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Luiz Felipe D’Avila estudou ciências

Durante os vinte anos em que

políticas em Paris e administração

Cosimo de Medici comandou a

pública na Universidade de Harvard.

política e influenciou a sociedade

Em 1996, fundou a Editora D’Avila, responsável pela publicação das revistas República e BRAVO! (hoje editada pela Editora Abril). Foi diretor e publisher da Editora Abril. Atualmente, é diretor-presidente do Centro de Liderança Pública e sócio e professor da Casa do Saber. Além deste livro, o autor publicou:

Brasil, Uma Democracia em Perigo (Hamburg, 1990); As Constituições

Brasileiras (Brasiliense, 1993); O Crepúsculo de Uma Era (Makron Books, 1995); Dona Veridiana (A Girafa, 2004); Os Virtuosos (A Girafa, 2006).

“Liderar não é um direito hereditário, mas uma escolha pessoal. Liderar não é conquistar cargos importantes e desfrutar das regalias do poder, mas ter coragem de produzir mudanças transformadoras na sociedade que ajudem a preservar os valores e princípios que sustentam a civilização. Liderar não é apenas pensar na vitória da próxima eleição ou no sucesso momentâneo das ações políticas, mas ter consciência de que cada decisão tomada hoje continuará a repercutir na trajetória da nação, gerando novas ações e reações que afetarão o destino da civilização. Liderar uma nação significa conviver diariamente com o peso e a responsabilidade da eternidade, pois a História não tem ‘começo, meio e fim’; ela é um processo contínuo e intermitente que reúne o acúmulo de experiência, memória, feitos, erros e acertos da humanidade.”

com seu poder, Florença transformou-se num dos principais centros da Europa por sua vocação cultural e financeira. E foi além: tornou-se a capital mundial da Renascença. Nenhum outro lugar foi capaz de reunir nesse período tantos artistas, intelectuais, estadistas, banqueiros e grandes comerciantes. Tal efervescência deveu-se, em grande parte, à habilidade de Cosimo de preservar a ordem em Florença e a paz na Itália. Um exemplo de estadista, mecenas e homem de negócios, Cosimo transformou o banco que herdou do pai em uma das maiores instituições financeiras da Europa, cultivou a amizade de artistas e intelectuais, financiou a construção de prédios e igrejas, a criação de inúmeras obras de arte e a constituição de uma das maiores coleções de manuscritos da Europa – um patrimônio que ele fez questão de compartilhar com os florentinos. Cosimo de Medici tinha a admiração de todos, menos de um homem em especial: Rinaldo Albizzi.

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LUIZ FELIPE D’AVILA

Cosimo de Medici Memórias de um Líder Renascentista

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© 2008 by Luiz Felipe D’avila Todos os direitos cedidos à Ediouro Publicações Ltda. Editora: Cristina Fernandes Assistente editorial: Marcus Assunção Coordenadora de produção: Adriane Gozzo Assistente de produção: Juliana Campoi Preparação de textos: Eliel Cunha Revisão: Wilson Ryoji Imoto Editora de arte: Ana Dobón Ilustrações de miolo: Stock Photos Imagem de capa: Getty Images Projeto gráfico e diagramação: AT Studio

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) D’Avila, Luiz Felipe Cosimo de Medici: Memórias de um Líder Renascentista / Luiz Felipe D’Avila. — São Paulo : Ediouro, 2008. ISBN 978-85-00-01815-2 1. Ficção histórica brasileira I. Título. 08-09664

CDD-869.93081

Índice para catálogo sistemático: 1. Romance histórico : Literatura brasileira 869.93081

Todos os direitos reservados à Ediouro Publicações Ltda. R. Nova Jerusalém, 345 - Bonsucesso Rio de Janeiro - RJ - CEP: 21042-235 Tel.: (21) 3882-8200 - Fax: (21) 3882-8212/8313 www.ediouro.com.br

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Aos cilcistas da Toscana: Silvio e Diogo, Xande e Vera, Pater e Raquel, Ricardo e Isabelle, Abilio e Geyze.

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A Cela Número 39

A idéia deste livro nasceu durante uma viagem de bicicleta pela Toscana, em junho de 2002. Ela começou a brotar numa visita ao Mosteiro de San Marco, em Florença. Nesse charmoso museu encontram-se vários afrescos e pinturas de Fra Angelico – um dos meus artistas favoritos do período renascentista. Fra Angelico levou-me a Cosimo de Medici de uma maneira inusitada. O artista pintou afrescos em todas as 43 celas do mosteiro, mas havia uma delas que destoava das demais: a cela número 39. O primeiro detalhe que me chamou a atenção foi o seu tamanho. Ela possuía o dobro do espaço das demais; algo estranho numa entidade em que o princípio da igualdade reinava entre os frades. Além do tamanho da cela 39, havia outro detalhe curioso: o tema do afresco escolhido por Fra Angelico. Em todas as celas, ele pintou afrescos que retratavam cenas da vida de Jesus; sua peregrinação, 9

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ensinamentos e sofrimento na cruz. Essas imagens inspiravam os frades a refletir sobre as palavras e os feitos de Cristo. Mas, na cela número 39, Fra Angelico retratou uma esplendorosa Adoração dos Reis Magos que contrastava com a simplicidade dos afrescos nas demais celas. O tema, o estilo e a riqueza de cores, figuras e detalhes da Adoração dos Reis Magos me pareciam demasiadamente mundanos no contexto espiritual do mosteiro. Tive a impressão de ser a cela de um laico, e não de um frade. Na saída do museu, comprei um livro sobre o Mosteiro de San Marco e descobri que a cela número 39 pertencia a Cosimo de Medici – o cidadão mais importante, rico e influente de Florença na segunda metade do século XV. Cosimo transformou a família Medici numa dinastia que exerceu papel preponderante em Florença e na Europa durante dois séculos. Ele foi responsável por converter o banco que herdara do pai na maior e mais poderosa instituição financeira da Europa. O banco tornou-se a sua principal atividade econômica, assim como o epicentro de uma rede de clientes, informação e negócios que lhe permitiram assegurar a paz e a prosperidade econômica de Florença. Reis, papas, governantes e grandes comerciantes eram financiados pelos empréstimos de Cosimo. Além de ser um banqueiro preeminente e um estadista competente, Cosimo adorava cultivar a filosofia e financiar as artes. Fundou a Academia Platônica, criou uma das mais extraordinárias bibliotecas

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da época, financiou a construção de igrejas, mosteiros e prédios públicos, patrocinou centenas de pinturas, afrescos e esculturas, tornando-se um dos maiores mecenas da Europa. A paixão de Cosimo pelas artes e a determinação em usar grande parte da sua fortuna para financiar o talento de artistas como Donatello, Brunelleschi, Fra Angelico e Filippo Lippi foram vitais para transformar Florença no berço da Renascença. Por que o homem mais poderoso, rico e importante de Florença tinha uma cela no Mosteiro de San Marco? Porque era o lugar em que se refugiava do mundo para ficar só e cultivar a alma e o espírito. A cela número 39 era o seu santuário; o espaço sagrado em que buscava o sossego, a paz e a serenidade monástica para refletir e rezar. Imaginei que a cela deveria ser o lugar em que Cosimo encontrava a serenidade para se engajar na conversa do “eu-comigo mesmo”, que só pode ser travada quando nos sentimos seguros para nos despir dos nossos papéis e deparar apenas com a alma, o coração e a consciência. Nesse santuário Cosimo lapidava cuidadosamente as suas decisões importantes. O nosso destino é tecido pelo mosaico das nossas escolhas. Os nossos erros e acertos criam cicatrizes e esperanças na alma que influenciam a maneira como lidamos com as oportunidades, riscos, medos, sonhos e desafios da vida. Não há momento mais dramático que o instante das nossas escolhas, especialmente quando se trata do líder de uma nação. O exercício do livre-arbítrio anula algumas alternativas e abre outras perspectivas, aniquila algumas possibilidades e faz brotar

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outras que não havíamos imaginado. A escolha impulsiona a ação, que, por sua vez, define o caráter do ser humano e determina o legado de cada pessoa. Mergulhar na cela número 39 e tentar desvendar as reflexões de Cosimo me pareceram um tema inspirador para um livro. Minha primeira idéia consistia em pesquisar os fatos históricos que ocorreram antes e depois das imersões de Cosimo na cela e tentar recriar as suas reflexões. Essa idéia não progrediu porque ele deixou em cartas muito poucos rastros dos seus sentimentos e reflexões. Uma mistura de cautela e temor de que as cartas pudessem revelar suas angústias, intenções e fragilidades o levou a ser breve, sucinto e objetivo nas correspondências, mesmo quando se tratava de cartas para filhos, mulher e amigos. O formato definitivo do livro floresceu durante o meu ano sabático na Universidade de Harvard em 2006/2007. Tive o privilégio de aprofundar meus estudos na Kennedy School of Government com Joseph Nye, Ron Heifetz, Bryan Hehir, Andy Zelleke e Kenneth Winston em dois temas que me fascinam: liderança e ética. Resolvi então usar esses dois pilares para transformar a história de Cosimo num livro de ficção histórica. A cela número 39 tornou-se o lugar em que Cosimo resolveu escrever suas memórias e reflexões para um filho ou neto que teriam de continuar a árdua tarefa de governar Florença, os negócios e a família. Além da inspiração dos professores da Kennedy School, contei com a leitura crítica e os comentários valiosos do professor Leandro Karnal e da minha mulher, Ana, cujo senso crítico sempre me ajuda a polir as idéias.

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1 ฀฀฀฀฀฀

Liderar significa correr riscos, e não há risco maior que se isolar dos seus inimigos. Esse isolamento pode lhe custar a vida. Na manhã do dia 7 de setembro de 1433, recebi em minha casa uma carta do líder do governo, Bernardo Guadagni, convocando-me para uma reunião no Palácio de la Signoria1. Assuntos de suma importância seriam discutidos, o que era um claro sinal de que o comparecimento de todos os membros do governo era imprescindível. Eu não podia imaginar que assunto tão premente pudesse ter surgido, mas o gênio intempestivo de Rinaldo degli Albizzi tinha o poder de transformar uma divergência banal em crise política. Rinaldo pertencia a uma família que controlava a maioria dos votos no governo, portanto, suas vontades e caprichos eram capazes de provocar crises repentinas. Deixei de lado as minhas especulações sobre o motivo da convocação e dirigi-me ao palácio do governo. O capitão da guarda palaciana já me aguardava na entrada. Ele não esboçara nenhum sinal atípico. Cumpria o seu papel com a habitual rigidez protocolar. Saudou-me e escoltou-me, com outros três guardas, ao grande salão onde as reuniões de governo eram realizadas. Ao me aproximar da porta, notei que já estava fechada e que todos os seus membros estavam reunidos. 1. Sede do governo florentino.

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Parei por um instante e logo senti as mãos dos guardas me agarrarem e me imobilizarem. O capitão anunciou a minha prisão e conduziu-me a uma pequena cela na torre do palácio. Minha primeira reação foi de incredulidade. Como me deixei cair nessa cilada tão infantil?! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter subestimado a capacidade de Rinaldo degli Albizzi. Esse oligarca arrogante e impulsivo era movido por duas obsessões: destruir a minha família – os Medici – e tornar-se o líder supremo de Florença. Ao me matar, Rinaldo esperava destruir a oposição ao seu governo e tornar-se o líder inconteste de Florença. Eu estava certo de que essas duas obsessões o arruinariam. Os florentinos são muito orgulhosos de sua república e de suas liberdades cívicas, portanto nutrem grande antipatia por tiranos. É verdade que em épocas de crise eles costumam eleger temporariamente um governo com poderes absolutos para pôr fim à desordem e restabelecer a paz na cidade. Mas não havia sinal de caos político em setembro de 1433. É fácil culpar os outros pelos nossos problemas e fracassos. Não culpo Rinaldo pelo meu destino. Estou aqui porque o subestimei e ignorei as suas ameaças. Cometemos os maiores erros por excesso de confiança nas nossas virtudes. Eu confiava no meu diagnóstico político. Pensava que a queda de Rinaldo fosse apenas uma questão de tempo. Seu espírito vingativo, seu ódio implacável e sua impaciência de tolerar qualquer forma de oposição fariam exalar o cheiro de tirania, o que suscitaria a divisão dos aliados, despertaria a ira popular e geraria um levante contra o seu governo. Políticos com muita sede de poder e com ambição desmesurada não duram muito em Florença; eles acabam sendo depostos, exilados ou assassinados. Em vez de combater Rinaldo no governo, no Parlamento e nas campanhas eleitorais, preferi refugiar-me na minha casa de campo em Careggi e não participar da eleição de setembro. Acreditava que Rinaldo conseguiria formar um governo de partidários, o que só colaboraria para acelerar o processo da sua queda. Mas a minha estada em Careggi parece ter suscitado novas suspeitas em Rinaldo. 16

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Cosimo de Medici