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sophie Calle

Sophie calle

Hist贸rias reais

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SOPHIE CALLE

Hist贸rias reais


Título original Des histoires vraies Copyright © 2002, Actes Sud Copyright da tradução © 2009, Agir Editora Ltda.

Cet ouvrage, publié dans le cadre de l’Année de la France au Brésil et du Programme d’Aide à la Publication Carlos Drummond de Andrade, bénéficie du soutien du Ministère français des Affaires Etrangères et Européennes. “França.Br 2009” l’Année de la France au Brésil (21 avril – 15 novembre) est organisée: en France, par le Commissariat général français, le Ministère des Affaires Etrangères et Européennes, le Ministère de la Culture et de la Communication et Culturesfrance; au Brésil, par le Commissariat général brésilien, le Ministère de la Culture et le Ministère des Relations Extérieures. Este livro, publicado no âmbito do Ano da França no Brasil e do programa de auxílio à publicação Carlos Drummond de Andrade, contou com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores e Europeias. “França.Br 2009” Ano da França no Brasil (21 de abril a 15 de novembro) é organizado: na França, pelo Comissariado geral francês, pelo Ministério das Relações Exteriores e Europeias, pelo Ministério da Cultura e da Comunicação e por Culturesfrance; no Brasil, pelo Comissariado geral brasileiro, pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério das Relações Exteriores. Tradução Hortencia Santos Lencastre Foto de capa Jean-Baptiste Mondino Copidesque Léo Schlafman Revisão Rebeca Bolite Produção editorial Juliana Romeiro

Todos os direitos reservados à AGIR EDITORA LTDA. – uma empresa Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 – CEP 21042-235 – Bonsucesso – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3882-8200 – Fax: (21) 3882-8212/8313


Hรก sete anos eu vivia com um homem. Ele foi embora. Para sempre. Pouco depois, minha amiga Cathy encontrou um desconhecido num bar. Ela achou que ele me agradaria. Pediu seu endereรงo e me deu de presente, proporcionando-me assim um dos episรณdios mais romanescos da minha vida. A esse estranho providencial.


O retrato Eu tinha nove anos. Mexendo na correspondência de minha mãe, encontrei uma carta endereçada a ela que começava assim: “Querida, espero que você esteja pensando seriamente em colocar nossa Sophie num internato...” A carta era assinada por um amigo de minha mãe. Cheguei à conclusão de que ele era meu verdadeiro pai. Quando ele vinha nos visitar, eu me sentava no seu colo e olhava bem nos seus olhos, esperando uma confissão. Diante da sua indiferença e do seu mutismo eu acabava tendo minhas dúvidas. Então, ia reler a carta roubada. Eu a tinha escondido atrás do quadro da sala de jantar, uma pintura da escola flamenga do final do século XV intitulada Luce de Montfort que representava o busto de uma jovem mulher num corpete cor-de-rosa, com o perfil ligeiramente voltado para a esquerda, o olhar frontal, e o rosto emoldurado por uma touca branca engomada.

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O sapato vermelho Tínhamos onze anos, Amélie e eu, e toda quinta-feira à tarde, entre as quatorze e as dezessete horas, sistematicamente, percorríamos as grandes lojas de departamento para surrupiar alguma coisa. Um ano se passou. Um dia, a mãe dela, desconfiada, inventou que tinha recebido a visita de um policial que havia nos visto, mas que, por causa da nossa idade, nos daria uma segunda chance: a partir de então, ele ficaria de olho e, se não fizéssemos mais nenhuma bobagem, estaríamos perdoadas. Passamos as semanas seguintes andando pelas ruas tentando adivinhar quem, entre todos os homens à nossa volta, era o policial que nos seguia e, depois, tentando nos livrar dele, quando achávamos tê-lo localizado. Não tínhamos mais tempo para roubar. Nosso último furto foi um par de sapatos vermelhos grandes demais para nós. Amélie ficou com o pé direito, eu, com o esquerdo.

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