Page 1

A verdade raramente é pura e nunca é simples... Londres, 1889. Oscar Wilde, celebrado poeta e contador de histórias, homem de inteligência admirável, é a sensação literária da época. A Europa toda está a seus pés. No entanto, quando ele depara com o cadáver nu de um jovem de 16 anos, caído à luz de um candelabro no quarto sombrio e sufocante de um sobrado, não pode ignorar o brutal assassinato. Com a ajuda de seu amigo, Sir Arthur Conan Doyle, Wilde se dedica a solucionar o crime. Seu temperamento peculiar e o acesso singular a todos os graus da antiga vida vitoriana provam os fatores decisivos na investigação de uma série de assassinatos bizarros e aparentemente inexplicáveis.

Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas

Gyles Brandreth é escritor, artista, orador e já atuou na política e no governo. É casado com a escritora e publisher Michele Brown e tem três filhos.

G y l e s

Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas

Em Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas, Gyles Brandreth explora o mundo secreto de Oscar Wilde – as amizades surpreendentes, o casamento complexo e a associação incomum com o inspetor Aidan Fraser, da Scotland Yard.

www.ediouro.com.br/oscarwilde

oscar wildebrasil.indd 1

r o m a n c e

GYLES BRANDRETH

Ambientado no exótico cenário do fin de siècle de Londres e Paris, este livro mostra toda a inteligência, brilhantismo e perspicácia de um dos maiores personagens literários de todos os tempos.

B r a n d r e t h

p o l i c i a l

Certa tarde de 1889, o escritor Oscar Wilde vai a um endereço em Londres encontrar-se com uma pessoa. Ao subir as escadas do casarão, encontra um jovem garoto de programa conhecido seu que acabara de ser brutalmente assassinado. Na mesma noite, Wilde conhece o escritor Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes. A afinidade entre ambos é grande, e Wilde conta ao colega o que presenciara. Doyle, por sua vez, o aconselha a procurar um velho amigo na Scotland Yard, Aidan Fraser. No dia seguinte, Wilde resolve ir até lá narrar tudo o que presenciou ao agente da lei, mas estranhamente não vê nenhum interesse por parte da polícia britânica em desvendar o caso. Como era amigo do jovem assassinado, nosso protagonista resolve investigar, por conta própria, o que realmente aconteceu naquela tarde de 1889. No entanto, também acredita que alguns poderosos têm razões suficientes para impedir que a verdade venha à tona. Usando como pano de fundo o cenário londrino e parisiense do final do século XIX para chegar à surpreendente verdade por trás deste e de outros crimes violentos, Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas é um romance policial bem construído, com personagens bastante familiares aos leitores, bem como uma leitura divertida e prazerosa, que prende a atenção do início ao fim.

12/9/08 9:33:43 PM


Gyles Brandreth

OSCAR WILDE e os Assassinatos à Luz de Velas TRADUÇÃO

Débora da Silva Guimarães Isidoro


Título original: Oscar Wilde and the Candlelight Murders © 2007 by Gyles Brandreth Direitos de tradução cedidos à Ediouro Publicações Ltda., 2009 Editora: Mariana Rolier Assistente editorial: Fernanda Cardoso Coordenadora de produção: Adriane Gozzo Assistente de produção: Juliana Campoi Preparação de textos: Carol Wilbert Revisão: Agnaldo Alves e Rosane Albert Editora de arte: Ana Dobón Projeto gráfico e diagramação: Dany Editora Design da capa: © Dominike Duplaa Imagens de capa: Oscar Wilde: foto by © Hulton Archive (Getty Images) Londres, Casa do Parlamento: foto by © Murat Taner/Zefa (Corbis)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Brandreth, Gyles, 1948Oscar Wilde e os assassinatos à luz de velas / Gyles Brandreth ; tradução Débora da Silva Guimarães Isidoro. — São Paulo : Ediouro, 2009. Título original: Oscar Wilde and the candlelight murders. ISBN 978-85-00-01407-9 1. Ficção policial e de mistério (Literatura inglesa) I. Título. 08-08339

CDD-823.0872 Índice para catálogo sistemático:

1. Ficção policial e de mistério : Literatura inglesa

823.0872

Todos os direitos reservados à Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 – Bonsucesso Rio de Janeiro – RJ – CEP 21042-235 Tel.: (21) 3882-8200 Fax: (21) 3882-8212 / 3882-8313 www.ediouro.com.br


Para SRB


Que vida fantástica leva Oscar — tão cheia de incidentes extraordinários. Que oportunidade para os biógrafos do próximo século! Max Beerbohm (1872-1956)


Das Memórias Previamente Não-Publicadas de Robert Sherard França, 1939

M

eu nome é Robert Sherard e fui amigo de Oscar Wilde. Nós nos conhecemos em Paris, em 1883, quando ele tinha vinte e oito anos e já era famoso, e eu era um total desconhecido de vinte e um anos. “Você não deve me chamar de ‘Wilde’”, ele me disse naquele primeiro encontro. “Se sou seu amigo, Robert, para você meu nome é Oscar. Se somos apenas desconhecidos, sou o senhor Wilde.” Não éramos desconhecidos. Não éramos amantes. Éramos amigos. E, depois de sua morte, me tornei seu primeiro — e mais fiel — biógrafo. Conheci Oscar Wilde e o amava. Não estive presente no quarto pobre da hospedaria pobre em que ele morreu. Não tive o consolo de acompanhá-lo à sepultura sem identificação onde ele foi enterrado em um caixão sem flores. Mas, quando li sobre sua morte solitária muitos quilômetros distante de onde eu estava, quando ouvi sobre o supremo abandono perpetrado por aqueles com quem ele sempre fora tão bom, decidi dizer todas as coisas que sabia sobre ele, contar às pessoas quem ele realmente era, de forma que minha história pudesse colaborar um pouco para uma melhor compreensão de um homem de coração raro e gênio ainda mais raro. Escrevo no verão de 1939. A data é 31 de agosto, quinta-feira. A guerra se agiganta, mas nada significa para mim. Quem vence, quem perde — não me importa. Sou agora um homem velho e doente e tenho uma história que preciso contar antes de morrer. Quero concluir o registro, “terminar o retrato”, 9


da melhor maneira possível. Da mesma forma que em uma floresta de pinheiros no sul da França há grandes áreas negras, queimadas, também existem vazios em minha memória. Há muito que esqueci, muito que tentei esquecer, mas o que vocês vão ler nas páginas que seguem sei que é verdade. Nos anos de nossa amizade, mantive um diário de nossos tempos juntos. Prometi a Oscar que guardaria segredo por cinqüenta anos. Cumpri minha promessa. E agora chegou o momento em que posso romper meu silêncio. Finalmente posso revelar tudo o que sei sobre Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas. E devo revelar, porque tenho o registro. Eu estava lá. Sou a testemunha.

10


Os bons morrem primeiro, e aqueles cujo coração é seco como a terra no verão ardem até o fim do pavio. William Wordsworth (1770-1850)


1

31 de Agosto de 1889

E

m uma tarde ensolarada, no final de agosto de 1889, um homem de trinta e poucos anos — alto, um pouco acima do peso e certamente vestido com pompa excessiva para o horário — foi admitido em uma pequena casa assobradada na Rua Cowley, em Westminster, perto das Casas do Parlamento. O homem estava apressado e não costumava correr. Seu rosto estava corado, e a parte mais alta da testa era coberta por uma fina camada de suor. Ao entrar na casa — número 23 da Rua Cowley —, passou pela mulher que abriu a porta e seguiu imediatamente pelo corredor que levava à escada e ao primeiro andar. Lá, diante dele, no final de um corredor sem tapete, havia uma porta de madeira. O homem parou por um instante — para sorrir, recuperar o fôlego, ajustar o casaco e, com as duas mãos, alisar os ondulados cabelos castanhos. Então, com leveza, quase delicadamente, bateu à porta e, sem aguardar resposta, entrou no aposento. Era um quarto escuro, com cortinas pesadas, quente como uma fornalha e dominado pelo aroma de incenso. O homem ajustou a visão à penumbra e viu, iluminado pelas chamas de meia dúzia de velas gotejantes, estendido no chão diante dele, o corpo nu de um rapaz de dezesseis anos, com a garganta cortada de orelha a orelha. O homem era Oscar Wilde, poeta e dramaturgo, sensação literária de seu tempo. O jovem morto era Billy Wood, um garoto de programa de pouca importância. ✧ ✧ ✧ 13


Eu não estava presente quando Oscar encontrou o corpo sem vida de Billy Wood, mas o vi algumas horas mais tarde e fui o primeiro a quem ele deu um relato do que vira naquela tarde quente, no quarto acortinado, na Rua Cowley. Naquela noite, meu célebre amigo tinha um jantar com seu editor americano, e eu havia combinado encontrá-lo mais tarde, às dez e meia da noite, em seu clube, o Albemarle, no número 25 da Rua Albemarle, perto de Piccadilly. Chamo o lugar de “seu” clube, embora, de fato, também seja meu clube. Naqueles dias, o Albemarle incentivava a freqüência de jovens membros — jovens damas a partir dos dezoito anos, de fato! — e cavalheiros a partir dos vinte e um. Oscar me apresentou e, com a habitual generosidade, pagou os oito guinéus da taxa referente à minha associação e depois, todos os anos, até o momento de seu aprisionamento em 1895, pagou também os cinco guinéus de taxa de manutenção anual. Sempre que nos encontrávamos no Albemarle, invariavelmente o custo dos drinques que bebíamos e da comida que comíamos era debitado em sua conta. Ele se referia ao local como “nosso clube”. Eu pensava no lugar como o “clube dele”. Oscar se atrasou para o nosso encontro naquela noite, o que não era comum. Ele simulava maneiras lânguidas, posava de ocioso, mas, via de regra, se marcava um encontro ou assumia um compromisso, cumpria com o acertado. Raramente carregava um relógio, porém parecia sempre saber a hora exata. “Não devo faltar com os amigos”, dizia. “Nem deixá-los à espera.” Como podem atestar todos que o conheciam, ele era um modelo de consideração, um homem de infinita cortesia. Mesmo em momentos de grande estresse, seus modos eram impecáveis. Passava das onze e quinze da noite quando ele finalmente chegou. Eu estava na sala de fumantes do clube, descansando em um sofá próximo da lareira. Havia virado as páginas do jornal noturno pelo menos quatro vezes, mas não registrara uma única palavra. Estava preocupado. (Aquele foi o ano em que meu primeiro casamento chegou ao fim; minha esposa, Marthe, se opusera à minha amiga Kaitlyn — e agora Kaitlyn havia fugido para Viena! Como Oscar gostava de dizer: “A vida é o pesadelo que nos 14


impede de dormir”.) Quando ele entrou na sala, eu havia quase me esquecido de que o esperava. E, quando ergui o olhar e o vi ali parado, olhando para mim, surpreendi-me com sua aparência. Oscar parecia exausto; havia círculos escuros sob seus olhos pesados. Evidentemente, ele não se barbeava desde a manhã e, ainda mais surpreendente para alguém tão meticuloso, não mudara de roupa para o jantar. Ainda usava as roupas de um dia de trabalho: um terno que ele mesmo desenhara, cortado de pesada sarja azul, com casaco abotoado até o alto, onde começava o nó grandioso da gravata vermelha. Por seus padrões, aquele era um traje comparativamente conservador, mas era impressionante por ser impróprio para aquela época do ano. — Isso é imperdoável, Robert — ele disse, deixando-se cair no sofá diante daquele onde eu estava. — Estou quase uma hora atrasado, e seu copo está vazio. Hubbard! Champanhe para o senhor Sherard, por favor. Ou melhor, traga uma garrafa para nós dois. Na vida, há dois tipos de pessoas: as que atraem o olhar do garçom e as que não o atraem. Sempre que eu chegava ao Albemarle, os serviçais pareciam desaparecer instantaneamente. Todas as vezes que Oscar chegava, eles se aproximavam prestativos e permaneciam ao seu dispor. Honravam-no. Oscar dava gorjetas dignas de um príncipe e os tratava como se fossem seus aliados. — Teve um dia cheio — comentei, deixando de lado o jornal e sorrindo para meu amigo. — É muito gentil por não me repreender, Robert — Oscar respondeu, sorrindo antes de recostar-se e acender um cigarro. Ele jogou o fósforo apagado na lareira vazia. — Tive um dia perturbador — prosseguiu. — Hoje conheci grande prazer e também grande dor. — Conte-me — pedi. Tentei soar despreocupado, porque o conhecia bem. Para um homem que, no final, foi destruído pela grosseira indiscrição, ele era muito discreto. Dividia seus segredos com algumas pessoas, sim, mas só quando não era pressionado para isso. — Antes vou lhe contar sobre o prazer — ele decidiu. — A dor pode esperar. 15


Permanecemos em silêncio enquanto Hubbard servia a bebida com cerimônia obsequiosa. (Deus, como ele demorava!) Quando o garçom se afastou e ficamos mais uma vez sozinhos, esperei que Oscar retomasse o relato, mas, em vez disso, ele ergueu a taça em minha direção e fitou-me com aquele olhar vago, cansado do mundo. — Como foi o jantar? — indaguei. — A conversa com seu editor? — Jantar — ele repetiu, retornando do devaneio. — Fomos ao novo Hotel Langham, onde a decoração é exagerada e o filé é passado além do ponto. Meu editor, o senhor Stoddart, é um encanto. É americano, por isso a atmosfera à sua volta é sempre carregada de energia e reconhecimento. Ele é o editor da Lippincott’s Monthly Magazine... — E você recebeu uma encomenda para um novo trabalho? — deduzi. — Melhor ainda, ele me apresentou a um novo amigo. Levantei uma sobrancelha. — Sim, Robert, esta noite fiz um novo amigo. Você vai gostar dele. Eu estava acostumado com os súbitos entusiasmos de Oscar. — Terei oportunidade de conhecê-lo? — perguntei. — Sim, muito em breve, se puder dispor de tempo. — Ele virá aqui? — Olhei para o relógio sobre o console da lareira. — Não, iremos encontrá-lo para o desjejum. Preciso de um conselho. — Conselho? — O homem é médico. E é escocês. De Southsea. — Não é de espantar que esteja perturbado, Oscar — comentei, rindo. Ele também riu. Sempre ria das piadas alheias. Não havia nada de maldoso em Oscar Wilde. — Por que ele participou do jantar? — questionei. — Ele também é autor. Novelista. Já leu Micah Clarke? A Escócia do século dezessete nunca foi tão divertida. — Não li a obra, mas sei exatamente a quem se refere. Havia um artigo sobre ele na edição de hoje do The Times. Ele é o homem em ascensão: Arthur Doyle. 16


— Arthur Conan Doyle. Ele faz questão disso. Deve ter a sua idade, suponho. Vinte e nove anos, trinta, talvez, mas há em torno dele uma aura que o faz parecer mais velho que o pai de todo mundo. Ele é claramente brilhante, um cientista capaz de brincar com as palavras, e é muito atraente também para quem é capaz de imaginar o rosto por trás do bigode de morsa. À primeira vista, pode-se pensar nele como um caçador de animais de grande porte, alguém que acaba de retornar do Congo, mas por trás daquele aperto de mão, que é intolerável, não há nada de bruto nele. O homem é gentil como São Sebastião e sábio como Santo Agostinho. Ri novamente. — Você é terrível, Oscar. — Só porque sinto certa inveja — ele respondeu. — O jovem Arthur causou sensação com sua nova criação. — Sherlock Holmes — eu disse. — O detetive. Um Estudo em Vermelho, que já li. É excelente. — Stoddart parece concordar com sua opinião. Ele quer a seqüência. E entre a entrada e o prato principal Arthur prometeu ao homem que atenderia ao pedido. Aparentemente, o livro vai se chamar O Signo dos Quatro. — E quanto à sua história para o senhor Stoddart? — A minha também será um mistério em torno de um assassinato. Mas um pouco diferente. — Seu tom mudou. — Será sobre o assassinato que está além da investigação comum. — O relógio marcou um quarto de hora. Oscar acendeu o segundo cigarro. Parou e olhou para a lareira vazia. — Falamos muito sobre assassinato esta noite — disse em voz baixa. — Lembra-se de Marie Aguétant? — Claro que sim — respondi. Ela não era uma mulher que se pudesse esquecer. À sua maneira, em seu tempo, foi a mais famosa dama da França. Eu a conheci com Oscar, em Paris, em 1883, no Eden Music Hall. Jantamos juntos, os três, ostras e champanhe seguido por patê de foie gras e Barsac, e Oscar falou, falou e falou como eu jamais o ouvira falar antes. Ele falava em francês — um francês perfeito — e falava de amor e morte e poesia, e de poesia 17


de amor e morte. Eu me encantava com ele, com sua genialidade, e Marie Aguétant permanecia sentada com as mãos entre as dele, hipnotizada. E então, um pouco embriagado, ele nos surpreendeu, convidando-a a dormir com ele. — Où? Quand? Combien? — perguntou. — Içi, ce soir, gratuit — ela respondeu. — Penso nela com freqüência — ele dizia —, e naquela noite. Que animais somos nós homens! Ela era uma meretriz, Robert, mas tinha um coração puro. E foi assassinada, como bem sabe. — Sim, eu sei — confirmei. — Já falamos sobre isso antes. — Arthur falou sobre os assassinatos daquelas mulheres em Whitechapel — ele continuou, sem prestar atenção em mim. — Falou sobre os casos com detalhes próprios de um perito criminal. Está convencido de que “Jack, o Estripador” é um cavalheiro, ou, pelo menos, um homem de boa educação. E se interessa particularmente pelo caso de Annie Chapman, a pobre criatura encontrada no quintal do abrigo infantil do doutor Barnardo, na Rua Hanbury. Ele disse que o útero da senhora Chapman foi removido do corpo “por um especialista”. Estava ansioso para me mostrar um desenho do corpo mutilado da vítima, mas protestei e, numa reação um pouco tola, tentei amenizar a atmosfera. Para divertilo, falei sobre a resposta do falsificador Wainewright ao ser criticado por um amigo por um assassinato que havia confessado: “Sim, foi uma coisa horrível a se fazer, mas ela tinha tornozelos muito grossos”. — Ele riu? — eu quis saber. — Arthur? Ele quase nem sorriu, embora Stoddart tenha gargalhado. E depois, com grande objetividade, ele me perguntou se eu acreditava ser capaz de cometer um assassinato. Respondi que não, porque acredito que ninguém deve fazer coisas sobre as quais não possa falar durante o jantar. — E então ele riu, imagino? — Não. Manteve-se totalmente sério e disse: “Senhor Wilde, constato que faz piadas sobre as coisas que mais teme em si mesmo. Esse é um hábito perigoso. E será seu fim”. Naquele momento, percebi que ele era 18


meu amigo. E naquele momento senti vontade de falar com ele sobre o que havia visto horas antes, à tarde... Mas não me atrevi a tanto. Stoddart estava lá. Stoddart não teria compreendido. — Ele esvaziou o copo. — Por isso, meu querido Robert, devemos retornar à companhia de meu novo amigo amanhã cedo. E agora tenho que ir. O relógio do clube anunciava meia-noite. — Mas, Oscar — protestei —, você ainda não me contou o que viu hoje à tarde. Ele se levantou. — Vi uma tela rasgada ao meio. Vi uma coisa de rara beleza destruída por vândalos. — Não entendo. — Vi Billy Wood em um quarto na Rua Cowley. — Billy Wood? — Um dos garotos de Bellotti. Ele foi assassinado. À luz de velas. Em um quarto do segundo andar de um sobrado. Preciso saber por quê. Para que possível finalidade? Preciso saber quem cometeu esse terrível ato. — Ele segurou minhas mãos entre as dele. — Robert, agora devo ir. Já é meia-noite. Amanhã lhe direi tudo. Vamos nos encontrar no Hotel Langham às oito horas. O bom médico estará comendo seu mingau. Nós o encontraremos. Ele nos aconselhará sobre que curso seguir. Prometi a Constance que esta noite estaria em casa. A Rua Tite chama. Você não é mais casado, Robert, mas tenho minhas obrigações. Minha esposa, meus filhos. Quero vê-los dormindo em segurança. Amo-os profundamente. E amo você também. Boa noite, Robert. Já ouvimos as doze badaladas. Ao menos isso podemos dizer. E ele partiu. Saiu da sala com um floreio. Chegara exausto, mas parecia partir renovado. Esvaziei a garrafa despejando seu conteúdo em minha taça e pensei no que ele me havia dito, porém não consegui tirar nenhum sentido de suas declarações. Quem era Billy Wood? Quem era Bellotti? Que quarto de qual sobrado? O assassinato era um fato ou só mais uma das alegorias fantásticas de Oscar? 19


Terminei de beber o champanhe e deixei o clube. Para minha surpresa, Hubbard se mostrou quase polido ao me desejar boa-noite. Havia táxis parados na fila em Piccadilly, e, como eu havia vendido dois artigos naquele mês, dispunha de fundos, mas a noite era agradável, iluminada por uma radiante lua de agosto, e as ruas eram tranqüilas, razões pelas quais decidi voltar caminhando ao meu quarto na Rua Gower. Vinte minutos mais tarde, quando seguia para o norte e para a Rua Oxford, quando saí de uma alameda estreita na Praça Soho, parei de repente e recuei, buscando o abrigo das sombras. Do outro lado da praça deserta, ao lado da nova igreja de São Patrício, ainda cercada de andaimes, havia um táxi parado e, embarcando nele, iluminado por um raio de luar, havia um homem e uma jovem mulher. O homem era Oscar — não havia dúvida quanto a isso. Mas a jovem não reconheci; seu rosto era horrendamente desfigurado e, a julgar pela maneira com que ela segurava o xale em torno do corpo, a pobre criatura devia estar tomada por terrível pavor.

20

Oscar Wilde e os Assassinatos à Luz de Velas  

Nesta aclamada obra de ficção, após não obter ajuda da Scotland Yard, Oscar Wilde se une a Arthur Conan Doyle (autor de Sherlock Holmes) par...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you