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Dados Internacionais de Catalogação

G588b Godoy, Letícia Borborema / Letícia Godoy. - 2016 346 f. : 1º ed. Romance ficcional - Editora Arwen, São Paulo, 2016. Prefixo: 068255 - ISBN: 978-85-68255-76-6 1. Literatura Brasileira; 2. Romance; 3. Ficção; I. Título. CDD. 869.93 CDU. 821.13

Revisado conforme o novo acordo ortográfico. Grupo Editoral Arwen @editoraarwen contato@editoraarwen.com.br facebook/editoraarwen (11) 2225-0574 | (11) 2225-0450 www.arwenstore.com.br Dandos raízes aos seus sonhos.

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7 Borborema

Para minha família, aquela que me inspirou com seus

próprios dramas e superações a escrever estas singelas linhas.


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Hoje estou aqui... Amanhã não estarei, por isso, deixo esta marca para que sempre se lembrem de mim. Mesmo quando o meu coração não mais bater, esta minha eterna paixão irá prevalecer...


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omo é bom estar de volta à Borborema. Enquanto eu lia as páginas que se estendem, neste momento, à sua frente, descobri um novo lar. O ar puro e fresco, as paisagens naturais e grandiosas, a comida saborosa e caseira: elementos tão bem descritos pela autora que me fizeram submergir na realidade de Annabel e deles sentir falta quando alcancei o último ponto final. Como é bom estar de volta à Borborema. Quando se está diante de uma grande escritora, como é o caso da Letícia Godoy, deixa-se de ser leitor, mero expectador de um enredo rico e sólido, para dele fazer parte. Eu estive, e acredito que você também estará, ao lado dos personagens durante todo o tempo, acompanhando a crescente que é esta história, tentando desvendar cada mistério que nos é apresentado. E são tantos e tão bem arquitetados que se torna impossível interromper a leitura antes de conhecê-los todos. Da mesma forma, os personagens são tão profundos e reais que tenho a impressão de conhecer cada um deles, seus anseios e manias. A mera menção do nome de alguns me causa arrepios, pelo motivo que em breve entenderão, assim como imaginar os olhos de alguns outros inevitavelmente faz com que meu coração tropece em suas próprias batidas. Como é bom estar de volta à Borborema. Borborema em toda a sua beleza e imensidão começa como uma fascinante fazenda, onde, confesso, gostaria de passar alguns dos meus finais de semana, e acaba, entretanto, tornando-se palco para surpresas que me tiraram o fôlego. A evolução neste livro, de personagens, enredo e ação, é crescente ao ponto de sentir-se sufocar com as dúvidas e a ansiedade que fecham a garganta e que, nos últimos capítulos, finalmente parecem

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Prefácio


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12 transformar-se em borboletas que levantam voo, e inundam-nos do prazer de ter concluído uma excelente leitura. Ah, como é bom estar de volta à Borborema! Seja bem vindo você também, e espero que aproveite sua estadia. Alerto, no entanto, para um risco: talvez você não queira mais partir. Boa leitura!

Camila Pelegrini

Autora de Sombras do Medo e Aos Olhos de Zoe


Parte Um

“E eu perdoaria facilmente o seu orgulho se ele não tivesse mortificado o meu.” (Jane Austen – Orgulho e Preconceito)

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desespero é um dos piores sentimentos... Você se entrega sem querer, revela-se mesmo tentando se esconder e acaba metendo os pés pelas mãos nos momentos em que mais precisa ser senhor de si mesmo. Eu bem sabia disso... Não sei se vocês já ouviram falar do lema dura lex, sed lex, mas em minha profissão ele é muito citado. Porque a verdade seja dita: a lei é dura, mas é a lei e nós temos que segui-la. Nem sempre está de acordo com o que acreditamos, mas ainda assim é necessária para que nos organizemos em sociedade. Esse lema é meu norte para acordar todos os dias e continuar, e acho que ele foi essencial quando tudo em que eu acreditava começou a desabar à minha frente para ressurgir, muitas vezes, melhor! Não que eu seja masoquista e goste de sofrer, mas não vou enganá-los: as provações foram uma das melhores partes. Ninguém gosta de sofrimento sem ter a opção de cessá-lo quando quiser, mas tais experiências foram boas porque nelas me redescobri, vi que podia alcançar novos horizontes e sim, renasci das cinzas, como uma fênix... Tinha a falsa ilusão de que havia conquistado uma vida perfeita e maravilhosa, mas não era verdade. Vocês vão ver enquanto acompanham estes meus breves relatos... Vejamos, tudo começou quando eu estava mergulhada de corpo e alma em uma causa que, até então, era a mais importante da minha carreira. Sou uma advogada da área criminalista e sempre lutei para defender os meus clientes acima de todas as coisas, mas nunca peguei causas que considerava fora do ideal que defendia, por isso quando me deparei com aquela em especial, não pensei duas vezes para assumi-la. O caso havia provocado repercussão na mídia local e os cidadãos, ansiosos, aguardavam o julgamento para saber o que iria acontecer. Eu já tinha reunido minhas provas, organizado todos os relatos dados pelas testemunhas e pela minha cliente, que tinha apenas dezesseis anos. Esta-

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Prólogo


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16 va preparada e muito bem munida de argumentos, mas ainda sentia um frio na barriga porque, se eu falhasse... seria o meu fim! Joana era uma garota muito bonita, mas com uma história terrível... tão terrível que me fazia ter ainda mais vontade de colocar seu padrasto na cadeia. Ele havia molestado a garota durante anos e Joana tinha medo de dizer à mãe, porque ele a ameaçava. Com o tempo, as ameaças passaram a vir acompanhadas de agressões físicas e Joana, já muito perturbada, caiu em um estado depressivo lamentável. Sua mãe, uma típica mulher de negócios, nunca ficava em casa e não tinha tempo para notar as diferenças no comportamento da filha, afinal, quando ela podia estar presente, Joana agia normalmente, como a garota que sempre fora. Ela só se deu conta de que havia algo errado quando a diretora da escola que Joana frequentava começou a ligar e dizer que estava notando diferenças no jeito de agir da menina; ela estava introspectiva, vivia assustada e meio distraída, o que fez com que suas notas, antes impecáveis, começassem a decair de forma considerável. Quando a mãe decidiu interrogá-la, Joana se abriu e confessou todas as barbáries que havia sofrido, mas a mulher pareceu não acreditar na filha. Simplesmente não tinha tempo para as implicâncias da garota para com seu novo marido. Então, para a infelicidade de Joana, o padrasto passou a torturá-la, afinal, ela havia contado para a mãe. Tinha quebrado o silêncio! Mas seus joguinhos foram ficando cada vez piores e em um dia como outro qualquer, o homem a ameaçou no elevador. Joana voltava da escola e estava em pânico, pois ele a acariciava sem se importar com o instante em que a porta seria aberta. Não havia gentileza em seus atos e sim insanidade em seus olhos enquanto ele dizia o que iria fazer com ela assim que chegassem ao apartamento em que moravam. Tudo o que Joana conseguiu fazer foi gritar, ele tapou sua boca, mas ela o mordeu e apertou o botão do elevador para que a porta abrisse, estava decidida a acabar com aquela situação. Os vizinhos saíram de seus apartamentos para ver o que estava acontecendo, e assim testemunharam o momento em que o padrasto a agarrou pelos cabelos e começou a bater sua cabeça contra a parede. Isso rendeu a Joana algumas semanas no hospital, e sua mãe decidiu acreditar nela: finalmente notificou o crime às autoridades e por


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isso eu estava lá, como assistente de acusação do Ministério Público, depois de ouvir tudo isso mais uma vez. Os poucos ouvintes presentes, já que aquela audiência envolvia um crime contra uma menor e por isso foi restrita pelo juiz, comoveram-se com os relatos da menina e não paravam de murmurar durante o interrogatório do acusado pelo promotor. Ele começou a apelar para o estado emocional de Joana, comprometido após tantas torturas. Disse que a garota falava dormindo, acordava gritando e sempre o perseguia pela casa alegando que não queria ficar sozinha. Como ele trabalhava no período da noite, passava o dia todo em casa e tentava dar o máximo de atenção a Joana, mesmo que precisasse dormir. Afirmou sem hesitar que havia comentado com a esposa que Joana não andava muito bem e que poderia ser algo no colégio. Algum namorado. Mas que ela lhe disse para não se preocupar, pois a filha tinha ficado um pouco abalada com a morte do pai e não estava lidando direito com a perda. Também justificou a cena presenciada pelos vizinhos como autodefesa, disse que Joana tentara o seduzir no elevador e quando ele a rejeitou, a garota ficou descontrolada e o agrediu enquanto subiam para o seu apartamento. Disse que ela saiu de si depois que ele lhe disse que iria convencer sua mãe a levá-la ao psicólogo novamente. Afirmou que os vizinhos estavam equivocados e que ele não estava a bater a cabeça de Joana contra a parede, mas sim tentava segurá-la para que ela não o fizesse. Seu advogado sorria enquanto o cliente despejava aquele discurso feito para o promotor. Eu o conhecia de relance, era um sujeito enrustido, metido e com fama de nunca perder uma causa, mesmo que ela fosse suja. André, o meu chefe, havia me alertado sobre ele e por isso eu já estava preparada para não dar a chance de ele encontrar uma brecha em minha acusação. Seu discurso era tão cheio de falhas que, quando o juiz passou a palavra a mim, me levantei determinada a desmascarar aquele homem. — Você alegou que Joana falava dormindo, certo? — comecei, ponderando o meu tom de voz. — Sim — respondeu ele, sem titubear. — E o que ela falava? — Ele pareceu surpreso com minha pergunta e se mexeu na cadeira. Bom sinal. — Bem, eram coisas aleatórias, não têm importância. — Se não têm importância, senhor Molina, por que as mencionou e fez questão de enfatizá-las? — Caminhei pelo recinto e parei diante dele,


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18 olhando dentro daqueles olhos mesquinhos. Ele hesitou em responder. — Bem, porque a garota tem problemas psicológicos e essas são evidências do seu distúrbio. O psicólogo disse que esse tipo de coisa é comum em pessoas que sofreram grandes traumas. — Um discreto sorriso surgiu em meus lábios. Ele acabara de fazer uma afirmação muito séria que me permitia, enfim, chegar onde queria. Olhei para Joana e sua mãe e então retirei de dentro de minha pasta alguns papéis que segurei em minhas mãos. — Desculpe-me, senhor Molina, mas que tipo de traumas? — Novamente ele hesitou. Cruzei os braços e esperei que respondesse, pacientemente. — Ela perdeu o pai e, não muito tempo depois, sua mãe e eu decidimos morar juntos. Acredito que ela não tenha lidado bem com a situação, como já disse antes, isso pode tê-la traumatizado. — Entendo, mas, Excelência, se me permite — Estendi uma cópia do papel que havia tirado da pasta ao juiz e caminhei até ele enquanto falava. —, aqui está um laudo médico assinado pela psicóloga de Joana que a acompanhou através do colégio após a morte do pai, atestando que ela se encontrava em perfeito estado de saúde mental; qualifico-o como prova de acusação. — Assim que terminei de falar, entreguei uma cópia também à defesa, com um discreto sorriso no canto dos lábios. — Pela ordem, Excelência! A senhorita teve muito tempo para apresentação de provas — bradou o advogado de defesa. Percebi que o seu rosto se contorceu em uma careta quase cômica. Tinha certeza de que ele não contava com aquilo, afinal os exames atuais de Joana realmente alegavam que ela precisava de tratamentos e eu só fiquei sabendo daquela antiga análise após revirar o histórico escolar da garota. Nem mesmo ela se lembrava da consulta. — Pela ordem, permitirei que o apresente como prova. Prossiga — respirei fundo e meneei a cabeça positivamente. — Bem, senhor Molina, você mesmo afirmou que falar durante o sono, acordar assustada e outros sintomas são provocados por grandes traumas, logo, não seriam as suas moléstias e ameaças os grandes traumas que fizeram com que Joana apresentasse tais sintomas, visto que eles não existiam até sua chegada? O rosto do réu mudou de cor. Houve um bochicho na pequena plateia e o juiz bateu o seu martelo pedindo ordem na audiência enquanto ele tentava se justificar. Acreditei que havia chegado ao lugar certo.


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— Não! Joana já tinha comportamentos estranhos quando cheguei, mas Margarida era ocupada demais para reparar na filha! — protestou ele, de forma enérgica. — Certo, e você tinha muito tempo para reparar em Joana? — Eu estava sempre em casa durante o dia! É claro que possuía tempo para reparar nela. — Senhor Molina, afirma que trabalhava no período da noite, certo? — Ele meneou a cabeça positivamente. — Logo, a que horas costumava chegar em casa? — Por volta das oito da manhã. — Meu sorriso aumentou e eu olhei diretamente para o juiz, começando a despejar minha dedução. — Se estou correta, senhor Molina, Joana estuda durante o período da manhã e as primeiras aulas começam às sete e quarenta e cinco. O condomínio onde moravam fica a pelo menos meia hora do colégio, o que nos leva a acreditar que a jovem deveria acordar pelo menos às seis e vinte da manhã para se arrumar, sair de casa e ainda chegar no horário, logo, como pode afirmar que Joana acordava gritando, sobressaltada ou coisa parecida sendo que chegava às oito da manhã em casa, senhor Molina? — Pela ordem! Isso não tem rela... — O advogado de defesa foi interrompido pelo juiz. — Pela ordem! Responda à pergunta. — N-nos finais de semana... — Não esperei que ele prosseguisse, aquela era minha deixa e eu não poderia desperdiçar a oportunidade. — Senhor Molina, como pode dizer que nos finais de semana a viu acordando de tal modo sendo que a mãe de Joana, senhora Margarida, também não trabalhava aos sábados e domingos e ela nunca viu Joana acordar aos gritos? — Ele abriu a boca para responder, mas não o esperei. — Aliás, senhor Molina, como pode dizer que Joana apresentava comportamentos tão diferenciados desde que chegara à casa sendo que a mãe só foi desconfiar de que havia algo errado com a filha quando a direção do colégio ligou para ela e lhe disse que Joana estava indo mal na escola? Não acha que após dois anos inteiros, Margarida, mesmo sendo uma mulher ocupada, não iria notar que havia algo de errado com a própria filha, se Joana não estivesse agindo normalmente perante a mãe coagida por, quem sabe, ameaças constantes? O júri se agitou e também todos os presentes que assistiam à audi-


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20 ência. O advogado de defesa limpava o rosto constantemente e acreditei que não havia contra-argumentos ao que eu acabara de dizer, por isso, mais uma vez, prossegui. — Portanto, Excelência, acho que as cenas das câmeras de seguranças são verídicas e não estão sendo mal interpretadas. O padrasto realmente agrediu Joana e segundo as testemunhas, mesmo que a garota estivesse muito alterada, o homem também estava e após tudo o que foi exposto, não tenho mais perguntas ao réu. Acredito que tudo já está mais do que esclarecido. Voltei a me sentar e sabia que tinha conseguido. Não havia como argumentar contra a brecha que eu encontrara no discurso daquele homem inescrupuloso. Existiam muitas meninas como Joana sofrendo nas mãos de pessoas sem caráter e que não diziam a verdade por medo. Não poderia deixar que um ser como ele escapasse das mãos da justiça! O que veio a seguir foi realmente muito vago. O advogado de defesa se saiu muito bem, devo admitir que ele tinha lábia, mas não havia como rebater minha acusação. Para mim, nada que ele falasse poderia ser o bastante, e esperava que o júri concordasse comigo. O resultado saiu algum tempo depois e para nosso alívio, ele havia sido condenado. Os anos que passaria refletindo atrás das grades me faziam sentir que todas as noites sem dormir estudando aquele caso haviam valido a pena. Estava realmente feliz e não era simplesmente por ter ganhado mais uma causa, mas sim por ver Joana livre daquele monstro. Ela me abraçou na saída da audiência, chorando, o que muito me emocionou. Agradecia-me em sussurros embargados de emoção e eu não poderia estar mais sensibilizada. Aquela menina me lembrava eu mesma quando tinha sua idade; mesmo que as histórias fossem diferentes, as cicatrizes ficariam para sempre... Não podia apagar de Joana o que havia acontecido, mas sabia que, a partir daquele momento, ela poderia ter uma vida melhor. A mãe, que depois de tudo aprendera a ouvir e a tirar um tempo para a filha, também me agradeceu e, mesmo que em frangalhos, elas tentariam recomeçar... talvez reconstituir os vínculos entre mãe e filha. Desejei, vendo-as partir sob os flashes das câmeras dos jornalistas em busca de notícias, que superassem, como eu acreditava que havia superado.


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dia se tornava cada vez mais caótico. Quando voltei para o escritório, cansada e com vontade de ser varrida do mapa após horas de audiência, todos os colegas me recepcionaram com felicitações calorosas. Eu apenas agradeci tentando passar o mais rápido possível por todos para, enfim, adentrar a minha sala. Sabia que havia sido uma grande sorte ter encontrado aquele laudo médico arquivado na escola e não tê-lo deixado passar foi, no mínimo, sensato. Por isso ainda não acreditava que havia dado tudo certo... Mal tive dois segundos de paz e minha secretária, Glória, entrou pela porta parecendo um furacão, nem sei se ela bateu, pois estava tão cansada que mal conseguia manter os meus olhos abertos... A cabeça doía de forma considerável. — Desculpe interrompê-la, doutora Magalhães, mas preciso lhe entregar as anotações do dia. — Ela me estendeu uma folha com caligrafia caprichada onde os recados estavam devidamente anotados. — A senhorita recebeu várias ligações importantes, dentre elas uma ligação de alguém da sua família que não quis se identificar e uma ligação do doutor Lins. — Sorri para ela, mesmo que isso me causasse mais pontadas na cabeça, e agradeci. — Obrigada, Glória, você é incrível! — Respirei fundo. — Seria abuso de minha parte pedir para que me traga um remédio para dor de cabeça? Preciso ajeitar algumas coisas antes de ir para casa e nem estou conseguindo pensar! — Imagine, doutora, trago em um segundo! Penso que debater com o macaco velho do Abelardo Mansur não tenha sido fácil — Glória era uma pessoa espontânea, simples, falava o que vinha na cabeça e muitas vezes isso me fazia rir, como estava acontecendo naquele instante. — Eu acho que após tudo isso, deve mesmo ir pra casa descansar e resolver os assuntos pendentes só amanhã. — Ai, Glória, você é hilária! — Ela se retirou da sala e eu voltei minha atenção às anotações... Se não estava ficando louca, Glória havia dito que alguém da família havia me ligado. Com toda certeza ela de-

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22 veria ter se enganado. Mas, por via das dúvidas, era bom me certificar. Olhei para o telefone anotado ali e fiquei curiosa para saber de quem se tratava, pois não tinha contato com minha família há muito tempo, mas hesitei... Não estava em condições de ligar naquele momento. Decidi religar o meu celular, havia o deixado no fundo da bolsa durante a audiência e para minha surpresa, também havia ligações daquele número nele. Um nó se apoderou de minha garganta... Será que eles realmente estavam me procurando? Glória não tardou a trazer o remédio e, pouco tempo depois, já estava me sentindo bem melhor... Porém, minha teimosia em deixar tudo organizado me fez ficar até tarde no escritório. Quando olhei ao relógio, já eram quase dez da noite! Como é que a hora havia passado tão depressa? Novamente peguei as anotações e observei o número com mais atenção... Seria inconveniente de minha parte ligar àquela hora? Bem, dizia que precisavam falar comigo urgente, então não custava nada tentar. Se não atendessem, ao menos saberiam que eu não tinha ignorado o telefonema. O telefone chamou apenas três vezes e logo uma voz grossa atendeu, perguntando quem era. — Olá, sim, você está falando com Annabel Amorim de Magalhães — respondi impaciente. Estava cansada e querendo muito ir para casa após aquela longa jornada de trabalho, sentia que minha cabeça voltava a doer de forma discreta, por isso um banho e a cama resolveriam os meus problemas. Era noite de sexta-feira, tecnicamente eu deveria estar animada para sair com o pessoal e comemorar a vitória, porém tudo o que eu desejava e de que precisava era descanso. Talvez pedisse dois dias de folga a meu chefe quando ele retornasse de viagem. A voz do outro lado do telefone parecia séria, o que me remeteu à ideia de ser algo extremamente urgente. Logo, tentei ser o mais simpática possível, mas nem sempre conseguia essa proeza. — Isso, você me ligou hoje mais cedo. — Respirei fundo. — Eu estava em uma audiência, mas agora pode falar o que deseja — confirmei, um tanto ríspida. A voz masculina soava ansiosa e parecia querer ter certeza de que estava falando comigo; não entendi, a priori, o motivo, mas logo o homem começou a dizer que estava ligando para me informar sobre o estado de saúde do meu pai.


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Meu pai... Minha família... Há quanto tempo eu não via os meus pais? Quinze anos? Talvez dezesseis... Já havia perdido as contas, pois tinha saído muito nova de casa. Não tivéramos contato desde então, porque as mágoas de ambas as partes eram grandes demais. Eu tentei retomar os laços há alguns anos por meio de cartas, mas elas nunca tiveram respostas. Porém, percebi que de alguma coisa serviram: por causa das cartas, eles tinham o meu número de telefone, tanto o pessoal como o do trabalho, então estavam entrando em contato para me dar uma notícia nada feliz. Meu pai estava à beira da morte e minha família precisava que eu fosse para o interior, a fim de discutir o que faríamos com os negócios da família... Afinal, eu ainda era uma das cinco herdeiras do senhor Manoel Felipe Amorim de Magalhães, um dos homens mais bem sucedidos de Siqueira Campos, a pequena cidadezinha onde cresci, nas terras da fazenda Borborema.


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ão sabia o que fazer. Desde que tinha recebido a notícia da doença de meu pai, não conseguia me sentir em paz. Ficava imaginando o que todos pensariam ao me ver chegando à fazenda, afinal, eles tinham me dado as costas e agora estavam me procurando... Se isso havia acontecido, a situação realmente devia ser grave e o homem não devia ter exagerado em suas descrições. Não sabia. Era algo muito estranho, não tinha mais contato com minha família e a dúvida de ir ou não... estava me consumindo! É claro que gostaria de ver o meu pai novamente antes de morrer, se é que ele realmente estava tão mal assim, mas o fato de voltar para aquele lugar me causava arrepios. Já fazia tanto tempo... Será que ainda sentiam raiva de mim pelo que havia acontecido? Bem, se me ligaram, acreditava que não... Ou será que só estavam cumprindo algum tipo de obrigação ao me informarem sobre o estado de saúde de meu pai? Não queria perder tempo formulando hipóteses, senão ficaria louca, mas mesmo assim, não podia ir, pois André ainda não havia retornado. Esperaria que voltasse para lhe falar da possível viagem, ele provavelmente não me negaria alguns dias de folga depois de ter ganhado aquela causa, era um homem justo e, apesar de ser meu chefe, sempre foi muito compreensivo e um dos meus melhores amigos. Também não conseguia assimilar ao meu pai a imagem de homem inválido, doente ou qualquer coisa do tipo. Pelo que ainda me lembrava, ele era um dos homens mais fortes que já conheci, raramente pegava um resfriado, ou sentia-se indisposto. Nossa relação tinha sido muito boa, ele era extremamente rígido, mas não tinha do que reclamar, sempre me dera carinho e apoio... Exceto quando mais precisei dele. Não queria pensar a respeito, por muitos anos tinha o odiado com todas as minhas forças, mas o tempo também me fez ver que eu não era uma vítima. Também o fiz sofrer, afinal, para ele, não era errado me fazer imposições. Ele desejava para mim a vida que na sua concepção era ideal, o que, depois de tanto tempo, me fazia ver que realmente me amava.

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26 Fui trabalhar nos dias seguintes, mas a minha cabeça não estava, de fato, no escritório e sim além das montanhas do vale da Borborema... A fazenda onde cresci, sem dúvidas, era a mais próspera da região. Meu pai sempre foi um fazendeiro respeitado e empregava muitas pessoas, dava-lhes abrigo e isso fazia com que nossa propriedade se assemelhasse a uma pequena vila. Em tempos de boas safras, cerca de cem famílias se abrigavam nas casinhas que meu pai mandara construir. Em tempos de vacas magras, como ele costumava dizer, ainda podia-se encontrar pelo menos sessenta famílias perambulando por ali. Meu pai nunca foi um patrão carrasco, o que fazia com que todos o respeitassem muito. Ele até mesmo mandou construir uma escolinha para os filhos dos empregados e, três vezes por semana, uma professora da cidade ia lecionar no recinto. Lembro-me bem da alegria nos olhos daqueles que começavam a aprender as letras, era até mesmo bonito de se ver e minhas irmãs mais novas, às vezes, se juntavam a eles a fim de ajudá-los, já que estavam adiantadas nos estudos. Eu ficava mais reclusa, pois era bastante tímida e preferia não me envolver com pessoas estranhas. O tempo passou e minha profissão me fez perder a timidez, todos me diziam que eu era uma mulher forte e decidida... Não sei até que ponto concordava com eles, mas sei que já não era mais a mesma garota assustada que chegou à capital, anos atrás. Talvez meu pai ficasse orgulhoso em ver no que me tornei, mais um motivo para me fazer voltar à Borborema... — Será? — perguntei a mim mesma. — Será que é uma boa ideia?


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ndré retornou uma semana após o telefonema, estava bastante animado com todas as negociações que havia conseguido e não parava de falar um segundo. Eu nem consegui acompanhar todos os seus assuntos, mas meneava a cabeça fingindo compreender a fim de deixá-lo feliz. Era sempre mais fácil lhe pedir algo quando estava bem-humorado. Depois do almoço, quando ele já estava menos eufórico, decidi que era hora de lhe falar a respeito da possível viagem à minha terra natal. Estava um tanto nervosa, apesar de não deixar isso transparecer, e então comecei a abordar o tema de forma prática e direta, como sempre fazia. — Doutor Lins — André me olhou assustado por conta de meu tom formal, então respirei fundo e prossegui de forma mais natural. — André, recebi um telefonema há mais ou menos uma semana — disse contidamente e ele me olhou um tanto confuso, como se me perguntasse o que ele tinha a ver com aquilo. — Ligaram para me informar que o meu pai está doente e gostariam que eu retornasse à minha cidade para vê-lo. Caso o pior aconteça, ao menos eu o terei visto antes. — Mas você não disse que tem anos que não os vê? — perguntou-me ele, soando um pouco insensível. — Sim, mas... — Senti-me confusa, eu sempre me queixava do que havia acontecido e, por isso, dizer a ele que eu queria ir vê-los tornou-se mais difícil. — Eu quero visitá-lo, talvez não morra... Eles me ligaram, então ainda se lembram de mim, pode ser uma chance que a vida está nos dando para uma possível reconciliação. — Certo, você, prática desse jeito, resolveu dar bola para a família? — Ele riu, como se não me reconhecesse e eu permaneci olhando-o seriamente, afinal, seus comentários não me importavam, apenas o seu consentimento, e outra... Ele não sabia muita coisa sobre o meu temperamento. Apenas o que eu mostrava no dia a dia. — Bem, parece que é realmente sério... — disse ele, coçando a cabeça. Não sei o motivo que o levou a duvidar, já que eu só tratava de assuntos pessoais se eles

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III


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28 fossem realmente relevantes. Mesmo assim, arqueei as sobrancelhas e esperei sua resposta, pacientemente. — Você, então, quer que eu lhe dispense do trabalho, certo? — perguntou-me por fim, poupando-me muitas palavras. Gostava disso em André, era tão prático quanto eu. — Exatamente — respondi, soltando a respiração que nem havia percebido que estava segurando. — Por quanto tempo, Annabel? — A pergunta dele me fez estremecer... Por quanto tempo eu deveria permanecer? Eu não tinha a mínima ideia. Se meu pai estivesse muito doente, como haviam dito, eu gostaria de poder ficar um pouco mais, mas se as coisas não estivessem como diziam... Gostaria de poder voltar o mais rápido possível. Mordi os meus lábios, indecisa, e por fim criei coragem para prosseguir. — Um ou dois dias... No máximo três... — Contando com o fim de semana, achei que fosse o suficiente para poder fazer uma visita decente às pessoas que há muito não via. — Tudo bem, você acabou de sair de uma causa de maneira brilhante, é a advogada mais dedicada que conheço e acho que merece um descanso. Tire uma semana de folga e visite sua família, Annabel. Eu realmente espero que eles lhe tratem bem. — O sorriso se formou no canto de sua boca e ele me olhou de forma gentil. Adorava quando sorria, ainda mais quando soava tão compreensivo. Deixei-me sorrir também e lhe agradeci de forma calorosa. — Obrigada, André! Quando voltar, prometo me empenhar ainda mais no trabalho, eu realmente agradeço! — Estava sem palavras, mas ele apenas meneou a cabeça negativamente e disse que precisava terminar de ler alguns papéis, e por isso gostaria de ficar sozinho. Nossa relação era muito boa. André era solteiro, tinha muitos planos e não era muito mais velho que eu, o que nos possibilitava passar longas horas conversando em um barzinho depois do expediente, mas quando queria ser rude, ele conseguia ser mais rude do que qualquer outra pessoa. Não permitia erros, ficava sempre agitado quando uma causa importante aparecia e seu nível de estresse era tão alto que, vez ou outra, tinha que arranjar uma nova secretária. Por isso, antes da viagem, ele andava completamente mal-humorado, gritando com todos e, assim, tive a certeza plena de que somente agora era uma boa hora para lhe pedir folga, pois com a euforia da volta da viagem e o sucesso no caso, não ficaria ponderando os prós e contras que minha viagem traria ao escritório.


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O dia terminou sem maiores agitações. André estava com tudo em dia, por isso não havia mais correrias. Era sempre assim quando ele conseguia solucionar os casos maiores, e, como tinha um pessoal igualmente competente, estava tudo caminhando dentro dos conformes, até mesmo eu tinha concluído o meu caso, tornando o ambiente de trabalho menos carregado. Porém, essa paz nunca durava muito tempo por causa da boa fama do escritório, que nos trazia cada vez mais clientes. Após o expediente, estava arrumando minhas coisas para sair quando André apareceu na porta de sua sala e em tom casual, ao me ver ainda por ali, perguntou-me se eu gostaria de beber algo com ele e conversar sobre todas as novidades. Pensei em recusar, mas ele era uma companhia muito agradável e eu precisava mesmo relaxar um pouco. — Tudo bem! — respondi. — Por que não? — Boa garota! — disse ele, no tom brincalhão do amigo e não do chefe. — Vou pegar meu paletó e volto em um segundo! Não fuja! — Estarei bem aqui! — respondi, divertida. Era engraçado como ele conseguia ser tão profissional e, de uma hora para a outra, mudar o tom completamente. Apreciava isso também, visto que eu não conseguia me alterar tão drasticamente. Era apenas Annabel. Dentro ou fora do escritório. É claro que a Annabel fora do escritório era mais divertida, mas nada radical. Peguei minhas coisas e esperei André para irmos ao bar. Ele não demorou muito e logo apareceu, já sem gravata e com dois botões da camisa abertos. Esse era o André do fim de tarde! Fui em meu carro e o segui, até que estacionou em frente a um pub não muito movimentado onde poderíamos conversar tranquilamente. Fiz o mesmo e, após entregar as chaves ao manobrista, adentrei o recinto junto de André. Era ótimo poder relaxar e a noite foi muito divertida. Ele me contou sobre as mulheres que conheceu, sobre as negociações, e como saiu de maneira brilhante do caso! Esperava, um dia, ter metade do seu talento para a advocacia. Ele era simplesmente sensacional! — Você é realmente muito bom no que faz — comentei, bebericando meu Martini despreocupadamente. — É, mas não somente de trabalho vive um homem — ele olhou para mim mais seriamente e depois se esparramou em seu assento. — Como vai esse coração de pedra aí? Percebi que apenas eu te contei sobre minhas saidinhas e você não me disse nada.


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30 — É porque não tem nada para dizer, André. — Apressei-me a dizer. — Você sabe como eu sou, tenho alguns encontros casuais, mas nada sério. Não quero me comprometer. — Você é realmente estranha, já te conheço faz um tempo e nunca fala de namorados e tudo mais, você sabe que tem que dar um tempo de vez em quando e curtir a vida, não sabe? Dei um sorriso divertido e, para me esquivar do assunto, apenas disse. — Mas quem disse que eu não curto? Enquanto conversávamos, ignorando totalmente a minha presença, algumas mulheres deram em cima de André de forma descarada. Não as culpava, ele realmente era um homem muito bonito. Pele clara, cabelos negros e bem cortados, olhos castanhos e um sorriso matador... Sem falar dos seus 1,80 de altura e o porte atlético que com o paletó esbanjava sensualidade. Uma foi tão atrevida que até mesmo passou o número do celular para ele. Bem-humorado, ele prometeu ligar de volta e eu não conseguia conter os risos. Também queria ter metade da espontaneidade dele. Talvez minha vida pessoal fosse menos entediante e eu conseguisse ter mais encontros bem-sucedidos. — Sabe, Annabel — disse ele quando já estávamos nos despedindo para ir para casa. — Gosto de conversar com você porque pensa como eu. Você é como um homem! Não é uma mulherzinha fresca, é como um homem! — As frases dele me deixaram confusa, não sabia o quanto ali era um elogio, mas esbocei um sorriso fraco em resposta, afinal, ele havia bebido um pouco e não controlava suas palavras. — Certo... Cuide-se chefe, eu vou para casa. Preciso ajeitar as coisas para a viagem! — Despedimo-nos e André se foi, garantindo que conseguiria dirigir e que nem havia bebido tanto assim. Suas palavras ecoavam em minha mente enquanto eu ia embora... Como um homem, ele disse, e talvez eu realmente fosse, pois era prática e nada romântica. Também, depois de tudo o que passei, era difícil ser de outra forma... Porém, de alguma forma, aquilo me incomodava. André era um homem por quem eu facilmente poderia deixar minha vida de relacionamentos fracassados e tentar me dedicar a algo mais sério, mas suas palavras evidenciavam que ele não pensava que eu era capaz disso. Espantei os pensamentos ruins e liguei uma música para relaxar. Apesar de o trânsito estar calmo, eu não morava muito perto daquela


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Oh, oh, oh, go totally crazy – forget I’m a lady Men’s shirts – short skirts Oh, oh, oh, really go wild – yeah, doin’ it in style Oh, oh, oh, get in the action – feel the attraction

Oh, oh, oh, ficar totalmente maluca – esquecer que sou uma dama Camisas masculinas – minissaias Oh, oh, oh, virar totalmente selvagem – é, fazer com estilo Oh, oh, oh, entrar em ação – sentir a atração

Color my hair – do what I dare

Colorir o meu cabelo – fazer o que eu quiser

Oh, oh, oh, I wanna be free – yeah, to feel the way I feel

Oh, oh, oh, quero ser livre – é, para sentir o que eu sinto

Man! I feel like a woman!

Cara! Me sinto como uma mulher!

Shania Twain foi uma das cantoras mais significativas da minha adolescência e aquela letra era cheia de sentidos para mim. Não me importei em cantar a plenos pulmões, pois estava sozinha e num final de noite onde qualquer coisa que pudesse aliviar a minha tensão era muito bem-vinda. Cheguei ao meu apartamento completamente exausta, mas ainda não podia descansar, precisava arrumar minha mala para a viagem. Só de pensar nela já sentia um frio na barriga, afinal, seria a primeira vez que os veria depois de tudo... Tinha certeza de que aquele reencontro poderia ser, no mínimo, desconfortável.

Borborema

região da cidade e ainda iria demorar a chegar. Os primeiros versos da música invadiram meus ouvidos e eu quase que involuntariamente comecei a cantar junto...


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D

ecidi viajar no dia seguinte, não tinha tempo a perder visto que deveria voltar em menos de uma semana. Liguei para o número que havia me informado sobre a doença de meu pai e disse que estava a caminho, pedi também para que alguém fosse me buscar na rodoviária, pois decidi ir de ônibus; tinha certeza de que a cidade não era a mesma de quando eu era adolescente, o que não me deixava segura para ir de carro. A caminho, dentro do ônibus, ensaiei inúmeras maneiras de dizer olá, de encará-los de frente como há muito não fazia. Pensei em meus irmãos... será que também estavam na fazenda assistindo ao fim de nosso pai? Nossa infância havia sido agitada e nada monótona: éramos cinco crianças levadas da breca! Eu, a mais velha, sentia-me responsável pelos outros e suas inúmeras traquinagens. Até que tudo aconteceu... Sentada no banco do ônibus, fazia-me a mesma pergunta de forma persistente: como é que estariam Diana, Marcela, Pedro e Henrique? Quando os deixei, Henrique não passava de um garotinho de oito anos! Era muito apegado a mim e ainda me lembrava de suas lágrimas ao me dar um último abraço. Chequei o celular várias e várias vezes durante a viagem, nada de novo. Talvez André estivesse realmente empenhado em me dar aquela semana toda de folga, sem interrupções. De certa forma isso era um alívio, mas também me deixava inquieta. Estava tão habituada a resolver os problemas do escritório que ficar horas e horas sentada dentro de um ônibus sem nada para ocupar a mente enquanto as pessoas dormiam em seus assentos, ressonando sonoramente, era irritante. Coloquei o fone de ouvido e tentei relaxar. Recostei a cabeça no encosto macio do banco e regressei uns anos em minha vida... Estava nervosa com os primeiros exames da faculdade e preocupada, na verdade, desesperada porque havia mandado inúmeras cartas aos meus pais, contando-lhes que havia, finalmente, conseguido ser aprovada no curso de Direito... Mas não houve resposta felicitando-me como eu esperava, e nem resposta para as outras infinitas cartas que escrevi... Será que elas haviam chegado correta-

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IV


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34 mente naquela época? Eu sempre preferi pensar que os correios poderiam as ter perdido e por isso não me respondiam, mas após me ligarem, eu tinha certeza de que tinham chegado e eles só tinham me ignorado mesmo. A viagem toda pareceu uma eternidade. Quando o ônibus finalmente estacionou na rodoviária do pequeno município de Siqueira Campos, senti o coração trepidar dentro do peito. Depois de tanto tempo, ali estava eu voltando às origens, encarando o meu passado de forma corajosa a fim de acertar as contas com os meus familiares. O lugar, de fato, estava bastante diferente... Não era mais uma cidade tão pacata. Na verdade, estava com um ar muito mais moderno e civilizado. Até mesmo a rodoviária não ficava mais no local onde eu lembrava... Senti-me extremamente insegura enquanto caminhava pelo portão arrastando a minha mala. Olhei ao redor, estava angustiada. Será que alguém havia vindo me buscar? Olhei mais uma vez, tentando procurar um rosto familiar no qual pudesse me apoiar, mas era complicado – Eu já não os conhecia mais. Era como jogar um cordeiro no covil dos lobos, estranhamente... Eu me sentia o cordeiro. — Annabel? — Escutei uma voz forte ressoar atrás de mim, bastante próxima do meu ouvido, pelo que me pareceu. Rapidamente, olhei para trás e me deparei com um rapaz extremamente bonito, sua beleza era rústica e mal zelada, mas ainda assim era encantador. Vidrei os meus olhos nos dele, tentando reconhecê-lo, mas o meu cérebro dava voltas e mais voltas sem conseguir obter algum sucesso. — Sim, você é Annabel... Só que está diferente. Ele sorriu, a forma como seus lábios em formato de coração desenharam-se em uma esbelta curva ao canto dos lábios fez com que o meu coração estremecesse dentro do peito, acelerando-se de forma devastadora. Sim, era o meu garotinho... Era o meu estimado irmão Henrique! — Henrique? — proferi bobamente, sentindo a minha voz vacilar devido à emoção. — Sim. Sou eu, mana. — Ele pareceu ficar constrangido com a torrente de lágrimas que já começaram a rolar livremente pela minha face. Senti-me com borboletas no estômago e sem pensar muito, atirei-me nos braços daquele rapaz em que se transformara o meu garotinho. O cheiro de capim fresco reconfortou-me de uma forma inexplicável e por longos minutos permaneci encolhida naqueles braços fortes, com a


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cabeça recostada ao seu peito. Quando me senti mais calma, afastei-me com a face em chamas, tentando limpar as lágrimas de emoção, mais uma vez mirei-o e então um sorriso espontâneo tomou meus lábios e não pude deixar de comentar alegremente. — Como você cresceu, meu Deus! Henrique, você se tornou um homem! Um lindo homem! — Ele pareceu ficar desconfortável com meu comentário, mas não me importei. Engoli em seco e tentei recobrar a seriedade. Sentia-me uma criança novamente e de certa forma era bom, mas eu já não tinha cinco anos de idade. Precisava ficar calma. — Você também está diferente... — disse ele em um tom ligeiramente confuso, como se ponderasse as palavras. Esperei por algo como “está mais velha”, mas não foi o que meu adorado irmão disse. — Tornou-se uma mulher muito refinada... Te reconheci por causa das roupas e quando se virou por conta dos olhos, eu jamais esqueceria deles. — Não consegui deixar de sorrir diante de sua observação. Ele sempre dizia quando era criança que os meus olhos castanhos claros arredondados eram os mais bonitos de todo o mundo. Ainda era o meu garotinho, mesmo que agora estivesse muito mais alto que eu e mais forte também. Quando pequeno, eu era o seu porto seguro. — Meu querido! Abrace-me novamente! — pedi, já de braços abertos. — Senti tanto sua falta! Ele não se fez de rogado. Abraçou-me fortemente causando-me falta de ar, mas também aconchegando-me, como se eu jamais pudesse ou quisesse parar de abraçá-lo. Estranho. Eu, há muito tempo, havia me privado de tais emoções.


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A

cidade, como eu bem imaginei, havia crescido muito e eu me sentia admirada em ver toda aquela evolução. Meu irmão percebia o fascínio estampado no meu rosto enquanto dirigia para a Borborema. Não sei, mas o caminho estava tão diferente que eu já não sabia onde exatamente ficava nossa fazenda, só sabia que era um pouquinho antes de chegar ao bairro da Esperança. Durante o percurso, Henrique manteve-se bastante calado. Não falava de forma empolgante, o que me causava angústia. Tudo o que eu lhe perguntava entusiasmada, respondia solícito, mas sem deixar brechas para uma longa conversa. Não conseguia assimilar o fato de que o meu irmão havia se tornado um homem tão introspectivo, sendo que quando criança era dado com todo mundo e falava pelos cotovelos. Bem, acredito que quem estava empolgada demais era eu... Só podia ser! Estranhei-me mais uma vez: eu não era empolgada. Era prática e muitas vezes apática... Meu Deus! Os ares do campo estavam mexendo comigo de uma forma que não conseguia explicar. — Como estão todos? — perguntei, por fim, deixando o tom de voz tão desanimado quanto o dele. Estava com medo daquela pergunta, pois, apesar de ter sido bem recebida por Henrique, eu não sabia se ainda me odiavam. — Diana casou-se, tem dois filhos adoráveis que eu gosto bastante. Marcela continua solteira também, mas namora — respondeu, pela primeira vez demonstrando algum entusiasmo. — Pedro tem uma mulher odiosa, não gosto mesmo da forma como ela me trata, como se eu fosse um idiota. — Ele parecia incomodado ao falar estas palavras, o que me fez prestar um pouco mais de atenção. — O bom é que eles ainda não têm filhos para nos atormentar. — Nossa, Henrique! — exclamei, surpresa com sua última frase. — Mas você não pensa em se casar? — perguntei ingenuamente. Ele riu. — Não! Sequer tenho namorada, imagine só, esposa? — O comentário de Henrique me deixou perplexa, meu belo irmão sozinho? Eu havia ouvido bem? — Mas por que não tem uma namorada? Em sua idade todos querem

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V


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38 ter uma garota e dividir sensações... Prazeres! — Senti-me completamente estranha dizendo tais palavras. Elas haviam soado horríveis até mesmo para mim. Mordisquei os lábios e meneei negativamente a cabeça, repreendendo-me. — Ora, você é muito mais velha que eu e, pelo que vejo, continua sozinha. Se fosse assim deveria ter se casado e tido três filhos! — Ele gargalhou. O fato me fez ficar mais vermelha do que antes e tentei encontrar argumentos de defesa, mas ele havia me deixado sem palavras. Eu, uma advogada, sem respostas. — Você venceu! — disse, sentindo-me divertida com a situação. — Eu falo de você, mas estou na mesma. Acontece que eu mudei. Não faço mais o estilo de mocinha apaixonada. Eu olho os fatos, e mesmo que esteja errada, não vejo razões para amar. — Suspirei fundo ao relembrar alguns acontecimentos da minha vida que haviam me marcado. — Não esse amor do jeito que todos imaginam. — Estava sendo sincera. Já havia me entregado àquele sentimento desvairado e não tinha acabado bem. — Está certo. — Ele riu da minha resposta. — Você e eu somos mais parecidos do que eu conseguia me lembrar. É bom ter você de volta, Annabel. De certa forma as palavras dele me deixaram satisfeita. Meu irmão era muito compreensivo e não me censurou em momento algum, o que muito me aliviou. Mas a curiosidade estava me corroendo por dentro. Ele não havia falado o que eu queria ouvir, por isso decidi perguntar: — Ainda me odeiam? — Annabel — disse ele, tentando me tranquilizar. —, eu não a odeio. Nunca odiei e acho que ninguém te odeia... Pode ficar tranquila que ninguém irá destratá-la, afinal, nós a chamamos aqui, mas é complicado... Prefiro não falar sobre isso. Era pequeno quando você partiu e sinceramente, não gosto de julgar as pessoas. No seu lugar, teria feito o mesmo. — Certo. Apesar das perguntas sem respostas e da minha insegurança e ansiedade, poder conversar com meu irmão depois de tantos anos foi muito agradável, pois eu o amava muito, tinha com ele uma ligação especial, e até senti saudades de casa... Ou pelo menos me dar à falsa sensação de que sentia saudades. Porém, o pior ainda estava por vir. A cada quilômetro percorrido, mais perto do reencontro eu me sentia e de certa forma isto me causava arrepios. Como seria? Não queria pensar...


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le estacionou o carro e desceu, mas eu permaneci estática no banco. Não conseguia me mover. Havia acabado de cruzar as porteiras da Borborema... De volta ao meu antigo lar, sentia como se o tempo não houvesse passado e até mesmo podia ouvir os risos dos meus irmãos travessos, sentir o cheiro do capim novo sendo colocado na cocheira e o galo cantando de manhãzinha, avisando-nos de que era hora de se levantar. Nada havia mudado drasticamente. A pintura do casarão ainda era a mesma, estava bastante desbotada e sem vida, as paredes possuíam algumas rachaduras e as ervas daninhas povoavam as frestas e buracos da calçada. Em outrora, a casa havia sido símbolo de poder e luxo, nos orgulhávamos dela... Mas depois de tantos anos o encanto havia se quebrado: era apenas uma casa deteriorada pelas ações do tempo. Assim como eu. Henrique pareceu compreender meu espanto. Aliás, não seria difícil por conta da expressão que trazia ao rosto, mas tentei sorrir e descer do carro quando ele me estendeu a mão. Botei o primeiro pé para fora, o salto do meu sapato afundou na grama. Insatisfação... Será que a doença de meu pai também havia afetado o trabalho do jardineiro? Será que ainda tinham um jardineiro? Em minha época tinham. Chamava-se Orlando e costumava cortar a grama e cuidar das roseiras de forma ardorosa, de modo que nosso jardim era digno de olhares admirados. — Parece que não há ninguém em casa — comentei devido ao silêncio, mas estava enganada. Não demorou muito tempo e a porta do casarão foi aberta sob um ranger ensurdecedor das dobradiças. Precisavam ser trocadas. Paralisei-me novamente e engoli em seco, o coração começou a palpitar dentro do peito. Ansiedade. Medo. Angústia... Quem é que vinha nos receber? Uma figura pálida e magra botou sua cara para fora da porta e sorriu animadamente ao ver Henrique. Eu estava atrás dele, como que para me esconder. A mulher abriu um pouco mais a porta e pôs o corpo todo de fora. Apesar dos cabelos bastante grisalhos, o corpo ainda possuía belas

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VI


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40 formas e um ar imperioso, o sorriso ainda era simpático... Maternal. Minha mãe. Senti as pernas tremerem de forma involuntária ao vê-la, as borboletas em meu estômago se agitaram de forma que contorci-me um pouco. Não sabia o que fazer, o que dizer. Ainda estava estática. Tudo o que eu conseguia me lembrar era do seu olhar de decepção naquela manhã infeliz de minha vida, e já tinha sido há dezesseis anos! — Annabel! — disse ela, descendo as escadas do alpendre de maneira ágil. — Minha filha?! — Mostrou-se surpresa em me ver. Henrique havia saído da minha frente e eu estava cara a cara com minha mãe. Não sei que expressão tinha no rosto naquele momento, mas deixei-me abraçar por aquela mulher que, apesar de mais velha, era muito familiar. Não consegui dizer nada. Pensei que ela iria agir diferente... Talvez com menos afeto, já que não havia dado nem uma palavra em minha defesa quando tudo aconteceu, mas estava enganada, talvez Henrique tivesse razão... Eles não me odiavam. Passaram-se alguns instantes, ainda estávamos abraçadas e eu sentia que precisava dizer algo, minha mãe esperava que eu o fizesse e Henrique também. Mas o quê? Mordi os lábios e dei um sorriso tímido. Suspirei. — Mãe... Você está ótima! — exclamei de maneira polida, como se falasse a uma estranha, pois apesar de se parecer com minha mãe, eu já não conhecia aquela mulher. — Senti saudades — completei. Ela soltou-me e ajeitou o vestido cinza que usava, e que não lhe caía bem. Apesar de ainda ter um bom corpo, a cor a deixava muito apagada. — Bel, você se tornou uma mulher tão elegante... — Surpreendi-me ao ser chamada por meu antigo apelido, já fazia muito tempo que não o usavam... Podia estar enganada também, mas ela parecia verdadeiramente emocionada em me ver. Talvez arrependida por ter me deixado desamparada no mundo. Vi lágrimas brotando em suas pálpebras enrugadas, os olhos castanhos – semelhantes aos meus – pareciam ainda menores ao serem inundados pelo choro, e tentei não me abalar. Não queria emocionar-me como acontecera na rodoviária. Eu não queria deixar que isso acontecesse, pois, por mais saudades que eu sentisse, ainda estava muito magoada. — Obrigada, mãe, a capital me fez muito bem. — Foi a resposta fria e formal que lhe dei. Talvez ela estranhasse meus modos, mas eu já não era mais a mesma


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menina medrosa de outrora, apesar das maneiras tímidas, não havia restado nada daquela garota do interior. Era uma verdadeira mulher da capital. — Vamos, entre... Estamos preparando o café da tarde — disse, limpando as lágrimas nas costas das mãos. — Você está com fome, filha? — Ouvi-la me chamar de filha ainda me causava sensações estranhas. Não me sentia mais sua filha. — Não, mãe. — A palavra mãe saiu sem emoção alguma, como uma flecha gelada cortando o vento em direção ao alvo. — Eu estou bem. Só gostaria de descansar um pouco. A viagem foi desgastante — respondi pausadamente, dando ênfase ao meu cansaço. — Claro! — Ela virou em direção a meu irmão. — Henrique, leve as malas da sua irmã para o quarto dela — pediu com uma voz terna, olhando para ele com fascínio no olhar. Ele apenas meneou a cabeça positivamente e voltou para o carro. Minha mãe, um tanto insegura, pegou em meu braço e guiou-me pelo gramado alto até a escadaria do alpendre e juntas subimos para adentrar ao casarão... Meu coração batia em solavancos. Era incrível como eu não me sentia mais parte daquele cenário, apesar de ter passado metade da minha vida nele. Ao longe, escutei um berrante soar e o som trouxe-me velhas lembranças... A lembrança de um peão de boiadeiro, o único a quem dediquei amor... Mas havia sido há muitos anos, eu era apenas uma menina. Não uma mulher. No fim, não passara de uma amarga desilusão... Tais sentimentos haviam sido completamente apagados do meu peito. Eu fizera uma escolha. Eu mesma matei os sentimentos em prol do que acreditava e não havia maneiras de voltar atrás.


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ãe? Está tudo bem? — Escutei uma voz feminina e melodiosa soando quando adentramos o velho salão. Nada havia mudado ali também, exceto por um jogo de estofado aparentemente novo. Não tardou para eu avistar uma bela figura aparecer na escadaria que levava aos dormitórios, elegante e bastante semelhante a minha mãe. Estava vestida em um belo vestido florido com sapatos de saltos que não lhe favoreciam muito. Um mero detalhe. — Diana! Venha ver quem está aqui. Venha! — disse a mulher ao meu lado, de forma empolgada. — Sua irmã Annabel! A mulher que descia os degraus distraidamente parou. Seus olhos semelhantes aos meus fixaram-se em mim, analisando-me. Julguei-me bem vestida em um tailleur bege de bom corte e sapatos scarpin de cor preta, por isso não me importei em ser analisada. Até mesmo arrisquei um sorriso tímido. — Annabel? — perguntou, surpresa. Era dois anos mais nova que eu, mas parecia cinco anos mais velha agora. Diana havia mudado muito e nada me lembrava da menina bonita e cobiçada de antigamente. Apesar de ter ainda um corpo bastante atraente, podia observar que o seu rosto estava bastante marcado por manchas e linhas de expressões, algo que eu, mesmo não sendo mais uma jovenzinha, ainda não tinha. — Olá, irmãzinha! — saudei-a, percebendo o meu ego inflar discretamente. Estava me sentindo muito mais bonita que ela e sempre fora o contrário. Eu e Marcela sempre fomos ofuscadas por Diana, que agora não passava de uma mulher fora de moda e descuidada. Ela terminou de descer a escadaria e se postou diante de mim, ainda tinha aquele jeito atrevido e ar superior, podia sentir isso pela forma como seus olhos queimavam ao me olhar. Tranquilamente, continuei a sorrir. — Que surpresa agradável! — debochou. — Veio fazer uma visita aos nossos estábulos e relembrar os velhos tempos? — alfinetou-me ela,

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VII


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44 da mesma forma que fazia quando eu morava ali. Senti uma dor terrível em meu estômago, mas não alterei as expressões em meu rosto. Por causa da minha profissão, havia aprendido a controlar meus impulsos, pois em tribunais era preciso manter a postura. Assim, apenas meneei a cabeça negativamente, preparando-me para lhe dar uma resposta a altura, mas percebi minha mãe aflita ao meu lado e decidi amenizar. — Pode ser que eu visite os estábulos, Diana. — Meu tom de voz continuou soando calmo, apesar de eu estar borbulhando por dentro. — Mas não é minha prioridade no momento. — Sustentei o seu olhar atrevido, o que pareceu surpreendê-la, pois em outros tempos eu sempre abaixava a cabeça e me calava. — Meninas, por favor! — disse minha mãe, repreendendo Diana com o olhar. Ela pareceu muito incomodada por causa do assunto ser abordado, o que me fez ver que o tempo não havia mudado sua opinião sobre mim... Ela apenas estava guardando-a para si, ao contrário de minha irmã, que não fazia questão de me poupar das represálias. — Bel precisa descansar, a viagem foi longa e cansativa. Subimos as escadarias, deixando para trás a figura invejosa e furiosa de minha irmã. Nunca fora doce para comigo, mas já havia sido menos petulante. Talvez a idade houvesse aguçado o seu mau humor. Até aquele momento, não havia perguntado a respeito de meu pai, o motivo pelo qual tinha vindo. Na verdade, estava sem coragem e não sabia como o fazer. Respirei fundo enquanto caminhávamos pelo corredor estreito dos dormitórios e minha mãe parou diante da porta do meu antigo quarto. — Vou ficar aqui? — perguntei. — Sim, ainda é o seu quarto, Bel — respondeu-me sem animosidades. Respirei novamente e então decidi perguntar de uma vez por todas. — E o meu pai? Como está? — Ela deixou um ar triste tomar-lhe o rosto, aparentando vinte anos a mais do que tinha por conta da tristeza. — Está com um aspecto melhor hoje, mas ontem pensamos que não aguentaria varar¹ a noite. — Conseguia distinguir sinceridade em sua voz. — Marcela recusa-se a sair de perto dele — disse distraidamente. — Quer vê-lo agora? — Sua pergunta pegou-me desprevenida, senti o meu coração acelerar-se como um tambor a trepidar dentro do peito. — Mais tarde. — Foi o que disse em tom frio, quase de indiferença. ¹Expressão usada em Siqueira Campos. Significa “atravessar”.


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— Tudo bem. — Ela deu um sorriso amargo e retirou-se, deixando-me sozinha diante da porta. Suspirei. Sabia que havia sido um tanto grossa com dona Helena, mas, não consegui evitar. Minha vontade era de segurá-la pelos ombros e perguntar-lhe por que havia sido uma mãe tão rude comigo no passado, mas tinha que superar. Já era um começo não ter me tratado mal como Diana. Vagarosamente, abri a porta. No fundo estava com um pouco de medo do que encontraria no meu antigo quarto. Muito medo na verdade, pois aquele lugar me trazia lembranças de um tempo que tentei esquecer arduamente. Nada havia mudado. Ainda era a minha mobília, minhas antigas coisas... As coisas de uma Annabel infantil e menina, que tinha milhares de sonhos de amor. Minhas malas estavam colocadas sobre a cama e dei um pequeno sorriso ao pensar em meu irmão, carinhoso e prestativo. Eu nem mesmo o vi passar por mim e minha mãe. Ele tinha essa característica, era furtivo. Fazia o que precisava sem ser notado. Sentei-me na cama e o colchão velho afundou um pouco, mas, apesar disso, ainda era bastante macio. Em minha mente muitos pensamentos se aglomeravam... Ao que me parecia, todos estavam ali. Diana ainda me detestava, Henrique me tratara muito bem... E os outros? Será que Marcela e Pedro também me odiavam? Será? O que mais me intrigava, na verdade, era se meu pai ainda me odiava. Pensativa, caminhei até a janela e a abri. A vista para a campina verde enchia-me de novas energias. Ao longe, o gado pastava próximo à encosta montanhosa, logo mais o riacho seguia o seu curso, cortando a propriedade ao meio. Podia ver também a pequena floresta de pinheiros, acompanhada de um capão de eucaliptos e outro de angicos brancos entre outras árvores típicas que desconhecia o nome. Uma paisagem perfeita! Conseguia ver, um tanto mais próximo, o cafezal, a plantação de frutas, a pequena vila dos peões, o barracão do leite... o estábulo... A fazenda Borborema ainda possuía seus encantos, mesmo que quase dizimados, mas possuía. Sentia, olhando toda aquela imensidão de terras que se perdia no horizonte, um pouco parte de tudo aquilo novamente. Em meio à paisagem belíssima, prendi minha atenção nos peões a cavalo que começavam a apartar os bezerros, as vacas berravam sonoramente por terem que deixar os filhotes, que pareciam também angustiados com a separação. Algo fantástico, diga-se de passagem, até mesmo os animais tinham o senso de proteger os seus filhos e eu... Nada tinha para proteger...


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46 E nunca fui protegida. Senti uma lágrima escorrer pela minha bochecha e balancei a cabeça negativamente, tentando não me deixar abater por aquele sentimento ruim. Fechei a janela e voltei-me para a penteadeira de madeira com um espelho gigante que eu tinha ganhado no aniversário de quinze anos. Continuava bonita e bem conservada. Sobre ela, minhas antigas escovas de cabelo, um porta-joias e as chaves das três gavetas que ela possuía... Respirei fundo e decidi abri-las. Queria ver se estava tudo ali mesmo. Na primeira, encontrei minha caixa de grampos de cabelo e laços de fita, algumas maquiagens antigas na segunda e na terceira... Senti o meu coração palpitar. Estava ali o meu bauzinho de madeira rústica com meu nome entalhado na tampa que eu tinha ganhado do meu pai quando ainda era uma criança. Ele havia me dito que era para eu guardar ali dentro somente os meus maiores tesouros. Não consegui conter as lágrimas, pois ao abri-lo, vi ali dentro o anel que aquele a quem dediquei amor havia me dado. Não passava de um pedaço de metal retorcido de péssima qualidade, mas para mim era a coisa mais valiosa que tinha na época. O meu maior tesouro. Representava todo o amor que preenchia o meu coração. Suspirei fundo ao segurar o objeto e então o guardei novamente. Não queria fuçar aquelas lembranças. Não estava preparada para aquilo. Pensei por uns instantes no que eu guardaria dentro do baú agora... Não havia nada! Não era possuidora de tesouro algum. Só havia um imenso vazio. Ao constatar isso, tranquei as gavetas e deixei a chave no mesmo lugar em que estava. Certas coisas eram muito difíceis de ser encaradas de frente e exigiam muito mais do que podia imaginar. Decidi, então, deitar um pouco para descansar o meu corpo que pedia uma pausa, pois ainda tinha que enfrentar mais uma luta. Teria que criar coragem para ver o meu pai depois do repouso... Tinha que encará-lo, mesmo que a imagem me deixasse extremamente sensível e amedrontada, afinal, pela descrição de minha mãe, ele não estava nada bem. Troquei de roupa, colocando algo mais confortável e me permiti descansar. Sem perceber, já havia caído no sono.


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ram quase sete da noite quando despertei do meu sono perturbador. Havia gotículas de suor em minha tez. Estava assustada. Um pesadelo assombrou-me durante o descanso. Sonhara com meu pai morto sob a mesa da sala de estar e todos chorando ao seu redor. Menos eu. Estava com uma faca nas mãos, a roupa branca com manchas vermelhas e um sorriso medonho nos lábios, como se estivesse feliz com aquela situação. Parecia um aviso. Eu tinha que ir ver o meu pai. Levantei-me apressada e calcei novamente os meus sapatos, dei uma olhadela rápida ao espelho a fim de arrumar os cabelos e saí para o corredor caminhando com passos firmes. Estava decidida a vê-lo. Suspirei fundo, ainda sabia qual era o quarto dele, afinal, pelo que me parecia, nada havia mudado. Senti-me enjoada ao chegar à porta. Minhas mãos estavam trêmulas e meu coração parecia apertado dentro do peito. Depois de tanto tempo eu iria revê-lo e da pior maneira possível: em seu leito de morte. Bati. Ninguém respondeu. Bati novamente dando três pancadinhas consecutivas e então um arrastar de sapatos soou pelo assoalho de madeira. Mordi os lábios, ansiosa, e assim que a porta se abriu, levei uma mão à parede com o intuito de me escorar. Não me sentia bem. Um rosto jovem e pálido, emoldurado por cabelos castanhos deu o ar de sua graça: era minha irmã Marcela. — Jesus misericordioso! — exclamou ela, bastante surpresa. — Bel, é você?! Quase não acreditei quando a mãe disse que estava aqui... — Ela limpou uma lágrima com as costas da mão direita. — Pensei que não viria vê-lo... — Abriu o restante da porta e eu permanecia imóvel, como se meu corpo estivesse colado ali. — Está piorando... — disse ela, voltando o olhar para o nosso pai. — Com o cair da noite sempre piora. Não sabia o que dizer, que expressão usar, que tom de voz... Sentia-me bestificada e zonza, respirei mais fundo antes de dizer qualquer coisa para minha irmã que aguardava ansiosa diante da porta. Marcela estava bastante bonita, apesar de abatida. Sempre fora um encanto de menina

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VIII


Letícia Godoy

48 e apegada ao nosso pai, por tal motivo, não me estranhava o fato de ficar com ele o tempo todo, como dissera minha mãe. — Marcela... — Senti-me falhar a voz, virei o rosto para o lado tentando encontrar as palavras certas. — Eu não sei o que fazer! Não sei! — confessei. Senti o meu rosto umedecer, eram as lágrimas que eu já não continha. Minha irmã deu-me um sorriso encorajador e com um terço nas mãos, abraçou-me fortemente. — Eu entendo, irmã... Faz tanto tempo! Tanto tempo que foi embora! — Eu estava enormemente agradecida por Marcela não me odiar como Diana. Pelo menos, se odiava, não estava demonstrando. Seu abraço reconfortou-me de uma maneira única e maravilhosa. Ambas estávamos chorando. Tentando manter a calma, ela me disse baixinho, em tom confidente. — Papai chama por você todos os dias... Por isso pedimos para que viesse. Entre, venha vê-lo, irmã. Pegou-me pelas mãos e praticamente me arrastou para dentro do quarto que estava cheirando a mofo. Não prestei muito atenção no cômodo ao meu redor... Afinal... Não importava! Quando meus olhos deitaram-se sobre o que havia restado do homem que fora meu pai, senti uma nova torrente de lágrimas invadirem-me à face. Jamais o reconheceria se não tivessem me dito que aquele homem deitado naquele leito era meu pai. Estava magro e sua pele parda estava com um aspecto amarelado, dormia com a boca aberta e respirava com muita dificuldade. Fiquei horrorizada e quase que inconscientemente, corri para a cama e ajoelhei-me perto da cabeceira para poder olhá-lo mais de perto. — Meu Deus! Por que não o levam para um hospital? — perguntei no mesmo tom baixo que Marcela usara, olhando para ela e tentando mirar-lhe dentro dos olhos sob a cortina espessa de lágrimas. — Não há mais o que fazer, Bel. Os médicos disseram que o câncer está muito avançado. — Eu ouvira bem? Marcela havia dito câncer? — Nós já procuramos todos os melhores médicos, sempre dizem a mesma coisa: devemos esperar pelo fim, pois câncer nos pulmões é algo extremamente delicado e o pai recusou os tratamentos quando estava no início... Você sabe como ele é teimoso, dizia que queria morrer com dignidade e que o tratamento era “uma ofensa”. — Acreditei em Marcela, pois meu pai era realmente uma cabeça dura, quando tinha uma opinião, dificilmente a mudava. Eu era prova concreta disso.


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— Há quanto tempo ele está assim? — Constatei o que já esperava que acontecesse: eu não sabia mais nada sobre minha família. Eram-me estranhos! — Quase oito meses desde que ele nos contou sobre o câncer. Tentamos convencê-lo a fazer as quimioterapias, mas ele não quis, agora, elas só o enfraqueceriam ainda mais... Dizem que ele é muito forte e por isto ainda vive. — Marcela parecia bem conformada com a imagem de nosso pai naquele estado lamentável, algo que me provocou um arrepio de raiva. — Sabe Bel, às vezes eu gostaria que Deus o levasse... Ao menos ele descansaria... Está sofrendo muito neste estado! — Não diga isso nem de brincadeira, Marcela! — repreendi-a, levemente irritada. — Você diz isto porque não convive com ele desde então. Tem sofrido muito, Annabel. Nós todos viemos para cá novamente para poder ajudar a mãe — contou-me de forma tranquila, sentando-se em uma cadeira aos pés da cama. — Henrique, que ainda mora com eles, pediu-nos para vir, pois desde que descobriu a doença, o pai tornou-se depressivo e deixou de cuidar dos negócios da fazenda. Acredito que isso tenha agravado o seu estado, mas nada posso fazer além de cuidar dele com paciência. — Ela estava desabafando comigo, o que me fez sentir pena de todos. — Pedro tem ajudado Henrique na direção da fazenda e eu, Diana e Tatiana, a esposa de Pedro, temos ajudado a mãe a cuidar dele. Às vezes, ele sente muita dor e tem falta de ar, temos que ser rápidas e colocá-lo para respirar pelos aparelhos... No começo, isso não era tão frequente, mas agora, tenho deixado o aparelho ligado o dia todo, pois ele não tem mais conseguido respirar muito tempo sem ele. — Que horror! — disse eu, choramingando um pouco alto. A situação realmente parecia mais complexa do que eu poderia imaginar. — Por que não me chamaram antes? Mandei tantas cartas e nunca tive resposta! — Mamãe não queria lhe chamar... Acreditava que seria pior, pois ele ainda falava de você com muita raiva. Referia-se sempre “a filha amaldiçoada”. — Marcela levantou-se e eu tentei limpar as lágrimas, quase incrédula diante do que acabara de ouvir. — Mas ultimamente, quando está lúcido, ele pede para vê-la, para falar com você... — Ela veio até mim e acariciou meus cabelos ternamente. — Desculpe-me, irmã, eu não lhe tenho raiva. Na verdade, sempre tive vontade de visitá-la e saber


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50 o que tinha acontecido com você, mas preferi ficar neutra. — Tudo bem, você é uma boa menina, Marcela, sempre foi! — Levantei-me e abracei-a novamente, com força. — Eu a amo muito! Muito! Mas não consigo ficar aqui mais nem um segundo... Preciso de ar! Quando ele acordar, por favor, chame-me! — disse, mordiscando os meus lábios freneticamente. — Não se preocupe, eu chamo sim... Penso que ele gostará de lhe ver! — Liberei-a do meu abraço e limpei as lágrimas que teimosamente escorriam pela face, e assim caminhei para a porta a fim de sair daquele fúnebre lugar. Já não conseguia suportar a situação e assim pus-me a pensar no quanto meus irmãos estavam sofrendo nos últimos meses. De repente, a atitude de Diana pareceu-me totalmente justificável. No lugar dela, eu também estaria abalada, por isso, agradeci enormemente por ter sido poupada de testemunhar o avanço da doença de nosso pai.


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m tanto desnorteada, saí caminhando pela propriedade. O sol já se punha há tempos e a noite estava estrelada, com uma lua admirável causando misticismo no ar. Se não fosse a situação totalmente desfavorável da saúde de meu pai, poderia até mesmo apreciá-la por horas e horas somente pela beleza irradiante do céu de interior. Limpo e calmo. Aproximei-me do estábulo quase que inconscientemente. Quando era mais jovem, costumava montar e galopar pelas terras da Borborema, mas esta imagem da Annabel selvagem parecia muito distante de mim. Distraída, não percebi que havia mais alguém ali e me surpreendi quando uma voz masculina e grossa soou aos meus ouvidos. — Ei! Quem é ocê e o que tá fazendo aqui?² — Aquele sotaque local me fez estremecer dos pés a cabeça, era rude e feria os meus ouvidos que já estavam habituados a outro padrão de linguagem. Na verdade, era nisso que eu queria acreditar, uma vez que o sotaque também me trazia fortes lembranças... — Olá, senhor... — saudei por educação, mesmo sem poder vê-lo. — Desculpe a intromissão, eu sou Annabel, sou filha do seu Mané... — Senti uma pontada na barriga ao falar isso em voz alta. Fazia muito tempo que eu não era “filha do meu pai”. — Gostaria de saber se poderia selar um cavalo para mim, eu quero montar. — Minha voz soou firme, mesmo que eu não me sentisse assim no momento e o homem que me dirigiu a palavra de maneira tão brusca deu as caras, abaixou o tom de voz, e respondeu-me mais brando, mostrando-se muito servil. — Sim, sinhóra. — Era um homem velho, de aparência modesta e muito familiar para mim, não sabia exatamente o porquê, mas tinha a estranha impressão de o conhecer dos meus tempos de menina. Não tardou muito a cumprir o que eu lhe havia pedido, esperei pouco ²Durante várias passagens da história, manteremos a linguagem informal para dar maior verossimilhança aos personagens, pois ela caracteriza as pessoas da área rural de Siqueira Campos que foi colonizada por mineiros e por isso têm o sotaque bastante marcado.

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IX


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52 tempo até que ele voltou com um belo cavalo negro selado. Olhei-o admirada, nossa fazenda sempre foi conhecida por ter os melhores cavalos da região e, pelo visto, ainda mantinham a antiga tradição. — Obrigada — disse eu moderadamente, encarando o homem de expressões rudes. — Num carece³ agradecer, sinhóra. — Ele entregou-me as rédeas e eu fiquei encarando o alazão, sem me lembrar exatamente o que deveria fazer primeiro para me lançar em seu lombo. — Sinhóra qué ajuda pra montá? — Quero, quero sim — respondi imediatamente, olhando-o com gratidão. Retirei os sapatos e os prendi na garupa da sela, pois seria impossível subir, usando-os e depois segurei nas rédeas e coloquei o pé no estribo. Só então, com a ajuda do senhor, lancei-me, de maneira desajeitada, sobre o lombo do animal. Como fazia muito tempo que não montava, senti certo desequilíbrio, mas eu precisava escapar daquele ambiente depressivo que me fazia mal. Precisava sentir-me livre. — Obrigada, senhor! — agradeci, antes de esporear o cavalo com o rebenque segurando as rédeas com firmeza e sair noite a fora sem um destino definido. O cavalo era extremamente obediente, mal o instiguei novamente e ele começou a trotar em um ritmo excelente para se sentir o ar puro da noite. Estava realmente desequilibrada, fazia anos que não cavalgava e a roupa não me favorecia. Estava usando uma calça jeans e blusa de malha; a calça ficava fisgando a minha perna, mas mesmo assim estava me saindo bem. Passei pela porteira rumo ao rio, talvez molhar os pés no riacho me acalmasse os nervos e me daria novos ânimos. Cavalgando com a brisa noturna de encontro ao rosto, senti-me aliviada, profundamente aliviada, mas algo que eu não pude ver assustou o meu cavalo. Tentei segurá-lo, porém foi praticamente impossível. Relinchando, o alazão me derrubou ao chão em questão de segundos! Senti uma pancada forte no braço direito e isso me fez soltar um grito angustiado de dor. Mal havia me levantado e o cavalo já desaparecera na penumbra da noite, deixando-me completamente sozinha. — Deve ter visto uma cobra ou coisa parecida — disse para mim mesma, pondo-me em pé. Esfreguei o braço regularmente, pois o sentia ³“Carece” neste sentido quer dizer precisar.


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dolorido ao extremo e então, fui surpreendida novamente. Um toque frio em minha garganta foi o suficiente para me deixar imóvel. Era uma espécie de metal, disso não tinha dúvidas, mas não conseguia entender o motivo daquilo tudo. Respirando vagarosamente, tentei manter a calma e depois de alguns segundos, criei coragem para falar. — Quem é? — Nada mais saiu da minha garganta, minha voz estava trêmula, reflexo de meu nervosismo que se aflorava. — Eu quem pergunto: quem é você, forasteira? Havia ouvido bem? A voz que se dirigiu a mim chamava-me de forasteira? Um pouco mais calma, respondi em tom baixo. — Sou Annabel e não sou uma forasteira! Sou filha do dono desta fazenda! Eu juro! Acabei de chegar de viagem... — Minhas palavras pareceram surtir efeito sobre a pessoa que me segurava com uma lâmina na garganta. Fui solta no mesmo instante e naquele momento acreditava que havia sido ele a assustar meu cavalo. Era um homem, tinha certeza por causa da voz, provavelmente um empregado de meu pai. Ele se afastou de mim e tirou o chapéu pelo que pude perceber na escuridão, dizendo em um tom arrependido. — Perdoe-me o engano senhora, pensei que fosse um ladrão, ultimamente tem aparecido alguns por aqui. Não queria lhe ter causado transtornos. — Dei um leve sorriso, estava bastante satisfeita pelo mal-entendido ter sido resolvido. Mas algo me chamou a atenção, ele não falava de acordo com o sotaque local. Logo, afastei-me um pouco mais do homem e disse em um tom um tanto mais imponente, para lhe mostrar que apesar do linguajar bonito, não éramos iguais e ele acabara de fazer uma besteira. — Moço, você não devia ter assustado o cavalo! — repreendi-o severamente. — O tombo podia ter sido mais grave, já pensou se eu tivesse me quebrado toda? Além do mais, agora não posso voltar para casa. Estou com o braço dolorido pela queda e descalça! — Minha voz novamente mudou de tom, eu sentia-me emocionada em chamar aquele lugar de casa. Naquela altura do campeonato, já tinha desistido de ir ao rio. — Eu a levarei, senhora. — Ele possuía uma voz muito bonita, mas era impossível conseguir ver direito o seu rosto por causa da escuridão. Era um homem alto, aparentando ser dois palmos mais alto que eu, e seu vulto era bastante encorpado, o que lhe atribuía um aspecto atlético. Um pouco desconfiada, disse ainda relutante.


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54 — Nem sei o seu nome... Quem me garante que a pessoa que tentou me matar vai me fazer chegar segura em casa? — perguntei. Eu realmente estava apreensiva, pois na capital eu havia aprendido que todo o cuidado é pouco e que de boas intenções o inferno está cheio! — Meu nome é Lisandro, senhora, e fui criado aqui, trabalho para seu pai desde sempre. Não precisa ter medo de mim, já reconheci o meu erro. — Consegui distinguir uma leve irritação em seu tom de voz e por isso não retruquei mais. — Muito bem, Lisandro — disse sem outra escolha, estava escuro e eu não teria como voltar sozinha. —, então sendo assim, vamos lá. — Não soei temerosa, mas também não usei um tom calmo ou gentil. Na verdade, só estava me sentindo inquieta com o que havia acontecido. Percebi que ele respirou fundo e deu alguns passos em direção a uma moita alta. Não demorou muito e retornou, puxando um cavalo pelas rédeas. Olhei curiosa, não estava entendendo os seus propósitos. — Pensei que fosse me acompanhar enquanto caminhávamos — comentei. — Demorará muito e a senhora sente dores. Montaremos os dois no cavalo — falou, em um tom bastante educado. — Acha que consegue montar? — Sim, claro — respondi prontamente. Logo, ele montou primeiro e eu apoiei-me nele para subir e montei em sua garupa. Se tinha uma coisa que sempre detestei era montar na garupa. Dava-me a sensação de desconforto extremo! Porém, não tinha opção. Apoiei as mãos em sua cintura, sentindo uma leve ardência no braço e, após perceber que eu já havia me acomodado, ele instigou o cavalo a começar a marchar. Andamos um bom trecho em silêncio e por isso, consegui observar o céu. Estava realmente magnífico, mas quando me lembrava de meu pai deitado sobre a cama, sentia-me mal novamente e continha minhas lágrimas. Ele pareceu perceber minha inquietação e perguntou gentilmente: — Está se sentindo bem, senhora? — Tentei me recuperar para respondê-lo seriamente, pois não queria demonstrar fraqueza. — Sim, se for de seu agrado, pode acelerar o trote. — Não estava bem, sabia disso. Estava angustiada ao extremo em ter que voltar para casa, enfrentar os olhares de meus irmãos... A doença de meu pai, a im-


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pertinência de Diana... — Não precisa se fingir de forte, senhora, sua tristeza é percebível. Uma coisa muito triste esta que está acontecendo com vosso pai, lamento muito. — Suas palavras me atingiram de uma forma que me fez sentir dores no estômago. Estremeci completamente. — Sim, é lamentável o estado de saúde de meu pai, mas não gostaria de falar sobre isso. — Soei mais ríspida do que realmente desejava ser e Lisandro nada disse, apenas bateu com o rebenque no cavalo a fim de fazê-lo trotar ainda mais depressa.


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ão demorou muito até que chegássemos à casa grande, o meu braço ainda doía, mas assim que Lisandro parou o cavalo, eu saltei de cima do mesmo em questão de segundos, o que o deixou um tanto assustado, pois ficou me olhando de uma maneira inquietante. Eu podia ver o seu rosto naquele instante, pois as luzes das lâmpadas acesas clareavam todo o pátio ao redor da casa. Era muito bonito, apesar dos traços rudes de homem do campo. Fitar os seus olhos fez-me sentir as pernas estremecerem e tive medo de encará-los por muito tempo. Sua pele levemente dourada atribuía-lhe um aspecto misterioso e seus cabelos negros desciam em cascatas até a altura do pescoço, com leves madeixas desgrenhadas caindo-lhe ao canto dos olhos. Se eu o tivesse visto andando pelas ruas da capital, com certeza seria o tipo de homem que chamaria a minha atenção, mas ele era um empregado da fazenda do meu pai. Um bruto que havia me confundido com um ladrão. Não era adequado para mim. Já tinha experiências o suficiente para saber disso. — Obrigada pela carona — disse, da maneira mais branda que consegui. — Não precisa agradecer senhora, a culpa de tudo foi minha. — Sua maneira de falar não me lembrava em nada os homens do campo, ele não possuía aquele sotaque que me irritava os ouvidos. Um desperdício... Tão belo e vivendo naquele ambiente rude e precário. — Ainda bem que admite sua culpa. Não pense que me esquecerei disso tão fácil — dizendo tais palavras, dei-lhe as costas e caminhei imponente para as escadarias. Não olhei para ver se ele já havia ido, mas senti o meu coração palpitar assim que adentrei a sala de estar e cerrei a porta atrás de mim. Estava trêmula e não entendia o motivo, pois aquele homem era só um empregado do meu pai, nada demais, um empregado descuidado que me havia feito grosserias. Respirei um pouco mais aliviada, mas logo percebi que não estava sozinha.

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58 A sala estava cheia, provavelmente todos os membros daquela família que eu tinha que chamar de minha estavam ali. Inclusive, cunhados e cunhadas. Tentei me recompor e passei as mãos pela minha roupa a fim de tirar qualquer sujeira que poderia ter ficado devido à queda, então percebi que estava descalça e isso me deixou muito constrangida. Ergui a cabeça mesmo que estivesse com vontade de me esconder e encarei-os. Não sabia exatamente o que fazer, pois a dúvida se apoderava de mim e não tardou muito para que a primeira boca me dirigisse a palavra. — Por onde esteve, Annabel? — perguntou Henrique, olhando-me um tanto desconfiado. Reconheci meu irmão Pedro, todo sorridente sentado ao lado de uma mulher belíssima e dei-lhe um sorriso de volta, ignorando a pergunta do meu irmão mais novo. — Que importa, Henrique! Ela está aqui e ponto. Irmã, venha cá me dar um abraço! — Pedro não estava zangado comigo, o que me aliviou de forma significativa. Caminhei um tanto desajeitada sem os meus sapatos e fui ao seu encontro, abraçando-o cheia de ternura. Também havia se tornado um belo homem e parecia ter a mesma idade que Henrique, julgando sua excelente boa forma. — Meu querido, você está ótimo! — disse eu, bobamente. Quando ele me abraçou, senti o braço arder e não pude conter um gemidinho de dor que saiu quase que espontaneamente. Ele me soltou e fitou-me preocupado, perguntando logo em seguida. — Abracei-a muito forte? — Parecia confuso e por isso tratei logo de sorrir-lhe e desculpar-me o mais rápido possível. — Não, não. De maneira alguma. Eu fui dar uma volta a cavalo e acabei caindo, logo, meu braço está dolorido. — Eu devia mencionar o empregado abusado que havia me feito cair, mas não senti vontade de dedurá-lo aos meus irmãos, o que me deixou frustrada comigo mesma. — Tem que tomar cuidado, Bel. Você já não tem mais quinze anos para sair galopando por aí como antes! — comentou Pedro, humorado como sempre. — Está me chamando de velha, Pedro? Isso é muito deselegante de sua parte! — brinquei, meneando a cabeça negativamente. Só faltava rever Pedro e, para minha alegria, meu irmão estava me tratando mais do que bem. Como sempre o fez em tempos passados. — Não foi esta a minha intenção, perdão — disse, de forma ani-


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mada. — Mas, mudando de assunto, quero que conheça minha esposa, Tatiana. Ele apontou para a bela mulher que se levantou rapidamente. Dando um sorriso estonteante, ela veio me cumprimentar, tão animada quanto meu irmão, o que me fez pensar sobre os motivos que Henrique tinha para considerá-la odiosa. — Muito prazer, Annabel! Já ouvi falar muito de você e confesso que estava curiosa para conhecer a ovelha desgarrada da família! — As palavras me fizeram estremecer, mas para não ser deselegante, apertei-lhe a mão e respondi cordialmente. — Não sei se posso ser considerada uma ovelha desgarrada, Tatiana, mas é bom ter voltado. — Antes que ela pudesse me responder qualquer coisa, escutamos passos agitados vindos da cozinha e logo duas robustas crianças entraram correndo na sala de estar, pareciam estar brigando entre si por causa de um brinquedo. — Eu vou contar pra mamãe o que você fez! Devolve, Diego! — disse uma menininha que aparentava ter no máximo cinco anos e era linda! Possuía cabelos cacheados e negros como a noite que lhe caíam pelas costas, suas bochechas estavam queimando de tão rosadas e a face emburrada muito lembrava Diana, quando mais nova. — Não, Maria Antonieta! Esta luneta é minha! Você nem sabe usar! — retrucou o menino, que aparentava seus oito anos e muito se parecia com a irmã. — Deixe-me em paz, menina chata! — Crianças! Parem de brigar agora mesmo! Tony, devolva essa luneta para sua irmã, já não aguento mais vocês dois! — Uma Diana estressada apareceu gritando pela porta. Olhou-nos e ruborizou no mesmo instante pela sua falta de elegância. Não me pareceu uma boa mãe, principalmente pela forma que falava com as crianças. — Diego Antonio e Maria Antonieta, vocês estão aprontando de novo? — perguntou uma voz firme e máscula, era de um homem que eu nunca tinha visto, muito bonito por sinal. Ele levantou-se e caminhou tranquilamente até as duas crianças, ajoelhou-se e começou a conversar com elas, sua paciência muito me surpreendeu. — Filho, quantas vezes já lhe pedi para não pegar os brinquedos da sua irmã? — Mas pai, ela nem sabe usar e eu só ia pegar emprestado! — retrucou o menino, de forma teimosa. Todos estavam calados, apenas assistindo a cena e Diana parecia mais irritada do que nunca.


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60 — Mentira! Você nem me pediu! — gritou a menininha com uma voz estridente, dando uma sacudidela no irmão. — Não quero mais saber de confusões. — Ele pegou a luneta das mãos do menino e devolveu à garotinha. — Espero que esta cena não se repita, ouviram-me? — Sim, senhor — responderam em uníssono. — Agora, cumprimentem a tia de vocês que acabou de chegar de viagem, vocês foram tão mal-educados que interromperam nossas apresentações. — O homem se levantou e me fitou com um olhar gentil, sim, era o marido de Diana. Não me restava dúvida. Sorri para ele que, pegando na mão dos filhos, veio até mim e disse calmamente. — Muito prazer, Annabel, sou Guilherme, esposo de Diana e pai destes dois monstrinhos! — O prazer é todo meu, Guilherme! — Estendi-lhe a mão e ele a apertou calorosamente. Logo, voltei o meu olhar para as duas crianças e disse o mais terna possível, a fim de lhes parecer uma boa tia. — Olá, meus queridos, sou a tia Bel, e vocês? — Eu sou a Maria Antonieta, titia Mabel e eu sou a princesa mais bonita do universo! — A garotinha, naquele momento, apesar de um tanto mimada, pareceu ainda mais encantadora aos meus olhos e logo o menino a corrigiu duramente. — Não é Mabel, sua tonta, é tia Annabel! — Ele olhou para mim e se apresentou de forma pomposa. — Tia Annabel, eu sou Diego Antonio, mas pode me chamar de Tony e estou encantado em lhe conhecer. — Nossa, estou surpresa com tanta cordialidade! — brinquei, passando as mãos nos cabelos do menino e então me abaixei para olhar para a pequenina garotinha de olhos brilhantes. — E você, Maria, com toda a certeza é a princesa mais linda do universo e por ser tão linda assim, pode me chamar de tia Mabel, ou como preferir. — Obrigada, titia, você também é muito linda! Como a minha mamãe! — Ao falar aquilo, ela sorriu para mim e correu para Diana, abraçou suas pernas demonstrando tanto amor que, por um momento, senti inveja de minha irmã. — Mamãe, desculpa ter desobedecido e feito bagunça. — A cena me emocionou... Levei uma mão ao meu ventre quase que involuntariamente e fechei os olhos. Não podia pensar naquilo ou desabaria na frente de todos e eu não queria que presenciassem meu lamento.


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— Tudo bem, filha, agora venha, preciso lhe dar um banho... Você é uma mocinha e mocinhas têm que estar sempre bonitas e cheirosas! — Diana a pegou no colo e então, deu um curto sorriso a todos nós, dizendo logo em seguida. — Com licença. — Toda — respondi quase que instantaneamente. Guilherme sorriu e novamente disse, de forma cortês: — Com licença, irei ajudar Diana com as crianças para não atrasar o jantar. — E pegando na mão do garotinho, ele também se retirou da sala. — Lindas crianças! — Eu disse, dando um largo sorriso. — Eu lhe disse que eram adoráveis, Bel, pena que às vezes eles tiram todo mundo do sério. — Henrique deu uma gargalhada, talvez eu estivesse fazendo uma careta bastante engraçada, pois ele olhava diretamente para mim. — Não vejo a hora de ter um filho também! Crianças são incríveis e alegram nossa vida! — comentou Tatiana, olhando para o marido com aquele sorriso matador. — Nós teremos, meu amor, mas tudo no seu tempo! — disse Pedro, revirando os olhos. — Bem, onde estão Marcela e Bernardo? — Quem é Bernardo? — perguntei. Ninguém havia mencionado aquele nome ou feito menção à existência de um Bernardo, por isso soei muito surpresa. — É o namorado da Marcela. Ele chegou agora à noite para vê-la, pois trabalha na cidade — respondeu minha mãe, dando-me um leve sorriso. Ninguém havia me falado nada demais sobre Marcela, apenas Henrique havia comentado que tinha um namorado, mas muito rapidamente. Pelo visto, a única solitária ali era eu... E Henrique, por puro capricho, como eu havia concluído após nossa conversa. — Entendi — disse, corando no mesmo instante. — Acho que ainda não desceram, Bernardo ia tentar convencê-la a deixar um pouco o quarto e relaxar, até me disse que tinha a intenção de levá-la para a cidade — comentou Henrique, dirigindo-se a Pedro. — Não sei se ele vai conseguir, ela tem ficado muito tempo naquele quarto e recusa-se a sair — comentou Tatiana, com certa piedade na voz. A conversa já estava me deixando entediada. Na verdade, eu nunca


LetĂ­cia Godoy

62 fora muito fã de conversas sobre a rotina familiar. Pedi licença e subi para tomar um banho. Estava precisando urgente disso e com certeza me faria bem, melhor do que escutar todas aquelas coisas sobre as pessoas que eu deveria considerar importantes para mim.


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pior prisão é ter o coração fechado. Meu coração há muito tempo tinha se tornado rude, endurecido por todas as coisas que havia passado, mas eu não me orgulhava disso de maneira alguma. Sentindo a água morna cair sobre minha pele, pensei em todas as vezes que perdi a oportunidade de viver um grande amor e tudo o que eu tinha mais próximo disso era a imagem de certo peão de boiadeiro. Invejava minhas irmãs, sabia disso pela forma como cumprimentei Guilherme e pela maneira que perguntei de Bernardo... Como eu queria também ter alguém para apresentar a eles e fazê-los ver que não era uma mulher sozinha... Mas a realidade era outra, tudo o que podiam ver era uma mulher fria e vazia. Olhei para o meu corpo, inspecionando cada centímetro dele: minha pele já não era tão firme como em outrora, na verdade, sentia uma certa elasticidade em meus seios, que se encontravam levemente caídos sem a sustentação do sutiã. Meu rosto já possuía certas linhas de expressão, mesmo com todo o cuidado que eu tinha no dia a dia, meus cabelos, curtos e impecavelmente lisos, já começavam a apresentar alguns fios brancos que eu teimosamente disfarçava com tintura. Meu corpo ainda apresentava beleza, como as coxas firmes e as nádegas bem definidas, contemplado por um ventre levemente arredondado, mas já não era mais tão atraente a ponto de fazer um homem apaixonar-se perdidamente. O que acabara de descobrir enchia-me de tristeza. Eu havia deixado a melhor fase da minha beleza passar... Se tivesse me casado como queria o meu pai, teria evitado tanta solidão... Ou não! Muitas ideias como essa me assombravam, a maldita dúvida sempre me perseguia... Ele, o rapaz que papai escolhera para mim, amava-me e eu sabia disso, mas estava iludida demais para deixá-lo adentrar as duras paredes de meu coração. Não consegui lhe dar uma chance e o que veio depois só me causara dor... O tempo havia passado para mim...

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XI


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64 Alguns homens tinham me feito companhia no decorrer dos anos, mas eu nunca consegui me entregar. Nada passava de uma noite casual, ou mesmo algumas semanas de encontros frívolos com segundas intenções. Nada intenso. Nada consistente e eu sabia que parte disso se devia à minha incapacidade de deixar que eles se aproximassem verdadeiramente. Tinha medo de me magoar de novo. Era insegura neste sentido e nunca consegui superar esta insegurança. Saí do banho, joguei-me sobre a cama com o corpo ainda molhado e fiquei olhando para o teto, completamente confusa. Em meio a toda frustração para com meu corpo e minha beleza, o rosto do homem que encontrara antes surgiu em minha mente... Lisandro. Era de um homem como ele que eu precisava. Forte, másculo e viril. Talvez não se importasse se minha pele já não fosse tão firme, talvez pudesse amar-me da forma que eu necessitava para me sentir viva... Talvez... Tentei espantar tais pensamentos, afinal, eram absurdos! Ele era apenas um empregado e, mesmo que eu estivesse necessitada de carícias, meu orgulho não me permitiria rastejar para o leito de um pobre coitado. Não mais. Eu tinha aprendido a lição. Preferia procurar a um dos meus casos do que arriscar algo assim novamente. Não desci para o jantar, de fato estava muito indisposta e agoniada com todas as minhas tormentas. Acabei adormecendo ainda despida, sem cobertor, sem nada. Apenas eu e meus conflitos, como sempre. Sempre sozinha. Na manhã seguinte, raios fortes de luz do sol entraram pela janela, fazendo os meus olhos arderem. Não estava preparada para acordar ainda, mas era preciso. Deviam estar preocupados comigo. Ou não. A mudança de clima durante a madrugada, de certa forma, me fez sentir a garganta raspando. Eu tinha dormido sem roupas e esfriou de repente... Ótimo. Havia me resfriado durante a noite. Levantei-me e coloquei uma calça justa de brim bege e uma blusa preta um pouco folgada com um bolero da mesma cor da calça, um visual muito menos formal do que o do dia anterior, mas ainda assim impecável. Já me sentia muito melhor comigo mesma em relação ao desespero da noite anterior. Havia recuperado o meu equilíbrio e isso era ótimo. Bastante calma, calcei uma sandália preta com detalhes em dourado e desci para tomar o café.


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Estavam todos reunidos à mesa e percebi Diana estremecer quando me viu chegando. Não me importei. Na verdade, poucas coisas como a presença irritadiça de minha irmã me abalavam. Depois de tudo, era preciso mais do que olhares feios para intimidar-me. — Bom dia! — proferi com uma voz ponderada a todos, logo, notei a presença de um rapaz loiro com olhos claros ao lado de Marcela. Presumi que fosse o namorado. — Bom dia, filha, você está bem? — perguntou minha mãe, olhando para mim com expressões amenas. — Você não desceu para o jantar. — Foi o cansaço, peço desculpas por isso. Acabei dormindo — respondi, pegando uma xícara para tomar um pouco de café. — Bem, presumo que você seja o namorado de Marcela, certo? — disse, dirigindo-me ao rapaz que deu um breve sorriso para mim. — Sim, e você é a irmã recém-chegada da capital. Um prazer conhecê-la, senhorita. Marcela me falou muito sobre você. — O seu tom de voz polido e formal despertou minha curiosidade. De fato, Marcela soube escolher. O rapaz parecia o tipo de homem que toda mulher gostaria de ter ao lado em uma social com pessoas de prestígio. Educado, fino e elegante. Um verdadeiro cavalheiro. Com certeza papai o aprovava. — O prazer é todo meu — respondi, bebericando logo em seguida minha xícara de café; Diana pareceu enojada diante da cena. Logo, não pôde conter um comentário indesejável. — Ai, Bernardo! Quanta inocência! E você Marcela, tome cuidado ou acaba ficando sem o namorado! — Olhou para o marido e no olhar dele um tom de reprovação a censurava por sua grosseria. — Pode deixar, Diana, se eu quiser roubar um homem para mim, tenho outro na lista! — Após dizer aquilo, pisquei para Marcela, fazendo graça da situação. Eu não pretendia me deixar levar por Diana, mesmo que tenha doído ouvir aquilo a meu respeito, por isso deixei que um sorriso sarcástico surgisse em meus lábios e minha adorável irmã pareceu sentir náuseas de tanta raiva. Levantou-se e disse, de forma educada, como sempre: — Vou terminar o café em meu quarto. Não aguento olhar para essa formalidade fingida, me enoja! — Ela se retirou, marchando como um soldado. Desconcertado, Guilherme se levantou quase que em seguida, olhan-


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66 do para todos com um desespero visível nos olhos. — Perdoe-a por isso, ela anda muito nervosa ultimamente. Com licença. — Ele se preparava para sair, quando minha mãe fez um gesto para que ficasse. — Não, Guilherme, não vá atrás dela. Diana tem que começar a encarar as coisas com mais maturidade. Termine seu café conosco. — Naquele momento, senti-me orgulhosa por ser filha daquela mulher à minha frente. No final das contas, nós nos parecíamos muito, principalmente no espírito firme e decidido. — Sra. Magalhães, não posso contrariar Diana, ela ficará chateada se eu não apoiá-la. — Guilherme parecia coagido, sem rumo... Quase senti pena. Ainda bem que seus adoráveis filhos não estavam ali para presenciar tal cena. — Já disse para me chamar de Helena, meu filho, e se cada vez que Diana agir assim, você correr para ela como se fosse o centro do mundo, ela ficará pior — advertiu minha mãe de forma severa, quase áspera. — Mamãe tem razão, essa implicância comigo existe há muito tempo, Guilherme, não se sinta culpado. Desculpe-me você pelo que falei, mas não pude evitar, e ela está errada, logo a deixe pensar sobre isso. Seja firme e não a deixe tratá-lo como um objeto que pode ter em mãos quando quiser. — Minhas palavras fluíram tão naturalmente que até mesmo para mim soaram pretensiosas. Engoli em seco e senti as bochechas corarem. — Desculpem, é a minha humilde opinião. Todos ficaram em silêncio. Principalmente eu, desejando nunca ter feito tal comentário. Graças a Deus, para quebrar o clima tenso que reinou sobre a mesa, Pedro começou a falar como se nada tivesse acontecido. — Bel, depois do café gostaria de conversar com você no escritório, aliás, eu e Henrique temos muito a lhe falar. — Não entendi de imediato o que teriam para tratar comigo, mas presumi que fosse sério pelas expressões em seus rostos. — Tudo bem, iremos conversar. — Sorri fracamente para ambos e percebi que Tatiana retorceu o rosto ao olhar para Henrique. Não conseguia assimilar o atrito que existia entre ambos, pois ela me parecia ótima e meu irmão o mesmo garoto adorável de sempre. Depois de terminarmos o café em um clima muito estranho, fomos para o escritório e, assim que entrei no cômodo, Pedro fechou a porta e


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Henrique começou a descer das prateleiras alguns livros pretos e colocou-os sobre a mesa. — Bel, nós temos sérios problemas — começou Pedro. — Se papai morrer hoje, digamos que tudo o que tem dará apenas para pagar suas dívidas. — Olhei para ele espantada, sua abordagem direta pegou-me desprevenida e eu nem havia sentado ainda, por isso senti-me um pouco tonta. — Como assim? O que está me dizendo, Pedro? Papai tem muito dinheiro e a fazenda... — comecei, tentando somar mentalmente toda a riqueza de nosso pai. — Tinha, Bel, tinha. — completou Henrique, interrompendo-me. — Parece que ele tem feito maus investimentos nos últimos anos, o que pode levá-lo à falência. — Isso é impossível! — protestei. A ideia de nossa fortuna já não valer mais nada me deixou perplexa. Queria entender os motivos para que tamanho desastre pudesse ser digerido. Na verdade, a ligação que eu havia recebido, sabe-se lá de quem, estava me fazendo muito sentido naquele instante. Haviam me dito que precisavam de mim para resolver os negócios da família. — Então é por isso que me chamaram? — perguntei, com um riso nervoso escapando involuntariamente de meus lábios. — Não exatamente para que eu pudesse ver o pai antes de morrer, mas sim porque nesse caso eu seria útil! Senti-me usada ao chegar a essa dedução. Todos, ou quase todos, estavam se mostrando corteses e amigáveis, mas não tinha a ver com o fato de que queriam estreitar as relações familiares comigo novamente e sim porque precisavam de mim... — Não! Não é isso, Annabel! — protestou Pedro, de forma virulenta. — Nós a chamamos porque o pai tem pedido para lhe ver, mas já que está aqui, queremos que fique a par de tudo e se puder, ajude-nos! — É verdade, Bel! Somente escute... Nosso administrador está chegando e ele poderá explicar melhor esses trâmites todos. Confesso que não entendo muito a respeito e depois pode tirar suas conclusões — completou Henrique a fim de confirmar o que Pedro estava dizendo. Eu ainda tinha a esperança de que estivesse brincando, mas pelo seu tom de voz, percebi que era sério. Não tardou muito e uma batida seca atingiu meus ouvidos. Estavam à porta. Henrique a abriu e então, para minha surpresa, um homem alto e forte adentrou por ela com seu semblante rústico e ao mesmo tempo belo, tão belo que me fez remexer na cadeira. Era Lisandro, o empregado da outra noite.


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68 — Bom dia — saudou ele de maneira séria, aproximando-se da mesa, apertou a mão de Pedro e começou a pegar os livros que Henrique colocara na mesa minutos antes. Sem entender, olhei para os meus irmãos em busca de respostas. — Bel, este é Lisandro, nosso administrador. — Minha boca se abriu ridiculamente quando Pedro proferiu tais palavras. — Acho que não precisamos de formalidades. Ele pode lhe explicar a situação de nossas finanças e eu espero, sinceramente, que você, como advogada, possa nos orientar. Estou disposto a pagar seus honorários, mas precisamos de você. — Ele olhou de mim para Lisandro e continuou falando. — Sei que é inconveniente lhe pedir isso, mas... ultimamente não confiamos em ninguém. A notícia de nossa aparente falência tem de ser mantida em segredo. Muitas pessoas dependem de nós. Não queremos alarmá-las. — Administrador... Você? — Ignorei tudo o que meu irmão havia falado, pois estava olhando fixamente para o rapaz que se sentou na cadeira que imaginei ser de meu pai e retirou um óculos do bolso, botou-os e começou a rabiscar um dos livros pretos. — Por que a surpresa, senhora? — O tom de voz que usou me deixou surpresa, ele soou tão confuso quanto eu com sua presença ali. — Na verdade é senhorita e eu nunca imaginaria que era o administrador da fazenda, principalmente por seu comportamento na noite anterior. — Percebi que meus dois irmãos nos olhavam confusos e então me dirigi a ambos. — Este homem me abordou enquanto eu cavalgava pela fazenda, derrubou-me do cavalo e ainda me ameaçou com uma faca no pescoço. — Já lhe pedi desculpas, senhorita — redarguiu ele. — Só estava realizando minha vigia noturna. — Pensei que o seu trabalho fosse administrar nossos bens, mas parece que prefere derrubar mulheres de cavalos a administrar direito. Se fosse um bom administrador, nós não estaríamos nesta situação. — Estava visivelmente irritada, era fato. Os três homens me olharam e então Henrique pigarreou e Pedro retomou a palavra, antes que Lisandro pudesse dizer qualquer coisa. — Como se Lisandro pudesse conter o nosso pai! Você sabe muito bem que o velho sempre foi cabeça dura. Não foi Lisandro quem gastou ou investiu o dinheiro de forma errada. Na verdade, se você verificar


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com calma, os balanços estão impecáveis. Papai sabia que estávamos entrando em um buraco sem saída. — Ele caminhou até a janela e, sem olhar para nós, continuou. — Mas parece que o velho Magalhães não estava se importando muito com isso. — A culpa não é de ninguém, Bel, nós só queremos sua ajuda, pois parece que temos uma dívida muito alta a pagar, mas não temos o dinheiro. Então pensamos que você poderia estudar o caso e nos aconselhar... Temo que possamos perder a fazenda! — Henrique falava com uma maturidade invejável, tentei, por causa disso, manter a calma e ouvir o que tinham a me dizer. — Acalme-se, Henrique — disse, tentando raciocinar rapidamente. — Ninguém pode tomar a fazenda assim facilmente, existe uma série de opções até chegar aos bens, e a fazenda é um bem de família... Não tenho muita experiência nessa área, mas não pode responder pela dívida se for o único bem que papai tem. — Bem — Interrompeu-me Lisandro. —, se a senhorita me permitir falar. — Revirei os olhos de raiva, com quem ele achava que estava falando? — Seu pai acumulou nos últimos vinte anos uma dívida de cerca de dois milhões de reais. Sim, dois milhões. Jerônimo, o homem que ligou para você, é o contador. Tenho tido muitas reuniões com ele e bem, parece que agora não há mais saída. O banco precisa receber os empréstimos que, devo informar, são mínimos perto da dívida real. Seu pai não deve somente ao banco. — Ele retirou de dentro de uns livros alguns papéis de tonalidade amarela. — Ele deve várias letras a outro grande fazendeiro, como sabem, paciência não é uma virtude de Gregório de Azevedo e por isso me admira que ele ainda não tenha executado a ação de pagamento, já que todas essas promissórias estão vencidas e com juros reajustados de anos acumulados! — Papai deve a Gregório? Isso é uma surpresa para mim! — comentou Pedro, um pouco transtornado. — Sim, eu achei essas promissórias no meio de uma caixa de papéis... Parece que seu pai estava tentando enterrá-las no meio de outras contas a serem pagas. — explicou Lisandro, olhando para cada um de nós. — Estas são as segundas vias, as originais com certeza devem estar com Gregório. — Quanto ele deve a este homem? Todos sabem que é um crápula! Se puder sugar até o último centavo das pessoas que lhe devem, ele o faz! — Pedro pareceu agitado, eu somente escutava naquele momento. Minha mente estava dando muitas voltas... Tantas informações para serem absorvidas, mas


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70 o sobrenome Azevedo me era familiar... Eu havia ido embora há muito tempo, mas jamais poderia esquecer a família do noivo que meu pai me arranjou... Na verdade, não poderia me esquecer do noivo... Velhas lembranças vieram à tona e tudo o que eu conseguia focar era o rosto sorridente de Ricardo de Azevedo no dia em que, obrigada, aceitei o seu pedido de casamento. — Azevedo... Não é o pai do meu ex-noivo? — Minha pergunta estava completamente fora de contexto e meus irmãos me olharam espantados. — Sim! Gregório tem dois filhos. O mais velho, Ricardo, era para ser o seu marido — Pedro parecia ter feito uma descoberta extraordinária, mas eu estava nervosa. Pelo que Lisandro nos dizia, papai já devia para aquele homem antes de tratar o casamento. Logo, por que fazia tanta questão em me casar com Ricardo sendo que o pai dele lhe cobrava juros altíssimos? Aquilo soava muito estranho para mim. Não sabia dizer em que sentido, mas soava. Ficamos discutindo a situação da fazenda durante muito tempo. Tanto tempo que eu já estava me sentindo sufocada. Eram muitas informações para um só momento, eu estava ainda bastante cansada, com o braço dolorido da queda do dia anterior e com dificuldade em prestar a atenção devida aos fatos. Tudo o que diziam não soava coerente para mim. Tentavam traçar planos para diminuir os gastos e aumentar a produção de todos os setores da fazenda, mas em minha opinião, dezesseis anos não foram suficientes para que essa mudança acontecesse, logo, um ano também não faria diferença alguma. — Precisamos que consiga um prazo para quitarmos a dívida sem precisarmos vender parte da fazenda. Estou esperançoso de que a safra deste ano será melhor. Usamos sementes de melhor qualidade e investimos muito no cuidado da plantação. Também houve progresso nos outros setores da fazenda... — A animação de Lisandro me deixava perplexa. Ele só podia estar brincando comigo. Não me contive e comecei a expor tudo o que estava segurando até então. — Eu não sei por que querem um prazo! Sério, vocês acham mesmo que vão conseguir pagar essa dívida de anos, assim? Em um piscar de olhos? — Espantei-me com meu jeito de falar, mas era preciso dar a eles um choque de realidade. — Posso conseguir no máximo um ano, mas de que serviria? A fazenda já não é próspera há muito tempo! Não se


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pode mudar essa realidade da noite para o dia. — Estava praticamente gritando, por isso tentei ponderar o tom de voz. — Sem falar que é o seguinte, meus caros, nós podemos conseguir este prazo se negociarmos diretamente com Gregório. Agora, se ele entrar com execução de título extrajudicial, que é o que ele fará, já que tem as promissórias assinadas por nosso pai, ele pode até exigir o pagamento à vista! O máximo que pode acontecer é pedirmos o parcelamento da dívida, mas somente se conseguirmos pagar trinta por cento do valor, aí temos direito de que o restante seja parcelado em seis vezes! — Nós vamos conseguir! — A confiança extrema de Lisandro me fez relaxar a postura. Ele parecia acreditar realmente no que estava dizendo e empenhado em cumprir o que dizia naquele momento. — Apenas nos ajude com essa parte legal e o resto nós faremos. O olhar que ele dirigiu a mim foi severo e ao mesmo tempo carregado de mistério. Senti as pernas trêmulas e borboletas se formarem no estômago. Dei um longo suspiro e disse, tentando soar o mais calma possível. — Farei o possível. — Sem delongas, lancei um olhar para cada um deles e saí do escritório. Não aguentava mais ficar na mesma sala que Lisandro. Ou Pedro. Ou Henrique! Estava me sentindo sufocada diante deles. Sabia que meus irmãos ficariam se questionando sobre minha atitude, mas, naquele momento, não importava. Nada importava. Afinal, as intenções deles também não estavam claras para mim.



Borborema - Primeiros Capítulos