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Como todos nós sabemos, existem inúmeros livros de filosofia no mercado, quase sempre muito complexos, que tentam explicar os questionamentos de todo ser humano: O que é a verdade? Como sei quem sou? De onde vim? Por que tenho de ser bom? Existe um

Apaixone-se pela grande aventura do pensamento!

“eu”? O que são os sentimentos? O que é a memória?

Livros sobre filosofia há muitos. Mas este é diferente de todos os

As questões mais interessantes não

outros, porque nunca nenhum deles apresentou ao leitor, de ma-

apareciam nos conteúdos dos cursos de

neira tão abrangente e competente – e levando em conta os co-

filosofia.

nhecimentos da ciência –, as grandes questões filosóficas da vida: O que é a verdade? Como sei quem sou? O que é uma vida feliz?

Quem sou eu?, de RichaRd David PRecht, é diferente de todas as outras introduções

Quem sou eu? desperta a nossa capacidade de questionarmos

ao tema, porque ninguém jamais apresen-

1964 em Solingen. Formou-se em 1994 na

o que está à nossa volta e nos convida a refletir de forma praze-

tou antes ao leitor, de maneira tão precisa

Universidade de Colônia e trabalhou desde

rosa e lúdica sobre a aventura que é a vida e suas possibilidades!

e competente, e ao mesmo tempo lúdica

filósofo, publicitário e escritor, nasceu em

então para quase todos os grandes jornais e emissoras da Alemanha. Em 2000, ganhou o prêmio de propaganda para biomedicina.

e elegante, as grandes questões filosóficas da vida – partindo de nosso próprio questionamento do dia-a-dia.

É autor de dois romances e de três livros

Uma viagem de descober-

de não-ficção. RichaRd David PRecht

ta de nós mesmos: inte-

vive em Colônia e em Luxemburgo. www.ediouro.com.br/quemsoueu

ligente, bem-humorada e gostosa de ler!

capa_MARCELO MARTINEZ | LaboRatóRio SecReto

Quem sou eu_CAPA.indd 1

11/27/08 2:57:19 PM


SILS MARIA

Animais inteligentes no espaço O que é a verdade? “Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza, congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer — assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido, pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Contudo, se pudéssemos nos entender com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante do mundo.”* O ser humano é um animal inteligente que se superestima totalmente — sua razão não está focada na grande verdade, mas apenas nas pequenas coisas da vida. Poucos textos como esse na história da filosofia refletiram o homem de modo tão direto e tão poético. Esse início, talvez um dos mais belos inícios de um livro de filosofia, foi escrito em 1873 com o título “Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral”. E, * Friedrich Nietzsche, Obras incompletas, trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, Col. Os Pensadores (São Paulo: Nova Cultural, 1996).

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aos 29 anos, seu autor era um jovem professor de filologia antiga na Universidade da Basiléia. No entanto Friedrich Nietzsche não publicou seu texto sobre os animais inteligentes e orgulhosos. Ele tinha acabado de ser atacado por ter escrito um livro sobre as bases da cultura grega. Seus críticos o consideraram uma bobagem não-científica e especulativa, o que por certo está correto em boa parte. Falava-se de um garoto prodígio fracassado, e seu nome como filólogo da Antiguidade ficou bastante chamuscado. O início, porém, foi muito promissor. O pequeno Fritz, nascido em 1844 na vila saxã de Röcken e criado em Naumburg an der Saale, era tido como um aluno altamente talentoso e bastante inteligente. Seu pai era pastor luterano e a mãe também tinha um grande pendor religioso. Aos 4 anos, o pai do menino morreu. Logo em seguida foi a vez do irmão mais novo. A família muda-se para Naumburg, e Fritz cresce numa casa de mulheres. Seu talento é reconhecido na escola primária e também depois, no ginásio. Nietzsche freqüenta o reconhecido internato Schulpforta e, em 1864, matricula-se para o curso de filologia clássica na Universidade de Bonn. O estudo de teologia, que ele também inicia, é abandonado logo no primeiro semestre. Ele gostaria de ter realizado o desejo da mãe, tornando-se pastor, mas lhe falta a fé. O “pequeno pastor”, como o chamavam, à maneira de ridicularizá-lo quando menininho religioso no passado, em Naumburg, afastou-se da fé. A mãe, a casa da paróquia e a fé são uma prisão da qual ele se libertou, entretanto durante toda a vida essa influência sempre se faria sentir. Depois de um ano, Nietzsche vai com seu professor para Leipzig. Seu pai de criação o tem em tão alta conta que o recomenda à Universidade da Basiléia como docente. Em 1869, o jovem de 25 anos torna-se professor não regular. As graduações, mestrado e doutorado que lhe faltam são alcançadas com rapidez junto à universidade. Na Suíça, Nietzsche conhece os intelectuais e os artistas da época, entre eles Richard Wagner e a esposa, Cosima, os quais já havia encontrado antes em Leipzig. O gosto de Nietzsche por Wagner é tão grande que em 1872 sua música patética o conduz ao não menos patético passo em falso O nascimento da tragédia no espírito da música. 22


O livro de Nietzsche logo foi abandonado. A oposição entre o suposto “dionisíaco” da música e o suposto “apolíneo” das artes plásticas era conhecida desde o início do Romantismo e, de acordo com a verdade histórica, uma feroz especulação. Além disso, o mundo dos estudiosos da Europa ocupava-se com o nascimento de uma tragédia muito mais importante. Um ano antes, Darwin — teólogo por formação e renomado biólogo britânico — publicara seu livro sobre A origem das espécies com base no reino animal. Embora a idéia de que o homem pudesse ter se desenvolvido de formas primitivas anteriores circulasse havia pelo menos doze anos — o próprio Darwin já anunciara em The Descent of Man que viria dali uma “luz reveladora”, que também recairia sobre os seres humanos —, seu livro foi um sucesso. Nos anos 1860, inúmeros cientistas haviam chegado à mesma conclusão, classificando os homens no reino animal perto do recém-descoberto gorila. A Igreja, principalmente na Alemanha, lutou contra Darwin e seus discípulos até a Primeira Guerra Mundial. Todavia, desde o início estava evidente que um retorno voluntário à antiga noção de mundo era impossível. Deus, como criador pessoal dos seres humanos e seu guia, estava morto. E os cientistas festejaram seu sucesso com uma nova imagem muito sóbria do ser humano: o interesse pelos macacos tornou-se maior do que pelos homens. A verdade sublime do ser humano como uma criatura semelhante a Deus se partiu em dois pedaços: o extraordinário tornado inverossímil e a verdade nua e crua do ser humano como um animal inteligente. A satisfação de Nietzsche por essa nova maneira de encarar o mundo é grande. “Tudo de que precisamos”, escreveu mais tarde, “é uma química das noções e das sensações morais, religiosas, estéticas, assim como de todas as movimentações que vivenciamos em grande e pequena escala na cultura e na sociedade, na solidão em nós mesmos”. No último terço do século XIX, inúmeros cientistas e filósofos dedicavam-se exatamente a essa “química”: a noção de uma existência biológica sem Deus. Nietzsche, porém, não se envolveu nesse tema. A questão que o ocupava era bem outra: O que significa a abordagem puramente biológica para a autocompreensão do ser humano? Ele sai 23


engrandecido ou diminuído? Pelo fato de se ver mais claramente, o ser humano perdeu tudo ou acabou por ganhar algo? Foi nesse contexto que ele escreveu o texto Sobre a verdade e a mentira, talvez um de seus mais belos trabalhos. A resposta de Nietzsche à pergunta sobre se o ser humano havia se engrandecido ou diminuído variava de acordo com seu humor e disposição. Quando estava numa fase ruim — e ele tinha muitas fases ruins —, ele ficava oprimido e pesaroso, e pregava o evangelho da sordidez. Por outro lado, quando estava numa fase boa, era tomado por um páthos orgulhoso que o fazia sonhar com um super-homem. Suas fantasias grandiosas e a autoconsciência estrondosa de seus livros contrastavam-se no mais alto grau com sua aparência: um homem pequeno, suave, um tanto gordinho. O bigode portentoso, uma verdadeira escova, deveria disfarçar seu rosto delicado e deixá-lo mais masculino, mas as muitas doenças da infância o deixavam com uma aparência enfraquecida, e era também assim que ele se sentia. Nietzsche tinha miopia avançada, sofria de distúrbios estomacais e severos ataques de enxaqueca. Aos 35 anos, sentindo-se acabado fisicamente, encerrou suas atividades docentes na Basiléia. Uma suposta infecção por sífilis, várias vezes aventada, deve ter sido responsável por seu fim, mais tarde. No verão de 1881, dois anos depois de sua despedida da universidade, Nietzsche descobriu casualmente seu paraíso pessoal: o pequeno vilarejo Sils Maria, na região de Oberengadin, na Suíça. Uma paisagem fantástica, que o agradou e inspirou de imediato. Ele voltou ao lugar várias vezes nos anos seguintes, fazia longos passeios solitários e dava forma a novos pensamentos patéticos. Muitos deles eram depois registrados no papel, durante o inverno em Rapallo e na costa do mar Mediterrâneo, em Gênova e em Nizza. A maior parte de sua produção mostra Nietzsche como um crítico inteligente, de altas ambições literárias e implacável, alguém que coloca seu dedo nas feridas da filosofia ocidental. Em relação às próprias sugestões para uma nova teoria do conhecimento e da moral, ele prefere um darwinismo social imaturo e muitas vezes se esconde num kitsch ingênuo. Quanto mais seus textos recebem essa marca, mais o gesto grandiloqüente falha. “Deus está 24


morto” — ele escreve uma ou outra vez —, mas a maioria dos seus contemporâneos já sabe disso por Darwin e outros. Em 1887, Nietzsche olha pela penúltima vez o pico nevado de Sils Maria e resgata de um antigo texto o tema dos animais inteligentes — o problema do conhecimento limitado de todos os seres humanos. Seu livro Genealogia da moral começa com as palavras: “Nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos — e não sem motivo. Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?”. Como em tantas vezes, ele se refere a si no plural, assim como de uma espécie animal muito peculiar, que é o primeiro a descrever: “Nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. Estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletores do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito — levar algo ‘para casa’”*. Ele não dispõe de muito tempo para isso. Dois anos mais tarde, Nietzsche cai doente em Turim. A mãe busca o filho de 44 anos na Itália e o interna numa clínica em Jena. Mais tarde ele vai viver com ela, mas não consegue escrever nada. Dali a oito anos morre a mãe, e o filho, bastante perturbado mentalmente, é trazido para a casa da irmã não muito querida. Nietzsche morre em 25 de agosto de 1900 em Weimar, aos 55 anos. A autoconfiança de Nietzsche, de cuja existência ele tentava se convencer à medida que a evocava, escrevendo, era grande: “Conheço meu destino, e em algum momento meu nome será ligado a algo excepcional”. Mas de que consiste a excepcionalidade de Nietzsche, que depois de sua morte o transformou no filósofo talvez mais influente do século XX? O grande feito de Nietzsche estava em sua crítica tão implacável quanto enfática. Mais apaixonadamente do que os outros filósofos, ele mostrou como o ser humano julga, de modo presunçoso e ignorante, o mundo no qual vive de acordo com a sua lógica e sua verdade: a lógica da espécie humana. Os “animais inteligentes” acreditam que teriam * Genealogia da moral. Uma polêmica, trad. Paulo César de Souza, 11.ª reimp. (São Paulo, Companhia das Letras, 2008).

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um status exclusivo. Nietzsche, ao contrário, sustenta com veemência a noção de que o ser humano é apenas um animal, e que seu pensamento é determinado por pulsões e instintos, por sua vontade primitiva e por uma capacidade de compreensão limitada. A maioria dos filósofos do Ocidente, segundo essa visão, estava errada ao encarar o ser humano como algo muito especial, como uma espécie de supercomputador do autoconhecimento. Então o ser humano consegue realmente conhecer a si mesmo e a realidade objetiva? Ele é capaz disso? A maioria dos filósofos dizia que sim. Eles pressupunham com toda naturalidade que o pensamento humano era algo semelhante a um pensamento universal. Não encaravam o ser humano como um animal inteligente, mas como um ser num nível totalmente diferente. E negavam de maneira sistemática a herança do reino animal, que se mostrava a eles de modo inconfundível todas as manhãs no espelho durante o barbear e também mais tarde, entre os cobertores. Eles participaram, um depois do outro, da escavação de um grande fosso entre o ser humano e o animal. A razão e a compreensão humanas, a capacidade de pensar e julgar formavam o padrão único usado para avaliar a natureza viva. E classificavam aquilo que fosse “meramente” corporal como de segunda categoria. Para ter certeza de que estavam corretos sobre as nobres noções que tinham de si próprios, os filósofos deveriam supor que Deus tinha reservado aos seres humanos um perfeito sistema de compreensão. E, com ele, podiam ler a verdade do “livro da natureza”. Contudo, se Deus tinha morrido, então não demoraria muito para esse sistema também falhar, pois o aparelho teria de ser um produto da natureza e, como tudo na natureza, imperfeito. Foi exatamente essa noção que Nietzsche tinha lido em Arthur Schopenhauer: “Somos apenas seres temporais, finitos, passageiros, sonhadores, que passam voando como sombras”. Portanto, como disporiam de um “intelecto que compreendesse relações infinitas, eternas, absolutas?”. A capacidade de compreensão da mente humana, como Schopenhauer e Nietzsche previram, é diretamente dependente das exigências da adaptação evolutiva. O ser humano só consegue compreender o que 26


o sistema de compreensão, surgido na concorrência da evolução, lhe oferece como capacidade de compreensão. Como qualquer outro animal, o ser humano modela o mundo de acordo com as noções que recebe de seus sentidos e de sua consciência. Uma coisa está clara: todo nosso conhecimento está relacionado, em primeira instância, com nossos sentidos. Não reconhecemos e também não faz parte do nosso mundo aquilo que não ouvimos, não vemos, não sentimos, não degustamos e não podemos tocar. Precisamos ler ou enxergar em sinais mesmo as coisas mais abstratas para podermos imaginá-las. Desse modo, para uma visão de mundo totalmente objetiva, o ser humano precisaria de sentidos sobre-humanos, que abrangessem o espectro inteiro de todas as percepções sensoriais possíveis: os superolhos da águia, o olfato sensível por quilômetros de distância dos ursos, o sistema de orientação dos peixes, a capacidade sismográfica das cobras, e assim por diante. Os seres humanos não são capazes disso e, em decorrência, uma visão objetiva geral das coisas também não é possível. Nosso mundo nunca é o mundo como ele é “em si”, muito menos o mundo do cão ou do gato, do pássaro ou do besouro. “O mundo, meu filho”, explica o peixe pai ao peixe filho no aquário, “é uma grande caixa cheia de água!”. O olhar implacável de Nietzsche sobre a filosofia e a religião mostrou o quanto a maioria das autodefinições do ser humano são exageradas. (O fato de ele mesmo ter trazido novos exageros e tensões ao mundo é uma outra coisa.) A consciência humana não foi formada pela incisiva pergunta “O que é a verdade?”. Uma outra foi, com certeza, mais importante: O que é o melhor para minha sobrevivência e meu progresso? O que nada contribuía para isso provavelmente teria poucas chances de receber um papel importante na evolução do ser humano. Nietzsche, porém, nutria a vaga esperança de que essa autocompreensão tornasse o ser humano mais esperto e possivelmente o transformasse num “super-homem”, com um senso de compreensão realmente ampliado. Mas mesmo então o cuidado seria melhor pedida do que o páthos. Todo o conhecimento da consciência humana e sua “química” — que, como veremos, fez enormes progressos desde os dias de Nietzsche —, até mesmo os aparelhos de medição mais inteligentes e as observações 27


mais sensíveis, não modificam em nada o fato de que o homem dispõe de uma compreensão objetiva insatisfatória. Entretanto, isso é tão ruim assim? Não seria muito pior se o homem soubesse tudo em relação a si próprio? Precisamos mesmo de uma verdade que flutue livre e independente sobre nossas cabeças? Às vezes o caminho também é um belo objetivo, principalmente se é tão emocionante como aquelas trilhas que nos levam até nós próprios. “Nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos?”, Nietzsche perguntou na Genealogia da moral. Tentemos então nos encontrar o máximo possível, da maneira que nos é permitida no presente. Qual caminho devemos tomar? Quais métodos empregar? E como saberemos que chegamos ao final? Se todo o nosso conhecimento depende de nosso cérebro de vertebrados e é lá que se desenrola, o melhor a fazer é começar com esse cérebro. E a primeira pergunta é: Qual sua origem? Por que ele é desse jeito? • Lucy in the sky. De onde viemos?

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Quem sou eu?