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Deborah Beck, minha amiga e editora. Este ĂŠ para vocĂŞ. Obrigada. E, como sempre, Para meu Matthew, minha razĂŁo de viver.


SUMรRIO Capa Folha de rosto Ficha Catalogrรกfica Dedicatรณria 1 Richard 2 Richard 3 Richard 4 Richard 5 Richard 6 Katharine 7 Katharine Richard 8 Richard 9 Richard Katharine 10


Katharine 11 Katharine Richard 12 Katharine Richard 13 Richard 14 Richard 15 Richard 16 Richard 17 Richard 18 Richard 19 Richard 20 Richard 21 Richard 22 Richard 23


Richard 24 Richard 25 Richard 26 Richard 27 Richard 28 Richard 29 Katharine Richard 30 Richard 31 Richard 32 Richard 33 Richard 34 Richard 35 Richard Sobre a autora


Agradecimentos Editora Pandorga


1 Richard

Eu me debrucei sobre a mesa, o burburinho do restaurante lotado ficou de fundo conforme eu me esforçava para conter minha raiva. Reprimindo a vontade de gritar, mantive a voz baixa, mas a fúria foi refletida nas palavras. — O que você disse? Tenho certeza de que não ouvi direito. David relaxou, recostando-se na cadeira, nada preocupado com minha ira. — Eu disse que Tyler será promovido a sócio. Minha mão apertou o copo tão forte, que fiquei surpreso por não tê-lo quebrado. — Era para ser a minha promoção. Ele deu de ombros. — As coisas mudaram. — Eu trabalhei igual a um retardado. Trouxe mais de nove milhões. Você me disse que, se eu superasse o ano passado, eu me tornaria sócio. Ele acenou. — E Tyler trouxe doze milhões. Bati a mão na mesa, sem me importar se isso chamaria atenção para nós. — Isso é porque o desgraçado me trapaceou e roubou meu cliente. A ideia da campanha foi minha. Ele puxou meu tapete! — É sua palavra contra a dele, Richard. — Mentira. Isso é tudo mentira. — A decisão está tomada, e a oferta foi estendida. Esforce-se mais e, quem sabe, será você no ano que vem. — É isso? — É isso. Vai receber um bônus generoso. Um bônus. Eu não queria outra merda de bônus. Queria aquela promoção. Deveria ter sido minha. Eu me levantei tão rápido que minha cadeira caiu para trás, batendo no chão e fazendo um estrondo alto. Fiquei ereto em meu 1,93 metro e fiz uma careta para ele. Levando em consideração que David não chegava a 1,73 metro e, sentado, parecia menor ainda. David ergueu uma sobrancelha. — Cuidado, Richard. Lembre-se de que, na Anderson Inc., somos a favor do trabalho em equipe. Você ainda faz parte do time... e é uma parte importante. Fiquei olhando para ele parado, amenizando o desejo de mandá-lo se foder. — O time. Certo.


Balançando a cabeça, segui meu caminho. Entrei em meu escritório e bati a porta com força. Minha assistente olhou para cima, assustada, com um sanduíche pela metade na mão. — O que foi que eu te disse sobre comer na sua mesa? — gritei. Ela se levantou, cambaleando. — Vo-você estava fora — ela gaguejou. — Eu estava trabalhando em algumas despesas. Pensei... — Bom, o que quer que tenha pensado estava totalmente enganada — esticando o braço por cima de sua mesa, peguei o sanduíche ofensivo da mão dela, sorrindo com a conclusão. — Pasta de amendoim e geleia? Isso é o melhor que pode fazer com o que eles te pagam? — xinguei quando a geleia escorreu e caiu em meu terno. — Merda! O rosto já pálido dela ficou mais branco ainda quando ela olhou para a mancha vermelha no meu terno cinza. — Sr. Van Ryan, me desculpe. Vou levar à lavanderia imediatamente. — Pode ter certeza de que vai. Compre um sanduíche para mim enquanto estiver fora. Ela piscou. — E-eu pensei que o senhor tivesse almoçado... — Mais uma vez, pensou errado. Compre um sanduíche e um café com leite desnatado, com espuma extra. Quero Brian Maxwell no telefone... agora! — de forma impaciente, arranquei meu paletó, esvaziando os bolsos. — Leve à lavanderia... quero-o de volta esta tarde. Ela ficou paralisada, com a boca aberta, olhando para mim. — Você é surda? — Do que você gostaria primeiro? Joguei meu paletó para ela. — Isso é seu trabalho. Descubra e faça! Bati a porta da minha sala. Quinze minutos depois, eu estava com meu sanduíche e meu café com leite. Meu interfone tocou. — O sr. Maxwell está na linha dois. — Tudo bem — atendi o telefone. — Brian. Preciso me encontrar com você. Hoje. — Eu estou bem. Obrigado por perguntar, Richard. — Não estou no clima. Quando está disponível? — Tenho compromisso a tarde toda. — Cancele. — Nem estou na cidade. O mais cedo que consigo chegar é às sete. — Beleza. Me encontre no Finlay’s. Minha mesa de sempre — desliguei, socando o interfone. — Venha aqui. A porta se abriu, e ela tropeçou para dentro, literalmente. Nem me preocupei em esconder o fato de ter revirado os olhos em sinal de desprezo. Nunca havia conhecido alguém tão desastrado como ela — ela tropeçava no ar. Juro que ela passava mais tempo ajoelhada do que a maioria das mulheres com quem eu saía. Esperei até ela conseguir se levantar, pegar seu caderno e achar sua caneta. Seu rosto estava


ruborizado, e sua mão tremia. — Sim, sr. Van Ryan? — Minha mesa no Finlay’s. Sete horas. Reserve. É bom meu paletó estar de volta a tempo. — Pedi urgência. E, ahn, teve uma taxa extra. Ergui as sobrancelhas. — Tenho certeza de que você ficou feliz em pagá-la, considerando que foi sua culpa. Seu rosto se escureceu ainda mais, porém ela não discutiu comigo. — Vou pegá-lo em uma hora. Acenei; não me importava quando ela ia reavê-lo, contanto que estivesse em meu poder antes de sair. — Sr. Van Ryan? — O quê? — Preciso sair às quatro hoje. Tenho um compromisso. Enviei um e-mail ao senhor na semana passada sobre isso. Tamborilei os dedos na mesa enquanto a observava. Minha assistente, Katharine Elliott, o fim da minha existência. Fiz de tudo para me livrar dela, mas nunca tive sorte. Não importava que tarefa eu lhe dava, ela a realizava. Lidava sem reclamar com toda função degradante. Pegar minha roupa limpa? Feito. Certificar-se de que meu banheiro particular estava abastecido com meus artigos de higiene pessoal favoritos e minhas camisinhas? Sem falhas. Limpar e colocar em ordem alfabética minha enorme coleção de CDs depois que decidi trazê-la para o escritório? Feito — ela até encaixotou todos os CDs quando eu “mudei de ideia” e os levei de volta para casa, sem manchas e em ordem. Não saiu uma reclamação de seus lábios. Enviar flores e um cartão com mensagem para quem quer que eu tivesse dado o fora naquele mês ou semana? Sim. Ela estava no escritório todos os dias sem falta, nunca chegara atrasada. Raramente saía do escritório a não ser que fosse para realizar uma tarefa para mim ou ir rapidamente à sala de descanso para comer um de seus lanches ridículos trazidos de casa, já que eu a proibi de comer em sua mesa. Ela mantinha meu calendário e meus contatos perfeitamente organizados, meus arquivos arrumados na cor exata de que eu gostava e selecionava minhas ligações, certificando-se de que minhas muitas ex não me incomodassem. Parecia que todos gostavam dela, que ela nunca esquecia o aniversário de ninguém e fazia os cookies mais deliciosos do mundo, os quais compartilhava de vez em quando. Ela era perfeita. Eu não a suportava. Ela era tudo que eu detestava em uma mulher. Pequena e delicada, com cabelos escuros e olhos azuis, vestia-se com terninhos e saias simples — elegantes, limpos e nada atraentes. Seu cabelo estava sempre preso em um coque, ela não usava joias e, pelo que eu via, nem maquiagem. Não era nem um pouco sexy e não tinha autoestima suficiente para fazer algo a fim de mudar isso. Dócil e tímida, era fácil de passar por cima dela. Nunca retrucava, aguentava qualquer coisa que eu falasse para ela e nunca respondia de forma negativa. Eu gostava de mulheres fortes e com atitude — não um capacho como a srta. Elliott. No entanto, eu continuava com ela. — Tudo bem. Não se acostume, srta. Elliott. Por um segundo, pensei ver seus olhos se arregalarem, mas ela simplesmente assentiu. — Vou pegar seu paletó e deixá-lo em seu armário. Sua teleconferência das duas horas está preparada e o senhor tem uma reunião às três e meia — ela indicou os arquivos na beirada de sua mesa. — Suas anotações estão todas aqui. — Minhas despesas?


— Vou terminá-las e levar para o senhor assinar. — Tudo bem. Pode ir. Ela parou na porta. — Tenha uma boa noite, sr. Van Ryan. Não me incomodei em responder.


2 Richard

Brian bebeu seu uísque, olhando para mim por cima do copo. — Concordo que deve ser ruim, Richard. Mas o que quer que eu faça em relação a isso? — Quero outro emprego. É isso que você faz. Arranje um emprego para mim. Ele riu de forma seca, colocando o copo na mesa. — Já discutimos isso. Com suas credenciais, posso encontrar qualquer trabalho que quiser, menos aqui. Há duas empresas grandes em Victoria, e você trabalha para uma delas. Quando finalmente estiver pronto para se mudar, me avise. Terei ofertas para você em qualquer cidade grande que possa pensar. Toronto está explodindo. Bufei irritado. — Não quero me mudar. Gosto de Victoria. — Há algo que o prenda aqui? Tamborilei os dedos na mesa enquanto pensava na pergunta. Eu não fazia ideia do motivo pelo qual me recusava a mudar de cidade. Eu gostava da cidade. Gostava de sua proximidade com a água, dos restaurantes e dos teatros, a agitação de uma cidade grande em uma cidade pequena e, principalmente, do clima. Havia outra coisa... outra coisa que eu não conseguia identificar que me segurava ali. Eu sabia que podia me adaptar; na verdade, era, sem dúvida, a melhor coisa a fazer, porém não era o que eu queria. — Não, nada importante. Quero ficar. Por que não pode me arrumar um emprego no Grupo Gavin? Eles seriam muito sortudos de ter a mim. Meu portfólio fala por si mesmo. Brian limpou sua garganta, batendo no copo com suas unhas feitas na manicure. — Assim como sua personalidade. — Ser bruto e estar no comando funcionam na indústria de publicidade, Brian. — Não é exatamente a isso que estou me referindo, Richard. — Então a que porra está se referindo? Brian sinalizou para pedir mais drinques e se recostou, ajustando sua gravata antes de falar. 1

— Sua reputação e seu nome falam por si mesmos. Sabe que é conhecido como “Dick” em muitos grupos. — Ele ergueu um ombro. — Por motivos óbvios. Dei de ombros. Não me importava com o que as pessoas me chamavam. — O Grupo Gavin é uma empresa familiar. Diferente da Anderson, eles trabalham na empresa a partir de dois princípios fundamentais: família e integridade. São extremamente específicos quando o assunto é a carteira de clientes. Bufei. Anderson Inc. trabalhava para qualquer um. Contanto que fosse ganhar dinheiro, eles criavam uma campanha — independentemente do quanto fosse desagradável para alguns consumidores. Eu sabia disso, e não me importava muito. Sabia que o Grupo Gavin era muito mais distinto em relação aos clientes, mas eu poderia trabalhar com esses limites. David detestava o Grupo Gavin, então, sair da


Anderson Inc. e trabalhar lá iria deixá-lo tão puto que me ofereceria a sociedade para voltar. Talvez até me ofereceria isso na mesma hora em que soubesse que estava partindo. Eu tinha de fazer isso dar certo. — Posso me controlar e trabalhar com esses parâmetros. — Não é só isso. Esperei até o garçom sair depois de servir nossos novos drinques. Analisei Brian rapidamente. Sua careca brilhava sob as luzes, e seus olhos azuis cintilavam. Ele estava relaxado e tranquilo, nada preocupado com meu dilema. Esticou as pernas e as cruzou com calma, balançando uma delas conforme pegava seu copo. — O que mais? — Graham Gavin é um homem de família e administra seu negócio da mesma forma. Só contrata pessoas com a mesma mentalidade. Sua, ahn, vida pessoal não é aceitável para ele. Acenei, sabendo exatamente o que ele queria dizer. — Terminei com Erica há alguns meses. Minha ex-qualquer-coisa saiu na mídia por seu problema com as drogas quando ela caiu da passarela por estar drogada durante um desfile de moda. Eu estava cansado de seu jeito de viver sempre drogada, de qualquer forma. Mandei a srta. Elliott enviar flores para a reabilitação com um recado dizendo que estava tudo acabado entre nós, depois bloqueei seu número. Na semana passada, quando ela tentou me ver, mandei a segurança colocá-la para fora do prédio — ou melhor, mandei a srta. Elliott cuidar dessa questão. Na verdade, ela parecia estar com pena de Erica quando desceu para o térreo, voltando pouco tempo depois e me assegurando de que Erica não me incomodaria de novo. Que alívio. — Não é só a Erica, Richard. Sua reputação é bem conhecida. Você é um playboy fora do horário de trabalho e um tirano durante o dia. Merece esse apelido. E nenhum dos dois pega bem para Graham Gavin. — Me considere um homem mudado. Brian riu. — Richard, você não entendeu. A empresa de Graham é orientada pela família. Minha namorada, Amy, trabalha lá. Sei como eles trabalham. Nunca vi uma empresa igual. — Me conte. — Toda sua família está envolvida nas operações. Sua esposa e seus filhos, até os cônjuges dos filhos trabalham lá. Eles dão piqueniques e jantares para seus funcionários e suas famílias. Pagam bem; eles os tratam bem. Seus clientes os amam. Ser contratado lá é difícil já que é raro alguém sair. Refleti sobre o que ele disse. Não era segredo do quanto a família era importante no Grupo Gavin, ou como a vida pessoal influenciava nos negócios. David odiava Graham Gavin e tudo o que ele acreditava no mundo dos negócios. Para ele, valia tudo, e era assim que ele jogava. Quanto mais sangrento, melhor. Perdemos duas contas grandes para Gavin recentemente, e David ficou furioso. Cabeças rolaram naquele dia — muitas delas. Eu tive sorte por nenhuma das duas contas serem minhas. — Então sou um azarado de merda. Ele hesitou, olhou para mim, depois olhou por cima de meu ombro. — Eu sei que um dos melhores executivos deles está deixando a empresa. Inclinei-me para frente, interessado naquela informação. — Por quê? — Sua esposa está doente. Seu diagnóstico é bom, mas ele decidiu mudar para sua família e ficar em casa.


— É uma ausência temporária? Brian balançou a cabeça. — Esse é o tipo de homem que Graham Gavin é. Ele está lhe fornecendo aposentadoria antecipada com pensão completa e todos os benefícios. Ele disse que quando sua esposa se recuperar, vai mandá-los para um cruzeiro a fim de comemorar. — Como sabe disso? — Amy é assistente dele. — Ele precisa de um substituto, então. Me consiga uma entrevista. — Richard, você não ouviu nenhuma palavra que eu disse? Graham não vai contratar alguém como você. — Vai se eu convencê-lo de que não sou o que ele pensa. — E como vai fazer isso? — Me consiga uma entrevista e vou pensar nessa outra parte. — Dei um gole grande no meu uísque. — Isso precisa ser feito discretamente, Brian. — Eu sei. Vou ver o que posso fazer, mas já vou te avisando... vai ser difícil de conseguir. — Haverá uma taxa de agenciador generosa se me colocar lá dentro. — Vale a pena provar a David que você vai sair? Quer tanto assim a sociedade? Passei a mão por meu queixo de forma pensativa, coçando-me. — Mudei de ideia. — O que quer dizer? — David detesta Graham. Nada o deixaria mais bravo do que me perder para ele. Sei que alguns dos meus clientes pulariam do barco também, o que o insultaria ainda mais. Vou conseguir com que Graham Gavin me contrate e, quando David tentar me recuperar, será minha vez de dizer que “as coisas mudaram” para ele. — Você é muito confiante. — Eu te disse... é isso que importa nessa área. — Não sei ao certo como você planeja conseguir isso, mas vou ver se consigo uma entrevista para você. — Ele franziu os lábios. — Estudei com o genro dele, e ainda jogamos golfe juntos. Está marcado para nos encontrarmos para jogar na próxima semana. Vou ver o que ele fala. Assenti, minha mente estava a milhares de quilômetros por hora. Como convencer um estranho de que não era o que parecia? Essa era a pergunta de um milhão de dólares. Eu só tinha de descobrir a resposta. 1 Dick é apelido para Richard, porém também pode significar “otário” e, neste contexto, é o que o personagem quis dizer (N.T.).


3 Richard

Na manhã seguinte, eu tive uma ideia, mas não tinha certeza de como executá-la. Se Graham Gavin queria um homem de família, ele teria um. Eu só tinha de descobrir como concluir esse pequeno detalhe. Eu conseguiria — era minha área de atuação, afinal —, era um homem de ideias. Meu maior problema era o tipo de mulher com quem eu normalmente saía. Versões femininas de mim mesmo. Lindas de olhar, mas frias, calculistas e desinteressadas em tudo, menos no que eu poderia lhes dar: jantares chiques, presentes caros e, se durasse tempo suficiente, uma viagem para algum lugar antes de eu dar o fora nelas. Porque era o que eu sempre fazia. Só me importava com o que elas poderiam me dar também. Tudo o que eu queria era algo bonito para onde olhar e um corpo quente para me enterrar no fim da noite. Algumas horas de prazer negligente até a realidade fria e dura da minha vida voltar à tona. Nenhuma delas seria o tipo de mulher em que Graham Gavin iria acreditar que eu passaria o resto da minha vida. Às vezes, eu mal conseguia passar uma noite inteira com elas. A srta. Elliott bateu timidamente, esperando até eu gritar para que ela entrasse. Ela entrou, carregando com cuidado meu café, depois colocando-o na minha mesa. — Sr. Anderson marcou uma reunião com funcionários na sala de reunião em dez minutos. — Cadê meu bagel? — Pensei que fosse preferir comer depois da reunião, já que estaria com pressa. Você odeia comer rápido. Te dá queimação. Olhei furioso para ela, detestando o fato de ela ter razão. — Pare de pensar, srta. Elliott. Já disse que você se engana mais do que acerta. Ela olhou para seu relógio de pulso — um simples preto sem nada, sem dúvida comprado no Walmart ou alguma loja comum. — Tem sete minutos até a reunião. Quer que eu vá comprar seu bagel? Até ser torrado, você terá dois minutos para engoli-lo. Eu me levantei, pegando minha caneca. — Não. Graças a você, ficarei com fome durante a reunião. Se eu cometer um erro, a culpa será sua. Saí bravo do escritório. David tamborilou o tampo de vidro da mesa. — Peço atenção de vocês. Tenho algumas notícias boas e outras ruins. Vou começar com as boas. Estou feliz em anunciar a indicação de Tyler Hunter como sócio. Controlei minha expressão, mantendo-a neutra. Podia sentir os olhares de canto de olho, e me recusava a deixar qualquer um saber o quanto estava irritado com a situação. Em vez disso, para confundi-los, bati no vidro com os nós dos meus dedos. — Bom para você, Tyler. Muita sorte para você. A sala ficou em silêncio. Internamente, eu sorria. Conseguia agir como uma pessoa decente. Não mudava o fato de eu detestar aquele desgraçado desprezível ou ter ficado ofendido com David por fazer


isso comigo. David limpou a garganta. — Então, as más notícias. A partir de hoje, Alan Summers não trabalha mais na empresa. Minhas sobrancelhas se ergueram de forma repentina. Alan era um dos melhores na Anderson Inc. Não conseguia ficar de boca fechada. — Por quê? David me lançou um olhar. — Me desculpe? — Por que ele saiu? Saiu por conta própria? — Não. Ele... — David curvou os lábios em um sorriso misterioso. — Fiquei sabendo que ele estava saindo com uma das assistentes. — Ele me olhou com raiva. — Você sabe que há uma política rigorosa sobre se relacionar com alguém da empresa. Que isso sirva de lição para todos vocês. Anderson Inc. era firme com suas regras. Ou você as seguia ou caía fora. Eles arrancavam suas bolas, no sentido figurado, deixando-o se debater. Confraternizar dentro da empresa era uma das maiores proibições. David acreditava que o romance no escritório confundia sua mente. Ele não gostava de qualquer coisa que tirasse seu foco do trabalho ou de sua origem. Presumia que ele era contra seus funcionários terem qualquer tipo de vida fora da Anderson Inc. Observando toda aquela mesa, percebi que todo executivo era solteiro ou divorciado. Nunca havia reparado nisso ou me importado com o status de relacionamento de meus colegas de trabalho. — Além disso, Emily nos deixou também. Não precisava ser um gênio para saber com qual assistente Alan estava saindo. Emily era sua assistente pessoal. Que idiota. Você nunca se envolve com alguém do trabalho, principalmente com sua assistente pessoal. Felizmente, eu passava longe de ter essa tentação. David falou mais um pouco de coisas entediantes e eu parei de ouvi-lo, voltando ao meu próprio problema. Quando os outros começaram a se levantar, fiquei em pé rapidamente e saí da sala, sem querer ver todos os apertos de mãos e tapinhas nas costas que Tyler receberia. Dick. Entrei no meu escritório, parando ao ver Brian empoleirado na beirada da mesa da srta. Elliott, seus ombros largos balançando por estar rindo. Ambos olharam para cima quando eu entrei, duas expressões bem diferentes: Brian parecia se divertir e a srta. Elliott parecia culpada. — O que está fazendo aqui? — perguntei. Me virei para a srta. Elliott. — Por que não me avisou que havia alguém esperando? Brian ergueu uma mão. — Eu cheguei há alguns minutos, Richard. Katy me ofereceu café e disse que te avisaria que eu estava aqui, mas eu estava gostando mais da companhia dela do que da sua, então eu não estava com pressa. — Ele piscou para mim. — Ela é mais divertida, sem levar em consideração que é mais bonita que você. Sempre gosto de passar um tempo com ela. Bonita e divertida? A srta. Elliott? E o que era essa merda de Katy? Dei risada daquela sua descrição. — No meu escritório — ordenei. Ele me seguiu e eu fechei a porta. — O que está fazendo aqui? Se David o vir... Ele balançou a cabeça.


— Relaxe. Como se eu nunca tivesse vindo aqui. E se ele me vir e suspeitar de algo? Deixe-o suar um pouco. Parei. Talvez não fosse uma ideia tão ruim. Ele sabia que Brian era o melhor headhunter de Victoria. Talvez, se visse Brian perambular pela Anderson Inc., ficaria um pouco nervoso. — Pare de xavecar minha assistente. É uma perda de tempo e pensei que você tivesse namorada. — Tenho, e eu não a estava xavecando. Ela é ótima. Gosto de conversar com a Katy. Bufei. — Sim, ela é ótima... se você gosta de capachos que se fantasiam de espantalhos magricelos. Brian franziu o cenho. — Você não gosta dela? Sério? Como não gostar? — Ela é perfeita — informei com meu sarcasmo. — Ela faz tudo o que peço. Agora, vamos mudar de assunto e me diga por que está aqui. Ele baixou a voz. — Tomei café com Adrian Davis esta manhã. Cruzei o escritório e me sentei à minha mesa. — Adrian Davis do Grupo Gavin? Ele assentiu. — Eu estava visitando Amy, e fui vê-lo para marcar nossa próxima partida de golfe na semana que vem. Ele concordou em conversar com Graham sobre entrevistar você. Bati no tampo da mesa com meu punho. — Ótimas notícias. O que disse para ele? — Disse que estava saindo por motivos pessoais. Disse que, apesar dos boatos, sua situação mudara e você não estava mais confortável com a direção da Anderson Inc. — Minha situação? — Eu disse a ele que seus dias de playboy ficaram para trás e a forma como você conduzia um negócio havia se desenvolvido. Informei-o que você queria um estilo diferente de vida. — Ele acreditou em você? Brian alisou os vincos de sua calça com a ponta dos dedos, encontrando meu olhar. — Acreditou. — Disse a ele o que causou essa reviravolta milagrosa? — Você praticamente sugeriu isso ontem à noite. Disse que se apaixonou. Assenti. Era exatamente o que eu estava pensando. Graham gostava do clima de família, e eu teria de me encaixar. Brian me olhou firmemente. — Dado seu histórico, Richard, essa mulher precisará ser totalmente diferente das mulheres com quem você se relacionava, principalmente recentemente. — Ele inclinou a cabeça. — Alguém mais pé no chão, carinhoso e que se importe. Alguém de verdade. — Eu sei. — Vale mesmo a pena? — Sim. — Você vai mentir e fingir, tudo por causa de um emprego?


— É mais que um emprego. David me ferrou, assim como Tyler. Não é a primeira vez. Não vou mais aguentar essa merda. — Reclinei minha cadeira, olhando pela janela. — Posso ser contratado sob intenções desonestas, mas Graham vai ferrar bastante com esta empresa. Vou trabalhar igual um retardado para ele. — E a mulher? — Nós podemos terminar. Acontece. — Alguma ideia de quem será a sortuda? Balancei a cabeça. — Vou descobrir. Houve uma batida na porta e a srta. Elliott entrou, colocando um bagel e café fresco na minha mesa. — Sr. Maxwell, posso trazer outra xícara de café para o senhor? Ele balançou a cabeça, sorrindo para ela. — Eu te disse, é Brian. Obrigado, Katy, mas não. Tenho de ir, e seu chefe aqui tem um projeto enorme no qual trabalhar. Ela se virou para mim com os olhos arregalados. — Há alguma coisa que eu precise fazer, Sr. Van Ryan? Posso ajudar de alguma forma? — Absolutamente não. Não há nada que eu precise de você. Suas bochechas ficaram rosadas, e ela baixou a cabeça. Assentiu, saindo do escritório e fechando a porta. — Deus, você é um babaca — Brian comentou. — É muito grosso com ela. Dei de ombros, sem culpa. Ele se levantou da cadeira, abotoando seu paletó. — Precisa melhorar sua atitude se quiser que seu plano funcione, Richard. — Ele apontou para a porta. — Aquela garota linda é o tipo certo de pessoa de que você precisa para interagir com Graham. Ignorei a observação linda, abrindo a boca para ele. — Interagir? Ele sorriu. — Você acha mesmo que ele vai aceitar um nome e uma apresentação breve? Eu te disse como ele é envolvido com seus funcionários. Se ele decidir contratá-lo, vai querer conhecer sua senhora... mais de uma vez. Eu não tinha pensado tão longe. Pensei em conseguir alguém para participar de uma noite, mas Brian tinha razão. Teria de manter a fachada por um tempo — pelo menos até provar meu valor para Graham. Ele hesitou ao chegar à porta. — Acho que a srta. Elliott não é casada. — Isso deveria ser óbvio. Ele balançou a cabeça. — Você é cego, Richard. A solução está bem diante de você. — Do que está falando? — Você é esperto. Descubra. Ele saiu, deixando a porta aberta. Eu o ouvi dizer alguma coisa que fez a srta. Elliott rir, o som incomum vindo daquela área. Peguei meu bagel, mordendo um pedaço com mais força que o necessário.


O que ele estava sugerindo? Um pensamento começou a se expandir, e olhei para a porta. Ele não podia estar falando sério. Resmunguei, deixando o bagel no prato, pois perdera o apetite. Ele estava falando completamente sério. Fodeu minha vida.


4 Richard

Obarulho da esteira fazia um zumbido regular sob meus pés conforme eu andava. Mal tinha dormido na noite anterior, e meu humor estava horrível. O suor escorria por minhas costas e meu rosto. Peguei minha toalha e enxuguei tudo de forma brusca, jogando-a para o lado. Meu iPod estava explodindo com a música alta, mas ainda não estava alta o bastante, então aumentei o volume, feliz pelo apartamento ser à prova de som. Continuei, em um passo quase frenético. Pensei em todas as minhas opções e meus planos na escuridão da noite, tendo duas ideias. Meu primeiro pensamento foi que, se Brian e Adrian me colocassem para dentro, eu poderia tentar blefar na entrevista, contar a Graham somente detalhes vagos da mulher que supostamente mudou minha perspectiva e, consequentemente, a mim. Se fizesse tudo certinho, conseguiria manter uma fachada até me provar para Graham, então o impossível aconteceria — essa mulher perfeita terminaria comigo. Eu poderia fingir estar de coração partido e mergulhar no trabalho. Porém, pelo que Brian explicou, minha ideia provavelmente não daria certo. Significava que eu precisava ter uma mulher física — uma que convencesse Graham que eu era um homem melhor do que ele acreditava. Alguém, como Brian mencionou, “de verdade, carinhosa e pé no chão”. Eu não conhecia muitas mulheres que se encaixariam nessas categorias, a menos que tivessem mais de 60 anos. Eu não achava que Graham acreditaria que eu pudesse me apaixonar por alguém que tivesse duas vezes minha idade. Nenhuma dessas mulheres com quem eu confraternizava passaria por sua inspeção. Pensei na ideia de contratar alguém — uma atriz talvez —, mas parecia muito arriscado. As palavras de Brian continuaram se repetindo em minha cabeça. “Você é cego, Richard. A solução está bem diante de você.” Srta. Elliott. Ele pensava que eu deveria usar a srta. Elliott como minha namorada. Se eu recuasse e tentasse ser objetivo, ele tinha razão. Era o disfarce perfeito. Se Graham pensasse que eu estava saindo da Anderson Inc. por estar apaixonado por minha assistente e a tivesse escolhido — assim como nosso relacionamento — em vez de meu emprego lá, marcaria muitos pontos com ele. Ela era diferente de qualquer mulher com quem eu estivera. Brian a achava carinhosa, pura e envolvente. Outras pessoas pareciam gostar dela. Só pontos positivos. Com exceção de que era a srta. Elliott. Com um gemido, desliguei a esteira, pegando a toalha que joguei. Na cozinha, peguei uma garrafa de água, bebi tudo e liguei o notebook. Fazendo login no site da empresa, procurei pelos arquivos dos funcionários, parando na página da srta. Elliott. Analisei sua foto, tentando ser imparcial. Não havia nada de extraordinário nela, mas seus olhos azuis brilhantes eram grandes com cílios longos. Achei que seu cabelo escuro fosse longo já que eu nunca o tinha visto de outra forma a não ser em


um coque apertado. Sua pele era muito pálida; pensei em como ela ficaria pelas mãos habilidosas de um maquiador e vestida com roupas decentes. Apertando os olhos para a tela, encarei a foto. Um pouco de sono não seria mal para se livrar de suas olheiras e, talvez, comer alguma coisa que não fossem sanduíches de pasta de amendoim e geleia ajudaria. Ela era extremamente magra. Eu gostava de minhas mulheres com um pouco mais de curvas. Resmunguei com a frustração, esfregando minha nuca. Supunha que, neste caso, não importava o que eu preferia. Era o que eu precisava. Neste caso, eu poderia ter de admitir que precisava da srta. Elliott. Que merda. Meu telefone tocou e olhei para a tela, surpreso ao ver o nome de Brian. — Ei. — Desculpe se te acordei. Olhei para o relógio vendo que eram apenas seis e meia. Estava surpreso por ele estar acordado, na verdade. Eu sabia que ele levantava tarde. — Estou acordado há um tempo. O que está havendo? — Graham vai se encontrar com você hoje às onze. Levantei-me, sentindo os nervos da espinha se tensionarem. — Sério? Por que tão rápido? — Ele estará fora no restante da semana, e eu disse a Adrian que você estava pensando em aceitar uma entrevista de emprego em Toronto. Eu ri. — Te devo essa. — Deve muito. Tanto que nunca conseguirá me pagar. — Ele gargalhou. — Você sabe que há uma grande chance de não conseguir nada se não convencê-lo de que as coisas estão diferentes para você, certo? Deixei isso bem claro para Adrian, mas minha palavra só vai levá-lo até aí. — Eu sei. — Tudo bem. Boa sorte. Depois me conte como foi. — Vou contar. Após desligar, verifiquei minha agenda, sorrindo ao perceber que a srta. Elliott a atualizara na noite anterior. Eu tinha uma reunião no café da manhã às oito, o que significava que voltaria para o escritório lá pelas dez. Resolvi não ir ao meu escritório. Tive uma ideia de como apresentar minha “namorada” na entrevista. Disquei o número da srta. Elliott. Ela atendeu depois de alguns toques, murmurando seu cumprimento sonolento. — Hummmm... alô? — Srta. Elliott. — O quê? Respirei profundamente, tentando ser paciente. Era óbvio que eu a acordara. Tentei de novo. — Srta. Elliott, é o sr. Van Ryan. A voz dela estava rouca e confusa. — Sr. Van Ryan? Suspirei pesadamente.


— Sim. Pude ouvir uma movimentação, e a visualizei tentando se sentar, toda amarrotada. Ela limpou a garganta. — Há, ahn, algum problema, sr. Van Ryan? — Não chegarei ao escritório até depois do almoço. O silêncio pairou. — Tenho de cuidar de um assunto pessoal. A voz dela estava seca quando falou. — Poderia ter me mandado uma mensagem... senhor. — Preciso que faça duas coisas para mim. — Continuei, ignorando o tom de sarcasmo na voz dela. — Se David for até lá e perguntar onde estou, diga a ele que estou resolvendo um assunto particular e você não tem ideia de onde. Fui claro? — Cristalino. — Preciso que me ligue às onze e quinze. Exatamente. — Quer que eu diga alguma coisa ou só respire alto? Tirei o telefone da orelha, surpreso pelo tom dela. Parece que minha assistente pessoal não gostava de ser acordada cedo. Estava sendo bem mais respondona que o normal, e eu não tinha certeza do que fazer agora. — Preciso que me diga que meu compromisso das quatro foi alterado para as três. — Só isso? — Sim. Agora repita o que acabei de te dizer. Ela fez um som estranho, algo parecido com um murmúrio, o que me fez sorrir. A srta. Elliott parecia ser corajosa se as circunstâncias fossem certas. No entanto, eu queria ter certeza de que ela estava acordada o suficiente para se lembrar de minhas instruções. — É para eu falar para David que o senhor está tratando de assuntos pessoais e não faço ideia de onde. Vou te ligar exatamente às onze e quinze e dizer que seu compromisso das quatro foi mudado para as três. — Bom. Não estrague tudo. — Mas, sr. Van Ryan, isso não faz sentido, por que o senhor iria... Sem me incomodar em ouvir mais, desliguei.


5 Richard

Oprédio onde ficava o Grupo Gavin era o extremo oposto de Anderson Inc. Diferente do arranha-céu de aço e vidro no qual eu trabalhava diariamente, aquele edifício era de tijolos, tinha apenas quatro andares, e era rodeado por árvores. Estacionei meu carro depois de passar com o guarda da entrada, que sorriu para mim agradavelmente e me entregou um crachá de visitante. Entrando no prédio, outro guarda me cumprimentou e me disse que o escritório de Graham Gavin ficava no último andar, depois me desejou um bom-dia. Minutos depois, uma secretária me levou a uma sala de reuniões, me deu uma xícara de café fresco e me disse que Graham estaria comigo em um instante. Aproveitei o tempo para observar os detalhes da sala em que estava, mais uma vez impressionado pela diferença entre as duas empresas. Anderson Inc. era toda moderna. Os escritórios e a sala de reuniões eram decorados com arte — branco e preto era a paleta predominante. Até a arte era monocromática com bastante metal por todo lugar. Cadeiras duras e modernas, mesas com tampo de vidro e piso laminado — tudo frio e vago. Se fosse analisar por aquela sala, eu não estava mais no Kansas. As paredes eram decoradas com painéis de carvalho, havia uma mesa de reunião oval de madeira rodeada por cadeiras de couro acolchoadas, e tinha um tapete alto e macio no chão. Uma área aberta à direita abrigava a cozinha eficiente. As paredes mostravam muitas campanhas bem-sucedidas, todas emolduradas e apresentadas de forma graciosa. Muitos prêmios decoravam as prateleiras. Em um canto da sala estava o quadro de ideias. Havia rabiscos e ideias esboçadas nele. Aproximeime, analisando os desenhos, rapidamente absorvendo a estrutura da campanha que eles estavam criando para uma marca de sapato. Estava tudo errado. Uma voz profunda me tirou das minhas reflexões. — Pela sua expressão, eu diria que não gostou do conceito. Meu olhar encontrou uma expressão divertida de Graham Gavin. Havíamos nos encontrado por causa da indústria algumas vezes, sempre educado e distante — um aperto de mãos profissional e uma conversa breve foram as únicas interações. Ele era alto e confiante, com muitos cabelos grisalhos que brilhavam sob as luzes. Mais de perto, a cordialidade em seus olhos verdes e o baixo tom de voz me atingiram. Pensei se o quadro de ideias não tinha sido deixado de propósito — um tipo de teste. Dei de ombros. — É um bom conceito, mas não é novo. Uma família usando o mesmo produto? Já foi feito. Ele encostou o quadril na beirada da mesa, cruzando os braços. — Foi feito, mas foi bem-sucedido. O cliente é Kenner Shoes. Eles querem conquistar mais clientes. Assenti. — E se você fizesse isso, mas só destacasse uma pessoa? — Gostaria de ouvir mais.


Apontei o desenho da família, batendo o dedo no caçula. — Comece aqui. Foque nele. A primeira aquisição deles: sapatos comprados por seus pais. Siga-o ao crescer, enfatizando alguns pontos pertinentes na vida conforme os usava: primeiros passos, primeiro dia de aula, escalar com amigos, praticar esportes, ir a encontros, formatura, casamento... — Minha voz sumiu. Graham ficou quieto por um instante, então começou a assentir. — O produto fica com você conforme cresce. — É uma constante. Você muda; o produto não. É seu para sempre. — Brilhante — ele elogiou. Por algum motivo, seu elogio fez meu peito se aquecer, e inclinei minha cabeça com essa sensação esquisita. Ele saiu de perto da mesa, segurando sua mão no alto. — Graham Gavin. Apertei sua mão, percebendo a firmeza dele. — Richard Van Ryan. — Já me impressionei. Antes que eu pudesse responder, meu telefone tocou. Bem na hora. — Desculpe. — Olhei para a tela, esperando parecer envergonhado. — Preciso atender. Peço desculpa. — Sem problema, Richard. — Ele sorriu. — Preciso de um café. Me virei ao atender. — Katharine — murmurei, baixando o tom de voz. Por um instante, houve silêncio, então ela falou. — Sr. Van Ryan? — Sim. — Ri, sabendo que eu a confundiria toda. Acho que nunca a tinha chamado de outra coisa sem ser srta. Elliott, e certamente nunca com uma voz que acabara de usar. — Hum, você pediu para me ligar e dizer que seu compromisso das quatro foi alterado para três. — Três horas agora? — repeti. — Sim? — Ok, vou ajustar. Está tudo bem aí? Ela parecia assustada quando respondeu. — Sr. Van Ryan, o senhor está bem? — Claro que estou. — Não pude resistir e brinquei mais com ela. — Por quê? — Você está, ahn, diferente. — Pare de se preocupar — acalmei-a, sabendo que Graham estava ouvindo. — Está tudo bem. — David o procurou. — O que disse a ele? — Exatamente o que me instruiu a dizer. Ele... — O quê? O que aconteceu? — Ele está um pouco mal-humorado esta manhã.


— David sempre está mal-humorado. Almoce mais cedo e tranque a porta do escritório. Vou falar com ele quando voltar — instruí enquanto sorria para o telefone, dando um tom preocupado à minha voz. A confusão a deixou corajosa. — Trancar o escritório e almoçar mais cedo? Você está bêbado? Não aguentei. Gargalhei com as palavras dela. — Só faça isso, Katharine. Se cuide, e te vejo quando eu voltar. — Desliguei, ainda sorrindo, e me virei para encarar Graham. — Minha assistente — expliquei. Ele me olhou com um olhar de sabedoria. — Acho que sei por que está querendo sair da Anderson Inc. Respondi ao seu olhar levantando os ombros discretamente. Eu o ganhara. — M E CONTE SOBRE você. Sorri para a pergunta dele. — Acho que você já sabe muito sobre mim, Graham. Pelo menos já ouviu falar de mim. Ele assentiu, bebendo seu café. — Sua reputação diz muito sobre você. Inclinei-me para frente, torcendo para parecer sincero. — As pessoas mudam. — Você mudou? — Mudei o que quero na vida e como. Assim, a pessoa que eu era não existe mais. — Apaixonar-se faz isso com uma pessoa. — É o que estou descobrindo. — Anderson Inc. tem uma política rígida sobre relacionamentos interpessoais. Bufei. — David não gosta que seus funcionários se relacionem nem dentro nem fora do escritório. Ele acha que distrai dos negócios. — E você discorda? — Acho que é possível ter os dois... com a pessoa certa. — E encontrou essa pessoa? — Sim. — Sua assistente. Engoli seco, capaz apenas de assentir. — Me conte sobre ela. Merda. Quando o assunto eram negócios, eu poderia falar eternamente. Estratégias, ângulos, conceitos, visualizações — eu poderia continuar por horas. Raramente falava de assuntos pessoais, então o que poderia dizer de uma mulher que mal conhecia e da qual não gostava? Não fazia ideia. Engoli de novo e olhei para a mesa, passando os dedos pela superfície lisa. — Ela é a pessoa mais burra que já conheci — soltei, isso pelo menos era verdade. Ele franziu o cenho com meu tom de voz, e eu rapidamente disfarcei meu erro. — Detesto quando ela se machuca — expliquei com uma voz mais branda. — É claro. — Ele assentiu.


— Ela é, ahn, ela é perfeita. Ele riu. — Todos achamos isso das mulheres que amamos. Busquei em meu cérebro, fazendo uma lista mental das coisas que eu sabia sobre ela. — Seu nome é Katharine. A maioria das pessoas a chamam de Katy, mas eu gosto de usar seu nome completo. Não era realmente uma mentira. Eu a chamava de srta. Elliott toda vez. Ele assentiu. — Um nome tão adorável. Tenho certeza de que ela gosta de ouvi-lo dizer seu nome. Sorri, lembrando da reação dela mais cedo. — Acho que a confunde. Ele esperou enquanto eu pensava em minhas próximas palavras. — Ela é minúscula e comedida. Seus olhos são como o oceano, tão azuis que você se perde neles. Todos gostam dela no escritório. Ela faz cookies para as pessoas; elas amam. — Titubeei, tentando pensar em mais coisas. — Ela detesta ser acordada mais cedo que o necessário. Sua voz fica bem rouca, o que me faz rir. Ele sorriu de forma encorajadora. — Ela me mantém na linha, é uma assistente maravilhosa e eu ficaria perdido sem ela. — Suspirei, incerto do que mais falar. — Sem dúvida, é boa demais para mim — admiti, sabendo lá no fundo que era verdade. Eu tinha certeza de que era a má pessoa dessa história, principalmente pelo que estava fazendo naquele momento. — Quer trazê-la para cá com você? — Não! — exclamei. Essa era minha chance de me livrar dela. — Não entendo. — Ela, ahn, nós queremos começar uma família. Prefiro que ela fique em casa e que eu tenha outra pessoa no trabalho. Quero que ela tenha a chance de relaxar e aproveitar a vida por um tempo... sem trabalhar. — Ela não está aproveitando agora? — Está difícil, por causa da situação, e ela trabalha demais — adicionei, torcendo para soar da maneira correta. — Está cansada nos últimos tempos. Quero que ela durma o quanto quiser. — Você quer cuidar dela. Estávamos entrando em um território perigoso. Eu não fazia ideia do que responder; nunca quis cuidar de alguém, com exceção de mim mesmo. No entanto, assenti, concordando. — Presumo que morem juntos? Imagino que seja a única hora que têm de relaxar e ser um casal. Merda. Não tinha pensado nisso. — Ah, nós, sim... valorizamos nosso tempo a sós. — Você não gostar de conversar sobre sua vida pessoal. Sorri com pesar. — Não. Estou acostumado a mantê-la em segredo. — Isso, pelo menos, era verdade. — Somos uma empresa especial aqui no Grupo Gavin, em muitos níveis. — Algo do qual estou ansioso para participar. Ele apontou para o quadro.


— Acreditamos em trabalho de equipe, aqui e em nossa vida pessoal. Trabalhamos em campanhas como um grupo, alimentando um ao outro, quase igual nós dois fizemos há alguns instantes. Compartilhamos vitórias e desastres. — Ele piscou. — Não que tenhamos muitos. Valorizo cada funcionário. — É uma forma interessante de fazer as coisas. — Funciona para nós. — Obviamente. Seu nome é bem respeitado. Nossos olhares se encontraram. Mantive minha expressão aberta, nivelada e, esperava, sincera. Ele recostou em sua cadeira. — Me diga mais sobre sua ideia. Relaxei também. Isso era fácil... muito mais fácil do que falar sobre Katharine Elliott. Uma hora depois, Graham se levantou. — Estarei fora até sexta. Gostaria de convidá-lo para ir a um churrasco que minha esposa e eu vamos dar no sábado. Gostaria que a conhecesse e também as outras pessoas. Eu sabia o que aquilo significava. — Eu gostaria de ir, senhor. Obrigado. — Com Katharine, é claro. Mantive minha expressão fria conforme peguei sua mão estendida para cumprimentar. — Ela vai adorar. De volta ao escritório, a srta. Elliott estava em sua mesa quando cheguei. Embora ela estivesse no telefone, senti seu olhos me observando quando cruzei seu caminho. Sem dúvida, ela estava esperando minha ira descer sobre ela por qualquer infração que eu tivesse escolhido hoje. Em vez disso, balancei a cabeça e continuei andando até minha mesa, verificando os recados e a pequena pilha de documentos que aguardavam minha aprovação. Sentindo-me estranhamente desinteressado, levantei-me e olhei pela janela e para a cidade abaixo de mim; o alvoroço e o barulho abafados pelo vidro e pela altura em relação à rua. A vista e o som seriam bem diferentes no Grupo Gavin. Tudo seria bem diferente. Frequentemente, no momento em que eu saía de qualquer tipo de reunião com David, eu estava uma confusão de terminações nervosas, pulsando e ansioso. Ele sabia como pressionar toda pessoa que trabalhava com ele; como dizer e fazer exatamente o que ele precisava para conseguir o que queria — independente se fosse positivo ou negativo. Até aquele instante, não tinha percebido que o encontro com Graham, apesar de eu estar nervoso, devido à situação na qual estava me encontrando com ele, ainda estava calmo. Em minha pesquisa em relação à sua empresa, e do próprio homem, li várias vezes sobre sua gentileza e generosidade. Na verdade, além da opinião negativa de David sobre Graham, eu não tinha lido ou ouvido qualquer comentário cruel. Sentado com ele, discutindo os conceitos em minha mente para a campanha da marca de sapato, senti um entusiasmo que não sentia há muito tempo. Eu me senti criativo de novo, energizado. Graham ouviu, ouviu de verdade, encorajando meu processo de pensamento com reforço positivo, e adicionando ideias próprias. Para minha surpresa, gostei de seu conceito de trabalho em equipe. Imaginei como seria não ser envolvido diariamente pelo degolador mundo da Anderson Inc. Como seria trabalhar com pessoas ao invés de contra elas. Teria uma vida melhor? Uma mais fácil, disso


eu tinha certeza. Sim, senti que não seria menos desafiador. Tudo o que eu sabia era que, no instante em que nossa reunião acabou, meus motivos para querer trabalhar para ele não eram mais por vingança. Eu queria sentir aquele entusiasmo — ficar orgulhoso de campanhas que criava. Era uma situação inesperada, mas agradável. Minha porta bateu e eu me virei, franzindo o cenho, tendo meus pensamentos interrompidos. — David. — Olhei para ele de forma desafiadora. — Ainda bem que não estava com um cliente. — Katy me disse que você estava livre. Ela interfonou, mas você não atendeu. Eu estava tão mergulhado em meus pensamentos que não ouvira o interfone. Pela primeira vez. — O que posso fazer por você? Ele colocou os ombros para trás, preparando-se para uma discussão. — Onde você estava esta manhã? Eu te procurei, e você não estava atendendo o celular nem retornando minhas mensagens. — Era um compromisso pessoal. — Sua assistente disse que foi uma consulta médica. Eu sabia que ele estava mentindo. Uma coisa em que a srta. Elliott era boa era guardar meus segredos. Entrei no seu blefe. — Por que ela diria isso? Não faço ideia. Não disse à srta. Elliott onde estaria. Como eu disse, era pessoal. Ele fez uma careta para mim, mas parou. Andou um pouco, arrumando seu penteado; um gesto que eu conhecia bem. Ele estava se preparando para matar. Girou para me encarar. — Por que Brian Maxwell veio aqui outro dia? Dei de ombros, movendo-me para me sentar para que ele não me visse sorrir. Agora eu entendi sobre o que era tudo isso. — Brian e eu somos amigos. Estávamos marcando uma rodada de golfe. — Ele não podia fazer isso pelo telefone? — Ele estava aqui no bairro. Gosta de flertar com a srta. Elliott, e passou aqui pessoalmente. Há algum problema? — O que está tramando? Ergui minhas mãos em defesa. — Não estou tramando nada, David, exceto uma partida de golfe e algumas horas fora do escritório. Me barre se quiser. — Pequei uma pilha de documentos. — Embora pense que, se você verificar, tenho muitos períodos de férias vencidas... desconte duas horas dali. — Estou observando você — ele alertou, virando-se e saindo. A porta bateu tão forte que as janelas vibraram. Sorri para a porta. — Me observe, David. Me observe ir embora. Alonguei-me na cadeira e soquei o botão do interfone. A srta. Elliot atendeu, soando mais cautelosa do que o normal. — Sr. Van Ryan? — Preciso de um café, srta. Elliott. — Mais alguma coisa, senhor? — Alguns minutos de seu tempo.


Ela respirou vacilante. — Agora mesmo. Virei minha cadeira em direção à janela e suspirei. Não conseguia acreditar no que estava prestes a fazer. Esperava não falhar. Que Deus me ajudasse... de todas as formas.


6 Katharine

N

— ão entendo — murmurei no telefone, tentando permanecer calma. — Não recebi nenhum recado sobre esse aumento. — Eu sei, srta. Elliott. Só recebemos as instruções há dois dias, e é por isso que estou ligando para informar da mudança. Engoli o nó em minha garganta. Quatrocentos dólares a mais por mês. Eu precisava pagar quatrocentos dólares a mais. — Você me ouviu, srta. Elliott? — Desculpe... Poderia repetir? — Eu disse que a nova taxa começará a ser cobrada no dia primeiro. Olhei para o calendário. Era daqui a duas semanas. — Isso é legal? A mulher no telefone suspirou, compreendendo. — É uma instituição privada, srta. Elliott. Uma das melhores da cidade, mas têm suas próprias regras. Há outros lugares onde você pode procurar para mudar sua tia, uns que são administrados pelo governo com taxas fixas. — Não — insisti. — Não quero fazer isso. Ela está muito bem cuidada e adaptada. — Os funcionários são os melhores. Há outros quartos, semiparticulares, nos quais você poderia colocá-la. Esfreguei minha cabeça com frustração. Aqueles quartos não tinham uma vista do jardim, ou um espaço para os cavaletes e os livros de arte de Penny. Ela ficaria muito infeliz e perdida. Eu precisava mantê-la no quarto particular, independentemente do quanto custasse. O sr. Van Ryan entrou no escritório, olhando para mim. Hesitei antes de dizer alguma coisa, incerta se ele iria parar, mas ele continuou andando e entrou em sua sala, fechando a porta com um clique discreto. Ele não me vira, não que o fizesse normalmente, a menos que fosse para gritar ou xingar, então eu só poderia presumir que a ligação estranha que ele fez tivesse sido aceitável. — Srta. Elliott? — Desculpe. Estou no trabalho, e meu chefe chegou. — Você tem mais alguma pergunta? Eu queria gritar para ela e dizer: Sim! De onde acha que posso tirar mais quatrocentos dólares para dar a você?, mas eu sabia que seria inútil. Ela trabalhava no departamento de contabilidade; não participava das decisões. — No momento, não. — Você tem nosso número. — Sim, obrigada. — Desliguei. Eles certamente tinham o meu número.


Olhei para minha mesa e minha mente foi longe por um instante. Eles me pagavam bem na Anderson Inc. — eu era uma das assistentes pessoais mais bem pagas porque trabalhava para o sr. Van Ryan. Era horrível trabalhar com ele — seu desgosto por mim era óbvio. No entanto, eu o fazia porque me dava dinheiro extra, o que ia tudo para Penny Johnson. Passei o dedo na beirada do mata-borrão que eu mantinha na minha mesa. Já morava no lugar mais barato que pude encontrar. Cortava meu próprio cabelo, comprava minhas roupas em lojas de segunda mão, e minha dieta consistia em miojo e muita pasta de amendoim barata e geleia. Não reclamava de nada, usando toda oportunidade para economizar um pouco. Café era grátis no escritório, e sempre havia muffins e cookies. A empresa pagava meu celular e, quando estava calor, eu ia e voltava andando do trabalho, para economizar a tarifa do ônibus. De vez em quando, usava a cozinha em casa para assar cookies com os moradores e trazia um pouco para o trabalho para dividir. Era minha forma silenciosa de recompensar pelas comidas que eu roubava. Se houvesse uma despesa inesperada, havia dias em que eu só podia comer aqueles cookies e muffins. Verificava se tinha algum na sala de descanso antes de eu sair à noite que pudesse colocar no freezer do meu apartamento. Pisquei para evitar as lágrimas que estavam se formando. Como eu iria conseguir mais quatrocentos dólares por mês? Eu já vivia de salário em salário. Sabia que não podia pedir aumento. Eu teria de conseguir um segundo emprego, o que significava menos tempo para gastar com Penny. A porta para o lado de fora se abriu e David entrou, sua expressão estava raivosa. — Ele já chegou? — Sim. — Está com alguém? — Não, senhor. — Peguei o telefone, surpresa quando o sr. Van Ryan não atendeu. — Onde ele estava? — ele perguntou. — Como eu disse esta manhã, ele não me contou. Disse que era pessoal, então não era minha função perguntar. Ele olhou bravo para mim, seus olhos estreitos quase desaparecendo. — É a minha empresa, mocinha. Tudo que acontece aqui é da minha conta. Da próxima vez, pergunte. Entendeu? Mordi a língua para não mandá-lo se foder. Em vez disso, assenti, aliviada quando ele marchou e passou por mim, batendo a porta do escritório do sr. Van Ryan. Suspirei. Aquela porta batia tanto que eu tinha de fazer manutenção nela quase todo mês. Alguns minutos depois, David bateu de novo, saindo xingando baixinho. Eu o observei sair, uma sensação ansiosa se formou em meu estômago. Se ele estava de mau humor, significava que o sr. Van Ryan estava de mau humor. E isso significava apenas uma coisa: logo ele estaria gritando comigo por algum erro que ele pensava que eu cometera hoje. Baixei a cabeça. Eu detestava minha vida. Detestava ser uma assistente pessoal. Principalmente uma assistente pessoal do sr. Van Ryan. Eu nunca havia conhecido ninguém tão cruel. Nada que eu fazia era suficiente — certamente insuficiente para receber um agradecimento ou um sorriso forçado. Na verdade, eu tinha certeza de que ele nunca sorrira para mim no ano todo em que trabalhava para ele. Eu conseguia me lembrar do dia em que David me convocou para seu escritório. — Katy — ele olhou firme para mim —, como você sabe, Lee Stevens está saindo. Vou realocá-la a outro representante, Richard Van Ryan. — Oh. — Eu ouvira histórias terríveis sobre Richard Van Ryan e seu temperamento, e estava nervosa. Ele demitia as assistentes pessoais rapidamente. No entanto, realocação era melhor do que


nenhum emprego. Eu tinha, finalmente, encontrado um lugar para Penny em que ela era feliz, e não queria tirar isso dela. — O salário é maior do que ganha agora e do que o das outras assistentes pessoais. — Ele se referia a mim como se parecesse um ótimo aumento, mas aquela quantia significava que eu podia dar a Penny seu próprio quarto. Certamente, o sr. Van Ryan não poderia ser tão ruim assim. Como eu estava enganada. Ele tornava minha vida um inferno, e eu aguentava — porque não tinha outra opção. Ainda não. Meu interfone tocou, e estabilizei meus nervos. — Sr. Van Ryan? — Preciso de um café, srta. Elliott. — Mais alguma coisa, senhor? — Alguns minutos de seu tempo. Fechei os olhos, pensando no que iria acontecer. — Agora mesmo. Carregando seu café, aproximei-me de seu escritório tremendo. Bati, entrei só quando ele me autorizou a entrar. Seus comentários grosseiros foram falados por dias por causa daquela infração. Certifiquei-me de que minha mão tremia conforme eu colocava o café diante dele e preparava meu caderno, esperando as instruções dele. — Sente-se, srta. Elliott. Meu coração martelava. Ele finalmente convenceu David a deixá-lo me demitir? Eu sabia que ele estava tentando fazer isso desde a primeira semana em que trabalhei para ele. Tentei manter minha respiração regular. Eu não podia perder aquele emprego. Precisava dele. Sentei-me antes de minhas pernas cederem e limpei minha garganta. — Há algum problema, sr. Van Ryan? Ele mexeu o dedo no espaço entre nós. — O que discutirmos neste escritório, confio que permanecerá confidencial. — Sim, senhor. Ele assentiu e pegou sua caneca, tomando a bebida em silêncio. — Preciso falar com você sobre uma questão pessoal. Fiquei confusa. Ele nunca falava comigo sobre nada a não ser gritar suas ordens. — Tudo bem? Ele olhou em volta, parecendo incomumente nervosa. Fiquei analisando-o enquanto ele organizava seus pensamentos. Ele era ridiculamente bonito. Bem mais alto que 1,80 metro, ombros largos, cintura fina — ele era o modelo de como fazer um terno cair bem. Estava barbeado na maior parte do tempo; apesar de às vezes, como hoje, sua mandíbula estar com um ou dois dias sem fazer, o que enfatizava seus traços fortes. Ele mantinha seu cabelo castanho-claro de lado, mas mais comprido em cima, e tinha um topete, fazendo com que uma parte caísse em sua testa. Uma imperfeição que só o tornava mais perfeito. Ele a colocava para trás quando estava agitado, que era a forma como agia naquele momento. Sua boca era grande, seus dentes, brancos, e seus lábios eram tão grossos que eu sabia que muitas mulheres os


invejavam. Seus olhos cor de mel olharam para mim, e ele endireitou os ombros, mais uma vez no controle. — Preciso pedir uma coisa a você. Ao fazer isso, colocarei muita confiança em sua discrição. Preciso saber se vai honrar minha confiança. Pisquei para ele. Ele queria me pedir algo? Não iria me demitir? Um leve tremor de alívio passou por meu corpo, que relaxou um pouco. — É claro, senhor. O que eu puder fazer. Seus olhos travaram os meus. Eu nunca reparara como as cores de seus olhos se alternavam com a luz — uma mistura de cinza, verde e azul. Normalmente, eles estavam tão escuros com raiva, que nunca o encarei por mais de um ou dois segundos. Ele pareceu me analisar por um instante, depois assentiu. Ele pegou um de seus cartões e escreveu algo atrás, entregando a mim. — Preciso que vá neste endereço esta noite. Pode estar lá às sete? Olhei para o cartão, notando que o endereço não era longe de onde eu visitaria Penny após o trabalho. Para chegar lá às sete, no entanto, teria de ficar pouco com ela. — Há algum problema? — ele perguntou, sua voz sem a hostilidade comum. Ergui meu olhar e decidi ser honesta. — Tenho um compromisso depois do trabalho. Não sei se consigo chegar à sete. Esperei sua ira. Aguardei ele balançar a mão no ar e exigir que eu cancelasse qualquer plano e estivesse onde ele precisava que eu estivesse às sete. Fiquei surpresa quando ele só deu de ombros. — Sete e meia? Oito? Assim você consegue? — Conseguiria às sete e meia. — Tudo bem. Te vejo às sete e meia. — Ele se levantou, indicando que essa reunião esquisita havia acabado. — Vou me certificar de que meu porteiro saiba que você está chegando. Ele vai mandá-la direto para cima. Tudo o que eu podia fazer era não engasgar. Seu porteiro? Ele estava pedindo para eu ir à casa dele? Levantei-me, desconcertada. — Sr. Van Ryan, está tudo bem? Ele me olhou com um olhar estranho. — Com sua colaboração, ficará, srta. Elliott. — Ele olhou para o relógio. — Agora, com licença, tenho uma reunião à uma hora. Ele pegou sua caneca. — Obrigado pelo café e por seu tempo. Ele me deixou olhando para ele, imaginando se eu tinha entrado em um universo alternativo. Nunca, em um ano que eu trabalhava para ele, ele havia agradecido. O que estava acontecendo?


7 Katharine

Fiquei do outro lado da rua do prédio do sr. Van Ryan, olhando para a estrutura alta. Era intimidador e emanava riqueza — todo vidro e concreto pintado agigantavam-se sobre a cidade, lembrando-me do homem que morava lá. Frio, distante, inalcançável. Estremeci um pouco ao olhar para ele, imaginando por que estaria ali. O prédio se encontrava a aproximadamente dez minutos de caminhada da minha casa, e eu cheguei na hora certa. Não foi uma boa visita com Penny hoje; ela estava chateada e agitada, recusando-se a comer ou conversar comigo, e acabei saindo mais cedo. Fiquei decepcionada. Ela ficara bem a semana toda, e eu esperava que hoje fosse do mesmo jeito; que eu conseguiria conversar conforme de costume, mas não foi o que aconteceu. Em vez disso, o dia só ficou mais estressante e esquisito. Saí de casa me sentindo desanimada, e em dúvida do motivo de eu estar indo encontrar o sr. Van Ryan. Sr. Van Ryan. Ele já havia me confundido pedindo para ir à casa dele naquela noite. Seu comportamento no restante da tarde provava que estava igualmente bizarro. Quando ele voltou de sua reunião, pediu outro café e um sanduíche. Me pediu! Não mandou, não foi sarcástico ou bateu a porta. Em vez disso, parou em frente à minha mesa e pediu o almoço com educação. Ele até disse “obrigado”. De novo. Não saiu de seu escritório o resto do dia até ir embora, quando parou, perguntando se eu tinha o cartão dele. Quando murmurei que sim, ele assentiu, agradecendo, e saiu, sem bater a porta. Eu estava mais do que confusa, nervos à flor da pele e com o estômago revirado. Não fazia ideia do que estava fazendo na casa dele, muito menos do por quê. Inspirei fundo para me acalmar. Havia apenas uma forma de descobrir. Endireitei meus ombros e atravessei a rua. O sr. Van Ryan abriu a porta e eu tentei não encará-lo. Nunca o havia visto tão casual. Não vestia o terno de alfaiataria e a camisa branca de que tanto gostava. Em vez disso, ele estava vestindo uma camiseta térmica de manga comprida e jeans, e estava descalço. Por algum motivo, eu queria rir de seus dedos do pé compridos, mas contive essa reação esquisita. Ele indicou para que eu entrasse e recuou, deixando-me passar. Ele pegou meu casaco e nós ficamos parados olhando um para o outro. Eu nunca o havia visto desconfortável. Ele segurou sua nuca, limpando a garganta. — Estou jantando. Gostaria de me acompanhar? — Estou bem — menti. Estava morrendo de fome. Ele fez uma careta. — Duvido. — Como é? — Você está muito magra. Precisa comer mais. Antes de eu conseguir falar alguma coisa, ele pegou meu cotovelo e me guiou para o balcão alto que separava a cozinha da sala de estar.


— Sente-se — ele ordenou, apontando para os banquinhos altos acolchoados. Sabendo que era melhor não discutir com ele, eu o fiz. Conforme ele entrou na cozinha, olhei em volta para o espaço aberto enorme. Piso de madeira escura, dois sofás grandes de cor chocolate e as paredes brancas destacavam a imensidão do cômodo. As paredes não eram decoradas, com exceção da TV gigante pendurada acima da lareira — sem fotos pessoais ou enfeites. Até a mobília estava vazia — sem almofadas ou cobertor jogado em algum lugar. Apesar da grandeza do lugar, era frio e impessoal. Como o estúdio de uma revista, bem decorado e primitivo, sem nada que indicasse o homem que morava ali. Vislumbrei o corredor comprido e um lance de escadas chiques que presumi levarem aos quartos. Voltei o olhar para a cozinha — o estilo era parecido, uma mistura de escuro e claro, e livre de toques pessoais. Reprimi um arrepio. O sr. Van Ryan colocou um prato diante de mim e, com um sorriso, abriu a tampa da caixa de pizza. Senti um sorriso repuxar meus lábios. — Esse é o jantar? De alguma forma, parecia muito normal para ele. Eu não comia um pedaço de pizza há anos; minha boca aguou só de olhar para ela. Ele deu de ombros. — Geralmente janto fora, mas estava com vontade de comer pizza hoje. — Ele ergueu um pedaço e colocou em meu prato. — Coma. Faminta demais para discutir, comi em silêncio, mantendo o olhar em meu prato e torcendo para que meus nervos não me denunciassem. Ele comeu vorazmente, devorando o resto da pizza, deixando um segundo pedaço, o qual colocou em meu prato. Não contestei o pedaço ou a taça de vinho que ele empurrou em minha direção. Em vez disso, eu bebi, aproveitando a suavidade do merlot tinto. Fazia muito tempo que não bebia um vinho tão bom. Quando terminamos nossa refeição estranha, ele se levantou, jogando fora a caixa de pizza e voltando rápido. Ele pegou seu vinho, esvaziou sua taça e andou para um lado e para o outro por alguns minutos. Finalmente, parou diante de mim. — Srta. Elliott, vou reiterar o que disse mais cedo hoje. O que estou prestes a te dizer é pessoal. Assenti, incerta do que dizer. Ele inclinou a cabeça para o lado e me analisou; eu não tinha dúvida de que ele me achava limitada de todas as formas. Mesmo assim, ele continuou. — Vou sair da Anderson Inc. Fiquei boquiaberta. Por que ele sairia da empresa? Era um dos garotos de ouro de David — ele não fazia nada errado. David se gabava do talento do sr. Van Ryan e o que ele trazia para a empresa o tempo todo. — Por quê? — Não me tornei sócio. — Talvez da próxima vez... — Parei de falar quando percebi o que aquilo significava. Se ele saísse e eles escolhessem não me realocar, eu não teria mais emprego. Mesmo se eles me realocassem, meu salário seria diminuído. De qualquer forma, eu estava ferrada. Podia sentir o sangue sendo drenado do meu rosto. O sr. Van Ryan ergueu uma mão. — Não haverá uma próxima vez. Tenho uma oportunidade que estou explorando. — Por que está me contando isso? — consegui perguntar.


— Preciso de sua ajuda para essa oportunidade. Engoli. — Minha ajuda? — Fiquei mais confusa do que antes. Ele nunca quis minha ajuda pessoal. Ele se aproximou. — Quero contratar você, srta. Elliott. Minha mente estava acelerada. Tinha certeza de que, se ele seguisse em frente, iria querer uma pessoa nova. Ele nem gostava de mim. Limpei a garganta. — Como sua assistente na sua nova oportunidade? — Não. — Ele parou, como se pensasse em suas palavras, e então falou. — Como minha noiva. Tudo o que eu consegui fazer foi encará-lo, paralisada.


Richard A srta. Elliott ficou olhando para mim, sem se mexer. Devagar, ela saiu do banquinho, me encarando, seu olhar passando rapidamente pelo cômodo. — Você acha que isso é engraçado? — ela chiou, com a voz trêmula. — Não sei que tipo de pegadinha é essa, sr. Van Ryan, mas posso assegurar de que não é divertida. Ela passou por mim, pegou seu casaco e sua bolsa do sofá, girando de volta. — Está filmando isso para que possa assistir depois? Rir de novo? — Uma lágrima escorreu por sua bochecha e ela a limpou, o movimento foi brusco e raivoso. — Não é suficiente me tratar mal durante o dia, agora você quer se divertir depois do trabalho também? Ela seguiu em direção à porta, e eu me recuperei do choque da explosão raivosa dela rápido o suficiente para correr e impedir que ela fosse embora. Inclinei-me sobre ela, fechando a porta. — Srta. Elliott... Katharine... por favor. Asseguro que não é uma piada. Me escute. Ela estava tão perto que eu podia sentir seu corpo tremendo. Eu havia pensado nas reações dela, mas não tinha pensado na raiva. — Por favor — tentei persuadi-la. — Ouça o que tenho a dizer. Os ombros dela caíram para frente e ela assentiu, permitindo que eu a levasse da porta até o sofá. Sentei em frente a ela e indiquei que ela deveria se sentar também. Ela se sentou cautelosa, e precisei de todo meu controle para não gritar com ela e dizer para não parecer um coelho assustado. O que ela achava que eu ia fazer com ela? Suas palavras ecoaram em minha mente. Não é suficiente me tratar mal durante o dia, agora você quer se divertir depois do trabalho também? Eu me mexi um pouco em meu sofá — acho que eu merecia sua cautela. Limpei a garganta. — Como eu disse, estou planejando sair da Anderson Inc. A empresa na qual estou torcendo para trabalhar é amplamente diferente da forma como David administra sua empresa. Eles valorizam os funcionários; para eles, família e integridade são prioridades. Ela uniu as sobrancelhas, mas não disse nada. — Para conseguir colocar meu pé lá dentro, precisei convencê-los de que eu não era a pessoa que eles acham que sou. — Que é...? — Arrogante, egoísta. — Inspirei fundo. — Um tirano no trabalho e um playboy depois do trabalho. Ela inclinou a cabeça; sua voz foi baixa e firme. — Perdoe minha grosseria, sr. Van Ryan, mas você é exatamente assim. — Sei disso. — Levantei-me e andei um pouco. — Também sou bom no que faço e estou cansado de ser pisado por David. — Sentei-me. — Senti algo conversando com Graham... algo que eu não sentia há muito tempo: empolgação ao pensar em uma nova campanha. Inspiração. Ela arfou. — Graham Gavin? Você quer trabalhar no Grupo Gavin. — Sim. — Eles raramente contratam. — Há uma abertura. Eu quero isso. — Ainda não entendi onde eu entro.


— Graham Gavin não vai contratar alguém a não ser que sinta que esse alguém se encaixe na imagem que ele tem: família em primeiro lugar. — Inclinei-me. — Eu tinha de convencê-lo de que não era o playboy do qual ele ouvira falar. Disse a ele que estava saindo da Anderson Inc. porque me apaixonei e queria um estilo de vida diferente. — Por quem? Reclinei contra o sofá. — Você. Os olhos dela se arregalaram a ponto de ficar hilário, sua boca se abriu e fechou, sem emitir nenhum som. Enfim, ela falou. — Po-por que você faria isso? — Foi indicado para mim que você era o tipo certo de pessoa para convencer Graham Gavin que eu mudara. Quando pensei nisso, percebi que essa pessoa tinha razão. Ela balançou a cabeça. — Você nem gosta de mim. — Ela engoliu. — Também não sou extremamente sua fã. Tive de rir pela educação dela. — Podemos trabalhar nisso. — O que está propondo? — Simples. De uma forma ou de outra, sairei da Anderson Inc. Você terá de sair também. Imediatamente, ela começou a balançar a cabeça furiosamente. — Não posso sair, sr. Van Ryan. Então minha resposta é não. Ergui minha mão. — Me escute. Vou pagá-la para fazer isso. Você vai ter de desistir de seu emprego, assim como seu apartamento e vir morar aqui comigo. Vou te pagar um salário mais todas suas despesas por quanto tempo demorar. — Por que eu teria de morar aqui? — Posso ter insinuado a Graham que moramos juntos. — Você fez o quê? — Fez sentido quando ele perguntou. Não planejei isso... aconteceu. Agora, de volta à minha proposta. — O que você espera que eu faça? Bati os dedos no braço da poltrona, pensando. Eu deveria ter pensado mais nisso. — More aqui, apareça a qualquer evento que eu for como minha noiva, apresentar-se como tal todas as vezes. — Dei de ombros. — Não pensei em tudo ainda, srta. Elliott. Temos de pensar nisso. Criar algumas regras; conhecer um ao outro para que possamos realmente fingir que somos um casal. — posicionei-me para frente, descansando os braços em minhas coxas. — E isso tem de ser rápido. É para eu levá-la em um evento este fim de semana. — Este fim de semana? — ela esganiçou. — Sim. Você não precisa morar aqui até lá, mas nós precisamos combinar nossas histórias e, pelo menos, saber o básico. Temos de parecer íntimos... confortáveis um com o outro. — Talvez você devesse começar não me chamando de srta. Elliott. Eu ri de forma seca. — Acho que seria estranho... Katharine. Ela não disse nada, olhando para seu colo, brincando, com os dedos, com um fio solto de sua camiseta.


— Vou renovar seu guarda-roupa e me certificar de que gaste dinheiro. Não vai querer usar qualquer coisa se concordar com esse acordo. Ela ergueu o queixo. Eu nunca tinha notado a pequena fenda teimosa nele até agora. — Quanto vai me pagar? — Vou te dar dez mil dólares por mês. Se o disfarce durar mais do que seis meses, vou dobrar. — Sorri tolamente. — Se nos casarmos, te pagarei um bônus. Quando pudermos nos divorciar, vou fazer um bom acordo e cuidar de todos os detalhes. Você estará feita na vida. — Casar? — Não faço ideia de quanto tempo vai levar para convencer Graham para que meu disfarce não falhe. Poderiam ser dois ou três meses. Não imagino que passe de seis meses. Se eu achar que é necessário, vou me casar com você no civil e nós terminaremos quando pudermos. Ela juntou as mãos, seu rosto agora estava branco como um fantasma. A indecisão e o choque estavam por todo seu rosto. — As chances são — falei em voz baixa — que, mesmo se eu não entrar no Grupo Gavin, quando sair da Anderson Inc., David vai te demitir de qualquer jeito. Se eu conseguir o emprego lá, vai fazê-lo com certeza. Estará convencido de que você sabia dos meus planos de alguma forma. Sei como a mente dele funciona. — Por que não pode escolher outra pessoa? — Não conheço mais ninguém. O tipo de mulher com quem geralmente saio não... Não se encaixaria. — E eu me encaixo? Por quê? — Quer que eu seja sincero? — Sim. — Você é prática, sensível... pura. Tenho de admitir que você tem um carisma que encanta as pessoas. Eu não consigo ver, mas é óbvio que há. O fato de ser minha assistente é o disfarce perfeito para eu sair. Eu nunca poderia sair com você e ficar na Anderson Inc. Não que eu faria sob circunstâncias normais. A mágoa passou por sua expressão e eu dei de ombros. — Você pediu para eu ser sincero. Ela não respondeu ao meu comentário, exceto o que disse depois. — Não tenho certeza de como você espera conseguir fingir se me detesta tanto. — Katharine, você acha que gosto da maioria das pessoas com quem trabalho... ou dos clientes com quem lido? Não gosto. Não suporto a maioria deles. Sorrio e brinco, aperto a mão e ajo como se estivesse interessado. Vou tratar nosso relacionamento da mesma forma. São negócios. Posso fazer isso. — Parei e ergui o queixo. — Você pode? Ela não respondeu, e eu continuei. — Tudo isso está nas suas mãos. Coloquei bastante confiança em você neste momento. Você poderia correr para o David amanhã, ou até Graham, e estragar essa ideia para mim... mas espero que não o faça. Pense no dinheiro e no que poderia fazer por você. Alguns meses de seu tempo, pelo que eu vou te pagar, é mais do que você ganha por ano. Na verdade, eu te garanto sessenta mil. Seis meses. Mesmo se nos separarmos depois de três. Deve ser duas vezes o que ganha no ano. — E tudo o que eu tenho de fazer é... — ... é agir como se me amasse. Ela me olhou de um jeito que dizia tudo que ela não falava. — Terá isso por escrito?


— Sim. Nós dois vamos assinar um acordo de confidencialidade. Vou te pagar vinte mil adiantado. Vai ter o resto no fim de cada mês. Além disso, vou abrir uma conta para você usar para as despesas. Roupas, qualquer incidente; esse tipo de coisa. Espero que se vista e aja como o papel manda. Ela me analisou por um instante. — Preciso pensar sobre isso. — Não pode pensar muito. Se concordar, precisará de roupas para sábado, e nós precisamos ficar um tempo juntos nos conhecendo. — E se eu não concordar? — Vou dizer a Graham que você está doente e não pôde ir. Então torcer para que ele me dê uma chance de provar a mim mesmo e me contratar mesmo assim. — E se ele não contratar? — Vou sair de Victoria, mas não quero. Quero ficar aqui, e estou pedindo que me ajude. Ela se levantou. — Tenho de ir. Levantei-me, olhando para baixo, porque ela mal chegava no meu peito. — Preciso de sua resposta logo. — Eu sei. — Onde você estacionou? Ela piscou para mim. — Não tenho carro, sr. Van Ryan. Vim andando. — É muito tarde para você ir embora sozinha. Vou pedir a Henry que chame um táxi. — Não posso pagar um táxi. — Vou pagar — bufei. — Não quero que fique andando por aí. Consegue dirigir? Sabe como? — Sim, só não posso pagar meu próprio carro. — Vou te dar um. Se concordar com esse acordo, comprarei um carro para você. Pode ficar com ele. Pense como um bônus de contratação. Ela mordeu o lábio, balançando a cabeça. — Não sei o que pensar sobre tudo isso. — Pense nisso como uma oportunidade. Lucrativa. — Sorri. — Um acordo com o diabo, se quiser. Ela só arqueou a sobrancelha. — Boa noite, sr. Van Ryan. — Richard. — O quê? — Se não posso te chamar de srta. Elliott, você não pode me chamar de sr. Van Ryan também. Meu nome é Richard. Vai ter de se acostumar a dizê-lo. — Talvez eu te chame de algo totalmente diferente. Eu podia imaginar do que ela me chamava na sua cabeça. Conseguia pensar em muitos nomes que seriam apropriados. — Conversaremos pela manhã. Balançando a cabeça, ela saiu. Liguei para Henry e disse para ele chamar um táxi e colocar na minha conta. Peguei um copo de uísque e me sentei no sofá, frustrado. Mais cedo, enquanto eu falava, tomei a


decisão impulsiva de chamar a srta. Elliott de noiva, em vez de uma mera namorada. Fez minha decisão de sair da Anderson Inc. se tornar muito mais sólida. Mostrava que eu estava falando sério e que estava preparado para compromisso de verdade — algo que senti que era valioso para Graham. Para mim não importava o que seria — namorada ou noiva —, porém, para alguém como Graham, importava. Namorada significava temporário, substituível. Noiva sugeria permanência e confiança. Eu tinha certeza de que ele reagiria positivamente a esse título. Mexi em meu topete com ansiedade e engoli o uísque em um gole. Esperava obter uma resposta dela naquele momento; no entanto, era óbvio que eu não ia ter. Então agora, a srta. Elliott, a mulher da qual eu não gostava e que, pelo jeito, sentia-se da mesma forma em relação a mim, tinha meu futuro nas mãos. Era um sentimento estranho. Eu não gostava disso. Enfiei-me no acolchoado do sofá conforme coloquei a cabeça para trás, minha mente estava enevoada. Assustei com meu telefone apitando, e percebi que havia cochilado. Peguei o telefone e li as duas palavras na tela. Eu aceito. Com um sorriso tolo, joguei meu telefone na mesa. Meu plano estava a todo vapor.


8 Richard

Na manhã seguinte, ambos agimos como se não houvesse nada de diferente. A srta. Elliott me trouxe café e bagel, colocando-os cuidadosamente na mesa. Apresentou minha agenda, confirmando duas reuniões que eu tinha fora do escritório. — Não voltarei esta tarde. Ela pareceu confusa, verificando seu caderno. — Você não tem nada marcado em sua agenda. — Eu mesmo marquei o compromisso. Questão pessoal. Vou direto para meu compromisso das duas depois dele. Na verdade, não voltarei esta tarde. Tire a tarde de folga. — O que disse? Suspirei. — Srta. Elliott, não entende inglês? Tire a tarde de folga. — Mas... Encarei-a. — Tire a tarde de folga. — Baixei a voz. — Na minha casa às sete, ok? — Ok — ela expirou. — Se precisar de alguma coisa, relacionada ao trabalho, me mande mensagem. Do contrário, pode esperar. Ela assentiu. — Entendi. Todos sabiam que os e-mails da Anderson Inc. eram monitorados. Para não arriscar, eu tinha meu próprio celular, e só um seleto grupo de pessoas tinha o número. Eu sabia que não havia motivo para perguntar à srta. Elliott se ela tinha um, já que o dinheiro parecia limitado. Planejava corrigir isso hoje, junto com minhas outras incumbências. Não queria arriscar que David monitorasse mensagens e ligações também. — Pode ir — dispensei-a. Ela hesitou antes de retirar um envelope de seu bloco de anotações grosso e colocá-lo na mesa. Ela saiu sem dizer nada, fechando a porta. Dei uma mordida em meu bagel, então peguei o envelope e o abri, tirando os papéis dobrados. Era uma lista sobre ela. Coisas que ela pensou que eu deveria saber: datas pertinentes, suas cores favoritas, música, comida, gostos e desgostos em geral. Era uma boa ideia. Economizaria o tempo de conversa monótona daquela noite. Eu escreveria uma para ela depois. Dobrei de novo a lista e a coloquei no bolso de meu paletó. Eu ficaria sentado em salas de espera o dia todo — teria algo com que me ocupar.


A srta. Elliott era pontual e chegou às sete horas. Abri minha porta, deixando-a entrar, peguei seu casaco e o pendurei — esse tempo todo em silêncio. Havia uma rigidez, uma formalidade, em nossas interações, que eu sabia que tinha de mudar. O problema era que eu não sabia como fazer isso. Eu a levei ao balcão da cozinha e lhe dei uma taça de vinho. — Pedi comida chinesa. — Não precisava. — Acredite, você não quer que eu cozinhe. Não sobreviveria. — Dei risada. — Não tenho certeza se a cozinha sobreviveria. — Eu gosto de cozinhar — ela ofereceu, com um sorriso discreto curvando seus lábios. Era uma boa forma de começar. Sentei-me, colocando uma pasta diante de mim. — Mandei fazer um contrato esta tarde. Você deveria ler. — Ok. — Fiz uma lista como a sua. Pode dar uma olhada e precisamos conversar sobre o que há nela. Certificarmos de que ambos estamos confortáveis com os fatos. Ela assentiu e pegou o envelope com a oferta. Empurrei outro menor em sua direção. — Seu primeiro pagamento. Ela esperou, sem tocar o envelope que parecia inocente. — Pegue. Está tudo documentado. Mesmo assim, ela não o tocou. — Srta. Elliott, se não pegá-lo, não poderemos continuar. Ela olhou para mim, franzindo o cenho. Cutuquei o envelope. — É um emprego, Katharine. Esse é seu pagamento. Simples. Pegue. Finalmente, ela o pegou, sem nem olhar para ele. — Quero que peça demissão amanhã. Com efeito imediato. — Por quê? — Se isso der certo, e acho que dará, quero informar a todos rapidamente. Quero você fora de lá antes da merda bater no ventilador. Ela mordeu a parte interna de sua bochecha, nervosa e em silêncio. — O quê? — soltei, ficando impaciente com seu comportamento. — E se não der certo? Você vai... você vai me dar uma carta de referência? Terei de conseguir outro emprego. — Já cuidei disso. Conversei com alguns contatos, só por cima e, se não der certo e eu sair de Victoria, tenho duas empresas que sei que lhe oferecerão uma vaga. Não precisa se preocupar em procurar, se não quiser. Respondendo à sua pergunta, no entanto, vou te dar uma carta brilhante de recomendação. — Mesmo eu sendo uma assistente nojenta? — Nunca disse que você era uma assistente nojenta. Na verdade, você é boa no que faz. — Você poderia ter me enganado. Uma batida na porta me salvou de responder. Levantei-me.


— O jantar chegou. Leia o contrato, está muito simples. Poderemos discuti-lo junto com as outras coisas depois de comermos. Quando ela abriu a boca para protestar, bati a mão no balcão. — Pare de discutir comigo, Katharine. Vamos jantar e você vai comer. Depois conversaremos. — eu me virei e segui para a porta, irritado. Por que ela era tão contra aceitar uma simples refeição? Ela teria de se acostumar a aceitar muitas coisas para isso funcionar. Coloquei a mão no bolso, encontrando a caixinha que eu havia escondido. Se ela estava incerta em jantar, iria odiar o que eu tinha guardado para depois. O jantar foi silencioso. Ela leu o contrato e fez algumas perguntas, às quais eu respondi. Ela vacilou quando lhe entreguei uma caneta, mas assinou os documentos, observando enquanto eu fazia o mesmo. — Tenho duas cópias. Uma para cada um. Vou guardá-las no cofre do apartamento, do qual lhe darei a senha. — Seu advogado tem uma cópia? — Não. Este acordo é entre nós dois. O advogado sabe sobre ele, mas está limitado por confidencialidade de cliente. Nós temos as duas únicas cópias. Quando isso acabar, poderemos destruílas. Mandei fazê-las para seu benefício. — Tudo bem. Eu lhe entreguei uma caixa. — Este é seu novo celular. Você terá de devolver o seu quando se demitir, então agora já tem um. Gravei meu número pessoal nele caso você precise falar comigo. Pode mandar mensagem o quanto quiser. Ela mordeu o lábio, aceitando a caixa. — Obrigada. — Quanta coisa você tem para se mudar? — Não muito. — E a multa do seu aluguel? — É mês a mês. Acho que vou perder o último. Acenei. — Vou cobri-lo. Devo contratar uma empresa de mudança para você? Ela balançou a cabeça olhando para baixo. — São só algumas caixas. Franzi o cenho. — Não tem móveis? — Não. Alguns livros, artigos pessoais e minhas roupas. Falei sem pensar: — Você pode doar suas roupas já que presumo que a maioria delas foram doadas a você também. Vou renovar seu guarda-roupa. Suas faces ficaram rosadas, seus olhos brilhavam, escuros e com raiva, mas ela não disse nada. — Vou pegar suas caixas e trazê-las para cá quando seguirmos em frente. Entreguei a ela outro envelope.


— Esta é sua nova conta bancária e seu cartão de débito. Vou me certificar de ter crédito nela sempre. Ela aceitou o envelope com a mão trêmula. — Preciso de você aqui o máximo que der para nos acostumarmos um com o outro e conversarmos. Amanhã podemos falar sobre as listas e fazer perguntas, completar os espaços. — Ok. — Sábado de manhã, quero você aqui cedo. Marquei um compromisso para você se preparar para o churrasco. Fazer seu cabelo e maquiagem. Na verdade, você pode querer dormir aqui na sexta à noite, para não precisar ir e voltar. Seu olhar voou para o meu. — Dormir aqui? — ela repetiu, um leve tremor na voz. Eu me levantei. — Deixe eu mostrar o lugar para você. Ela não disse uma palavra durante o tour. Mostrei a ela os quartos de hóspedes, o escritório e a academia privativa do outro lado do prédio no andar principal. No andar de cima, ela ficou decididamente nervosa quando lhe mostrei a suíte master. Indiquei o quarto de hóspedes do outro lado do corredor. — Aquele tem uma suíte. Presumo que gostará daquele quarto. Seus ombros pareceram cair. — Você não, ahn... — Eu não o quê? — Você não espera que eu durma no seu quarto — ela afirmou, soando aliviada. Sorri para sua dúvida. — Srta. Elliott, este é um acordo profissional. Fora destas paredes, vamos parecer um casal. Vamos dar as mãos, ficar perto, fazer tudo o que outros casais fazem quando estão apaixonados. — Balancei a mão no ar. — Aqui, somos verdadeiros. Você tem seu espaço; eu tenho o meu. Não vou incomodá-la. Não espero nada de você. — Não consegui evitar a risada seca que saiu. — Você não pensou mesmo que eu iria querer dormir com você, pensou? Ela ergueu a cabeça de repente e me encarou. — Não mais do que eu iria querer dormir com você, sr. Van Ryan. — Virando-se, ela marchou pelo corredor, seus passos fazendo barulho no chão de madeira. Eu a segui, ainda sorrindo. Quando ela chegou à sala, virou-se com os olhos brilhando. — Você me pediu para fazer isso, sr. Van Ryan. Não o contrário. — Você concordou. Ela cruzou os braços, enquanto seu corpo emanava raiva. — Vou fazer isso, porque, no momento, não tenho outra opção. Suas decisões afetam diretamente minha vida e estou tentando me sustentar. Detesto mentir e não sou uma boa atriz. — O que está dizendo? — Se não vai nem tentar ser educado, ou pelo menos um ser humano decente, isso não vai dar certo. Não consigo desligar meus sentimentos tão rápido. Coloquei minha franja teimosa para trás, contrariado.


— O que quer de mim, srta. Elliott? — Poderíamos pelo menos tentar nos dar bem? Com certeza podemos encontrar algo que temos em comum e conversar sem seus insultos irônicos e sua atitude arrogante. Um sorriso se formou em meus lábios. Eu estava tendo outra visão da personalidade da srta. Elliott. Inclinei minha cabeça. — Peço perdão. Tentarei mais. Há mais alguma coisa que você queira já que estamos colocando tudo na mesa? Ela hesitou, retorcendo os dedos na camiseta feia que vestia. — Fale logo. — Você não pode sair por aí enquanto estivermos... enquanto estivermos juntos. — Sair por aí? Ela olhava para todo lado menos para mim. — Não pode dormir com outra mulher. Não serei humilhada a esse ponto. — Então está dizendo que não posso foder ninguém? Suas bochechas ficaram tão vermelhas que pensei que sua cabeça fosse explodir; no entanto, ela endireitou os ombros e olhou diretamente para mim. — Isso. Aquilo estava muito divertido para mim. — Sim, posso foder por aí? — Não! — Porra nenhuma — enfatizei a primeira palavra. — Não. — Você quer que eu permaneça em celibato o tempo todo? — perguntei, agora desacreditado. — Eu ficarei, então espero a mesma coisa de você. Bufei. — Duvido que isso seja novidade para você. Ela jogou as mãos no ar. — Chega. Você quer foder alguém? Vá se foder, Van Ryan. Fiquei boquiaberto com a imagem de ela se retirando enquanto pegava seu casaco e seguia em direção à porta. Como o idiota que eu era, corri atrás dela — pela segunda vez. — Katharine! — Consegui alcançá-la antes de poder abrir a porta. — Sinto muito. Meu comentário foi desnecessário. Ela se virou, com os olhos brilhantes de lágrimas. — Foi, sim. Assim como muitas das coisas que diz. — Sinto muito — repeti. — É quase instintivo com você. — Isso não torna nada melhor. — Eu sei — cedi, depois mudei de tática. — Não vou. — Não vai o quê? — Não vou foder ninguém. Vou fazer como deseja. — Empurrei mais forte a porta, porque, se ela fosse embora, eu estaria realmente fodido. — Tentarei não ser tão babaca também.


— Não sei se consegue mudar seu DNA, mas boa sorte ao tentar — ela murmurou. Relaxei — crise resolvida. — Vou te levar para casa. Ela começou a balançar a cabeça, mas lhe lancei um olhar firme. — Katharine, concordamos que eu seria menos babaca. Vou te levar para casa. Amanhã será uma porra de dia longo. — Certo. Peguei meu casaco e abri a porta para ela, sabendo que minha vida estava prestes a mudar de forma que nunca planejei. Só esperava que valesse a pena.


9 Richard

Além das instruções de Katharine, o caminho todo foi silencioso. Quanto mais nos afastávamos de meu bairro, mais mudava meu humor. Quando paramos em frente a uma casa em mau estado, me virei para Katharine. — Essa é sua casa? Ela balançou a cabeça. — Não. Alugo um espaço na casa. Deixei o carro no ponto morto, arrancando meu cinto. — Mostre para mim. Eu a segui pelo caminho irregular, verificando se tinha armado o alarme. Torcia para os pneus estarem no carro quando eu voltasse. Na verdade, torcia para que o carro estivesse lá. Não tentei esconder meu desgosto ao olhar em volta para o que eu presumia o que fosse considerado uma quitinete. Eu considerava um lixo. Um colchão, uma cadeira velha, uma escrivaninha que também servia de mesa eram as únicas peças de mobília no cômodo. Um balcão baixo com um forno elétrico e uma geladeira pequena compunham a cozinha. Havia meia dúzia de caixas empilhadas perto da parede. Um cabide pendurava as roupas amarrotadas e blusas que Katharine usava. Fui até a única porta no cômodo e a abri. Um banheiro minúsculo com um chuveiro tão pequeno que eu sabia que nunca conseguiria usá-lo. Fechei a porta e me virei para Katharine. Ela me observava com olhos nervosos. Nada disso fazia sentido para mim. Fiquei na frente dela, superando sua estatura baixa. — Você tem algum problema do qual eu deveria saber? — Como disse? — Tem problema com drogas? Ou outro vício? — O quê? — Ela arfou, colocou a mão no peito. Joguei meu braço para cima. — Por que está morando desse jeito, como um rato pobre de igreja? Eu sei quanto você ganha. Pode bancar um lugar decente. Em que está gastando dinheiro? Ela estreitou os olhos e me encarou. — Eu não tenho problemas com drogas. Tenho outras prioridades para meu dinheiro. Não importa onde durmo. Encarei-a de volta. — Importa para mim. Você não vai mais ficar aqui. Arrume suas coisas. Agora. Ela colocou as mãos na cintura. — Não. Dei um passo à frente. O espaço era tão pequeno que, quando ela recuou, bateu as costas na parede. Fiquei acima dela de forma ameaçadora e analisei seu rosto. Seus olhos, apesar de bravos, estavam


claros. Travando seu olhar, peguei seu punho, puxando sua manga para cima. Ela quase rosnou ao puxar o braço de volta, segurando-o no ar, fazendo a mesma coisa com o outro. — Sem sinal de agulhas, Richard — ela cuspiu. — Não uso drogas. Não fumo, não cheiro nem as injeto em meu organismo. Satisfeito? Ou quer procurar mais? Devo mijar em um potinho para você? — Não. Acho que tenho de confiar em você. Se eu descobrir que está mentindo, todo esse acordo será desfeito. — Não estou mentindo. Recuei. — Tudo bem. Isso não está em discussão: você sairá daqui hoje à noite. Não vou arriscar que Graham a encontre morando em um lugar como este buraco. — E se não lhe for oferecido o emprego? O que faço depois? Duvido que vai me deixar ficar com você. Dei uma gargalhada. Ela tinha razão. — Com o que estou te pagando, você poderá bancar alguma coisa decente. — Olhei em volta de novo. — Você não vai levar esses móveis. — Não são meus. — Graças a Deus. — Você é metido, sabia disso? São velhos, mas ainda úteis e limpos. Eu tinha de admitir que o lugar era cuidado e limpo — mas ainda era horroroso. Ignorei o sarcasmo dela. — Essas caixas vão? — É mesmo necessário fazer isso agora? — Sim. — Sim. — Ela suspirou. — As caixas vão. — Certo. Vou colocá-las no banco de trás. Seu, ahn, guarda-roupa pode ir no porta-malas. O que mais você tem? — Algumas coisas pessoais. Coloquei um cesto de roupa suja na sua frente. — Coloque-os aqui. Jogue fora toda comida que tiver. Um olhar estranho passou por sua expressão. — Não tenho nada... a não ser alguns muffins. Bufei. — Comer é um problema também? Por isso que você é tão magra. Ela jogou a cabeça para trás. — Você ao menos vai tentar ser educado? Ou vai poupar o esforço para quando estivermos em público? Levantei a primeira pilha de caixas. — Acho que vai descobrir. Agora, pegue suas coisas. Você não vai voltar aqui. Abri a porta do quarto de hóspedes, entrando e acendendo a luz depois de colocar algumas caixas que havia trazido do outro lado da cidade. Juntos, depois de algumas viagens, levamos tudo para o quarto


dela. Dei um passo para trás e visualizei a situação. Não era muito. Eu estava tentado em querer saber por que ela tinha tão pouco, depois decidi que não valia a pena a discussão. Podia dizer pela tensão em seus ombros e na forma como seus lábios estavam apertados, que eu a tinha pressionado o suficiente pela noite. — Katharine, confie em mim. Será melhor assim. Agora, quando eles te perguntarem, você pode dizer com sinceridade que moramos juntos. — E se seu plano falhar, minha vida estará despedaçada. — Se meu plano falhar, sua vida estaria despedaçada de qualquer forma. David nunca confiaria em você para deixá-la trabalhando lá; ele a despediria e você não teria nada. Deste jeito, você terá algum dinheiro no banco, vou me certificar de que arranje um emprego e pode morar em um lugar melhor. De uma forma ou de outra, precisa ser bem melhor do que onde você morava. Ela me encarou. — Nesse meio-tempo, você ficará em um lugar seguro e muito mais confortável. Quando seguirmos em frente, você pode decorar o quarto de acordo com seu gosto. Você tem acesso a todo o apartamento. Além da minha sala de musculação, há uma piscina grande e uma área de spa lá embaixo, e te garanto que seu banheiro é luxuoso. — Há uma banheira? — ela perguntou, um traço de desejo em sua voz. Senti-me estranhamente bem ao poder responder que sim, e abri a porta com um floreio, mostrando sua banheira enorme. Pela primeira vez, vi um sorriso de verdade no rosto dela. Deixava sua expressão mais tranquila, iluminando seus olhos. Eles tinham uma cor de azul incrível. — É sua, Katharine. Use-a quando quiser. — Vou usar. Fui até a porta dela. — Ajeite-se e durma um pouco. Amanhã o dia será longo e difícil, e precisamos nos preparar para o fim de semana. — Hesitei, mas sabia que precisava começar a tentar. — Boa noite, Katharine. — Boa noite, Richard.


Katharine Eu não conseguia dormir. Não importava o quanto eu tentasse, não conseguia cair no sono. Eu estava exausta mental e fisicamente, mas não conseguia relaxar. Os eventos estranhos dos últimos dias se agitavam em uma constante em minha mente. A oferta inesperada de Richard, minha resposta mais inesperada ainda, e a reação dele em relação ao local onde eu estava morando. Ele ficou mais do que enojado e furioso, com seu comportamento autoritário comum com força total. Antes de eu poder piscar, minhas poucas coisas estavam no porta-malas de seu carro grande e luxuoso, e eu estava de volta em sua casa — de forma permanente ou até acabar o plano vazio dele. O plano vazio no qual agora eu estava totalmente envolvida tanto quanto meu chefe. O condomínio era silencioso. Não havia literalmente nenhum barulho. Eu estava acostumada com os sons que me rodeavam à noite; tráfego, outros inquilinos andando para lá e para cá, gritando, e o som constante de sirenes e violência do lado de fora da minha janela. Eram esses ruídos que me mantinham acordada, algumas vezes com medo, e mesmo agora que não tinha nada, eu não conseguia dormir. Sabia que estava segura. Aquele lugar era cem, não, mil vezes mais seguro do que o quarto horrível em que morei no último ano. Eu deveria conseguir relaxar e adormecer tranquilamente. A cama era enorme — alta e macia —, os lençóis de seda eram macios e chiques, e o edredom parecia uma pluma quente flutuando sobre meu corpo. No entanto, o silêncio era muito alto. Saí da cama e fui até a porta. Eu a abri, estremecendo pelo barulho baixo que as dobradiças faziam ao protestar seu uso. Estiquei minhas orelhas, mas não consegui ouvir nada. Estávamos muito alto para ouvir o tráfego, e as paredes eram bem isoladas, então não havia nenhum barulho dos vizinhos no prédio. Andei na ponta dos pés pelo corredor, parando na frente da porta do que eu sabia que era o quarto de Richard. Estava entreaberta e, corajosamente, abria-a um pouco mais e enfiei a cabeça na abertura. Ele estava dormindo no meio da cama gigantesca — maior que a do meu quarto — sem camisa, com sua mão descansando no peito. Obviamente, os acontecimentos dos últimos dois dias não o estavam incomodando. Seu cabelo brilhante refletia contra a cor escura dos lençóis e, para minha surpresa, ele roncava. O som era sutil, mas constante. Relaxado, e sem o olhar de escárnio no rosto, ele parecia mais jovem e menos tirano. Na luz silenciosa da lua, ele parecia quase tranquilo. Não era uma palavra que eu associaria a ele, e ele não pareceria assim se acordasse e me visse em sua porta. No entanto, eu precisava ouvir o som de sua respiração regular e seu ronco ressoante. Para saber que não estava sozinha naquele lugar amplo e desconhecido. Ouvi por alguns minutos, deixei a porta dele aberta e voltei para meu quarto, deixando a porta entreaberta também. Deitei de volta na cama e me concentrei. Estava baixo, mas eu conseguia ouvi-lo. Suas bufadas esquisitas me ofereciam um pouco de conforto — um cordão salva-vidas do qual eu precisava desesperadamente. Suspirei percebendo que, se ele soubesse que estava me confortando, provavelmente ficaria acordado a noite toda para me negar a segurança que me trazia. Enterrei meu rosto no travesseiro e, pela primeira vez em meses, chorei. Ele estava quieto pela manhã quando entrei na cozinha. Bebia de uma caneca grande e indicava que eu podia ficar à vontade com a máquina de café no balcão. Em um silêncio bizarro, fiz um café, sem saber o que dizer. — Não esperava companhia. Não tenho creme. — Tudo bem.


Ele empurrou uma folha de papel para mim. — Escrevi sua carta de demissão. Franzi o cenho ao pegar o papel e ler. Era simples e direto. — Você não achou que eu mesma poderia escrevê-la? — Eu queria me certificar de que fosse sucinta. Não queria que detalhasse seus motivos para sair. Balancei minha cabeça. — Não entendi. — O quê? O que você não entendeu agora? — Ele passou uma mão na nuca. — Se não confia em mim o bastante para escrever uma simples carta de demissão, como espera confiar em mim o suficiente para agir como se fôssemos — a palavra ficou presa em minha garganta — amantes? — Uma coisa eu sei sobre você, Katharine, e é que você trabalha duro. Fará um bom trabalho porque é o que faz. Você agrada. Vai agir exatamente da forma que preciso porque quer ganhar o dinheiro que estou pagando. Ele pegou sua pasta. — Vou para o escritório. Há uma chave extra e um cartão para entrar no prédio na mesa do corredor. Seu nome já está na lista de moradores e o porteiro não vai aborrecê-la. Você deveria se apresentar a eles, só para ter certeza. — Como... como você já fez isso? Não são nem oito horas. — Eu estou no jogo, e consigo o que quero. De acordo com os arquivos, você está vivendo aqui há três meses. Quero sua carta de demissão em minhas mãos logo depois do almoço, e você irá embora. Pedi que algumas caixas de arquivo fossem entregues no escritório. Não tenho muita coisa, mas você pode me ajudar a embalar minhas coisas pessoais hoje de manhã. Coloque qualquer coisa sua nas caixas. Vou trazer tudo para cá. — Não tenho muita coisa no escritório. — Certo. — Por que vai encaixotar? Ainda não foi demitido. Ele deu um sorriso. Aquele que não tinha nenhum carinho. Aquele que fazia a outra pessoa ficar extremamente desconfortável. — Decidi me demitir. Vai irritar David e mostrar a Graham como estou levando a sério. Aceitarei sua demissão e entregarei as duas cartas para David às três. É uma pena que não estará para ver o show, mas vou te contar todos os detalhes sórdidos quando chegar em casa. Fiquei boquiaberta. Não consegui acompanhar. — Você gosta de comida italiana? — Sua pergunta estava fora de contexto, como se ele não tivesse acabado de soltar uma bomba. — Hum, sim. — Ótimo. Vou pedir o jantar para as seis, e podemos passar a noite conversando. Amanhã de manhã, você vai às lojas para comprar uma roupa adequada para o churrasco, e eu marquei um horário para fazer seu cabelo e maquiagem. Quero que entre no personagem. Ele se virou. — Vejo você no escritório. — Depois riu, e o som me fez arrepiar. — Docinho. Sentei-me quando a porta fechou, sentindo-me tonta.


Com o que eu tinha concordado?


10 Katharine

Amanhã foi tensa para mim — até Richard sentiu. Ele tinha poucos itens pessoais no escritório, mas o ajudei a encaixotar alguns prêmios, livros e algumas camisas que ele guardava lá para emergências. Balancei a cabeça enquanto dobrava uma, passando o dedo pela manga. Todas as camisas deles eram encomendadas, e suas iniciais RVR bordadas abotoaduras; um toque decadente que só ele podia fazer. Seus itens couberam em duas caixas de arquivo. Seu escritório era impessoal como seu apartamento. Olhando em volta, percebi que não parecia nada diferente. Ninguém iria reparar, a não ser que alguém procurasse. Uma pequena peça esculpida chamou minha atenção e me estiquei para pegá-la da prateleira. — Você queria levar isso, Richard? Ele focou seu olhar na escultura, mas, antes que conseguisse responder, a porta do seu escritório se abriu e David entrou. Ele ficou paralisado, olhando para nós. Richard estava encostado em sua escrivaninha, com a carta de demissão na mão, eu em pé, segurando a escultura ao lado da caixa aberta. A expressão de David ficou nebulosa. — Que merda está acontecendo aqui? Richard se desencostou de sua mesa, passeando até onde eu estava. Pegou a escultura de minha mão e sorriu ao jogá-la na caixa e tampá-la. — Acho que acabamos aqui, Katharine. Vá para sua mesa e espere por mim. Congelei no lugar. A sensação dos dedos dele descerem por minha bochecha tirou-me de meu estupor. — Docinho — ele murmurou. Sua voz era um murmúrio baixo em meus ouvidos. — Vá. Pisquei para ele. Docinho? O que ele estava fazendo? Ele se inclinou se aproximando mais, e sua respiração aqueceu minha pele. — Ficarei bem, vá para sua mesa. Sairemos em um minuto. — Sua mão envolveu minha cintura e me empurrou para frente. Completamente perdida, fiz o que ele pediu. Não tinha andado mais que dois metros e David começou a gritar. Ele xingou, gritou e se esticou para pegar meu braço. Richard o empurrou para longe, ficando entre nós. — Não a toque, David. Você me entendeu? — Que porra! Você está fodendo sua assistente, Richard? Está me dizendo que está tendo um caso com sua assistente? Prendi minha respiração, sem saber o que aconteceria em seguida. — Não é um caso, David. Estamos apaixonados. David riu — uma risada seca e irritada que não tinha humor.


— Apaixonado? — ele zombou. — Você não a suporta. Está tentando se livrar dela há meses! — Um bom disfarce. Que você caiu: fisgado, pescado e morto. A voz de David estava gelada. — Você acabou de assinar seu atestado de morte nesta empresa. Richard sorriu. — Tarde demais. — Ele empurrou duas páginas de papéis com o selo da empresa na direção de David. — Eu me demito. Assim como minha noiva. David abriu a boca. — Sua noiva? Vai jogar sua carreira fora por uma bunda desprezível? Uma foda nojenta e sem valor? Aconteceu muito rápido, não tive tempo de impedir. Em um segundo, David estava gritando, no outro, Richard estava em cima de David de bruços, com a mão flexionada tão apertada que seus nós estavam brancos. Ele se erguia sobre David com o peito arfante; ele era a imagem exata de um homem protegendo alguma coisa, ou alguém que ele amava. — Nunca fale dela assim de novo. Nunca fale dela, ponto final. Estamos saindo daqui hoje. Estou farto de você me foder, ditar por quem me apaixono e em que lugar. Estou cansado de você e da Anderson Inc. — Vai se arrepender disso, Richard. — David cuspiu, limpando o sangue do rosto. — A única coisa de que me arrependo é ter perdido tanto tempo dando as campanhas mais fodonas que esta empresa já produziu. Boa sorte com seu recorde de sucesso quando eu não estiver aqui. — Ele deu um passo para trás. — Docinho, pegue suas coisas. Vamos embora. Agora. Corri até minha mesa, pegando minha bolsa e meu casaco. As poucas coisas que tinham na minha mesa mais cedo já estavam nas caixas de Richard. Certifiquei-me de que não houvesse nada pessoal no meu computador e que meu lugar estivesse arrumado. Eu sabia que Richard havia limpado a memória de seu computador, rindo quando ele fez alguma coisa, murmurando: “Boa sorte, otários”, depois desligou a máquina. Eu poderia só imaginar o que o departamento de TI iria descobrir. Ele saiu do escritório, ignorando David, que estava gritando obscenidades, ameaçando processá-lo e dizendo que ele estava arruinado. Ele indicou a saída com a cabeça, e eu me apressei para abrir a porta, seguindo-o pelo corredor, e David nos seguia, ainda xingando e emitindo insultos. Outros funcionários e executivos ficaram olhando agitados. Mantive meus olhos nas costas de Richard, certa de que ele estava se exibindo. Ele mantinha a cabeça erguida, ombros para trás, nada envergonhado pela cena que causara. Quando ele chegou ao elevador, apertou o botão e se virou para a pequena multidão que estava assistindo, sem saber o que estava acontecendo, mas adorando aquele drama todo. — Foi um prazer, mas estou saindo daqui. Boa sorte ao trabalhar com o sanguessuga que todos conhecemos como David. — As portas se abriram e ele colocou as caixas no chão do elevador, então balançou o braço em um arco amplo. — Depois de você, senhorita. Entrei e meu rosto ficou ruborizado de vergonha. Conforme o elevador começou a fechar, ele colocou o braço para fora, forçando para reabri-lo. — E, por sinal, para que possam parar de fofocar e imaginar tudo, sim, Katharine e eu estamos juntos. Ela é a melhor coisa que esta empresa fez por mim. Com essas palavras, ele me pegou, me arrastou até ele e beijou conforme as portas se fecharam, deixando todos boquiabertos e chocados. Imediatamente, Richard se afastou de mim. Cambaleei para trás, respirando rápido. O beijo dele foi duro, deliberado e com uma pontada de raiva.


— Por que fez isso? Abaixando-se, ele pegou as caixas e deu de ombros. — É melhor sair com vigor. — Ele riu. — Do jeito que as fofocas correm nesta área, estará em todo lugar hoje à noite. — Ele começou a rir, jogando a cabeça para trás. — Aquele otário me fez um grande favor e não faz nem ideia. As portas se abriram e eu o segui para seu carro. Esperei até me sentar ao seu lado antes de perguntar. — Favor? Você... você planejou tudo isso? Ele sorriu, parecendo até um moleque. — Não. Planejei fazer tudo diferente, mas, quando ele invadiu minha sala, tomei outra direção. — Ele piscou ao colocar os óculos de sol. — Faço isso bem, Katharine. O cliente quer mudar, então você aprende a fazê-lo rapidamente. David soube o que estava acontecendo assim que viu as caixas. Decidi que fazer aquela cena seria bom. — Bom para quem? Foi vergonhoso. — Foi publicidade. O nome do jogo. Em uma jogada, não só toda a empresa vê a extinção da minha relação com David, mas também descobrem sobre nós. Quando chegarmos na casa de Graham amanhã, ele terá ouvido sobre isso. Saberá que soquei David por falar merda sobre a mulher que amo. É perfeito. Não poderia ter planejado melhor. Balancei a cabeça, espantada. Nunca consideraria o que acabou de acontecer como “perfeito”. — Relaxe, Katharine. — Ele bufou enquanto ziguezagueava de forma habilidosa pelo tráfego. — Acabou para você. Não precisa voltar lá. Vou ligar para meu advogado e mandar que ele dê a primeira tacada para acertar David nos joelhos. — Primeira tacada? — David detesta publicidade negativa para a firma. Se ele acha que vou atrás dele por promessas desfeitas e ambiente de trabalho insalubre, não vai tentar nada. Só por segurança. Suspirei e descansei a cabeça no vidro gelado. — Você tem a tarde livre. Talvez devesse fazer umas compras. — Devo? — Sim. Eu te disse, preciso que seja apresentável. Tenho uma compradora particular. Posso ligar para ela e combinar de você vê-la esta tarde. Podemos continuar com nossos planos para a noite. — Ótimo. Ele aumentou a música, batucando no ritmo no volante, ignorando meu sarcasmo. Eu detestava fazer compras, principalmente porque nunca podia comprar muito. Talvez fosse divertido não ter de pagar a conta. Eu esperava que sim. Depois daquela manhã, precisava de alguma coisa para me distrair. Não muito tempo depois, chegamos ao apartamento, Richard assinou um envelope. Ele o abriu e jogou um cartão de crédito para mim. — O que é isso? — Para você fazer compras. Olhei para o cartão e vi meu nome exaltado em prata. — Como você...? Esqueça. — Suspirei. Era óbvio que Richard conseguia tudo o que queria. Ele se sentou, pegando o cartão.


— Assine-o e use. Liguei para Amanda Kelly, a compradora particular da qual lhe falei. Ela estará esperando você em uma hora. — Certo. — Qual é o problema? — Ela não poderia me mandar um vestido para amanhã? Tenho certeza de que você já a informou exatamente do que quer que eu vista. Ele balançou a cabeça. — Não é só para amanhã, Katharine. Eu falei sério. Livre-se das roupas que anda usando. Quero você com vestidos, terninhos bem feitos, roupas modernas. Sapatos decentes. Um guarda-roupa todo novo. — Preciso jogar fora minhas calcinhas também? — perguntei, e já podia ouvir as críticas. Ele piscou por um minuto, depois começou a rir. — Você tem humor dentro de você em algum lugar. Sim. Jogue fora. Tudo novo. Tudo para entrar no papel que está interpretando. Revirei meus olhos, pegando meu cartão. — Certo. Como se alguém fosse ver minhas roupas de baixo. — O que há com você? — ele resmungou. — Nunca precisei implorar para uma mulher gastar meu dinheiro. Geralmente, elas ficam ansiosas para colocar as mãos na minha conta bancária. Por que você é tão teimosa? Eu me levantei. — Então pegue uma delas para fazer seu papel de noiva amorosa nessa farsa ridícula. — Comecei a me afastar, parando quando seus dedos compridos seguraram meu braço. — Katharine. Tirei meu braço de seu aperto. — Quê? — respondi seca. Ele ergueu as mãos. — Não entendo qual é o problema em mudar seu guarda-roupa. Cansada, esfreguei minha mão nos olhos. — Se amanhã não te der o resultado que deseja, terá gastado um monte de dinheiro por nada. Toda essa loucura terá sido por nada. — Toda essa loucura? Pisquei para evitar as lágrimas que se formavam. — Fingir que estamos noivos. Tirar-me de minha casa, jogar fora nossos empregos, sujeitando-se a gastar seu tempo comigo. Até David sabia o quanto você não me suportava, Richard. Como isso pode dar certo? Ele deu de ombros. — Se, e um grande se, não funcionar, você terá um monte de roupas bonitas para usar em seu próximo emprego. Vamos ser sinceros, seu barraco não era um lar; vamos encontrar algo muito melhor para você. Pense assim. — Ele deu um passo à frente. — Eu não tenho mais esse sentimento por você. Na verdade, até gosto de ouvi-la discutindo comigo. Eu não sabia o que dizer para essa declaração inesperada. — Eu acho, talvez, que podemos dar uma trégua. Você está certa em uma coisa. Precisamos parecer unidos, e não podemos fazer isso se estamos no limite um com o outro. Então tenho uma oferta a fazer.


— Ok? — perguntei, quase temendo o que ele iria dizer. — Você vai às compras e gastar meu dinheiro. Gasta uma quantia decente. Considere um presente pelas coisas horríveis que fiz durante o ano. Vou fazer minhas ligações e ajustar algumas coisas que preciso. Quando você chegar em casa, vamos passar a noite conversando e conhecendo mais um ao outro. Amanhã, vamos encarar o dia como um casal. Ok? Mastiguei minha bochecha e o analisei. — Ok. — Bom. Mais uma coisa. — O quê? Ele ergueu uma mão que segurava uma caixinha. — Quero que use isto. Olhei para a caixa, sem me mexer. — Não vou te morder. — O que é? — sussurrei, já sabendo a resposta. — Um anel de noivado. Quando ainda não me movi, ele suspirou frustrado. — É melhor não esperar que eu me ajoelhe. — Não! — arfei. — Então, pegue-o. Minha mão tremia ao pegar a caixa e abri-la. Um solitário enorme com ouro branco, vintage, brilhava. Era chiquérrimo. Ergui meu olhar para ele. — Eu a descrevi para a vendedora e disse que queria algo simples, mas impressionante. Havia maiores que este, mas, por algum motivo, pensei que gostaria deste anel. Suas palavras gentis e estranhas me tocaram. — Eu gosto. — Bom, coloque-o. Faz parte da imagem. Coloquei-o no meu dedo, encarando-o. Era o tamanho perfeito, mas causava uma sensação estranha na minha mão. — Vou cuidar bem dele até chegar a hora de devolver. Ele bufou. — Tenho certeza de que vai tentar. Já que é desastrada, fiz seguro para ele. Revirei os olhos, o momento de estar tocada passou em um segundo. Ele olhou para seu relógio. — Tudo bem. O carro estará lá fora esperando você. Vá ficar apresentável. Ele se virou e saiu da sala. Peguei minha bolsa, e o anel refletiu a luz. Bom, parecia que agora eu tinha um noivo Era noiva de um homem que não gostava de mim, mas estava disposto a rever isso para conseguir um novo emprego e irritar seu antigo chefe. Com certeza, era isso que compunha os sonhos.


11 Katharine A tarde passou como um borrão. Richard realmente tinha dito à Amanda especificamente o que ele queria, e parecia que a lista era infinita. Vestidos, calças, saias, blusas, ternos — uma variedade enorme de tecidos e cores passou por mim. Também havia as roupas de banho, lingerie e camisolas. Provei e discutimos item por item, descartando ou colocando na pilha crescente das roupas que levaria. Felizmente, depois de me observar por um tempo, os sapatos que ela escolhia eram todos de salto baixo. Ainda modernos, ela me assegurava, mas eu tinha mais chance de ficar ereta. A última foi o vestuário de praticar esportes que ela me mostrou. Naquele momento, fiquei exasperada. Nunca pensei que chegaria uma época em que precisaria ter roupas de ginástica caras. Ele tinha uma academia particular em seu apartamento, pelo amor de Deus. Quando ela disse que estava na lista de Richard, joguei minhas mãos para o alto e lhe disse para colocar o que ela achasse que fosse apropriado. Eu desistira! Saí da loja, carregando a roupa para o dia seguinte, usando apenas jeans e uma camiseta de seda em uma cor vermelha rica. Richard, aparentemente, não queria me ver chegar em casa com “coisa velha”. Fiquei em silêncio na volta para casa, sobrecarregada e cansada. Carreguei meus pacotes para cima, entrando com minhas chaves. Ouvi a música vindo do fim do corredor. Sabia que Richard estava malhando, então pendurei meu vestido no closet, guardei os outros itens que trouxe comigo, depois liguei para a casa a fim de verificar como Penny estava. A enfermeira responsável me disse que ela estavam dormindo, mas não tinha sido um bom dia, então eu não deveria visitá-la. A tristeza me envolveu quando me sentei olhando pela janela. Detestava dias como aquele, no entanto, ela tinha razão. Ir lá só me deixaria mais chateada. Em vez de fazer isso, desci e xeretei toda a cozinha. Era muito bem equipada, mas havia pouca comida, exceto por algumas frutas e condimentos nos armários e na geladeira. — Procurando alguma coisa? Endireitei-me, assustada. Richard estava apoiado na porta, com uma toalha jogada por sobre seus ombros largos. Sua pele brilhava com um leve brilho de suor, seu cabelo estava úmido, e ele ainda parecia perfeito. — Você não tem muita comida. — Não faço ideia de como cozinhar. Peço comida ou minha governanta deixa alguma coisa pronta. — Governanta? — Ele não havia mencionado que tinha uma governanta. Ele assentiu, bebendo um pouco da água da garrafa que segurava. — Preciso contratar uma. A última foi embora há duas semanas. — Ele balançou a mão no ar. — Elas vêm e vão. Escondi minha diversão. Essa novidade não era surpreendente. — Eu cozinho. Ele sorriu. — Se você diz. Ignorei seu tom sarcástico.


— Posso limpar o apartamento, fazer as compras e cozinhar. — Por quê? — Por que não? — Por que iria querer fazer isso? — Richard — comecei impaciente —, não estou trabalhando agora. Tenho muito tempo sobrando. Por que você iria querer contratar alguém se estou aqui de qualquer forma? Sua sobrancelha se uniu enquanto ele pensava nisso. — Pareceria natural para as outras pessoas. — Quando ele pareceu confuso, eu expliquei. — Que eu cuidasse de nossa casa. Que eu cuidasse de, ahn, você. Ele coçou a nuca, obviamente em dúvida. — É? — Sim. — Tudo bem... por enquanto. Use seu cartão para pagar tudo. Assenti. — Compre qualquer coisa que precisar para limpar. Se precisar de ajuda, chame. — Certo. Sentia-me aliviada. Pareceria normal fazer as compras e o jantar. Ficar ocupada e limpar o apartamento. — Como foi sua ligação com o advogado? — Boa. — Ele esvaziou a garrafa, jogando-a no lixo reciclável. — Como foram suas compras? Revirei os olhos. — A lista toda que você deu a ela. — Eu te disse que queria tudo novo para você. — Bom, conseguiu. Ele se aproximou, passando seus dedos compridos na manga da minha camiseta. — Gostei desta. — Bom. Você que comprou. — Gastou muito dinheiro? — Demais. Tenho quase certeza de que te deixei pobre. Para minha surpresa, ele sorriu. Um sorriso verdadeiro que iluminou seus olhos, fazendo com que parecesse um garoto mais jovem. — Finalmente você fez o que eu disse para fazer. Bufei. Ele se esticou ao meu lado e pegou um envelope. — Aqui. Com cuidado, peguei o envelope; era duro e volumoso. — O que é isso? — As chaves para seu carro. — Meu carro? — guinchei. — Eu te disse que compraria um. Está na vaga 709, ao lado dos meus outros dois. Seu crachá está lá dentro já. Para você entrar e sair da garagem.


— O quê...? — É um Lexus. Seguro. Confiável. É vermelho�como sua camiseta. — Desnecessário. — Não. É necessário. Tudo faz parte da imagem, Katharine. Estamos nos vendendo como um casal, os detalhes são importantes. Lembre-se disso. — Ele deu de ombros. — Tem bom valor de revenda, de qualquer forma, quando isso acabar. Se não quiser continuar com ele, pode vendê-lo. De todo jeito, é seu. Parte do acordo. Balancei a cabeça. — Como pode pagar tudo isso? Sei que é bem pago, mas não tão bem pago. Seu rosto se escureceu. — Quando meus pais morreram, herdei uma grande quantia de dinheiro. — Oh. Sinto muito, Richard. Eu não sabia. Eles faleceram recentemente? Seus ombros se enrijeceram e ele ficou tenso. — Há catorze anos. Não foi uma grande perda, para economizar sua empatia. Foi a primeira vez que as ações deles me beneficiaram. Eu não sabia como responder a essa declaração. — Então, não se preocupe com o dinheiro. Ele se virou e saiu da cozinha. — Vou tomar banho, depois pedirei o jantar. Deixei uma lista para você na mesa; pode lê-la. Vamos começar a conversar quando eu voltar. Precisamos absorver tudo isso. — Trabalhar mais a imagem? — Isso mesmo. Ache uma boa garrafa de vinho tinto na estante. Acho que vou precisar. — Ele jogou outro sorriso em minha direção. — Isso se você souber escolher. Com aquela observação agradável, ele saiu e me deixou olhando para ele.


Richard Quando voltei, Katharine estava sentada em um dos banquinhos altos. Havia uma garrafa de vinho aberta e ela estava bebendo de uma taça, analisando os papéis à sua frente. Inspirei fundo e atravessei a sala. Eu tinha a lista dela, então poderíamos discutir os detalhes. Precisávamos alinhar ao máximo nossas histórias naquela noite para blefar no dia seguinte. Tínhamos de convencer Graham de que éramos de verdade. Eu sabia que seria uma noite longa. Ainda estava tenso de mais cedo, o que acontecia toda vez que falava de meus pais, independentemente do quanto fosse breve. Detestava pensar neles e em meu passado. Os olhos brilhantes de Katharine encontraram os meus. Seu cabelo caía sobre o ombro e não pude deixar de notar como o vermelho combinava com sua pele pálida e com a cor escura de seu cabelo. Sem falar nada, enchi uma taça de vinho e me sentei ao seu lado, parando de ter aqueles pensamentos estranhos. — O jantar chegará logo. Pedi canelone. Espero que goste. Ela assentiu. — É um dos meus favoritos. Segurei a lista no ar com um sorriso. — Eu sei. Dei um gole do meu vinho, curtindo o sabor. Ela escolhera um dos meus preferidos. Bati nos papéis em cima do balcão. — Podemos começar? Horas mais tarde, esvaziei o vinho de minha taça. Eu estava exausto. Nunca tinha falado do meu passado ou revelado tantos detalhes íntimos, então foi uma noite torturante. Felizmente, já que tínhamos de saber muita coisa, não tive de me aprofundar em muitas coisas. Ela sabia que eu era filho único, que meus pais haviam falecido e todos os fatos pertinentes: onde estudei, minhas atividades, cores e comidas preferidas, gostos e desgostos. Fiquei surpreso de ver que ela já sabia muitos daqueles fatos — ela era bem mais observadora no escritório do que eu lhe dava crédito. Fiquei sabendo um monte de informação sobre Katharine. Enquanto ela era observadora, para mim, ela sempre foi apenas uma sombra no canto do meu mundo. Estava reticente assim como eu em falar sobre seu passado, mas me disse o suficiente. Também não tinha irmãos — seus pais morreram quando ela era adolescente e morou com a tia que, agora, vivia em uma casa de repouso. Não terminou o Ensino Superior, foi trabalhar na Anderson Inc. como um emprego temporário e nunca mais saiu. Quando perguntei por quê, ela disse que, na época, estava indecisa sobre seu futuro e escolheu trabalhar para saber o que queria. Deixei passar, embora parecesse meio estranho. Eu não fazia ideia de como sua mente funcionava. Sentei-me com um suspiro. Katharine ficou tensa ao meu lado, e eu joguei a cabeça para trás, dirigindo-me a ela com uma impaciência mal disfarçada. — Acho que temos os fatos fundamentais agora, Katharine. Até sei o nome do seu creme de mãos favorito se precisar. — A lista dela foi muito mais detalhada do que a minha. — No entanto, nada disso vai dar certo se você endurece toda vez que me aproximo de você. — Não estou acostumada — ela admitiu. — Você, ahn, normalmente me deixa nervosa. — Teremos de ficar próximos — eu a informei. — Amantes são assim. Eles se tocam e acariciam. Sussurram e trocam olhares. Há uma familiaridade que vem com a intimidade. Tenho a sensação de que a


família de Gavin é muito afetuosa. Se eu não posso pegar sua mão sem que estremeça, nenhuma quantidade de fatos vai nos ajudar quando Graham estiver observando. Ela brincava com sua taça de vinho, passando os dedos pela haste repetidamente. — O que está querendo dizer? — Vou tocá-la, sussurrar coisas em seu ouvido, acariciar seu braço e até te beijar. Chamá-la de docinho e outros apelidos carinhosos. Como qualquer casal apaixonado. — Pensei que tivesse dito que nunca se apaixonara? Ri debochado. — Fiz comerciais disso, consigo fingir. Além disso, já vivi muito na luxúria, que é basicamente a mesma coisa. — Sexo sem amor é só partes do corpo e fricção. — Não há nada errado com esse tipo de fricção. Sexo sem amor é o jeito que eu gosto. Amor faz coisas com as pessoas. Muda. Torna-as fracas. Complica tudo. Não tenho interesse nisso. — Isso é triste. — Não no meu mundo. Agora de volta ao trabalho. Está preparada para não sair gritando quando eu te tocar de repente ou te beijar? Consegue lidar com isso? — Cutuquei as listas diante de nós. — Precisamos de mais do que fatos para termos sucesso. Ela ergueu o queixo. — Consigo. — Ok, precisamos tentar alguma coisa. — O que você sugere. Passei o dedo por meu queixo, pensativo. — Bom, já que foder por foder está fora de questão, acho que precisamos descobrir um jeito. A não ser que queira tentar. Ela revirou os olhos, mas suas faces se escureceram. — Não. Sugira outra coisa. Contive minha risada. Ela era divertida às vezes. Segurei minha mão no ar, com a palma da mão para cima, como um convite. — Venha comigo. Devagar, ela colocou a mão na minha e eu fechei os dedos ao redor de sua mão pequena. Sua pele era fria e macia e, com um sorriso, apertei seus dedos antes de soltar. — Viu, não queimei nem lhe causei nada. Sentindo-me agitado, levantei-me e andei de um lado para o outro. — Vamos ter de agir de forma confortável um com o outro. Se eu beijar sua bochecha ou abraçar sua cintura, terá de agir como se fosse normal. — Segurei a bainha de minha camiseta. — Você vai precisar fazer a mesma coisa. Aproximar-se de mim, sorrir, rir quando eu me abaixar e sussurrar alguma coisa. Esticar-se nessas pernas ridiculamente curtas para me beijar no rosto. Alguma coisa. Entendeu? — Sim. — Então ela sorriu e uma expressão maligna passou por seu rosto. — O quê? — Se me chamar de docinho, posso te chamar de alguma coisa, ahn, especial também? — Não sou fã de apelidos. O que tem em mente? — Algo simples.


Poderia viver com isso. — Como? — Dick — ela informou com a expressão firme. — Não. — Por que não? É um apelido para seu nome e, ahn, combina com você, em muitos aspectos. Eu lhe lancei um olhar duro. Tinha certeza de que ela sabia que o apelido estava ligado a mim no mercado e estava tentando me provocar. — Não. Escolha outro. — Preciso pensar. — Faça isso. Mas Dick está fora de questão. Seus lábios se abaixaram, como se estivesse triste. Revirei os olhos. — Desista, Katharine. — Tudo bem. Dick combina tanto, mas vou tentar. Ignorei sua ironia óbvia. — Não... chegar. — Fiquei à frente dela, encontrando seu olhar divertido. — Agora, vamos praticar? — Praticar? Peguei o controle remoto e apertei play, trocando de música até uma melodia baixa e calma ressoar pelas caixas de som. — Dance comigo. Acostume-se com o jeito que se sente quando está perto de mim. — Ergui uma mão, dizendo a única palavra que eu nunca usara com ela até os últimos dias. — Por favor. Ela me deixou levantá-la e se aproximou de forma esquisita. Com um suspiro, coloquei meu braço em volta de sua cintura, puxei-a para mais perto e inspirei a essência de seu cabelo que pairou no ar. Começamos a nos mover, e me surpreendi como pareceu natural. Muito menor que as mulheres com quem eu estava acostumado, ela mal chegava em meus ombros. Sua cabeça cabia debaixo de meu queixo. Ela parecia leve e frágil em meus braços, mas se moldava bem contra meu corpo. Depois de alguns minutos, ela perdeu a rigidez nos ombros, deixando-me guiá-la pela sala sem esforço. Ela era inesperadamente graciosa quando dançava, levando em conta o quanto era frequente vê-la tropeçar nos próprios pés. Uma voz falou na minha cabeça que, talvez, tudo de que ela precisava esse tempo todo era alguém que a segurasse, mais do que a humilhasse. Isso me fez parar de repente, recuei e a olhei. Ela piscou para mim, toda trêmula, e vi que ela esperava algum tipo de comentário maldoso. Em vez disso, peguei seu rosto e seus olhos se arregalaram. — O que está fazendo? — Beijando você. — Por quê? — Para praticar. Seu “oh” sussurrado atingiu minha boca quando meus lábios tocaram os dela. Eram surpreendentemente macios e maleáveis, fundindo com os meus com facilidade. Não era uma sensação desagradável; na verdade, senti um calor descendo por minha espinha quando tivemos contato. Livrei-me de seus lábios só para abaixar a cabeça e beijá-la de novo, desta vez passando mais rápido minha boca na dela. Dei um passo para trás, soltando-a. O ar à nossa volta estava denso, e eu sorri.


— Viu, não é tão ruim. Não vai te matar se me beijar. — Nem a você — ela retrucou, com a voz trêmula. Dei uma gargalhada. — Acho que não. O que for preciso para fazer dar certo. — Isso. Peguei o controle remoto, desligando a música. — Muito bem, Katharine. Conversamos bastante hoje. Amanhã será um grande dia, então acho que nós dois precisamos descansar. — Ok — ela sussurrou. — Você fez um bom trabalho hoje. Obrigado. Virei-me e a deixei boquiaberta atrás de mim.


12 Katharine

Tive dificuldade de novo para dormir, então andei na ponta dos pés pelo corredor, abrindo a porta de Richard. Naquela noite, ele estava de bruços, abraçado com o travesseiro com um braço e o outro estava pendurado na cama gigante. Ele ainda estava roncando — um barulho baixo e rouco que eu precisava ouvir. Analisei o rosto dele na luz da lua. Contornei meus lábios com o dedo, ainda chocada por ele ter me beijado, me segurado nos braços e dançado comigo. Eu sabia que tudo fazia parte de um grande plano, mas havia momentos, vislumbres, de um homem diferente a que eu estava acostumada a ver. O flash de um sorriso, um brilho em seu olho, até uma palavra gentil — tudo isso me pegou desprevenida naquela noite. Queria que ele deixasse mais vezes essa sua característica aparecer, mas ele guardava seus sentimentos — os positivos — com chave. Eu já tinha percebido isso. Sabia que, se dissesse alguma coisa, ele se trancaria ainda mais. Então, permaneci em silêncio, pelo menos por ora. Tinha de admitir, no entanto, que beijá-lo não foi nada ruim. Considerando o veneno que sua boca podia produzir, seus lábios eram quentes, macios e carnudos, e seu toque era gentil. Ele resmungou e se virou, levando os cobertores com ele, seu tórax comprido e esguio agora ficara exposto. Engoli, parcialmente me sentindo culpada por encará-lo, parcialmente maravilhada. Ele era um homem lindo — pelo menos por fora. Ele murmurou alguma coisa incoerente, e eu recuei, saindo da porta, voltando para meu quarto. Ele ficou um pouco mais feliz naquela noite, mas duvido que reagiria bem se me visse encarando-o enquanto ele dormia. Ainda assim, seus roncos baixinhos me levaram para um sono tranquilo. Saí cedo e fui visitar Penny. Ela estava bem acordada e com bom humor. Ela me reconheceu, espremeu meu nariz e nós conversamos e rimos até ela cair no sono. Bebi meu café enquanto ela dormia, olhando alguns dos quadros que ela estava pintando. Escolhi um que estava gostando particularmente de algumas flores selvagens, e o estava admirando quando ela se agitou. Ela me observou, depois virou sua cadeira e apontou para a pintura. — Gosto deste. — Sorri. — Me lembra de quando saíamos para colher flores no verão. Ela assentiu, parecendo distraída. — Vai ter de perguntar à minha filha se está à venda. Não sei onde ela está. Minha respiração parou na garganta. Ela havia desaparecido de novo. Os instantes de lucidez estavam ficando cada vez mais raros, e eu sabia que era melhor não chateá-la. — Talvez eu possa pegá-lo e tentar encontrá-la. Ela pegou o pincel, virando-se para seu cavalete. — Pode tentar. Ela deve estar na escola. Minha Katy é uma menina ocupada. — Obrigada pelo seu tempo, sra. Johnson. Ela apontou para a porta, me dispensando. Saí do quarto, agarrada à pintura, sufocando as lágrimas. Ela não me reconhecia, mas, lá no fundo do coração, ela ainda pensava em mim como sua filha. Da


mesma forma que eu pensava nela como minha família. Era um lembrete do motivo pelo qual estava fazendo aquilo com Richard. Fingindo ser quem eu não era. Era por ela. Sequei meus olhos e voltei para o apartamento. Quando abri a porta, Richard me recebeu com uma cara feia. — Onde você estava? Tem compromisso! Inspirei fundo e contei até dez. — Bom dia para você também, Richard. São só dez horas. Meu compromisso é às onze. Tenho muito tempo. Ele ignorou meu cumprimento. — Por que não atendeu seu telefone? Eu liguei. Você não pegou o carro também. — Fui visitar Penny. A casa é aqui perto, então fui andando. Esticando o braço, ele pegou o quadro pequeno que eu segurava contra o peito. — O que é isso? Tentei segurar, mas foi ineficiente, e ele pegou a pintura, analisando-a. — Você não vai pendurar essa porcaria aqui. Engoli o gosto amargo que surgiu na garganta. — Eu nem sonharia com isso. Eu ia colocar no meu quarto. Ele me devolveu o quadro. — Que seja. — Ele se afastou e olhou por cima do ombro. — Suas roupas chegaram. Coloquei-as no closet do seu quarto e deixei as malas na cama. Queime o que estiver usando agora. Não quero mais ver isso. Então desapareceu. No fim daquela tarde, quando voltei ao apartamento, me sentia outra pessoa. Cortaram meu cabelo, esfregaram e depilaram cada centímetro da minha vida. Meu cabelo havia sido lavado com algum xampu de infusão, condicionado, cortado e repicado, então o secaram para que caísse com ondas mais vistosas pelas minhas costas. Quando minha maquiagem ficou pronta, mal me reconheci. Meus olhos pareciam enormes, minha boca, carnuda e beiçuda, e minha pele parecia de porcelana. Subi correndo e coloquei a nova lingerie e o novo vestido que Amanda e eu escolhemos para aquela tarde; ela me disse que era perfeito. Off-white com uma estampa florida, era bonito e leve, e combinava com o verão. As sandálias de salto baixo eram confortáveis e eu tinha certeza de que conseguiria andar nelas. Inspirei fundo quando meus nervos começaram a se contrair. Era hora de ver se Richard concordava.


Richard Impaciente, tamborilava os dedos no balcão. Ouvi o barulho de saltos e virei a cabeça, a taça que eu estava prestes a beber se congelou no meio do caminho até minha boca. A Katharine que eu estava acostumado a ver não era aquela mulher. Como eu suspeitava, com as roupas certas, um bom corte de cabelo e um pouco de maquiagem, ela era bem bonita. Não como as mulheres chamativas e confiantes a que eu estava acostumado, mas ela tinha uma beleza discreta. Não era meu tipo, entretanto, neste caso, funcionaria. Olhei para sua mão e estranhei. — Cadê seu anel? — Oh. Ela abriu sua pequena bolsa, tirou a caixinha e colocou o anel. — Você precisa usá-lo o tempo todo. Deixe a caixa aqui. — Tirei para fazer as unhas e esqueci de colocá-lo de volta. — Ela sorriu... amplamente, quase um sorriso irônico. — Muito obrigada por me lembrar, meu querido. Ergui minhas sobrancelhas. — Meu querido? — Você não gostou de Dick, então escolhi outro apelido. Você sabe, como amantes fazem. Cruzei os braços, olhando-a. — Acho que você está rindo de mim. — Nunca faria isso. — Ela jogou o cabelo para trás e os cachos escuros desceram por suas costas. — Então, vou passar? — Meu dinheiro foi bem gasto. Ela pegou sua bolsa. — Você tem um jeito com as palavras, Richard. Tão tranquilo e poético. Estou chocada pelas mulheres não formarem fila para fingirem te amar. Seu comentário me fez rir. Ela tinha senso de humor, que era algo de que eu gostava. Eu a segui para a porta, abrindo-a para ela. Ela esperou enquanto eu a trancava e, com um sorriso, ofereci minha mão. — Pronta, docinho? Ela virou os olhos para cima, colocando a mão na minha. — Para qualquer lugar com você, meu querido. — Vamos lá. Katharine aceitou minha mão estendida, deixando-me guiá-la do carro, seus olhos se arregalavam quando ela observava as casas e os terrenos extraordinários. Até eu estava impressionado. A propriedade de Graham Gavin era magnífica. — Tente controlar seus sentimentos — murmurei, torcendo para parecer natural. Ela não me contradisse e encostou o corpo no meu conforme o motorista do estacionamento levava meu carro. — Você precisa relaxar. Ela olhou para mim com o cenho franzido. — Talvez você esteja acostumado com todo esse luxo, Richard. Mas eu não estou. — Seu olhar se


movia rapidamente, começando a expressar pânico. — Não pertenço a este lugar — ela sussurrou. — Eles vão ver logo que sou uma fraude. Inclinei-me para que pudesse encontrar seus olhos. — Não vão, não — cochichei. — Vou estar ao seu lado, e vamos agir como se estivéssemos apaixonados. Todos aqui vão pensar que escolhi você e nós em vez de minha carreira, e você, droga, vai agir como se me amasse. Entendeu? Ela inclinou a cabeça, com a dúvida estampada em todo seu rosto. Tranquilizei minha voz. — Você consegue fazer isso, Katharine, sei que consegue. Nós dois precisamos que isso dê certo. Ela olhou por cima do meu ombro. — Graham Gavin está vindo. — Então é hora do show, docinho. Finja que acabei de te dar um presente. Na verdade, vou te dar um se você arrasar com esse primeiro encontro. Por um segundo, nada mudou. Então seu olhar ficou determinado e ela sorriu para mim. A expressão transformou seu rosto de simplesmente bonita para linda. A mudança me pegou de guarda baixa, e a encarei, surpreso por meus pensamentos. — Richard! — ela exclamou. — Você é tão bom para mim! Dizer que fiquei chocado quando ela se esticou, enfiou os dedos no meu cabelo e levou minha boca à dela, seria falar o óbvio. Recuperei-me rapidamente, segurando-a firme e beijando-a de forma muito apaixonada para um local público. Quando ouvi alguém limpar a garganta atrás de mim, sorri contra sua boca e recuei. Ela me encarou, então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, tocou meus lábios. — Rosa paixão não é sua cor — ela zombou, limpando minha boca do batom. Dei outro beijo em seus lábios. — Eu te disse para parar de usar essas coisas. Só vou tirar te beijando de qualquer forma. — Mantendo meu braço em volta dela, me virei para cumprimentar Graham. — Desculpe, Katharine fica facilmente empolgada. — Sorri. — E quem sou eu para resistir? Ele riu, estendendo a mão, apresentando-me à sua esposa, Laura. Quase tão baixa quanto Katharine, seu cabelo loiro estava preso em um coque chique, ela era a elegância em pessoa. Eu, na minha vez, apresentei Katharine como minha noiva, sorrindo quando ela ruborizou e cumprimentou os dois. — Você precisa me dizer o que a deixou tão empolgada, Katharine. — Laura sorriu para ela. — Richard acabou de me contar sobre um presente inesperado. Ele sempre me faz surpresas. Por favor, me chame de Katy. Richard insiste em me chamar pelo nome inteiro, mas prefiro Katy. Balancei a cabeça. — É uma nome lindo para uma mulher linda. Ela virou os olhos para cima, e Laura riu. — Você nunca vai convencê-lo do contrário, Katy. Homens são criaturas muito teimosas. — Aproximando-se, ela entrelaçou o braço no de Katharine, levando-a para longe. — Venha; deixe-me apresentá-la para minha família. Jenna está louca para te conhecer. Agora, que presente ele lhe deu? Seguindo-as, ouvi cuidadosamente, imaginando o que ela decidiria que eu tivesse lhe dado. Joias? Uma viagem? Esses eram os presentes extravagantes que as mulheres com quem eu saía gostavam de receber. Mais uma vez, ela me surpreendeu.


— Richard fez uma doação generosa para o abrigo “Sem morte” onde faço trabalho voluntário. Eu lhe disse que temia que eles fechassem por falta de dinheiro. Laura olhou por cima de seu ombro com um sorriso amplo. — Que atitude adorável, Richard. Graham e eu vamos fazer a mesma doação. Nós temos um ponto fraco por animais. Katharine arfou. — Oh, Laura, não precisam fazer isso! Laura a abraçou. — É claro que precisamos. Há quanto tempo faz trabalho voluntário lá? Eu falei; grato pelas listas que fizemos e pelo fato de ter uma boa memória. — Três anos. Ela foi nomeada Voluntária do Ano duas vezes. — Que maravilha! Graham, certifique-se de fazer um cheque para Katy quando conversar com Richard mais tarde. Aquelas palavras me encorajaram. Se ele ia conversar comigo em particular, eu esperava que significasse o que estava pensando. Graham sorriu para Laura. — Pode deixar, meu amor. Tinha planejado ficar por perto, mas parecia que meus planos eram frustrados toda vez. Depois de sermos apresentados para Jenna, seu marido Adrian, assim como seu filho mais velho Adam, sua esposa Julia e seus dois filhos, Katharine e eu fomos separados. Jenna estava ansiosa para conhecer Katharine, seus olhos verdes bem como os de seu pai, grandes e animados. Ela tinha estatura média, era atraente, seu cabelo era loiro e tinha um sorriso simpático. Seu marido parecia um jogador de futebol americano, tão grande quanto alto, com cabelos e olhos escuros. O amor dos dois era óbvio, e até um pouco nauseante. Jenna segurou Katharine, arrastando-a para conhecer outras mulheres, enquanto Graham me apresentou para vários membros essenciais de sua empresa. Era aparente que a intenção de Graham não era segredo. Ele estava deixando o restante de seu time valioso me conhecer, e eu sabia que suas opiniões eram importantes, então me comportei da melhor forma, com charme. De primeira, ficava olhando para Katharine, imaginando se ela estava dizendo ou fazendo qualquer coisa para prejudicar nossa situação, mas ela parecia surpreendentemente calma e sob controle. Graham percebeu minha preocupação e me cutucou de forma bem-humorada. — Relaxe, Richard. Ninguém vai sequestrá-la. Eu juro. Forcei uma risada. — Claro que não. Ela, ahn, ela é um pouco tímida, só isso — anunciei. Eu não podia dizer a ele por que precisávamos ficar perto. — Você é protetor com ela. Eu era? Era isso que ele pensava? — Esses dias foram difíceis para nós dois. Ele assentiu, sério. — Ouvi o que aconteceu. Perfeito. — Eu não podia deixá-lo falar com ela daquela forma ou permitir que depreciasse nosso


relacionamento. Era hora de sair, independentemente de como isso afete minha carreira — disse com convicção. — Eu queria que nosso relacionamento, nosso relacionamento verdadeiro, fosse público. Queria que o mundo soubesse que estávamos noivos. — Você a coloca em primeiro lugar. — Sempre. Ele colocou a mão no meu ombro. — Venha conhecer umas pessoas, Richard. Um pouco depois, fui até o pequeno grupo de pessoas que estavam com Katharine. Havia observado os Gavin e como interagiam, e eu estava correto em uma coisa. Eles demonstravam seu sentimento. Quando estavam perto um do outro, os casais se tocavam constantemente. Laura e Graham também eram carinhosos com seus filhos e netos. Eu sabia que precisava mostrar o mesmo tipo de afinidade com Katharine. Torci para que ela respondesse gentilmente. As mulheres estavam rindo, balançando a cabeça. Katharine falou. — Eu sei, para alguém que geralmente é consciente da saúde, Richard é terrível. Ele come muita carne vermelha. Toda chance que ele tem, principalmente no Finlay’s. Quase um quilo de costela toda vez. — Ela riu. — Desisti de tentar impedi-lo porque não há como. Pelo menos agora ele come melhor porque cozinho para ele. O número de cardápios para pedir comida que encontrei na gaveta quando me mudei foi assustador. Chegando atrás dela, abracei sua cintura, encostando-a em meu peito e beijando seu pescoço, percebendo seu leve arrepio. — E você, Katharine? Olhei para o pequeno grupo de mulheres com quem ela estava conversando com um sorriso amplo. — Ela se preocupa constantemente com isso e, mesmo assim, todo dia, pego-a comendo sanduíche de pasta de amendoim com geleia. — Balancei a cabeça, olhando para ela. — Eu te falo, docinho, que precisa comer mais proteína. Está magra demais. Eu poderia colocá-la no meu bolso, juro. Houve um suspiro coletivo entre as mulheres do grupo. Obviamente, eu dissera alguma coisa certa. — Não deteste a combinação de pasta de amendoim com geleia, meu querido — Katharine insistiu. — Sendo sua assistente, eu tinha sorte de ter tempo para comer um sanduíche. Eu a beijei de novo. — Culpa minha, baby. Você não deveria ser tão desvalorizada por mim. Conforme todas as mulheres riam, Jenna deu um tapinha no ombro de uma com um sorriso. — Cuidado, Amy, já foi alertada. Se Richard fizer parte do nosso time, não haverá mais horário de almoço. Amy riu. — Vou descobrir todos seus segredos com a noiva dele para mantê-lo na linha. Ah, Amy Tanner, a namorada de Brian, e a forma que as coisas pareciam estar tomando, minha próxima assistente. Sorri para ela — ela era o tipo exato dele: alta, bonita e educada. — Olá, Amy. Brian está fora este fim de semana? Ela assentiu. — Outra viagem. Ele disse para te lembrar do golfe na próxima semana, quando ele voltar. — Estou ansioso para isso.


— Espero não ser uma decepção como assistente depois de ter sua noiva ao seu lado. Se, é claro, você entrar para o time. Enrijeci um pouco, mas Katharine riu, dando tapinhas em meu braço. — Richard é brilhante — ela se entusiasmou. — É maravilhoso trabalhar com ele. Tenho certeza de que vocês dois vão se dar muito bem. Jenna piscou para Katharine. — Falou como uma mulher apaixonada. Katharine relaxou, encostando em mim com um leve suspiro. Ela olhou para cima, um sorriso delicado nos lábios. Sua mão acariciou minha mandíbula, e sua voz estava baixa e rouca. — É porque estou. Interpretação digna de Oscar. A tarde passou rápido. Comemos, conversamos e conhecemos muita gente. Frequentemente, quando estávamos com outras pessoas, eu via Katharine olhando para mim. Porque me divertia ver sua reação, eu lhe mandava um beijo ou piscava para ela, simplesmente para fazer suas bochechas ruborizarem. Ela fazia isso toda vez. Fazia a mesma coisa quando eu ia até ela, abraçava sua cintura e a beijava no ombro ou no rosto. Ela interpretou bem seu papel, nunca reagindo de outra forma a não ser receptiva. Na verdade, algumas vezes, ela me procurou, ficando na ponta dos pés para sussurrar em meu ouvido. Era fácil imitar a forma como Adrian abaixava a cabeça para ouvir o que quer que Jenna estivesse murmurando, com um olhar disposto. Eu não duvidava que as palavras que Jenna sussurrava eram bem mais íntimas do que as que Katharine me dizia, mas ninguém sabia disso. Em certo momento, Graham me chamou para o lado e perguntou se eu estava disponível para outra conversa na segunda-feira. Tive de me conter para não comemorar ali, sabendo que havia conseguido. Em vez disso, falei que Katharine e eu tínhamos um compromisso na segunda de manhã, mas eu estaria disponível após o almoço. Não queria parecer muito ansioso, porém, assim que ele assentiu e me informou que o cartório estava sempre cheio na segunda, que deveríamos marcar para nos encontrar às duas, percebi meu erro. Ele pensava que iríamos ir ao cartório por causa do casamento. Em vez de corrigi-lo, concordei que às duas seria uma boa hora e apertei sua mão. Percebi que algumas pessoas haviam ido embora, então o agradeci por sua hospitalidade. Quando ele me lembrou da doação, eu lhe disse que poderíamos cuidar disso na segunda — na verdade, eu não fazia ideia do nome do abrigo. Laura estava conversando com Katharine quando me aproximei. — Pronta para ir, docinho? — perguntei. — Sei que quer ver sua tia esta tarde também. — Quero, sim. — Katharine se virou para a anfitriã. — Obrigada pela tarde adorável. Laura sorriu e a puxou para um abraço. — Sua tia tem muita sorte de ter você. Foi muito bom te conhecer, minha menina. Mal posso esperar para nos vermos mais. Lembre-se do que eu disse sobre seu casamento! Katharine assentiu, pegando minha mão estendida. Não foi desagradável quando Laura se esticou e me beijou no rosto. — Fiquei muito feliz de te conhecer, Richard. Mal posso esperar para te ver mais também. — Ela piscou. — Tanto aqui quanto no escritório. Sorri para ela. — Igualmente.


— Graham lhe deu um cheque de cinco mil? Pisquei para ela, depois para Katharine. Cinco mil? Aparentemente, eu tinha sido generoso. Sorri, pensando que valeria a pena. — Ele me dará na segunda. — Excelente. Agora, pombinhos, aproveitem o resto do dia. Ri baixinho, fazendo o rosto de Katharine escurecer e o sorriso de Laura aumentar. — É o que planejo — assegurei a ela com uma piscada conforme levava minha noiva. Fiquei rindo o caminho todo até o carro. Por dentro, estava comemorando. Tinha dado certo.


13 Richard

Segunda de manhã, Katharine olhou para mim como se eu tivesse duas cabeças. — Vamos fazer o quê? Suspirei, dobrando meu papel e colocando-o no balcão. Eu não queria parecer muito ansioso, então disse a Graham que você e eu tínhamos um compromisso nesta manhã. Ele achou que era para ir ao cartório, e não o corrigi. Ela pegou nossos pratos e os levou à pia. Tinha de admitir que ela era muito boa cozinheira. Não conseguia me lembrar da última vez que havia tomado café da manhã em casa e que não saísse de uma caixa. No dia anterior, ela pegou seu carro para ir a alguns “compromissos” e, quando voltou, precisou fazer duas viagens comigo para trazer tudo que ela havia comprado no mercado. Achei que ela fosse louca, mas estava equivocado. O jantar foi um frango delicioso e seus ovos mexidos de hoje estavam maravilhosos. Assim como seu café. Aprovei totalmente a compra da nova cafeteira. Ela se encostou na pia, esfregando o rosto. — Você pode deixá-lo pensar assim, mas não precisamos fazer isso de verdade. Balancei minha cabeça. — Não. Vamos, sim. Quero a papelada. Não precisamos nos casar, só ter a permissão. — Richard. Ergui o cheque que havia preenchido. — Considere uma troca justa por minha doação. — Arqueei minha sobrancelha para ela. — Minha doação muito generosa. Ela teve a ousadia de parecer envergonhada. — Eu te disse, não fazia ideia do quanto alguém como você consideraria generoso. Quando Laura falou disso, uma das mulheres foi um pouco maldosa e disse que não consideraria nada menos que mil uma quantia generosa. — Ela deu de ombros. — Quando vi o que estava dizendo, já tinha falado que você doara cinco mil. Isso certamente calou a boca dela. — Aposto que sim. E está tudo bem. Exceto que você me deve, então vou ter uma permissão de casamento verdadeira e falsa. Ela colocou o café na pia. — Certo. Vou me arrumar. Ela passou por mim e, porque ela me fez querer irritá-la, segurei seu punho e a fiz sentar no meu colo. Ela arfou, empurrando-me, e eu ri devido ao seu esforço inútil. — Quer que eu coce suas costas? — Não! — Vou fazer outra doação. Ela acotovelou minhas costelas, fazendo-me soltá-la, e tropeçou ao se levantar.


— Cuidado, Richard, ou levarei você comigo para o abrigo e mandarei castrá-lo! Gargalhei pela indignação dela, deixando-a que se afastasse, resmungando baixinho. Eu não tinha a mínima noção do motivo de ter gostado de seu insulto — mas gostei. Graham me cumprimentou, dizendo para me sentar em sua mesa particular de reunião. Seu escritório, como o restante do prédio, era de uma riqueza discreta. A mobília era da melhor qualidade; a decoração, bonita e elegante. Mais prêmios e versões menores de vencedores de campanha preenchiam a prateleira que tomava toda a parede. A necessidade de ter uma campanha minha ali queimava dentro de mim. Esperamos até que sua assistente trouxesse café e saísse, fechando a porta. Graham sorriu para mim, servindo-se com um cookie do prato. — Pelo que ouvi, não há nada melhor que o de Katy, mas sirva-se. — Acho que estou mimado. Os dela são maravilhosos. Ele mastigou e engoliu, limpando sua boca. — Espero que seu compromisso tenha sido bem-sucedido, Richard. Dei um tapinha no bolso, tentando parecer presunçoso. — A papelada está toda feita. Terei a permissão em três dias. — Dei uma risada forçada. — Só preciso convencer Katharine a viajar para Vegas comigo e torná-lo oficial. Graham franziu o cenho ao beber um gole de café. — Perdoe-me por dizer isso, mas sua Katy não parece ser o tipo de Vegas. Bebi meu café, ganhando tempo. Eu não fazia ideia de que “tipo” ela era, mas não poderia lhe dizer isso. Decidi partir para o lado mais tímido de sua personalidade. Limpei minha garganta e assenti. — Você tem razão, ela não é. Mesmo assim, nenhum de nós quer um grande casamento. Vamos casar em particular um dia. Katharine acredita fielmente que é melhor ser discreto... só entre nós. — Ela não tem família com exceção de sua tia? — Isso mesmo. — Laura mencionou que ela está em uma casa de repouso. Assenti. — Ela é idosa e não está bem. Katharine a visita bastante. — Ah. Que pena. — Ele olhou além de mim para a janela. — Laura e Jenna gostaram bastante da sua garota. Eu não sabia o que dizer. Não queria falar sobre Katharine, mas parecia que não tinha escolha. — Isso acontece muito. Ele sorriu amplamente. — Posso ver por quê. Ela é adorável. — É mesmo. Ele mudou de assunto, dando tapinha na pasta de arquivo diante dele. — Compartilhei sua ideia sobre a campanha com nossa equipe. — E? — Eles concordaram comigo. Pensam que é uma ideia brilhante. Baixei a cabeça, seu elogio me fez sentir bem.


— Fico feliz. Ele se recostou na cadeira, analisando-me. Senti que estava no julgamento final. Encarei seu olhar firme, esperando que ele falasse. — Levei muitos anos de trabalho duro e dedicação para construir esta empresa. O trabalho aqui significa muito. Assenti em silêncio. — É raro eu contratar alguém de fora, Richard. Aqueles que não são da família estão comigo há muito tempo. Tornaram-se parte da minha família. Aqui no Grupo Gavin, nós nos importamos com nossa família. — É um conceito único, Graham. A maioria dos empregadores não tratam seus funcionários da forma como você trata. Admito que nunca vi isso. — Eu sei. Tenho de dizer que fiquei desconfiado quando ouvi seu nome, Richard. Sua, ahn, reputação, fala por você. Tive a ousadia de parecer envergonhado. — Não posso mudar meu passado, Graham, mas posso te dizer que quero algo diferente agora. — curvei-me para frente, sério e ansioso. — Quero trabalhar aqui. Quero provar a você que pertenço à sua empresa. Me dê uma chance. Me deixe te mostrar o que posso trazer para cá. — Trabalhamos como uma equipe aqui. Comemoramos as vitórias e aceitamos as derrotas como um time. — Eu sei. Estou ansioso para ver isso na prática. Ser parte de alguma coisa, não apenas que esperem que ganhe dinheiro e fique quieto. — Quando mudou de ideia, Richard? Foi Katy que o fez querer algo diferente? — Sim — respondi sem entusiasmo. — Ela foi a catalisadora. Quero mais agora. — Pelo menos isso era verdade. Ele passou o dedo no queixo. — Te acho muito talentoso e que poderia trazer uma nova perspectiva que está faltando para nós. Ainda tenho minhas dúvidas, mas Laura só fala de você desde que te conheceu. Isso me deixou surpreso. — Oh! — Ela acha que alguém tão maravilhosa como Katy só iria amar alguém com uma capacidade enorme de se doar. Ela acha que você é essa pessoa. Vê alguma coisa em você. Fiquei sem resposta. Não sabia que alguém “via” alguma coisa em mim. Ele empurrou a pasta em minha direção. — Tenho uma oferta para você, Richard. Quero que leve isso com você, analise e venha falar comigo na sexta de manhã. — Não quer que analise agora? — Não. Quero que analise e se certifiquei de que leu todas as regras, e reflita se é isso mesmo o que quer. Se concordar, vamos assinar na sexta, e você pode começar na segunda seguinte. — Posso começar hoje. Ele ergueu o queixo rindo baixinho. — Adoro seu entusiasmo. Mas quero estar aqui nos seus primeiros dias e vou viajar com Laura. Ela está um pouco para baixo, então vou levá-la ao seu resort favorito para relaxar um pouco. Vamos voltar


na quinta à noite, e nos veremos na sexta. — Sinto muito por ouvir isso. — Está tudo bem. Ela precisa de um tempo a sós. É o que fazemos pelas mulheres que amamos, estou certo? — Lógico. Ele balançou o braço no ar, indicando o cômodo. — Esta é minha empresa e eu a amo, Richard, mas Laura é minha vida. Tenha certeza de sempre saber diferenciar. Katy ficará ao seu lado por bastante tempo depois que sua carreira acabar. Certifique-se de que preste bastante atenção às necessidades dela. Estupefato, tudo que consegui fazer foi ficar olhando para ele. Ele se levantou. — Analise, faça anotações e conversaremos na sexta. Passe alguns dias com sua garota linda, depois espero que comecemos uma aventura nova e emocionante juntos. Fechado? Apertei a mão dele. — Fechado. Abri a porta, franzindo o cenho ao ouvir vozes femininas. Obviamente, Katharine convidou alguém que eu não sabia. Ouvi com cautela e, quando a mulher riu, eu soube. Jenna Davis viera visitar. Interessante. Estiquei-me para trás, reabri a porta e a deixei fechar fazendo barulho. — Katharine! Cadê você, docinho? Venha dar um beijo de parabéns em seu homem! — gritei com um sorriso. Ela apareceu, parecendo assustada. — Richard? Abri meus braços e fui até ela. — Venha aqui. Ela se apressou e eu a abracei, girando-a. Ela riu pelo movimento inesperado e, antes de poder dizer alguma coisa, coloquei-a de pé, peguei seu rosto e grudei minha boca na dela. Um calor estranho preencheu meu peito — sem dúvida era gratidão por ela ter entrado na interpretação — quando ela agarrou meu pescoço, aproximando-me dela. Ela estremeceu de leve quando enfiei minha língua, tocando a dela, e não consegui evitar que um gemido escapasse. Beijá-la não era um mau negócio. Alguém limpando a garganta atrás de mim me fez sorrir contra seus lábios, e agi como se tivesse me assustado, recuando. — Temos companhia? — perguntei, sabendo que Jenna podia ouvir tudo o que eu falava. — Sim. — Diria que sinto muito, mas não sinto. Estava empolgado demais, docinho. — Passei o dedo por sua bochecha. — Mal podia esperar para chegar em casa e te contar isso. Ela olhou para mim, parecendo uma noiva apaixonada e esperançosa. — Jenna está aqui — ela soltou. Virei e sorri.


— Olá, Jenna. Ela sorriu para mim. — Desculpe interromper seu momento. Posso ir embora. Coloquei meu braço em volta de Katharine, puxando-a para perto. — Não, tudo bem. Eu estava só... — ... empolgado — ela terminou por mim. — Essa empolgação tem algo a ver com a reunião que teve com meu pai? Sorri e assenti. — Preciso analisar a papelada e conversar com minha garota, mas acho que vamos trabalhar juntos. Ela uniu as mãos e sorriu para Katharine e eu. Não havia outra palavra para descrever aquilo: seu rosto se iluminou como o sol da manhã. — Estou tão feliz. — Eu também. Katharine se esticou, pegando meu rosto e puxando meu rosto para ela. — Estou orgulhosa de você — ela declarou e beijou minha boca delicadamente. Até eu acreditei. Jenna riu. — Vou embora. Acho que vocês precisam ficar sozinhos. — Não precisa ir — insisti. — Não, tudo bem. — Ela vestiu o casaco. — Eu queria dar algumas revistas de decoração para Katy. Ela mencionou que agora que tinha tempo queria adicionar alguns toques ao apartamento. — Ela olhou em volta com um sorriso. — De verdade, Richard, você deveria tê-la deixado fazer isso logo. É tão óbvio que é um lugar de homem. Olhei em volta. Era? Parecia normal para mim. — Ela pode fazer o que quiser. Digo isso a ela — torci para que minha resposta soasse sincera. — Excelente. Veja as revistas, Katy, e aí vamos às compras. — Ela deu risada. — Talvez as outras te inspirem também. As faces de Katharine ficaram rosadas, o que me deixou curioso para saber por que as revistas a deixariam com vergonha. Em meio a beijos no ar e risada, Jenna foi embora. Katharine e eu ficamos parados, olhando um para o outro. — Quer um café? — Seria ótimo. Eu a segui para a cozinha, sentando ao balcão. Sem nada para fazer, peguei a pilha de revistas, olhando as capas. Minha mão congelou quando vi as duas últimas. Eram grossas, brilhantes e as palavras “O Casamento Perfeito” estavam destacadas nas duas. Olhei para Katharine, compreendendo sua reação. — Algo que queira me dizer? — Ela perguntou quais eram nossos planos. Eu lhe disse que ainda não tínhamos planejado nada, com todo o resto que estamos lidando. Ela pensou que isso poderia ajudar. Bebi um gole da caneca fumegante que ela me deu com um suspiro agradecido. Ela fazia um excelente café.


— Graham me perguntou sobre nossos planos também. — O que vamos fazer? Eles vão continuar perguntando. Pedir uma permissão falsa de casamento já é ruim o suficiente; não planejo ter um casamento falso. Esfreguei meu rosto. — Eu sei. Não tinha previsto isso. — O que isso significa? — Na verdade, eu gosto de Graham. Quero trabalhar para ele. Deixá-lo orgulhoso. Por algum motivo, isso é importante para mim. Ela me analisou por um instante. — O que está dizendo? — Pensei que seria mais fácil — confessei. — Ele te conheceria em uma ocasião e seria isso. Não tinha previsto que você e a filha dele ficassem amigas, ou que sua esposa a adorasse. — Empurrei as revistas, arrumando a pilha. — Não esperava que eles fizessem parte da minha vida fora do escritório. — E? — Acho que este acordo vai durar um pouco mais do que eu achava. Três meses não serão suficientes. Ela passou o dedo por uma das capas brilhantes, refazendo a foto de uma estante. — Quanto tempo? — O que você acha de concordar de ser, no mínimo, seis meses, com uma probabilidade de mais seis? Ela abriu a boca em choque. — Me escute. Ela fechou a boca e assentiu. — Graham admitiu que ainda tem suas reservas. Li a papelada rapidamente no carro. A oferta é boa, mas o período de experiência é de cinco meses. Acho que ele vai ficar observando. Se você for embora antes disso, ou logo depois, vai parecer suspeito. — Você acha que seis meses é a resposta? — Pode ser, mas acho que será mais que isso. Preciso saber se vai ficar. Ela não disse nada, e não me olhava nos olhos. Senti o pânico se formar em meu peito. Não podia fazer isso sem Katharine. Queria rir dessa ironia. Eu quis me livrar dela por tanto tempo, e agora precisava dela mais do que tudo. Karma era mesmo uma vadia. — Podemos rever os termos — ofereci entre os lábios apertados. Finalmente, ela olhou para cima. — Seus termos estão bons do jeito que estão. Não quero mais dinheiro. — Concorda em ficar? — Por um ano. — Certo. Podemos trabalhar com isso. No fim do ano, Graham vai ver o que eu posso fazer. Não estará tão preocupado com minha vida pessoal. — Tamborilei os dedos inquietos no granito frio. — Eu tenho outra coisa para pedir. — O que é? — Gostaria de cobrir todas as deixas. Certificar de que não haja espaço para dúvida. — Não estou te acompanhando. Analisei-a por um instante, então falei as palavras que nunca pensei que fosse me ouvir dizer.


— Quer se casar comigo, Katharine?


14 Richard

Ela ficou sem palavras. Seus lábios se moviam, mas não saía nada. Então ela fez a coisa mais esquisita. Ela riu. Gargalhou alto e de forma escandalosa. Colocou a mão sobre sua boca, mas não conseguia conter a crise de riso. Lágrimas escorriam por suas faces, e ela continuava rindo. Era um som que nunca tinha ouvido dela e, enquanto tinha de admitir que sua risada era altamente viciante — eu não estava achando graça por ela estar rindo. Endireitei-me, cruzando os braços. — Não acho isso engraçado, srta. Elliott. Pensei que, ao ouvir me referir a ela formalmente, sua histeria iria acabar porque era isso que era, para mim. O único efeito que pareceu causar nela foi rir mais. Bati a mão no granito. — Katharine! Ela se apoiou no balcão, secando os olhos. Ela olhou para mim, e começou tudo de novo. Mais crise de riso. Saí da cadeira e segui direto para ela, sem saber o que fazer quando chegasse lá. Iria chacoalhá-la? Estapeá-la? Segurei seus braços e, sem pensar, apertei minha boca contra a dela, silenciando sua loucura de forma eficiente. Aquele calor estranho desceu por minha espinha conforme a apertei contra meu corpo e a beijei. Usei toda a frustração que ela me fez sentir para puni-la em silêncio. Só que não pareceu uma punição. Foi prazeroso. Um prazer quente e pulsante. Com um gemido, recuei, com o peito arfando. — Terminou? — resmunguei. Ela olhou para mim, finalmente em silêncio, e assentiu. — Antes que você comece de novo, Katharine, vai se casar comigo? — Não. Eu a balancei de leve. — Você disse que casaria se precisasse. Com um suspiro, ela me surpreendeu de novo. Segurou meu rosto, acariciando minha pele com os dedos. — Alguém já te disse como você é impetuoso, meu querido? — A espontaneidade me faz bem. — Eu chamaria de cabeça quente, mas você pode chamar de qualquer coisa que te deixe dormir à noite. — Por que está dizendo não?


— Richard, pense. Pense nisso. Se sua suspeita estiver certa, e Graham estiver desconfiando e você se casar agora, só vai deixá-lo mais desconfiado. Olhei em seus olhos azuis, e suas palavras foram absorvidas por meu cérebro. Dei um passo para trás, as mãos dela deixaram meu rosto e eu percebi que ela tinha razão. — É, porra. — Estou certa, sei que estou. Eu detestava admitir, mas ela definitivamente tinha razão. — Está, sim. — Desculpe, o que disse? — ela zombou. — Não abuse da sorte. Ela sorriu, e me ocorreu que ela não estava mais com medo de mim. Eu não sabia se isso era bom ou não. — Vamos adiar esta questão, Katharine. Ela se desencostou do balcão, dando a volta em mim. — Então conversamos depois. — Ela ergueu as revistas, colocando-as debaixo do braço. — Tenho algumas coisas para ler. Vou pegar algumas ideias para meu quarto. Ela começou a andar, e eu ergui uma mão para impedi-la que saísse. — Enquanto fizer isso, chame o zelador do prédio. Tem alguma coisa errada com a porta do meu quarto. Ela hesitou com os olhos arregalados. — Ah? Peguei uma maçã da fruteira, esfregando-a distraidamente na camiseta. — Eu nunca a tranco, mas está totalmente aberta quando acordo. Não sei o que há de errado. Peça para consertar. — Oh, eu, ahn... Franzi o cenho. Ela estava toda vermelha, não apenas seu rubor cor-de-rosa nas bochechas. Seu peito e pescoço estavam vermelho e a cor no rosto dela era quase roxa. — O quê? — Sua porta não está quebrada — ela soltou, falando rápido. — Como você sabe? — Porque eu que a abro. Foi minha vez de ficar chocado. — Por que faria isso? — É, ahn, muito silêncioso aqui. — Não entendi. Ela se aproximou, brincando com as revistas com os dedos. — Eu não conseguia dormir na primeira noite. Onde eu morava, era sempre barulhento por causa das sirenes, pessoas, carros ou outra coisa. Aqui, era tão silêncioso que estava quase aterrorizador. Passei por sua porta e o ouvi, ahn... você estava roncando. Estreitei os olhos. — Tenho desvio de septo. Não ronco... é um sibilo.


— Se eu abrir sua porta e deixar a minha entreaberta, consigo te ouvir, hum... sibilar, e sei que não estou sozinha. É bom, é confortador. Eu não fazia ideia de como reagir àquela confissão tímida. Eu era confortador? — Bom, então deixa quieto. — Não farei isso de novo. Acenei a mão. — Que seja. Não ligo. Ela se virou e saiu, e eu encarei sua imagem traseira. Ela não tinha me dito para não beijá-la, embora também não tivesse se referido ao fato. Em vez disso, confessou ter ficado nervosa e, sem saber, ajudei-a a dormir. Ela também tinha comentado a falha na minha ideia de se casar com ela agora. Nós dois fizemos um favor ao outro. Estávamos quites. Mesmo assim, mais tarde, naquela noite, depois de apagar minha luz, abri a porta, para que ela economizasse tempo. Deus sabia o quanto ela ficaria mal-humorada se não dormisse. Analisei a documentação com cuidado no dia seguinte. A oferta era boa. O pagamento era generoso. A única coisa que estava me incomodando era o período de experiência de cinco meses. O padrão eram três meses, e eu não conseguia parar de pensar que havia alguma coisa estranha nisso. Levantei-me, andando de um lado para o outro, e acabei parando e olhando pela janela para a cidade debaixo de mim. Eu gostava dali. Gostava do fato de ser uma cidade agitada e, mesmo assim, fácil de encontrar lugares calmos. Gostava de poder pegar um avião sem problema, e gostava de estar próximo da água. Não fazia ideia do motivo, mas gostava. Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos, então virei minha cabeça. Katharine estava à porta com uma xícara de café nas mãos. — Pensei que fosse gostar de um café. Aceitei a xícara, dando um gole. — Obrigado. — Você analisou a oferta? Sentei-me, indicando para ela fazer o mesmo. — Sim. — Não parece feliz. — Não, está tudo bem. É um salário generoso, muitas regalias e os bônus são baseados na produtividade, os benefícios comuns... está tudo aí. — Mas? — O período de experiência está me incomodando. — Porque é maior que o normal? — Acho... Não sei se ele está convencido — admiti. — Ele disse que sim. Ela suspirou. — O que você quer fazer? Eu a olhei diretamente. — Marcar uma data. — Você tem certeza de que ele está te observando? Acha que ele te contrataria se pensasse que está jogando? Ele não parece esse tipo de homem.


— Concordo, mas meu instinto está me dizendo que preciso, nós precisamos, seguir em frente. — Inalei fundo. — Diga suas condições, Katharine. Meu futuro está totalmente em suas mãos neste momento. Ela me analisou por um instante. Esperei para ver o que ela ia dizer. Qual quantia enorme e quais exigências ela colocaria em jogo. Eu poderia pagar, mas estava curioso. Ela contornou um desenho no topo da minha escrivaninha, sem dizer uma palavra. Finalmente, eu não consegui mais aguentar. — Só me diga. — Se eu concordar em me casar com você — ela começou —, você vai querer pelo menos um ano? — Sim. Talvez dezoito meses. — Quando os olhos dela se arregalaram, eu me apressei em complementar. — Dois anos no máximo. — Dois anos — ela disse baixinho. — Talvez não seja tanto tempo. Só estou chutando. — Com o mínimo de um ano? — Sim. Ela jogou seu cabelo, com o olhar teimoso no rosto. — Quero algumas coisas. Virei meus olhos. — Não estou surpreso. Você terá o que quiser, Katharine. Sabe que está com o poder agora. Coloque as cartas na mesa. — Quero fazer algumas mudanças aqui. — Mudanças. — Na sala, no meu quarto. Adicionar um pouco de cor, mais suavidade. Deixar mais aconchegante. Assenti, concordando. — Tudo bem. Faça o que quiser com o apartamento... só nada de rosa. Detesto rosa. Que mais? — Uma mesa no espaço vazio da cozinha seria legal. — Compre uma. — Posso comprar uma máquina de waffle? Sempre quis ter uma. Pisquei. Ela queria uma máquina de waffle? Era isso que ela queria? — Não se preocupe com essas besteiras. O que você realmente quer para concordar com isso? Um bônus? Uma casa depois de nos separarmos? Ela franziu o cenho. — Eu te disse que não estava querendo mais dinheiro. Seus, ahn... termos, são bons. — Você quer alguma coisa. Está nervosa e inquieta. Apenas fale. — Quero a mesma coisa que queria antes. Sem traição. Soltei bastante o ar. Eu sabia o que ela queria — meu celibato. Apoiei o queixo nos dedos e a analisei. Ela era uma contradição. Toda mulher que eu conhecia iria querer uma grande quantia de dinheiro. Uma casa. Joias. Coisas fáceis para eu lhe dar. Ela queria algo que não tinha valor econômico, mas era um enorme sacrifício da minha parte. Pensei em como ela se sentiria se fosse o contrário. — Eu iria pedir a mesma coisa para você. Ela ergueu o queixo.


— Isso não é um problema. — Não vai sentir falta de fazer sexo por dois anos? A cor saturou suas faces; no entanto, ela não desviou o olhar. — Você não pode sentir falta do que nunca teve, Richard. O choque me deixou sem palavras. Não esperava essa confissão honesta. — Ah — foi tudo o que consegui dizer. — Consegue aguentar? — ela perguntou, sua voz sumiu. — Não posso suportar traição. Levantei-me, depois sentei na beirada da minha escrivaninha diante dela. — Tem certeza de que não gostaria de uma boa casa em vez disso? Talvez um pagamento alto o suficiente para você nunca mais ter de se preocupar em trabalhar para um babaca como eu de novo? — Não. Suspirei. — Não há mais nada que eu possa lhe dar no lugar disso? — Não. Rendi-me. Realmente não tinha escolha. — Sob duas condições. — Quais? — Você se casa comigo neste fim de semana depois de eu assinar com Graham. Vou dizer a ele que ficamos tão empolgados para comemorar, que nos casamos. Ele vai acreditar. — E a segunda? Sorri para ela. — Estaremos casados, Katharine. Legalmente. Quero saber se está disposta a conversar sobre, hum... expandir os limites em algum momento em nosso relacionamento. Seus olhos ficaram grandes. — Você disse que não queria dormir comigo. — Dois anos é muito tempo para um homem como eu. — Você tem mãos. Caí na risada com seu comentário cândido. — Algo pelo qual já sou grato. Não estou dizendo que é obrigatório. Estou perguntando se poderia conversar — pisquei para ela — caso a necessidade aumente. — Você não me acha atraente. Nem gosta de mim! Por que iria querer dormir comigo? — Já te disse que acho que posso tê-la julgado mal. Eu gosto de você. Você me faz rir. Em relação à parte atraente, de novo, estava enganado. Você é bem bonita quando não está vestida com trapos e com o cabelo preso de uma idosa. Ela virou os olhos. — Obrigada. Continue com as palavras doces; talvez eu não consiga me controlar ao seu redor. Sorri. — Não seria tão ruim, sabe. Sou bonito, sei como agira no quarto e posso lhe assegurar que vai gostar. — Uau. Difícil acreditar que sou a única na vida que você convenceu a casar. Você faz parecer tão maravilhoso, tão romântico. Dei risada. Eu gostava da forma como ela discutia comigo às vezes.


— Concorda com minhas condições? Ela apertou os lábios. — Se concordar com as minhas. — Então, srta. Elliott, acho que vamos nos casar no sábado. — Sábado? — Vamos pegar a permissão amanhã; assinarei na sexta... é a hora perfeita. Vamos ao cartório, dizemos as palavras, tiramos algumas fotos e a certidão está pronta. — Meu casamento dos sonhos — ela murmurou de forma sarcástica. Dei de ombros. — Use um vestido legal. Comprei um monte para você. — Bom, então, com uma oferta como essa, como posso recusar? Ergui minha mão. — Um prazer fazer negócios com você. Com cuidado, ela pegou minha mão estendida. Arfou quando a puxei para perto, abraçando-a, pressionando meus lábios em seu ouvido. — Garanto seu prazer, Katharine. Lembre-se disso. Soltando-a, sentei-me à escrivaninha, rindo enquanto ela saía. Pelo menos não ficaria os dois anos completamente na seca. De acordo com o que ela confessou... eles poderiam ser bem interessantes.


15 Richard

Era uma noite para comemorar. Eu tinha conseguido. Era um funcionário contratado pelo Grupo Gavin. Encontrei-me com Graham, assinei a oferta e, para seu prazer, disse a ele que queria começar naquele momento. Meu escritório estava pronto, conheci oficialmente minha assistente, Amy, e Graham já havia colocado algumas pastas na minha mesa. Mergulhei nelas com vontade, tomando notas iniciais, anotando ideias e pensamentos que tinha. Quando ele me disse que haveria uma pequena comemoração depois de o escritório fechar, mandei mensagem para Katharine dizendo que não estaria em casa, depois me surpreendi quando a vi entrar carregando, de todas as coisas que poderiam ser, uma bandeja de cookies. Olhando para o buffet luxuoso arrumado, eu queria virar os olhos para cima. Ela trouxe cookies caseiros para um evento como aquele? E por que estava ali? Eu não tinha pedido para ela vir. A resposta veio rapidamente. Jenna juntou as mãos e correu até Katharine. — Você veio! E trouxe os cookies que pedi! Você é a melhor! — Jenna a abraçou, fazendo um estardalhaço por minha noiva estar presente. Disfarçando minha expressão, atravessei a sala, consciente de que os olhos de todos estavam em mim. Passei meu braço pela cintura de Katharine, puxando-a para perto. Cheirei seu cabelo e murmurei para ela: — Você não me contou, docinho. Se eu soubesse que viria, teria descido lá para esperá-la. — Apertei meu braço. — Não respondeu minha mensagem. Ela olhou para mim, e eu pude ver a tensão em seus olhos. — Jenna insistiu que eu fizesse uma surpresa para você. — Tive medo de que, se soubesse que ela estava trazendo seus cookies favoritos, você a sequestraria junto com os cookies — Jenna brincou. Sorri para seu tom malicioso. — Eu compartilharia os cookies antes de compartilhar Katharine. Jenna riu, e eu sabia que tinha dito a coisa certa. Ela pegou o braço de Katharine. — Separem-se, vocês dois. A mamãe quer ver Katy de novo, e eu quero encher seu cérebro de ideias para o casamento. — Ela a arrastou para longe. Fiz um showzinho fingindo que ficara triste, depois fui e peguei outro uísque. E peguei alguns cookies também. Foi assim que a tarde passou. Parecia que eu nem estava lá. Ia de grupo em grupo, conversava com Graham, Adrian e Adam, todos me zoando por eu estar tentando falar sobre trabalho, insistindo que era um evento social. Graham sorriu e bateu no meu ombro e me disse que estava empolgado por eu estar ansioso, mas a segunda-feira estava bem perto. Ouvi seus planos para o fim de semana, a forma como falavam sobre suas esposas, e suas vidas, pensando como alguém pode ser tão ligado a outra pessoa. Parecia ser a mesma coisa para todos eles. Olhavam para as respectivas esposas com olhares de


adoração. Isso me deixa enjoado, mas segui seu exemplo, observando Katharine andar pela sala, falar com as pessoas, geralmente Jenna ou Laura estavam ao seu lado. Ela parecia ser a estrela do show. Todo mundo queria falar com minha noiva. Seus cookies foram um sucesso, desaparecendo antes de todas as outras sobremesas. Quando ela se tornou mais importante que eu? Ela era coadjuvante. Eu era a estrela. Sempre era eu que liderava o lugar. Como isso foi mudar? Franzi o cenho ao pensar sobre isso. Foi a mesma coisa na semana anterior. Quando ela estava ao meu lado, as pessoas falavam comigo e me colocavam na conversa. Quando estávamos separados, elas eram educadas, mas distantes — não havia conversinha ou observações pessoais. Em vez disso, girava em torno dos negócios. Era o que eu fazia de melhor. Katharine trazia uma leveza e conforto às conversas. De alguma forma, ela me tornava mais amável; sua delicadeza estava fazendo exatamente o que eu queria. Era o que eu precisava, mas, de algum jeito, deixava-me bravo. Isso me fazia sentir como se precisasse dela. Eu não precisava de ninguém. Graham riu. — Ok, Richard, pare de fuzilar o departamento de contabilidade. Eles só estão sendo simpáticos com sua adorável Katy. Não precisa olhar furioso para eles. Baixei meu olhar. Eu não estava olhando furioso para eles. Estava irritado com Katharine, embora ela estivesse fazendo o que pedi. Mas isso também desviava a atenção de mim, e meu ego não gostava disso. Forcei uma risada. — Ela os atrai como uma chama atrai uma mariposa. — Ela é maravilhosa. Você é um homem sortudo, e mantivemos vocês separados por muito tempo. Vá com sua noiva e coma alguma coisa. Com um sorriso que torci para parecer verdadeiro, fui até Katharine. Ela me viu chegando e, para dar crédito a ela, pareceu feliz em me ver. Quando ergui minha mão, ela a pegou e me deixou puxá-la para perto. Eu tinha bebido o suficiente; baixei minha boca até a dela, roçando em seus lábios e murmurando contra eles. — Docinho, você ficou muito longe por tempo demais. Ela riu um pouco, segurando meu rosto com tranquilidade. Era óbvio que ela bebera algumas taças de vinho, e se sentia solta e relaxada em meus braços. — Eu estava pensando quando você viria até aqui. — Não se preocupe, meu amor, eu estava te observando. — Enterrei meu rosto no pescoço dela. Tinha de admitir, ela sempre tinha um cheiro sedutor. Era suave e feminino, não superpoderoso. E era verdade — por algum motivo, mesmo quando eu não queria que acontecesse, meu olhar se desviava para onde era seu quarto. Jenna riu. — Vocês dois não conseguem ficar sem se tocar. Ergui minha cabeça. — Pode me culpar? Tive de esconder isso por tanto tempo. É bom poder mostrar meu carinho. O rosto dela se enrugou. — Deve ter sido muito difícil. Assentindo, puxei Katharine para mais perto. — Você não tem noção. — Bom, detesto fazer isso com você, mas há outras pessoas que querem conhecer sua mulher.


Não resisti. — Eles não querem me conhecer? — Eles sabem quem é você, Richard. E é bem-vindo para vir junto, mas Katharine é a estrela da noite. Ela pegou a mão de Katharine e, obedecendo, mas em silêncio, as segui. Meu humor tinha passado de irritado para de saco cheio. Jenna havia resumido perfeitamente. Sinalizei para mais um uísque, ignorando o olhar de alerta de Katharine. Se ela seria a estrela, eu ficaria ao seu lado. O noivo carinhoso — que não conseguia ficar sem tocá-la. Ela detestou. — Richard! — Katharine me repreendeu, tirando minhas mãos de sua bunda de novo. — As pessoas estão olhando! Sorri contra a pele macia de seu pescoço. Ela realmente cheirava bem. — Deixe-os olhar. Ela se virou, olhando para mim. Esticou-se na ponta dos pés, e eu baixei a cabeça para ouvir o que ela tinha a dizer. Para qualquer um que olhasse para nós, estávamos trocando segredos, amantes sussurrando palavras gentis um para o outro. A realidade era bem diferente. — Não está me pagando o suficiente para deixar você passar a mão em mim em público a noite toda — ela cochichou no meu ouvido. Sorri e a puxei para mais perto ao meu lado, meu braço parecia um ferro em volta de sua cintura. — Te pago para agir como minha adorável noiva, então faça seu papel. Se eu quiser passar a mão em você, eu vou. — Você já conseguiu o emprego. Por que está se esforçando tanto? Eu a obriguei a se aproximar mais. — Eu quero mantê-lo... Aja como se mal pudesse esperar para me levar para casa e foder com meu cérebro, e podemos ir embora logo. Ela deixou a cabeça cair para trás, com os olhos assustados. De tão perto, fiquei maravilhado em ver o anel dourado em volta de sua íris, manchinhas de luz do sol no mar azul. Seu cabelo estava solto de novo naquela noite, e enfiei minhas mãos nas mechas grossas. — Seu cabelo está ótimo — murmurei. — O q-quê? Baixei mais o rosto. Podia sentir os olhares sobre nós. — Vou te beijar agora. Eu não lhe dei chance de falar. Tasquei minha boca na dela, segurando firme sua cabeça, beijando-a forte. Porque eu estava bravo e ela era a causa disso, aprofundei o beijo, enfiando a língua e acariciando a dela. O que eu não esperava era a explosão de um calor intenso que emanou entre nós — ou como as mãos dela passaram por meus braços e minha nuca, segurando-me tão firme quanto eu. Nada me preparou para o vislumbre de tesão ou o desejo desesperado de estarmos sozinhos, não rodeados por um grupo de pessoas observando-me beijar minha noiva. De forma brusca, recuei, meu olhar encontrou as expressões divertidas de Adrian e Jenna. Dei de ombros, beijei a ponta do nariz de Katharine e dei um passo para trás, soltando-a do meu abraço de aço. Ela cambaleou e arfou um pouco, e ergui o braço, segurando-a em


pé. Eu a equilibrei, olhando para ela com o que eu esperava ser uma expressão preocupada. — Docinho? Ela olhou para cima, sua boca rosa e molhada da minha língua, bochechas com cor e olhos perdidos. Vendo meu rosto divertido, ela tirou minha mão, arrumando o cabelo. — Acho que precisamos ir para casa. Pisquei para ela. — Estava esperando você dizer isso. Ela olhou, e eu queria rir. Independentemente se ela soubesse ou não, ela tinha acabado de deixar todo mundo pensar a mesma coisa. Meu plano funcionou. — Ah, não, vocês não vão embora por uma hora ainda. — Jenna balançou a cabeça. — Não são nem nove horas. Mamãe e eu ainda não terminamos de conversar com Katy sobre o casamento. Ela não quer nada! Juro que ela está escondendo alguma coisa. — Tudo bem — aquiesci. — Você tem uma hora, depois ela é minha. Toda minha. Entendeu? Ela murmurou algo sobre malditos egoístas e impacientes e arrastou Katharine para longe. Eu as observei indo, sentindo-me meio bêbado. Adrian flagrou meu olho e piscou. Respondi com uma piscada e voltei para o bar. Uísque era a resposta. Eu não podia dirigir. Era esperto o bastante para saber disso. Katharine chamara um táxi, então Graham insistiu em nos enviar para casa no seu carro, e não discuti. Eu não estava bêbado, mas estava alegre. Tinha bebido muito uísque. Ajudou a tranquilizar a queimação que sentia toda vez que ouvia Katharine rir. Que a via sorrir. Observava-a fazer — outro — amigo instantâneo. Não entendia por que me importava ou por que isso me incomodava. Ela estava encantando as pessoas. Se eles gostassem dela, me dariam uma chance porque ninguém acreditaria que uma pessoa tão boa e gentil se apaixonaria por um desgraçado como minha reputação dizia. Só que aconteceu. O caminho todo para casa, ela ficou quieta, mas atenta. Fez com que eu saísse do carro sem problema e abraçou minha cintura. Quando entramos, ela me ajudou a tirar o paletó, parecendo preocupada. — Você mal tocou na comida na festa, Richard. Vou fazer alguma coisa para comer. — Não, estou bem. Comi alguns cookies. — Isso não é uma refeição nem um lanche. Vou te fazer um sanduíche e café. Vai se sentir melhor. Acenei a mão. — Pare de agir como se se importasse como me sinto, ou com o que preciso. — Fui até o bar e peguei o uísque. — Eu disse que estou bem. Vou beber outro drinque. — Não é uma boa ideia. — Por quê? — Porque já bebeu bastante. Precisa comer alguma coisa. — Ela pegou a garrafa da minha mão e começou a ir para a cozinha. Sem pensar, peguei seu braço e a girei. — Você não toma decisões por mim. Se eu quiser beber, eu bebo.


Ela arfou e soltou a garrafa que eu estava puxando, balançando a cabeça. — Por que está bebendo tanto, Richard? Você deveria estar feliz! Enganou os Gavin, conseguiu o emprego e acabou com David! Por que está agindo como se alguém tivesse mijado em você? Explodiu. Tudo que eu estava sentindo a noite toda. Toda a irritação em como eles a aceitavam tão facilmente em sua família. A frustração de eu ser o único de fora. A forma estranha como eu reagia quando ela estava perto — quase como se gostasse. Eu não deveria gostar. Eu não gostava. Não gostava dela. — Me diga, Katharine, o que você tira disso? Tem algum senso distorcido de martírio? Ela me encarou, com os olhos arregalados, os dois olhos brilhando na luz. — Você pensa que é melhor que eu? Você aguenta toda minha merda por um ano e, sem nem piscar, concorda com essa farsa. — aproximei-me, com a raiva fervilhando. — Você pensa que seu sacrifício vai me tornar um homem melhor ou alguma bosta assim? — cuspi. — Você acha que, de alguma forma, vou me apaixonar magicamente por você e a vida será um maldito mar de rosas? — Segurei seu braço, balançando-a com mais força que sabia que deveria. — É isso que pensa? Ela balançou a cabeça fortemente. — Então por que concordou? Por que está fazendo isso por mim? Ela permaneceu em silêncio, seus dentes mastigando sua bochecha tão forte que pensei que sairia sangue. Xingando, soltei-a. — Saia da porra da minha frente. Peguei sem olhar a garrafa de uísque, servi uma dose generosa. Mandei o líquido para dentro, e ele queimou minha garganta e meu peito. Servi novamente e fui até a janela, olhando para Victoria agora escura, as luzes da cidade brilhavam na escuridão. Atrás de mim, Katharine não se mexia. Eu ia dizer para ela ir embora de novo, e ela falou. — Penny Johnson não é minha tia de verdade. Simplesmente a chamo assim para não ter de explicar nosso relacionamento toda vez. Quando eu tinha doze anos, meus pais morreram em um acidente de carro. Eu não tinha mais ninguém da família, então acabei ficando para adoção. Essa novidade me deixou surpreso, embora tenha permanecido quieto. Eu sabia que seus pais tinham morrido, mas ela nunca mencionou adoção. — Garotas de doze anos não estão exatamente na lista mais desejada de ser adotada ou até abrigada, e eu passei por diferentes lugares. O último não foi, ahn, muito legal. Alguma coisa em sua voz me fez me virar. Ela estava parada onde a deixei, com a cabeça baixa, o cabelo cobrindo seu rosto para que eu não conseguisse ver nada. — Eu fugi. Morei na rua por um tempo e, um dia, conheci Penny Johnson. Ela era uma idosa, muito gentil, e me levou para casa, me limpou e, por algum motivo, resolvi ficar com ela. Ela pediu à província para que eu me tornasse sua protetora legal. Ela foi tudo para mim — mãe, pai, amiga, professora. Não tinha muito, mas aproveitávamos tudo o que ela tinha. Arranjei um emprego, eu pegaria garrafas e latinhas, coisas para ajudar a fazer o dinheiro durar mais. Ela tinha uma forma de fazer todo emprego que tínhamos virar um jogo, então não parecia tão difícil. Ela adorava pintar e nós passávamos horas no quartinho onde ela tinha tudo arrumando; ela pintava e eu lia. Era uma vida tranquila e, pela primeira vez desde que meus pais morreram, me senti segura... e amada. Ela passou os dedos na parte de trás do sofá diante dela. Para cima e para baixo em um movimento inquieto, finalmente parando. — Até fui para a universidade. Tinha quase notas perfeitas no Ensino Médio, e consegui uma bolsa.


— Você não terminou. — Lembrei do fato das páginas de suas anotações. A voz dela estava baixa e triste quando falou. — Penny ficou doente. Eu morava com ela quando fui para a escola e ela começou a agir esquisito. Foi diagnosticada com doença de Alzheimer. Então caiu e quebrou o quadril, e decaiu rapidamente. Ela precisava de cuidados constantes. A casa onde ela foi colocada era horrível... Ela era negligenciada e estava infeliz. Lutei para tirá-la de lá e o outro lugar não era tão ruim. — Nada disso explica nada. Ela olhou para mim, semicerrando os olhos para mim. — Pare de ser tão impaciente, Richard. Eu estou tentando explicar para você. Ergui minhas mãos. — Desculpe, só estava querendo saber se havia um propósito aqui. — O propósito é que percebi que ela precisava de mais cuidado. Um lugar decente. Sabia que tinha que deixar os estudos, arranjar um emprego e fornecer isso para ela. Uma amiga minha me disse de uma vaga temporária na Anderson como assistente pessoal; o dinheiro era bom e, se eu tivesse cuidado e encontrasse outro emprego logo depois, poderia levar Penny para um lugar melhor. Então, consegui o emprego, que se tornou permanente. Um dia, o sr. Anderson me chamou e me ofereceu o emprego como sua assistente pessoal, com um aumento, já que, obviamente, você era difícil, por ser “O Dick” e tudo mais. — O dinheiro fala mais alto. Ela balançou a cabeça. — Geralmente não é assim para mim. Porém, o aumento significava que eu poderia colocar Penny em um quarto particular. O dinheiro significava que, quando eu fosse vê-la, ela estaria cercada de telas e pinturas que ainda eram, de alguma forma, familiares para ela. Ela estava bem cuidada e segura. Eu lhe dei o mesmo presente que ela me deu todos esses anos. Não me importava o quanto meu dia era uma merda, normalmente por sua causa, porque, no fim, eu veria a mulher que cuidou tão bem de mim ter o mesmo cuidado. Pisquei para ela, admirado. — Não gastava dinheiro em roupas ou sapatos chiques porque eu não tinha. Por melhor que fosse, todo meu salário era para pagar pelo quarto de Penny. Eu morava em um lugar minúsculo e horrível porque era isso que podia pagar. Comprava em lojas baratas e lugares de segunda categoria porque era o que eu precisava fazer. Não deixava de estar arrumada e apresentável para você. Aguentei todas as coisas horríveis que você disse e fez, e as ignorei, para que pudesse manter meu emprego, porque, fazendo isso, tinha certeza de que Penny estaria segura. Concordei em ser sua noiva porque o dinheiro que está me pagando garante, até ela morrer, que nunca ficará com medo, frio ou malcuidada. Não ligo para o que diz ou faz, porque sua opinião não significa nada. Este é simplesmente um emprego para mim. Por mais que eu odeie isso, tenho que deixar você ser o babaca que é, porque, infelizmente, preciso de você tanto quanto você precisa de mim neste momento. Ela se virou para sair, mas parou. — Espero te tornar um homem melhor e, de alguma forma, fantasiar que se apaixone por mim? Nenhuma vez esse pensamento passou por minha mente, Richard. Você precisa de uma alma para amar... e até um “espantalho magricelo” como eu pode ver que você não tem uma. — Ela inspirou profundamente. — E, quando essa farsa acabar, vou embora e começar tudo de novo em outro lugar. Quando eu não tiver mais de me submeter às suas piadinhas cruéis e seu jeito negligente, minha vida será um lugar muito melhor.


Com isso, ela subiu correndo as escadas, e eu fui deixado perdido sem palavras.


16 Richard

Acordei confuso. Depois de um instante, percebi que estava no sofá. Sentei-me, fazendo careta, segurando minha cabeça dolorida. Eu merecia, mas ainda era uma merda. Com cuidado, ergui meus olhos, surpreso em ver uma garrafa de água e Tylenol na mesa diante de mim. Pegando-os, engoli dois comprimidos e bebi toda a água. Quando me levantei, o cobertor que estava sobre meu peito caiu no chão. Ao me abaixar para pegá-lo, lembrei com meu pensamento lento. Depois que Katharine saiu, peguei mais uísque, suas palavras rodopiavam em minha cabeça. Em algum momento, devo ter desmaiado, e ela, obviamente, veio e me cobriu, deixando o remédio e a água, sabendo que eu sofreria ao acordar. Apesar de ter sido bem mais imbecil com ela do que o normal, ela ainda cuidava de mim. Minhas pernas estavam tremendo, então me sentei, relembrando-me das palavras que ela jogara em mim na noite anterior... por que concordara em me ajudar. Por que ela passou por perrengues… para cuidar da mulher que a pegou e lhe deu um lugar seguro e um lar. Eu fechei os olhos e a depreciei por isso, sem nunca me incomodar perguntando os detalhes. Sem realmente vê-la como a boa pessoa que era por dentro. Uma onda de náusea me atingiu, subi correndo, esvaziando o estômago da quantidade estrondosa de uísque que ainda fazia efeito. Depois, tomei um banho e mais Tylenol. Não parava de ouvir suas palavras, e a dor por trás delas. Meu comportamento do último ano se repetia em minha mente. Minhas piadinhas cruéis, minhas palavras duras e meu jeito ignorante. Apesar de como eu a tratava, ela colocara as necessidades de outra pessoa à frente e manteve a cabeça erguida. Fazia seu trabalho, e eu tinha de admitir que fazia bem, com orgulho e zero incentivo positivo de mim. Analisei meu rosto no espelho, minha mão estava tremendo muito para passar a lâmina no meu queixo. Pela primeira vez na vida, senti o calor da vergonha me queimar, e baixei o olhar. Eu tinha duas opções. Ignorar o que aconteceu na noite anterior e torcer para Katharine continuar com nosso acordo. Eu sabia que se não tocasse no assunto, ela também não o faria. Ela presumiria que eu não me lembrasse do que aconteceu. Ou agir como um adulto maduro e procurá-la, pedir desculpas e tentar seguir em frente. A fim de fazer isso, eu precisava fazer um esforço e, no mínimo, compreendê-la. Eu não tinha dúvida de que, agora, o casamento estava fora de cogitação, mas ainda poderíamos continuar como noivos. Saí do balcão, ignorando o martelar em minha cabeça. Era hora de descobrir mais sobre minha noiva. — Richard, eu não esperava vê-lo hoje. Ou pelo menos não tão cedo. Olhei para cima, tirando o olho da tela do computador. — Oh, Graham. — Arrumei meu topete e passei uma mão no pescoço de forma nervosa. — Havia algumas coisas que eu queria pegar e, ahn, pegar meu carro.


Ele entrou no meu escritório, sentando-se diante da minha mesa. Juntei as mãos sobre a madeira escura, tentando impedir que meus dedos se mexessem. — Preciso me desculpar por ontem à noite. Bebi demais. Acredite, aquele não é um comportamento normal para mim. Ele riu e acenou. — Todos já passamos por isso, Richard. Depois de tudo pelo que passou e começar conosco, depois, é claro, seu grande dia hoje, acho que você merecia relaxar. — Espero que não tenha feito nada inapropriado. Ele balançou a cabeça. — Não, você não fez nada. Acho que forçou um pouco a barra com a pobre Katy. Foi divertido de assistir. Pensei na minha conversa com ela e sorri. — Ela não ficou feliz comigo. — Então franzi o cenho quando absorvi as palavras dele. — Desculpe, Graham, o que quis dizer com “meu grande dia” quando disse isso? Ele sorriu. — Você deixou escapar que iria se casar esta tarde, Richard. — E-eu disse isso? — Disse. Katy tentava fazer você ficar quieto, mas você parecia determinado em contar esse segredo. — Por isso que ela quis me matar. Nem me lembro disso. — Acho que ela vai te perdoar. — Ele piscou. — No entanto, não sei se minha esposa e Jenna vão. Elas queriam ajudar Katy com o casamento. — Desculpe? — sugeri. — Está tudo bem. Elas estão felizes com o jantar com o qual você concordou em fazer depois. Engoli em seco. Puta merda. Como eu conseguia me lembrar de toda a conversa com Katharine e não me recordava de uma única palavra da diarreia verbal que tive com os Gavin? O que mais eu tinha falado? — Jantar? — Katy explicou como vocês queriam que a cerimônia fosse íntima. Você foi tão firme ao argumentar por que queria que fossem apenas os dois, que fez Laura chorar. Pisquei para ele. Eu fiz isso? — Depois de elas concordarem em não invadir seu dia, vocês concordaram em nos permitir dar um jantar hoje à noite. — Ele passou as mãos nas pernas. — Tem certeza de que não quer tirar a próxima semana de folga para a lua de mel? — Ah, não. Temos outros planos. Katharine quer pensar em transformar minha casa, quero dizer, nossa casa em um lugar mais aconchegante. Vou viajar com ela assim que estivermos mais estáveis. Ele assentiu, levantou-se e ergueu a mão. — Parabéns, Richard. Espero que hoje seja tudo o que você deseja. Peguei sua mão e a apertei firmemente. — Obrigado. — Acho que hoje é o começo de uma vida nova e boa para você. — Ele sorriu. — Estou animado por fazer parte dessa nova direção. Ele saiu, deixando-me paralisado.


Depois da noite anterior, não tinha certeza se Katharine nem mesmo falaria comigo hoje, quanto mais se casar. Ela tinha saído quando eu saí, e não atendera o telefone quando tentei ligar mais cedo. Voltei para meu computador. Filtrei mais minha busca, e tinha certeza de que encontrara a casa em que Penny Johnson morava agora. Era perto da minha casa, particular e, pela informação que encontrei no site, cara. Peguei o telefone e disquei o número. — Golden Oaks. — Bom dia — respondi. — Eu queria mandar flores para a tia de minha noiva quando for visitá-la agora de manhã, e quero me certificar de que ela não é alérgica a nada. Esqueci de ver com Katharine antes de ela sair. — O nome da pessoa? — Penny Johnson. — Desculpe… você disse sua noiva Katy? — Sim. — Eu não sabia que Katy estava noiva. Limpei a garganta. — É recente. — Bom, vou ter de cumprimentá-la. Penny não é alérgica a nenhuma flor, mas se realmente quiser agradá-la, não se esqueça de trazer comida para Joey. — Joey? — Seu papagaio. — Ah, e o que se dá para um papagaio, se puder me dizer? — A comida favorita de Joey é manga, mas ele adora qualquer fruta fresca ou pipoca. Eu me sentia como se estivesse dando tiros no escuro. Nunca em meus sonhos mais alternativos pensaria em acordar em um sábado de manhã com planos de me casar com a srta. Elliott, depois de parar para comprar fruta e pipoca para um pássaro que pertencia a uma mulher que nem conhecia. — Manga e pipoca. Entendi. — Os cuidadores gostam de chocolate, sr....? — Van Ryan. Richard Van Ryan. A Katharine já foi aí hoje? — Ainda não. Imagino que virá logo. — Ok. Obrigado, senhorita...? — Tami. Meu nome é Tami. Penny é uma das minhas pacientes preferidas. — Bom saber. Até logo. Desliguei. Tinha de fazer umas compras. Junto com muito esforço para ser agradável. Parei na porta do quarto de Penny Johnson, observando sua aparência. Ela era uma mulher pequena, gordinha, com cabelo todo branco e rugas definindo suas bochechas gordas. Seus olhos se ergueram quando bati, olhando-me com suspeita. — Posso te ajudar? Entrei, segurando um buquê enorme. — Olá, Penny. Sou Richard Van Ryan, um amigo de Katharine.


— Ah, é? — Ela pegou as flores. Do canto do quarto, um papagaio colorido batia as asas e grasnava alto. — Meu nome é Penelope. Não te dei permissão de usar Penny ainda. — Minhas desculpas, Penelope. Estremeci um pouco com o barulho do pássaro e ergui meu outro presente. — Trouxe comida para Joey. — O que você trouxe? Procurei na minha sacola de compras. — Trouxe manga. Devo colocá-la na gaiola dele? Ela apertou os lábios, olhando para mim. — Não é o botão mais brilhante da caixa, certo? — Perdão? — Ele não consegue comer uma manga inteira, meu jovem. Precisa ser cortada. Olhei para a manga, depois para o pássaro. — Oh. — Peguei um pacote de pipoca de micro-ondas da sacola que pegara do armário. Katharine comia bastante pipoca. — Acho que devo estourar isso, então. Ela começou a rir. Sons altos de diversão ecoaram nas paredes. — Katy deve gostar de você por sua aparência porque não pode ser por sua inteligência. Não pude evitar sorrir para sua língua afiada. Ela me lembrava alguém — a mulher que eu chamava de Nana. No período curto em que fiquei com Nana, ela era a única pessoa que se importava comigo. Ela era sincera, direta e não tinha nenhum problema em expressar sua opinião. Esticando o braço para sua esquerda, ela apertou um botão na parede para chamar uma cuidadora. — Tami vai colocar as flores na água e cortar a manga para o pobre Joey. Se eu pedir educadamente, ela trará café para nós. Remexi na sacola e tirei alguns chocolates. Pelo menos acertei aquela parte. — Talvez esses ajudem. Ela arqueou uma sobrancelha para mim. — Talvez ainda haja esperança para você. Agora, sente-se e me conte como conheceu minha Katy e por que a chama de Katharine. — Ela sorriu quando peguei uma segunda caixa de chocolates. — Se esses forem para mim, então tem permissão para me chamar de Penny. Penny Johnson era brilhante, esperta e, como fiquei sabendo, cheia de histórias de Katharine quando era adolescente. Entretanto, descobri que suas lembranças de curto prazo estavam, na melhor das hipóteses, instáveis. Mais de uma vez, vi um véu se apossar de seus olhos, então ela titubeava com as palavras se eu perguntasse alguma coisa do presente. Eu a guiei de volta para uma época mais coerente ao lhe perguntar sobre como conheceu Katharine. Ela sorriu com prazer e me concedeu uma versão mais longa da história que ouvi na noite anterior. Ela descreveu a garota magra e assustada que ela encontrou procurando comida no lixo. Falou sobre a dor e necessidade que viu nos olhos de Katharine, e como ela sabia que era seu destino encontrá-la aquele dia. Pude sentir o amor que ela tinha pela Katharine mais jovem, e percebi que gostava de ouvir sobre sua vida. Penny se perdeu nos pensamentos depois disso, pedindo algo para beber. Quando encontrei Tami, ela me mostrou onde era a cozinha, e voltei para o quarto, Penny estava cochilando em sua cadeira. Seu


pássaro ainda estava no canto, batendo as asas e a música que ela estava ouvindo quando cheguei era um barulho suave no quarto. Olhando em volta, era fácil entender por que Katharine a queria ali e por que trabalhava tanto para alcançar essa conquista. O quarto de Penny era claro e arejado, com janelas grandes e cheio de cavaletes, caixas de carvão, lápis e aquarelas. Havia livros e fotos nas prateleiras e muitas peças de seu trabalho penduradas na parede. Uma onda de culpa incomum passou por mim quando me lembrei da tela pequena que Katharine carregava naquele primeiro sábado. Agi com meu jeito normal arrogante, dizendo que ela não poderia pendurá-lo no apartamento. A onda de culpa e vergonha causou um tsunami, engolindo meu cérebro, com seus tentáculos espinhosos espetando minha pele. Eu me mexi na cadeira, desacostumado àqueles sentimentos estranhos. — Richard? — a voz surpresa de Katharine me assustou. — O que está fazendo aqui? Levantei-me, com mais culpa inundando minha cabeça. Ela parecia exausta, e eu sabia que era por minha causa. — Vim conhecer Penny. — Por quê? — Senti que era importante. — Estou admirada por vê-lo acordado e perambulando por aí. Limpei a garganta, sentindo-me mais desconfortável. — Sobre isso... Ela ergueu uma mão. — Não aqui. Aproximei-me dela com passos lentos. — Você vai me dar chance de conversar com você? Te devo um pedido de desculpa. — Suspirei. — Muitos, eu acho. — Não quero sua pena. — E não vai tê-la. Tudo que estou pedindo é uma chance de uma conversa civilizada. — Você consegue ser civilizado? — Quero tentar. Por favor, Katharine. Ela apertou os lábios. — Isso tem a ver com o que vai acontecer esta tarde? — Não espero que se case comigo hoje. — Não? — Depois de meu comportamento na noite passada, com certeza não. — Inspirei fundo, esfregando minha nuca. — Eu ficaria feliz se o fizesse, mas não espero. — Você praticamente anunciou ontem à noite. Tentei te impedir. — Ela acenou. — Você parecia determinado. — Eu sei. Bebi demais, e minha boca pareceu ter vida própria. Vou lidar com isso. — Passei uma mão na têmpora dolorida. — Neste momento, tenho sorte de estar falando comigo. Ela mordeu a parte interna de sua bochecha, da forma que sempre fazia quando estava nervosa. Antes de poder falar de novo, Penny se movimentou e olhou para cima. — Olá, minha Katy.


Katharine passou por mim, beijando Penny no rosto. — Como você está hoje? Penny esticou o braço e torceu o nariz dela. — Estou bem. — Ela ergueu o queixo em minha direção. — Por que eu não sabia desse aí até hoje? Katharine sorriu e balançou a cabeça. — Acho que eu disse alguma coisa. — Não é muito esperto, mas tem uma tranquilidade nos olhos�e tem um bom gosto para chocolates e flores. Dei risada com o olhar surpreso no rosto de Katharine. Eu estava feliz que Penny ainda estava conosco e lúcida. Tami me disse que ela ficava sã e fora, normalmente confusa e perdida, quando acordava de uma soneca. Eu não queria pensar que tinha sido o único a vê-la lúcida aquele dia e roubar essa oportunidade de Katharine. Não sabia se podia aguentar mais culpa. Peguei meu casaco. — Vou deixar as duas a sós. Inclinei-me, erguendo a mão de Penny e beijando as costas dela, suas veias formavam uma teia de aranha azul pulsante sob a pele fina e branca. — Penny, foi uma honra. — Se trouxer mais chocolate, pode voltar. — Farei isso. — Coloquei a mão dela de volta em seu colo. — Katharine, posso falar com você por um instante? Fomos para o corredor. — Veio dirigindo? — perguntei, pensando que esperaria se ela tivesse vindo a pé. — Sim. Olhei para sua mão. — Cadê seu anel? — Não o uso quando venho aqui. Iria confundir Penny. Está seguro em minha bolsa. Fazia sentido. Eu estava aliviado por ela não ter dito que era porque o acordo estava cancelado. — Ok. Bom. Vejo você mais tarde no apartamento? Ela hesitou, permanecendo em silêncio. — O quê? — Se eu... se eu concordasse em me casar com você hoje, você me daria alguma coisa? Pense como um presente de casamento. — O que você quer? — Quero saber sua história. Sua infância. — Não falo sobre meu passado. — A convicção em minha voz dizia que não haveria discussão. Ela endireitou suas costas, enrijecendo os ombros. — Então vá se casar, Van Ryan. Vejo você no apartamento mais tarde. Peguei seu braço antes de ela sair. — Katharine — comecei cansado. Nossos olhares se encontraram. Eu vi sua determinação. — Tudo bem. Case-se comigo hoje e eu lhe conto.


— Jura? — Sim. — Quero que use uma aliança. — Certo — bufei. — Nada muito extravagante. — Pode escolher. — Mais alguma coisa que queira como presente? — Minha voz pareceu um grunhido. — Não, sua história e uma aliança. — Vou comprar uma agora. — Então me caso com você hoje. Fiquei temporariamente aturdido. Eu esperava gritos, acusações e discussões. Talvez até lágrimas e ela me mandar me foder, de verdade, desta vez. Seu acordo me surpreendeu. — Obrigado. Às três? — Te encontro em casa. — Ela se virou e voltou para o quarto de Penny, deixando-me encarando-a, parecendo um idiota. Quando a srta. Elliott se tornou tão poderosa? Eu não fazia ideia, mas, pela primeira vez, fiquei feliz por ela estar ao meu lado.


17 Richard

Estava esperando na cozinha, andando de um lado para o outro e impaciente com minha gravata. Aquela droga não ficava reta independentemente do que eu fizesse, como se eu tivesse esquecido de como se dava um nó normal. Era quase como se estivesse nervoso. Eu não tinha por que ficar nervoso — Katharine e eu iríamos, simplesmente, dizer algumas palavras, assinar uma folha de papel e acabar com a formalidade do casamento. Era outra camada de meus planos. Simples. Não significava nada. Arranquei o pedaço de seda de novo. Por que essa merda de gravata não ficava certa? — Continue puxando assim e não sobrará mais tecido, Richard. O que essa gravata fez para você? Olhei para cima, assustado. Katharine estava parada na porta, parecendo igualmente nervosa, no entanto, mais bonita. — Uau! Ela estava vestindo um simples vestido off-white que abraçava sua cintura estreita e ficava bufante nos joelhos. A parte de cima era rendada e mostrava seu pescoço fino e seus braços. Seu cabelo estava preso para trás, descendo de um lado em uma cascata de cachos. O tom champagne de seu vestido destacava sua cor. Olhei para baixo e sorri para seus sapatos — pequenos com um saltinho, eram perfeitos. Havia me acostumado na forma como ela cabia debaixo do meu braço e, agora, não queria que ela ficasse mais alta. Aproximei-me dela, erguendo sua mão e a beijando. — Você está adorável. Ela baixou os olhos, então endireitou os ombros. — Obrigada. — Não. Eu que agradeço. — Pelo quê? — Por onde quer que eu comece? Por concordar com este acordo em primeiro lugar. Por manter sua palavra, mesmo quando tinha todo o direito de me mandar para o inferno. — Erguendo a mão, torci um cacho comprido no dedo, acariciando as mechas macias de seu cabelo, soltando-o, deixando-o se enrolar novamente. — Por ser uma pessoa melhor do que eu — complementei totalmente sincero. Seus olhos se iluminaram. — Essa é a coisa mais gentil que já me disse. — Eu sei. Não tenho tentado não ser um babaca, não é? Encontrei seu olhar, recusando-me a desviar. — Vou tentar mais. Ela mordeu a parte de dentro de sua bochecha firmemente. — Ei. Chega. — Dei risada, passando o dedo por sua face. — Sem sangue no dia do nosso casamento. Os cantos de seus lábios se curvaram em um sorriso. Inclinei-me e peguei o pequeno presente que


comprara para ela, segurando o buquê de flores. — Para você. — Richard! — Pensei que fosse gostar — Eu disse, sentindo-me constrangido. Ela enterrou o nariz no pequeno buquê. — Adorei. — Ela franziu o cenho. — E você? — Não vou levar um buquê. — Sorri, querendo suavizar o tom sério que havia transformado. Ela balançou a cabeça com um sorriso, e fui até a gaveta, remexendo nela. Ela olhou para seu buquê e pegou uma das rosas, então a colocou cuidadosamente em minha lapela. Seus dedinhos se flexionaram e colocaram minha gravata no lugar. Ela deu um tapinha no tecido, parecendo feliz. — Pronto. Agora você está pronto. — Você está pronta? — perguntei, quase com medo de sua resposta. — Sim. Flexionei meu braço. — Vamos nos casar. Foi uma cerimônia simples. Só nós dois, com testemunhas que nenhum de nós conhecíamos. Falamos algumas palavras, trocamos votos curtos e fomos declarados marido e mulher. Coloquei uma aliança fina junto com seu diamante e, como ela pediu, permiti que colocasse uma aliança de platina modesta em meu dedo. Olhei para minha mão, flexionando meus dedos e, cerrando meu punho, quando o metal frio e alienígena tocou minha pele. Katharine me observou e sorri para ela. — Marcada agora, acho que é oficial. O juiz de paz riu. — É hora de beijar a noiva. Baixei a cabeça, travando nossos olhares. Encostei minha boca na dela, segurando sua nuca, segurando-a firme e beijando-a profundamente. Era meu direito, afinal, ela era minha esposa. Quando a soltei, ela abriu os olhos, e fiquei admirado com a gentileza sincera de seu olhar. Seu sorriso era genuíno e respondi com a mesma grandeza, beijando-a suavemente em seus lábios carnudos. — Estamos casados, Richard. Eu não sabia por que aquelas palavras me agradavam, mas era o que faziam. — Estamos. Agora, temos de jantar com a família Gavin. Quais são as chances de eles darem um jantar simples? — Quase nenhuma... mas foi você quem concordou com isso. — Eu sei. Nem me lembre. Vamos assinar os papéis e encarar a música. — Ok. Paramos em frente à casa. Coloquei no ponto morto e olhei em volta suspirando de alívio. — Nenhum carro a mais. — Ainda bem. Olhei para a srta. Elliott.


Katharine. Sra. Van Ryan. Minha esposa. Puta merda. Eu estava casado. — Richard? O que foi? Você ficou branco. Balancei a cabeça. — Obrigado. De verdade, Katharine. Realmente agradeço. — Eu sei. — Não acho que conseguiria... — Não. — Você não sabe o que eu ia falar. — Você estava tentando me fazer esquecer sobre ouvir a história de sua infância. — São os problemas normais de uma família, Katharine. Por que trazê-los à tona? — Sinto que é importante. Baixei a cabeça nas mãos com um gemido com a forma como ela usou minhas próprias palavras contra mim. — Por favor, Richard. — Tudo bem — bufei. — Mais tarde. — Vou esperar. — Certo. Vamos acabar com essa merda. Ela virou os olhos com uma bufada de impaciência. — Bom, aquele esforço durou longos três minutos. Segurei minha nuca. — Esse não é um assunto fácil para mim. — Já entendi isso, mas não vamos falar disso no momento. Agora, seu novo chefe e sua família vão dar um jantar para nós. Erga sua cabeça, sorria e aja como se me amasse — ela insistiu, de novo jogando minhas palavras contra mim. Dessa forma, ela saiu do carro e se abaixou. — Você vem? Estupefato, só consegui assentir. Provavelmente, era o mais discreto que os Gavin conseguiam suportar. O deque de trás estava arrumado com uma mesa extravagante, com tule e luzinhas decorando a área, flores e velas cintilando na brisa leve. No canto, havia outra mesa pequena com um bolo de casamento. Os olhos de Katharine ficaram enormes quando ela olhou para mim. — Como eles fizeram isso em um dia? — O benefício do dinheiro e contatos — murmurei. Tinha de admitir que estava impressionado. Nossos anfitriões sorriram para nós quando chegamos, Laura deu um abraço apertado em Katharine. Graham me cumprimentou dando tapas no ombro, parabenizando-me, e eu sofri com os abraços e apertos de mão do restante da família. Eles eram, com certeza, um grupo que gostava de tocar. Dei um passo para trás, segurando a mão de Katharine como um talismã. Talvez, se eu a tocasse, eles parariam de me


abraçar. O jantar estava extravagante, tinha muito champagne, mas, desta vez, eu me contive. Só bebi um pouco de vinho e consumi água pelo resto da noite. Podia não haver fotos na cerimônia, mas Jenna e Laura compensaram com seus celulares, tirando fotos constantemente e gritando para nos beijarmos. Felizmente, Katharine havia bebido o suficiente desta vez, então não pareceu se importar. Na verdade, ela inclinava a cabeça ansiosamente, sorrindo e aceitando meu carinho. Copiando os outros casais da mesa, mantive meu braço em volta dela na maior parte do tempo, passando meus dedos por sua pele exposta. De vez em quando, eu me virava e a beijava suavemente no ombro ou pescoço e sussurrava algum comentário insano em seu ouvido, fazendo-a sorrir e rir. Éramos a imagem de um casal feliz apaixonado. Jenna se virou para ela em um momento. — Ah, Katy! Quase esqueci. Dou aulas de ioga e vai começar uma classe nova na próxima semana! Por favor, venha! Você vai amar. Julia concordou. — Adam cuida das crianças Eu vou em todas as aulas, até de iniciantes, gosto muito. Jenna é uma professora maravilhosa. Os olhos de Katharine brilharam com interesse. — Oh, eu gostaria disso! Sempre quis tentar. Quando? — Às terças à noite... é um curso de oito semanas para iniciantes. Há um intervalo, depois vamos para o próximo nível. A luz em seus olhos diminuiu. — Não posso... terça é a noite da música no asilo. Grupos locais vêm e apresentam para os moradores. Levo Penny em todas; ela ama. Eu detestaria não estar com ela; não pode ir sem mim. Eu notara a lista no quadro de agenda de Penny enquanto estava lá. Aquela semana era a noite de jazz. Eu adorava jazz. O fato de ir à ioga era algo que Katharine queria, me fez querer dar isso para ela, então falei. — Eu vou com ela. — O quê? — Você vai à aula. Está sempre dizendo que queria experimentar ioga. Vou jantar com Penny e a levo à apresentação. — Cutuquei-a com cautela. — Você sabe que adoro jazz. — Pisquei, zombando dela. — Talvez ajude com seu equilíbrio. — É ótimo para isso! — Jenna se entusiasmou. — É toda terça — Katharine enfatizou. — Tudo bem. — Eu gostava de todos os tipos de música, com exceção de rock pesado, e duvidava que esse gênero fosse incluído na agenda. — Acho que Penny e eu temos um encontro toda terça por um tempo. Ela se inclinou mais perto e sussurrou. — Tem certeza? — Sim — murmurei de volta. — Eu gostaria de passar mais tempo com Penny. — Olhei para ela. — Sinceramente. Ela me beijou no rosto. — Obrigada — ela sussurrou em meu ouvido. Virando-me, peguei sua boca.


— Por nada. Recostei-me com um suspiro. Estava feliz por poder fazer algo por ela. Vi Graham olhando para mim, concordando em aprovação. Olhei para baixo, quase agitado por seu apoio silencioso. Que esquisito, foi um dia emotivo. Depois do jantar, Laura nos fez colocar a mesa para o lado, liberando o espaço, insistindo que precisávamos dançar. Grato por termos praticado, ergui minha mão, sorrindo para Katharine. — Pronta para dançar com seu marido? Seu sorriso foi tímido, mas verdadeiro, quando ela colocou a mão na minha. — Estou, meu querido. Só não use toda sua energia na pista de dança. Pisquei. — Não se preocupe com isso, docinho. Eu a virei na pista de dança no meio da risada. Ela se aninhou em mim conforme nos movemos com a música. De novo, fiquei impressionado como ela se encaixava em mim — a forma como sua cabeça ficava na altura perfeita para ficar debaixo do meu queixo. Eu podia sentir seu cheiro suave, e gostava de seu cabelo sedoso na minha pele. Sorri quando giramos, nossos passos estavam sincronizados. Eu havia escolhido a esposa perfeita. Houve mais abraços, parabenizações e assobios quando fomos embora. Ficamos quietos no carro. Eu ficava olhando para Katharine. — Você está bem? — Hummm. — Sua cabeça está boa? Apoiando-se no encosto, ela assentiu. — Estou bem. Foi um bom dia. — Bom para um casamento repentino com um babaca? — Está entre meus dez melhores. Dei risada. Seu lado irônico aflorava mais a cada dia. Eu gostava disso. — Quantos anos de diferença têm Adam e Jenna? — Dez anos, eu acho. Ela me disse que foi uma surpresa. — O bebê da família. — A espoleta, eu acho. Adam é muito mais calmo. — Como Graham — ela refletiu. — Gosto de todos eles. São um grupo maravilhoso. — Eles gostam de você. — Estou tentando não me sentir culpada — ela admitiu. — Estão sendo tão gentis. — Ninguém vai se magoar aqui, Katharine. Vou fazer meu melhor por Graham. Ele vai ter alguém tão comprometido quanto qualquer um de sua família para ter certeza de que sua empresa prospere. — Mesmo assim, depois... — Vamos nos preocupar com isso mais tarde. É daqui a meses... vai demorar. Não remoa isso. Ela ficou quieta por um instante. — Obrigada por se oferecer para passar um tempo com Penny. Dei de ombros. Estava feliz que ela tinha deixado.


— Como eu disse, gostei dela. Preciso conhecê-la mais. Deveria fazer isso, como seu marido. Seria natural. Ela murmurou, concordando. — Acho que você os convenceu. Até Graham — ela adicionou. — Ele estava nos observando, e acho que gostou do que viu. — Concordo. Obrigado. Outro trabalho excelente, srta. Elliott. — É senhora Van Ryan, obrigada. Uma sensação esquisita passou por meu peito com suas palavras. — Corrijindo. senhora Van Ryan. Ela virou o rosto, olhando pela janela. — E não foi só um trabalho — ela sussurrou tão baixo que quase não ouvi. Eu não tinha resposta para sua declaração. Por algum motivo, entretanto, encontrei sua mão na escuridão e a apertei. Ficamos de mãos dados o caminho inteiro para casa. Ela caiu no sono antes de chegarmos ao nosso prédio. Eu sabia que estava exausta depois da noite anterior, e dos eventos do dia, então decidi deixá-la dormir. Abri a porta, erguendo-a e carregando-a para cima até o apartamento. Ela era pequena em meus braços, com sua cabeça descansando em meu ombro. Eu me vi incapaz de desviar o olhar dela conforme o elevador nos levava para cima. Assim que entramos no quarto dela, deitei-a na cama, sem saber o que fazer com o vestido dela. Ela despertou um pouco e, com meu encorajamento, conseguimos tirar seu vestido por cima da cabeça, então ela se deitou de costas, já dormindo. Abaixei-me ao lado de sua cama, observando-a dormir. Lingerie que combinava com o vestido, cobria seus seios, um triângulo da mesma seda escondia seu sexo intocado de meus olhos. Embora eu sempre pensasse que ela não fazia meu tipo, para minha surpresa, achei as curvas delicadas e partes do seu corpo sexies. Com cuidado, tracei um dedo em sua clavícula, desci pelo peito e cruzei o estômago. Sua pele era como cetim sob meu toque. Ela estremeceu dormindo, curvou-se para o lado, murmurando algo incoerente. Dobrou-se e flexionou seus dedos do pé, ajustando sua posição. Coloquei seus cachos escuros para trás e analisei seu rosto. O rosto que eu chamava de puro. Era tudo menos isso. Suas maçãs do rosto eram muito proeminentes e ela ainda estava muito magra, mas agora eu sabia que ela estava em um lugar seguro, era capaz de comer adequadamente e ter menos preocupações, ela seria mais completa. O cansaço seria apagado de debaixo de seus olhos e a beleza sincera e silenciosa que os outros viam, e que eu finalmente descobrira, brilharia. Balancei minha cabeça com os pensamentos estranhos que estava tendo sobre Katharine. O dia fora cheio de emoções que eu raramente, se algum dia já sentira, sentia. Eu sabia, sem dúvida, que era por causa da mulher diante de mim. Mas ainda não entendia por quê. Meu corpo estremeceu com a visão dela, e uma onda fresca de vergonha me atingiu. Eu não deveria estar observando-a dormir, independentemente de quanto ela estava tentadora seminua. Rapidamente, puxei o cobertor até seu queixo e apaguei a luz. Deixei sua porta aberta e me retirei para meu próprio quarto, preparando-me para dormir um sono agitado. Sua exaustão no carro foi apenas um breve adiamento. Eu sabia que, de manhã, ela perguntaria sobre minha história. Também sabia que lhe contaria, porque a questão principal era que eu devia a ela. Após tomar banho, olhei meu reflexo no espelho. A capa exterior fazia muita inveja. Aquela que cobria a pessoa perdida e vazia. Eu o havia ignorado por muitos anos, e agora Katharine iria trazê-lo à tona.


Estremeci, jogando minha toalha no chão. Tinha pavor dessa conversa. Atravessando o quarto, abri minha porta, embora soubesse que não precisaria de respirações confortadoras para ela naquela noite. Deitei-me na cama, uma ansiedade estranha tomou meus pensamentos. Desejando que ela estivesse deitada ali, esperando por mim.


18 Richard

Eu estava sentado ao balcão, bebendo minha terceira xícara de café, quando ela desceu no domingo de manhã. Ela pegou uma caneca — eu ainda não tinha tentado usar a cafeteira que apareceu na semana anterior, então ela me fez usar. Eu podia sentir seus olhares disfarçados conforme ela esperava a máquina fazer sua mágica. — O quê? — suspirei. — Eu dormi. — Você estava exausta. — Acordei na minha cama. Sem meu vestido. Arqueei a sobrancelha para ela. — É costume para um marido carregar a esposa pela casa e retirar seu vestido de casamento na noite em que se casam, eu acho. Uma cor vermelha-escura corou suas faces, enfatizando suas maçãs delicadas. Sorri e balancei minha cabeça. — Você me ajudou, Katharine. Dormiu, eu te cobri e saí do quarto. Pensei que, caso contrário, ficaria desconfortável. — Oh. Ela se sentou ao meu lado e bebeu seu café antes de notar o pacote embrulhado no balcão. — O que é isso? — Um presente. — Para mim? — Sim. Descobri que ela era uma rasgadora — nada gentil em abrir a fita e retirar o papel com cuidado. Ela segurou no canto e rasgou com a alegria de uma criança na manhã de Natal. Isso causou um pequeno sorriso em meu rosto. Ela olhou para a caixa. — O quê? — Sorri com sua confusão. — É uma máquina de waffle. — Você disse que queria uma, então comprei para você. Como um presente de casamento. — Dei risada. — Eu não poderia fazer caber uma mesa em um embrulho de presente. Acho que você terá de escolher uma. Ela ergueu o olhar para mim. — O presente que quero não custa nada que um pouco do seu tempo. Ela estava enganada. Eu sabia o que ela queria, o que eu tinha prometido a fim de que se casasse comigo.


— Você não vai esquecer isso, vai? — Não. Você sabe minha história. Quero saber a sua. — Ela ergueu seu queixo teimoso, destacando a fenda. — Você prometeu. Minha caneca de café bateu no granito com um pouco de força excessiva. — Certo. Desci do banquinho, tenso e agitado. Parei à janela, olhando a cidade, as pessoas pequenas e distantes — do jeito que eu queria que essas lembranças ficassem. Mas Katharine queria que eu as contasse. — Meu pai era um playboy. Rico, mimado e um babaca de verdade. — Dei risada, virando-me para olhar para ela com intensidade. — Tal pai, tal filho. Katharine foi para o sofá, sentou-se, permanecendo em silêncio. Virei de volta para a janela, sem querer muito olhar no olho. — Ele vivia intensamente, viajava muito, basicamente fazia o que queria, até meu avô chamar sua atenção. Disse para ele crescer e ameaçou tirar seu dinheiro. — Nossa — ela murmurou. — Ele e minha mãe se casaram pouco tempo depois. — Bom, seu avô deve ter ficado feliz. — Não o suficiente. Nada mudou muito. Agora eles festejavam juntos, ainda viajando e gastando um monte de dinheiro. — eu me mexi e me sentei à sua frente no pufe. — Ele ficou furioso e lhes deu um ultimato: se não lhe dessem um neto para pular em seu colo em um ano, ele iria tirar o dinheiro deles. Também ameaçou mudar seu testamento, tirando meu pai completamente. — Seu avô parecia um pouco autoritário. — Puxei dele. Ela virou os olhos e indicou que eu deveria continuar. — Então, eu nasci. — Obviamente. Encontrei seu olhar. — Não nasci do amor, Katharine. Nasci da cobiça. Não me queriam. Nunca me quiseram. — Seus pais não te amavam? — Não. — Richard... Ergui minha mão. — Minha infância inteira, toda minha vida, ouvi sobre como eu era uma inconveniência... para ambos. Como eles tiveram a mim para assegurar que o dinheiro continuasse entrando. Fui criado por babás, tutores e, assim que tive idade suficiente, fui mandado para um internato. Ela começou a morder a parte interna da bochecha, sem dizer uma palavra. — Em toda minha vida aprendi que a única pessoa em quem se pode confiar é você mesmo. Mesmo quando eu ia para casa durante as férias, não era bem-vindo. Inclinando-se para frente, segurei meus joelhos. — Eu tentei. Tentei muito fazer com que eles me amassem. Era obediente. Excelente na escolar. Fiz de tudo para que pudesse fazê-los reparar em mim. Não obtive nada. Os presentes que eu fazia na escola para o dia das Mães e dos Pais eram descartados. Meus desenhos, jogados no lixo. Não consigo me


lembrar de abraços ou beijos de boa-noite, ou de ter alguém para ler para mim na hora de dormir. Não havia empatia para joelhos ralados e dias ruins. Meu aniversário era marcado por um envelope de dinheiro. O Natal era a mesma coisa. Uma lágrima escorreu por sua face, ver isso me deixou assustado. — Aprendi muito cedo na vida que amor era um sentimento que não me interessava. Me deixava fraco. Então parei de tentar. — Não havia ninguém? — ela sussurrou. — Só uma pessoa. Uma cuidadora de quando eu tinha uns seis anos. Seu nome era Nancy, mas eu a chamava de Nana. Ela era mais velha, gentil e diferente comigo. Lia para mim, conversava, brincava, escutava minhas tagarelices de criança. Dizia que me amava. Enfrentava meus pais e tentava fazê-los prestar mais atenção em mim. Durou mais do que algumas, que é o motivo pelo qual minha lembrança dela é mais clara do que as outras. Ela foi embora, no entanto; todas elas foram. — Expirei forte. — Acho que meus pais pensavam que ela estava me mimando, então a demitiram. Eu a ouvi discutindo com minha mãe sobre como eles me mantinham isolado e que eu merecia mais. Acordei alguns dias depois com uma nova babá. — É ela que se parecia com Penny ? — Sim. — E depois disso? — Ninguém. — Você também não era próximo de seu avô? Parecia que era ele que te queria mais. Balancei minha cabeça. — Ele me queria para continuar o nome Van Ryan. Raramente o via. Ela uniu as sobrancelhas, mas permaneceu em silêncio. Eu me levantei, andando pela sala, meu estômago com nós enquanto me permitia lembrar. — Às vezes, meus pais mal conseguiam se suportar, então me deixavam sozinho. Meu avô morreu, e eles se separaram. Fui mandado para lá e para cá entre eles por anos. — Segurei minha nuca conforme a dor em meu peito ameaçava tomar conta de mim. — Nenhum deles me queria. Ia de um lugar para outro, só para ser ignorado. Minha mãe ficava saindo, viajando e socializando. Havia muitas vezes em que eu acordava e tinha um estranho para ficar como babá, enquanto ela continuava alegre. Meu pai ia de mulher em mulher; eu nunca sabia quem encontraria na sala ou na cozinha. — Fiz uma careta. — Na verdade, fiquei feliz quando eles me mandaram para a escola. Pelo menos lá eu conseguia esquecer. — Conseguia? Assenti. — Aprendi cedo a ignorar. Eu não significava nada para eles. Eles me diziam com frequência, demonstravam com sua negligência. — Bufei de desgosto. — Eu não tinha sentimentos por eles também. Eram as pessoas que pagavam pelas coisas que eu precisava. Nosso contato era quase limitado a conversas de dinheiro. — Isso é terrível. — Foi assim a minha vida inteira. — Nenhum deles se casou de novo? — ela perguntou depois de alguns instantes de silêncio. Dei risada; o som foi um pouco amargo e duro. — Meu avô havia estipulado uma condição em sua herança: se eles se divorciassem, o dinheiro do meu pai seria bloqueado. Minha mãe não poderia tocar no dinheiro, então eles ficaram casados


legalmente. Meu pai não se importava; ele tinha muitos recursos. Ele fodia todo mundo quando estavam casados e continuou quando se separaram. Eles combinaram um valor mensal, e ela vivia a vida que queria e ele também. Todo mundo saía ganhando. — E você estava perdido nessa confusão. — Katharine, eu nunca estive na confusão. Era descartado como o coringa no deque. No entanto, no fim, não importava. — Por quê? — Quando eu tinha quase dezoito anos, meus pais estavam com uma parceria. Esqueci o que era... algum tipo de sociedade. Estavam engajados. Por algum motivo, saíram juntos. Acho que ele a estava levando para casa, e um motorista bêbado bateu neles de frente. Ambos morreram instantaneamente. — Você ficou triste? — Não. — Deve ter sentido alguma coisa. — A única coisa que senti foi alívio. Não tinha de ir a lugares onde não me queriam, mas para manter as aparências. Mais importante, não tinha de fingir me importar com duas pessoas que nunca deram a mínima para mim. Ela fez um barulho estranho com a garganta, baixando a cabeça por um instante. Sua reação me deixou confuso. Ela parecia chateada. — Já que eles ainda eram legalmente casados, e seus testamentos nunca mudaram, herdei tudo — continuei. — Até o último centavo, o que é bem irônico, considerando que a única vez que fizeram alguma coisa boa para mim foi quando morreram. — É assim que consegue pagar seu estilo de vida? — Não totalmente. Eu raramente uso minhas poupanças. Usei para coisas importantes, como para comprar este apartamento e pagar minha educação. Nunca quis a vida que meus pais tinham: frívola e perdida. Gosto de trabalhar e saber que consigo sobreviver sozinho. Não dependo de ninguém. — É isso que está usando para me pagar? Esfreguei minha nuca, sentindo a umidade do estresse. — Sim, considero você importante. De novo, ela baixou a cabeça, seu cabelo caiu para frente e cobriu seu rosto. Sentei-me ao seu lado e a encarei. — Ei. Olhe para mim. Ela ergueu a cabeça. Suas faces estavam molhadas com lágrimas, seus olhos arregalados e suas mãos apertadas no sofá tão forte que estavam brancas. — Por que está tão chateada? — Você espera que eu fique calma depois de ouvir como você foi negligenciado a vida inteira? Dei de ombros. — É passado, Katharine. Eu te disse que não era bonito. Ainda assim, não faz parte do aqui e agora. — Discordo. Acho que faz, Richard. Balancei minha cabeça. — Nada vai mudar porque te contei minha história. — Talvez não para você. — Não entendo.


— Não, não estou surpresa. — O que isso significa? — Explica muito para mim. Por que você é do jeito que é quando interage com as pessoas. Por que não se aproxima de ninguém na vida. E por que não deixa as pessoas se aproximarem. Olhei para ela. — Não comece a me analisar. — Não estou analisando. Estou dizendo o que penso, só isso. — Não quero suas lágrimas nem sua empatia. — Isso é muito ruim, Richard... porque você tem as duas. Seus pais eram pessoas horríveis, e você, aliás, nenhuma criança merece ser maltratada ou ignorada. — Ela sorriu triste. — Mas você escolhe o modo de viver sua vida agora. Você acha que esqueceu o passado, mas não. A forma como vê o mundo, a forma como trata as pessoas é reflexo de como você foi tratado. — Ela se levantou, limpando as bochechas. — Se tentar, acho que pode descobrir que as pessoas nem sempre são horríveis como você pensa. Alguns de nós valem a pena, na verdade. Suas palavras me deixaram paralisado. — Não acho que você seja horrível, Katharine. É totalmente o oposto, na verdade. Eu sou uma pessoa desprezível. — Não, Richard. Você não é desprezível. Acho que é perdido. Você não se permite sentir. Quando o fizer, quando se permitir se conectar a outra pessoa, acho que vai achar o mundo um lugar muito melhor. Amor não o torna fraco. Amor de verdade, sincero, o torna forte. Com essas palavras, ela se abaixou e me beijou no rosto. Senti sua tristeza na minha pele, a umidade de suas lágrimas. — Obrigada por me contar. E, para seu governo, não acho que você seja igual ao seu pai. Você só acha isso porque não conhece outra forma. Eu acho que, se tentar, pode ser um grande homem. Ela se virou e saiu da sala, deixando-me com muita coisa para pensar.


19 Richard

Eu não sabia o que fazer depois da conversa com Katharine. Suas palavras ficaram ecoando em minha cabeça, fazendo-me questionar as verdades às quais eu me segurei por todos esses anos. Eu me senti drenado, e precisava parar essa onda de pensamentos, então mudei isso, indo para a academia. Malhei pesado, tomei banho, depois segui para meu quarto. Esperava que Katharine se aproximasse de mim querendo continuar a conversa, o que eu esperava evitar, mas ela estava ocupada na cozinha, sem fazer esforço para olhar para mim conforme passei. Na minha escrivaninha, havia um prato de sanduíches e uma garrafa térmica com café. Encarei a situação por um instante, depois, dando de ombros, perdi-me nos arquivos que trouxera para casa. Só no começo da noite que a vi de novo. — O jantar está pronto, se estiver com fome. Olhei para cima, apertando os olhos. — Richard, você precisa de um pouco de luz. — Ela cruzou a sala, acendendo o abajur da minha escrivaninha. Ela balançou a cabeça. — E talvez óculos. Estive reparando em como você segura as coisas perto do rosto quando lê — olhei para baixo, percebendo que ela tinha razão. — Vou marcar uma consulta para você — ela ofereceu, com um sorriso nos lábios. — Duvido que isso esteja na lista de tarefas de sua assistente. Tive de rir, mesmo enquanto virava os olhos para cima. Quando me encontrei com Amy na sexta, listando todas minhas expectativas, ela me surpreendeu com sua própria lista. As assistentes pessoais no Grupo Gavin eram totalmente diferentes da Anderson Inc. Ela estava lá para me dar apoio, manter-me organizado e até, de vez em quando, providenciar meu almoço, mas não estava lá para me fazer café, torrar um bagel ou pegar minha roupa na lavanderia. Dizer que fui colocado no meu lugar era apelido. Ela foi gentil o suficiente para me mostrar o lounge enorme dos funcionários, como usar a máquina de café e onde encontrar os bagels e outras comidas que Graham mantinha para sua equipe. Katharine teve de sair para esconder a risada quando eu lhe contei essa história. — Não é engraçado! — gritei para ela. — Ah, é, sim. — Sua resposta seca veio do fim do corredor. Tinha de admitir que ela estava certa. Pensando bem, não me matou ter de levantar e pegar um café. Era uma boa forma de esticar as pernas. Eu tinha uma sensação de que Amy seria muito econômica com o cream cheese no meu bagel, de qualquer forma. Katharine sempre o empilhava do jeito que eu gostava. — Cristo, estou ficando velho — resmunguei. — Óculos de leitura. Ela riu. — Sim, trinta e dois é ancião. Você ficará bem. Tenho certeza de que vai fazê-los ficarem bonitos em você. Ergui minha sobrancelha equivocada para ela.


— Ah, é? Está dizendo que vou ficar ainda mais sexy com óculos? — Não estou dizendo nada. Seu ego é grande o suficiente. O jantar está na cozinha se quiser. Com uma gargalhada, apaguei a luz, seguindo-a para a cozinha, ainda desconfiado. Algumas das minhas lembranças mais nítidas da infância eram as discussões constantes de meus pais. Minha mãe era como um cachorro com um osso, recusando-se a ceder um centímetro. Ela iria reclamar alguma coisa com meu pai, que, normalmente, explodiria. Eu estava preocupada que Katharine tentasse tocar no assunto de nossa conversa, mas ela não disse nada. Em vez disso, quando estávamos comendo, ela empurrou uma cor de tinta em minha direção. — O que acha? Analisei a cor esverdeada — Um pouco feminina para meu gosto. — É para o meu quarto. — Se você gosta, vá em frente. Ela me deu outra, e eu peguei. O tom de vermelho-escuro era forte e vibrante. Eu gostei. — Para onde? — Pensei em volta da lareira. Para ancorar a sala. Ancorar a sala? O que será que isso significava? — Só uma parede? — Pensei em pintar as outras com um creme escuro. Eu poderia viver assim. — Tudo bem. Uma série de tecidos apareceu em seguida. Era tweed com a mesma cor vermelho-escura queimada e o marrom-escuro dos sofás. — Para que é isso? — Algumas cadeiras para a sala. — Eu gosto da minha mobília. — Eu também. É bem confortável. Pensei em comprar mais; mudar um pouco. Elas ficariam bem ao lado da lareira. — O que mais? — Algumas almofadas, alguns outros toques. Nada muito grande. — Nenhum babadinho ou coisa de menininha aqui. Faça o que quiser no seu quarto. Ela sorriu. — Nada de menininha. Juro. — Quem vai pintar? — O quê? — Quem você contratou? — Eu vou fazer. — Não. — Por quê? Virei-me na cadeira, indicando o espaço grande. — Essas paredes têm três metros e meio, Katharine. Não quero que fique na escada.


— Meu quarto tem a altura normal de teto. Eu gosto de pintar. Penny e eu fazíamos isso juntas, e sou muito boa. Bati no topo do balcão com uma das paletas de tinta. Como eu poderia fazê-la entender que ela não precisava mais fazer essas coisas? Mantive minha voz paciente ao tentar de novo. — Você não precisa pintar. Vou pagar para que o façam. — Mas gosto de fazer. Serei cuidadosa. — Vou fazer um acordo com você. Pinte seu quarto, e vamos discutir a sala quando for a hora. — Ok. Outra série de tecido chamou minha atenção. Inclinando-me, peguei-a, sentindo sua grossura. Azulmarinho e verde brilhante xadrez em um fundo elegante. Segurei no ar, analisando. Não parecia para nenhum dos cômodos. — Você gosta desse? — Gosto. É impressionante. Para onde é? Ela olhou para baixo, para a mesa, a cor se espalhando e tingindo sua pele. — O quê? — Pensei que talvez quisesse pintar seu quarto quando eu terminar os outros. Vi e me lembrei de você. — Eu combino com xadrez? — Não — ela respondeu com uma risadinha. — As cores, elas combinam com seus olhos. O verde e o azul misturados... é uma combinação tão bonita. Eu não tinha resposta, mas, por algum motivo, senti que era eu que estava ruborizando agora. Empurrei as cores para ela e me levantei. — Vamos ver como o resto se desenrola. Mais alguma coisa? — Eu, ahn, preciso colocar minhas roupas no closet. Não quero que caia tinta nelas. — Meu closet é enorme. Não uso nem metade dele. Pendure suas coisas lá. Há uns cabides bem altos... seus vestidos caberão lá. — Você não se importa? — Tudo bem. — Obrigada. Inclinei minha cabeça e voltei para o quarto. Repassei a conversa em minha mente, rindo quando percebi o quanto tudo parecia tão doméstico. Discutir cores de tinta e tecido no jantar com minha esposa. Eu deveria ter odiado. Mesmo assim, de alguma forma, não o fiz. O trovão soou e as nuvens estavam baixas e pesadas. Virei minha cadeira, olhando para fora no céu escuro do fim da tarde. Fazendo uma careta, esfreguei minha nuca, reconhecendo os sinais de uma dor de cabeça. Elas eram raras, mas eu conhecia bem como começavam — a tempestade inesperada era o fato determinante. O escritório estava tranquilo naquela tarde, o barulho normal da atividade estava ausente. Adrian partira em uma viagem de última hora, Adam estava com clientes e Jenna estava fora. Graham havia pego Laura — para lhe fazer uma surpresa no fim de semana, e o resto dos funcionários estavam ocupados em suas próprias salas.


No tempo em que estive com o Grupo Gavin, descobri uma atmosfera completamente nova no mundo dos negócios. A energia antes era alta, o lugar era cheio de vozes, reuniões e estratégias, mas era um tipo diferente de energia da Anderson Inc. Era positivo, quase aconchegante. Como Graham me disse, eles trabalhavam juntos como uma equipe: administradores, assistentes pessoais, designers — todos envolvidos e tratados igualmente. Amy era uma peça tão importante quanto eu era. Demorou para eu me acostumar, mas estava começando a me sentir em casa. Com um suspiro, percebi que estava me acostumando em outras áreas. Antes de Katharine, eu trabalhava até tarde, ia a muitos jantares de negócios e saía com um monte de mulheres. Quando eu estava no apartamento, usava a academia, assistia a um programa de TV e entrava na cozinha só para pegar um café ou um prato para o jantar pedido fora. Do contrário, passaria o tempo no escritório trabalhando ou lendo. Raramente tinha companhia; e era raro levar uma mulher para casa. Meu apartamento era meu espaço privado. Se precisasse, ou iria à casa da mulher ou reservava um quarto de hotel. As raras vezes que meus relacionamentos duraram mais do que alguns encontros, eu as convidava para jantar, mas elas iam para casa no fim da noite, e nunca subiram as escadas. Agora, nos jantares de negócios aos quais eu ia, Katharine estava ao meu lado e a mesa cheia de colegas, suas esposas e, é claro, a família de Gavin. Em um jantar, eu olhei para cima, encontrando o olhar congelante de David do outro lado da sala. Eu sabia que David soubera de meu casamento, e meu nome não poderia ser falado nos corredores assombrados da Anderson Inc. Achei sua raiva divertida. Apertei minha mão no ombro de Katharine, fazendo-a olhar para mim. — O quê? — ela sussurrou. — David — murmurei. Ela olhou-o de lado, virando-se para mim. — Acho que preciso de um beijo agora. — Você leu minha mente. Com um sorriso maléfico, baixei minha cabeça. Os dedos dela se enfiaram na parte de trás do meu cabelo conforme ela me levou para mais perto, pressionando a boca na minha. Foi duro, profundo e curto demais; o suficiente para deixar David mais bravo, mas não para envergonhar Graham. Quando nos separamos, Jenna estava rindo, e David estava seguindo para a saída. Beijei mais uma vez Katharine. — Muito bem. Na maioria das noites, eu jantava com Katharine e me via conversando sobre meu dia, compartilhando projetos com ela, querendo ouvir seus pensamentos. Ela me conhecia melhor que qualquer um no escritório, e normalmente dava uma palavra ou um conceito no qual eu não tinha pensado. Em vez de ficar no escritório, eu normalmente levava meu laptop para a sala, trabalhando enquanto ela assistia à TV ou lia. Descobri que gostava de sua companhia silenciosa. Convidamos Adrian e Jenna para jantar duas vezes, usando a nova mesa que agora ficava no espaço antes vazio. Katharine me assegurou que era uma coisa que um casal normal fazia — socializavam com outros casais. Descobri um lado dela muito competitivo quando Jenna anunciou que trouxera alguns jogos de tabuleiro para depois do jantar. Virei meus olhos para cima ao pensar na noite dos jogos e sobre o fato de eu ter gostado da camaradagem. Adrian e eu acabamos com elas no Trivial Pursuit, mas elas nos deixaram no chinelo no Pictionary e Scrabble. Depois de algumas taças de vinho, Katharine ficou desbocada e gostava de falar palavrão, o que eu achava bem engraçado. Fez-me lembrar de Penny. Agora eu havia tido quatro encontros com Penny enquanto Katharine ia para a ioga. Ela ficou surpresa


em me ver na primeira terça-feira, mas, assim que tirei os bombons de cereja cobertos com chocolate que Katharine me disse que ela amava, fui bem-vindo. O trio de jazz era surpreendentemente bom, e nós dois curtimos a música antes de voltar para o quarto dela a fim de tomar chá e conversar. Eu gostava de ouvila falar e escutar as lembranças que ela gostava de contar para mim. Ela deixava algumas dicas escaparem sobre ela e Katharine, que eu podia guardar para referência futura. Na quinta seguinte, escapei para voltar lá e vê-la no almoço, dando-lhe um cheeseburger que ela confessou estar desejando. Nossos dois encontros seguintes foram para prestigiar grupos locais, e saímos mais cedo para tomar chá, ouvir mais histórias de Katharine e comer qualquer besteira que eu tivesse trazido para ela naquele dia. Na terça anterior, havia sido um grupo clássico, mas ela estava inquieta e ansiosa, e muito mais esquecida. Na metade do caminho, eu a levei de volta para seu quarto, torcendo para que o ambiente familiar a confortasse. Ela se acalmou um pouco, mas ainda parecia chateada. Quando procurei Tami, ela me disse que isso estava acontecendo cada vez mais com frequência e, geralmente, Katharine tentava acalmá-la. Eu liguei para ela, e ela foi até o asilo, saindo de sua aula de ioga imediatamente. Quando ela chegou, Penny estava dormindo na cadeira, acordou quando ouviu a voz de Katharine. — Oh, minha Katy! Eu estava te procurando! — Estou bem aqui, Penny. Richard me ligou. — Quem? — Richard. Apareci por trás de Katharine. — Olá. Ela franziu o cenho. — Eu te conheço? Senti uma ferida pequena em meu coração aberto, mas ergui a mão. — Sou um amigo de Katharine. — Oh. É um prazer conhecê-lo. Quero um tempo com minha filha, se nos der licença. Levantei-me. — É claro. Katharine sorriu triste. — Te vejo mais tarde. Embora eu soubesse que isso fazia parte da doença, incomodou-me ao ponto de voltar lá para ver Penny no dia seguinte. Comprei um buquê de suas flores favoritas — margaridas — e a presenteei com uma reverência. Seus olhos escuros brilharam em suas bochechas gorduchas e ela deixou eu dar um beijo em sua pele aveludada. — Eu vejo por que Katy é tão ligada a você, Richard. — Ela é? Bom, sou charmoso. — Sorri para ela, aliviado. Ela apertou os lábios. — Acho que é mais do que isso. Ignorando suas palavras, fiquei até ela dormir. Saí mais calmo, de alguma forma. Se me deixava chateado o fato de ela não me reconhecer, pude imaginar o quanto aquilo afetava Katharine. Fiquei intrigado por que aquilo me preocupava. No entanto, ficara preocupado. Decidi que precisava começar a marcar de visitar mais vezes com Katharine, além das visitas sozinho.


Voltei para o arquivo diante de mim. A campanha da Kenner Footwear que eu tinha palpitado para Graham havia sido um grande entusiasmo pelo cliente, e eu ainda estava trabalhando em todos os conceitos diferentes. Massageei minha têmpora, desejando poder me concentrar mais. Quando falei com Graham ao telefone mais cedo, ele me disse para sair mais cedo, e fechei o arquivo, desligando meu laptop. Talvez eu aceitasse sua oferta. Poderia ir para casa e ver quais mudanças foram feitas naquele dia — ver o que minha esposa estava aprontando. Minha esposa. Katharine. De alguma forma, desde que trocamos os votos, permanecemos em uma trégua não combinada. As coisas que eu sempre achei irritante não me incomodavam mais. Talvez fosse porque eu entendia de onde vinham. Talvez eu fosse mais paciente porque ela me entendia. Entre nossas conversas, Penny, ioga, tinta, jantares e jogos, nós nos tornamos... aliados. Talvez até amigos. Tínhamos um objetivo comum e, em vez de ficarmos brigando e discutindo, quase nos ajustamos em uma vida juntos. Eu sabia que minha língua era afiada. O que antes era maldoso, agora era brincadeira. Eu gostava de ouvi-la rir. Ficava ansioso para compartilhar meu dia com ela. Quando ela estava triste por um dia ruim com Penny, eu queria animá-la. Eu a levara para jantar algumas vezes, simplesmente para ela se arrumar e se divertir. Eu me vi querendo ser carinhoso com ela. Parecia natural dar as mãos, beijar sua testa ou seus lábios — e nem sempre quando estávamos em público. Ela frequentemente beijava minha cabeça quando ia para seu quarto, e havia vezes em que eu a abraçava ou beijava suas faces em agradecimento pelo jantar ou para dizer boa-noite. Eram ações sem pensar — tudo fazia parte de estar com ela agora. Talvez naquela noite, eu a surpreendesse. Sugerisse para sairmos se ela quisesse. Poderíamos passar e visitar Penny, e levar algum doce que ela amasse — ou poderíamos pedir comida. Afinal, eu poderia relaxar, ela poderia assistir a um dos programas que gostava ou poderíamos ver um filme. Talvez uma noite tranquila ajudaria a acalmar minha cabeça. Eu perguntaria o que ela queria. Ainda gostava de ver a surpresa e confusão em seu olhar quando eu perguntava o que ela queria. Abri a porta, ouvindo vozes e reconheci as duas e sorri. Jenna estava lá... de novo. — Katharine, docinho! Passos apressados vieram até mim e ela apareceu. Ela estava incomumente acabada. Eu estava acostumado a vê-la calma e fiquei surpreso quando ela envolveu os braços em meu pescoço, puxando-me para perto. — Você está bem? — murmurei em seu ouvido. — Jenna tem medo de tempestades... Adrian está fora. Ela perguntou se pode ficar aqui até as tempestades acabarem. O alerta em suas palavras me atingiu. — Seu quarto? — perguntei, preocupado. — Sim. Recuei. — Ele está...? — Todo arrumado, sim. — Ok.


— E-eu nã-não... — ela balbuciou. — Está tudo bem. Andei à frente dela, puxando-a atrás de mim. — Ei, Jenna. A mulher que eu estava acostumada a ver perambulando, entusiasmada e vibrante estava curvada no canto do sofá, parecendo tudo menos vibrante. Estava pálida e parecia estar morrendo de medo. — Desculpe, Richard. Tempestades me deixam aterrorizada. Com meus pais e Adrian fora, eu não sabia o que fazer. A casa é tão grande quando ele está fora. Sentei-me ao seu lado e dei um tapinha esquisito em sua perna. — Está tudo bem. Estou feliz que veio. — Katy disse que vocês não tinham nenhum plano para eu interromper. — Não. Na verdade, estou com dor de cabeça. Estava ansioso para uma noite tranquila em casa. Vamos ficar juntos, ok?! Ela pegou minha mão com a dela trêmula. — Obrigada. Levantei-me. — Sem problemas. Vou me trocar e tomar um banho. — Vou te levar um Tylenol — Katharine ofereceu. — Você está pálido, Richard. Tem certeza de que está bem? — Vai passar. Posso dormir um pouco. — Vou levar uma compressa fria também. Passei por ela, parando para dar um beijo de agradecimento em sua cabeça. — Obrigado... isso vai ajudar. Lá em cima, fui olhar seu quarto, sem ter visto enquanto ela o estava reformando. Houve uns atrasos com os móveis que ela encomendou, então o quarto levou mais tempo do que ela tinha planejado, só tendo sido terminado aquela semana. Havia uma mala no chão que eu presumia ser de Jenna. O quarto estava completo, parecendo o que Jenna pensaria ser um quarto de hóspedes. Vazio. Não havia nada de Katharine espalhado. Ela tinha adicionado uma prateleira de livro e desfeito algumas de suas caixas, as bugigangas e os livros preenchiam as prateleiras. Uma nova chaise estava no canto, uma mesinha e um abajur ao lado. Algumas das telas de Penny decoravam as paredes. Eu abri as gavetas da cômoda e do closet, vendo que estavam vazias, além de algumas caixas guardadas no closet. A cama estava arrumada com lençóis novos que ela comprara. Estava bem encenado. Fui para meu quarto e tive de parar por um momento. Katharine estava em todo lugar. Seu robe estava jogado no pé da cama, o vermelho-escuro de seda brilhava na luz. Algumas fotos de Penny e nós estavam espalhados por todo canto. O criado-mudo antes vazio agora tinha livros e um copo com água pela metade. O topo da cômoda tinha seu perfume preferido, vasos e garrafas espalhados. Sem nem olhar, eu sabia que as últimas gavetas da cômoda estavam com suas roupas, e o closet ainda abrigava coisas dela que ela havia planejado trazer para cá nesta semana. No banheiro, sua escova de dentes estava ao lado da minha; seus cremes diários estavam no balcão. Ela deve ter arrumado aquilo como um furacão, para fazer parecer que era seu quarto também. Ela estava esperando quando saí do banho, segurando a compressa fria e os comprimidos. Ela fechara a porta, dando-nos um pouco de privacidade. — Quanto tempo você teve? — perguntei, mantendo a voz baixa.


— Uns cinquenta minutos. Um monte dos itens estão nas caixas que eu não tinha aberto. Troquei tudo o mais rápido que consegui quando ela ligou, chorando, perguntando se poderia vir. Ela ligou do celular... Eu lhe disse que estava fora e que chegaria em casa em uma hora. Não sabia como dizer não. — Você não podia — reconheci. — Concorda com isso? Suspirei e ergui minha mão para pegar os comprimidos. — Está tudo bem. Graças a Deus, é uma cama king-size. Você fica com sua metade e eu fico com a minha. — Sorri. — Você pode ouvir o assobio mais de perto. Seus olhos ficaram redondos, fazendo-me gargalhar. Ela ficara tão ansiosa em preparar tudo que não pensara no que aconteceria depois. Engolindo os comprimidos, peguei a garrafa de água que ela estava segurando. — A não ser que, é claro, você queira retomar o tópico de “foder ou não foder”. Já resistiu por um mês. Ela me olhou furiosa e não pude resistir e me abaixei e a beijei na boca. — Pensei nisso, docinho — murmurei contra sua maciez. Eu estava ficando cansado da minha mão. Ela colocou as mãos na cintura. — Duvido que faça sua performance estelar neste momento. Principalmente estando sem prática... e com dor de cabeça. Sorri ao cair no colchão, gemendo de alívio quando ela colocou a compressa na minha cabeça. — Eu estaria disposto a me esforçar ao máximo. Fiquei chocado ao sentir sua boca na minha de novo. — Vá se foder, Van Ryan. Suas palavras não tinham veneno, e minha oferta era brincadeira. Nós dois sabíamos disso e demos risada, o som de nossa diversão baixo no quarto. — Descanse, venho te chamar para jantar. Peguei sua mão e a beijei. — Você está ficando bonzinho — ela cochichou, passando a mão por minha cabeça dolorida. Fechei os olhos e me rendi ao seu toque delicado. — Tudo culpa sua — resmunguei. — Eu sei — ela respondeu ao fechar a porta.


20 Richard

Passar a noite com duas mulheres tensas e nervosas foi interessante. Jenna não era normalmente rígida, o que era desconcertante, mas Katharine foi a grande surpresa. Havia me acostumado com sua personalidade quieta, mas, naquela noite, ela estava falando muito. Incessantemente. Entre mostrar a Jenna seus planos para a sala, “nosso quarto”, fazer infinitas perguntas sobre a história da ioga, as perguntas generalizadas sobre cada membro da família Gavin e do escritório, assim como qualquer outro assunto que parecia passar por seu cérebro, ela falava sem parar. Também não se sentava. Ela ficava andando pela sala, usando as mãos para demonstrar suas ideias. Ela pegou, moveu, amarrou e endireitou cada objeto na sala pelo menos duas vezes. Ficava dando tapinha no ombro de Jenna, certificando-se de que ela estava bem, e a compressa fria que manteve no meu pescoço era trocada a cada vinte minutos. Acho que nenhuma vez ficou à temperatura ambiente. Eu tinha de admitir que, quando ela ficava atrás de mim, falando, eu não me importava que seus dedos massageassem meu pescoço, ou com a forma que ela apoiava minha cabeça em sua barriga e passava os dedos em meu cabelo repetidamente. O carinho era bom, e minha dor de cabeça começou a se dissipar, apesar da falação constante. Mesmo assim, seu comportamento era perplexo. Até Jenna ergueu a sobrancelha para mim mais de uma vez. Ergui um ombro, sugerindo a única coisa que fazia sentido quando Katharine não estava ouvindo. — Ela também não gosta de tempestades. Minha explicação pareceu satisfazer sua curiosidade. Lá pelas dez, a tempestade diminuiu, o trovão se tornou um ruído baixo e menos frequente, embora a chuva continuasse a bater nas janelas ao nosso redor. Jenna se levantou. — Vou colocar meus fones de ouvido, aumentar a música e colocar minha máscara noturna. Talvez possa dormir antes de dar outro trovão. Katharine se levantou também. — Tem certeza de que ficará bem? Posso dormir na chaise e ficar por perto. Jenna balançou a cabeça e a beijou na bochecha. — Ficarei bem. Saber que está do outro lado do corredor vai ajudar. Só não consigo ficar sozinha. Geralmente, mamãe e papai estão quando Adrian está fora. Adam e Julia estão tão ocupados com as crianças e detesto incomodá-los. Vocês estão salvando minha vida hoje. Ela se abaixou e me beijou no rosto. — Obrigada, Richard. Sei que já me vê bastante no escritório. Realmente agradeço. — Não há problema. — Se precisar de mim, venha me chamar — Katharine ofereceu.


— Vou tentar não fazê-lo. Ela subiu os degraus, deixando-nos a sós. Eu analisei sua linguagem corporal. Tensa era o mínimo. Se ela ficasse mais rígida do que estava, estaria com dor de cabeça logo. — Ei. Ela se assustou e olhou para mim com os olhos arregalados. — O que há de errado? — Nada. Por que pergunta? Sorri. — Você está como um gato no telhado quente a noite toda. Ela se apressou pela sala, arrumando seus arquivos já arrumados, endireitando o jornal que eu estava tentando ler e pegando os copos para levar à cozinha. — Não sei do que está falando. Está com fome? — Não. — Posso fazer um sanduíche. — Não. — Quer café? Comprei um descafeinado. Ou, talvez, alguma torrada ou outra coisa? Você não comeu muito no jantar. — Katharine — alertei, minha voz estava ficando impaciente. Ela colocou os copos que estava segurando no balcão. — Vou dormir. Ela subiu as escadas correndo, deixando-me mais confuso do que nunca. Eu a segui não muito tempo depois, deixando algumas luzes acesas no caso de Jenna precisar andar pelo apartamento. A última coisa que eu precisava era ter de ligar para Adrian e dizer que sua esposa havia caído nas escadas à noite, e ter de levá-la ao hospital. Graham e Laura também não ficariam extremamente impressionados. A chuva estava aumentando de novo, a tempestade ganhava força do lado de fora, imaginei se algum de nós iria dormir naquela noite estranha. Lá em cima, fechei minha porta, a visão do montinho em minha cama me lembrou que eu não passaria a noite sozinho. Katharine estava aconchegada debaixo do cobertor o mais perto da beirada da cama que conseguia sem cair. De repente, seu comportamento esquisito fez sentido. Iríamos compartilhar a cama hoje, e ela estava nervosa. Um sentimento diferente — de gentileza — passou por mim. Fiquei admirado ao observá-la naquela noite como ela deveria ter uma alma gentil. Ela perdeu os pais, sobreviveu o que eu sabia que devia ser uma época difícil depois de eles morrerem, embora ela não tivesse me dado muitos detalhes. Ela nunca falava sobre sua época nas ruas, o que deve ter sido horrorosa. Ela se preocupava comigo, importava-se com Penny e não pensou em nada para ajudar sua amiga, mesmo que ela tivesse de mudar toda sua vida para fazê-lo — e ela fez tudo isso com um de seus sorrisos mais calorosos. Ela era maravilhosa. Encontrei uma calça de pijama e uma camiseta. Preferia dormir só de cueca boxer, mas não queria que Katharine ficasse ainda mais desconfortável do que claramente já estava. Depois de me trocar, deitei-me ao seu lado, esperando que ela dissesse alguma coisa. Houve apenas o silêncio. Apoiando-me no cotovelo, olhei por cima do ombro dela, tirando a camada pesada de cabelo de seu


rosto. Ela não falou nem se mexeu, ficando parada, e seus olhos permaneceram firmemente fechados. Seu peito se movia muito rápido para ela estar dormindo. Abaixei-me até ela, perto de seu ouvido. — Fingida — sussurrei. Ela estremeceu, enterrando o rosto mais ainda no travesseiro. Beijei seu ombro nu e puxei o cobertor. — Relaxe, Katharine. Serei um perfeito cavalheiro. Estiquei-me, apaguei a luz e fiquei lá deitado, ouvindo suas respirações curtas e nervosas. Devia ser uma sensação estranha tê-la na minha cama, mas, mesmo assim, não era desagradável. Eu podia sentir seu calor e seu cheiro suave. Porém, de alguma forma, a cama parecia errada. Levei alguns instantes para perceber por quê. Havia uma vibração constante — o suficiente para fazer o colchão tremer. Olhei para ela, analisando sua forma encolhida. Ela estava tremendo. Ela estava com tanto medo de mim assim? Virei de lado, esticando e passando o braço ao seu redor, trazendo-a para perto de meu corpo. Ela soltou um gritinho surpreso, seu corpo ficou rígido. Os tremores passavam por ela constantemente, e suas mãos seguravam meu braço como um gelo. — Katharine, pare com isso — murmurei. — Não vou fazer nada. — Não é isso. Bom, não é só isso. — É a tempestade? — É... é o vento — ela confessou. — Detesto o barulho assombrado dele. Eu a puxei para mais perto, e outro tremor passou por todo seu corpo. — Por quê? — Na noite em que meus pais morreram, houve uma tempestade. Era como essa. Barulhenta. O vento levava o carro como se fosse uma pena. Meu pai perdeu o controle e o carro capotou. Meu coração começou a bater mais rápido. — Você estava com seus pais naquela noite? — Eu estava no banco de trás. Quando aconteceu, as janelas explodiram e o vento estava muito barulhento, e fiquei com medo. Ficava perdendo a consciência, mas eu estava com tanto frio que conseguia ouvir o vento assombrando... e nunca parava. — Sua voz baixou. — Eu sabia que eles estavam mortos, e eu estava sozinha e presa. Minha garganta se apertou com a dor em sua voz. Ela nunca tinha me dito nada daquilo até agora. — Você estava machucada? Em silêncio, ela pegou minha mão e pressionou no topo de sua perna. Debaixo do tecido fino de sua camisola, eu podia sentir uma cicatriz comprida e contorcida descer pelo lado de fora de sua coxa. — Tive uma concussão e minha perna foi amassada quando o carro capotou. Precisei de duas cirurgias, mas sobrevivi. — Ela limpou a garganta. — Por isso que às vezes tropeço ou perco meu equilíbrio. Ela trava. Todas as vezes que eu zombei dela, virei os olhos e a observei se esforçar para se levantar passaram por minha mente. Vergonha, quente e fervilhante, fez-me apertar os braços e baixar o rosto em seu pescoço. — Desculpe, docinho. — Não é sua culpa. — Não. Desculpe pelo que você passou, mas não é disso que estou falando.


— Oh — ela respirou, sabendo o motivo de minhas desculpas. — Bom, você não sabia. — Nunca me preocupei em perguntar, no entanto, não é? — Acho que não. As palavras seguintes que saíram da minha boca me chocaram. — Me perdoe por isso. — Perdoei. Virei-a de costas, ficando acima dela, olhando seu rosto na escuridão. Os flashes de luz dos raios iluminavam seu rosto pálido, e as lágrimas escorriam de seus olhos. — Me perdoe por tudo, Katharine. — Eu perdoei. — Como? — sussurrei. — Como consegue perdoar assim? Como consegue ficar perto de mim? — Porque você está tentando. — É assim tão fácil para você? Um pouco de esforço da minha parte e você perdoa? — Eu tinha de te perdoar para fazer isso com você. — Para certificar de que Penny estivesse bem cuidada. Hesitante, ela ergueu uma mão, colocando-a em meu rosto, seus dedos acariciando minha pele. — Esse foi um motivo. — Qual foi o outro? — Vi alguma coisa… no dia em que me contou da reunião com Graham. Vi um lado diferente seu. Pensei... — Pensou o quê? — perguntei quando sua voz sumiu. — Pensei que poderia ajudá-lo a sair dessa atmosfera venenosa da Anderson, talvez você conseguisse encontrar o Richard verdadeiro. — O Richard verdadeiro? — Eu acho... Acho que você é mais do que deixa as pessoas verem. Mais do que deixa você mesmo ver. Vejo cada vez mais seu eu verdadeiro aparecer. Cedi ao seu toque, absorvendo suas palavras. Automaticamente, torci um cacho de seu cabelo nos dedos, acariciando sua maciez. — Como é meu eu verdadeiro? — perguntei, com a voz baixa, quase implorando. Eu queria conhecer seus sentimentos... o que ela pensava de mim. — Forte, carinhoso. Capaz. Talentoso. — Ela parou e suspirou. — Gentil. — Você vê coisas que não existem. — Existem, sim. Você não está pronto para ver ainda. Mas vai — ela me assegurou. Eu a encarei maravilhado. Gentil não descrevia sua alma. Não chegava nem perto. Eu não sabia se conhecia uma palavra que o fizesse. Angelical, talvez? O que quer que fosse, o que quer que ela fosse, eu não merecia seu perdão, a opinião positiva que ela tinha de mim — com certeza eu não a merecia. Uma rajada forte de vento balançou o vidro nas janelas grandes, a chuva furiosa batia contra os painéis. Katharine ficou tensa, direcionando seu olhar para o barulho. Abaixei e a beijei. Foi gentil, nada mais que um encostar de nossos lábios; o dela trêmulo e macio pressionado na minha boca humilde e sem valor. Eu a beijei com a delicadeza que deveria sempre usar ao falar com ela. Eu me movi, encostando suas costas em meu peito.


— Durma, docinho. Você está segura. Nada vai te machucar, eu juro. — Eu nunca dormi com alguém assim, Richard. Dei outro beijo em seu pescoço, querendo que ela entendesse, conhecesse algo de mim que me fizesse valer sua fé. — Nem eu, Katharine. Você é a primeira mulher com que estive nesta cama. — Oh, ahn... Sorri contra sua pele. — Nunca deixei ninguém ficar aqui. Este é meu porto seguro. Só meu. — Apertei meu abraço. — Agora, deixe ser seu. Durma. Estou com você. Fechando meus olhos, relaxei em seu calor. Nossos corpos unidos do peito aos quadris, nossa carne procurando e encontrando alguma coisa no outro. Conforto. Sussurros. Eu podia ouvir sussurros quando acordei, sonolento e quente — quase quente demais. Eu estava rodeado pelo calor e alguma coisa que cheirava sedutoramente bem. Meu travesseiro pinicava meu rosto e enruguei o nariz, tentando diminuir a coceira, enterrando-me mais fundo na maciez bemvinda. Meu travesseiro riu um pouco, e os sussurros começaram de novo. Forcei-me a abrir os olhos. A luz incomodava, o céu ainda estava escuro e chovia muito lá fora. Ergui minha cabeça e vi o olhar divertido de Jenna, que estava sentada no chão ao lado da minha cama, com uma xícara de café na mão. — Bom dia — ela disse com um sorriso. — A tempestade está tão ruim que você teve de se esconder aqui? — Vim pegar Katharine, mas ela não conseguiu sair debaixo de você, então estamos tomando café bem aqui — ela ironizou. Olhei para baixo, percebendo que ela tinha razão. Eu estava abraçado o mais firme possível em Katharine. Cada centímetro de mim tocava seu corpo. Eu estava com uma mão emaranhada em seu cabelo e a outra a segurava como uma barra de ferro. Minhas pernas estavam entrelaçadas nela e meu pau — meu pau absolutamente ereto e desesperado por alívio — estava pressionado em sua bunda. Sua bunda firme e aconchegante parecia o paraíso aninhado em minha ereção dolorosa. Enterrei o rosto de volta no pescoço de Katharine, ficando maravilhado em como era natural acordar com ela desse jeito. — Vá embora, Jenna — resmunguei. Katharine empurrou meu braço. — Me solte. Beijei seu pescoço, gostando do arrepio daquela manhã. Diferente dos tremores medrosos da noite anterior, aquele era de prazer. Descia por sua espinha, flexionando seu corpo, endurecendo sua bunda em meu pau. — Cinco minutos, Jenna. Me dê cinco minutos — adicionei com uma voz gutural. Ia levar só dois. Ela se levantou, rindo. — Homens — ela bufou. — Encontro você lá embaixo. Assim que a porta se fechou, virei Katharine, grudando minha boca na dela. Beijei-a forte, precisando sentir seus lábios nos meus. Acariciei sua língua, traçando o contorno de sua boca, mordiscando, ainda desesperado. Recuei, arfando.


— Você está me matando. — Eu estava dormindo — ela protestou. — Dormindo. — Você é muito boa. — Empurrei contra seu quadril. — Jesus, Katharine. Seus olhos se arregalaram; o brilho do medo cintilando o desejo no qual eu estava me afogando. Que porra eu estava fazendo? Voei para longe dela, meu peito arfando. Joguei meu braço sobre o rosto. — Desça. Preciso de um banho. Um banho frio e demorado. — Sinto muito. — Está tudo bem — resmunguei, pegando seu braço. — Espere. Não vá ainda. Só... só fique aqui por um ou dois minutos. Não quero que Jenna pense que eu, ahn, tenho falta de vigor. Sua boca se abriu, mas nenhum som saiu. Erguendo meu braço, flexionei os dedos ao olhar para ela. — Juro que estou sofrendo de síndrome do Túnel do Carpo. Vou precisar de cirurgia. Katharine começou a rir. Seus ombros vibravam conforme ela enterrava o rosto no travesseiro, suas risadas se tornaram uma gargalhada. A cama tremia com a força de sua risada. Os cantos de minha boca se ergueram. — Não é para rir. Ela não parava, e comecei a rir com ela. Propositalmente, fiquei sobre ela, deixando meu pau pesado e duro encostar em seu corpo. Ergui seu rosto do travesseiro; suas bochechas estavam rosadas, seus olhos brilhavam com diversão. Eu a beijei de novo. — Precisamos conversar sobre expandir nossos limites. Antes que eu exploda. Eu a deixei deitada lá, sem palavras. Mas ela ainda estava sorrindo. E não disse que não.


21 Richard

Jenna recebeu uma ligação de Adrian enquanto tomávamos café da manhã, dizendo que ele ficaria fora até domingo. Com a tempestade à nossa volta, asseguramos a ela que ela era bem-vinda a ficar até que ele viesse pegá-la no dia seguinte. Não havia outra opção. Além disso, ela fez Katharine rir, e eu gostava do som que ouvia. Queria que acontecesse mais vezes. Nós três fomos ver Penny enquanto a tempestade diminuía, leve e controlada. Insisti em comer cheeseburgers, deixando escapar quantas vezes deixei de comê-los por ela. Katharine ficou chocada ao perceber a quantidade de vezes que eu cheguei em casa sem dizer uma palavra. Seus olhos brilharam com apreciação quando ela se esticou e me beijou, pegando-me de guarda baixa. Puxei-a para mais perto e aproveitei toda a vantagem do fato de termos um público cativo com Jenna, beijando-a até ela ficar vermelha e envergonhada. Jenna piscou para mim conforme peguei uma sacola pesada de hambúrgueres com um sorriso amplo. Penny estava quieta, mas lúcida, quando chegamos. Ela riu quando ofereci uvas para Joey. Ele gostava de pegá-las, e eu não tinha de cortar nada ou subornar Tami para fazer isso para mim. Certamente, a loja de chocolate que eu frequentava havia explodido nas vendas nas últimas semanas, e os funcionários sempre esperavam que eu trouxesse toda visita. Eu nunca os decepcionava. Jenna estava parecendo mais ela mesma, amigável e tagarela, entretendo Penny com histórias de sua família. Deu-me a chance de sentar e observar Katharine com Penny. Ela se sentou ao seu lado, segurando sua mão. Ela segurava o rosto de Penny, passava a mão em sua testa, alisando os cabelinhos enquanto elas conversavam ou riam. Ela brincava e encorajava Penny a comer, colocando um guardanapo sob seu queixo quando ela brigava com ela por fazer sujeira. Penny torceu o nariz para ela. — Pare de ser tão mandona, minha Katy. — Ela é autoritária — murmurei. — Ela me fala isso o tempo todo. — Dou o troco — Katharine riu. — É para isso que servem as esposas! — Jenna riu. Katharine e eu congelamos. Nunca mencionamos estar casados para Penny. Nossos olhares se encontraram por cima de sua cabeça, sem saber o que fazer em seguida. Penny se sentou, esquecendo-se de seu almoço. Olhou para nós dois. — Vocês são casados? — Ela se virou para Katharine. — Você se casou e não me contou? Katy, você está grávida? Katharine balançou a cabeça. — Não, Penny, não estou grávida. — Mas está casada. — Sim. Penny olhou para mim, empurrando sua bandeja de comida para longe. — Gostaria de falar com minha filha em particular.


Fiquei andando de um lado para o outro no corredor, meus olhos fixos na porta fechada. Com um gemido, apoiei contra a parede, deixando minha cabeça cair na superfície dura. — Richard, me desculpe — Jenna pediu. — Não fazia ideia de que ela não sabia. Nunca passou pela minha cabeça que ela não soubesse. — Claro que não. — Ela não sabia? Não tinha simplesmente esquecido? Eu queria mentir e dizer que tínhamos contado para Penny. Que a doença era a culpada, não a gente. Só que estava ficando cansado de mentiras. Saí de perto da parede, esfregando minha nuca. — Katharine passou por uma época difícil na adolescência. Há mais em sua história do que o que você sabe, mas é a história dela para contar. Penny é tudo para ela, e estava tentando proteger seu bem-estar. Ela assentiu, esperando que eu continuasse. — Eu que incentivei, Jenna. Eu a persuadi. Eu estava sempre à frente dela no relacionamento inteiro. Ela não queria que eu conhecesse Penny de primeira, até ela ter certeza. — Passei a mão em meu topete. — Forcei a barra e vim ver Penny sem ela saber. Eu queria saber mais sobre a mulher que ajudou Katharine. Forcei tudo. Me casei com ela rápido, antes que ela mudasse de ideia. Katharine estava preocupada que Penny pensasse que tinha sido muito rápido, então decidi ficar quieto por um tempo e deixar Penny se acostumar comigo. — E eu estraguei tudo. Dei de ombros. — Nós deveríamos ter assumido as consequências e contado a ela. É nossa culpa. A porta se abriu, e Katharine saiu. — Richard, você pode entrar? — Merda — xinguei baixinho. — Se eu não sair inteiro, cuide de Katharine para mim. Jenna me lançou um olhar solidário e bateu em meu ombro. Na porta, Katharine colocou a mão em meu braço. — Sinto muito. Apertei os dedos dela. — Está tudo bem. Entrei, Katharine logo atrás de mim. Eu havia encarado clientes bravos em salas de reunião. Ficado à frente de salas de conferência cheias de olhares hostis esperando que eu falhasse na apresentação. Fiz tudo isso sem uma gota de suor. Mesmo assim, à frente da idosa com olhar severo, eu estava suando e apertando a mão da minha esposa como um talismã. Penny focou o olhar em mim. — Você se casou com minha Katy. — Sim. — Sem minha permissão. — Sim. — Por quê? — Eu nunca tinha feito isso. Não sabia que tinha de pedir...


Ela acenou. — Oh, você não é rápido assim sempre, não é, meu jovem? Engoli. — Como? — Por que se casou com ela? — Eu não podia viver sem ela. — E não disse nada porque...? Eu não fazia ideia do que Katharine havia dito, mas senti que precisava me manter perto da verdade. Encolhi-me, encarando os olhos de Penny. — Eu me casei com ela rápido porque não queria perdê-la. Precisava dela em minha vida. Estávamos preocupados que você não aprovasse, mas esperava que, quando me conhecesse, poderia concordar com o pensamento de me casar com ela. — Ela é boa demais para você. Dei risada porque era verdade. — Sei bem disso. — Você deveria ter me pedido primeiro. — Tem razão, deveria. Peço perdão. — Ela diz que está feliz. — Também estou. — Olhei para Katharine, surpreso pelo fato de ser verdade. — Ela sempre me surpreende. Penny fungou. — Só espere. Ainda não viu nada. — Posso imaginar. Ela apertou os lábios. — Estou de olho em você. — Devidamente anotado. — Certo. Agora você me deve um bolo. — Bolo? Katharine deu um passo à frente, descansando uma mão em meu ombro. Reparei que seus anéis estavam no lugar, vê-los me fez sorrir por algum motivo. Eu nunca tinha tirado os meus, e Penny nunca questionara. Sem pensar, beijei sua mão, e a ação fez Penny sorrir. — Sempre comemoramos coisas boas com bolo. — Então é uma coisa boa? Eu sou uma coisa boa? Penny deu um tapinha no meu rosto. — Dependo de você para cuidar dela por mim. — Vou cuidar. — Agora, aquele bolo? Havia uma padaria no fim da rua. — Pode deixar. — Chocolate — Penny insistiu. Passei o dedo em sua bochecha aveludada.


— Como se houvesse outro tipo. Katharine entrou, carregando uma xícara de café que eu aceitei agradecido, indicando que ela deveria se sentar. — Cadê a Jenna? — Tirando um cochilo. Acho que ela está aproveitando que a tempestade deu uma trégua. Não acho que ela tenha dormido bem ontem à noite. — Eu dormi como um bebê. Ela virou os olhos. — Um bebê pegajoso. Sorri. — Não é minha culpa que você seja tão perfeita de se aconchegar. Cheira bem. — Seu, ahn, assobio, é muito mais alto de perto. Semicerrei os olhos. — Que fofo. Ela sorriu tolamente. — Desculpe. — Sua expressão ficou séria. — Eu peço desculpa por hoje de manhã. Cocei minha nuca. — Acho que era para acontecer. — Há uma boa chance de ela esquecer. Podemos ter essa conversa novamente. — Pelo menos podemos dizer que lhe contamos, e talvez ela não fique tão chateada. — Pode ser. Bebi um gole de café. — O que ela disse para você? — Ela estava preocupada que eu estivesse grávida. — Isso não é um problema. Nem nunca será. — Não pude resistir em brincar com ela com esse assunto. — Nem quando expandirmos nossos limites. — Você não pode ter filhos? — Não faço ideia. Nunca tentei procriar e nunca planejo tentar. Sempre me protejo e me certifico de que minhas parceiras também o façam. Ela inclinou a cabeça, confusa. — Você não quer ter filhos? — Katharine, não tenho capacidade de realmente estar em um relacionamento de verdade. Não tenho interesse em ser pai e trazer ao mundo outra pessoa emocionalmente afetada. Eu nunca conseguiria me conectar com uma criança, e é por isso que não tenho desejo de ter filhos. Nunca. — Acho que está enganado. — Enganado? — Acho que tem capacidade. Acho que se conectaria, amaria, uma criança. Se amasse a mãe dela. Gargalhei. — Já que isso nunca vai acontecer, fico com minha declaração inicial. — Por que tem tanta certeza de que não consegue se apaixonar?


Eu estava ficando impaciente. — Eu te disse. Amor te torna fraco. Te faz precisar das pessoas. Depender delas. Não permitirei que isso aconteça. — Às vezes, acontecem coisas que estão além do nosso controle. Acenei. — Não neste caso. Não há amor ou filhos em meu futuro. — Isso parece solitário. — Tenho meu trabalho, que me completa. É suficiente. Ela me analisou, com a testa enrugada. — É? — Pare de tentar me analisar, Katharine. — Não estou fazendo isso. Estou tentando te entender. — Não entenda. — Por quê? Inclinei-me para frente, bati meus punhos na mesa. — Não te pago para me entender. Estou te pagando para interpretar seu papel. — Um que fica mais complexo a cada dia. — Do que está falando? — Não fica cansado disso, Richard? Das mentiras? Parece que adicionamos mais uma toda vez. É como uma bola de neve que cresce conforme desce uma montanha. — Ela suspirou. — Era para ser uma coisa simples, eu fingir ser sua noiva. Agora cresceu tanto e aumentou ao ponto de eu nem me reconhecer mais! Detesto mentir para as pessoas... e estou mentindo para todo mundo! Penny, a família Gavin, as pessoas do asilo... Uma montanha enorme de mentiras! — O fim justifica o meio. Ninguém vai se magoar. — Sério? Acho que está errado. — Como imagina isso? — Acenei a mão pela sala. — Graham não está sofrendo, Penny está sendo bem cuidada, você está morando em um lugar melhor e não tem de trabalhar. Quem está se magoando? Sua voz baixou em um sussurro. — Me sinto culpada... mais a cada dia. — Por quê? — Gosto dessas pessoas. Realmente gosto de Jenna; nos tornamos amigas. Saber que estou mentindo para ela me incomoda. Graham e Laura só têm sido gentis. É como se os estivesse traindo com essa farsa. As pessoas no asilo pensam que somos casados. — Nós somos — insisti. — Não é uma farsa. Nosso casamento é legal. — Eles pensam que é real. Acham que estamos apaixonados. E Penny… Nunca quis que Penny soubesse. Não queria ter de mentir para ela, de todas as pessoas. Detesto mais ter de mentir para ela. — Você sabe que ela provavelmente vai esquecer. Katharine virou os olhos. — Ainda é uma mentira. Tami e os outros vão continuar lembrando-a, então ela pode não esquecer. E há Adrian, Adam, Julia... — Ela bufou exasperada. — E a lista só aumenta. Tamborilei meus dedos na mesa e dei de ombros.


— Está maior do que eu esperava, nisso você tem razão. Até Brian acha que mudei de verdade. Quando jogamos golfe no outro dia, ele me parabenizou por finalmente encontrar meu “lado humano”. — Isso não te incomoda? Quantas pessoas essa mentira afeta? Quantas pessoas serão afetadas quando isso acabar? — Katharine, pare de ser tão dramática. Casamentos acabam toda hora. O mundo vai continuar. Vamos descobrir como e por que quando decidirmos que é a hora certa. — E, nesse meio-tempo, continuamos mentindo. Eu estava cansado dessa conversa inútil. Cocei minha cabeça e fiz uma careta. — Sim. Continuamos mentindo. Ainda estou te pagando, e ainda é um trabalho. Até onde todos sabem, você é minha esposa. Continue interpretando o papel. Finja que gosta de mim. Vá fundo e imagine que me ama. Faça o que tiver de fazer para manter a “farsa”, como você chama. Ela se levantou, balançando a cabeça. — Aqui está o erro, Richard. Não preciso sempre fingir que gosto de você. Quando você para de agir como um babaca, é um homem decente. Reage às pessoas. É gentil e generoso com a Penny. Por algum motivo, você esquece de ser o babaca que mostra ao resto do mundo quando está com ela. Às vezes, você esquece até quando está comigo. — Sua expressão estava triste e sua voz, abatida. — Às vezes, esqueço como você não gosta de mim e penso que realmente somos amigos. Ela foi até a porta, parou e olhou para trás. — Eu gosto dessas horas. Elas tornam mais fáceis o resto dos dias. Então saiu, deixando-me indignado.


22 Richard

Katharine ficou quieta o resto da noite. A chuva veio e foi, diminuindo lá pela meia-noite. Jenna sentiu a confusão no ar e tentou ser discreta. Em certo momento, ela me perguntou se Katharine estava bem. — Nós, ahn, tivemos uma discussão — admiti. Casais discutiam; minha resposta parecia provável. — Por causa do que aconteceu mais cedo? — Sim. — Eu não disse a que evento mais cedo estava me referindo. Deixei que pensasse que era por causa do que aconteceu com Penny. — Querem que eu vá embora? — Não, está tudo bem. — Não durmam brigados. Conversem — ela encorajou. — Vou subir logo e lhes dar privacidade. Sem saber o que dizer, assenti. Eu não fazia ideia do que falar para Katharine, mas, assim que Jenna subiu, ela a seguiu. Esperei um pouco, desliguei a TV e me juntei a ela no quarto. Ela já estava na cama, encolhida e perto da beirada. Preparei-me e deitei atrás de seu corpo pequeno e quente. Hesitei, então estiquei o braço, puxando-a para mim. — Não fique brava comigo. — Não estou, só estou triste. — Ela suspirou. — Não posso mudar quem eu sou. Ela virou os olhos no escuro para me encarar. — Acho que você mudou de alguma forma. — Talvez — admiti. — Mas ainda não muda como me sinto sobre certas coisas: filhos e amor são duas delas. — Tudo é preto e branco com você. — Tem de ser. É como lido com a vida. — Você perde muito assim. Passei meu dedo por sua bochecha, tocando a maciez de sua pele no escuro. Uma trilha de umidade, e eu sabia que ela esteve chorando. Isso me incomodava, pensar nela ali deitada, chateada. — Katharine — comecei. — O quê? — ela sussurrou. — Sei que isso ficou grande e mais complexo. Sei que você é uma pessoa melhor que eu, e isso te incomoda. Não esperava que os Gavin fossem parte da nossa vida fora do escritório. Não tinha planejado conhecer Penny e ficar ligado a ela. Não há nada que podemos fazer sobre isso agora, exceto seguir o fluxo. Não consigo mudar minha perspectiva porque é no que acredito. No entanto, há uma coisa que você está errada. — E o que é? Peguei seu rosto, trazendo-o perto do meu.


— O fato de eu não gostar de você. Longe disso. Me arrependo de cada palavra maldosa, cada tarefa horrível que eu mandava você executar, e cada trabalho sujo que obriguei você a fazer. Acho que é incrivelmente corajosa de ter concordado nisso comigo, e os motivos pelos quais fez isso me deixam admirado. Você é altruísta e gentil, e o fato de ter se tornado tão importante para mim é uma prova do quanto é especial. Lágrimas quentes desceram por seu rosto. Gemi, incapaz de aguentar mais emoção naquele dia. — Jesus, mulher — resmunguei brincando. — Tento ser legal e você chora. Desisto. Vou voltar a ser um idiota. Ela bateu na minha mão. — Não, está tudo bem. Vou parar. — Ela fungou. — Isso foi inesperado. Só isso. — Estou tentando me desculpar. Ela ergueu o rosto, passando a boca na minha. — Aceito. Enfiei minhas mãos em seu cabelo, segurando-a perto. Pressionei minha boca na dela, querendo provála mais uma vez. Ela respondeu com um suspiro, sua respiração chegando em meu rosto. Passou um longo momento enquanto nossos lábios se moviam juntos, línguas se tocavam e brincavam. O desejo se construiu, devagar e forte, e meu corpo estava louco com a necessidade. Com um gemido, recuei, encarando-a. Seus lábios estavam inchados, ela respirava rápido. Trilhei seu lábio inferior com meu dedo. — Katharine — murmurei com uma voz rouca ao passar a mão em sua perna nua. Ela ergueu a cabeça e, bem quando sua boca encontrou a minha, nós ouvimos. Um barulho de trovão inesperado seguido de algo se quebrando no quarto de hóspedes e um grito. Eu gemi, baixando a cabeça em seu ombro. — Caralho, Jenna, de novo. Ela bufou uma grande lufada de ar. — Bom, droga. Acho que ela quebrou meu abajur. Eu gostava daquele abajur. Comecei a rir com seu raro estado irônico. Saí de cima dela, jogando o braço no rosto. — Vá ver se sua amiga acabou agora. Ela saiu da cama, hesitante. A luz da lua atrás dela enfatizava sua silhueta pela camisola fina. Ela havia engordado um pouquinho, seu corpo suave com curvas. Com seu cabelo caído nos ombros, seus olhos grandes de desejo, ela estava sexy. Sexy para caralho, na verdade. — Vá — resmunguei. — Se não for, não serei responsável pelo que acontecer depois. Girando, ela correu para a porta. — Katharine — chamei. Ela se virou, sua mão descansando na maçaneta. Deixei minha voz mais gentil. — Se o abajur estiver quebrado, compro outro para você. Seu sorriso foi brilhante. — Tudo bem. Deitei de novo. O que eu estava fazendo? Era a segunda vez naquele dia que eu queria fodê-la totalmente — a mulher que já quis fora da minha vida. Agora, estava por todo canto. Em cada aspecto da minha vida. Na minha


cama. E a parte mais esquisita? Eu não me importava que estivesse. — Katharine, molho é um condimento. Não uma comida. Ela olhou para cima desviando do prato, já balançando sua cabeça. — Cada buraco precisa ser preenchido com molho, Richard. É uma regra. Bufei ao erguer a caneca até a boca. — Você está afogando o waffle. Há mais molho do que comida no seu prato. — É melhor assim. Gemi. — Você adiciona bacon? Ela cantarolou com a boca cheia. — Perfeito. Jenna riu ao falar no café da manhã. — Não é fã de molho, Richard? — Coloco uma quantidade razoável. Quero sentir o gosto do waffle também. Katharine ergueu um garfo cheio na minha direção. — Prove. — Não. — Por favor? Cortei um pedaço do meu waffle bem mais seco. — Então você prova o meu. Alimentamos um ao outro com um pouco do café da manhã. O dela estava escorrendo molho e manteiga, muito mais doce com o qual eu estava acostumado. Fiz uma careta. — Isso é horroroso. Ela sorriu. — Melhor que o seu. — Olhando para baixo, ela xingou. — Droga, derrubei molho na minha camiseta. Com licença. Ela se apressou até a cozinha. Esperei-a desaparecer e peguei a garrafa de molho, adicionando mais ao meu waffle. Jenna riu. — Vocês dois são tão fofos. Nunca comeram waffles juntos? Tive de pensar rápido. — Não, Katharine sempre fez panquecas. Comprei a máquina de waffle para ela como presente de casamento. Jenna ficou boquiaberta. — Você deu a ela uma máquina de waffle de presente de casamento? — Ela queria uma! — Meu Senhor, Richard, você tem muito o que aprender sobre romance. — Ela me ganhou.


Jenna pegou sua caneca de café. — Hunf. Talvez a máquina de waffle tenha sido um presente melhor. Olhei para ela. — Quando vai para casa? Ela sorriu de forma tola. — Adrian chegará logo. — Bom. Ela empurrou meu braço com uma piscadela irônica. — Interrompi sua noite ontem. Desculpe. O trovão me pegou de surpresa. — Não faço ideia do que está falando. — Claro que não. Katharine é sempre assim, ahn, desarrumada. Sorri. Ela estava bem desgrenhada quando saiu do quarto na noite anterior. Pisquei para Jenna. — Temos o resto do dia para compensar. Lá em cima. Ou nos dois andares. Ela virou os olhos, murmurando algo sobre homens e pensar uma coisa só. Eu continuei comendo meu waffle agora lavado de molho. Saí do escritório, procurando Katharine. Jenna havia ido embora no meio da tarde, e eu me ocupei com trabalho, depois tive uma reunião por telefone com Graham. Ouvi barulhos no fim do corredor e fui investigar. A porta para o quarto menor estava aberta. Eu usava o quarto para guardar coisas agora. Certa vez, tinha uma cama, e eu usava para minhas hóspedes femininas e as atividades depois do jantar, já que nunca subíamos. Havia me livrado da cama quando Katharine se mudou — tudo o que sobrou foram caixas e arquivos. Apoiei-me na porta, observando-a por uns minutos, um sorriso indulgente curvava meus lábios. — O que está fazendo? Ela apontou para alguns porta-retratos. — Você tem umas fotos legais aqui. — Eu não sabia onde colocá-las. — Elas ficariam ótimas em nosso quarto. — Ela ergueu algumas fotos da caixa que estava vasculhando. — São momentos incríveis, é uma pena vê-los empacotados. Ergui minha mão e ela colocou a pilha de fotos nela. Olhei as fotos, sentindo-me um pouco envergonhado. — Eu que tirei essas. — Foi você? — Sim. Passei por uma fase em que experimentava fotografar. Não durou muito. — Entreguei-as de volta para ela. — Não era bom. — Acho que são ótimas. — Fique à vontade. — Você tem os negativos? Balancei a cabeça. — É tudo digital. Uma das caixas tem minha câmera e todos os cartões de memória dentro.


— Ok. — Ouça, Graham ligou. Ele quer que eu vá com ele visitar um cliente fora da cidade. Acho que está se sentindo culpado porque Adrian foi das últimas duas vezes. — Quando você vai? — Amanhã. — Por quanto tempo. — Esse é o problema. Estarei fora até quinta, o que significa que perderei a terça com Penny. Ela sorriu maliciosa. — Não tem problema... posso faltar na ioga. Não sou boa. — Diga a ela que irei vê-la na sexta para almoçar. Vou levar seus cheeseburgers preferidos. — Ela vai adorar. — O que vai fazer enquanto eu estiver fora? — Trabalhar na sala. — Você chamou pintores, certo? Sem escadas? — Ela fez um trabalho maravilhoso em seu quarto, mas a sala era muito grande para ela fazer sozinha. Só de pensar em Katharine em uma escada tão alta já me deixava nervoso, principalmente porque eu estaria fora da cidade. — Contratei profissionais, Richard. Ficará pronto em dois dias. Você perderá toda a diversão. — Que pena. Ela se levantou, esfregando as calças. — Vou te ajudar a fazer a mala. Preciso trocar os lençóis e mudar minhas coisas de volta. A palavra saiu antes de eu conseguir impedir. — Não. — O quê? — Durma no meu quarto enquanto eu estiver fora. Não se preocupe com a roupa suja. Já tem bastante coisa para fazer. Ela mastigou o interior de sua bochecha. — E hoje à noite. — Vamos dividir de novo. — Eu... Peguei a mão dela. — Faz sentido. Poupa trabalho. Um sorriso malicioso curvou seus lábios. — Você gosta de dormir de conchinha. Gosta de dormir de conchinha comigo! Zombei dela. — Só estou sendo prático. — Admita, e vou dormir com você. Arqueei minha sobrancelha. — Quer reestruturar essa frase? — Oh, eu... Ali estava, o rubor que me divertia. Inflava seu peito e coloria suas bochechas. Ela empurrou meu braço, brincando.


— Admita, e vou dormir na sua cama enquanto estiver fora. — E hoje à noite? O rubor ficou mais forte. — Sim. Inclinei-me, passando minha boca em sua bochecha até a orelha. — Eu gosto de dormir de conchinha com você. Você é toda quente e cheira bem. Era verdade. Acordei aquela manhã de novo com meu corpo entrelaçado ao dela. Eu estava descansado e relaxado; mesmo que tivesse de lidar com os efeitos que ela causava em mim com seu corpo macio pressionado ao meu. Ela passou por mim. — Certo. Se é isso o que quer. Sorri. Era, na verdade, exatamente o que eu queria. — Por que está sorrindo? — Graham perguntou. A viagem estava indo bem, e o cliente estava entusiasmado. Eu passara a tarde complementando meus esboços e ideias para me preparar para outra reunião de manhã. Graham insistiu que fôssemos jantar para comemorar. Tirei meus olhos do telefone e o entreguei a ele. — Ah, eu mandei um cheesecake enorme de chocolate com caramelo para Penny a fim de compensar não estarmos juntos hoje à noite. Katharine mandou uma foto deles comendo. Ele riu e me devolveu o celular. — Você é muito ligado à Penny. — Ela me lembra de alguém da minha infância. — Um parente? Movimentei-me na cadeira. — Não. Ele me olhou de forma astuta por cima de sua taça. — Você não gosta de falar sobre si mesmo. Especificamente sobre seu passado. — Não gosto, não. — Você conversa com alguém sobre isso? — Katharine. — Sua catalisadora. A mulher que mudou sua vida... que mudou você. Inclinei minha cabeça, concordando, torcendo para que ele entendesse a deixa e mudasse de assunto. Ele ficou quieto por um instante, depois colocou a mão no bolso e tirou um envelope, passando para mim, do outro lado da mesa. — O que é isso? Ele deu um tapinha no envelope creme. — Você esteve impecável desde que entrou na empresa, Richard. Superou minhas expectativas. Todas as nossas expectativas. Seu trabalho com a campanha da Kenner Footwear, a forma como se comportou e como foi uma parte essencial do time. Vir nesta viagem de última hora. Tudo isso. Dei de ombros com uma modéstia incomum por seus elogios; suas palavras me aqueciam. Pensei se


era assim que um menino se sentia com o brilho do orgulho de seu pai — algo que eu nunca havia tido. Graham era rápido em elogiar, e raramente criticava — seus comentários geralmente eram mais para ensinar do que condenar. Fiquei maravilhado como me encaixei rápido no Grupo Gavin. Gostava da energia positiva e da atitude “trabalhar com e não contra” que eles compartilhavam. Suas palavras, no entanto, significavam bastante. Minha garganta se apertou, e bebi um gole de água para limpar o caminho a fim de conseguir falar. — Obrigado. Foi surpreendente para mim também. Ele empurrou mais o envelope. — Para você. Dentro, havia um cheque — meus olhos se arregalaram com a quantia generosa — junto com uma cópia do meu contrato. O que realmente me chamou atenção, no entanto, foi a cláusula seis riscada e rubricada. Ergui meus olhos para ele com uma expressão de dúvida. — Não entendi. Ele sorriu. — O cheque é seu bônus por um trabalho excepcional. Kenner assinou um acordo de muitos anos conosco tudo por causa da sua ideia. Eles o querem em toda campanha. Ergui o contrato. — Você riscou meu período de experiência. — Risquei. Só coloquei aí para ter certeza de que meu instinto estava certo quando pensou que você se adequaria a nós. Mais que provou ser o que disse que era: um homem mudado. Sua Katy realmente trouxe à tona o verdadeiro Richard. — Ele ergueu a mão. — Você tem um lugar em minha empresa pelo tempo que quiser, Richard. Espero que tenhamos muitos anos juntos pela frente. Confuso, apertei sua mão. Eu o tinha convencido. Havia conseguido. Eu deveria estar comemorando, eufórico. Todos meus planos, todos os acordos que levaram até aquele momento. Eu tinha assegurado minha vaga no Grupo Gavin e ferrado com David. Missão cumprida. Porém não estava empolgado, não era pelos motivos que pensara. Descobri que não me importava com David ou como ele se sentia. Ele podia chegar, me oferecer uma sociedade e mais dinheiro do que eu já sonhei, e não ficaria tentado em sair. Em vez disso, só queria a aprovação de Graham. Queria deixá-lo orgulhoso. Queria continuar trabalhando para ele e ouvir suas palavras gentis e cheias de elogio. Junto com aqueles pensamentos, veio um sentimento com o qual eu não estava acostumado: culpa. Culpa de como isso começou e por que eu estava sentado ali agora. Culpa pela mentira que eu tinha usado para chegar àquele momento. Quando olhei para os papéis, pensei no quanto o fato de Jenna ter ficado conosco influenciou na decisão. Certamente ela viu o bastante de agirmos como um casal normal para convencer qualquer um que éramos de verdade. Ela pensava que eu não podia ficar sem tocar Katharine, que tínhamos uma vida sexual ótima, que discutíamos e fazíamos as pazes — tudo que outros casais faziam. Talvez a tempestade não tenha apenas aproximado Katharine de mim, mas também eliminado qualquer dúvida que ainda pairava na mente de Graham. Internamente, balancei a cabeça. Não importava. O que importava era que eu iria continuar trabalhando duro e provando a mim mesmo para Graham e sua empresa. Não importava como começara, eu mereceria — e manteria. — Obrigado. Ele segurou meu ombro.


— Tenho certeza de que Katy vai ficar feliz. Outra sensação estranha borbulhava em meu peito — a ansiedade em contar para ela, compartilhar essa vitória com ela. Sorri, sabendo como ela reagiria positivamente. — Eu adoraria contar para ela, mas acho que vou esperar até voltar para casa. — Olhei para meu bônus. — Acho que preciso comprar algo para ela a fim de comemorar. Pensei que ela precisava de um presente na semana passada. Essa é a desculpa perfeita. Ele assentiu. — É uma ótima ideia. Eu conheço uma joalheria maravilhosa no fim da rua. Ergui minhas sobrancelhas. Joalheria. Eu não tinha pensado nisso, mas era... — Perfeito.


23 Richard

Enfiei minha chave na fechadura, entrando em silêncio no apartamento. Estava chocado por perceber o quanto sentia falta de estar em casa. O quanto sentia falta de Katharine. Eu me vi mandando mensagem para ela, verificando se ela estava bem, se Penny estava bem ou se ela se lembrara de ter trancado a porta do apartamento. Suas respostas me faziam sorrir, sempre um pouco atrevidas e doces. Ela adorou o cheesecake, contou-me como os funcionários o atacaram e ajudaram Penny e ela a comer. Ela achou divertido eu ter mandado uma fruta para Joey. Quando ela mencionou que Penny parecia mais cansada do que o normal, eu ligara para o asilo a fim de perguntar por ela duas vezes, fazendo Tami rir da minha preocupação. Tive de rir de mim mesmo. Parecia que, mesmo sem tentar, a presença de Katharine trazia cada vez mais sentimento à minha vida. Eu deveria detestar, mas, de alguma forma, não o fazia. Estava ansioso para chegar em casa, vê-la, visitar Penny e voltar para o escritório. Quando o cliente concordara antes do esperado com nossa ideia, nós dois concordamos em ir para casa cedo e pegar o último voo. O táxi me deixou lá, Graham rindo da minha exuberância em pegar a pasta. — Não espero te ver na primeira hora da manhã, Richard. Aproveite a manhã com Katy. Vejo você à tarde. Assenti. — Obrigado. Coloquei minha pasta no chão, acendi a luz e congelei. Eu não estava na mesma sala de onde saí há alguns dias. A cor vinho que Katharine escolhera agora decorava a parede grande em volta da lareira e destacava o recorte de madeira. As outras paredes da cor creme ficaram chiques e atraentes. Ela adicionara algumas almofadas, as duas cadeiras que tinha me mostrado e o resultado da transformação deixou a sala calorosa e convidativa. Aconchegante. A maior surpresa foi o trabalho de arte que ela pendurara. Usou algumas das impressões que encontrou, mas, na parede vermelha, colocou algumas fotos, imprimiu, com o dobro do tamanho, e enquadrou. Fiquei admirado como ficaram ótimas e maravilhado pelo fato de ela ter escolhido as minhas favoritas. A sala toda estava espetacular. Passei minha mão pela curva das cadeiras que ela comprou. Eram rústicas. O efeito ainda era masculino, mas suavizado pelo que ela criara. No manto havia uma foto de nós dois, tirada por Jenna no dia do nosso casamento. Eu a peguei, analisei a foto cândida. Katharine estava sorrindo para as lentes, seu rosto quase brilhava. Minha testa descansava na dela, e eu estava sorrindo. Ambos parecíamos felizes. Como um casal apaixonado. Passei meu dedo pela foto, sem conhecer a sensação esquisita no meu peito. Colocando-a de volta no manto, peguei minha mala e subi as escadas. Parei na minha porta, surpreso em ver Katharine dormindo na minha cama. Eu tinha certeza de que ela voltaria para o próprio quarto.


Ela abraçava meu travesseiro, suas mãos apertavam o tecido conforme ela dormia, seu cabelo escuro era uma onda de chocolate atrás dos lençóis brancos e amassados. Observei-a enquanto dormia. Ela parecia jovem e vulnerável. Lembrei que pensava que ela era fraca. Ela era tudo, menos isso. Conhecendo-a agora da forma como conhecia, sabia que ela tinha uma alma de ferro — sem isso, ela teria ido embora há muito tempo, mas não foi. Ela sobreviveu à perda dos pais, aos dias nas ruas, à dor de ver Penny ficar doente e a mim — em toda minha glória egoísta, limitada e egocêntrica. Ela se mexeu, as cobertas deslizaram com seu movimento. Sorri quando vi que ela estava usando uma camiseta que vesti um dia antes de viajar. Minha esposa estava em minha cama, vestindo minhas roupas. Descobri que estava mais do que bem com ambos os fatos. Com um suspiro abafado, coloquei minha mala no chão, peguei uma calça de dormir e me preparei para deitar na cama, certificando-me de ficar quieto. Com cuidado, deitei atrás dela e a puxei para meu peito. Ela acordou assustada, enrijecendo em meu abraço. — Relaxe, docinho. Sou eu. — Por que está em casa? — Os negócios foram bem. Muito bem. Acabamos mais cedo. Ela se esforçou para levantar. — Vou para o meu quarto. Eu a puxei para baixo. — Fique. Você está bem aqui. — Com um sorriso, beijei seu pescoço. — Gosto de dormir de conchinha, lembra? Ela se aconchegou com um som bem satisfeito. — Sua cama é confortável. Não pude evitar de zombar dela. — E minha camiseta? — perguntei, puxando o tecido de algodão. — Também é confortável? Ela tirou minha mão. — Estive ocupada. Não tive tempo de lavar roupa. Estava ali jogada, então usei. — Eu vi como você esteve ocupada. — Você gostou? — Sua voz estava tímida e hesitante. Beijei sua testa. — Bom trabalho, sra. Van Ryan. Ela riu contra o travesseiro. — Estou feliz que gostou, sr. Van Ryan. Eu a puxei mais para perto. — Gostei. Durma. Vou te contar tudo sobre a viagem pela manhã. — Ok. — Ela murmurou sonolenta. — Boa noite. — Boa noite. Katharine me encarou por cima de seu café e pegou o contrato de novo. — Desse jeito? Ele cancelou seu período de experiência?


Assenti com a boca cheia de ovos mexidos. Mastiguei, engoli e sorri. — Acho que a visitinha de Jenna pode ter tido algo a ver com isso. Ela roeu a unha e eu estiquei o braço, batendo na sua mão. — Pare com isso. — Por que acha que Jenna vir aqui teve algo a ver com isso? — Pense, Katharine. Pense no que ela viu. A gente na mesma cama, eu toda hora te tocando. Nos demos bem. Ela até viu que tivemos uma briga e fizemos as pazes. Tenho quase certeza de que ela disse para Graham que ele estava enganado em ter tantas dúvidas. — Acho que faz sentido. — Além disso, ele falou que fiz um ótimo trabalho, que superei as expectativas. Foi o jeito de ele me recompensar. — Bebi um gole de café. — Bom, o fim da minha provação e um bônus generoso. O sorriso dela foi caloroso. — Eu sabia que você ia deixá-los de queixo caído com seu trabalho. Não me surpreende. Você sempre foi brilhante com suas ideias. Seu elogio fez coisas estranhas comigo. Passei a mão no peito, como se pudesse mover o calor irradiado por suas palavras, e sorri para ela, com a voz sincera. — Você sempre incentivando. Obrigado. O sorriso que ela deu foi largo e aberto. Olhei para meu prato, conforme absorvia a normalidade da nossa situação. Era assim que era o casamento? Um casamento de verdade? Pequenos momentos de compartilhamento que te faziam sentir inteiro... conectado. Coloquei a mão no bolso e tirei uma caixinha. — Para você — eu disse áspero, pegando minha caneca. Ela não se mexeu para pegá-la. Eu nunca tinha conhecido uma mulher como Katharine. Minha riqueza sempre fora um ímã para as mulheres com quem eu saía. Elas ficariam me pedindo presentes — esperando, dando dicas, me mostrando itens na internet. Praticamente arrancando qualquer dinheiro da minha mão se eu decidisse comprar algo. Mas Katharine não. — Seu bônus — insisti e empurrei a caixinha para mais perto. — Abra. Não vai morder. Sua mão tremia quando ela pegou a caixa. Hesitou assim que a tinha na palma da mão, como se adiasse o momento de abrir. Apreciando o mistério, eu gostava de observar suas expressões conforme passavam por seu rosto. Seus olhos se arredondaram ao olhar para o anel dentro. Assim que o vi, sabia que ela iria adorar. Pequenos e delicados, os diamantes incrustados tinham diferentes formas. Pequenos quadrados, ovais, círculos e retângulos formavam um anel tão único e diferente quanto ela. Não era o anel mais caro da loja, e certamente não era o maior, mas combinava com Katharine. Até Graham assentiu sua aprovação no segundou em que bati o dedo no vidro. — Aquele, por favor. Eu gostaria de ver aquele. Katharine olhou para mim. — Não entendo. — É um presente, Katharine. — Por quê? Dei de ombros. — Porque você merece. — Toquei o envelope do contrato. — Nada disso teria acontecido sem você.


Eu queria agradecer. — Complementei, bem sincero. Era importante que ela acreditasse em mim, que ela soubesse que eu tinha consciência do quanto ela fizera por mim. — É lindo. — Coloque-o. Ela colocou o anel em sua mão direita e virou o punho do jeito que mulheres fazem quando admiram um anel no dedo. — Coube! Esticando o braço, peguei sua mão e a analisei. Coube e combinou perfeitamente. Coloquei sua mão no balcão, dando um tapinha nela de um jeito esquisito. — Você gostou? — É... — Sua voz estava rouca. — É maravilhoso. — Eu estava pensando em brincos, mas notei que Jenna e Laura têm anéis na mão direita, então pensei que gostaria de um também. Podemos comprar brincos, se preferir. Ela balançou a cabeça. — Não. É perfeito. O clima à nossa volta estava cheio de sentimento. Ela ficou olhando para a mão dela, piscando rápido. Oh, Deus... ela ia chorar? Por um presente? Eu não sabia se conseguiria lidar se ela começasse a chorar. Emoções assim me deixavam extremamente irritado. Juntei as mãos. — Boa escolha, então. Vou deixar os brincos para outra hora. Talvez um aniversário de seis meses ou algo assim. Tenho certeza de que os Gavin comemoram datas como essa. Preciso acompanhá-los. Ela limpou a garganta e desceu do banquinho. — Acho que sim. Fiquei chocado quando ela parou ao lado da minha cadeira depois de jogar o café na pia. Pegou meu rosto e me beijou suavemente. — Obrigada, Richard — ela murmurou, depois continuou andando. Virei minha cadeira para observá-la subir as escadas. Foi só quando me virei de volta que percebi que minhas mãos cobriam meu rosto onde seus lábios tocaram, como se eu estivesse segurando seu beijo na minha pele. Que estranho.


24 Richard

Olhei para Penny com a testa enrugada. Eu estava empolgado que o mesmo trio de jazz que vimos antes estava fazendo uma apresentação extra naquela noite, mas ela ficou fora a noite inteira. Mais de uma vez, ela ergueu a mão, secando uma lágrima que rolava pela sua face. Quando, preocupado, perguntei se estava tudo bem, ela abanou a mão impaciente. — Estou bem. Porém, ela parecia tudo menos bem. Eu a levei de volta para seu quarto, torcendo para que a surpresa que eu estava guardando animasse seu espírito. Katharine mencionou que Penny não estava comendo bem nos últimos dias e parecia cansada. Naquela noite, sua cuidadora me disse que ela mal tocou no jantar e que só almoçou porque Katharine lhe deu na boca. Eu sabia que Katharine estava preocupada. Ela pensara em cancelar a aula de ioga, mas a encorajei a ir. Eu a lembrei que só faltavam duas aulas, então ela poderia se juntar a nós toda terça. Eu perderia meu tempo com Penny, mas as aulas recomeçavam um mês depois, então voltaríamos a ser só nós dois. Minha parte favorita da noite era escutar as histórias de Penny sobre Katharine. Havia tantas — algumas que Katharine se esqueceu completamente. Sempre tinham momentos engraçados e embaraçosos que me faziam rir. Sentei-me ao lado de Penny, pegando uma caixa de pizza com um sorriso. — Voilà! Quando descobri que, depois de cheeseburgers, pizza era sua comida preferida, comecei a trazer para ela com regularidade. Estava autorizado pelo asilo e eu me certificava de ter para todos os funcionários. Um dia, trouxe pizza suficiente para cada morador que quisesse comer. Fui um herói aquele dia. Hoje, no entanto, era apenas para Penny. Ela pegou uma fatia, mas não mexeu um dedo para comer. Com um suspiro, peguei sua fatia de volta e devolvi a caixa. Envolvi minha mão em seu punho frágil, acariciando a pele delicada da palma de sua mão. — Penny, o que foi? O que há de errado? Ela exalou forte, o som drenado e resignado. — Estou cansada. — Quer que eu chame Connie? Ela pode te preparar para dormir. — Tami não estava naquela noite, mas ela gostava de Connie. — Não. Não quero dormir. — Não entendo. Tirando sua mão, ela esfregou seu rosto de uma maneira exausta.


— Estou cansada de tudo isso. — Seu quarto? — Se ela quisesse um diferente, eu pagaria para ela. — De ficar aqui. Nesta... vida, se é que pode se chamar disso. Eu nunca a tinha ouvido falar desse jeito. — Penny... Ela esticou o braço e me deu a mão. — Eu esqueço as coisas, Richard. O tempo passa e não sei se é o mesmo dia que foi há um minuto. Katy vem visitar e não consigo me lembrar se ela esteve aqui há horas, dias, ou se acabou de sair. Alguns dias, não reconheço nada, e fico com medo. Sei que há dias que não a reconheço. — Sua voz tremeu, seus olhos brilharam com lágrimas. — Não reconheço a mim mesma na maioria dos dias. — Ela está aqui. Ela vem te ver todos os dias e, mesmo que você se esqueça dela, ela conhece você. Ela fica e senta com você. — Sou um fardo para ela. — Não — insisti. — Não é um fardo para ela. Ela te ama. — Você deve ficar bravo comigo. — O quê? Não. Nem um pouco. Adoro passar um tempo com você. Faz parte da família agora, Penny. Você se tornou parte quando me casei com Katharine. — Conforme as palavras saíam de minha boca, percebi que o que estava lhe dizendo era verdade. — Ela deveria estar fazendo outras coisas, viajando, tendo filhos, fazendo amigos, não ficando de babá de uma idosa. — Por que está falando assim? Você sabe que Katharine faria qualquer coisa por você. E eu também. — Ergui a mão dela e beijei sua pele fina. — Por favor, Penny, se ela te escutasse... — Sinto saudade de Burt. — Eu sei — consolei. — Você foi casada por bastante tempo. É claro que sente falta dele. — Quarenta anos. Não éramos ricos, mas tínhamos amor. — Ela sorriu discretamente. — Eu adorava vê-lo cozinhar. Ele era chef... sabia disso? — Sim, você me contou. — Eu era professora. Tínhamos uma vida boa. Quando ele morreu, eu não sabia como iria continuar. Mas, então, encontrei Katy. Ela se tornou meu motivo. — Ela precisava de você. — Não precisa mais. — Está enganada. Precisa, sim. — Você vai cuidar dela? — Não. Não desista ainda, Penny. Katharine... ela ficará devastada. Ela fechou os olhos conforme seus ombros caíram. — Só estou muito cansada. Entrei em pânico quando percebi que ela não estava se referindo a querer ir para a cama. Estava cansada da vida e de estar presa em um corpo que não produzia mais, com uma mente que a deixava confusa e esquecida. Inclinei-me, baixando a voz. — Vou cuidar dela. Prometo. Ela não precisará de nada. — Eu poderia prometer isso. Eu me certificaria de que Katharine ficasse bem. — Não desista. Ela precisa, sim, de você.


Seus olhos se abriram, ela olhava além de mim. — Pode me dar aquela foto? Virei-me e lhe dei a foto para a qual ela apontou. Depois de esclarecer a questão do casamento, Katharine trouxe uma foto de nós dois no dia do casamento, e uma que Tami havia tirado quando fomos visitá-la. Katharine estava segurando a mão dela, Penny estava torcendo o nariz e rindo, e eu sentado ao lado delas, sorrindo. Parecíamos uma família. Ela contornou nossos rostos. — Ela é minha vida desde que perdi Burt. — Eu sei. — Ela é tudo que eu sabia que seria: esperta, carinhosa e forte. — Concordo. Linda também. Durona. Você teve muito o que fazer com ela, Penny. Isso a fez sorrir. O primeiro verdadeiro que eu vi naquela noite. Ela se esticou e deu um tapinha na minha bochecha. — Você é um bom garoto. Aquelas palavras me fizeram rir. Ninguém nunca tinha dito isso para mim. — Quando se envelhece, Richard, você percebe que a vida é feita de momentos. De todos os tipos. Tristes, bons e grandiosos. Eles criam a tapeçaria que é sua vida. Lembre-se de todos eles, principalmente os grandiosos. Eles fazem os outros serem fáceis de lidar. Cobri sua mão com a minha. — Fique — pedi. — Por ela. Dê a ela momentos grandiosos, Penny. Com um suspiro, ela assentiu. — Quero ir para a cama agora. Virando meu rosto, beijei a palma de sua mão. — Vou chamar a Connie. Ela olhou em meus olhos, um olhar firme que travou e segurou o meu. — Amor, Richard. Certifique-se de que a encha de amor. Só pude assentir. Ela apertou meu nariz. Era isso que ela fazia com Katharine... seu jeito de dizer “eu te amo”. Meus olhos pinicaram o caminho inteiro até a mesa de Connie. Meu telefone vibrou na mesa de madeira e eu o peguei, contendo um sorriso para o número. Golden Oaks. Pensei no que Penny estaria pedindo a Tami agora. Desde nossa noite agitada na semana anterior, ela quis alguma coisa todo dia, e eu me certifiquei de realizar tudo. Não contei para Katharine sobre nossa conversa. Ela já estava cheia de preocupação. Obviamente, Penny estava ficando devagar, e sua mente falhava cada vez mais. Ela estava mais normal na noite anterior, mas dormira assim que a levei de volta para o quarto. Deixei-a nas mãos capazes da cuidadora com um beijo em sua bochecha aveludada. Ignorei a ligação, planejando retornar quando a reunião acabasse. Foquei minha atenção de volta a Graham, que estava destacando os desejos do cliente para a campanha seguinte, quando meu telefone tocou de novo. Dando uma olhada, vi que era da Golden Oaks. Uma pequena parcela de preocupação começou em meu estômago. Tami sabia que eu iria ligar de volta. Por que estava sendo tão insistente? Olhei para Graham, que parou o que estava falando. — Precisa atender, Richard?


— Acho que pode ser importante. Ele assentiu. — Cinco minutos de intervalo, pessoal. Atendi a ligação. — Tami? — Sr. Van Ryan, desculpe interromper. — Sua voz causou arrepios de ansiedade em minhas costas. — Tenho notícias horríveis. Não me recordava de ter me levantado, mas estava em pé, de repente. — O que aconteceu? — Penny Johnson faleceu há quase uma hora. Fechei os olhos contra a queimação repentina. Apertei mais meu celular, com a voz grossa. — Minha esposa já sabe? — Sim. Ela esteve aqui esta manhã e tinha passado pouco tempo depois que ela saiu quando fui ver como Penny estava. Eu a chamei de volta. — Ela está aí agora? — Sim. Tentei perguntar a ela sobre as decisões, mas não consigo fazê-la falar. Não sabia o que fazer, então te liguei. — Não, você fez a coisa certa. Estou a caminho. Não a deixe sair, Tami. Vou lidar com tudo. Desliguei, deixando o telefone cair, o som que fez quando bateu na mesa foi um baque na minha cabeça. Senti uma mão em meu ombro e olhei para o rosto preocupado de Graham. — Sinto muito, Richard. — Eu tenho que... — Minha voz sumiu. — Deixe-me levar você. Foi esquisito. Eu estava descontrolado. Minha mente estava um caos, meu estômago tenso e meus olhos queimavam. Um pensamento ficou claro, seu nome queimando em meu cérebro. — Katharine. — Ela precisa de você. Vou levá-lo até ela. Assenti. — Sim. No asilo, não hesitei, fui correndo pelos corredores. Vi Tami do lado de fora do quarto de Penny, com a porta fechada. — Ela está lá dentro? — Sim. — Do que você precisa? — Preciso saber se havia alguma coisa arrumada, planejada, quais eram seus desejos para quando ela falecesse. — Eu sei que ela queria ser cremada. Não acho que Katharine planejou alguma coisa. — Passei a mão na nuca. — Não tenho experiência com isso, Tami. A voz de Graham veio de trás de mim. — Deixe-me ajudar, Richard.


Virei, surpreso. Pensei que ele tivesse me deixado e ido embora. Ele estendeu a mão para Tami, apresentando-se. Ela sorriu, assentindo. Ele se virou para mim. — Vá com a sua esposa. Tenho um bom amigo que tem uma rede de casas funerárias. Vou contatá-lo e começar as coisas para você... Tami pode me dar uns conselhos. Ela assentiu. — É claro. — Ela colocou uma mão em meu braço. — Quando estiver pronto, vou pegar Joey e leválo ao salão. Ele vai ficar aqui conosco. — Tudo bem. — Vou ajudar o sr. Gavin o máximo que der. — Ficaria agradecido... assim como Katy. Graham sorriu. — É tão raro você chamá-la assim. Vá... ela precisa de você. Entrei no quarto, abrindo a porta silenciosamente. O quarto parecia tão errado. Não havia música, nem Penny sentada à uma de suas telas, cantarolando. Até Joey estava quieto, encolhido em seu poleiro, com a cabeça enterrada nas asas. As cortinas estavam fechadas, o quarto emanava tristeza. Katharine era um montinho encolhido ao lado da cama de Penny, segurando sua mão. Fui ao lado dela, permitindo-me um instante para olhar para a mulher que mudara minha vida. Parecia que Penny estava dormindo, com a expressão tranquila. Ela não ficaria mais confusa ou agitada, nem procurando algo do qual não conseguia se lembrar. Sem poder mais me contar histórias da mulher que agora estava de luto por ela. Abaixei ao lado de minha esposa, cobrindo a mão que segurava a de Penny com a minha. — Katharine — murmurei. Ela não se mexeu. Permaneceu congelada, com o rosto branco, sem falar. Coloquei meu braço em volta de seus ombros rígidos, aproximando-a. — Sinto muito, docinho. Sei o quanto você a amava. — Eu tinha acabado de sair — ela sussurrou. — Estava na metade do caminho para casa, quando eles ligaram. Eu não deveria ter saído. — Você não sabia. — Ela disse que estava cansada e que queria descansar. Não queria pintar. Pediu para eu desligar a música. Eu deveria ter visto que algo estava errado — ela insistiu. — Não faça isso consigo mesma. — Eu deveria ter ficado com ela quando ela... — Você estava com ela. Sabe como ela se sentia em relação a isso, docinho. Ela dizia o tempo todo que, quando estivesse pronta, ela iria embora. Você estava aqui, a pessoa que ela mais amava... a pessoa que ela iria querer que fosse a última pessoa a ver, e ela estava pronta. — Passei minha mão em seu cabelo. — Ela estava pronta há um tempo, baby. Acho que estava esperando para ter certeza de que você ficaria bem. — Não me despedi. Coloquei sua cabeça em meu ombro. — Você a beijou? — Sim. — Apertou seu nariz?


— Sim. — Então você se despediu. É assim que vocês faziam. Não precisavam de palavras, nem falar que a amava. Ela sabia, docinho. Sempre soube. — Eu não... Eu não sei o que fazer agora. Seu corpo todo estava tremendo e, incapaz de vê-la sentindo mais dor, eu me levantei, ergui-a, sentando-me antes de ela poder protestar. Ela ainda segurava a mão de Penny, e eu podia senti-la tremendo. — Deixe-me ajudar, docinho. Graham também está aqui. Vamos descobrir o que precisa fazer. Sua cabeça caiu em meu peito, e senti a umidade de suas lágrimas. Dei um beijo em sua cabeça, segurando-a até sentir seu corpo relaxar e ela soltar a mão de Penny, delicadamente deixando-a sobre a coberta. Ficamos sentados em silêncio conforme eu passava a mão para cima e para baixo em suas costas. Houve uma batida na porta, e eu gritei para entrarem. Graham entrou, encolhendo-se ao nosso lado. — Katy, querida, eu sinto muito. Sua voz era um simples sussurro. — Obrigada. — Laura está aqui. Gostaríamos de ajudar você e Richard com as decisões, se estiverem dispostos. Ela assentiu, outro arrepio correu por sua espinha. — Acho que preciso levá-la para casa. Graham se levantou. — É claro. Abaixei mais minha cabeça. — Está pronta, docinho? Ou quer ficar mais? Ela olhou para Graham com os lábios tremendo. — O que vai acontecer? — Meu amigo, Conrad, vai vir buscá-la. De acordo com Richard, ela queria ser cremada? — Sim. — Ele vai cuidar de tudo, e podemos conversar que tipo de serviço você quer. — Quero comemorar a vida dela. — Podemos fazer isso. — E quanto — ela engoliu — às coisas dela? — Vou fazer com que tudo seja empacotado e levado para o apartamento, docinho — assegurei a ela. — Tami disse que Joey vai ficar aqui. — Os outros moradores gostam dele... vão cuidar dele. Eu gostaria de doar algumas das coisas dela para os moradores que não têm tanto quanto ela tinha: roupas e a cadeira de rodas, coisas assim. — Tudo bem, vou cuidar de tudo. Quando estiver pronta para ver tudo, vou fazer com que isso aconteça. Ela estava quieta, olhando para Penny. Assentiu. — Tudo bem. Levantei-me, levando-a comigo. Eu não gostava de seu corpo estar tremendo ou sua voz. Era melhor


segurá-la, e ela não reclamou. Olhei para Penny, agradecendo e me despedindo em silêncio. Sentindo a queimação da emoção nos olhos, pisquei. Eu tinha de ficar forte por Katharine. — Vou pegar o carro — Graham disse e saiu do quarto. Encontrei o olhar de Katharine, seus olhos grandes de dor e tristeza. Uma onda de carinho passou por mim e a necessidade de diminuir sua mágoa preencheu todo meu ser. Beijei sua testa, murmurando contra sua pele. — Estou com você. Vamos passar por isso juntos. Eu juro. Ela cedeu à minha carícia, sua necessidade silenciosa era palpável. — Está pronta? Assentindo, ela enterrou a cabeça em meu peito, apertando a mão em meu paletó. Saí do quarto, sabendo que nossas vidas estavam prestes a mudar. De novo, eu não fazia ideia de como lidar com isso.


25 Richard

Oapartamento estava silencioso. Katharine, depois de outra noite em silêncio, havia ido dormir. Ela não comera muito no jantar, mal bebeu seu vinho, e respondeu às minhas perguntas com pequenos murmúrios e balançar de cabeça. Eu a ouvi se movendo no piso superior, o som das gavetas abrindo e fechado, e eu sabia que, provavelmente, ela estava arrumando e reorganizando tudo. Ela fazia isso quando estava chateada. A preocupação estava acabando com meus nervos; era algo pelo qual eu nunca tinha passado. Não estava acostumado a me importar com alguém. Pensei em como ajudá-la a se sentir melhor, como ajudála a falar. Ela precisava falar. A cerimônia foi pequena, mas especial, já que Laura e Graham lidaram com a maioria das coisas, não era surpresa. Laura se sentou com Katharine e a ajudou a escolher algumas fotos, as quais eles colocaram pela sala. A preferida de Penny eles colocaram perto da urna que estava decorada com flores silvestres. Flores foram enviadas por pessoas diferentes, o último arranjo veio de Katharine e de mim. Todas as favoritas de Penny preenchiam o vaso ao lado de sua foto a maioria das flores eram margaridas. Grande parte dos funcionários do Grupo Gavin foram prestar suas homenagens. Eu fiquei ao lado de Katharine, meu braço envolvido em sua cintura, segurando seu corpo rígido perto do meu, em apoio silencioso. Apertei suas mãos, aceitando as palavras murmuradas de condolências; consciente da forma como ela tremia às vezes. Alguns cuidadores e funcionários da Golden Oaks apareceram, e Katharine aceitou seus abraços e palavras sussurradas de luto compartilhado, então sempre recuava para o meu lado, como se buscasse abrigo em meu abraço. Havia alguns amigos de Penny que sobraram para aparecer — Katharine deu tratamento preferencial para aqueles que o fizeram. Ela se encolhia para falar em tons de sussurro com aqueles nas cadeiras de roda, certifica-se de que aqueles com muletas fossem acompanhados para um assento rapidamente e, depois da breve cerimônia, passou o tempo com todos eles. Fiquei de olho nela e me mantive perto, preocupado pela falta de lágrimas e o constante tremor de suas mãos. Eu nunca tinha passado por luto até aquele dia. Quando meus pais morreram, eu não sentira nada exceto alívio depois de tudo pelo que me fizeram passar. Fiquei triste quando Nana foi embora de casa, mas era tristeza de criança. A dor que eu sentia por Penny era uma dor que queimava em meu peito. Brotava e se espalhava da forma mais estranha. Lágrimas contidas queimavam meus olhos quando eu menos esperava. Quando as caixas contendo as coisas dela chegaram, eu tive de ficar no depósito, tomado por uma emoção que não conseguia explicar. Eu me vi pensando em nossas conversas, na forma como seus olhos se iluminavam quando mencionava o nome de Katharine. Suas histórias engraçadas e doces da vida delas juntas. Meu calendário ainda estava com todas as terças à noite bloqueadas com o nome de Penny. De alguma forma, eu não conseguia apagá-los. Somado a todos esses sentimentos já estranhos, eu estava preocupado com minha esposa. Achava que ela estivesse conseguindo lidar com tudo. Eu sabia que estava de luto pela perda da mulher que amava como uma mão, mas, mesmo assim, ela esteve calma. Estável. Chorara uma vez, mas eu não a via chorar desde o dia em que Penny falecera. Desde a cerimônia mais cedo naquele dia, ela se


fechou. Ela saíra para caminhar, silenciosamente balançando a cabeça quando me ofereci para acompanhá-la. Quando ela voltou, foi direto para seu quarto até eu chamá-la para jantar. Agora, com meu conhecimento limitado em ajudar pessoas, eu estava perdido. Não poderia chamar Jenna ou Graham e perguntar o que eu deveria fazer para minha própria esposa. Eles pensavam que nós éramos íntimos e presumiam que eu saberia exatamente o que fazer. Hoje, quando saímos da casa funerária, Jenna me abraçou e sussurrou? — Cuide dela. Eu queria, mas não sabia como. Não tinha experiência com emoções tão intensas. Andei pela sala e cozinha, impaciente, bebendo meu vinho. Eu sabia que poderia malhar para aliviar um pouco da tensão, só que não estava no clima. De alguma forma, a academia parecia muito longe de Katharine e, caso ela precisasse de mim, eu queria estar perto. Sentei-me no sofá e a almofada fofa me fez sorrir. Outro toque de Katharine. Cobertores de seda, almofadas aveludadas, cores quentes nas paredes e a decoração que ela adicionara faziam o apartamento ficar aconchegante. Parei quando ergui minha taça. Eu já tinha dito a ela que gostara do que ela fez? Com um gemido, bebi todo meu vinho, colocando a taça na mesa. Inclinando-me para frente, segurei meu cabelo, puxando-o até ficar doloroso. Eu havia evoluído nas últimas semanas, disso tinha certeza, mas havia mudado o suficiente? Eu sabia que minha língua não estava mais tão afiada. Sabia que era uma pessoa melhor. Mesmo assim, não tinha certeza se era o bastante. Se ela estava sofrendo, confiaria em mim o suficiente para vir até mim? Fiquei chocado em perceber o quanto eu queria isso. Queria ser a rocha dela. Ser a pessoa na qual ela poderia depender. Eu sabia que dependia dela — em muitas coisas na vida. Desistindo, apaguei as luzes e fui para o meu quarto. Coloquei as calças de pijama e fui até a cama, hesitando, então saí do meu quarto. Cheguei à porta dela, surpreso em vê-la parcialmente aberta. Como meus “barulhos noturnos”, como ela chamou educadamente, trazia-lhe consolo, eu não entendia, mas desde o dia em que ela admitiu precisar deles, nunca fechei a porta à noite. Por um instante, pareceu estranho estar parado do lado de fora de sua porta, sem saber por que estava ali. Até eu ouvir. O som do choro abafado. Sem pensar mais nada, entrei em seu quarto. A persiana estava aberta, a luz da lua entrava pela janela. Ela estava curvada em uma bola, chorando. Seu corpo tremia tanto com a força de seus soluços, que eu conseguia ver a cama se movendo. Erguendo o cobertor, passei meus braços ao seu redor, segurando-a no colo e carregando-a para o meu quarto. Embalando-a, abaixei até a cama, nos cobrindo. Ela se endureceu, mas eu a segurei firme. — Desabafe, Katharine. Vai se sentir melhor, docinho. Ela se derreteu em mim, seu corpo se moldou ao meu. Suas mãos agarraram meus ombros nus, suas lágrimas quentes na minha pele conforme ela chorava descontroladamente. Passei minha mão em suas costas, enfiei os dedos em seu cabelo e fiz o que eu esperava que fosse, barulhos consoladores. Independentemente do motivo, eu gostava de tê-la perto. Sentia falta de sua maciez contra minha dureza. Ela se encaixava muito bem em mim. Em certo momento, seus soluços foram diminuindo, os tremores terríveis se amenizaram. Eu me estiquei, pegando lenços e pressionando um monte em sua mão. — De-desculpe — ela balbuciou em um sussurro. — Não tem nada pelo que se desculpar, docinho. — Eu te perturbei. — Não perturbou, não. Quero ajudar você. Continuo dizendo que, qualquer coisa que precisar, tudo o que tem que fazer é pedir. — Hesitei. — Sou seu marido. É minha função te ajudar.


— Você tem sido tão legal. Gentil até. Estremeci um pouco com o choque na voz dela. Eu merecia, mas não gostava disso. — Estou tentando ser melhor. Ela se mexeu um pouco, inclinando a cabeça para me analisar. — Por quê? — Você merece, e acabou de perder alguém que ama. Está de luto. Quero ajudá-la. Mas não sei como. Sou novo em tudo isso, Katy. — Usando meu polegar, delicadamente limpei as lágrimas frescas que escorriam do canto de seus olhos. — Você me chamou de Katy. — Acho que saiu. Penny te chamava assim o tempo todo. Assim como todo mundo. — Ela gostava de você. Minha garganta ficou estranhamente apertada enquanto eu observava seu rosto na luz pálida da janela. — Eu gostava dela — anunciei, baixo, mas sincero. — Ela era uma mulher maravilhosa. — Eu sei. — Sei que vai sentir falta dela, docinho, mas... — Eu não queria dizer as mesmas palavras que ouvi dizerem para ela nos últimos dias. — Ela detestaria ser um fardo para você. — Ela não era! — Teria discutido com você. Você trabalhava duro para fazê-la se sentir segura. Sacrificou muito. — Ela fez o mesmo por mim. Sempre me colocava em primeiro lugar. — Ela estremeceu. — N-não sei onde estaria hoje se não fosse por ela ter me encontrado e cuidado de mim. Eu também não queria pensar nisso. As ações de Penny afetaram nossas vidas... para melhor. — Ela o fez porque te amava. — Eu a amava. — Eu sei. — Peguei seu rosto, olhando em seus olhos cheios de dor. — Você a amava tanto que se casou com um completo babaca que te tratava como lixo para que pudesse ter certeza de que ela estava sendo cuidada adequadamente. — Você parou de ser um completo babaca há algumas semanas. Balancei a cabeça. — Eu nunca deveria ter sido babaca com você. — Para minha surpresa, senti lágrimas se juntando em meus olhos. — Desculpe, docinho. — Você sente falta dela também. Sem conseguir falar, assenti. Ela me puxou para baixo, minha cabeça descansando na curva de seu pescoço. Eu não conseguia me lembrar da última vez que chorei — provavelmente quando era criança —, mas estava chorando agora. Chorava pela perda de uma mulher que só conheci por pouco tempo, mas significava muito para mim. Ela que, com suas histórias e lembranças fragmentadas, trouxe vida à mulher com quem eu estava casado — suas palavras me mostraram a bondade e luz de Katy. Ela e Katy me mostraram que não havia problema sentir, confiar... e amar. Porque, naquele momento, eu sabia que estava apaixonado por minha esposa. Puxei Katy para mim, segurando-a firme. Quando minhas lágrimas secaram, ergui minha cabeça, encontrando seu olhar. O clima entre nós mudou de consolo e carinho para algo carregado e vivo. A luxúria e o desejo aos quais eu tinha me negado acenderam. Meu corpo queimava pela mulher que


estava segurando, e os olhos de Katy se arregalaram, o mesmo desejo cintilava em seus olhos azuis vivos. Dando-lhe a chance de dizer não, baixei a cabeça, parando em seus lábios trêmulos. — Por favor? — sussurrei, sem saber ao certo o que estava pedindo. Seu gemido baixinho era tudo de que eu precisava, e minha boca estava na dela com uma fome que eu nunca tinha sentido. Tudo junto em uma pequena mulher. Era como ter renascido em uma explosão feroz de chamas que lambia e queimava minha espinha. Cada nervo cantarolava em meu corpo. Eu podia sentir cada centímetro dela pressionado em meu corpo; cada curva se encaixava em mim como se ela fosse feita para mim e só para mim. Sua língua era como veludo contra a minha, sua respiração como ar puro de vida preenchia meus pulmões. Eu não conseguia chegar perto o suficiente. Não conseguia beijá-la suficientemente profundo. Sua camiseta de dormir banida por meus punhos, rasgando o tecido com facilidade. Eu tinha de tocar sua pele. Precisava senti-la inteira. Usando os pés, ela baixou minhas calças; minha ereção se libertou, mas ficou presa entre nós dois. A gente gemeu quando nossa pele se encontrou. A pele macia e suave esfregando meu corpo mais duro e forte. Ela era como creme — fluido e doce, envolvido em mim. Usando minhas mãos e língua, eu a explorava. As curvas escondidas do mundo agora eram minhas para explorar. Eu me esbanjava em seu gosto, cada descoberta nova e exótica. Seus seios eram cheios e luxuriosos em minhas mãos, seus mamilos atrevidos e sensíveis. Ela gemeu quando passei a língua em seus picos rígidos, mordiscando-os de leve. Ela se contorceu e deu um gritinho conforme eu abaixei, circulando minha língua em seu estômago, depois em seu umbigo e, mais além, até encontrá-la molhada e pronta para mim. — Richard — ela arfou. A palavra foi direta e franca quando fechei a boca ao redor dela e provei sua doçura. Seu corpo se curvou, arqueando e esticando conforme eu explorava, usando minha língua para investigar e brincar. Ela enfiou a mão em meu cabelo, puxando-me mais perto e empurrando para trás conforme eu criava um ritmo. Seus gemidos e choramingos eram como música para meus ouvidos. Coloquei um dedo, depois dois, dentro dela, acariciando-a profundamente. — Deus, docinho, você é tão apertada — gemi em seu calor. — Eu... Eu nunca estive com um homem. Paralisei, ergui a cabeça, conforme suas palavras eram absorvidas. Ela era virgem. Eu precisava me lembrar disso, ser gentil com ela e tratá-la com respeito. O fato de ela me honrar com esse presente, dentre todas as pessoas, fez-me sentir dor com emoções as quais não conseguia identificar. Eu não deveria estar surpreso, mas, como sempre, ela continuava a me deixar confuso. — Não pare — ela implorou. — Katy... — Eu quero isso, Richard, com você. Eu quero você. Eu escalei seu corpo, subindo até sua cabeça, e beijei sua boca com uma reverência que nunca tinha sentido ou demonstrado por uma pessoa. — Tem certeza? Ela me guiou de volta para sua boca. — Sim. Movi-me por cima dela com cuidado; queria que sua primeira vez fosse memorável. Mostrar a ela com meu corpo o que eu estava sentindo com minha alma. Torná-la minha em todo sentido da palavra.


Eu a adorei com meu toque, leve e gentil, sua pele era como seda em minhas mãos. Amando-a com minha boca, conheci cada parte dela das formas mais íntimas, memorizando seu gosto e sua sensação. Acariciei sua paixão com a minha própria até ela estar implorando por mim. Gemi e guinchei quando ela ficou mais atrevida, tocando e descobrindo meu corpo com seus lábios provocantes e suas mãos delicadas. Seu nome parecia uma oração saindo de minha boca quando seus dedos acariciaram meus ombros, desceram por minha coluna e envolveram meu pênis. Enfim, fiquei por cima dela, cobrindo-a com todo meu corpo, entrando profundamente em seu calor apertado, segurando-a até ela implorar para eu me mover e, só depois, deixei minha paixão voar. Estoquei de maneira poderosa, entrando e saindo dela. Beijei-a furiosamente ao tomá-la, precisando de seu gosto em minha boca tanto quanto precisava de seu corpo em volta de mim. Katy me segurou firme, gemendo meu nome, seus dedos cravaram em minhas costas conforme ela me agarrava forte. — Ah, Deus, Richard, por favor. Oh, eu preciso... — Me diga — pedi. — Me diga do que precisa. — De você... mais... por favor! — Estou com você, baby — gemi, colocando sua perna mais para cima e entrando mais. — Só eu. Você só vai ter a mim para sempre. Ela gritou, jogou a cabeça para trás, e seu corpo se tensionou. Ela era linda quando gozava, seu pescoço se esticou, havia um leve brilho de suor em sua pele. Meu orgasmo deu sinal e eu enterrei o rosto no pescoço de Katy conforme a força de meu prazer dominava meu mundo. Virei minha cabeça, peguei seu queixo, trazendo sua boca para a minha e beijando-a enquanto as ondas de alívio me atingiam, depois acalmavam meu corpo. Rolei para o lado, encaixando-a em meu peito, cheirando seu cabelo. Ela suspirou, aproximando-se mais. — Obrigada — ela respirou. — Acredite, docinho. O prazer foi todo meu. — Bom, não todo seu. Ri contra sua cabeça, dando um beijo em sua pele quente. — Durma, Katy. — Eu tenho de... Apertei meus braços, sem querer que ela saísse. — Não. Fique aqui comigo. Ela suspirou, seu corpo tremeu demorada e lentamente. — De frente ou de costas? — murmurei. Ela gostava de dormir com suas costas no meu peito. Eu gostava de acordar com o rosto enterrado em seu pescoço quente e seu corpo conectado ao meu. — De costas. — Ok. — Soltei meus braços para que ela pudesse virar. Trazendo-a de volta para mim, beijei-a gentilmente. — Durma. Temos muito o que conversar amanhã. — Eu... — Amanhã. Vamos pensar no próximo passo amanhã. — Ok. Fechei os olhos, respirando seu cheiro. No dia seguinte, eu lhe diria tudo. Perguntaria a ela o que ela estava pensando. Eu queria lhe dizer o que estava sentindo — que estava apaixonado por ela. Esclarecer tudo para nós. Então ajudá-la a mover suas coisas para meu quarto, tornando-o nosso quarto. Eu não queria ficar sem ela ao meu lado de novo.


Com um suspiro de satisfação que nunca achei que fosse sentir, caí no sono. Acordei sozinho, com minha mão nos lençóis frios e vazios. Não fiquei surpreso — Katy estava mais inquieta do que o normal nas últimas noites, e mais ainda na noite anterior. Tive de puxá-la de volta para mim mais de uma vez, sentindo os soluços que ela tentava esconder. Eu tinha de segurá-la, deixando suas emoções serem drenadas de meu corpo. Passei a mão no rosto e me sentei. Eu tomaria um banho, depois a encontraria na cozinha. Tinha de conversar com ela. Havia muito para ser esclarecido — uma imensidão de coisas pelas quais tinha de me desculpar para que pudéssemos seguir em frente... juntos. Joguei as pernas para fora da cama, peguei meu robe e me levantei. Comecei a andar até o banheiro e parei. A porta do meu quarto estava fechada. Por que estava fechada? Katy estava preocupada em não me acordar? Balancei a cabeça. Ela era a pessoa mais silenciosa que eu conhecia, principalmente de manhã. Cruzei o quarto e abri a porta. O silêncio me recebeu. Nenhuma música ou som da cozinha encontraram meus ouvidos. Olhei para o quarto de Katy. Sua porta estava aberta, mas não havia sons vindo do quarto também. Algo se contorceu em meu estômago, e eu não conseguia me livrar. Atravessando o corredor, olhei para dentro. A cama estava arrumada, o quarto, impecável e limpo. Parecia vazio. Fui para as escadas, descendo dois degraus por vez, seguindo direto para a cozinha, chamando Katy. Ela não respondeu, e o cômodo estava deserto. Fiquei parado, em pânico. Ela devia ter saído — talvez ido ao mercado. Havia muitos motivos para ela sair do apartamento. Corri para a entrada. As chaves de seu carro estavam no chaveiro. Ela deve ter saído para caminhar, disse a mim mesmo. Voltei para a cozinha em direção à máquina de café. Ela tinha me mostrado como usá-la, então, pelo menos, eu poderia fazer uma xícara de café. Estava nublado lá fora, as nuvens estavam baixas e pretas. Ela devia precisar de uma bebida quente quando voltasse. Só que, quando peguei o pote de café, vi seu celular no balcão. Ao lado dele, suas chaves do apartamento. Minha mão tremeu ao pegá-las. Por que ela iria deixar suas chaves? Como entraria no apartamento? Olhei de novo para o balcão. Estava tudo ali. Os cartões e o cheque que eu lhe dera. A cópia de seu contrato. Ela deixara tudo porque havia me abandonado. Um brilho de luz iluminou meu olho, e inclinei para pegar seus anéis. Minha memória foi atingida por flashes de imagens de Katy. Entregando a caixa a ela e lhe dizendo que eu não ia me ajoelhar. O olhar em seu rosto quando coloquei a aliança em seu dedo no dia em que me casei com ela por circunstância e não por amor. Ela estava linda, mas nunca falei para ela. Havia muitas coisas que eu nunca tinha lhe dito. Tantas coisas que nunca teria a chance de lhe dizer... porque ela tinha ido embora.


26 Richard

Eu sabia que ela não estava lá, mesmo assim, verifiquei cada centímetro do apartamento. Quando olhei em sua cômoda e no closet, a maioria das roupas novas que eu comprara para ela permaneceu, mas algumas haviam sido levadas. Suas duas caixas ainda não desempacotadas estavam no closet, alguns de seus produtos estavam no banheiro, mas a mala havia sumido. Eu me lembrei de ter ouvido gavetas se abrindo e fechando na noite anterior. O que achei que fosse ela organizando e mudando as coisas de lugar, na verdade, era ela se preparando para ir embora. Sentei-me na beirada de sua cama com a cabeça nas mãos. Por quê? Por que ela dormiria comigo quando sabia que iria embora? Por que ela iria embora? Xinguei baixinho — a resposta estava óbvia. Penny estava morta. Ela não tinha mais de sustentá-la, o que significava que não precisava mais fingir estar apaixonada por mim. Eu pensei que estivéssemos nos dando bem. Eu tinha certeza de que ela estava sentindo algo. Por que não tinha conversado comigo? Dei uma risada amarga no quarto vazio. É claro que ela não viria conversar comigo. Quando, em algum dia, disse para ela que poderia fazê-lo? Havíamos nos tornado inimigos amigáveis, unidos por um objetivo comum. Agora esse objetivo tinha mudado para ela. Eu poderia ter planejado conversar com ela, mas ela não fazia ideia de como. Eu ainda não conseguia organizar meus pensamentos; no quanto meus sentimentos tinham mudado. A pergunta que eu ficava gritando na minha mente, aquela que não fazia sentido era: Por que ela dormiu comigo? O ar em meus pulmões se transformou em gelo quando as lembranças da noite anterior passaram por minha mente. Ela era virgem... e eu não tinha usado proteção. Fiquei tão envolvido no momento, assim como Katy, que nem tinha pensado nisso até aquele instante. Eu transei com ela sem camisinha. Sempre usei camisinha — nunca nem houvera conversa com meus pais. Quais eram as chances de ela tomar remédio? Segurei minha nuca, em pânico. Quais eram as chances de ela engravidar? Ela tinha sumido. Eu não fazia ideia de onde ela estava, não fazia ideia se estava grávida. Nem imaginava como reagiria se ela estivesse esperando um bebê. Será que ela pensaria nessa possibilidade? Corri para o escritório, minha ansiedade agora maior do que nunca, e liguei o notebook. Pesquisei rapidamente o histórico, pensando se ela o tivesse usado para reservar um voo ou uma passagem de trem, mas não encontrei nada. Verifiquei nossas contas bancárias, recostando-me admirado quando vi que ela tinha sacado vinte mil dólares no dia anterior. Lembrei-me da caminhada que ela fez durante a tarde e como insistiu em ir sozinha. Ela fora ao banco e sacou ou transferiu o dinheiro. Tudo o que ela pegou foram dois meses de “salário”. Conforme fui olhando a conta dela, percebi que, além das despesas com a Penny, ela não tocara em um centavo do dinheiro. Não gastara nada consigo mesma. Não pegara nada para seu futuro.


Eu estava mais confuso do que nunca. Ela não queria meu dinheiro. Não me queria. O que ela queria? Tamborilei os dedos de forma impaciente na mesa. Ela deixara suas chaves e o cartão, o que significava que não poderia entrar no prédio ou no apartamento. Eu sabia que ela iria, alguma hora, entrar em contato comigo para pedir as caixas que deixou para trás, e eu insistiria em vê-la primeiro. Meu olhar se desviou para a prateleira do escritório, e percebi que as cinzas de Penny haviam sumido. Aonde quer que ela tivesse ido, ela as havia levado junto, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que ela iria querer suas fotos e os conteúdos das fotos lá em cima; elas continham itens sentimentais — coisas que ela achava importante. Minha cabeça começou a girar, trabalhando como sempre fazia quando eu tinha um problema. Comecei a compartimentar e criar soluções. Eu podia dizer aos Gavin que ela viajara por algumas semanas. Que o choque da morte de Penny foi demais e ela precisava de um tempo. Podia dizer que a mandei para um lugar quente para relaxar e se recuperar. Iria ganhar um pouco de tempo. Quando ela entrasse em contato, poderia convencê-la a voltar e poderíamos dar um jeito. Poderíamos ficar casados. Eu arranjaria um lugar para ela morar perto e a única hora em que ela teria de me ver era quando houvesse evento. Eu poderia convencê-la a fazer isso. Levantei-me, olhando pela janela a luz opaca. Aquele tempo era perfeito para meu humor. Deixei meus pensamentos fluírem, criando cenários diferentes, finalmente decidindo que o mais simples era o melhor. Manteria meus pensamentos iniciais de ela ter viajado. Eu estava com o celular dela. Podia enviar mensagens para mim mesmo e inventar ligações suficientes para que eles nem imaginassem. Só que... Minha cabeça caiu para frente. Não era isso que eu queria. Eu queria saber aonde Katy foi. Precisava saber que estava segura. Queria conversar com ela. Ela estava de luto e não estava pensando direito. Pensava que estivesse sozinha. Segurei a janela, olhando para a cidade. Ela estava lá fora, em algum lugar, e estava sozinha. Eu tinha de encontrá-la. Para o bem de nós dois. Voltei para meu prédio e estacionei na minha vaga, deixando a cabeça cair para trás contra o encosto. Eu tinha dirigido por todo lado que conseguia pensar onde talvez ela estivesse. Fui ao aeroporto, à estação de trem, à rodoviária, até a locadoras de carro. Mostrei a foto dela para o que pareceram centenas de pessoas, mas não descobri nada. Ela deixara seu celular para trás, então eu não podia tentar ligar para ela. Eu sabia que ela tinha o próprio cartão de crédito, e tentei entrar em contato com o banco para ver se ela o tinha usado recentemente, mas desligaram na minha cara imediatamente. Se eu quisesse aquela informação, teria de contratar alguém. Não consegui encontrar uma pista sozinho. Desmotivado, arrastei-me pelas escadas e me joguei no sofá, sem me importar em acender as luzes. A luz do dia estava desaparecendo, e o cinza da noite tomava o céu lentamente. Onde ela estava? A raiva se apossou de mim, peguei o item mais próximo e joguei na parede. Explodiu, espalhando vidro pelo quarto. Levantei,-me furioso e ansioso. Andei de um lado para o outro, o vidro fazia barulho sob meus sapatos conforme eu andava. Peguei uma garrafa de uísque, girei a tampa e bebi no gargalo. Era por isso que eu não permitia que o sentimento entrasse em minha vida. Era como um burro, lento e inútil, e te daria um coice na cara quando você menos esperasse. Meus pais nunca deram a mínima para mim, e eu aprendi a confiar em mim mesmo. Baixei a guarda com Katharine e a vadia tinha fodido com a minha vida. Ela queria sumir? Bom, que ficasse livre. Ela podia desaparecer. Quando finalmente ligasse para pedir suas coisas, eu enviaria junto com os papéis do divórcio. Congelei, a garrafa no meio do caminho para minha boca. O abismo que estava ameaçando se abrir em


meu peito o dia inteiro o fez. Sentei desabando, não mais interessado na garrafa. Ela não era uma vadia, e eu não queria que ela sumisse. Eu a queria ali. Comigo. Queria sua voz baixa me fazendo perguntas. Sua risada irônica. A forma como ela arqueava a sobrancelha para mim e sussurrava “vá se foder, Van Ryan”. Eu queria escutar suas ideias e sua voz. Suspirei, o som baixo e triste no quarto vazio. Queria acordar ao seu lado e sentir seu calor em volta de mim, o jeito como ela entrara em meu coração morto e o revivera. Repensei na nossa discussão há algumas semanas. A forma como ela tentou me convencer de que o amor não era uma coisa tão terrível. Ela estava sentindo algo por mim? Era possível? Eu a destratei por ser dramática — a tristeza em seus olhos, o cansaço em sua voz quando me disse que estava cansada de mentir e que a culpa estava pesando. Eu insistira que não magoaríamos ninguém. Graham tinha um ótimo funcionário, Penny tinha um asilo maravilhoso, Katharine teria uma vida melhor assim que tudo acabasse e minha vida continuaria a mesma. Ninguém descobriria e ninguém sofreria. Como eu estava enganado... porque nós dois estávamos sofrendo. Eu queria minha esposa de volta e, desta vez, de verdade. Só não sabia como conseguir. Andei e pensei por horas, a garrafa de uísque nunca ficou longe das minhas mãos. Quando meu estômago roncou lá pelas duas da manhã, percebi que fazia muito tempo que tinha comido. Na cozinha, abri a geladeira e peguei um pote com espaguete que sobrou. Não me importei em esquentar. Sentei à mesa, enrolando a massa fria e comendo. Mesmo fria, estava boa. Tudo que Katharine fazia era delicioso. Minha mente voltou à noite em que ela fez filé e aspargos com molho Béarnaise — uma refeição que se comparava à que comi no Finlay’s. Meu elogio foi sincero, e sua reação foi o rubor raro. Com sua pele clara, ela frequentemente tinha traços de cor nas bochechas quando cozinhava ou bebia algo quente. Quando estava brava, ou nervosa, sua pele ficava com um vermelho-escuro, como se estivesse queimando, mas seu rubor discreto era diferente. Destacava seu rosto, tornando-a ainda mais bonita do que o normal. — Eu gosto disso — comentei. — Gosta do quê? — Do jeito que você fica vermelha. Não é sempre, mas acontece quando eu te elogio. — Talvez você não me elogie o suficiente. — Tem razão, não elogio. Ela colocou a mão no coração com uma surpresa irônica. — Está concordando comigo e elogiando? É um dia raro na casa Van Ryan. Joguei minha cabeça para trás, rindo. Peguei minha taça de vinho e a observei por cima dela. — Quando eu era criança, por um tempo, minha sobremesa preferida era sorvete com cobertura de morango. — Só por um tempo? — Nana fazia para mim. Depois que ela foi embora, nunca comi de novo. — Oh, Richard... Balancei a cabeça, sem querer ouvir suas palavras solidárias. — Ela fazia para mim e eu adorava misturar a cobertura com o sorvete. Ficava tudo rosa e derretido. — Tracei a beirada da mesa com meu dedo. — Seu rubor me lembra isso. Ela não disse nada por um tempo, então veio até mim, inclinou-se e beijou minha cabeça.


— Obrigada. Não olhei para cima. — Ok. — E se acha que suas palavras bonitas vão te livrar da louça, pode esquecer, Van Ryan. Eu fiz o jantar. Você lava tudo. Ri quando ela saiu da cozinha. Meu garfo parou na metade do caminho até a boca. Eu a amava já naquele instante. A brincadeira fácil, ela ironizar, o conforto que eu sentia em sua presença — estava tudo lá, mas não havia reconhecido. Amor não era algo que eu conhecia ou entendia. Baixei meu garfo e empurrei o pote para longe, meu apetite sumiu. Olhei pela cozinha enxergando seus toques em todo lugar. Estavam por todo o apartamento. Ela adicionou pedacinhos de Katharine, tornando melhor do que o lugar em que eu vivia. Ela o tornou um lar. Nosso lar. Sem ela, aquilo não era nada. Sem ela, eu não era nada. — Richard? O que está fazendo aqui? Virei-me e assisti a uma cena familiar acontecer diante de mim. Meu chefe, entrando no meu escritório, vendo-me juntar minhas coisas. Na minha mão, estava uma foto tirada no dia do meu casamento. Eu a estava segurando, olhando para ela por só Deus sabe quanto tempo, pensando e me lembrando. Graham entrou, parecendo confuso. — É para você estar em casa com Katy. Eu te disse para tirar todo tempo que precisava. — Ele olhou a caixinha na minha mesa. — O que está acontecendo? — Preciso falar com você. — Cadê a Katy? Olhei para ele de cabeça erguida. — Não sei. Ela me deixou. Ele recuou, com o choque escrito na testa. Enfiando a mão no bolso, ele pegou seu celular. — Sarah, cancele meus compromissos e reuniões do dia. Sim, todos eles. Remarque o máximo que conseguir. Estarei fora do escritório. — Ele desligou. — Não vi seu carro lá embaixo. Balancei a cabeça. — Peguei um táxi. — Coloque a foto de volta na sua mesa e venha comigo. Vamos a um lugar privado onde poderemos conversar. — Estou quase acabando — argumentei. — Não tinha muita coisa aqui. — Está se demitindo? Meu suspiro foi cheio de dor. — Não. Assim que ouvir o que tenho a dizer, entretato, não terei um emprego. Será mais fácil assim. Ele franziu o cenho, sua voz ficou firme. — Solte a foto, Richard. Assim que conversarmos, vou decidir o que acontecerá depois. Olhei para a foto que agarrava com a mão trêmula.


— Agora. Fiz o que ele pediu. Ele segurava meu casaco, analisando meu rosto. — Você está horrível. Coloquei meu casaco e assenti. — Sinto isso também. — Vamos. Não falamos nada no carro. Eu olhei pela janela para a cidade que amava, mas, provavelmente iria deixar. Sem Katharine ou o emprego que eu queria, não havia mais nada para mim em Victoria. Assim que acertasse tudo com Graham e Katharine, eu me mudaria para Toronto. Era uma cidade enorme e impessoal. Eu conseguia me perder lá. — Richard. Assustei-me, olhando para Graham. — Chegamos. Eu estava tão concentrado nos pensamentos que não percebi para onde estávamos indo. Ele nos levara para sua casa. Franzi o cenho, olhando para ele. — Teremos privacidade completa. Laura está em casa, mas ela não irá interferir. Engoli. — Ela merece ouvir isso também. — Talvez depois. Vamos conversar primeiro. Abri a porta do carro, muito cansado para discutir. — Ok.


27 Richard

Olhei pela janela observando a propriedade enorme. Lembranças de levar Katharine ali no primeiro dia passaram por minha mente. Como nós estávamos nervosos e ansiosos. Como ela interpretou bem seu papel. Meu olhar varreu o deque. Ao lembrar-me de nosso jantar de casamento, meu peito se apertou. Ela estava tão linda, parecia tão certo estar em meus braços quando dançamos. Aquele dia, que não deveria ter sido nada além de uma parte do plano, foi feliz. Eu já a amava ali? — Richard. Virei-me para encarar Graham. Ele segurava uma xícara fumegante de café. — Achei que poderia querer. Peguei a xícara assentindo em silêncio e me virei de volta para a janela. Meus pensamentos estavam atrapalhados e confusos. Não fazia ideia de como começar aquela conversa, mas sabia que tinha de fazêlo. Precisava esclarecer tudo, depois pensar no próximo passo. Enchendo o pulmão de ar, virei-me para Graham de novo. Ela estava apoiado em sua mesa, com os pés cruzados, bebendo seu café. Estava em seu estado normal e calmo, mas, ainda assim, sua expressão era intensa. — Não sei por onde começar — admiti. — O começo geralmente é o melhor. Eu não tinha certeza de qual era o começo naquele momento. O motivo verdadeiro de eu ter saído da Anderson Inc.? O acordo que fiz com Katharine? As centenas de mentiras e invenções que seguiram? — Por que Katy te deixou, Richard? Dei de ombros, sentindo-me inútil. — Não sei. Talvez porque ela não soubesse como eu realmente me sentia em relação a ela. — Que é como exatamente? — Eu a amo. — Sua esposa não sabia que você a amava? — Não. — Acho que você encontrou seu começo. Assenti sombriamente, sabendo que ele estava correto. — Eu menti para você. — Qual parte? Sentei-me, colocando a xícara de café na mesa. Se eu ficasse segurando-a, iria quebrá-la com meu punho cerrado ou jogaria tudo, o café e ela, na parede. Nenhuma das opções caía bem em uma conversa civilizada — não que fosse ser uma. — Tudo. Foi tudo uma mentira.


Graham se sentou à minha frente, cruzando as pernas. Ele passou o dedo no vinco de suas calças, então olhou para cima. — Você mentiu para mim para conseguir o emprego no Grupo Gavin? — Sim. — Me diga por quê. — Fui passado para trás para ser sócio, e queria irritar David. Queria sair, mas queria ficar aqui, em Victoria. Eu gosto daqui. Ouvi sobre a abertura da vaga no Gavin e queria entrar. Além da pequena inclinação de seu queixo, ele não disse nada. — Eu sabia que você nunca me contrataria. Eu sabia como administrava seu negócio com rédea curta. Minha reputação era menos que estelar, no quesito pessoal. — Dei risada. — Não importava o que eu poderia trazer no âmbito profissional, porque meu estilo de vida e minha personalidade o impediriam até de pensar em mim. — Isso é verdade. — Tive uma ideia de que, se você pensasse que eu não fosse aquela pessoa, talvez eu tivesse uma chance. — E você inventou esse plano. — Sim. — Como Katy entrou nesse seu esquema? — Ela não queria. Com as regras na Anderson, eu sabia que ela era a opção mais óbvia. Além do fato de ela ser diferente de toda mulher com quem eu saía, o fato de ela ser minha assistente era perfeito. — Ergui meus ombros, renunciando. — Eu nem gostava dela. Ela não era louca por mim também. — Vocês dois fingiram bem. — Precisávamos fingir. Era importante para os dois. — Inclinei-me para frente, sério. — Ela fez isso por um motivo, e apenas um, Graham. — Penny. — Sim. Eu a pagava para fingir ser minha noiva. Praticamente a coagi a se casar comigo para continuar a farsa. Ela detestava a mentira e as invenções. — Esfreguei minha nuca, meus dedos cravaram fundo na minha pele. — Ela era, é, tão apegada a todos vocês que isso se tornou demais para ela, eu acho. Ela não conseguia mais aguentar. — Quanto dessa invenção tem os dedos de Brian Maxwell? Eu já tinha decidido não deixar ninguém mais sofrer por minha causa. Eu me recusava a prejudicar Brian ou Amy. — Nada. Eu contei a ele a mesma história que contei a você. Se ele suspeitou de algo, guardou para si mesmo. Acho que ele realmente achou que eu tivesse mudado, ou não faria parte disso. Amy — complementei — não sabia de nada. Nada. Ele me olhou por um tempo, mexendo no queixo. — Não sei se ele foi tão inocente como diz. Porém, vou deixar passar. Amy é uma funcionária confiável, então realmente acredito que ela não sabia de nada. — Ela não sabia. — Então você foi contratado. Qual era seu plano? Baixando minha cabeça, entrelacei as mãos na nuca, puxando meu pescoço. Sentei-me tenso e ansioso, como se fosse sair de minha pele a todo segundo.


— Richard, preciso que se acalme. Tente relaxar. Exalando grandemente, soltei meu pescoço e olhei para ele. — Não sei onde minha esposa está, Graham. Não consigo relaxar. Minha vida está um furacão, e a única pessoa que pode torná-la melhor está por aí — acenei para a janela — achando que não me importo. — Quando se apaixonou por ela? — Não faço ideia. Era para ser uma farsa. Eu precisava que ela me tornasse mais agradável. Pensei que, se colocasse meu pé dentro da empresa, provasse meu valor para você e sua empresa, mostrasse o que poderia oferecer para suas campanhas, talvez minha vida pessoal não importasse tanto. Certo dia, eu me divorciaria dela e seguiríamos caminhos diferentes. Eu continuaria trabalhando; ela estaria muito melhor financeiramente do que estava. Ninguém descobriria. — Mas? — Sua pergunta pairou no ar, simples e pesada. — As coisas mudaram. Eu mudei. O que era para ser uma farsa se tornou real. Ficamos amigos. Aliados. Então nos tornamos mais que isso. Mas eu nunca percebi. Nunca percebi como ela estava se tornando importante para mim. Nunca pensei que fosse capaz de ter sentimentos assim por alguém. — Onde Penny entra nessa situação? Acho que ela é uma boa parte de tudo. — Katharine nunca quis que eu a conhecesse ou tivesse qualquer contato com sua vida. Ela não queria confundir a mente já nebulosa de Penny. Na noite em que nos reunimos quando entrei para a firma, e eu bebi demais, nós discutimos. Ou melhor, eu fui um babaca e a pressionei. Ela me contou sobre o acidente de seus pais e como Penny entrou em sua vida. Ela me informou, em termos não tão claros, exatamente o que pensava de mim. — Mesmo com minha preocupação e a seriedade da conversa, meus lábios se curvaram em um sorriso. — Vi um lado de Katharine naquela noite que nunca imaginei que tivesse. Ela não era fraca como eu pensei inicialmente. Ela era, é, feroz e forte. Leal. — Meu sorriso caiu. — E ela abriu meus olhos para o desgraçado que eu realmente era... com ela e com todos ao meu redor. No dia seguinte, fui conhecer Penny. — Presumo que ela tenha te impressionado? — Ela me lembrou de alguém do meu passado. Uma das poucas pessoas que tinha quando era mais jovem. — Arrumei meu topete e parei de falar, sabendo que tinha de reorganizar meus pensamentos. Não queria me aprofundar tanto no meu passado com Graham. — Apesar de tudo, Katharine se casou comigo aquele dia porque tínhamos um acordo e ela cumpriu sua palavra. — E você se apaixonou por sua esposa. — Sim. Mas era tarde demais. — Por que diz isso? — Ela me deixou. Deixou tudo que eu lhe dei para trás. Seu celular, o dinheiro, até o carro. Eu não faço ideia de como encontrá-la ou aonde ela possa ter ido. — E as coisas de Penny? Ela as levou? — Não, estão no apartamento, junto com algumas coisas pessoais. Acho que ela vai entrar em contato para dizer para onde enviá-las. — Você não quer esperar até lá. Levantei-me, voltando para a janela. — Não acho que haja alguma coisa pela qual esperar, mas, não, preciso encontrá-la. — Está disposto a lutar para mudar isso... você quer lutar, Richard? Virei-me.


— Sim. Quero lutar por tudo isso. Ela. Meu emprego. Tudo. Ele se levantou, cruzando os braços. — Suspeitei que estivesse mentindo quando o conheci. Fiquei boquiaberto. — O quê? — Eu tinha quase certeza. Mas achei seu modo de pensar intrigante. Você me intrigou. Conversando com você, senti que havia mais de você do que permitia que as pessoas vissem. Havia um brilho, pela falta de uma palavra melhor, eu podia ver. Pela primeira vez na vida, queria contratar uma pessoa da qual não tinha absoluta certeza. Laura se sentia da mesma forma para com você... até mais forte, para ser sincero. Ela sentiu que você precisava de uma chance. — Você disse isso uma vez. Ele assentiu. — Katy... ela foi o fato decisivo. Ela era transparente e verdadeira. Independentemente se percebesse ou não, você era diferente com ela. — Ele sorriu. — Na verdade, foi legal assistir você se apaixonar, Richard. Nós dois pudemos ver isso. Vimos as mudanças em você. — Ele me analisou, com a cabeça inclinada para o lado. — No escritório, você era uma maravilha de se ver. A forma como sua mente trabalha, as ideias girando, os conceitos. Seu entusiasmo até me motivou mais. Era quase um espetáculo de assistir. Minha garganta se apertou. Pude ouvir a finalidade de suas palavras. Era. Minha carreira estava acabada no Grupo Gavin. Embora eu soubesse que iria acontecer, ouvir aquilo ainda iria apagar uma chama pequena de esperança que eu tinha queimando, e agora, já era. — Sua empresa, Graham. No tempo em que fiquei foi, sem dúvida, o ambiente mais positivo e criativo do qual já fiz parte na minha carreira. A forma como você permite que as pessoas trabalhem, a energia de equipe que permeia o ambiente que criou. Foi uma honra trabalhar para você. Não consigo nem começar a expressar minhas desculpas por enganá-lo. Não vou pedir seu perdão, já que sei que não o mereço. Tudo que peço é que perdoe Katharine. Eu a fiz fazer isso. Eu a encurralei até ela não ter escolha. — Pausei, sem saber mais o que dizer. — Ela é tão apegada a Jenna e Laura. Quando ela voltar, eu ficaria tranquilo sabendo que tem uma amiga em quem confiar. — Aonde você vai? Dei de ombros. — Talvez para Toronto. Não sei. Não vou sair da cidade até ela voltar e ajustarmos tudo. Ele ergueu as sobrancelhas. — Essa é sua ideia de luta? Parece que já desistiu. — Não posso trabalhar para uma empresa misteriosa on-line, Graham. Nunca vou voltar para a Anderson Inc., então realmente não tenho outra opção a não ser me mudar para outra cidade e começar de novo. — Eu te demiti? — Presumo que esteja quase. — E quando o fizer? — Vou apertar sua mão, agradecê-lo por ser alguém que respeito pelo resto da vida... alguém que acreditou o bastante em mim para assumir riscos. Pouquíssimas pessoas já acreditaram em mim. — Engoli a emoção densa na garganta... Katharine foi uma dessas pessoas. — Por que está me contando isso, Richard? — ele perguntou, confuso quanto aos meus motivos. —


Você poderia ter ficado quieto e saído ileso. Katy pode voltar e tudo isso terá sido para nada. Minha suspeita iria simplesmente permanecer assim... uma suspeita. Encarei seu olhar. — Katharine não é a única que está cansada de viver uma mentira. Quero seguir em frente com tudo às claras, seja aqui com você ou em outro lugar. Não esperava que esse plano mudasse. Não tinha planejado me apaixonar por minha esposa, e não esperava que sua opinião importasse tanto como importa. Eu não — limpei minha garganta — esperava me sentir tão próximo de sua família. Nunca senti nada assim... nunca tive uma família, não uma de verdade como a sua. Foi como se eu tivesse encontrado minha própria encruzilhada, e não tinha escolha a não ser te contar a verdade. Sinto muito se te decepcionei, Graham. Me arrependo mais do que consigo expressar. Ele deu um passo para frente e eu ergui minha mão, surpreso em vê-la tremendo. Ele olhou para baixo, ignorando minha mão estendida. Sua mão estava pesada quando ele deu um tapinha em meu ombro e encontrou meu olhar. — Não vou te demitir, Richard. — Não... não vai? — Não. Agora não. Você tem trabalho a fazer. Precisa encontrar sua mulher e trazê-la de volta. Depois conversaremos sobre seu futuro com a empresa e em geral. — Não entendo. — Há mais coisa nisso do que o olho pode ver. Seu passado ditou a pessoa que se tornou quando virou adulto, que, francamente, não era a melhor das pessoas, até Katy. — O que você quer, Graham? — Quero que encontre sua esposa. Descubra o que ela está pensando, como está se sentindo. Seja sincero... jogue as cartas na mesa. — E depois? — Leve-a para casa ou termine tudo. De um jeito ou de outro, retome sua vida nos trilhos. Você e eu vamos sentar e conversar... conversar de verdade. Acho que você tem muito a oferecer para minha empresa. — Ele parou e assentiu como se tivesse tomado uma decisão na cabeça. — Acho que minha família e eu temos algo para te oferecer. — E o que tenho de fazer para conseguir? — Ser sincero. Verdadeiro. Quero saber sobre sua vida. O Richard que foi e o Richard que é agora. Também aguardarei desculpas para minha família. Se ficar na empresa, vai ter de ganhar nossa confiança novamente. — Voltar ao primeiro degrau? — Eu diria que agora você está no quinto negativo. — Entendi. — Realmente entendia. Sua oferta me surpreendia e também me aterrorizava. Pensar em contar para ele sobre o que passei, a pessoa que fui ao crescer e antes de trabalhar para ele, era assustador. No entanto, eu tinha de fazer outra coisa primeiro. — Não sei como encontrar Katy. — Sugiro que faça a mesma coisa que fez comigo hoje. Comece do começo. — O quê? — Ela e eu conversamos bastante no dia da cerimônia de Penny. Acho que sei onde ela pode estar. Se procurar bem, vai encontrar a resposta em sua casa. — Me diga — pedi. — Por favor.


— Não. Você precisa descobrir. Conhecer sua esposa sem ajuda. Se tentar, se pensar, você consegue, Richard. — Ele apertou meu ombro. — Tenho certeza. — E se eu não conseguir? — Então você não quer tanto assim. Se a ama, se realmente a ama, vai descobrir. — Ele parou e me olhou pensativo. — Vou fazer uma pergunta. Quero que responda sem pensar. Quero seu primeiro pensamento. Endireitei meus ombros. Eu era bom nisso. — Manda. — Por que ama Katy? — Porque ela me faz ver o mundo de uma forma diferente. Ela me engrandece. — Ergui um ombro com frustração de não saber como explicar. — Ela deixa minha vida mais iluminada. Ela me mostrou o que significava amor verdadeiro. Ele assentiu. — Vou te levar para casa agora.


28 Richard

No corredor, Laura nos parou. Ela olhou para mim, com o cenho franzido. — Eu estava ouvindo atrás da porta, Richard. — Ok. — Ouvi quase tudo. Baixei o olhar, o dela era muito intenso para sustentar mais tempo. — Você mentiu para mim. Para minha família, — Sim. — Assim como Katy. Ergui a cabeça rapidamente. — Porque eu a obriguei, Laura. Ela detestou. Ela detestou o fato de ter de mentir, em primeiro lugar, mas, assim que conheceu vocês, ela ficou relutante. — Dei um passo à frente. — Ela fez isso para ter certeza de que Penny fosse bem cuidada e morasse em um asilo seguro. Ela... ela ficou tão apegada a você, a todos vocês, que esse plano a corroía por dentro. — Segurei minha nuca, apertando os músculos tensos. — Acho que foi o motivo principal de ela ter ido embora. Ela não conseguia mais suportar as mentiras. Ela se esticou, pegando meu braço. Soltei minha nuca e lhe permiti pegar minha mão. — Ainda era mentira quando ela foi embora? — Não — admiti. — Eu a amo. Estou perdido sem a Katy. — Desviei meu olhar para Graham e de volta para ela. — É por isso que eu tinha de contar para vocês. Precisava esclarecer tudo, independentemente do que acontecesse. Precisava que entendesse que a culpa era toda minha. Não dela. Se eu sair da cidade, e ela voltar, espero que a perdoem. Ela estará totalmente sozinha. Laura sorriu. — Você amadureceu, Richard. Agora seu primeiro pensamento é Katy e seu bem-estar. — Deveria ter sido sempre assim. Ela apertou minha mão. — Encontre sua esposa. Diga a verdade. Acho que vai descobrir que não é o único que está perdido. Meu peito se contraiu. Queria acreditar... acreditar que ela também me amava. Que ela fugira porque precisava pensar no próximo passo. Eu precisava encontrá-la para ela entender que não precisava ficar sozinha. — É o que quero. Graham falou. — Então trabalhe para isso. Faça por merecer. Resolva sua vida pessoal. Assim que fizer isso, vamos conversar sobre a sua vida profissional. Neste momento, você está afastado até nos falarmos de novo. Você não está demitido, mas seu futuro também não está gravado numa pedra.


— Entendi. Eu esperara ser demitido instantaneamente. Colocado para fora de sua casa. Independentemente do resultado, ou do quanto seria difícil, uma conversa futura era mais do que eu merecia. — Obrigado — anunciei sinceramente. — Vou te levar para casa agora. Eu o segui até o carro, refletindo que, sem Katy ali, não era meu lar. Era o lugar onde eu morava. Onde quer que ela estivesse agora, lá era meu lar. Ao seu lado. Eu tinha de encontrá-la e trazê-la de volta. Então poderia chamar de lar novamente. Depois de Graham me deixar em casa, andei pelo apartamento, sem saber por onde começar. Na mesa de centro estava a pasta na qual estavam todas as amostras de cor e ideias de Katy para o lugar. Ela havia adicionado meu quarto à lista, seus rascunhos incluíam outra mobília e mudar a cor das paredes. Ela era talentosa. Eu notara mas nunca lhe disse, embora devesse ter dito. Havia muitos pensamentos que eu deveria ter compartilhado. Joguei a pasta de volta na mesa de centro. Quando a tivesse de volta, poderíamos conversar sobre qualquer mudança que ela quisesse fazer em nosso quarto. Ela poderia fazer qualquer coisa que lhe agradasse em todo o local, contanto que estivesse ali, estava tudo bem. Primeiro, eu tinha de encontrar minha esposa. Fui ao seu quarto e peguei uma caixa de arquivo pequena na prateleira de seu closet. Eu sabia que continha alguns documentos legais dela e de Penny. Sentei-me na chaise e abri a tampa, ignorando a sensação de culpa. Essas eram suas coisas pessoais e eu sentia que não deveria estar mexendo nelas sem sua permissão. No entanto, eu não tinha escolha. Uma hora depois, coloquei tudo de volta na caixa, deixando minha cabeça cair um pouco. Katharine era muito boa em guardar informações. Pela primeira vez, entendi o quanto ela viveu perto da pobreza. Como cada centavo que ela ganhava ia para Penny e seus cuidados. Consegui ver quanto as despesas aumentaram enquanto seu salário aumentava bem pouco. Ela teve de cortar cada vez mais de seus próprios gastos — mudando-se para lugares mais baratos, gastando o mínimo que conseguia nas necessidades diárias. Repensando como eu a tratava no escritório, as coisas com que ela tinha de lidar diariamente, como eu zombava de seus almoços entediantes — tudo isso me fez estremecer. A vergonha, quente e profunda, corria pelo meu corpo ao pensar nas coisas que eu fizera, a forma como eu falara. Como ela deixou isso para trás e me perdoou era um milagre. Fechei a tampa. Embora eu adquirira um pouco mais de conhecimento sobre sua vida e seu amor incondicional por Penny, essa caixa não tinha nenhuma pista de onde ela poderia estar. Tirei as duas caixas fechadas do chão de seu closet e as vasculhei. Mesmo assim, horas depois, senteime derrotado. Elas continham vários itens pessoais; projetos de escola, boletins, velharias e algumas fotos de família, e recordações de seus anos de adolescente. Havia recordações que significavam bastante para ela, mas nada para mim, nada para me guiar até onde ela estava. Fechei de novo as caixas e me levantei, exausto, mas determinado. Olhei pelo quarto, então fiz uma varredura nas gavetas, prateleiras, estantes e banheiro. Vasculhei nas fotos nas prateleiras, olhei os pequenos enfeites e passei o dedo pelas lombadas dos livros. Duvidei que sua preferência de literatura me desse alguma pista. Apaguei luz e desci as escadas. Servi-me um uísque, surpreso quando vi como era tarde. Olhei pela cozinha, mas não estava com fome. Peguei uma maçã, mastigando ao me sentar ao balcão. Pensamentos


nela na cozinha, fazendo uma boa refeição, flutuaram na minha mente. Lembrei-me de sua risada e como ela zombou de mim quando resmunguei sobre o jantar estar demorando. — Paciência, Richard. Todas as boas coisas vêm àqueles que esperam — ela disse, rindo. Fechei os olhos. Eu não conseguia ser paciente quando o assunto era encontrar Katharine. Joguei fora minha maçã pela metade. No escritório, liguei o computador para verificar se tinha e-mail dela, sem ficar surpreso por não haver nada. Bebi meu uísque, olhando o cômodo. Sempre gostava quando ela entrava e se sentava diante de mim. Eu lhe mostrava no que estava trabalhando, e seus comentários sempre eram positivos e úteis. Como eu não percebi o quanto ela se tornou parte de minha vida? Quando nosso acordo começou, as linhas estavam escritas claramente. Pouco a pouco, elas desapareceram até não existir mais nada. Tudo se tornou tão natural quanto respirar — eu observando-a cozinhar, ela conversando comigo do outro lado da mesa, sentar ao lado dela enquanto ela assistia à TV ou simplesmente o beijo rápido que ela me dava na cabeça quando ia dormir. Era, simplesmente, uma parte do meu dia a dia, assim como me certificar de que minha porta estivesse aberta para que ela conseguisse me ouvir roncar era algo que eu fazia sem pensar. Eu havia me apaixonado por ela ao criar um hábito positivo, novo e pequeno de cada vez. Ela havia, lentamente, substituído os hábitos ruins, até eles sumirem e ficar apenas ela. Eu precisava tê-la de volta. Cedo na manhã seguinte, após outra noite agitada, carreguei as caixas do asilo para o quarto de Katharine. Eu as colocara no depósito, sabendo que ela não estava preparada para lidar com o que tinha dentro tão rápido depois da morte de Penny. Todas suas pinturas, desenhos e outros trabalhos de arte também estavam guardados ali e permaneceriam até Katharine decidir o que fazer com eles. A primeira caixa continha um monte de enfeites e recordações que enfeitavam o quarto de Penny. Com cuidado, guardei tudo de volta e coloquei a caixa de lado. A próxima caixa estava cheia de pinturas e álbuns de foto. Passei um tempo xeretando os álbuns, nos quais vi a vida de Penny estampada nas fotos em preto e branco que, lentamente, passavam a ser coloridas. O último álbum que abri começou quando Katharine entrou em sua vida — uma adolescente magra e assustada, cujos olhos pareciam velhos demais para seu rosto. Conforme eu virava as páginas, ela mudava — crescendo, engordando e descobrindo a vida novamente. Fiquei intrigado com tantas fotos dela sentadas em restaurantes, em mesas enormes com rostos sorrindo com elas. Sorri ao ver as fotos tiradas na praia, Katharine olhando para o pôr do sol conforme as ondas chegavam na areia, ou cavando a areia para encontrar conchas, com um balde parcialmente cheio ao seu lado. O álbum acabava há dois anos, e presumi que foi quando Penny ficou doente. Peguei alguns álbuns na prateleira e resolvi olhar neles também. Finalmente, abri a terceira caixa, encontrando alguns livros bem manuseados e alguns outros itens. No fundo, havia uma pilha de livros pretos, as páginas marcadas, e as lombadas bem gastas. A capa dos livros continha uma etiqueta com as datas escritas com a letra rebuscada de Penny. Abri um, olhando as primeiras páginas até descobrir o que estava lendo. Os diários de Penny. Havia dez deles, todos documentando diferentes momentos de sua vida. Encontrei um que correspondia ao ano em que ela encontrou Katharine, e comecei a ler. Tantas coisas começaram a tomar forma em minha mente. Eu sabia que seu marido era chef, e agora as fotos que eu tinha visto fizeram sentido. Ela e Katharine trabalhavam com um dos amigos chef de Burt e, depois do trabalho, eles se reuniam e comiam juntos. Minha Katy aprendeu uma receita nova com Mario hoje. Observá-la trabalhar com ele deixou meu


coração muito alegre — ouvir sua risada e ver sua tristeza desaparecer conforme cortava e mexia. Eles serviram seu marinado na festa de casamento! Mario insistiu que estava melhor que o dele! Tive de concordar quando o provei no fim de tudo. Hoje à noite, minha Katy nos impressionou com seu Bife Wellington. Ela trabalhou por horas com Sam, e tudo que comemos depois do jantar foi invenção dela. Burt a teria adorado e ficado orgulhoso. Estou muito orgulhosa. Um sorriso curvou meus lábios. Por isso que ela era uma cozinheira tão boa. Profissionais a treinaram por anos, haviam lhe dado aulas particulares em troca de ajuda. Virei a página para outra história curta. Vou levar Katy para o chalé na próxima semana! Podemos ficar de graça em troca de algumas faxinas no resort. Seus olhos se iluminaram muito quando eu lhe contei! Katharine tinha me contado que elas não tinham muito dinheiro, e como Penny sempre fazia coisas que tornavam o trabalho divertido. Aquela mulher memorável usava todo truque que tinha para dar para Katharine coisas pelas quais não podia pagar. Ela mostrou para Katharine que, ao trabalhar duro, havia uma recompensa. Como um jantar por servir mesas, ou arrumar camas em um resort, era um descanso da cidade e histórias para contar. Olhei para os diários espalhados pelo chão. Eu sabia que neles continham mais histórias sobre Penny e sua vida. Queria ler todos, mas teriam de ficar para outra hora. Eu tinha de me concentrar na vida dela com Katharine e torcer para que me dessem uma pista. Minha Katy adora praia. Ela fica sentada por horas, desenhando, observando, tão em paz. Fico preocupada por ela ficar muito sozinha, mas ela insiste que é lá onde se sente mais feliz. Sem sons da cidade, sem estar rodeada de pessoas. Preciso dar um jeito de levá-la de novo. Falei com Scott e podemos voltar no meio de setembro. Katharine terá de faltar na escolha, mas sei que ela vai se recuperar rápido, ela é muito esperta. O resort não é tão cheio nessa época, o clima ainda está bom e ela tem o chalé só para ela. Vou surpreendê-la com a novidade em seu aniversário antes de sairmos. E a história continua. Relatos do chalé, da praia, de Katharine cozinhando, crescendo — uma boa quantidade de informações, mas ainda nada de que eu precisasse. Estava tentado a ligar para Graham, dizer que pensava que ela estava no chalé, e implorar pelo nome, mas eu achava que ele ia dizer para eu continuar procurando. Fechei o livro, esfregando os olhos. Estive lendo por mais de oito horas, só virando as páginas para a luz quando as nuvens começaram a cobrir o sol e peguei um café. A única pista que eu tinha era o chalé que Penny mencionara ir todo ano e o primeiro nome do proprietário: Scott. Infelizmente, não havia sobrenome, ou melhor ainda, o nome da cidade ou do resort onde ficava o chalé. Abaixando o braço, peguei os álbuns de foto com as fotos de Katharine e de sua vida. Olhei as fotos na praia, tirei-as do álbum, convencido de que eram da mesma praia, mas tiradas em diferentes viagens. Não conseguia encontrar nenhuma pista nas fotos, e não tinha nada escrito atrás para me ajudar. Com um suspiro pesado, recostei na chaise, olhando o quarto. Pela primeira vez, desejei que tivesse algum suvenir turístico horroroso com o nome de uma cidade gravado na frente na prateleira com os livros dela. Inclinando minha cabeça para o lado, vi alguma coisa estranha na última prateleira. Os dois últimos livros não tinham nada escrito na lombada. Era altos e finos. Olhei para o monte de diários espalhados no chão, então de volta para a prateleira. Eram exatamente como os diários antigos que eu estava lendo. Saí da chaise e peguei os livros. Katharine escrevia em um diário, ou pelo menos costumava escrever. Olhei as datas, folheando da primeira para a última página. Ela começara um ano depois de ter ido morar


com Penny e aqueles livros duraram cinco anos. Seus diários não eram tão detalhados como os de Penny. Havia pensamentos aleatórios, algumas passagens mais longas e alguns cartões-postais colados. Também continham rascunhos, pequenas imagens de coisas que ela deve ter amado. Fiz uma pequena oração ao abrir o primeiro livro. Precisava de uma pista, um nome, algo para me ajudar a encontrá-la. O tempo parou quando vi as palavras. Vi que não conseguia parar de ler. Suas breves passagens estavam preenchidas por sua essência; era como se ela estivesse à minha frente, contando-me uma de suas histórias. A profundidade de seu amor por Penny, a gratidão que ela sentia por sua casa e o amor incondicional por Penny eram evidentes. Ela escrevia sobre suas aventuras, fazia até a busca por garrafas e latas parecer divertida. Descrevia os jantares com os amigos de Penny, seu amor por comidas diferentes e até rabiscava receitas nas folhas. Parei de respirar com uma passagem. Vamos para a praia na próxima semana. Penny tem um amigo que é dono de um pequeno resort e ela fez um acordo com ele. Vamos limpar os chalés todos os dias e, em troca, podemos ficar lá de graça por uma semana! Nós duas trabalhando podemos acabar rapidinho e vou ter a maior parte do dia para brincar! Estou tão empolgada! Nunca estive na praia desde que meus pais morreram. Não acredito que ela fez isso por mim! Meu coração parou. Tinha de ser isso. Penny mencionara os chalés, e havia fotos deles da praia. Continuei lendo. Nosso chalé é muito lindo! É azul-claro com persianas e é o último. Consigo ouvir a água o dia e a noite inteiros! Há apenas seis chalés e, pelo fato de ser maio, só estão metade cheios, então Penny e eu terminamos na hora do almoço todos os dias, e passamos o resto do tempo explorando. Amo este lugar! Então havia outra alguns dias depois. Não quero ir embora, mas Penny me disse que podemos voltar em setembro. Scott até prometeu a ela o mesmo chalé. Outra semana pela qual aguardar ansiosamente! Tenho tanta sorte... é o melhor presente de aniversário da minha vida! Meus olhos se encheram de água com a última frase. Férias trabalhando. Era isso que elas podiam pagar. Da mesma forma que só podiam comer fora com a generosidade de amigos e, ainda assim, ela se sentia sortuda. Pensei na minha vida de excessos. Eu podia ter qualquer coisa que quisesse — mesmo quando crescia, nada me era negado. Mesmo assim, eu nunca estava satisfeito, porque nunca me deram o que eu mais queria. Amor. Penny deu a Katharine em grande quantidade. Tornava algo como uma viagem juntas, mesmo que fosse para trabalhar por uma semana, especial. Comecei a folhear mais rápido, procurando frases sobre a localização dos chalés. Perto do fim do segundo livro, encontrei o ouro. Um de seus rascunhos era um arco com o nome Scott’s Seaside Hideaway. Peguei meu celular e busquei o nome na internet. Encontrei. A foto do site era a mesma do arco que estava em seu desenho, e o mapa indicava que era a duas horas dali. Outra foto mostrava uma sequência de pequenos chalés, quase não dava para ver o último, exceto pela cor azul. Olhei de novo seu diário. Debaixo do desenho estavam as palavras: Meu pedaço de paraíso favorito na Terra. Fechei os olhos quando o alívio me atingiu. Eu tinha encontrado minha esposa.


29 Katharine

Os sons suaves das ondas se quebrando na praia me acalmavam. Apoiei o queixo nos joelhos, tentando me perder na beleza da praia. As gaivotas sobrevoando minha cabeça, o ir e vir da água e a paz absoluta. Só que eu não estava em paz. Estava perdida, acabada. Estava grata que Penny não mais estava presa em um pesadelo eterno de momentos esquecidos, mas sentia terrivelmente sua falta. Sua voz, sua risada, a forma gentil como ela pegava meu rosto, beijava minha testa, apertava meu nariz e, em seus momentos raros de claridade, preenchia-me com sua sabedoria. Se ela estivesse ali, eu poderia conversar com ela, dizer o que estava sentindo e ela explicaria para mim. Diria o que fazer em seguida. Estava apaixonada por meu marido, um homem que não estava apaixonado por mim. Um homem que achava que amor te deixava fraco e não conseguia amar a si mesmo. Ele nunca foi capaz de ver suas qualidades; aquelas que guardava bem no fundo a fim de nunca se magoar de novo. Ele mudara muito desde o dia destinado em que me pediu para fingir ser sua noiva. Lentamente, ele permitiu que um lado mais gentil e carinhoso emergisse. Penny quebrou as barreiras que restavam. Ela o fez lembrar de uma época em que ele sentia o amor de outra pessoa. Graham Gavin lhe mostrara como trabalhar com as pessoas, sem competir eternamente. Provara a ele que havia boas pessoas e que ele poderia fazer parte de um grupo positivo. Sua esposa e seus filhos lhe mostraram uma versão diferente do que ele acreditava ser uma família. Cheia de apoio e carinho, sem negligência e dor. Eu queria pensar que tive algo a ver com essa mudança. Que, de alguma forma, de algum jeito, eu lhe mostrara que era possível amar. Talvez não a mim, mas era um sentimento do qual ele era capaz de dar e receber. Porém, ele não se dava o devido crédito. Não sei bem quando percebi que tinha me apaixonado por ele. A semente deve ter sido plantada no dia do nosso casamento e crescia toda vez que ele perdia um pouco mais de sua natureza cruel e rude. Cada sorriso verdadeiro e risada fácil aguavam o sentimento, tornando-o mais forte. Cada ato gentil ao tratar com Penny, um dos Gavin, ou a mim, alimentara o sentimento incipiente até ficar tão forte que eu sabia que nunca mudaria. O dia em que Jenna apareceu foi o dia que eu sabia que o amava. A dor de cabeça o atormentara o dia todo, deixando-o incomumente vulnerável. Não só permitia meu carinho como parecia gostar. Suas brincadeira foram doces e engraçadas, beirando a afeição. Quando ele foi para a cama, mostrara um lado diferente de sua personalidade. Sua voz era um murmúrio baixo no escuro conforme me consolava, suas desculpas soavam sinceras quando ele pedia perdão pela forma como me tratara no passado. Perdão que eu concedera — que eu concedera dias, talvez semanas, antes de ele pedir. Então me colocou mais perto e me fez sentir segura de uma forma que não sentia desde que meus pais morreram. Dormi satisfeita e quente em seu abraço. Na manhã seguinte, ainda vi outro lado — seu lado sexy e engraçado. A forma como reagiu ao acordar entrelaçado comigo; a forma divertida como mandou Jenna para fora do quarto, beijando-me até eu ficar sem ar. Sua paixão chiava sob a superfície, sua voz baixa e rouca devido ao sono. Seu comentário sobre expandir nossos limites fez meu coração acelerar, e eu sabia, pela primeira vez na vida, que estava me apaixonando.


No entanto, infelizmente, sabia que ele nunca mudaria o suficiente para permitir meu amor. Que ele nunca iria querer meu amor. Tínhamos um trato. Para sua surpresa, e minha, nós nos tornamos amigos. Seus insultos agora eram brincadeiras, e sua atitude desprezível havia sumido. Entretanto, eu sabia que era tudo o que eu era para ele. Uma amiga... uma colaboradora. Suspirei conforme enterrei mais fundo meus dedos dos pés na areia fria. Eu teria de entrar logo. Assim que o sol se punha, ficava mais frio, e eu já estava com um pouco de frio, mesmo com a jaqueta. Sabia que seria outra noite em que ficaria andando de um lado para o outro e resmungando pelo pequeno chalé. As chances eram que eu acabaria de volta na praia, agasalhada, andando para tentar ficar exausta e conseguir cair em um sono inquieto e insatisfatório. Mesmo dormindo, não conseguia fugir de meus pensamentos. Dormindo ou acordada, eles eram cheios dele. Richard. Meus olhos queimavam quando pensava como ele cuidara de mim quando Penny morreu. Como ele agiu como se eu fosse quebrar igual a um copo se ele falasse muito alto. Quando ele me carregou para sua cama, com a intenção de me consolar, eu já sabia que tinha de deixá-lo. Não conseguia mais esconder o amor que sentia. Não suportava o pensamento de observar seu rosto se transformar naquela máscara fria e arrogante que ele usava para cobrir seu eu verdadeiro quando ouvisse minha confissão — porque era isso que ele faria. Até ele conseguir se amar, nunca conseguiria amar outra pessoa. Nem mesmo eu. Impaciente, limpei minhas lágrimas, abraçando meus joelhos contra o peito. Eu lhe dera o único presente que restava — eu mesma. Era tudo o que eu tinha e, na verdade, eu estava sendo egoísta. Queria senti-lo. Que ele possuísse meu corpo e conseguisse lembrar daquele momento como eu lembrava de forma tão clara. Ainda era doloroso pensar naquilo, mas eu sabia que, conforme o tempo passava, em certo momento, as beiradas iriam diminuir e se arredondar, e eu conseguiria sorrir ao pensar na paixão. Ao me lembrar de como era a sensação de sua boca na minha. Na maneira como nossos corpos se uniam perfeitamente, no calor de seu corpo envolvendo o meu, e na forma como sua voz soava enquanto gemia meu nome. Sem conseguir suportar a onda de lembranças, contive um soluço e me levantei, limpando minha calça. Virando-me, parei e congelei. Ali em pé, na luz da lua minguante, alto e rígido, com as mãos nos bolsos do casaco, olhando para mim, com uma expressão indescritível, estava Richard.


Richard Ela estava magra demais de novo. Mesmo de jaqueta, era evidente. Seu apetite se tornara inexistente depois que Penny morreu e, nos poucos dias em que ficamos separados, eu sabia que ela não estava comendo. Estava sofrendo tanto quanto eu. Quando cheguei ao pequeno aglomerado de chalés, estacionei longe o suficiente para não alertá-la de minha presença se ela realmente estivesse ali. Ao andar na praia, eu a avistei imediatamente, uma massa pequena e encolhida na areia, olhando para o horizonte. Ela parecia perdida e minúscula, e a necessidade de ir até lá, pegá-la nos braços e me recusar a soltá-la era forte. Nunca tinha sentido algo tão intenso até hoje. No entanto, resisti, sabendo que precisava me aproximar dela com cautela. Ela tinha fugido uma vez, e eu não queria que fugisse de novo. Ficamos parados, encarando um ao outro. Comecei a me aproximar dela — devagar, passos desconfiados, até estar diante dela, a centímetros de distância. Bem de perto, ela parecia tão devastada quanto eu. Seus olhos azuis estavam avermelhados e cansados, sua pele mais pálida do que nunca, seu cabelo bagunçado e opaco. — Você me deixou. — Não havia necessidade de ficar. Franzi o cenho. — Não havia necessidade? — Graham já tinha cancelado seu período de experiência. Penny morreu. Você não precisava mais disfarçar com nosso casamento. — O que achava que eu ia dizer às pessoas, Katharine? Como esperava que eu explicasse seu sumiço repentino? Ela acenou a mão sem se importar. — Você sempre me diz como é bom ao pensar sozinho, Richard. Pensei que fosse dizer que eu estava sobrecarregada por perder a Penny e viajei para clarear a mente. Você podia levar isso por um tempo, então dizer que estávamos tendo problemas, e que decidi não voltar. — Então você esperava que eu te culpasse. Colocasse toda a culpa em suas costas. Ela balançou um pouco. — O que importava? Eu não iria contestar. — Claro que não. Porque não estaria lá. — Exatamente. — Mas importava. Importa para mim. Suas sobrancelhas se uniram conforme ela me observava. Dei um passo à frente, querendo estar perto dela. Precisava tocá-la, mas estava preocupado com o quanto ela parecia ser frágil. — Você deixou coisas para trás. Coisas que eu pensava que eram importantes para você. — Eu ia entrar em contato com você e pedir para enviá-las... para onde quer que eu acabasse ficando. — Não levou seu carro ou o cartão. Como planejava ter acesso ao resto do dinheiro? Ela ergueu o queixo teimoso. — Peguei o que merecia. — Não, você merecia muito mais, Katharine. Seus lábios tremeram.


— Por que está aqui? C-como me encontrou? — Vim para te buscar. Um amigo sugeriu começar do começo. — Não entendo. — Graham me disse onde encontrá-la. — Graham? — Ela franziu o cenho, parecendo confusa. — Como... como ele sabia? — Ele tinha uma suspeita e, por ter prestado mais atenção do que eu, ele sabia que a resposta estava em nossa casa. Ele me disse para procurar. Recusou-se a me dizer. Disse que eu tinha de descobrir sozinho. — N-não entendo. — Depois que foi embora, pensei muito. Vasculhei algumas coisas, bebi demais e andei por todo lugar para te procurar. Finalmente, percebei que não conseguia mais. — Não conseguia mais o quê? — Finalmente entendi o que você estava sentindo. Minha vida se tornara uma mentira depois da outra. Eu não conseguia mais saber onde a realidade acabava e as mentiras começavam. Mesmo ao agir da pior forma, quando era um completo idiota, era sincero. Fiquei escondendo por muito tempo e não queria mais. Contei a Graham que você me deixou. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. — Depois contei tudo. Cada mentira. Ela arfou. — Não! Richard... por que fez isso? Você tinha tudo. Tudo o que queria! Tudo pelo qual trabalhara tanto! Por que jogou isso fora? Segurei seus braços, balançando-a um pouco. — Você não entende, Katharine? Não vê? — Vê o quê? — ela gritou. — Eu não tinha tudo! Não sem você! Não tinha nada e, sem você, tudo aquilo não significava nada! A única coisa que eu tinha de verdade, sincera, era você! Seus olhos ficaram redondos e ela balançou a cabeça. — Você não está falando sério. — Estou. Vim te buscar. — Por quê? Não precisa de mim. Subi minhas mãos por seus braços, até seus ombros e pescoço, pegando seu rosto — seu rosto cansado e lindo — entre minhas mãos. — Eu preciso de você. Encontrei seu olhar exausto com o meu determinado e falei as palavras que só tinha falado uma vez na vida. Naquela época, falei com a mentalidade de criança, e as palavras não tinham realmente um significado. Mas agora elas significavam tudo. — Eu te amo, Katharine. As mãos seguraram meus punhos, sua dúvida estampada em sua expressão de pânico. — Não — ela respirou. Apoiei minha testa na dela. — Eu te amo. Preciso muito de você. Sinto falta da minha amiga, da minha esposa. Sinto falta de você. Um soluço selvagem escapou de sua garganta. Peguei-a nos braços, recusando-me a permitir que


fugisse. Ela empurrou meu peito, lutando contra o conforto que eu precisava lhe dar. — Você não pode fugir. Vou te seguir, docinho. Vou te seguir para qualquer lugar. — Beijei sua cabeça. — Não me deixe sozinho de novo, minha Katy. Não aguentaria. Ela se quebrou. Jogando os braços em volta de meu pescoço, ela enterrou o rosto em meu peito conforme as lágrimas quentes molhavam minha camiseta. Eu a ergui nos braços e a carreguei pela areia dura até o chalé azul-claro no fim. Era o único com as persianas brancas sobre as quais ela escreveu em seu diário. Eu a segurei firme, beijando levemente sua cabeça. Não iria deixá-la ir. O chalé rústico era exatamente como eu imaginava devido à descrição no diário dela. Um sofá bem usado e uma cadeira ficavam em frente à lareira. À esquerda ficava a cozinha rudimentar com uma mesa e duas cadeiras. Uma porta aberta levava a um quarto pequeno e, ao lado, um banheiro. Esse era o chalé. Sentei com Katy no sofá e me virei para a lareira. Por causa dos anos de uso, fuligem e fumaça haviam se encrustado nas pedras e nos tijolos, deixando todo o revestimento cinza escuro. Adicionei algumas toras e gravetos, querendo que o fogo esquentasse o chalé frio. — O acendedor — Katy se ajoelhou ao meu lado para acender. Peguei um fósforo, acendendo o graveto, depois me levantei, colocando-o na lareira. Abaixando-me, eu a levantei, tirando sua jaqueta úmida pelos ombros e jogando-a para o lado. Envolvendo meus braços ao seu redor, eu a segurei firme, a sensação de alívio se espalhava em meu corpo. Ela estremeceu e exalou uma respiração comprida e baixa. Segurei sua cabeça com minhas mãos e beijei sua testa. Ela colocou a cabeça para trás, enquanto o fogo dançava sobre seus traços, iluminando os delicados contornos de seu rosto. — Não acredito que está aqui. — Você pensou mesmo que eu não tentaria encontrá-la, Katy? — Não sei. Não estava pensando. Só sabia que precisava ir. Eu a coloquei no sofá, juntando suas mãos na minha. — Por quê, docinho? Por que você fugiu? — Porque me apaixonei por você, e não pensei que pudesse me amar. Não conseguia mais esconder, e eu sabia que, quando você percebesse como eu me sentia, você iria... Meu coração se contraiu com suas palavras. Ela me amava. Apertei suas mãos, incentivando-a. — Eu iria o quê? — Você iria se transformar de volta no Richard que eu detestava e riria de mim. Não precisava mais de mim e me diria para ir embora. Pensei que seria mais fácil se eu já fosse. — Estava planejando voltar? — Só para saber o que você queria fazer e pegar minhas coisas. Presumi que não iria mais me querer por perto. — Pensou errado. Em tudo. Eu preciso de você. Quero você de volta. Eu... — vacilei. — Eu te amo. Ela olhou para nossas mãos unidas, então voltou-se para mim. A confusão estava estampada em seu rosto; a descrença total estava em seus olhos. Eu não podia culpá-la, mas queria erradicar esses dois sentimentos. — Você não acredita em mim. — Não sei no que acredito — ela admitiu.


Aproximei-me, sabendo que precisava encontrar uma forma de convencê-la de que eu era sincera. Meu olhar passou pelo pequeno chalé quando refletia em minhas palavras, pousando na pequena urna apoiada na lareira. — Você trouxe as cinzas de Penny para espalhá-las aqui? — perguntei. — Sim. Tivemos momentos felizes aqui. Ela trabalhava duro para se certificar de que eu pudesse vir todo ano. Ela e Burt costumavam vir aqui também. Ela jogou as cinzas dele na praia. — Ela engoliu, falando com a voz trêmula. — Pensei que talvez, de alguma forma, eles se encontrariam e ficariam juntos de novo na areia e na água. — Seu olhar se ergueu para o meu. — Acho que isso parece bobo. Ergui a mão dela até minha boca, beijando seus ossinhos. — Bobo? Não. É um gesto carinhoso. Algo que só uma alma caridosa como a sua pensaria. — Uma alma caridosa? — Você é assim, Katy. Percebi isso há algumas semanas, quando parei de ser um idiota. Observei você, a forma como era com Penny. As conversas que tinha com a família Gavin. A gentileza que mostrava com os funcionários do asilo. — Passei meus dedos em sua face, a pele era como seda sob meu toque. — A forma como me tratava. Você se doa. Se doa constantemente. Eu nunca tinha passado por isso até você entrar em minha vida. Não pensei que existisse alguém como você neste planeta. — Aproximeime mais, precisando que ela visse a sinceridade em meus olhos. — Nunca pensei que alguém como você pudesse fazer parte da minha vida. — Porque você não merecia? — Porque eu não acreditava no amor. Sua pergunta foi um sussurro. — E agora? — Agora sei que consigo amar alguém. Eu amo alguém. Eu te amo. — Ergui minha mão quando ela começou a falar. — Sei que pode não acreditar em mim, Katy. Mas é verdade. Você me ensinou a amar. Me mostrou que tudo o que disse era verdade. O que sinto por você me fortalece. Me faz querer ser um bom homem para você. Deixá-la orgulhosa. — Quando? — Como? — Quando começou a mudar? Quando parou de me desprezar? Dei de ombros. — Acho que talvez no dia em que me mandou me foder. Essa foi a primeira vez que vi a verdadeira Katharine. Você escondia esse fogo. — Tinha de fazer isso. Precisava do meu emprego. Penny era muito mais importante do que você e sua atitude nojenta. — Eu sei. Meu comportamento era horrível. Como você passou por cima disso e concordou em ficar comigo, mesmo que fosse por Penny, ainda é um mistério. Naquela noite em que me contou sua história e me disse exatamente o que pensava de mim abriu meus olhos. Não sei se já fiquei sóbrio tão rápido na vida. E, mais uma vez, você me perdoou... casou-se comigo. — Dei minha palavra. — Mas você podia voltar atrás facilmente. Eu esperava que o fizesse, mas, de novo, me surpreendeu. Me surpreendia a toda hora. — Sorrindo, coloquei uma mecha de seu cabelo para trás da orelha. — Não fico surpreso com muita coisa, mas você me surpreende constantemente. Gosto disso. Ela sorriu de volta, com a expressão não tão desconfiada.


— A melhor coisa para mim era, e é, a forma como você é comigo. — O que quer dizer? — Tudo que pedi, tudo o que esperava, era que interpretasse o papel quando estivéssemos fora. Esperava que me ignorasse quando estivéssemos sozinhos no apartamento. Sei que planejei te ignorar. Mas... — Mas o quê? — Eu não conseguia te ignorar. Você estava em todo lugar. Sem nem tentar, você estava em minha mente... tão natural quanto respirar. O apartamento se tornou um lar com você dentro. Você brincava e ria comigo. Cuidava de mim,� ninguém tinha feito isso em toda minha vida. Sua opinião se tornou fundamental. Tudo o que eu fazia, queria compartilhar com você. Em vez de te ignorar, eu queria passar mais tempo com você. Queria saber tudo sobre você. Ela olhou para mim com os olhos arregalados. — E Penny. Adorava passar o tempo com ela. Ouvir as histórias que ela contava sobre você. Ficava sabendo cada vez mais sobre sua vida quando a via e, quanto mais sabia, mais me apaixonava, até o momento em que percebi o quanto estava apaixonado por você. Peguei suas mãos nas minhas, segurando-as firme. — Nada da minha crueldade mudou você. Pelo contrário, sua doçura me mudou, Katy. Você e Penny fizeram aflorar aquele menininho que ainda podia amar. — E se ele se esquecer de novo? Balancei a cabeça. — Não vai esquecer. Ele não consegue�contanto que tenha você. — Ergui sua mão. — Você deixou suas alianças para trás, mas está usando este anel. — Indiquei o anel de diamante em seu dedo. — Colocou na mão esquerda. Por quê? — Porque você me deu. Foi a primeira coisa que me deu sem ter de me dar. — Sua voz sumiu. — E-eu coloquei aqui porque ficava mais perto do meu coração. Fechei os olhos, esperando que eu entendesse o significado de suas palavras. Pressionando sua mão no meu rosto, abri os olhos para olhar nos dela. Lágrimas nadavam nas profundezas de seu olhar azul. — Eu te dei meu coração, Katy. Vai guardá-lo também? Ela inspirou o ar e estremeceu sua pequena figura. — Você me deu seu corpo. Quero seu coração. Quero seu amor. Preciso dele. Preciso de você. — Diga, Richard. — Uma lágrima escorreu por sua face. — Eu te amo, Katharine Van Ryan. Quero que venha para casa comigo. Que complete minha vida. Farei o que precisar para que acredite em mim. Para fazer você acreditar em mim. — Já acredito. Peguei seu rosto, traçando meus polegares em círculos em sua pele quando meu coração acelerou. — E? — Eu te amo, Richard. Te amo tanto que tenho medo. — Do que tem medo? — Você poderia acabar comigo. Balancei a cabeça. — Foi você que me quebrou, Katy. Sou seu. — Sou sua também.


Era tudo de que eu precisava. Puxando-a para mim, cobri sua boca com a minha, gemendo com a sensação de tê-la tão perto. Nossos lábios se moveram, as línguas se acariciaram conforme nos readaptávamos um ao outro. Seus braços jogados em volta de meu pescoço, segurando-me firme enquanto eu envolvia os meus nela como uma jaula de ferro. Uma da qual não pretendia soltá-la... nunca.


30 Richard

Ergui minha cabeça, apertando os olhos na escuridão silenciosa. Ficamos sentados, abraçando um ao outro, necessitando dessa proximidade. — Preciso colocar mais lenha — murmurei. — O fogo vai acabar. — Está gostoso assim. Estou quente o suficiente. Ri e beijei sua cabeça. — Alguma hora teremos de nos mexer. — Eu deveria fazer alguma coisa para comermos. — Preciso encontrar um lugar para ficar. Ela congelou. — Você não vai ficar aqui? Delicadamente, peguei seu rosto, beijando seus lábios. — Eu quero. Mas não quero forçar nada. — É uma cama queen. Ergui minha sobrancelha para ela. — Pequena para nós. Acho que terei de dormir de conchinha com você. Acho que se for esse o sacrifício que tiver... Seus lábios se curvaram em um sorriso. — Acho que sim. — Fiquei com saudade de dormir de conchinha com você. Senti falta de seu calor e seu cheiro. — Bom, então, acho que é melhor ficar aqui. — Acho que sim. — Pausei, porque precisava lhe fazer a pergunta que estava martelando no fundo de minha cabeça por dias. — Preciso de perguntar uma coisa, Katy. Ela passou o dedo por minha barba. — Gosto de ouvir me chamar assim. Apertei seu nariz. — Que bom. Gosto de falar assim. Sua expressão ficou séria. — Agora, o que queria me perguntar? Eu me movi, bastante desconfortável. — Na noite antes de você ir embora. A noite em que fizemos amor. — É isso que foi? — Sim — disse firmemente. — Foi.


— O que tem ela? Fui direto ao ponto. — Não usei camisinha. Há alguma chance de você engravidar? Ela balançou a cabeça, parecendo envergonhada. — Quando eu era mais nova, tinha muito problema com, ahn, minhas menstruações. Eles me fizeram tomar pílulas para regular. Ainda tenho problema, então ainda as tomo. — Oh. — Suspirei de alívio. — Não se preocupe, Richard. — Ela desviou o olhar. — Sei o que pensa sobre ter filhos. A tristeza em sua voz me magoou, e coloquei minha mão sob seu queixo, obrigando-a a olhar para mim. — Você me disse que achava que se eu amasse a mãe, iria amar o filho. Acho que, talvez, você estivesse certa. — Então você quer filhos? Fiquei inquieto no sofá, sem saber como responder. — Isso tudo é muito novo para mim. Nunca pensei que pudesse amar alguém. Mal consigo entender como estou tão apaixonado por você, não consigo viver sem você. Você derrubou tudo que eu acreditava ser verdade. Eu preciso de você. Eu te amo. — Balancei a cabeça com um sorriso torto. — Acho que é natural pensar que minha ideia sobre filhos também poderia mudar. — É algo que podemos conversar… depois? — Sim. Mas eu pediria um pouco de tempo. Quero ter você só para mim por enquanto. Conhecê-la, inteira, e quero que me conheça. — Acho que é bom. — Terá de me ajudar, docinho. Não sei nada sobre crianças. Nada. Só de pensar em ferrar alguém da forma como meus pais fizeram, me assusta demais, para ser sincero. Ela inclinou a cabeça, analisando-me. — Richard Van Ryan. Você atinge todos os objetivos a que se propõe. Acha mesmo que eu ia te deixar falhar como pai? Um sorriso curvou meus lábios. — Acho que não. — Não vai acontecer. Saber que está disposto a conversar sobre isso é um grande passo. — Tem certeza de que não está grávida agora? — Sim. Absoluta. — Ok, então. Acho que vamos conversar sobre isso de novo�no futuro. Ela assentiu. — No futuro. Enfiei minha mão no bolso e peguei seus anéis. — Enquanto isso, quero que os pegue de volta. Quero vê-los no seu dedo. — Peguei a mão dela. — Sei que acha que não significam nada, Katy, mas significam tudo. Significam que você é minha. — Indiquei seu dedo. — Posso? Ela assentiu. Tirei a pequena aliança de diamante e transferi para a mão direita, colocando a aliança de casamento e o anel com diamante maior de volta em sua mão esquerda. Inclinando-me, beijei os anéis. — É aí que eles devem ficar. — Sim.


Peguei meu casaco da cadeira e tirei os papéis dobrados do bolso de dentro. — O que são esses papéis? — Nosso contrato,� as duas cópias. — Ah. — Não significam mais nada, Katy. Faz um tempo. Está na hora de nos livrarmos deles. Segurei-os no ar, rasgando-os. Levei-os para a lareira e joguei nas chamas. Observei as beiradas ficarem pretas e curvadas, as chamas lamberam as páginas até não restar mais nada além de cinzas. Katy ficou ao meu lado, observando em silêncio. Abracei-a pela cintura. — O único documento entre nós agora é nossa certidão de casamento. A partir de hoje, é isso que nos mantém juntos. Ela olhou para cima, uma expressão suave no rosto. — Gosto disso. — Talvez, quando as coisas se acertarem, você se casaria comigo de novo? Seus olhos brilharam. — Sério? — Sim. Talvez um lugar mais bonito do que o cartório. Gostaria que tivesse o casamento que merece. — Até que gostei do nosso casamento. Gostei de dançar com você — É? Ela assentiu. — Você foi gentil. — Prometo ser muito mais gentil de hoje em diante. Quero ser o homem que devo ser para você. — Você é. — Seja paciente comigo, Katy. Vou estragar tudo às vezes. Ela riu baixinho, acariciando minha bochecha. — Todo mundo estraga. Ninguém é perfeito. — Mas vai continuar comigo? — Como uma cola. Beijei sua boca carnuda. — Então tudo bem. Espiei por cima de seu ombro para os conteúdos da geladeirinha. As prateleiras antigas de ferro tinham uma pequena quantidade de comida. Colocando-a para o lado, peguei a caixa de ovos, abrindo a tampa. Só faltavam dois. O pão mal havia sido tocado, o pacote de queijo não estava aberto e o requeijão estava quase cheio. Havia duas maçãs, um iogurte fechado e, no balcão, algumas bananas. Era isso. Minhas suspeitas em relação à sua falta de apetite estavam confirmadas. Fechei a porta, virando-me para encará-la. — Isso é tudo que tem de comida? Você andou comendo? — Não muito — ela admitiu. — Não sentia fome. Lembrei-me da cidadezinha pela qual passei no caminho para os chalés. Havia um mercadinho e eu sabia que havíamos passado por um restaurante.


— Vou levá-la para a cidade para a ceia. Você precisa comer. Ela balançou a cabeça. — Não tem nada aberto a esta hora da noite, Richard. É baixa temporada. Teríamos de andar mais para chegar a uma cidade maior. É a uma hora daqui. — Tudo bem. — Posso fazer ovos mexidos para nós. Cedi facilmente, porque não queria realmente ir a lugar algum. — Tudo bem. Vou fazer torrada. — Você sabe fazer torrada? — Ela abriu a boca, colocando a mão no coração. Puxei-a para perto, beijando sua boca brincalhona. — Sim. Minha esposa me ensinou. Ela é esperta. Sua bochecha foi sugada para dentro, e eu sabia que ela a estava mordendo. Dei um tapinha na pele arredondada. — Pare com isso. — Gosto quando você me chama de sua esposa — ela admitiu. — É engraçado como eu me pegava sempre pensando em você dessa forma. Nunca Katharine ou Katy, mas minha esposa. Gostava da forma que soava, embora nunca me questionei por quê. — Bufei. — Muito idiota para perceber o que sentia por você, até na minha própria cabeça. — Ou estava com muito medo. O ar parou em minha garganta. Como sempre, ela acertou no alvo. Eu estava com muito medo de admitir o que sentia. De admitir que pensei de forma errada a vida toda. — Não tenho mais medo de te amar, Katy. Só tenho medo de te perder. Ela se enroscou em mim, apoiando a cabeça em meu ombro. Eu a puxei para perto, acariciando seu cabelo passando a mão demoradamente. — Estou aqui — ela sussurrou. — Você me encontrou. — Graças a Deus. Coloquei meu prato na mesinha de centro antiga, com o olhar em Katy. A luz da lareira iluminava seu rosto, as chamas lançavam um brilho vermelho em sua cabeça. Ela puxou as pernas para o peito, descansando o queixo nelas conforme olhava ao seu redor. Não tinha comido muito, mas comeu toda a torrada. Acabei com todos os ovos e comi as duas maçãs. Iríamos substituir tudo e comprar mais coisas pela manhã. Por enquanto, no entanto, eu precisava saber como ela queria continuar junto na estrada diante de nós. — O que gostaria de fazer, Katy? Ela virou o rosto para mim. — Hummm? Passei os nós dos meus dedos em sua face. — Amanhã. No dia seguinte. No dia depois desse. Me diga o que está pensando. — Não sei. — Quanto tempo queria ficar aqui? Ou quer ir para casa? — Uma rigidez repentina envolveu meu corpo, me deixando sem ar. — Você vai voltar para casa?


Ela me deu a mão, uma palavra tranquilizou minha preocupação. — Sim. — Ok. Bom. Quando? — Podemos ficar aqui por alguns dias? Ou, se tiver de voltar, vou logo em seguida? Balancei a cabeça. — Não sairei daqui sem você. Se quer ficar, nós ficamos. Vou trazê-la de volta no verão também. — Os chalés não estarão aqui no verão. — Por quê? — Scott faleceu o ano passado. Seu filho, Bill, vai vender a propriedade. Depois de falar com ele, soube que quem comprar vai demolir todos os chalés e construir algo novo e moderno. — Ela olhou em volta, seus olhos absorviam as lembranças. — Ele me disse que os negócios estão fracos, mas é uma boa hora para vender por causa da localização. A propriedade vale muito dinheiro. É uma boa oportunidade para sua família. — Sinto muito, docinho. Sei que este lugar é especial para você. Ela sorriu, passando sua bochecha em minha mão. — Tenho minhas lembranças. Estou feliz que Bill tenha me deixado voltar uma última vez. — Ela suspirou, o som baixo e triste. — Tenho mais uma boa lembrança para somar. — Podemos criar nossas próprias lembranças, juntos. Novas. Ela assentiu. — Você quer que eu compre este lugar para você? — Busquei em seus olhos. — Posso pagar — complementei. — Se quiser, eu compro. — Não! Não, Richard. Não precisa comprar um resort inteiro por mim. O que eu faria com ele? — Se fosse fazê-la feliz, eu compraria. Descobriríamos juntos. Provavelmente, é um bom investimento. Poderíamos reformá-lo, incluir um chalé azul-claro com persianas brancas só para você. Ela se inclinou para frente, com os olhos cheios d’água e beijou o canto de minha boca. — Obrigada, querido, mas, não. O fato de você oferecer significa mais do que posso expressar. — Ok. Se mudar de ideia, me avise. — Farei isso. Reclinei de volta no sofá, olhando o lugar, com uma ideia se formando em minha mente. Eu teria de ver se conseguiria acertar tudo. Peguei as pernas de Katy, trazendo-as para meu colo. — Vamos ter de responder muitas perguntas quando voltarmos. — Eu sei. — Ela respirou fundo. — Você acha que eles nos perdoarão? Fui sincero. — Não sei. Graham foi mais do que claro depois de nossa conversa. No entanto, eu sabia que não tinha acabado. Assim que descobri o paradeiro dela, não perdi tempo em jogar algumas coisas em uma mala e seguir para o carro a fim de chegar antes de escurecer. Eu havia ligado para ele antes de partir, dizendo que sabia onde Katy estava e que iria encontrá-la. Ele foi encorajador e me desejou sorte. — Espero que encontre sua felicidade, Richard. Acredite que merece e se segure a ela. — Obrigado. — Me ligue quando voltar. Vamos conversar. — Vou ligar. Obrigado, Graham.


Não foi dito mais nada e nenhuma menção ao emprego pendente. Eu não fazia ideia do que o futuro guardava para minha carreira. Tudo o que eu sabia agora era que Katy era meu futuro. Isso era suficiente. — Posso não ter um emprego, Katy. — O que vai fazer? — Nós — enfatizei a palavra —, nós podemos ter de mudar. Posso sondar Toronto ou Calgary, talvez Vancouver. Ela assentiu, brincando com meus dedos. Ela ficava virando minha aliança de casamento, girando-a de maneira nervosa. — Você vai comigo? Sua cabeça se ergueu e ela encontrou meu olhar. — Vou a qualquer lugar com você, Richard. — Ok, então. Vamos descobrir juntos. — E se não precisarmos? — Eu ficaria extasiado. Gosto de trabalhar com Graham. Gosto da energia positiva e do trabalho de equipe. — Dei risada. — Até me apeguei àquele dínamo que eles chamam de Jenna. — Acho que se apegou a todos eles. — Também acho. É o que quero, e estou disposto a fazer o que for preciso para ganhar a confiança de Graham de volta. Contanto que ele me dê uma chance para tentar, nós ficaremos. Se não, teremos de nos mudar. — Ok. — É simples assim para você? Depois de tudo, você vai fazer as malas e me seguir? Ela apoiou a cabeça no sofá. — Eu te amo, Richard. Se tiver de partir, então também vou. O passado é só isso agora: passado. Desapareceu assim como o contrato que queimou. Não quero remoer isso ou ficar jogando na sua cara. Não é assim que o amor funciona. Não é assim que eu funciono. Em um segundo, puxei-a para meu colo e estava beijando-a com todo meu sentimento. Cada pensamento e sentimento novo estava em meu beijo. Amor, disposição, desejo, alívio de tê-la encontrado — e um sentimento que eu nunca conhecera: alegria. Alegria por ela estar ali, alegria por ela corresponder ao meu amor, e alegria para o futuro, porque o futuro continha minha Katy. Ergui sua cabeça, precisando dela mais perto, querendo mais dela em todos os sentidos. Meus braços travaram-se ao seu redor, moldando sua maciez em meu corpo duro. Subi minhas mãos por dentro de sua camiseta, pressionando a extensão suave de suas costas, gemendo com desejo. — Por favor, baby — implorei, precisando de mais. — Cama — ela sussurrou contra minha boca. — Me leve para a cama, Richard. Levantei-me, carregando-a. Não precisava dizer duas vezes. A cama era velha e barulhenta. A cabeceira batia na parede repetidamente conforme eu a tomava, os lençóis envolviam nossos corpos devido aos nossos movimentos frenéticos. Nada disso importava. Antes de chegarmos ao colchão, rasguei sua camiseta, tirei suas calças, deixando-a nua para meu olhar sedento. Passei as mãos por sua pele quente, querendo sentir a maciez sob meus dedos. Ela puxou minha camiseta, e caí em cima dela, precisando de sua boca de volta. Ela provou ser perita em usar os pés para tirar minhas calças a fim de ficarmos pele contra pele, meu pênis duro preso entre nós. Eu a memorizei de


novo com minhas mãos e boca. Seus mamilos rosados imploravam por minha atenção, tornando-se picos rígidos sob minha língua. A curva doce de sua cintura no lado direito sentia cócegas, e me deleitei com sua risada conforme a cobria com beijos leves e brincava com sua pele. Seu quadril se encaixava perfeitamente em minhas mãos quando o apertei delicadamente, abrindo-a para mim. Beijei seu umbigo, enfiando a língua para provar sua pele salgada. Enchi suas coxas de beijinhos; suas pequenas arfadas aumentavam meu desejo. Escorreguei meus dedos em seu calor úmido, gemi com a sensação. — Deus, Katy, eu quero você, baby. Ela se sentou, abraçando-me forte, deitou-me de volta. — Me possua — ela implorou. Envolveu suas pernas em meu quadril, levando-me ao lugar aonde eu estava desesperado para me enterrar. Fiquei parado quando escorreguei para dentro dela, centímetro por centímetro, até nossos corpos estarem unidos. Nossos olhos se travaram e baixei a boca até ela ao começar a me mover. Devagar, estocadas regulares até estarmos ambos perdidos no nosso calor. Ela se agarrou a mim, seus dedos fincavam em minhas costas, seguravam minha bunda, afastavam meu cabelo, conforme ela desejava e gemia meu nome. Eu a segurei firme, tomando-a, agora, com estocadas poderosas, nossa pele molhada de suor escorregava uma na outra, nossos corpos se moviam como um só. Com um grito gutural, enterrei o rosto em seu pescoço quando ela estremeceu, seu corpo se tensionou em volta de mim. Meu orgasmo me lavou, tornando-se mais forte, cada nervo pegava fogo conforme eu terminava fundo dentro dela, gemendo seu nome. — Katy! Minha Katy. Colocando meus braços em suas costas, rolei para o lado, segurando-a perto, beijando seu rosto, seu cabelo e pescoço. Ela murmurou, satisfeita e quente, em meu peito. — Eu te amo — ela sussurrou. — Eu te amo — respirei em sua pele. Procurei no chão e encontrei um cobertor, que coloquei sobre sua pele nua, amontoando-o em seu pescoço. Ela se curvou para o meu lado, seus dedos traçaram uma linha lenta sobre meu coração. — Amanhã — jurei. — Amanhã teremos um novo começo. De verdade. Para nós. — Para nós — ela repetiu. — Sim. Esperei até ela dormir antes de me permitir cair no sono. Fechei os olhos, sabendo que, quando acordasse, ela estaria ao meu lado. Com essa certeza, eu dormi.


31 Richard

Cumprimentei Bill e atravessei a praia. Katy estava sentada na areia, com um caderno de rascunhos apoiado nos joelhos, lápis na mão, mas ela estava parada. A brisa pegava as mechas de seu cabelo, soprando-as como fitas escuras de seda. Sentei-me atrás dela, puxando-a para trás em meu abraço. — Ei. Ela jogou a cabeça para trás, me olhando de ponta-cabeça. — Oi. O que estava conversando tanto com Bill? — Ela enrugou a testa. — Por favor, não me diga que estava falando sobre comprar o resort. Ri com a cara dela e beijei-a na testa. — Não. Acho que ele tem um comprador. Estava agradecendo por ele tê-la deixado voltar, e estávamos falando sobre outras coisas. Para onde ele vai se mudar, coisas assim. Ela apertou os lábios e deu de ombros, virando-se para olhar o mar. — O que está desenhando? Ela ergueu o caderno. — Nada. Estou apreciando a vista. Abracei sua cintura, segurando-a firme. — É uma vista linda. — Penny e eu costumávamos fazer fogueiras, cozinhar nosso próprio jantar nelas e assistir ao pôr do sol. — Podemos fazer isso. — Você comeria uma salsicha no palito? — Só se tiver mostarda. E marshmallows depois. — Hum. Inclinando-me, belisquei a pele de seu pescoço. — Você acha que nunca fiz nenhuma atividade ao ar livre, Katy? Acendi o fogo ontem à noite. — Fiquei pensando onde aprendeu — ela admitiu. — É coisa de homem. Está em nossos genes. Torcendo-se, ela virou os olhos. — Aham. Rindo, tirei seu cabelo do rosto. — Nós acampávamos na escola. Eles nos ensinaram a acender o fogo, armar uma barraca, esse tipo de coisa. — Você fazia isso na escola? Apoiei meu queixo em seu ombro.


— Quando eu era adolescente e passava as férias na escola, eles ofereciam várias atividades. Acampar era uma delas. Eu gostava. E, sim, gostava até das salsichas. Não sou fresco. Esperei uma de suas retrucadas. Em vez disso, ela virou, esticou-se e pegou meu rosto. — Você ficava na escolar em vez de ir para a casa com seus pais? — Se eles tivessem escolha, sim. Eles diziam para as pessoas que eu estava numa viagem de escola ou algo assim. Quando tinha catorze anos, fiquei fora as férias inteiras. Realmente fui viajar com a escola. Acampei por um mês. Foram as melhores férias da minha vida. — Sinto muito, querido. — Não sinta — soltei. — Já tivemos essa conversa. Me sinto mal pela criança que foi abandonada. — Ela se levantou. — E você, sr. Van Ryan, está sendo rude de novo. Ela saiu andando, com o caderno de desenhos debaixo do braço. Levantei-me, alcançando-a em algumas passadas. Aquelas suas pernas curtas não conseguiam alcançar velocidade como as minhas, ainda bem. Peguei-a pela cintura, girei-a e a segurei. — Estou sendo um imbecil de novo. Me deixe me desculpar. Ela olhou para meu peito. — Katy. Ela olhou para cima, encontrando meu olhar. — Desculpe. Falei sem pensar. Não estou acostumado a falar do meu passado ou ter alguém que se importe em como eu me sentia na época, ou agora. — Eu me importo. Eu a levantei, trazendo seu rosto para a mesma altura do meu. — Eu sei. Estou tentando me acostumar, ok? Me dê uma folga. — Beijei o canto de sua boca. — Sou nova nessa coisa de tentar ser uma boa pessoa. Seus olhos se suavizaram, e eu a beijei de novo. — Essa foi nossa primeira briga? — Não sei se chamaria de primeira ou de briga. — Ela sorriu tolamente. — Mesmo assim, acho que é necessário fazer sexo para fazer as pazes, não é? Ela tentou ficar séria, mas um sorriso malicioso se formou em seu rosto. Peguei-a no colo, no estilo de noiva, entrando no chalé. — Vamos, sra. Van Ryan. Deixa eu me desculpar com você. Depois, vamos para a cidade para comprar salsichas e marshmallows. — E mostarda. Eu a joguei na cama, tirando minha camiseta pela cabeça. — E mostarda. Joguei outra lenha na fogueira e cruzei as pernas. Katy se encolheu ao meu lado, com a cabeça no meu ombro. — Esfria quando escurece agora. — Estamos no outono. — Eu sei.


— Quanto tempo ainda quer ficar? Ela suspirou, seus dedos se torciam no cobertor. — Acho que devemos voltar. Tinham se passado três dias desde que eu cheguei. Era a primeira vez, na minha vida adulta, que não tinha de estar em algum lugar — sem escritório para ir, sem reuniões planejadas, sem horários. A única coisa na qual estava concentrado era em Katy. Além das idas rápidas para a cidade para comprar suprimentos, não havíamos saído do resort. Andamos na praia, usamos o pequeno salão de jogos onde tentei ensiná-la a jogar damas e falhei miseravelmente, e usamos o tempo para conhecer melhor um ao outro. Conversávamos, normalmente, por horas seguidas. Ela sabia mais sobre mim do que qualquer um na minha vida. Ela tinha um jeito de fazer perguntas que me faziam querer lhe contar coisas que eu nunca havia compartilhado com outra pessoa. Ela contou mais histórias de sua vida antes e depois de conhecer Penny. Algumas das histórias que ela contava, sobre a época em que estava sozinha e nas ruas, faziam-me abraçá-la forte e agradecer qualquer divindade que estivesse ouvindo por tê-la mantido a salvo. Sempre fazíamos amor. Eu não me cansava dela. O corpo que uma vez achei desagradável agora era minha versão de perfeição. Ela se encaixava tão bem em mim, e a paixão que sentia por ela era suprema. Sua falta de experiência tornava sua reação a mim ainda mais erótica. Eu adorava vê-la descobrindo esse lado selvagem de sua natureza. No entanto, ela tinha razão. Precisávamos voltar para nossa vida, ou o que restara dela, e descobrir o que o futuro guardava para nós. — Por que não ficamos mais uns dois dias e depois voltamos? Ouvi no rádio que o tempo vai mudar, então ficaremos presos no chalé, de qualquer forma. Não — sorri, inclinando-me para frente e beijando-a — que eu tenha alguma coisa contra em ficar preso com nada para fazer exceto ficar na cama com você. — Tudo bem — ela concordou com uma risada leve, então ficou séria. — Ainda tenho de espalhar as cinzas de Penny. — Está pronta para fazer isso, docinho? Seus olhos tinham um olhar distante quando ela falou. — O outono era sua época preferida do ano. Ela não gostava do calor do verão. Ficava ansiosa para vir para cá tanto quanto eu. Acho que ela gostaria de ficar aqui. — Contanto que você tenha certeza. — Amanhã — ela sussurrou. Coloquei-a no meu colo, beijando sua cabeça. — Amanhã. Acordei, e a palpitação de pânico tomou meu peito quando o lugar ao meu lado estava vazio. Senteime, tirando a coberta e saindo da cama. Relaxei quando vi Katy na praia. Ela estava em pé, olhando para o mar, segurando algo perto do peito. Olhei, confirmando o fato de a urna de Penny ter sumido de cima da lareira. Minha esposa estava se despedindo. Voltando para o quarto, peguei minhas calças e as vesti. Peguei minha camiseta e a coloquei por cima ao correr para fora, cruzando a areia. A previsão que a meteorologia fez já estava aparecendo. As ondas estavam maiores, chegando à areia sem quebrar forte. O vento estava mais forte, e eu sabia que, logo, viria a chuva, e a tempestade deixaria minha esposa nervosa. Cheguei ao seu lado, abraçando-a.


— Eu estava te esperando. — Deveria ter me acordado. — Eu queria um tempo. Sabia que você não demoraria. — Tem certeza? Ela sorriu para mim, o brilho das lágrimas em seus olhos me contavam a história toda. — Sim. — Ok, docinho. — Peguei a urna. — Você quer que eu a abra? — Por favor. Segurei o pote verde simples na mão, passando os dedos pelas flores silvestres que decoravam a superfície lisa. — Obrigado — murmurei para Penny. — Você não vai se arrepender de confiar em mim. Com cuidado, abri a urna e entreguei a sacolinha para Katy. Ela se afastou de mim em direção ao mar. Eu a deixei ir sozinha, sabendo como esse momento era emotivo e pessoal para ela. Ela ficou parada. Pude ver seus lábios se movendo e sabia que estava dizendo seu último adeus. Ela agachou, abrindo o saquinho e deixando o conteúdo se derramar na areia aos seus pés. Ela se levantou, chacoalhando o saquinho, o que sobrou foi levado pelo vento. Sua cabeça se abaixou e ela se abraçou, uma figura solitária contra a paisagem das nuvens carregadas. Eu queria ir até ela, consolá-la, mas ainda não sabia como lidar com todas as emoções quando o assunto era Katy. Deveria deixá-la sozinha? Abraçá-la? Ela resolveu meu dilema, virando-se e segurando sua mão no ar sem falar nada. Eu a peguei e a trouxe para perto. — Você está bem? Ela olhou para cima, com os olhos úmidos. — Vou ficar. — Posso fazer alguma coisa? — Já está fazendo. — Quero fazer mais. — Me leve para casa, Richard. Estou pronta. — Ok, docinho. Depois de deixarmos a praia, não demoramos para guardar as poucas coisas que ela levou para o chalé. Empacotei a comida que restou e coloquei tudo no porta-malas. Esperei, dando-lhe privacidade para mais uma despedida. A volta para casa foi totalmente o oposto em relação à velocidade rápida com a qual fui para o resort. Katy ficou ao meu lado, com a mão entrelaçada na minha conforme voltávamos para a cidade. Dirigi devagar, permitindo que ela relaxasse. Olhava para ela de canto de olho constantemente. — Sei que está me olhando. — Gosto de olhar para você. — Estou bem, Richard. De verdade. — Está nervosa por voltar comigo? Com a diferença no relacionamento? Ela encostou a cabeça e me olhou.


— Nervosa? — Está tudo mudado agora, Katy. Vamos para casa como um casal realmente casado. Para começar, assim que chegarmos em casa, suas coisas vão para o meu quarto. Para o nosso quarto. Melhor assim. — Eu sei. Você vai dormir de conchinha comigo toda noite. — E você vai me ouvir roncar. — Então fiquei sério. — Temos muito o que enfrentar juntos. — Vamos conseguir. — Ela hesitou. — Você está nervoso? — Em alguns quesitos, sim. — Por quê? Parei o carro no acostamento, colocando meu braço atrás de seu banco. — Eu ainda sou eu, Katy. Lá no fundo, ainda sou o mesmo babaca. Tenho personalidade forte. Não sou perfeito... longe disso. — Não espero que seja perfeito, Richard. Mas não acho que o babaca lá no fundo é o mesmo que costumava ser. — Você tem bastante fé em mim. — Enxerguei a mudança em você. — Ela sorriu. — Além do fato de te amar. — Estou preocupado em te decepcionar. — E se, quando eu ficar brava com você, agir como uma babaca? Isso me fez rir. — Já que tenho certeza de que terá justificativa, quando acontecer, vamos lidar com isso. — Vamos lidar com tudo juntos, Richard. Incluindo o comportamento babaca. — Juro que tentarei melhorar. — Sei que vai tentar e, mais ainda, sei que vai conseguir. — Por que tem tanta certeza? — Porque você me ama. Passando os nós dos dedos em sua face, assenti. — Amo mesmo, docinho. Muito. Ela cobriu minha mão e beijou a palma dela. — Sabe, todos temos nossos momentos. Até eu. — É mesmo? — Eu costumava ficar brava com a forma com que falava comigo quando estava sendo mais… idiota do que o normal. — Você escondia bem. — Me vinguei, do meu próprio jeito. — Agora você aguçou minha curiosidade. Me diga, como se vingou de mim? O fantasma de um sorriso curvou seus lábios. — Katy? — Nos dias em que você estava mais insuportável, eu trocava seu queijo e maionese com pouca gordura para a versão normal dos seus sanduíches. Não pedia espuma sem gordura para seus achocolatados... nunca pedi, na verdade. Só deixava você pensar que o tinha feito. — O quê? — Esqueci de pedir um dia que fui pegar seu sanduíche e você nem percebeu. Era minha vingança


silenciosa. — Esse foi seu jeito de se vingar? — Vi que suas calças ficaram mais apertadas, você tinha que malhar um pouco mais. Talvez o suor tirasse sua babaquice. Comecei a rir. Transformou-se em gargalhada. Risadas altas e profundas que me fizeram chorar. — Que vadia vingativa você é, docinho. Estou feliz que esteja do meu lado agora. Minha esteira se treme toda com essa sua ira. — Vá se foder, Van Ryan. Debruçando-me no painel, eu a beijei. Ela não fazia ideia de como aquele momento era incrivelmente sedutor, ou quanto meu amor por ela crescia toda vez que ela falava aquelas palavras. Antes ditas quando estava brava, e agora de brincadeira, serviam para nos lembrar do quanto evoluímos juntos. — Me leve para casa, Richard. — Ok, docinho. Voltei para a estrada, havia me recuperado e estava com um sorriso no rosto.


32 Richard

Oapartamento estava silencioso quando nós chegamos. Coloquei minhas malas no chão e olhei a bagunça que deixara para trás. — Eu deveria ter arrumado tudo. Estava ansioso para te encontrar. Ela andou pela sala e pegou as garrafas. — Você precisa parar de beber tanto uísque. As palavras saíram antes que eu pudesse impedi-las. — Você precisa parar de me deixar. Seus olhos se arregalaram. Arrumei meu topete. — Merda. Estou em casa por cinco minutos e o babaca já se revelou. — Vou deixar passar essa. Eu não deveria ter fugido. Deveria ter ficado e conversado com você. Estiquei-me e a trouxe para meus braços. — Você não tinha motivo para confiar em mim. Vou me certificar de que não tenha essa desculpa da próxima vez. Não — complementei — haverá uma próxima vez. Ela se aconchegou em mim. — Não. — Então estamos bem? — Sim. O vidro se amassou sob meus pés quando me mexi, e olhei para baixo com uma careta. — Cuidado. — Outro momento babaca? — Um grande — informei. — Eu estava bravo com você... mas passou rápido. — Acho que estava no seu direito. — Vou chamar alguém para limpar. Ela balançou a cabeça com um sorriso. — Não está ruim. Podemos limpar rápido. — Inclinando-se, ela pegou sua mala. — Mas você vai pedir jantar e lavar a louça. Peguei minha mala, seguindo-a pelo apartamento. — Lá vai você� dando ordens. — Acostume-se. — Ela virou a cabeça e deu uma piscadinha. Dei um tapa na bunda dela, fazendo-a pular e tentar correr na minha frente. Tropeçou e quase caiu na escada, só que fui rápido e a peguei pela cintura. — Desculpe, docinho. Esqueci da sua perna. Você está bem?


Ela envolveu os braços no meu pescoço. — Estou bem. Mas você pode me carregar pelo resto do caminho. Erguendo-a, capturei sua boca com a minha e mantive grudada até chegar ao quarto. Entrando, coloquei-a de pé, libertando seus lábios. — Bem-vinda à sua casa, sra. Van Ryan. Ela sorriu para mim, passando os dedos por minha mandíbula. — Você está mais barbudo do que o normal. — Farei a barba mais tarde. — Até que gosto assim. — Então vou deixar. Subindo na ponta dos pés, ela me deu um beijo na bochecha. — Ok. — Ela olhou em volta. — Por onde quer começar? Sentei na cama, puxando-a para meu lado. — Não troquei os lençóis. Eles estão cheirando a você... a nós, e eu não consegui... — Minha voz sumiu. — Não consegui. — Estou aqui agora. — Eu sei. — Levantei-me. — Vou pegar suas coisas. Quero-as de volta aqui, de onde não deveriam ter saído. — Não estávamos prontos. Agora estamos. — É. — Tudo bem, então, vamos começar. Saí do chuveiro e sequei meu cabelo com a toalha. Ao entrar no quarto, olhei em volta com um suspiro baixo. Katy havia se mudado de volta. Suas roupas estavam no closet e na cômoda, seus cremes e coisas de mulher estavam no banheiro. Seu criado-mudo apoiava seus livros, e seu cheiro já estava no ar. Ela ficara um pouco chocada quando viu a bagunça que eu tinha feito em seu quarto, mas arrumou tudo enquanto eu carregava tudo para lá e para cá. Coloquei uma camiseta e calça de moletom e fui correr. As garrafas, os papéis e o vidro quebrado tinham sido limpos e a cozinha já estava arrumada de novo. Ela estava sentada ao balcão, com uma garrafa de vinho aberta e uma taça me esperando. Bebi um gole, apreciando o sabor forte do vinho tinto. — Jantar? Ela tirou os olhos de seu livro. — A pizza está no forno, aguardando. Peguei alguns pratos e coloquei a caixa entre nós. Comemos em silêncio e, embora não fosse um silêncio desconfortável, queria saber o que ela estava pensando. Parecia refletir. Cobri a mão dela com a minha. — Onde você está, Katy? No que está pensando aí? Ela sorriu, virando a mão para que nossas palmas se unissem. — Estava me lembrando do meu primeiro jantar com você. Comemos pizza e bebemos vinho naquela noite também. — É mesmo.


— Eu estava incrivelmente nervosa. Não sabia o que você queria conversar comigo. Você nunca falava comigo no escritório a não ser que fosse para latir uma ordem ou me dizer o que eu estava fazendo errado. Sentada ao seu lado, não fazia ideia do que esperar. Não conseguia acreditar no que estava dizendo. Sorri de forma afetada. — Eu não conseguia acreditar que estava te pedindo, srta. Elliott, o fim da minha existência, para morar comigo e fingir ser minha noiva. — Balancei a cabeça. — Eu era um rato desgraçado com você, não era? — Era, sim. — Não sei se um dia conseguirei me desculpar o bastante. — Pare de tentar. Isso é passado, vamos viver o agora. — Ela entrelaçou nossos dedos e os apertou. — Eu gosto do agora. Ergui nossas mãos dadas e beijei os nós de seus dedos. — Eu também. — Ainda temos de encarar a família Gavin. Soltando sua mão, peguei meu vinho. — Eu sei. Vou ligar para Graham de manhã. Sei que seremos requisitados à casa deles para o processo. — O que acha que vai acontecer? — Não sei. Achei que ele fosse me demitir imediatamente. Quando ele me disse que já suspeitava que eu estava mentindo, tive certeza. — Soltei uma risada. — Claro que agora não espero mais nada, então não sou a melhor pessoa para julgar a situação. — Está preparado para ele te demitir? — Estou apavorado, para ser sincero, mas, se acontecer, então nos mudamos e começamos de novo. Com certeza não terei referência dele ou de David. Posso apenas torcer para que minhas palavras falem por si mesmas. Brian pode me ajudar com seus contatos e também tenho alguns. Clientes com quem trabalhei no passado e tal. — E se ele não te demitir? — Então nós ficamos. Eu quero ficar. Quero trabalhar para Graham. Vai levar um tempo, mas vou mostrar para ele que pode confiar em mim. Vou trabalhar igual a um camelo para ele e sua empresa. — Sei que vai. — Ela encontrou meus olhos, sorrindo de forma triste. — Espero que Laura e Jenna consigam me perdoar. — De tudo isso, disso é o que mais me arrependo — admiti. — Você já perdeu Penny, e sei como é apegada a elas duas. Não quero que as perca também. — Acho que vamos descobrir logo. Assenti. — Vamos. Passando a mão cansada no rosto, folheei os documentos que havia imprimido para Brian. No dia seguinte depois de chegarmos em casa, mandei uma mensagem para Graham para informá-lo de que eu havia voltado e Katy estava comigo. Não recebi resposta. Katy também mandou mensagem para Jenna e perguntou se elas poderiam se encontrar para tomar um café, mas ela só recebeu o silêncio. Eu


sabia que ela estava chateada, mas nenhum de nós ficou surpreso. No fim do segundo dia, entrei em contato com Brian para algumas vagas em outras cidades. Ele pareceu surpreso por meu pedido, mas enviou algumas para eu dar uma olhada. Duas empresas eram em Toronto, uma nos Estados Unidos, e a última em Calgary. Era a mais tentadora, sem dúvida, mesmo que fosse a empresa menos dinâmica. Pelo menos ficaríamos cercados por montanhas e perto dos lagos e de uma paisagem maravilhosa. Embora não quisesse nenhuma delas, sabia que tudo estava acabado para mim no Grupo Gavin. Era hora de olhar minhas, nossas, opções. Queria que Katy fosse feliz, e eu sabia que não seria em uma cidade grande e populosa como Toronto. Também não tinha vontade de viajar horas para chegar ao escritório. Tinha de deixar meu orgulho de lado e escolher o que seria melhor para nós. Levantei-me e fui até a cozinha. Precisava de um café e mostrar a Katy o que Brian enviara. Ela olhou para cima, tirando os olhos do livro enorme de cozinha que ela estava lendo e sorriu para mim. — O que é isso? Joguei a pilha de papéis no balcão e peguei o pote de café. — Vagas de emprego. — Ah. — Ela pegou os papéis. — Ok. Alguma coisa boa? Apontei a primeira página. — Esta é interessante. Ela olhou, franzindo o cenho. — Esta é bem pequena comparado ao que está acostumado. Sentei-me, bebendo meu café. — Vou ter de fazer umas concessões. — Precisa decidir agora? — Não — informei. — Mas não quero ficar fora do mercado por muito tempo. Financeiramente, estamos bem; é mais para ficar no topo mesmo. — Bom — ela falou pausadamente —, tenho um dinheiro que posso te emprestar, se precisar. Franzi meus lábios. — É mesmo? — Aham. Fiz um trabalho para um babaca que me pagou bem. Está só aplicado, se precisar. Passei meu braço por sua cintura, puxando-a para perto. — Ainda está trabalhando para esse babaca? — Não. O babaca sumiu. — Sério? Um príncipe em um cavalo branco o substituiu? — Não, foi um homem de verdade complicado, exigente, mas muito sexy e doce. — Doce? — Dei risada. Essa era nova para mim. Ela assentiu. — Às vezes, você é muito doce. — Talvez com você. Não acho que alguém vá dizer que sou doce. — Estou bem assim. Rocei meu nariz no dela de forma carinhosa. — Que bom.


Nossos olhares se encontraram, o calor de seu olhar me distraiu. O fogo fervia à nossa volta, do jeito que acontecia toda vez que eu estava perto dela como agora. Baixando minha cabeça, passei meus lábios nos dela. — Agora, sobre a parte de ser sexy… O interfone tocou e nos assustou. — Droga — resmunguei. — Fica para depois — ela sussurrou contra meus lábios. Envolvi minha mão em seu pescoço, segurando-a perto, beijando-a forte. — Não vai demorar. Vou lidar com o que quer que estejam querendo, depois você é minha. Apertei o botão do interfone. — Van Ryan. — Você tem visitas, sr. Van Ryan. O sr. e a sra. Gavin estão aqui para te ver. Olhei para a expressão chocada de Katy, pegando sua mão. — Mande-os subir. Parei antes de abrir a porta, ainda segurando firme a mão de Katy. — Independente do que acontecer, ficaremos bem, certo? — disse baixinho. — Sim. Ficando rígido, abri a porta e me deparei com o semblante sério de Graham. Laura estava ao seu lado, com a expressão sombria também. A questão principal era a caixa que Graham segurava. A última vez que eu a tinha visto, estava empacotando as coisas da minha mesa. Embora eu não estivesse surpreso, e suspeitava que isso aconteceria, a onda de decepção em meu peito estava ficando tensa. Inalei fundo, apertando mais a mão de Katy. Ao meu lado, ela abafou uma indignação, com os olhos na caixa que Graham segurava. Abaixei e beijei a cabeça dela. — Ficaremos bem — assegurei a ela. — Lembra-se? — Bem — ela repetiu. Dei um passo para trás, sem querer que isso acontecesse no corredor do lado de fora da nossa casa. — Por favor, entrem — consegui dizer. Graham colocou a caixa no chão ao lado do sofá. Fiquei feliz quando Katy falou, dando-me alguns segundos a mais para me recompor. — Querem café? Laura sorriu e se sentou. — Eu gostaria de uma xícara. Graham assentiu. — Eu também. Eu a segui para a cozinha e observei, entorpecido, enquanto ela arrumava as xícaras e os guardanapos em uma bandeja, servindo o café. — Devo adicionar cookies? — ela sussurrou. Dei de ombros. — Eu, ahn, não faço ideia de qual é o protocolo quando seu chefe vem te demitir, Katy. Mas parece que cookies caem bem para a ocasião.


Ela mordeu a parte interna de sua bochecha, e eu dei um tapinha em sua bochecha. — Piada. Isso foi uma piada, apesar de ter sido ruim. Coloque alguns cookies, docinho. Também podemos ser civilizados nesse assunto. Não é tão ruim quanto esperávamos. — Você vai gritar? Balancei minha cabeça. — Não. Para ser sincero, estou muito triste para gritar. Ela jogou os braços em volta de meu pescoço, puxando minha cabeça para seu ombro. — Obrigada por me contar isso. Eu te amo. Eu a ergui, o calor de seu corpo precisava acalmar meu coração acelerado. Seus pés ficaram voando, e eu a segurei firme. — Isso torna tudo mais suportável. — Colocando-a no chão, peguei a bandeja. — Vou lá ser demitido. Servi as xícaras de café com mãos não tão estáveis como o normal. Laura direcionou alguns comentário a Katy, querendo saber como ela estava lidando em relação à perda de Penny. Passei meu braço ao redor de seu ombro quando a voz de Katy estremeceu ao falar sobre ter jogado as cinzas de Penny. Graham nos observava de perto, colocando sua xícara na mesa. — Presumo que vocês dois chegaram a um entendimento? — Não há entendimento, Graham. Estou apaixonado por Katy e, felizmente, ela sente a mesma coisa por mim. Estamos na mesma página. — Então não é mais um casamento de fachada? Resisti à vontade de colocar a mão na nuca. — Parou de ser há muito tempo. Só que eu estava muito relutante em ver ou admitir. Ele se virou para olhar Katy. — E você? Ela ergueu o queixo, da forma teimosa como fazia. — Eu o amo. Já faz um tempo. Estava com muito medo de contar para ele, caso ele não respondesse aos meus sentimentos. — Ela entrelaçou os dedos nos meus. — Mas ele me ama, e estamos prontos para enfrentar o futuro juntos. — Que bom. — Graham se abaixou e pegou a caixa, colocando-a na mesa de centro. Do seu bolso, ele tirou meu contrato, rasgando-o e colocando-o em cima da caixa. — Bom — murmurei. — Isso doeu mais do que pensei que fosse doer. — Ergui minha mão quando Graham começou a falar. — Deixe eu terminar. Dói, mas eu entendo. Entrei na sua empresa com falsas pretensões, então reconheço que tenha de me demitir. Quero que saiba o quanto gostei de trabalhar para você. Com você. Me mostrou como uma pessoa deve administrar uma empresa. — Engoli o nó em minha garganta. — Você e sua família passaram a significar muito para nós dois. Espero que um dia possam nos perdoar. — Por que queria trabalhar para mim? Decidi ser sincero. — Primeiro era por vingança... para atingir David. Ele desprezava muito você. Eu sabia que, se tivesse a chance de trabalhar para você, ele poderia muito bem me oferecer uma sociedade para ficar. Tudo o que eu queria era a oferta. Aí...


— Aí? — Graham solicitou. — Aí te conheci, conversei com você e isso mudou. Você me escutava e encorajava minhas ideias. Não sentia esse nível de empolgação ou reforço positivo há anos. A vingança ficou de lado, pois eu queria fazer parte da atmosfera que você tinha no escritório. Queria a chance de trabalhar com você. — Parei, envergonhado, baixando a voz. — Queria deixá-lo orgulhoso. Por um instante, a sala ficou em silêncio. Graham falou. — Entendo. Limpei a garganta. — De novo, peço perdão. Katy e eu queremos seu bem, tanto pessoal quanto profissionalmente. Os dedos de Graham batucavam uma batida irregular na tampa da caixa. — David me odeia por causa da forma como escolhi viver minha vida. Estudamos juntos, sabia disso? Balancei minha cabeça. — Já fomos amigos. Até conversamos sobre abrir um negócio juntos. Como sempre acontecia com David, era tudo ou nada. Ele esperava dedicação ao ponto de você não conseguir manter uma vida dentro e fora da empresa. Conheci Laura, e sabia que queria mais do que só trabalhar. Quando disse a ele que não estava interessado, bom, trocamos uns xingamentos. Seguimos caminhos diferentes; ele abriu seu negócio e eu abri o meu. Ambos somos bem-sucedidos, só que o sucesso dele era alcançado de uma forma totalmente diferente. É tudo em cima de dinheiro e negócio. Perdi a conta do número de funcionários que ele teve durante os anos. As campanhas questionáveis associadas à sua empresa. O número de mulheres ligado ao seu nome. Acho que ele se casou e se divorciou quatro vezes. — Cinco — corrigi. Ele sorriu um pouco, o canto de seus olhos se enrugaram. — Acho que perdi uma pelo caminho. A questão é, para ele, nada é mais importante que o dinheiro. Ele me odeia porque escolhi ter uma vida fora do trabalho, e ainda tive sucesso. Ele sabe, assim como qualquer um que me conhece, que, para mim, o maior sucesso que tenho, a coisa que mais valorizo, é minha família. Eu desistiria de tudo contanto que tivesse todos eles... sem nem piscar. Graham me olhou demoradamente. — Ele não tem motivo sólido na vida para o qual desistir. É por isso que me odeia. — Eu estava rapidamente me tornando igual a ele até Katy entrar na minha vida. Ele assentiu. — Fico feliz que tenha mudado. — Ele tamborilou a tampa da caixa com os nós dos dedos. — E foi por isso que tive de desfazer seu contrato, Richard. Foi assinado sob falsas pretensões. — Agradeço sua sinceridade e por trazer minhas coisas, Graham. — Ainda não terminei. — Ahn? — perguntei confuso. Ele se recostou, uma expressão quase divertida no rosto. — Eu encontrei um membro da equipe muito talentoso. Vi seu trabalho, sr. Van Ryan, e pensei que, talvez, pudesse se encaixar na minha empresa. Franzi o cenho, certo de que tinha ouvido errado. — Como? — Acho que você, agora, é exatamente o tipo de pessoa que eu gostaria de ter na minha equipe. — Eu não... Eu não entendo.


— Estou te oferecendo um emprego, Richard. Com tudo às claras. — Ele enfiou a mão no bolso, tirando um novo contrato. — Vamos ter um novo começo. Engoli, mal acreditando que aquilo estava acontecendo. — Por quê? — consegui dizer entre os lábios apertados. — Porque, assim como Katy, acredito em segundas chances. — Ele pegou a mão de Laura. — Nós dois acreditamos. Laura assentiu para mim, com lágrimas nos olhos. — Você poderia ter ficado quieto sobre seu relacionamento com Katy, Richard. Poderia ter continuado a nos enganar. Poderíamos ter suspeitado, mas nunca saberíamos se não tivesse sido sincero. Nós dois vimos o quanto você se importava com Penny. Sabemos como foi gentil com Jenna. Esse é o Richard que queremos na nossa empresa. Aquele que quer crescer com ela... fazer parte dela. — Ela sorriu. — Ser parte da nossa família. Porque é isso que pensamos de vocês dois. Katy fez um barulho esquisito com a garganta. Virando-me, vi as lágrimas escorrendo por sua face e a forma como seu corpo tremia, tentando conter sua reação. Aproximei-me dela, deitando sua cabeça em meu ombro. — Shh, docinho, está tudo bem. Virei-me de volta para Graham. — Vocês acreditam em mim? Depois de tudo, de todas as mentiras, vocês acreditam em mim? — perguntei estupefato. — Acreditamos, por causa disso. — Graham apontou para a forma como eu estava segurando Katy. — Não pode fingir isso, Richard. Podemos sentir o amor que sente por sua esposa. — Dê- uma caneta a ele! — Katy explodiu. — Ele vai assinar! Queremos ficar... nós dois queremos ficar! Graham e Laura sorriram com as palavras dela e tive de morder o lábio para não rir. Ela daria uma jogadora de poker barraqueira, mas ela estava certa. Queríamos ficar. Mantendo meu braço em volta dela, estendi minha mão. — Ficaria honrado em trabalhar para você, Graham. Não vou te decepcionar de novo. Juro que te deixarei orgulhoso. Ele pegou minha mão, cumprimentando-a firmemente. — Você já deixou. Tive de desviar o olhar para ver se Katy estava bem. Não tinha nada a ver com o jeito que minha visão embaçava ou o pinicar das lágrimas em meus olhos. Nada a ver.


33 Richard

Carreguei a bandeja para a cozinha, deixando Laura e Katy conversando. Graham me seguiu, carregando a caixa e esperou para que pudéssemos ir ao escritório para conversar mais. Ele olhou para os papéis no balcão, pegando a vaga para Calgary. — Sério, Richard? — Ele sorriu de forma engraçada. — Você teria morrido de tédio lá. — Eu não podia levar Katy para Toronto. Ela ficaria depressiva. Ele me analisou por um instante, um sorriso atravessando seu rosto. — Como você mudou. — Cresci, você quer dizer. Ele assentiu, batendo em meu ombro. — É bom ver isso. Olhei por cima de seu ombro para onde Katy estava, abraçando Laura. — É bom — admiti. — Nunca pensei que ia passar por algo assim. — A pessoa certa pode abrir seus olhos para muitas coisas, Richard. Ele tinha razão. Ele segurava meu novo contrato. — Vamos assinar alguns papéis. — Por que trouxe minhas coisas se planejava me recontratar? Um olhar estranho tomou sua expressão, e ele abriu a caixa. — A caixa está vazia, Richard. Fiquei boquiaberto. — O quê? Por quê? — Pelo mesmo motivo que aparecemos sem avisar. Eu queria ver como reagiria se pensasse que estava acabado. Queria ver sua reação verdadeira e impulsiva. — E? — Você parecia despedaçado. — E estava. Queria continuar trabalhando para você. Quando vi a caixa, sabia que tinha ferrado além do que podia ser consertado. Não fiquei surpreso, mas me atingiu em cheio, porque queria muito. Eu sabia que não havia nada que pudesse fazer para mudar. Tinha causado isso para mim mesmo, afinal. — Sua reação me disse tudo que eu precisava saber. Você ficou chateado, mas imediatamente ofereceu consolo para Katy. Eu sabia que você tinha mudado de verdade. — Ele sorriu. — Desculpe a armadilha. Estendi minha mão, a qual ele pegou, cumprimentando firme. — Entendi. Ele abriu a tampa.


— Use-a para trazer mais coisas para o escritório. Transforme no seu escritório, Richard. — Alguém sabe? — De fora da família, não. A equipe acha que você viajou com Katy. Você vem na segunda e começa de novo. Ninguém vai te julgar. — Obrigado. Não vou te decepcionar desta vez. — Eu sei — ele disse e assentiu enfatizando. — Eu sei. Um tempo depois, Graham estava me cumprimentando ao se despedir. — Te vejo na segunda. Laura deu um último abraço em Katy e virou para mim. — Espero grandes coisas de você, Richard. — Vou corresponder. Ela deu um tapinha na minha bochecha. — Sei que vai. — Tenho muito o que compensar, e farei meu melhor. — Vamos começar de novo. Você chegará na segunda com tudo esclarecido com Graham e comigo. — Ela sorriu com pesar. — Pode acertar as coisas com Adam, Jenna e Adrian sozinho. Eles disseram a mesma coisa sobre manter você, e todos foram a favor. — Ela arqueou uma sobrancelha para mim sabiamente. — Embora eu ache que um dos meus filhos possa ter mais a dizer em relação ao assunto do que os outros. Sorri. — Disso eu não tenho dúvida, e vou aguentar toda raiva que Jenna quiser descontar em mim. Vou me certificar de falar com todos eles em particular na semana que vem. — Bem-vindo de volta à equipe, Richard. — Obrigado. Eu os acompanhei até o elevador, retornando alguns minutos depois. Katy não estava atrás da porta ou na sala. Subi correndo as escadas, surpreso quando a vi sentada na chaise em seu quarto antigo. — Docinho? Ela olhou para cima, um olhar sombrio. — O que foi? Por que está aqui? Ela deu de ombros. — Eu estava pensando. Sentei diante dela e segurei seu rosto. — Sobre? — Sobre como nervosa e com medo eu estava na primeira noite que passei aqui. — Sobre ficar aqui... comigo? — Isso e com o futuro. Com uma ação, você mudou toda minha vida. Não estava mais naquele apartamento pequeno e horroroso, estava saindo do emprego e não fazia ideia de como iríamos lidar com uma farsa tão elaborada. Tudo o que eu pensava era no quanto ia falhar, e não sabia como iria me recompor quando acontecesse. — Ela pausou, traçando o desenho do tecido da almofada com o dedo. — Meus pensamentos estavam caóticos e eu tinha muita dúvida.


— Eu também não ajudei muito, não é? Ela inclinou a cabeça, analisando-me. — Não, na verdade, sua calma, a forma como assumiu controle de tudo, ajudou. Você tinha tanta certeza, estava tão focado em seu objetivo; eu só tinha de te seguir. — Ajudaria dizer que fiquei admirado com você desde esse dia, Katy? Você me mostrou muita coragem. — Sorri ao me lembrar de nossa conversa mais cedo. — A primeira vez que me mandou me foder... vi um brilho escondido. Você parou de ser o capacho que eu pensava erroneamente que era e se tornou uma força. — Tirei seu cabelo de seu ombro, mexendo nas suas mechas sedosas. — Você se tornou minha força. Minha luz. — Você se tornou meu tudo — ela sussurrou. Abaixei, passando minha boca na dela. — Chegamos muito longe. — Hoje foi um bom dia. — Foi. Assinei um novo contrato; vou voltar ao trabalho na segunda para um lugar onde realmente quero estar. Podemos ficar em Victoria, e a melhor parte de tudo é que tenho você. Podemos ter uma vida juntos. — Acho que quero voltar ao trabalho. Fiquei surpreso. — Por quê? Não precisa. — Eu sei, mas o que vou fazer o dia inteiro, Richard? Perambular pelo apartamento vazio? Pintar e repintar cômodos? Quero ser útil. — Ela suspirou. — Não tenho mais Penny para preencher meus dias. A tristeza de suas palavras apertaram meu coração. — E um trabalho voluntário além do abrigo? Você conhece tantos moradores do Golden Oaks... talvez pudesse passar um tempo lá. Tenho certeza de que eles iriam gostar da ajuda. — Pensei nisso. Movi-me para frente, puxando-a para perto. — Katy, quero que faça o que quiser fazer. Trabalho voluntário, emprego, o que te deixar feliz. Mas, me escute, docinho. Os últimos meses foram uma coisa atrás da outra para você. Tudo que disse antes sobre como mudei sua vida é verdade. — Acariciei a maciez de sua face com os nós dos meus dedos. — E, embora tenha acabado bem, sei como foi tudo estressante para você. Tudo mudou na sua vida, e você perdeu Penny. Eu sei que, às vezes, isso deve te sobrecarregar, então vou pedir que pense nisso. Não apresse nada. Por favor. Seus olhos estavam indescritíveis quando travamos nossos olhares. Não sabia como expressar como isso era importante para mim. — Eu quero... — Engoli e respirei fundo. — Pela primeira vez na vida, eu quero cuidar de alguém. Deixe-me fazer isso. Vou apoiá-la no que decidir, mas deixe-me cuidar de você por um tempinho. Preciso saber que você está bem. — Estou bem — ela insistiu. — Por favor — repeti. — Só um pouquinho. Quero que relaxe. Decore nosso quarto. Leia. Durma. Faça alguns de seus jantares incríveis para mim. Asse cookies para mim. — Apertei a mão dela em meu peito. — Cuide de mim. Preciso de você, docinho. Tenho de saber que você também precisa de mim. Ela segurou meu rosto, seus polegares traçaram pequenos círculos em minhas faces. — Eu preciso de você, Richard.


— Por mim — implorei, encostando a testa na dela. — Tudo que estou pedindo é um pouquinho de tempo. — Tudo bem. — Obrigado. Ela encontrou meus lábios com os dela e eu os capturei forte. Passei meu braço por debaixo de suas pernas e nos levantei da chaise. Saindo do quarto, carreguei-a para nosso quarto. Eu a deitei na cama, sorrindo para ela estendida para mim. — Acho que fomos interrompidos, e alguém me prometeu que ficaria para depois. Vou cobrar agora. Ela me puxou para sua boca. — Que bom. Rocei os lábios dela com os meus, já cheio de desejo. Era um mistério para mim como eu negara minha atração a ela por tanto tempo. Tudo de que precisava era um olhar tímido ou um de seus sorrisos irônicos, e eu a queria. Tudo nela era sedutor e lindo. A forma como ela me apoiava, e me amava, era o afrodisíaco mais forte que eu já tinha conhecido. Meus olhos se abriram, encontrando seu olhar azul e vivo. Em um segundo, o desejo repentino se transformou em uma piscina brilhante de sentimento. Tudo que acontecera naquele dia — tudo que tinha de bom na minha vida — era por causa dela. Minha Katy. O amor e a dor que eu só sentiria por ela consumia meu corpo. Subindo nela, baixei minha boca até a dela, meu beijo gentil e cheio do carinho mais profundo. Ela envolveu seus braços em meu pescoço, seus dedos escorregaram para minha cabeça em um carinho tão leve que estremeci. Seu toque continha muita delicadeza. Seu amor entrava na minha pele toda vez que estávamos juntos, colocando meus pés no chão, trazendo meu foco quando mais precisava. Eu absorvia sua essência até sua alma fundir com a minha. Tirei as roupas dela com mãos gentis, minha boca raramente deixava seu corpo. Acariciei sua pele quente, apreciando cada curva e imperfeição com meu toque. Sorri conforme ela ficava impaciente, puxando-me para seus braços que me agarravam forte, sua voz implorando por mais. Escorregando para dentro de seu corpo receptivo, paralisei, refletindo sobre a perfeição de estar unido a ela da forma mais íntima. Eu planejara fodê-la... forte. Provocá-la até ela implorar por alívio, mas tudo mudou em um segundo. Tudo o que eu queria agora era fazer amor com ela, reivindicá-la, deixá-la satisfeita, saciada e segura ao saber que era minha. E igualmente seguro do fato de que eu pertencia totalmente a ela. Comecei a me mover — investidas longas e lentas. Eu a adorava com as mãos e minha boca, sem deixar nenhum espaço intocado, elogiando-a o tempo todo. — Sua pele, baby, amo seu gosto. Ela enfiou os dedos em meu cabelo, puxando as mechas curtas, gemendo meu nome. Investi mais rápido, precisando de mais. — Meu pau está muito enterrado em você. Ela envolveu as pernas mais apertado, segurando-me perto, conforme segurou meus ombros, suas unhas afiadas enterravam-se na minha pele. Meus movimentos se tornaram frenéticos quando meu orgasmo começou a ganhar força, tomando conta do meu ser. — Minha, Katy. Você é minha.


Ela se despedaçou, seus músculos ficaram tensos, e ela gemeu ao gozar. Ao enterrar o rosto na pele perfumada de seu pescoço, deixei as ondas de prazer me invadirem, intensas e profundas, sem nada na mente enquanto ficava à deriva, meu corpo cantarolava de satisfação. Erguendo minha cabeça, encontrei o olhar delicado e sonolento de Katy. Capturei seus lábios, sentindo sua maciez. — Te amo — respirei. Seu sorriso foi doce. — Eu sei. Era segunda e eu estava nervoso quando entrei pela porta do Grupo Gavin. Não fiquei surpreso quando vi Graham me esperando. Ele apertou minha mão e me convidou para sentar com ele em sua sala para repassar tudo o que tinha acontecido enquanto estive fora. Ele despertou meu interesse com uma nova campanha e estávamos entretidos na conversa sobre isso quando Adam, Jenna e Adrian entraram. Eu me levantei, estendendo a mão. Adam e Adrian a apertaram, no entanto, Jenna ficou para trás, olhando friamente para mim. Compreendendo sua raiva, assenti e me sentei de novo. Ela demorou para começar a participar da discussão, mas, logo, estava discutindo comigo como sempre sobre os conceitos e ideias. Eu estava grato pela normalidade do momento, sabendo que teríamos uma discussão muito mais pessoal mais tarde. Eu estava certo. Eu estava na minha sala, verificando mensagens, respondendo e-mails e vendo arquivos que Amy deixara para mim, quando Jenna entrou e fechou a porta. Ela ficou parada diante da minha mesa com a mão na cintura, encarando-me. — Só fale — eu a encorajei, embora soubesse que ela queria me fuzilar mais um pouco. — Você mentiu para mim, seu desgraçado. Para todos nós. — Menti, sim. — Katy mentiu para mim. Saí de minha cadeira instantaneamente, rodeando minha mesa. — Ela não queria, Jenna. Ela detestou mentir para você... para todos vocês. Fui eu. Foi tudo culpa minha. — Eu confiei nela. Pensei que fosse minha amiga. — Ela é!� Pelo menos ela quer ser. Sente falta de conversar com você. Seus olhos lacrimejaram. — Sinto falta dela. Encostei na minha mesa. — Fiz isso por motivos egoístas. Ela fez para assegurar que Penny estivesse a salvo e bem cuidada. Se quer ficar brava, fique brava comigo. Mas perdoe Katy. — Segurei minha nuca. — Ela já está perdida o suficiente. Não acabe com sua amizade. Ela mordeu o lábio, inclinando a cabeça e me analisando. — Você falou como um homem que está apaixonado por sua esposa. — Eu a amo. Não a mereço, mas a amo. — Baixando os braços para a lateral do meu corpo, tamborilei os dedos na superfície dura de madeira. — Não sou de demonstrar ou de ser romântico, mas estou tentando. Por ela. Quero ser o marido que ela merece... o homem no qual ela depositou confiança.


Ela ficou me olhando. — Olhe, Jenna. Sei que você quer gritar e brigar comigo. Tudo bem. Eu aguento. Eu mereço. Sei que preciso ganhar sua confiança, e vou fazer isso. De alguma forma. Só não — acenei a mão, sem saber como pedir —... só não puna Katy. Ela bateu o pé no chão. — Gostei da ideia sobre o cruzeiro que você teve mais cedo. Pisquei confuso em relação à mudança rápida de assunto. — Ahn, que bom. — Talvez possamos discutir mais isso à tarde. — Claro. Ela se virou, parando à porta. — Quando eu estiver pronta para conversar mais, te aviso. — Tudo bem. — Até lá, fico feliz que tenha voltado. — Ela franziu os lábios, com a mão de volta no quadril. — Senti falta da sua grosseria por aqui. Não pude deixar de rir. — Obrigado. Senti falta de nossas conversas. — Pisquei, já que geralmente ela que falava e eu escutava. — Não deixe subir à cabeça. — Ela bufou. — Não somos amigos de novo. — Lógico. — Ainda não — ela complementou e saiu. Sentei-me de novo. Era um começo. Pelo menos ela estava falando comigo. Um pouco. Na terça, senti que estava de volta. Os dias foram cheios de reuniões, discussões estratégicas e muito trabalho. Era quase como antes, mas, agora, eu tinha um lugar onde queria estar no fim do dia. Em casa com Katy. Eu adorava chegar em casa sabendo que ela estaria lá. Gostava de nossas noites juntos, sentados, conversando e compartilhando nosso dia. Desejava sentir sua boca na minha e a forma como nossos corpos se moviam quando ficávamos juntos no fim da noite... ou mais cedo, dependia do clima. Usamos várias superfícies do apartamento: o balcão da cozinha, o sofá, até a parede. Minha mesa no escritório ainda era um dos lugares favoritos para me apossar de Katy. Normalmente, pensávamos depois do jantar... eu não me cansava de minha esposa. Naquela noite, parei e comprei flores por nenhum motivo, exceto querer mostrar para ela o quanto a amava. Ainda era uma sensação esquisita para mim querer expressar um sentimento diferente como amor, mas continuava tentando. Descobri que Adrian era um bom ouvinte e conselheiro às vezes. Entrando no apartamento, ouvi vozes. Entrei na sala e parei quando vi Jenna sentada com Katy ao balcão que separava a cozinha. Uma garrafa vazia de vinho estava entre elas, suas taças meio cheias. Jenna saíra da empresa umas duas horas atrás, e suspeitei que tivesse ali desde aquela hora. Contive meu sorriso ao cruzar a sala e entregar as flores para Katy, beijando-a firme. Ela sorriu e arregalou os olhos de felicidade. Eu sabia o que Jenna estar ali significava. O silêncio dela pesou no coração de Katy e me frustrava o fato de não poder fazer nada para melhorar. Era algo que elas tinham de acertar entre elas... e


a bola toda estava com Jenna. — Devo pedir comida chinesa para jantar? — perguntei, abaixando e acariciando sua bochecha rosa. Ela sempre ruborizava quando bebia. Eu gostava de beijar sua pele quando estava quente. E foi o que fiz: passei meus lábios em sua face até o canto de sua boca, beijando seus lábios carnudos. — Sim, por favor. E obrigada pelas flores. Beijei de novo sua boca tentadora e me ergui. — Dois rolinhos primavera — olhei para Jenna — ou três? — Quatro — Jenna respondeu. — Adrian chegará daqui a pouco. Tenho certeza de que também estará com fome. — Vou pegar mais uma garrafa de vinho. Jenna deu de ombros. — Ou duas. Rindo, apertei seus ombros ao passar por ela. — Bom ver você, Jenna. Ela me rejeitou acenando a mão. — Que seja. Porém, flagrei sua piscadinha irônica para Katy. Elas começaram a conversar de novo. Parei no corredor e fiquei ouvindo. A risada de Katy era baixa e feliz. A voz de Jenna tinha o tom normal de empolgação quando disse para Katy sobre uma nova exibição de arte a que todos tínhamos de ir juntos. Inspirei o ar de forma surpreendente trêmula e sorri. Minha esposa tinha sua amiga de volta. Katy estava, lentamente, recompondo sua vida, o que significava que a minha estava se alinhando à dela. Estávamos criando uma nova vida. Juntos.


34 Richard

Jenna se inclinou para frente, apontando uma amostra. — Eu gosto desta. Balancei a cabeça. — Não, é discreta. — Mexi na pilha de amostras e peguei a que estava quase embaixo de tudo. — Essa chama atenção. — Essa é muito na cara. — Precisa ser na cara, Jenna. Estamos vendendo diversão aqui. Tem de cativar você. Ela apertou os lábios e eu aproveitei para beber um gole de meu café. Eu estava “de volta” por quase três meses. Meu relacionamento com os Gavin estava solidificado tanto profissional quanto pessoalmente. Minha carreira nunca esteve tão completa como agora. Minha vida com minha esposa estava maravilhosa. Katy trouxe uma paz para meu mundo que nunca percebi que faltava ou precisava. Ela era meu núcleo, e tudo que eu fazia girava em torno dela de alguma forma. Ela passava o tempo sendo voluntária e, dois dias da semana, trabalhava no Grupo Gavin... mas não para mim. Ajudava Laura, e as duas formavam um grande time. Era uma situação na qual todos ganhavam já que eu podia vê-la na empresa e ainda tê-la em casa. Jenna empurrou as amostras com um barulho bravo. — Ainda detesto quando você está certo. Ri pela sua indignação. Antes de eu poder falar, seu celular tocou. Ela atendeu e outro resmungo baixo me fez sorrir por ela estar tão frustrada. — Certo. Não, vou ver o que consigo fazer. — Ela desligou, jogando o celular na mesa. — Algum problema? — Meu carro está na loja. Não deu para ficar pronto hoje e só poderei pegá-lo amanhã. Adrian está fora e preciso de uma carona para casa. Preciso ver se consigo alcançar meu pai. — Ele saiu para uma reunião logo depois do almoço. Disse algo sobre ir para casa depois que terminasse. — Merda. — Eu posso te levar para casa. — Tem certeza? — Sim. Posso te deixar lá e passar para te pegar amanhã também. — Meu pai vai me trazer. Não tem planos com Katy para hoje à noite? — Não. Na verdade, ela tem um curso de informática hoje à noite, então estou livre como um pássaro. — Ótimo. Obrigada. — Claro. Agora vamos acabar com isso, depois eu te levo.


A carona foi agradável e rápida. Eu não precisava ser guiado, já que estive lá muitas vezes. Jenna, como sempre, encontrou muitas coisas para falar, preenchendo o tempo no carro com histórias de procurar um novo sofá. Ela e Adrian moravam no fim da cidade, em um novo bairro. Era perto da água, as casas eram grandes e bem distante umas das outras. Eu gostava do ar silencioso e rico da área. Depois de deixar Jenna, dirigi pelas ruas ao redor, admirando as casas e a tranquilidade do bairro. Diminuí a velocidade, parando na esquina em frente a uma casa que chamou minha atenção. O cinza escuro do tijolo e o telhado azul vivo se destacavam na área de cores mais neutras. Sobrado com uma sacada em torno de toda a casa e janelas grandes, parecia aconchegante. O que chamou minha atenção, no entanto, foi o homem colocando a placa de À venda. Também havia uma caixinha para guardar folders de informação sobre a casa. Sem pensar, eu estava fora do carro, andando até ele. Ele sorriu para mim quando pedi uma cópia. — Ainda estão dentro da casa. Preciso pegá-los — ele respondeu ao meu pedido. — Os donos não estão em casa, mas tenho certeza de que não se importariam. Quer dar uma olhada? Olhei para a casa, sem saber por que eu estava interessado. Katy e eu nunca havíamos falado sobre comprar uma casa ou nos mudar. Só que eu gostava da ideia. — Quero, sim. Uma hora depois, eu estava de volta no carro, com o folder na mão e outra visita marcada para a próxima manhã. Eu queria que Katy visse aquela casa. Ela olhou para o folder, confusa. — Uma casa? Você quer uma casa? Apontei o folder. — Eu quero esta casa. — Por quê? Não gosta mais do apartamento? Fiquei pensando nisso a noite toda, enquanto esperava que ela chegasse em casa. — O apartamento é legal. Sempre gostei. Mas eu estava pensando, não é um bom lugar para — cocei minha nuca de forma nervosa — criar filhos. Seus olhos se arregalaram. — Eles precisam de um quintal para brincar, certo? Um lugar para correr...? Ela sorriu, dando um tapinha na minha mão. — Bom, eles não são cachorros, mas, sim, um quintal é uma boca coisa para crianças. — Ela passou a língua no lábio inferior, um sorriso irônico curvou sua boca. — Você... você está grávido, Richard? — Não — bufei. — Eu estava pensando que um dia você estará. Ela riu, depois ficou séria. — Um dia no futuro próximo? Inalei uma respiração calmante antes de responder. — Se você quiser. — Richard — ela soltou. — Tem certeza? — Não estou dizendo que será amanhã, nem no mês que vem. Eventualmente, sim, quero uma família


com você, Katy. No entanto, não quero criá-los em um apartamento. Eu costumava querer um quintal em vez de só poder brincar no parque por um tempo determinado. Quero isso para meus filhos. — Pausei, limpando a garganta. — Para nossos filhos. — Então eu adoraria ver essa casa com você. — É perto de Jenna — adicionei. — Isso é um incentivo ou um obstáculo para você? Sorri. — Depende do dia. — Você gostou mesmo dessa casa? Assenti. — Tem só dois anos,� o próprio dono construiu, então é bem feita. Está à venda porque sua esposa foi transferida. É aberta e clara. Quatro quartos com bom tamanho e um grande escritório para mim. A cozinha é bem equipada e acho que você vai adorar. — Parece ótima. — O quintal é enorme. Bastante espaço para uma piscina, que eu sempre quis. Teríamos de cercá-la, claro, mas é possível. — Parece que você já está pronto para mudar. Envolvi o braço em sua cintura, puxando-a para perto. — Se você gostar, eu estou pronto. Se você for ficar mais feliz por enquanto, é aqui que vamos ficar. Se você quiser olhar outras casas, tudo bem também. — Olhei para a foto da casa. — Há algo nesta casa que me chamou atenção. — Mal posso esperar para vê-la. Katy amou a casa ainda mais que eu. Ela foi de quarto em quarto, abrindo armários e olhando tudo o que tinha. No quarto do casal, ela observou em silêncio a vista da varanda privada. Estávamos tão perto da praia que podíamos ver o mar. À nossa esquerda e direita, árvores altas e largas rodeavam a propriedade. Era espetacular. — Você gostou? — É maravilhosa — ela murmurou. — Tão tranquilo. Apontei para o caminho entre as árvores no meio do quintal. — Há um caminho que leva para o fim da propriedade. É toda aberta no fim. Dá para ver o mar a quilômetros. É como seu chalé. Seu pequeno pedaço de paraíso. — Oh, Richard. — Quero te dar isso. Ela se virou em meus braços, com os olhos brilhantes. Pegando seu rosto, puxei-a para mim, beijando sua boca carnuda. — Vamos ver mais, ok? — Ok. A suíte era luxuosa. A banheira no canto me fez pensar em relaxar na água quente com uma taça de vinho, e minha esposa aninhada em meus braços. Eu a envolvi no meu abraço, descansando o queixo em seu ombro. — Quero você naquela banheira, Katy — sussurrei, arrastando meus lábios por seu pescoço até sua


orelha e mordisquei seu lóbulo. — Quero alagar o chão e ouvir a forma como meu nome ecoa nessas paredes quando você gritar. Ela estremeceu e dei outro beijo em seu pescoço. Dei um passo para trás com um sorriso, segurando minha mão no ar. — Vamos continuar olhando? Ela semicerrou os olhos para mim, fazendo-me rir. Eu adorava provocá-la. A cozinha causou a melhor reação. Cruzei os pés, relaxando apoiado no balcão, observando-a andar por ali. Sempre adorei ver suas reações. Ela passava a mão na riqueza dos armários de madeira, no frio do topo do balcão de quartzo e nos eletrodomésticos brilhando. — Eu poderia cozinhar muitas coisas aqui! — ela exclamou ao ver os fogões duplos, e suspirou ao ver a geladeira. — Não sei se sairia da cozinha! Encontrando seus olhos, eu sabia que tínhamos encontrado o próximo passo de nossa jornada juntos. Eu queria fazer isso por ela... por nós. Queria dar isso para ela. Um lar dela, onde se sentiria segura. Um lugar onde poderíamos criar lembranças que pertencessem a nós e construir uma vida. Ergui minhas sobrancelhas com uma pergunta silenciosa. Não houve hesitação da parte dela. Eu sabia que poderíamos olhar outras casas; na verdade, provavelmente deveríamos, mas aquela parecia a certa. Parecia feita para nós. Virando-me, sorri para o corretor, que estava nos observando com olhos ansiosos. — Gostaríamos de fazer uma oferta. Eu tinha certeza de que meus tímpanos iriam explodir quando contamos a novidade para os Gavin alguns dias depois. Convidamos todos para um jantar e, depois de comermos, contamos que compramos a casa e que moraríamos a alguns quarteirões de Jenna. — A cinza? — ela gritou. — Com o telhado azul-claro? Amo aquela casa! — Ela jogou os braços em volta de Katy. — Vamos ser vizinhas! Katy sorriu e seu olhar azul intenso encontrou o meu. Ela sorriu o dia todo — alegre e gargalhando. Seus olhos estavam em paz, e sua felicidade era evidente. Senti um orgulho que era diferente do que eu estava acostumado. Não tinha nada a ver com um trabalho bem feito ou um elogio por uma campanha para a qual dediquei horas. Era um orgulho pessoal baseado no fato de eu ter feito outro ser humano feliz. Um ser humano que eu amava mais do que pensava ser possível. Eu tinha feito isso. Graham flagrou meu olhar, inclinou a cabeça em direção a Katy e ergueu sua taça em um brinde silencioso. Ergui a minha, aceitando sua aprovação não dita, sabendo que, pela primeira vez na vida, eu merecia.


35 Richard A dor familiar estava estrondosa em minha cabeça, meus olhos ficavam pesados e meus ombros e pescoço doíam. Olhei pela janela para a tempestade se formando, pensando se chegaria em casa antes dela e antes da dor de cabeça ficar insuportável. Os três toques que Amy sempre usava soaram como tiros em minha cabeça dolorida. Joguei-me no couro frio de minha cadeira, fechando os olhos. — Venha — chamei o mais alto que consegui. — Precisa de alguma coisa, Richard? Não me incomodei em levantar a cabeça. — Pode cancelar a reunião com o conselho técnico? — Já cancelei. — Ótimo. Pode também tirar o resto da tarde de folga, Amy. Vou ser inútil. — Posso fazer mais alguma coisa? Suspirei, mantendo os olhos fechados. — Ser não for te ofender, uma xícara de café com alguns comprimidos para dor seriam bons. Se puder ligar para minha esposa, seria ótimo. Ela riu baixo. — Acho que posso fazer isso, Richard. — Obrigado. Ela saiu, e eu massageei minhas têmporas. Eu sabia que, quando falasse com Katy, ela diria para deixar meu carro e pegar um táxi para casa. Também sabia que, quando chegasse lá, ela estaria com compressa fria, comprimidos para dor muito mais fortes e seu toque calmante para fazer a dor de cabeça cessar. Eu só tinha de chegar até ela. O café e o Tylenol que Amy traria ajudariam até lá. Ouvi passos, senti os comprimidos serem colocados na minha mão e o cheiro de café chegou ao meu nariz. Não era a voz de Amy que chegou aos meus ouvidos. — Beba. Engoli os comprimidos grato e procurei cegamente a mão de minha esposa. — O que está fazendo aqui? Você não está escalada para hoje. — Amy ligou e disse que você estava desligado esta manhã. Ela pensou que estivesse com uma de suas dores de cabeça, então vim para te levar para casa. Parei-a no meio do caminho quando estava voltando do lounge. Com um gemido, inclinei-me para frente, enterrando a cabeça no estômago de Katy. A temperatura congelante da compressa foi boa conforme ela passava por meu pescoço e enfiava os dedos no meu cabelo.


— Vamos esperar os comprimidos fazerem um pouco de efeito, então vou te levar para casa. — Ok. — Você deveria ter ligado mais cedo — ela me deu uma bronca gentilmente. — Sabe como essas dores de cabeça te afetam. — Eu tinha de trabalhar — protestei, apertando os braços ao redor de sua cintura, querendo-a mais perto. — E quanto trabalhou? — Não muito. — Que ideia boa, então — ela ironizou. — Vá se foder, Van Ryan — resmunguei, usando sua frase preferida. Ela tremeu com a risada suprimida, sem parar de me fazer carinho. — Obrigado por vir até mim. Senti seus lábios na parte de trás de minha cabeça. — Por nada. — Nosso garoto não está bem, Katy? — A voz de Graham era baixa no burburinho da empresa. — Dor de cabeça forte. — Imaginei. Ele não estava normal na reunião desta manhã. — Todo mundo me conhece muito bem — cortei ele, sem erguer a cabeça. — Um homem não pode ter uma dor de cabeça sem ninguém perceber por aqui? Ambos me ignoraram, como se eu não tivesse falado. — Vai levá-lo para casa? — Assim que ele conseguir se levantar. Acenei a mão. — Ele está bem aqui. Katy afagou minha cabeça. — Ele sempre fica mal-humorado quando não está bem. — Percebi. A voz de Laura de repente se tornou parte da conversa. — Ah, não, dor de cabeça? Pobre Richard! Resmunguei. Isso estava saindo do controle. — Estou bem — murmurei. — Ele está mal-humorado — Graham anunciou. — Retrucando bastante. — Sempre fica assim quando está com dor de cabeça — Laura refletiu. — Que bom que está aqui, Katy. — Você precisa de alguma ajuda? — Jenna perguntou, o som de seus saltos anunciou sua chegada. — Talvez pudéssemos carregá-lo para o carro ou algo assim? Chega. Ninguém ia me carregar para nenhum lugar. Todos precisavam se afastar. Ergui minha cabeça devagar, tentando abrir os olhos, totalmente decidido em dizer para todos saírem. Olhei para Katy. Ela sorriu, pegou minha face e arqueou sua sobrancelha. Desviei meu olhar para as pessoas atrás dela, e não vi nada além de olhares de preocupação e cuidado. Graham se encostou na parede, parecendo se divertir, pois sabia o quanto eu detestava ser tão paparicado. Toda a raiva sumiu


quando percebi que as pessoas à minha volta estavam lá por apenas um motivo: elas se importavam. — Não preciso ser carregado para nenhum lugar — resmunguei, baixando a cabeça de volta para o calor de Katy. — Katy e eu podemos lidar com isso. — Certifique-se de esperar bastante, para que não vomite no carro dela — Jenna aconselhou. Sua franqueza me fez rir. — Boa ideia. — Ligue se precisar de alguma coisa, Katy. — Ligo, sim. Obrigada, Graham. — Presumo que não vá à aula de ioga hoje à noite — Jenna refletiu. — Eu te aviso. Houve o som de um monte de passos e fecharam minha porta com cuidado. — Eles foram embora? Katy ergueu meu queixo, tirando meu cabelo da testa. — Sim. — Abaixando-se, ela beijou minha pele. — Eles ficam preocupados, meu querido, é só isso. Sorri com seu carinho. — Eu sei. Ainda estou me acostumando com isso. — Você está melhorando. Nem os xingou. Sorri. — Porque você estava aqui. Agora foi a vez dela de sorrir. — Pode ir à ioga. Provavelmente, vou dormir. — Vou decidir isso mais tarde. Acha que consegue ir para casa? Abri um olho e assenti. — Os comprimidos estão fazendo efeito. — Ok, vamos te levar para casa. Levantei-me, não me surpreendi por vê-la já segurando minha maleta. Sempre estava um passo à frente de mim. Fomos até o elevador, o corredor estava deserto. Mantive meu braço em volta dela, não apenas pelo apoio que ela fornecia, mas porque gostava de mantê-la perto. No carro, encostei minha cabeça para trás, fechando os olhos de novo, deixando o frio da compressa que ela colocou na minha nuca se infiltrar em minha pele. Coloquei a mão na dela. — Obrigado. Seus lábios tocaram os meus. — Sempre. Inspirei fundo e demoradamente. Adorava morar tão perto assim da água. Katy fora para a ioga e, depois que acordei, fui do lado de fora, grato que a tempestade tenha passado, levando a pior parte da minha dor de cabeça. Olhei o jardim, pensando nas mudanças que haviam ocorrido nos meses desde que nos mudamos. Uma piscina foi a primeira coisa que mandei fazer, e agora ficava de um lado, reluzente e serena na luz


do começo da noite. Ao lado ficava a casa da piscina — a parte do quintal preferida de Katy. Era o chalé onde ela ficava com Penny nas suas férias curtas; azul-claro, com persianas brancas, suas lembranças intactas. Havia combinado com Bill de comprá-lo e transportá-lo até ali para ela. Foi reformado dentro dele e tornado útil, mas ainda tinha a mesma aparência rústica. Sua reação ao vê-lo foi emotiva e profunda. — Venha comigo, Katy. — Peguei sua mão e a arrastei pela casa. — Tenho algo para te mostrar. Ela sorriu. — A piscina já está pronta? — Quase. Eu a levei para o deque, ficando repentinamente nervosa. Nunca tinha feito nada tão sentimental na minha vida. Ergui o braço, apontando. — Comprei uma casa da piscina para você. Ela congelou, olhando a cabana que eu comprara, reformara e instalara em uma base de cimento ao lado da piscina. A varanda foi reformada, a tinta fresca combinava com as persianas da casa, mas era seu chalé. — Richard! — Ela arfou. — O que… como? — Era importante para você. Eu queria que ficasse com ela. Ela jogou os braços em volta de meu pescoço, com lágrimas quentes e molhadas caindo em meu pescoço. — Me diga que são lágrimas de alegria — pedi baixinho. Ainda detestava quando ela chorava. Nunca sabia o que fazer ou como melhorar a situação. — De muita alegria. — Ela fungou. — Continuo não gostando delas. Pare, por favor. — Obrigada, Richard. Nem consigo dizer o que isso significa para mim. — Ela olhou para mim, o amor emanava de seus olhos. — Eu te amo. Pisquei ao ter os olhos pinicando. — Eu te amo. Só de pensar na reação dela me fez sorrir e aqueceu meu peito. Um calor que só ela causaria. A porta se abriu atrás de mim, e o cheiro de Katy me envolveu conforme ela se aproximou, beijando minha cabeça. — Está se sentindo melhor? — Muito. Principalmente agora que está em casa. — Que bom. — Como foi a ioga? Derrubou alguém hoje? Ela riu. — Não, agora as pessoas sabem que precisam ficar longe de mim. Sempre pensei que a ioga ajudaria com meu equilíbrio, mas pareço resistente a esse benefício. Olhei para ela enquanto ela se movia diante de mim. Seu corpo estava perfeito: forte e tonificado. — Não sei, docinho. Acho que gosto dos benefícios. — Dei um tapinha no meu joelho. — Você poderia vir aqui e posso te mostrar o quanto gosto deles, se quiser. Ela se sentou, jogando os braços em volta de meu pescoço. — Você tem mostrado bastante o quanto gosta dos benefícios ultimamente.


Passei minha mão em sua perna, segurando seu tornozelo. — Só estou mostrando o quanto te valorizo. Ela brincou com as pontas de meu cabelo, um olhar nervoso tomou sua expressão. Franzi o cenho. Lembrou-me muito de como ela era quando começamos. — O que há de errado? — Não há nada errado, mas tenho algo para te contar. Não sei como vai reagir. — Só me conte. Ela inspirou fundo. — Estou grávida, Richard. O ar à minha volta parou. A respiração ficou presa em minha garganta, contraindo e apertando. Suas palavras ecoaram na minha cabeça. Nós havíamos conversado, concordado que ela deveria parar de tomar a pílula, e eu usaria camisinha, então, quando estivéssemos prontos, começaríamos uma família. — Ahn� — Estávamos prontos? — Quando? — soltei. Ela pegou meu rosto. — Foi rápido. Bem rápido. Acho que foi depois do jantar de premiação quando não conseguimos esperar, lembra que comemoramos no carro? Não usamos proteção, meu querido. Foi só uma vez, mas é só disso que precisa. Consegui assentir, lembrando-me daquela noite. Minha campanha para a Kenner Footwear ganhou o maior prêmio do ano. Graham ficara empolgado e muito orgulhoso — assim como eu. Tinha comemorado muito com minha esposa. Aparentemente, demais. — Richard — sussurrei. — Fale comigo. Esperei o pânico chegar. A raiva. Só que, quando olhei nos olhos de minha esposa, havia apenas um sentimento� Orgulho. Passei minha mão por sua barriga ainda chapada e sorri. — Eu te engravidei. — Engravidou. — Só uma vez, hein? Meus garotos são determinados. Ela arqueou uma sobrancelha. — Vou ser um pai. — Você vai ser pai. Vai ser um ótimo pai. Refleti sobre essas palavras na minha cabeça. Não um pai — o pai. Não seria ausente na vida do meu filho. Recusava a permitir que isso acontecesse. — Com você para me ajudar, serei, sim. — Não deixarei você falhar. — Eu sei. — Envolvendo minha mão em seu pescoço, puxei seu rosto para o meu, beijando-a de forma gentil. — Você está bem? Ela assentiu. — Estou bem. Vou ao médico de novo em algumas semanas.


— Vou com você. — Ok. — Talvez seja melhor parar com a ioga. Você pode ficar ainda mais sem equilíbrio. Ela virou os olhos para cima, empurrando meu ombro. — Vá se foder, Van Ryan. Caí na risada, puxando-a para perto. Aquela era minha esposa. — Eu te amo, minha Katy — murmurei. — Eu também te amo. Ela se curvou e eu a segurei perto, colocando de novo a mão em sua barriga. Olhando para baixo, percebi que estava segurando toda minha família com meu abraço. Tudo, todo momento de minha vida, trouxera-me a esse ponto. O passado ficou para trás, a escuridão foi banida por causa da mulher que eu estava abraçando, e o presente com o qual ela havia me agraciado. O futuro era brilhante e, por causa dela e de um momento na vida, estava cheio de promessa e luz. Era, como Penny disse uma vez, um dos momentos grandiosos da vida. Na verdade, era o maior momento de todos.


Sobre a autora Melanie Moreland vive uma vida feliz e satisfeita em uma área silenciosa de Ontario com seu amado marido de mais de vinte e seis anos. Nada é mais importante para ela do que seus amigos e sua família, e ela aproveita cada minuto que passa com eles. Conhecida como a mais quieta com a risada escandalosa, Melanie trabalha em uma universidade local e para seu time de futebol. Seu trabalho, apesar de cansativo, é recompensador quando ela torce para seu time vencer. Enquanto é seriamente viciada em café e altamente desafiada por coisas relacionadas a computador, ela gosta de assar, cozinhar e tentar novas receitas para as pessoas provarem. Ela adora dar jantares e também gosta de viajar, pelo país e pelo mundo, mas acha que voltar para casa é sempre a melhor parte de qualquer viagem. Melanie se delicia com uma boa história de romance com alguns obstáculos pelo caminho, mas acredita verdadeiramente em finais felizes. Quando sua cabeça não está enterrada em um livro, está sobre o teclado, furiosamente digitando conforme seus personagens ditam suas histórias criativas para ela, geralmente com uma grande taça de vinho como companhia.


Agradecimentos Algumas palavras de agradecimentos. Para Meredith, Pamela, Sally, Beth e Shelly. Obrigada por seus olhos, seu apoio e por ser uma torcida tão maravilhosa. Abraços e carinhos em vocês. Ayden, Carrie, Trina e Suzanne, é uma bênção ter vocês na minha vida. Suas amizades significam mais do que consigo expressar, e sua crença inabalável em mim me faz continuar. Muito amor a todas vocês. Para minha equipe de campo, os Minions da Melanie — amo todos vocês! Para minhas garotas da Enchanted Publications — vocês arrasam. Obrigada pelo apoio. Caroline, sua ajuda e seu apoio para este livro foram altamente apreciados. “Obrigada” não é suficiente, mas é tudo que tenho — bom, isso, e muito amor! Jeannie McDonald — há aqueles raros momentos em que alguém entra em sua vida sem motivo, depois se torna muito mais do que você esperava. Você, minha garota, é uma dessas pessoas. Tenho orgulho de te chamar de amiga e fico emocionada por estar na minha vida. “Obrigada” não expressa suficientemente o que sinto. Nenhuma palavra expressa. Te amo. Para minha editora e amiga, Deborah Beck. Este livro não teria saído sem sua insistência para eu dar voz a Richard. Obrigada por me incentivar. Seus pensamentos, sua caneta vermelha e comentários divertidos transformaram minhas palavras aleatórias em um livro do qual tenho orgulho. Marque mais um finalizado, minha amiga. E, como sempre, para meu Matthew. Obrigada por sua paciência enquanto me debruçava no teclado e você me perdia por horas conforme eu digitava. Seu amor e apoio são o que me mantêm forte.


Table of Contents Folha de rosto Ficha Catalogrรกfica Dedicatรณria 1 Richard 2 Richard 3 Richard 4 Richard 5 Richard 6 Katharine 7 Katharine Richard 8 Richard 9 Richard Katharine 10 Katharine 11 Katharine Richard 12 Katharine Richard 13 Richard 14 Richard 15 Richard 16 Richard 17 Richard 18 Richard 19


Richard 20 Richard 21 Richard 22 Richard 23 Richard 24 Richard 25 Richard 26 Richard 27 Richard 28 Richard 29 Katharine Richard 30 Richard 31 Richard 32 Richard 33 Richard 34 Richard 35 Richard Sobre a autora Agradecimentos Editora Pandorga

O contrato - Melanie Morenland  
O contrato - Melanie Morenland  
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