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Copyright © 2018 Tatiane Souza Direitos autorais do texto original ‘’Por trás das Câmeras ‘’ Fundação Biblioteca Nacional

Todos os direitos reservados ao autor. Está é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos é mera coincidência. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são frutos da imaginação da autora.

Capa: Bárbara Dameto Betagem: Mari Sales, Ana Caroline Oro, Meirlyane Peters e Andrea Parker. Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização por escrito do autor.

Souza, Tatiane. Por trás das Câmeras/Tatiane Souza — São José do Rio Pardo, SP; Tatiane Souza, 2018 1ª Edição, janeiro/2018 371 páginas. 1. 2.

Literatura Nacional Romance


Kayla Mendes apresenta um programa de televisão onde ensina as mulheres a como ser uma boa mãe, esposa e dona de casa, suas ambições nunca foram grandes, mas, em compensação, costuma levar uma vida diferente por trás das câmeras. Não sabe cozinhar, é desorganizada e está sendo ameaçada por cartas anônimas. Agora, depois das inúmeras ameaças que vem recebendo desse malfeitor anônimo ela foi obrigada a contratar um detetive para ajudá-la a decifrar a identidade de seu perseguidor. O detetive Nícolas Almeida está encarregado dessa missão, porém, sentimentos confusos e desejos fúteis começam a assombrá-lo fazendo com que esse caso seja o mais difícil que já existiu. Kayla o perturba e o excita como nenhuma outra mulher fora capaz de fazer e agora, o certo e o errado caminham lado a lado e todo o seu mundo fica de quatro por essa mulher encantadora e cheia de surpresas.


Querido leitor, Em primeiro lugar, gostaria de agradecer por ter dado uma oportunidade de conhecer a história de Kayla e Nicolas, tenha a certeza de que eles serão imensamente gratos por isso. Agora também queria citar alguns pontos que você deve saber antes de mergulhar nessa história cheia de aventuras e provocações. Em Por Trás das Câmeras não é citado uma cidade específica para que se passe a história e isso foi de propósito. Deixe a sua imaginação livre para encontrar o lugar ideal para ela, nenhum lugar “real” é citado no livro, ou pelo menos essa era a minha intenção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. >> O intuito do livro é mostrar que nem todos são como aparentam ser. Às vezes, elas se escondem em suas próprias mentiras, em suas invenções ou em seus medos. >> todos temos duas faces, não existe um ser humano perfeito, não existem pessoas capazes de serem elas mesmas, mesmo quando tentam. >> nem sempre ter duas faces significa algo ruim, às vezes é somente a forma que a pessoa encontrou para conseguir lidar com sua própria realidade.


>> não exija de você mais do que possa oferecer. Brilhe mais, ame a si próprio mais, viva mais. >> a opinião dos outros nunca irá passar disso, apenas opiniões. Ninguém conhece você, mais do que você mesmo. Tenham uma boa leitura! Com carinho, Tatiane Souza.


Para garotas com cabelos Bagunçados, corações Sedentos e desejos Insaciáveis.


Capítulo 1

Faltava pouco para o programa acabar e eu me perguntava como poderia existir uma mulher tão doce e meiga quanto àquela apresentadora. Sua voz dançava pelo estúdio e parecia compor alguma espécie de música que me enfeitiçava. Seus lábios se curvaram deixando um reprimido e vergonhoso sorriso aparecer, eu não conseguia entender como alguém como ela, com toda a sua fama e fãs poderia estar, de alguma forma, constrangida com a aproximação repentina de uma convidada da plateia. Por algum motivo ela parecia desesperadamente querer que tudo aquilo chegasse ao fim, tinha uma postura rígida que a fazia ficar tensa por alguns minutos, mas talvez apenas eu tenha reparado. Claro que observei, meus olhos pareciam ter ganhado vida própria enquanto admiravam aquele corpo escondido por um short jeans preto desfiado, de cumprimento até as coxas e um belo blazer azul turquesa. Eu poderia afirmar que por baixo também havia uma camisa social de manga, mas guardei esses pensamentos para mim. Kayla ensinava as mulheres de casa a tirar manchas de tomate do uniforme escolar de seus filhos, a convidada da plateia estava ao seu lado para certificar de que tudo o que ela falava era verdadeiro e Kayla continuava tensa em sua presença. Talvez eu tenha me enganado ao imaginar que todas as pessoas que lidam com holofotes tenham uma certa confiança em si mesmo, porque ali, a apresentadora demonstrava exatamente o contrário. Mas, essa mulher era muito profissional e fazia um certo tesão nascer a cada vez que ela colocava aquele sorriso no rosto e olhava em minha direção fingindo não me ver, ou realmente não me via.


A cada gesto daquela jovem eu sentia minha pulsação acelerar, meu peito tremia ao ouvir sua voz doce, feminina e sexy vir de encontro aos meus ouvidos. Ainda que houvesse um certo desconforto ali, ela mantinha o olhar firme na câmera e um sorriso amigável no rosto. Eu não sabia o motivo de sua tensão, mas ela era absurdamente profissional e não deixava essa emoção transparecer, mas isso estava óbvio que não havia funcionado comigo. Sempre fui muito observador, meu trabalho sempre exigiu isso de mim, mas posso afirmar com todas as palavras que, todo esse profissionalismo que ela esbanjava, me intrigava e encantava. — Quero agradecer mais uma vez a todos vocês pela atenção, tenham uma ótima tarde e até amanhã! Quando enfim a campainha tocou anunciando o término de mais um programa, Kayla checou as horas no relógio em seu pulso e um sussurro quase inaudível saiu por entre seus lábios. De onde eu estava não teria como ouvi-la, mas sempre fui um bom leitor labial. Tirou o pequeno microfone que estava posto na gola de seu blazer e o entregou para uma mulher loira e baixa, na qual supus ser sua assistente de palco. Seu salto sobressaiu pelo estúdio, fazendo um toc toc ronronar pelo assoalho elegante, atraindo não só minha atenção, como de todos por onde passava. — Droga! Estou atrasada. A ouvi dizer enquanto acenava para alguns colegas de trabalho e sair correndo da sala de gravações. Arqueei a sobrancelha ao notar a sua pressa em querer sair do estúdio, sabia quem era o motivo de seu desespero, mas Kayla nunca havia visto minha faceta em canto nenhum ou assim eu suspeitava. Então, quando vi seus saltos elegantes passar um na frente do outro, quase trançando uma espécie de linha cruzada, eu sabia exatamente onde ela iria parar. — Olha os fios! — Exclamei quando ela vinha passando por mim distraída, era evidente que sua desatenção acabaria lhe causando uma dor no traseiro. Um belo traseiro devo acrescentar. — Quer uma ajuda? Me ofereci de bom agrado, na verdade, estava louco para que, de alguma forma, minhas mãos tocassem em qualquer parte de seu corpo. Engoli em seco, era absurdo demais estar reagindo dessa


forma com essa jovem, mas, Kayla estava despertando em mim sentimentos que há muito estavam adormecidos e eu não estava achando isso ruim, só estava... um pouco surpreso. — Não, obrigada! — Levantou batendo as mãos em sua bunda e começou a se afastar. Não posso negar que sua postura me deixou perplexo, esperava por um pouco mais de humildade. Kayla esbanjava um “quê” de poder, de elegância e virtude. — Srta. Mendes, espere por favor, sou o detetive Nic do departamento particular de crimes anônimos, contratado para cuidar do seu caso. Acredito que esteja à minha espera. Percebi ela arregalou os olhos surpresa com minha informação, ela não sabia, mas por um momento aqueles olhos me desarmaram por inteiro. Antes de chegar até o estúdio eu esperava encontrar uma apresentadora de tevê menos moderna, usando uma saia lápis na cor preto, um salto baixo de bico e um penteado clássico que demonstrava uma mulher recatada e do lar. Para ser um pouco mais específico, esperava por uma mulher com mais de quarenta anos. Então, surpreso estava eu quando me deparei com aquele short curto e blazer vagalume. Quem sou eu para julgar as vestimentas de outras pessoas, mas ela não estava vestida como uma apresentadora de tevê que ensina as mulheres a como ser uma doce dona de lar. — Oushi! Eu esperava por um detetive feminino — Ela deixou muito claro sua indignação na voz —, pensei que você fosse mulher. — E eu esperava por uma senhora usando saia lápis, penteado antigo e dentaduras. Parece que fomos cruelmente enganados. — Uma sombra de sorriso apareceu em meus lábios. Kayla parecia me examinar, por um instante pensei que eu houvesse sido intimidador demais e não queria parecer rude. Estava apenas querendo descontrair. Ok, talvez eu estivesse querendo revidar seu veneno, mas ironia não é crime e nem seria morto por isso. Se bem que vendo Kayla como estava, talvez eu não devesse duvidar. — Muito bem, caro detetive. Você tem meia hora do meu tempo, já estou atrasada. Me acompanhe e conversaremos no caminho.


Minha testa enrugou, ela estava atrasada exatamente para o quê? Pensei que sua pressa fosse para me encontrar. Não que eu estivesse querendo me gabar, porque eu mataria muitos homens de inveja quando me vissem ao lado dela, mas eu realmente achava que ela estava com pressa para me ver, tendo em mente que eu era responsável pelo seu caso. — Caminho de onde? — Do clube esportivo. Ela não ousou dizer mais nada, deu as costas e caminhou para a saída do estúdio, meus pés se movimentaram com pressa tentando alcançá-la, mas era como se eu estivesse no automático. Quando enfim saímos no estacionamento, Kayla tirou seu blazer, revelando um top branco altamente minúsculo e provocante. Meu queixo poderia ter chegado ao chão com tamanha surpresa. Onde estava a camisa social que eu havia pensado que ela estava usando alguns minutos antes? — Você dirige? — Jogou as chaves para mim, faltou pouco para que as mesmas escapassem por meus dedos. Kayla estava parada em frente a um Porsche conversível, acabei engolindo em seco quando consegui assimilar do que ela estava falando. Agora, eu já conseguia reparar melhor, ela tinha os cabelos em uma cor que me lembrava café com leite, seus olhos pareciam um castanho mel, mas, quando exposto à claridade, ficavam na cor de um verde deslumbrante. — Como? — Questionei, meio confuso. — Sabe onde é o Clube, certo? — Claro que eu sei. — Minha voz saiu um pouco indignada. Pelo tênis confortável que ela havia acabado de pegar dentro do carro, o top que ela usava e por ter mencionado sobre o clube esportivo acabei imaginando que ela só poderia estar falando de um clube, o de tênis. Ainda que aquele short não fosse apropriado para tal esporte. Por fim acabei acrescentando: — Mas por que sou eu quem vai dirigir? — Nunca quis guiar um carro desses? — Havia um tom desafiador em sua voz. Acabei dando de ombros pois ela tinha razão, quem nunca quis dirigir um desses? Então, apenas caminhei até a porta do motorista, desliguei o alarme e entrei. — Além do mais, preciso me


trocar. As palavras dela saltaram da boca e dançaram até meus ouvidos, aquela mulher não era exatamente como pensei que fosse e, a prova disso veio a seguir, quando consegui ver pelo espelho do carro, ela tirar seu short jeans e colocar seu short legging. Tentei manter meus olhos na estrada, mas o volume que se formava entre as minhas pernas ao ver toda aquela pele à mostra me deixou louco. — Oras, detetive, nunca viu um par de pernas? — Ela zombou do banco detrás, uma veia latejou em minha testa em resposta. Merda! Fui pego no flagra. Seu tom de deboche me deu brecha para ousar responder com ironia e uma pitada de malícia. — Um par de pernas tão lindo? Não, nunca! — Ousei responder. Não sabia de onde vinha essa vontade enorme de retrucar a cada palavra que Kayla falava, mas eu fazia. E fazia com gosto. Era como se aquela boca atrevida me convidasse a dizer coisas fúteis. Olhei de relance pelo espelho, queria ver qual foi sua reação ao me ouvir, mas quase parei o carro no meio fio ao perceber o que ela estava fazendo. Meu pau enrijeceu e chegou a apertar dentro da calça. — Isso é um atentado ao pudor, Srta. Mendes! — Consegui falar, mas confesso que minha voz saiu meio trêmula devido ao nervosismo. — Mantenha seus olhos na estrada, caro detetive. Ela pediu como se fosse algo fácil a se fazer. Desviei minha atenção daquela calcinha rendada na cor rosa salmão, tentando conter o volume evidente em minhas calças. — Posso prendê-la por atentado ao pudor. — Tentei mais uma vez. — Ah, por favor, detetive, posso garantir que um biquíni mostraria bem mais do meu corpo. De fato, e por um momento, imaginei aquele belo corpo dentro de um minúsculo pedaço de pano, aquelas curvas à mostra e fazendo o que sabia fazer de melhor, me deixar duro.


"Um careta", pensei. Meus olhos rolaram em desprezo e irritação. Esse detetive não era exatamente como pensei que fosse, havia umas rugas de seriedade em sua testa que me faziam querer correr para longe, mas, sabia que sua ajuda seria muito bem-vinda, mesmo que sua presença, de certa forma, me incomodasse. Talvez fosse seu jeito profissional, que me fazia crer que ele amava seu trabalho, algo que não acontecia comigo. Então eu iria tentar ser gentil para que nossa parceria desse certo, ainda mais quando se tratava de minha segurança. Eu precisava encontrar o malfeitor por trás daquelas cartas para continuar com minha vida em paz, e por mais que eu tentasse achar um culpado, nunca o encontrava. A única coisa que eu conseguia era uma viagem dolorosa ao passado, então eu precisava colocar essa minha birra por homens sérios de lado e focar na minha situação atual ou a paz que eu procurava ter, nunca apareceria. — Um ponto para fechar o set. — Carlos, meu parceiro de treino gritou do outro lado da quadra. Acho que esse foi seu jeito de chamar minha atenção, já que eu viajei para o mundo da lua por algumas vezes durante o jogo e não dei sinais de que queria voltar. Meus olhos foram até as mesas que ficavam perto das grades de segurança, de lá, os amigos e familiares podiam assistir as partidas com tranquilidade. No meu caso, um detetive parecia satisfeito com o desenrolar do jogo que via, mas por algum motivo, estava duvidando que sua atenção estivesse de fato, no jogo. Tendo em vista que ele me olhava com sorrisos irônicos uma vez e outra quando sem querer, eu lhe olhava pelo canto dos olhos. "Ponto", Carlos gritou e encerramos a partida.


Segurei a raquete com firmeza na mão e caminhei em direção as grades enquanto brincava de golpear alguma bola imaginária no ar, o detetive me seguia com os olhos, como se admirasse o que via e isso de alguma forma me irritava. Me fazia sentir um certo desgosto e antipatia por ele. — Detetive, realmente, não consegue concentrar seus olhos em outras coisas? — Questionei, a cadeira ao seu lado estava vazia e me aguardava. Sentei, peguei a toalha que estava sobre o encosto da cadeira e enxuguei o suor da minha nuca. Havia uma garrafinha de água no centro da mesa, a peguei em mãos esperando pela resposta de Nick e mandei um gole pela garganta seca. Passei a costa de uma das minhas mãos na testa, a fim de limpar o suor. — Desculpe, eles já estavam bem concentrados. — Em minhas pernas. — Revidei. Ele ameaçou sorrir de canto e por que eu desejei ver aquele sorriso? — Assim vou começar a achar que é tarado por pernas. — Não por qualquer uma. Um sorriso sarcástico nasceu em meu rosto ao perceber que aquele detetive carrancudo também tinha humor, um humor que estava começando a me agradar, mas não sabia se era certo ficarmos flertando sendo que precisávamos manter uma relação profissional. — Bebe alguma coisa? — Ele questionou pronto para levantar a mão. Meu extinto agiu mais rápido naquele momento, levei os dedos até a boca e assoviei alto para chamar a atenção do garçom. Ele veio ao nosso encontro com um sorriso agradável no rosto, por frequentar muito o clube, eu já conhecia todos os garçons do lugar. Sempre me trataram bem, talvez por eu s er a filha da Is abella M endes , a diva da televis ão. O detetive parecia surpreso com alguma coisa e fiquei me perguntando com o quê. Mas, pude supor que era comigo já que eu não era exatamente como ele imaginou que fosse. Acho que sempre estaríamos quites nesse quesito. — Bebe cerveja, detetive? — Perguntei sorrindo. — Ótimo! Dois chopes no capricho. Agora, ele parecia intrigado. Era engraçado causar essas variadas reações nele, era como se eu estivesse o surpreendendo cada


vez que abria a boca para falar algo. Ele levantava as sobrancelhas, arqueava, abria a boca e fechava, fazia caretas... era divertido causar essas reações nele. — Então — ele pigarreou —, sobre as cartas. Você tem alguma ideia de quem possa estar mandando? — Pensei que descobrir o remetente delas fosse o seu trabalho. — Estalei a língua, deixando meu veneno escorrer em forma de sarcasmo. — Só preciso saber se você tem uma base por onde eu possa começar. — Explicou e neguei com um balançar de cabeça. — Algum ex namorado? — Quer a lista? — Foram tantos assim? — E lá estava aquele tom surpreso novamente. — Tire suas próprias conclusões. Ele me olhou com atenção, poderia dizer que estava me avaliando, tentando entender alguma coisa e preciso dizer que se ele conseguisse, por favor, que me avisasse. Às vezes, eu me sentia completamente perdida com quem eu era ou com quem eu queria ser, era nesses momentos que minha vida virava uma contradição. Ora eu queria ser a apresentadora de tevê, ora eu queria ser uma stripper — e por que não? —, e tinha aquele momento em que eu queria ser eu. Apenas eu. Apenas a kayla Mendes. — Srta. Mendes, me conte um pouco mais sobre as pessoas com quem vive. — Oras, detetive, não está insinuando que... — Não há insinuações aqui, estou apenas tentando fazer o meu trabalho. — Pois bem. — O garçom deixou sobre a nossa mesa os primeiros copos de chope, em um enlace peguei a alça da caneca e bebi um gole. — Nana é a governanta, cuida de mim desde que nasci e continua fazendo o trabalho muito bem. Também tem o Rafa, trabalha comigo o tempo todo, é meu assistente de marketing. — E o Rafa entra na sua lista de "ex"? — Sim, mas não foi um relacionamento duradouro. — Por quê?


— Por que certas pessoas não nasceram para dar certo, caro, detetive. — Arqueei a sobrancelha, já estava começando a me perguntar se aquelas perguntas eram mesmo necessárias. — Em seu arquivo consta um irmão mais velho. Quer falar algo sobre ele? — Não tenho muito o que falar sobre André. — Dei de ombros. — Não mora comigo e não o vejo desde que nossa mãe morreu, nem sequer sei se ainda vive no iate clube, apesar de escutar burburinhos por aí, de que ele está lá. — A relação de vocês é bem limitada então. — Ele concluiu. Uma nova partida havia começado, agora, minha atenção não estava só nele, também estava no jogo. Naquela altura da minha vida, eu já havia me acostumado a ter hobbies, um deles era o tênis. Mesmo quando eu não ia para jogar, ia para ver. — Creio que as cartas sejam mais importantes do que o jogo, ou não? — Chamou minha atenção ao ver que não obtinha mais nenhuma resposta. Suas palavras fizeram um sorriso aparecer em meus lábios, gostava da forma que ele se portava, ora sério, ora humorado... só que mesmo que o nosso encontro tivesse apenas uma finalidade, eu não podia levar tudo a sério. Era assim que eu me dava com aquelas malditas cartas, não podia deixar que elas acabassem com minha vontade de viver e com meu bom humor. — Você deveria sorrir mais. — Disse ingênua, procurando uma desculpa para vê-lo sorri. — Como? — Elevar o canto da boca e deixar os dentes aparecer. — Eu sei como se faz, só não entendi o porquê deveria fazer. — Cruzou os braços e me fitou com afinco. — Por que você fica bonito e deixa a vida mais agradável. Vem! — Me levantei segurando em seus braços. Ele parecia não entender o que eu queria fazer, me olhava com curiosidade e me questionava com diversas perguntas, todas sendo ignoradas por mim, mas logo ele descobriria e eu esperava que uma mudança de ares valesse à pena.


Capítulo 2

Era difícil me concentrar apenas nas cartas quando ela ficava desfilando de shorts curto e mini top na minha frente, Kayla parecia fazer de propósito, talvez, ela soubesse o que sua postura causava entre minhas pernas. Eu estava sendo muito infantil, admito, mas estava começando a sentir algo atrevido por ela. Não era exatamente o que imaginava, e acho que já havia deixado isso claro, Kayla parecia determinada e ousada, não conseguia entender como poderia estar sendo ameaçada por alguém. — Não está querendo me sequestrar, não é? Não ganho o suficiente para pagar um resgate. – Brinquei, ela desligou o alarme do carro e se enfiou no banco traseiro, de novo. – Vou dirigir? — Já fez isso uma vez. – Sorriu cínica, comecei a achar que ela não tinha carta de motorista, ou talvez, nem ao menos soubesse dirigir mesmo. — Vai trocar de roupa de novo? – Questionei, sou homem e estava louco para ver aquela calcinha rendada outra vez. Kayla não me respondeu e para um bom entendedor, meia palavra bastava, neste caso, nenhuma palavra também bastava. Liguei novamente o carro, dessa vez, por saber exatamente o que ela faria no banco detrás, virei o retrovisor para cima. Sempre fui um homem de princípios, mas até mesmo um homem como eu poderia perder a cabeça vendo uma mulher naqueles trajes. Ainda mais se tratando de Kayla, ela era tão bonita, atraente. — Me sinto um motorista particular. — Retruquei quando já estávamos passando pela praça central.


— Um cargo para poucos. — Eu não estava a olhando, mas poderia jurar que Kayla sorria. — Conhece Chop’s night? Meu cenho enrugou, o que essa mulher queria com um lugar tão vulgar e inapropriado para uma senhorita como ela? — O que quer com esse lugar? — Acho que minha voz saiu um pouco reprovadora, devido a forma que ela me olhou, acabei concluindo que eu não tinha nada a ver com o que ela queria lá. — É para onde vamos. Percebi que ela teve um pouco de dificuldade em me responder, estava lutando contra todos os monstros dentro de mim para não abaixar a merda daquele retrovisor e verificar o que ela estava fazendo. Precisava me concentrar em alguma coisa, qualquer coisa. Por minúsculo que fosse, tinha que haver algo para me impedir de olhá-la. — Podemos ir listando seus ex namorados? — Podemos falar disso quando chegarmos lá? — Pensei que tivesse pressa em descobrir seu malfeitor. Ela ficou em silêncio, me fazendo atingir o nível máximo de curiosidade. Abaixei o retrovisor de volta a seu antigo lugar, e acabei me sentindo no paraíso prestes a comer da fruta proibida. — Você, realmente, não consegue levar seus olhos para longe de mim, não é, detetive? Ela estava abusando do meu autocontrole, por medidas de segurança, preferi ignorar suas palavras e focar na estrada. Já estávamos chegando ao nosso destino e suas provocações poderiam me fazer parar o carro e cometer um delito. Acho que o meu principal problema, era não saber o que se passava em sua cabeça. Ela parecia ser uma mulher madura e sábia em seus programas, alguém que realmente sabia o que estava fazendo, mas ali, dentro daquele carro, suas atitudes só me mostravam o contrário. Ninguém teria coragem de expor o corpo para um completo desconhecido, porque apesar de estarmos há algumas horas juntos, ainda éramos estranhos um para o outro... bom, para mim nem tanto, já que havia lido o relatório sobre ela antes de aceitar o trabalho. O local que ela havia escolhido para conversarmos, estava lotado de homens e cheirava a perfume amadeirado com uma mistura


nojenta de suor, mas Kayla não parecia se importar. Passou por eles com olhar superior, parecia estar em uma passarela. Alguns ousaram passar a mão em sua bunda e volto a dizer que, ela parecia não se importar. E isso fez meu sangue esquentar, ela poderia dar-se um pouco mais de respeito, não é mesmo? — Esse não é um local apropriado para falarmos sobre as cartas... — Me peguei dizendo, me controlando ao máximo para não dizer que, aquele não era um lugar apropriado para uma mulher como ela. Estava prestes a arrastar a cadeira do balcão para ela, porque era isso o que mandava a boa conduta masculina que minha mãe havia me ensinado, mas a mocinha havia sido mais esperta. Já estava sentada, suas pernas cruzadas deixavam bem visível o quanto eram torneadas e da cor do pecado. — Tem razão, mas não estamos aqui para falarmos sobre elas. — Srta, se não vamos falar sobre isso, não vejo o motivo de estarmos aqui. — Enruguei meu cenho, meio revoltado com sua falta de interesse no caso. Afinal, quem deveria ser a principal interessada era ela. — Se vamos falar sobre meus ex, preciso beber antes. — Levantou o dedo indicador, pedindo por duas doses de uísque. — Preciso de você sóbria para falar sobre eles. — Retruquei. — Não posso gastar meu tempo com coisas idiotas. Se ela iria começar com esse tipo de palhaçada, meu caso estaria acabado ali, por que me recusava a trabalhar para alguém com uma mente tão pequena. Ela estar em perigo e fazer pouco caso disso me deixava nervoso, era como se também não tivesse me levando a sério. Me levantei abruptamente e dei as costas para ela, saindo em direção da porta, mas logo senti pequenos dedos tentando me segurar pelo braço. — Aonde vai? — Embora! — Mas, e a investigação? — Questionou, por um breve momento pude ver um temor em seus olhos, uma expressão de medo que quase não a reconheci. Respirei fundo e passei a mão pelos meus cabelos da nuca. Em todos os anos da minha carreira, nunca havia desistido de um caso, por mais complicado que fosse, então aquele não seria o primeiro.


— Faça a lista com o nome dos seus ex, me mande por e-mail se preferir. Tenha um bom resto de tarde! Deixei aquele lugar com uma vontade imensa de socar alguma coisa, talvez, quem sabe, socar o rosto pervertido de alguns daqueles homens. Peguei o celular e liguei para central, avisei que passaria por lá para deixar o relatório, mesmo não havendo relatório nenhum. Caminhei até o ponto de ônibus que tinha ali perto, estava receoso em deixar Kayla naquele lugar, mas algo me dizia que ela já era acostumada com aquilo. Sentei no banco conferindo meus e-mails, desejei não ter aceitado a carona dessa mulher, assim não precisaria voltar embora de ônibus. Também acessei a internet e busquei por alguma coisa a mais sobre Kayla Mendes, nada de diferente apareceu, estava começando a ficar irritado com isso. Devia de haver alguma pista, esse doente não poderia ser tão profissional ao ponto de não deixar alguma ponta solta. Respirei pesado, o ônibus parou após ver meu aceno, entrei e em poucos segundos já estava em meu gabinete. Lúcia sorriu ao me ver, faltava pouco para dar seis da tarde, não entendia o que ela ainda fazia ali. — Boa tarde, o que ainda faz aqui? — Boa tarde, senhor Almeida, soube que viria entregar um relatório e fiquei para o caso de precisar de uma mão. Balancei a cabeça sorrindo, essa garota era inacreditável, nunca falava não para qualquer coisa que pedissem a ela, e sempre estava pronta para o trabalho, uma excelente funcionária. — Não preciso dos seus serviços, obrigado. Pode ir para a casa descansar. Ela sorriu em resposta e começou a guardar suas coisas, notei que havia um envelope na cor azul marinho sobre sua mesa. Lúcia reparou no meu olhar curioso e pegou o papel em mãos me oferecendo logo em seguida. — Isso é para o senhor, chegou há pouco. Até amanhã! Meus dedos alisaram com cuidado e precisão aquele papel cartão, algo me dizia que, talvez, não fosse um simples convite como aparentava ser.


Entrei em minha sala e liguei o computador, na primeira gaveta da minha mesa, havia um estilete e eu o usei para rasgar o papel. Me surpreendeu ver letras recortadas de revistas e coladas uma ao lado da outra para transmitir uma mensagem. O dono daquele cartão infame se preocupou em não ter sua caligrafia reconhecida e pelo jeito, nem mesmo sua digital ele havia deixado no papel. — Muito engenhoso! — Apreciei o trabalho que o malfeitor teve e a ousadia também. “Caro, detetive Almeida. Você, definitivamente, está entrando em terreno perigoso. Melhor deixar nossa estrela de tevê quieta, ou é você quem vai sofrer as consequências. Atenciosamente, o MALFEITOR”. Naquele momento decidi que não trabalharia apenas por Kayla, mas por mim também, já que as coisas haviam se tornado pessoais. A tela do computador brilhou, anunciando que já havia ligado, sentei na cadeira de frente para ele enquanto esperava ansioso pela lista de namorados de Kayla. Na verdade, acho que estava curioso. Eu sabia que ela deveria de ter muitos ex, afinal, ainda não havia conhecido nenhuma mulher que se igualasse a ela em sua beleza, e olha que já havia me deitado com um número considerável. Entretanto, tinha algo que não se encaixava muito bem nessa história. Por diversas vezes, pensei que esse malfeitor fosse algum fã obcecado, conferi o relatório que me passaram sobre Kayla diversas vezes para me certificar disso, porém, estava começando a crer em outra coisa. O som de notificação me alertou, havia recebido um e-mail e diferente do que pensei, não era a lista de Kayla, mas era um e-mail dela. Acabei deixando um suspiro forte escapar, para mim, toda aquela missão estava começando a ficar difícil porque sentia que havia mais... haviam sentimentos por minha parte e eu precisava trata-la como um trabalho apenas. Mas Kayla Mendes era um tipo de mulher que poderia fazer qualquer homem perder o juízo, e eu estava tentando a todo custo, não ser esse homem. Ato difícil, já que minha mente vivia viajando para aquele breve momento no carro, onde consegui ver pelo retrovisor,


aquele magnífico par de pernas. Meu pau enrijeceu dentro das calças e minha respiração ficou ofegante ao lembrar disso, levantei e caminhei até a outra extremidade da sala, peguei um copo pequeno com água e bebi de uma vez só. Porque estava pensando nela mesmo? De: Kayla Mendes assessoria Para: Detetive Nicolas Almeida, o tarado em pernas. Assunto: Aceita desculpas? “Olá, detetive, penso que deva ser de sua natureza dar as costas para um cliente, porém, esta atitude me fez perceber o quanto estava sendo fútil em relação ao seu trabalho. Talvez devêssemos começar do zero, ainda preciso de você em meu caso, então, peço que tenha um pouco mais de paciência com meu jeito levado. Atenciosamente, Kayla Mendes”. Ah, sim. Aí estava o motivo dos meus devaneios ter me levado a ela. “Paciência é o que menos tenho, srta Mendes”. Respirei fundo e respondi ao seu e-mail da forma mais educada que eu poderia ser. De: Nicolas Almeida, detetive do departamento anônimo. Para: Kayla Mendes, apresentadora levada. Assunto: Pensando em teu caso. “Senhorita Mendes, fico feliz que tenha enxergado as coisas de um modo diferente, suas desculpas estão aceitas, desde que comece a levar esse caso a sério e desde que aceite tomar um café da manhã comigo. Atenciosamente, Nicolas Almeida, o “tarado por pernas.”” Enviei o e-mail sem conter o sorriso malvado em meu rosto, gostaria de ver sua cara ao ler o conteúdo. Alguns minutos depois, recebi sua resposta. De: Uma pessoa brava.


Para: Um detetive abusado. Assunto: Chantagem aceita. “Diante de suas palavras, não vejo outra escolha, senão aceitar sua chantagem mesquinha. Sei que fez sua lição de casa ao meu respeito, então me encontre amanhã na lanchonete que costumo frequentar, espero que 08h30 seja um horário bom para você.” Atenciosamente, mas nem tanto assim, Kayla Mendes. Soltei uma gargalhada ao terminar de ler seu e-mail, podia imaginar como ela estava brava por conta do convite oportuno, mas a verdade, era que eu o havia feito na intenção de falar obre a famosa lista de ex que ela tinha. Não estava preparado para lidar com uma criança de quase trinta anos, mas precisava dar um jeito de fazer essa mulher focar no principal motivo de nossa relação. Seu malfeitor.


As coisas entre detetive e eu haviam chegado ao extremo, não podia me dar ao luxo de fazê-lo de trouxa, precisava dele para acabar com aqueles tormentos que vinham uma vez na semana. Deixei meu carro estacionado na entrada de casa, deixei o bar assim que ele me deu as costas e foi embora, não tinha o porquê de continuar lá. Nana percebeu que havia algo me incomodando e antes de dizer qualquer coisa, arqueou a sobrancelha e cruzou os braços abaixo dos seios. Eu sabia o que ela estava fazendo, estava me intimidando para que eu contasse logo o que tinha acontecido, apenas dei de ombros quando passei por ela. — Pelo jeito, as coisas com o detetive não foram muito bem. — Sabia que era homem? — Perguntei surpresa, me virando para dar total atenção a ela. Nana sorriu de canto, daquela forma que só ela sabia fazer para me irritar, afirmou com a cabeça e aproximou-se de mim. No fundo, não fora o fato dele ser homem que me chocou, e sim, pelo fato de ser extremamente sério em seu trabalho. Tudo bem, eu entendia que sua profissão precisava de concentração e foco, mas parecia não se divertir nunca, por isso o levei até o bar, pensei que assim Nicolas ficaria mais solto para podermos trabalhar juntos. Mas também havia um problema, quase irrelevante, o filho da puta era extremamente lindo. E aquele humor ácido que às vezes ele destilava, me deixava encantada, mas também excitada. Que raio de homem era esse? — É o melhor detetive da cidade, querida, eu mesma conferi o


portfólio dele quando Rafael o contratou. Foi recomendado pelo melhor departamento, pode ajudar com as cartas. — Ele parece ser bom mesmo. Bem profissional. — Dei de ombros e continuei a caminhar, meu destino era o escritório onde eu sabia que iria encontrar o Rafa. — Bem bonito! Enruguei o semblante e a olhei por cima dos ombros. — Como assim bem bonito? Quando foi que você o viu? Entrei no escritório e Nana foi logo atrás, parecia concentrada em sua missão de me infernizar. Rafa estava sentado atrás da minha mesa e nos olhou de sorrateiro, assim que ouviu nossas vozes. Joguei minha bolsa no sofá, mas a mesma preferiu o chão. — Quem é bonito? – Rafa me questionou curioso. — Segundo o q u e Nana diz, nosso detetive. — Respondi simplesmente, eu não queria ter que falar sobre ele. — Ah, sim, e como foi o encontro de vocês? — Não foi. Espreguicei o corpo e notei que ambos me olhavam como se esperassem por alguma resposta digna de aplausos, mas não havia essa resposta, não teve encontro. Revirei os olhos e deixei a grande sala, precisava beber alguma coisa antes que meus pensamentos me comessem viva. Abri a geladeira e a caixa de leite foi muito convidativa, por que não? Peguei a maior caneca e acrescentei o achocolatado, acho que sempre fui acostumada a fazer isso quando algo me incomodava, só que naquele momento, eu desconhecia o motivo desse incomodo. — Você gostou dele. A voz de Nana invadiu o lugar e chegou até mim, causando uma reação estranha e me fazendo engasgar. Sempre quando eu ia colocar algo na boca alguém aparecia e me fazia causar uma catástrofe. O que foi exatamente o que aconteceu, acabei deixando um pouco de leite escapar por entre meus lábios e escorrer até meu queixo. Nana riu, não foi uma risada escandalosa, mas havia humor. — Não sei do que você está falando. — Peguei o pano de pratos e tentei limpar o que havia pingado em minha blusa.


— Kay, você não precisa fingir para mim. — Não estou fingindo, Nana. Esse detetive é muito sério e profissional, o tipo de homem que não me chama a atenção. — Coloquei a caneca dentro da pia e fui me sentar perto do balcão. O meu curriculum de homens pegáveis sempre fora extenso, principalmente depois que minha mãe morreu e eu assumi sua carreira de apresentadora na televisão. Cirurgiões plásticos, atores, empresários estrangeiros, governadores, prefeitos, pintores... Todos muito bem colocados naquela listinha que Nicolas havia pedido mais cedo. Todos possuindo uma riqueza incontável em suas contas bancárias. — E o detetive não se encaixa nos seus valores? — Ela ficou séria, me fitando com repreensão. — Não saio com homens por dinheiro, Nana. Não me ofenda! — Rebati magoada. Eu mesma tinha uma quantia inimaginável no banco, então porque sairia somente com homens que possuíam dinheiro? — O detetive pode ter lhe agradado, mas não vi nada demais nele. — Por que não gostou dele? — Nana quis saber. Passei os dedos pelas minhas têmporas, era difícil explicar o porquê, mas acho que para Nana eu conseguia, afinal, ela sempre me entendia e sua insistência estava começando a me desagradar. — Ele não te lembra ninguém, Nana? Alguém que eu gostaria de nunca ter conhecido... — Murmurei a última frase sentindo o ressentimento nascer no peito. — Tire isso da cabeça, Kayla, ele está morto e não vai te fazer mais nenhum mal. — Assenti, era o que me restava fazer. Aquele homem estava morto, pelo menos, não haviam encontrado seu corpo em lugar algum quando caiu no mar, mas eu não conseguia explicar isso ao meu coração. Ele vivia agoniado, com medo de que tudo voltasse a acontecer. — E pode ir dizendo quando foi que você o viu... — Hoje. — Hoje? — Acho que dava para ver o tamanho da interrogação em minha testa. — Aqui em casa.


Nana estava com aquele ar de superior, como se soubesse mais do que todos, e para ser sincera, acho que ela sabia. — Ele veio aqui? – Então aquele papo de perguntar sobre as pessoas próximas era marmelada, ele já havia feito a lição de casa e estava me testando. Por que ele estava me testando? Revirei os olhos mais uma vez e me mantive quieta, Nana balançou a cabeça como se reprovasse algo, mas havia um sorriso singelo nos cantos dos lábios. Respirei pesado, ela estava errada. O detetive não havia me agradado, na verdade, apenas o achei muito atraente, não que isso tenha me deixado de quatro por ele. — Colabore com o trabalho dele, Kayla, ou você nunca vai voltar a ter paz. – Ela suspirou, cansada. — Chegou outra? – Questionei com medo, o balançar de sua cabeça fez minhas pernas tremer. – Quando? — Hoje de manhã, essa veio um pouco mais ousada. — Quero ver. – Pedi com rapidez. — Por precaução, decidimos esconder ela de você. Melhor que não saiba sobre o conteúdo. Ela me olhou com um pedido de desculpas, mas eu sabia que se ela estava fazendo isso, era porque queria me proteger e pelo jeito, a carta anônima havia passado dos limites simples de ameaças. Todo o meu corpo arrepiou ao pensar nisso, não podia ficar parada, precisava descobrir quem era essa pessoa e fazê-lo apodrecer na cadeia. Respirei fundo e passei os dedos pelas têmporas, teria que mandar um pedido de desculpas para o detetive e colaborar para que tudo andasse o mais rápido possível. — Vou mandar um e-mail para ele. – Me rendi, estava me sentindo derrotada.


Na manhã seguinte, fiz exatamente o que ela havia pedido por e-mail, em partes, porque precisava continuar com minha investigação. Marcamos de nos encontrar em uma cafeteria no centro da cidade, ela me garantiu que levaria a famosa lista. Bom, para mim aquela lista era famosa, afinal, ela parecia estar querendo evitar os nomes que apareceriam nela. Sentei em uma das mesas mais afastadas, queria garantir que ela se sentisse confortável para falarmos sobre seus ex, acho que isso não deveria ser fácil para ela, ou não estaria evitando a todo custo. Sim, Kayla Mendes estava evitando falar sobre esses homens, só queria descobrir o porquê. A garçonete era atenciosa, me serviu uma xicara de cappuccino e logo depois, sorriu de forma encantadora. Não pude me dar ao luxo de responder ao flerte, a campainha que soou logo depois, roubou toda a minha atenção. Meus olhos buscaram pelo cliente que entrara no estabelecimento, minhas mãos suaram e ao mesmo tempo formigaram deixando-me completamente confuso. Que reações eram essas? — Bom dia, caro, detetive! – Aquela voz doce chegou aos meus ouvidos, queria poder fechar os olhos para absorver e admirar, mas não podia me dar ao luxo disso. — Senhorita Mendes... – Me levantei e arrastei a cadeira para ela, Kayla sorriu, tive que prender a respiração, ela usava um perfume tão bom, tão sexy... — Já pediu? — Sim, e tomei a liberdade de pedir por você. Ela me olhou com espanto e surpresa, apenas dei de ombros fazendo pouco caso disso. Eu havia feito minha lição de casa, sabia até qual era sua calcinha preferida, não que eu fosse usar isso ao meu


favor. Além do mais, se tratando de Kayla, eu já tinha uma calcinha dela como preferida, e era na cor salmão. — Me esqueço de que já fora visitar minha residência. – Disse de forma natural, parecia não estar incomodada, mas era difícil ter certeza. Ela era muito imprevisível. — Espero que não se incomode, fui apenas fazer o meu trabalho. — Sorri amigável, ela retribuiu da mesma forma. — Devemos falar sobre os e-mails de ontem? — E-mails? — Ela arqueou a sobrancelha. — Oh, sim, aqueles em que você foi abusado. — Sorriu largo. — Sim, aqueles em que você foi levada. — Rebati sua ironia. — Não, não devemos! — Foi direto ao ponto, então me calei. Kayla colocou sobre a mesa, um papel dobrado ao meio na cor areia, repousou os cotovelos delicadamente sobre a mesma e esperou que eu o pegasse em mãos. O conteúdo era extenso, mas por incrível que pareça, não me surpreendeu. Porém, não posso deixar de citar que, quando olhei o terceiro nome escrito, minhas veias pulsaram forte. Eu deveria imaginar que alguém como Júnior Santurbano estaria em sua lista. Respirei pesado e passei meus olhos pelos outros nomes, graças a Deus, somente este nome me desagradava e eu começaria com ele. — O que acha? – Kayla parecia curiosa. Não sei o que exatamente ela queria ouvir, porque eu, definitivamente, não iria elogiar sua listinha idiota. — Que vou ter muito trabalho. – Bebi um gole do meu cappuccino, Kayla comeu um pedaço de sua torta de maçã e riu pelo nariz. Senti que ela estava com seus olhos sobre mim, observava e analisava alguma coisa, que ao meu ver, já estava me deixando encabulado. Puxei o ar e o segurei, alguém deveria avisar àquela mulher que seu olhar estava começando a causar reações em mim. Meu Deus, como ela podia ser tão linda? Guardei o papel em meu bolso e senti meu coração bombardear sangue muito rápido para o resto do corpo, Kayla umedeceu os lábios e, apesar de achar que não fora sua intenção, bastou apenas isso para que meu pau enrijecesse dentro da calça.


— Pode explicar qual foi o motivo dos términos? — Tempo, traição, cansaço. – Respondeu, limpou o canto da boca sem deixar de me fitar. – Coisas que normalmente desgastam uma relação. — Gabriel Aragão? — Um ator sem tempo para relações, mas era bom na cama. — Pigarreei, acho que essa informação era irrelevante e desnecessária. — Renato Camargo? — Casado. – A olhei com a testa franzida e ela deu um balançar de ombros. – Terminei com ele quando descobri. Respirei aliviado, apesar de ela não dever explicações para mim, fiquei feliz em saber que ela não era esse tipo de mulher. Meu cappuccino já havia acabado, agora, vinha o nome mais desprezível de sua lista e não restava nem um gole da minha bebida para que pudesse molhar a garganta. — Júnior Santurbano? O prefeito da cidade, estudei com ele até a faculdade e sua reputação com mulheres sempre fora de dar inveja em qualquer homem. Era mesquinho e mimado, sua posição sempre foi boa pelo fato de ser filho de Joel Santurbano, o antigo prefeito da cidade. Claro que ele entraria na carreira política e acabaria no lugar de seu pai. — Traição. – Pude sentir o tom de desprezo em sua voz. Infelizmente, isso significava que ela gostava dele, e gostava de verdade. A gente não costuma guardar rancor de quem não gostamos. Afirmei com a cabeça não querendo continuar com a conversa, mas aquele era o meu trabalho e precisava fazê-lo.


Júnior sempre me agradou em tudo, por isso nunca desconfiei que estava nascendo uma galhada no topo da minha cabeça. O pior, foi que eu estava me apaixonando loucamente por ele, claro, quando descobri sua traição tive que manter meu autocontrole para não ser posição de destaque nas revistas e jornais. Acho que fiquei magoada pelo fato dele ter manchado minha imagem como mulher, porque até hoje não sei como tudo aquilo foi parar na mídia. Mas não sou inocente, sei que ele deve ser o causador disso. — Acho que podemos parar por hoje. Não! Porque ele queria parar? Logo agora que estávamos começando a conversar feito pessoas civilizadas. Será que eu havia dito algo de errado? Mas, me lembro de ter sido bem-educada com ele, então não via o porquê de ele querer terminar nossa conversa ali. — Posso estar errada, mas minha lista contém mais do que apenas três nomes, detetive. Notei um certo desconforto quando falei, ele parecia estar travando uma batalha interna. Era tão difícil saber o que ele pensava ou o que faria. Nicolas era tão imprevisível. Cruzei minhas pernas, sempre tive o hábito de fazer isso quando não sabia o que falar. Nicolas pigarreou e passou a mão pela nuca desconcertado, aquele gesto fez os pelos do meu corpo arrepiar. Agitei meus ombros e mexi a cabeça tentando evitar aquela reação. — Para início, os três são o suficiente. – Pegou a carteira em seu bolso e passou os dedos pelas células. — Vou investigar e fazer o relatório, depois marcamos outro encontro para falarmos de mais três da sua lista. Não sei o porquê, mas senti um alívio e uma felicidade


estranha passar pelo meu coração. Eu queria vê-lo de novo, queria conversar com ele. Me senti tão bem em sua presença, acho que foi a primeira vez que conversei com alguém depois de tanto tempo. Ele sorriu me olhando, deixou as notas sobre a mesa e piscou. — Então, vamos voltar a nos ver? — Vê-la será a melhor parte do meu dia. — Pisquei os cílios sem convicção, eu ouvi aquilo mesmo? — Até breve, senhorita Mendes. Nicolas, em um ato ousado, segurou em minhas mãos e beijou as costas das mesmas. Eu fiquei observando aquele homem ir embora, com seu charme que até então, eu não havia notado. Algo havia mudado, ele estava mais relaxado em minha presença, apesar de ter ficado tenso em alguns momentos. E eu... eu havia gostado daquilo. Sorri para mim mesma e balancei a cabeça. Ele colocou notas a mais sobre a mesa, também havia pago o que eu comi, mas nem por causa disso eu deixaria de pagar. — Tome, fique como gorjeta. – Sorri para a garçonete, ela estava séria e parecia surpresa. — É muito, madame. — Então, espero que faça um bom uso. – Respondi me levantando.


Capítulo 3

Não sei o que havia acontecido comigo, mas estar na presença de Kayla me fazia sair do eixo e agir como um adolescente idiota. O que foi aquela piscadinha? Dirigi sem pressa até a central, eu queria seguir a lista, mas não estava me aguentando de vontade de ir até o gabinete do prefeito. Ele havia traído Kayla e ela parecia ser uma mulher atraente e encantadora, porque faria isso com ela? Peguei meu material de trabalho e segui meu caminho, dentro do carro, por diversas vezes, fiquei lembrando do olhar de Kayla. Um olhar curioso e inocente. Ela estava despertando sentimentos adversos em mim. Uma hora me irritava com suas atitudes fúteis, no outro, me encantava com seu jeito doce. Quem era Kayla Mendes de verdade? A entrada da prefeitura estava calma, não tive problemas para alcançar a mesa da secretária. Ela sorriu ao me ver, acho que me lembrava vagamente dela, Juliana era bonita, uma moça encantadora, de fato, mas jovem. Ainda assim, deixava claro seu interesse insistente por mim. Aceitei sair com ela uma vez, ela acabou bebendo demais e quando ofereceu seu apartamento para a sobremesa, eu vi suas verdadeiras intenções. Admito, fiquei tentado a aceitar, não sou santo. — Nicolas, é bom rever você. Anda sumido, muito trabalho? Bastou suas últimas palavras para me fazer lembrar de Kayla e do porquê de estar ali. Sorri de canto a olhando, ela havia ganhado alguns quilos, o que acabou deixando o seu corpo gostoso. Ela percebeu que analisei sua silhueta e sorriu presunçosa. Balancei a cabeça achando graça e dei continuidade em nossa conversa.


— Você sabe se há alguma vaga na agenda do prefeito? Tenho um assunto urgente para tratar com ele. — Para hoje está cheio, mas de repente, para você eu possa abrir uma exceção. — Ela me olhava faminta. — Suponho, que você irá querer algo em troca. — Me curvei sobre a mesa e sorri de canto, deixei meu charme esbaldar para cima de Juliana e ela pareceu reagir positivamente a isso. — Ah, sim, claro, apenas um jantar. — Disse, claramente abalada pela minha aproximação. — Hoje à noite? — Voltei para a minha posição normal. — Pode entrar, senhor Almeida. Pisquei para ela e coloquei meus pés para andar, não estava acreditando que sairia novamente com Juliana e, possivelmente, ela sugeria seu apartamento para a sobremesa mais uma vez. Não sei se eu iria conseguir dizer não de novo. Entrei no gabinete do prefeito e logo me sentei em frente à sua mesa, ele me olhava desconfiado e tinha um ar superior para cima de mim. Já fazia alguns anos que eu gostaria de quebrar o nariz dele, esperava ansioso que ele me desse esse motivo. — Não me lembro de ver seu nome em minha agenda, detetive Almeida. – Disse indo verificar em seu celular se eu, realmente, havia hora marcada com ele. — Serei breve, senhor Santurbano. — Abri minha caderneta, precisava fazer anotações enquanto ouvia suas baboseiras. – Estou investigando o caso da senhorita Kayla Mendes, não sei se tem conhecimento do que está acontecendo. — Sim, eu leio jornais, detetive. — Respondeu com desprezo. — O que eu tenho a ver com isso? — Estou investigando todos os ex da senhorita Mendes, acredito que você se considere ex dela, não? — Arqueei a sobrancelha e esperei por sua resposta. Ele parecia profundamente incomodado com minha presença, mas eu estava pouco me fodendo para isso. Eu o odiava e ter ele em minha lista de suspeitos me deixava feliz. — Oras, acha mesmo que eu estou por trás das ameaças? — Seu tom era deboche. — Kayla é muito boa na cama, mas não o suficiente para que eu vire um babaca perseguidor.


Meu sangue ferveu, talvez, fosse pela forma que ele se dirigiu a Kayla. — Você nunca precisou de muito para ser um babaca, Júnior. — Rebati, meu tom também saiu debochador. — Parece que você está levando a investigação para o lado pessoal, Nicolas. — Sorriu de canto, estava achando graça em minha reação e também me olhava com cinismo. Fechei os punhos tentando me controlar. – Vai dizer que depois desses anos, você ainda guarda mágoas? — Estou aqui fazendo o meu trabalho, se não deve, não teme, certo? — Minha testa franziu, fiquei sério e assumi a postura rígida. Ele tinha que falar sobre o passado, não é mesmo? — Porque traiu Kayla? — Sou homem assim como você, detetive. Trai sem motivos e sem arrependimentos. Nós não éramos de fato, namorados. — Sorriu de canto. — Depois da traição, ela terminou o relacionamento, nunca pensou na hipótese de voltar com ela? — Não. Ainda que eu sinta falta de comer aquela boceta apertada. Aquilo foi a gota d’água, me levantei com rapidez e segurei na gola de sua camisa, puxei seu corpo para cima da mesa fazendo algumas coisas caírem no chão. Ele ainda mantinha aquele sorriso no canto dos lábios, e eu desejava fazer ele engolir cada palavra que havia falado. Mas não naquele momento. Precisava me acalmar e não perder a cabeça, era isso o que ele queria, queria me ver descontrolado e quase conseguiu. — Vejo que falar de Kayla te deixa nervoso. Semicerrei meus olhos e o soltei, seu corpo bateu na cadeira e a mesma andou por ter rodinhas na base. Fechei a caderneta e dei as costas para ele, fui em direção da porta sem conseguir dizer mais nenhuma palavra, o que não foi o caso dele. — Detetive — me chamou, segurei na maçaneta e virei em sua direção. —, se gosta da nossa estrelinha, melhor assumir logo ou vai perdê-la também. Aquilo soou como uma ameaça, sai de sua sala e bati a porta com força. Mas já sabia que isso não seria o suficiente para extravasar


minha raiva, porque naquela altura, apenas o nariz quebrado do prefeito seria o suficiente para me deixar satisfeito e mais calmo.


Depois do encontro com o detetive Nicolas, tive que me ocupar com outras coisas, por exemplo, na gravação do programa especial de dia das mães, então, para a minha sorte, acabei não tendo tempo para pensar nele ou naquelas cartas. Minha produtora comentou em alguns momentos, o quanto eu estava distraída, mas se ela soubesse pelo o que passo com esse perseguidor, também viajaria para Nárnia sempre que preciso. Para o mundo exterior, eu sempre transmitia o quanto isso não me afetava, talvez eu fizesse isso na esperança de que esse perseguidor assistisse televisão e visse, que tudo o que estava fazendo contra mim, não estava me abalando. Mas estava. Fortemente. Nem por isso precisava deixar as pessoas saberem. — E nesse dia especial, quero homenagear todas as mães desse mundo. Quero agradecer por todo esse carinho que tem por mim e por meu programa. Por essa aceitação maravilhosa que tiveram quando assumi o lugar da Isabella Mendes. — Parei para recuperar o ar. Não me abalava falar de minha mãe, mas acabava sendo um pouco deprimente. — Continuem comigo e tenham todos uma boa tarde! Assim que o sinal tocou e as câmeras foram desligadas, me apressei em pegar o script do próximo programa. Nunca fui viciada em trabalho, na verdade, nunca gostei sequer de trabalhar, principalmente quando envolvia minha imagem sendo exposta. Minha mãe, por outro lado, adorava ver seu rosto estampado em qualquer lugar que lhe desse muita fama. Nunca tinha tempo para ficar em casa, estava sempre sendo convidada para festas, eventos, inaugurações, entrevistas... enfim, ela era uma mulher ocupada. A sua vida era aquele programa de tevê e sua coluna na revista Fashion, e mesmo que eu não gostasse desse mundo, quando ela pediu antes de morrer que eu assumisse seu lugar, não pude dizer não.


Apenas suspirei forte e assenti. Ela não foi uma boa mãe quando estava viva, mas nunca deixou que me faltasse nada. — Hey, Kayla, exposição de telas hoje à noite, vamos? Virei-me para ver quem vinha ao meu encontro, dei continuidade em meus passos quando vi que se tratava de Orlando. Ele estava sempre tentando me levar para sair, e por causa da minha assessora, quase sempre, eu era obrigada a aceitar. Ele não era feio, mas bonito também não era. Sem contar, que quando começava a falar ninguém conseguia fazê-lo calar a boca. Estava prestes a dispensá-lo quando Yohanna Luíza apareceu em minha frente, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo perfeito bem no topo da cabeça, ajustou os óculos e balançou aquele dedo podre para o meu lado. Me olhou como quem diz: Nem pense em recusar! Revirei os olhos não muito contente com esses encontros forçados que a assessora me fazia ter e sorri amarelo para ela. Respirei fundo dando meia volta e tratei de colocar um sorriso fingido no rosto. Eram apenas negócios, sempre quando ela insistia que eu saísse, era apenas golpe de marketing. As pessoas tinham que me ver nos lugares, tinham que pensar que eu era sociável. Eu sabia que tinha que estar na mídia, que tinha que ser o centro das atenções ao menos uma vez na semana. Eu tinha que dar algum conteúdo para que falassem de mim, mesmo que falassem mal. Só que ninguém sabia o quanto isso acabava comigo. — Olá, Orlando. — Ele beijou minha bochecha e sorriu. — Está cada vez mais linda, Kayla! — Elogiou-me, como sempre fazia. — Obrigada. — Sorri sem mostrar os dentes. — Me pega em casa? — Claro, oito horas? Apenas afirmei com a cabeça e sorri, não iria ser tão ruim assim, eu precisava me distrair e me divertir, mesmo que tivesse um louco me ameaçando por aí. Nesse momento, meus pensamentos voaram até o detetive, estava me perguntando se ele já havia ido atrás dos três primeiros da lista ou se iria demorar um pouco mais para termos outro encontro. Yohanna queria me acompanhar até em casa, disse que fazia


tempo que não saiamos para bater um papo, mas para encher meu saco já bastava estar ao seu lado no estúdio, não precisava disso em casa. Então, disse que queria descansar já que eu teria um encontro logo a noite. Ela gostou da minha resposta, eu tinha vontade de catar aqueles cabelos louros oxigenados toda vez que minha assessora dava aquele sorriso idiota. Dentro do carro, enquanto dirigia meu Porsche azul para a minha residência, tive breves devaneios sobre o dia anterior. O olhar do detetive sobre minhas pernas, o desejo estampado em seu rosto, eu poderia jurar que ele havia ficado de pau duro e nossa... pensar que eu poderia ter o deixado duro me fazia ficar molhada. — O que? – Questionei a mim mesma, um pouco indignada com meus pensamentos sem escrúpulos. Não foi minha intenção provoca-lo, na verdade, eu nem ao menos tinha noção disso, apenas me dei conta quando ele disse que o que eu fazia era um atentado ao pudor. E se ele havia falado isso, era porque alguma coisa aconteceu entre suas pernas. Deixei o carro na garagem de casa, mas diferente dos dias anteriores, Nana não estava me esperando. Achei um pouco estranho, mas pelo horário eu supus que ela estivesse ocupada com alguma coisa. Fui direto para o banheiro, a casa estava silenciosa demais, igual ao que sempre fora quando minha mãe estava viva. Isso me incomodava, às vezes, eu tinha vontade de encher a casa com pessoas, flores e músicas. Mas nunca vi muita utilidade nisso, apenas serviria para me dar dor de cabeça com arrumação, decoração e tantas outras coisas que eu não tinha tempo para administrar, mas lidar com a solidão era algo tão difícil e triste. — Não vi você chegar, está com fome, querida? Virei a cabeça na direção da porta do banheiro, a água com espuma tampava meu corpo até a altura dos seios dentro da banheira. Nana sorriu, seu avental estava sujo com algum tipo de farinha, então supus que ela estivesse brincando de fazer algo na cozinha. E estava torcendo para que fosse aquelas roscas deliciosas que ela acostumava fazer para minha mãe. — Faminta! – Respondi sorrindo. — O que fazia? Entrei e não te encontrei.


— Oh, estava fazendo umas bolachinhas. — Sorriu carinhosa. — Pensei que estivesse fazendo aquela sua rosca incrível, com aquela cobertura de creme e coco. Ela riu alto e balançou a cabeça afirmando. — Você me pegou. Estava mesmo, sei que você gosta. — Pode preparar a mesa? — Já vai jantar? — Sim. Tenho um evento para ir mais tarde com Orlando. — Nana riu, discreta. Sabia o quanto Orlando me incomodava. — Isso só pode ser coisa de Yohanna. – Abaixou a tampa do vaso sanitário e sentou sobre ele, meus olhos a observavam com curiosidade. – Como foi hoje cedo com o detetive? Revirei os olhos, é claro que ela iria perguntar. — Foi bem, ele ficou meio surpreso com o tamanho da lista. — Sorri com luxúria, Nana retribui com um sorriso de canto. — Pegou os três primeiros para começar a investigação. — Acha que algum dos seus ex possam estar fazendo isso com você? Segurei na beirada da banheira e apoiei meu queixo na mesma, isso nunca havia se passado por minha cabeça, mas Nicolas parecia ser bom no que fazia e se ele suspeitava, talvez, estivesse certo. — Sinceramente? Não faço ideia, Nana. – Respondi simplesmente. — Espero que ele descubra logo, já não aguento mais essas ameaças. Nana concordou com um simples balançar de cabeça, levantou e se aproximou para fazer um carinho em meus cabelos. Estava sorrindo apesar de tudo, era encantador a forma que ela conseguia lidar com situações difíceis, eu não conseguia ter essa mesma força, mas me segurava para não desmoronar a qualquer momento. — Vou arrumar a mesa. Deixou o banheiro e assim, abriu espaço para que meus pensamentos fossem me corroer.


Capítulo 4

O dia havia sido produtivo, depois que sai do gabinete do prefeito, acabei passando do restaurante central para comer alguma coisa e justo naquele lugar, encontrei ninguém menos do que Gabriel Aragão. Aproveitei que estávamos no mesmo lugar, sem nada para fazer e em horário de almoço e me ofereci para ser sua companhia. Ele não recusou e conseguimos conversar tranquilamente, nada de palavras de baixo calão para me tirar do sério e acabei o riscando da lista de suspeitos. Renato Camargo foi um pouco mais difícil de conseguir contato. Ele estava viajando a negócios e só voltaria no final do mês. Acabamos conversando por telefone, mas ainda assim não o risquei da lista de suspeitos, eu precisava conversar com ele olho no olho para saber se o que falava era verdade, então esperaria ele voltar. O lado positivo do dia foi que, eu já havia investigado os três primeiros, sendo assim, eu já podia marcar mais um encontro com Kayla para saber sobre os outros de sua lista e, também tinha o jantar com Juliana. Devo confessar que estava mais ansioso pelo encontro do que pelo jantar, mas ainda assim, tinha que ser cavalheiro e agradecer pelo favor que ela havia me feito mais cedo. Fui para casa depois do meu expediente, nesse dia tive de recusar a saída para o bar com meus colegas de trabalho e ainda fui obrigado a ouvir chacota em minhas costas sobre sair com uma mocinha dez anos mais nova que eu. Nunca fui preconceituoso em relação a isso, mas, realmente, Juliana era muito nova para mim e eu sempre preferi mulheres mais maduras.


Eu morava em um prédio de classe média, em um bairro perto do centro. Nunca me liguei a bens materiais, sempre achei isso muito superficial, então, mesmo ganhando bem preferia morar em uma casa pequena, mas humilde e cheia de vida. Antes de ser detetive, eu era advogado, se me permitem dizer, era um dos melhores da cidade, mas após o falecimento da minha mãe em um acidente de carro me especializei em investigação criminal, porque nunca acreditei que aquele acidente fora de fato, casualidade do destino. Passei cinco anos da minha vida buscando por respostas e quando não consegui encontrar, dei o caso como encerrado e tive que admitir que, realmente havia chegado a hora dela partir. Com essa conclusão, me aprofundei cada vez mais no trabalho, minhas saídas eram só aos finais de semana, sendo assim, mulheres eram somente aos finais de semana também. Nunca quis assumir uma relação séria com alguém, porque a única pessoa que amei a esse ponto, havia me trocado por outro homem. Isso me arrebentou de várias maneiras que eu nem ao menos gosto de lembrar, mas acredito que tenha me ensinado a ser mais forte e, até deveria agradecer isso a ela, foi graças a sua infidelidade e abandono que eu havia me tornado o investigador particular mais procurado do estado. — Cara, você tem que levar camisinha. — Não vamos transar. – Rebati ajeitando a gravata. Carlos riu baixo não acreditando no que acabara de ouvir e, eu não o culpava. Se estivesse em seu lugar também não acreditaria. Já fazia alguns meses que não me deitava com uma mulher, acho que estava precisando desse tipo de diversão também, o problema era que eu não queria que Juliana criasse expectativas porque eu via minhas noites apenas como sexo casual e mais nada. — Mas precisa, você está na seca há muito tempo. Isso não faz bem para nenhuma mentalidade machista. — Sério que eu preciso ficar ouvindo isso de você? – Me virei para dar-lhe total atenção. – Não tem nenhum encontro ou alguém mais interessante para atormentar? Depois do acidente da nossa mãe, cuidar do meu irmão caçula passou a ser minha primeira prioridade. Meu pai já estava um pouco de idade, então, não queria que ele tivesse que cuidar desse marmanjão, mas isso não dava ao Carlos o direito de falar sobre minha vida


sexual. — Sim, tenho alguém mais interessante, só que ainda está cedo. Minha sobrancelha arqueou e o fitei tentando intimida-lo, mas isso só dava certo quando se tratava de suspeitos, com meu irmão não. Ele sorriu de canto, estava deitado sobre a minha cama e jogava uma pequena bola na parede. Carlos era quinze anos mais novo que eu, sua aparência nada tinha a ver comigo, ele havia puxado mais ao lado do nosso pai, enquanto eu havia herdado tudo o que podia nos lembrar nossa mãe. — Okay, devo supor que você vai chegar tarde, certo? – Peguei as chaves do carro e caminhei em direção da saída. – Isso é bom, depois do jantar vou com Juliana em uma exposição de telas no teatro municipal. — Cara, vocês tinham que eu ir para o motel, não a essas exposições sem graça. – Ele rolou os olhos e me tirou um sorriso de canto. — Nada de mulheres aqui em casa, sabe as regras. — Sim, senhor! – Bateu continência na intenção de me irritar. Balancei a cabeça e sai, sempre achei que ele e Juliana dariam um par legal, mas por alguma razão desconhecida por mim, Juliana preferia homens mais velhos e não da mesma idade que ela. E isso, automaticamente, me colocava em primeiro lugar na sua lista de paqueras, não que eu ligasse para isso, por favor, eu era solteiro, livre e desimpedido, claro que se uma mulher me desse bola eu enterraria meu pau nela por uma noite inteira. Mas Juliana, realmente, não me chamava a atenção como mulher. Como ela trabalharia até tarde no escritório, decidimos nos encontrar direto no restaurante por volta das 19h00. Eu até cheguei a me oferecer para pegá-la lá, mas ela disse que não precisava, então, fui direto para o nosso local de encontro. Assim que entrei avistei ela sentada em uma das mesas no centro, sorri amigável. — Estou atrasado? — Tinha quase certeza que havia chegado no horário certo. — Não, eu acabei terminando o trabalho mais cedo e decidi vim esperar por você aqui. — Levantou para me cumprimentar, deixei um beijo carinhoso em sua bochecha e puxei a cadeira para


que ela se sentasse novamente. — Está muito bonita! — A elogiei porque isso era uma puta verdade. Juliana estava dentro de um vestido azul marinho, rodado e com mangas longas de renda. — Grata! – Respondeu constrangida e eu sorri por causar essa reação nela. O engraçado era que a única pessoa na qual eu gostaria de ver as bochechas vermelhas por vergonha quando falo, nem sequer prestava atenção em mim. Estava tão enfurnada dentro do seu próprio mundo que nem ao menos percebia o que me causava quando estava por perto. Depois, quando terminamos nosso jantar e fomos cada um em seu carro para a exposição de telas, me peguei pensando naquelas pernas torneadas, da cor do pecado, que combinava perfeitamente com aquela lingerie rendada de cor salmão. Eu iria ficar louco se não visse aquele pequeno tecido de novo. Estacionei o carro um pouco longe da entrada, já que aquelas vagas eram reservadas para as pessoas da alta sociedade. Encontrei com minha acompanhante na entrada e atravessamos o grande salão movimentado. As pinturas em questão, eram da época da idade média, todas pintadas em alto relevo e a óleo. Algumas acabaram prendendo minha atenção, eram realmente, muito formidáveis. Porém, logo após alguns minutos de nossa chegada, um ponto castanho iluminado me chamou a atenção. Estava de costas e conversava alegremente com um homem mais velho, seu corpo coberto por um tecido que deixava suas curvas a mostra. O vestido era justo até as coxas, logo abaixo ele abria elegantemente com uma fenda. A famosa calda de sereia, assistir aqueles canais pagos quando não passava futebol, chegava a ser útil às vezes. Suas costas estavam cobertas e não mostrava nenhum pedaço de sua pele, mas quando ela virou de frente em minha direção, notei aquele decote que quase chegava ao seu umbigo, revelando assim, o molde dos seus seios. Será que ela tinha noção da imaginação fértil que ela alimentava nos homens daquele lugar? Seus cabelos presos em um coque malfeito, com a franja longa solta chegando ao seu queixo. Ela estava linda. Sexy. Altamente provocante. E estava sorrindo para mim, puta merda!


Encontrar o detetive parado no meio do salão me observando, não era algo que eu esperava para aquela noite, mas não posso negar o quanto aquilo havia mexido comigo. Ele estava tão elegante naquele smoking azul escuro que quase não o reconheci. Aqueles olhos castanhos pesando sobre mim, sobre meu corpo. Analisando e aprovando o que estava vendo. Senti um arrepio violento passar pela extensão da minha espinha e ir até a sola dos meus pés. Ele olhava diretamente para mim, não ousava desviar o olhar nem quando estava levando uma taça de champanhe até a boca. Sorri abertamente para ele, nem ao menos me dei conta de que havia feito isso, saiu no automático. Mas logo o sorriso sumiu, Nicolas estava acompanhado e isso tinha me deixado um tanto... desconcertada? É, talvez seja essa a palavra para o sentimento naquele momento. Ambos caminharam em minha direção e, quando Orlando percebeu a aproximação, virou-se de frente para eles e parou ao meu lado. Colocou a mão em minhas costas e sorriu como se, realmente, houvesse intimidade entre nós dois. Rolei os olhos para esse atrevimento e estendi a mão para cumprimentar Nicolas. — Detetive... — Senhorita Mendes... — Apertou minha mão, uma onda de calor assolou cada poro do meu corpo. – Esta é Juliana... — Sim, a secretária do prefeito. — Sorri sem mostrar os dentes para a moça. Já a conhecia, havia lhe visto em alguns breves momentos que fui ao gabinete do prefeito. — Prazer em revê-la. Não era exatamente um prazer, mas certos detalhes nós abafamos. Os olhos do detetive caíram sobre o homem ao meu lado, sorri sem entender o porquê de ter feito isso e coloquei minha mão sobre o tórax de Orlando. Um movimento muito ousado, se comparado ao fato de que ele tinha uma queda por mim, mas naquele momento não


pensei muito nos pós e contras, só queria fazer ciúmes para o detetive e parecia estar funcionando bem. — Este é Orlando... — O âncora do jornal, sei quem é. — Nicolas cortou minha apresentação e cumprimentou Orlando com um aperto de mãos forte. Depois disso, rolou um clima estranho por aproximadamente cinco segundos, ninguém sabia o que dizer e eu estava mais concentrada em encarar aqueles olhos castanhos do detetive. Então, o que eu pensava sobre ele não era exatamente o que ele era, afinal, estava saindo para se divertir... com uma mulher. Não! Com uma moça muito mais nova que ele. Não que isso fosse da minha conta, mas ele deveria se envergonhar. Juliana não beirava os vinte anos ainda e, ele sendo muito mais velho poderia atrair olhares julgadores, ou naquele caso, um olhar ciumento. — Estão aproveitando a exposição? — Puxei assunto ou o silêncio me corroeria. — São tantas pinturas lindas, sabe se alguma está à venda? — Juliana me questionou, não era exatamente ela quem eu queria que respondesse. Na verdade, ela podia ficar muda que eu não ligava. — A sessão das telas à venda é no outro hall. — Respondi com a educação que minha mãe me deu. — Orlando, porque não leva a nossa amiga até lá? — Oh, podemos ir os quatro. Meu olhar poderia ter o metralhado de mil formas diferentes, mas naquele momento, apenas afirmei com a cabeça e os acompanhei até o hall ao lado. Ali, estavam as pessoas mais importantes da cidade. Todas olhando atentamente para as pinturas na esperança de não encontrar uma falsa. Orlando adorava esse tipo de programa, tanto que conhecia cada tela apresentada ali, claro, também conhecia os pintores por trás delas. Por isso, não foi novidade quando começou a falar sobre o assunto, eu sabia que ele faria isso. Orlando, definitivamente, falava mais do que a boca. Senti a aproximação do nosso querido detetive, o olhei por sorrateiro e o flagrei me olhando, de novo. Não fiquei incomodada, apenas sorri mostrando que estava tudo bem, que eu sabia que estava


gostosa e que eu sabia que estava causando imaginações muito pecaminosas nele. Nicolas retribuiu o sorriso, só que tinha alguma coisa a mais, talvez, uma sombra de malícia. Dei as costas para ele, me concentrei no que Orlando falava para Juliana, e a mesma parecia muito interessada em suas informações. Isso era bom, assim meu acompanhante esquecia-se um pouco de mim. — Precisamos nos encontrar de novo. — Aquela voz morna foi sussurrada no pé do meu ouvido, não ousei me virar, apenas inclinei minha cabeça um pouco para o lado, o suficiente para olhá-lo por cima do ombro. — Assim vou começar a achar que tem uma queda por mim, caro, detetive. — Respondi com um tom humorado, sabia que ele queria dar continuidade na lista e me deixava feliz saber que os três primeiros já haviam sido riscados. — Seria mais apropriado dizer, que tenho um tombo, senhorita. Sua resposta me pegou em surpresa, virei meu corpo para ficar de frente para ele, não havia notado em quão perto Nicolas estava até aquele momento. Nossos olhos se encontraram e pude ver um sorriso no canto de seus lábios. — Preciso ver se há vaga para você em minha agenda... — Acho melhor encontrar essa vaga, Kayla. — Aquele tom soou tão sexy em sua boca, que quase não percebi que ele havia me chamado pelo nome. Aquilo era meio estranho para mim, eu jurava que quando o vi pela primeira vez, não havia sentido nada por ele, só que ali, estando tão perto e depois de ter presenciado algumas cenas dele, notei que tinha algo me balançando e, eu rezava para que isso fosse apenas atração carnal e nada a mais. — Ou o que? Vai me prender? – O provoquei. Notei que ele abriu a boca para me responder, mas calou-se logo depois. Parecia estar travando uma batalha interna consigo mesmo, talvez estivesse em dúvida sobre se deveria ou não, me responder com malícia e segundas intenções. E, sim, ele podia e devia fazer isso. Queria que ele fizesse isso, ansiava para ouvir uma cantada desse detetive. — Não — Chegou um pouco mais perto de mim e continuou


com suas palavras de forma sussurrada, perto do meu ouvido. —, mas existe apenas uma forma em que eu gostaria de usar as algemas em você... Puxei o ar e o prendi, totalmente desnorteada com sua fala. Ainda estava tentando entender o que estava acontecendo ali entre nós dois, mas naquele momento, não conseguia raciocinar direito, ainda mais quando ele usava trocadilhos com segundas intenções para cima de mim. O pior, era que eu, definitivamente, queria qualquer coisa com ele. De onde que havia surgido esse interesse incomum por Nicolas, eu não sabia, mas estava completamente à mercê de suas palavras. — Costuma cortejar suas clientes, detetive Almeida? — Deilhe as costas. Não podia ficar o encarando por muito tempo, ou perderia a razão. — Só quando me interesso por ela. Senti quando a mão do detetive repousou sobre a minha cintura, apertou de leve me fazendo arfar. Não me designei a olhar em sua direção, não poderia fazer isso, sua aproximação estava causando reações estranhas em meu corpo e isso poderia significar a perda da minha sanidade. Por Deus, ele estava altamente provocante dentro daqueles trajes e suas palavras não deixavam meu cérebro funcionar direito. O que ele queria? Me enlouquecer? Me deixar de quatro por ele? O desgraçado sabia o que estava fazendo e fazia com maestria no assunto. Caminhamos lado a lado, apreciando as pinturas e ouvindo Orlando mataricar sobre tudo o que víamos. Eu já estava cansada de tudo aquilo, já deveria passar das 22h00 da noite e eu havia tido um dia cheio por conta das gravações. O problema, era que tinha ido de carona com Orlando para a exposição, e ele estava tão animado falando sobre as telas que tive medo de chama-lo para ir embora. — Algum problema, Kayla? — Nicolas sussurrou ao se aproximar de mim. — Estou cansada e gostaria de ir embora. — Revelei sentindo a sandália apertar meus calcanhares. — Não viera de Porsche essa noite?


O som da voz do detetive parecia um tanto curioso. — Não. — Sorri em resposta. — Você está de carro? – Ele sorriu afirmando, não pude deixar de soltar um sorriso indiscreto no canto dos lábios. — Será que poderia me levar deste lugar? — Para a sua casa? — Questionou-me, notei suas mãos irem até o bolso de suas calças e ouvi o soar de suas chaves. O sorriso em seu rosto demonstrando uma certa malícia e meu corpo reagindo de forma positiva diante daquilo. — Para onde quiser, detetive. Nicolas sorriu abertamente, segurou em meu pulso com firmeza e me conduziu por entre as pessoas, até o lado de fora do teatro. Seu carro estava estacionado em um lugar afastado, e eu agradecia mentalmente por aquilo, mas ainda assim, haviam fotógrafos flagrando cada passo que eu dava. Não sabia se ele estava me levando para a casa dele ou a minha, mas naquela altura, eu desejava que fosse a primeira opção.


Capítulo 5

Passei a merda da noite esperando qualquer motivo para sair daquele lugar. Por Deus! o que estava acontecendo entre minhas pernas poderia me levar a cometer um delito no meio daquela multidão. Como Kayla conseguia mexer comigo daquela forma? Um simples passo fazia seu corpo movimentar-se graciosamente. Uma simples palavra, fazia seus lábios me deixar à beira de um colapso. Apesar das minhas falas altamente sugestivas, precisei assumir um autocontrole que nem ao menos, sabia ter e Kayla era uma mulher muito esperta, sabia exatamente o que me causava. — Detetive, estou curiosa sobre o nosso destino. Olhei pelo canto dos olhos e a vi se mexer sobre o estofado do meu carro, cruzou justamente a perna que estava exposta por conta da fenda e sorriu para mim, de novo. Ah, ela estava deixando muito claro as suas intenções, eu sei que estava. E para a minha sorte, pareciam responder as minhas. — Pensei que quisesse ir para a casa. – Comentei, discreto e restrito. Sua postura diante da minha resposta diria se ela desejava a mesma coisa que eu, e esperava que sim, porque tinha algo entre as minhas pernas dolorido, só de pensar na ideia de enterrar-se dentro dela. Ela ficou em silêncio, eu não poderia dizer se aquilo era bom ou ruim, mas se ela não falasse nada, na certa, eu pararia o carro e a jogaria no banco detrás contra a sua vontade. Porque bem no momento em que a olhei, a maldita estava ajustando o decote do vestido e eu vi, vi seus seios. Ah, merda!!! — Senhorita Mendes, você, definitivamente, vai me fazer cometer um delito.


— Faça mais e fale menos, caro detetive. Freei o carro bruscamente, minha respiração desajustou sentindo todo aquele tesão dentro do carro. Meus olhos buscaram os dela e encontraram. Kayla sorriu recostando suas costas no banco, umedeceu os lábios mantendo o contato visual comigo. Aquilo era uma permissão para alguma coisa? Ela deveria ser apenas uma cliente, nunca tive o hábito de sair com clientes, nem o hábito de pensar na hipótese de comer alguma cliente, mas Kayla... Ah, Kayla! — Foda-se! Minha voz saiu baixa, mas minhas mãos mostraram atitude. Segurei em sua nuca com certa selvageria, a outra mão estava concentrada em apertar com força sua cintura. Kayla ofegou diante da minha reação, mas não protestou contra e isso me estimulou a continuar. Ela levantou o corpo sobre o banco e percebi que a sua vontade era de subir em meu colo, mas não conseguiria por conta do vestido apertado. Me surpreendeu quando ela mesma levou as mãos até a fenda daquele vestido e terminou de rasga-lo. Pude sentir meu coração saindo pela boca quando percebi que ela estava sem a parte debaixo da lingerie, essa mulher era sempre assim? Parecia estar preparada para qualquer momento, principalmente quando envolvia sexo, já que a falta de sua vestimenta íntima facilitava o processo. Meu pau pulsou dentro das calças, oprimido, sádico, compulsivo, louco para tê-la. Desabotoei a única coisa que me separava dela, com pressa, com fome, levei a calça e a cueca até meus calcanhares e pude sentir a bunda dela sobre o meu colo, suas pernas apertando com firmeza os lados da minha cintura ao sentar de frente para mim. Meu corpo tremeu, nossos lábios se uniram, Kayla movimentou o quadril me fazendo sentir sua intimidade molhada passar na cabeça do meu pau. Abafei o gemido ao morder o lábio inferior dela, minhas mãos apertaram sua cintura e logo já estavam por baixo do vestido. Só Deus sabia o quanto estava desesperado e louco para ter esse tipo de contato com Kayla, me chamem de sem vergonha quem quiser, mas ela era uma mulher muito gostosa e, eu, igual a qualquer homem nessa situação, já havia perdido o juízo. Não posso negar, desde a primeira vez que eu a vi, quis


apalpar seu corpo e desvendar tudo o que ela escondia por baixo das roupas. Segurei nos cabelos de sua nuca, meus lábios desceram pelo seu pescoço deixando uma trilha de beijos e lambidas, que fazia Kayla suspirar ao meu toque. Aquilo era tão lindo, ela parecia estar tão entregue ao momento que só aumentava minha vontade sádica de possuí-la, mas eu sentia que apesar de suas reações, Kayla estava com algum tipo de bloqueio. — Detetive... Ela sussurrou como se estivesse sentindo alguma dor, parei imediatamente tudo o que estava fazendo e olhei diretamente em seus olhos. Eles estavam fechados e haviam lágrimas molhando seu rosto. Meu cenho enrugou e quase fiquei desesperado com medo de ter feito algo que não lhe agradou, sabia que, de alguma forma, deveria ter ido com mais calma. — Você está bem? — Segurei seu rosto em minhas mãos, esperando que ela abrisse os olhos e me olhasse, mas a reação que veio a seguir deixou-me altamente frustrado e preocupado. — Me leve para a casa, sim? — Respondeu, retirou-se de cima do meu colo e voltou a sentar ao meu lado, no banco do carro. Fiquei confuso, pensei em perguntar o que havia acontecido, mas Kayla havia virado o rosto na direção da janela e seu silêncio dizia que se eu perguntasse, corria o risco de vê-la surtar. Então, mesmo contra a minha vontade, arrumei minhas roupas e voltei a dirigir o carro por entre as ruas calmas do bairro indo em direção da residência dela. Comecei a repassar tudo o que havia acontecido e não me lembrava de ter feito algo que lhe desagradasse, Kayla parecia querer aquilo tanto quanto eu, então o que havia acontecido?


Bati a porta do quarto com tanta força, que não demorou para ouvir a voz de Nana atrás da mesma, implorando para que eu a deixasse entrar. Não estava com cabeça para conversas, nunca havia sentido algo tão forte por alguém como senti pelo detetive, isso me assustou, me fez lembrar da primeira vez em que senti algo parecido e o quanto eu havia sofrido. Não sei o que estava se passando em minha cabeça quando rebati as suas provocações, muito menos quando o deixei frustrado daquele jeito. Ele deveria me odiar, e certamente, não olharia na minha cara mais. Nana pediu mais uma vez, dei de ombros passando demaquilante no rosto, precisava me livrar de toda aquela maquiagem e de toda aquela vergonha que estava sentindo de mim mesma. Estávamos tão perto, eu estava tão entregue, queria aquilo mais do que ele, só que não consegui. Como pude atiça-lo e depois jogar aquele balde de água fria? — Kayla, pela última vez, me deixe entrar. A porta não estava trancada, mas em minha casa sempre houve respeito e ninguém entrava em meus aposentos, sem ates bater na porta e pedir permissão. Meus olhos estavam vermelhos, assim como meu nariz, por culpa das várias vezes em que eu o cocei enquanto tentava controlar as lágrimas. Me rendi, sentindo uma angústia afligir meu peito, acho que no fundo eu estava chocada comigo mesma. — O que aconteceu? — Questionou-me assim que abri a porta. — Sou uma idiota, com carteira registrada, formada no curso superior de frustrar homens. – Minha resposta entregou minhas


emoções, Nana sempre fora uma mulher muito sábia. — Orlando te fez algo? — Não. Nossa, Orlando! – Exclamei, lembrei de que havia fugido da exposição sem avisá-lo. Peguei o celular em mãos e mandei uma mensagem para ele me desculpando. — Encontrei o detetive. — Oh... — Respondeu somente. — Eu não sei o que aconteceu, nunca havia me sentido atraída por ele, mas hoje, nossa! Hoje ele estava tão bonito, tão sexy... — Hum... — Falou coisas que fez cada parte do meu corpo implorar por ele, mas no fim, quando estávamos em seu carro, seu pau prestes a me invadir... Nana, eu... — Travou? — Travei! – Concordei derrotada. — Lembrou de David? — Perguntou, mas pelo seu tom já sabia a resposta. — Sim. — Rolei os olhos, chateada. — Queria tanto, Nana, tanto! Mas a imagem de David me atormentou e acabei frustrando a nós dois. Era como se eu pudesse vê-lo no lugar do detetive. — Querida, quantas vezes tenho que falar? David está morto! Não pode te machucar. Meu coração estava com os batimentos acelerados, sentei na beirada da cama com o celular em mãos e limpei mais uma vez a lágrima que escorria pelo meu rosto. Nana sentou ao meu lado e me abraçou. Por mais que todos dissessem que ele estava morto, não conseguia esquecer a repulsa, o nojo e o medo. Ele foi um homem muito mal em minha vida, me batia, me torturava. Ele me ameaçava constantemente, dizia que se alguém soubesse minha mãe morreria. David era um homem tão ruim e eu era a única que não percebia isso. — O oceano o engoliu, Kayla, pare de se atormentar. O detetive parece ser um homem bom, se está interessado em você e se isso for recíproco, chega de camuflar seus sentimentos. Chega de viver no passado! Aquilo não parecia ser apenas um conselho, também parecia ser uma ordem. Nana quem presenciou tudo o que aconteceu, as


noites que chorei de dor. Ela quem cuidou dos meus machucados, da minha alma traumatizada. No início, tudo parecia bem, David mostrava ser um homem muito digno, bom, amável, mas em três meses de namoro ele começou a ficar possessivo. Me proibia de sair, rastreava minhas ligações e ficou violento. Eu tive medo, por mais que Isabela e eu não nos déssemos bem, não queria que mal algum acontecesse a ela. Não adiantou de nada no fim, sua morte me trouxe uma prisão. — Sabe o que isso significa, não sabe, minha pequena? — Sua voz era doce, funguei e levantei meu olhar para ela, negando com um balançar de cabeça. — Querida, quantos homens você teve depois de David? Respirei fundo, não entendendo onde ela queria chegar. Deixei minha cabeça pender para trás e suspirei. Não havia tido muitos depois de David, até porque tinha medo de me relacionar e sentir aqueles sentimentos fortes que sentia por ele, porque não queria ser vendada de novo, ao ponto e ficar cega e não enxergar quando o relacionamento estava me fazendo mal. — Kayla, tira essa venda dos olhos e assume para si mesma que tem algo acontecendo aqui... — Pousou sua mão sobre meu coração. — Nenhum outro te perturbou a ponto de te fazer lembrar de David. — Nana... — A repreendi pelo o que estava prestes a falar. — Você deveria tirar uma folga, porque não vai para a sua casa de campo no interior esse fim de semana? – Beijou o topo da minha cabeça, mudando de assunto. — Mesmo se quisesse eu não poderia, a investigação ocorrerá melhor se eu estiver por perto. — Chame o detetive Almeida para ir com você, assim você não vai sozinha, continua com a investigação e resolvem as pendências entre vocês. — Ah, não! Não mesmo, depois de hoje não vou ter cara para ficar perto dele. — Balancei a cabeça negando. Eu não tinha cara para sequer olhar na direção dele, imagine compartilhar um final de semana com o homem. E depois do que fiz ao coitado, certamente, não iria querer mais nada comigo. E eu também não deveria estar me preocupando com isso, o que estava sentindo por ele era apenas atração de momento, depois tudo iria


voltar ao normal. O detetive não iria passar de um dos meus tantos casos. — Acredito! — Ela sorriu confiante. Naquele mesmo instante a campainha tocou, Nana sorriu e deixou meu quarto, pensei em mergulhar meu corpo na banheira e dormir nela até outra encarnação, mas a voz de Nana meio alterada havia me chamado a atenção. Andei com pressa até a entrada da minha residência, e vi um Júnior tentando entrar. Apenas rolei os olhos e pedi licença para Nana. — Prefeito... — Olá, baby. — Sua voz estava me causando náuseas e sua imitação de Christian Grey era ridícula. — O que você quer? — Questionei rígida. O que ele fazia em minha casa? — Estava em uma festa nas redondezas e resolvi te visitar. — Não é uma boa hora, Júnior. Não que exista uma boa hora para estar com você. — Destilei meu veneno. — Entendo. Nem mesmo uma xícara de café? Qual era o problema desse homem? — Nem mesmo água. — Entendo. Bom, você não tem retornado minhas ligações. Fiquei preocupado. Sabe que me importo com você, não sabe? — É mesmo? — Arqueei a sobrancelha. — Obrigada. — O que está fazendo? — Questionou ao perceber minha recusa em abrir a porta. Céus! — Nada, só que estou com companhia, então... — Nunca gostei de mentir, mas aquela parecia ser uma emergência. — Até outro dia. Já havia me afastado da porta e estava começando a fechá-la quando me parou com sua voz alta e forte. — Almeida está aí dentro com você? — O que? — Enruguei a testa, perplexa. — Ele me procurou, Kayla. E andei lhe dando uns conselhos. O cara é cabeça quente, metido a conquistador... tome cuidado. Quando pensei em responder, ele deu as costas e foi embora.


Balancei a cabeça. Era evidente que não havia a menor simpatia entre Nicolas e o prefeito, e isso acabou me fazendo imaginar o que poderia ter acontecido entre eles. — Homens! — Exclamei indo direto para o meu quarto. Após essa conversa com o prefeito, o melhor era voltar para meu plano original e adormecer na minha amada banheira.


“Cacete, droga de mulher difícil!”. Ela estava tão entregue, queria tanto quanto eu, podia sentir o cheiro da sua intimidade esparramando-se pelo lugar de tão molhada que estava, então o que aconteceu? Caminhei da cozinha até a sala do meu humilde apartamento, o copo de uísque em minhas mãos e o volume em minhas calças deixava claro o quanto eu estava frustrado. Ela havia me atiçado de todas as formas e depois, sem que eu pudesse saber o que aconteceu, ela desistiu. Eu poderia passar a noite inteira acordado, pensando no que ela havia sentido ou pensado, mas a verdade era que isso não me ajudaria em nada. Kayla tinha segredos mais profundos, segredos que ela não queria dividir com ninguém e se ela tinha esses tipos de segredos, então, eu não estava fazendo o meu trabalho direito. Precisaria recomeçar toda a minha lição de casa, deixar os suspeitos de lado e focar em Kayla. Mas algo me dizia que depois dessa noite, as coisas iriam ficar estranhas. — Nícolas? Olhei na direção da porta e encontrei Carlos me observando em silêncio. Ainda era cedo, pela forma que ele havia falado antes de sair, supus que fosse dormir fora, mas não. Talvez as coisas para ele também não tivessem dado certo. — Sua noite foi tão agradável quanto a minha? — Questionei, não havia uma sombra de sorriso em minha boca, também não havia humor em minha voz. Eu estava sério e perdido em meus desejos. — Você nunca foi bom com ironias, Brow! — Caminhou até o sofá e sentou-se sobre o braço do mesmo. — O encontro com Juliana não foi como esperava?


— Juliana foi maravilhosa. — Comentei e bebi um gole da minha bebida. — O problema foi quando encontramos Kayla na exposição de telas. Isso me fazia lembrar que eu havia saído sem me despedir de Juliana ou, ao menos avisar que estava indo embora. Naquele momento, eu só pensava em tirar Kayla daquele lugar e ficar a sós com ela. O celular estava no bolso da minha calça, o peguei em mãos e disquei o número de Juliana. Meu irmão estava atento aos meus movimentos e parecia me analisar, sempre achei que ele levaria jeito como detetive, afinal, ele também tinha uma facilidade muito grande de saber as coisas apenas por observar. — Nic? Oi! Você está bem? — Queria me desculpar por tê-la deixado sozinha na exposição. — Sem problemas. Orlando me fez companhia o tempo todo, demorei para sentir a sua falta. Levou Kayla embora? — Sim, sim. Ela pediu que eu a levasse e como estou... — Está tudo bem, Nick. Você é detetive e ela queria proteção para ir embora, é compreensível. Respondeu calma, acabei sorrindo de canto. — Tenha uma boa noite, Juliana! Carlos ainda me observava quando guardei o celular de volta ao seu antigo lugar, bebi mais um pouco de uísque e passei por ele indo em direção ao meu quarto. Eu o conhecia o suficiente para saber que ele começaria a falar asneiras, porque quando se tratava de mulher, era só isso o que ele fazia. — Você estava com Kayla? Continuei em meu caminho sem me dar ao luxo de respondelo, meu irmão era inteligente e entenderia meu silêncio como um sim. O problema era o que ele iria fazer com essa informação. — Puta merda, mano! — Exclamou, parei com a mão sobre a maçaneta da minha porta e o olhei sobre os ombros. — Vocês transaram? Eu sabia que isso uma hora ou outra iria sair da sua boca, Carlos conseguia ser muito idiota quando queria, e eu tinha certeza que


usaria a informação para me encher o saco. — Isso não é da sua conta! — Já vi que não transaram — Rolou os olhos. — Não esquenta, você consegue pegar outra. — Pare de falar como se as mulheres fossem um objeto descartável. — Meu cenho enrugou mostrando o quão irritado eu estava, mas não acho que era com ele, estava mais para o momento em si. — Fala como se nunca tivesse feito isso. — Cruzou os braços. — Qual o problema? Está gostando dela? Bastou aquelas três últimas palavras para fazer meus pensamentos corroerem cada parte do meu cérebro, não podia ser mesquinho ao ponto de não assumir que eu sentia algo por Kayla, mas ao meu ponto de vista, o que eu sentia era apenas atração carnal. Pelo amor! Já deram uma olhada no corpo daquela mulher? — Isso não vem ao caso, ela é minha cliente e vou tratá-la como tal a partir de hoje. — Passei meu corpo para dentro do pequeno cômodo. — Até amanhã!

Já era hora do almoço quando um e-mail pulou na tela do computador, passei o mouse sobre ele e cliquei para revelar seu conteúdo. Apesar do remetente ser o mesmo endereço de e-mail de Kayla, não era a sua assinatura ao final do pequeno texto. Aquilo me chamou a atenção, Nana, a governanta dela estava me fazendo um convite informal para passar o final de semana na casa de campo, no interior. Devo confessar que fiquei um pouco desapontado em não ter sido a própria Kayla em fazer o convite, mas supus que ela estivesse atarefada com seu programa de televisão. Apenas respondi que estaria fora da cidade naquela semana, mas que tentaria estar de volta para acompanha-las. Quando acordei pela manhã decidi dar uma olhada em todas as informações que eu tinha sobre Kayla e aquilo me fez ver que não tinha o suficiente, eu precisava de mais. Dei alguns telefonemas e fiz


mais algumas pesquisas, descobri coisas que haviam passado de sorrateiro por mim e acabei ficando puto comigo mesmo. Mexer no passado de Kayla significava me ausentar por alguns dias e isso no fundo poderia ser bom, precisava colocar minha cabeça no lugar antes de voltar a me encontrar com ela. — Almeida? — Tirei os olhos da tela do computador e olhei para meu colega de trabalho, nós mal tínhamos tempo para conversar, sempre estávamos enterrados em nossos casos policiais. — Por que seu relatório de hoje deu como inconclusivo? — Por que não posso concluir algo que está errado. — Levantei, arrumei minhas coisas que estavam sobre a mesa e o olhei. — Vou viajar até o litoral, preciso checar umas evidências, posso pedir um favor? — Hum —, Ele me observou com atenção. Os anos que trabalhamos juntos fez com que conhecêssemos um ao outro muito bem. — Algo relacionado aquela apresentadora? — Pode cuidar dela enquanto não estou presente? Só por precaução. — Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, só não sei se tenho a mesma paciência que você para lidar com riquinhas mimadas. — Não a subestime. – Deixei um sorriso maldoso aparecer. Não posso negar que havia pensado a mesma coisa sobre ela antes de começar com as investigações, mas Kayla mostrou-se ser diferente das minhas expectativas, então ela poderia surpreender meu amigo também. — Qualquer coisa me avise. Deixei sobre a mesa algumas informações que ele deveria saber sobre Kayla antes de se apresentar a ela como seu guardacostas, eu não queria voltar de viagem e saber que meu amigo estava preso em uma cadeia por tentar matá-la. Kayla tinha uma personalidade forte, isso poderia gerar atritos entre ela e o detetive Cooper, eu esperava que ambos fossem adultos para saber ao menos tolerar um ao outro nesses poucos dias que ficariam juntos.


Capítulo 6

Passei o dia inteiro aguardando pela ligação de Nicolas, ele havia falado que gostaria de marcar outro encontro, então, supus que ele já houvesse investigado os três primeiros da lista, só que o problema foi aquele acidente que tivemos dentro do carro. Desejava com todas as forças que ele não houvesse desistido de mim por conta daquilo, quer dizer, desistido do meu caso. Eu precisava dele, precisava de verdade que ele desse continuidade em seu trabalho, estava disposta em ajudar no que fosse possível. Cheguei em casa depois de um longo dia de gravações e me surpreendi ao ver um homem de terno preto e pose rígida, parado no meio da minha sala de visitas. Meu cenho enrugou, no mínimo, esperava encontrar o detetive Almeida ali e não outro homem do departamento. — Olá. — Cumprimentei, estava meio perdida. Nana levantou-se do estofado macio em que sentava e caminhou ao meu encontro. Meus olhos caíram sobre o distintivo do homem e acabei ficando mais perdida ainda. — Senhorita Mendes? — A própria. — Respondi ao me aproximar, aquele homem parado em minha frente, manteve seu olhar sobre mim, como se me observasse com atenção. — Em que posso ajudar, senhor...? — Detetive Cooper. — Estendeu a mão esperando que eu a pegasse, e assim eu fiz. — Detetive Almeida pediu para que eu assumisse seu caso essa semana. — O que? — Pude ouvir o estalo do meu queixo quando chegou ao chão.


Não podia acreditar que Nícolas havia passado meu caso para outro detetive, será que estava tão frustrado assim? Se ele era bom como milhares de pessoas diziam ser, não podia misturar o pessoal com o profissional, que tipo de homem faz isso? — Ele viajou a negócios e para manter a senhorita em segurança enquanto está fora, pediu esse favor a mim. — Respondeu de prontidão, sério. — Ele não é mesmo um homem agradável? Mesmo quando precisou viajar pensou em sua segurança. — Nana sorriu, parecia feliz com a atitude do detetive, eu já não poderia dizer o mesmo, isso para mim cheirava a desculpas para não me encontrar. Ele estava me evitando. — Pois bem, senhor Almeida disse quando volta? — Questionei colocando minha bolsa sobre o sofá. — No final de semana. — Colocou as mãos dentro dos bolsos da calça e voltou a me observar com atenção. — Porque ele pediu a você que me protegesse? É segurança? — Arqueei a sobrancelha o sondando, por qual motivo o detetive colocaria um segurança em minha cola? — Trabalho no mesmo ramo que ele. — Continuou ao me ver confusa. — Seu pedido foi de modo pessoal, não profissional, por algum motivo ele pensa que você deve ser atacada em algum momento. Essa informação, que poderia ter sido omitida de mim pelo simples fato de me deixar nervosa, acabou fazendo alguns pelos do meu corpo se arrepiarem. — Ele deixou todas as informações necessárias sobre a senhorita, mas devo perguntar se há alguma coisa a mais que eu deva saber. — Disse em seu tom astuto e profissional. — Ele falou sobre a lista que está investigando? — Sim, mas não tenho permissão em prosseguir. Detetive Almeida pausou a investigação dos suspeitos e retomará quando chegar do litoral. — Respondeu sem emoção. — O que ele foi fazer no litoral? — Arqueei a sobrancelha, talvez ele não estivesse fugindo afinal. — Lamento, informação restrita!


Ele era mais careta do que Nícolas, pelo amor! Céus, como eu odiava homens sérios e de cara fechada. Eles simplesmente não me desciam, pareciam estar escondendo alguma coisa sobre o passado e nunca parecia ser algo bom. — Há alguma coisa que eu possa fazer pela senhorita? Apenas neguei com a cabeça para não dar continuidade em nossa conversa, avisei que iria tomar um banho e que logo desceria para comer alguma coisa, pois estava pensando em sair com Yohanna. O detetive deu uma balançar de cabeça, abriu os botões do seu terno e sentou-se em meu sofá, dando a entender de que iria me esperar. Peguei minha bolsa, dei as costas e acabei deixando meus olhos rolarem sem querer, eu esperava do fundo do coração que Nícolas houvesse viajado a trabalho mesmo. Subi as escadas com pressa, queria a minha banheira cheia de espumas. Me despi com cuidado e joguei as peças de roupas em seu devido lugar, enquanto a banheira enchia liguei meu notebook para ver algumas informações sobre o detetive Cooper. Mesmo que Nícolas o houvesse mandado, não poderia confiar cem por cento neste homem, eu nem o conhecia. Mas, em meio a essa busca, acabei encontrando informações sobre Nícolas, ambos pareciam ser muito amigos, já que na maioria das fotos, os dois estavam juntos. Sempre segurando algum certificado em mãos. Acabei concluindo que fora uma boa escolha ter mandado Cooper em minha casa, parecia ser tão competente quanto Nícolas, isso me agradou. Não o fato da competência de Cooper, mas sim, a preocupação de Nicolas em querer me manter segura. Isso devia de ser algo bom, certo? Talvez, ele houvesse viajado a trabalho mesmo. Olhei com atenção para a foto do detetive Nícolas, ele tinha um brilho no olhar... um brilho que parecia estar perdido, isso fez algo passar por minha cabeça. Talvez ele também tivesse fantasmas em seu passado, afinal, todos têm. E eu estava muito curiosa em saber quais eram, mas para isso eu teria que falar dos meus e eu não sabia se estava preparada para isso. Talvez o detetive já até soubesse sobre eles, já que dizia ter feito sua lição de casa sobre mim. Voltei ao banheiro e deixei meu corpo repousar dentro da banheira, a água quente entrou em contato com minha pele, fazendo-


me relaxar por inteira. Tombei meu corpo para trás a fim de escorar minha nuca na borda e fechei os olhos. Minha mente viajou para lugares não mapeados e proibidos. Não demorou para que a cena de dois dias atrás chegasse até mim, o detetive parecia tão excitado e, sua excitação me deixou à beira de um colapso. Minhas mãos começaram a fazer o mesmo caminho que as mãos dele fizeram naquela noite, era como se eu ainda pudesse sentir todo aquele calor emanar de nossos corpos. Estávamos em sintonia, um entregue ao outro, meus desejos mais profanos aflorando sobre a pele e fazendo uma vibração descer de encontro a minha intimidade. Abri os olhos arfando ao ver o que eu estava fazendo, meus devaneios haviam feito meus dedos pegar o caminho do paraíso e quase me masturbei pensando no detetive. Pisquei várias vezes não acreditando no que eu ia fazer, balancei a cabeça meio inconformada e sorri para mim mesma. Já que eu havia começado, que mal teria em terminar? Fechei os olhos na esperança de ter as imagens do detetive dominando minha mente de novo e isso não demorou para acontecer, apertei meus seios sentindo minha intimidade vibrar em excitação, levei minha mão para mais além e passei os dedos com delicadeza por cima do meu clitóris. Estava inchado. Será que o detetive aprovaria se me visse desta forma por causa dele? Meu quadril começou a se movimentar, sentindo aquele choque gostoso que meus dedos causavam, logo, me vi aumentando a velocidade. Minha boca entreabriu e deixei um gemido escapar, em seguida, outros gemidos vieram. A água balançava dentro da banheira formando ondas, meu corpo prestes a se perder no melhor orgasmo masturbado que eu já tivera. Soltei meu último grito quando senti as coxas inferiores da minha perna se contraírem, deixei minha cabeça pender para trás e respirei desajustado. Um sorriso malicioso surgiu em meus lábios e acabei soltando um riso baixo. — Obrigada, detetive Almeida.


Não tive tempo para descansar após descer no aeroporto do litoral, na verdade, eu poderia ter ido a um hotel e ter deixado a investigação para mais tarde ou para o outro dia, mas eu precisava terminar tudo em tempo para o final de semana. Em minhas pesquisas mais avançadas, descobri que Kayla teve um namorado possessivo no passado e que esse mesmo sujeito, havia sofrido um acidente de helicóptero e caído no mar. A polícia achou apenas os destroços, o corpo não fora encontrado e isso me chamou a atenção. O acidente aconteceu um mês antes de Isabella Mendes falecer após um ataque na rua, o hospital dissera que ela havia sido vítima de um assalto enquanto descia do seu carro à noite, para entrar em um restaurante, mas, e se não houvesse sido apenas um assalto? — Detetive Almeida? — Tenente Richard! – Cumprimentei o tenente da marinha. — Chequei as informações que me mandou por e-mail mais cedo. — Alguma novidade? — O corpo não foi encontrado, assim como nenhum documento que poderia pertencer ao homem que pilotava o helicóptero, só conseguimos recolher os destroços. Isso não era nenhuma novidade para mim. — Tenho acesso? – Peguei um papel que o tenente levantava no ar, logo percebi que era uma imagem do dia do acidente. Meus olhos analisaram com cuidado, ainda assim, não pareciam ter reunido todas as partes do helicóptero. — Posso dar um jeito nisso. — Me respondeu com um sorriso sacana na boca e apertamos as mãos.


Encontrar o balcão onde guardavam todas as provas e evidencias, não foi uma missão difícil e posso dizer que fiquei surpreso com todo o conteúdo que havia naquele lugar. Coloquei as mãos dentro da calça e um assovio saiu por entre meus lábios, eu me sentia dentro de um parque de diversões. A área era extensa, pegava quase três quadras do bairro industrial da cidade, era um ótimo lugar para esconder evidências. Procurei pelo interruptor e quando o achei, liguei todas as luzes. Eram centenas de carros apreendidos, isso sem contar em algumas lanchas e iates, aquele lugar parecia uma relíquia para mim. Sempre tive a ambição de ganhar uma promoção, algo que me desse acesso a adrenalina das ruas, ao invés da comodidade de um escritório. Tudo bem, admito que minha posição era boa, mas não me deixava muito feliz. Sentia necessidade de uma agitação e trabalhar como detetive, nem sempre me dava o que procurava. Olhei para o papel em minha mão, onde estava anotado a ala em que foram colocados os pedaços do helicóptero e comecei a andar. Confesso que parava no meio do caminho para dar uma olhada em outras coisas, não tinha como estar naquele lugar e ignorar tudo o que havia em volta. Era muitas provas e evidencias, o sonho de qualquer detetive. — Achei você. – Minha voz saiu morna quando encontrei o que tanto procurava. Eles haviam tentado reconstruir o helicóptero para poder ver a linha de fabricação, mas haviam partes faltando, ainda assim, se eles tivessem ido um pouco mais a fundo na investigação, talvez, houvessem conseguido alguma coisa. Me joguei de joelhos no chão e entrei por baixo tentando encontrar alguma coisa que eles tivessem deixado passar despercebido, não me importava se não descobrisse nada, mas queria ver com meus próprios olhos antes. Minhas costas ficaram apoiadas contra o chão e minhas mãos alisavam cada parte reconstruída e faltava exatamente onde marcava a linha de fabricação. Coincidência? Eles podiam acreditar nisso, eu não.


Parecia que alguém não queria que descobrissem, pois assim, não teriam como ter certeza de quem estava dentro do helicóptero. Meu celular estava tocando, mas eu estava em uma posição desfavorável para atender, então tive que deixar cair na caixa postal. Ao tentar sair de onde estava, acabei batendo a testa no apoio e um barulho ecoou pelo lugar. Minha atenção foi para dentro do helicóptero, quando um compartimento abriu. Levantei e cheguei mais perto, eu não poderia entrar ou todo o resto cairia no chão desmontado, me contentei em olhar de longe. O compartimento ficava na parte de trás do helicóptero, quase no teto e talvez já até tivessem o achado enquanto investigavam. Respirei pesado sentindo uma leve dor nas costas, ficar em posição desconfortável no chão depois dos trinta anos, pode acabar com a coluna, mesmo para alguém que faz treinos frequentes, como eu. Um barulho veio mais ao longe, como se alguém tivesse chegado, mas logo ficou em silêncio de novo. Entrei em estado de alerta, poderia ser qualquer um do departamento da marinha ou poderia ser alguém sem distintivo, afinal, eu havia sido ameaçado também. Havia algo naquele compartimento, ainda que estivesse vazio, alguém já havia pego. Andei em movimentos calmos pelo galpão, olhei com atenção para todos os lados e levei minha mão direita até as costas, onde havia uma arma muito bem guardada e escondida por conta da jaqueta. Peguei o celular em meu bolso e digitei uma mensagem para o tenente Richard, minha investigação não havia parado ali, ainda havia mais e eu iria até o fim disso.


O vento fazia meus cabelos chicotearem, também conseguia ouvir o som da minha respiração enquanto dirigia pelas ruas movimentadas após o horário de pico. Ao meu lado, detetive Cooper segurava no apoio à sua frente com força e tensão. Um sorriso apareceu no canto dos meus lábios, ele parecia estar altamente desconfortável ao meu lado e eu gostava disso. — Algum problema detetive, Cooper? — Poderia dirigir com mais calma? — Olhou em minha direção, mas não pude ver a expressão em seu rosto. — Estamos indo tirar alguém da forca? — Rum! Vocês detetives são sempre assim? – Dei de ombros evitando olhá-lo. — Assim como? — Caretas! — Troquei a marcha e pisei no acelerador. Eu precisava ir me encontrar com Yohanna em um bar no centro da cidade, claro que o guarda costas, vulgo detetive Cooper, iria junto. Eu havia ganhado uma babá e nem mesmo havia pedido por uma. Depois de cinco minutos dividindo meu carro com ele, pude perceber que ser sério era algo que todos os detetives tinham em comum. Ouvi Cooper soltar um gemido, respirei fundo reduzindo a marcha e parei no sinal vermelho. — Pensei que fosse furar o farol. — Ele retrucou, eu apenas sorri de canto. — Se quiser pode ir a pé ou de ônibus, para mim não vai fazer diferença. Ele soltou outro gemido, agora parecia estar irritado, e eu não conseguia ficar séria. Havia um sorriso cínico que insistia em


nascer no canto dos lábios. Eu tinha plena consciência de que estava sendo infantil, mas não estava nem aí para isso. — Não, senhorita. Vou com você e não pense que faço isso porque quero, faço porque Nicolas parece gostar de você. Agora, detetive Cooper havia ganhado minha atenção. Eu não esperava ouvir esse tipo de coisa, ainda mais vindo de alguém que parecia ser tão amigo de Nícolas. Confesso que me senti um pouco mal, pois o estava tratando da mesma forma em que tratava seu amigo no começo. — Desculpa, como? – Questionei um pouco desorientada, os automóveis passavam ao nosso lado fazendo um barulho estrondoso, então apertei o botão para fechar o capô do carro. — Você ouviu. “Nicolas parece gostar de você. ” Meu cérebro pareceu receber e ingerir essa informação à contrag o s t o , mas meu coração estava aplaudindo de alegria. — Você acha que ele gosta de mim? — Não tenho autorização para falar sobre isso. — Deu de ombros. — Mas começou, então termina. — Falei em tom rude. — Nícolas te falou alguma coisa? — Senhorita, nós somos profissionais. — Sorriu de canto. — Nosso trabalho requer uma visão aguçada e observadora. — Chegou nessa conclusão após observá-lo? — Soltei um riso baixo, voltei minha atenção para a estrada enquanto dava continuidade ao nosso destino. Detetive Cooper afirmou com a cabeça e isso me deixou muito confusa, mas não posso negar que uma certa esperança brotou nesse meu coraçãozinho. Ele não disse mais nada, manteve-se quieto durante todo o caminho, acho que isso foi um alívio. Para ser sincera, acho que a informação que ele havia me dado, tinha me deixado meio sem graça e sem saber como proceder. E para meu espanto, isso parecia agradar ao detetive. — Está rindo do que? — Questionei meio perplexa. Já havia estacionado o carro perto da entrada, saímos e apertei o botão do alarme logo em seguida. Yohanna estava na porta


esperando por minha companhia e sua expressão ao ver o guarda costas ao meu lado me deixou constrangida. Eu iria naquela noite mesmo mandar um e-mail para Nicolas, em agradecimento pelo constrangimento que ele estava me causando ao indicar Cooper como minha babá. — Só estava imaginando você e Nícolas juntos. — Sorriu de canto. — Deve ser no mínimo, engraçado. O que poderia ser engraçado a ponto de alegrá-lo tanto? Afinal, aquilo em seus lábios chegava perto de um sorriso, e dava a impressão de que ele sabia mais do que demonstrava, o que poderia ser verdade, dando-se ao fato de que ele era um detetive e observar fazia parte do seu trabalho, sem contar, que ambos eram amigos. Esses pensamentos abriram brechas para alguns outros, como: Eles conversavam sobre mim? Não tive tempo para uma resposta, já havíamos alcançado minha amiga, dei de ombros e respirei fundo tentando ignorar o bruta monte parado ao meu lado, coisa que Yohanna não havia conseguido fazer. — Kay, não imaginei que as ameaças haviam atingido esse nível. — Segurou em meu braço, seus olhos analisavam o homem parado ao meu lado e para o bem do detetive Cooper, era melhor ele ser casado. — Hanna, este é o detetive Cooper, vai ser meu segurança até o final de semana. — Ignorei o que ela falou e fiz uma breve apresentação. — Senhor Cooper, esta é Yohanna, minha amiga e assessora. — Hum, segurança é? — Caminhou e parou entre ele e eu, a olhei com um a sobrancelha arqueada. Ela era um pouco assanhada e tinha uma queda por homens vestidos de terno. — O que eu faço para ter um segurança desse grudado em mim? Meu rosto esquentou sentindo uma vergonha enorme da minha amiga, Cooper pigarreou, talvez, estivesse incomodado com a mulher atirada que estava ao seu lado. — Hanna! – A repreendi. Agora, ela estava cutucando os bíceps do detetive com o dedo indicador. — Vamos entrar, estou louca para beber umas doses. Eu ainda estava a observando, percebi quando deu uma


piscada para Cooper e então segurou meu braço me arrastando para dentro do estabelecimento. Balancei a cabeça reprovando a atitude daquela mulher que, quando não estava dentro do estúdio, parecia mais uma adolescente boba. Isso era uma das coisas que nos tornou amigas, Hanna também tinha um outro lado, um lado que ela não deixava seus colegas de trabalho conhecer. Acho que ao final, todos tentamos agradar alguém e para isso, deixamos de nos comportar e ser quem realmente somos. Para alguns, costuma ser mais fácil lidar com esses lados, mas para alguém que tem a imagem exposta o tempo todo, parece ser quase uma missão impossível. Ainda assim, sonhava com o dia em que eu voltaria a ser a antiga Kayla Mendes. Olhei para o detetive sobre os ombros e lancei um olhar como pedido de desculpas, não era a minha intenção fazê-lo passar por esse tipo de coisa, imagine se ele fosse casado? Minha nossa! Minha amiga ia acabar ficando sem cabelo qualquer dia desses. Só que ao contrário do que imaginei, ele não estava sério e nem fazia um olhar acusador para nós, ele parecia estar interessado nela, já que havia um sorriso em seus lábios e faltava comê-la com os olhos. Enruguei a testa e semicerrei meus olhos nele, Cooper riu baixo e colocou as mãos nos bolsos da calça, fiz sinal de V com meus dedos, apontei para meus olhos e em seguida para ele, insinuando que eu estava de olho em suas atitudes. Ele gargalhou e deu de ombros, acabei rindo também. Sentamos em um dos bancos do balcão, já que todas as mesas estavam ocupadas, Cooper sentou um pouco mais distante, era minha babá, mas sabia dar o espaço que eu precisava, acabou ganhando um ponto comigo. Por outro lado, Yohanna não sabia dar esse espaço e estava muito curiosa em saber o porquê de ter um segurança na minha cola. Eu não havia dito a ninguém que um detetive fora contratado para cuidar do caso das cartas anônimas, então, era mesmo estranho ver um homem como aquele me acompanhando a lugares. — Há um detetive tentando encontrar o malfeitor. — Respondi simplesmente, não querendo dar continuidade, mas ela parecia não ter entendido o recado. — Meu Deus! Aquele gostoso ali é detetive?


— Sim, mas não é ele o responsável pela investigação. — Ela parecia confusa, tratei de terminar a explicação para encerrar o assunto. — O outro precisou viajar a trabalho e pediu para que Cooper ficasse por perto, caso as ameaças saiam do papel. — Ahh... Ela parecia ter entendido a situação, mas ainda estava com seus olhos sobre o detetive, olhei na direção dele e o mesmo estava devolvendo os flertes, rolei os olhos. Eu não tinha nada a ver com o que os dois faziam, desde que fizessem longe de mim. Acabei soltando um suspiro desanimado, por algum motivo desconhecido por mim, queria o meu detetive de volta, não que Cooper fosse ruim, ou algo do tipo, só que ele não era Nícolas e, eu já estava sentindo falta dele. Eu não podia acreditar que estava pensando assim, mas já não podia esconder de mim mesma o que sentia e, naquele momento, eu sentia falta dele e daria tudo para saber o que ele estava fazendo. — Kayla, você pode me explicar como essas cartas começaram a chegar até você? Hanna pediu, meu olhar analisou o lugar ao meu redor, detetive Cooper bebia de seu copo de uísque e me olhava com atenção. Ele não brincou quando falou que tinha um olhar aguçado e observador. — Me lembro de já ter dito isso a você. — Respondi, bebi meu coquetel e busquei por meu celular em minha bolsa apenas para verificar as horas. — Se disse, não foi para mim. Pensei no assunto, eu andava muito estressada e preocupada com as cartas nos últimos meses, mesmo que tentasse demonstrar o contrário, ter um maníaco perseguidor em meus calcanhares, me tirava o sono. Ser apresentadora de tevê nunca esteve em meus planos, nunca quis seguir os passos da minha mãe. Na verdade, onde eu sabia que paparazzi e imprensa estariam reunidos, eu mirava meu carro para o outro lado. Eu nunca quis ser famosa, talvez, porque soubesse que minha vida fosse ficar exposta a todos os tipos de públicos, até mesmo os maníacos perseguidores. — Foi uma semana após a morte da Isabella Mendes. — Sua mãe. – Ela me repreendeu. – Ela foi sua mãe, pare de


fingir que não liga para isso. Assenti. — A primeira carta não havia nada demais, parecia apenas um fã obcecado. A segunda veio um pouco violenta. Dizia em o quanto os famosos podiam ser estúpidos e arrogantes quando expostos aos fãs, e que mereciam ser apedrejados em praça pública. — Estranho! — No geral, sempre tinha algo perturbador. A última que recebi não me deixaram ler, disseram que seria melhor assim, então, suponho que seja algo grave. — Não tem curiosidade em ver o conteúdo? — Sim. – Respondi simplesmente. – Mas também tenho medo. Ela afirmou com a cabeça e em seguida olhou para Cooper, curvou seus lábios em um sorriso malicioso e levantou seu copo para brindar o ar. O detetive fez o mesmo e acabei percebendo que eles pareciam ter encontrado uma espécie de afinidade. — Entendo os seus receios, espero que tudo se resolva! – Mandou o último gole pela garganta e fez careta. – Posso curtir seu guarda costas? Rolei os olhos e só consegui rir. Balancei a cabeça sabendo que ela nunca mudaria, mas eu precisava ir para casa e sabia que não iria voltar sozinha. Cooper parecia ser fiel demais para não levar um pedido de Nícolas a sério. — Pode tentar! – Levantei a mão e o chamei para perto. Ele estava com um sorriso enorme no rosto, havia também um brilho no olhar que me coagiu só por pensar estar atrapalhando algo entre eles. Cooper parecia relaxado, algumas doses de bebida havia o deixado com uma expressão mais alegre e menos careta, então me lembrei que tentei fazer isso com Nícolas no início, queria muito vê-lo assim, da mesma forma que Cooper estava. Mas acabou que não deu muito certo. — Senhoritas, precisam de algo? — Sexo selvagem! – Hanna ronronou. — Por Deus, mulher, aquieta a periquita! — Senti meus olhos rolarem. — Cooper, eu gostaria de ir para a casa, mas pode ficar


e fazer companhia a minha amiga? — Não sei se é uma boa ideia, Nicolas... — Nicolas é um ótimo detetive e agradeço a ele por ter te enviado, mas não precisa bancar a babá, certo? Sorri o encorajando a me deixar voltar para a casa sozinha, ele me observou e pareceu processar a informação. Estava hesitante e receoso, quase pensei que ele não fosse aceitar, até mesmo Hanna tirou o sorriso do rosto ao ver que ele não respondia, mas respondeu. — Pode me ligar para avisar que chegou bem? — Sem problemas! — Sorri mais ainda, estava feliz e não sabia exatamente o motivo, acho que acabei imaginando que Cooper e Hanna juntos, dariam um belo casal. — Vou indo então. — Até manhã no estúdio, se cuida! Me despedi dela e depois de acenar para meu babá, dei as costas e me retirei daquele lugar barulhento. Acho que já passava das 23h00, estava um tempo frio e havia nuvens no céu, talvez fosse chover mais tarde. Eu havia deixado meu Porsche na entrada do estabelecimento, mas o manobrista havia o levado para o estacionamento e eu não via problemas em ir busca-lo. Meu salto ecoava pela rua vazia, passei pelo portão e segui caminho, usei meu alarme para destravar o carro e assim, descobri onde estava estacionado. Caminhei em direção dele sentindo um frio arrepiar meus braços, também estava cansada e havia bebido a mais do que podia. Esperava que nenhum policial me parasse no meio do caminho, ou certamente, estaria estampada nos jornais locais na manhã seguinte. Parei em frente à minha porta, fechei minha bolsa pensando no quanto minha cabeça doía, devia ser o efeito das bebidas com a música alta. Pousei minha mão sobre a maçaneta da porta e senti algo gelar minha nuca. Minha respiração ficou ofegante, não havia me certificado de estar sozinha naquele lugar e agora, eu tinha certeza que havia alguém parado atrás de mim. Minha mente viajou até as cartas, tive que fazer um esforço tremendo para me manter de pé. Respirei fundo e ouvi um barulho, um barulho que arrepiou todo o meu corpo, tinha mesmo alguém atrás de mim e estava segurando um revólver. — Vai virando devagar, princesinha.


O ar de meu pulmão esvaiu-se, a bolsa alcançou o chão quando meu cérebro mandou o choque para o resto do meu corpo, eu poderia reconhecer aquela voz mesmo em meus piores pesadelos, e eu estava vivendo um naquele momento. Virei-me com pressa, precisava olhar o rosto dele para constatar que não estava sonhando, mas o que veio a seguir me atordoou ao ponto de fazer meu corpo cair no chão. Havia levado um golpe na cabeça, senti quando o líquido que, supostamente era meu sangue, desceu por minha testa, indo de encontro a nuca. A dor veio forte, busquei por ar, mas me sentia cada vez mais fraca. Olhei para cima a fim de ver o rosto que tanto busquei esquecer, podia sentir o sangue correr de meu rosto, deixando-me completamente pálida. Mas a palidez não veio somente pela dor súbita, mas também por perceber que os olhos por trás da máscara preta de esqui, não eram de quem pensei que fosse, mas que não deixavam de ser familiares. Então, apaguei.


Capítulo 7

Era de madrugada e eu acabava de revisar alguns relatórios que havia feito sobre o caso. O ar estava quente, mas também frio. Respirei fundo quando peguei minhas evidências em mãos, eu não havia conseguido muita coisa, mas acho que estava no caminho certo. Ao sair do galpão dei uma passada pelo laboratório de perícia, precisava me certificar que não havia nada naquele compartimento e quase golpeei o ar quando uma amiga da época de faculdade me atendeu. Com sua ajuda tive acesso aos registros da queda do helicóptero e ela acabou me contando algumas coisas que não foram expostas aos noticiários. O chefe dela havia mandado apreender os documentos que estavam naquele compartimento e não quis que mais ninguém soubesse sobre aquilo. Perguntei se ela sabia onde ele havia guardado, mas ela disse que provavelmente, os documentos estariam no cofre do seu escritório. — Consigo uma distração? – Questionei olhando-a. Ela analisava em seu computador se o escritório estaria vazio ou não. — Estou tentando falar com a secretária dele. – Disse sem olhar-me. – Parece que ele foi para a casa mais cedo hoje. — A secretária é sua amiga? Consegue um passe para mim? — Não, mas talvez ela mude de ideia ao te conhecer. – Sorriu presunçosa, demorei para entender do que ela falava. Balancei a cabeça olhando ao redor, o laboratório era restrito, isso fazia com que tivesse poucas pessoas dentro. Minha entrada foi autorizada apenas por dez minutos, então eu tive que agir nas pressas. – Você é um belo homem, Nícolas. Na faculdade você pegava geral, manda seu


charminho para cima dela que consegue acesso. — Adoro esse meu dom. – Conferi as horas em meu celular, sorri olhando-a. – Pode avisar que estou indo para lá? — Sim, senhor! Sorri abertamente, depositei um beijo rápido em suas bochechas e deixei o laboratório. Eu tinha pressentimentos bons, não via a hora de pegar esses documentos em mãos e saber o que era tão importante a ponto do nosso chefe de perícia manter escondido. Depois, em poucos minutos já estava no local indicado, estava vazio, mas algumas luzes permaneciam acesas. Entrei e fui direto a única mesa ocupada do lugar, a moça nem tão jovem me recebeu com um sorriso largo. — Você deve ser o detetive. — Sua voz era de afirmação, sorri assentindo. – Eu sou Mariana! Gisele me falou que precisa de acesso ao escritório do meu chefe, talvez eu consiga para você. — Eu agradeço sua ajuda, Mariana, mas poderia me dizer o que te faz ajudar um completo estranho? Sabe que pode perder seu trabalho se ele descobrir que me ajudou? Arqueei a sobrancelha esperando por sua resposta. Quando eu tinha amizade com a pessoa, sabia que poderia contar com sua ajuda para qualquer coisa, mas, no entanto, essa mulher não era nada minha e eu nunca havia lhe visto antes. Então sua ajuda passava a ser um pouco suspeita para mim. — Odeio meu trabalho e odeio o meu chefe. — Sussurrou como se as paredes pudessem nos ouvir. Olhei ao redor para me certificar de que estávamos em segurança e foi então que notei as câmeras de segurança desligadas. – Eu as desliguei, temos cinco minutos até os seguranças perceberem. — Um hacker? — Questionei curioso. — Nas horas vagas. — Sorriu e deu uma piscadela, preciso dizer que ela me atraiu a atenção? — Quantos anos trabalha aqui? — Doze anos. — Isso explicava o porquê de ela não pedir demissão, perderia muito se o fizesse, então estava esperando ser demitida. — Quer pegar os documentos ou quer conversar sobre minha vida?


Ela não precisou falar duas vezes, meus pés já estavam me levando até a grande sala no fim do corredor, se tudo desse certo, eu poderia leva-la para jantar, quem sabe! Já que Kayla parece ser impossível para mim e estou solteiro, Gisele parece ser o tipo de mulher que eu gostaria de ter como esposa. Tranquei a porta assim que entrei e caminhei até a outra extremidade da sala, eu não sabia onde estaria escondido esse cofre, então olhei nos lugares mais prováveis. Atrás dos quadros. Naquele momento, se minha memória ainda era boa, faltava menos de três minutos para os seguranças aparecerem. Fiquei meio decepcionado e desesperado ao perceber que estava olhando nos lugares errados, mirei na mesa dele e fui até lá abrindo todas as suas gavetas, justamente na última, havia um fundo falso. Podia sentir minhas bochechas doerem tamanho o sorriso em meu rosto, havia uma pasta pardo dentro dela, tratei de pegar antes que meus minutos acabassem. — Bingo. — Sussurrei, fechei as gavetas e destranquei a porta, dei uma olhada no corredor e bem lá na frente, pude ver Mariana levantando o dedo e fazendo joia. Meus pés foram ágeis, aproximei-me dela e balancei a pasta em mãos, ela conferiu a tela do seu computador e apontou para uma porta na lateral. Disse que ali era a minha saída, porque meus minutos haviam acabado, agradeci e sai de lá o mais rápido que pude. Já dentro do carro, dei uma olhada na pasta em minhas mãos, fiquei tentado a abrir ali, mas era muito arriscado, então fui direto ao hotel onde estava instalado. Agora, no conforto do meu quarto, estava analisando tudo o que continha naqueles documentos e confesso, estava surpreso e um tanto chocado. Era meio impossível que todas aquelas informações pudessem ser interligadas com uma única pessoa, e essa pessoa havia sido descartada antes mesmo de começar a investigação. Claro, descartei por conta de Kayla que me garantiu que essa pessoa era de confiança, precisávamos reavaliar seus argumentos. Já ia concluir meu relatório sobre o dia quando o celular começou a tocar, já havia me esquecido que enquanto estava no balcão, ele também tinha tocado. O número de Cooper apareceu na tela e eu pedi que me ligasse caso acontecesse qualquer coisa. Meu coração disparou imediatamente e, assim que desliguei tratei de


reservar o primeiro voo de volta para casa.


Minha cabeça doía e quase conseguia reconhecer as vozes que chegavam até meus ouvidos. Nana parecia histérica e apesar da minha total confusão, acho que já conseguia começar a entender o motivo. Abri meus olhos devagar e pude ver uma poltrona na outra extremidade do aconchegante quarto, sobre ela, encontrava-se diversos ursos de pelúcias, assim como a mesa pequena ao lado dela, estava repleta de flores. Respirei fundo ao sentir um toque em minhas pernas, pensei que fosse Nana, mas a precisão no aperto me fez crer que se tratava de alguém mais forte do que minha governanta. Tombei a cabeça para o lado e quase sorri ao ver Nicolas me observando, preocupado. — Detetive? — Cumprimentei e tentei me levantar, mas fui impedida por ele. — Não se treva em levantar. — Repreendeu-me. — Não estava viajando? — Questionei confusa. — Sim, mas alguém decidiu morrer antes do tempo. — Como? — Franzi o cenho, mas ele deu de ombros. — Descansa. — Curvou seu corpo e beijou minha testa. Quando ele saiu do quarto ainda podia sentir o calor dos seus lábios sobre mim, o calor que apenas a sua presença emanava. Era sufocante e ao mesmo tempo acolhedor. Fiz um esforço para me lembrar de tudo o que havia acontecido e suspirei ao constatar o óbvio, sofri um atentado contra minha vida, mas ainda não entendia a visita do detetive. Ele não estava viajando a trabalho? Quando voltou? Quanto tempo estive desacordada? — Hum, parece que tem alguém atolada em perguntas. Olhei em direção da porta e vi Nana entrar, sorriu de canto


caminhando até mim e sentou em minha cama, ao meu lado. Ela também tinha uma expressão preocupada, seu cenho enrugado dizia que estava incomodada com alguma coisa, e posso supor que era pelo meu atual estado. — Viu quem acabou de sair do meu quarto? — De tudo o que aconteceu, só isso chamou sua atenção? — Ela arqueou a sobrancelha, daquele jeito observador que só ela tinha. — Ele não estava viajando? — Querida, tentaram contra a sua vida! — Como chegou tão rápido? — Kayla! — Suspirou e a vi balançar sua cabeça em reprovação. — Ele pegou o primeiro voo para cá quando soube o que aconteceu. — Pegou? — Ahan, e não desgrudou de você nem um só momento. — Não? — Franzi a testa. — Tinha que ver, ele parecia possuído, disse que a pessoa que te machucou iria pagar com a vida. — Acariciou meus cabelos e colocou uma mecha atrás de minha orelha. Isso explicava sua frase: “Alguém decidiu morrer antes do tempo” — Ele sente alguma coisa por você, querida! Pensei sobre o assunto e acabei concordando com a cabeça, não sei dizer se foi o que aconteceu ou o que Nana disse sobre o detetive, mas eu me sentia levemente confusa e perturbada. Queria saber mais sobre o porquê de ele ter voltado, se eu tinha mesmo algo a ver com isso, se ele se preocupava. Não sabia o porquê de querer saber essas coisas, mas queria. Necessitava disso. Era como se ao sofrer a pancada na cabeça, também houvessem me dado o senso que eu não tinha. De repente, tudo o que o detetive fez ou falou, passou a fazer sentido e eu conseguia ver seu interesse em mim. Aquele olhar de preocupação. Aquele simples olhar... Ele havia conseguido domar alguma coisa dentro de mim e eu tinha que saber o que era. — Querida, tem policiais lá fora querendo te encher de perguntas sobre o acontecido.


— Mas já? — Suspirei. — Quantos dias estou internada? — Um dia e meio. — Sorriu doce, tentando me confortar. — Só respondo as perguntas do meu detetive. — Empinei o nariz e pude ouvir Nana rir baixo. — Seu detetive? Bateram em sua cabeça tão forte assim? — Isso mesmo que ouviu. Meu detetive. E o mande entrar. Eu nem ao menos sabia quem havia deixado ele sair daquela forma, tão depressa. Se ele não havia desgrudado de mim em nenhum momento, porque quis isso quando enfim acordei, não tinha muita lógica. Era como se ele quisesse se afastar. Como se estivesse lutando contra algo dentro de si mesmo. — Senhoritas... — Uma voz máscula chamou nossa atenção. — Espero não atrapalhar nada, mas preciso fazer algumas perguntas. Nossa atenção foi até o batente da porta, onde detetive Cooper entrava com sua expressão séria, mas com um olhar solidário. Nana tapou a boca e riu baixinho, acho que ela estava meio constrangida por ter sido chamada de senhorita. — Cooper. — Sorri para o detetive que cuidava de mim antes de tudo acontecer. — E Nicolas? Sondei. Ele sorriu. — Virá em alguns minutos, não se preocupe. — Caminhou até nós. — Nos permite? Cooper olhava para Nana de forma profissional e a convidava com educação, para que se retirasse e nos deixasse a sós. Eu a vi sair com um sorriso contido no canto dos lábios e acabei por revirar os olhos, estava começando a suspeitar que Nana tinha um fraco por detetives. Tentei me sentar sobre a cama, mas a dor de cabeça ainda me incomodava, então preferi continuar deitada. Cooper não pareceu incomodado com isso. — O que fez quando saiu do estabelecimento? Ao abrir a boca para respondê-lo, a porta do quarto fora aberta e quase sorri ao ver meu detetive entrar. Para falar a verdade, não queria que ele tivesse chegado tão depressa, queria colher informações com Cooper sobre ele, mesmo que isso parecesse — ou até mesmo fosse errado. Bem, antes de encontrar Yohanna, eu já havia conseguido


algumas informações, mas não havia sido nada de muito alarmante. — Esperem, também quero participar. — Olhou para a poltrona e em seguida, para o restante do quarto, procurando por um lugar onde pudesse sentar. — Detetive... — Chamei sua atenção e passei a mão sobre o local na cama ao meu lado, ele engoliu em seco, mas não questionou. — Bem, eu caminhava pelo estacionamento indo em direção ao meu carro, quando ouvi um barulho na extremidade oposta do local. Parei ao sentir o peso do corpo de Nicolas afundar o colchão, ele sorriu de canto e assentiu com a cabeça, esperando pela minha continuação. — Acho que o nervosismo me fez ficar meio lenta... — Suspirei. — Em momentos de perigo, nosso corpo tende a fazer isso. Prossiga! — Nicolas assentiu, Cooper tinha um pequeno caderno de notas em mãos. — Quando percebi a voz já estava atrás de mim, pedindo para que me virasse devagar. — Ele disse seu nome? — A voz de Cooper sobressaiu sobre a minha. — Não. — Neguei com a cabeça. — Você viu o rosto? O reconheceu? — Nicolas parecia interessado, mas suspirou frustrado ao me ver negar com a cabeça. — Lamento, mas acho que por conta do medo minha mente acabou fazendo alguma confusão. — Comentei ao ver Cooper fechar o caderno. — Porque diz isso? — Observei o cenho do detetive enrugar e fiquei mais tempo do que queria o olhando. Ele notou minha indiscrição e sorriu satisfeito consigo mesmo. Convencido! — Ele usava uma máscara no rosto, essas máscaras de esqui, sabe? Mas por um momento pensei que fosse alguém que, definitivamente, está morto. — Disse confusa comigo mesma. — O olhar era muito familiar. — Fique tranquila, Kayla. Porque se ele não estiver, eu mesmo vou garantir que esteja. As palavras de Nicolas, juntamente com sua voz ameaçadora


me pegou desprevenida, Cooper também sentiu o impacto, pois tossiu e limpou a garganta tentando chamar a atenção do colega de trabalho. Nos encaramos por um breve momento, meu coração pulsava dentro do peito de uma forma completamente diferente e forte. Nicolas me encarava como se também estivesse sentindo o mesmo que eu e meus pensamentos acabaram indo parar naquela noite no carro, onde minha única preocupação era estar em seus braços, sentindo a perto forte de suas mãos — mesmo que depois eu tenha fugido como uma completa covarde. — Então... — Cooper pigarreou. — Vou esperar lá fora. Abaixei a cabeça segurando o riso frouxo que queria aparecer e amassei a beirada do lençol com meus dedos. Mantive meus olhos em minhas mãos, por alguma razão estranha, me sentia envergonhada. Quando Cooper atravessou a porta e o quarto ficou em silêncio, consegui ouvir minha própria respiração e logo consegui sentir uma mão apertar a minha. — Kayla... Segunda vez que ele me chamava pelo primeiro nome, não que eu estivesse contando ou gostando disso, sabe... Levantei meu olhar e o encarei.


Capítulo 8

Pausar minha investigação sobre o malfeitor de Kayla, não estava nos planos, mas ela sofrer um atentado também não estava, apesar de eu ter desconfiado que isso acabaria acontecendo. Isso também provava outra hipótese, a pessoa estava a par de todos os nossos movimentos, com a minha saída da cidade, ela conseguiu dar um passo e tentar contra Kayla... o que de fato, não acho que tenha sido um atentado, talvez houvesse feito isso apenas para traumatiza-la, o que poderia ter dado certo, se ela não fosse essa mulher tão forte. Sair do seu lado estava fora de cogitação, eu sabia que estava indo contra toda a lógica ética sobre detetive e cliente, mas isso não teria acontecido se eu não houvesse lhe deixado tão só. Cooper era muito bom no que fazia, mas confesso que ter o deixado em meu lugar foi um erro que eu não voltaria a cometer. Então, mesmo quando sua governanta pediu com educação que eu fosse para casa, porque segundo ela, seu dever era de cuidar de Kayla, também precisei do meu autocontrole para responder de forma educada, que esse também era o meu dever... o que no caso, não era. Mas eu precisava de um motivo ou uma desculpa para ficar com ela. Kayla conseguia mexer com toda a minha sanidade, mesmo quando não estava por perto, era algo incontrolável para mim. Me pegava pensando em seu olhar, em seus lábios... principalmente em seus lábios, uma vez que, consegui prová-los. Era como se aquela boca atrevida me convidasse ao pecado cada vez que era aberta. Isso também me fazia lembrar de que havia proibido a mim mesmo de nutrir sentimentos por ela, mas diante do que senti... do


medo evidente em perdê-la quando soube sobre seu atentado, me fez crer que tentar não nutrir sentimento era perda de tempo, uma vez que, eles já haviam se alastrado em meu coração e ganhado força. Eu odiava vê-la tão pálida sobre aquela cama de hospital, minha vontade de abraçá-la e protegê-la chegava a queimar em meu corpo, não sabia como resistir a essa mulher e nem sabia se realmente queria isso. Tentei abafar o caso do seu atentado das mídias, mas isso era um a missão impossível e eu esperava que Kayla soubesse ligar com imprensa e paparazzo loucos por uma exclusiva. — Você irá receber alta amanhã, logo pela manhã e isso já é informação pública. — Ela bufou irritada. — Se conseguir manter a calma na hora das especulações, seria de grande ajuda. — Não respondeu minha pergunta, caro detetive. — Ela parecia levemente magoada, então supus que sua irritação vinha do fato de não ter ganhado uma resposta, quando a mesma me questionou se eu sentia algo por ela. Mas entendam, sua pergunta era algo que não havia uma resposta concreta, eu não sabia o que falar porque também não sabia como agir diante dela. Era como se ela roubasse toda a minha inteligência, como se eu não pudesse raciocinar ao ver seus lábios movendo-se lentamente. Eu perdia o foco. — Ah, sim, a pergunta... — Respirei fundo para tentar ganhar tempo. — Cuidar do bem-estar dos meus clientes, sempre está incluído em meus serviços. — Então é isso? Apenas isso? Sou apenas uma cliente para você? O tom de indignação estava evidente em sua voz. Eu só estava tentando não ser tão evasivo em minha resposta porque eu gostava de Kayla e gostava pra caramba, mas isso não era algo para ser discutido naquele momento ou naquele lugar. Respirei pesado e passei os dedos em minhas têmporas. — Kayla... o que espera de mim? — Que não seja covarde e assume a merda dos seus sentimentos. — Sua voz alterou, o que fez meus olhos arregalarem em espanto. Ela queria mesmo falar sobre isso? Pois bem... — Que diferença isso faria? — Arqueei a sobrancelha, um


pouco perplexo com sua reação. Até aquele momento, ela também não havia demonstrado sentimento algum, além daquele medo de alguma coisa, que a fez fugir de mim naquela noite no carro. Ela encolheu-se sobre a cama e levou seus olhos para a parede, tentando me ignorar. Quase me arrependi do que disse, quase. — Olhe para mim... — Pedi, paciente, mas ela continuou firme na sua missão de me ignorar, respirei fundo mais uma vez e balancei a cabeça. — Voltei porque me preocupo com você, sinto-me responsável por você. — Claro, porque sou sua cliente. — Cruzou os braços, como uma criança que faz birra, acabei sorrindo de canto. — Droga de mulher difícil! — Resmunguei me rendendo. — Kayla, não posso dizer exatamente o que espera ouvir, porque não consigo distinguir meus sentimentos por você. — Agora eu havia ganhado sua atenção. — Você me excita, me faz ter pensamentos fúteis e pecaminosos, mas não sei se esses sentimentos por você, são apenas isso, carnais. Não quero te machucar, nem te iludir. O problema de ela querer saber o que eu sentia por ela, era pelo simples fato de eu não saber, sinceramente, esperava que não fosse apenas algo carnal, porque por mais que Kayla não fosse como imaginei, ela tinha alguma coisa que era só dela. Kayla não precisava saber cozinhar, nem passar ou limpar uma casa como manda seu programa, porque ela era atraente à sua maneira e seus dotes estavam em muitos outros traços... na sua teimosia, por exemplo. — Estamos chegando a algum lugar... — Sorriu de canto, me fazendo desejar aqueles lábios brancos e apagados por conta do soro. — Talvez o que eu sinta por você também seja carnal. Peguei-me completamente surpreso e estupefato, não imaginava que ela sequer sentisse algo por mim, então essa informação, de alguma maneira, reacendeu algo que havia adormecido dentro de mim naquela noite no carro, onde pensei ter levado um fora. Onde pensei que ela não estava em um momento de lucidez quando por vontade própria, sentou aquele traseiro delicioso em meu colo e esfregou sua intimidade melada em meu pau. — O que faremos a respeito? — Induzi a pergunta, meio confuso. Confesso, estava ansioso para saber o final dessa conversa, arrisco em dizer que evoluímos muito ali.


— Eu sei que você é muito profissional e que te contratei apenas por uma razão... — Mas talvez pudéssemos reavaliar nosso relacionamento. — Completei sua frase e ela sorriu largo, assentindo. — Assuntos sérios precisam ser tratados em momentos certos, não a todo momento, deveria se divertir mais, detetive. — Sorriu maliciosa. — Eu sei me divertir. — Rebati, fingindo estar magoado. — Não gostou da nossa diversão no carro? Eu juro que não queria tocar nesse assunto, pois não sabia como ela poderia reagir, mas quando dei por mim já havia falado. E graças ao bom Deus, Kayla sorriu, demonstrando estar amena quanto ao assunto. — Sinto muito por isso, mas se serve de consolo, sonhei com seu pau enterrado em mim. Essa era a Kayla que eu conhecia, a mulher sem filtros na língua. Suas palavras fizeram meu membro pulsar, parecia estar acordando e louco para comer. Balancei a cabeça, ela continuava sorrindo como se soubesse exatamente o que eu estava pensando, quando a vi baixar seus olhos até meu pau foi quando percebi que ela realmente sabia o que causava em mim. — Você é má! — Falei baixo indo em direção da porta, ela olhou-me desconfiada e confusa. — Aonde vai? Sorri de canto, abri a porta e não respondi. Fiquei ali parado, apoiado no batente da porta, esperando que alguma enfermeira aparecesse. Kayla passaria mais essa noite no hospital, e eu também ficaria ali com ela, só que depois de sua resposta afiada, precisava saber pela boca de uma enfermeira ou médico, se ela estava apta a fazer exercícios físicos.


Eu estava meio inconformada — e excitada, confesso, com o atrevimento de Nicolas, acho que nem em meus melhores sonhos eu o imaginaria perguntando a um médico se eu estava apta a exercícios físicos. Bom, talvez eu tenha uma certa culpa nisso tudo, ter o provocado falando do dia em que sonhei com ele, podia não ter sido uma boa ideia... ou talvez, tenha sido a melhor que já tive, já que ele me olhava como seu fosse o último recipiente de remédio para a sua doença. — Ela não sofreu nenhum dano grave, o ferimento da cabeça já foi cuidado, então não vejo problemas... — O médico, inocentemente, passou sua prancheta para o outro braço e enrugou o cenho. — Pensa em levá-la a pé embora, detetive? Acredito que tenha visto a confusão na porta do hospital... Fiz minha cabeça afundar ainda mais em meu travesseiro macio, sorri largo olhando Nicolas com malícia e o provocando em silêncio. Eu já havia entendido suas intenções, mas o médico não e eu queria ver como ele sairia dessa saia justa. Nossos olhares se encontraram por um breve momento, e eu o vi passar a mão pela nuca, constrangido, como se procurasse desculpas para a sua pergunta. Eu estaria pior em seu lugar, mas nem me importava, ele quem havia se enfiado nessa situação, então que saísse sozinho. — Claro, doutor, mas a pergunta veio devido a outro desejo que tenho. — Ele pousou sua mão no ombro do médico, como se fossem amigos e eu me perguntava se ele teria coragem... — Preciso aliviar a tensão sexual da sua paciente essa noite. Ouvi o estalo do meu queixo quando chegou ao chão, afundei ainda mais minha cabeça no travesseiro, desejando sair em Nárnia e


nunca mais voltar. Meu constrangimento me fez atingir alguns tons de vermelhos que não deveriam estar na tabela de cores, mas o sorriso no rosto do detetive deixou claro que estávamos em guerra e e u havia entendido o recado. O médico não ficou diferente de mim, talvez, por conta de sua idade um pouco mais avançada, ele houvesse se sentido exatamente como eu. O coitado gaguejou e reprovou o que Nícolas havia dito, mas devo admitir que esse detetive tinha lábia, porque mesmo contrariado, o médico deixou nosso quarto acreditando e concordando com o que ele havia falado. — Não acredito que fez isso. — Falei indignada quando ele se aproximou. — Precisamos terminar o que começamos no carro, não me importo de ser aqui. — Respondeu, andando em minha direção de forma predadora. Contraí uma perna na outra tentando amenizar um leve choque que crescia em minha intimidade, um calor alastrou pelo meu corpo me fazendo arfar com sua aproximação. Seu cheiro másculo fundido com um aroma de erva doce, me fez ter imaginações maliciosas. Meu coração ameaçava parar de bater, mas ao mesmo tempo sentia como se ele batesse mais rápido que um tambor de escola de samba, minha respiração desajustou e precisei de todo o meu autocontrole para não fazer nenhum movimento ousado. — Agora? — Questionei, receosa e excitada. Muito excitada. Droga de homem sexy! Nicolas sorriu de canto, parou na cabeceira do pé da minha cama e deixou seus dedos acariciarem minhas pernas. Eu poderia estar com roupas por baixo do lençol, mas por algum motivo me encontrava apenas de lingeries. Seu toque me fez desejar que nem ao menos esse lençol estivesse entre nós, sei que havíamos concordado em ter outro tipo de relação, mas não sabia se devíamos ir tão rápido. Ele subiu seus dedos até minha coxa inferior, passou de leve sobre minha intimida e parou em meu ventre, fazendo com que borboletas começassem a dançar uma espécie de dança do acasalamento. — Queria..., mas preciso ir até meu gabinete. — Sorriu de


canto, inclinou seu corpo e passou sua outra mão em meus cabelos. — Também vou tomar um banho em casa e depois venho... dormir com você. Houve muita malícia em suas últimas palavras, respirei rápido e desajustado, controlando algumas reações que ele causou em meu corpo e sorri largo, mesmo não querendo que ele me deixasse sozinha. — Além do mais, sua governanta pode perder a boa educação que tem e mandar um detetive para o inferno se eu não a deixar ficar com você, ao menos algumas horas. — Duvido muito. — Deixei uma risada escapar. — Ela tem um fraco por detetives. — Você também tem? — Arqueou a sobrancelha, curioso. — Não! — Empinei o nariz, Nicolas tirou as mãos do contato da minha pele, o que me fez resmungar baixinho e cruzou os braços surpreso e ofendido com minha resposta. — Não tenho mesmo, bonitão, meu fraco se chama Nicolas... Sua reação não foi exatamente como eu esperava, na verdade, não esperava grande coisa, mas fui terrivelmente enganada e precipitada. Em outras circunstâncias, Nícolas teria no máximo, desviado seu olhar do meu, algo que aconteceu muito no primeiro dia que nos conhecemos, mas acabei me esquecendo que alguns minutos atrás nós havíamos decidido tentar outro tipo de relacionamento que não fosse somente o profissional, então, ainda não sei exatamente o motivo que me fez ficar tão sem graça quando em um movimento ousado, Nícolas voltou a inclinar seu corpo sobre o meu, segurou em minha nuca com força e devorou meus lábios. Ali eu já não conseguia sentir minhas pernas, havia também uma pontada aguda em meu estômago, talvez fosse os remédios ou talvez tenha sido ele. Ele e todos esses sentimentos que conseguia despertar em mim. Nossas respirações se fundiram, sua língua morna e agitada pediu passagem, mas não permiti que essa brecha lhe fosse concedida. Nícolas afastou-se, surpreso e visivelmente frustrado, não consegui resistir a sorrir irônica. Naquele momento percebi que o atentado havia me saído mais útil do que imaginava, ou talvez não tivéssemos chegado naquele nível de intimidade, assim, tão de repente.


— Assim terá motivos para voltar mais rápido. Ele passou seus dedos longos e grossos no contorno do meu rosto e os deixou morrer em minha boca, entreabri meus lábios deixando os mesmos entrarem, ele arfou. Afastou-se como se eu o tivesse queimando e me olhou felino, meu corpo arrepiou-se de imediato e respirei pesado quando nossos olhos se encontraram. — Quando eu voltar... — Respirou lentamente, acho que ele estava apenas fazendo uma pausa dramática. — Quero sentir esses lábios engolindo meu pau. Ofeguei, mas não permiti que nenhum gemido rouco e manhoso saísse pela boca, tratei de engolir a saliva e normalizar minha respiração. Ele sabia perfeitamente o que havia causado em mim e sorriu presunçoso com isso, talvez eu tivesse encontrado alguém à altura, afinal, Nícolas já havia demonstrado diversas vezes que, de zero a dez em matéria de flerte, sua nota era onze. Assim que ele saiu, Rafael entrou em meu quarto com seu olhar reprovador. Parou a uma certa distância e me fitou sem dizer nada, eu não sabia o que ele estava pensando ou porque estava bravo. Nem com o que. Tentei puxar nas lembranças algo que eu pudesse ter feito, porque vê-lo com aquele olhar duro sobre mim não estava me agradando. — O que foi? — Enruguei a testa e cruzei os braços. — Esse detetive... — Repousou seu traseiro sobre a mesinha de canto e me fitou. — Qual o problema dele? — Como assim? — Questionei, confusa. Rafael ficou em silêncio por um curto momento, respirou fundo e andou em minha direção. Sentou na beirada da cama e passou a mão em meu rosto, ousou sorrir torto, um sorriso que eu não via nele há muito tempo. Então comecei a achar estranho sua reação, porque após nosso rompimento, ele tornou-se frio e distante, eu entendi aquele afastamento como uma maneira de lidar com minha presença, porque eu sabia que, mesmo tendo negado diversas vezes, ele havia se apaixonado por mim. Só que até então, ele precisava de um emprego e ser meu assistente de marketing lhe rendaria a grana necessária para manter seu apartamento. Depois de algum tempo, o assunto sobre nosso relacionamento parecia estar enterrado, pois ele voltou a conversar comigo como se nada tivesse acontecido.


— Deixa para lá. Como se sente? — Como quem sofreu um atentado. — Respondi contrariada, porque sua resposta não havia descido pela goela. — Seu detetive não parece ser tão bom, já que se passaram dias e ainda não descobriu quem anda te ameaçando. — Disse sério, como se falar sobre Nícolas o incomodasse. — Confio no trabalho dele. — Respondi simplesmente, vi uma veia em sua testa pulsar e fingi não ter reparado. — Como anda a minha imagem na mídia? — Todos já estão sabendo sobre o atentado, o manobrista que te encontrou caída no estacionamento não conseguiu ficar de boca fechada. — Respondeu meio irritado. — Estou tentando manter tudo sobre controle, mas está um pouco complicado. Amanhã quando irmos para a casa, precisaremos de aumentar os seguranças... — Irmos? — Franzi o cenho. Então ele pensava que iria para casa com ele? — Sim, você recebe alta amanhã e eu virei te buscar. — Ele ficou em silêncio, me observando. — Não, Rafa. Detetive Almeida quem vai me levar, já combinamos. — Ah, combinaram? — Ele parecia, realmente, bravo. — Claro que combinaram, tudo é ele agora, não é? Soltei um suspiro tão forte, que todos os meus músculos se contraíram. Ele estava esquisito de um jeito ruim e eu estava tentando pensar que aquilo não era ciúmes, porque em todo aquele tempo, ele nunca havia ficado com ciúmes de mim antes, e olha que foram números consideráveis de homens. — Pode pedir que o detetive Cooper entre? — Falei séria, rude, para que ele percebesse que sua pergunta não seria respondida e que nossa conversa estava encerrada. Ele bufou levantando-se rapidamente, não olhou para trás quando deixou meu quarto e ali fiquei, com meus pensamentos confusos e inertes. Tudo em minha vida estava acontecendo muito rápido, e eu não estava conseguindo assimilar as coisas. A morte de David, da minha mãe, o programa de tevê, as cartas, o atentando, o detetive e agora o Rafa dando uma de ciumento. Qualquer um em minha atual situação se sentiria sufocado, e comigo não era diferente.


A morte de David acabou sendo um alívio para mim, mas quando foi a vez da minha mãe, tornei a me sentir presa. Trancada e sufocada em um programa de tevê que nunca foi de minha vontade, fazer com que ele continuasse no ar, mas dia após dia eu dizia a mim mesma que eu conseguiria, que eu levaria aquele programa adiante em nome da minha mãe, que apesar de ter errado muito enquanto viva, ainda era minha mãe e eu a respeitaria. As cartas foram a cereja do bolo e quase desisti de tudo por conta delas, Nana entrou em uma luta comigo, porque não queria me deixar abandonar o programa, não depois de ter ganhado tantos fãs, mas meu mundinho particular já estava desmoronando há muito tempo. E agora, ao que parecia, esse malfeitor havia parado de ameaçar e começado a agir. Será que todos pensavam que eu era de ferro? Que eu não estava com medo ou angustiada? A única coisa boa que me aconteceu até aquele momento, foi a chegada de Nícolas, isso porque ainda começamos com o pé errado. — Srta Mendes? Somente quando Cooper segurou em meu braço foi que reparei em sua chegada, respirei fundo e sorri sem mostrar os dentes. Estava feliz em saber que ele continuava ali, mesmo com Nicolas na cidade. Cooper parecia um cara bacana, um detetive competente e profissional, mas esperava que, de alguma maneira, me falasse tudo o que eu precisava saber sobre o meu querido detetive.


Capítulo 9

Eu precisava urgentemente de um banho, com a entrada de Kayla no hospital e com a mesma desacordada, não quis deixa-la sozinha outra vez. Não que a culpa do atentado fosse de Cooper, porque em primeiro lugar, a culpa era minha. Quem deveria estar vigiando Kayla era eu. Cheguei em casa com um pouco de pressa, confesso que, nem ao menos, comer direito naquelas últimas horas eu havia conseguido. Carlos estava jogado no sofá, com a tevê ligada no canal de futebol, virou a cabeça ao ouvir o barulho da porta abrir e arqueou a sobrancelha. — Como ela tá? — Questionou com um sorrisinho nos lábios. Balancei a cabeça escondendo o sorriso que nasceu em minha boca, eu disse que voltaria para a casa só quando Kayla acordasse, então aí estava o motivo de sua pergunta. Passei por ele, entrei em meu quarto e coloquei meus pertences sobre a cama. Desabotoei minha camisa e a joguei no cesto de roupas sujas, acabei dando de cara com Carlos quando me virei. Arqueei a sobrancelha e sentei na cama para poder tirar os sapatos. — Desembucha! — Ele tentou outra vez. — Está perfeitamente bem, vai receber alta amanhã cedo. Deixei meu quarto indo em direção ao banheiro do corredor e a cada passo que eu dava, podia ouvir os passos de Carlos atrás de mim. Soltei um suspiro me virando de frente para ele e me encostei no batente da porta. Eu amava meu irmão, mas ele tinha que parar de ser tão inconveniente. — E essa pressa é para voltar ao hospital? — Ele sondou,


também arqueou a sobrancelha e sorriu de canto. — Sim, vou passar a noite com ela no hospital. — Rolei os olhos, Carlos riu. — Ah, cara, você está de quatro pela estrelinha da tevê. —Não enche, Carlos! — O alertei e dei as costas. — Se você falasse que ia passar a noite com ela no motel, me deixaria menos frustrado. — Ele entrou atrás de mim, isso me fez parar e o encarar com afinco. — Carlos, eu não me meto em sua vida sexual e seria muito agradável, se você fizesse o mesmo em relação a mim. O fato era que meu irmão pensava que eu não tinha uma vida sexual ativa, então sempre ficava jogando mulheres para cima de mim. E eu era muito reservado quanto aos meus sentimentos e desejos, não saía por aí dando em cima de qualquer mulher. Para isso ela teria que me chamar a atenção, assim como Kayla havia conseguido. — Se não sair agora, vou tirar a calça e você vai ver meu pau. — Coloquei minhas mãos no cós e ri baixo ao vê-lo correr.

Passei do meu gabinete antes de voltar ao hospital, Lúcia havia me ligado um pouco mais cedo para avisar que outro envelope na cor marinho tinha chegado para mim, e eu sabia exatamente quem era o remetente. Para falar a verdade, estava esperando por uma cartinha dele, com o atentado de Kayla eu supus que ele fosse mandar algo como aviso. Porque para mim, aquele atentado era apenas um susto, e não passava disso, um aviso. — Senhor Almeida, como está sua cliente? — Lúcia me recebeu com seu sorriso doce. — Está bem, obrigado por perguntar. Onde está o envelope? — Questionei com uma certa pressa, mas a pressa vinha mais pelo fato de querer ir para o hospital, do que ver o conteúdo do envelope.


No mesmo instante, Lúcia inclinou seu corpo até a última gaveta da mesa e tirou o papel. Segurou por alguns segundos em mãos e respirou fundo. Diante de sua reação, a olhei curioso. Ela parecia um pouco preocupada e pela forma que me olhava, eu poderia jurar que sabia sobre o assunto naquele papel. — Isso... — Balançou o envelope em mãos. — São ameaças para você também, não são? Tentaram contra Kayla, podem fazer o mesmo contra o senhor. Suas perguntas, apesar de terem sido feitas em um tom receoso, me fizeram sorrir por um breve instante. Ela trabalhava para mim há quase três anos e ainda não havia se acostumado com esses tipos de ameaças. Para mim, era normal devido à profissão que tinha. — Sim, mas isso não é discutível. — Peguei o envelope de suas mãos. — Não seria o caso de comunicar a polícia? — E que graça teria? — Sorri cínico, o que acabou fazendo-a relaxar. — Com ameaças diretamente a mim, deixa a investigação mais excitante. Ela riu baixo, balançou a cabeça negativamente me recriminando. Acabei sorrindo largo e esperei que ela se fosse para só então observar um pouco mais o envelope. Fui até minha sala, sem deixar meus olhos se desviarem do papel e fiz o mesmo processo da última vez, deixei um suspiro quase inaudível escapar quando comecei a ler o conteúdo. É, as coisas estavam ficando cada vez mais complicadas.

“Minhas saudações, detetive. Estou um pouco incomodado com a sua investigação no litoral, então, talvez, quando você ler este recado, sua amada estrela já esteja em uma cama de hospital. Se não encerrar esse caso, um baque na cabeça será apenas o início. Eu avisei que estava entrando em terreno perigoso, e dizem as más línguas que, quem avisa, amigo é! Até breve, o Malfeitor”.


— Filho da puta! — Exclamei, claramente irritado. Como ele sabia que eu havia ido ao litoral fazer uma investigação? Por mais que eu quisesse me manter calmo e neutro, receber esse aviso que parecia mais uma provocação, me fez ficar extremamente irritado. Eu sabia que era arriscado para Kayla, mas eu não largaria o caso de jeito nenhum, ainda mais agora. Eu a protegeria, e que ela me perdoasse, mas eu a usaria para pegar esse canalha psicopata. Iria fazer com que ele tentasse outra coisa contra ela, iria provoca-lo ao máximo até ele perder a cabeça e fizesse algo que deixasse pistas. Algo que me levasse até ele. Eu iria pensar em algo, qualquer coisa, esse idiota devia de ter um ponto fraco e eu descobriria, mas não naquele momento. Porque com Kayla no hospital, eu não conseguia pensar direito, mas ela não ficaria lá para sempre e assim que ela estivesse em sua casa, eu ia começar a pensar em um plano para acabar com a raça desse desgraçado.


— Querida, precisamos conversar! A voz que vinha da entrada do quarto ganhou minha atenção, abri meus olhos com cautela, ainda estava sobre o efeito do sono, suspirei e sorri ao ver Nana entrar, sempre com seu uniforme de governanta, bem arrumada e com um lindo sorriso nos lábios. Naquela altura, ela já sabia o que se passava em minha cabeça, porque eu tinha um sério problema em não conseguir esconder meus sentimentos. Ela não sentou sobre minha cama, preferiu pegar a poltrona que estava repleta de ursos de pelúcias e arrastou até o meu lado. Umedeci meus lábios com a língua, me sentia um pouco zonza, talvez fosse os remédios que me injetavam através do soro. — Seus fãs te amam, não é mesmo? — Sorriu de uma forma que fez seus olhos fecharem. Olhei para todos os presentes que ela havia posto junto ao chão, respirei fundo afirmando com a cabeça e sorri de forma discreta para ela, mas era um sorriso triste. Eu amava meus fãs, só que eu preferia nunca os terem tido. — Eu amo eles também, fazem todo o circo ter algum sentido. Nana pigarreou para ter minha atenção e assim que conseguiu, pude sentir sua recriminação no olhar. Ela sempre me dizia que mesmo eu não gostando do programa, era algo pelo qual eu deveria me orgulhar, não somente por estar realizando o desejo que minha mãe deixou antes de morrer, mas porque as pessoas gostavam de mim pelo o que eu era. Mas a verdade era que elas gostavam de mim, pelo o que achavam que eu era. Nunca fui aquela apresentadora de tevê, nunca fui uma dona de casa, nem mesmo sabia fazer um mísero macarrão instantâneo. — Kayla, não vamos entrar nesse assunto de novo, tá? Vejo que


está cansada, quer que eu abaixe um pouco mais a sua cama? — Não, Nana, obrigada! Estava dormindo antes de você chegar. — Sorri, estava feliz que ela não quisesse entrar nesse assunto. — Sobre o que quer conversar? — Bom... — Se remexeu sobre a poltrona, parecia um pouco desconfortável. — É sobre você e o detetive. — Hum... — Arqueei a sobrancelha, não entendendo porque ela se sentia desconfortável em falar sobre ele, afinal, nunca fui restrita com ela em meus relacionamentos passados. — Porque você parece desconfortável? — Queria saber o que está havendo entre vocês, me sinto tão por fora da sua vida e isso nunca havia acontecido antes. — Suspirou magoada. — Oras, que isso, Nana? — Sorri balançando a cabeça. — Venha cá. Pedi para que ela se aproximasse de mim, ela estava certa que nos últimos dias não estávamos conversando como antigamente, mas eu jamais esconderia algo dela e se eu não havia dito nada ainda, era porque não tinha o que falar. Detetive e eu só havíamos resolvido nossos assuntos pendentes algumas horas atrás. — Tem muita coisa acontecendo, não tenho tido tempo para raciocinar, sabe... — Ela sentou-se na beirada da cama e segurou minha mão com carinho. — Desculpa se pareço distante. — É por causa dele, não é? — Sorriu de canto, acabei sorrindo também. — Sim! Mas a verdade era que eu não sabia o que estava sentindo por ele. — Confessei. — E agora sabe? — Não! Nós duas rimos baixo e apesar do lugar e das circunstâncias, me sentia feliz em estar conversando com ela. Eu ainda me sentia perdida quanto aos meus sentimentos por Nicolas, mas havia decidido não pensar mais nisso e apenas curtir o que estava acontecendo. — Mas decidimos ter outro tipo de relação. — Informei, Nana arqueou sua sobrancelha fina e clara, sorriu largo e deu uma piscadela para mim. — Não sei qual vai ser, mas não custa nada descobrir.


— Já é alguma coisa. — Disse gloriosa. — E vocês voltaram a se beijar? — Não, mas ele perguntou ao médico se eu estava apta para fazer exercícios físicos essa noite. — A olhei sarcástica, mas Nana pareceu confusa com o que falei. — Ele quis saber se eu podia transar essa noite. Ela levou a mão até sua boca e balançou a cabeça em negativa, como se não acreditasse que havia ouvido aquilo. Achei sua atitude dramática e muito engraçada, às vezes me esquecia de que ela era uma senhora de idade e de que em sua época ninguém transava em um hospital ou qualquer lugar público. — Mas, aqui? Hoje? Você concordou com isso? — Nana... — Ri meio alto. — Tem algo aqui embaixo que está até salivando à espera disso. — Kayla, estamos em um hospital. — Que possui uma confortável cama. Ela riu com meu comentário malicioso, respirei fundo e tentei me espreguiçar, mas o fio conectado na minha veia do braço não permitiu tal movimento. Aquilo estava me deixando brava, eu estava claramente bem, tudo não havia passado de um susto, mas insistiam em me fazer tomar soro. — Nana, pode pedir que uma enfermeira venha até mim? — Falei com minha voz alterada, enquanto olhava para a bolsa de soro pendurada no pé da cama. — Antes que eu mesma me livre dessa merda. — Calma, mocinha. Vou ver se encontro alguém. — Balançou a cabeça sorrindo e deixou meu quarto logo em seguida. Passou-se poucos minutos até que a porta fosse aberta novamente, Nana entrou acompanhada por uma enfermeira, e acabei deixando um sorriso extremamente largo surgir em meu rosto. O problema foi que a enfermeira me deu o mesmo sorriso e ainda acrescentou um pouco de sarcasmo. — Então a mocinha pensa que vai se livrar disso aqui? — Foi até a bolsa de soro e conferiu o quanto ainda tinha. — Ah, por favor, por favorzinho. — Implorei, se eu pudesse me ajoelhar tinha feio isso naquele momento. — Eu não preciso mais disso aqui, me sinto bem.


— Senhorita Mendes, você levou uma pancada forte na cabeça, caso não esteja ciente disso. Perdeu uma quantidade de sangue que desidratou o seu corpo, então, sim, você precisa do soro. — Eu podia sentir a ironia em sua voz, parecia feliz em me irritar. — Mas, veja bem... — Chamei sua atenção, eu faria ela pensar melhor sobre o assunto. — Dependendo da quantidade que uma bolsa comporta, você teria que estar vindo trocá-la, no máximo, de duas em duas horas... — Hum... — Ela pareceu pensar no assunto. Já estava de noite, Nicolas disse que não demoraria a voltar, mas estava demorando e eu não sabia o porquê, mas me sentia muito ansiosa. Fiquei observando a enfermeira ir até uma porta que eu ainda não havia notado no quarto e então vim a descobrir que era o banheiro. — Me deixe dar uma examinada em você. Ela saiu de lá caminhando em minha direção, enquanto secava suas mãos no papel toalha. Colocou suas luvas e pegou algo no bolso do seu jaleco. De repente, a enfermeira já estava com suas mãos em meu rosto, abrindo meus olhos e enfiando uma luz dentro deles. — Ai, ai, ai... isso arde. — Reclamei, emburrada. Ela não podia colocar aquela espécie de mini lanterna em meus olhos sem antes avisar. — Parece até uma criancinha. — Ela rebateu e conferiu meus ouvidos também. — Abre a boca. Não, aquilo não foi um pedido, foi uma ordem e Nana ria de minha situação sem nem ao menos tentar esconder. Quando a enfermeira se afastou, deixei meus olhos rolarem novamente, para que ela visse minha total descrença em seu comportamento. — Que amor de enfermeira você é. — Empinei meu nariz para o outro lado, me recusando a olhá-la. — Você acha? — Ela zombou. — Vai me achar mais amorzinho então. Voltei minha atenção para ela, porque suas palavras vieram como músicas até mim. Ela aproximou-se com cautela e de maneira muito profissional, tirou a agulha que estava ligada à minha veia, Ali, naquele momento, todos já podiam ver meu sorriso novamente. Não que eu tivesse medo dessas coisas, só que todo aquele lugar me fazia lembrar da última vez em que estive com minha mãe.


Capítulo 10 — Você parece bem melhor. — Nana riu ao sentar-se ao meu lado na cama de novo. A enfermeira já havia saído e eu não sabia o porquê, mas mesmo que aquela mulher tivesse tirado sarro da minha cara por várias vezes e me tratado como uma criança, eu tinha gostado dela, tinha gostado do seu jeitinho... ah, como posso dizer... encantador. — Me sinto melhor, obrigada. — Sorri largo. — Nana, Rafael esteve aqui hoje e se comportou muito estranho. — Ah, querida, você sabe bem o que ele sente por você... — Não! — Acabei lhe cortando antes que falasse algo que acabasse com meu bom humor. — Nós colocamos uma pedra no passado, Nana, então não pode usar isso como uma desculpa. Ela pareceu ponderar minhas palavras e afirmou com a cabeça. — Bom, também temos a questão da sua imagem nas mídias. Esse seu atentado já repercutiu em todo o país, ele está tendo que lidar com a imprensa de várias cidades, sem contar nos paparazzi que ficam acampados na porta de casa como se fossem urubus esperando pela carniça. — Nesse caso, eu sou a carniça. — Suspirei irritada. — Nana, você sabe que odeio chamar atenção, ainda mais para coisas assim. Eu ficava agoniada em saber que não conseguia ter uma vida particular, claro que na minha rotina normal, paparazzi também me incomodam, mas não tanto quanto acostumava incomodar em ocasiões... especiais. Isso me fazia lembrar do dia em que minha mãe morreu, nem mesmo um enterro decente fomos capazes de fazer. Fãs, imprensa, paparazzi... todos invadiram o local do velório, assim como o caminho até a lápide de minha mãe. Não tiveram um pingo de respeito por ela, ou pelas pessoas que sofriam a sua perda. Não que eu fosse ser hipócrita e ignorar o que os fãs sentiam,


porque o amor de alguns era verdadeiro tanto quanto o meu por ela, mas no caso da imprensa e paparazzi... foi uma total falta de respeito. — Eu sei, mas você vai sair dessa com a cabeça erguida. — Sorriu, de uma forma que me acolheu a alma. — Estive pensando, você deveria tirar uns dias para você longe de toda essa confusão. É, sua ideia não era ruim, mas me ausentar por muitos dias poderia deixar as gravações do programa atrasadas, sem contar que eu não tinha onde me esconder, além da minha casa de campo. — Bem que eu queria, mas não acho que me ausentar seja o certo no momento. — Só até você se sentir bem o suficiente para lidar com tudo o que está acontecendo. — Colocou a mão em meu rosto e sorriu doce. — Mesmo se eu quisesse, não tenho necessariamente, um lugar para me esconder. — E sua casa no campo? — Questionou. — É afastada, mas não escondida. Todos sabem sobre ela, porque foi aonde minha mãe morou por alguns anos após meu nascimento. Ela concordou com a cabeça. Se eu fosse para essa casa, acabaria sendo questão de minutos até alguém me encontrar, então não teria adiantado de nada. — Poderia ao menos tentar, não acha? — Tudo bem, vou fazer esse sacrifício por você. — Começamos a rir, mas o barulho da porta se abrindo nos fez ficar em silêncio.


Sei que poderia parecer muito antiprofissional ou até mesmo rude e grosseiro, mas quando me aproximei da porta do quarto e ouvi as duas conversando, não pude interferir. Talvez, porque eu quisesse saber se elas falavam sobre mim, mas depois, quando descobri o real motivo da conversa, eu coloquei minha mente para pensar. Depois de tudo o que havia acontecido, eu achava muito justo ela se afastar, isso porque ela nem tinha visto ainda o alvoroço na entrada do hospital e se eu tivesse o poder de tirá-la dali sem ter que passar pelos abutres que lhe aguardavam do lado de fora, eu faria. — Senhor, algum problema? — Virei-me com o susto e respirei aliviado ao ver a enfermeira. — Só estou aguardando a minha vez de entrar no quarto. — Respondi educadamente, mas a enfermeira arqueou uma de suas sobrancelhas e empinou seu nariz para mim. — Ahan, sei. — Me entregou alguns lençóis, me deixando um pouco confuso. — Me informaram de que o senhor vai passar a noite com a paciente e apesar de isso burlar algumas regras, te deram essa autorização. Quando parar de ouvir atrás da porta, deixe essa troca de cama sobre a poltrona, obrigada. Então, após sua resposta nada educada, foi minha vez de arquear a sobrancelha e lhe dar um sorriso forçado, sem deixar que nenhum dente aparecesse. Minha reação fez ela sorrir largamente, e fiquei me perguntando qual era o problema daquela mulher. Balancei a cabeça, olhei para o amontoado de panos em meus braços e respirei fundo. Segurei na maçaneta da porta, destranquei e entrei fazendo a conversa das duas se dissipar. Sorri para ambas em um balançar de cabeça e vi o olhar de Kayla cair sobre meus braços. Soltei uma risada pelo nariz e caminhei até a poltrona que já não estava no


mesmo lugar, nem estava repleta de ursinhos como mais cedo e deixei sobre a mesma. — Deveriam avaliar melhor a pessoa antes de contratá-la como enfermeira por aqui. — Comentei humorado. — Estou de pleno acordo. — Kayla concordou, mas acho que ela se referia à outra coisa. Sorri de canto e me aproximei de sua cama, Nana me recebeu com um sorriso doce e largo, por um breve momento, aquele seu gesto me fez pensar em minha mãe. Ela tinha o mesmo sorriso, o mesmo olhar, o mesmo gesto, ela havia sido uma mulher exuberante. Nana levantou-se e bateu suas mãos no vestido, foi até Kayla e beijou sua testa. Estava despedindo-se, e por mais que eu quisesse ficar sozinho com Kayla, ela não precisava ir embora tão depressa. — A senhora não precisa ir agora se não quiser. — Minha mão pousou sobre seu ombro, ela sorriu assentindo. — Não se preocupe detetive, já deu minha hora... e além do mais, preciso assistir minha novela. Aquilo me fez rir discretamente em um balançar de cabeça, talvez fosse coisa de senhoras de idade ficar tão fissuradas em suas novelas. — Sendo assim, posso pedir ao Cooper para que te leve, não está fácil passar pela entrada do hospital. — Já estava pegando meu celular no bolso da calça quando ela me impediu. — Obrigada, mas Rafael já está esperando por mim. —Caminhou em direção da porta e ao segurar na maçaneta olhou para trás. — Tenham uma boa noite! O sorriso que ela deu ao dizer essa frase fez alguns questionamentos aparecer em minha mente, será que ela e Kayla, realmente, haviam conversado sobre mim? Deixei de olhá-la por um momento e levei meus olhos até Kayla, ela estava sorrindo cúmplice e isso respondeu todas as minhas perguntas. Mas também havia ficado intrigado, Rafael estava esperando por ela? Ele havia entrado para falar com Kayla? O que eles teriam conversado? Porque isso me incomodava?


— Demorou! — Sorri ao olhá-lo, ele virou-se em minha direção após passar alguns segundos que nem besta olhando para a porta. Isso atraiu minha atenção de forma curiosa, eu não sabia quase nada sobre Nicolas, andei pesquisando sobre ele, mas na internet não mostrava nada demais. Eu queria conhece-lo a fundo, sua família, seu lugar preferido, suas frustrações, queria me ligar a ele de alguma maneira, porque além dessa atração forte que nos unia, eu sentia que faltava algo a mais. Cooper havia sido muito gentil em me dar algumas informações, mas acho que preferia ouvir da boca dele. — Sinal de que sentiu minha falta. — Sorriu presunçoso, convencido. Aproximou-se com cuidado, sentou na beirada da minha cama e passou seus dedos longos na silhueta do meu rosto. Ele estava sendo carinhoso, tão carinhoso que eu mal conseguia reconhece-lo. Eu gostava disso, gostava mesmo, mas também gostava daquele detetive carrancudo e de língua afiada. — Talvez. — Suspirei fraco. — Algum problema? — Questionou-me com certa preocupação. — Estou em um hospital, recebendo ameaças anônimas... Problemas é o que mais tenho, caro detetive. — Ri baixo, me ajeitando sobre a cama. — E se conversássemos sobre algo. Qualquer coisa que te faça esquecer, ao menos por alguns minutos, o que se passa lá fora. Afirmei com a cabeça sorrindo, acho que uma conversa com ele não seria apenas um passatempo, seria também uma maneira de saber mais sobre sua vida. Arqueei a sobrancelha ao vê-lo se livrar de seus sapatos e se deitar ao meu lado tão confortável. Eu nem sabia se aquilo era permitido, mas depois do médico ter, tecnicamente, concordado com


os tais exercícios físicos, eu já não duvidava de nada. — O que gosta de fazer no verão? — Perguntou-me, minha testa franziu intrigada. — Ah, bom... — Tentei me recompor para responder sua pergunta, entendi que ele já havia começado com a nossa missão de “esquecer o que se passa lá fora”. — Antigamente, eu amava velejar. — Velejar? — Ele pareceu surpreso. — Sim, minha família tem um veleiro na casa de campo, mas nos dias de hoje passo meus verões no clube esportivo. — Sorri ao olhá-lo. — Devíamos jogar uma partida qualquer dia, o que acha? — Lhe dirigi um sorriso desafiador. Nicolas me observava com atenção, parecia apreciar minhas palavras, talvez tivesse percebido o quanto falar sobre essas simples coisas me faziam bem. Só que, ele mesmo tão perto, parecia querer manter distância. Parecia receoso com alguma coisa. — Vai me deixar no chinelo, senhorita. Nunca joguei tênis. — Confessou com um sorriso divertido nos lábios. — Disse que o veleiro é da família, porque não volta a velejar? — Quando meu pai morreu, o veleiro ficou de herança para meu irmão e desde então parei de usá-lo. — Respondi dando de ombros. — André nunca gostou de velejar, mas também nunca quis passar o veleiro para mim, no fim, acabei me acostumando. Não gostava muito de falar do meu irmão, porque depois que nossos pais se separaram, ele cortou nossa ligação como se tudo fosse culpa minha. Após a morte do nosso pai, ele decidiu que cuidaria do veleiro e da casa de campo, coisa que fazia vagamente e com má vontade. Depois, quando nossa mãe se foi ele decidiu que nós dois não tínhamos mais nada em comum e vivemos assim desde então. Fui renegada por ele quando mais precisei, mas não hesitaria em ajuda-lo se um dia ele precisasse e pedisse por minha ajuda. Eu o amava demais para simplesmente ignorá-lo e deixar para lá. — Sua mãe usava o veleiro? — Nunca. Não gostava do lago, nem da casa de campo. — Nem de seu pai, não é? — Que tipo de pergunta é essa? Enruguei a testa completamente perplexa por termos chegado


nesse tipo de conversa, não que eu quisesse esconder algo, mas o que isso tinha a ver com nós. Bom, pensei que sua oferta de conversa fosse para falarmos de coisas boas, falarmos de nós ou algo assim. — Eu vi algumas fotografias em sua casa, Kayla. Seu pai e sua mãe juntos... não pareciam felizes. Acabei ponderando suas palavras por alguns segundos. Tinha que concordar, eles nunca chegaram a ser um casal de verdade. Talvez tivessem sido algum dia, mas desde que me entendia por gente, eles mantinham um casamento de aparências. — Acho que depois de um tempo, começaram apenas a se tolerar, como acontece com marido e mulher em qualquer casamento. Papai era um homem muito exigente e decidido e Isabella gostava de tudo ao seu modo. Ambos não passavam muito tempo em casa. — Em que ele trabalhava? — Ações. Fez bilhões em dinheiro. — E tinha seus casos? Fiquei parada, apenas olhando para ele, Nicolas parecia muito inocente sentado ali, mas seu olhar era insistente e intenso. Parecia disposto em saber tudo sobre minha vida, o que era justo, porque nem mesmo suas pesquisas mais afiadas, poderiam descobrir meu passado por inteiro. Só que esse tipo de informação não lhe ajudaria no caso, ajudaria? — Essa pergunta é mesmo necessária? — Não pretendia ofendê-la, só queria entender o que se passava entre eles. — As infidelidades do meu pai têm alguma coisa a ver com as cartas que ando recebendo? Acha que suas velhas amantes podem estar enviando ameaças para mim, só porque foram chutadas um dia pelo meu pai? — Questionei brava. — Então ele tinha amantes? Suspirei. — Não sei bem, Nicolas. Havia alguma coisa de errado entre eles. — Confessei. — O que isso significa? Arqueei minha sobrancelha, intrigada com sua curiosidade repentina sobre meus pais. Ele estava tentando me aborrecer com esse


assunto? O que havia acontecido com nossa noite de sexo? — Nossa casa era grande. Assim cada um ficava em seu canto sem intrometer-se uns com os outros. Quando meu pai estava em casa, era a mesma coisa de não estar. Ele sumia. Eu ia para o meu quarto e mamãe ficava trancada em seu escritório fazendo seu trabalho para a coluna. — A coluna que você mantém na revista Glamour? — Sim. Aquela coluna é a única coisa que eu gosto de verdade. Porque consigo escrever sobre algo que entendo. — Roupas e sapatos? Acabei rindo baixo de sua pergunta. — Também. — A casa que vocês moravam é a mesma onde você mora agora? — Senti seu braço passar por trás do meu pescoço, então me aconcheguei, deixando minha cabeça pousar sobre seu tórax. — Não, morávamos na casa de campo, minha mãe comprou essa mansão quando entrei no colegial, assim, ela e Linda escreveram a coluna durante anos no escritório da residência. Nic ficou em silêncio, parecia querer visualizar em sua mente tudo o que eu falava, toda a minha vida. — Continue. Quero saber mais. — Segurou minha mão que repousava em seu tórax e enlaçou nossos dedos. Suspirei forte. — Não é que não gostássemos uns dos outros, pode ser que você não compreenda, mas nós não nos conhecíamos bem. Papai e eu éramos os mais próximos, mas mamãe... — Fingi arrumar meu cabelo que caía em meus olhos e respirei fundo. — Nós duas brigávamos muito, não concordávamos em nada, de certa forma, eu me parecia mais com meu pai e isso parecia irritá-la. Diante do silêncio de Nicolas, prossegui com meu depoimento: — Nana quem cuidou de mim, ela era mais mãe do que Isabela foi algum dia. Nas vezes em que precisei de conselhos, eu recorria à Nana e ela me enchia de cookies. Por Deus, aqueles cookies eram deliciosos! Ri baixo e ele me acompanhou, pude ouvi-lo respirar fundo e fechei os olhos ao sentir seus dedos alisarem meus cabelos. Aquilo me acalmava de uma maneira estonteante e ali, em seus braços, era onde eu me sentia mais segura.


— O que houve com Linda? — Questionou-me. — Não sei muito bem, mas após a morte da minha mãe ela mudou para outro país. Soube que mantém uma coluna jornalística no jornal de sua cidade. Nic permaneceu em silêncio, ele era um bom ouvinte. Inspirei fundo para me embriagar com seu perfume e sorri para mim mesma, não sabia ao certo em como nós dois havíamos acabado assim, mas estava amando cada segundo ao seu lado.


Capítulo 11

Mesmo receosa no início, falar sobre isso parecia fazê-la sentir-se melhor e esquecer a baderna lá fora. Sem contar que eu estava tirando informações que pesquisa nenhuma iria me revelar. — E quanto ao Rafael? Disse que tiveram um relacionamento. — Ela mexeu-se em meus braços, mas apertei seu corpo contra o meu, porque não tinha sensação melhor do que ter ela comigo. Presa a mim. — Nana quem me aconselhou nos relacionamentos, ela ficou ao meu lado quando me envolvi com ele. — Seus pais não o aceitaram? — Perguntei curioso, mas em uma das pesquisas que fiz, já havia descoberto a resposta, porém, nada melhor do que confirmar com a própria fonte. — Ele não foi bem recebido. Você sabe, preconceito idiota. Rafa é negro, e infelizmente, meus pais eram racistas. — E o que aconteceu? — Minha mãe ameaçou me tirar do testamento, disse que eu não herdaria nem mesmo o veleiro do meu pai. Eu era nova e isso me parecia o fim do mundo, mas com custo entendi que Rafael não precisava ser meu namorado, porque combinávamos mais como amigos. — Suspirei. — O pior foi que o veleiro, realmente, não ficou para mim. — Você tem um apreço muito grande por ele, não é? — Sim! Era do meu pai, sou apegada a qualquer coisa que me lembre ele. — E Nana? Ela aprovou o seu namoro com Rafael? — Perguntei rígido. Mesmo que fosse eu quem começou a conversa, já não estava


gostando de falar desse cara. Me incomodava. Por alguma razão, tinha algo nele que me cheirava podre. — Ela sempre me aconselhou a ouvir o coração, e que se fosse da minha vontade levar o relacionamento adiante, que lutasse por isso. Ela sempre foi maravilhosa! E fez a mesma coisa quando comecei a namorar Júnior. Cocei minha nuca, claramente incomodado com a pronúncia desse nome, porque minhas lembranças me levaram até o dia em que visitei seu gabinete. Ainda sentia vontade de socar a cara desse desgraçado quando me lembrava do que ele disse sobre Kayla. — Começou a namorar Júnior no início de março do ano passado e alguns dias depois sua mãe faleceu, vocês estavam juntos quando tudo aconteceu? — Sim. — Ela afastou seu corpo do meu, mesmo quando tentei segurá-la e suspendeu a cabeça para cima a fim de me olhar. — Isabella também não gostava dele? — Não se tratava apenas de uma simples antipatia, Júnior é católico e como eu já disse, meus pais sempre foram muito preconceituosos com tudo. Mesmo que os pais dela estivessem mortos, eu estava feliz em não ter uma religião. Acreditava em Deus, mas não frequentava nenhuma igreja, talvez por passar muito tempo em meu trabalho. — Alguma vez Júnior e Isabella discutiram? — Ela arqueou a sobrancelha, parecia ter entendido onde eu queria chegar. Está certo que eu não era o fã número um do cara por diversos motivos, e apesar de ele parecer limpo nessa história, eu desejava o contrário, só para ter a chance de me vingar de tudo o que ele havia feito para mim. — Não. De forma alguma. Eles se viam apenas em comitês da prefeitura e não trocavam mais do que duas palavras. — Como é seu relacionamento atual com a Nana? A pergunta foi meio estúpida porque não era preciso perguntar sobre isso para saber o carinho que havia entre ambas, mas isso me pareceu ser o mais sensato a se fazer, já que eu não conseguiria sustentar por muito mais tempo a conversa sobre Júnior de forma agradável. E pelo sorriso largo que rasgava a face de Kayla, parecia que eu


havia tocado no assunto certo. — Nana é meu porto seguro, tanto no trabalho, como pessoalmente. Faz minhas pesquisas, escreve minha coluna, lida com os leitores, responde meus e-mails... — Ela ter falado sobre isso, me fez lembrar de que havia ganhado um convite para a casa de campo de Kayla, agora sabia que não tinha como ter sido ela a fazer, e sim Nana. — Além do mais, me conhece melhor do que ninguém e sabe quando preciso desabafar. Sua última palavra entregou as emoções que sentia, ela estava com a voz fraca e parecia querer chorar. — Mas se ela faz tudo isso, o que sobra para você? — Essa é uma boa pergunta, caro detetive. Sou uma atriz, muito boa inclusive. Em público, no palco, diante das câmeras, toda vestida de rosa. Uma verdadeira piada. — E o que pretende fazer em relação a isso? — Não entendi a pergunta. — Ela franziu o cenho e tive vontade de desmanchar aquelas linhas de expressões com a língua. Ela ficava linda até mesmo quando estava intrigada com alguma coisa. — Sua vida, Kayla. O que pretende fazer com ela? Porque sabemos que ser apresentadora não te faz feliz. — Fui sincero em minhas palavras e esperava que ela fosse comigo também. — Gostaria de voltar a ser treinadora de tênis, adorava meu antigo emprego. — Ela sorriu, acabei sorrindo mais largo que ela. Kayla era uma ótima treinadora, havia ganhado muitas medalhas desde os seus dezessete anos e agora eu sabia o porquê de ela ter abandonado o time. Na internet não anunciavam o motivo da sua saída, apenas disseram que o time havia trocado de treinadora. — Por que não volta? — Porque fiz uma promessa a minha mãe. — Ela suspirou, eu podia sentir o peso do seu fardo. — Uma mãe que nem ao menos te amava, Kayla. — Respondi sério, mesmo que isso a machucasse, era a verdade e Kayla sabia bem disso. Tanto que afirmou com a cabeça e olhou para baixo. Voltei a sentir o peso da sua cabeça em meu tórax e lhe abracei com firmeza. — Precisamos falar sobre o que aconteceu em seu carro na outra noite.


Não respondi, esperei que ela levantasse seu olhar em busca do meu e sorri ao me lembrar daquele dia. Queria muito saber o que havia acontecido com ela, mas já não parecia importante para mim. — Não falamos nada desde então, porque você tem me evitado. — Não é bem assim. — Na verdade era. — Eu tenho trabalhado muito. — Uma desculpa atrás da outra, mas eu tinha decidido esquecer essa mulher, e só ia conseguir me afastando. No fim, nada adiantou. — Bem, eu tenho tentado fingir que não houve nada entre nós. — Está dando certo? — Questionei, sentindo uma leve aceleração no peito. — Não muito. — Comigo também não daria.

Kayla voltou a se afastar de mim e eu já estava cogitando a possibilidade de amarrar ela junto a mim com uma corda. Por Deus, ela não podia ficar se afastando desse jeito. O efeito do soro já estava passando e os lábios dela, aos poucos, voltavam para aquela cor rosadinha que tanto me tentavam ao pecado. Só de olhar, eu sentia uma vontade enorme de beijá-la. — Às vezes me sinto confusa com meus sentimentos, fico meio perdida. — Ela disse de repente. — Acho que compartilhamos da mesma aflição. — Sorri inspirando seu cheiro. — Eu gosto de você, Nicolas. Gosto muito! Aquela confissão veio tão natural aos meus ouvidos, tão simples e encantadora, que diante disso só consegui apertá-la em meus braços ainda mais. De alguma forma, precisava garantir que essa mulher permanecesse em minha vida, que não chegasse a me deixar nunca, porque eu já fantasiava minha vida ao lado dela. — Também gosto de você, senhorita linha dura. — Disfarcei um sorriso. — Formamos um par interessante, sem dúvidas. Ela riu, uma risada gostosa que eu iria fazer questão de guardá-la em minha lembrança para sempre fazê-la rir, dessa mesma forma outras


vezes. Voltou a se ajeitar em meus braços e segurei com firmeza em sua cintura. Sua respiração estava leve e a ouvi bocejar, acho que não íamos fazer o que eu havia planejado e depois de ter essa conversa com ela, decidi que Kayla Mendes merecia mais do que uma noite de sexo no hospital. — Quer saber de uma coisa, bonita? — Ela voltou a me fitar com aqueles olhos que tinham o poder de me desarmar por inteiro. Enrugou a testa em uma expressão confusa e curiosa, talvez fosse pelo o apelido que havia lhe dado. — Quando estiver pronta para mim, pretendo fazer amor com você. Quero muito terminar o que começamos no carro. Ela engoliu em seco e sorriu. — Pensei que fôssemos fazer isso hoje. Senti cinquenta tons de malícia em sua voz, isso acabou me divertindo. — Era a minha vontade, não vou negar. Mas você merece mais do que um sexo em uma cama de hospital. Assim, vou te fazendo companhia enquanto me preparo. — Para o que? — Para quando o que ando imaginando se tornar realidade. — Sorri malicioso. — Você em minha cama. Quero tê-la bem selvagem. Mas também, quero que faça amor comigo porque me deseja, não por estar sexualmente frustrada. — Semicerrei meus olhos, provocando-a.


— O que disse? — Questionei perplexa. — Que talvez você não tenha encontrado o amante certo, Kayla. Mas eu posso esperar. O fitei com afinco, tentando descobrir se havia algum índice de sarcasmo em suas palavras, porque me recusava em acreditar que ele estava sendo tão idiota e imbecil. — Você é inacreditável, detetive. — Ainda não, mas serei. — Soltou uma piscadela descarada e sorriu de canto. — É arrogante, machista... não sei como concordei de você dormir aqui. Talvez eu te jogue da cama. — Bufei. — Eu a levaria comigo. Aposto que está sem nada por baixo do lençol. — Seu olhar parecia querer me devorar, mas me senti completamente exposta. Ele havia acertado em tudo, eu estava há muito tempo sem ter relações e minha vida sexual era totalmente frustrada. Só que isso não havia me incomodado tanto, até ouvir de sua boca. Me senti miúda, sem vida, rejeitada, algumas lágrimas escaparam dos meus olhos e percorreram meu rosto. — Bonita, estava apenas te provocando, não queria magoá-la. — Senti a preocupação em sua voz e logo seus dedos vieram resgatar minhas lágrimas. — Talvez tenha chegado perto da verdade, detetive. Isso quando comentou que sou sexualmente frustrada. — Respirei fundo, tentando me controlar. Nic não disse mais nada, entendeu que naquele momento eu não queria ouvir, e sim sentir. Abraçou-me apertado, de uma forma que


consegui sorrir em meios as lágrimas e adormeci ali. Sentindo seu peito subir e descer por conta da respiração, ouvindo seu coração bater, de uma forma que fazia me sentir em casa e mantendo contato com seu corpo, que não esquentava apenas a minha pele, como também a minha alma.

— Feche os olhos e finja que não amanheceu ainda. A voz sussurrada ao meu ouvido, rouca e manhosa, causou um turbilhão de reações em meu corpo. Meus olhos passearam pelo quarto, tentei arrastar meu corpo para fora da cama sem acordá-lo, mas fui bruscamente interrompida pela voz de quem acabara de acordar. Olhei em sua direção e sorri, atordoada por tamanha beleza logo pela manhã. Não sei explicar como, mas Nic ficava incrivelmente mais bonito e apetitoso com sua cara amassada, cabelos desgrenhados e olhos miúdos por conta do sono. Ousei beijar seu tórax, mesmo que não conseguisse ter contato direto com sua pele. Ele suspirou abrindo um de seus olhos e me fitou. Parecia um felino atento a sua presa. — Bom dia! Como está? — Duro! — Respondeu sem pudor. — Não sei se aprovo seu linguajar. — Me fiz de ofendida, ele riu gostoso e eu desejei que ele não parasse, porque ele conseguia ser ainda mais apetitoso rindo. Passou os braços em volta do meu corpo e me levou até ele novamente, me mantendo perto, parecia ter medo que eu fugisse. — Você pode provar outras coisas. — Arqueou a sobrancelha em um charme irresistível. — Detetive... eu disse aprovar, não provar. Limpe essa mente suja. — Dei um leve tapa em seu abdômen. — Kayla, não acordar duro depois de passar a noite sentindo essa bunda gostosa esfregar em meu pau, seria quase impossível. — Continuou me olhando e acabei deixando um sorriso malicioso escapar, porque eu havia me esfregado nele de propósito. — Fez de propósito, não fez?


— Você iria acordar duro de qualquer jeito. — Dei de ombros, fingindo pouca importância. Nic balançou a cabeça levemente, suspirou forte e beijou minha testa de forma protetora, de uma forma que chegou a me deixar emocionada. Ele estava mostrando-se tão diferente do que pensei que ele seria, sentia que ele era verdadeiro em tudo o que fazia, não era igual a mim, uma completa fraude. — Precisamos levantar antes que a enfermeira chegue. — Falei, animada por finalmente ganhar alta. — Projeto de enfermeira, você quis dizer. — Ele bocejou. Fiquei parada por alguns minutos, observando-o de uma maneira completamente boba e idiota, dei um tapa em minha consciência e aproveitei o momento que ele foi arrumar seus cabelos para levantar da cama. Bem, pelo menos eu estava de camisola, porque se estivesse nua, do jeito que ele me encarava, teria me jogado na cama e feito o que evitou durante a noite toda. — Gosta do que vê, caro detetive? — O provoquei. — Cada centímetro, senhorita Mendes. — Ele mordeu os lábios e morri mil vezes com aquela visão dos infernos. Ainda bem que nós, mulheres, não temos nada que endureça e entregue nossa excitação. Balancei a cabeça o reprovando, ele arrastou-se até a beira da cama e começou a calçar seus sapatos. Caminhei até minha bolsa de roupas, acho que Nana quem levou para mim quando dei entrada no hospital. Peguei algumas peças de roupas e estava caminhando em direção ao banheiro quando Nicolas chamou minha atenção. O olhei meio desconfiada e senti minhas pernas tremerem ao vê-lo ir ao meu encontro com aquele olhar felino e predador. — Nicolas... — Vai ficar rebolando essa bunda mesmo? Pensei que suas mãos fossem até minha cintura, mas passaram direto indo apalpar minha bunda. Soltei um gritinho contido de surpresa e tesão. Qual o poder que esse homem tinha sobre mim? — O que está fazendo? — Questionei ao sentir sua mão passar para debaixo do tecido fino. Arfei. Minha mente viajou para aquele dia no carro e um arrepio violento apossou meu corpo. Fechei os olhos e me segurei em seu tórax, atordoada e rendida aos sentimentos que ele me causava. Podia sentir


sua respiração em minha bochecha, logo em seguida, em meu pescoço. Deixei a cabeça pender para o lado para que ele tivesse mais acesso e seus lábios encostaram em minha pele sensível, me fazendo ofegar forte em seus braços. — Não faz isso. — Ele me alertou, mas quem estava fazendo era ele. — Não se atreva em gemer. — Por que? — Abri os olhos, claramente frustrada, porque eu já ia soltando um gemido prazeroso. — Porque não vou ter tempo de fazer o que quero. — Nossos olhos se encontraram. — Vista-se, meu bem, antes que eu termine de tirar suas poucas roupas. Ele sorriu, acabei fazendo o mesmo porque sua companhia, seu jeito me alegrava e me divertia. Caminhei em direção do banheiro, após me desvencilhar de suas garras, mas fui parada antes que pudesse tocar na maçaneta. — Kayla? — Sim? — Virei-me e o fitei. — Mereço um beijo? — Aproximou-se com cuidado. Seu pedido havia sido tão delicado, que cheguei a me emocionar com suas poucas palavras. Sorri largo, tentando não parecer nervosa com seu simples pedido e afirmei com a cabeça, fechando os olhos logo em seguida. Pude sentir meu corpo incendiar com o seu toque em minha cintura, minha garganta secou, assim como meus lábios. Sua respiração abafava a minha e tive que fazer um esforço imenso para não o agarrálo. Por que ele estava tão lento? Já estava pensando em abrir meus olhos quando seus lábios encostaram nos meus, e sua língua enroscou na minha. Meu corpo parecia estar desmontando em seus braços, respirei fundo tentando conter o gemido e me segurei em sua nuca, mas tudo o que é bom dura pouco, e naquele caso, Nicolas me levou ao céu, mas me deixou em queda livre alguns segundos depois. Ainda assim, sorri ao fim do nosso breve beijo. — Que beijo bom, detetive! — Sorri sincera. — Tem muitos outros de onde esse saiu. — Lançou seu convite tentador.


— Vou precisar tomar cuidado. — Confessei, Nic olhou-me intrigado e prossegui. — Você viu a longa lista de namoros, todos deram errado, então preciso ser honesta com você. — Honestidade é bom. — Mas, e você? Não tem medo de se envolver? De se relacionar? — Questionei, porque em minhas pesquisas não constavam nada sobre algum relacionamento... mas percebi que havia entrado no assunto errado. Nicolas parecia rígido e tenso, pensei que não fosse responder. — Sou cauteloso, restrito..., mas não com você, bonita! — Abraçou-me com carinho. — Agora vá se trocar. Mandou, dando um tapa forte em minha bunda.


Capítulo 12 Deixei o banheiro vestindo um dos meus shorts preferidos, uma camisa social de manga três quartos e meu tênis confortável. O look não combinava em nada, mas essa era eu. Essa era a Kayla Mendes. Haviam vozes no quarto e não demorou para que eu encontrasse os donos delas. Confesso, fiquei confusa quando vi Rafael ali, porque havia sido clara quando disse que sairia com Nicolas. — Rafael? — Revirei os olhos. — O que faz aqui? — Vim te buscar. Cocei minha testa olhando dele para Nicolas, que não parecia estar contente com a cena que se desenrolava ali. Aquilo era ciúmes? Balancei a cabeça e soltei um suspiro pesado, porque essas coisas só aconteciam comigo mesmo, não tinha jeito. — Pensei ter sido clara ontem. — Clara como água. — Respondeu, me fazendo enrugar o cenho. — Mas não custava vir tentar. — Eu mereço. Bom, pelo menos você pode me fazer um favor? — Ambos me olharam intrigados, mas a chegada de Rafael ali havia me dado uma ideia. — Você pode sair acompanhado de uma mulher do hospital, eles irão pensar que sou eu. — Enquanto isso você sai com o armário ali. — Ele olhou na direção de Nicolas e eu quase ri do apelido que ele havia dado ao detetive. De fato, Nic era maior do que o Rafa em muitos quesitos, mas havia outra coisa na qual eu gostaria de saber o tamanho. — Não comece a agir como um imbecil. — O alertei, Rafael pareceu entender meu tom de ameaça e afirmou com a cabeça. — Precisamos de uma mulher... Já estava começando a colocar meus parafusos para funcionar, pois achar uma mulher com o corpo parecido com o meu seria algo difícil. Não que eu quisesse me gabar, mas eu me mantinha em forma e adorava minhas pernas torneadas, não chegava a ser musculosa, mas tinha um corpo... gostoso.


— Interrompo? — Uma enfermeira jovem, com voz doce e sorriso fácil, nos olhava parada junto da porta. Olhei para Rafael e Nicolas, ambos pareciam compartilhar dos mesmos pensamentos que eu. Me apressei em ir até ela e com muita lábia, acabei convencendo a pobre coitada de embarcar nessa loucura com a gente. O problema naquilo tudo, não era nem emprestar minhas roupas para ela, ou meus acessórios, nem mesmo coloca-la à mercê daqueles paparazzi, mas ter que lidar com Rafael e Nicolas, juntos, no mesmo ambiente. — Pensei que fôssemos todos adultos. — Reclamei, impaciente com aquelas trocas de farpas que eles faziam, pareciam querer me irritar. — Pensei que ele fosse apenas o detetive. — Rafa rebateu, pelo seu tom de voz, soube que ele já estava sabendo de tudo... — Pensei que você fosse apenas o assessor de marketing. — Nicolas respondeu tranquilamente. Olhei de um para o outro, me sentindo meio zonza. — E eu pensei que você fosse mais eficiente em seu trabalho. — Rafa gabou-se. — Sou o ex. Mas o meu querido detetive não estava querendo ficar por baixo, então estufou o peito e passou o braço em minha cintura, fazendo aquele velho arrepio me assolar novamente. — E eu sou o atual. Morri e voltei a vida mil vezes.


Podia sentir os olhos dele me fulminando, mas eu deixaria claro onde era seu lugar na vida de Kayla. Se o relacionamento de ambos não deram certo no passado, era sinal de que não era para ser, caso contrário, ele não seria ex, e sim atual. Também devo confessar que me comportei com uma possessão sem medidas, mas perto de Kayla eu costumava não ter noção dos meus atos. Era como se meu corpo desligasse e fosse comandado pelo som da sua voz. Mesmo que aquela competição tivesse me agradando, percebi o quanto Kayla estava completamente sem graça, e eu odiava vê-la assim. Gostava daquela Kayla sem filtros na língua ou pudor algum. Era essa Kayla atrevida que havia me conquistado. Além do mais, havia outra pessoa completamente confusa com a nossa pequena discussão. — Perdoe o mal comportamento desses homens, enfermeira. — Minha bonita desculpou-se, mas eu via um sorriso de canto que me encantava muito. — Então, agora que o duelo de machões acabou, podemos partir? — Posso estar enganado, mas o médico não veio dar alta. — Rafael encostou na beirada da cama e acabei respirando fundo. — Ah, sim! Era isso o que eu vinha fazer quando fui raptada. — Senti um pequeno tom de divertimento na voz da enfermeira. — Ele estava vindo liberá-la pessoalmente, senhorita, mas precisou ir para uma cirurgia de emergência. — Então estou liberada? Ver Kayla tão animada por ganhar uma alta, me fez rir pelo nariz. Ainda que o hospital não fosse meu local preferido, pelo menos havia passado uma noite com ela e não me arrependia disso. Na verdade, acho


que faria tudo de novo... — Sim. — A enfermeira voltou a sorrir, transformou seu rabo-decavalo em um coque, colocou o ray-ban de Kayla e nos olhou, aguardando instruções. — Bom... — Levantei a voz para chamar a atenção de todos. — Vou levar Kayla para a saída dos fundos... Peguei o celular em meu bolso e disquei o número de Cooper, sabia que era abusar de sua boa vontade, mas só me vinha ele na cabeça que pudesse nos ajudar naquele momento. Meu amigo era muito competente em seu trabalho, tanto que atendia o telefone no primeiro toque. “— Fala, Almeida!” — Dei minhas costas para Kayla ao notar seu olhar de falcão para cima de mim. — Cooper, está por perto? “— Defina perto, cara!” — Perto do hospital. — Rolei os olhos, porque ele sabia bem onde eu estava. — Preciso de um favor. “— Manda.” — A entrada está cheia de jornalistas, penso em sair com ela pelos fundos... “— Vai dar um olé neles? Entendi. — Senti o cinismo rondar sua voz, também poderia jurar que ele estava com aquele sorrisinho irônico nos lábios. — Vou estar parado lá em dez minutos.” — Valeu. — Desliguei o celular e encarei Kayla, tentando esquecer que aquele homem ainda estava entre nós, respirando o mesmo ar que eu. — Cooper precisa de dez minutos para chegar, já poderíamos deixar vazar que você está se arrumando para sair... — Isso, assim eles ficam alvoroçados e esquecem que tem outra saída. — Ela sorriu para mim, de uma maneira que fantasiou mil coisas em meus pensamentos, mas logo levou sua atenção para o idiota ao lado. — Pode dar uma força, Rafa? Vi que ele se mexeu desconfortável com a pergunta, tinha a impressão de que a sua vontade era de ficar justamente ali, talvez pensasse que estava nos atrapalhando em algo, mas isso seria uma suposição boba. Eu agarraria Kayla na frente de qualquer um, principalmente dele.


Arqueei a sobrancelha e cruzei os braços, não queria parecer intimidador, mas talvez, só talvez, eu tivesse fazendo isso sem querer... querendo. Apesar de sua atitude me irritar, no final me alegrava. Quanto mais Rafael agisse assim, mais pontos perderia com Kayla. E quando finalmente decidiu sair, pude voltar a respirar suave e sorri ao olhar para Kayla. — Devo esperar o rapaz voltar? — A enfermeira questionou. — Sim, espere aqui. — Conferi o relógio em meu pulso. — Vamos, Cooper já deve ter chegado. Suspendi minha mão para que ela segurasse, e quando a mesma o fez, senti a necessidade de colar seu corpo ao meu e ficar assim, abraçando-a eternamente. Deixamos o quarto e caminhamos com pressa pelos corredores do hospital, não queria que ninguém nos visse, porque poderia colocar nosso plano por água abaixo. Já do lado de fora, avistei o carro de Cooper com a porta traseira aberta. Fomos em sua direção e entramos, ali já não me sentia fisicamente cansado, porque estar do lado de fora do hospital fazia meus neurônios trabalharem normalmente. — Tudo vai voltar ao normal. — Tranquilizei Kayla, que parecia tensa em meus braços. — Esse é o meu medo. Senti um certo desespero em sua voz. Eu sabia que ela não gostava da vida que levava e que estava decidida a não abandonar tudo isso, então pensei que uma distração lhe faria bem. Bom, também devo admitir que, estava doido para mostra Kayla para minha família. — Quero leva-la comigo ao aniversário da minha avó. Kayla sorriu diante do convite inesperado. — Sério? — Arqueou a sobrancelha, ponderando o assunto. — Ah, sim...Meu pai mora com ela e é provável que algum outro parente vá, mas são todos acolhedores. — Parece um convite bom para se pensar. — Deu-me uma piscadela. — Pois então pense a respeito, boneca. — Beijei sua testa com carinho e Cooper nos olhou pelo retrovisor, após meu aceno de cabeça, ele movimentou o carro, mas eu não sabia ao certo para qual direção iríamos.


Cooper nos levou direto para a minha casa, mesmo que Nicolas dirigisse palavras para mim durante o caminho, eu não conseguia prestar atenção. Estava inerte, com medo de que tudo, realmente, tivesse voltado ao normal. Não só minha vida, mas nós dois e as cartas. As malditas cartas. Eu sentia que nossa nova relação iria fazer as coisas caminharem mais lentamente, porque ele iria ser minha sombra, e assim não conseguiria fazer seu trabalho. — Kayla? — O olhei. Pela sua testa enrugada poderia chutar que já não era a primeira vez que ele me chamava. — Sim? — Minha voz saiu fraca. — Algo te incomoda? Cooper já estava estacionando o carro em frente minha mansão na cidade, mas pela quantidade absurda de jornalista, ele preferiu deixar o carro um pouco mais ao fundo da residência. Os vidros fumês eram a nossa salvação naquele momento monstruoso. — Tudo aquilo ali me incomoda, detetive. — Apontei na direção do portão da mansão e apesar de ser meia verdade, fui sincera. — Quero que me faça um favor... — Seu sorriso rasgou o rosto e por alguns segundos, a confusão na porta da minha casa foi esquecida. — Arrume uma mala com suas coisas, vou te levar para a casa do campo amanhã logo pela manhã. — Qual casa de campo? — Franzi o cenho. — A sua. — Ele sorriu de canto. — Estou te convidando para irmos à sua casa de campo. — Deixa eu ver se entendi. Você está me convidando para ir a minha própria casa? — Induzi a pergunta, meio incrédula. — Não! Estou sugerindo, talvez forçando você a ir para sua casa


no campo. — Não me lembro de ter concordado com isso. — Arqueei a sobrancelha. Como ele sabia sobre essa casa no campo? Talvez tivesse visto enquanto puxava informações sobre mim na internet ou com Nana, em todo caso, eu estava mesmo pensando em ir para lá, apesar de achar que não resolveria o problema. — Então terei que te sequestrar. — Ele sorriu, sua mão pousou sobre minha perna e apertou com força. Arfei. Arfei profundo. Maldito! — Venho te buscar amanhã antes das 08h00. — Precisa de ajuda para pular as grades? — Cooper foi educado e atencioso. — Que isso, cara? Querendo ver a bunda da minha mulher? Arregalei os olhos e o olhei em descrença. Aquele sorrisinho deixava claro que eles estavam zoando um com a cara do outro, mas isso não significava que podiam me deixar constrangida. Por Deus! — Sua mulher? — Tinha tantas palavras erradas naquela frase e eu só consegui pensar nessas duas. Rolei os olhos balançando a cabeça em negativa, esse detetive ainda seria minha perdição. — Não, não preciso de ajuda, porque não vou pular as grades. — Como pretende entrar? — Nic olhou-me com atenção. Apenas sorri largo dando uma piscadela. — Tenho meus meios. — Inclinei meu corpo em sua direção e beijei seus lábios com delicadeza. — Vou ficar te esperando. Sai do carro e caminhei até minha passagem secreta. Em volta das grades, havia aquelas flores trepadeiras por toda a extensão e tinha um vão, onde uma barra era solta, ninguém sabia sobre isso a não ser eu, porque quando minha mãe era viva e me proibia de sair de casa, aquele era o único meio de quebrar sua regra. Entrei em casa e com o barulho da porta sendo aberta, logo dei de cara com Nana, que estava na cozinha preparando o almoço. Seus olhos caíram sobre mim e foi ao meu encontro, apertou meu corpo contra o seu em um abraço sufocante e gemi baixinho. — Minha menina, não sabia a hora que viria. Como passou pelos... — Ela parou de falar quando percebeu que eu entrava pela porta dos fundos. Sorriu afirmando com a cabeça, talvez tivesse entendido que evitei o portão de entrada. — Veio sozinha?


— Detetive Cooper e detetive Almeida me trouxeram. — Ainda que eu não quisesse me soltar daquele abraço, precisava. — Quando vai deixar de chamar o detetive assim? — Ela riu, me seguiu por todo o processo até meu quarto e se manteve no batente da porta. — Meu subconsciente o chama pelo nome, se isso te conforta. — Ri pelo nariz. Meus passos foram precisos até meu closet e vasculhei minhas coisas em busca da mala menor. Joguei sobre a cama e ouvi um resmungo de Nana, mas não parei para olhá-la. Ela parecia curiosa em saber para onde eu estava indo, só que se ela parasse alguns minutos para pensar, ela saberia, porque foi ela mesma quem deu a ideia. — Vou passar alguns dias na casa do campo. — Oh, isso me alegra, querida! —Sentou na beirada da cama e me olhou com um pesar. Parei com minhas roupas nas mãos e a encarei. — O detetive vai com você? — Sim, na verdade, ele quem sugeriu de forma nada amistosa que fôssemos para lá — A sondei. Eu a conhecia muito bem e ela parecia levemente incomodada com alguma coisa. — Nana, desembucha! — Rafa não queria que eu te mostrasse, mas isso passou todas as barreiras das ameaças, menina. — Pegou o envelope de seu avental e mostrou-me. Minha respiração desajustou, podia sentir meu peito descendo e subindo conforme o nervosismo me assolava. Um arrepio tomou meu corpo, minha mente parecia ter ido para outra dimensão e respirei fundo. Muito fundo. Nana sempre me escondia essas cartas, a única pessoa que as lia além dela e Rafael, era Nicolas. Deixei as roupas de qualquer jeito sobra minha mala, segurei a carta em mãos, tremendo pelo medo que já vinha me visitar. Olhei uma última vez para Nana e abri o papel pardo, mesmo que aquilo acabasse comeu psicológico, eu tinha que enfrentar. 21 de março Querida srta Mendes, Venho pensando. Acho que minhas ameaças não têm sido respeitadas, já que você parece inabalável. Talvez, com algum tipo de incentivo você tenha a motivação necessária para, finalmente, sucumbir-se ao medo. Vamos ter um encontro lindo no dia 15 de abril,


confesso que agora me sinto ansioso para esse momento. Pode ficar tranquila, vou comprar um freezer novo, somente para seu corpo esquartejado. Tento ser paciente, você não tem noção do quanto tenho me esforçado, mas minha paciência está quase no fim. Não vejo a hora de vê-la morta, não que exista alguma família para chorar sua morte, não é? Seu leal fã. O malfeitor. Respirei rápido e engoli em seco todas as palavras que saltavam daquele papel, meu coração recebeu uma leve aceleração e um zumbido passou pelos meus ouvidos. Agora tínhamos uma data para a minha morte? Merda! Minhas mãos começaram a tremer, e o pânico que eu já sabia que iria aparecer, invadiu meu ser. Bem devagar, devolvi a carta para Nana, como se de alguma maneira, ela pudesse me queimar. — Sinto-me uma inútil, já que não consigo ver uma forma de te ajudar. — Declarou ao ver meu estado. — Quer alguma coisa? — Ligue para o detetive neste exato momento. — Pedi com a voz fraca. Nana levantou-se com rapidez e agilidade, pegou o telefone ao lado da minha cama e discou os números. A única coisa que eu conseguia ver, eram os borrões a minha frente. Dizem que quando estamos em pânico, nosso cérebro desliga e eu me sentia assim, desligada. — Pronto. Ele já está a caminho. — Desligou o celular e foi ao meu encontro, me fazendo sentar sobre a cama. — Quer um abraço? Eu até queria, mas sabia que essa seria a brecha para que eu desmontasse e demonstrasse fragilidade. Eu não podia dar esse gosto ao malfeitor. — Não, obrigada! Nana suspirou, sabia que ela sofria comigo e que odiava me ver angustiada daquela forma, mas lidar com aquele tipo de ameaça, não era fácil para mim. — Por favor, não chore! — Exclamou ao ver meu queixo tremendo e meus olhos úmidos. Pedir para que eu não chorasse, foi a brecha para que todas as


lágrimas rolassem pelo meu rosto. Todas as lágrimas que nunca derramei pelas ameaças, estavam saindo naquele momento, porque tínhamos uma data e só esse motivo, me assustava mais do que qualquer outra ameaça que já havia recebido.


— Vou colocar um segurança aqui na casa para quando eu não estiver perto de você. Câmeras em cada metro quadrado do lado externo da casa. — Comecei dizendo, sabia que Kayla odiava câmeras, mas não havia outra forma de mantê-la segura. Me peguei com aquele papel em mãos, ainda lendo, ainda pensando, mas após a terceira vez quase o amassei entre os dedos. Quem estava ficando sem paciência era eu. Por Deus! Meu lado sanguinário estava querendo aparecer, e eu tinha que usar meu super autocontrole para que não fizesse uma besteira, mas talvez, se eu soubesse quem é esse idiota o autocontrole já tivesse ido para o espaço e eu estaria passando meus dias na cadeia preso. Porém, um preso feliz e satisfeito. Ao mesmo tempo em que eu cheguei na casa de Kayla, seu amiguinho Rafael também estava chegando e mesmo ele estando ocupando um lugar que deveria ser meu, me mantive tranquilo. Afinal, ele estava consolando Kayla, algo que eu poderia fazer, mas diante daquela carta, minha preocupação não estava só no psicológico dela... também estava nas ações dele. Observei, atento a todas as suas falas e expressões. Se tinha algo no que eu era bom, era observar. Quando Kayla levantou seus olhos e encarou-me com afinco, pude ver suas lágrimas contidas. Ela estava com medo, angustiada e de alguma forma, que nem mesmo eu conseguia entender, eu sentia tudo o que ela sentia. Parecíamos compartilhar aquele momento, porque eu também estava apreensivo e com medo. Medo que, de alguma forma, esse malfeitor conseguisse fazer um mal maior a ela. — Tudo bem, estou de acordo. — Ela respondeu rendida, suspirou e tentou se recompor, algo que foi inútil e respirou fundo. — Vou terminar de arrumar minha mala.


— Kayla... — Ela estava prestes a sair do seu escritório quando a fiz parar. Não estávamos próximo como eu queria, mas estava feliz que ela acatasse o som da minha voz. — Eu vou fazer as malas. — Disse confiante, quando percebeu que eu já ia desistindo da nossa viagem. Sorri assentindo, tinha medo de que ela não correspondesse ao sorriso, mas lá estava ela... me surpreendendo como sempre. Eu sabia que ela não estava apenas preocupada com a mala, também estava procurando um momento solitário para que chorasse tranquila e lutei contra todos os meus monstros para respeitar esse seu momento. Nem toda mulher gosta de conversar quando está triste, elas preferem isolar-se em algum canto e só depois procurar alguém para conversar sobre o assunto. Diferente de quando estão bravas, que preferem dizer tudo na hora, sem medo das consequências que suas palavras possam ter. Claro, não sou especialista em assuntos femininos, mas quando se cresce em uma casa onde o feminismo predomina, você acaba aprendendo umas coisinhas. Continuei olhando para Rafael. O sujeito vestia-se com extravagância, mas pelo o que vinha observando, podia ver que era um amigo leal de Kayla, não poderia estar escrevendo tais ameaças, poderia? — Então, Rafael, o que pensa sobre tudo isso? — O sondei, atento a suas reações. — Não sei, detetive, mas espero que você consiga achar o responsável por isso rápido, para que Kayla possa ter paz novamente. — Cruzou os braços em uma postura intimidante e eu acabei fazendo o mesmo. — Não acha que pode ser André? — O irmão de Kayla? — Olhei-o surpreso. — Por que ele faria algo assim? — André Mendes é mimado, irresponsável, preguiçoso, metido e odeia qualquer um que não seja sócio do seu IATE CLUB. Além do mais, nos últimos meses ele vem se endividando muito, talvez queira uma maneira de ficar com os bens dela. — Mas não tenho nenhuma evidência contra ele. — Meneei a cabeça. — Além disso, nas pesquisas que fiz, André perdeu muito, mas


ao que parece, ele vem conseguindo saldar as dívidas. Andou vendendo quadros, objetos caros e até um dos carros que recebeu de herança. Não havia colocado o irmão de Kayla na lista de suspeitos, mas por algum motivo, eu sentia que deveria cutucar um pouco mais essa história, mesmo ele não sendo meu suspeito, era como se meu trabalho não estivesse sendo feito direito. Antes que ele conseguisse responder, a governanta Nana havia entrado na sala e se juntado a nós. — Perdoe-me, detetive. Estava ajudando Kayla com a mala. Do que falavam? — Vou colocar um segurança nessa propriedade para protege-la quando eu não estiver com ela, e câmeras em cada metro quadrado. Apesar de Nana mostrar-se satisfeita com meus procedimentos de segurança, suspirou, parecendo cansada. Rafael bufou, irritado com alguma coisa e saiu dizendo que precisava falar com Kayla. Meu cenho enrugou, mas quando pensei e ir atrás dele, Nana começou a falar. — Kayla contou sobre o que vem acontecendo com Júnior, o prefeito? Acabei sentindo um arrepio na espinha. Céus! Eu odiava aquele homem e saber que ele incomodava Kayla, mesmo após garantir que nunca voltaria com ela, me fazia perder a boa postura. — E o que seria? Pelo o que me lembro, eles se separaram tem um tempo. — Sim, mas o homem não a deixa em paz. — Como assim? — Acabei assumindo uma postura rígida. Kayla não havia me contado nada sobre isso, pensei que o relacionamento deles fosse passado. — Júnior manda mensagens para ela direto e, outro dia veio procura-la aqui. Nem ao menos terminei de ouvir o que Nana dizia, peguei o celular do meu bolso e disquei o número de Cooper para pedir um mandado de busca. Confiscaria o computador e a impressora de Júnior Santurbano. Faria a vida do prefeito uma tortura infinita. Mataria Júnior. Lento e devagar. Bem devagar. Ao encerrar a chamada, minha atenção voltou para ela novamente. — Ele chegou a entrar?


— Ela nem chegou a abrir a porta, ao que parece, arrumou uma desculpa qualquer. — Obrigado, Nana. Conversarei com Kayla a respeito disso. — Estava pensando se devo cancelar as viagens de Kayla na semana que vem... — Comentou. — Viagens? — Sim, ela embarca na terça e volta somente na outra segunda. Quase uma semana longe de Kayla? Por que me soava tão assustador essa ideia? — E pretende ir sozinha? — Ah, sim. A menina não gosta de companhia no trabalho, já basta Yohanna para lhe encher o saco. — Sorriu largo. — É possível cancelar os compromissos? Diante da última carta, quero mantê-la por perto. — Sem dúvidas. — Respondeu de prontidão. — Perfeito! — Sorri ainda mais largo que ela, esquecendo-me completamente do urubu que rondava Kayla no andar de cima. E foi ao falar nela, que a mesma apareceu diante de nossos olhos. Estava bastante abatida, por um momento desejei toma-la em meus braços e niná-la como se fosse uma menininha. — Tem algum plano para hoje, senhorita Mendes? Ela acenou levemente a cabeça em negativa e sorriu de canto. — Somente para amanhã e o resto da semana. — O que me diz de almoçarmos juntos, depois podemos passear ou até mesmo jogar uma partida de tênis? — Lancei a proposta e vi seus olhos brilharem, mas a verdade era que eu queria fazê-la esquecer aquela carta. — Isso parece perfeito, detetive.


Capítulo 13

O convite de Nicolas me parecia mais uma tentativa de afastar nossas preocupações diante de tudo o que vinha acontecendo, o que naquele momento, para mim, parecia ser uma grande ideia, mesmo que não valesse de nada no fim. Convenhamos, o conteúdo dessas cartas principalmente daquela mais recente, não era algo pela qual eu acostumava ler todos os dias. Então, não! Eu não sabia lidar com a situação. — Estava pensando... — Pensar nem sempre é bom. — Me interrompeu com seu semblante preocupado. Sorri de canto. Gostava de saber que Nicolas tinha medo de que eu mudasse de ideia quanto a nós dois, mas isso, definitivamente, não iria acontecer. Veja bem, havíamos decidido tentar algo diferente, mas nos mantivemos com os pés no chão. Não estávamos apressando nada, apesar de achar que poderíamos já ter passado da fase dos beijos. — Isso em seu rosto é medo de alguma coisa, detetive? — Alimentei meu sorriso, mas o mesmo apenas deu de ombros, como se não se importasse com isso. — Estava pensando...? — Questionou, insinuando que eu continuasse. — Tenho um apartamento no centro, vou para lá quando estou de folga. Podíamos jantar nele hoje, o que acha? Eu o vi arquear a sobrancelha e sorrir de canto. Naquele momento já estávamos passando em frente a uma mercearia e Nicolas havia decidido comprar uma garrafa de água para nós. Estávamos no caixa, e dali seguiríamos para o restaurante. Gostei da ideia dele quando sugeriu que fossemos a pé e


deixássemos o carro para algo realmente importante, já que o restaurante escolhido ficava apenas alguns quarteirões de distância. Eu nunca havia cozinhado antes, uma vez Nana tentou me ensinar a fritar um ovo, mas foi uma experiência desastrosa. Só que ao lado do detetive, eu sentia que podia fazer qualquer coisa, era meio louco isso. — Diz que sim. — Pisquei meus grandes cílios lambrecados de rímel. — Até posso cozinhar para você se quiser. Por favor, não queira. — Me ganhando pelo estômago, senhorita. — Caçoou. — Só que eu tenho algumas dúvidas sobre seus dotes culinários. Eu também tinha muitas dúvidas, definitivamente, eu não sabia nada sobre cozinhar, nem mesmo distinguir os utensílios. Estava muito ferrada. Estufei o peito e o olhei superior, para que não percebesse meu medo evidente de cozinhar para ele e tudo queimar, até mesmo o apartamento. — Não me subestime, Nicolas. Estávamos saindo da mercearia quando senti as mãos dele segurar as minhas, o olhei assustada e deixei evidente o quanto estava curiosa com sua atitude. Ele sorriu largo. Um sorriso que mexeu comigo e fez minha alma suspirar apaixonada. Respirei fundo tentando colocar de lado esses sentimentos que gritavam em meu peito, mas a tentativa foi em vão. — Gosto quando me chama pelo nome. — Aproximou-se um pouco mais. — Fica apetitoso em seus lábios. — Eu sabia que tinha alguma safadeza. — Revirei os olhos e balancei a cabeça em negativa rindo. — Não sabe pensar em outra coisa? — Muitas. Todas envolvem você. Eu não podia acreditar que ele estava conseguindo me deixar constrangida, talvez por estarmos em local público e extremamente perto um do outro. Mesmo que eu quisesse esquecer tudo ao redor, só conseguia pensar que um paparazzo infernal logo apareceria para acabar com nossa paz. Nicolas tentou passar seus dedos pela silhueta do meu rosto, mas não pude permitir tal ato. Não estava preparada psicologicamente para


ver meu nome em mais algum escândalo mentiroso nas mídias. Já bastava o acidente, que podia não ter sido mentira, mas muitas outras notícias sobre mim eram. Então, apenas sorri e continuei andando sendo seguida por ele, que parecia mais meu segurança particular... o que de alguma maneira, era. — Sobre o jantar...? — Voltei a questionar para que não houvesse algum silêncio constrangedor entre nós. — Claro que aceito, mas eu escolho a comida. Meu corpo inteiro arrepiou violentamente, porque eu podia sentir cada tom de malícia saindo de suas palavras e, a prova disso foi quando o mesmo se aproximou de mim e pousou sua mão em minha cintura, apertando forte e me fazendo suspirar. — Detetive... — o repreendi. — Aqui não. — Tudo bem, senhorita. Só que a noite você não escapa. E naquele momento, eu estava me perguntando quem havia dito para ele que eu tinha alguma intenção de escapar.


Após o nosso almoço acabamos voltando para nossa vida rotineira. Kayla foi para sua casa, acabar de preparar suas coisas e eu fui para meu gabinete dar mais algumas pesquisadas e telefonemas, já que minha secretária havia avisado que o tenente tinha passado pela minha sala mais cedo. Eu não sabia o que ele queria, mas fiquei um tanto curioso em relação a isso. Havia um envelope quase na cor dourado sobre minha mesa, o peguei em mãos e olhei atentamente as palavras cordiais escritas logo na frente do papel. Lúcia havia me avisado que tinha deixado esse envelope ali a pedido do tenente, mas ainda não estava entendendo muito. Parecia um convite. O abri sem mais delongas e após ler o conteúdo, caminhei até meu armário de bebidas, peguei um dos copos e o enchi até a borda. O líquido desceu pela garganta raspando, fazendo uma leve dor apontar em minha cabeça. Sempre almejei ganhar uma promoção e deixar de ser detetive para me aventurar na adrenalina das ruas da cidade. Eis que quando menos penso nisso, a promoção vem até mim. — Senhor Almeida? — Sim? Virei-me em direção da porta e lá estava Lúcia, sua expressão era de preocupação. Ela olhou em direção a minha mesa, onde havia deixado o envelope e voltou sua atenção para mim. — Não é uma dispensa. — Respondi sua pergunta não feita. Ela sorriu aliviada, mas ao ver o copo de uísque em minha mão, assumiu uma postura séria. — Fico aliviada. — Caminhou ao meu encontro e tomou de mim a bebida. — Agora me conta o conteúdo, porque você não tem o habito de beber durante o trabalho.


— Promoção. — Exclamei procurando por outro copo dentro do armário de bebidas. — Céus! Que felicidade, senhor Almeida. — Ela parecia realmente feliz. — Isso foi o que o senhor sempre sonhou. Coloquei mais bebida no copo e levantei para ela em uma espécie de brinde, mas o sorriso em meus lábios não era de felicidade e sim de preocupação e ironia. Justo agora que eu havia conseguido me envolver com Kayla... Por que? Lúcia parou de comemorar ao perceber meu estado emocional, primeiro fez cara de confusa, o que acabou deixando ela engraçada, logo em seguida, como se acordasse de um transe, ela entendeu minha evidente preocupação. — Bem, você pode passar o caso da senhorita Mendes para o detetive Cooper. — Sorri sem humor e ela prosseguiu. — Não pensa em desistir dessa promoção por conta deste caso, pensa? Sua voz soava perplexa. Mas, merda! Eu não pensava em fazer isso por causa desse maldito caso, e sim por causa de Kayla. Não queria me afastar, não queria deixar ela desprotegida de novo e não podia simplesmente pedir a ela que mudasse comigo para a cidade central das nossas operações policiais. Guardei a garrafa, ajeitei minha gravata e respirei fundo porque ainda tinha um jantar marcado com Kayla e nada estragaria nossa noite. — Uma pena que a promoção tenha vindo justamente agora. — Ela lamentou-se, chamando minha atenção. — É... justamente agora. — Deixei as palavras no ar enquanto pensava em algumas coisas sobre o assunto.

Kayla havia mandado o endereço do seu apartamento para o meu celular, mas por algum motivo, eu não estava botando fé em seus dotes culinários. Então ousei passar em um restaurante e deixar encomendado nosso jantar, caso as coisas não saíssem do jeito que ela queria. Como o cardápio era por minha conta, acabei pedindo por uma receita que fazia alguns anos que não comia. Batata recheada.


O porteiro parecia já estar avisado de minha chegada, já que não precisei terminar de falar meu nome para que ele liberasse minha entrada. O apartamento de Kayla ficava em um condomínio fechado na zona mais rica da cidade e eu não estava surpreso com isso. Havia visto fotos de sua cobertura enquanto fazia minhas pesquisas sobre ela. O prédio não era muito alto, na entrada tinha uma lista dos nomes dos moradores dali. O da Kayla, claro, era na cobertura. Caminhei pelo hall em direção ao elevador e o botão do oitavo andar foi acionado. Mas a pior parte foi quando o elevador abriu no andar desejado e dei de cara com um Júnior Santurbano perturbado, malvestido e claramente bêbado. Nossos olhos se encontraram e deles saíram faíscas. Minha respiração mudou, assim como meu humor. O que raios este desgraçado fazia no apartamento de Kayla? — Olha, o detetive... — Sorriu sacana. Parou a poucos centímetros e enfiou as mãos nos bolsos da calça. — Sempre chegando tarde demais. O analisei com cuidado, ainda que estivesse tentando conter a vontade absurda de destruir cada parte do seu rosto. Ele estava bêbado e sorrindo ironicamente, o que me fazia crer que estava irritado. E se ele estava irritado, então algo não tinha saído como ele planejou. — O que faz aqui, prefeito? — Minhas palavras saíram ríspidas, mas neutras. — Não é óbvio? — Sorriu com malícia. — Vim relembrar os velhos tempos. — Canalha! — Semicerrei meus pulos. O filho da puta estava me provocando e o pior, era que eu estava a ponto de cair em seu jogo sujo. Eu o culpava por muitas desgraças que me aconteceram no passado, e mesmo que ele tenha sido recusado por Kayla —porque eu tinha a total certeza que ela não havia deixado ele entrar — eu estava louco para arrumar qualquer desculpa para colocá-lo em seu devido lugar. — Calma, detetive! Kayla não está tão arrombada, você ainda vai conseguir foder o buraco dela. No segundo seguinte, meus punhos já alcançavam o queixo desse infeliz, fazendo-o engolir cada palavra nojenta que saía de sua boca. Sujeito imundo. Seu corpo caiu ao chão e me pus sobre ele, deferindo todo o meu ódio nos golpes que lhe acertava. Estava cego e não queria parar, queria que ele sentisse toda a dor que eu senti no passado, queria


que ele engolisse todas as mรกs palavras que dizia contra Kayla.


Capítulo 14

A campainha tocou e eu nem havia colocado a batata recheada no forno. Até ali, tudo estava indo muito bem, Nana tinha me instruído o tempo todo através de vídeo chamada. Ela fazia do outro lado da ligação e eu imitava, ou pelo menos tentava imitar. Nossa! Nunca pensei que ser dona de casa dava tanto trabalho. Coloquei a forma no forno, limpei minhas mãos no avental e corri para a porta de entrada. Estava um pouco cedo, mas pelo horário só podia ser ele. O sorriso estava estampado em meu rosto, mas foi sumindo aos poucos ao perceber que ele estava machucado. Balancei a cabeça, meio em descrença, abandonei a porta e fui até ele segurando em seu braço para ajudar a entrar. Apesar dos cortes e sangue no rosto, o detetive estava me olhando de forma diferente. — Mas o que aconteceu? — Fechei a porta atrás de nós e o levei até minha poltrona da sala. Dei uma olhada rápida pelo seu rosto, aquilo eram evidências de que ele havia se metido em uma briga. Mas porquê? Com quem? Fiquei um pouco agitada ao vê-lo daquele jeito e seu silêncio só piorava todo o resto. — Nicolas. — O chamei, nossos olhos estavam tão próximos... — Foi um acidente. — Respondeu, tranquilo. Inacreditável a facilidade que ele tinha de manter a calma em situações difíceis e ruins. — Um acidente? — Questionei em dúvida. — Alguém socou sua cara por acidente? — Como sabe que foi um soco? — Ele arqueou a sobrancelha intrigado.


— Meu irmão era mestre em se meter em confusão, eu quem cuidava de seus ferimentos... — Suspirei. — Mas isso já tem anos. — Eu vou ficar bem. — Afastou minhas mãos do seu rosto, não entendi sua atitude, mas já não gostei. — Tem algo que queira me contar? — O ralado aqui é você, quem faz as perguntas sou eu. — Arqueei minha sobrancelha, ele sorriu de canto. — Gosto do seu jeito senhorita Mendes. — Respirou fundo. — Júnior Santurbano. — O que tem ele? — Questionei aérea, preocupada demais com o corte no lábio inferior. O suspiro que ele soltou me chamou a atenção e pelo seu olhar eu entendi o que havia acontecido. — Júnior? Por quê? — O que ele fazia aqui? — Detetive me olhava como um falcão olha para a sua presa, mas eu não sabia do que ele estava falando. — Como assim? — Eu o encontrei aqui no seu andar. — Estreitou os olhos. — E estava falando coisas nojentas. — Mas ele não veio me ver, se quiser pode conferir pela câmera de entrada que ninguém bateu em minha porta. — Me defendi. Nicolas me analisou e eu odiei ver ele fazendo isso, porque parecia estar ponderando sobre se eu estava mesmo dizendo a verdade. Isso era ridículo! Júnior havia ficado no passado e eu não fazia ideia do que ele queria comigo, mas mesmo se tivesse tocado em minha porta, eu não teria o deixado entrar. Me afastei e fui até o banheiro, onde ficava guardado o kit de primeiros socorros, o peguei e voltei para o mesmo lugar que estava alguns minutos antes. Ajoelhada à sua frente. — Desculpa! — Pediu, senti a sinceridade em suas palavras. — Acho que estava com ciúmes. — Ciúmes? — Fiquei estupefata. Eu sabia que havíamos decidido tentar uma relação diferente, apesar de não termos definido o quão diferente seria, mas ciúmes é um sentimento forte, que só existe em alguém que realmente é importante para você. Nicolas sorriu de canto, observando minhas mãos ágeis tratar seu ferimento e limpar seu machucado. Tombou a cabeça para o lado e senti seu olhar queimar sobre mim, balancei a cabeça em negativa e apertei o algodão encharcado de álcool no ferimento da sua boca.


— Ai! — Reclamou, tentando afastar sua boca. — Isso ardeu, mulher louca! — Pelo menos assim você para de me comer com os olhos. — Rebati empinando o nariz e pude ouvi-lo rir. — Quero mesmo é te comer com outra coisa. — Tombou o corpo para frente e passou seus lábios pelo meu pescoço. — Sabe o quanto está sexy nesse avental? Sussurrou, fazendo todos os pelos do meu corpo tomarem vida, me encolhi ao sentir seu hálito contra a minha pele, fechei os olhos sentindo aquele formigamento vir até mim. Ele era um homem bonito, cheio de músculos, másculo... eu me sentia atraída por ele e isso eu até conseguia controlar. Mas se ao acaso nós fizéssemos sexo, isso na certa mexeria com cada neurônio da minha cabeça. Temia que depois do sexo, Nicolas se tornasse apenas mais um homem que passou pela minha vida, naquele momento, mais embalada pela fantasia do que pela realidade, eu imaginava o nosso relacionamento como algo futuro e maravilhoso. A realidade, porém, nem sempre realiza os sonhos. Ao abrir os mesmos em espanto, me lembrei de o porquê estar usando um avental. — A batata! — Exclamei apavorada e corri em direção da cozinha. Também pude escutar Nicolas se levantando em um pulo e me seguindo, acho que assim como eu, ele estava com medo de que o apartamento acabasse incendiado. Abri o forno com rapidez, peguei a luva térmica e coloquei a assadeira sobre a pia. Tapei meu rosto com as mãos, porque nosso jantar havia virado carvão e respirei fundo. Muito fundo! Eu tinha apenas aquela oportunidade para provar não só a ele, como a mim mesmo, que eu podia ser uma dona de casa, mas quem eu estava tentando enganar?


Eu sabia que algo assim ia acontecer, mas sabia que a culpa era minha. Se eu tivesse controlado meu ciúme, não teria brigado com Júnior e assim, ela não teria motivos para desfocar do jantar. Só que também devo confessar, que toda aquela cena foi engraçada e não consegui segurar a risada quando a vi tão frustrada em frente ao fogão. Chegava a dar pena de Kayla, acho que ela estava, realmente, empenhada nisso. — Queimou tudo! — Praguejou. Balancei minha cabeça levemente em negativa e me aproximei, ela estava linda naquele avental, estava gostosa e olhar ela daquele jeito me fazia sentir vontade de arrancar tudo que tampava seu corpo e tornala minha ali mesmo. — Está tudo bem. — A confortei. — Não, não está. — Ela bufou me arrancando um sorriso bobo. — Era a nossa janta, o que vamos comer agora? — Se estiver tudo bem para você, posso pedir comida em algum restaurante. — Sugeri, ainda bem que eu já havia me precavido em relação a isso. — É o que resta, não é? — Ela bufou de novo, comecei a perceber que gostava de ver Kayla assim, tão espontânea e natural. — Vou tentar dar um jeito nisso aqui. Ela apontou para a parede que ficava o telefone e voltou sua atenção para a assadeira, que agora mais parecia o fundo de uma churrasqueira velha. Respirei fundo e liguei para o restaurante onde já havia encomendado a comida, passei o endereço de entrega e voltei minha atenção para ela. Puxei a cadeira do balcão e me sentei de frente para ela. — Precisa de ajuda? — Questionei ao ver que ela travava uma


batalha com a assadeira. — Não, eu dou um jeito nisso. — Disse tentando fazer a gordura queimada sair com a bucha de lavar louças. Sorri de canto, completamente encantado com a visão que estava tendo. Kayla estava longe de ser uma dona de casa, mas ela estava se esforçando muito apenas para mostrar a mim que conseguia. Bom, conhecendo ela, também estava querendo provar isso a si mesma. Deixei que ela sofresse um pouco naquela missão, mas comecei a me preocupar quando a vi molhar o chão todo com a água da pia. Como ela conseguia ser tão desastrada? Me levantei, liguei uma boca de chamas do fogão, pedi licença para pegar a assadeira. Kayla estava parada observando com a sobrancelha arqueada o que eu fazia. Enchi a assadeira com água, joguei uma quantidade de detergente e coloquei sobre a boca acesa do fogão. — O calor vai fazer a gordura desgrudar do fundo da assadeira. — Expliquei. Kayla parecia estupefata e quando pensei que ela fosse me agradecer, eis que ela me surpreende mais uma vez. — Por que não fez isso antes, seu idiota? — Jogou o pano de prato em mim. — Me viu sofrendo todo esse tempo e não fez nada? Ela estava atingindo altos níveis de vermelho e por algum motivo muito doido, isso me arrancou gargalhadas. Ela brava era tão fofa, não tinha nem como leva-la a sério. — Em minha defesa, eu não estava conseguindo prestar atenção em muita coisa. — Olhei-a dos pés à cabeça. — Droga, mulher! Porque tirou o avental? Sabe o quanto isso aí provoca? Estava embasbacado com a minha visão, não que eu estivesse achando ruim, mas aquilo estava fazendo tudo em meu corpo acordar. Meu pau enrijeceu dentro da calça e tudo isso por que ela havia se molhado toda enquanto tentava lavar a assadeira. — Cadê seu sutiã? — Perguntei, tentando desviar meu olhar dos seus seios, onde eu conseguia ver claramente, o bico arrebitado. Ela sorriu de forma sedutora, um sorriso que eu não via desde antes o acidente. Aquela ali sim era a Kayla que conheci. Mas ela não me respondeu, muito pelo contrário, se manteve quieta e levou seus olhos até meu membro duro. Aquilo aflorava minha imaginação e me deixava levar por meus pensamentos. Kayla era uma mulher que me atraía demais. Me peguei


imaginando o quão fantástico seria se eu pudesse tocar seus seios. Talvez lambê-los? Deus! Eu iria enlouquecer de desejo. De repente, Júnior Santurbano me veio nas lembranças. — Não sabia que ainda recebia visitas de Júnior. — Eu precisava mudar o assunto ou teria a sobremesa antes do jantar. — Lá vem você com isso de novo. — Reclamou me dando as costas. — Pensei que tivesse confiado em minha palavra. — Eu confiei, Kayla, mas não me referia à hoje. — Então Nana deu com a língua nos dentes? — Ela riu ao perceber que eu meu referia a outra ocasião. — Mas me diga, detetive, o que aconteceu entre você e o prefeito? Sinto que há uma grande antipatia pela parte dos dois. Eu sabia que isso uma hora iria acontecer e não dava para fugir das explicações, já que eu não escondia de ninguém meu ódio por Júnior Santurbano.


Nicolas estava desconfortável por entrar nesse assunto, mas isso me corroía já fazia um bom tempo. Ambos tinham uma antipatia muito grande, era como se eu conseguisse sentir o ódio emanar dos dois toda vez que um se referia ao outro. A campainha tocou fazendo-nos cortar o assunto, sorri de canto o encarando e fui atender a porta, mas aquilo ainda não havia acabado, eu queria saber mais sobre Nicolas, sentia que ele sabia exatamente tudo sobre mim, mas, no entanto, ele não passava de uma incógnita indecifrável. Arrumei a mesa enquanto estávamos em um silêncio acolhedor, eu gostava disso, gostava da maneira que sua presença me fazia bem ao ponto de não me incomodar a falta de palavras. Nos sentamos um de frente para o outro e, admito que vê-lo puxar a cadeira para mim e em seguida, me dar aquele sorriso de arrancar calcinha fez aquele tremor voltar ao meu corpo. O mesmo tremor que senti ao vê-lo cobiçar meus seios. — Vou contar o que aconteceu entre Júnior e eu, é coisa do passado, de aproximadamente quinze anos, quando meu irmão caçula morreu. — Ele despejou de uma vez, me fazendo demorar alguns segundos para assimilar as informações. — Pensei que só tivesse Carlos como irmão. — Respondi pensativa. — Pelo menos na pesquisa que fiz era isso o que falava. — Pesquisou sobre mim? — Sorriu galanteador e presunçoso. — Precisava saber um pouco mais sobre o detetive tarado por pernas. — Rebati humorada. — Quer mesmo tocar no assunto do passado? Questionei porque não sabia que falar sobre isso envolveria alguma morte, e se tratando desse assunto, eu era especialista. Esse tipo de dor não dá para apagar e por mais que com o tempo diminua, tocar no


assunto sempre faz alguma ferida se abrir, mas eu não queria isso para meu detetive. Não queria vê-lo cabisbaixo, chateado ou triste. — Não vejo problemas, Kayla. Quero compartilhar minha vida com você. — Respondeu, fez uma expressão que não consegui decifrar, mas meu corpo arrepiou violentamente em resposta porque suas palavras me pareceram muito sugestivas. — Tomás faleceu aos seis anos de idade, por culpa minha [...] Me assustou ver o tom amargurado em sua voz. Nunca o tinha vista assim, quase me fez arrepender de ter entrado nesse assunto. — [...] Tomás era um menino meio problemático, sumia, invadia o quintal dos outros e costumava deixar nossa mãe louca, mas o amávamos muito apesar disso. — Respirou fundo e continuou. — Certo dia, eu estava encobrido de vigiá-lo e cuidar dele, mas entrei em uma discussão com Júnior porque ele havia roubado minha namorada, e foi quando Tomás atravessou a rua sem ver que vinha um caminhão [...] Coloquei as mãos na boca para abafar o gemido de dor que estava prestes a sair. Santo Deus! Aquilo havia sido uma tragédia. — [...] Ele faleceu a caminho do hospital. — Mas foi um acidente, Nicolas. Uma fatalidade que você não podia ter feito nada para impedir. — Podia ter cuidado melhor dele. — Senti o desprezo em suas palavras e me peguei com vontade de dar meu colo a ele, sentia que era disso que Nicolas precisava. — Não foi culpa sua. — Tentei mais uma vez. Carregar esse tipo de culpa só o levaria cada vez mais para baixo, ele tinha que parar. — Estava brigando por uma garota que nem significava muito para mim. Era responsável por ele naquele momento e o deixei morrer. — E passou a odiar Júnior cada vez mais. — Nós brigamos outras vezes, porque Júnior sempre arrumava um meio de me atingir. — Mastigou sua comida e a vi descer pela garganta a contragosto. — Certa vez estava namorando uma mulher chamada Laura, morávamos juntos há alguns anos. — Sei disso. — Me levantei para pegar uma garrafa de vinho e duas taças. — Sabe? Estava de costas para ele, mas podia sentir seu olhar sobre mim. Virei-me em sua direção e deixei as coisas sobre a mesa, o sorriso de canto que Nicolas dava me fazia reavaliar minhas informações e se ele


deveria saber que eu sabia delas. — Cooper contou quando trocamos algumas palavras outro dia. Tentar arrancar informações de Cooper enquanto Yohanna investia firme nele, não era uma ideia boa, mas acabei o fazendo falar algumas coisas antes que eu desistisse de segurar vela e fosse embora. — Ah é? — Olhou-me desafiador. — O que mais ele contou? — Que iam se casar, mas que Laura foi embora do país com outro homem. — Respondi meio insegura, Nicolas arqueou a sobrancelha e afirmou com um balançar de cabeça. — Sim, ela foi embora, mas não íamos nos casar ou eu penso que não. A verdade era que Laura queria o casamento, mas eu estava indeciso e por esse motivo, acabou se aventurando com Júnior. Talvez quisesse me aborrecer já que sabia sobre a história do meu irmãozinho, mas admito que nunca desconfiei de uma traição. Acabei descobrindo na última primavera. Meu coração deu um salto. — Mas eu ainda namorava Júnior na última primavera. — Mundo pequeno, não? — Ele segurou sua taça de vinho recém cheia e brindou o ar sorrindo. Observei por alguns segundos sua expressão e concluí que era boa, parecia humorada, então o clima ainda estava de boa. Sentei-me novamente em meu lugar e comi um pouco da minha comida, pensando em nossa conversa. — Quero que saiba... — Instiguei. — Eu fui apaixonada por Júnior, mas não passou disso. Uma paixão tola e passageira que não teve significado para mim. — Confessei. — Sério? Acho que ele ainda é apaixonado por você. — Ele nunca foi. — Não tenha tanta certeza. — Disse, me deixando confusa. Terminamos nosso jantar e nos encaramos. — Eu o observo muito, Kayla, e as coisas nojentas que ele disse hoje me fizeram acreditar que ele foi e ainda é apaixonado por você. — Como assim? O que ele disse, Nicolas? — Algo sobre seu buraco não estar tão arrombado. — O quê??? — Exclamei mais alto do que queria. — Se acalme, Kayla. Ele disse isso para me irritar, tem conhecimento de meus sentimentos por você. — Segurou minha mão


arrancando-me um sorriso. — Não acreditei em nada do que ele falou e agora você está por dentro sobre a minha história com ele. Afirmei com a cabeça, acariciei sua mão com o dedão enquanto observava seu rosto. Ele, definitivamente, era um homem inacreditável. — Não vou deixar que nada aconteça a você, Kayla. Darei minha vida para te proteger. Pode não ser Júnior quem faz as ameaças, mas ainda se trata de um louco psicopata. Eu a manterei em segurança, querida! Um sorriso extremamente grande brotou em meu rosto. — O que foi? — Ele também sorriu. — Me chamou de querida. Tirando Nana, nunca alguém havia me apelidado carinhosamente. Meu sorriso alargou ainda mais. Não somente pelo apelido, mas por ter ficado muito claro que nós passaríamos muito mais tempo juntos. Eu estava decidida a não me deixar levar e nem cair nos braços dele sem antes ter certeza de que eu não sairia machucada, mas diante das circunstâncias, como conseguiria manter essa decisão? Nos levantamos e fomos direto para o tapete da sala, onde nos sentamos acompanhados pela garrafa de vinho. Sexo desenfreado! Pensei enquanto observava o corpo másculo do detetive. Também ousei olhar ao redor, talvez no chão da sala. O tapete era macio e convidativo. Nicolas devia ter pensado a mesma coisa, pois acariciava meu corpo e se aproximava cada vez mais. O beijo foi inevitável. Era algo pelo qual não sabia o porquê da demora, talvez uma boa parcela fosse culpa minha, outra tanta, fosse totalmente dele. Nossos lábios tinham apenas se encostado, decidi tomar a iniciativa de entreabrir minha boca e pedir passagem com minha língua, deliciando-me então com o calor da sua boca. — Boneca, tem ideia do quanto você é sexy? — Um pouquinho? — Respondi, atordoada por ouvir mais um apelido, e desejei que ele mantesse esse. — Errado. — Rebateu, descendo seus lábios pelo meu pescoço, fazendo-me curvar a cabeça para o lado e gemer baixo. — Muito, muito sexy. — Preciso me confessar. — Declarei, com a voz mole de desejo. — Confissões fazem bem à alma. — Não é das mais inocentes.


— Essas são as melhores. — Você é o homem mais sensual que conheci na vida, Nicolas Almeida. — Ele pousou sua mão em minha cintura e apertou. — Me masturbei pensando em você. Senti quando Nicolas parou o que fazia e me peguei praguejandoo mentalmente por isso. Dei minha atenção a ele e me assustei com o tamanho desejo esculpido em seus olhos. Chegavam a brilhar de uma forma, que a luz chegava nos cantos mais obscuros e escuros do meu corpo. Prendi a respiração sentindo meu coração acelerar os batimentos, havia também um nó se formando em meu estômago e um desejo florando em minha parte íntima. Por um momento, me assustei com aquele olhar descarado que ele me dava, mas até ali, eu também havia feito caras e bocas para provocálo quando nos conhecemos, eu não deveria estar tão assustada e... excitada com isso naquele momento, mas seu olhar estava tirando o pouco controle que me restava. No momento em que nossos lábios tornaram a se unir, acabei por perder o fio de controle que tinha. Correspondi a carícia com urgência, devoção. Não havia nada que pudesse fazer a não ser me entregar ao prazer. Tudo o que eu queria era ser dele, fazer amor com ele e deixar meu corpo sucumbir aos nossos desejos.


Capítulo 15 O telefone tocou. O som estridente disparou preenchendo o lugar e incomodando meus ouvidos. Nicolas estava com seu corpo sobre o meu, o tapete felpudo da minha sala era o nosso colchão. Suas mãos percorriam meu corpo e sua língua quente mandava vibrações cada vez que entrava em contato com a minha. — Não se atreva! — Reclamou, quando ameacei parar o que fazíamos. — Deixe a secretária atender. — Não tenho secretária. — Sussurrei contra seus lábios. Meus dedos alisaram seus cabelos curtos até chegar em sua nuca, onde segurei com força ao senti a boca do detetive abandonar a minha e prestigiar o bico do meu peito endurecido, em um chupão ardente. — Nicolas. — Arquejei, não querendo cortar nosso momento, mas já era a terceira vez que o celular tocava. Nós estávamos tendo um momento tão íntimo, tão nosso. Eu sentia que nossos corpos estavam em sintonia, um querendo ao outro de maneira urgente e saborosa. Seu corpo pesado sobre o meu, minhas pernas enroscadas em sua cintura, dando liberdade para que minha intimidade roçasse sobre seu abdômen muito bem definido. — Estou louco para terminar o que começamos no hospital. — Rosnou baixo, passando a ponta do seu nariz no contorno do meu seio arrepiado. — Acho que começou bem antes disso. — Sorri fitando o teto e toda a cena de quando nos conhecemos passou pela minha mente. — Sempre tão provocativa, senhorita Mendes. Sempre me deixando à beira da loucura. Suas palavras atiçavam meu corpo ainda mais, eu me via embriagada pelas suas carícias, perdida em algum mundo vasto de perdição e prazer. O celular voltou a tocar e nesse exato momento, como se estivesse fazendo de propósito, Nicolas voltou a chupar meus seios. Chupou e sugou com força, arrancando de mim um grito surpreso e excitado. — Por Deus homem! — Soltei um suspiro e movimentei meu quadril com lentidão, desejando que não houvesse nenhuma roupa nos


separamos. — Kayla... — Começou, mas não terminou. Afastou seu corpo de mim, sentou sobre seus joelhos e olhou para meu corpo. Ele parecia poder ver por baixo da roupa. Minha camisa erguida deixava meus seios expostos para ele, e senti falta de ter sua boca ali, esquentando meu mamilo enrijecido. Mordi meu lábio inferior e os olhos do detetive mudaram de cor. Havia um toque sombrio que me fazia soltar faíscas de desejo, sem dó ou piedade, tirou minha camisa social, fazendo os botões voarem para todos os lados. Ele sorriu de canto, satisfeito com sua selvageria. Balancei a cabeça em negativa, sorrindo divertida com sua faceta tentadora. Era a minha camisa preferida, admito, mas vê-lo arrancá-la daquela forma me fazia desejar usar muitas outras camisas sociais. A falta de sutiã ajudava todo o processo. Seus dedos alisaram minha intimidade por cima do short jeans, me remexi sentindo a necessidade me atingir em cheio. Estava há tanto tempo sem sexo que talvez houvesse telhas de aranha ali. Ele voltou a curvar seu corpo sobre o meu, sua boca aproximou de minha barriga com devoção e ali deixou uma trilha de lambidas até o cós do short. Meu coração saltou sentindo um frio atingir meu ventre. Respirei desajustado ao entender o que ele queria fazer, eu podia não ser santa e ter experimentado algumas coisas diferentes na cama, mas eu tinha certos limites. — Detetive... — Chamei, tentando afastá-lo antes que conseguisse desabotoar o short. — Detetive Almeida! Minha voz apesar de rouca, saiu forte. Enfim, eu havia conseguido sua atenção e ver aquela expressão confusa em seu rosto me feriu de várias maneiras diferentes. Puxei o ar e o prendi, meu celular havia voltado a tocar e talvez aquela também fosse a minha brecha. Nicolas se afastou mais uma vez e imediatamente senti falta do seu corpo, do seu aperto e da sua boca, mas agora, um pouco mais lúcida, já conseguia raciocinar e precisava atender aquela chamada, pela insistência deveria ser algo importante. — Alô. — Disse, após pegar o celular que estava sobre o sofá. “— Kayla, você não pode cancelar suas viagens, suas entrevistas... Sabe o que isso irá te custar?” — A voz de Joseph soou incomodada e irritadiça. — Oi, tudo bem? — Falei indiferente. — Não me importo, eu


posso e já cancelei. Deseja mais alguma coisa? “— Não me trate como um nada.” — Exigiu, olhei na direção de Nicolas e o vi se levantar e sentar no sofá. Acho que nosso momento havia acabado ali. — Está ciente do atentado? Preciso de um tempo para descanso e vou fazer isso por alguns dias. “— Mas precisa ser justo agora? O que iremos falar? Como iremos explicar essa decisão de última hora?” — É para isso que te pago, Joseph. Para resolver esse tipo de situação. Era só isso que tinha para falar? — Em minha pergunta, já estava deixando claro o quanto estava enfurecida. Ele havia cortado nosso momento apenas para isso? Tá certo que Joseph não poderia adivinhar o que eu estava fazendo, mas aquele tipo de situação era desnecessária. Eu o pagava para cuidar desses assuntos e não havia a necessidade de sua ligação. Olhei para Nicolas e o mesmo estava em seu celular, compartilhando algum tipo de assunto interessante já que parecia completamente focado em sua conversa. — Boa noite, Joseph. — Anunciei desligando a chamada e levando minha atenção ao detetive. Ele havia recebido a ligação ou feito? Porque eu não havia escutado seu celular tocar. Não consegui ouvir muita coisa, mas assim que ele desligou o celular olhou-me de uma forma, que pude supor que eu estava deixando visível minha curiosidade. Ele acomodou-se sobre o sofá e sorriu de canto, deixando-me ainda mais curiosa. — Algum problema detetive? — Arqueei a sobrancelha, o observando com atenção. — Só essa distância dos nossos corpos. Venha cá! — Passou a mão sobre o estofado macio, fazendo-me um convite tentador. — Me referia a ligação. — Mantive meu senso, antes que ele me fizesse perder o autocontrole. — Nenhum problema, mas pedi para Cooper fazer umas investigações para mim. — Sobre as cartas? Não seria melhor você investigar? É você quem está sendo pago, certo? — Franzia testa. — Eu tentei investigar e deixar você sobre os cuidados de outra pessoa, e olha o resultado. — Ele olhou diretamente para o pequeno machucado em minha cabeça, que já estava cicatrizando. — Então, não


me peça para descuidar com você novamente, Kayla, porque não vai acontecer. Cooper se dispôs a ajudar no que fosse necessário, em troca dou a ele cinquenta por cento do que eu receber de pagamento. — Cooper parece ser um bom amigo — Ponderei. — Ele é. — Detetive tombou a cabeça. — Yohanna também é uma boa amiga, apesar de tudo. — Comentei. — Devo acreditar que está pensando em juntar os dois? Definitivamente, Nicolas era muito bom em observar as pessoas, porque às vezes suas observações o faziam parecer que podia ler mentes. Deveria ser legal ter esse tipo de treinamento, acho que saberíamos melhor em quem confiar. Sorri em resposta, fazendo Nicolas curvar seus lábios e sorrir também. Me sentei ao seu lado no sofá e nos encaramos por poucos segundos, acho que tanto ele como eu, não sabíamos bem como prosseguir. De repente, seu corpo tombou sobre o meu e seus lábios alcançaram meu pescoço e apesar de querer aquilo tanto quanto ele, não podia deixar acontecer. Estava com medo. Pela primeira vez, Kayla Mendes estava sentindo medo de se entregar para um homem. Sentia que com Nicolas era diferente, era um sentimento maçante e sufocador, mas apesar de ele demonstrar o mesmo interesse que eu, tinha medo de não passar disso. Interesse carnal. Não queria me machucar, nem ao menos machucar Nicolas, então tínhamos que colocar em uma balança nossos sentimentos antes de avançar para outro nível nesse nosso relacionamento estranho. — Nicolas. — Sussurrei manhosa, quase implorando para que ele ignorasse minhas próximas palavras. — Não posso, desculpa! — O que? — Arqueou sua sobrancelha grossa e muito bem desenhada. — O que você não pode? — Isso! — Respondi gesticulando as mãos. — Meu corpo está pronto, mas o resto não. Ali estava eu, travando outra vez. — Que merda, mulher! — Passou as mãos pelos cabelos. — Você vai acabar me enlouquecendo. Porque vive fugindo? Tem medo de mim? — Você não é um homem qualquer, Nicolas. — Fui sincera. — Sinto que tem algo verdadeiro nascendo entre nós, mas não sei se


consigo me entregar por inteira novamente e ter meu coração quebrado. Abaixei meus olhos e fitei minhas mãos que pousavam delicadamente sobre meu colo. Pude ouvi-lo suspirar, mas nenhuma palavra rebateu as minhas e por um breve momento, eu não soube no que pensar. Talvez, esse fosse meu real problema. Pensar demais. Quando foi que comecei a me importar com consequências ou coração quebrado? — Não pode esperar mais um pouco? — Questionei, insegura e com medo de que ele se levantasse e fosse embora. Só que às vezes eu me esquecia de que estava lidando com um homem maduro e com ideais formados, um homem que mesmo frustrado ainda estava ao meu lado, querendo a todo custo me proteger. — Você está bem? — Perguntei, ele ainda não havia falado nada e o silêncio me agoniava. Nicolas curvou o corpo para frente, apoiou seus cotovelos sobre os joelhos e deixou seus dedos alisarem suas pálpebras. Ali, diante daquela cena, eu já estava me mortificando mentalmente por ter o deixado daquela forma. — Vou ficar bem. — Respondeu por fim, levantando seu olhar até encontrar o meu. — Sinto muito... — Não precisa. — Ele sorriu, e apesar de parecer sincero, tinha vestígios de mágoas. — Posso viver um pouco mais com essa tortura. Ele alisou meu corpo e acabei sorrindo. Ali estava o velho detetive Almeida, sempre respondendo a alguma provocação.

Duas horas mais tarde, eu ainda estava acordada tentando descobrir o que havia me travado mais cedo. Nicolas havia ido para meu quarto de hóspedes já fazia uma hora, então aproveitei o banho relaxante em meu banheiro para pensar. Pensei que passaria a noite acompanhada em minha cama e eu realmente desejava isso, mas como sempre, um medo estranho havia me feito desistir. Do que eu precisava? De algum tipo de garantia? Não existia garantias quando o assunto era o coração, eu mesma


era a prova disso. Estava sendo muito tola, não havia como ter garantias em nenhum tipo de relacionamento. Mas talvez eu só quisesse conhecer Nicolas melhor, saber sobre seus gostos, hobbies... Céus! Isso também era uma grande tolice. Nicolas era um homem bom, forte, trabalhador, dedicado. Eu podia confiar nele? Sim, podia. Claro que eu podia, confiaria minha vida a ele. E quanto a confiar em mim mesma? Hum, acho que havia encontrado a questão que não queria se calar. Nós estávamos nos envolvendo muito rápido, e havia uma chance de que, de repente, eu resolvesse querer outra coisa. Porque sempre fui assim. Dona dos meus desejos e vontades, mas não queria magoar Nicolas. Não podia.


Capítulo 16

Após me aconchegar em um dos quartos de hóspedes do apartamento de Kayla, havia algo me incomodando e acho que estava em meu direito de sentir isso. Já era a segunda vez que ela travava, não estava bravo com isso porque mesmo frustrado, podia esperar pelo tempo dela. Mas estava claro que Kayla tinha fantasmas em seu passado, ou então, ela estava sentindo-se insegura. Não! Não podia ser isso, podia? Kayla era um mulherão. Forte, dona de si, trabalhadora, guerreira, segura... Seria ela a mulher ideal para mim? A mulher que tanto procurava para que eu finalmente sossegasse? O ruído da porta fez com que eu ficasse quieto e de olhos fechados. Fingi estar dormindo, mas sabia que se tratava de Kayla, parada à porta entreaberta, me observando a distância. Não sabia no que ela pensava, mas pagaria um milhão para conseguir descobrir. Se quisesse entrar, ela o faria. Eu não iria e nem forçaria nada entre nós, mas só de saber que ela me olhava em silêncio, fazia uma esperança nascer. Talvez ela só precisasse de tempo para assimilar o que estava acontecendo, eu mesmo ainda tinha receios quanto a nós, mas já havia decidido fazer dar certo. Ou ao menos, fazer o que estava ao meu alcance para que desse. Acho que Kayla precisava de alguma demonstração de que eu não estava levando nosso relacionamento como uma brincadeira. Porque naquele momento, meus sentimentos por Kayla estavam claros e se alguma vez estava indeciso com alguma coisa, já havia me decidido. Eu faria dar certo, mas tudo aconteceria naturalmente. Por essa razão, não disse nada quando a mesma se foi.


Momentos mais tarde, por falta de sono, acabei levantando para ir até a cozinha procurar por um pouco de água fresca, mas parei no meio do caminho quando passava pela porta do quarto de Kayla. Hesitei por alguns segundos, mas acabei fazendo o mesmo que ela. Tentei não deixar que a porta fizesse algum tipo de ruído, encostei no batente e respirei fundo. Ela havia adormecido. Sorri divertido, balancei a cabeça em negativa ao ser pego em surpresa. Kayla mais uma vez, acabara me deixando extremamente intrigado e, diga-se de passagem, excitado. Camisola rosa e tecido de cetim? Que nada. Iludido aquele que imagina Kayla dormindo nesses trajes. A realidade ali era outra. Short legging preto e camisa de futebol vestia seu corpo, e vendo de onde eu estava, parecia um convite tentador. Extremamente sexy. Ela parecia serena, nem um pouco preocupada com as coisas que aconteciam do lado de fora daquele apartamento. Queria ter compartilhado com ela minha suposta promoção, mas algo me impedia de fazer tal ato. Suspirei e fechei a porta. Faltava pouco para amanhecer e mesmo que minha vontade fosse de ficar ali, precisava descansar, nem que fosse por poucas horas.

Na manhã seguinte, um estrondo e um grito vindo do quarto ao lado, justamente onde Kayla dormia, fez com que eu acordasse em alerta. Levantei em um pulo, chutando meus sapatos para o lado em busca da minha pistola. Ansioso, deixei meu quarto e sem nenhum tipo de cerimônia invadi o de Kayla. — Deus do céu, Kayla. Você quase me matou de susto. — Praguejei ao vê-la jogada no chão ao lado da cama e com seu antigo corte sangrando. Após “arrombar” a porta e averiguar a situação em que Kayla se encontrava, constatei que ela tinha caído da cama. O que poderia ter sido


engraçado se eu não tivesse ficado nervoso só com a possibilidade de alguém ter invadido o apartamento e ter tentado fazer mal a ela. — Eu? Você quem está me apavorando com essa arma, desapareça com ela já! — Não consegui vê-la direito, porque a mesma tremia mais que vara verde e eu não conseguia entender seu nervosismo. Seria apenas por ter visto a pistola? — Por que gritou? — Questionei, baixando a arma e apontando-a para o chão. Fui até ela com meu cenho preocupado, passei o dedo delicadamente sobre seu corte e suspirei. — Não está na cara? — Perguntou irritada. — Caí da cama. Segurei a risada maldosa que estava prestes a soltar e respirei fundo assumindo todo o meu autocontrole ao observar, mais uma vez, seus trajes de dormir. Guardei a pistola no cós da minha cueca boxer e passei a mão pelos cabelos. — Eu vim vê-la dormir durante a noite. — Confessei. Kayla parecia impressionada, só que havia um rubor em seu rosto que a deixava ainda mais sexy. Eu sabia que aquilo era reação ao meu traje de dormir, mas se ela estava excitava com que estava vendo, poderia dizer que estávamos quites. E não vou negar, era satisfatório saber que eu não era o único em ter desejos frustrados. — Preocupado comigo? — Indagou, sem dar índices de que assumiria seu passeio em meu quarto durante a noite. — Sim. — Me limitei em responder. — Vai precisar fazer um curativo aqui. — Já vou cuidar disso. Obrigada por me manter em segurança, detetive. — Suspirou fundo, dei dois passos para trás, assim ficaríamos em uma distância segura um do outro. — É um prazer. — E por não atirar em mim. — Riu baixo. — Disponha! — Respondi ao seu riso e balancei a cabeça em negativa saindo de seu quarto.


— Pela última vez... — Grunhi. — Tire essas balas da minha frente! Cooper riu debochado, mas diante do meu pedido enraivecido, guardou sua caixinha de balas dentro da gaveta de sua mesa e respirou fundo, observando-me como sempre fazia. Já não estava mais na casa de Kayla e sim no escritório do meu companheiro de trabalho, mas, como sempre, o infeliz estava me oferecendo aquelas malditas balas de menta. Eu nem sequer gostava daquilo. — Era só dizer “não”, cara. — Venho dizendo isso por cinco anos seguidos, logo mando você enfiar essas balas de menta no... — Credo, Nicolas! Aconteceu alguma coisa? Andou bebendo? Estava me esforçando para tentar manter a calma, mas era quase impossível disso acontecer quando seu amigo decide fazer do seu dia, um grande palco de circo. — Claro que não bebi, mas vou rachar sua cabeça com uma ripa se oferecer essas balas de novo. Sempre fui um homem educado, porque minha mãe havia sido maravilhosa quando me deu esse tipo de educação, mas Cooper já havia enchido minhas paciências durante cinco anos oferecendo essas balinhas, e admito que também estava de mal humor devido minha noite frustrada. — Hum, já vi que não conseguiu nada com a apresentadora de tevê. — Cutucou, procurei ignorá-lo. — Kayla é uma linda mulher, e divertida também. Talvez eu esteja apaixonado por ela. — Confessei sem ousar olhá-lo, mas pude ouvir sua risada sacana. — Quer café? Atravessei a sala indo até a cafeteira, isso me manteria elétrico e focado no trabalho. A menos, claro, que Cooper decidisse continuar com suas piadas sem graças. — Hum, parece a mulher perfeita, talvez eu também me apaixone


por ela. — Cooper se divertia com seus comentários ácidos, mas isso estava acordando um Nicolas que ele não gostaria de conhecer. — Vocês formariam um casal perfeito. — Grunhi com raiva. — Ambos querendo me enlouquecer. — Já acabou, Jéssica? — Cooper riu, rolei os olhos em desprezo e me servi de um copo de café. Esses copinhos plásticos mesmo. — Vamos, Nicolas, me conte o que anda acontecendo. — Não mesmo. — Qual é homem? Somos parceiros e Kayla agora também é meu caso. Então comece a falar. Sim, éramos parceiros, tanto que estava confiando a vida de Kayla a ele. Cooper era meu amigo de longa data, desde a faculdade juntos, então, porque não me abrir com ele? Qual outra pessoa, senão ele? Kayla estava prestes a me levar a loucura e desabafar o que estava acontecendo poderia fazer passar, mesmo que temporariamente, a frustração que sentia. — Ela está me enlouquecendo. Senti o alívio nas costas apenas por ter confessado isso para alguém. — O que tem feito? — Sendo ela mesma. Desorganizada, desastrada, vulnerável, incapaz de contar uma mentira, mesmo que essa mentira me faça bem e sem contar que essa mulher é sexy pra caralho! — Despejei, Cooper riu enquanto olhava uns arquivos em suas mãos. — Está com o arquivo da Isabella Mendes? — Sim, e Fernando e Lucas irão passar daqui para comentar sobre o caso. Foram eles que investigaram a morte dela, mas nada descobriram. Arquivaram como um simples atentado de roubo. Ah, eu havia escutado Kayla falar algo sobre isso. Cooper prosseguiu: — Nicolas, é Henrique quem vai acompanhar Kayla até as cinco horas, tudo bem? — Henrique é um bom sujeito. — Ponderei. Estiquei minha mão para ter acesso aos documentos que Cooper lia. — Você ficará com o turno da noite? — Indagou. — Sim, mas só vou poder depois das dez. Você substitui Henrique até eu chegar. Ok?


Passei por ele após deixar o copo de café no lixo, meus olhos foram até os papéis em minhas mãos tentando dar atenção para eles, mas parei diante da porta ao ouvi-lo. — Tudo bem, mas Nicolas, melhor que me alerte. Kayla dorme com camisolas transparentes? Arqueei a sobrancelha, estalei a língua em desprezo e respirei fundo. Mais essa agora! Eu teria que lidar com suas brincadeiras provocativas. Ainda bem que nesse quesito, meu fiel amigo teria uma leve decepção, isso era bom, porque eu também havia tido uma ao ver Kayla naqueles trajes de dormir, ainda que ela ficasse extremamente sexy nelas. — Não. — O vi soltar um “ah, que pena!” — Ela dorme com um uniforme de futebol. — Mentira! — Exclamou surpreso. Minha boneca não surpreendia só a mim e acabei ficando orgulhoso dela. — Aposto que não tem o número cinco pregado nas costas. — De fato, é um dez. — Sorri irônico. — Claro, a garota é nota dez!


Como quase todos os dias, havia ido tomar meu café da manhã em uma das cafeterias do centro. Nicolas havia colocado um policial na minha cola, Henrique era uma pessoa agradável. Tinha seus quarenta anos, voz morna e macia e, também já havia me mostrado três retratos dos seus filhos. Só que a ideia de ter um policial nos meus calcanhares me soava meio estranho e acabava me deixando sem jeito. Bem, Nicolas e Cooper eram detetives, sendo assim, vestiam-se como pessoas comuns e não andavam fardados pelas ruas da cidade, anunciando para todos sua profissão. Naquele exato momento, enquanto me deliciava com meu cappuccino, Henrique estava encostado na parede da cafeteria, ao lado de um vaso de copos de leite e não se distraía nem por um minuto sequer. Estava concentrado em seu trabalho, que era, justamente, me manter em segurança. Algo que achava interessante era que a ideia de contratar um detetive para as investigações, havia sido do Rafa, logo em seguida, Nana pesquisou recomendações sobre o melhor detetive da cidade. Eis que surgiu Nicolas. Um renomeado detetive e indicado pelo melhor batalhão policial da cidade. Só que, não sei... após conhecer Nicolas, acho que o Rafa não gostou muito de sua própria ideia. Também havíamos combinado em ir para minha casa de campo, mas Nicolas precisava resolver assuntos pendentes em seu escritório, pelo menos, foi isso que ele disse ao abandonar meu apartamento logo de manhã, mas garantiu que iríamos em breve. Talvez, a noite ou no dia seguinte. — Kayla? Que prazer em vê-la! Deixei de vagar em meus pensamentos ao ouvir a voz ser direcionada a mim.


Levantei meus olhos para encarar a parede humana que atrapalhava minha visão, até que de repente, desejei ter tomado meu café da manhã em casa. Não sabia de onde ele havia saído, mas Henrique já estava parado ao meu lado para me garantir total proteção. Não pude olhar para o policial, mas sentia sua presença rígida e ameaçadora. Acho que esse tipo de postura fazia parte de sua profissão, tinha que ser intimidante e não se deixar intimidar. — Vejo que está bem acompanhada. — Ouvi novamente a voz de Júnior ressoar pelo estabelecimento e em seguida, mandou uma piscadela dos infernos e afastou-se indo embora. Tombei a cabeça e o acompanhei com o olhar, Júnior tinha alguns machucados no rosto, senão me engano, um corte no lábio e um roxo no olho. Sorri aprovando a atitude violenta do meu detetive, o prefeito combinava bem com aqueles hematomas. Meu cappuccino havia acabado e precisaria de mais algumas doses de cafeína depois desse encontro desagradável. Na verdade, acho que só a cafeína não iria fazer o efeito que eu queria, precisava de algo mais doce. O que Júnior fazia ali? — Essa cafeteria fica longe da prefeitura, e esse homem não deveria estar por aqui. — Dei um balançar de cabeça, concordando. — Vou agora mesmo comunicar os detetives sobre essa pequena coincidência. Eu estava no mundo da lua, tudo havia acontecido tão rápido que nem tinha dado tempo de responder ao Júnior, não que eu fosse fazer isso. Naquele momento, fiquei feliz por Henrique estar por perto, porque apenas sua presença fez com que Júnior corresse para longe. Sorrindo, levantei o braço e chamei por uma garçonete, fiz meu pedido quando a mesma se aproximou. — Por favor, um pouco mais de cappuccino, mas dessa vez, acrescente chantilly, um muffin de banana caramelizada, outro de nozes e outro de chocolate. Ah, se tiver aqueles enfeites de chocolates, pode colocar no cappuccino também. — Tudo para viagem? — Isso! — Continuei sorrindo. Para seu crédito, Henrique não questionou ou comentou nada sobre meu pedido, mas notei quando disfarçou um pequeno sorriso.


Capítulo 17

Com o arquivo da senhora Isabella em mãos, Cooper e eu estávamos em nossa sala tendo uma conversa amistosa com alguns amigos de trabalho. Ou ex-amigos de trabalho, tendo em conta que eles continuavam como policiais e Cooper e eu havíamos ganhado uma promoção para sermos detetives. O fato era: Fernando e Lucas haviam ficado com o caso na época, mas não tinham encontrado absolutamente nada de estranho na cena do crime. Ao que parecia, Isabella estava no lugar errado e na hora errada, mas ainda assim, algumas coisas não se encaixavam. — Como já disse por telefone, não tenho bola de cristal. — Fernando levantou-se de sua cadeira e andou tranquilamente pela minha sala. — Nesses últimos doze meses, foram mais de oitocentos e cinquenta homicídios na cidade. A morte de Isabella Mendes foi apenas mais um dos que investigamos e para piorar, não houve testemunhas ou impressões digitais. Nenhum suspeito. — Não descobrimos droga alguma sobre a morte dela. — Lucas falou, chamando nossa atenção. Cooper mantinha-se em silêncio do outro lado da sala, observando com atenção não só a conversa que se desenrolava, assim como as reações dos nossos companheiros. Eu, por outro lado, tinha que especular o quanto podia sobre isso ou não chegaria a lugar nenhum. O que Isabella estaria fazendo tão tarde da noite em um lugar deserto? Sua bolsa não havia sido roubada, mas o relógio de ouro havia sido arrancado de seu pulso. Seu carro fora achado no dia seguinte estacionado nas imediações de um centro comercial, as chaves haviam sumido, mas não tinha um arranhão sequer no carro. Era tudo muito estranho e suspeito.


Nas investigações, acusou que Isabella havia jantado com seu colega de emissora, Maicon Hilston, em um restaurante caro no centro da cidade, mas, segundo as câmeras de segurança do estabelecimento, ambos tomaram caminhos diferentes logo após o jantar. No celular dela, também foram encontradas ligações recebidas de um telefone público e conforme apresentava o laudo médico, sua morte fora causada pelo trauma que sofreu na nuca, através de uma pancada forte. Chegou ao hospital delirando por conta da dor e não aguentou por muito tempo, veio a óbito uma hora após sua entrada. Pelo menos, Kayla conseguiu vê-la em vida antes que partisse. — Tinha alguma marca de defesa? — Questionei. — Talvez embaixo das unhas? — Nada. — Lucas suspirou. — Isso prova que ela não foi levada até lá a força e de que, quem quer que ela tenha encontrado, não era um desconhecido. Afirmei com a cabeça, concordando com sua linha de pensamentos e ele prosseguiu; — Além do mais, Isabella não demonstrava ter entrado em uma luta corporal, mas foi atacada pelas costas. — Só que seu rosto ficou desfigurado. Um ladrão comum não faria algo desse tipo, somente aquela apunhalada na nuca a levaria ao óbito uma hora ou outra, então não entendo o porquê dessa maldade. Isso só revela que essa pessoa sentia um grande ódio. — No arquivo consta que André Mendes estava no iate da família quando o assassinato aconteceu. — Cooper abriu a boca pela primeira vez. — Procede? — Sim! — Fernando afirmou. — Houve testemunhas que garantiram sua presença no iate. Maicon Hilston tinha um ótimo álibi, o que garantiu sua exclusão da investigação. A governanta estava em casa, com Kayla Mendes e Rafael, o tal assessor, estava com elas. — Isabella não recebia nenhuma ameaça por cartas, como vem acontecendo com Kayla, recebia? — Indaguei, já sabendo que não, pois havia confirmado os fatos com o FBI. — Não. — Ambos responderam. Neste exato momento, o comandante Aurélio entrou em minha sala, Fernando e Lucas já estava se retirando, pois, nossa conversa já havia rendido até demais, apesar de ainda não ter chegado a lugar algum.


— Temos um problema, detetive Almeida. — Sua voz era séria e eu quase podia adivinhar do que se tratava. — Precisamos conversar. — Sinta-se em casa comandante! — Apontei para a cadeira em frente à minha mesa. — Nicolas, vou deixá-los a sós. — Cooper acenou com a cabeça e se retirou após ver eu afirmar com a minha. Eu sabia bem o que iria vir a seguir. Eu trabalhava por conta própria, mas também resolvia alguns casos difíceis para o departamento criminalístico. Isso, claro, quando eles não conseguiam resolver algum caso muito difícil, aí deixavam para mim. Eu sabia que havia sido indicado pelo comandante para o caso de Kayla Mendes, e depois de ter confrontado Júnior no prédio dela, era um pouco óbvio que ele reclamaria com o meu superior e pediria para me afastar do caso. Já esperava por isso, na verdade, e admito que demorou. — Que coisa, homem! Por que foi se meter com o prefeito? Sua pergunta concluiu e afirmou meus pensamentos. — Acho que cheguei a comentar com você, comandante. Júnior é um dos suspeitos no caso da senhorita Mendes. — E quem é que disse isso? — Eu digo! — Afirmei confiante. Aurélio apenas meneou a cabeça e coçou seu queixo barbudo. — Hum, e diz baseado em evidências, certo? — Errado. Mas existem circunstâncias. — Está querendo me dizer que não tem provas contra o que está falando? — Balançou a cabeça em negativa. — Escute o que vou lhe dizer, meu rapaz. Sei que nesse caso você não está trabalhando pelo departamento, mas seria aconselhável deixar o prefeito em paz. Tua vida pode ficar complicadíssima se não parar com isso imediatamente. — E isso significa... — Significa que não posso afastá-lo do caso, porque não o pegou pelo departamento e sim, particular, mas que Júnior tem o poder de caçar sua licença de detetive e te afastar do caso da senhorita Mendes. Não quero que isso aconteça, porque meu departamento também precisa de você e não quero perde-lo. Isso está claro? Acabei sorrindo diante de suas preocupações. Já sabia que tudo aquilo poderia acontecer, mas Aurélio não era apenas meu chefe, também era um amigo dedicado ao meu pai, quando o mesmo trabalhou


para seu departamento. — Não se preocupe com Júnior Santurbano. — O tranquilizei, não me deixando abalar. — Não estou preocupado com ele, estou preocupado com você. Seu emprego e sua carreira profissional está em jogo, seu cabeça dura. É um dos melhores investigadores dessa cidade e do meu departamento, mas está andando em corda bamba. Precisa tomar cuidado! Ouvi o conselho em silêncio, absorvendo suas palavras com cuidado, porque sabia que Aurélio só queria o melhor para mim e que estava preocupado com meu futuro. — E Júnior vem dizendo coisas graves a seu respeito. — Ele prosseguiu. — Uma delas, é que está dormindo com a senhorita Mendes. — Pura mentira. — Rebati. — Não que eu não tenha tentado. — Confessei, sem sentir um pingo de culpa. Aurélio caiu na gargalhada, acabei sorrindo de canto porque essa era a maneira dele dizer que não se importava nem um pouco com isso, mas que pelo bem da minha profissão, deveria parar. — Muito bem, se a moça aceitar dormir com você, trate de me avisar, ok? Por que saberei o motivo do seu afastamento do caso. Por um breve momento, esse pensamento me assombrou. Não queria me afastar de Kayla ou deixar de lado seu caso, nem ao menos passar para outra pessoa. Queria ser eu seu salvador, seu herói. Não podia deixar que Júnior me tirasse do caso, porque imbecil do jeito que ele era, podia usar seu poder para isso. — Sem dúvidas. — Agora me diga porque está cismado com Júnior. — Hum, bom, Júnior e Kayla namoraram por algum tempo, Isabella não aprovou a relação de ambos na época. E ao que parece, mesmo após o término e mesmo ele garantindo que não voltaria com ela, Júnior tem procurado por Kayla, vive telefonando e sempre aparece nos lugares onde ela está. — E como te conheço, deve estar enchendo a cabeça dela contra Júnior. — Olha, não vou negar que andei falando alguns podres do nosso prefeito, mas não preciso me esforçar para que Kayla o odeie. — Sorri vitorioso. — Que ele é um cafajeste, isso é um fato comprovado. Pedi para Cooper o investigar ontem e você ficaria espantado com a quantidade de flores que ele vem mandando para Kayla. Sem contar nas


vastas vezes que ele aparece na fita de segurança do prédio dela. Enfim, ele não deixa de ser um suspeito. — Nada de mais concreto ligando ele as cartas anônimas? — Nada. Nenhuma impressão digital. As cartas não foram impressas em seu escritório, mas ele pode ter uma impressora em casa. — Descobriu algo sobre o irmão de Kayla? — André Mendes? Ele tem um pouco mais de trinta anos, perdeu uma fortuna com suas ex esposas e negócios desastrosos. Está endividado até os dentes, mas não parece desesperado com isso. Atualmente mora sozinho, bebe muito, não usa drogas, mas talvez use uma maconha de vez em quando e ninguém nunca o vê jogando. — Bem, não tem como não suspeitar dele. Certo? — Certo, eu não o descartei ainda. Kayla cuida da coluna que sua mãe fazia, então ela precisa estar de acordo para a venda, e assim, o dinheiro seria dividido entre ambos e André poderia saldar suas dívidas. Bom, estamos falando de algo em torno de trinta milhões de dólares, acho que isso liquidaria as dívidas de André, não é mesmo? — De fato! — Isso também parece um motivo razoável para força-la a essa venda. As cartas parecem uma boa estratégia de ameaças, apesar da última ter sido preocupante. — Preocupante? — Ele fitou-me sério. — Quanto? — Muito. Mas o problema é que também não há impressões digitais ligadas ao André e as cartas não parecem ter sido digitadas em seu computador. Talvez, ele não passe de mais um riquinho idiota. — Ou seja, você não chegou à conclusão nenhuma. Tem alguma ligação as cartas que a senhorita Mendes recebe, com a morte de sua mãe? — Estou investigando isso. E só quero ressaltar que Júnior é uma possibilidade. Foi Isabella quem implicou com ele quando o mesmo começou a namorar sua filha, então não posso descarta-lo, ainda mais se ele vem agindo como um louco perseguidor. — Não é muito. — Mas já é alguma coisa. — Vai precisar de mais do que isso para entrar em uma briga com o prefeito, meu jovem. — Alertou-me. — Cooper e eu vamos investigar mais a fundo.


— Certo, mas tente não irritar Júnior Santurbano enquanto não houver provas concretas contra ele, entendeu? — Sim, senhor! — Bati continência sorrindo. — Quero entrar em outro assunto contigo, sobre sua promoção. Eu já estava quase me esquecendo desse detalhe, mas tinha que admitir que eu não tinha uma resposta para ele ainda. Isso era algo que deveria ser muito bem pensado. Claro, em outra época eu teria aceitado sem pensar duas vezes. — Me sinto honrado, mas ainda não tenho uma resposta! — É uma ótima oportunidade de sair do caso, antes que Júnior tire sua licença. Respirei fundo. Essa história de promoção não me agradava porque havia aparecido justamente naquele momento importuno. Anos esperando por ela e assim, do nada, ela cai de paraquedas em minha mesa. Isso era no mínimo, estranho. — Perdoe-me pelo o que vou falar, mas acho estranho essa promoção ter vindo justamente agora. — Como assim? — Ele arqueou a sobrancelha. — Pensa que o prefeito tem algo a ver com isso? — Ele não quer tanto o meu afastamento do caso de Kayla? — É. — Meneou a cabeça. — E pelo cargo dele, poderia facilmente te oferecer uma promoção. — Exato! — Ainda assim, melhor uma promoção do que uma licença caçada, meu jovem. Pense bem. Aurélio riu alto e alguns minutos depois, abandonou minha sala deixando-me à mercê de meus pensamentos. De tudo o que havíamos conversado, em uma coisa ele tinha razão, Júnior podia me afastar do caso de Kayla e isso não seria benéfico para ela e muito menos para mim. Precisava tomar mais cuidado, porque me afastar de Kayla era a última coisa que tinha em mente.


Aproveitando que um policial estava na minha cola, dei um pulo no estúdio de gravações logo após o almoço. Estava sem notícias de Nicolas o dia todo, mas via Henrique conversar ao celular diversas vezes no dia e quando questionei sobre o assunto, ele apenas sorriu dizendo que o detetive Almeida estava preocupado com minha segurança. Não pude esconder a felicidade evidente ao ter esse tipo de informação, porque mesmo longe, ele ainda cuidava de mim. Nicolas não parecia fazer isso apenas por ser seu trabalho, mas também por ter algum tipo de afeto por mim e isso me assustava um pouco. Não queria machucá-lo, mas sentia que poderia fazer isso a qualquer momento. — Kayla, por Deus menina! — Parei na entrada do estúdio ao ver Yohanna correr em minha direção. — Quando você saiu do hospital? — Ontem pela manhã. — Respondi sorrindo, devolvendo o abraço que ela me dava. — E o armário? — Questionou ao reparar que eu não estava com o mesmo segurança daquele dia. — O armário está juntamente de Nicolas, cuidando do meu caso e colocaram o policial Henrique para me proteger. — Ri baixo. — Que chato! — Exclamou contrariada. — Mas como você está? — Estou bem, obrigada! Vim apenas fazer uma visita, logo estarei partindo para umas miniférias. — Passei meus olhos ao redor, e quem passava por perto me cumprimentava com olhares curiosos. — Sério? Também, mais que merecido. Você precisa descansar. — Colocou a mão em meu ombro. — Mas e o detetive Cooper, vai junto? Balancei a cabeça segurando minha gargalhada. Era fato, Yohanna estava mais interessada em Cooper do que na minha situação atual e isso até que me animava. Era bom ver alguém feliz e se divertindo. Yohanna sabia o quanto eu odiava que as pessoas ficassem me tratando com pena


ou dó quando acontecia alguma coisa, e pelo menos para isso, ela sempre fora uma boa amiga. — Você não tem jeito, não é? — Comentei. — Não, somente o detetive Almeida me acompanhará. Cooper ficará para dar procedimento ao caso. — Ah, ele vai ficar para trabalhar? — Rolou os olhos. — Não posso roubar a tenção dele por uma noite? — Isso quem decide é ele. — Fui sincera. — Mas confesso que não vejo a hora que tudo isso acabe e eu descubra quem é o malfeitor. — Por falar nisso, já tem alguma pista? — Não que eu saiba, mas o detetive Almeida não me conta muita coisa, parece estar evitando algo. Já havia reparado isso. Nicolas não tinha o hábito de compartilhar como andava as investigações. De certa forma, achava isso bom porque me apavorava a ideia de saber como andava as coisas, mas por outro lado, eu ficava nas escuras. Meu celular, que até então estava guardado no bolso da calça, apitou anunciando a chegada de uma nova mensagem. O peguei em mãos e ao ler o conteúdo, um sorriso brotou em meus lábios. Tanto pelas palavras escritas nela, quanto pelo remetente que havia mandado. — Hum, algo me diz que tem homem na área. —Yohanna cutucou ao tentar olhar a tela do celular. — E um compromisso para hoje à noite. — Travei o celular sorrindo e guardei em seu antigo lugar. — Ah, que bom! Fico feliz por você. — Yohanna parecia, realmente, feliz. — Mas vai para um encontro com um policial na cola? — Ela levou seus olhos até Henrique e acabei fazendo o mesmo. — Não. O turno do policial acaba as cinco, meu compromisso começa depois das dez da noite. — Revelei sorrindo. — Olha, danadinha! — Riu. — Mas vai ficar desprotegida nesse período? — Não. Cooper vai ficar até as dez, depois detetive Almeida assumirá. Só de tocar no nome de Cooper, podia ver um brilho diferente irradiar nos olhos de Yohanna. Seria loucura querer juntar esses dois? Talvez, eles até dessem certo. — Espera!! Espera aí!!! Seu compromisso não é depois das dez?


Como vai fazer isso com o detetive Almeida na cola? — Questionou confusa e acabei sorrindo maliciosa. — O detetive não será um problema. Yohanna arqueou a sobrancelha, observando com atenção o sorriso em meus lábios. Abriu a boca em surpresa e balançou a cabeça em negativa, talvez, por não acreditar em seus próprios pensamentos. Comecei a rir de sua cara, estava muito engraçada, mas não entendia o porquê da surpresa. — Juro de dedinho que eu pensei que vocês se odiassem. — Por que pensou isso, Hanna? — Meu cenho franziu. — Sei lá. Talvez pela forma que você falava dele, ou por Rafael não gostar dele. — Explicou-se. — Mas me diga, isso não é tecnicamente, proibido? — Proibido? — Tombei a cabeça pensando sobre o assunto. — Diz sobre o fato dele se relacionar com uma cliente? Acho que sim, é proibido, mas somente quando ele está trabalhando pelo departamento. — Ah, você o contratou no particular, entendi. — Disse, um pouco mais aliviada. — Ainda não o conheci pessoalmente, mas só por estar te fazendo feliz, já ganhou um ponto comigo. — Me fazendo feliz? — Cruzei os braços rindo. — Claro! Pensa que não vi o sorriso bobo quando leu a mensagem no celular? — Disse convencida. — E quem disse que era ele? — Arqueei a sobrancelha. — Deixa de ser besta, bichinha! Eu te conheço e não é de hoje. Quem mais poderia ser? — Ela riu e acabei rindo também. — Ok, sabichona! — Me rendi. — Mas isso é segredo, mantenha a língua dentro da boca.


Capítulo 18 Foi um pouco difícil me ocupar para fazer as horas passarem rápido, então pensei em passear pelo shopping quando sai do estúdio e claro, Henrique não desgrudou de mim nem por um minuto. Até mesmo se ofereceu para carregar minhas sacolas e devo dizer, adorei ganhar esse tipo de tratamento. Ele estava sendo muito atencioso e prestativo. Até mesmo quando alguns fãs se aproximavam para pedir autógrafos ou tirar fotos, ele não baixava a guarda e o melhor, fazia de maneira discreta. — Tem certeza que não quer nada? — Repeti minha pergunta. — Está somente com o almoço, não sente fome? — Obrigado, senhorita, mas não é necessário. Meu turno já está acabando e logo irei para a casa. — Sorriu amistoso e retribui. Nos sentamos em uma lanchonete do shopping, era uma das melhores e gostava bastante de ir ali quando meu pai era vivo, mas já fazia algum tempo que tinha perdido o ânimo para frequentar aquele lugar. Gostava de perder algumas horas ali, era sempre tão acolhedor, receptivo, sua decoração e iluminação fazia o lugar transmitir paz para o interior. Olhei ao redor, buscando entre a multidão algum rosto conhecido. Não que eu esperasse ver meu pai, porque isso certamente não iria acontecer, mas às vezes, deixava minha imaginação aflorar e me pegava pensando em como seria estar ali, esperando por ele para comermos alguns cupcake. Ou para bebermos algumas canecas de chopes. Ou até mesmo para conversarmos sobre nosso dia. Mas diferente do que eu queria, o rosto conhecido que encontrei me fez ficar em alerta. Respirei fundo assumindo outro tipo de expressão, talvez Henrique tenha percebido, pois acabou olhando na mesma direção que eu. Nossos olhos cruzaram e um frio me assombrou, fazendo algo percorrer pela minha espinha. Talvez fosse um arrepio, ou quem sabe um suor. — Esse cara de novo! Ouvi o policial Henrique grunhir, ele não desviou seus olhos de


Júnior Santurbano, nem mesmo quando o infeliz parou alguns centímetros a minha frente e sentou como se tivesse sido convidado. Limpei minha boca com o guardanapo e voltei a respirar fundo, ele não tinha o hábito de aparecer nos lugares que eu estava, mas andava fazendo muito isso, sem contar naquelas flores horrorosas que ele vivia mandado para minha casa. Sempre amei a natureza, apesar de não estar em contato com ela e só por isso, as flores não iam para o lixo. Porque elas não tinham culpa nenhuma se esse ser as mandava para mim. — Nos encontramos novamente. — Ele sorriu, e acabei reparando novamente em seus ferimentos no rosto, mas dessa vez, contive o sorriso. — Segunda vez no dia? Estou começando a achar que você tem me seguido, Júnior. — Bem que você queria! — Cruz credo! — Rebati. Apoiei meus cotovelos sobre a mesa e deixei meus dedos alisar minhas têmporas. Havia uma dor de cabeça começando a me incomodar. Ou talvez fosse alergia a cretinos. — O que quer? — Você já foi mais cordial. — Sorriu irônico. — Preciso falar com você. — Arqueei a sobrancelha. — Em particular. — Desculpa te decepcionar prefeito, mas devo acreditar que está ciente sobre o atentado que sofri outro dia, então, em hipótese alguma, o policial Henrique irá se afastar de mim. — Minha voz saiu firme e ressoou pelo lugar. Ao meu lado, o policial que zelava minha vida, parecia totalmente satisfeito com minhas palavras. Se Nicolas achava necessário tê-lo por perto, então não o afastaria, quem quisesse falar comigo, falaria com a presença dele. — Está com medo de mim, querida? Rolei os olhos. — Talvez você quem esteja com medo, não é? O que tem a dizer que não poder ser dito na frente de um policial? — O provoquei. — Vamos, Kayla, preciso falar com você. Estalei a língua em desgosto, não queria que Henrique se afastasse, mas se não tinha outro jeito... — Henrique, poderia sentar-se na mesa ao lado? — Indaguei, mas pela sua carranca pude supor que não havia ficado feliz.


— Claro, senhorita, mas se ele tentar alguma coisa, grite! — Oh, não policial. — Dei uma gargalhada. — Se tentar quem irá gritar será ele, mas acredito que ele tenha amor ao seu brinquedo de fazer filhos, apesar de ter várias falhas de fabricação. Sorri com cinismo e pude sentir o desejo de Henrique sorrir ser contido na garganta. Ele queria rir, mas não faria, uma porque era muito profissional e outra, porque se tratava do prefeito. Sendo assim, ele apenas se afastou e sentou na mesa ao lado, como eu havia pedido. Voltei minha atenção para o prefeito, e tive que alargar ainda mais o sorriso em meu rosto, porque vê-lo tão nervoso me fazia soltar risadas maléficas, mesmo que essas risadas estivessem guardadas no fundo do meu eu. — Falhas de fabricação? Sério isso? — Ele parecia magoado, mas era difícil ter certeza, já que o prefeito nunca teve um coração para sentir sentimentos. — Bem que gostava do brinquedo, não é? — Era o que tinha para o momento, Júnior. Não podia ficar reclamando. — Falei, não dando importância para suas palavras. — Então, veio falar de seu brinquedo? — Não! — Retrucou, claramente irritado. — É sobre o seu novo brinquedo. O detetive. Entortei os lábios, porque se tinha uma coisa que eu não queria, era ouvir o nome de Nicolas na boca suja dele. Ainda assim, tentei manter meu autocontrole, já que estávamos em local público e sempre acontecia de ter algum paparazzo esperando por um furo. — Prossiga! — Me limitei em responder. — Quem cala consente. — Prossiga! — Repeti, séria e indiferente. — Ok, já vi que não está para brincadeiras. — Respirou fundo. — De todos os detetives existentes nessa cidade, precisava contratar justamente ele? — Não tenho culpa se ele é o melhor em seu ramo. — Sorri orgulhosa. — Ele te incomoda, Júnior? — Sim! — Problema exclusivo seu. — Sorri bebendo um gole do meu suco. — Ele me agrada! — Isso não precisa dizer. — Seu tom de voz alterou. Na mesa ao lado, Henrique prestava atenção em nossa conversa e nos olhou ao


perceber a agitação, mas dei sinal de que estava tudo bem. — Quero ele fora do caso. — Meu caso? Quem pensa que é para decidir isso por mim? — Questionei estupefata. — Não estou brincando, Kayla. Ou você o demite, ou eu dou um jeito de tirar a licença de detetive dele. Meu cenho franziu. O encarei com afinco, era como se estivéssemos soltando faíscas de nossos olhos, ambos competindo que se renderia primeiro. Oras, que espécie de pedido era aquele? Por que raios ele achava que eu faria o que ele estava mandando? E porque ele queria tal coisa? — Me dê uma razão, Júnior. — Pedi, tombando minha cabeça para o lado e o observando. Definitivamente, Nicolas e Júnior tinham um grande rancor um pelo outro. — Kayla, Nicolas apenas aparenta ser um bom homem, mas não é. Precisa se afastar dele. — Lamento decepcioná-lo pela segunda vez hoje, prefeito, mas me afastar dele não está em meus planos. — Rebati, firme em minha decisão. — Não me force a fazer algo que não quero! Por um momento, hesitei. Júnior podia tirar a licença de Nicolas? Era isso o que eu queria? Atrapalhar toda a carreira que ele havia lutado para construir? — Faça o que tiver vontade prefeito, não é para isso que você serve, afinal? Usar seu poder na cidade para acobertar suas cachorradas. — Rosnei em fúria. Henrique que até então estava acatando minhas ordens, naquele momento já havia decidido me ignorar e assim, estava parado em pé ao meu lado, com a mão no cós da calça, pronto para sacar a arma se fosse necessário. — Já vi que não estamos mais em uma conversa privada. — Júnior disse zangado. — Passar bem! Eu o vi se levantar, o vi me olhar como se pudesse me metralhar e o vi se afastar com um andar duro e rígido, mas nada daquilo fazia sentido para mim. Nicolas estaria certo em sua posição sobre o prefeito? Ele estaria mandando as cartas anônimas? — A senhorita está bem? — Henrique questionou preocupado, talvez por ter percebido meu silêncio.


Meu olhar ainda estava na porta por onde o prefeito havia saído e antes que eu abandonasse o lugar onde eu tanto olhava, o detetive Cooper entrou no estabelecimento e estava com cara de poucos amigos. — Estou bem, obrigada! — Respondi sem tirar os olhos de Cooper, o mesmo se aproximou e cumprimentou Henrique. Não demorou muito para que perguntasse sobre Júnior Santurbano. — Ele apareceu aqui do nada. — Henrique explicou. — Exigiu falar com Kayla a sós e ela concedeu por alguns minutos. Cooper deixou de olhá-lo e levou sua atenção até mim, respirei fundo pronta para suas perguntas, porque não conhecia bem o amigo do detetive, sabia que ele adorava observar, mas não sabia qual era a sua reação quando zangado. — Você endoidou, mocinha? — Seu olhar era duro. — Sabe o que Nicolas dirá quando ficar sabendo? O que esse infeliz queria com você afinal? — Não gostaria de sentar? — Sorri forçado, porque ele estava começando a chamar a atenção das pessoas. — Preciso ir. Se precisarem de mim é só ligar. — Henrique disse ao detetive Cooper. — Senhorita, foi um prazer conhecê-la. — Sorriu ao voltar sua atenção para mim. — Igualmente, Henrique e obrigada por cuidar de mim. — Disponha! — Despediu e se foi. Segundos depois, lá estava Cooper sentado a minha frente, justamente onde o prefeito havia se sentado minutos antes e me encarava com um ar zangado e irritadiço. — Tá parecendo que fiz arte. — Comentei. — E fez! — Vai me castigar? — Arqueei a sobrancelha, fazendo ele engolir todas as palavras que ia dizer a seguir. — Qual é? A estrela comeu sua língua? — Nicolas decidirá qual o seu castigo! — Respondeu, suavizando sua expressão. — Mas não acho que você irá reprovar. — Com toda certeza não. — Sorri, ao captar as segundas intenções em suas palavras. Eles eram amigos afinal, Nicolas deveria ter contado algo sobre nós a ele, ou então ele não estaria falando desta forma. Eu gostava de Cooper, gostava de verdade dele, mesmo que de início tivéssemos nos


desentendidos, acho que com o tempo daríamos belos amigos. Claro, nossas vidas eram corridas, mas nada que impediria de tomarmos algumas cervejas uma vez ou outra. Além do mais, ainda queria juntá-lo com Hanna, então teria que fazer amizade com ele bem rápido. De repente, como se ele soubesse no que eu pensava, Cooper cortou minha linha de pensamento, levantou o braço e com um aceno de cabeça chamou por um atendente, fez seu pedido e em poucos segundos me fitou. — Então, o que o prefeito queria com você?


Capítulo 19 Havia um silêncio perturbador dentro do carro, mas não me sentia à vontade para falar ou perguntar qualquer coisa. A expressão séria de Nicolas deixava claro que algo o incomodava, e eu já tinha uma noção do que se tratava, mas ainda assim, não me sentia disposta em começar uma discussão. Permanecemos em silêncio por mais algum tempo, tentando ao máximo olhar um para o outro pelo canto dos olhos. Isso era infantil, admito. Só que eu não fazia ideia de que ele iria ficar tão bravo com o fato de eu ter trocado algumas palavras com Júnior. Bem que Cooper havia tentado me avisar. — Para mim já deu! — Bufei enraivecida. — Qualquer coisa que você diga será melhor do que esse silêncio, detetive. Ele não tirou os olhos da estrada, já era tarde da noite e estávamos indo para a casa da vó dele no interior. Um suspiro saiu pelos seus lábios, mas ainda não ousava me olhar e aquilo me deixava perto de ter um colapso. — Não tenho nada para dizer. Sua resposta quase me fez rolar os olhos. — Vou te dar três opções — ameacei. — Primeiro, fala logo o que tem para falar. Segundo, pare o carro aqui mesmo e eu dou um jeito de voltar embora. Terceiro, faço você dar meia volta e adeus visita na casa da vovó. Ele ainda parecia inabalável e aquilo me irritava de uma forma que não poderia explicar. Nicolas era bom em seu trabalho, principalmente quando precisava demonstrar que não estava nem aí para o que falavam a ele. Respirei fundo e decidi contar até dez, caso ele não abrisse a boca, a viagem ia acabar ali. — Nunca mais — Senti sua voz firme e o olhei. —, nunca mesmo — Olhou-me por um momento com seu olhar frio —, fique a sós com Júnior novamente. — Nicolas... — Me escute, Kayla. — Ele havia voltado a olhar para a estrada. — Júnior é um dos suspeitos, não pode ficar conversando com ele, seja


lá qual for o assunto. E se tiver que falar, fale na presença de um policial, não quero você sozinha com ele, é perigoso. Consegue entender? Respirei fundo concordando com a cabeça. Eu sabia disso, por isso não quis que Henrique se afastasse, mas no fim acabei cedendo. Nicolas estava no direito de reclamar. Apoiei meu cotovelo na janela do carro e alisei meu queixo com os dedos. — Vai me castigar? — Indaguei. Não estava o olhando, mas conseguia sentir seu olhar me queimando. Minha curiosidade aguçou e precisei saber o que se passava em suas expressões, foi aí que quase tive um segundo colapso. Uma chama emanava de seus olhos e a pupila estava dilatada, quase retribuí o sorriso que ele mantinha no canto dos lábios. — Ah, vou. Vou sim, com toda certeza!

Quando Nicolas fez o convite para o aniversário de sua avó, havia uma aflição apoderando meu peito, porque tive medo de como seria a reação de sua família. Afinal, eu era uma artista de televisão e devido a minha carreira, era necessário que meu nome estivesse sempre em alguma coluna de jornal ou revista. E por conta disso, eu tinha plena consciência de que nem todo mundo me via com bons olhos. Assim que nos aproximamos das imediações da cidade, já estava mudando de ideia, e não me afligia mais imaginar como seria recebida por eles. Foram aproximadamente, quatro horas de viagem. Saímos de casa por volta das onze horas e paramos por uma hora no meio do caminho para reabastecer o carro e nossas barrigas. Às exatamente, 04h20 da manhã, chegamos na cidade de sua avó no interior do estado. Como era de madrugada, pensamos em dormir na pousada da cidade. Após dar entrada na recepção, acabamos por ser confundidos como um casal e fomos colocados no mesmo quarto. Acho que essa fora a intenção de Nicolas, já que ele mantinha um sorriso malicioso nos lábios enquanto subíamos o elevador. — Estou morta de cansaço. — Reclamei, movimentando o corpo para tentar amenizar a dor nas costas. — A viagem foi longa. — Chamou minha atenção.


Nos olhamos por um breve momento. Trocamos um sorriso contido, de quem estava feliz por estar um na presença do outro e entramos em nosso quarto assim que alcançamos nosso andar. A pousada era modesta e mantinha um ar sofisticado. Seu nome combinava bem com seu objetivo: Pousada do viajante. O quarto era acolhedor e a cama de casal não me incomodava em nada. Deixei minha bolsa de mão sobre a cama e observei os objetos do quarto, no fim, quando encontrei a porta do banheiro, pude sentir uma nostalgia me abater. Depois do banho, eu capotaria na cama. — Vou tomar banho. — Anunciei, peguei minha bolsa novamente, e tirei meu pijaminha de dentro dela. — Ah, merda, esqueci minha escova na outra mala. Como ficaríamos por poucas horas na pousada, não quis tirar minha mala do carro, então peguei a de mão e coloquei o que usaria dentro dela. — Eu peguei a minha, pode usar se quiser. — Nicolas me ofereceu, seu olhar era parecido com de um gavião. — E você vai usar qual? — Arqueei a sobrancelha. Ele não respondeu, mas sua expressão revelou que ele tinha a intenção de usar sua escova também. — Vamos compartilhar a mesma escova? — Algum problema com isso? — Ele provocou de uma forma sensual. — Iremos compartilhar muitas coisas de agora em diante se acostume. — Como assim? — Na casa da minha avó você será apresentada como minha mulher. — Falou normalmente, como se tudo naquela frase estivesse em coerência. — Endoidou? — De forma alguma. — Sorriu humorado. — Eles já sabem que minha namorada também viria comigo, por isso Carlos quis vir de ônibus um dia antes. Para não segurar vela. — Nicolas, isso é sério? — Cruzei os braços. — Namorados? Quando você fez o pedido que não me lembro? — Agora. — Caminhou em minha direção. — Quer namorar comigo, senhorita Kayla Mendes. A cor se esvaiu do meu rosto.


Devo admitir que foi engraçado ver Kayla ficar branca como papel, e apesar de sua reação ter me desanimado, eu mantinha esperanças de que uma hora, ela estaria pronta para ter um relacionamento sério comigo. O pedido havia sido verdadeiro, mas não podia deixar que ela soubesse disso. Conhecendo Kayla como eu a conhecia, iria sentir-se mal por ter que me dar um não, então comecei a rir de sua cara. Fiz o que jamais pensei fazer com ela, mas era preciso. Não queria minha boneca sentindo-se culpada por algo que não era. Eu sabia esperar, ainda mais se fosse por ela. Por sua aceitação. Kayla era um mulherão da porra! Mas naqueles últimos dias em que passei ao seu lado, descobri que a mídia tem a mania de destorcer os fatos e prejudicar a vida de alguns artistas. Por isso muitos fazem uma imagem errada delas. Posso citar Kayla como exemplo. Nas revistas de fofocas, ela sempre foi o alvo de futilidade. Sem contar em alguns outros nomes horríveis que diziam sobre ela, principalmente quando se tratava de homens. Mas ali estava Kayla, me mostrando que tudo o que diziam sobre ela, era apenas um disfarce. Uma camuflagem para esconder quem ela era de verdade. — Você devia ter visto sua cara! — Não tem graça, Nicolas. Seu idiota! — Bufou irritada e bateu a porta do banheiro após entrar nele. Passei as mãos pelos meus cabelos e respirei fundo. Desmanchei o sorriso do rosto, sem ela por perto, já não precisava fingir nada, mas confesso que me senti mal por isso. Por um momento, senti que Kayla realmente queria que as palavras fossem verdadeiras, mas eram. Só ela que não sabia. Dei uma olhada ao meu redor, com Kayla por perto eu não havia


conseguido observar o lugar. Minha atenção acabava sendo totalmente dela. Cocei minha nuca e respirei fundo, apoiei minha mochila sobre a cama e fucei minhas coisas. Peguei minha escova de dentes em mãos e acabei soltando um riso pelo nariz. O telefone tocou, o atendi no segundo toque e sorri malicioso quando a recepcionista avisou que a água quente estava acabando e que devíamos andar logo. Voltei o telefone ao gancho e peguei minhas coisas de banho, assim como minhas roupas de dormi. Bati na porta, mas talvez, só talvez, eu tivesse batido baixinho, e a falta de resposta me fez entrar sem permissão. E lá estava ela, de costas com a água caindo por seus cabelos escuros e escorrendo pelo corpo da cor do pecado. Sorri, mas dessa vez não havia maldade em meu sorriso, havia admiração. O banheiro era grande, talvez fosse mais grande que o quarto. O boxer ficava ao fundo, então comecei a me despir devagar. Caminhei pé por pé e invadi seu espaço embaixo do chuveiro. Puta que pariu!!! Eu estava me levando para o suicídio. — Mas... — Kayla gritou. — O que é isso? O que é isso aqui, sai, sai! Ela se debatia contra meu peito, mas já era tarde. Eu havia lhe segurando pela cintura e abraçado com força. A água caía sobre nós, meu pau já estava dolorido de tão duro que havia ficado apenas por vêla daquele jeito, tocando então, me levaria à loucura. — A recepcionista ligou avisando que a água quente está acabando, então precisamos ser rápidos. — Expliquei, tentando lhe conter. — Que história é essa, Nicolas? — Grunhiu. Curvou o corpo para frente tentando se desvencilhar de mim, mas só serviu para me deixar com mais tesão. Aquela bunda deslizando em meu pau molhado, parecia um convite tentador. — Cidade pequena tem essas coisas de vez em quando, o jeito é tomarmos banho juntos, assim evitamos desperdício — disse, tentando mantê-la quieta. — E para de ficar se esfregando em mim, tem algo aqui dolorido de tanto tesão. Por um momento, ela ficou e silêncio e se aquietou. Comecei a desconfiar de sua atitude inesperada e arqueei a sobrancelha soltando seu corpo aos poucos. Meu coração deu um salto e minha respiração desajustou ao ver e sentir o que ela fazia.


— Kayla! — Sussurrei no pé do seu ouvido em forma de alerta. Minhas mãos que antes apertavam, agora apenas repousavam sobre sua cintura, seguindo o ritmo de suas curvas. Engoli minha saliva a seco e senti um arrepio violento passar pelo meu corpo. Ela estava extremamente sexy, fazendo todos aqueles movimentos, rebolando seu traseiro delicioso em meu pau. Por vontade própria, virou de frente para mim. Nossos olhos se encontraram e sustentei por mais alguns segundos. Havia um sentimento em meu peito me dominando e eu sentia que já não iria resistir mais. Precisava tê-la e suas ações, assim como suas expressões me diziam que ela queria o mesmo que eu. — Nicolas... — Ela sussurrou rouca, aproximando nossos corpos. — Se você ainda sente que não está preparada, Kayla, melhor parar aí aonde está. — Alertei com minha voz sofrida, ela, definitivamente, não sabia que conseguia me desarmar apenas com sua doce voz. — Eu estou! — Seus braços passaram em torno do meu pescoço. — Está o que? — Indaguei, preso no encanto do seu olhar. — Preparada para você! De minha boca não houve mais palavras, porque eu só conseguia pensar nas ações. Segurei em sua cintura e uni nossos corpos até que não restasse espaço algum, subi uma de minhas mãos delicadamente pela silhueta do seu corpo, até que a mesma alcançasse os cabelos de sua nuca. Ali, deixei um cafuné e sorri bobo. As sensações que Kayla me causava era algo que me tirava o fôlego, mas ao mesmo tempo me enchia de ar. Observei seu rosto e notei quando a mesma se incomodou com a minha demora em toma-la para mim, mas eu não tinha pressa. Ela estava em meus braços e isso era a segunda coisa que eu mais queria na vida, já que a primeira era encontrar a pessoa que estava lhe fazendo mal.


Capítulo 20

Agarrei-me nele de uma maneira que se ele não tivesse aqueles músculos, talvez o machucasse ou ambos caíssemos no chão do banheiro. Nicolas tinha suas mãos com firmeza em volta do meu corpo e sua boca quente explorava toda a extensão da minha. Ele me prensou contra a parede fria, fazendo-me soltar um suspiro excitado e urgente. Eu havia me reservado até ali para ele, como se eu ainda fosse virgem, mas a verdade era que eu tinha medo não só de me machucar, como de machucá-lo. Nicolas era um homem especial e por diversas vezes quis acreditar que ele merecia uma mulher melhor do que eu. Só que nem todo o autocontrole do mundo iria me preparar para vê-lo nu e com seu corpo tão próximo do meu. Quem em sã consciência resistiria a esse pecado? — Nicolas... — O chamei, dormente pelos seus beijos. — Banheiro é novidade para mim. — Tá falando sério? — Questionou, afastando o suficiente para me olhar. — Só tinha merda naquela sua listinha então. Soltei um riso pelo nariz ao ver seu ar de perplexidade, mas a verdade era que sempre fui muito restrita na cama. Não gostava de fazer sexo em qualquer lugar ou de qualquer jeito. Queria sempre estar confortável, por isso assustei com minha atitude aquela vez no carro, talvez isso também tenha sido um motivo para que eu travasse. — Vou fazer sua primeira vez ser inesquecível. — Ele balbuciou, tive dificuldade de entender porque meu corpo estava em chamas com suas carícias ousadas. Assustei quando, de repente, Nicolas ajoelhou a minha frente e levantou uma de minhas pernas, fazendo-me apoiar o pé em seu ombro


largo. Meu coração deu um salto, porque eu estava completamente exposta para ele e isso me enchia de tesão. Coloquei a mão sobre o registro de água a fim de desliga-lo, mas Nicolas ordenou que eu não fizesse aquilo. — Tá gastando água. — O lembrei. — Deixe acabar. — Respondeu baixo, aproximando suas narinas da minha virilha e ali senti seus lábios deixar um breve beijo. Meu coração ameaçou parar de bater. — Nicolas... — minha voz saiu baixa e cheia de desejos, acho que ele percebeu isso. — Isso também é novo para mim. Confessei. — Isso o que? — Ele parecia confuso. — O que pensa em fazer? — O questionei, atenta a sua próxima reação. — Chupar sua boceta todinha. Deixei minha cabeça pender para trás ao absorver suas palavras sádicas e excitantes. Respirei desajustado, tentando encontrar o foco em nossa conversa, mas depois dessa frase havia ficado difícil. — Nunca fiz sexo oral. — Falei com rapidez, na intenção que ele não ouvisse. Mas ele ouviu, a prova disso foi quando parou o que fazia e me olhou com uma sobrancelha arqueada, talvez, não acreditando muito no que eu dizia. Afinal, a lista era imensa e eu concordava que era difícil de acreditar que, mesmo passando tantos homens pela minha cama, eu não houvesse deixado nenhum deles encostar suas bocas em qualquer lugar do meu corpo, senão a boca e pescoço. — Como assim, Kayla? Não fez porque não quis ou porque ninguém tentou fazer em você? — Porque eu acho nojento. — Torci o nariz. — Tenho pavor disso, nem toda mulher é obrigada a gostar de sexo oral. — Isso é verdade. Mas você não pode dizer que não gosta ou que acha nojento, sem antes experimentar. — Ele entortou os lábios em um sorriso malicioso. — Devo supor que você nunca fez e nem recebeu, certo? Tombei a cabeça para o lado, tentando entender o que ele queria com aquela pergunta, mas ao não chegar em conclusão alguma, apenas neguei com a cabeça.


— Certo. — Ele mantinha minhas pernas abertas, com minha intimidade próxima ao seu rosto. — Não deseja receber ao menos uma vez? — Não, porque depois eu não estaria disposta a fazer em você e não acho isso justo. — Fui sincera, Nicolas riu. — Boneca, você não deve ter dormido com homens de verdade. — Beijou minha coxa inferior, fazendo um arrepio assolar meu corpo. — Não espero nada em troca, Kayla, quero apenas sentir teu gosto e enterrar minha língua em você. — Detetive, você não pode ficar dizendo essas coisas. — O alertei, em descrença com suas palavras. — Não sabe o poder que essas palavras têm sobre mim. — Estou mais interessado no poder que minha língua terá sobre você. — Sussurrou entre beijos, subindo sua boca de encontro ao paraíso. — Por favor! Como dizer não a um homem em súplicas? Nicolas segurou com firmeza minha cintura e terminou sua trilha de beijos justamente onde eu imaginei que terminaria, respirou fundo fazendo-me perceber que ele fazia aquilo para sentir meu cheiro e eu fiquei imaginando se realmente existia cheiro ali, já que na maioria dos livros que li, diziam ter. Eu não sabia onde segurar então optei pela sua cabeça e isso serviu de estimulação para ele prosseguir o que estava prestes a fazer. Às vezes, não me achava uma pessoa normal, ou uma mulher normal, porque na minha cabeça todo mundo sempre gostou de sexo oral e eu via nojo ao invés de sentir tesão. Muitos que passaram por minha cama perguntavam sobre isso, sobre eu fazer um boquete neles e eu sempre negava com uma careta, mas eu os compensava com sexo selvagem na cama. Sempre tive consciência de que homem adora ver uma mulher agarrada ao seu pau com a boca, mas fazer isso neles me repugnava, então também optava por não receber e eles concordavam. Com Nicolas não! Ele realmente parecia não querer nada em troca! — AH! — Tentei pender a cabeça para trás, mas acabei batendo a mesma na parede. — Nic... Gemi, levei meus olhos até ele e senti meu corpo tomada em uma explosão de desejos. Minha intimidade vibrava enquanto liberava


espasmos com a ajuda de sua língua quente e torturadora. Eu o senti me invadir, me chupar com força e podia sentir sua língua brincar com meu clitóris inchado de puro tesão. Suas mãos movimentavam meu quadril contra sua boca, então eu o ajudei nessa missão. Aos poucos e devagar, comecei a rebolar, mas nossa posição não favorecia minhas tentativas de movimentos. De repente, como se me acordasse de um transe, o detetive parou o que fazia, fazendo-me sentir falta de sua boca esquentando minha intimidade e me levando ao delírio. No segundo seguinte, sem nenhum aviso prévio, meu corpo estava jogado sobre seus ombros como um saco de batatas. Nicolas desligou o chuveiro, deu um tapa em minha bunda igual ao que havia dado no hospital e deixamos o banheiro indo direto para nossa cama. Meu corpo molhado arrepiou-se com a mudança de temperatura do ambiente e logo senti o lençol da cama enrolar em meu corpo e encharcar. E a minha frente estava ele, com seu olhar felino e sedutor que fazia uma chama acender em meu peito e mandar faíscas para minha intimidade. Apoiei minha cabeça no travesseiro e sorri mordendo meu lábio inferior ao ver seu membro todo duro e roxo para mim. Aquilo dava tanto tesão. Uma vontade que eu não sabia de onde vinha apoderou meu peito, fazendo minha garganta secar com vontade de ter seu pau em minha boca. Assustei com meus pensamentos, mas era o que eu queria. Ele havia me deixado sentir sua língua idolatrando minha intimidade, e eu queria que ele sentisse minha boca idolatrando seu pau. — Nicolas... — Shiu! — Pediu silêncio usando seu dedo indicador. — Ainda não terminei com você. Respirei desajustado e deixei meus dedos agarrarem ao lençol. Nicolas colocou-se entre minhas pernas e fechei os olhos ao sentir sua mão apertar meus seios de um jeito louco e doentio. Aquilo chegava a doer, mas excitava. Eu não sabia como explicar aquela mistura de sentimentos. Ele me beijou e diminuiu os apertões em meus seios. Agora sua boca devorava a minha em uma urgência máxima. Como se dependesse disso para sobreviver. Sua boca alternava entre dar atenção aos meus lábios e ao meu pescoço. No fim, qualquer um dos dois fazia o desejo de ter ele enterrado dentro de mim aumentar.


Nicolas pegou o rumo do meu abdômen, mas nem por isso deixou de brincar com o bico dos meus seios arrebitados e duros. Ousou morder de leve e não consegui prender o grito de tesão. Nicolas me torturava em seu processo de chegar até minha intimidade novamente, fazia tudo sem desviar seus olhos dos meus. Parecia querer ver e garantir que minhas reações seriam sempre as melhores. Abriu minhas pernas ao máximo enquanto deslizava sua língua pelo meu ventre, sorri sentindo cócegas. Ali eu estava em uma posição confortável e podia ficar de olho em tudo o que ele fazia. Sua boca alcançou o paraíso, Nicolas segurou cada banda da minha bunda fazendo a mesma subir um pouco mais e literalmente, caiu de boca. Pegando-me completamente desprevenida e deixando-me extremamente chocada. — AH! — Curvei minhas costas, deixando a cabeça pender para trás e fitei o teto. Um tremor passava pelas minhas coxas inferiores, anunciando que eu chegaria ao ápice rápido demais. Nunca em toda a minha existência havia ameaçado gozar tão rápido assim. Eu queria o alertar, dizer para diminuir o ritmo ou acabaria chegando ao ápice do meu prazer e apesar de estar amando o que ele fazia, queria chegar ao meu momento junto dele. Sentindo seu pau duro me invadir sem piedade e me tornar dele. — O que você quer, Kayla? — Senti seu hálito quente em minha intimidade inchada. Gemi alto, eu queria, queria mesmo falar o que eu queria, mas e a coragem para fazer ele parar? Quem disse que eu queria que ele parasse?


Não havia no mundo um som melhor do que o de Kayla ofegando, ou uma visão melhor do que a de Kayla se contorcendo na cama, delirando e pronta para liberar seu gozo. Tudo nela cheirava a excitação desde que nos conhecemos e ter ela ali, em meus braços fazia tudo ter um sentido na vida. — Diga. Quero ouvir pedi-la para fazermos amor. — Quero que me faça gritar, detetive. Gritar de prazer. — Ela respirou com dificuldade. — Quero ser possuída por você. Suas palavras me levaram ao delírio, pendi a cabeça para trás e gargalhei alto aprovando o que ouvia. — Não quero machucá-la, boneca. — E não vai. Estive esperando por você a minha vida toda, apenas me torne sua. — Olhou-me em súplicas. Voltei a chupá-la, mas ao notar suas coxas inferiores tremerem de novo, tive que interromper. — Ainda não! — Alertei, parando o que fazia. — Vamos juntos! Sempre fui um homem precavido, mas naquele dia em questão eu não havia levado nenhum tipo de camisinha com a gente, até porque, se tratando de Kayla Mendes, eu já havia me acostumado com suas provocações. Já que nunca chegávamos nos afins, pensei que a camisinha não teria utilidade. Engano o meu. — Não trouxe camisinha. — Murmurei contrariado, mas Kayla mantinha o sorriso nos lábios, convidando-me ao pecado. — Tudo bem, eu tomo anticoncepcional e por precaução, logo pela manhã posso comprar a pílula do dia seguinte. Sorri, mostrando o quanto me sentia aliviado com sua sugestão. Massageei meu membro dolorido e sedento, fiz isso sem desviar a


atenção da boceta dela. Estava melada e vermelhinha. Uma tentação do caramba! — Ah, Kayla, não falo isso apenas baseado em uma gravidez. Somos pessoas vividas. — Um dos meus sonhos era ser pai, então a gravidez não era o fato mais preocupante ali. Claro, a menos que ela não fosse fã de ter uma criança. — Faço exames periodicamente, detetive. Até o mês passado eu estava limpa. — Respondeu sorrindo ao entender do que eu falava. — Ótimo! Porque nada me fará parar agora! — Sorri de canto. Eu também estava limpo, fazia exames direto por conta da minha profissão. Me coloquei entre suas pernas novamente, abri o máximo que pude e me surpreendi ao ver Kayla segurar suas próprias pernas, mantendo elas afastadas uma da outra e me proporcionando uma visão avassaladora. Curvei meu corpo sobre o dela, apoiei minhas mãos sobre a cama e a beijei profundamente. Meu pau roçava em sua entrada e eu sentia seu líquido gelado lambuzá-lo. Movimentei meu quadril em vai e vem fazendo-o roçar ainda mais forte sobre ela. Kayla gemeu entre meus lábios e meu autocontrole foi para o espaço. — Agora você é minha, mulher! — Sussurrei voltando a beijá-la. — Nunca permitirei que se afaste de mim. Jamais vou parar de fazer amor com você. Eu a invadi sem delicadeza, mas não me mexi enquanto não percebi que ela havia se acostumado comigo dentro dela. Kayla sorriu doce, desarmando-me por inteiro, como só ela era capaz de fazer. Suas unhas passaram pelas minhas costas, relaxando-me ao mesmo ponto que me atiçava. Quando ela começou a movimentar seu quadril contra meu corpo, percebi que ela já estava mais do que acostumada e esperava ansiosamente pela continuação do nosso momento. Eu não negaria tal coisa a ela. Segurei com firmeza sua nuca enquanto aumentava meus movimentos de vai e vem, Kayla ofegava e gemia baixinho, fazendo-me ir ao delírio. A beijei com devoção, mordendo seus lábios carnudos uma hora e outra. Nossos corpos possuíam um encaixe que pareciam terem sido feitos um para o outro. É careta dizer isso, mas Kayla era a mulher que eu esperava para dar um novo sentido a minha vida e eu já não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. Não era apenas atração carnal, um desejo de momento. Eu a queria para mim, em minha vida e ninguém me


impediria de conseguir isso... Ninguém, a não ser ela própria. — Fomos feitos um para o outro, Kayla. — Ela ofegou. — Diga mais uma vez que me quer dentro de você. — Quero você, detetive. Dentro de mim, estocando forte e me amando como nenhum outro fez. Suas palavras pareceram uma súplica, e ali atendi aos seus desejos que, por sorte, eram os mesmos que os meus.

O dia amanheceu e eu não havia conseguido pregar os olhos. Havia deixado Kayla dormindo na cama e me sentei na poltrona ao lado, de onde eu tinha visão dela. Ainda podia sentir o cheiro dela no ar, em mim, empreguinando meus pensamentos e me fazendo ter devaneios até a noite anterior, onde finalmente, eu havia lhe tomado para mim. Ela dormia tranquilamente, cansada demais por conta da noite que tivemos. Acho que eu havia exagerado um pouco, mas como Carlos dizia: Se encontrar a mulher ideal e que te faça gozar três vezes seguidas, case com ela. Ri com meus pensamentos. Kayla havia conseguido me levar até o terceiro round, mesmo ela tendo parado no segundo. Não me sentia bem em não ter feito ela gozar na terceira vez, só que a boca de Kayla em meu pau havia me deixado a beira do precipício. Eu já não havia acreditado que Kayla nunca havia feito oral, depois de ver e sentir a boca dela me engolindo, ficou mais difícil ainda de acreditar. Depois disso, ela apagou. Caiu em sono profundo, mas eu ainda me sentia elétrico demais para me render ao a ele como ela havia feito. Me sentei naquela poltrona, onde passei o restante da noite a vigiando e relembrando o que havíamos feito. Não havia dúvidas, Kayla Mendes tinha laçado meu coração. Ela mexeu-se sobre a cama, mas não abriu os olhos. Eu permanecia em silêncio, olhando-a e sorri para mim mesmo ao vê-la enrolada no lençol. Queria poder registrar aquele momento, mas não tinha como. Então lembrei de meu celular e levantei com cuidado para não fazer barulho. A foto havia ficado linda, eu a guardaria eternamente, porque não havia nada no mundo que fosse mais belo do que aquela visão na tela do


meu celular. Bom, talvez a visão que eu tinha pessoalmente fosse melhor. Ouvi um gemido que ganhou minha atenção. Levantei meu olhar e a encarei. Kayla abriu seus olhos devagar e piscou algumas vezes, talvez estivesse querendo se acostumar com a luz do dia que invadia o quarto por entre as brechas da cortina. Sorriu ao me encontrar sentado na poltrona, de onde não ousei sair durante a noite toda. — O que faz aí? — Indagou com a voz rouca, fazendo meu coração apertar. Sorri abertamente, peguei o celular que estava sobre meu colo e após desbloquear a tela, virei para que Kayla olhasse. Ela balançou a cabeça em negativa, mas mantinha seu doce sorriso no rosto. Seus cabelos desgrenhados, assim como a olheira visível abaixo de seus olhos, lhe deixavam ainda mais bonita. Desde que nos conhecemos, não havia visto Kayla sem maquiagem porque mesmo que ela não precisasse disso, tinha que estar preparada para os paparazzi infernais que a seguiam por todo lado. O que me fazia respirar aliviado por termos saído da cidade grande, pelo menos ali, esperava que nenhum desses urubus a encontrassem. — Você dormiu, senhor Nicolas? — O tom de sua voz parecia de reprovação. — Não consegui. Te olhar me parecia muito melhor. — Respondi com sinceridade, fazendo-a rir e me dar as costas, espreguiçando seu corpo sobre a cama.

Agora faltava pouco para chegarmos na casa da vovó, ao meu lado, Kayla estava em seu short jeans desfiado que ia até o meio de suas coxas grossas, uma regata branca sem ilustração e um lenço em sua cabeça para proteger seus cabelos do vento. Se alguém me dissesse um mês atrás que eu estaria indo para o aniversário da minha avó, acompanhado de uma estrela de televisão, eu não acreditaria. Se alguém me dissesse que eu teria a melhor noite de amor com Kayla Mendes, eu o acusaria de louco. Porque isso nunca havia se passado por minha cabeça. — Deveria ter dormido, Nicolas. Parece cansado.


A voz dela me tirou do transe. Olhei pelo canto dos olhos e sorri para lhe confortar. Minha mão pousou sobre sua perna e apertei de leve. — Não se preocupe, estou bem. Logo chegaremos. — Dei-lhe uma piscadela. Estacionei o carro em frente à garagem da casa de minha avó, já que todas as outras vagas pareciam ocupadas. Logo reconheci o carro do meu pai, e pude sentir um sorriso se formar em minha boca ao sair do carro. Finalmente, eu estava levando uma mulher para a reunião de família. — Kayla, pode ignorar alguns comentários que ouvir. — Disse abrindo sua porta. — E pode revidar quando achar necessário. — Porque eu revidaria, Nicolas? — Questionou arqueando sua sobrancelha. Mas nada falei, ela veria por si só porque precisaria revidar, ainda mais se todas minhas primas tivessem ido ao aniversário da vovó. Kayla segurou em meu braço e voltou a perguntar, mas não falei nada — Estou um pouco nervosa. — Eles vão adorá-la, Kayla. Ela passou os olhos pelo lugar e continuei andando levando-a até a entrada da casa, onde a porta foi aberta sem nem ao menos precisar bater nela. — Olhem quem chegou! — A primeira voz soou assim que nos recebeu. — Cadê? — Minha prima apareceu logo atrás. — Não acredito, é ela mesmo! — Eu avisei! — Distingui a voz de Carlos ao fundo. Kayla respirou fundo, como se tivesse criando coragem para encarar minha família e isso quase me fez rir. Estávamos de mãos dadas, então apenas dei uma apertada de leve, como se dissesse que estávamos bem, ou quase isso. — Vamos meninas, saiam da frente e os deixem entrar. Patrício, meu irmão do meio vinha ao nosso alcance, como se fosse nos salvar de um ataque... o que se tratando de minhas primas, poderia acontecer de verdade. Mas Patrício tinha um sorriso malicioso nos lábios, o que me fez arquear a sobrancelha e empinar o nariz. — Você deve ser Kayla. — Beijou-lhe a mão. Não demorou para que eu passasse o braço em torno de sua


cintura e a puxasse para mim. Meu irmão levantou as mãos rendidos e sorriu de canto se afastando. Logo, as mulheres e as crianças da família se reuniram em volta de Kayla, abraçando-a e desejando as boas-vindas. Ela parecia levemente atordoada e acho que era minha família que estava causando isso nela, afinal, ela tinha apenas o irmão que nem ao menos ligava para ela. Percebi que ela estava vermelha e olhava para todos, tentando dar um pouco de atenção a eles, mas parou o que fazia ao ouvir a voz grossa e forte se fazer presente. — Fico feliz que tenha vindo, Kayla. Venho ouvindo Nicolas falar de você sem cessar. Balancei a cabeça em negativa e passei a mão em minha nuca. Roberto, meu pai, passou um braço em torno do pescoço dela e pela careta de Kayla, supus que ela estivesse se sentindo em casa. — Pai, arrume sua própria garota. — Puxei Kayla pelas mãos e a mantive perto de mim. — Essa já é minha.

Estava sentado ao lado da minha avó, que por conta da idade avançada, precisava da cadeira de rodas para se locomover. Minha família amava futebol, até mesmo a mulherada, então logo após o almoço, lá estávamos nós... Sentados na varanda de casa vendo Patrício dividir os times. Kayla trocava de sapatos com Sheila, afinal, se usasse seus saltos não duraria três minutos na partida. Eu sabia o quanto Kayla amava futebol também, senão suas roupas de dormir não seria uma camisa de time. Aquela era uma partida apenas entre as mulheres, mas acho que foi uma maneira viável de minhas primas provocarem Kayla, porque de vez em quando, eu via que ela as olhava com sangue nos olhos. A partida começou, sorte que de onde eu e minha avó estávamos dava para ver perfeitamente o jogo que se desenrolava no campo baldio em frente da casa. Sheila ria ao ver Kayla fingir que estava confusa e com medo da bola. Patrício era o único homem no meio delas, e enchia o peito pensando ser melhor do que todos. Sorte a dele que eu havia ficado de cuidar da vovó. — Querido, pode ir ficar com eles, estou bem aqui.


A voz baixa e mole da vovó chamou minha atenção. Olhei-a de sorrateiro e neguei com a cabeça. Eu estava cansado por não ter dormido direito na noite passada, na verdade, eu nem havia dormido, então preferia assistir, pois teria que dirigir até a pousada de novo. — Estou ficando velho para isso, vovó. — Conclui, voltando minha atenção ao jogo. De repente, Kayla estava com a bola e corria na direção do gol, Patrício parecia surpreso com o que via e acabei gargalhando ao ver sua expressão de perplexidade. Kayla, definitivamente, era uma caixinha de surpresas. E ver meu irmão embasbacado fazia tudo ser ainda mais divertido. Sim, com certeza aquilo estava muito divertido. — Velha sou eu meu filho. — Quase não ouvi o que minha vó dizia. — Ela te ama muito. Enruguei atesta e dei minha atenção a ela, seus olhos também estavam direcionados ao jogo, especificamente em Kayla. Também olhei na mesma direção e tombei a cabeça para o lado observando-a. Não sabia se Kayla me amava, mas sabia que tinha sentimentos fortes por mim. Sabia porque era fácil ler suas reações quando estávamos juntos. Mas amar? Eu estava apaixonado por ela, isso era um fato, só precisava de uma maneira para dizer isso a ela... ao mesmo tempo, não sabia se deveria dizer. Iria doer ouvir de sua boca que não sentia o mesmo por mim. — Acho que não chega a ser amor. — Comentei pensativo. — Acha é? — Ouvi sua risada fraca. — Sabe de nada inocente. Ri pelo nariz ao ouvi-la, mas não tive tempo de contrapor seus pensamentos. Levantei meu corpo aplaudindo o gol que Kayla tinha feito, ela correu em minha direção apontando o dedão para si mesma e fazendo uma espécie de dança da vitória. Gargalhei e dei minhas costas a ela para que pulasse de cavalinho. — Você viu meu gol, detetive? — Questionou, transbordando felicidade em suas palavras. Vovó tentava aplaudir ao seu modo, e tinha um sorriso rasgando o rosto. Olhou-me de uma forma diferente, como se estivesse dizendo: Eu te disse. — Vi sim, boneca. Você é nota dez!


Ao fim da festa, eu estava tentando arranjar um meio de tirar Kayla dos braços de Sheila. As duas haviam pegado uma amizade forte que chegava a embrulhar meu estômago. Ok, estou exagerando. Talvez eu só quisesse minha boneca de volta. Meu pai nos acompanhou até o carro, sua felicidade era evidente e eu gostava disso. Nunca conseguíamos reunir a família e dessa vez, a novidade de que eu estava namorando — mesmo não estando de fato, havia feito esse milagre. — Tem certeza que não querem passar a noite aqui? Tem quarto sobrando. — Não, pai. Vamos ficar na pousada e cedo partimos. — Tudo bem. Vê se toma conta direito dessa moça, filho. — Sorri em resposta e ele voltou sua atenção para Kayla. — E você, minha querida, por favor, venha nos visitar mais vezes. — Seria ótimo, Roberto. — Kayla tinha um brilho nos olhos. — Vou pensar na proposta. Ele a abraçou, em seguida foi minha vez de me despedir de meu pai. Todos já haviam ido embora, só restava Kayla e eu. Carlos posaria ali e pegaria ônibus logo pela manhã, assim ele me dissera. — Cuidem um do outro. — Vi meu pai beijar Kayla no rosto e sorri. Ela também sorria e tinha aquele mesmo brilho no olhar. Suspeitei de que talvez, minha boneca indefesa, estivesse domada por emoção. Mas claro, ela não demonstraria isso para ninguém, porque essa era a minha Kayla Mendes.


Capítulo 21

O carro estava na estrada já fazia mais de uma hora, uma música tocava ao fundo como fosse nossa trilha sonora, o que de certa forma, poderia ser a minha trilha sonora. As letras daquela música mexeram no fundo da minha alma, fazendo lágrimas invadir meus olhos e escorrer pela face. Nada havia conseguido me atingir daquela forma, talvez, por finalmente estar conseguindo ser eu mesma naqueles últimos dias. Nicolas tinha razão, eu precisava me afastar do estúdio, me afastar daquela vida que não me pertencia. Quem eu queria enganar? Não estava feliz, aquele programa não me fazia feliz, ter fãs não me fazia feliz. Nada que vinha dele me levava felicidade..., mas estar ali, naquele carro com Nicolas me fazia feliz e fazia minha vida ter algum sentido. Talvez, eu realmente quisesse que aquele pedido de namoro houvesse sido verdadeiro, mas e se tivesse sido, qual seria minha resposta? Estaria pronta para assumir um relacionamento sério com alguém outra vez? Outra lágrima escorreu, dei atenção para a paisagem ao meu lado tentando esconder aquelas malditas lágrimas que eu não sabia de onde vinham. A música, de alguma forma, estava despedaçando meu coração, fazendo-me lembrar do quanto minha vida vinha sendo uma grande farsa. — Kayla? A voz dele me chamou, mas não estava pronta para olhá-lo. Aquela música precisava parar, só que quanto mais eu tentava não prestar atenção em sua letra, eu me afundava cada vez mais nelas.


“I’m imprisoned, I’m living a lie Eu estou presa, vivendo uma mentira Another night of putting on a disguise Outra noite estava colocando um disfarce I wanna tear it off and step in the light Eu quero arrancá-lo e passar em frente à luz.” — Kayla? Assim que ele me chamou outra vez, o som do carro fora desligado. Limpei o rosto com as costas da minha mão, e funguei baixinho para que ele não ouvisse. Estava aliviada por ele ter tomado a decisão de desligar a maldita música. O olhei, torcendo para que nem meus olhos estivessem borrados e nem meu nariz estivesse parecendo com de palhaço. Ele apenas sorriu, tirou sua atenção da pista por um breve segundo e passou o dedão abaixo dos meus olhos, limpando os borrões que eu desejei que não estivessem ali. A noite havia passado rápido demais, pelo menos para nós que ficamos quase a metade dela acordados, nos amando uma vez mais. Também sorri em forma de agradecimento, aquela música estava arrancando meu coração e em seguida Nicolas voltou sua atenção para a estrada. — Partiu casa de campo? — Ele questionou olhando pelo retrovisor do carro. — Não sei se quero ir para lá. — Conclui torcendo o nariz. — Aquela casa me faz lembrar dela. — Ainda com ressentimentos? — Certas coisas não mudam. — Respirei fundo. — Como pode assumir o programa dela na televisão e ainda assim, guardar ressentimentos por ela? — Indagou intrigado. — Qualquer um em seu lugar teria mandado tudo para o espaço e seguido com sua vida. — Não sou qualquer um. — O olhei e sorri. — Vamos evitar este assunto, sim? Não quero estragar nosso dia. — Tudo bem, sobre o que quer conversar?


— Não tenho muita certeza do que gosto. — Respondi, tinha plena consciência de que aquela frase havia soado estranha e fora de contexto. — Do que está falando? — A noite você me perguntou o que mais gosto na hora do sexo. Senti quando o carro ameaçou sair da pista, mas logo voltou a caminhar normalmente na estrada. Deixei um sorriso malicioso escapar pelos meus lábios ao ver a reação dele. Não via nada demais em uma conversa nesse tema, afinal, por duas noites seguidas havíamos usufruído muito dessa palavrinha maravilhosa. — Por Deus, mulher! Você não pode entrar nesses assuntos sem avisar antes. — Me desculpe, detetive. — Ri pelo nariz. — Desejo falar sobre sexo agora, seria possível? Eu sabia bem o que estava fazendo, iríamos entrar em um assunto perigoso para nós dois, já que nossa tensão sexual havia subido ao extremo desde que fizemos sexo na noite retrasada. Minha casa de campo já não estava muito longe, então imaginei que se fizéssemos isso enquanto estávamos no carro, ao chegar na casa, poderíamos transar novamente. Porque vou ser sincera, meu desejo por Nicolas não diminuía. — Ok, acho que posso dispor de alguns minutos. Acabei cruzando as pernas e mordendo meu lábio inferior. Nicolas parecia meio desconfortável por entrar nesse assunto, mas tinha um sorriso no canto dos seus lábios e isso me encorajou a continuar. — Me faça perguntas e eu tento responde-las, assim você ficará sabendo mais sobre mim. Nicolas parecia um pouco indeciso, acho que eu sabia o porquê. — Da última vez que tentei saber mais sobre você, acabei indo dormir no quarto de hóspedes. — Disse, mas já suspeitava que esse fosse o porque dele não querer entrar nesse assunto. — Isso foi antes de fazermos sexo. — Ele fitou-me por um momento com intensidade. — Agora é diferente, não é? Ele sorriu de canto afirmando com a cabeça, a seguir sua voz saiu meio rouca, como se estivesse sendo difícil entrar nesse assunto comigo. — Certo. Vamos começar. Como gosta de ser beijada, senhorita? — Todos os modos que você me beijou foram bons. — Sorri,


lembrando-me de nossa noite de amor. — Ótimo. Como gosta de falar sobre sexo? — Não entendi. — Disse, meio confusa. — Prefere floreios ou posso ser direto? — E lá estava aquele sorrisinho malicioso em seus lábios, acendendo tudo o que estava dormindo em mim. — Oh, por favor, detetive, seja direto. — Sente-se atraída sexualmente por mim? — Acho que deixei essa pergunta respondida em nossas duas últimas noites. — Sorri, ele retribuiu. — Isso é um alívio. Então posso deduzir que seu desejo por mim ainda não tenha passado. — Exato. — Isso é muito bom, senhorita. — O carro era guiado pelo GPS e ele apitou avisando que estávamos chegando em nosso destino final. — O que te excita? — Você me excita. — Fui direta. — Pensar em você me excita, mesmo quando você está a quilômetros de distância. Quando segura minha mão sinto arrepios, detetive. Não sei explicar, minhas pernas tremem e me sobem alguns calores. Ele sorriu satisfeito com minha resposta. Exibido e confiante demais em si mesmo. — Nicolas, nosso envolvimento não afetará seu trabalho, não é? — Indaguei preocupada. — Não pense nisso, boneca. — Tentou me confortar. — Se afetar mando todos plantar batatas. Eu ri, foi o que me restou. — Estou falando sério. — Rebati, tentando voltar ao assunto. — No que pensa quando está com vontade de transar? — Ele questionou, me fazendo entender que voltaria ao assunto anterior e que era para esquecer sobre o atual. — Você vem sendo minha excitação, Nicolas. Só de pensar em estar em seus braços, com você me fodendo, fico excitadíssima. Até sinto vontade de me tocar. Ele não me olhou ao ter essa resposta, mas podia ver suas narinas se mexerem freneticamente, talvez, estivesse com dificuldades para respirar. Isso seria o efeito da nossa conversa? Em todo caso, vê-lo dessa


forma me excitava e me enchia de tesão. — Pergunte-me mais. — Pedi, escondendo o sorriso que se formava no canto dos meus lábios. Para muitos, isso não fazia sentido, afinal, esse tipo de conversa deveríamos ter tido antes. Mas a verdade era que eu queria o atiçar, o provocar, então estava tudo bem. — Como gosta de começar o ato sexual? — Com beijos. Adoro quando você me beija. Notou em como nossas bocas parecem perfeitas uma para a outra? — Sem dúvidas. — Olhou-me de sorrateiro. — Dessa vez faremos como você desejar. O que mais você quer? Opa! O assunto estava indo para o caminho que eu mais queria. Esse já era um sinal de que iríamos fazer algo quando chegássemos em casa. — Quero você nu, detetive. Mas eu quem tirarei suas roupas dessa vez. — Mordi meu lábio inferior. — Também quero ver sua expressão quando me ver engolindo seu pau. O carro ameaçou sair da estrada de novo, Nicolas parecia ter engolido aquelas palavras a seco e se remexeu sobre o banco do carro, desconfortável. Olhei na direção do seu membro e o mesmo já estava volumoso em sua calça. — Onde está essa casa que não chega logo? — indagou, parecendo desesperado. Ri alto, mas acabei respirando fundo para me concentrar no resto de nossa conversa. — Prossiga com as perguntas, detetive. — Mulher traiçoeira. — Respondeu entre dentes. — O que te faz chegar ao auge, Kayla? — Nem sempre consigo, mas acho que você quebrou esse tabu. — Comentei sorrindo. — Mais ou menos, não é? Você não gozou no terceiro round. — Disse, parecendo um pouco culpado. — Você já havia me deixado no chinelo nos dois primeiros. — Ri. — Isso não me parece certo. — Ele prosseguiu. — Vamos ter que mudar isso. — O que quer dizer? — Que sexo sem clímax para mim não rola. — Sua voz era forte.


— Ou nós dois gozamos, ou ninguém goza. — Pare com isso, Nicolas. Terceiro round foi tão maravilhoso quanto os primeiros. — Arqueei a sobrancelha. — Comigo não é assim que funciona, boneca. O prazer tem que ser para ambos. — Me alertou. — Na próxima vez, não me deixe gozar se você não estiver pronta para isso também. Senti o carro parar, olhei pela janela e já conseguia ver minha casa de campo em todo o seu esplendor. Sorri meio murcho, porque ela me trazia lembranças de quando meu pai era vivo e de quando André ainda se importava com a nossa família. — Chega de conversa, vamos resolver isso logo. — Disse, descendo do carro e correndo até o meu lado para abrir a porta. — Resolver o que? — Franzia testa, confusa. — Seu gozo pendente. — Respondeu simplesmente, me dando tempo apenas de pegar minha bolsa de ombro. — Está excitado agora, detetive? — Perguntei, enquanto corríamos até a entrada da minha casa. — Pode apostar. — Quanto? — O provoquei, pegando dentro da bolsa a chave da casa. — Muito excitado! — Ótimo! — Destranquei a porta sorrindo. — Isso era tudo o que eu queria saber. Consegui girar a chave com uma certa dificuldade, acho que estava nervosa e ansiosa para estar em seus braços novamente. Não trocamos mais nenhuma palavra, nem mesmo quando Nicolas me tocou impedindo que acendesse a luz da casa. Não estava tão escuro assim, mas as cortinas fechadas atrapalhavam minha visão. Continuamos calados quando Nicolas pegou em minha mão e como se soubesse o caminho, nos guiou até a grande janela de vidro que dava vista para o lago e para o norte da cidade. Quando o silêncio já estava me incomodando, Nicolas o quebrou: — Vamos praticar nosso joguinho de perguntas e respostas. — Pude ver o desejo em seus olhos. — Vou desmanchar seu penteado, em seguida, beijá-la. Ele anunciou, lembrando-me de que havia feito uma trança transversal, na qual nem me importava se ficaria em frangalhos ou não.


Cerrei os olhos quando pude sentir as carícias que Nicolas deixava em meu corpo, e quando seus lábios quentes tocaram os meus, quentes, úmidos... acabei me sentindo perdida. Adorei quando sua língua pediu licença e passou a explorar minha boca com beijos cada vez mais ardentes. Me afastei delicadamente, comecei a descer meus lábios pelo seu pescoço e minhas mãos tomaram vida apalpando todo o seu corpo. Desabotoei o primeiro botão de sua camisa, assim como todos os outros, mas ao passar os braços em torno do seu corpo, pude sentir algo duro e frio. Parei imediatamente o que fazia e o encarei. — É a única coisa que irei tirar, a roupa fica por sua conta. Sou todo seu. — Disse, tirando a arma do cós da sua calça e colocando sobre a mesinha de canto. Sorri em resposta e continuei de onde havia parado. Joguei sua camisa em algum lugar e dei leves beijos em seu tórax. Só que eu queria muito mais do que aquilo. Desci meus dedos para dentro de sua calça e isso o fez gemer baixinho. — Amo o seu corpo, detetive. — Isso é bom. Agora é minha vez. Então, ele tirou minha camisa, logo em seguida minha minissaia jeans e aproveitou para tirar umas casquinhas no processo. Levou suas grandes mãos até meus seios e os apertou por cima do sutiã, mas não demorou para que fizesse isso sem eles. Meus seios pareceram crescer em suas mãos, ficando com seus bicos cada vez mais duros e arrebitados. Aquela janela era a única da casa sem cortinas, pois seu vidro era fumê bem escuro. Nicolas fez questão que eu nos visse no reflexo dele. Eu já me encontrava completamente nua, com meus cabelos ondulados caindo pelos meus ombros em um estilo selvagem e suas mãos firmes em minha cintura. Acabei me sentindo zonza com aquela visão dos infernos. Nossos corpos pareciam ter um encaixe perfeito. Nicolas afastou os cabelos da base do meu pescoço e o mordeu. Depois, sem aviso algum, me suspendeu no ar fazendo com que minhas sandálias se soltassem dos meus pés e caíssem no tapete felpudo. — Tem noção do quanto é linda, Kayla? Pude sentir meu corpo tremer. Gostava de ouvir sua voz rouca tão próxima a mim, tão íntima. Amava ter sua pele tão áspera me


pressionando e seus dedos se atrevendo a nova carícias. Enrosquei minhas pernas em sua cintura, seu membro duro logo abaixo das minhas nádegas fazia uma excitação nascer e ganhar força em mim. — Sabe o quanto estou excitado? — Sussurrou outra vez, sem ousar levar seus lábios para longe dos meus. — Posso sentir, Nicolas. Preciso de você dentro de mim. — Rosnei baixo, delirando em êxtase. — É tudo o que mais desejo. — Sorriu. Aos poucos, seu corpo foi abaixando-se até que estivesse de joelhos sobre o tapete felpudo, inclinou seu corpo para frente até que minhas costas fossem apoiadas contra o chão, Nicolas continuou com seus beijos ardentes, intercalando entre meus lábios e seios. Meu corpo beirava a explosão, mas ainda estava cedo. E assim, nos amamos uma vez mais.


Capítulo 22

Naquele dia, apesar de termos adormecidos no tapete da sala e termos acordado com dores em diversas partes diferentes do corpo, sentia que Kayla e eu havíamos criado uma conexão, um vínculo que achava difícil alguém conseguir quebrar. A casa era dela, e apesar de querer preparar nosso jantar, não fazia ideia de onde ficava cada coisa naquele lugar. Nem mesmo saberia dizer onde era a cozinha, apesar de suspeitar a direção em que ela ficava. A casa era grande, rústica e apesar dos anos inativa, estava em ordem, limpa e muito bem cuidada. Só o jardim que precisava de uma cara nova e algumas flores, de preferência vivas. — Nicolas? — Ela remexeu-se em meus braços e acabei sorrindo, afagando seus cabelos de leve. — Estou faminta. — Então somos dois. — Beijei sua nuca. — Pensei em fazer nossa janta, mas tive receios em não encontra a cozinha e ainda ficar perdido. — Vi seus peitos se movimentarem conforme ria. — Estou com dores também. — Reclamou levando a mão até sua nuca. — Um banho pode te fazer bem. — Sorri largo e me levantei, vestindo minhas roupas em seguida. — Me mostre a cozinha, vou tentar fazer algo para comer. — Isso se tiver comida na despesa. — Ela levantou-se também, mas não ousou em colocar suas roupas. Arqueei a sobrancelha observando-a com atenção e balancei a cabeça em negativa indo até ela e segurando sua cintura. — Acredito que tenha alguém cuidando dessa casa, certo?


— Errado, mas Nana contratou alguém para vir limpar quando soube que viríamos para cá. — Então deve haver comida na dispensa. Nana parece uma pessoa preparada para tudo e muito responsável. Não se esqueceria da comida, esqueceria? Beijei sua teta, mas o silêncio de Kayla junto do seu sorriso de canto me fez pender a cabeça para trás e fitar o teto. — Certo. Vamos achar essa cozinha e ir à cidade se preciso.

A cidade do interior passava longe de ser igual a cidade da capital. Era tão pequena que quase tudo o que queríamos estava na mesma rua, sem contar que todos se conheciam e se cumprimentavam como se fossem velhos amigos. Reparei isso quando estávamos no mercado e algumas pessoas passavam por nós cumprimentando. Os mais velhos, aqueles de idade mais avançada entravam no mercado apenas para comprar dois pães e logo iam embora. Talvez fizessem isso todos os dias para movimentar as pernas e circular o sangue. As mulheres maduras chegavam a nos encarar de modo diferente, talvez reconhecendo a apresentadora de tevê ao meu lado. As mais novas paravam Kayla para pedir autógrafos e tirar fotos. Ela atendia todos com educação e sorriso no rosto, isso me fazia admirála ainda mais. Ela odiava o que fazia, mas não deixava transparecer isso para ninguém. No caixa, quando íamos pagar nossas compras, notei um movimento fora do estabelecimento. Observei um pouco mais com atenção até que consegui ver um rapaz com uma câmera pequena em mãos. Aquilo me deixou irado, porque o motivo de estarmos ali era justamente para Kayla ficar longe da exposição que ela vinha sofrendo durante aqueles dias. — Algum problema, detetive? — Kayla questionou ao perceber meu desconforto. — Na entrada, ao lado do coqueiro. Ela desviou seus olhos de mim e os levou na direção em que eu havia falado. Peguei as sacolas de compra e comecei a caminhar em direção da saída, Kayla ia logo atrás. Pude ouvir seu suspiro cansado e


aquilo cortou meu coração em pedaços diversos. Fingimos não ver o paparazzo, e o mesmo manteve-se afastado, tirando fotos de longe. Entramos no carro e seguimos caminho para a casa de campo. Quando chegamos, notei que ao fundo, no lago, haviam jet-skis estacionados a borda e meu famoso veleiro ao seu lado. Mesmo gostando tanto de velejar, já não tinha a mesma empolgação de antes. — Podíamos ter jantado na cidade. — Kayla comentou. Olhei o relógio em meu pulso e beirava as 19h00. Ponderei com a cabeça, mas nada falei. Eu queria ir embora logo, porque não tinha paciência para lidar com paparazzo, isso podia ser, tecnicamente, fácil para ela, afinal, já estava acostumada. Mas eu não me familiarizava com aquilo, ainda mais sabendo que ela odiava eles. — Não quer experimentar minha comida? — Olhei-a pelo canto dos olhos e sorri. — Oh, isso parece mais atrativo. — Ela zombou. — Vai me dizer que sabe cozinhar. Ri pelo nariz enquanto tirava as sacolas do carro e entramos na casa indo direto para a cozinha. Eu estava meio perdido por não saber onde as coisas estavam, mas ia me virar nos trinta para encontra-las. — Um de nós tem que saber, como vai ser nossa vida quando estivermos morando juntos? — Tinha uma malícia em minha voz que escondia os sentimentos verdadeiros das palavras. — Não gosta da comida dos restaurantes? — Ela riu e apoiou-se sobre o balcão. Ali também tinha um livro que ela havia pegado na intenção de ler antes de sairmos, mas havia desistido por pura preguiça. Vi ela segurar o livro em mãos, olhar a capa e folhear algumas páginas. — Só tem palavras nisso, cadê os desenhos? — Nunca leu um livro? — Olhei-a intrigado, lavando algumas verduras. — Só leio meu script, isso porque sou obrigada. — Entendo. — Comecei a picar a carne para fazer com a batata. — Nunca teve interesse? — Não. — Sua voz era sincera e acabei rindo. — Por Deus, mulher! O que os livros fizeram contra você? — Oras... — Começou a falar, mas não terminou. Olhei em sua direção e tombei a cabeça para o lado ao vê-la


envolvida na leitura. Pigarreei para ter sua atenção e ao me olhar, deixou um sorriso contido aparecer em seus lábios. — Ia dizer alguma coisa? — Ela abriu a boca, mas fechou logo em seguida. — Que livro é esse, afinal? — Você entende de livros, detetive? — Um pouco. — Fui sincero. Procurei por uma panela no armário e voltei ao meu antigo lugar. — Amor muito além, autora Tania Giovanelli. — Respondeu-me, voltando a folhear o livro. — Já ouviu falar? — Vagamente. É algo relacionado a uma mulher que sofre acidente de carro? — Sim. E ao que parece, ela passa a ver fantasmas depois disso. Olhei para ela e pensei um pouco sobre o assunto. — O que você faria se isso acontecesse com você? — Comigo? — Sim. Se de repente pudesse ver quem já morreu. — Olhei-a com atenção. — Isso depende, detetive. — Do que, boneca? — De qual fantasma fosse. Minha mãe, por exemplo, se eu a visse, na certa a mandaria voltar para o inferno. Rimos alto, mas sabia que era exatamente isso o que ela sentia em relação a mãe e talvez, isso nunca fosse mudar. Kayla podia não saber, mas esse sentimento ruim que ela guardava, ainda poderia lhe fazer muito mal. — Hum, o cheiro está divino. O que está cozinhando? — Kayla perguntou, deixou o livro de lado, levantou-se do balcão e chegou próximo a mim. — Carne de panela. Gosta, senhorita? — Com toda a certeza do mundo. — Vi um sorriso largo em seus lábios. — O que mais tem no meio? — Cenoura, tomate, batata, cebolinha e pimentão verde. — Respondi. — Deseja acrescentar alguma coisa ou tirar algo? — Não, está perfeito assim. — Kayla passou a mão na barriga. — Quer que eu tempere a salada de alface? — Se souber diferenciar o açúcar do sal, pode. — Gemi quando


recebi um soco no braço. — Isso doeu, mulher! — Eu não senti nada. — Deu as costas, rebolando enquanto andava na direção da mesa.

No outro dia, logo pela manhã eu havia recebido um telefonema do Cooper, estava me informando sobre as investigações das cartas e também estava me contando sobre a noite que teve com a Yohanna. Sim, ele havia conseguido sair com ela, bom, na verdade era o contrário. Ela quem havia conseguido fazer aquele homem se divertir um pouco. Ele sempre fora um grande amigo e eu melhor do que ninguém sabia o quanto ele vinha estando preocupado nos últimos tempos. Ainda mais com o divórcio que sua ex esposa rejeitava em dar. Apesar de seus conflitos internos e pessoais, ele nunca havia me deixado na mão, ou colocado nosso trabalho em segunda opção. Ele era um amigo que merecia minha admiração e respeito. Ao mesmo tempo em que nós dois conversávamos, Kayla também estava ao telefone e após alguns segundos, percebi que se tratava exatamente dela, Yohanna. Kayla e eu nos olhamos sorrindo, compartilhando dos mesmos pensamentos. Ela tinha o desejo de juntálos, talvez suas preces estivessem sendo atendidas. Depois do almoço, fomos direto para o lago e sempre que Kayla perguntava como estava a investigação, eu tinha que dizer que estava tudo na mesma, porque de certa forma estava. Cooper havia me dito que não tinha chegado outra carta e passei a ficar preocupado com isso. A data estipulada na última que recebemos estava chegando e o silêncio do malfeitor deixava minhas antenas ligadas. Ele estava tramando alguma coisa ou esperando por alguma coisa. O fato era que seu silêncio deixava claro que algo ruim estava por vir. — Parece distante, Nicolas. O que te incomoda? — Nada, é só que aqui me sinto em paz. — Sorri, acabei olhandoa por mais tempo do que queria. Ela estava linda naqueles trajes de banho e com seus cabelos todos desgrenhados por causa do vento. — E essa quietude abre espaço para pensamentos. — Sobre as cartas? — Também. — Cocei a nuca desconcertado e mudei de assunto.


— Recebi uma promoção no trabalho. — Jura? — Questionou feliz. — E que promoção é essa? — Para trabalhar no gabinete de crimes, a diferença é que vou ter um pouco mais de ação e adrenalina. — Hum. — Ela tombou a cabeça para o lado me olhando, depois voltou sua atenção para o lago. — Parece mais perigoso do que seu trabalho atual, por isso não está empolgado? Virei a cabeça para olhá-la e acabei sorrindo um pouco surpreso com sua observação. Normalmente, não deixava meus sentimentos transparecer, assim ficava difícil de qualquer pessoa saber o que eu pensava ou sentia, mas Kayla parecia ter quebrado essa barreira. — Não. — Ela virou-se e nossos olhos se cruzaram. — Só acho muito suspeito a promoção ter vindo justamente agora. — Confessei. — Porque diz isso? — Porque se eu aceitar, terei que mudar do país. Kayla vacilou em seu sorriso e olhou-me de forma preocupada e um pouco triste. Acho que ela estava pensando o mesmo que eu.


Às vezes queria perguntar ao detetive sobre como andava as investigações, mas eu tinha medo. Naquele momento, ele estava usando o meu escritório da casa para trocar informações com Cooper e mesmo com vontade de saber o que eles falavam, sentia que não iria gostar. Essas cartas haviam me mudado de uma maneira que eu não gostava. Nunca fui tão medrosa como estava sendo naquelas últimas semanas, cheguei ao ponto de contratar um detetive... Estou de acordo que essa fora a minha melhor decisão. Nicolas estava sendo um anjo em minha vida, não estava apenas cuidando de mim, estava mostrando-me onde era meu lugar no mundo e, definitivamente, não era em frente as câmeras e sim, por trás delas. Fiquei sentada na varanda observando a lua cheia que refletia no lago por algumas horas, também estava tentando ler um novo livro, mas eu não conseguia focar muito bem na história dele. Acho que minha cabeça já estava ocupada demais para conseguir criar alguma imaginação. Também estava enfrentando sentimentos internos, sentimentos esses que não deveriam ser tão difíceis de enfrentar. Nicolas despertou algo que estava adormecido em mim, e eu estava amando aquilo, só que não me sentia preparada para me afastar dele e, mesmo que eu não quisesse, sentia no fundo do meu coração que algo assim iria acontecer. Bom, talvez eu só precisasse parar com essa mania de querer ver tudo negativo em minha vida. Pessimismo atrai coisas ruins e eu sabia bem disso. Fechei o livro e respirei fundo dizendo a mim mesma que eu iria tentar... iria ser feliz e deixar isso transparecer para Nicolas. Queria que ele soubesse que toda essa mudança era por ele. — Kayla? Olhei na direção da porta de vidro e o vi escorado no batente da porta. Sorri observando-o andar em minha direção. Sentou no braço do sofá e passou a mão no topo da minha cabeça, mandando uma espécie


de paz para meu corpo. — Lendo outro livro? Alguém pegou gosto. — Zombou. — Qual é esse? — Superando com amor, autora Mari Sales. — Mostrei a capa, Nicolas observou com atenção e umedeceu os lábios. — Conhece? — O livro que conta a história do vilão? Conheço. — Respondeu sério. — Nicolas, e se o malfeitor for alguém que eu confie muito, estou com medo de ser decepcionada. — Por que diz isso? — Nos encaramos. — Aconteceu alguma coisa? — Só vai ser difícil de superar, caso isso acontecer. — Ele acenou, concordando com meus pensamentos. Permanecemos em silêncio, levei meus olhos até o lago e ali fiquei, vidrada em sua cor exuberante. Nicolas estava ao meu lado e fazia carícias em meus cabelos, seguindo para meu pescoço. Parecia tão inerte quanto eu. Não sabia o que havia acontecido naquela ligação, mas o havia deixado sério demais. — Sabe, Kayla... — Chamou minha atenção e o olhei. — Se você se decepcionar com a identidade do seu malfeitor, iremos fazer exatamente o que este livro pede. Olhei para suas mãos e somente aí percebi que ele segurava o meu livro. Respirei fundo e não falei nada, talvez Nicolas estivesse certo e as coisas pudessem ser superadas com um pouco de amor.

Acordei algumas vezes durante a madrugada e em todas elas, Nicolas estava me abraçando, como se protegesse meu corpo de qualquer ataque. Respirei fundo tentando voltar a dormir, mas ao não obter sucesso, apenas me espreitei até a beirada da cama e me levantei. Os corredores da minha casa nunca foram tão silenciosos, pareciam me convidar a pensar em coisas que deveriam manter-se distantes de mim. Minha sala nunca esteve tão vazia, assim como minha cozinha, mas pelo menos ali eu poderia passar meu tempo com alguma coisa. Ainda não havia amanhecido, mas já era cedo e um café da manhã cairia bem para nós. Depois de ferver a água e passar no coador junto do café,


acabei indo até a varanda de entrada da casa e me perdendo no amanhecer do Sol. Seus raios alaranjados batiam nas águas claras e calmas do lago, dando um cenário perfeito para um filme de romance. Bebi um pouco do líquido quente e senti o ar frio da aurora saudar meu rosto, como se fosse um leve beijo em minha bochecha. Sorri para mim mesma lembrando-me de quantas vezes isso havia acontecido na minha adolescência, mas essas lembranças não passavam de leves dores que corroíam meu coração. — Kayla? — Detetive gritou. Pude ouvir os sons dos seus passos descendo as escadas, parecia com pressa. Levantei-me em um pulo e apareci logo na entrada, meu cenho enrugado e confuso deixava claro que seu comportamento havia me assustado. — Mulher, você não pode fazer isso. — Apressou os passos em minha direção e segurou minhas mãos. — Você está bem? — Por que não estaria, detetive? — Arqueei a sobrancelha, ainda sem entender seu desespero. — Não te vi quando acordei, pensei que algo houvesse acontecido. — Respondeu aliviado ao ver que eu estava bem. — Hum, pensou que alguém poderia ter sido louco de entrar aqui e me sequestrar? — Escondi o sorriso maldoso. — Exatamente isso. — Falou sério. — Não vejo a graça. Respirei fundo pedindo desculpas por ter zombado de seus sentimentos exagerados, porque eu entendia bem o que ele estava sentindo. Esse medo incontrolável de que a qualquer momento algo pudesse acontecer. — Estou bem, Nicolas. E estou agradecida por dessa vez não ter aparecido com uma arma empunhada em mãos. — Beijei seus lábios de leve. — Disponha. — Sorriu. — Vamos tomar café. — Dei-lhe uma piscadela. — Você fez? — Indagou intrigado. — Oras, um café eu sei fazer! Ele riu, não foi aquela risada escandalosa, mas deixava claro que não havia acreditado muito em minhas palavras. Após tomarmos o nosso café da manhã, levei Nicolas até nosso estábulo. Bom, já não havia mais cavalos lá, mas o lugar era lindo e relaxava a mente. Nicolas


parecia ter sentido a mesma coisa, pois o suspiro que soltou assim que entramos no local, entregou o que ele sentia. — Kayla, chegou uma carta para você ontem à noite. — Ele comentou sem me olhar. — Dele? — Minha voz falhou. — Sim. Cooper mandou por e-mail um scanner da carta. — Ele colocou a mão no bolso da sua calça e tirou um papel. — Eu imprimi. — Eu quero ler isso? — Depende de você. Hesitei por minutos a fio. Todas as cartas passavam da conta com assuntos idiotas e ameaçadores, e a cada dia que se passava, tudo piorava. Só que eu precisava ser forte, ou ao menos tentar, principalmente agora. Esse malfeitor não podia saber o quanto me abalava. Peguei o papel em mãos e respirei fundo mantendo meus olhos fechados por alguns segundos. Estava buscando coragem em algum lugar do meu coração, mas só achei quando Nicolas pousou sua mão em minha cintura e apertou forte.


Capítulo 23 Senhorita Mendes. Nossa! Lembro-me dos dias de criança quando meu único problema com o tempo, era saber quando começaria meu desenho animado preferido. Agora, sinto-me enjoado por essa espera. O tempo realmente não quer colaborar. A propósito, achei interessante sua nova coluna onde você dá conselhos de como recomeçar a vida, o que é um pouco contraditório, já que você está muito perto de perder a sua. Obs: É sempre bom ter alguém cuidando da gente, não é? O malfeitor. A folha tremia em contato com meus dedos, tinha um nó formando-se na boca do meu estômago e um suor escorria em minha nuca. Respirei desajustado tentando encontrar meu autocontrole, Nicolas, sempre prestativo, ajudou a me sentar em um banquinho de madeira que estava por perto. Li mais duas vezes aquelas palavras e tinha algo em meu peito dizendo que as coisas iriam piorar. — Nicolas, o que ele quis dizer com... — Não sei, mas espero que não seja o que estamos pensando. Mil coisas se passaram em minha cabeça e de todas elas, a pior era imaginar Nana em perigo. Porque era dela que ele falava, certo? Não havia outra pessoa cuidando de mim, quer dizer, tinha Nicolas, mas duvidava muito que este monstro fosse capaz de ataca-lo. Claro que ele procuraria por alguém vulnerável para me atingir. — Quando chegou essa carta? — Ontem à noite. — Porque não me contou antes? — Tive medo de você querer largar tudo aqui e ir embora. — Está certo, detetive, vamos embora. Passei por ele com rapidez indo em direção ao meu quarto, estava louca para pegar minhas malas e ir ficar com Nana, pois só assim ficaria tranquila, só assim saberia que ela estava em segurança. Ignorei todos os protestos de Nicolas, mas fui obrigada a olhá-lo quando segurou em meu


pulso com força. O olhei surpresa e assustada, aquele aperto estava me machucando e ele não demonstrava que iria parar. — Não pode voltar, Kayla. Sei que pode parecer loucura, mas é isso o que ele quer. Quer que você volte. — Do que está falando? — Questionei, tentando me soltar de suas mãos. Ao perceber que me machucava, soltou-me e beijou o local onde segundos antes apertava. — Me perdoa por isso. — Pediu, ele parecia realmente triste pelo o que havia feito em meu pulso. — Ele passou dias sem mandar carta alguma e quando manda, coloca uma ameaça em enigma? Ele não tem cara de quem trabalha com enigmas. — Esclareça seus pensamentos, por favor. — Passei as mãos no local que doía, mas ali só existia um vergão causado pela sua força. — Ele sabe que você não está na cidade e mandou a carta para fazê-la voltar. — Como pode ter certeza? — Arqueei a sobrancelha. — Não tenho, mas podemos ligar para sua casa e saber se Nana está bem. Já mandei Cooper colocar seguranças lá. Passei minhas mãos pela cabeça e tentei me acalmar. Nicolas estava certo, ele devia me querer na cidade e se ele estava com tanta impaciência quanto ao tempo, então ele perderia a cabeça logo e agiria contra mim. Mas claro que minha vida tinha que se complicar, claro que eu não poderia ser feliz por um mísero segundo sequer. Eu estava de saco cheio daquilo. Daquelas cartas. Daquele maldito malfeitor dos infernos. Enxuguei a lágrima que escorreu pelo meu rosto e respirei fundo concordando com as palavras de Nicolas. — Ainda preciso falar com ela. — Jamais proibiria isso, boneca. — Respondeu preciso. Acenei com a cabeça concordando e fui acompanhada por ele até o interior da casa, onde busquei pelo meu celular e fui conferir por mim mesma se Nana estava realmente bem. Não que estivesse desconfiando ou colocando a prova a competência de Nicolas, mas só teria paz se realmente soubesse por mim mesma que ela estava fora de qualquer perigo e que me avisaria caso acontecesse alguma coisa. — Está chamando... — Comentei, sentando-me na beirada da cama.


Nicolas, ousado e prestativo, sentou-se logo atrás de mim e não demorou para que eu pudesse sentir suas mãos fortes e ágeis fazendo massagens em meus ombros. Ronronei baixinho aproveitando aquele contato relaxante e fechei os olhos tombando a cabeça para o lado, a fim de te dar mais liberdade. “— Residência da senhorita Mendes.” — A voz de Nana soou enérgica do outro lado da linha. — Nana, como está? “— Minha menina? Oh, que saudade! Estou bem, estou bem. E você?” — Eu podia jurar que ela tinha um sorriso rasgando o rosto. — Estou muito bem, estamos muito bem. — Corrigi minhas palavras, pendendo a cabeça para trás a fim de ver o rosto de Nicolas e acabei ganhando um selinho nos lábios. “— Nem imagina como é bom ouvir isso, mas se me permite ousar, quão bem estão?” Gargalhei alto, só Deus sabia o quanto Nana me fazia falta. Eu sabia bem o porque de sua pergunta, já que ela havia deixado muito claro o quanto gostava de Nicolas e o quanto queria que nós resolvêssemos nossos assuntos pendentes. Bom, suas preces foram atendidas. — Incrivelmente bem. — Voltei a cabeça para a posição normal e continuei recebendo a massagem do meu detetive prestativo. “— Minha nossa! Precisamos colocar nossas conversas em dia, criança. — Ela riu abafado. — Agora me diz... porque o amigo do detetive está acampado na porta de casa?” Fiquei tensa. As mãos de Nicolas movimentaram-se ainda mais forte e rápido, como se ele soubesse o que Nana havia perguntado. Talvez tivesse ouvido já que o volume do meu celular sempre estava no último. Passei a mão livre pela minha nuca fazendo com que Nicolas parasse por um momento o que fazia, respirei fundo e decidi ser completamente sincera com ela. — Recebi mais uma carta, Nana. Você foi citada indiretamente nela e decidimos colocar mais segurança na casa. — Oh, não! — Exclamou surpresa e claramente abalada. No fundo eu sabia que isso iria acontecer. Sabia que esse ser, esse maníaco perseguidor, iria uma hora ou outra ameaçar alguém importante para mim. Isso me desesperava de uma tal forma que meu corpo recebia vibrações ruins, fazendo-me ter alguns suores na nuca e calafrios nos


pés. Neste momento, ao perceber que eu precisava de um tempo para respirar, Nicolas pegou o celular das minhas mãos e prosseguiu com a ligação. — Mantenha a calma, Nana e qualquer coisa entre em contato. Cooper irá revezar horário com outros colegas nosso de trabalho. A senhora está em boas mãos. — Ele fez uma pequena pausa. — Não precisa, faço com carinho. — Outra pausa. — Claro, vou passar para ela. Até breve, Nana! Sorri ao pegar o celular de suas mãos, Nicolas compreendeu aquele sorriso como uma forma de agradecimento, pois sibilou com seus lábios a frase “de nada”, fazendo-me soltar um riso pelo nariz. — Nana, promete que qualquer coisa que aconteça, por mais ridículo que seja, você vai me ligar? — Fique tranquila, menina, vou ficar bem. Agora, vê se fique bem também e aproveite seus dias de descanso. — Riu baixo. — Isso se o detetive estiver deixando você descansar. — Nana! — A repreendi, mas acabei rindo. — Tenha uma boa tarde! — Você também, nos vemos em breve! Desliguei o celular e observei a tela do aparelho, Nicolas já estava com suas mãos ágeis em meus ombros, mas dessa vez, não ficou somente ali. Desceu pelas curvas do meu corpo, apertando, apalpando e reivindicando para si, o que sempre seria seu. Deixei meu corpo tombar para trás e me entreguei ao nosso momento.

Ao cair da noite, decidimos passear pela cidade, claro que a ideia havia sido dele. Por mim, ficaríamos em casa, deitados no tapete, ou no sofá, quem sabe na cama... enfim, qualquer lugar que permitisse meu corpo de estar deitado. Não era preguiça de andar, era cansaço pela tarde que tivemos. Céus! Nicolas era insaciável, como conseguia ter todo aquele pique? — Presa em seus pensamentos? — Tirou-me de meus devaneios quando retornamos para casa. — E todos envolvem você. — Sorri, mas não de forma maliciosa.


— Isso é muito bom. — Ronronou agarrando minha cintura. — Que tal praticarmos o que você estava pensando? Eu não disse? Insaciável! Pior que nem deu tempo para responder alguma coisa, ou de avisar que estava sentindo umas cólicas sinistras abaixo do umbigo. Ele simplesmente domou meus lábios acendendo cada faísca adormecida em meu corpo. Respirei fundo, tentando encontrar fôlego enquanto nossas bocas faziam a dança do acasalamento e me segurei em sua nuca, enlaçando meus dedos em seus cabelos. — Nicolas... — Agora não... Porra de homem sedutor! Sim, sim, agora sim. Não tinha outra hora para falar sobre minha cólica. Eu conhecia muito bem meu corpo e sabia que esse era o sinal dos dias vermelhos se aproximando. Eu não queria ficar menstruada justo naquele momento, mas esse tipo de coisa nenhuma mulher controla. De repente, senti um líquido escorrer em minha calcinha. Dei um salto para trás, notei que a boca de Nicolas estava completamente vermelha e eu nem ao menos estava usando um batom. Arregalei os olhos e subi as escadas correndo indo em direção ao banheiro. Tranquei a porta por dentro e tratei de descer meu short para averiguar minhas suspeitas. — Puta que me pariu! — Exclamei. Chateada, revoltada, enraivecida. — Kayla? — Nicolas chamou, certamente estava parado e encostado na porta pelo lado de fora. — O que aconteceu? Você está bem? — Não, não estou bem. Droga! — Murmurei, ainda contrariada com minha falta de sorte. — Abra a porta! — Ordenou. — Vai ter que esperar. — Uma ova! — Exclamou, no segundo seguinte, esmurrou a porta com tal força que o trinco cedeu e abriu. — Nicolas Almeida. Fora! Agora! — Meu rosto queimou, não somente pela raiva que sentia, mas por estar terrivelmente constrangida. O short, assim como a calcinha, estava parados no meio das


minhas coxas. Meus olhos arregalados pelo seu vandalismo, meu coração batendo rápido demais por conta do susto. E eu não queria nem imaginar se ele havia visto a mancha de sangue. — Kayla Mendes, não saio até me esclarecer as coisas aqui. — Raios de homem teimoso! — Rosnei, tentando me vestir novamente. — Agradeça minha mãe por isso. — Observou com atenção o que eu fazia. Eu podia ler todas as suas rugas de questionamentos e confusão. Também já podia ouvir a risada gostosa e alta que ele daria quando soubesse essas respostas, ecoando pela casa, como uma sinfonia maravilhosa feita sob medida para mim. — Desceu para mim. — Anunciei, pensando que ele entenderia. Mas ao notar sua careta, percebi que estava enganada. — Fiquei menstruada, homem dos infernos! Ficamos em silêncios por alguns segundos, só até minhas palavras fazerem sentido e Nicolas começar a rir, exatamente como eu havia imaginado momentos antes. Rolei os olhos em trezentos e sessenta graus, e comecei a empurrá-lo porta à fora. — Kayla, isso não é o fim do mundo. — Espera as dores, o humor instável e os desejos começarem. — Respondi com sarcasmo. — Desejos? — Questionou intrigado, arqueando uma sobrancelha. Apenas afirmei com a cabeça. — Dores e humor instável? — Estalei a língua perdendo a paciência. — Vai ficar que nem maritaca remendando o que falo? Ele sorriu de canto e passou as mãos pelos cabelos. Certamente, divertindo-se com o que estava acontecendo. — Quantos potes de sorvete? — Sorvete? — Prefere chocolates? — Entortei a boca e ele levantou as mãos, rendido ao que estava prestes a vir. — Mudo, cego e surdo até segundas ordens. Suas facetas demonstravam que meus dias no vermelho serviriam para deixa-lo de bom humor e que, com certeza, iria se divertir muito com isso. Nicolas passou o dedo na boca, como se estivesse fechando um


zíper e sem ter mais opçþes, bati a porta na cara dele.


Capítulo 24

Passar o decorrer daqueles dias vendo Kayla cada dia com um humor diferente, foi no mínimo, engraçado. Confesso que já esperava pelas atitudes dela, tendo em vista que quando nos conhecemos eu já imaginava que Kayla, apesar de aparentar ser aquela mulher forte, também tinha seus momentos de fragilidade e instabilidade. Parecia com aquelas crianças que não sabem o que querem e ficam emburradas por qualquer coisa. Por sorte, minhas experiências com minhas irmãs haviam me deixado “quase” preparado para o que teria que enfrentar. Eu disse “quase” porque cada mulher tem uma reação diferente na tpm, as reações de Kayla eram imprevisíveis. — Acabei de falar com Nana. — Ela apareceu no escritório onde eu fingia estar trabalhando. Enquanto aqueles cinco dias não passassem, era arriscado demais trocar palavras com Kayla. Tinha que sempre estar pensando bem antes de abrir a boca, porque qualquer coisa, por mínima que fosse, se ela entendesse errado, ou se achasse que eu havia usado um tom de voz diferente, já era motivo para uma leve discussão. — Tudo certo por lá? — Sim, nada aconteceu. — Parecia aliviada. — Ele apenas queria que você voltasse. — Disse, me referindo a carta. — Devemos ser cautelosos ao retornarmos para casa. Ela observou-me com atenção. Estava enrolada em uma manta, já que naquele dia havia amanhecido um pouco mais frio. Meus olhos estavam na tela do computador, tentando me concentrar em algumas informações que havia conseguido sobre André Mendes e Rafael


Carvalho. Sim, estava investigando o amigo de Kayla. — Detetive... O doce som da sua voz ganhou minha atenção, meu corpo relaxou ao ouvi-la e respirei fundo ao ver que ela caminhava em minha direção. Eu nunca sabia o que esperar de Kayla quando estava naqueles dias, então uma aproximação assim me fazia ficar receoso e tenso. Mas eu saberia como cuidar de Kayla nesses dias, porque haveria de vir muitos outros e eu queria domar todos os seus sentimentos. — Sinto sua falta! — Impossível. Nos vimos tem meia hora. — Sorri largo. Empurrei minha cadeira e bati de leve as mãos em meu colo para que ela sentasse ali, queria Kayla por perto, estava sentindo falta de seu corpo e acho que era disso que ela estava falando quando disse que sentia minha falta. — Detetive abusado. — Ela sorriu torto. — Você sabe a que me refiro. — Também estou com saudades, Kayla, mas logo acaba, certo? — Perguntei meio intrigado. Esperava que aquilo acabasse logo mesmo. Ela sorriu e sentou sobre a minha perna. Passou os braços atrás do meu pescoço e deitou a cabeça em meu ombro. Naquele momento, eu me praguejei mentalmente por ter esquecido de fechar a aba da janela do computador. Quando vi Kayla olhar para lá e levantar a cabeça rapidamente, soube que havia feito merda. — O que é isso? — Questionou repugnada. — Meu trabalho. — Respondi calmo. — Eu sei, mas está investigando meu irmão de novo? — Indagou surpresa. — E Rafael? — Sim, Kayla, peço para que não pergunte muito sobre isso, okay? Gosto de obter certeza em minhas pesquisas e André e Rafael ainda não me deram elas. — Yohanna também? — levou as mãos até a sua deliciosa boca, tentando não soar tão incrédula. — Isso é coisa do Cooper. — Como assim? — Olhou-me com seus olhos estreitos. Gargalhei alto pela sua total ingenuidade. Cooper era um homem restrito, um homem que não se interessava ou se envolvia com mulheres, afinal, estava prestes a se livrar de um casamento, não queria


se ver amarrado tão cedo com outra. Mas a amiga de Kayla havia despertado algo novo em meu amigo, algo que o fez pesquisar mais sobre ela. — Cooper está interessado. — Limitei-me em responder. — E decidiu investigar a vida dela? Qual o problema de vocês? Não podem fazer isso como homens normais, em encontros normais? — Boneca, não somos homens normais, espero que esteja ciente disso. — Sorri colocando seus cabelos para trás e beijando seu pescoço. — Em nosso trabalho, todo cuidado é pouco com quem nos relacionamos, não queremos ninguém machucado ou em perigo. — Ah, sim! Como sou burra. — Bateu a mão em sua testa, repreendendo-se. — Só distraída, meu bem. — Ri pelo nariz. — Nossos dias aqui estão acabando, sente-se melhor? — Sinto-me preparada para enfrentar o que quer venha pela frente. — Respondeu firme, fazendo-me franzir a testa em surpresa. — É assim que eu quero que se sinta, boneca. Porque dias ruins virão. Seu malfeitor pode agir a qualquer momento e ainda estamos de mãos atadas. Queria te pedir perdão por isso. — Nicolas, não deve se culpar. Tem trabalhado feito louco nesse caso e ainda colocou seu amigo no meio para poder ajudar, estão fazendo tudo ao alcance de vocês. Tenha fé! Eu estava encantado. O que havia acontecido com Kayla naqueles últimos cinco dias? Essa mulher adorava me surpreender e eu amava toda vez que ela fazia, seja lá qual fosse o motivo. Ela tinha esse poder de enfrentar o que vinha na frente, mesmo isso lhe abalando profundamente, ela não demonstrava. Bem, fé eu tinha. O que estava me faltando ali era paciência. Eu ficava agitado com a ideia de não ter chegado a lugar algum com esse caso. Já haviam se passado algumas semanas e nada fora revelado. Nada além de descobrir que sou tarado em lingeries na cor salmão. Céus! Kayla me tirava o juízo, nem ao menos me deixava focar em meu trabalho.

Com o arrastar da tarde, acabamos indo dar um passeio pela


propriedade e focamos em assuntos amenos, coisas do nosso cotidiano e que não viria a ter funcionalidade nenhuma. Pelo menos, não na investigação. Isso abriu brechas para que voltássemos a falar sobre aquela sua lista de namorados que ela havia me passado bem no início do caso. Contudo, ao tocar nesse assunto acabei me lembrando de que Júnior havia me ameaçado e que seu silêncio me deixava intrigado. Amava meu trabalho e não gostava da hipótese de ser afastado, apenas porque um imbecil não conseguia competir a altura comigo. Isso se ele não decidisse caçar minha licença de detetive e acabar com toda a minha carreira profissional que demorei anos para construir. Acho que me encontrava de mãos atadas, não necessariamente pelo o que Júnior queria fazer, mas porque isso me tiraria do caso de Kayla. Digo, poderia continuar de modo informal, mas isso me limitaria muito. Não teria passe livre em muitas coisas e isso poderia dificultar tudo. O jeito era torcer positivo e não desanimar. No outro dia, logo pela manhã, acordei com alguns fios de cabelos negros enrocados em meu rosto. Kayla ocupava muito espaço na cama e se enganava quem pensava que ela era toda delicada. Delicada como um coice de mula. Roncava e na maioria das vezes, me chutava forte, mas isso só conseguia me mostrar o quão era especial e gente como a gente. Apertei ela contra meu corpo, porque adorava ouvir o suspiro que Kayla soltava ao me sentir perto. Ela resmungou baixo, mas não demorou para passar seus dedos maliciosos pelo meu abdômen. — Bom dia! — Sussurrou manhosa e com a voz mole pelo sono. — Bom dia! Como você está? — Acariciei seus cabelos e beijei o topo da sua cabeça. — Com preguiça. — Respondeu, fazendo-me rir. — E com fome. — Então você está bem. — Arqueei a sobrancelha. Até ali não havia nenhuma novidade, Kayla comia o tempo todo e tinha preguiça o tempo todo também. — Pronta para pegar a estrada? — Que horas são? — Questionou com a testa franzida, alcancei meu relógio de pulso que havia tirado antes de dormir e colocado no criado mudo ao lado da cama. — Quase oito da manhã. — Por Deus! Meus neurônios ainda não acordaram, preciso de mais uma hora de sono. — Puxou o lençol cobrindo a cabeça. Observei Kayla por alguns segundos, mas não ousei dizer nada. Meu coração sangrava ao saber que tudo aquilo ali estava prestes a


acabar. Que voltaríamos para a nossa velha rotina e que, mesmo estando juntos, teríamos que assumir uma relação profissional aos olhos do mundo. Isso tudo, porque eu queria preservar sua imagem e sua segurança. Se o malfeitor fosse Júnior, ele ficaria irado ao ter notícias sobre nós dois e poderia fazer algo ainda mais perigoso, já que nossa antipatia vem de outras épocas. Enfim, em se tratando de Kayla, todo cuidado seria pouco e isso não vinha por causa do caso. Deus sabia que não. Eu amava essa mulher e daria minha vida por ela. — Mexa esse belo traseiro, boneca. O dia vai ser cheio. — Esbofeteei a parte dita e ela gritou em surpresa. Sorriu espantada e passou a mão no local dolorido. — Agora me sinto acordada! — Isso é bom! — E a fome dobrou. Ali eu notei seu tom de malícia. Não vou negar, ouvir sua voz rouca insinuando que estava com fome de sexo mexeu com cada parte do meu corpo que poderia estar dormindo, mas que não estava. Porque, infelizmente, nós homens sempre estamos com a barraca armada logo de manhã. Kayla sorriu largo ao ver minha expressão, levou seus dedos ágeis até meu membro e o apertou por cima da cueca. — Vou conferir uma coisa no banheiro e já volto! — Me beijou sensual e mordeu meu lábio inferior, fazendo-me desejar pela sua volta e claro, por “boas notícias”.


Minhas folgas no campo haviam acabado e nisso, havia quase quinze pastas de scripts sobre minha mesa quando cheguei ao escritório da minha casa. Nicolas havia dado uma passadinha rápida por lá, porque uma ligação do gabinete o fez sair correndo. Então, restou-me tomar um banho e ir dar uma olhada em todos aqueles papéis. — Olha você aí! Olhei de prontidão para a porta, e assim vi Rafael atravessar a sala e ir de encontro a mim. Seu sorriso rasgava a face, de uma tal forma, era contagiante. Me levantei sorrindo e abri os braços esperando por seu abraço. — Essa casa fica um tédio sem você, Kayla. Ainda mais com todas essas câmeras e seguranças. — Beijou minha bochecha e olhou na direção da mesa. — Mas já está enfiada no trabalho? — A vida não para. — Respondi dando de ombros. — Quer ajuda com alguma coisa? — Não, são apenas marcações de próximos programas. Eu deveria ter gravado dois essa semana. — Me sentei novamente, Rafael sentou-se de frente para mim e afirmou com a cabeça. — Também deveria ter ido a uma entrevista. — Respirou fundo, ganhando minha atenção. — Cancelei todas que eu teria esse mês. — Eu sei. — Meneou a cabeça. — Mas... — Mas seu sumiço das telas pode passar uma imagem errada, não sei. Ele tinha razão, mas o real problema ali era que eu já havia deixado de me importar com qual a imagem que eu deveria ou não passar, digamos que, Nicolas abriu meus olhos para algumas coisas e eu


estava tentando reavaliar minha vida. Claro que eu não mudaria drasticamente, mas aos poucos. Devagar. — Não, passou exatamente a imagem que eu queria passar. — Pousei meus cotovelos sobre a mesa e apoiei meu queixo nas costas das mãos. Rafael olhou-me surpreso e levantou as sobrancelhas como se pedisse para que eu continuasse. — A imagem de quem sofreu um atentado e quis ir descansar. — Está certo. — Rendeu-se. — Consegui camuflar sua semana, espero que tenha aproveitado. Eu sorri lindamente, aquele sorriso que mataria qualquer mulher de inveja e a deixaria imaginando o que teria acontecido para que estivesse tão feliz. Bem, Nicolas havia acontecido. E mesmo que não tivéssemos aproveitado exatamente como eu queria, já estava feliz em, pelo menos, ter estado com ele. Em seus braços. Sobre sua proteção. O meu silêncio fez Rafael revirar os olhos, talvez Nana o tivesse avisado de que eu estaria ao lado do detetive, talvez ele já tivesse imaginado exatamente o que havia acontecido naquela semana, mas nada do que ele, ou eu imaginasse, chegaria aos pés do que realmente foi. Aquele lugar era cheio de lembranças da minha família, de uma época em que tudo parecia menos complicado e parecia fazer sentido. Uma época onde parecíamos nos gostar. Nicolas não resgatou apenas minha confiança abalada, resgatou essas lembranças, esses sentimentos. Conversamos por mais algumas horas, colocamos alguns assuntos sobre o trabalho em ordem e eu não havia recebido nenhuma notícia de Nicolas até o cair da noite. Não estava, de fato, preocupada, mas estava um pouco incomodada com seu desaparecimento, visto que ele havia partido dizendo que me ligaria uma vez ou outra para matar a saudade. Antes do jantar, havia decidido ajudar Nana na cozinha. Acho que isso tinha a deixado meio chocada, mas não era algo questionável. Eu estava claramente no tédio, sem absolutamente nada para fazer e Deus me livre de ter que ligar para Yohanna. Ela era uma ótima amiga, só que ela na casa dela e eu na minha. — Como estão as coisas com o detetive? — Boas. — Sorri, mexendo o molho. — Alguma novidade no caso? — Não que eu saiba. — Suspirei, cansada por sempre ter que tocar


nesse assunto. — O detetive parece querer te poupar dos acontecimentos, gostava disso no início, mas seria legal ter um parecer sobre o assunto. — Nana fitou-me, tranquila. — Ele voltou a investigar o André. Também está investigando o Rafael. — O que? — Nana parecia chocada. — Ele desconfia do Rafael? — Acho que até que o culpado apareça, Nicolas desconfia de todos. — Soltei uma risada pelo nariz, ela me acompanhou. — Nana, acha que se eu casasse, daria certo? Ela parou o que fazia e me olhou com espanto. Cocei a nuca um pouco constrangida com sua reação, ela percebeu, mas ao invés de se desculpar, começou a rir. Rolei os olhos e bufei, dei continuidade ao molho, acrescentando cebola e cheiro verde. Nana ainda ria, eu sei que a cena deveria estar sendo cômica, mas acho que ela já estava exagerando e ferindo meu orgulho. — Minha menina ajudando na cozinha e pensando em casamento... — Olhei sobre o ombro e a vi sorrir doce. — Quando foi que conversamos sobre isso mesmo? — Nunca conversamos sobre casamento. — Enruguei a testa. — Exato! — Ela riu outra vez. — Seria o detetive mudando seus pensamentos? — Acho que ele está abrindo meus olhos. — Confessei. — Fui a casa da família dele antes de irmos à casa do campo. Aquilo sim é uma família. — Querida, fico feliz por estar finalmente se dando a oportunidade de ser feliz. — Senti sua mão sobre meu ombro, me virei para ficar de frente para ela. — Agora precisa aprender a confiar mais em você mesma. Não tem que ficar imaginando se vai ou não dar certo, precisa tentar. Se ele te ama como eu acho que ama, vai te aceitar como é. Sendo dona de casa ou não. — Mas eu nem sei cozinhar, como vamos viver? — Comecei a rir, achando o cúmulo estar pensando nisso, sendo que nem namorados éramos. — Ele sabe disso, não sabe? — Afirmei com a cabeça. — Isso não parece incomodá-lo, parece? Nana como sempre estava certa e eu, paranoica. Sei que não devia estar pensando nessas coisas, mas depois dos dias em que passei com


Nicolas, estava ficando desesperador me imaginar acordando pela manhã sem o corpo dele ao meu lado. Sem aqueles braços fortes. Ele parecia uma droga, uma química altamente perigosa, que você usava e ficava dependente daquilo. Um vício no qual eu não estava buscando a cura.


Capítulo 25 Já era noite quando recebi uma ligação de Yohanna perguntando se ela poderia passar da minha casa para bater um papo, como eu não tinha o que fazer, e Nicolas havia tomado um maldito chá de sumiço, acabei concordando. Além do mais, mesmo Hanna sendo uma pessoa difícil de lidar, tinha alguns momentos na vida em que ela conseguia ser uma boa amiga. Já disse que eu gostava muito dela? Pode parecer que não, mas gostava. Só que existem certas amizades que, depois de um tempo, fica forçada. E a nossa parecia esse tipo de amizade. A campainha tocou, estava enrolada em meu roupão porque havia acabado de tomar um banho quente e já aguardava por ela na sala. A recebi com um sorriso e um abraço apertado, ela foi logo entrando e pela sua expressão feliz, acabei supondo que algo bom tinha acontecido a ela. — Amiga, nem te conto! — Ela começou demonstrando estar animada com a novidade. — Pois conte, Hanna! — Sorri balançando a cabeça. — Não, não. Primeiro preciso saber sobre você. Como está? — Com pode ver... — Olhei para mim mesma. — Estou ótima! — Fico feliz. — Olhou ao redor, acho que estava notando as câmeras pela casa. — Quem são os seguranças lá fora? — Não faço ideia. Mas sei que são contratados por Nicolas e Cooper. — E aqui dentro não tem nenhum? — Olhou novamente ao redor, deixando-me intrigada com suas ações. — Não, só as câmeras. — Comentei, também olhando ao redor. — E muitas! Ela meneou a cabeça em um aceno de afirmação, passei minhas pernas para cima do sofá e liguei a tevê. Sempre evitei ver televisão porque nunca tem algo bom, sempre mortes, desastres, atentados, fofocas... E na maioria das vezes, o assunto era minha mãe. Depois de sua morte, o assunto começou a ser meu irmão e eu. André entrou em uma fase onde a bebida parecia sempre ser a melhor


solução, se envolvia em confusões, brigas, sempre achava um jeito de expor nosso sobrenome ao ridículo. Ai com a minha entrada no programa, a mídia voltou toda a sua atenção para mim. — Temos permissão para falar dos detetives? — Ela especulou. — De Cooper sim! — Decretei, deixando claro que Nicolas não era para o bico dela. — Era exatamente ele quem eu tinha em mente. Sorriu largo e rolei os olhos, sorrindo também. — Presumo que tenha rolado algo entre vocês. —Sorri de canto, lembrando que Cooper também estava muito interessado nela. Interessado ao ponto de investigar mais sobre sua vida. — Oh, sim! — Sorriu sacana. — Pena que não vai voltar a acontecer. Suas palavras me deixaram confusa, mas não sabia se devia perguntar alguma coisa, porque isso era pessoal. Não queria me meter em sua vida. Então, como se ela estivesse lendo meus pensamentos, suspirou forte e respondeu minha pergunta não dita em voz alta. — Já consegui o que queria. Esse era um dos motivos de evitar papear com Hanna. Ela conseguia ser fútil igual minha mãe quando queria, e suas palavras deixaram claro que ela só saiu com Cooper por interesse em alguma coisa, com certeza, no sexo. Isso deixou-me completamente irada, uma parte de mim tinha Cooper como um irmão mais velho, ou quem sabe, um cunhado, já que ele e Nicolas se consideravam irmãos. Então, para que aquele meu lado “terrorista” não aparecesse, tente abstrair suas palavras. Nana apareceu nesse momento e pude ver sua testa franzir em surpresa ao ver Yohanna ali. Receber minha amiga em casa em outros tempos, era normal. Mas depois que minha mãe morreu, nossa amizade distanciou muito e acabamos sendo apenas a estrela de tevê e “sua assessora”. Nunca entendi bem porque isso aconteceu, já que éramos tão grudadas uma a outra quando mais novas. Às vezes parecia que Hanna tinha vontade de fazer parte da minha família, não que ela já não fizesse como amiga, mas tinha a impressão de que ela queria mais. Ela passava muito tempo comigo, em minha casa, mas gostava de fazer isso somente quando minha mãe também estava lá. Ela também amava viajar com a gente, mas eram raras às vezes


em que ela aceitava ir sem minha mãe. Nisso, acabei concluindo que ela não gostava do meu pai e do meu irmão, assim como também concluí que ela era uma fã nata de dona Isabella Mendes. — Não sabia que viria, Hanna, senão teria feito algo para vocês comerem. — Nana a cumprimentou com um beijo no rosto e um sorriso amigável. Sobre Nana e Yohanna, algumas vezes parecia que elas não se gostavam, trocavam olhares acusadores e algumas alfinetadas. Sem contar nas vastas vezes em que Nana tentava me convencer de que nossa amizade não era verdadeira, o que para mim sempre pareceu ser. Ela só era meio torta por conta do nosso afastamento. — Não se preocupe, Nana. — Hanna respondeu, observei ela se sentar no sofá novamente. Manteve seu olhar sobre Nana, mas o cortou logo em seguida. — Kayla, vai precisar de alguma coisa? Posso me retirar? — Não. — A sondei. — Sente-se bem, Nana? — Oh, querida, estou apenas cansada. A idade anda me travando aos poucos. — Sorriu doce, mas isso me deixou preocupada. — Nana, quer algum médico? — Que isso, menina? — Ela riu fraco. — Estou bem, uma boa noite de sono me deixará novinha em folha. Ela parecia incomodada com alguma coisa, podia ser invenção da minha cabeça, mas Nana parecia, desesperadamente, querer sair dali. — Você e seu papo de velha. — Ralhei, percebendo que ela sentia mais do que queria contar. — Vê se não me esconde nada, Nana! — Fica em paz, criança. Minhas costas doem, mas é apenas isso. Estou desesperada pela minha cama. — Disse ignorando minha ameaça, o que me deixou ainda mais puta com ela. — Boa noite, meninas! — Nana, desculpa falar, mas concordo com Kayla. — Hanna saiu em minha defesa, olhou para Nana com um sorriso de canto e prosseguiu: — Estou te achando meio abatida. Você está realmente bem? Ouvi o questionamento de Yohanna e olhei com atenção para Nana, esperando com uma certa paciência a sua resposta. Também fiquei de olho em suas reações, assim como em sua expressão. Eu a conhecia bem e saberia se estivesse mentindo sobre algo. O que eu achava impossível, porque ela nunca mentiu para mim, nunca me escondeu nada, então não via ou entendia os motivos para ela começar


agora. Nana suspirou forte e ajeitou suas roupas. Minha sobrancelha arqueou e já estava prestes a levantar para pegar o telefone quando ouvi sua voz novamente. — Bem, faremos o seguinte, se amanhar eu ainda estiver indisposta, concordarei de ir ao médico. Aquilo para mim ainda não era o suficiente, mas era melhor do que nada. Acho que foram raras as vezes em que Nana adoeceu, mas sempre quando acontecia ela ficava muito mal e isso me preocupava. Porque sua idade, apesar de não aparentar, já estava avançada. — Se prefere assim. — Retruquei mal-humorada e ela riu. Despediu-se novamente e nos deixou. Após sua partida, voltei minha atenção para Hanna, que parecia perdida em seus pensamentos e a chamei estalando os dedos. — Hanna? — Oi? — Algum problema? — Indaguei após ver sua viagem no tempo. — Parece perdida em algum lugar. — Parque Stanley, Vancouver. Minha testa enrugou, sentindo minhas palpitações se elevarem, porque ela estaria lembrando disso naquele momento? Na verdade, porque ela estava lembrando do passado? Se tinha algo na qual eu desejava, era apagar toda e qualquer lembrança sobre minha mãe. Isso pode parecer frio, e é, mas quando se tem mais lembranças tristes do que felizes, você acaba desejando isso. — Hum... — Lembra que fomos andar de bicicleta e sua mãe cismou que queria ir também? — Ela sorriu, ainda perdida em sua lembrança. Apenas entortei a boca. — Acabamos perdendo o controle e fomos parar no mar! — Eu, realmente, não sei o porquê de você estar lembrando disso. — Falei, começando a ficar chateada. — Naquele dia, Nana ficou doente porque pulou no lago para nos salvar e sua mãe ficou que nem louca tentando ver se você estava bem. — Temos visões diferentes desse dia, Hanna. — Comentei, com a testa franzida. Não sabia o porquê de ela ter entrado nesse assunto, mas eu me lembrava de uma Isabella muito puta por termos acabado com a tentativa dela de chamar a atenção de um produtor que passeava no


parque e não de uma Isabella toda preocupada com a filha. — Devo admitir que gostava de sua mãe, apesar de ela ter sido fútil quase o tempo todo. Apesar de ela nunca ter dito isso em voz alta, eu sempre desconfiei que Hanna gostasse da minha mãe. Nunca liguei para isso, porque todo mundo que não era da nossa família gostava dela. Todo mundo que não a conhecia, admirava a mulher que ela fingia ser em frente as câmeras. Ou será que a pessoa que ela era nas mídias era a verdadeira Isabella e aquela em nossa casa era a falsa? Balancei a cabeça afastando esses pensamentos confusos. — Porque estamos falando dela? — Questionei, alterando minha voz. — Porque você precisa perdoar o que ela fez com você durante o tempo que esteve viva. — Ficou séria. — Eu sei que ela não foi uma boa mãe, Kayla. Sou sua amiga de infância e presenciei muitas coisas. Mas mesmo ela não sendo a mãe que você queria, ela não te abandonou para ficar com outra família. Por alguma razão, o frio que assolou meu corpo me fez perceber que algo ruim sairia dessa conversa. Hanna nunca foi de tocar no assunto mães porque a dela tinha lhe deixado com seu pai e ido embora com outro homem. Ao que parecia, havia construído uma família com essa pessoa e Hanna nunca entendeu o porque de ter sido rejeitada. — Assim como também sei que ela nunca te deixou faltar nada. Estudou na melhor escola e só não entrou na melhor universidade porque não quis. Sempre morou e viajou para os melhores lugares... — Não sei aonde você quer chegar, mas pode ir parando por aí. — Não, eu comecei e vou terminar. — Esbravejou. Enfim consegui ver Yohanna brava com alguma coisa e vou confessar, não gostei. — Você já imaginou que existem muitas pessoas que gostariam de ter nascido no berço de ouro como você? Minha respiração sobressaltou, fazendo meu coração bater acelerado, já que nosso papo estava prestes a ir pelos ares. — Isso me cheira a conversa de amiga invejosa, Hanna. — Falei, sem papas na língua. Ela riu, uma risada alta e perturbada que fez meu sangue borbulhar. Diante daquela conversa, eu só conseguia pensar em uma coisa: Hanna me invejava. Esse tempo todo estava sendo amiga de uma cobra. Nós crescemos juntas, estudamos juntas, brincamos juntas e por


diversas vezes, minha casa foi a casa dela na adolescência, porque Hanna tinha problemas com seu pai. — Você é tão mesquinha, amiga! — Ela balançou a cabeça em negativa. — Inveja? Eu? — Pode pensar que conhecia minha família, mas não conviveu um terço da vida com ela. Você nada sabe sobre como Isabella era. — Meu tom rude se elevou. Por alguma razão, quando citei o nome da minha mãe, Yohanna teve uma leve alteração na cor do seu rosto. Havia ganhado um vermelho ardente que deixava claro o quanto estava brava com minhas palavras. Mas que diabo estava acontecendo? Ela nunca havia tocado no nome da minha mãe e, agora parecia dolorida em ouvir o nome dela sair da minha boca. — Tem toda razão. Não sei! — Tinha um brilho diferente em seu olhar. — Fui privada de passar qualquer que fosse o tempo com ela. — Haviam lágrimas saindo de seus olhos. — Hanna, o que você tem? — Indaguei, confusa com tudo que estava acontecendo. Ela riu, logo em seguida respirou fundo, como se minha pergunta fosse a mais tola que ela já tivera ouvido. Quando fez menção de responder, pedi para que fizesse silêncio e levei minha atenção até a janela porque algo estava acontecendo lá fora. Ao fundo eu podia ouvir uns barulhos estranhos, mas que em segundos meu cérebro reconheceu como tiros. Me levantei assustada e corri até a janela de onde eu conseguia ver o portão de entrada, os amigos de Nicolas estavam empunhados com uma arma e miravam na direção do portão. Um medo assolou minha espinha. Olhei para Hanna, e pedi para que me acompanhasse até uma área segura, mas a mesma não moveu nem um dedo sequer quando passei por ela. — Temos que sair daqui! — Exclamei, nervosa por ela estar travada no meio da sala. — É. — Piscou os olhos como se estivesse saindo de um transe e começou a me acompanhar. Nossa conversa havia morrido ali e não teria como ser diferente. Minha casa estava sendo invadida por alguém, e mesmo sem ter certeza, meu coração anunciava que era algo envolvido com as cartas anônimas. Naquele momento, mesmo estando em estado de pavor, a única coisa que pensava em fazer, era tirar não só Yohanna e eu dali, como


Nana que estava em seu quarto e podia nรฃo ter ouvido o tiroteio que comeรงava lรก fora.


Capítulo 26

— Cara, ficou de quatro, não tem jeito! — Cooper ria, mas eu não estava muito interessado em suas piadas sobre os dias que passei com Kayla. — Tenha um pouco mais de respeito. — Pedi, ele olhou-me com soberba e arqueou a sobrancelha. — Kayla não é como você imagina. — Isso já ficou claro como água. Arrastei minha cadeira e sentei para analisar os papéis que Cooper havia conseguido na minha ausência. Também tinha uma coisa nele que estava me incomodando desde a hora em que cheguei. Cooper estava agindo como se precisasse me dizer algo. Algo importante ao reparar em seu estado nervoso. Digo isso porque o conheço melhor do que ninguém. Pode parecer gay, mas nós dois temos uma bagagem juntos e eu sou perfeitamente capaz de perceber quando ele quer dizer algo importante, mas está sem coragem para isso. Tentei me concentrar nos papéis, porque eu não o pressionaria. Quando quisesse falar, eu estaria ali para escutar, porém, acabei deixando essa minha decisão de lado quando o ouvi soltar um suspiro alto. — Merda! Fala logo o que está te incomodando. — Minha voz sobressaiu, irritada. Joguei os papéis na mesa, pousei meus cotovelos sobre a mesma e alisei meu queixo o observando. Cooper girou a cadeira em trezentos e sessenta graus, quando voltou a ficar de frente para mim, respirou fundo e apontou para uma das pastas que estava sobre o teclado do


computador. Sem entender merda nenhuma, peguei a mesma em mãos e abri. Minha testa franziu ao perceber que tinha a logo da prefeitura na parte superior da folha. Comecei então, a ler o conteúdo extenso. — Filho da mãe! — Exclamei, completamente enfurecido. — É, as coisas não vão bem. — Cooper disse sério. — E agora? Joguei a pasta longe, não sabia o que fazer agora, porque Júnior Santurbano havia acabado de tirar o meu chão. De repente, foi como se toda a órbita da Terra houvesse parado de fazer o seu trabalho e meu peito, pesado por falta de oxigênio, começou a doer. Aquilo era pior do que qualquer soco que ele pudesse ter me deferido, aquilo era pior do que qualquer ofensa que pudesse ter me feito. Eu estava tão ferrado que cogitava a ideia de ir até a prefeitura e ferrar a cara dele também. Com minha licença de detetive caçada, eu não tinha como prosseguir com o caso de Kayla de forma legal. Tudo o que tive medo de acontecer, estava acontecendo. Diante da nova situação, as coisas iriam ficar ainda mais complicadas, mas nem por isso deixaria de fazer o meu trabalho e o prefeito iria se arrepender pelo o que havia feito. — E agora você terá que assumir a frente. — Disse, tentando manter a calma. Eu não daria o gostinho dele me ver desesperado. — Não vou poder estar aqui no escritório com você, nem ir atrás de informações importantes. Diacho, nem mesmo vou poder usar meu distintivo. — Você sabe que pode contar comigo para tudo. — Tentou me confortar. — Mas algo me diz que esses papéis não vão te impedir de fazer seu trabalho. — Não é apenas um trabalho. É a Kayla! — Esbravejei. — Quantos anos de cadeia posso pegar por matar o prefeito? — Nic, esfria a cabeça. — Cooper pediu, preocupado com meu modo de falar. Poucas coisas me tiravam do sério, mas estávamos falando de Júnior e se tratando dele, eu poderia cumprir com tudo o que falasse. — Precisamos avisar Kayla de que você está fora do caso. — Não! Ainda não! — Respirei fundo. — Ela já tem muitos problemas, acho que consigo levar adiante a investigação. — Sem dúvidas! Mas terá que tomar cuidado. — De fato. Aquilo tudo estava me deixando preocupado, mas pelo menos


ainda tinha Cooper para me ajudar. Assim, não sairia, de fato, do caso. O vi pegar uma de suas balinhas, desembrulhar e levar até a boca. Aquilo, para ele, era mais viciante do que qualquer outra droga. Existia também uma linha de expressão no meio da sua testa, suas pernas que, agora estavam cruzadas como as de uma madame, movimentavam sem parar em uma espécie de tique nervoso. Respirei fundo para tentar absorver a próxima bomba que ele iria soltar. — Cooper. — Chamei sua atenção, porque o mesmo estava absorto ao momento. — Nicolas, temos um outro problema. — Fala! — Esse é mais complicado. — Desembucha. — Pedi, quase sem paciência. Cooper pigarreou e raspou a garganta antes de coçar os cabelos de sua nuca. Se suas ações antes eram estranhas, aquelas ali eram o dobro. Já estava prestes a pegá-lo pelo colarinho da camisa e fazê-lo parar com aquela enrolação do caralho. — Lembra das pesquisas que fiz sobre a amiga de Kayla? — Yohanna? Lembro. — Dei de ombros ao perceber que esse era o assunto. Não que eu fosse um péssimo amigo, que não se importava com os sentimentos que ele poderia estar nutrindo pela moça, mas, convenhamos que naquele momento eu tinha assuntos mais importantes. — Puxei a árvore genealógica. Não vai acreditar em quem é a mãe dela. — Sua voz demonstrava que ele estava, realmente, surpreso e chocado com suas descobertas, então, decidi dar atenção ao assunto. — Só um minuto. — Pedi quando comecei a escutar meu celular tocar. Foi estranho porque havia o colocado no mudo, já que não queria ninguém atrapalhando nossas investigações e pesquisas, então fiquei meio perdido quando o ouvi tocar. Não demorei para perceber que não se tratava do meu celular particular, e sim, do celular do trabalho. Onde havia deixado instruções para que os seguranças da casa de Kayla me ligassem, caso qualquer coisa acontecesse. Procurei pelo o aparelho às pressas, havia algo em meu peito anunciando um mal presságio. Um sentimento de angústia me invadindo. Cooper me acompanhava com os olhos sem entender muito bem o que estava acontecendo, mas ao me ver atender o celular e ao


ouvir minhas palavras, levantou-se apressado e caminhou até a porta, parando apenas para me esperar vestir meu terno enquanto saía com ele do meu escritório e falava, ainda em ligação, com o segurança responsável por Kayla naquela noite.


Todo o movimento lá fora me assustava, mas não podia deixar meus medos transparecer em minhas ações. Passei pelo quarto de Nana e assim como imaginei, ela estava dormindo e alheia ao que acontecia. Tive pena por ter que acordá-la daquela maneira, lembrei que ela estava bem cansada quando se retirou e indisposta, mas não poderia deixa-la para trás. Andamos por entre os corredores que davam acesso ao porão, de lá tinha uma passagem que poderíamos usar para sair. Já não fazia aquele trajeto tinha anos. Era uma espécie de passagem secreta, ao menos para mim, já que a usava sempre quando queria fugir das paranoias da minha mãe. Do porão tínhamos acesso ao lado de fora da casa, perto das grades que eu sabia serem soltas. Podíamos sair por ali. Mas não foi exatamente assim que aconteceu. Reparei que em todo o percurso, a única realmente apavorada, era Nana. Hanna estava quieta e concentrada em alguma coisa em sua mente, pensei que ela estivesse traumatizada por conta do tiroteio. Mas até aí, ela já estava estranha antes de tudo isso começar. Quando entramos no porão, já não aguentava mais a curiosidade e resolvi questioná-la. Essa com toda certeza, foi a pior coisa que eu poderia ter feito. — Está tão quieta, Yohanna. Tudo bem? Sim, eu estava preocupada com ela, como não me preocupar? Eu a tinha como minha irmã. Ela apenas olhou-me com um sorriso travesso, um sorriso que fez meu semblante enrugar, completamente confusa com todas essas reações que Hanna mostrava. Era como se, de repente, eu não estivesse mais reconhecendo a mulher com quem cresci e dividi minha vida toda. Era uma completa estranha! — Muito bem, obrigada.


Sua resposta fez com que não apenas eu a estranhasse, mas Nana também. Respirei fundo, apenas tentando abstrair aquele momento de meus pensamentos, precisava tirar a gente daquele lugar antes de voltar a dar atenção para ela. Também notei que minha amada Nana estava um pouco mais pálida do que de costume, era algo muito preocupante, assim como todo o resto do momento. — Nana, e você, como se sente? Acendi a iluminação do lugar e as levei até a porta oposta do cômodo, Hanna já conhecia e bem aquela passagem. Por vezes, quando a chamava para passar a noite em minha casa, sempre era em segundas intenções. Éramos adolescente e adorávamos adrenalina no sangue, então era normal, ao menos para nós duas, fugir durante a madrugada e nos perder em alguma boate da cidade. — Lembro-me de que estava indisposta quando foi dormir, seu mal-estar passou? — Hanna também parecia interessada na saúde da minha governanta e segunda mãe. — Não sei, minha querida, mas sinto um cansaço horroroso e uma fadiga grande. Assim que ela terminou de responder, tive que me apressar para tentar segurá-la. Nana estava terrivelmente abatida e pálida. Ela já não era moça e eu sabia, mas ninguém poderia adoecer tão rapidamente assim, poderia? — Vou nos tirar daqui. — Disse, e em cada letra das minhas palavras eu suplicava para que ela ficasse bem e aguentasse firme. — Faz tempo que tem sentido esse cansaço, Nana? Assim que alcançamos a porta que nos levaria ao lado de fora, olhei na direção de Hanna e acenei com a cabeça pedindo para que abrisse a porta. Ela, sem esperar por mais algum pedido, fez exatamente isso. — Alguns dias. — Limitou-se a responder e percebi que até falar estava lhe exigindo muito. Quando saímos, meu coração quase saiu pela boca. Lá fora, o som das balas sendo disparadas e perdidas pelo quintal chegavam a ser ensurdecedores. Estava apoiando Nana a todo momento e por esse mesmo motivo, não podia tapar meus ouvidos para abafar o barulho. Hanna ia na frente, já sabia por onde passaríamos e não perdeu um minuto do seu tempo.


Na pressa, acabei não pegando meu celular e não fazia a menor ideia de como avisaria Nicolas do que estava acontecendo ou para onde estávamos indo. Nana tossiu e sua tosse fez com que caísse de joelhos ao chão. Acabei não suportando seu peso sozinha e fui junto dela. Sua mão estava na boca e a tosse permanecia ali, tentei levantá-la com toda a minha força, mas fiquei petrificada ao ver o sangue em sua mão. — Nana! — Exclamei, completamente apavorada. — O que você tem? Assustada, era assim que eu estava. Procurei por todo o seu corpo algum vestígio de que alguma bala perdida havia lhe acertado, mas ao não encontrar sangue em lugar nenhum, olhei-a confusa. Talvez, por estar nervosa não só com aquele sangue, mas com o tiroteio que acontecia do outro lado da propriedade, eu não tivesse conseguido perceber antes que aquele sangue havia saído de sua boca. — Meu Deus! — Respirei fundo, agora já estava ciente da origem do seu sangue. — Vem, precisamos sai daqui e irmos para o hospital. Nana não questionou, apenas escorou seu corpo pesado sobre o meu e me acompanhou até as grades do grande portão. Hanna? Eu já havia lhe perdido de vista e a conhecendo como eu a conhecia, ela deveria estar longe naquele momento. — Minha menina. — Nana falou com dificuldade. — Agora não, Nana! — Pedi, tentando fazê-la passar pela abertura do portão. Aquela mesma abertura que usei na vez em que sai do hospital e estava cheio de fotógrafos na porta de casa. Atravessei logo atrás dela e consegui ouvir vozes vindo em nossa direção. Olhei para trás em tempo de ver um dos meus seguranças tentar nos alcançar. Ele dizia alguma coisa que, por conta do barulho, eu não conseguia entender direito. Mas os gestos que ele fazia com seus braços, deixava claro que ele pedia para que eu voltasse, só não conseguia entender o porque eu deveria ir para o mesmo lado de onde estavam tentando me matar. — Kayla! — Um grito se fez presente. Olhei assustada para o carro que chegou de algum lugar e parou ao meu lado na calçada, era preto e seus vidros da mesma cor. Me segurei com força em Nana, já sentindo o mal pressagio bater em minha porta e


assim que a janela do carro foi aberta, reconheci Hanna lá dentro. — Yohanna! — Exclamei baixo com a testa franzida. A porta do carro fora destrancada, dentro, a visão dos infernos me apavorou. Dois homens de capuz e empunhados com armas desceram, seguraram em meus braços com força e tentaram me arrastar para dentro. Olhei para trás a procura do segurança que vinha em nossa direção, mas o mesmo estava caído no chão. Não parecia morto, mas tinha certeza que havia se ferido. Merda! Passei a gritar, espernear, mas tudo estava sendo em vão. Naquele momento, não estava conseguindo raciocinar direito, porque nem mesmo o fato de Yohanna estar sentada no banco da frente do veículo havia me chamado a atenção. Ela estaria sendo sequestrada também? — Me solta! — Gritei, pisei em seu pé e logo senti uma dor aguda na testa. O segundo homem havia me acertado com a armação do revólver. — Solta ela! — Nana, apesar de fraca, tentou me ajudar. Mas em nada adiantou, ela acabou por ganhar a mesma coisa que eu e pelo seu silêncio, eu soube que havia desmaiado. Claro, por ter mais idade e por estar doente, ela não resistiria a essa agressão. E aquilo... Ah, aquilo fez um ódio crescer em minhas veias e esparramar pelo meu sangue. — Droga! Seu imbecil! Olhei na direção do homem a qual havia acabado de escutar sua voz e enruguei meu cenho, eu conhecia aquela voz masculina, conhecia sim. De onde? — Pega essa velhota e joga no carro logo! — Ele esbravejou outra vez. Pisei no pé daquele que gritava ao meu ouvido e tentava a todo custo me manter cativa em seus braços, isso fez com que ele jogasse o corpo para o lado e praguejasse alto, enquanto seu comparsa jogava o corpo de Nana dentro do carro. Seus braços afrouxaram e eu fiquei dividida entre partir e ficar para ajudar Nana. Decidi que naquele momento, eu tinha que me salvar primeiro, para poder salvar ela depois. O empurrei para longe e comecei a correr. Yohanna gritava alguma coisa, sua voz foi ficando distante enquanto meus pés ganhavam o asfalto, tentando ir para algum lugar longe dali.


Os pneus do carro cantaram e alguns segundos depois, lá estava aquele automóvel dos infernos ao meu lado. Um dos homens abriu a porta e quando tentei me afastar, correr na direção oposta, ele me segurou pelos cabelos e me puxou para dentro. — Agora, fique quietinha. — Ordenou, amarrando meus pulsos e tornozelos logo em seguida. — Pé na tábua!


Capítulo 27

— Cadê ela? — Esbravejei. Cooper fazia a ronda ao redor da casa, enquanto eu estava buscando informação com um dos seguranças que vigiava a casa de Kayla no momento do atentado. — Almeida, eu não a vi sair dessa casa. Estive o tempo todo na linha de frente. — Henry respondeu apressado. — Ela não está na porra dessa casa, já olhei em cada canto e não vi um mísero sinal de Kayla. Me explica como ela poderia desaparecer assim? — Minha voz era rude, grossa, isso tudo porque eu me encontrava apavorado com a ideia de Kayla ter sido levada. — Tentei entrar assim que recebi sua ligação, mas não consegui me livrar da mira daqueles homens. Passei as mãos pelos cabelos exasperado, deixando meus sentimentos mais sufocantes virem à tona. Talvez, nunca alguém tivesse me visto daquela forma antes e eu não me importava nem um pouco. Queria a minha Kayla. Viva e bem, ou alguém ia ganhar uma passagem direto para o inferno. — Então não conseguiu afastar Yohanna dela? — Questionei frustrado. — Pedi para que o Russo fosse atrás delas. Merda! — E onde este homem está? — Olhei ao redor, guardando minha arma no cós da calça. Já não havia o porquê de estar empunhada dela, o tiroteio,


segundo Henry, havia acabado tinha alguns minutos. Só lamentava internamente não ter conseguido chegar antes. Antes que ele conseguisse me responder, nossa conversa fora interrompida bruscamente. — Nicolas? — Olhei na direção em que Cooper me chamava. — Russo está ferido. Respirei fundo tentando manter a calma que ameaçava fugir e corri na mesma direção que Cooper ia. Ao dar a volta na casa, me lembrei daquele lugar em questão, acho que Cooper lembrou-se do mesmo. Trocamos olhares silenciosos e me agachei para falar com Russo. — Viu ela? — Sim Almeida. — Respirou desajustado ao responder, suas mãos nas costelas e o sangue evidente, deixava claro que ele havia sido atingido por uma bala. — Chame a emergência, Henry. — Pedi quando o mesmo se aproximou. — Ande, me fale sobre ela. — Voltei minha atenção ao meu colega. — Saiu por entre algumas barras do portão — Respirei aliviado, isso significava que ela estava em algum lugar e talvez estivesse bem — aquela mulher idosa estava com ela — informou, deixando-me ainda mais aliviado —, mas não consegui impedir que ela fosse com aquela sua amiga. O alivio havia vindo cedo demais, agora estava com minha preocupação dobrada. Olhei para Cooper e o mesmo desculpava-se com o olhar, mas não poderia e nem iria culpa-lo de nada. Ele, definitivamente, não tinha culpa de nada. Quem iria imaginar que, aquela cobra peçonhenta estava desde sempre, armando aquele circo todo. Uma pena que Cooper só conseguiu as evidências tarde demais. — Amiga? — Ri sem humor, tirei meu terno e pressionei sobre a ferida do Russo, aquilo poderia ajudar a estancar um pouco do sangue. — Também vi um carro negro parar na beirada do acostamento e força-la a entrar, mas quando tentei correr para ajudá-la fui baleado e nem mais passo consegui dar. — Ele explicava-se. — Mantenha a calma e respire fundo! — Pedi, transtornado por suas palavras, mas sem deixar de tentar prestar socorro a um amigo. — Almeida — Henry chamou após desligar o celular. — A ambulância está a caminho.


— Okay, você acompanha o Russo e passa o relatório para os paramédicos, também quero que você avise ao tenente que... — Não vai precisar me avisar de nada. A voz forte e que eu conhecia tão bem, estava parada atrás de mim. Virei-me já sabendo que iria me deparar com ele e respirei fundo. — Um tiroteio? Em um condomínio de luxo? — Suas palavras eram grosseiras. — E uma licença caçada? Eu te avisei, Nicolas, avisei que estava andando em cordas bambas. — Ralhou. — Sua garota está sumida e você não tem nem ao menos a merda do distintivo para ir atrás dela. — Senhor... — Comecei a falar, mas me calei ao ver seu levantar de dedo. Como se não me bastasse todas as minhas preocupações com Kayla, com meu afastamento do trabalho, agora teria que ouvir os sermões dele. Ele olhou diretamente no cós da minha calça e revirou os olhos. Estendeu a mão esperando que eu lhe entregasse a merda do distintivo. Cooper, ao meu lado, parecia sentir toda a tensão que acontecia ali. Pelo amor! Não podíamos ter esse tipo de conversa outra hora? Minha Kayla estava desaparecida, será que só eu pensava nisso naquele momento? Tenente respirou fundo, direcionou seu olhar para Cooper que, até então estava calado observando e logo em seguida, olhou-me novamente. — Preciso passar o caso para a polícia local. — Ele informou. — De jeito nenhum. — Aumentei meu tom de voz. — Eu conheço bem o serviço deles, posso resolver isso sozinho e rápido. — Acha que uma ajuda não seria melhor? — Arqueou a sobrancelha. — Nicolas, o tenente tem razão. Toda ajuda é bem-vinda. — É não! — Respondi relutante. — Eu não deveria... — Balançou a cabeça. — Vou fingir que ainda não sei sobre a sua licença, Nicolas, isso pode te dar alguma vantagem. Sei que Cooper irá te ajudar, seu cabeça dura! Nós dois assentimos com a cabeça, eu não esperava que ele fosse fazer algo do tipo, mas mesmo não sendo muita coisa, já me ajudaria muito. Eu não entregaria Kayla a polícia, me recusava a fazer isso. Eles não dariam o devido valor ao caso e eu não queria nem imaginar por


tudo o que ela passaria até a polícia decidir agir. — Obrigado, senhor. — Apertamos as mãos. — Como sabia sobre isso e que eu estava aqui? — Passei por seu gabinete, Lucia me instruiu sobre tudo. — Claro! — Já deveria ter suspeitado sobre algo assim. — Só um minuto! Meu olhar caiu sobre o Russo, que agora estava sendo colocado sobre uma maca. A ambulância havia chegado e tentavam removê-lo dali para leva-lo ao hospital central, de certa forma, eu me sentia culpado por ele estar naquele estado, mesmo sabendo que esse tipo de coisa acontecia sempre em nossa profissão e de que, a todo momento estávamos expostos a esse tipo de perigo. — Russo, sobre o carro... — Nada vi, Almeida. — Lamentou-se. Passei a mão em meu queixo, sentindo-me meio perdido e sem saber o que fazer ou por onde começar. Olhei ao redor como se buscasse por uma luz, uma salvação, qualquer pista. Peguei meu celular e tentei ligar para ela, quem sabe Kayla tivesse lembrado de pegá-lo na correria. Mas após a terceira chamada cair na caixa postal, acabei concluindo que não, infelizmente, ela não havia pego o aparelho. — Nicolas? — Olhei para o tenente e o vi se aproximar, os paramédicos já estavam partindo com Russo e eu só conseguia pensar em uma maneira de encontrar Kayla. — Já revistou a casa? — Cada canto. — Respondi, sentindo um nó na boca do estômago. — Preciso partir antes que mais alguém veja que estou com você, senão, não conseguirei fingir que nada sei sobre sua licença caçada. — Eu entendo. — Respondi no automático, ainda olhando ao redor e buscando por alguma coisa. Nem mesmo percebi quando ele se foi, só me toquei que estava tempo demais com meu olhar vago quando senti a mão de Cooper pesar em meu ombro, como se me consolasse. — Desculpa por não descobrir a tempo. — Não é culpa sua. — Disse, ainda no automático. — Quem poderia imaginar que Yohanna é irmã de Kayla? — E uma psicopata brilhante. — O lembrei, sem ter um pingo de misericórdia em minha voz. — Estava o tempo todo jogando com


aquelas cartas idiotas, nem por um momento suspeitei de que fosse uma mulher. — O que pensa em fazer? — Agir. — Levei meus olhos até um canto escuro do portão, perto de onde eu havia deixado Kayla naquele dia em que ela havia acabado de sair do hospital.

— Consegue aproximar? Meus olhos, assim como os de Cooper, percorriam pela tela do monitor em busca de descobrir quem, além de Yohanna, havia levado Kayla. Para isso, precisei contar com a ajuda de uma amiga hacker que, mesmo estando no litoral, não pensou duas vezes quando recebeu minha ligação e foi ao nosso encontro de helicóptero. Quase duas horas depois, ela estava em minha casa, onde eu havia levado todas as fitas das câmeras de segurança. Carlos também estava lá, mas sabia que não podia se intrometer, então trancou-se em seu quarto. — Tirando a mulher, os outros dois usavam máscaras. — Mari informou. — Não vou conseguir uma identificação facial assim, mas posso tentar por alguma mancha no corpo. — Ela nem ao menos se preocupou em esconder o rosto, isso é um absurdo. — Cooper rolou os olhos. — Me sinto usado e minha vontade é de matá-la. — Depois que eu a matar você pode fazer isso. — Respondi, ainda prestando atenção no trabalho da Mari. Esse tempo todo Yohanna estava usando meu amigo apenas para ter notícias sobre como iam as investigações. Ela foi esperta, devo admitir, trabalhou astutamente nas cartas, nos enigmas, em tudo. Foi uma falsa perfeita. Nós quem cochilamos e não percebemos nada antes. Me sentia triste por Cooper, ele não merecia ter sido enganando, ainda mais ele, que já passava por altos perrengues com sua ex esposa. — Não pode ser mais rápida? — Cooper alfinetou. — Quer fazer você em meu lugar? — Ela revidou, isso fez com


que eu os olhasse por um momento. Estava sentindo uma vibe estranha entre eles. — Olha isso aqui! — Ela apontou para o monitor. — Parece ser uma tatuagem no braço esquerdo. Vou aproximar. Ficamos atento a sua descoberta, porque isso nos daria a identidade de um dos comparsas de Yohanna. Mari era muito profissional em seu trabalho e desde que me ajudou a pegar aqueles documentos no litoral, não havia tido contato com ela... Bem, eu não havia tido, porque Cooper precisou consulta-la mais algumas vezes para saber mais sobre aquela pasta. A maldita pasta que eu não havia tido tempo de ler todos os papéis que se encontravam nela. Deixei os dois na minha sala e fui correndo ao meu quarto, revirei meu guarda roupa, jogando tudo o que encontrava pelo chão, até que, enfim, a luz apareceu. Me envolver com Kayla não estava nos planos, e tanta coisa aconteceu depois disso que acabei me esquecendo dos pequenos detalhes. Abri a pasta e comecei a folhear os papéis que eu não havia visto antes, meus dedos alisavam a borda com uma certa grosseria. Comecei então a ler todo o conteúdo, cada palavra escrita, cada linha malformada, até que meu coração gelou e minha sanidade ameaçou ceder. Respirei fundo, quase amaçando os papéis e me juntei a eles na sala novamente. Na casa, só conseguia escutar os dedos de Mari digitando em seu notebook e os resmungos de Cooper por ela estar demorando tanto, quando ela levantou as mãos batendo palmas, dizendo que sabia quem era, eu fechei os olhos e joguei a pasta sobre onde ela trabalhava. A pasta onde dizia que André não era, em hipótese alguma, irmão de Kayla. — André Mendes! — Exclamei, preenchendo a linha de raciocínio dela. Cooper olhou-me assustado, como se esperasse que eu explicasse que ideia louca era aquela, mas a verdade, é que eu me encontrava puto comigo mesmo por ter deixado esses papéis para lá. Papéis que poderiam não ter feito sentido algum no começo, mas que agora estariam fazendo mais do que imaginávamos.


Capítulo 28

Meu sangue borbulhava em uma espécie de raiva, enquanto iam me conduzindo por entre uns corredores estreitos, escuros e fedidos. Aquela casa que, aparentemente, havia sido construída às pressas perto das proximidades do campo, deixava claro que alguém morava ali tempo o suficiente para transformá-la em uma casinha dos horrores. Ou talvez, estivesse deixando claro que alguém me odiava muito e que havia preparado tudo aquilo especialmente para mim. Nana ia ao meu lado, resmungando baixo por estar sentindo dor em algum lugar do corpo. Suas tosses estavam cada vez piores e a cada vez que tossia, um pouco de sangue acompanhava. Aquilo me deixava preocupada, porque sangue e tosse não deveria ser coisa boa. — Está tão quieta! Olhei na direção da voz que falava comigo, mas virei o rosto assim que nossos olhos se cruzaram. Por mais que eu estivesse tentando ser forte, nada no mundo iria me preparar para ver meu irmão como um sequestrador. Meu sequestrador. — Está esperando por gritos e pedidos de socorro? — Questionei sem humor. — Não vou fazer isso, cedo ou tarde Nicolas vai me encontrar. Disse confiante, fazendo-o sorrir de canto. Fui jogada sobre um colchão velho em um quarto pequeno. Nana fora jogada ao meu lado e isso fez com que, pela primeira vez, eu gritasse com ele, pedindo para que, pelo menos, tivesse mais respeito com ela. — Reze para que seu namoradinho te encontre logo, maninha. — Ele riu. — Ou vai acabar tendo o mesmo fim da sua mãe. — Nossa mãe! — O lembrei, mas André apenas riu um pouco


mais. — Isabella nunca foi minha mãe, Kayla. Nunca se comportou como uma, nunca agiu. — Sei bem do que está falando. — Tive que concordar com ele. — Não, você apenas pensa que sabe, mas aqui, você é a que sabe menos. Abracei Nana com força e a fiz apoiar sua cabeça em meu colo, seu estado estava me deixando nervosa, porque sentia que sua saúde estava escassa e que por estar fraca, a qualquer momento poderia desmaiar. Ela mal conseguia segurar seu próprio corpo ou falar alguma coisa, não conseguia entender o que havia acontecido com ela nesse curto período de tempo para que adoecesse assim, do nada. De repente, sons de passos chegara até nós e não demorou para que os donos aparecessem. Ainda estava tentando entender o porque de Yohanna estar sendo cúmplice daqueles loucos, visto que, já estava mais do que na cara que o malfeitor era meu próprio irmão. Nicolas tinha razão, não devemos confiar em ninguém, porque antes ser surpreendido do que decepcionado. E eu estava decepcionada. Decepcionada com André, comigo mesma por não ter desconfiado de nada antes. Digo, ele estava atolado em contas, devendo até o cú das calças, claro que só poderia ser ele me ameaçando. Quem mais poderia ou teria motivos para querer tirar tudo o que é meu? — Seu imbecil, porque tirou a máscara? — Yohanna ralhou. Tinha uma pulga da curiosidade mordendo logo atrás da minha orelha, eu só não estava pronta para saber o porque deles estarem fazendo tudo aquilo e o porque dela, justamente ela, estar envolvida nisso. — Deixa de ser tola Yohanna, ela reconheceria meus olhos em qualquer lugar. — André respondeu simplesmente, deu de ombros e caminhou até uma mesa pequena que estava na extremidade oposta do pequeno cômodo. — Alguém vai explicar para elas ou não? — Não a ouvi pedir por explicações. — Hanna sorriu de canto, humorada. — Kayla é muito corajosa e orgulhosa para isso. Arqueei a sobrancelha e dei de ombros, não querendo ouvir nada que poderia sair daquela boca suja. Ao seu lado, havia outro homem e eu o reconhecia apesar de estar com o rosto escondido por uma máscara.


Ele estava junto deles quando me abordaram na rua e me jogaram naquele maldito carro, além do mais, seus olhos também me lembravam outro momento. Fiquei pensando por alguns minutos, tentando me recordar daqueles olhos, foi então que a ficha caiu. Era ele, o homem que me desacordou no estacionamento da boate. Apenas respirei fundo, tentando me controlar e não ficar mais nervosa do que já estava. Tudo o que estava acontecendo me dava medo, mas eu não queria que eles vissem isso. Logo a minha frente, Yohanna estava incomodada, queria a minha atenção para contar o que estava acontecendo, mas em uma coisa ela tinha razão: Eu era orgulhosa demais. — Anda logo, Yohanna, sei que quer contar. Kayla não vai pedir ou implorar, até parece que não a conhece. Respirei fundo ouvindo-os discutir sobre se deveriam contar ou não o que estava acontecendo, e alisei os cabelos da minha Nana que lutava a todo custo para não fechar os olhos. Aproveitei a discussão de ambos para cochichar em seus ouvidos: — Vamos ficar bem, Nana. — A confortei, ela mexeu-se desconfortável sobre meu colo e respondeu tão baixo que pensei ter imaginado. — Não vamos não, minha menina. Eu pelo menos não vou. — Não diga isso, por favor, — Supliquei com os olhos marejados. — Querida, devia ter te contado antes. — Ela sorriu triste e olhoume com carinho e receio. — Isso não estaria acontecendo hoje se você soubesse a verdade. — Do que está falando, Nana? — Enruguei a testa, limpando algumas lágrimas que escorriam em meu rosto. — De Yohanna, minha menina. Vocês são irmãs por parte de mãe. — Ela confessou. Levei meus olhos até Hanna, que ainda discutia com André sobre alguma coisa e voltei meu olhar para Nana. Umedeci os lábios mantendo a testa franzida e respirei fundo sentindo meu coração acelerar de uma forma que jamais havia feito. — Como assim? — Sussurrei descrente, olhei novamente para Hanna e talvez, somente ali, naquele momento, eu houvesse me dado conta de que ela era muito parecida com Isabella. Os cabelos, os olhos, o corpo, o jeito de falar e andar, até mesmo a


forma fútil como tratava algumas pessoas, mas sempre pensei que isso era coisa dela ou de alguém que tentava a todo custo se parecer com seu ídolo. Porque era assim que ela via minha mãe, não era? Como um espelho que ela queria fazer exatamente igual. Como ela poderia ser filha de Isabella? Como poderia ser minha irmã? Nana tossiu, tirando-me de meus devaneios e me acordando para uma realidade que eu estava tentando, a todo custo, não enxergar ou aceitar. Me sentia tão perdida, confusa, sem saber o que acontecia ao meu redor que não consegui mais manter meu orgulho, nem a pose de esnobe. Eu precisava saber toda a verdade e Nana não iria me contar, ela até tentaria, mas sua falta de energia não permitiria isso. — Alguém... — Falei alto, chamando a atenção deles. — Pode dizer, que merda está acontecendo aqui? Yohanna sorriu satisfeita com minha pergunta, como se estivesse aguardando por isso sua vida toda, o que de alguma forma, eu suspeitava que estivesse mesmo. Caminhou em minha direção, sentou no chão a minha frente, olhou para Nana de uma forma fria e calculista, em seguida, voltou sua atenção para mim. — Enfim você pediu, maninha. — Ela voltou a olhar para Nana quando a mesma tossiu, mas toda vez que ela a olhava, era como se estivesse possuída por alguma coisa ruim. Havia ódio em seu olhar, raiva... — Antes de você começar, será que poderia trazer água para ela? — Pedi, mas suplicaria se precisasse. Nana precisava se hidratar. — De jeito nenhum, deixe essa velha morrer. — Não fale assim com ela, Hanna. — Esbravejei. — Traga a merda de um copo de água. — Me exaltei, sentindo a mão de Nana apertar minha coxa da perna. — Minha menina, não se preocupe comigo. — Viu? — Yohanna riu. — Nana está morrendo aos poucos, um copo de água não será o suficiente para salvá-la. — O que quer dizer com isso? — Enruguei a testa e olhei para Nana, vendo-a cada vez mais branca. — Sua querida Nana sabe da verdade, de todas elas e sabe desde sempre. — Ela sorriu estranho. — Enquanto você estava com seu amado detetive na casa do campo, eu fiz algumas visitas para Nana, não é mesmo, querida?


Vê-la falar daquela forma com Nana fez um nó nascer na boca do meu estômago, um frio percorrer e assolar cada poro do meu corpo. Balancei a cabeça, ainda sem entender onde Hanna queria chegar e a ouvi suspirar exasperado. — Coloquei um pouco de veneno no suco dela. — Arregalei os olhos, atordoada com tal informação. — Não faça essa cara, Kayla, estou te livrando de uma cobrinha. — A única que vejo aqui, é você! — Exclamei repudiada. Abracei Nana anda mais forte e comecei a questioná-la. — Porque não me contou sobre a visita de Yohanna, Nana? Porque? — Minha menina... — Ela chorava baixinho. — Ela sempre foi de ir até mim quando queria me ameaçar, ou perturbar, não imaginei que ela iria mesmo cumprir suas ameaças. — Respondeu com dificuldades. — Nana... — Beijei sua testa, sentindo uma dor inigualável em meu peito. — Você vai ficar bem. — Não vai, não. — Hanna sorriu e tentou passar a mão em meu rosto, mas desvencilhei. — Já te contei sobre minha mãe, não contei, Kayla? Tentei dar de ombros para fingir que não sabia do que ela estava falando, mas isso a irritou. Hanna ergueu a mão e esperou para que o homem de capuz e máscara lhe entregasse uma faca. Eu entendi o recado, mas estava em choque. Hanna podia ter milhões de defeitos, mas nunca imaginei... nunca pensei que teria a mente de um psicopata. — Tem um veneno de cobra na lâmina da faca. — Ela informou. — Primeiro, ele vai petrificar seu corpo aos poucos, depois, quando paralisar por completo, o veneno vai agir em suas correntes sanguíneas levando-a a morte. Entendeu? Afirmei com a cabeça, mantendo meu queixo erguido. — Você é minha irmã, Yohanna, isso eu já entendi. Agora me explica o teatro. Ao fundo, André riu baixo, não o suficiente para que nós não o ouvíssemos. Ao receber um olhar demoníaco de Yohanna, revirou os olhos e levantou sem paciência indo ficar ao lado do homem de máscara. Esse homem que eu ainda não havia conseguido saber quem era. — Vamos do início. — Ela disse, como se puxasse na memória todas as lembranças. — Que minha mãe abandonou meu pai e a mim por causa de outro homem você já sabe.


— E que essa mãe é a minha, também já entendi. — Se tinha uma coisa na qual eu odiava muito, era enrolação. — Sim. Nunca entendi o porque dela ter me abandonado, mas ter ficado com você, Kayla... uma mãe não abandona um filho pelo outro. — Tá ressentida, amiga? — Fui irônica. — Entra na fila dos filhos que não teve uma boa mãe. — Pelo menos você a teve, Kayla. — Esbravejou com raiva. — Ela não te rejeitou, não te abandonou e nem te trocou por outra família. — Culpa exclusiva do seu pai. — Revidei. — Bebia demais, na verdade, ele ainda bebe. Yohanna semicerrou seus olhos e me observou, me mantive quieta, olhando para todos os cantos, menos para ela. Agora, aquela conversa estranha que tivemos quando ela chegou em minha casa estava começando a fazer sentido. Por isso ela estava se lembrando de Isabella, porque ela era a sua mãe. Isso era muita loucura! — Podia ter me levado junto dela. — Ela disse, parecendo magoada. Mas que raios de culpa eu tinha nisso tudo? — Yohanna, vou ser bem sincera, não sei o que te levou a ser cúmplice do meu irmão, mas eu não tenho culpa nenhuma do que Isabella fez a você. Além do mais, se ela tinha um débito contigo, já saldou quando morreu. — Falei séria, para que ela entendesse que em momento algum eu era a favor de Isabella, até porque, não havia mesmo motivos plausíveis para se abandonar uma filha. Apesar de que eu sempre suspeitei de que Isabella nunca quis ser mãe. Yohanna começou a rir escandalosamente, daquele típico jeito sinistro que os personagens de filmes e livros costumam rir quando vão falar algo ruim. Olhei na direção de André e ele balançava a cabeça em negativa, mas sua expressão ainda era séria. Ele já não tinha aquele brilho nos olhos de quando criança, confesso que, nos últimos tempos, eu estava sendo uma péssima irmã. Talvez isso tenha o ajudado a fazer o que estava fazendo, afinal, eu tinha como ajudá-lo a saldar suas dívidas, o que eu não tinha, era vontade para isso. Ele afastou-se de mim, deixando-me sozinha quando mais precisei de uma família e ele era o único que havia me restado. Mas André... ele não se importou com isso. Não se importou com nada. Gastou seu dinheiro em bebidas, mulheres, carros... Levou sua vida para o fundo do poço e que saísse de lá sozinho. Porque eu o


ajudaria se ele foi o primeiro a virar as costas para mim? — Em primeiro lugar, André não é seu irmão de sangue. — Ela parecia feliz em falar isso, parecia muito satisfeita em me deixar confusa. — André foi adotado assim que nossa mãe casou com seu pai. — Isso é verdade? — Olhei para ele e o mesmo afirmou com a cabeça. — Porque só estou sabendo disso agora? Não faz sentido algum. Nada disso faz! — Exclamei levantado os braços e mostrando tudo ao nosso redor. — Acompanha minha linha de raciocínio. — Ela colocou a ponta da faca sobre a minha coxa, fazendo-me prender a respiração por alguns segundos. Na minha mente, a palavra “perigo” piscava incansavelmente enquanto ela destilava todo o seu veneno em nossa conversa. — [...] Depois de muito pensar, cheguei na conclusão de que, quando nossa mãe me abandonou ela estava completamente apaixonada pelo seu pai. — Parou por um breve segundo e prosseguiu: — Assim, como ela também nunca foi chegada a ser mãe, usou isso como desculpa para fugir dessa responsabilidade. — Então porque ela adotaria o André? — Porque seu pai a obrigou, assim como a obrigou a lhe dar um filho de sangue. — Ah, isso é história da carochinha. — Bufei. Em meu colo, Nana respirou fundo balançando a cabeça em negativa. — A velhota não me deixa mentir, não é mesmo? — Yohanna falou, sorrindo. — Kayla, o que ela está falando é a verdade, minha menina, seja forte! — Nana tossiu. Respirei com dificuldade e pedi para que Nana não ousasse falar mais nada, ela tinha que descansar o máximo que podia, assim daria tempo de Nicolas chegar, nos salvar e eu poderia leva-la para o hospital. Olhei para Yohanna e fiz gestos para que ela continuasse com sua explicação. — Eu só queria uma mãe, Kayla. Pensa que não tentei me aproximar dela? Fiz de tudo para agradar essa mulher, mas ainda assim, fui privada de tudo o que você teve. — Então... Isabella sabia o tempo todo que você era filha dela? — Questionei perplexa.


Sempre afirmei não só para mim mesma, mas para muitos que Isabella era um monstro criado, só não imaginava que ela era pior do que isso. Abandonar a filha com o pai, saber que ela estava ao seu lado diariamente e a tratar como se não passasse de uma coleguinha da sua filha. Porque que comigo foi diferente? Meu Deus! Eu só conseguia ficar ainda mais confusa. — Sim — Respondeu em fúria. — Mas sempre quando eu tentava me aproximar, ela me ameaçava. Dizia que se não parasse mudaria do país, para longe. E a única coisa que eu queria, era estar perto dela, mesmo que não fosse como sua filha. Isso era loucura, como podia amar tanto assim Isabella? Eu estava perplexa quanto a isso, acho que por não ter crescido com ela a fazia ficar cega ao ponto de não perceber o quanto Isabella era ruim. — E a culpa é minha? Eu lamento por tudo o que ela fez, lamento pelas dores que te causou, mas por que eu estou pagando por isso? — Indaguei perplexa. Yohanna me encarou com seu olhar duro, a testa franzida deixava claro que ela estava pensando em alguma coisa. Por um momento, senti medo. Já não conhecia essa mulher a minha frente, não sabia do que era capaz. — Porque ela te quis. — Respondeu simplesmente. — Sabe, estou me lembrando de uma coisa superengraçada que você falou quando chegamos aqui. Levantou-se, caminhou de um lado para o outro e depois coçou o queixo com o cabo da faca. Eu não me lembrava de nada engraçado que eu pudesse ter falado, porque não tinha nada de engraçado acontecendo ali. Foi então que Yohanna começou a falar. — Está mesmo pensando que o André seria capaz de ser seu malfeitor? — Eu estava. — Enruguei o cenho. — Vendo você falar assim já começo a duvidar. Ela sorriu de canto e parou de frente para mim. — Eu sou a anônima por trás das cartas. Eu planejei tudo isso, só precisei de ajuda para fazer o serviço pesado. — Olhou para seus amigos do crime e voltou a falar. — A parte física deixei com eles, agora, a emocional, a psicológica, o lugar que preparei especialmente para você e todo o resto, foi eu. Apesar de você se mostrar inabalável com as cartas, eu sabia que elas estavam mexendo com você.


— [...] Mas aí você contratou o detetive e me senti irritada. Tive que agir. Tive que te fazer ver no que estava se metendo e ainda assim, seu detetive não parou. Você nem imagina o quanto isso me irritou. Desejei ver você morta o mais rápido possível e o pior foi quando vocês se enfiaram na casa de campo, quase descobriram tudo! — Então aquela carta... — Sim, era na intenção de fazer vocês voltarem para a cidade, irmãzinha. — Sorriu debochado. Não podia acreditar que Nicolas tinha razão, ela havia mandado a carta na intenção de me fazer voltar para a cidade, assim não descobriria a cabana no meio da floresta. Em todo caso, isso não havia acontecido, não havíamos explorado a propriedade. — Yohanna, que culpa eu tive nisso tudo para estar merecendo tanto ódio assim? Não consigo entender como você pode amar Isabella e me odiar. Não tem lógica nenhuma! — Você não teve culpa nenhuma, a culpa foi da nossa mãe, mas dela eu já cuidei. Um zumbido passou pelos meus ouvidos quando suas palavras se fizeram presentes pelo lugar, levei minhas mãos até a boca, em total surpresa e sem ter reação alguma para o que ela havia acabado de falar. — Você... Yohanna, você...? — Não pode ser... — Nana sussurrou choramingando. — Sim, querida irmã. A resposta é sim. — Sorriu largo. — Agora vou cuidar de você.


Capítulo 29

Agora tudo parecia fazer sentido, as pontas soltas estavam, finalmente, se encaixando. Deixei Mari encarregada de descobrir a placa do carro que levou Kayla e Nana, enquanto Cooper e eu íamos até nosso escritório para pegar nossas armas. Eu não teria o mesmo apoio que costumava ter da polícia quando acontecia esse tipo de coisa, então teríamos que agir sozinhos. Eu estava cego de ódio e raiva, tudo na minha frente era vermelho de sangue e se eu pudesse, e eu iria poder, mataria todos os desgraçados que estavam fazendo mal a minha Kayla. Cooper parecia preocupado com o meu silêncio, mas não falou nada. Meu carro rodava pelas ruas da cidade parecendo um trem bala, tinha pressa em acha-las. Pressa em ter Kayla em meus braços salva. Não queria imaginá-la com medo, porque eu sabia bem o quanto ela era forte, mas também sabia que, infelizmente, tudo aquilo era uma fachada. Kayla era mais vulnerável do que aparentava ser. — Nicolas. — Cooper chamou minha atenção quando saímos do carro. Na vaga ao lado, um conversível preto estava estacionado e um aperto no meu peito, assim como um ódio inconfundível estava tomando conta de todas as minhas ações. — Tenta se controlar. — Ele pediu, sabendo que devido aos recentes acontecimentos, encontrar com o prefeito poderia significar seu fim a dez palmos abaixo da terra. Quando adentrei meu estabelecimento, o vi sentado com suas pernas cruzadas e um sorriso cínico nos lábios. Passei direto por ele,


tentando fazer o que meu amigo aconselhou, mas o infeliz se levantou mais do que depressa e foi atrás de mim. — Que pressa é essa, detetive? — Sua voz esganiçada ressoou ao fundo. — Até aonde sei, você nem ao menos um emprego tem mais. Parei o que estava fazendo e o olhei de uma maneira que jamais olhei para alguém na vida. Eu odiava por muitos motivos, mas ali, naquele momento, eu precisava de apenas um para quebrar sua cara. — Não é um bom momento, Júnior. — Cooper tentou avisá-lo, enquanto eu ia até meu armário de bebidas e abria o compartimento das armas pequenas. — Ao contrário, Cooper, o momento é muito propício. — Respondi, empunhando uma arma e conferindo as balas. Júnior arregalou os olhos, mas não fez menção de que fosse embora. Como ele estava paralisado no mesmo lugar, sem falar ou fazer alguma coisa, imaginei que a arma em minha mão tivesse o assustando e acabei sorrindo ao constatar isso. — Respira prefeito, as balas não são para você. — O informei. Sai com Cooper logo atrás de mim, e mais ao fundo, o prefeito tentava nos alcançar enquanto nos dirigia algumas palavras que eu não fazia questão alguma de entender. Destravei meu carro, mas não pude entrar já que Júnior se colocou em minha frente, com uma careta desprezível. — As balas não são para você, mas não vai fazer falta uma ou duas. — O alertei. — Sua licença foi caçada. — Engoliu em seco. — Não pode estar em posse de uma arma. — Escuta aqui... — O peguei pelo colarinho e o prensei contra a porta do carro. Cooper ficou parado ao lado da porta de passageiro, nos olhando com atenção para averiguar de que nada muito grave aconteceria. — Kayla e Nana acabaram de ser sequestradas, estou furioso porque descobri que o malfeitor que a ameaçava por cartas anônimas não é você e estou mais furioso ainda por ter sido enganado por uma mulher. Também não estou contente com a minha licença de detetive caçada e com toda a certeza do mundo, não estou nada contente em te ver. Agora, se não quer uma bala no seu traseiro, e não duvide que eu a meta lá, é melhor se afastar. Minha alma parecia estar sendo lavada, mas a verdade era que faltava muito para isso. Minha rixa com Júnior vinha de outros


carnavais, de outras épocas, então apenas ameaça-lo jamais me deixaria completamente feliz. Era muito pouco para ele. O soltei para que abrisse passagem e assim que ele o fez, abri minha porta entrando no carro logo em seguida, pensei que ele houvesse entendido o recado sobre se afastar, mas ao vê-lo pendurado na porta do meu carro me fez mudar de ideia. — Júnior! — Estava no auge do meu mal humor e pronto para furar cada espaço da bunda dele. — Nicolas, se Kayla está em perigo eu quero ajudar. — Ah, você quer ajudar? — Ironizei, mas o prefeito manteve-se sério e não parecia oscilar em sua decisão. Ao meu lado, Cooper fez um barulho estranho e ao olhá-lo pude ver o exato momento que rolava os olhos e atendia o celular. — Só um momento. — Pediu e deu atenção para mim, — Nicolas, sei que vocês dois não são os melhores amigos do mundo, mas cada segundo que passa é uma chance da Kayla e sua governanta estar ferida. Toda ajuda é bem-vinda. Bufei, porque sabia que ele tinha razão, mas me custava em aceitar a ajuda do Júnior, ainda mais dele. Tinha que ser ele? — Okay, Júnior, mas vale lembrar de que estou armado. Ele sorriu, levantando os braços em rendição, esperei que ele entrasse no carro e dei partida, fazendo o pneu cantar enquanto o carro corria pelas ruas da cidade.


Vencida pelo cansaço, Nana dormia em meu colo enquanto sua nuca, assim como sua testa, minava suor. Passei a mão pelo seu rosto várias vezes, apenas para me certificar de que ela não estava com febre e, apesar da nossa situação, Nana parecia aguentar firme e forte. Eu estava chocada emocionalmente, destruída e tentando não desmontar a qualquer momento. Hanna havia admitido coisas horríveis para mim, coisas que eu não desejaria nem ao meu pior inimigo, que naquele momento, era ela mesma. Estava o tempo todo se fazendo de amiga, fingindo ser quem não era, apenas para me fazer mal. Isabella estava longe de entrar na lista das melhores mães do mundo, mas nada justificava tirar sua vida. Teria que ter um sangue frio e ser muito doente para isso. E Hanna era. Uma psicopata calculista e fria, que conseguiu enganar a todos com aquele jeito ignorante e fútil. André estava com ela nessa e isso o fazia ser tão desprezível quanto ela, tão repugnante e nojento. Ele não era meu irmão de sangue, mas os anos que passamos juntos, como se fôssemos, pensei que tivessem valido mais. — Sempre tão quieta. Olhei em direção da porta, era de onde a voz havia vindo, mas não sustentei meu olhar para ele. Voltei minha atenção aos cabelos de Nana, deixei meus dedos alisarem e fazerem carinho. Eu não queria conversar com André, não depois de tudo o que havia escutado Yohanna falar. — Lamento! — Eu também. — Respondi, ressentida. — Quer conversar? — Com o meu sequestrador? — O olhei de sobrancelha arqueada. — Isso é ridículo!


— Não quer nem ouvir minhas explicações? — Ele aproximou-se. — Não existe nenhuma capaz de fazer tudo isso aqui ter algum sentido. — Respirei fundo. Estávamos apenas nós três naquele pequeno quarto imundo. Yohanna e seu outro comparsa haviam saído, não sabia o que exatamente eles haviam ido fazer, mas já tinha entendido que não era boa coisa. André havia ficado para vigiar, como se em algum momento eu tivesse pensado em fugir. Nicolas iria nos encontrar, iria nos salvar, eu não duvidava disso. — Seu pai me adotou porque sentiu necessidade de saldar sua dívida. — Não estou interessada no... — Meus verdadeiros pais morreram por culpa dele. — Isso é mentira! — Exclamei irritada. — Meu pai era um homem bom, André. Você sabe disso! Não tente manchar a imagem dele. — Tem que aceitar a verdade, Kayla. Ele era um homem de negócios e fazia tudo por dinheiro. Era ambicioso, assim como Isabella. — Ele estava sério, mas nada do que saía da sua boca poderia fazer algum sentido para mim. Eu sempre soube que meu pai levava seus negócios muito a sério, que colocava o trabalho acima de qualquer pessoa, mas não mataria ninguém por causa disso. Eu cresci com ele, vivi a minha vida toda ao seu lado, sabia exatamente qual era a sua personalidade e passava longe de ser um assassino calculista. — Ele não era assim! — Minha voz saiu irritadiça outra vez. André balançou a cabeça em negativa, sabendo que ele poderia dizer o que quisesse, eu jamais iria acreditar em suas palavras. Ele queria me desestabilizar, queria me angustiar, me deixar nervosa e com raiva. Eu não daria esse gostinho a ele. A nenhum deles. — Ele cuidou de você, te deu casa, escola, faculdade, te sustentou e pagou todas as suas ostentações. — Sussurrei, quase sem voz. Eu não iria conseguir resistir, lembrar do meu pai fazia as lágrimas virem com força. — Porque ele mataria sua família e te daria o mundo depois? — Culpa? Ressentimento? — Ele riu sem humor. — Pense o que quiser sobre ele, no fundo você sabe a verdade. André olhou o relógio em seu pulso, depois deu uma olhada nas amarrações em meus pulsos e tornozelos. Parecia estar incomodado com


alguma coisa e eu até queria saber com o que, mas não perguntaria nada a ele. — Como? — Questionei o olhando. — Como aconteceu? André sorriu torto. — Nossos pais eram sócios, eu tinha uns seis anos quando tudo aconteceu. A empresa ia bem, tudo ia bem, inclusive. Só que algumas contas começaram a não bater, as planilhas mostravam desfalques e a empresa perdeu milhões em questão de meses. — Ele fez uma pausa. — Seu pai, como sócio, ofereceu ajuda. Quis comprar a parte dos meus pais e conseguiu. Comprou a um preço de banana. Alegou de que não teria como salvar a empresa e de que ninguém pagaria nela mais do que ele estava oferecendo. — Seus pais venderam e depois de dois meses, meu pai conseguiu levantar a empresa. — Completei sua explicação, porque eu já havia ouvido meu pai falar sobre isso. André assentiu, parecendo surpreso por eu saber sobre isso. — André, seus pais eram Elisa e Tom Cavalcante? — Então já ouviu falar deles? — Sorriu de lado. Levei minhas mãos amarradas até a nuca e a cocei. Deixei minha cabeça tombar para trás e puxei nas lembranças tudo o que sabia sobre esse assunto. Não era muito, porque meu pai nunca foi de falar sobre essas coisas comigo. Quando meu pai conseguiu reerguer a empresa, ele ia esperar por mais um ou dois meses para chamar Tom ao seu antigo posto como sócio, mas então, em um determinado dia chegou a notícia de que Tom e Elisa haviam morrido em um acidente de carro. Eu não sabia que eles tinham um filho, muito menos que se tratava de André. Acho que no fundo ele tinha razão, meu pai o adotou por pena e culpa, mas isso não o fazia responsável pela morte de seus pais. — Sim, meu pai contou o que aconteceu. — Pela primeira vez desde que todo esse show começou, olhei para André com carinho. — Mas como pode dizer que ele os matou? Seus pais morreram em um acidente de carro. — Estavam indo ver se pai quando isso aconteceu. — Fiquei em silêncio, não havia palavras contra aquilo. — Me deixaram em casa com uma babá e prometeram que me levaria ao circo quando chegassem, mas eles nunca chegaram. Meus olhos voltaram a se encher de lágrimas, porque conseguia imaginar ele, pequeno, esperando pelo seus pais. Esperando que eles


chegassem para cumprir o que prometeram. — Quando seu pai soube o que havia acontecido, decidiu que deveria me adotar. Cuidar de mim em memória deles. — Um riso sem humor escapou pelo seu nariz. — Decidiu fazer isso depois de acabar com a minha vida. — Isso explica muita coisa. — Falei me lembrando do quanto a adolescência dele havia sido difícil. André sempre foi muito rebelde. — Mas não explica nada disso aqui. Pelo amor de Deus! — Kayla, você sabe o que é estar apaixonado. — Disse, como se estivesse se desculpando. — Então está fazendo isso porque ama Yohanna e não necessariamente, por me odiar? — Indaguei confusa. — Eu não te odeio, Kayla. Nunca odiei. Você não é responsável pelos atos do seu pai. — Yohanna não pensa assim. — Franzia testa, — Ela está doente. Cega. — Passou as mãos pelos cabelos, exasperado. — Você precisa saber quem é o outro mascarado. — Não sei se quero, já tive decepções demais para uma noite só. — Falei com sinceridade. — Mas precisa, e também precisa tentar fugir, não pode esperar que seu super-herói venha te salvar. — Ele vai vir. — Kayla, Yohanna pretende colocar fogo na casa e eliminar qualquer vestígio de que estivemos aqui. O encarei por alguns segundos, tentando digerir suas palavras que haviam ganhado algum significado. Se antes não sabia onde Yohanna havia ido, agora já tinha uma noção. Quando chegamos pude perceber que estávamos na floresta ao fundo da minha casa de campo, não era uma floresta extensa ou muito fechada, mas ninguém frequentava ali porque era parte da minha propriedade. Não me lembrava de ter uma cabana ali, mas ao que parecia, ela havia sido construída às pressas e de qualquer jeito, também já havia reparado de que tinham a deixado em péssimo estado de propósito. Respirei fundo sentindo a pele fria de Nana sobre minha coxa, ela estava tão quieta, tão imóvel... Agora eu iria saber o responsável por ter me mandado para o hospital algumas semanas atrás. Olhei para André e juntando todas as


forças que pensei não ter, fiz a pergunta que não queria se calar. — O outro com máscara... Quem é ele?


Capítulo 30

Cooper conversava com Mari ao celular enquanto dava instruções de como chegar até Kayla. Nossa querida hacker já havia conseguido pegar a placa do carro, através da mesma câmera de segurança que usamos para identificar os sequestradores, que no caso, apenas um tinha nos dado sua identidade. O outro, apesar de não aparecer muito nas imagens, fazia meu senso de detetive apitar, deixando leves índices de quem poderia ser, mas isso era apenas suposições da minha cabeça, então me mantive quieto e concentrado no que realmente era importante. — Não vão pedir ajuda? Algum reforço? — Júnior balbuciou do banco detrás. — Eu até queria, mas tive minha licença caçada. — Respondi com desprezo. — Isso me deixa sem autoridade para ter acesso a um reforço. — Cooper não pode pedir? — Seu tom era de desdém. — Cooper já fez isso. — Troquei a marcha do carro. — Só que eu não tenho a mesma autoridade que Nícolas, então não espere que o reforço apareça rápido. — Cooper comentou com desgosto. O fato era que havia acontecido umas coisas com ele dentro do departamento de polícia, e por esse motivo, quando ele acionava ajuda, ninguém dava muita moral. Não o levavam a sério, apesar de sempre fazer seu trabalho bem. Alguns anos atrás ele teve problemas com um dos cadetes e armaram para ele, agora, mesmo tendo provado sua honestidade, eles não o levam a sério. Mas isso é assunto e história para outra hora.


— Estou mandando as coordenadas para seu gps, Nicolas. Ouvi a voz de Mari no viva voz do celular e conferi as informações que estava recebendo. Meu semblante endureceu, fazendome apertar ainda mais as mãos em volta do volante. Eles estavam no lugar mais óbvio, o lugar onde por ser tão óbvio, ninguém se preocuparia em procurar ou pensar nele, eu me sentia enganado pela segunda vez no dia. — Eu sei aonde fica. — Informei, metendo o pé no acelerador.

A floresta ficava bem ao fundo da propriedade, tentei manter todos em silêncio enquanto íamos andando até o local. Preferi assim, já que o barulho do carro poderia alertá-los de que alguém havia chegado e eu queria pegá-los de surpresa. — Olha! — Cooper chamou minha atenção. — São galões de gasolina. — E são muitos. — Respondi pensativo, talvez Yohanna estivesse querendo fazer uma loucura. — Acha que pretendem incendiar tudo aqui? — O prefeito cochichou. — Provavelmente. — Respirei fundo, paramos a alguns metros da cabana e mesmo tendo pouca iluminação por conta do horário, podia perceber algumas sombras andando pela entrada. — Tudo bem, vamos ter que nos separar e cada um vai ficar encarregado de uma coisa. — Nicolas, posso acionar os bombeiros? — Cooper parecia preocupado. — Deve, os bombeiros mais próximos estão um pouco longe e podem demorar a chegar. — Olhei para Júnior e passei uma arma para ele. — A mulher que amo está lá dentro, um vacilo e você vai visitar satanás mais cedo. — Você é sempre tão carinhoso assim? — Sorriu cínico, pegando a arma da minha mão. — Também a amo, detetive. — Ama o cacete! — Podem resolver isso depois? — Cooper ralhou, Júnior e eu nos entre olhamos, entendendo que estávamos parecendo dois adolescentes


idiotas. As horas haviam se passado como em um flash, já fazia mais de seis horas que Kayla e Nana haviam sido sequestradas e pelos meus cálculos, já fazia vinte minutos que estávamos de tocaia na frente daquela cabana, esperando que os donos daquelas sombras saíssem. Enquanto aguardávamos, minha mente ficava em Kayla, se ela estava bem, se estava machucada e se sabia sobre André. Sabia que apesar de não estarem próximos, ela o amava e talvez, já até soubesse que ele não era seu irmão de sangue. Kayla era uma mulher forte, podia não demonstrar o que sentia, mas estava sentindo. Ela disse que tinha medo de descobrir quem era seu malfeitor, porque não sabia se iria superar depois. Por mais que parecesse e fosse difícil, eu iria ajuda-la nisso. — Mulher desprezível. — Cooper resmungou ao meu lado, ganhando minha atenção e a de Júnior. — Víbora venenosa. As palavras deferidas com raivas só podiam ser para uma pessoa. Yohanna. Levei meus olhos até a cabana e olhei ao redor, era hora de colocar nosso plano em ação. Pousei minha mão sobre o ombro do meu amigo e assenti com a cabeça, como se o incentivasse a fazer o que era preciso. — Você vai ficar me devendo essa. — Ele resmungou novamente, pegou o celular em seu bolso e enviou uma mensagem para Yohanna. Esperamos um pouco mais e logo ouvimos o apito de celular, em seguida, uma risada escandalosa ecoou pela floresta. Essa mulher só podia ser perturbada. Ouvimos cochichos, mas pela distância ficava difícil saber o que falavam. Engatinhei atrás do arbusto até que estivesse no fundo da cabana. Ela não era grande, deveria ter dois ou três quartos, só precisava ser rápido e achar onde Kayla e Nana estavam. Tentei a todo custo não fazer barulho, Cooper estava encarregado de distrair Yohanna por mensagens de texto, eu nem sabia se isso iria funcionar, mas não custava tentar. Júnior não precisava fazer nada, apenas observar e gritar caso visse que tudo tinha dado errado. Me agachei ao me aproximar da primeira janela, segurei no parapeito dela e estiquei o pescoço para dar uma espiada. O cômodo estava vazio, nem mesmo móveis havia nele. Olhei na direção dos arbustos e continuei engatinhando, agora, por estar mais perto, já podia ouvir o que conversavam.


Yohanna parecia compartilhar as mensagens de textos com alguém, pensei que pudesse ser o André, mas então me lembrei de que havia outro comparsa. Quando ele a respondia, eu tentava focar em sua voz para ver se o reconhecia. E apesar de ser familiar, não podia responder com precisão de quem se tratava. Ao chegar na segunda janela, voltei a esticar meu pescoço e ao espiar, consegui ver Kayla encolhida no chão. Nana estava deitada em seu colo de uma maneira que parecia estar morta, tentei não pensar nessa hipótese e me concentrei nas feições de Kayla. Como eu imaginava, ela estava visivelmente abalada. A pouca iluminação lá dentro mostrava seus olhos inchados e isso me fez pensar nos motivos. Ela teria descoberto sobre André ou eles teriam batido nela? Para o bem deles, era melhor ser a primeira opção.


Poucas coisas conseguiam me atingir, mas naquele momento, diante de tudo o que estava acontecendo e de tudo o que eu havia acabado de saber, eu me encontrava apavorada. Angustiada e desconfiada do mundo inteiro. Como alguém, no qual você confia a sua vida inteira, pode te enganar, te magoar e te decepcionar como se nada do que viveram juntos pudessem ter valido alguma coisa, como se você não valesse merda nenhuma para ele. Porque era isso o que eu valia, nada. Todos esses anos pensando conhecer as pessoas que estavam ao meu lado e na verdade, elas tinham duas faces. Tinham duas personalidades. Fingiam e manipulavam todos ao seu redor. Fechei os olhos tentando engolir meus soluços. Estava cansada de tentar ser forte, estava farta de fingir ser quem eu não era. Todos ali estavam fazendo isso o tempo todo e olha aonde havíamos chegado. Ouvi um barulho vir da janela e levei meus olhos até ela, André parecia alheio, completamente entretido em seu celular ou quem sabe estava fingindo. Ele era bom nisso, afinal das contas. Estreitei os olhos ao ver uma sombra na janela, poderia ser minha mente pregando peças, mas era Nicolas. Fiquei confusa, sem saber se estava mesmo vendo coisas ou não, mas assim que ele fez sinal de silêncio, acabei deixando um sorriso brotar em meus lábios. Ele estava ali, havia me achado e eu já podia respirar aliviada. Balancei a cabeça concordando, eu não poderia fazer nada que o entregasse, apesar de que André seria o primeiro em me ajudar a fugir, o problema era que eu já não conseguia confiar nele. — Nana... — Sussurrei em seu ouvido. — Nicolas está aqui, veio nos salvar. Falei, sem esconder o sorriso largo em meu rosto. Mas ao contrário do que gostaria, ela não respondeu, nem ao menos se mexeu.


Minha testa franziu, preocupada com a saúde de Nana e segurei em seu rosto na intenção de fazê-la acordar. — Nana? — A chamei mais uma vez, olhei na direção de Nicolas e ele já não estava na janela. — Nana, por favor! Haviam passos vindo ao nosso encontro e logo não demorou para Yohanna aparecer, ela e seu comparsa. Balancei o corpo de Nana na esperança de fazê-la reagir, me assustei em vê-la tão mole. Peguei seu pulso e conferi o que meu coração estava tentando avisar. Senti todo o oxigênio fugir dos meus pulmões, meu coração acelerou mandando vibrações ruins para meu corpo. Balancei a cabeça em negativa, dizendo a mim mesma que não, que Nana não estava morta. Só estava desacordada. — O que temos aqui? — A voz de Yohanna estava fria. Ajoelhou ao nosso lado e ficou me observando. Agarrei com força o corpo de Nana e fechei os olhos com força, tentando engolir a dor que acabara de nascer em meu peito. Aquilo era tudo culpa minha. — A princesa parece abalada. — Tentou tocar Nana, mas a afastei. Percebi quando André se aproximou, nossos olhos se encontraram e pude jurar que vi dor. Me agarrei ainda mais a Nana, essa mulher batalhadora que sempre cuidou de mim e minha família, que foi mais mãe do que Isabella poderia ter sido algum dia. A dor que eu sentia na alma, não poderia ser mais do que qualquer dor física. Meu coração estava sangrando, chorando em silêncio pela mulher que fazia meu mundo ter algum sentido As lágrimas vieram sem que eu pudesse impedi-las. Uma, duas, três, os soluços se fizeram presentes enquanto Yohanna ria de minha dor, mas aquilo não me feria. Nada mais do que ela falasse ou fizesse iria me machucar. Ela havia cumprido suas ameaças, afinal. Tirou tudo o que eu mais amava, tudo o que era de mais importante para mim, deixando em seu lugar, apenas buracos negros, vazios e repletos de dor. — Livrem-se do corpo da velha. — Ninguém vai tocar um dedo nela. — Gritei alto, a raiva atravessando cada palavra dita. — Cala a boca, princesa. Aqui você não manda em nada. — Ela esbofeteou meu rosto. Yohanna chegou perto o suficiente para que eu grudasse em seus


cabelos, completamente fora de mim e puxasse com toda força que meu corpo era capaz de oferecer. Ela gritou, tentando me fazer soltar, mas eu estava com tanta raiva, tanto ódio... — Tirem ela de cima... Não terminou de falar, com ajuda de André e seu outro comparsa conseguiu se afastar de mim, mas minha atitude apenas a deixou ainda mais perturbada do que antes. Eu podia ver o brilho incomum em seu olhar, a mesma raiva que eu sentia, Yohanna também sentia, mas eram motivos diferentes. — Vai se arrepender disso. —Esbravejou, seu celular apitou. Olhou na tela do mesmo e arremessou o aparelho na parede, fazendo o mesmo despedaçar em pedacinhos. Fez gestos com as mãos e quando tentaram me tocar, contrai meu corpo como se estivesse sendo tocada por fogo. — Não se atreva, entendeu? — Me debati. — Não se atreva a tocar em mim, Rafael. Não se atreva! — Gritei aos prantos. Ele parou no mesmo instante, não ousou dar nenhum passo. Yohanna olhou para André e depois voltou-se para mim com um balançar de cabeça. Talvez ela soubesse que ele me contaria uma hora ou outra, que André não conseguiria ser fiel a ela... Só que ele não conseguiria ser fiel a ninguém. — Desse idiota eu cuido depois. — Ela disse confiante. A minha frente, agora sem máscara, Rafael me observava quieto, por alguma razão, saber que era ele o outro comparsa não me decepcionou tanto assim. Talvez eu até já tivesse esperando por isso. Rafael não parecia abalado por eu saber a verdade, mas também não parecia estar satisfeito com isso. Deixou o pequeno quarto e em questão de segundos voltou com uns galões em mãos, o cheiro forte de gasolina fez uma dor aguda apontar em minha cabeça. Eles iriam fazer o que André avisou. Lembrei de que Nicolas estava lá fora, esperando algum momento oportuno para entrar e só esperava que ele fizesse isso antes de todo o lugar ser tomado por fumaça. — Olhe para mim enquanto vejo o medo invadir seu rosto. — Yohanna pedia, sorrindo. — Você está doente, precisa de um psiquiatra. — Entortei os lábios. — Não, só preciso eliminar o que me faz mal. — Deu de ombros e


começou a balançar seu corpo de um lado para o outro. — E você me faz mal. — Eu não te fiz nada! — Shiiiii... — Colocou o dedo indicador em meus lábios. — Fez sim, você fez! Vive fazendo. Me faz muito mal. Franzi a testa assustada com a nova personalidade de Yohanna. Olhei para André e ele passou o dedo indicador na cabeça, insinuando que ela havia ficado louca. Apenas respirei fundo, tentando encontrar minha sanidade. Ter que lidar com tudo aquilo, mais o corpo de Nana sem vida em meus braços e com a ameaça de incêndio não estava sendo fácil. — Você sabe que podemos provar que você é minha irmã, não sabe? Um exame de DNA resolveria isso e você teria direito a tudo o que tenho. — Tentei enrolar Yohanna, mas tudo o que eu falava fazia ela acelerar seus planos. Graças a ajuda de Rafael e André, o lugar já estava todo tomado por gasolina, o cheiro forte me dava náuseas e enfraquecia meus sentidos. Tentei não respirar fundo para evitar de ficar atordoada, só que as duas coisas eram ruins para mim. Tanto respirar, como não respirar. — Eu quero você morta. Entendeu? — Ela gritou, levou sua mão até o bolso de sua calça e segurou uma caixinha de fósforos. — Quero seu corpo deformado, igual ao rosto da nossa mãe. Riu. — Você é doente! — Gritei, sentindo ódio. — Culpa da sua família. — Riscou o fósforo e soltou no chão. Um filete de fogo acendeu, mas não ganhou força. Yohanna fez novamente e o fósforo não acendeu. Praguejou alto, com raiva e tentou mais uma vez. Riscou todos os fósforos, um atrás do outro e continuou riscando quando o lugar já havia pegado fogo. — Yohanna. — Pela primeira vez, ouvi a voz de Rafael. — Já está tudo pegando fogo, pare com isso! Ela riu e enquanto não viu o último fósforo riscado não parou. Tentei soltar meus braços, mas não consegui. A tosse veio conforme a fumaça tomava conta do lugar. Comecei a gritar por socorro. Sabia que Nicolas estava lá fora, só não entendia sua demora. Um barulho vindo da entrada da frente fez com que todos se movessem rapidamente, som de tiros pôde ser ouvido de onde estávamos e algumas sirenes mais ao fundo deixava claro que haviam


chamado reforços. Meu coração já conseguia respirar aliviado, apesar de estar apavorada com toda aquela fumaça preta no local. — Nos acharam! Temos que sair daqui. — Rafael jogou uma cadeira velha pela janela, fazendo a mesma despedaçar e saiu por ela, sem nem ao menos olhar para trás. Yohanna não parecia incomodada com o fogo, ao contrário, ela corria na direção dele e quando chegava perto, voltava para trás... como se estivesse brincando de pega-pega com ele. Por conta do calor, meu corpo estava suando e a falta de líquido fazia minha garganta secar a cada tosse que eu dava. André estava prestes a andar na minha direção quando o som de um tiro preencheu o lugar e o vi cair de joelhos no chão. Meu coração saltou desesperado, angustiado e assustado com a visão a minha frente. Nicolas invadiu o lugar, seu corpo estava enrolado por uma espécie de manta e acho que era aquilo que o protegia do fogo. Estava empunhado de sua arma e apontando na direção do corpo de André que agora agonizava no chão. Minha respiração desajustou e comecei a chorar. Dor, alívio, felicidade, tristeza. Uma mistura infinita de sentimentos e emoções que eu gostaria de não estar sentindo. Ele olhou em minha direção e se apressou em jogar aquela manta sobre mim e Nana. Meu rosto, agora sujo pelas cinzas do fogo, marcava a trilha que cada lágrima fazia. Tentei avisar de que Nana não conseguiria sair sozinha, mas por alguma razão, comecei a gaguejar. Ele conferiu o pulso de Nana e então entendeu o que eu estava tentando lhe dizer. Seu olhar cortou meu coração, porque de alguma forma, eu via minha dor neles, Nicolas sabia como eu estava me sentindo, me conhecia melhor do que eu mesma. — Eu sinto muito. — Sussurrou beijando minha testa. — Vou tirar vocês daqui! — Vo-você demo-morou. — Falei, quase asfixiada pela fumaça. — Precisei encontrar algo para passar pelo fogo, me perdoa. — Em seus olhos haviam sinceridade. Ele usou uma faca para cortar todas as amarras e após isso, segurou Nana com dificuldades em seus braços. Me levantei, sentindo uma fraqueza nas pernas e fiquei o tempo todo atrás do seu corpo enquanto ele abria caminho para a gente passar. — Nicolas... — O chamei antes que alcançássemos a porta e apontei para Hanna, que ainda brincava com o fogo, mas que já estava


visivelmente queimada em algumas partes do corpo. — Minha prioridade é você! — Respondeu simplesmente. — Não posso deixar ela aqui, por favor! — Supliquei, ele olhoume por um momento e respirou fundo. — Depois volto para tirá-la. Sua resposta não me convenceu, podia não dar tempo de ele voltar, mas também não tinha como ele sair com Nana e Hanna no colo. Também tinha André, que mesmo fazendo tudo o que fez, eu ainda o via como meu irmão. Mesmo com todos os seus defeitos, dos três, ele foi o único que parecia se importar comigo. — Nicolas, o André... Ele parecia não querer me ouvir, mesmo segurando Nana em seus braços, conseguiu me colocar cabana a fora antes que boa parte dela desabasse sobre nossas cabeças, rendida ao fogo que a consumia.


Capítulo 31

Se ela pensasse em salvar mais alguém, eu mesmo seria responsável por deixar uns roxos em sua bunda. Pelo amor de Deus! Como ela poderia pensar no bem daqueles que só estavam lhe fazendo mal? Assim que a coloquei para fora daquela cabana, me certifiquei de que Nana havia mesmo partido e todo o meu coração apertou ao constatar que sim. Fiquei triste por ela, por Kayla que a tinha como sua única família. Os bombeiros já haviam chegado, assim como a equipe de paramédicos, me senti mais aliviado em deixar Kayla nos cuidados deles. — Nicolas... — Ouvi sua voz fraca e eu já sabia o que ela ia lembrar. — Vou fazer isso por você, boneca. — Beijei sua testa me dando por rendido e olhei na direção da cabana que já estava tomada pelo fogo. Aproveitei as brechas que os bombeiros conseguiam abrir, não era aconselhável isso, na verdade, eu não deveria nem ao menos ter voltado lá. Yohanna merecia arder no mar do inferno, assim como o irmão de Kayla. Mas tal julgamento não estava em minhas mãos e se ela queria que os salvassem, então eu faria. Ou pelo menos tentaria. Passei por uma viga que havia rompido e ao chegar no quarto onde Kayla estava, vi o corpo de Yohanna deitado no chão, mas ela não estava desmaiada, o que achei um milagre. Já não podia dizer que o irmão de Kayla havia tido a mesma sorte. Talvez a bala que acertei em suas costas não tivesse deixado escapar do fogo que agora o consumia de vez. Era uma visão apavorante e agradecia a Deus por Kayla não estar vendo nada daquilo.


— Vaso ruim não quebra. Comentei ao ajudá-la a se levantar. Seu estado era deplorável e não estou me referindo ao corpo quarenta por cento queimado. Ela parecia louca. Estava rindo e conversando com o fogo como se isso fizesse algum sentido. — Detetive, Kayla já morreu? Pegou fogo? — Indagou histérica. Me mantive quieto, do contrário, a deixaria morrer ali mesmo. Fui obrigado a pegá-la em meus braços, já que suas pernas haviam sido atingidas pelo fogo e ao que parecia, ela estava tendo dificuldades em caminhar. A fumaça que estávamos inalando já começava a me fazer mal, tentei não respirar muito fundo, mas era quase impossível. Consegui sair com ela da cabana, antes que eu alcançasse a ambulância escutei o estrondo atrás de mim. Não precisei olhar para saber que todo o teto havia cedido e desabado. Estava feliz demais por estarmos bem, apesar de tudo. — Quero que tratem dela, mas que a mantenham presa. — Ordenei, mas os paramédicos apenas me olharam estreito. Respirei fundo entendendo que eu não era ninguém ali para dar ordem, nem mesmo meu distintivo eu tinha, então Cooper teve que tomar a frente e fazer isso por mim. Aproveitei que minha presença era dispensável e me aproximei de Kayla. A mulher que havia ganhado meu coração estava abalada, mas ainda assim, sua pose era de confiança. Seus olhos duros observavam o saco que usavam para cobrir o corpo de Nana e eu lamentei mentalmente por não ter conseguido impedir tudo isso. — Kayla. — Não fala nada. — Ela pediu, sua voz entrecortada entregou as lágrimas que viriam a seguir. — Só me abraça. Me abraça apertado. Me abraça e não solta mais. A envolvi com rapidez e beijei o topo da sua cabeça. Kayla afundou seu rosto em meu pescoço e se agarrou ao meu corpo como se sua vida dependesse daquilo. E ali ela chorou. Lavou sua alma quebrada e machucada. — Queria poder tirar suas dores, meu amor. — Envolvi seu corpo em uma espécie de casulo, ninguém mais a machucaria e eu me encarregaria disso. — Estou aqui com você. — Eu perdi todo mundo, Nicolas. — Seus soluços quebravam meu coração. — Não tenho mais ninguém.


— Você tem a mim. — Segurei seu rosto com firmeza e beijei de leve seus lábios. — Tem a mim, Kayla! Ela sorriu em meio a suas lágrimas. Ela estava despedaçada, eu sabia, mas juntos iríamos superar tudo o que havia acontecido. — O Rafa... — Shiii... eu sei, eu sei. — Limpei seu rosto. — Lamento muito por ele também, mas garanto que Rafael vai passar longos anos na cadeia. — Mas ele fugiu quando vocês chegaram. — Ele tentou, mas já estávamos de butuca na janela quando ele pulou. — Informei, não sabia se isso a deixaria feliz ou não, mas esperava que ao menos lhe desse algum tipo de alívio. — E Yohanna? — Bem, ela vai passar por alguns exames médicos e dependendo do laudo ela terá duas opções. — Vi que Kayla olhava na direção dela e também olhei. — Ou irá para um presídio feminino em outro estado, o será internada em um manicômio na Inglaterra. — Na Inglaterra? — Questionou assustada e confusa. — Quanto mais longe, melhor. — Expliquei. — Sobre seu irmão... Fiquei sem jeito para prosseguir nossa conversa, ainda que ela tivesse seus motivos para odiar André, sabia que não odiava e que desejava que ele fosse salvo, porém, as notícias não eram como ela esperava, então... — Tudo bem. — Passou a mão em meu rosto, tentando controlar suas lágrimas. — Ele havia sido baleado, não teria resistido mesmo. Podia sentir o quanto aquelas palavras a machucavam. Kayla agora estava, literalmente, sozinha. Não tinha mais parente algum vivo e mesmo se tivesse, eu já havia decidido quando nos conhecemos que cuidaria dela, protegeria e zelaria sua vida. Agora eu tinha motivos em dobro para cumprir minha promessa. — O que vai ser da minha vida agora? — Ela indagou triste. O barulho de um helicóptero sobrevoando a floresta chamou nossa atenção, olhamos para o céu escuro e vimos flashes sendo direcionados em nossa direção. O sequestro de Kayla havia vazado, talvez, o próprio Rafael houvesse se encarregado disso achando que teriam êxito no que havia feito. Parece que as coisas não deram muito certas para ele.


— Vamos fazer exatamente o que eu disse que faríamos, você se lembra? — Eu te amo, Nicolas. — Ela enfim assumiu. O sorriso quase chegou a rasgar meu rosto. — Eu te amo ainda mais, senhorita Mendes. Vi um sorriso lindo aparecer em seus lábios, acabei não contendo a saudade que estava e a beijei profundamente. Minhas mãos seguraram em sua cintura com firmeza e a puxei até que nossos corpos se encaixassem. Ali não haviam barulhos o suficiente para nos atrapalhar. Meu foco, minha atenção e o meu coração estavam nela, na mulher ousada, provocante e instigadora que me laçou apenas com o olhar. Que me conquistou com sua língua afiada e me enlouqueceu com seus modos peculiares de viver a vida. Kayla dizia que aquela não era ela, mas para mim era. Aquela era a Kayla Mendes. Cheia de defeitos e qualidades, medos e inseguranças, mas que tinha uma personalidade forte e motivadora. Eu ajudaria a colar os pedaços do seu coração e com o tempo, as lembranças ruins seriam trocadas pelas boas e tudo o que ela viveu naquele dia, todos os sentimentos de decepção e tristeza, seriam superadas com amor.


— Tudo bem? — Ahan. Viu minha... — Parei de falar ao ver minha lingerie na cor salmão em suas mãos. Ele a segurava na ponta do dedo indicador e balançava de um lado para o outro enquanto me lançava aquele sorriso estupidamente lindo, Nicolas era um homem que não media esforços quando o assunto era me provocar e eu, automaticamente, acabava revidando as suas provocações. — Será que o senhor poderia devolver minha calcinha? — Questionei, dando a volta na cama e indo em sua direção. — Qual calcinha? — Indagou segurando o riso. — Ah, essa calcinha? — Nicolas, me dê logo isso ou nunca sairemos desse quarto. — Bati o pé, tentando parecer brava. Parei em uma distância segura e o vi levar minha peça íntima até seu nariz e a cheirou profundamente. Minha boca se entre abriu em perplexidade, não acreditando no que meus olhos estavam vendo. Este homem era um doente maníaco por sexo. — Aqui, boneca! — Aproximou, acabando com o pequeno espaço que existia entre nós. Passou a calcinha pelo meu rosto e em seguida a levou até a parte interior de sua cueca. — Pode pegar! — Nicolas, pelo amor de Deus! — Exclamei, abismada. — Precisamos ir para a igreja, desse jeito nunca sairemos daqui.


— É só pegar, Kayla, não vou te morder. — Sorriu cínico, me fazendo duvidar de suas palavras. Abri minha boca para responde-lo, mas era perda de tempo tentar vencer Nicolas nesse tipo de discussão. Ele sempre vencia e eu, fraca demais para resistir, sempre terminava na cama com seu corpo quente e suado sobre mim. Respirei fundo me dando por vencida, enfiei a mão por dentro de sua cueca e não demorou para que eu sentisse a ereção contra meus dedos. Ele gemeu baixo ao sentir meu toque, mas manteve seu contato visual em mim, na certa, esperando que eu fizesse alguma coisa para atiça-lo. Não dessa vez, meu amor! Apenas peguei minha calcinha rendada, dei as costas e caminhei em direção ao closet para vestir minhas sandálias de saltos. Tínhamos tanto para fazer e ele ali, tentando me provocar em plena seis horas da manhã. Me arrumei o mais depressa que pude, já que a missa de sétimo dia de Nana e André começaria logo as sete e partimos rumo a igreja. No caminho, percebi que ele estava muito quieto, pensativo talvez. Acho que minha vontade de fazer a missa para André não havia lhe agradado, mas não teria como ser diferente. Eu não queria guardar rancor dele, já tinha passado muito tempo guardando rancor e mágoa da minha mãe, agora não queria mais ter esses sentimentos. Fiz com que ele passasse em uma floricultura no caminho, depois, com um pedido meu, ele se encaminhou para o cemitério. Estava na hora de passar o passado e todos os sentimentos que ele me causava para trás. Deixei as flores no túmulo da minha mãe e por um momento me permiti sentir sua falta, talvez eu tivesse demorado tempo demais para entender que certos sentimentos não te tornam mais fortes, eles te sufocam, te asfixiam e não te deixam ir adiante. Queria viver em paz comigo mesma e esse era o primeiro passo. Estacionamos em frente a igreja e respirei fundo olhando todos aqueles jornalistas que esperavam por mim. Depois do que havia acontecido naquela cabana, eu havia virado o centro das atenções no país. E naquele momento de luto e dor, eu só queria um minuto de sossego e tranquilidade. — Tudo bem? — Ele questionou, mas apenas consegui dar um


meio sorriso em resposta. — Chamei Cooper para te ajudar a passar pelos jornalistas. Apontou para seu amigo que vinha na direção do nosso carro. — Cooper é um bom amigo. — Suspirei, destranquei minha porta pedindo a Deus para que me desse paciência. — Bom dia, Cooper! — Bom dia, Kayla! — Respondeu após se aproximar. — Esses abutres não perdem a oportunidade, não é? — E eu nunca me acostumo com isso. — Confessei, caminhei até a igreja com Nicolas ao meu lado e Cooper em minhas costas. Não havia apenas jornalistas, mas também pessoas, fãs que se importavam comigo e naquele momento, o carinho deles estava tendo uma importância que eu jamais pensei que poderia ter. Nunca quis ser famosa, nunca quis estar em frente as câmeras, sempre achei que isso fosse ser a minha cruz, mas estava enganada. Naquele momento eu sabia que eles não eram o meu lamento, eram a minha esperança — Bom dia, Kayla. — Mari me cumprimentou ao me ver entrar. — Bom dia! Obrigada por vir. — Sorri abraçando-a, quando soube que ela foi a chave essencial para achar meu paradeiro, fiz questão de convidá-la. Na verdade, fazia questão de tê-la em minha vida, em meu círculo social. Nicolas descordava de mim quando tocávamos no assunto, mas eu achava que Mari e Cooper, sei lá, pudessem se entender. Os dois tinham tanto em comum que acabavam se estranhando. Índices claros de que havia uma ligação forte entre eles. — Imagina! — Beijou meu rosto em uma espécie de consolo. — Meus pêsames. — Obrigada! — Segurei suas mãos com carinho, olhei em direção da entrada e vi o exato momento em que Júnior chegou. Nicolas passou o braço em minha cintura, tomando posse do que lhe pertencia e segurou com firmeza enquanto Júnior caminhava ao nosso encontro. Sinceramente? Eu esperava do fundo da alma que os dois se comportassem ao menos uma vez na vida. Estávamos em uma igreja, orando pela alma de Nana que agora já descansava em paz e eu não queria ter que separar nenhuma briga, ainda mais com aqueles jornalistas todos na porta da igreja. — Kayla! Com tem passado? — Júnior indagou sério. — Em paz, se quer saber. — Respondi com sinceridade.


Acho que diante de tudo o que passei naqueles últimos dias e as dores da perda que tive, minha mente encontrava-se tranquila. O buraco que Nana deixou ao partir, jamais poderia ser preenchido, mas já estava conseguindo conviver com ele em meu peito. André, por mais que estivéssemos distantes, também deixou rachaduras. Umas por ter me decepcionado, outras por ter ido junto de Nana. Mas a verdade era que eu já não queria ter sentimentos ruins em mim. Resolvi deixar todo aquele sentimento de amargura para trás, para que eu pudesse ter um futuro em paz e se quer saber, havia dado muito certo. — Olá prefeito! — Nicolas chamou sua atenção. — Olá detetive, nem tinha o visto aí. — Provocou irônico. Quando senti os punhos de Nicolas cerrarem, achei melhor interferir antes que ambos começassem uma discussão sem fim. — Meninos, por favor, tenham respeito! — Franzi a testa e rolei os olhos. Mari riu baixo, mas logo em seguida ficou séria olhando fixamente para um ponto específico. Olhei na mesma direção e pude ver Cooper se aproximando, porém, quando ele chegou, Mari já não estava entre nós. Minha cabeça rodou procurando por ela e acabei sorrindo de canto quando a vi sentada na primeira fileira. Era quase como se ela estivesse fugindo. — Vamos nos sentar? — Os chamei indo para nossos lugares reservados. Segurei com firmeza no braço de Nicolas e o arrastei comigo, antes que algo ruim acontecesse entre ele e Júnior. Às vezes, quase sempre, esses dois pareciam mais dois adolescentes idiotas do que dois homens barbados. A família de Nana, que consistia apenas em uma sobrinha, estava ali, compartilhando suas dores comigo. Eu me sentia culpada pelo o que havia acontecido, mas sabia que certas coisas aconteciam porque Deus permitia. A missão de Nana na terra já havia sido cumprida. Ela foi meu anjo protetor durante toda uma vida e agora ela estava em um lugar reservado especialmente para ela, de onde podia nos ver e continuar nos protegendo. Após a missa, me senti na obrigação de falar algumas palavras para a mulher que foi como uma mãe para mim. Minha voz estava


embargada por sentimentos que não fiz questão de esconder, me permiti sentir aquela dor, aquela saudade, aquela sensação de vazio que Nana havia deixado em minha vida. Ao terminar, me encaminhei até sua sobrinha que, ao me ver aproximar, sorriu doce e me abraçou apertado como se me conhecesse há anos. — Obrigada pela missa, ela deve estar feliz lá em cima. — Agradeceu, havia uma garotinha sentada na cadeira ao seu lado, seus olhos inchados anunciavam que havia chorado. — Nana merecia muito mais, pode acreditar. — Respondi. — Sou Elisa. — Kayla. — Rimos baixo, porque eu não precisava me apresentar. — Quem é essa moça linda? Olhei na direção da pequena e sorri para ela, mas a garotinha escondeu-se atrás de Elisa e dali não queria sair. Pela forma que estava agarrada a ela, suspeitei de que fosse sua filha. — É minha filha. Camila, cumprimenta a tia Kayla! Tia Kayla? Enruguei meu cenho tentando abstrair aquelas palavras da minha mente, mas pareciam ter grudado em mim como sarna. Olhei ao redor procurando por Nicolas e o vi conversando com Cooper, ele sorriu e acenou com a mão. Sorri retribuindo e fiz gestos dizendo que logo iria até ele, em seguida escutei uma voz baixa e doce chegar até meus ouvidos. Meus olhos caíram até a menina e me peguei um pouco assustada com a facilidade tremenda que ela teve de perder a vergonha que estava sentindo até minutos antes e abraçar minhas pernas. — Olá, Camila. Como você está? — Olhei para Elisa e me abaixei do tamanho da pequena. — Tia Kayla, meu nome é Camila, mas todos me chamam de Mila. — É mesmo? — Sorri arrumando seus cachos ruivos. — É um lindo nome! — Dinda quem escolheu. — Ela falou triste, me deixando um pouco confusa. — Sabia que a dinda foi morar no céu? Ah, ela se referia a Nana? — Sim, uma estrela linda e brilhante que você pode ver todas as noites. — Comentei, vendo ela encostar em minhas pernas e passar o braço em volta do meu pescoço. Acho que ela queria colo, então acabei a pegando.


— Mila, deixa de ser folgada! — Elisa ralhou com ela e acabei rindo. — Deixa ela, Elisa, uma menina tão bonita e esperta não me incomoda em nada, muito pelo contrário, acho que estava precisando dessa injeção de ânimo. — Respondi com sinceridade. — Viu, mamãe, a tia Kayla não se incomoda. — Me responde uma coisa, quantos anos você tem? — Arqueei uma sobrancelha intrigada. Mila olhou para suas mãos e começou a contar seus dedos, sorri esperando que ela fizesse suas contas e em seguida ela mostrou os números equivalente à sua idade. Cinco. Apenas cinco anos Nicolas aproximou de nós, passou a mão em minha cintura e beijou o topo da minha cabeça. Mila se retraiu em meu colo, talvez por não conhecer o homem que apareceu do nada tenha lhe deixado nervosa. — Olha, este aqui é o Nicolas, meu namorado. — O apresentei para Elisa e para a pequena que o olhou desconfiada. — Nicolas, esta é Elisa, sobrinha de Nana e sua filha Camila. — Muito prazer! — Ele deu aquele sorriso lindo que eu amo para elas. — E você, é muito linda! Passou sua mão grande pelos cabelos de Mila, fazendo que boa parte dos seus cachos fossem desmanchados e acabei rindo ao ver a careta que a pequena fez. Uma careta de insatisfação. — Meu cabelo não, tio! — Ela retrucou. — Tio? — Ele indagou confuso, olhou para mim e depois para elas. Elisa, que até então sorria divertida com nossas caras de confusão, tratou de explicar logo o que estava acontecendo. — Nana falava muito de vocês nas ligações que nos fazia, ela sempre se referia a você como tia Kayla, então Mila passou a te chamar assim. — Ah, isso explica muita coisa. — Sorri beijando o pescoço da pequena. — E chamou o Nicolas de tio porquê... Minhas palavras foram cortadas por uma garotinha esperta e faladora. — Porque é seu namorado. — Ela tampou o rosto com as mãos, fazendo-me rir. — Bem, faz sentido. — Nicolas sorriu largo.


— Vem, Camila, precisamos ir. Diz tchau para a tia e o tio. — Elisa pediu, pegando a menina do meu colo. — Ah, mãe, mas já? Nem bem chegamos! — Temos que ir. Kayla é ocupada e deve estar cheia de coisas para fazer. Suas palavras só me fizeram lembrar de que haviam jornalistas esperando por mim lá fora e tentar passar por eles era a única coisa que eu tinha para fazer. — Vocês podem ir nos visitar sempre que quiser, vou me sentir muito feliz. — Fiz o convite, nem sei o porquê, mas fiz. Elisa parecia surpresa com o pedido, pensou por alguns segundos em sua resposta e eu esperava que ela topasse. Havia gostado de Camila e como elas eram parentes de nana, me sentia no dever de manter contato com elas para ajudar no que precisassem. — Ah, por favor, mamãe. Por favor! — Mila pediu elétrica. — Eu arrumo minha cama por uma semana todinha se a senhora aceitar. Sua ingenuidade acabou nos arrancando algumas gargalhadas. — Tudo bem. Que tal no próximo final de semana? — Elisa viuse sem escolhas diante da animação da filha. — Por mim, está fechado. — Passei o braço em volta do corpo de Nicolas e sorri largo adorando a ideia de ter uma criança em casa. Uma criança que não fosse minha, claro. Porque Kayla Mendes não nasceu para ser mãe.


Capítulo 32 — Kayla, gostaria de agradecer por ter aceitado nosso convite de vir até nosso programa e dar essa entrevista. — Stella, a entrevistadora do canal “papo reto” agradecia. — Sei que foi difícil tocar nesse assunto. De fato, relembrar o passado nem sempre nos traz boas lembranças, mas já estava me acostumando com ele, afinal, não havia uma maneira de reescrevê-lo, então só me bastava aceitar tudo o que aconteceu. — Sim, mas já estava na hora de deixar todos saberem o que realmente aconteceu naquele dia. — Sorri murcho, sem mostrar os dentes. — Agradeço essa oportunidade. Sorri mais uma vez. Enquanto ela se despedia da plateia e do público de casa, cruzei as pernas e observei todos ao me redor. Respirei fundo, nunca gostei de ser apresentadora, mas naquele momento descobri que ser a entrevistada era bem pior. Me levantei ajeitando minha roupa e tirando o microfone que haviam instalado na gola da minha camisa social, caminhei até os bastidores onde Mari já me aguardava com o celular em mãos e ri baixo ao ver seu desespero evidente ao não saber mexer em minha agenda virtual. — Deixa eu ver se entendi... — Entrei na sala reservada para mim e comecei a tirar minhas roupas. — Você é um hacker que não sabe mexer em um bipe? — No aparelho eu sei mexer, sua agenda que dá um nó na minha cabeça. — Disse indignada. — Me explica como você vai estar na emissora sul e no estúdio de gravações quase ao mesmo tempo? Troquei minhas roupas por algo mais confortável e balancei a cabeça achando graça de sua pergunta. Bem, eu precisava de outra assessora depois de tudo o que ocorreu com Yohanna e para a minha sorte, Mari precisava de um emprego novo. Ah, claro, fiz isso também para deixa-la mais perto de Cooper. Os dois, meio que se odiavam, mas eu sabia que uma hora ou outra algo rolaria entre eles. Só esperava que eles não se matassem nesse meio tempo.


— O quase vai deixar eu fazer as duas coisas. — Pisquei para ela e deixamos as extremidades da emissora indo direto para o estacionamento. Mari ainda tentava entender como eu fazia para estar em várias emissoras, quase que ao mesmo tempo, mas eu sabia que com o tempo ela iria se acostumar com a minha vida agitada. — Notícias de Nicolas? — Graças a Deus não. Sua resposta me fez parar com a mão na maçaneta da porta do carro e olhá-la de sobrancelha arqueada. A mesma sorriu largo e mordeu a ponta da caneta que ela usava para tocar a tela do meu bipe. — É que Nicolas longe significa Cooper longe também. Rolei os olhos e destravei o carro, coloquei minha bolsa no banco detrás e passei o cinto de segurança. Quando meu dia acabasse teria que entrar em contato com Nicolas, não conseguia ficar muito tempo sem ouvir sua voz, ainda mais sabendo que ele estava em outro país. — Vocês dois precisam resolver as coisas entre vocês. — Ela me olhou com os olhos arregalados e acabei semicerrando os meus. — Precisam parar de ficar brigando sempre que se encontram, tá chato já. Ela parecia aliviada ao terminar de ouvir minhas palavras e isso me fez ficar com uma pulga atrás da orelha. Mari voltou a dar atenção a minha agenda e fiquei observando-a um pouco mais. Girei a chave dando partida e ao engatar a primeira marcha, ouvi Mari dizer algo que me arrancou risadas. — Odeio homens sérios.

O decorrer do dia foi cansativo e estressante. Minha rotina havia voltado ao normal e não ter Nicolas por perto me fazia ter certeza disso. Já fazia três dias que ele havia ido viajar e apesar do motivo ser bom, não ter ele ao meu lado acabava me deixando frustrada e irritada. Por diversas vezes durante aqueles dias em sua ausência, havia xingado e proferido todos os tipos de palavrões contra Júnior. Porque o motivo de sua viagem era ele. No domingo, após a missa de sétimo dia da Nana e do André, um pouco antes de irmos para casa, ele apareceu querendo conversar com Nicolas. Fiquei em alerta para o caso dos dois saírem na porrada, mas ao


contrário disso, Júnior devolveu a licença de Nicolas e com isso, a tal da promoção também. Agora, eu estava sem meu namorado, porque ele havia ido saber mais sobre a promoção e com isso, meu coração ficava na mão, com medo dele aceitar e decidir ficar por lá mesmo. Eu sei que estava sendo mesquinha e egoísta, mas não ligava nem um pouco para isso. Nicolas não terminaria comigo por conta da promoção, mas acho que não iria saber lidar com um namoro a distância. — Quer alguma coisa? — Mari questionou assim que chegamos em casa. — Dormir e acordar em outra encarnação. — Respondi sem ânimo e subi os lances de escadas, podia ouvir os passos de Mari indo atrás de mim. — Você não está muito feliz com a promoção dele, não é? — Claro que estou, só que... — Entrei em meu quarto e bufei jogando a bolsa sobre minha cama. — Se ele aceitar vai ter que morar lá. — Qual o problema? — Que eu vou estar morando aqui. — Respondi o óbvio. Assim que fiz a proposta de emprego para a Mari, já aproveitei para convidá-la a morar comigo, só que a mesma não aceitou alegando que agradecia, mas gostava de ter suas coisas e seu próprio espaço. Não achei ruim, mas ainda assim chamei ela para passar alguns dias comigo, só até que Nicolas voltasse. Dessa forma ela acabou concordando, e ainda bem, nem sei o que iria fazer se ela recusasse. Aquela casa era muito grande para uma pessoa só. — Mas podem se ver aos finais de semana, não? — Indagou pensativa. — Creio que dinheiro não seja problema. — Tempo. Ele é o problema. — Suspirei indo pegar meu roupão de banho. — Falando nele, alguma ligação? — Ah, é, Nicolas ligou durante a gravação do programa, disse que retornaria antes de dormir. — Coçou a nuca. — Mas não sei se ele se referia ao horário dele ou ao seu. — Mais essa agora. — Reclamei, teria que ficara acordada esperando sua ligação. Desfiz meu penteado e me olhei no espelho do banheiro, Mari não ousou me seguir, afinal, ela não era como Nana. Ah, Nana, sentia tanto a sua falta!


— Mais alguma novidade? — Gritei para que me ouvisse. Liguei a torneira da banheira e enquanto ela enchia, fui retirando minha maquiagem com demaquilante. Mari seguia falando algumas coisas sobre minha coluna que, agora sem o Rafael, ela quem iria cuidar apesar de não ter gostado muito da ideia. Entrei na banheira e deixei meu corpo absorver aquela sensação boa que a água morna me causava. Despejei bastante óleo e sabonete para que fizesse muita espuma. Mari apareceu na porta do banheiro e ficou em silêncio por alguns segundos. A olhei com atenção, ela parecia receosa com alguma coisa, seria comigo? — Me ver nua te incomoda? — De forma alguma, o que você tem, eu tenho. Apesar do seu ser mais bonito. — Mari parecia admirada. — Esses seios são naturais? — Herança de Isabella. — Sorri, apertando meus próprios seios. — Nossa, são tão durinhos, tão redondos... — Não acho que você estivesse querendo elogiar meus seios, apesar de eu estar grata quanto a isso. — Arqueei a sobrancelha. — Ah, sim, é... — Saiu de seu transe e olhou para o celular em sua mão. — O fórum ligou, o julgamento do Rafael e da Yohanna será amanhã cedo. — Justo amanhã? — Rolei os olhos. — Prometi buscar Camila e Elisa para passarem o fim de semana com a gente. Resmunguei baixo. Encostei meu queixo na beirada da banheira e continuei em silêncio, absorvendo aquelas palavras que pareciam estranhas para mim. Nunca na vida que eu iria imaginar um momento desse. — Você vai ao julgamento? Pensei sobre sua pergunta. Queria ir, mas não sozinha e Nicolas estava longe para poder me acompanhar. De alguma forma, eu sentia que se fosse coisas ruins poderiam acontecer. Afirmei com a cabeça e levei minhas costas para trás até encostar na banheira. Pendi a cabeça e deixei a nuca apoiada na beira da mesma. — Tenho que ir. — Respondi dando de ombros. — Não sei se é uma boa ideia, Kayla. Rafael se envolveu em seu sequestro porque sentiu-se rejeitado por você. — Eu sei, pensei que ele houvesse aceitado o fim do nosso relacionamento, mas na verdade, estava planejando uma vingança. —


Fechei os olhos, frustrada. — Se você ir pode deixa-lo mais irritado. — Alertou-me. — Acha que ele faria algo contra mim, mesmo tendo tantos policiais lá? — Abri os olhos e a encarei séria. — Para ser sincera? Sim! — Desligou o bipe e o celular, respirou fundo e prosseguiu: — Em todo caso, terá que levar alguns seguranças, por precaução. Concordei com sua linha de raciocínio e em seguida Mari saiu, deixando-me sozinha na imensidão da minha banheira e com meu turbilhão de pensamentos nebulosos.

Não estava me sentindo muito bem quando acordei na manhã seguinte, tentei abstrair o pensamento de estar ficando doente e fui tomar meu café da manhã. Acho que o julgamento estava me deixando nervosa e na noite anterior, antes de dormir, havia conversado com Nicolas sobre isso e ele não queria que eu fosse de jeito nenhum. Bem, quanto a isso, ele que me desculpasse. Eu iria ver Rafael e Yohanna serem julgados. Eu precisava disso. Precisava olhar nos olhos deles mais uma vez para saber se ainda havia alguma coisa, por menor que fosse, que demonstrasse que eles estavam arrependidos. — Caiu da cama? Mari apareceu para tomar o café da manhã comigo, apenas respirei fundo enquanto tentava engolir o café que, para mim, parecia amargo. — Não dormi muito bem. — Confessei. — O julgamento está me deixando nervosa. Pousei a xícara sobre o balcão e passei meus dedos na borda. Mari arrastou um dos banquinhos e juntou-se a mim no balcão. Serviu-se de café e algumas torradas que eu havia feito. Sim, café eu sabia fazer, já as torradas eram compradas. — Acho isso normal, é algo importante para você. — Passou geleia na torrada e mordeu, me observou por alguns segundo e sorriu. — Tenta pensar em outras coisas, tipo na visita que vamos ter esse fim de semana.


— Espero que esse julgamento não tire meu ânimo, odiaria ficar cabisbaixa com Camila por perto. — Suspirei. — Falando nisso, o quarto delas está pronto? — Sim, do jeitinho que você pediu. — Sorriu largo. — Conversou com Nicolas ontem? — Sim. — Rolei os olhos. — Ele é contra eu ir, não quer que eu tenha mais nenhum contato com Rafael ou Yohanna. — Acha que ele está errado? — Arqueou a sobrancelha, provocando. — Não, sei que ele está certo, mas eu vou e pronto. — Bufei olhando para minha xícara de café. Não ousei falar mais nada, só que podia ouvir as risadinhas que a Mari dava. Ela dizia achar engraçado a minha relação com Nicolas. Dizia que éramos o oposto um do outro e que por isso combinávamos tão bem. Quando ela falava assim, minhas lembranças faziam um flashback até o dia em que conheci Nicolas. Lembrar de tudo o que passamos para estarmos juntos, fazia um orgulho nascer em meu peito. Sim, orgulho! Mesmo com todas as provocações, com toda a distância que tentei colocar entre nós dois, Nicolas não havia desistido de mim. Talvez tivesse pensado em algum momento, mas não havia feito. Respirei fundo levando a xícara até minha boca, mas não bebi o líquido. Apenas o cheiro já estava sendo o suficiente para mexer com meu estômago. — Você está bem? — Mari sondou. — Parece meio pálida. — É nervosismo, vou ficar bem. — Respirei fundo. — Tem certeza disso? Não acha melhor ficar em casa? — Não. — Respondi firme, para que ela visse que eu não mudaria de ideia. — Já vou indo. Conferi as horas no relógio do celular, me levante deixando sobre a pia a xícara com todo o café que eu não havia conseguido beber e limpei minhas mãos no pano de prato. — Você vai sair sem comer nada? — Questionou brava. — Se eu comer qualquer coisa, vou colocar para fora. Então prefiro evitar a fadiga, obrigada! — Passei por ela e fui em direção das escadas. — Espera, vou no julgamento com você.


Olhei para ela, mas não falei nada. Apenas sorri e balancei a cabeça concordando. Ainda bem que Mari havia se oferecido, ainda que eu estivesse nervosa, saber que não iria sozinha fazia com que me sentisse melhor.

Estávamos na sala de espera quando uma silhueta chamou minha atenção. Havia homens de terno e gravata para todo lado, todos andando com pressa ou falando no telefone, mas aquela silhueta em especial, eu conhecia muito bem. Levantei de onde estava, sentindo uma onda de sensações na barriga, já estava cogitando a ideia de ir ao banheiro, porque só podia ser diarreia ou algo assim, não era possível. Mantive minha postura firme e ao me aproximar, cutuquei seu ombro com força. Mari havia ficado sentada na onde estava, não quis me acompanhar até o outro lado da sala. A silhueta estava de costas para mim, por isso não viu quando me aproximei. — Boneca! — Nicolas Almeida! — Cruzei os braços, eu deveria estar feliz em vê-lo, mas estava brava por não ter sido avisada de sua volta. — O que eu fiz? — Levantou as mãos em rendição. — Sou inocente. — Sorriu de canto. — Quando foi que chegou? — Oi, amor, estou bem, obrigado! A viagem foi ótima também e de nada por eu ter vindo ficar com você. — Disse com ironia, fazendo minha sobrancelha arquear. — Não me faça repetir, Nicolas. — Ôh mulher difícil. — Suspirou alto. — Vim no voo da madrugada, um pouco depois de desligar a nossa chamada. — Hum... — Continuei desconfiada. — E como conseguiu passagens tão rápido? Ele ficou em silêncio, passou a mão pelos seus cabelos fazendo os mesmos ficarem atrapalhados e rebeldes. Estalei a língua demonstrando minha impaciência em sua resposta, mas não pude deixar de achar engraçado a careta de “fui pego” que Nicolas fazia.


— Ok, dona sabe tudo. — Rolou os olhos, desgostoso. — A passagem já havia sido comprada. Não briga comigo, queria fazer surpresa. Hoje vamos ter visita em casa e queria estar com vocês. Passei a mão pelo rosto, me sentindo mal demais para entrar em uma discussão com ele, então, dei as costas e voltei a me sentar onde estava antes de vê-lo e o deixei voltar para sua conversa anterior com outros homens de ternos. Assim que me sentei, notei que ele me olhava sem entender nada, mas não tinha o que entender, eu só não estava no clima para discussões e preferia evitar a fadiga. Mari colocou a mão sobre a minha, como se estivesse me consolando e logo pude sentir a presença de Nicolas. Olhei para cima e quando nossos olhos se encontraram, acabei sorrindo. Não da forma que gostaria, mas da forma que deu. Aquele julgamento precisava acabar logo ou eu teria uma parada cardíaca. — Tudo bem, amor? — Ele se ajoelhou a minha frente. — Você parece meio pálida. — Eu disse isso para ela, mas ela alega estar nervosa. — Mari intrometeu-se. — Mari, olá! — Nicolas a cumprimentou quando percebeu que ela estava por perto. — Não havia te visto, desculpa. — Imagina Nicolas. Você estava com sua atenção em alguém mais importante. — Piscou. — Me diz, ele também voltou? Notei que a voz de Mari havia ficado em um tom mais duro, como se estivesse com desgosto em saber a resposta. Claro, já sabia que ela se referia o Cooper, não tinha como não saber. — Sim. — Respondeu rindo. — Mas não está aqui, foi direto para a casa. Se quiser posso passar o endereço. — Haha, muito engraçado. — Desdenhou e se levantou indo na direção do bebedouro. Seu afastamento deu ao Nicolas a liberdade de voltar sua atenção para mim. Segurou e minhas mãos e vi seus olhos fazendo vista grossa em meu rosto. Será que eu estava tão pálida assim? — Comeu alguma coisa hoje? — Não consegui. — Respondi simplesmente, ao fundo, podia escutar o juiz chamando todos para sentarem em seus assentos. Me levantei antes que ele fizesse mais alguma pergunta e o arrastei comigo até a sala da audiência. Isso tinha que acabar logo, já não estava aguentando todo aquele nervosismo em meu coração.


Capítulo 33

Era visível que tinha algo de errado com Kayla, pensei em ser mais direto em minha pergunta, mas estávamos cercados por desconhecidos e tínhamos que entrar na sala do juiz. Assim que ela levantou, a segui de perto. O seu andar era firme, todos que a olhavam nunca imaginaria que Kayla estava sentindo alguma coisa. Ela dizia ser nervosismo, talvez fosse só isso mesmo. Em todo caso, eu ficaria em estado de alerta, em se tratando de Kayla, a mulher da minha vida, todo cuidado seria muito pouco. — Vamos sentar aqui. — Ela anunciou, indo na direção indicada. Mari sentou do outro lado, deixando Kayla no meio de nós dois, olhei a redor e cumprimentei alguns ex colegas de trabalho. O juiz entrou e nos colocamos de pé para recebe-lo, ao meu lado, Kayla estava tão tensa que eu podia sentir emanar de seu corpo. Entrelacei nossos dedos, a fim de lhe dar algum tipo de conforto e ela aceitou, sorrindo sem mostrar os dentes. Esperava que minha surpresa a fizesse sentir-se melhor, esperava que Kayla ficasse feliz e que não tentasse me matar. Após a entrada do juiz, foi a vez dos réus aparecerem, nisso, senti as mãos de Kayla suarem e um suspiro forte escapou pelos seus lábios. Acho que todo aquele momento estava sendo muito forte para ela. — Estou aqui, Kayla, estou com você. — Beijei as costas das suas mãos com carinho. — E é tudo o que me importa. — Ela sussurrou, retribuindo os beijos em minhas mãos. Trocamos um sorriso mútuo, que logo fez o meu corpo se arrepiar como se estivesse saindo de um estado de transe. Era muito tempo longe


dela, do seu corpo, do seu cheiro... Não pensar em nós dois sobre uma cama era meio impossível, ainda mais quando minha vontade era de têlas em meus braços. — Examinamos todos os depoimentos e evidências sobre o caso da senhorita Kayla Mendes... — O juiz começou a falar. — Com base em provas concretas, o júri chegou a um veredito. Tinha um burburinho tomando conta do local, só então fui perceber que Yohanna olhava diretamente para Kayla e sorria de forma irônica e perturbada. Minha testa franziu e passei o braço em torno do pescoço dela. Kayla estava visivelmente abalada, o olhar de sua ex amiga estava deixando-a visivelmente desconfortável. Todos aguardavam a decisão do júri e eu desejava que aqueles dois pegassem prisão perpétua. — Estou com medo. — Ela confessou em um sussurro ao pé do meu ouvido. — Está tudo bem. — Tentei confortá-la. — Olha como estão me olhando. — E após suas palavras voltei a olhar para Yohanna e Rafael, ambos tinham um olhar pesado para Kayla. — Acho que não foi uma boa ideia ter vindo. Ao fundo, podia ouvir a voz do juiz decretando a sentença que ambos teriam. — Para Rafael Carvalho, o júri decidiu que, em base da tentativa de sequestro, agressão física e psicológica, sua pena será de trinta e cinco anos, sem direito a fiança ou prisão domiciliar. — Fez uma leve pausa enquanto lia os papéis em suas mãos. — E Yohanna Luíza Kyn, recém descoberta como irmã de Kayla Mendes, acusada por sequestro, manipulação, ameaças e agressão física e psicológica, o júri determinou sua pena, baseado em laudos psiquiátricos, reclusão em uma clínica psiquiátrica por trinta e cinco anos para tratamentos mentais. Com acompanhamento semanal de um promotor para averiguações de seu quadro clínico. Bateu o martelo, fazendo com que a sala fosse tomada por vozes exaltadas. O movimento ganhou não só a minha atenção, como a de Kayla e Mari, que assim como eu, não entendia o que estava acontecendo. As pessoas haviam ficado agitadas de repente, sem motivo algum. Ou teria um motivo, mas não estávamos vendo?


Bastou que aquela pequena confusão começasse, para que algo que eu temia acontecesse. Rafael, que se manteve quieto durante seu julgamento, esperou que o juiz batesse o martelo para começar a confrontar os policiais, tentando passar por eles para chegar até mim. Prendi a respiração, totalmente estática com a visão que se desenrolava a minha frente. Ele parecia estar possuído e se meus seguranças não tivessem aparecido, a polícia não teria dado conta de segurá-lo. — Sua vadia! A única coisa que sempre quis de você, foi seu amor. — Ele gritava, lutando contra qualquer um que tentasse lhe segurar. Me mantive em silêncio, apenas observando seu comportamento. Não iria revidar, nem ao menos demonstrar o quão nervosa estava. Não seria mais uma peça no joguinho doentio deles, então, apenas empinei o nariz e olhei para o outro lado, fingindo não ouvir o que ele falava. — Silêncio! — O juiz pediu. — Contenham esse homem. — Disse, exaltando sua voz. — Diante dessa tentativa, creio que temos uma nova sentença para o senhor Rafael Cortez. — Ele pegou os papéis com raiva e escreveu alguma coisa neles. — Sua pena agora é de cinquenta anos, sem direito a fiança ou prisão domiciliar. Voltou a bater o martelo, ordenando que tirassem ele da sala. Olhei na direção de Yohanna e um arrepio passou pela minha espinha. Não poderia saber o que ela estava pensando, mas era muito estranho essa quietude. Ela estava sorrindo enquanto enrolava uma mecha do seu cabelo. — Me tirem daqui. — Engoli minha saliva com dificuldade, sentindo o coração acelerar no peito. Não precisei pedir duas vezes, no segundo seguinte, já estavam me retirando da sala e a primeira coisa que fiz foi correr para o banheiro.


Havia uma náusea que fazia com que meu estômago embrulhasse.

— Tem certeza que não quer ir ao médico? — Tenho! — Respondi sem paciência. — Queria ir para casa, mas você não quer me levar. — Não seja impaciente, você estava a manhã toda sem comer. — Nicolas ralhou. — Então come logo isso aí. — Não quero comer nada, só quero saber o que você está aprontando. — Empurrei o prato com comida que ele havia pedido e cruzei os braços esperando por sua resposta. Nicolas devia achar que eu era burra. A sua insistência em me levar a um restaurante, junto do sumiço de Mari, fazia com que ele fosse suspeito. Estava tramando alguma coisa, podíamos estar a pouco tempo juntos, mas o conhecia bem. — Está vendo coisas aonde não tem. — Arrastou a cadeira para mais perto de mim, segurou o gafo com um pouco de comida e quis levar até a minha boca, mas a mantive fechada. — Come, Kayla. — Come o cara... Ele enfiou o garfo em minha boca, fazendo um ódio corroer minha alma. Odiava ser obrigada a comer se não estava com fome. Mastiguei o que ele havia me dado, engoli com dificuldade e bebi um gole do suco. Limpei a boca no guardanapo e empurrei sua mão quando tentou me alimentar de novo. — Quer parar com isso? Todo mundo está olhando. — Então come, pelo menos um pouco, mulher teimosa! — Faremos um trato, se me responder o que está aprontando, prometo comer tudo o que está no prato. Nicolas parecia pensar em minha proposta, e isso deixava claro que ele estava mesmo tramando alguma coisa. — Tenho outro trato. — Arqueou a sobrancelha, acabei rolando os olhos e esperando pela sua chantagem. — Você come, pelo menos, um pouco e vai ao médico ver o que tem, depois te conto o que estou tramando. Tombei a cabeça pensando em sua proposta, não era de tudo ruim,


já que eu estava mesmo pensando em ir ao médico. Meu estômago estava muito ruim, quase tudo de comer que aparecia em minha frente o fazia dar um nó. Dei minha mão para ele e apertamos selando o nosso trato, passei os próximos vinte minutos sendo supervisionada por ele, o que achei muito injusto, tendo em vista que ele disse que eu não precisava comer tudo o que estava no prato. Assim que terminei, limpei minha boca e peguei o celular em minha bolsa. Liguei para a minha médica e esperei que atendesse, Nicolas me olhava sorrindo de canto, me provocando de todas as maneiras possíveis. Senti algo em minhas pernas, subindo em direção ao meio delas e respirei desajustado. — Para! — Resmunguei baixo. Nicolas continuou passando seu pé em minhas pernas, até que minha médica atendeu e acabei dando minha atenção a ligação. Ela não tinha muitos horários disponíveis de última hora, mas disse que iria abrir um horário para mim. Agradeci e desliguei. — Vamos! — Bufei irritada, não só por ter que ir ao médico, mas também com Nicolas, que estava me provocando. Estacionei na entrada do consultório, deixei aquele projeto de namorado para trás e fui até a recepção. Eu estava prestes a cometer um delito dentro daquele carro. Como ele conseguia ser tão cara de pau? Cumprimentei a recepcionista e me sentei em uma das cadeiras da sala de espera. Dentro do carro eu disse que não precisava da companhia dele no consultório, mas a verdade era que eu queria distância. Céus! Ele ter ficado esses dias longe o deixou ainda mais provocador e chato. Muito chato! Se vai provocar, que pelo menos termine o que começou, inferno! A médica acabou pedindo por alguns exames, e eu precisaria esperar vinte e quatro horas para ter os resultados, assim, ela apenas receitou um remédio para me livrar das náuseas. Voltei para o carro e Nicolas estava no telefone conversando com alguém, arqueei a sobrancelha meio perplexa porque ele estava sentado no meu lugar. — Vai saindo. — O expulsei. — Me lembro que, quando nos conhecemos, você adorava me deixar dirigir o carro. — Porque eu precisava me trocar. — Revidei, mas ao ver se sorriso irônico acabei revirando os olhos. — Aonde você vai?


— Fique tranquila, Mari e Cooper estarão lá também. — Lá? — Questionei confusa. — Deus do céu! Vamos ao necrotério? — Tá ficando doida, mulher? Que diacho iríamos fazer lá? — Indagou incrédulo. — Você disse que Mari e Cooper estarão lá, pensei que já houvessem se matado. — Sorri divertida, Nicolas balançou a cabeça em negativa e riu baixinho. — No banco detrás tem uma bolsa preta com roupas suas, faça o favor de colocá-las. Nos encaramos por alguns segundos e um sorriso foi surgindo em meus lábios em câmera lenta, respirei fundo me dando por vencida e ao abrir a tal bolsa, me deparei com as minhas roupas de tênis. O olhei sem entender muito bem o que era tudo aquilo e ele foi tratando de responder. — Apenas entre e se troque, enquanto isso vou dirigindo. — Sorriu malicioso. — Tá querendo relembrar o passado? — Questionei divertida, entrei no carro e comecei a me trocar. — Só não esqueça que ainda precisamos ir buscar Camila e Elisa. Quando percebi que ele havia ligado o carro, mas que não tinha saído do lugar, olhei para o retrovisor e o peguei me olhando. Sorri maliciosa, deixando minha memória fazer um flashback. — Concentre-se na estrada, caro detetive! — Mordi o lábio. Nicolas balançou a cabeça rindo, passou a mão pelos seus cabelos e colocou o carro para andar. Pelo jeito, estávamos indo ao clube esportivo e ao perceber que dentro daquela bolsa também haviam roupas de ginástica masculina, deixou claro que Nicolas havia aceitado o desafio que eu tinha lançado algum tempo atrás.


— Que raios é isso? — Sussurrei, confusa e intrigada com o bilhete colado na porta da geladeira. Estranhei quando acordei sem Nicolas ao meu lado, mas como ele sempre acordava antes de mim para ir ao trabalho, tratei de fazer a minha rotina de sempre. Que era preparar o nosso café da manhã, já que, na maioria das vezes, ele saía com tanta pressa que nem um café tomava. Segurei o bilhetinho em mãos, li mais algumas vezes tentando entender a mensagem que ele queria me passar. Cocei a nuca meio pensativa e depois alisei meu queixo. Depois disso, já não sabia se fazia o café ou se tentava desvendar o bilhete. Por fim, acabei optando pela


segunda opção. — Vamos ver o que está acontecendo. Caminhei na direção de onde eu supus ser o local indicado no bilhete, porque o lugar que eu mais usava para descansar, era a biblioteca. Só que ao chegar nela, havia outro bilhetinho colado na porta. Arqueei a sobrancelha, um pouco sem paciência com esse joguinho novo do Nicolas e li o conteúdo.

— Mas que merda! — Praguejei alto. — Isso não tem graça, Nicolas. — Gritei para que ele ouvisse, esperei alguns segundos para ver se ele respondia, mas pelo silêncio que veio logo a seguir, pude perceber que não. Praga de homem! Respirei fundo olhando ao redor, não sabia qual lado ele estava insinuando, então tive que arriscar ir até a janela que dava visão para a nossa varanda da frente. Me aproximei e afastei a cortina para que pudesse olhar o lado exterior da nossa casa, e então eu vi, na mesa que usávamos para o café da tarde havia um papel igual ao que havia encontrado na geladeira e na porta da biblioteca. Bufei, já sabendo que se tratava de outra pista. Caminhei tranquilamente até lá e aproveitei para dar uma olhada ao redor, vai que Nicolas estava escondido em algum lugar. Mas ao constatar que não, apenas abri o bilhete e li seu conteúdo.


Franzi a testa, comecei a pensar que, talvez, Nicolas tivesse caído da cama e batido a cabeça, porque ele nunca tinha sido tão ridiculamente romântico assim. Deixei meu olhar cair até o chão, onde se encontrava outro bilhete e mais a frente, havia outro, seguido por outro e outro... Que droga de homem! Haviam tantos papéis amarelinhos pelo chão que já estava começando a parecer o caminho para o castelo no livro “O mágico de Oz”. E a trilha deles parecia dar a volta na casa e ir para o jardim do fundo. Dei alguns passos a frente, curvei meu corpo e peguei o maldito papelzinho.

— Esse negócio tá ficando estranho! — Resmunguei, andei até o próximo e o abri.


Mais alguns passos.

Naquele momento, estava se passando tantas coisas em minha cabeça, que nem ao menos percebi que já havia chegado no jardim dos fundos. Levei um baita susto quando levantei o olhar e vi todas aquelas pessoas me olhando, sorrindo largo e com cara de cúmplices. Dei uma olhada rápida no ambiente, podia ouvir o estalo do meu queixo quando chegou ao chão. Mesas, cadeiras, flores... tudo muito bem decorado e organizado. Sempre tive o costume de acordar tarde, mas nesse dia não havia visto as horas e a pergunta que rondava meus pensamentos era: Quando fizeram tudo isso? De repente, o som foi ligado e uma música começou a tocar. Uma


música agitada, mas romântica. Tudo aquilo só podia ser coisa de Nicolas, afinal ele havia assinado os bilhetes com a inicial de seu nome e pelo o que podia ver, também tinha uma cúmplice, uma não, várias. Ameacei andar na direção deles, mas fui parada ao ver alguns de nossos amigos se organizando em fila com uma placa em mãos. Respirei fundo, já estava começando a ficar nervosa junto da ansiedade que me consumia. Não sabia o que era tudo aquilo, mas tiveram trabalho. Olhei para o nosso gramado que estava coberto por pétalas de rosas vermelhas e senti um tremor em meu coração. Segurei as lágrimas de emoção e caminhei até aonde supus que eu devesse ficar, já que estava escrito meu nome dentro de um círculo. Esse círculo estava localizado de frente para eles, a minha direita e esquerda, estavam as mesas decoradas com arranjos lindos de rosas vermelhas, a minha frente havia um corredor que me levaria até eles, mas após alguns segundos, percebi que não era para que eu fosse até eles, e sim, para que eles fossem até mim. Mari era a primeira da fila, seguida por Cooper e o resto não dava para eu ver. Começou a andar em minha direção e conforme se aproximava, conseguia ler o que estava escrito em sua placa.

— O que é isso? — A questionei quando a mesma passou por mim, mas ela apenas respondeu com um balançar de ombros e um sorriso largo no rosto. Voltei minha atenção para Cooper e franzi a testa ao vê-lo ir em minha direção.


Pensei em perguntar para Cooper também, mas já estava percebendo que isso seria perda de tempo. Eles não iriam responder, então apenas esperei para que o próximo caminhasse em minha direção, ou melhor, a próxima, já que se tratava de ninguém menos do que Mila. Sorri ao vê-la caminhar, seus cabelos se moviam conforme o vento passava por eles. Eu havia me apegado tanto a essa menina que passei a vê-la como minha filha.

E?


Naquele momento já havia começado a orar, pedindo para que Deus não deixasse que meu pobre coração sofresse de uma parada cardíaca. Esperava não morrer ali, porque tinha planos para Nicolas. Eu iria tortura-lo muito depois que tudo isso acabasse. Porém, logo atrás de Mila vinha a pessoinha que eu mais amava no mundo, aquela que me deu motivos para sonhar, para viver. Que me mostrou o que era amor incondicional, o que era amor sem medidas. Sorri largo e tive que limpar as lágrimas que escorriam pelo rosto. Ver a minha menina tão linda, caminhando com aquela plaquinha nas mãos como se entendesse o que estava acontecendo fez meu coração ficar bobo. Acho que toda e qualquer mãe se sentia assim. Mordi os lábios para ela e a mesma sorriu, ameaçou correr em minha direção, mas conseguiu se controlar. A peguei no colo quando se aproximou e beijei cada espaço do seu rosto. — Oi, meu amor. — Virei a placa que ela segurava para que eu pudesse ler seu conteúdo.

Meu coração ameaçou falhar. Segurei Kaylana com força em meus braços, enquanto me sentia embargada em minhas emoções. O último daquela fila era ele. Nicolas. O homem que havia roubado meu coração, me protegido, o homem que havia me dado uma linda filha e que havia me feito entender o que era ter uma família de verdade. Respirei pelo nariz e soltei pela boca, fiz isso umas dez vezes enquanto Nicolas caminhava em minha direção. Eu já sabia o que ele ia fazer, na verdade, sabia o que ele ia pedir. Por diversas vezes, enquanto conversávamos ele sempre dizia de sua vontade em me ver de noiva,


mas eu, delicadamente, sempre tinha um jeitinho de dizer que não estava preparada para esse momento. Quando soubemos da minha gravidez ou quando Kaylana viera ao mundo, Nicolas sempre achava um meio de dizer indiretamente, o seu desejo de casar de papel passado. Eu queria isso também, mas a verdade é que a rotina não deixava. Estávamos morando juntos desde que soubemos da vinda da nossa menina e para mim, aquilo já era um casamento, então, apenas me habituei.

Já não conseguia enxergar um palmo a minha frente, meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas, então, apenas percebi que ele havia se ajoelhado em minha frente quando o mesmo segurou em minhas mãos e me forçou a limpar todas as lágrimas. Respirei fundo em busca de um equilíbrio ou nem ao menos responder conseguiria. Kay estava agarrada ao meu pescoço, pedindo para que eu não chorasse, porque não gostava de ver sua mamãe chorando e isso me fez chorar ainda mais. Mas chorar de felicidade. Nunca iria imaginar que Nicolas pudesse fazer tal coisa. Ele abriu uma caixinha preta de veludo, sorriu nervoso e esperou alguns segundos para que Mari levasse o microfone. Troquei Kaylana de braço, porque ela podia ter apenas quatro anos, mas era pesada. — Amor... — Ele disse com aquela voz rouca. — Durante todos esses anos que estamos juntos, não houve um único dia em que não agradeci a Deus por ter colocado você em meu caminho... Sua pausa deu brecha para assovios e palmas. Eu ainda estava ali,


parada como estátua, chorando feito boba e rezando para não ter uma parada cardíaca. — [...] quando digo que você é o amor da minha vida, entenda duas coisas: Você é o amor e esse amor, é o que me dá vida. É você quem está ao meu lado quando preciso, é você quem apoia tudo e qualquer coisa que eu faça, mesmo quando é algo estúpido. O som das risadas ganhou o lugar e eu só queria poder fazê-lo calar a boca. Eu já estava nervosa o suficiente só com o momento, suas palavras estavam fazendo meu coração se agitar e bater muito rápido. Tive que respirar fundo por diversas vezes em busca de ar. — [...] e eu amo você, Kayla, amo sua maneira de ser, seu jeito de falar e até mesmo amo quando briga comigo por causa da merda de uma toalha molhada em cima da cama. Ele riu pelo nariz e acabei fazendo o mesmo. — Nicolas... — Gaguejei fungando. — Me deixe terminar. — Beijou as costas da minha mão. — A resposta é sim homem, pare de falar tanto, pelo amor de Deus! — Ralhei com ele fazendo todos os presentes caírem na gargalhada. Nicolas levantou-se resmungando algo por eu ter estragado seu momento romântico e me beijou com fervor, fazendo acender de imediato todo o meu corpo. Ao que parecia, tudo aquilo não havia sido feito para um simples pedido de casamento, então, assim que nos afastamos já fui logo perguntando onde estava o vestido.

O suor em minhas mãos fazia com que eu as limpasse em meu vestido a cada cinco minutos, tentei me manter calma em meio ao turbilhão de sentimentos, mas essa era uma missão impossível. Sabia que esse dia chegaria, que um dia eu iria casar, só não imaginava que isso fosse acontecer com ele. Respirei fundo grudada ao braço de Cooper, ele me acompanharia até o altar. Tudo estava tão lindo, tão decorado que cheguei a pensar que Mari tivesse um dedo nisso, Nicolas não iria conseguir fazer algo assim, ainda mais em tão pouco tempo. Quando vi Kay com seu vestidinho de daminha, meu coração faltou sair pela boca de tanto orgulho da minha


mini mocinha. — Ansiosa? — Cooper questionou ao se aproximar um pouco mais para me dar equilíbrio. — Acho que estou com dor de barriga. — falei trêmula. — Relaxa, só está a família do Nicolas e alguns amigos. — Tentou me confortar. — Não seja palhaço! — Esbravejei. — O casamento em si que está me deixando nervosa, não quem está nele. — É, você está prestes a se transformar na senhora Almeida. — Riu baixo. — Nunca iria imaginar isso, Cooper. — Confessei. — Foram tantas coisas que aconteceram. — Nicolas já imaginava. — Riu. — Ele sempre soube que você seria a mulher dele, mesmo quando aceitou a promoção. — Nem me fale, pensei que fossemos nos separar. — Que ilusão! — Disse humorado. — Foi exatamente o contrário, ainda mais porque vocês chegaram a um bom senso. — É, acho que passar o programa para outra pessoa e vir morar com Nicolas aqui, foi a melhor decisão que tomei na vida. — Suspirei, lembrando-me de como tudo aconteceu. — Também acho, até porque Kaylana estava a caminho e nem ela, e nem você, podiam ficar longe do pai. — Ele sorriu largo. — Ah, preciso aproveitar que estamos longe de Nicolas e falar que você está incrivelmente linda, Kayla. Seu comentário sobre me transformar na senhora Almeida me fez sorrir, iria gostar disso, de ter o sobrenome de Nicolas. — Obrigada, mas não se esqueça de Mari! — Agradeci e cutuquei sobre algo que o incomodava muito, Mari. Acho que esses dois morreriam, mas não assumiriam seus sentimentos um pelo outro. Em seguida a marcha nupcial começou a tocar. — Deus do céu, dai-me forças! Enfim nos encaminhamos até o lugar onde estive a uma hora atrás, parei em cima do meu nome e junto de Cooper, avancei em direção ao Nicolas. Meu corpo ao mesmo tempo que parecia rígido, também parecia mole. Como se minhas pernas não fossem me sustentar até o final, minha garganta insistia em ficar seca, me obrigando a engolir saliva mais vezes do que eu pudesse contar.


Lá no altar, diante de um juiz matrimonial e do padre, Nicolas me esperava com seu terno cor de creme e um sorriso nervoso. Era reconfortante saber que eu não era a única em estar passando por um estresse pré casamento, acabei me sentindo melhor ao perceber isso. Olhei ao redor e dei meu melhor sorriso para todos que estavam presentes, queria que sentissem a felicidade que eu estava sentindo através daquele sorriso. Ao meu lado, Cooper também sorria, empolgado com a ideia de me acompanhar até o altar. Ele já fazia parte da minha família, e na falta de um pai, estava feliz em tê-lo comigo nesse momento especial. Quando já alcançávamos o altar, decidi que estava na hora de olhar para o homem que me aguardava lá na frente, porque até aquele momento, eu ainda não havia conseguido sustentar nossos olhares por mais de um segundo. Sorri quando nos encaramos, sorri sentindo toda a nostalgia do momento me atingir. Ali eu sabia que, embora já morássemos juntos e tivesse a nossa vida, era naquele momento que ela iria realmente começar. Iríamos ser abençoados por Deus. Respirei fundo a cada passo que eu dava, a minha frente ia Kay segurando as alianças. Enfim ela iria ver seus pais casados como mandava a vida e mesmo que tivesse demorado para acontecer, eu não me arrependia de nada. Cada minuto até ali havia valido a pena. Parei diante dele e fui recebida com um beijo carinhoso no topo da cabeça. Cooper entregou minha mão e o abraçou apertado desejando toda a felicidade do mundo, também fez o papel de pai, pedindo para que continuasse cuidando de mim e de Kaylana da mesma forma que já havia feito até ali. Mordi meus lábios e suspirei, diante de tudo o que tinha acontecido naquele dia, eu ainda desejava torturar Nicolas, mas agora a tortura viria de forma diferente. Ficamos de frente um para o outro e escutamos tudo o que juiz tinha para nos falar, quando chegou no fim, no momento mais esperados por todos, principalmente para Nicolas e eu, sorri largo e deixei que uma lágrima de felicidade escorresse mais uma vez pelo meu rosto. — Nicolas Almeida, promete amar Kayla Mendes na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte os separe? — Sim! — Respondeu rápido, arrancando algumas risadas baixas de todos os que estavam nos assistindo e o melhor de tudo, ele havia conseguido fazer tudo aquilo sem alertar a imprensa. — Kayla Mendes, promete amar Nicolas Almeida na alegria e na


tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte os separe? Um sorriso rasgou o meu rosto quando a pergunta foi feita, ali, todas as memórias que havia tido com Nicolas desde quando nos conhecemos passaram diante dos meus olhos, vi e revivi certos momentos que haviam ficado marcado em nossas vidas, fosse aquelas memórias de dor ou não. Nossos dedos se entrelaçaram e beijei cada nó deles, pronta para aceitar o homem que me deu muito mais do que poderia imaginar. Amor e família!


Existem pessoas que tornam nossa caminhada mais significativa... seja pela companhia... pelo apoio... pelo carinho... ou porque nos tornam melhores a cada dia que se passa. Nessa caminhada, passaram pessoas que demonstraram fidelidade, amizade, outras que, simplesmente demonstraram quem eram de verdade. Durante essa caminhada também teve alguns obstáculos, acontecimentos que colocaram em dúvida se era essa a profissão que eu gostaria de seguir, mas eu sei que se encontrarmos um caminho sem obstáculos, ele provavelmente não nos levará a lugar algum. Também não posso esquecer de citar algumas pessoas/autoras que foram uma parte essencial nessa minha jornada. Pessoas que provaram merecer o título da amizade. Porque como já dizia a poeta Kity Araújo: Amigos são pedacinhos de nós, que nossa alma abraça antes mesmo do olhar. E todos os nomes a seguir tiveram uma função importar na construção desse livro. Seja nos pitacos, no incentivo, no apoio... elas mostraram-se presentes e garantiram um espaço, não só nesses agradecimentos, como em meu coração: Barbara Dameto, a mulher responsável por essa capa maravilhosa. Andrea Parker, Ana Caroline Oro, Meirlyane Peters e Mari Sales, minhas betas maravilhosas, que mesmo com seus dias corridos, em algum momento tirou uma hora para ler o que eu escrevia. Não posso expressar em palavras o quanto amo cada uma de vocês, até porque nossa parceria vem de outros carnavais. Não posso, em hipótese alguma, deixar de lado as seguintes autoras: Awf Santos, Carol Cappia, Julia Fernandes, Karen Dorothy, Lillyane Breezy, Mag Alves, Nana Simons, RM Cordeiro, Mariana


Helena, Marcela Silva, Ellen Savvy, Danda de Alencar, Gabriella Guimarães, MG Nunes, mulheres guerreiras, fortes, criativas e talentosas que o Blog Café com Letras me presenteou. Todas fazem parte da minha família e são elas que tornam meu dia divertido. Obrigada por suas loucuras! Agora, se você leu todos aqueles nomes na esperança de encontrar o seu e não obteve sucesso, não fique triste, porque a lista das mega especiais vem agora: Lene Gracce, que mesmo com a distância e a falta de comunicação nos últimos tempos, sempre arruma um tempo em meio a sua vida corrida para vibrar comigo a cada conquista alcançada. Tia do coração que tanto amo, obrigada! Tania Giovanelli, a mulher batalhadora que o Facebook me presenteou e que depois vim a descobrir que éramos da mesma cidade, sendo assim, ali já estava mais do que garantido uma amizade forte e amorosa. Conte comigo para qualquer coisa que precisar, sabe que não medirei esforços para te ajudar. Mari Sales, sim, eis aqui o nome dessa mulher de novo, porque alguém que possui o dom das “mil e uma utilidades” merece estar nos agradecimentos trezentas vezes. Essa autora, amiga, mãe, recatada e do lar que sempre está disponível para ajudar quando mais preciso. Ainda ei de te amarrotar de beijos e abraços quentinhos. Andrea Parker... as palavras fugiram, mas precisava te colocar aqui para que soubesse, mais uma vez, o quanto é especial para mim. As melhores noites eu passo em sua companhia, jogando o melhor jogo de rpg que já joguei. Luzimeire Santos, ô mulher que me irrita com suas frescuras, cruz credo! E mesmo assim, olha aonde está seu nome. Isso é para que entenda de uma vez por todas, o seu valor em minha vida. Se ainda assim você não viu seu nome, já vou pedindo desculpas, nunca fui muito boa com a memória e quem me conhece sabe bem disso. Mas deixo aqui o meu obrigado. Já cansou de ler tantos agradecimentos? Aguenta mais um pouco porque não acabei. Não posso terminar essa nota sem agradecer toda a minha família, que também se estende para a família do meu noivo, mesmo aqueles que nem ao menos sabem que escrevo, já deixo um agradecimento aqui porque vai que né... o futuro a Deus pertence.


Vários beijos de agradecimento para as blogueiras lindas que se dispuseram a resenhar o livro antes mesmo de ser lançado. Foi gratificante contar com vocês nesse processo e espero continuarmos parceiras em minhas futuras obras. Não posso e não vou citar os nomes, porque tenho plena e absoluta certeza que minha memória não vai cooperar. Então, vou me abstrair desse mico. E agradeço a todas as dificuldades que enfrentei; se não fosse por elas, não teria saído do lugar. Não teria lutado pelos meus sonhos, já que as facilidades nos impedem de caminhar. Até mesmo as críticas merecem o meu agradecimento; elas me fizeram mais forte, mais rígida com minha própria escrita, me colocaram em alerta e me ajudaram em meu crescimento como escritora. “O tempo avança e a gente agradece... agradece pela vida. Vida de sonhos, verdades, alegrias, dores, amizades, amores e luz. Tente, mesmo que no momento sua vida seja apenas de lembranças. Viva! Viva mesmo que seja de mistérios, incertezas, lutas, paz e de amor.” — Tatiane Souza.


Conheça suas outras obras:

Margô sempre foi uma mulher que preferia permanecer com o pé no chão, do que sonhar com algo fora de alcance. Restrita, planejadora, e cheia de manias, ela vive sua vida a espera que algo aconteça e a faça viver uma aventura irresistível. Ela só não contava com duas coisas: Uma doença e uma confissão. Com a mãe deitada no leito de um hospital entre a vida e a morte, ela recebe a notícia que mudará sua vida. Sua mãe confessa antes de morrer, que ela tem um irmão, mas por causa da situação financeira da época, ela o vendeu para um casal que não podia ter filhos. Decidida a encontrar esse irmão e deixar no passado toda a dor que a vida lhe causou, ela parte rumo a Seattle, EUA. Mas embarcar nessa nova aventura irá trazer-lhe muitas dores de cabeça, e lidar com alguns sentimentos — que nem deveriam existir — poderá colocar seu mundo de cabeça para baixo. Fiquem agora com os cinco primeiros capítulos de degustação. Boa leitura!


Até que não é ruim! — Soltei um leve grunhido ao ver meu pequeno quarto. A pensão onde me instalei era modesta e bem pequena. A vista não era das melhores, um prédio com aparência abandonada foi construído ao lado. Ou ele já estava ali quando a pensão foi construída? O fato é que, não me importava com o lugar onde iria ficar desde que eu o encontrasse. — Espero que você goste do quarto. Sei que vai ficar pouco tempo aqui! — A mulher sorriu carinhosamente, ajeitou sua blusa para limpar a sujeira. Estava fazendo pão quando o meu táxi encostou na porta da pequena pensão. — Sabe? — Questionei a dona da pensão intrigada. — Todos que passam por aqui, só ficam até conseguirem um bom emprego. Depois eles vão para um lugar melhor. — Entregou-me a chave. — Em todo caso, sou agradecida pela estadia. Me chamo Margô Santana. — Estendi a mão para um cumprimento após pegar a chave de sua mão. — Esperança Vilaça. Seja bem-vinda! — Obrigada. Dona Esperança deixou meu quarto após dar um sorriso solidário. Gostei do seu jeito doce de falar, de uma certa forma ela lembrava minha mãe. Ela sempre me falava de como devemos ser honestas e humildes sem bancar a trouxa. Desembarquei no aeroporto de Seattle às 10h05 da manhã. Pegar um táxi que me trouxesse até a pensão foi fácil se comparado ao Rio de Janeiro. Aqui basta levantar a mão e logo um táxi para, diferente do Rio que você tem que se jogar na frente para que um pare. Honestamente, não entendo porque os países são tão diferentes na economia se temos tudo para sermos iguais. Devo culpar o nosso amado


governo por isso? Arrumei minhas coisas na pequena cômoda, coloquei sobre a cama a roupa que eu iria usar na minha entrevista de emprego e fui tomar um banho. O banheiro como eu previa era minúsculo, mas para mim servia. Tomei uma ducha e me troquei. Os minutos pareciam voar e logo já estava na hora da minha entrevista. Peguei a minha bolsa com os documentos e voei para a empresa. Havia chegado a hora de buscar pelo meu irmão, e nada iria me parar.

Desci do táxi já conferindo o relógio. Dois minutos atrasada. Suspirei exasperada. Merda! A avenida estava movimentada, meus saltos machucavam meu pé a ponto de me fazerem gemer baixinho toda vez que andava. Do outro lado da rua estava a empresa com seu grande letreiro. TECBOND. Era a maior empresa na qual já vi, parecia ter dezenas de andares e todas as janelas eram espelhadas. A empresa em si já era um charme. Atravessei a rua correndo para que eu não fosse atropelada no meu primeiro dia em uma cidade desconhecida e, ao me aproximar do prédio tive o azar de esbarrar em alguém. — Ai! — Exclamei no impacto do meu traseiro com a calçada. Meus olhos fecharam por um momento, passei a mão no local dolorido já praguejando mentalmente o fulano. O rapaz que me derrubou olhou pelo canto dos olhos enquanto corria com minha bolsa para longe. Com a minha BOLSA. Fui assaltada! Fiquei indignada, olhei ao redor e ninguém parecia se importar ou ao menos, me verem. Acho que descobri como ficar invisível no meio da multidão. Parei um pouco para respirar, na verdade, precisava pensar em como poderia me apresentar em uma entrevista sem ao menos ter documentos. Levei as mãos até o topo da minha cabeça sentindo aquela velha sensação invadir meu peito, o coração acelerou e logo pensei na possibilidade de pegar o celular e ligar para o Rafa. Rafa sempre foi meu porto-seguro nas horas em que mais precisei, era aquele tipo de amigo companheiro que todos deveriam ter, só que eu não podia correr para ele sempre quando me batesse o desespero ou sempre quando viesse o medo. Mas, eu precisava me acalmar e contar até dez, passar por situações difíceis sempre esteve nos planos, só não contava que isso fosse acontecer tão


cedo. “Você ainda tem uma entrevista para fazer, controle-se.” Me apressei em entrar na empresa para que não perdesse mais tempo, minha face estava com uma expressão preocupada e assustada, quando cheguei a recepção. — Boa tarde, senhorita! Em que posso ajudar? — A moça loira atrás do balcão me mandou um sorriso gentil. Tinha uma postura firme e uma expressão serena. Passava confiança. — Boa tarde! Eu tenho uma, eu tenho uma entrevista com o senhor Andrew Bond. — Acho que pude ouvir minha voz vacilar. Borboletas dançavam de um lado para o outro dentro do meu estômago. Por mais que me doesse, já estava aderindo a ideia de desistir da entrevista e deixar isso para outro dia, mas sabemos que não haveria outro dia, nem outra oportunidade. Se eu queria esse emprego, e eu queria, devia me enfiar com unhas e dentes. — Seu nome? — Margô Santana! — Respirei fundo inalando coragem. — Ah sim, aqui está! — Disse logo após olhar seu computador. — Ele está em uma reunião no momento, mas não deve demorar. Pode sentar-se ali se quiser. — Apontou para um luxuoso sofá. Dei um sorriso como forma de agradecimento e sentei-me no estofado macio, meu traseiro recém abatido não reclamou de ser apalpado por ele. Cruzei as pernas e comecei a balançá-la freneticamente. Uma mania que tenho quando estou nervosa ou quando não sei o que fazer. Comecei a bater os dedos na perna como forma de distração. Uma bolsa faz falta, muita falta. — Quer alguma coisa? Um café? Um chá? — A secretária tirou-me dos meus devaneios. — Não. Obrigada! — Tem certeza? — Ela sorriu. Toda vez que ela sorria suas bochechas quase tapavam seus olhos. — Não quero incomodar. — Me remexi sobre o sofá. Estava desconfortável. Nervosa. Um ar frio passou sobre meus ombros, minha pele arrepiou-se e eu desejei estar enrolada em um cobertor quentinho. Justo nesse dia o tempo amanheceu nublado. — Não há incômodo, fique tranquila. — Sorriu largamente. — E então? — Bom, então pode ser um café!


E então, minhas pernas começaram a balançar de novo. Cocei a nuca levemente irritada pela falta que uma bolsa faz. A vida de uma mulher fica dentro de uma bolsa e eu não tinha nenhuma para disfarçar meu constrangimento. Me sinto pelada sem uma bolsa. Aquele homem filho da p***. — Aqui está! — Estendeu a pequena xícara. — Sou a Grazielly, me chame de Zi. — Prazer! — Peguei a xícara. Mas estava tão nervosa que meu corpo começou a tremer e, havia uma grande probabilidade de o café ir parar no lindo tapete felpudo que estava sob meus pés. — É uma grande empresa. — Senhor Bond é um homem dedicado. A maior parte do dia ele passa aqui na empresa, sempre com seu celular na orelha resolvendo problemas, sempre rodeado por empresários, muitas reuniões. — Ela dizia sobre Andrew Bond com um certo orgulho. Fiquei curiosa para conhecê-lo. Deveria ser um senhor bom e um ótimo chefe. Coloquei por um momento meu nervosismo de lado e deixei um sorriso sincero brotar em meu rosto. Ela transmitia confiança e simpatia. Uma jovem de mais ou menos minha idade, loira, corpo normal com uma proporção exagerada nos seios e uma aparência juvenil. Dei um gole em meu café no momento em que ela falava sobre Andrew ser divorciado e, por algum motivo por mim desconhecido, me engasguei deixando o café cair no tapete. Naquele belo e felpudo tapete. Belo, felpudo e caro tapete. Droga! — Tudo bem, vou mandar a equipe de limpeza vir dar um jeito nisso. — A secretária ágil já estava em sua mesa com o telefone em mãos. — Desculpa! Eu não sei o que aconteceu. Devo ter a boca furada. — Sorri constrangida. Me levantei rapidamente e comecei a andar de um lado para o outro. — Calma, Margô. Se a mancha não sair nós encomendamos outro igual, não se preocupe! Que mancada! O dia não estava a meu favor... fui assaltada e agora havia acabado de derrubar café no belo, felpudo e caro tapete do meu possível futuro patrão. E o pior, duas vozes masculinas estavam preenchendo o local e, se aproximavam cada vez mais. No mesmo instante, Zi alargou o sorriso enquanto a equipe de limpeza recolhia o tapete. — Senhor Andrew, essa jovem o espera para fazer a entrevista! Era agora. Ele estava parado atrás de mim, pude sentir uma nostalgia nascer em meu peito, algo em mim não estava certo e a conclusão disso foi quando virei e me deparei com ele. Andrew Bond. Um formigamento estranho percorreu a sola dos meus pés, fazendo o mesmo suar. Só me faltava


dar chulé! — Senhorita Santana, venha a minha sala! — Deu sua ordem despedindo do rapaz com quem conversava antes de me ver. Dei uma bela travada, não somente porque estava em sua presença, mas porque esperava que fosse fazer entrevista com alguma outra pessoa. Talvez, um encarregado, gerente ou até mesmo com a equipe de limpeza... menos com o todo poderoso. Meu curriculum não era grande coisa, só que em nenhum dos meus antigos empregos havia sido entrevistada pessoalmente pelo chefe. Aconteceu algo parecido uma vez, mas nem cheguei a ver o dono da empresa, ele ficou por chamada conferindo minha entrevista porque o cargo era importante, só que nesse caso, havia me candidatado para o cargo de administradora, não era nada demais. Deixei o local assentindo e caminhei até sua sala meio relutante. Por algum motivo eu não estava conseguindo comandar meu corpo direito, devia ser cansaço. Ao entrar em seu escritório – devo acrescentar que era do jeito que imaginei – dei um sorriso contido, não esperava menos do lugar. Extremamente luxuoso e um tanto intimidador. — Por que gostaria de trabalhar em minha empresa? Por que meu suposto irmão também trabalha aqui e estou louca atrás dele já tem três anos. Andrew tinha um jeito perturbador de fazer meu coração chacoalhar e isso era loucura. A falta de ar ou o excesso dele me fez respirar fundo, não estava conseguindo focar em muita coisa. Encontrei os olhos dele em um determinado momento, parecia ansioso por minha resposta e minhas pernas tremeram com a ideia de mentir para alguém como ele. Andrew estava para se tornar meu chefe. MEU CHEFE! MEU CHEFE! Precisava urgentemente frisar essas duas palavras em minha cabeça. — A empresa é a melhor no ramo social e profissional. Me enquadro nos seus padrões, tenho os meus objetivos e estou disposta a colaborar para que a empresa cresça cada vez mais. Eu sei, falei bonito. Na verdade, passei o último mês ensaiando o motivo pelo qual eu gostaria de trabalhar na TECBOND. Claro que esse não era o verdadeiro motivo, mas ninguém precisava saber disso. Seu olhar estava sobre mim. Parecia analisar, observar, pensar em algo que o estava deixando com o rosto vermelho. Alisou o queixo com seus longos dedos e em seguida colocou seus cotovelos sobre a mesa deixando as mãos diante do seu rosto, para que apoiasse o queixo sobre as mesmas. Observei que um sorriso quase imperceptível nasceu em seus lábios e,


novamente aquele formigamento estava a me incomodar. Cruzei as pernas e cocei a nuca na tentativa de disfarçar a reação que ele me causava. Ele apertou sua pequena caixinha, onde momentos depois descobri que era o interfone e sibilou com seus lábios altamente provocantes. — Grazielly, arrume a papelada da senhorita, Santana. Ela começa hoje! — “Sim, senhor!" Ouvi a Zi responder. — Hoje? — Questionei surpresa. — Agora! — Agora? — O remendei confusa. Não sabia que já ia começar a trabalhar, eu havia sido roubada. Todos os meus documentos, pertences, cartões de créditos. Havia perdido tudo. Estava aflita. — Onde está sua bolsa? — Andrew olhou-me intrigado. Levantou-se e encostou na mesa cruzando os braços. — As mulheres usam a bolsa como uma base e no entanto, você está sem a sua. — Bom, eu tive um probleminha antes de chegar aqui e.... — Que tipo de probleminha? — Ele fincou seus olhos em mim como se pudesse ver minha alma. — Eu, eu fui assaltada senhor! — Respondi super constrangida. É cada coisa que me acontece, viu! — Assaltada? Na entrada da empresa? — Falou repugnado e voltou a apertar o interfone. — Grazielly, a bolsa da senhorita Santana foi roubada, portanto ela está sem seus documentos, cartões de créditos, enfim, providencie tudo o que ela precisa para ontem, entendeu? — " Sim senhor. Mais alguma coisa?" — Não!


O seu tom autoritário dava a entender que ele não gostava de ser contrariado, seu corpo alto tinha um físico não muito atlético, os dois primeiros botões de sua camisa estavam desabotoados e notei que não haviam pelos. Seu tórax completamente depilado me fez ter pensamentos profanos. Fiquei feliz em saber que a Zi iria cuidar disso para mim porque eu não sabia nem por onde começar. Meus nervos estavam muito agitados e, diga-se de passagem, que a presença de Andrew estava ajudando. Meus olhos encontraram com os dele, um gemido quase inaudível saiu por entre meus lábios e isso foi pelo fato do meu salto estar machucando meus pés. Ou foi isso o que eu quis, que eu desejei que fosse. Qual outro motivo teria? — Vamos, vou mostrar seu local de trabalho! — Meus ouvidos receberam a frase, mas, meu cérebro não enviou o recado para o meu corpo fazendo com que eu estivesse no mesmo lugar quando inevitavelmente Andrew passou por mim, fazendo nossos ombros esbarrarem. — De novo! — Reclamei baixinho após cambalear e ir parar no carpete macio. Esse tombo foi infinitamente melhor que o primeiro, cheguei a sentir um aroma amadeirado chegar até mim. Inspirei fundo aquele perfume, sem nem ao menos saber que havia feito isso. Comecei a perceber que estar na presença de Andrew, era pedir para entrar no automático. — Me desculpe! Você está bem? — Estendeu sua mão para me ajudar a levantar. Sua feição mostrava o quão preocupado estava, um sorriso de vitória brotou em meu interior e, meu ego pareceu inflar. O que estava acontecendo? — O primeiro tombo foi pior. Não tinha um carpete macio para amortecer a queda! — Peguei em sua mão sorrindo. Um suor frio e estranho nasceu na palma das mesmas. Era estranho tocá-lo. Tinha aquela sensação de estar fazendo algo errado, algo terrivelmente errado. E quem não gosta de coisas erradas?


Andrew Bond apenas sorriu. Sorriu como se soubesse no que eu pensara, parecia saber que eu me referia a ele quando citei o carpete. Levantei e tentei me recompor para parecer menos abalada, acho que funcionou, Andrew pelo menos pareceu não reparar. Seguimos o caminho em direção ao elevador, a cada passo que eu dava sentia os olhares dos outros funcionários me seguirem. Pelo canto dos olhos vi uma mulher negra, de cabelos lisos e olhos puxados. Japonesa. Uma negra japonesa. Tá, talvez seus olhos não fossem tão puxados assim, mas, sua pele era perfeita, sem manchas, sem qualquer imperfeição. — Logo você se acostuma! — Senhor Bond disse enquanto chamava o elevador. Mas, me acostumar a quê? — Desculpe! O quê? — Você é novata. Os olhares ficarão sobre você por alguns dias! — Sorriu de canto. Não entendi direito. Na verdade, acho que entendi, mas me recuso a aceitar, entende? Respirei fundo e assenti concordando. Passei as mãos em frente ao meu corpo, estava incomodada com sua presença e queria muito ter uma bolsa para aliviar minha tensão. O elevador parou e abriu-se para nós entrarmos, senhor Bond me deu espaço para passar. Com muito custo consegui. Ele entrou logo em seguida, com sua pose rígida. — Bela empresa! — Disse meio constrangida. O elevador estava me deixando sem oxigênio. Senhor Bond sorriu satisfeito, orgulhoso, presunçoso. Ao sair do elevador me deparei com uma espécie de sala. Uma sala com muitas mesas, mesas que continham muitas pessoas atrás delas trabalhando feito loucos. Puxei o ar e o segurei. Minha boca estava seca, passei a língua rapidamente nos lábios para umedecê-los. Soltei um leve suspiro quando me pus a andar, os sapatos estavam me matando. Andrew estava mesmo mostrando o local onde eu iria trabalhar? Alguém como ele, ocupado e cheio de tarefas para cumprir, deveria estar em seu escritório resolvendo alguma coisa da empresa, não levando a nova dondoquinha para conhecer seu local de trabalho. — Essa será a sua mesa, senhorita Santana. Seu colega está atrasado. — Conferiu o relógio. — Mas no que precisar estarei à sua disposição. A minha disposição? Tudo estava se tornando mais estranho a cada segundo que passava. Não que eu estivesse achando ruim de ganhar esse tour do meu chefe, mas a verdade, era que aquilo estava me incomodando um pouco. Toda essa atenção de Andrew comigo me fazia sentir um aperto no peito. — Quem é o meu colega? — Questionei observando a minha mesa. A


minha parte estava organizada, a do lado estava um desastre. — Matheus Smith. Ele é um pouco bagunceiro, mas um ótimo trabalhador! — Apertou uma tecla do teclado do computador e sorriu. — Espero que tenha uma boa tarde! Então éramos dois. Também desejava que fosse uma boa tarde, afinal, não estava nos meus planos ser assaltada e começar a trabalhar no mesmo dia da entrevista. Assim que ele se virou soltei todo o ar que estava preso dentro de mim, escorei na minha mesa, respirei fundo e me sentei. Havia umas pranchetas sobre ela, dei uma olhada. Eram os gráficos do desempenho da empresa. Logo em seguida, ouvi alguém tossir ao meu lado. — Você está na minha mesa, novata! Virei para trás assustada. Um rapaz moreno, alto, com cabelos bagunçados e olhos cor de mel, estava parado em minha frente. Braços cruzados, olhar zombador. Na certa era o meu colega. Eu poderia estar julgando mal, mas, ele se parecia com um desses rapazes que adora uma pegadinha. Desses bem chatos que agem como se fossem crianças. — Nossa mesa, até aonde sei! — Retruquei com um sorriso cínico. Ele arqueou a sobrancelha, vi quando seus olhos escorregaram pelo meu corpo, apenas dei de ombros como se aquilo não tivesse chegado ao meu conhecimento. — E ainda é respondona! — Sorriu de canto. — Gostei de você. Vamos nos dar bem! — Assim espero! — Sou Matheus Smith. Técnico em sistemas digitais e analógicos. — Margô Santana. Administradora contábil. — Apertei sua mão. Sua mão era um tanto macia, seu sorriso alargou ao final do cumprimento, balancei a cabeça rindo. Ele parecia estar fascinado com minha beleza. Bom, talvez eu tenha apenas imaginado coisas, não sou tão bonita assim. — Já revisou as pranchetas? — Acabei de ser contratada. Nem respirei direito! — Suspirei cansada. Arrumei alguns papéis que estavam sobre a mesa e olhei ao redor. Todos estavam bem concentrados. — Posso ajudar se quiser! — Pegou duas pranchetas e as olhou. — Há quanto tempo mora aqui? — Umas cinco horas mais ou menos. — Respondi após olhar o relógio em meu pulso. Matheus me olhou confuso, parecia assustado.


— Tá falando sério? — Questionou indignado. — E de onde você é? — São Paulo, Brasil. — Soltei uma risada baixa. — Você nem bem se instalou e já está trabalhando? Não descansou? Comeu alguma coisa? — Matheus... — Matt. Me chame de Matt! — Hum, okay. Matt, respira tá? Estou bem. Daqui duas horas iremos embora mesmo! — Verdade. — Sorriu aliviado. — Quer ir em um barzinho depois do expediente? — Hã? — Cruzei as pernas me sentindo desconfortável. — Bem, eu preciso arrumar as minhas coisas e estou muito cansada. Vi sua sobrancelha esquerda arquear, como se não fosse desistir. Revirei os olhos perplexa, como essa criatura queria que eu fosse para a farra me divertir sendo que eu tinha coisas importantes para fazer? Precisava arrumar minhas coisas, meu quarto, colocar minha agenda no lugar porque não esperava que fosse trabalhar tão rápido. Pensei que teria ao menos uma semana para me instalar, procurar meu irmão e então, tocar minha vida nova. Respirei fundo olhando ao redor e, então vi Zi aproximar-se. Ela estava sorrindo, andava graciosamente em seus sapatos que pareciam muito confortáveis. Ao contrário dos meus que estavam arrancando minha pele. — Oi, Margô! — Aproximou-se da minha mesa. — Oi, Matt! — Oi, Zi! — Matt a cortejou. — Estava chamando Margô para um barzinho depois do expediente, mas fui claramente rejeitado. Será que você pode dar uma força? Zi colocou a mão na boca para abafar a risada. Algo me dizia que Matt não tinha o hábito de ouvir um não como resposta. Passei meus dedos no queixo, como quem pondera o assunto e me rendi antes que Zi tentasse me convencer. — Está bem! Mas não quero chegar tarde em casa, me sinto destruída! — Retruquei. — Não se preocupe. O barzinho fica aqui pertinho e posso te dar uma carona para a casa se quiser. — Matt ofereceu-se de bom grado. — Vou pensar no seu caso! — Semicerrei meus olhos nele, fazendoos rir.


O resto da tarde arrastou-se, tentei por várias vezes encontrar em algum parceiro de trabalho, algo que lembrasse meu irmão. Alguma semelhança com minha mãe ou qualquer coisa do tipo. Todos pareciam ocupados em seus afazeres, por isso não consegui observar da maneira que gostaria. No final do expediente fui guiada por Matt e Zi até o barzinho do quarteirão de cima. Mas, ao chegar no lugar descobri que não era um barzinho como ele tinha dito e sim, uma boate. O que havia demais nisso? Nada! Tirando minha síndrome de ficar em lugares pequenos, abafados e cheios, claro. — Isso aqui está bem agitado! — Falei alto por causa do som. O lugar tinha um ar rústico, luzes coloridas passavam pelos rostos das pessoas e, havia uma música alta incomodando meus ouvidos. Acho que nunca gostei disso. Desse negócio de me misturar, sair com amigos, namorar. Sempre fui reservada. Minha mãe sempre dizia que eu deveria sair mais para aproveitar a vida, mas eu realmente não gosto disso. Não me sinto confortável na multidão. Prefiro minha casa, meu quarto, o conforto da minha cama e a segurança dos meus lençóis. Sim, eu dou a impressão de uma mulher frágil e insegura, mas, é assim que eu sou. É assim que sempre fui. — Esse é o local mais agitado da cidade. A banda do Côde toca aqui! — Matt sentou-se ao meu lado segurando em mãos uma espécie de drink. — Quem é Côde? — Questionei bebendo um gole da minha bebida. Ela era azul, tinha um limãozinho cortado em rodela na beirada do copo. Achei bonito. — Ele trabalha no departamento pessoal! — Zi que até então estava quieta, manifestou-se. — Mas o que ele gosta mesmo é da música. — Deixa eu ver se entendi. — Fiquei pensativa por um momento. — Aqui é tipo o local de encontro do pessoal da empresa?


— Sim! — Ela sorriu. — De vez em nunca até o chefão aparece por aqui! Essa simples informação fez meu coração dar um pulo, bebi um pouco mais do meu coquetel e cruzei as pernas na tentativa de conter uma certa vibração que havia nascido no meio delas. — Sério? Ele não tem cara de quem gosta deste tipo de lugar. – Falei fingindo um desinteresse, mas a verdade é que eu gostaria de ver meu chefe em algum lugar que não fosse a empresa, quem sabe eu conseguiria conhecer um pouco mais dele. Não conseguia imaginar Andrew relaxado e usando chinelos havaianas, era uma imagem que não entrava na cabeça. Pensava que homens que nem ele, nem ao menos teria um par de chinelos em casa. — Ele é louco, não liga para ele. — Matt respirou fundo, algo em seu tom de voz me fez entender que ele conhecia Andrew muito bem. Porque chamaria seu patrão de louco, assim, sem mais nem menos. Estava começando a achar que o louco ali era ele. — Vamos falar da novata! — Ah, não! — Eu ri levantando a mão em forma de pare. Não que eu fosse uma mulher cheia de segredos, só que eu não tinha o porquê de falar sobre minha vida. Isso é íntimo e pessoal. — Não vamos! — Vamos sim, Margô! — Zi sorriu levantando seu copo em um aceno. — Nos conte um pouquinho sobre você! Eu não queria ter que falar tudo sobre mim. Não gosto desse lance de ter que dar explicações a alguém, sou extremamente restrita com a minha vida, para que ninguém saiba quais são as minhas dores. Aquelas marcas que custam para cicatrizar sempre foram o meu ponto fraco. Não sei falar dos meus pesadelos e assombros sem deixar que o emocional tome conta de mim, por isso, e por alguns outros motivos, eu não alimento o hábito de falar sobre mim. — Sou Margô Santana, morava em São Paulo e sempre quis vir morar aqui. Então, aqui estou! — Chata! — Matt fingiu estar zangado. — Isso tudo está na sua ficha, Margô. Nos fale sobre sua família, amigos, já teve algum namorado? — Grazielly sorriu. — Senhorita fofoqueira, será que não percebeu que a nossa amiga não quer falar nada sobre ela? — Matt sorriu cínico. Ele havia acabado de aliviar a minha tensão. — Não sou fofoqueira! — Zi defendeu-se em um protesto e eu ri. — Sim, já tive. — Revirei os olhos em sarcasmo. — Afinal, tenho


vinte e quatro anos. — É pecado falar a idade! — Grazi rebateu como se eu realmente tivesse cometido um pecado. — Isso é besteira. Idade é apenas números. — E seus pais? Ficaram no Brasil? A pergunta que Matt deixou no ar, fez pairar sobre minha cabeça uma nuvem negra que derramou um chuvisco de devaneios direto para a minha mente. Não considero minha história feliz. Mas, isso apenas depende do ponto de vista. Não cheguei a conhecer meu pai, ele morreu antes que eu completasse um ano. Havia fotos. Havia frases e textos escritos por ele, como se soubesse que iria morrer. Talvez, soubesse mesmo. E apesar de desejar isso todas as noites, eu nunca senti seu calor, seu abraço protetor. Nunca ouvi sua risada e se ouvi, era tão pequena que não tenho lembrança alguma. Mas foi um homem bom. Era isso o que minha mãe falava. Que ele era bom. Amável. Tranquilo. Gostaria de ter o conhecido. — Meu pai morreu antes que eu tivesse idade para guardar rostos na mente e minha mãe faleceu tem alguns anos. — Nossa... De repente, nossa mesa ficou silenciosa. Pela primeira vez, pude ouvir nossas respirações em meio àquela barulheira. Sorri de canto já sabendo o que iria ouvir. Lamentações. Pêsames. Essas palavras nunca confortaram meu coração. - Não que seja da minha conta, mas porque veio morar aqui? - Matt sorriu torto. Realmente, isso não era da conta dele e nem de ninguém, falar sobre o meu motivo naquela cidade tão diferente e estranha fazia um arrepio passar pelo meu corpo, não sabia o que o futuro ali me reservaria, mas pelo meu irmão estava disposta em descobrir. Quantas vezes imaginei seu rosto, seus cabelos, as cores de seus olhos, tentei até mesmo imaginar seu corpo. Encontrá-lo havia se tornado uma meta na vida. — E não é mesmo da sua conta. - Zi disse brava ao perceber meu claro incômodo. — Bom, agora já podem falar sobre vocês! — Intervi. Levei até a boca uns pequenos petiscos que estavam sobre a mesa. — Grazielly Sullins. Secretária administrativa e divorciada. Nasci na Carolina do Norte, mas moro em Seattle desde pequena. — Encostou na cadeira.


— Divorciada? Tem filhos? — Não tenho. Na verdade, eu sonho em ser mãe, mas, ainda bem que não engravidei quando casei. — Sorriu triste. — Deus sabe o que faz! — De fato! — Sorri para confortá-la. — Olha lá quem chegou. — Matt ganhou nossa atenção. — O todo poderoso, chefão! Eu estava prestes a jogar mais um petisco na boca quando essa informação chegou aos meus ouvidos, aquela sensação ruim invadiu o meu peito. Sempre quando estou em lugares pequenos, ou que tenha muitas pessoas eu passo mal. Cheguei a pensar que fosse paranoia minha, até procurei um médico e ele disse que tenho a síndrome do pânico. Bom, eu vivo a vida normal, mas, quando fico nervosa seja por qualquer motivo, sinto o coração acelerar, o peito arder. É como se estivesse faltando ar, uma sensação de medo e angústia. — Boa noite! — Senhor Bond já estava ao nosso lado nos cumprimentando. Eu o olhei de sorrateiro, assim, como quem não quer nada. Ele sorriu. — Boa noite, Andrew! — Matt estendeu o copo e em seguida o bebeu. Eu ainda estava tentando entender qual era a relação do Matheus com o senhor Bond. Essa intimidade em chamar pelo primeiro nome, o atraso no trabalho. Qualquer chefe colocaria o funcionário na rua depois de chegar meia hora atrasado. — Boa noite, senhor Bond! Quer sentar-se conosco? — Zi ofereceu a cadeira vaga que estava ao meu lado. MEU LADO! — Claro, se a senhorita Santana concordar. — Olhou diretamente para mim como se pedisse autorização. — Fique à vontade! — Respondi voltando a beber meu drink azul. Assim que ele sentou todo o meu corpo arrepiou, as solas dos meus pés suaram. Cocei a nuca e logo em seguida mandei toda a minha bebida garganta abaixo. Ela desceu rasgando, fiz uma careta no final. — Eu vou dançar, alguém me acompanha? — Zi já estava levantandose. Matt sorriu oferecendo-se e foi logo atrás. Um garçom passava pelo o local e, preencheu meu copo com mais daquele líquido azul até a boca. Meu cérebro ainda estava tentando mandar a informação para o meu coração, queria explicar que o local onde estávamos era seguro e que o chefe sentado ao nosso lado era confiável. Apesar de ele parecer bem concentrado em me encarar. — Você está bem? — Perguntou depois de alguns minutos.


Eu não tinha percebido que minhas feições estavam horríveis. Bom, eu precisava descansar. E, diga-se de passagem, que ter Andrew ao meu lado me fazia entrar no tal modo automático. Como posso explicar... A presença dele, o cheiro, a voz, o olhar... era como se me convidasse a cometer o pecado, não dava para explicar aquele ímã que me levava para perto dele sempre quando tentava me afastar. — Só um pouco cansada! — Sorri gentilmente. Ele relaxou os ombros ao ouvir minha resposta. — O dia foi puxado. — Matheus não deu trabalho, né? – Aquilo no canto de seus lábios era um sorriso? Acho que pude sentir um tremor em minhas pernas. — Ele foi um amor. — Direcionei meus olhos até Matt, que dançava com Zi a todo vapor. — Ele é bagunceiro, mas, alegre! — E ótimo no que faz. Pude perceber o porquê dele não o mandar embora. Matt deve ser muito bom mesmo no que faz, tanto que ele faz o que quer e não é dispensado. Quando minha cabeça pesou e meus estômago reclamou das bebidas que eu havia tomado, comecei a me perguntar se talvez, eu devesse ter ido direto para casa depois do expediente. A urgência em descansar e a sola dos pés machucados também já estavam deixando-me louca. — Quer dançar? — Senhor Bond perguntou. Encarei-o confusa. Logo em seguida bebi um pouco mais daquele líquido azul que já estava fazendo minha cabeça rodar. — Desculpe, esqueci que está cansada! — Acho que devo ir embora, já está tarde. — Sorri gentilmente. — Tem razão! — Olhou as horas em seu relógio de pulso. — Onde você mora? Tem com quem ir? Passei os dedos na minha têmpora afim de amenizar a dor, respirei fundo olhando em direção de Matt. Ele estava se acabando na pista de dança, sorri ao ver quando ele esbarrou em uma moça, ele olhou em minha direção e acabei deixando uma risada aparecer. Acenei para ele tentando me despedir, ele pediu que eu esperasse um minuto e, logo em seguida veio em minha direção. — Tudo bem? — Senhor Bond chamou-me do mundo da lua. Esqueci de respondê-lo. — Sim, desculpe! — Sorri constrangida. — Moro do outro lado da cidade e, vou comigo mesma! — Vai sozinha? — Arqueou a sobrancelha.


— De jeito nenhum! — Matt sentou ao meu lado. — Eu vou levá-la. Esse foi o combinado! — Não. O combinado foi que eu pensaria em seu caso! — Sorri. — Já pensou? — Matt bebeu da minha bebida. Fez isso como se tivéssemos uma amizade a anos e, por um momento foi essa a sensação que tive. — Se quiser, eu a levo! — Senhor Bond ofereceu-se me pegando desprevenida. Matt e ele trocaram uns olhares suspeitos, cheguei a achar que Matt não havia gostado da ideia, mas, logo em seguida ele levantou a mão como se estivesse se rendendo e riu. — Tudo bem. Eu levo a Grazielly, então! — Beijou minha testa de forma carinhosa e voltou para perto da Zi.

A cidade iluminada parecia uma miragem. Encantadora. Acolhedora, apesar de movimentada. Eu já havia perdido a noção das horas quando estacionamos no portão de entrada da pensão, senhor Bond estava quieto, talvez, pensativo. — Obrigada! Nos vemos segunda no trabalho. — Apressei em tirar o cinto. — Você e Matt já ficaram bem amigos, não é? — Ele questionou me deixando um tanto confusa. — Bem, não posso negar que o meu santo bateu com o dele. — Cocei a nuca. — Você mora muito longe da empresa, deveria alugar um apartamento mais perto. — Mudou o assunto. Puxei o ar como se eu fosse falar alguma coisa, mas não consegui. Ele estava me deixando confusa. Muito confusa. — Isso está nos meus planos! — Falei depois de alguns minutos. — Um carro cairia bem também! Mas o que ele estava falando? Talvez, achasse que eu não precisava de um trabalho e, que dinheiro para mim não era problema. Mas, sim! Dinheiro para mim era O PROBLEMA! Um problema bem grande ainda, dando-se ao fato de que não estava em meu país de origem e muito menos em minha cidade natal. — Desculpe, não sou uma bilionária dona de uma das mais poderosas


empresas do mundo. Então, para conseguir um carro ou um apartamento melhor, vai depender dos meus esforços. Do meu trabalho! E ainda assim, terei que esperar porque o meu salário não... Calei-me de imediato, as sobrancelhas de Andrew estavam arqueadas, como se estivesse surpreso com minha atitude inesperada. O coração apertou em reprovação e precisei respirar muito fundo para não entrar e pânico. Por favor, me diz que eu não falei todas essas coisas para o meu chefe? Por favor, por favor! O que foi que deu em mim?


Eu gostaria de ter sonhado. Sabe, na vida real você não recebe carona do seu chefe gostoso, não faz amizade com um rapaz super descolado e bonito. Na vida real, você não joga na cara do seu patrão que ele é um bilionário que pode ter tudo na vida. Só que na minha vida real, eu fiz tudo isso! — Foi uma ótima reposta. — Desculpa, eu, eu e minha boca grande! — Levei minhas mãos até a boca e apertei meu biquinho. — É que, senhor veja bem, eu acabei de me instalar, acabei de arrumar um emprego e – senti aquele lindo par de olhos pesar sobre mim -, é melhor eu ficar quieta. Bem que dizem que quando você não tem nada para dizer, é melhor que fique em silêncio e, eu, com certeza tinha que ter ficado. — Tenha um bom fim de semana, senhorita Santana! — Riu baixo, ele estava achando graça exatamente no que? — Margô! — O interrompi. — Me chame apenas de Margô, claro, se não for problema para o senhor. — Bem, me chame apenas de Andrew então. — Sorriu de canto. — Não. O senhor é o meu chefe! — Falei indignada. Destranquei a porta do carro. — Imagina, devo respeito ao senhor! — Ah, mas "senhor" me deixa com uma aparência velha e Rabugenta, o que de fato não é o meu caso. Faremos o seguinte, me chame de Andrew quando não estivermos em local de trabalho. O que acha? Realmente, ele não era velho ao ponto de chama-lo de senhor, as quanto a rabugento... Ele tinha cara de ser sim, mas como eu tinha a mania de julgar as pessoas mal, melhor mesmo era não ficar pensando demais no que ele era o deixava de ser.


— Acho que assim está melhor. Então, até segunda Andrew! — Até, Margô!

Era sábado. Havia acordado bem cedo para fazer uma caminhada no quarteirão, achei que fosse uma boa maneira de conhecer um pouco mais o lugar onde havia me estabelecido, também poderia aproveitar para colocar um pouco dos meus pensamentos em ordem. Passei por uma humilde padaria, com o letreiro pequeno, mas chamativo. Parei em frente e fiquei ali, pensando se entrava ou não. — Good morning! — Um casal de idosos me desejaram bom dia gentilmente. Eu sorri. — Good morning! — Falei decidindo entrar no lugar. Eu não havia parado para pensar que, o senhor Bond não havia falado em inglês comigo, nem Matt e nem Zi. Abri uma mini geladeira e peguei um energético. Ao fechar a porta cocei a nuca ponderando o assunto. Por que Matt havia ficado surpreso quando falei que era do Brasil? Por que eles falavam brasileiro tão bem? Foi com esses pensamentos que paguei pela bebida e voltei para a minha caminhada. Passei ao lado de um casal de namorados, estavam de mãos dadas e pareciam felizes. Sorriram ao me ver. As pessoas desse lugar devem ter faniquitos nos cantos dos lábios para sorrirem toda hora. Em todo caso, retribui. Afinal, simpatia gera simpatia! Me sentei ali em um banco qualquer, apenas para aproveitar o Sol. O ar frio do início da manhã fazia meus pelos se arrepiarem. Sorri para o céu azul e, por algum motivo meu coração acelerou. Respirei fundo, tentando controlar os batimentos cardíacos. Peguei meu celular e liguei para a única pessoa capaz de me acalmar. — Alô? — Ouvi sua voz do outro lado do telefone. Sorri ingenuamente. — Oi! — Respondi sentindo a maldita falta de ar. — Margô? Está tendo aquela crise de novo? — Sim! — Respira e inspira. — Pediu. Pude sentir o tom preocupado em sua


voz. — Eu sabia que devia ter ido com você! Respirei e inspirei. Respirei e inspirei. — Margô, já está melhor? Tem alguém aí por perto? — Não. Eu estou melhor! — Respirei fundo já sentindo o coração acalmar, agora era a hora de aguentar alguns surtos psicóticos dele, afinal, eu não tinha ligado para contar nada do que aconteceu e anda achei que Rafa fosse ficar feliz em saber que eu quase tive uma crise quando cheguei, mas graças a Deus havia conseguido controlar. — Olha, o que você foi fazer aí mesmo? — Procurar meu irmão! — Isso. Foca nele e esquece a síndrome. Esquece a angustia, o medo não te domina. Você domina o medo! — Okay. Eu domino o medo. Ele não me domina, eu domino ele! — Sorri enfim. Memorizei a frase em minha mente para me certificar de que iria dar certo, mas sabia que sempre dava. — Bom, agora pode me dizer como vai a vida nova? — Não sei o porquê, mas senti um tom de deboche em sua voz. Hora de enfrentar a fera. Okay, ele não queria que eu fizesse essa viagem, não queria que eu ficasse tão longe. Rafa, sempre foi aquele amigo insuportável que tenta te manter longe de problemas e situações de risco. Por isso sempre fui tão insegura. Ele e eu crescemos juntos e, desde que me entendo por gente foi assim. Ele interferia tanto em minha vida que eu me sentia sufocada e com vontade de arrebentar ele em quatro. — Olha, está indo! — Me aconcheguei no banco. — Consegui o emprego naquela empresa. — Sério? Naquela lá que você falou ser a maior do mundo? — Sim! — Sorri. — E quando começa a trabalhar? — Já comecei. — Disse rindo. — Mas já? — E fui assaltada também! — Suspirei. — Sorte que eu tinha um dinheiro guardado em casa e, meu celular havia ficado sobre a cama. — Assaltada? Meu Deus, Margô! — Sua voz soou perplexa. — Você está bem? — Provavelmente, se eu não estivesse não estaria falando com você,


Rafa. — Ele riu. Revirei os olhos. — Notícias do seu irmão? — Não. Mas vou atrás do endereço que a minha mãe me deu antes de morrer. Primeiro, preciso me ajeitar. — Deitei no banco para fitar o céu. — Nem respirar direito eu consegui. Cheguei em cima da hora para a entrevista, aí o chefe já quis que eu começasse na mesma hora. Depois fui em um barzinho com alguns colegas da empresa e acabei chegando tarde em casa. — Hum, e esse seu chefe é bonito? — Quis saber enciumado. — Idiota. — Ri. — Sim, é lindo! Não reparei que essa resposta foi acompanhada por um suspiro. Mas, por um breve segundo eu me desliguei do mundo e pensei em Andrew. Nossa, aquela voz. Aquele olhar intimidador era tão excitante e cheio de desejos. — AF! — com certeza ele havia revirado os olhos. — Pode manter contato e contar dos acontecimentos? — Claro, né! Pergunta besta. Você é o único amigo que tenho, irei fofocar com quem se não com você? — Gargalhei. Meu celular anunciou que a bateria estava baixa, olhei na tela do mesmo para certificar e sim, estava acabando. — Rafa, bateria já era! — Você não presta nem para deixar essa merda de celular carregado. — Bufou. — Hey! Eu presto sim, falando assim até me deixa magoada. — Não exagera, Margô! — Ouvi algo parecido com uma risada. — Me liga quando der, viu? — Tá. Tá. Beijos!

Um cachorro pulou sobre o banco me pegando desprevenida. Sentei assustada, colocando a mão no coração. Ele me olhou e em seguida choramingou. Cocei sua orelha sorrindo, animais sempre são uma ótima companhia! — Ei, amigão! Está perdido? — Ri. Era um lindo pastor Alemão. Havia uma coleira azul marinho, com alguns detalhes dourados. Ouro? — Seu dono deve ser alguém importante, não é? — Depende do ponto de vista! — Uma voz masculina tirou-me dos devaneios.


Olhei para os lados e não vi ninguém. Enruguei o cenho arqueando de leve a sobrancelha, soltei um suspiro quase inaudível e sorri para o cão. — Estou ficando louca! — Isso também depende do ponto de vista! Então eu percebi que a voz vinha detrás de mim. Me virei já sabendo que alguém estava falando comigo e, para a minha total surpresa era ninguém menos do que Matt. Deixei escapar um suspiro de alívio. Poderia ser um assassino, sequestrador, estuprador, vai saber! — Você me assustou! — Desculpa! — Riu. — Ele escapou da guia e veio direto em você! — Eu tenho um encanto natural. Sabe como é. — sorri sarcástica. — Você não é alguém importante. Como seu cachorro tem essa coleira? — Olha, obrigada pela parte que me toca. — Disse magoado. — Andrew quem deu a coleira. — Por que o chefe daria uma coleira dessas ao cachorro do seu funcionário? — Questionei intrigada. — Por que ele é meu primo! Posso não saber decifrar qual foi minha reação, mas minhas feições estavam em total espanto. Meu cenho enrugou enquanto eu tentava digerir a informação. Como eles poderiam ser primos? Isso era muito intrigante. Se eles são da mesma família não deveriam também possuir os mesmos bens? Matt não precisaria trabalhar, pois ele seria rico né? — Eu sei no que está pensando e, já quero avisar que não somos primos de sangue. A tia dele me adotou quando eu era muito pequeno! — Respondeu após ver minha cara de confusa. O cachorro no banco lambeu meu rosto e eu ri. Matt sorriu e sentou ao meu lado. — Nilo gostou de você. — Também gostei dele. — Respondi me levantando. — Vejo que fazia caminhada, quer companhia? — Na verdade, já estou indo embora. — Eu te acompanho. — Nilo latiu. — Quer dizer, nós a acompanhamos. Dei uma leve risada. Sempre amei animais, não importa a espécie. Alguns demoram para me conquistar, como a tartaruga. Ela anda devagar e tem aquela pele enrugada, sinto um mal-estar em olhar para o bichinho, mas, com o tempo até mesmo ela me conquistou. Segurei em mãos o celular e, deixei a garrafa vazia na primeira lixeira que encontrei. Dei uma arrumada no cabelo, ficou todo bagunçado após eu ter


deitado no banco. Nilo deu uma latida alta para chamar minha atenção, eu sorri. Matt estava a uma distância considerável de mim, isso me dava conforto para andar tranquilo. De repente, Nilo latiu dando um solavanco e correndo logo em seguida, fazendo com que Matt esbarrasse em mim. — Desculpa! Nilo nunca se comportou assim. — É um cão. Não precisa ficar se desculpando por ele. — Falei constrangida. Passei a mão nos braços para amenizar o constrangimento. — Você é brasileiro? — Sim. — Andrew também? — Sim. Zi também! — Adiantou-se em responder. Ri baixo. — Sabe, hoje é sábado e talvez pudéssemos sair. Cocei a nuca claramente incomodada. Eu estava com uma leve suspeita de que Matt me via com outros olhos e, isso não era bom. Ou era? — Ah não sei! — Respondi fingindo olhar uma vitrine de loja. Normalmente, quando fico nervosa não consigo encarar as pessoas nos olhos. Por isso que eu nunca tentei mentir, seria pega no flagra. Bem, tecnicamente eu menti para poder entrar na empresa. Menti para Andrew. Meu Deus, que o senhor nunca permita que ele descubra. Preciso desse emprego. — Que tal o parque? — Parque? — Sim. Esses com montanha russa, roda gigante... — Eu sei o que é um parque, criatura! — Cruzei os braços. — Eu acho que tem alguém me evitando! — Resmungou. — Quem? — Questionei. Ele me encarou arqueando a sobrancelha. — Eu? Não, não! É que eu não sou de ficar saindo, Matt. — Vamos sair apenas como amigos, Margô. — Não é isso. — Revirei os olhos. — Eu tenho crises quando estou no meio de muitas pessoas eu, eu, a deixa para lá. — Olha, o que você tem é a crise do pânico, não é? — Eu o olhei suspeita. Como ele sabia? — Eu vi você passando mal lá no parque central. Paramos em frente à minha humilde pensão. Olhei ao redor respirando o ar limpo e sorri para uma criança que passava pelo local. Tinha os cabelos louros e cacheados. Tão linda! — Sim. — Sorri. Nilo sentou-se ao meu lado, choramingou baixinho


para que eu fizesse carinho e, assim eu fiz. — Tudo bem, Matt. Eu vou. Mas prometa que voltaremos logo em seguida e que se eu passar mal você... — Margô, respira. Vou cuidar de você! Meu rosto esquentou em resposta. Acho que minhas bochechas coraram. Ai merda! Dona Esperança estava abaixada atrás da cerca de madeiras, mexia em suas pequenas flores e pigarreou ao se aproximar. Na certa ela estava ouvindo nossa conversa. Nilo tapou o rosto com as patas, enquanto eu me debulhava em minha vergonha. — Olá. Sou Esperança Vilaça. — Cumprimentou Matt com um sorriso largo. — Matheus Smith. — Respondeu educadamente. — Como foi a caminhada, Margô? — Dona Esperança voltou-se para mim. — Cansativa. — Respondi rindo. — Mas muito bem acompanhada. — Deu uma piscadinha. — Vou tomar um banho. — Mudei o assunto rapidamente. — Querida, o almoço vai sair daqui uma hora. Talvez o jovem cavalheiro queira almoçar conosco! — Dona Esperança sorriu cúmplice. Vou me jogar da primeira ponte que encontrar. Juro, juro que me jogo se ela continuar com isso. — Eu aceitaria de muito bom grado. Mas a verdade é que eu ia chamar Margô para almoçar fora. — Ia? — Questionei confusa. — Bem, eu vou. Você quer? — Fez cara de cachorro pidão. — Hum... — ponderei o assunto. Que mania chata que ele tem de ficar me chamando para sair. Odeio quando as pessoas não entendem quando quero apenas ficar na minha. Com meu travesseiro e uma barra de chocolate. Nem todo mundo gosta de ficar batendo perna todo dia. — Aceite, Margô. Assim você conhece melhor nossa cidade. — Dona Esperança parecia mais interessada em Matt do que eu. — Bem, acho que não tenho outra opção! — Acabei me rendendo. — Mas ainda preciso do banho. Matt assentiu rindo. No geral, nunca fui de sair muito. Rafa tinha a mania de ficar me obrigando a ir em lugares com ele e na maioria das vezes, eu ia apenas para segurar vela. Isso me irritava.


Dona Esperança levou Matt para a sala de visitas e eu fui ao meu quarto. Havia uma moça saindo do quarto vizinho, não sorriu ao me olhar, também não fiz questão disso. Minha cama estava do jeito que deixei, fui ao guarda roupa pegar algo para vestir. Mas, o que vestir? Uma calça jeans com uma regata básica? Uma saia com uma camisa? Um vestido? Uma sandália de salto? Uma rasteirinha? Uma sapatilha? Ai meu Deus! — Dona Esperança! — Gritei ao abrir a porta do quarto. Uma ajuda sempre é bem-vinda. Fui até o espelho, dei uma olhada e soltei o cabelo. Peguei a toalha em mãos e ao me virar encontrei Matt encostado no batente da porta. Ofeguei assustada. Passei a mão na testa e deslizei até a nuca. — Precisa de alguma coisa? — Questionou. Arqueei a sobrancelha. — Onde está dona Esperança? — Fazendo o almoço. Pediu que eu viesse ver o que precisa. — Bem, você não pode ajudar. Lamento! — Dei as costas indo em direção ao banheiro. — Posso tentar. Parei em meio à suas palavras e sorri de canto. Homens não gostam de nada que seja relacionado a roupas, maquiagens e sapatos de mulheres. O observei e notei que ele estava sorrindo. — Jeans, vestido ou saia? — Jeans. Semicerrei meus olhos. — Salto, sapatilha ou rasteirinha? — Saltos. Mas aconselho levar as sapatilhas para irmos ao parque à noite. — Maquiagens? — Você não precisa disso. — Revirou os olhos. — Em todo caso, um rímel e gloss ficam bem em você. Tombei a cabeça para o lado como quem pondera o assunto. Eu não queria ter que admitir que ele mandou muito bem nas respostas. Bufei cruzando os braços. — Gay ou hétero? — Hétero! — Respondeu indignado.


— Vou tomar banho, já volto!


Era um restaurante de padrão médio. As toalhas das mesas eram douradas apenas para imitarem o ouro, as cadeiras grandes e almofadas deixavam o ambiente confortável. Passei os olhos rapidamente pelo local, os garçons olhavam-me com cobiça. Pela primeira vez, senti que estava sendo desejada não como mulher, mas sim, como o ultimo bife de filé do mercado. — Não ligue para eles. — Matt pediu sem tirar os olhos do cardápio. — Estou tentando. — Sorri sem jeito. — Tem algo de errado comigo? — Tirando sua beleza inconfundível, ironia encantadora e o sorriso deslumbrante? — Deixou o cardápio sobre a mesa. Olhou-me de sorrateiro deixando escapar um sorriso. — Eu vou te socar! — Você é bonita, aceita que dói menos. O que vai querer? — O mesmo que você. — Cruzei as pernas. — Confia tanto assim em mim? — Só estou com preguiça de olhar o cardápio. — Deixei um pouco de veneno escorrer de meus lábios. Gosto de ser sarcástica de vez em quando. — Tudo bem. — Levantou as mãos para chamar o garçom. — Arroz branco, rissoles de camarão e dois sucos. — Espera. — Intervi imediatamente. — Na verdade, é melhor deixar esses rissoles para lá. Me traz um filé de frango grelhado. — Não gosta de camarão? — Tenho alergia. — Sorri de canto. Matt tinha uma forma de sorrir que me encantava. Eu o observei por alguns minutos sem que ele percebesse, poderia ser bagunceiro e comportarse como criança, mas, ele era um rapaz encantador. — Quantos anos você tem, Matt?


— Por que essa pergunta? — Arqueou a sobrancelha. — Por que você se comporta igual uma criança às vezes. — Respondi sem pudor. Havia um sorriso cínico em meus lábios. No fundo gostava de atormentá-lo. — Garanto que sou mais velho que você, senhorita Santana. — Sua voz soou irritada. — Sendo assim, não haverá razões para não me responder. — Você é petulante quando quer. — Sorriu amargo. — Vinte e Seis. Agora ele já não estava me encarando, bebeu um gole de água e em seguida o garçom apareceu com o nosso pedido. Ele havia ficado quieto. Acho que falar sobre sua idade o deixava irritado. Achei que esse lance da idade acontecesse só com as mulheres. Cruzei as pernas desconfortavelmente e dei início ao meu almoço. Por mais que ele quisesse me ignorar, não conseguia. Seus olhos pairavam sobre mim uma vez ou outra e nem ao menos disfarçava. — Ficaria ofendida se te chamasse para ir à minha casa? — Questionou ao terminar sua refeição. — Vai me sequestrar? — Não. — Me mutilar? — Não. — Me estuprar? — Pelo amor, Margô! — Sorriu divertido. — Vai fazer promessas que não pretende cumprir? — Não. Olha, eu só preciso trocar de roupa para irmos ao parque. — Rolou os olhos. — Então porque eu me ofenderia? — Arqueei a sobrancelha. — Você é insuportável. — Não estou te obrigando a ficar ao meu lado. — E ainda assim, eu escolho ficar. — Sorriu meigo. Minhas bochechas esquentaram. — Idiota! — Mostrei-lhe a língua. Incrível o modo que ele me faz parecer criança ao seu lado. Saímos de lá poucos minutos após pagar a conta, bom, após Matt pagar a conta. Não gosto disso, odeio ser dependente de alguém. Eu sei muito


bem me virar sozinha e sei pagar minhas contas também, para isso eu trabalho. Trabalho para nenhum marmanjo me sustentar. — Eu poderia pagar. — Mas eu convidei, então quem paga a conta sou eu. E segura a língua que esse assunto já foi resolvido. Cruzei os braços na altura do tórax e rolei os olhos. Ele comportava-se como aquele irmão mais velho que pega no seu pé por qualquer coisa. Isso irritava demais. Levei os braços para trás de meu corpo, cantarolei uma música baixinho. A música era a mesma que minha mãe costumava cantar para mim quando era pequena, Matt ficou em silêncio prestando atenção enquanto caminhávamos para sua casa, — Que música é essa? — Indagou-me. — Ah, minha mãe costumava cantá-la para mim antes de dormir. — Posso ouvir a letra? Respirei fundo olhando ao redor, as pessoas passavam e davam o melhor de seus sorrisos. Já devia passar das 14h00 quando meus olhos pairaram sobre uma loja de bebê. Soltei um sorriso ingênuo ao lembrar de meu irmão, fechei os olhos. — Desculpe, só sei cantarolar. — Sua voz, — parou de caminhar. — É tão bonita. — Obrigada. — Olhei-o suspeita. Eu apenas tinha cantarolado, ele não havia ouvido de fato minha voz. — Por que está com essa cara? — Que música é essa? — Não sei. Acredito que ela tenha tirado de algum desenho, porquê? — Por nada. — Mesmo? — Pensei já ter ouvido em algum lugar. — Como eu disse, era de um desenho. — Pois é.... Notei que ele não havia voltado à caminhar, levei meus olhos para a mesma direção que ele olhava e vi uma bela mansão. O portão de grades negras com lanças na ponta dava a entender que alguém muito rico morava ali. Havia também um vasto jardim com caminho de pedras e grama bem aparada que davam o charme para a residência. Mesmo de longe, percebi que a mansão era de três andares e vários cômodos. Voltei meus olhos para o portão e notei as grandes letras A.B.


— Ai meu Deus! — Sussurrei me afastando. — É grande. Eu sei. Vem! — Segurou em minhas mãos puxando-me para dentro. — É imenso. Quem mais mora aqui? — Aí está uma pergunta que você não vai querer saber a resposta! — Tenho medo de perguntar o porquê. — Logo você descobre! Ao nos aproximar do portão, Matt digitou uma senha e em seguida apertou seu dedão no sensor de digitais. Cocei a testa tentando engolir a frescura aguda na qual estava prestes a me meter. Parei em frente à porta de entrada e sorri torto para Matt que tinha um sorriso travesso nos lábios. — Coragem, Margô! — Pare de falar como se houvesse um monstro aí dentro. — Resmunguei. Entramos com o meu coração sambando. Eu não saberia dizer o quão maravilhosa aquela casa era por dentro, seus móveis chiques, lustres de cristais e temperatura agradável quase me fez chorar. Porque nasci pobre? — Oi, Matheus! Andrew chegou procurando por você e pediu que o procurasse no escritório quando chegasse. — Uma garotinha aparentando seis, talvez sete anos, falou. Olhou-me pelo canto dos olhos e sorriu. — E você, quem é? — Oh, onde estão meus modos. — Coloquei as mãos na cintura me reprovando. — Me chamo Margô Santana e a senhorita? — Stephanie Bond. Mas meu irmão me chama de Phani. — Sorriu tímida. — Seu irmão? — Sim. Matt é meu irmão! Sorri como quem diz: Ah, sim. Claro que os dois não se pareciam em nada, mas também nem deveriam, afinal, Matt era adotado. — Zeus trouxe Nilo? — Matt abaixou-se ao tamanho dela. — Sim. Já está preso no canil. — Phani respondeu abraçando-o. — Quer levar Margô para conhecer a casa enquanto converso com o senhor Gelo? — Tudo bem! — A doce menina olhou-me e estendeu a mão. — Vem,


vou mostrar meu lugar preferido da casa. — Nos vemos daqui a pouco. Cuidado com o monstro. — Ele despediu-se de mim e entrou por uma grande porta. Não entendi. Ele estava referindo-se à sua irmã Phani? Por que ao meu ponto de vista ela parecia mais um anjinho. — Andrew é o senhor gelo? — Questionei a garota. — Ahan. Segurei na pequena mão que me foi estendida e a acompanhei. Meus olhos atentos a cada detalhe não me deixavam prestar atenção no que ela dizia. Apenas a escutei quando ouvi algo sobre namoradas. — No geral, acho que ele nunca teve. — O quê? — Questionei confusa. — Namoradas. Acho que meu irmão nunca teve e se teve nunca a trouxe para conhecermos. Você é a primeira. — Primeira? Ah, não. Eu sou apenas uma amiga. — Apressei em dizer. — E eu ainda acredito que o papai Noel vem todo Natal! — Ela arqueou a sobrancelha me deixando sem fala. — O quê? Mas na sua idade deveria acreditar. — Falei indignada. — E na sua deveria estar namorando. — Como sabe que não estou? — Se estivesse, não estaria aqui! Senhor, de onde essa menina havia saído? Tudo bem, acho que ela não era exatamente um anjinho.


Sobre a autora:

Tatiane Souza, também conhecida por “Ruiva”, viu-se perdida no mundo da Literatura, quando sua professora de Língua Portuguesa obrigava seus alunos a irem buscar livros na biblioteca da escola e fazerem resenha sobre o mesmo. Depois disso, se enfiava na biblioteca mesmo quando não era preciso e passava todo o seu tempo ali, admirando e apreciando as variedades encantadoras de livros. Nascida em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, concluiu seus estudos na escola “E.E Dr. Cândido Rodrigues” e atualmente, com seus vinte e dois anos, dedica todas as horas do seu dia aos livros. Escritora, blogueira, resenhista e diagramadora, Tatiane continua a apreciar cada vez mais a Literatura, tendo feito muitas amigas autoras nessa caminhada. Seus hobbies consistem em jogar RPG no whatsAap e conversar com suas leitoras através do grupo de seus livros. Cresceu com a mania de ler a última página de um livro antes de comprá-lo e possui o hábito inexplicável de ter mais livros do que tempo para lê-los.

Por trás das câmeras - Tatiane Souza  
Por trás das câmeras - Tatiane Souza  
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