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um status exclusivo. Nietzsche, ao contrário, sustenta com veemência a noção de que o ser humano é apenas um animal, e que seu pensamento é determinado por pulsões e instintos, por sua vontade primitiva e por uma capacidade de compreensão limitada. A maioria dos filósofos do Ocidente, segundo essa visão, estava errada ao encarar o ser humano como algo muito especial, como uma espécie de supercomputador do autoconhecimento. Então o ser humano consegue realmente conhecer a si mesmo e a realidade objetiva? Ele é capaz disso? A maioria dos filósofos dizia que sim. Eles pressupunham com toda naturalidade que o pensamento humano era algo semelhante a um pensamento universal. Não encaravam o ser humano como um animal inteligente, mas como um ser num nível totalmente diferente. E negavam de maneira sistemática a herança do reino animal, que se mostrava a eles de modo inconfundível todas as manhãs no espelho durante o barbear e também mais tarde, entre os cobertores. Eles participaram, um depois do outro, da escavação de um grande fosso entre o ser humano e o animal. A razão e a compreensão humanas, a capacidade de pensar e julgar formavam o padrão único usado para avaliar a natureza viva. E classificavam aquilo que fosse “meramente” corporal como de segunda categoria. Para ter certeza de que estavam corretos sobre as nobres noções que tinham de si próprios, os filósofos deveriam supor que Deus tinha reservado aos seres humanos um perfeito sistema de compreensão. E, com ele, podiam ler a verdade do “livro da natureza”. Contudo, se Deus tinha morrido, então não demoraria muito para esse sistema também falhar, pois o aparelho teria de ser um produto da natureza e, como tudo na natureza, imperfeito. Foi exatamente essa noção que Nietzsche tinha lido em Arthur Schopenhauer: “Somos apenas seres temporais, finitos, passageiros, sonhadores, que passam voando como sombras”. Portanto, como disporiam de um “intelecto que compreendesse relações infinitas, eternas, absolutas?”. A capacidade de compreensão da mente humana, como Schopenhauer e Nietzsche previram, é diretamente dependente das exigências da adaptação evolutiva. O ser humano só consegue compreender o que 26

Quem sou eu?  

Existe um eu? Como sei quem sou? O que é a verdade? Nesta obra, Richard David Precht nos traz pensamentos sobre questões básicas da filosofi...

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