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Sobre a exposição Obras Selecionadas, de Daniel Malhão A exposição de fotografias de Daniel Malhão não se revela em uma primeira visita. Talvez nem mesmo numa segunda vez, ainda que mais atenta e mais informada. Apenas numa terceira ou quarta tentativa algo se revela. A sensação que a exposição traz é, inicialmente incômoda: sentimonos deslocados, como se não tivessemos aprendido os códigos necessários para entender aquilo, como as imagens estivessem a zombar quem as observa. Estamos vendo as fotografias, mas as percebemos apenas parcialmente. Existem ali segredos ocultos. Algumas imagens são aparentemente banais demais para estarem em uma exposição, outras mostram mais claramente sua veia conceitual, outras ainda são interessantes mas parecem deslocadas num sentido mais geral. É possível encontrar vestígios que indicam que todas foram feitas pelo mesmo fotógrafo, pois a peculiaridade do seu olhar é algo que cria unidade entre as obras, mas a escolha das fotografias expostas e a disposição destas na galeria poderia ser repensada, buscando potencializar possíveis leituras. Vemos na maioria das obras uma subjetividade instigante, uma banalidade sensível, um olhar apurado tanto para as formas naturais quanto para as geométricas. Elas nos causam uma sensação de incômodo, mas no sentido positivo do termo – de fazer com que o observador queira investigar, entender, procurar o que está faltando. Essas fotografias não são óbvias mas também não são indecifráveis; e essa é uma zona difícil de ser alcançada, principalmente pela fotografia. Merecem particular atenção Lambda Printer HS 131 e a série Lambda Printer front panels – imagens que retratam a máquina impressora dessas próprias fotografias, criando assim um jogo entre o conteúdo imagético e o processo fotográfico. Outra relação interessante é criada na obra Centro de Artes Visuais, Pátio da Inquisição, onde vemos o retrato de uma parede vazia mas que é o lugar onde essa própria fotografia está pendurada agora. Esses trabalhos tem uma proposta conceitual que propõe ao observador uma relação que vai além do mero olhar. Obras como Campo de Jogos ou Posto de Abastecimento são exemplos de imagens que mostram muito visualmente mas, à primeira vista, pouco nos dizem. Ambos os casos apresentam locais aparentemente desinteressantes mas fotografados com meticulosidade milimétrica, enchendo de sentido simbólico lugares até então vazios de importância. Talvez seja esse um dos grandes trunfos de Malhão: através de uma técnica fotográfica impecável, ele consegue transformar praticamente qualquer paisagem - natural ou artificial – em uma imagem que é uma obra de arte. O título da exposição nos diz que não existe nenhum eixo temático ou narrativo que permeia as obras ali presentes. Agumas imagens fazem partes de séries, como a já citada Lambda Printer front panels e Unfinished Projects, enquanto outras funcionam de maneira independente. É possível ver no contexto geral algumas aproximações, porém a seleção e a montagem das obras abre brecha


para uma sensação de incômodo - só que dessa vez no sentido negativo do termo. Imagens que dialogam estão distantes enquanto outras que estão dispostas próximas aparentemente não se relacionam, uma ou outra fotografia parecem estar deslocadas do restante da mostra... Sentimos falta de um critério de escolha e de um pensamento que potencialize aquelas imagens aparentemente dispersas. Conforme vamos conhecendo o restante da produção de Malhão, seja através de outras exposições, catálogos ou até mesmo pela internet, suas fotografias se apresentam cada vez mais interessantes e constroem ainda mais sentido - infelizmente, na mesma medida, a curadoria da exposição nos parece ser ainda mais deficitária.

Sobre a exposição de Daniel Malhão  

Pequena crítica sobre a exposição do artista Daniel Malhão do Centro de Artes Visuais de Coimbra. Dezembor de 2012.

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