele ao meu lado. Jamal comentou que havia convidado Alice para ir para Nova York. Ele confessou que estava apaixonado por ela e não poderia ir embora a deixando para trás. Fui para o quarto, liguei o computador e conversei com Abdul. Contei que estava péssima do estômago, e que teria de arrumar outro anestésico. Essas bebidas estavam acabando com meu estômago. Ou havia exagerado na dose ou realmente estava ficando com o estômago fraco para bebidas. Abdul estava bocejando, coitado, o que ele não fazia por mim. Pedi que fosse dormir um pouco, amanhã nos falaríamos. O tranquilizei dizendo que Jamal já estava em casa. Desliguei e fui tentar dormir, estava me sentindo péssima do estômago. Levantei e botei tudo para fora. Só em pensar na vodca me dava arrepios, parecia que estava com febre, só tinha vontade de tomar líquidos gelados, estava preocupada, nunca havia vomitado em minha vida. Aliás, nunca havia sentido dor de cabeça, agora de uns dias para cá, vivia tomando remédio para dor, só hoje já havia tomado duas vezes. Fazia isso escondido de Jamal e de Maria, os dois eram piores que Abdul. Jamal já me levaria para o hospital e ainda passaria rádio para todos, já Maria, me entupiria de chás. Melhor ficar calada por hora. No dia seguinte, já estava me sentindo bem melhor. Tomei café com meus amigos, depois pedi a Jamal para tirar o carro, iríamos com Maria ver o apartamento. Odair já estava trabalhando com a sua perua escolar. Eu já estava andando sem as muletas havia alguns dias, mas agora precisaria continuar com a fisioterapia. Pedi para Jamal marcar uma consulta com meu médico para o dia seguinte, precisava fazer uma radiografia para ver se estava tudo em ordem. O apartamento de Maria e Odair estava uma gracinha, eles estavam em lua de mel, Maria me confidenciou que seu nego, era como ela o chamava carinhosamente, estava só de chamego com ela. Na volta, passamos no trabalho de Alice, pedi que ela passasse em casa de noite, precisava falar com ela. Quando Alice chegou, conversamos um pouco, disse a ela que logo iria para Nova York e que Jamal havia dito que a tinha convidado para morar com ele. Eu sabia que ele morava em um apartamento onde todos os seguranças de Abdul moravam, por essa razão, pedi que pensasse bem,


pois não permitiria que ela fizesse Jamal sofrer. Ela confessou que ele era o homem da sua vida. Dessa forma prometi que os ajudaria. Seria bom ter Alice por perto, pois iríamos sentir muita falta do Rio de Janeiro. Alice falou que só aceitou ir porque sabia que eu estaria por perto, confiava muito em mim. Nos despedimos, assim que ela saiu, fui me conectar com Abdul, ele já estava à minha espera, contei como havia sido meu dia, falei sobre Alice e Jamal. – Amor, não podemos ajudá-los? Não gostaria que Alice fosse morar naquele apartamento minúsculo. Acho que devemos isso a Jamal, ele tem se mostrado o melhor guarda-costas e amigo do mundo. Abdul prometeu que iria pensar em como poderia ajudá-los. Depois de muito falar das saudades que estávamos sentindo, nos despedimos.


Capítulo Vinte e Seis No dia seguinte, tomei café e fui falar com Jamal, tinha que fazer meu exame pela manhã e no final do dia, teria que levar o resultado ao médico. Saímos por volta das 10h00 e voltamos para casa às 13h00, esse exame demorava pra caramba. Almocei, descansei um pouco e fomos ao médico. Ainda bem que estava tudo em ordem, só tinha que continuar minha fisioterapia. Passamos na farmácia para comprar remédio para dor de cabeça, mas pedi a Jamal que não dissesse nada a seu Sheik, isso só o deixaria preocupado. Voltamos para casa, comi uma salada e um grelhado, tomei banho e me sentei para ver um pouco de TV com meus amigos. Meia hora depois fui pro quarto, pois estava morrendo de sono. Acordei no dia seguinte, quase na hora do almoço. Maria disse que eu tinha desmaiado, acho que estava com o sono atrasado. Entrei na internet, levei a maior bronca de Abdul, falei que havia dormido cedo e acordado tarde, brinquei com ele: – Sabe que isso quer dizer? O senhor acabou comigo nesses dias. Contei sobre o exame, sobre minha ida ao médico. E que voltaria com as fisioterapias. Nos despedimos, à noite nos falaríamos novamente. Almocei, pedi para Jamal tirar o carro, pois iríamos para escola de samba. Maria foi junto. Ficamos por lá umas duas horas. Anotei tudo que aquelas crianças estavam precisando, falei com nosso presidente e contei que iria morar em Nova York, mas que viria para os ensaios do carnaval. Essa era minha condição para largar minha cidade maravilhosa. Falei que ajudaria minha escola no que fosse possível. Em casa, tomei banho, Maria havia feito umas panquecas de palmito, comi umas duas e fui para o quarto, entrei na internet, falei com Abdul que iria usar meu cartão para retirar dinheiro, pois precisava ajudar as crianças do grêmio. Ele me deu carta branca, pediu que eu falasse com o gerente, disse que se eu não conseguisse tirar com o cartão, ele faria um DOC, na hora. Comentei que estava com azia e ele já ficou preocupado. Esse era Abdul. No dia seguinte, fui com Jamal ao banco, falei com o gerente, ele disse que eu teria que fazer um DOC, devido a quantia ser alta. Liguei para Abdul do banco, ele conversou com o gerente que, graças a Deus, falava inglês e deu tudo certo. Porém, Abdul me aconselhou a não entregar tanto dinheiro nas mãos de uma única pessoa, pois, poderia estar sendo enganada. Me aconselhou abrir uma conta em nome de Maria e Odair, eles eram pessoas da nossa inteira confiança e se encarregariam de levar o dinheiro para as crianças todo mês. Sendo assim, fiz o que ele me pediu. Maria já estava em casa, quando cheguei. Contei a ela e a Odair o que havia feito, ela disse que era muita responsabilidade para os dois, mas como era por uma boa causa, eles ajudariam. Odair logo foi dizendo.


– Bem se vê que Abdul é um homem de negócios, você está louca, queria dar essa dinheirama toda nas mãos de uma pessoa que mal conhecemos? O tesoureiro é novo no grêmio. Aprendi que não devemos confiar demais nas pessoas. Seu noivo tem toda razão. Aquele dia fazia muito frio no Rio, nem tive vontade de ficar na varanda, só fui tomar um café e fumar. Comentei com Maria que estava com cólica, o que ela achou estranho. – Filha, você nunca sentiu cólicas! – E daí? Tem gente que nunca teve dor nas costas e um dia tem, isso não quer dizer nada. Maria havia feito um jantar bem gostoso naquela noite, mas passei mal pra caramba, nem contei a ela, coitada, iria pensar que era por causa da sua comida. Eu já estava ficando preocupada com essa dor de cabeça e esse mal-estar a cada vez que comia. Nos primeiros dias achei que fosse da vodca, mas isso já fazia tempo e eu continuava com enjoo. Isso não era normal, não para mim, que sempre tive uma saúde de ferro. Esta noite eu não iria falar com Abdul, pois ele estava em uma reunião. Antes de dormir, tive que botar tudo para fora novamente. Acordei, fui até a cozinha e tomei café junto com Maria. Odair já havia saído para trabalhar, sentamos e ficamos conversando, ela dizia que iria sentir demais minha falta. Falei que gostaria muito que eles fossem me visitar, pois não conseguiria ficar muito tempo sem eles, que eram minha família. Estava falando e, de repente, me veio uma melancolia, me pus a chorar, minha amiga me abraçou e choramos juntas, como conseguiria viver longe do meu querido Rio de janeiro? E, ainda por cima, sem meus pais? Cada vez que olhava para Maria, eu a abraçava, beijava e chorava. – O que está acontecendo com você, filha? Só chora! Pense que vai morar em Nova York com o homem bom, que te adora, que vai ser uma princesa, vai se casar, ter seus filhos. Já imaginou como será paparicada por aqueles dois homens? Sinto que os dois te adoram, seu sogro te olha com tanta admiração, deveria levar tudo isso em conta. Sei que muitas mulheres gostariam de estar em seu lugar, nunca parou para pensar em como foi abençoada, Aretha? – Sei disso, acha que não agradeço todas às noites? Mas tenho receio de não me acostumar. – Aquele homem te adora, minha filha, isso é para ficar alegre e não triste! Estava fazendo minha fisioterapia todos os dias, queria ficar boa rápido. No dia seguinte, acordei com vontade de ir à praia, estava frio, mas coloquei um agasalho, chamei Maria para ir conosco. Caminhamos por mais de uma hora, o vento que vinha da praia estava bem frio. Nos sentamos em uma cafeteria, pedimos um chocolate quente, fumei um cigarro. – Já faz mais de duas semana que estamos aqui, é a primeira vez que venho à praia, sempre está garoando, até parece que estamos em São Paulo. O rapaz que nos atendeu, me reconheceu, disse que minhas fotos da campanha estavam lindas, que ele se sentia orgulhoso em me ver pessoalmente, que eu era ainda mais bonita que nas fotos,


agradeci, voltamos para casa. – Como vocês não me falaram nada sobre as fotos? – Me esqueci, filha, mas as revistas estão todas em casa! Chegamos e logo pedi que ela pegasse as revistas, estava curiosa demais, havia saído em muitas e olhei todas. Passei praticamente à tarde inteira vendo as fotos e lendo os comentários, realmente haviam ficado lindas, era muito fotogênica e o fotógrafo era ótimo. Maria fez um bolo, me serviu com um café, adorava aquele bolo. Levei as revistas para o quarto e fiquei me lembrando da saia justa que passei quando estava fotografando, meu sogro de um lado e Abdul do outro, mas deu certo, pelo menos foi por uma boa causa. Entrei na internet, chamei Abdul, ele entrou. – Aconteceu alguma coisa? São 18h00, sempre nos falamos depois do jantar. – Não, apenas estava com saudades. Falei das fotos, mostrei somente uma, Abdul disse que queria ver pessoalmente, perguntei quando viria, disse que amanhã me diria, estava com algumas pendências para resolver. Coloquei meu fone de ouvido e dormi. Não sei onde arrumava tanto sono, acordei com meu estômago enjoado, fui até o banheiro e pus tudo para fora, nunca tinha vomitado tanto em minha vida. Chamei Maria, mas ela havia ido à casa de uma amiga. Olhei o relógio, eram apenas 20h30. Me levantei, fui até a varanda, nada estava bom. Eu havia dado as noites de segunda-feira de folga para Jamal sair com Alice. Esperei Maria na sala, quando ela chegou, disse que estava ruim do estômago. – Também, não come quase nada, quando come um pouco mais, dá nisso. Ela me fez um chá e me levou no quarto. Dormi bem, não senti mais aquela coisa horrível, como era ruim vomitar. Acordei novinha em folha, ela perguntou se havia melhorado, falei que não estava sentindo nada. – Aretha, se este homem não vier logo, acho que morre, isso é paixão, está tão apaixonada que não consegue ter vontade de fazer nada. Já estava fazendo dezesseis dias que havia voltado, minha vida estava um marasmo total, não podia ir à praia porque estava muito frio, ficava em casa quase que o dia todo, a maior parte do dia passava dormindo, tinha um sono incontrolável, estava com muitas saudades de Abdul. Mas logo ele estaria no Brasil. Arrumei-me e fui dar umas voltas. Caminhei com Jamal ao meu lado. Me sentei e fiquei olhando para o mar, aquilo sim, me acalmava, nada no mundo poderia substituir aquela praia, disse a mim mesma: O castelo é o único lugar que me faz sentir a mesma paz. Fiquei muito tempo ali, depois caminhei por mais uma hora. Quando voltamos, dei de cara com


Abdul, pulei em seu pescoço, queria entrar dentro dele tamanha era a minha saudade. Ele havia me feito a maior surpresa do mundo, nem imaginava que o encontraria em casa. Havia conversado com ele um dia antes, ele havia dito que hoje me diria quando viria. Não parava de beijá-lo. – Estava com tantas saudades assim do seu homem? Estou aqui, agora se acalme. – Por que está fazendo isso comigo? – Isso o quê? – Isso! Por que não me avisou que viria? – Não estou entendendo, está chorando e me dando bronca porque fiz uma surpresa? Mas vai entender essas mulheres! Percebi a bobagem que havia dito e fui para meu quarto. Abdul foi atrás, pedi desculpas, não sabia por que havia dito aquela bobagem. Claro, tinha adorado a surpresa. Ele foi tomar banho, não resisti e fui atrás. Abri a porta e falei sorrindo. – Será que quer companhia para o banho ou só posso ficar aqui assistindo? Ele riu. – Use sua criatividade, não repita minhas palavras, mas se quiser, fique à vontade. Tirei minhas roupas e pulei em seus braços, nem permiti que dissesse nada, queria que me amasse, tinha pressa de ser amada. – Se tudo isso for saudade, vou viajar sempre. – Abdul, não se atreva a me deixar mais sozinha. Ele terminou seu banho e me carregou para cama. Amou-me como nunca, estava contaminada por aquele homem, só de encostar nele sentia um arrepio percorrer minha espinha, meu desejo por ele aumentava a cada dia. Depois ficamos coladinhos. Maria avisou que iria servir o jantar. – Jantar? Mas que horas são? – São 20h00, minha querida. – Que horas chegou? – Às 15h30, amor. Por que tantas perguntas? – Não acredito que ficamos no quarto até agora! – Você dormiu, meu bem. Dormiu em meus braços. – Caracas, agora dei para dormir até fazendo sexo? – Não, querida, já havíamos terminado, está com amnésia? – Não! Estou apaixonada. Arrumamo-nos e fomos até a copa, a mesa estava posta, quando entrei, senti aquele cheiro de peixe, corri para meu quarto, entrei no banheiro como uma louca, me agachei no vaso sanitário e


vomitei o que não tinha no estômago. Abdul estava atrás de mim. – Que aconteceu, Aretha? – Não sei. Senti um tremendo mal-estar quando senti o cheiro do peixe. Acho que não estou bem, esses dias tenho me sentido muito mal. – Por acaso comeu alguma coisa diferente esses dias? Pedi que fosse jantar e chamasse Maria. Logo que ele saiu, minha amiga entrou, então contei a ela o que havia acabado de acontecer. – Querida, sua menstruação veio este mês? – Não. Está atrasada há mais de um mês. – Será que está grávida? – Não é possível, tomo pílulas. – de repente me veio uma lembrança. Meu Deus, isso não pode ter acontecido! – O quê? – Quando cheguei ao Kuwait, esqueci de tomar minha pílula no avião, e transamos assim que cheguei, nem me lembrei da bendita. Na noite seguinte, notei que não havia tomado, então joguei-a no lixo. Como posso ter ficado grávida com uma única transa? – Isso acontece, existem muitas mulheres que são estupradas e ficam grávidas. Nunca ouviu nenhuma história dessas? – Não diga nada a Abdul. Amanhã, quero que vá a farmácia, compre um teste, vou tirar uma dúvida, mas estou quase certa de que devo mesmo estar grávida, os sintomas são bem caraterísticos. Ela saiu, arrumou tudo, guardou o peixe e me chamou para tomar um chá. Abdul estava preocupado, disse a ele que não era nada, já estava melhor. Ficamos conversando um pouco na sala, depois fomos para o quarto, ele me beijou. – Está melhor mesmo? – Estou, fique tranquilo. – Quer dormir? – Sim! Pode não acreditar, amor, mas ultimamente só tenho dormido. Não gosto do frio, e, este ano ele veio com tudo. Ele colocou as mãos em minha testa. – Acho que minha mulher está doente, está recusando sexo de primeira linhagem. Dei-lhe um beijo. – Não, amor, só tenho medo de vomitar em cima de você. Meu estômago ainda não está lá estas coisas. – Isso é o que chamo de um balde de água fria, melhor dormimos.


Eu o abracei e dormi em seguida. Acordei, Abdul não estava na cama, olhei o relógio, passava das onze horas da noite. Devo estar grávida mesmo, nunca dormi tanto, agora vivo sentindo sono e passei a dormir até fazendo sexo. Isso não deve ser normal!. Fui até a sala, Abdul estava no computador, Odair vendo TV, Maria estava arrumando uma bandeja para me levar no quarto. Dei uma piscada para ela, fui até Abdul e lhe dei uma porção de beijinhos. Ele parou de olhar seus e-mails imediatamente. – Minha mulher está muito dorminhoca ultimamente. – É o frio, amor. Maria me chamou. – Quer ver agora o que comprei? Entrei em seu quarto, fui até o banheiro e ela ficou esperando. Segui exatamente as instruções da embalagem, esperei um pouco, tornei a me certificar... Estava realmente grávida! Ela entrou. – E aí, está grávida mesmo? – Gravidíssima. Ela me abraçou, e ficamos por um bom tempo assim. Pedi que Maria chamasse Abdul, agora teria que contar. Não poderia guardar segredo de algo tão importante para nos dois. O que Abdul iria pensar sobre o bebê? Por Allah, não éramos casados ainda. Será que o rei aceitaria um neto fora do casamento? Eu não entendia das suas leis, e essa preocupação estava me comendo viva. Fui tomar banho, me arrumei. Assim que Abdul entrou, eu o olhei, sabia que ele iria pirar de tanta alegria. Peguei em sua mão. Eu precisava contar para ele. E o faria agora? Que Deus me ajudasse. – Amor, tenho algo para dizer e não sei por onde devo começar...

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Destinos - Helena Solon & Kacau Tiamo  

Serie Destinos - Livro 1

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