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Índice p. 6

O lugar de Shelley na literatura A autora e o campo literário

p. 8

As obras de Mary Shelley e o Brasil Edições, traduções e presença da autora no Brasil

p. 10

Desvalorização das produções femininas? Como eram vistas as obras produzidas por mulheres no século XIX

P. 12

Entrada da autora no Brasil Mary Shelley e o cinema

p. 13

Recepção crítica Mary Shelley recebeu críticas diversas em sua época e até hoje é objeto de análises

p. 14

Frankenstein: o best- seller A principal obra de Mary Shelley

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Essa revista é um dossiê requisitado pela disciplina TL 256—Tópicos em Pesquisa XLVI: Historiografia Literária III, sob a orientação da professora Márcia Azevedo de Abreu sendo o resultado de pesquisas acerca da autora inglesa Mary Shelley feitas principalmente com fontes primárias e publicações do século XIX. Os textos aqui presentes, assim como as pesquisas realizadas para a elaboração desses, foram produzidos por Letícia Amor Penasso, Luisa Ianhes Moyses e Natália Franzoni de Oliveira, alunas do curso de Letras na UNICAMP—Universidade Estadual de Campinas.

Retrato de Mary Shelley. Créditos: http://meghanmurphy.deviantart.com/art/MaryShelley-215350681

Mary Shelley A vida da mãe de Frankenstein


Retrato de Mary Shelley. CrĂŠditos: http://shelleysghost.bodleian.ox.ac.uk/


Mary Shelley A vida da mãe de Frankenstein

Mary Wollstonecraft Shelley, mais conhecida como Mary Shelley, foi uma reconhecida escritora britânica, filha do filósofo William Godwin e da pedagoga e escritora Mary Wollstonecraft. Nasceu em Londres, no dia 30 de agosto de 1797, falecendo na mesma cidade, em 1 de fevereiro de 1851. Casou-se com o poeta Percy Bysshe Shelley em 1816, depois do suicídio da primeira esposa do escritor. Mary Shelley foi romancista, autora de contos, dramaturga, ensaísta, biógrafa e escritora de literatura de viagens; mais conhecida por seu romance gótico Frankenstein: ou o Prometeu moderno (1818). Também editou e promoveu os trabalhos de seu marido, o poeta romântico e filósofo Percy Bysshe Shelley. A mãe de Mary morreu quando ela tinha apenas 10 dias. Ela e sua meia-irmã, Fanny Imlay, foram criadas por seu pai. Quando Mary tinha quatro anos, William Godwin casou-se com uma vizinha, Mary Jane Clairmont. Godwin deu à sua filha uma rica e informal educação, encorajando-a a aderir às suas teorias políticas liberais. Em 1814, Mary Wollstonecraft Godwin iniciou um relacionamento amoroso com um dos seguidores Retrato de Mary Shelley. Créditos: http://livingdigital.com.br/mary-shelley/

políticos de seu pai, o casado Percy Bysshe

Shelley. Junto com a irmã adotiva de Mary, Claire Clairmont, eles partem para a França e viajam pela Europa; uma vez retornando a Inglaterra, Mary fica grávida de Percy. Durante os próximos dois anos, ela e Percy enfrentam o ostracismo, dívidas e a morte da filha prematura. Mary e Percy se casaram em 1816, ano em que o famoso casal passou o verão com Lord Byron, John William Polidori, e Claire Clairmont próximos de Genebra, Suíça, onde Mary concebe a ideia de seu romance Frankenstein. Os Shelleys deixam a Grã-Bretanha em 1818 e vão para a Itália, onde o segundo e o terceiro filhos morrem antes do nascimento de seu último e único sobrevivente filho, Percy Florence. Em 1822, seu marido afogou -se quando seu barco afundou durante uma tempestade na Baía de La Spezia. Um ano depois, Mary Shelley retornou a Inglaterra, devotando-se, desde então, à educação de seu filho e à carreira como autora profissional. A última década de sua vida foi marcada pela doença, provavelmente causada pelo tumor cerebral que iria matá-la aos 53 anos de idade. Até os anos 70, Mary Shelley era conhecida principalmente por seus esforços em publicar os trabalhos de Percy Shelley e pela novela Frankenstein, que permanece sendo lida mundialmente e tendo inspirado muitas peças de teatro e adaptações para o cinema.

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Percy Shelley Percy Bysshe Shelley (17921822) foi marido de Mary Wollstonecraft Shelley. Entrou para a Universidade de Oxford em 1810, porém foi expulso um ano depois por publicar um folheto entitulado The Necessity of Atheism (A Necessidade do Ateísmo). Mary Shelley foi sua segunda esposa. Percy Shelley foi muito importante para a poesia romântica inglesa e, por isso, o nome de Mary Shelley está sempre associado ao dele, que é inclusive mais citado em histórias literárias do que sua esposa. Ozymandias é um dos poemas mais conhecidos do escritor: Conheci um viajante de antiga terra que disse: – Duas pernas destroncadas, pétreas, estão no deserto. Perto delas, soterra a areia meia face despedaçada, cujo lábio firme e poderio de olhar, frio, diz que seu escultor bem lhe leu as paixões que sobrevivem, nas meras coisas sem vida, à mão que zombou e ao coração que nutriu. E no pedestal tais palavras aparecem: “Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis: Vejam minhas obras, ó fortes – desesperem-se!” Nada resta: junto à ruína decadente e colossal, de ilimitada aridez, areias, lisas e sós, ao longe se estendem.

Estudantes demonstraram mais interesse em sua carreira literária,

particularmente

em

seus romances, que incluem os romances históricos Valperga (1823) e The Fortunes of Perkin Warbeck (1830), o romance apocalíptico

The

Last

Man

(1826), e seus dois últimos romances, Lodore (1835) e Falkner (1837). Estudos de seus últimos trabalhos conhecidos, tais como o livro de viagem Rambles in Germany and Italy

Retrato identificado como Mary Shelley. Atribuído a Richard Rothwell. Créditos: Bodleian Library, University of Oxford.

(1844) e os artigos biográficos de Dionysius Lardner's, Cabinet Cyclopaedia (1829–46) serviram de base e de visualização de que Mary Shelley permaneceu em uma política radical por toda sua vida. O trabalho de Mary Shelley frequentemente discute que a cooperação

e

simpatia,

particularmente

praticada pelas mulheres na família, eram maneiras de caráter mais feminista para tentar-se reformar a sociedade civil. Essa visão foi um desafio direto ao caráter romântico individualista promovido por Percy Bysshe Shelley e as teorias políticas iluministas

articuladas

por

seu

pai.

Aparato contendo mechas de cabelo de alguns amigos de Shelley, como Lord Byron. Créditos: Bodleian Library, University of Oxford.

Shelley e sua escrita Na apresentação da obra Frankenstein, a autora faz a seguinte colocação, logo no início: “os editores demonstraram interesse em que eu lhes fornecesse algum relato sobre a origem da história. Aceitei fazê-lo com maior disposição, pois assim poderei dar uma resposta geral à pergunta que com tanta frequência me fazem — como eu, então uma jovem, fui conceber e me dedicar tão longamente a uma ideia assim hedionda. É verdade que sou bastante avessa a me colocar em primeiro plano no que escrevo, mas como esse relato aparecerá apenas como um apêndice a uma obra anterior e se restringirá a tópicos relacionados somente à autoria, dificilmente poderei ser acusada de uma intromissão pessoal.”

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O lugar de Shelley na literatura A autora e o campo literário Mary Shelley possui grande importância no cenário da literatura inglesa e ocidental. Ao longo de sua carreira, seus trabalhos individuais puderam ser mais bem contextualizados e reconhecidos devido ao fato de ter pertencido à família Godwin e Wollstonecraft. Isto nos demonstra o seu destaque no campo literário inglês, pela relevância de contexto familiar de autores que já possuíam prestígio público, o que interessava ainda mais os leitores a comprarem suas obras. Ademais, quando se menciona Mary Shelley, muitas das vezes pode-se observar seu nome sendo associado ao de seu pai ou ao de seu marido, evidenciando assim, que o reconhecimento desta como grande escritora no início de sua carreira esteve ligado aos nomes masculinos pertencentes a sua família (compreensível visto que na época em que a autora era viva não se valorizava publicações e divulgações de obras redigidas Retrato de Mary Shelley.Créditos: frankensteinia.blogspot.com.br/2010/08/ mary-shelley-portraits.html.

por mulheres). No livro Feminism in Literature: a Gale critical companion, redigiu-se contempla-

ções sobre a vida e as obras de grandes autoras consideradas precursoras do feminismo na literatura. Foram escolhidas escritoras de todo o mundo para revelar sua importância na sociedade e como suas obras a influenciaram, à medida que demonstravam a ação feminista em suas histórias. Podemos evidenciar a presença da escritora inglesa Mary Shelley no livro, com o relato breve sobre sua história de vida, a coleção inteira de suas obras classificadas por gênero e data e a presença de comentários de alguns críticos literários sobre a sua obra principal, Frankenstein, de como esta e outras influenciaram o mundo feminista. Observa-se o quanto a autora foi importante para sua época dentro deste contexto de representação feminista e o quanto sua obra prima, a qual a fez conhecida e lembrada por todo mundo mesmo após sua morte, possui forte influên-

No século XIX… No prefácio da edição de 1818 de Frankenstein (prefácio esse que foi utilizado em diversas outras edições), afirma-se que “o evento no qual esta ficção se baseia foi considerado pelo dr. Darwin e por alguns fisiologistas da Alemanha como não sendo impossível de ocorrer.” Atualmente, a ciência não diria a mesma coisa sobre o feito contado em Frankenstein. É interessante notar como a visão científica da época de publicação do livro vê o acontecimento imaginado por Shelley e como vemos o livro de forma tão diferente hoje.

cia incorporada pela cultura ocidental (literatura, arte, música e mídia). Outrossim, pode-se encontrar o nome da escritora em livros sobre literatura fantástica do século XIX, e ainda em outras línguas (espanhol, francês, português, inglês), ilustrando que Shelley foi uma escritora importante do gênero naquele momento, não só em seu país de origem, como também em outros. Por conseguinte, há também o livro Mary Shelley In Her Times, o qual foi escrito com o intuito de registrar os principais aspectos discutidos em uma conferência internacional que aconteceu em maio de 1997, ano do bicentenário da autora, reunindo estudiosos do mundo todo para que os feitos e legados de Shelley fossem avaliados em sua totalidade.

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Para saber mais sobre Mary Shelley e sua literatura na Internet:

Considerando-se a realização de uma conferência sobre a autora e a publicação de um livro sobre esse evento, percebe-se sua importância no âmbito da litera-

frankensteinia.blogspot.com.br/;

tura de seu tempo e, também, contemporânea.

online-literature.com/shelley_mary/;

O

people.brandeis.edu/~teuber/shelleybio.html;

site

http://people.brandeis.edu/~teuber/

shelleybio.html traz inúmeras informações importantes

http://shelleysghost.bodleian.ox.ac.uk/.

sobre a vida e a obra da autora, no idioma inglês, o que mais uma vez demonstra a importância que a escritora obteve em sua época. No prefácio do livro, encontra-se ainda um trecho no qual os organizadores do livro consideram Shelley como alguém que“(...) estava praticamente apenas no lugar em que deveria estar, realizada através das mudanças nos padrões de sua época.”. (BENNETT & CURRAN, 2000, Pp. x). Os ensaios que compõem esse livro foram escritos por diversos estudiosos para discutir a importância da autora e de suas obras. Juntos eles são a prova de que Shelley era uma importante autora Romântica. Além disso, há inúmeros sites relacionados à Mary Shelley, o que revela a influência e o prestígio que, atualmente, a escritora ainda possui. Há um site, People Brandeis, que a priori revelou características diversas desde sobre sua família, amigos, escolarização e até sobre sua carreira como escritora. Fornece também todos os dados e fatos sobre suas obras publicadas, como gênero e data, e em especial fala sobre a sua principal obra de sucesso, Frankenstein. Reporta sobre a importância da escritora frente ao feminismo e sua repercussão no mundo devido aos livros publicados. Portanto, comprova-se que Mary Shelley possui grande importância, popularidade e reconhecimento dentro do campo literário como escritora associada ao feminismo, bem sucedida entre os gêneros góticos e fantásticos da literatura e que fez, através da publicação da obra Frankenstein, sua

Primeira edição de Frankenstein. Créditos: Bodleian Library, University of Oxford. London: 1818.

principal fonte de memória, de difusão e de repercussão pelo mundo ocidental. A criatura incorporada à cultura popular A Turma da Mônica, conhecida série de história em quadrinhos, já se transformou em desenho animado. Em um dos episódios, O Baile Frank, a personagem monstruosa de Mary Shelley tem grande participação. Depois de tentativas fracassadas de conseguir uma companheira, o monstro sente-se muito mal e, em seguida, encontra Mônica, que também fez tentativas fracassadas de encontrar um par para o baile. Os dois descobrem características em comum, tais como o preconceito por conta da aparência física e acabam indo juntos ao baile. O Baile Frank. Episódio de Turma da Mônica. Disponível em: youtube.com/watch?v=7ixO7zFOJho Viktor Frankenstein também aparece e, como o mostro, tem um sotaque diferenciado dos demais personagens, provavelmente para mostrar que não são da mesma localidade geográfica.

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As obras de Mary Shelley e o Brasil Edições, traduções e presença da autora no Brasil Mary Shelley escreveu inúmeras histórias ao longo de sua vida, sejam elas romances, contos, narrativas de viagens ou literatura infantil. Ademais, após a morte de seu marido, Percy Shelley, a autora ainda se encarregou pela publicação das obras produzidas por ele.

Romances escritos por Mary Shelley Frankenstein (1818): romance gótico. Relata a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório. Valperga (1823): romance histórico. Relata as aventuras de um déspota do século XIV, Castruccio Castracani. The Last Man (1826): ficção científica que trata sobre o fim da humanidade. The Fortunes of Perkin Warbeck (1830): história de um aventureiro na época da Guerra dos Lancaster contra os York, episódio marcante da história da Inglaterra. Lodore (1835): romance autobiográfico; foco em personagens femininas. Falkner (1837): romance autobiográfico; educação feminina é o a aspecto central.

Voltando-se para os romances criados por Shelley, constatou-se que ela possui seis obras pertencentes a esse gênero, sendo elas: Frankenstein or The Mordern Prometheus (1818); Valperga or The Life and Adventures of Castruccio, Prince of Lucca (1823); The Last Man (1826); The Fortunes of Perkin Warbeck (1830); Lodore (1835); e Falkner (1837). Um levantamento realizado a partir de buscas em catálogos de bibliotecas on-line revelou o número de edições em língua original e de traduções dos romances escritos por Shelley. Dessa maneira, foi possível fazer um levantamento de dados e organizá-los em gráficos, para que melhor se compreenda os resultados obtidos a partir dessa pesquisa. Constata-se, por meio do gráfico I, que Frankenstein foi o romance de maior sucesso de Mary Shelley, visto que o número de edições em língua inglesa dessa obra é muito maior do que das outras. Frankenstein é, portanto, o best-seller da autora.

Gráfico I.

Observando-se, agora, o gráfico II, que apresenta a quantidade de edições da obra por ano, com foco no período de 1818 (lançamento do romance) a 1914, nota-se que os picos do gráfico relacionam-se aos anos em que novas edições são publicadas. A parte final deste gráfico demonstra que o número de edições de Franken-

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stein tem crescido atualmente, o que pode ser consequência de uma maior popularidade. Uma segunda pesquisa, com foco nas traduções das obras de Mary Shelley e centrada no século XIX, apresenta que apenas os romances Frankenstein e Lodore foram traduzidos nessa época – as línguas consideradas nessa pesquisa foram o francês e o português. Contudo, como é possível perceber pela análise do gráfico III, não foram encontradas Gráfico II.

traduções dos romances de Shelley para o português dentro do período considerado; nem

mesmo para a obra de maior sucesso, Frankenstein, como se vê no gráfico IV. Todavia, a obra foi traduzida De acordo com pesquisas realizadas em revistas e periódicos da época, nada que revelasse a entrada de

Gráfico III.

para o alemão.

Mary Shelley e suas publicações no Brasil pôde ser encontrado, evidenciando que, provavelmente, Mary não tinha grande popularidade entre os brasileiros durante o período. A primeira citação sobre a autora em periódicos brasileiros aconteceu em 1928, na qual Shelley apareceu associada à Lord Byron e ao Byronismo. O periódico em questão era o Correio da Manhã. Segundo o site Caminhos do romance, foi encontrada uma edição da obra Frankenstein no Brasil ainda no século XIX; contudo era traduzida para o francês, o que limitava o número de leitores. Somente em 1943 é que aparecem anúncios nos jornais brasileiros sobre a venda do livro Frankenstein traduzido para o português. O periódico pioneiro na anunciação da obra de Mary Shelley foi A Manhã, do Rio de Janeiro. De acordo com o anúncio, o livro foi editado pela Editora Vecchi (RJ) e traduzido por Stella Martins Paredes. É possível dizer, portanto, que no período de 1818 a 1914, Shelley obteve grande popularidade na Inglaterra, ao passo que, no Brasil, isso não ocorreu.

Gráfco IV.

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Realizando uma simples comparação, é possível constatar que, mesmo Jane Austen, que obteve um número

maior

de

edições

e

traduções de seus romances do que Mary Shelley, só chegou ao Brasil em 1940. Enquanto isso, Walter Scott teve suas obras anunciadas aqui já no ano de 1826. Embora não se tenha nenhum quietação, não

podemos

deixar de questionar se esse fato não é consequência da

desvalorização sofrida pelas mulheres no século XIX, o que pode ter prejudicado a difusão de seus romances. Você sabia? Você sabia que uma das edições de Frankenstein foi publicada em inglês, mas impressa em Paris? O fato de o local de edição ser diferente da língua de publicação indica o quanto a cultura estava globalizada desde o século XIX. Outra curiosidade é que não foram encontrados indícios de que os romances de Mary Shelley tenham sido publicados em folhetim, mesmo este sendo bastante comum em sua

Anúncio de jornal. A manhã. 5 de dezembro de 1943. Rio de Janeiro.

estudo que comprove tal inde 1925.

Recorte de jornal. Byron e o Byronismo. Correio da Manhã. 12 de junho

Desvalorização das produções femininas?

Para saber mais sobre o gênero romântico no Brasil caminhosdoromance.iel.unicamp.br/ unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/ Sandra/sandralev.htm

época.

Recorte de jornal. Byron e o Byronismo. Correio da Manhã. 12 de junho de 1925.

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Cuidado: sou destemido, e porém poderoso. Frase de Shelley. Disponível em: http:// bookriot.com/2012/08/30/happy-215th -birthday-mary-shelley/


Entrada da autora no Brasil Mary Shelley e o cinema Foi apenas em 1928, no jornal Correio da Manhã, que o nome de Mary Shelley fora mencionada pela primeira vez no Brasil, porém estava associado ao Lord Byron e o Byronismo, que além de um amigo muito próximo, a teria influenciado a escrever seu principal romance. Em 1932, quando se anunciou o lançamen-

Cartaz de divulgação do filme Frankenstein, a ser lançado em 2014. Créditos: http://teaser-trailer.com/movie/i-frankenstein/

to no Brasil do filme Frankenstein (após um ano de ter sido lançado nos Estados Unidos), feito pelo estúdio da Universal, que Mary Shelley passou a ser mais conhecida em nosso país, nos revelando que a entrada e o reconhecimento da autora como grande escritora veio a ser por meio do cinema no Brasil. Onze anos depois, é que aparecem anúncios nos jornais sobre a venda da obra Frankenstein no Brasil, já traduzida para o português. O filme de 1931 não foi o primeiro a retratar o mais famoso romance de Mary Shelley. Em 1910, quase cem anos após a publicação de Frankenstein, foi lançado o primeiro filme baseado na obra; no entanto, a versão de 1931 obteve mais sucesso. O filme de 1910 está em domíCena do filme Frankenstein, de 1910. Créditos: archive.org/details/FrankensteinfullMovie

nio público e é possível assisti-lo em versão original no site archive.org/

details/FrankensteinfullMovie, onde, apesar de ser um filme mudo, conta com escritos narrativos em inglês. Entre 1818 e 1943, nenhuma obra da autora havia sido traduzida para o português. A obra Frankenstein teria chego ao Brasil no século XIX traduzida apenas para o francês, ou seja, apenas um certo público mais restrito tinha acesso à sua leitura, já que não havia traduções para o português.

Curiosidade Você sabia que existem mais de 15 versões de Frankenstein diferentes adaptadas para o cinema? A sua primeira versão surgiu na era do cinema mudo, como Frankenstein em 1910, pelo diretor Searle Dawley. E uma nova versão será lançada em Janeiro de 2014 nos cinemas. Acesse o site e o confira o trailer: www.cineplayers.com/noticia.php?id=10473. Cena do filme Frankenstein, de 1931. Créditos: http://www.youtube.com/watch?v=p5HCmdRjvc

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Recepção crítica Mary Shelley recebeu críticas diversas em sua época e até hoje é objeto de análises críticas A crítica contemporânea à autora A maior parte das críticas que podem ser encontradas sobre Shelley está relacionada ao seu romance de

As principais críticas foram publicadas em revistas inglesas, como, por exemplo, a Quarterly Review, a Edinburgh Magazine e a The Gentleman’s Magazine. Pesquisas sugerem que no primeiro ano de publicação do livro Frankenstein, 1818, ao menos oito críticas foram publicadas, algumas favoráveis e outras extremamente críticas. SchoeneHarood, no livro em que escreveu sobre as críticas recebidas pelo bestseller de Mary Shelley, relata a existência de dois grupos: um que expressava sua indignação moral e, também, sua reprovação, e outro que, cautelosamente, expressava sua intriga, fascínio e respeito. Os críticos

Retrato de Godwin. Crédito: Bodleian Library, University of Oxford.

maior sucesso, Frankenstein.

que se encaixam no primeiro grupo associaram o romance a Godwin, pai de Shelley, e às correntes seguidas por ele, o utilitarismo e o anarquismo. Godwin é considerado o primeiro escritor de romances de mistério e, por esse motivo, as ficções góticas estão sempre associadas ao estilo godwiniano. Dessa maneira, Frankenstein foi avaliado pela crítica como um romance gótico e obscuro. Além do estilo godwiniano e, consequentemente, do fato de pertencer ao gênero gótico, esse grupo de críticos preocupava -se com a falta de moral cristã do livro, o que seria um perigo para os leitores dessa obra. Essa postura adotada pela grande maioria dos críticos é resumida em um trecho do livro Mary Shelley: Frankenstein, de Essaka Joshua: “A maior parte das críticas é centrada em algumas ideias: o problema de se o romance pertence ao gênero gótico, a identificação das origens do romance, a medida que a vida da autora tenha informado seu romance, e o efeito da história de Frankenstein em seu público”. Um dos críticos pertencentes a esse primeiro grupo é Wilson Crocker, o qual considerou o romance dotado de características absurdas e carregado de perigos políticos à sociedade, já que segue a corrente Godwiniana. Crocker, porém, ressalta que a autora tem bons poderes de concepção e de linguagem. Em relação ao segundo grupo de críticos, aqueles que demonstram fascínio e respeito pela obra, têm-se algumas publicações feitas pela revista The Edinburg Magazine; contudo, eles não deixam de destacar que Mary Shelley precisa, ainda, melhorar seu estilo. Todavia, o melhor exemplo de crítica favorável ao romance é feita pelo marido de Mary, o escritor Percy Shelley. Essa crítica foi escrita antes mesmo da publicação do romance, embora só tenha sido divulgada em 1831. Nela, Shelley destaca as lições morais que podem ser encontradas no livro e é bastante positivo com relação à obra, afirmando que a história de Frankenstein é uma das produções

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mais originais e completas da época. Em relação à moral do romance, tão criticada na época, ele afirma que o enredo nada mais é do que um espelho da sociedade, primeiramente, por o tema da história, ou seja, a origem da vida, ser bastante interrogado por muitas pessoas naquele período e, por último, pelo fato de a criatura criada por Victor Frankenstein apresentar muitas virtudes antes de ser mal tratada pela humanidade e ter se transformado em um monstro cheio de vícios e praticante do mal. A crítica feita por Shelley pode ser questionada se considerarmos o fato de ele ser marido de Mary, já que era bastante comum, no século XIX, que a amizade ou a familiaridade de um crítico com um escritor influenciasse a opinião do primeiro sobre a obra do segundo. É interessante ressaltar que, em 1837, após a publicação de seu último romance, Falkner, surgem algumas críticas que comparam essa obra com Frankenstein. Na seção Miscellaneous Notices, da revista Quarterly review, é feita uma crítica à Falkner dizendo que o livro não pode ser altamente recomendado e que somente pode ser elogiado se comparado ao primeiro romance de Shelley. Destaca-se que as obras da autora são bastante interesRevista Monthly Review – 1837 Disponível em: http://books.google.com.br/ books?id=A0kDAAAAYAAJ&redir_esc=y

santes e apresentam passagens de força e beleza; contudo, considera-se a moral de suas histórias não saudável, além de seu sentimentalismo ser falso e

muito exagerado. Em relação à Falkner, diz-se que o herói do livro não é considerado um personagem natural e o fato de a solução dos casos ser sempre adiada é tentado pela sua ofensa que a moral e a justiça jamais aprovariam. Mesmo assim, consideram a obra altamente melhor do que Frankenstein, avaliando esta última como “uma das produções mais repugnantes da língua” (Quarterly review, 1837, vol. 21, Pp. 519). Chama atenção o fato da segunda edição do livro Frankenstein ter introdução e um prefácio escritos por Mary Shelley, embora ela afirme que seu marido a ajudou a escrever o segundo, onde ela justifica a invenção da história e fala sobre o romance. É válido observar parte do que ela escreve no prefácio: “Não sou de modo algum indiferente à maneira como as tendências morais existentes nos sentimentos ou nos caracteres afetem o leitor; a minha principal preocupação quanto a isso, porém, limitou-se a evitar os efeitos deprimentes dos romances atuais e à exibição da amabilidade do afeto doméstico e da excelência da virtude universal”. Percebe-se que a autora é consciente dos critérios críticos a ela contemporâneos, já que destaca a preocupação com a moral, visto que os detratores dos romances alegavam que a moral do livro influenciava as ações do leitor. Na introdução do livro, Mary Shelley justifica as alterações que fez nessa edição em relação à primeira: “(...) as alterações que fiz dizem respeito, sobretudo, ao estilo. (...) Corrigi a linguagem onde era tão insípida (ausente de atrativos) que prejudicava o interesse da narrativa.” Supõe-se, assim, que ao preocupar-se com o estilo e linguagem utilizada, Mary Shelley estaria atenta aos critérios críticos da época. Apesar do número de críticas desfavoráveis às obras de Shelley ser grande, é preciso relevar o fato de

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que escrever romances no início do século XIX, quando o gênero estava surgindo, era algo desvalorizado pela crítica. Ademais, as mulheres eram consideradas inferiores, não tendo muita voz perante a sociedade, o que piora a situação de Shelley enquanto es- Ficou interessado? Saiba mais sobre o assunto... critora de romances. * ALLEN, Graham. Shelley’ s Frankenstein. London: Continuum International Publishing Group, 2008. Crítica atual * JOSHUA, Essaka. Mary Shelley: Frankenstein. Literature Insights, 2008. Em contrapartida, a partir MOERS, Ellen. Female Gothic: The Monster’s Mother. New York Review of de meados do século XX, Mary Books 21 (March 1974): 24-8. Shelley passa a ser mais bem * Unsigned Review. In: Monthly Review. 1837, volume editor: Janyce Maravaliada pela crítica, o que pode son, edited and with an introduction by Harold Bloom. ser consequência do surgimento da corrente feminista, que passa a valorizar o trabalho e o papel das mulheres na sociedade, dentre eles, o das escritoras. Não é à toa que na maioria dos livros, sites e teses, o nome de Shelley normalmente aparece associado ao feminismo, como é o caso da obra Feminism in literature: a Gale critical companion, no qual é contemplada a vida e a obra de grandes autoras consideradas precursoras do feminismo na literatura. Soma-se a isso a ocorrência de valorização da inovação temática e estilística, o que contribuiu para que Frankenstein passasse a ser valorizado como obra criativa e inovadora. Além disso, não mais se preocupa exageradamente com a moral do romance; embora, as críticas contemporâneas considerem mais os ensinamentos do livro, como os citados por Percy Shelley já naquela época. Não surpreende, portanto, que o livro Female

Capa do livro Feminism in Literature: a Gale Critical Companion. Volume 6. Disponível em: marist.net/acad_arcBOOKS.php

Gothic: The Monster’s Mother, de Ellen Moers, é o mais presente na bibliografia dos artigos, livros e teses que tratam sobre Shelley, já que nele se diz que Frankenstein tornou-se modelo para o feminismo gótico. Não se pode deixar de dizer que, ao ser levada ao cinema, a história ganhou maior vivacidade, o que impulsionou sua popularidade e, consequentemente, sua venda. Hoje, vender bem não significa, necessariamente, que o livro é ruim como se considerava no século XIX. Todavia, é ilusão acreditar que as críticas negativas sobre Shelley desapareceram. Em 2001, DE LA ROCQUE & TEIXEIRA, na tese intitulada Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker: genêro e ciência na literatura, realiza uma análise comparativa entre as obras Frankenstein e Drácula, privilegiando questões relativas à visão de ciência e sua relação com o gênero. Enquanto Shelley, como mulher que se encontra afastada do mundo científico, descortina em Frankenstein toda sua desconfiança em relação ao mesmo; Stoker, protótipo do homem vitoriano, imprime em Drácula sua sólida confiança na ciência. Pode-se dizer que Mary Shelley esteve sempre “na boca” da crítica, positiva ou negativamente, e que Frankenstein tornou-se seu romance mais conhecido e famoso.

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Frankenstein: o best-seller Criação da história Na introdução da segunda edição do livro, escrita por Mary Shelley, a autora conta como criou a história de seu maior sucesso, Frankenstein. Segundo ela, no verão de 1816, ela e seu marido, Percy Shelley, viajaram para a Suíça, onde foram vizinhos de Lord Byron. Durante os dias chuvosos, em que eram obrigados a ficar dentro de Figura do local onde Shelley criou a história de Frankenstein. Disponível em: shelleysghost.bodleian.ox.ac.uk/timeline

casa, eles liam histórias alemãs sobre fantasmas, até que Byron

propôs que cada um deles criasse uma história a respeito desse assunto. Percy e Byron iniciaram rapidamente suas narrativas, contudo acabaram abandonando-as. Mary Shelley, por sua vez, não conseguia criar nada de muito assustador e fantasmagórico, até que, durante uma noite, sua imaginação aflorou e ela começou a escrever o enredo que resultaria em seu maior sucesso.

Manuscrito de Frankenstein. Crédito: Bodleian Library, University of Oxford

O enredo A história começa com uma sequência de quatro cartas escritas por Robert Walton e destinadas a Sra. Saville, sua irmã. Walton era um navegante que estava explorando o Ártico e que registrou, em forma de cartas, todos os perigos sofridos durante sua viagem, quando seu navio ficou preso no gelo. Foi nesse período que, durante uma noite, ele e os marinheiros viram um homem gigantesco e muito estranho e, no dia seguinte, resgataram outro homem, Victor Frankenstein. Este, por sua vez, estava muito fraco e agoniado e, então, resolveu contar sua história para Walton, o qual a registrou para enviar à sua irmã. A partir do capítulo 1, então, é Victor Frankenstein o

Cartaz de divulgação do filme Frankenstein, de 1931. Disponível em: doctormacro.com/Images/Posters/F/ Poster%20-%20Frankenstein_02.jpg

narrador da história. Ele nasceu em Genebra, na Suíça, onde cresceu com seus pais, seus dois irmãos e uma irmã adotada, a que chamava de prima. Sua mãe morreu um pouco antes de sua ida para a Universidade na Alemanha. Lá, ele se dedicou ao estudo das ciências naturais, já que se interessava por essa área desde criança. Foi assim que ele descobriu como gerar vida a partir da matéria inanimada, criando então uma criatura horrível. No dia em que Victor encerra seu trabalho, dando vida à criatura, ele percebe quão horrível é o monstro e foge de seu laboratório. Quando retorna, no dia seguinte, o monstro não es-

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tava mais lá, havia fugido. Victor fica aliviado e atordoado ao mesmo tempo, caindo em profunda doença. Porém, seu único amigo, Henry Clerval chega à Alemanha e passa a cuidar de Frankenstein até que ele melhore, sem saber qual era o real motivo de sua moléstia. Cerca de dois anos depois, Victor Frankenstein descobre que seu irmão William foi assassinado e que a criada da família foi responsabilizada pelo crime, sendo, assim, condenada à morte. Contudo, ao voltar para Genebra descobre que o monstro criado por ele era o verdadeiro assassino de seu irmão. Transtornado pela culpa, Frankenstein se isola nos Alpes, já que não podia contar sua história a ninguém, visto que não acreditariam nele. Lá, ele se reencontra com o monstro, o qual conta sua história desde o dia em que fora abandonado no laboratório. O monstro diz que era um ser virtuoso, maravilhado com as belezas naturais do mundo e com a vida. Contudo, os homens sempre o desprezaram e fugiram dele, o que o magoou completamente. Todas as vezes que ele tentou estabelecer contato com os humanos e até ajudá-los, ele foi xingado e maltratado. Dessa maneira, percebeu que seu destino era ser infeliz e solitário. Por esse motivo, tornou-se mal e passou a praticálo contra a humanidade e, principalmente, contra seu criador. Em troca de parar de perseguir os homens e deixar a Europa, isolando-se na América do Sul, ele exigia que Frankenstein criasse uma companheira para ele. Depois de muito refletir, Frankenstein aceitou a proposta. Ao voltar para casa, seu pai passa a pressionar o casamento de Victor com Elizabeth, sua irmã adotada. Ele, porém, resolve viajar para a Escócia e cumprir sua promessa para com o monstro antes de se casar. Quando inicia seu trabalho, em uma aldeia isolada, Frankenstein reflete sobre o que está fazendo e supõe que o monstro e sua companheira podem tornar-se ainda piores para a humanidade, povoando a terra de demônios. Em um momento de desespero, ele destrói o que estava criando. Nesse momento, o monstro, que estava sempre o vigiando de longe, aparece e jura vingança eterna a Frankenstein – “Estarei contigo no dia de suas núpcias.”. A partir daí, o monstro mata Clerval, o amigo de Frankenstein e, também, Elizabeth, no dia em que ela e Victor se casam. O pai de Victor adoece e morre devido a tantas tragédias. Frankenstein, então, jura vingança ao monstro e passa a persegui-lo, até ser encontrado por Walton.

Explorando a obra Para conhecer melhor o romance de

Após contar toda sua história para o navegante, maior sucesso de Mary Shelley, leia qualquer Frankenstein morre. Algumas horas depois, o monstro uma das edições integrais traduzidas para o Poraparece na cabine do navio e chora sobre o corpo; confessa tuguês e embarque nessa história de ação e sussua culpa e suas angústias para Walton e depois foge pela pense. janela, em uma jangada, sumindo na escuridão da noite.

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Porque a obra fez sucesso

Uma enciclopédia sobre Mary Shelley Bastante elucidador, A Mary Shelley Encyclopedia é um guia para a vida e a obra de Mary Shelley. O livro contém centenas de verbetes em ordem alfabética que tratam dos trabalhos, amigos, parentes, personagens fictícios criados por ela e outros enunciados que tenham alguma relação com sua vida ou obra. Há, por exemplo, um verbete intitulado “Shakespeare”, no qual se esclarece que esse é o autor favorito de Shelley, que às vezes ela o ortografava como “Shakspeare” e muitos outros fatos. Há também as fontes de informação para cada verbete, sendo que muito frequentemente as informações provêm dos diários de Shelley. Uma obra como esta evidencia o crédito da autora na literatura inglesa. O livro seria de muita utilidade para grandes fãs da escritora, já que esclarece sua vida e obra também.

Provavelmente, Frankenstein tornou-se um sucesso por ser uma história que apresenta bastante ação e suspense em seu enredo, despertando a curiosidade dos leitores, desde o século XIX, quando esses já eram alguns dos critérios de avaliação do público. Além disso, a linguagem do livro não é difícil, da mesma maneira que não é dotada de extensas descrições ou di-

gressões, favorecendo a leitura de um público amplo. Um último aspecto que possivelmente também foi responsável pelo sucesso da obra é o fato de o tema da história ser atraente, já que se trata da criação, por um homem, de um monstro. Como os críticos receberam Frankenstein A obra não foi muito bem avaliada pela crítica da época. Primeiramente, deve-se considerar que o romance era um gênero novo na época em que o livro foi publicado e, por isso, suas características não eram muito bem vistas pelos críticos do momento. Além disso, Frankenstein foi escrito por uma mulher, o que prejudica ainda mais sua avaliação, já que, na época, um livro ser escrito por uma mulher era um critério avaliativo externo negativo, pois a mulher não tinha espaço na sociedade e era considerada inferior. Havia, também, nessa época, uma preocupação com a moral transmitida pelos livros, já que se considerava que o livro influenciava as ações das pessoas. Dessa maneira, um livro que aborda o descobrimento da origem da vida, no qual um homem pode criar uma criatura, vai completamente contra a moral cristã da época. Contudo, quando Victor Frankenstein decide contar sua história a Walton, ele diz que não revelará o segredo que descobriu sobre a origem da vida, para que o amigo não caia nas mesmas desgraças que ele. Ademais, ele diz: “(...) imagino que possa deduzir da minha história uma moral adequada, que possa orientá-lo se for bemsucedido no seu empreendimento e consolá-lo em caso de fracasso.” Percebe-se, nesse trecho, que há, na obra, uma experiência vicária, ou seja, uma identificação, através do outro, de quais são as atitudes recompensadas ou punidas dependendo de suas escolhas. Outro aspecto que pode ter influenciado negativamente a crítica desse romance é o fato de o livro possuir uma linguagem simples, o que atrai muitos leitores, uma vez que tudo aquilo que era lido por muitos, era ridicularizado pela crítica. O público, por sua vez, deve ter concebido uma crítica favorável à obra, já que uma narrativa com suspense e ação, e com um tema interessante e inovador, despertava o interesse e o gosto dos leitores.

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Você sabia...? Você sabia que a primeira edição de Frankenstein foi publicada anonimamente? Pois é, Mary Shelley não se identificou como a autora do romance em 1818. Somente na segunda edição, em 1823, é que ela assina a obra. Provavelmente, isso ocorreu por ser desvalorizado escrever romances naquela época, ainda mais uma mulher. Outra curiosidade acerca da obra é que Frankenstein não é o nome do monstro, mas sim o sobrenome de seu criador, Victor Frankenstein. Na história original, Mary Shelley refere-se ao monstro como “criatura”, “monstro”, “demônio”, “desgraçado”. Acredita-se que foi após o lançamento, em 1931, pela Universal Pictures, de uma das adaptações mais famosas dessa obra para o cinema que o público passou a chamar a criatura por Frankenstein. Na maioria dos filmes atuais, histórias em quadrinhos e ilustrações em geral, o monstro aparece com a pele verde. Contudo, originalmente, no capítulo cinco do livro, Mary Shelley o descreve com pele amarelada – “Sua pele amarelada mal cobria o entrelaçamento dos músculos e das artérias; (...)”.

Imagem do monstro de Mary Shelley. Créditos: nippertown.com/2012/10/30/spend-halloween-with-frankenstein-at-shakespeare-co-oct-31-berkshire-on-stage/

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Mary Shelley: um dossiê