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Copyright © 2015 Camila Ferreira Atenção: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução total ou parcial de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento escrito da autora. Proibido para menores de 18 anos. CAPÍTULO 1 Júlia Finalmente, estou em Nova Iorque. Jessica — minha grande amiga — deve chegar a qualquer momento. Nós somos amigas há tantos anos que perdi a conta. Era para ela estar aqui, mas está um pouco atrasada. Como ela não é do tipo que se atrasa, imagino que seja por conta do horário ou, quem sabe, o famoso trânsito de Nova York. Afinal, estamos na capital do mundo! Ainda não consigo acreditar que decidi vir para cá. Foi tudo muito repentino e confuso. Contudo, sinto que tomei a decisão certa, não havia nada no Brasil — principalmente no Rio de Janeiro — que me fizesse ficar. Minha vida de uns cinco anos para cá se resumia em casa, trabalho, faculdade e casa de novo. Eu ficava tão exausta que não interagia com mais ninguém, inclusive com meu namorado. De qualquer forma, isso não justifica uma traição. Sim, meu exnamorado me traiu com a secretária do escritório de advocacia no qual era estagiaria. Quer coisa pior? Peguei a vadia transando com Pedro no apartamento dele. Como descobri? Simples, somei dois mais dois. Pedro nunca foi do tipo romântico, mas nas últimas semanas, além de me mandar flores quase que diariamente, fazia questão de me buscar no trabalho. Ele não precisava subir, poderia esperar no carro, mas não, entrar no escritório tinha se tornado o seu passeio favorito. Para chegar até a mim, adivinha por onde ele passava primeiro? Sim, pela vagabunda da secretária. Sei que é horrível fuçar o celular do namorado, mas para minha defesa, eu já desconfiava que o galinha estivesse me traindo, então, apenas peguei um atalho lendo suas mensagens. Como eu esperava, a última mensagem era dele para ela: "Eu te espero amanhã no meu AP às 8h da noite. Bj PA."


Que fofo! Depois disso, entrei em seu apartamento e lá estavam eles, na cama, transando feitos coelhos e eu? Claro que mesmo imaginando o que iria ver, fiquei arrasada! Ele tentou se justificar e ficou apavorado, mas eu já havia tomado a minha decisão. Sim, eu sumiria da sua vida e foi exatamente o que eu fiz. O idiota jogou fora sete longos anos por um sexo casual. Pedi demissão, tranquei minha faculdade e fiz o que minha amiga havia feito há três anos, mudei o rumo da minha vida. Ela, para seguir um sonho, eu, para fugir de uma vida monótona, cansativa e de um ex-namorado mala que provavelmente agora deve estar muito arrependido, considerando o nível da mulher que ele estava. — Não consigo acreditar, minha amiga, você veio! — Perdida em pensamentos, reconheço a bela voz da Jessica. Instantaneamente, eu me viro. E lá está ela, alta, magra, com seus cachos ruivos emoldurando seu rosto de boneca, olhos verdes marejados e as sardas que a deixam ainda mais charmosa. Abraçamo-nos por longos segundos. — Ju, você está linda... Senti tanto a sua falta, minha amiga! Nunca imaginei que você viesse realmente, e agora você está aqui, perto de mim — ela diz com as duas mãos em meu rosto me abraçando novamente. — E perder o seu sucesso nos musicais da Broadway?! Nem pensar! — digo com os olhos marejados. — Bom saber, pois não te deixarei ir tão cedo. Espero que esteja preparada para a sua nova vida — diz ela, enquanto me ajuda com as malas para finalmente seguirmos para o seu apartamento. *** Fiquei satisfeita com o apartamento da Jessica. É espaçoso, têm dois quartos grandes e uma sala gigante conjugada com uma cozinha muito charmosa. Um balcão enorme que separa a cozinha da sala com modernas cadeiras altas. Tudo harmonizando com o branco das paredes e o preto da bancada, cadeiras e sofá. A parede ao fundo da sala próximo ao corredor da entrada, é de tijolos aparente, e possui uma TV LCD grande, que deixou o ambiente ainda mais moderno. Jessica sempre teve tudo que queria. Seus pais são proprietários de uma das maiores redes hoteleiras de luxo do Brasil. Obviamente, ele pôde comprar este apartamento no Upper East Side para a filha poder ficar o tempo que quiser sem se preocupar. Ela sempre amou Nova Iorque e hoje está realizando seu maior sonho: se apresentar em um dos muitos musicais da Broadway. O legal é que ela não faz pelo dinheiro e sim pelo amor à arte. Meus pais vivem bem. Não são obscenamente ricos como os pais de


Jessica, mas o meu pai é empresário no ramo da construção civil. Ele tem uma construtora muito respeitada no Brasil e nossos pais são amigos de longa data. Jessica me disse que eu não precisaria ajudá-la nas despesas, mas isso está fora de questão. Sempre amei trabalhar e viver à minha própria custa. Entretanto, para vir e poder ficar sem maiores problemas, tive uma grande ajuda dos meus pais. — Tudo pronto, este quarto é perfeito para você. Descanse hoje que amanhã sairemos — Jessica diz com os olhos brilhando e um sorriso no rosto, encostada no batente da porta. Solto um suspiro e encaro-a com admiração. Ela não existe. Quando cheguei, já havia um banquete me esperando e uma suíte super impecável com uma cama de casal confortável. — Estou exausta! Depois conversaremos sobre tudo. Precisamos colocar o papo em dia. Agora, preciso urgentemente dessa cama ― digo abraçando-a novamente. ― Obrigada por tudo! — Ela sorri com os olhos e isso me encanta. — Que bom ter você aqui. — Nos abraçamos mais uma vez, e ela sai, fechando a porta logo em seguida. Vou em direção à janela que me garante uma belíssima vista do Central Park. Estamos no Upper East Side e daqui, tenho uma vista privilegiada do Museu Metropolitan que é um dos maiores museus do mundo. Ele abriga uma importante coleção de pinturas europeias e muitas obras de artes antigas egípcias, gregas, romana e oriental se encontram ali. Com certeza, será um dos meus lugares favoritos a visitar. As árvores estão em tonalidades amareladas e avermelhadas. Uma mistura de cores impressionantes que deixa a vista ainda mais incrível — solto um longo suspiro. — Tenho a sensação que vou amar Nova Iorque. *** Abro os olhos e por uma fração de segundos, não sei onde estou. Esfrego-os e vejo que o relógio da cabeceira marca quase cinco da tarde. Nossa, dormi o dia todo! Bocejando e com uma preguiça absurda, levanto-me e vou tomar um bom banho para acordar. Assim que termino, me visto e sigo pelo corredor em direção à sala onde vejo Jessica sentada no sofá falando ao telefone. Ela me vê e faz um sinal com a mão, para que eu espere. — Josh, isso é ótimo! Então, podemos ir quando?! Perfeito! Obrigada! — Ela desliga o telefone e me olha animadamente. — Pronto, acabei de falar com um amigo e promoter de uma das boates mais disputadas de Manhattan. Está pronta para sua primeira noite nova-


iorquina?! — ela pergunta com entusiasmo na voz. Sua animação me contagia, e eu apenas sorrio assentindo com a cabeça. Hora de experimentar uma nova vida, afinal eu mereço! CAPÍTULO 2


Andrew Odeio aeroportos, mas por agora, infelizmente será necessário. O aeroporto JFK em Nova York, como sempre, está lotado. Pessoas de todos os lugares do mundo transitam apressadamente por aqui. Estou voltando de mais uma de minhas idas a Los Angeles. Mudei-me para Nova Iorque há pouco mais de uma semana e já estou voltando de lá novamente. Poderia usar o jato da empresa, mas o meu pai está usando-o com frequência ultimamente em suas viagens misteriosas. Ele está de férias pela primeira vez em anos e eu não posso reclamar. O problema é que agora eu simplesmente não o vejo mais. Sempre que vou a Los Angeles ele está em algum lugar do mundo. Às vezes acho que ele está se escondendo de mim. Enfim, depois pensarei sobre isso. Há pouco mais de um mês, comprei um nigthclub em Nova Iorque. Portanto, terei que morar por tempo indeterminado por aqui. Espero que essa tenha sido a minha última viagem para Los Angeles este mês. Admito que isso está me deixando extremamente cansado. Outro motivo que me fez morar aqui seria um dos hotéis do meu pai onde comecei a administrar em seu lugar. Ele incumbiu-me dessa responsabilidade e eu não vou decepcioná-lo. O hotel em que administro foi onde tudo começou. Meu pai transformou um hotel de família em uma das redes hoteleiras mais respeitadas do mundo. Fiz faculdade de Administração Hoteleira, pós-graduação e todos os cursos possíveis. Meu pai ensinou-me tudo que eu deveria saber na prática, para que hoje esteja apto a cuidar do nosso patrimônio. Mesmo sendo praticamente forçado a fazer, eu confesso que aprendi a gostar muito e não me vejo fazendo outra coisa. A amizade e a paciência do meu pai durante todo esse tempo foram cruciais para minha vontade de sempre crescer. Vendo o amor do meu pai por tudo que conquistou, me fez amar o que faço. Pego meu celular no bolso do meu terno e disco para o Frank — meu segurança — que provavelmente já está me esperando. — Senhor. Já estou aqui — ele diz com um tom de voz formal. — Ótimo! — desligo e faço o meu caminho através do saguão do aeroporto em direção à saída. Enquanto caminho, minha visão predatória visualiza um belo exemplar de fêmea. Sim, a mulher parece uma escultura e meus olhos não saem do seu traseiro maravilhoso. Ela está longe o suficiente para não notar que eu a seco descaradamente com os olhos. Além disso, consigo ver perfeitamente suas curvas daqui. Mesmo de costas, percebo que ela atrai todos os olhares, até mesmo os femininos. Seus cabelos loiros e longos caem em suas costas deixando minha calça literalmente apertada por essa total desconhecida.


Não sou atraído facilmente por mulheres aleatórias, principalmente sem ter o mínimo de contato físico, mas confesso que essa mulher me despertou como um maldito adolescente. O que está acontecendo comigo? Abstinência? Mas, não faz nem uma semana que eu fiz sexo loucamente. Arrumo discretamente minha calça ajeitando meu membro que está totalmente em alerta enquanto meus olhos estão fixados na mulher. — Com licença! — Desvio meu olhar para um senhor em uma cadeira de rodas. Ele está tentando passar, mas eu nem havia percebido que estava fechando o seu caminho. Pessoas aleatórias passam por mim e nem percebem o homem sobre a cadeira de rodas. — Desculpe! — digo, e me afasto. Olho-o sério e ele passa por mim nada satisfeito. Quando volto a olhar a bela loira, ela não está mais lá. — Droga! Será que era uma miragem? Balanço a minha cabeça. A desconhecida se foi, deixando-me na vontade. Aliás, vontade é algo que eu poderei resolver logo. Terei que me contentar em arrumar uma bela garota de programa. Pensando pelo lado positivo, isso é muito melhor! Prostitutas ao menos, fazem o que devem fazer e a única coisa que cobram depois do sexo, é o seu dinheiro e nada mais. Da última vez que peguei uma mulher que não era uma garota de programa, consegui além de um sexo meia boca, uma bela dor de cabeça. Ela queria encontros românticos. Queria dormir ao meu lado em minha casa, exigia algo que eu definitivamente não queria e muito menos estava disposto a dar. Odeio encontros românticos e detesto dividir a minha cama. Depois que atinjo o ápice, gosto mesmo é de ficar sozinho. Sem mulheres chatas e pegajosas sobre mim. O percurso até a minha casa é lento e eu aproveito o tempo disponível para assinar alguns documentos e ligar para o Josh, o promoter da minha boate que sempre consegue belas garotas de programa. — Sr. Smith? Já está na cidade? Como foi de viagem? — Não liguei para te dar detalhes sobre minha viagem. — Solto um ar pesado — Desculpe, senhor... Começo a imaginar aquela bela mulher que estava no saguão do aeroporto e imagino um rosto, mesmo que eu não o tenha visto. — Quero que faça o de sempre. Arrume-me uma mulher profissional. Quero uma mulher de cabelos longos loiros, corpo curvilíneo, cintura fina e bunda proporcional ao seu corpo. Descrevi exatamente a mulher do aeroporto, ao menos de costas. Fecho os


olhos e visualizo a mulher ideal para esta noite. — Quero que ela tenha olhos verdes. Enfim, quero uma mulher feminina! — Já tenho a mulher perfeita, senhor. Irei fazer o possível... — Faça o impossível. Pagarei bem. — Desligo sem esperar a sua resposta. *** Estou atrasado para o meu "encontro” com a garota de programa. Marquei na minha boate, mas acabei me atrasando por causa de alguns telefonemas internacionais. Depois disso, desliguei o meu aparelho celular para não ser incomodado por ninguém. Já falei com Josh e ele me garantiu que a tal mulher estaria me esperando na boate o tempo que fosse e que ela estaria utilizando um dos cartões que a casa disponibiliza para algumas raras e lindas mulheres apenas para bebidas. A essa altura, ela já deve estar à minha espera. Não é comum eu ir à boate em dias mais movimentados, mas hoje, preciso de distração. Tenho trabalhado muito e uma semana é o máximo de tempo que consigo ficar sem sexo. Duas horas depois, já estou na boate e não vejo Josh em lugar algum, muito menos consigo falar com ele. Havia esquecido meu celular desligado e só agora percebi. Sigo para o bar, e nem sinal de uma loira exuberante à minha espera. Pego uma bebida e passo o olho em todo local para tentar visualizar o Josh. Provavelmente nos desencontramos, já que eu entro por outro elevador. Ele deve estar na portaria. Estou com meu habitual copo de uísque e minha visão predatória novamente para em uma belíssima loira. Ela movimenta o seu corpo escultural e logo minha imaginação me leva para a loira do aeroporto. Meus olhos não saem daquela mulher encantadoramente linda. Ela dança de uma forma sensual, sexy e mais uma vez estou duro. Ela sorri e por algum motivo, eu não consigo tirar os meus olhos sobre ela. Essa mulher me atrai de todas as maneiras possíveis. — Senhor? — Sou interrompido por um dos meus funcionários. Desvio o meu olhar da linda loira para encará-lo. — Sim! — respondo secamente. — Josh estava à sua procura — ele diz com receio. — E você sabe onde ele está? — Ergo às sobrancelhas. — Não, senhor, mas... — Então não me interrompa se não pode ser capaz de me ajudar. — Me desculpe! — Aceno com expressão séria, e ele sai. Desloco-me de lugar e volto a olhar para a pista de dança e percebo que a bela mulher, está sendo cercada por alguns homens. Ela vem andando em direção ao bar e eu a sigo com os olhos. Dou um gole no meu uísque sem tirar


meus olhos de cima dela. Ela chama o barman e pede uma bebida. Percebo algo muito familiar em sua mão direita e minhas sobrancelhas se unem. O meu cartão preto? Será ela a garota de programa? Só pode. Ela é exatamente o tipo de mulher que havia pedido. Confesso que achei que estaria sentada no bar como foi ordenado e me esperando com um modo mais "profissional". Josh definitivamente superou às minhas expectativas! Se ela está usando meu cartão, obviamente é ela. Não pode ser outra. Eu não aceitaria. Decido admirá-la de longe antes de me aproximar e sua beleza me fascina. Estou completamente hipnotizado por essa mulher. Já consigo imaginar várias posições em que a colocarei essa noite. Para mim, não existe mais ninguém aqui. Somente ela. De repente ela caminha direto para o terraço e é nesse momento que eu percebo que está na hora de encontrá-la. A atitude dela me deixa um pouco confuso. Ela deveria ficar no bar como combinado e não passeando por aí. Subo às escadas e quando chego ao andar superior, a imagem que eu tenho à minha frente, é de tirar o fôlego. Não, não estou falando de Manhattan e sim, da bela mulher que está de costas para mim, admirando os altos arranha céus iluminados. Ela está distraída quando me aproximo lentamente e com o rosto bem perto da sua nuca, inspiro o aroma maravilhoso do seu perfume. Um arrepio percorre por todo o meu corpo. — Linda... a vista, não é mesmo? — Ela parece paralisada, mas logo se vira me deixando completamente sem fala. Que visão! Recomponho-me rapidamente e não me deixo intimidar por tamanha beleza. É apenas uma mulher, Andrew! — O gato comeu sua língua? — pergunto com um meio sorriso. Encaro-a fixamente. Sou bom em constranger as pessoas. Isso apenas faz parte de mim. Sou intimidador e sei que ela está nervosa. Isso me deixa excitado! — Éh... não! — Aproximo-me novamente do seu ouvido. — Então diga o seu nome, querida. Tenho certeza de que hoje você não vai querer perder tempo. Sussurro, mas pela primeira vez na minha vida, estou tentando me concentrar diante de uma mulher. — Meu nome é Júlia, e você? — Até a voz dela é sensual. Mas percebi que ela não é daqui pelo seu sotaque. — Pelo seu sotaque, vejo que não é americana. — Sou brasileira — ela responde novamente me deixando sem fala. Não respondo e meus olhos parecem se perder em outro ponto. Não pode ser. Uma brasileira? Jamais fiquei com uma brasileira.


Independente da sua nacionalidade, não posso ignorar o fato de querer entrar nela. Isso é a única coisa que penso agora deixando de lado qualquer pensamento que possa me atrapalhar. — Isso vai ser... interessante! — Seu nervosismo me faz pensar que ela está nesse meio há pouco tempo. Ela definitivamente não parece uma garota de programa. Seus modos não são como uma e isso me intriga. De qualquer maneira, eu a quero essa noite e nada vai me impedir. Aproximo-me novamente do seu ouvido e ela parece tremer levemente, me deixando ainda mais louco para entrar nela. — Te espero na saída daqui a cinco minutos — sussurro e me afasto antes que eu me arrependa e a leve para o meu escritório. Ela não faz ideia do quão mal eu a quero. *** Ela está parada de frente à janela e ainda me parece muito nervosa. Está nítido de que essa mulher não está acostumada com essa situação. Talvez seja seu primeiro programa ou segundo! Entretanto, não quero pensar sobre isso. Meus pensamentos agora querem fazer mal a ela e a única coisa que quero é usufruir do seu corpo. Preparo uma bebida para ambos e sigo em sua direção. Ela se vira e eu tenho a impressão que nem se eu a visse por mil anos, não me cansaria de olhá-la. Ela pega o copo, encara os meus olhos e vira todo o conteúdo de uma vez só. Logo em seguida, ela faz uma adorável careta. — Você fica ainda mais linda fazendo careta. — Desço meus olhos sobre seu corpo escultural. — Vejo que está nervosa. — Sorrio maliciosamente. — Parece a sua primeira vez. — Ela me encara de um jeito que me faz chegar ao meu limite. Não consigo mais segurar. Preciso dessa mulher agora! De repente, eu a pressiono com urgência contra a janela. Meus lábios exploram os dela e minha língua quer sentir o seu sabor, deliciosa cada vez mais. Como eu imaginava, os seus lábios são macios e sua boca estava com gosto da bebida. Ela está agora na mesma sintonia e nossos corpos imploram um ao outro. Sem perder tempo jogo-a sobre a cama e tiro minha camisa. Estou com pressa de estar dentro dela, quero-a o mais depressa possível. Tiro sua calcinha e coloco meu dedo em sua abertura úmida. Ela é quente e está extremamente excitada agora. — Você está muito molhada! Muito gostosa!


Minhas palavras enviam tremores por todo o seu delicioso corpo. — Seu corpo responde aos meus toques de um jeito tão receptivo — digo ofegante e fecho os olhos pressionando seus quadris enquanto meus dedos fazem o trabalho. Ela se contorce de uma maneira incrível e eu não suporto mais. Tiro minhas calças, jogo-as de lado e já estou pronto para entrar nesse corpo que mais parece um imã. Pego uma camisinha e vagarosamente coloco em meu comprimento. — Olha como estou duro pra você. — Ela olha descaradamente para a minha ereção e sem perder tempo, afundo dentro dela e algo inexplicável invade o meu corpo. Algo desconhecido. Mas definitivamente a melhor sensação de todas que já tive até agora. Acelero meus movimentos e cada segundo quero mais e mais dessa mulher estranha. A sensação é que a conheço a vida toda e que esse corpo me pertence. Afundo com força dentro dela e suas unhas estão cravadas em minhas costas. Tenho vontade de entrar nela e fundir meu corpo. — Mais forte — ouço-a falar pela primeira vez. Esse pedido me leva à beira de um abismo e eu não suporto mais, atinjo meu clímax e sinto como se o mundo pudesse acabar, mas eu quero continuar tendo essas sensações. Neste momento chego a uma conclusão: Se existe prazer melhor eu desconheço! Transamos muito. Era impossível ficar ao lado dela e não querer entrar nela o tempo todo. Estou completamente louco. E ela completamente entregue a mim. Quando terminamos nossa última rodada de sexo, ficamos deitados tentando controlar nossas respirações. Viro-me e encaro-a nos olhos. Ela está de frente para mim também com seus olhos fixados nos meus. Neste momento, sinto vontade apenas de beijá-la. Instintivamente, passo minha mão sobre seus cabelos sedosos e em seu rosto perfeito. Seus olhos ainda me encaravam e ela parecia tão perdida quanto eu. Meu coração dispara nesse momento e um nó parece querer se formar em minha garganta. Desvio o meu olhar e o fixo no teto. Afinal, quem é ela? Não sei o que ainda estou fazendo aqui, mas definitivamente, não ficarei para saber. Abruptamente me levanto e sigo para o banheiro sem olhar para a mulher ao meu lado. Preciso de um banho gelado! Preciso urgentemente de recobrar a minha sanidade mental. Preciso encontrar um ponto de equilíbrio em meu cérebro e não imaginar coisas. Eu quero prazer e elas o meu dinheiro. Simples! Preciso sair daqui o mais rápido possível. CAPÍTULO 3


Júlia Hoje me sinto uma nova mulher em todos os sentidos. Estou em Nova Iorque, prestes a ter uma grande noite com a minha melhor amiga. Pela primeira vez, decidi não me levar a sério como sempre faço. Sempre fui aquele tipo de mulher recatada e de um homem só. O que eu ganhei com isso? Um chifre do tamanho do Everest na cabeça. Acho que ao menos por hoje, eu vou me permitir. Estou em um vestido preto, fechado na frente e na altura das coxas com um decote exageradamente sexy nas costas. Esse vestido valorizou às minhas curvas tipicamente brasileiras, como se ele tivesse sido desenhado para mim. Meus cabelos loiros caem como cascatas sobre meus ombros e minha maquiagem marca os meus olhos verdes com uma sombra escura, deixando-os ainda mais claros. O trajeto foi rápido e o táxi nos deixou em frente ao grande arranha-céu, onde se localiza a boate. Assim que descemos do táxi, fomos recepcionadas pelo amigo da Jessica que nos esperava na entrada. Quando nos vê, ele une às sobrancelhas e me observa curiosamente enquanto caminha em nossa direção. — Josh, essa é minha amiga, Júlia. — Ele me encara novamente com a mesma expressão de surpresa. O homem é alto, tem olhos claros, bem magro e um modo de andar bem feminino. — Me perdoe, querida! Você é exatamente o tipo físico que estava esperando e que por sinal, está muito atrasada. Não me entenda mal, eu sou gay e nem conheço a jovem. Porém, a descrição da mulher que havia contratado é exatamente como você. Incrível, não? — ele diz com uma voz fina. Não entendi de quem ele se referia, mas acredito que seja algo relacionado com o seu trabalho. —Sim, incrível! — afirmo com um sorriso fraco e ele volta sua atenção para a Jessica que sorri animadamente. Eles se abraçam apertado. — Estava com saudade de você e espero que venha mais vezes, okay? — Também estava, Josh! Se você sempre nos conseguir entradas VIPs, estaremos sempre por aqui! — ela diz em um tom de brincadeira. — Não tenha dúvida. Espero que vocês aproveitem à noite. — Logo em seguida somos conduzidas em direção a uma cobertura incrível. O lugar é impressionante! Lustres de cristais fazem da decoração um ambiente de muito luxo e sofisticação. O que mais me deixou boquiaberta realmente, que, ao invés de paredes, o lugar é completamente cercado por vidraças; proporcionando-nos uma impressionante vista dos arranha-céus de Nova Iorque. Josh havia entregado um cartão preto com a palavra: "Smith"


escrito com letras douradas em relevo. Ele nos disse que esse cartão é dado para apenas algumas mulheres Vips para nos garantir uma excelente noite e, também, obviamente atrair mais mulheres com a finalidade de que os homens gastem ainda mais. Essa é uma tática interessante, mas eu espero me controlar para não beber além da conta Depois de pegarmos nossas bebidas, a música nos convida para a pista de dança onde sinto olhares vindo de todas as direções. Os homens aqui são lindos e talvez, eu siga o conselho da minha amiga, que desde que cheguei insistiu em apenas uma coisa: conhecer alguém. A música que ecoa através dos sons do DJ é de Nick Jonas – Jealous. Mexemos os nossos corpos no ritmo da música quando de repente Jessica se afasta, alegando se encontrar com um "amigo". Decido sair, mas antes, algo me chama a atenção. Ou melhor, alguém me chama a atenção. Mesmo sob a luz fraca, posso ver um homem incrivelmente lindo. Parece loucura, mas a sua beleza se destaca, mesmo de longe. Ele é alto, cabelos castanhos, ombros largos e totalmente sexy. O tal homem parece nervoso ao falar com um funcionário da casa e então, sinto que alguém segura o meu braço me fazendo desviar o meu olhar para o desconhecido que sorri. Obviamente, ele não se compara com o que vi, então, decido me afastar. Meus olhos procuram novamente o homem que não está mais na minha visão periférica. Estou satisfeita que, ao menos, Jessica me deixou o seu cartão de bebidas. Sigo em direção ao bar mexendo o corpo ao som da música: Don't You Worry Child que faz as pessoas se animarem ainda mais. O privilégio de ter este cartão, é que o barman é atencioso e rapidamente me entrega a bebida. Seguro minha margarita e, já que Jessica desapareceu, decido conhecer a cobertura. Dizem que é linda. Subo às escadas, e quando chego ao andar superior, me surpreendo ainda mais com a vista extraordinária que tenho. Algumas pessoas estão sentadas em sofás confortáveis com aquecedores que mais parecem lâmpadas vermelhas estrategicamente fixadas na parede. Meus olhos não param de admirar os arranha-céus e as luzes multicoloridas da cidade. Inesperadamente, sinto algo muito próximo a mim, eu diria, alguém muito próximo que de algum modo conseguiu fazer o meu corpo se arrepiar dos pés à cabeça. — Linda... a vista. Não é mesmo? — Seguro a respiração ao som de uma voz extremamente forte, sexy, máscula e profunda bem próxima à minha nuca. Decido me virar e meus olhos não acreditam no que veem. Sim, é ele. O homem que mesmo no escuro, conseguiria identificar em qualquer lugar. No andar de baixo ele parecia nervoso enquanto falava com um funcionário da casa, mas agora, vejo-o calmo, mas não deixo de notar certa arrogância. Minhas


sobrancelhas estão unidas agora e a minha mente tenta entender quando este homem esteve me vigiando. — O gato comeu sua língua? — ele pergunta trazendo-me de volta à terra. O maldito curva seus lábios em um leve sorriso e eu definitivamente não sei o que dizer. — Éh... não! — minha voz falha vergonhosamente. Encaro os seus olhos azuis e pronto, esqueci de vez onde estou e quem sou eu. — Então diga o seu nome, querida! Tenho certeza de que hoje você não vai querer perder tempo — ele pergunta de um modo arrogante. Eu entendi direito ou ele disse: "perder tempo”? Do que ele esta falando? De repente me sinto tímida como jamais fui em qualquer outra ocasião. Será que é porque ele é de longe, o homem mais lindo que já vi? Não vou ficar parecendo uma patética, preciso fazer alguma coisa. Reúno toda a coragem que me resta e fixo meus olhos nos dele. — Meu nome é Júlia e qual é o seu nome? — Sim, eu sei, eu ainda sou uma patética. Isso foi a única maldita coisa que saiu da minha boca. O que estou fazendo? Ele ignora à minha pergunta e novamente curva seus lábios. — Pelo seu sotaque, vejo que não é daqui... — Sou brasileira — interrompo-o e ele arqueia suas sobrancelhas me parecendo ligeiramente surpreso. — Uma brasileira?! — Sua expressão agora é indecifrável. — Isso vai ser... interessante! — Ele retoma com o seu meio sorriso e, novamente seus lábios estão muito próximos ao meu ouvido. — Te espero na saída... em cinco minutos. — Encaro-o surpresa. Esse homem é louco? Não vou mentir que se eu negar, ficarei imaginando por toda a vida como seria seus beijos e seu corpo sobre o meu. Droga! Onde estão indo os meus pensamentos? É como se um capetinha estivesse em meu ouvido, gritando: "VAI SUA BURRA, VÁ DAR UMA DE DIFÍCIL LOGO AGORA?”. Ele não espera a minha resposta e se vira, saindo e desaparecendo pelas escadas. Imediatamente, solto o ar que estava preso dentro de mim. Será que eu fiquei todo esse tempo sem respirar? Sacudo a cabeça e pego o meu aparelho celular que a minha amiga fez questão de me dar para que eu não me perca. Assim que olho para o visor, vejo que Jessica me mandou muitas mensagens e aposto que ela deve estar louca atrás de mim. Respondo, dizendo que estou na cobertura e que acabei de conhecer um homem incrivelmente lindo e que ele me convidou para sair daqui. Sua mensagem vem logo em seguida: “Júlia, não seja ‘certinha’ ao menos uma vez na vida! Se o homem é tudo isso que disse, vá se divertir! Estamos em Nova Iorque, aproveite a oportunidade e


pega esse gostosão!" — respiro profundamente e olho para o cenário à minha frente. Sei que estou preocupada com o que ele vai pensar, mas que se dane! Homens assim preferem curtir e eu sei que não irei vê-lo novamente. Vou deixar de ser tonta, ao menos uma vez. *** Acordo com a claridade do dia, entrando diretamente nos meus olhos. Estou enrolada em um lençol branco, completamente nua. Meus olhos tentam assimilar o cenário e como uma lâmpada, tudo vem à tona. Estou em um hotel na quinta Avenida, onde vim parar depois de conhecer o homem mais incrível que já vi. Meus braços procuram o homem e logo encontram um espaço vazio. Sento-me imediatamente na cama e observo o lado onde supostamente o homem que me proporcionou a noite mais incrível e alucinante da minha vida, deveria estar. Aonde diabos ele foi parar? Nem sinal dele. Levanto-me e envolvo o lençol em meu corpo. Sigo rapidamente para o banheiro e nada. Meu coração bate em um ritmo acelerado e, quando retorno para a suíte, algo me chama a atenção. Ao lado da cama sobre o criado mudo, percebo que há um envelope branco com a logo do hotel. Junto às sobrancelhas e rapidamente pego o envelope, mas antes de abrir, noto que o homem não se deu ao trabalho de escrever nem do lado de dentro e sim por fora mesmo, como se estivesse com pressa. Em seguida, o que leio me deixa completamente aturdida. — O que? — Meus olhos não acreditam e por mais que as letras sejam claras, leio e releio por várias vezes a mesma coisa: “Querida, a noite foi ótima! Não acertamos os valores, então, tomei a liberdade de deixar o valor de (dois mil dólares) referente aos serviços prestados. Espero que esteja bom para você. As despesas do hotel foram sanadas. Obrigado pela noite incrível. Andrew" Meu Deus, como fui burra. O cara havia achado que eu era uma prostituta. Okay, eu fui fácil demais, já que eu nunca havia feito nada parecido em toda à minha vida. Contudo, o que o fez pensar que eu seria uma garota de programa? Não falamos sobre dinheiro. Que homem maluco! Neste momento, um ódio incontrolável toma conta do meu corpo e a única coisa que eu quero é me enfiar em um buraco para nunca mais sair. Lágrimas involuntárias insistem em descer dos meus olhos e eu me sinto a mulher mais suja do mundo. — Burra, idiota, anta... AAAAHHH! — grito, até perder o ar dos meus pulmões. Tenho que sair daqui o mais depressa possível. — Mas isso não vai ficar assim, seu babaca! — grito para mim mesma.


Visto as minhas roupas em tempo recorde e pego o envelope seguindo rapidamente até a grande e luxuosa recepção. Quando me aproximo do balcão, vejo um senhor de idade que sorri educadamente. — Bom dia, senhorita, em que posso ser útil? — Senhor, sou da suíte 2020 e... — Não se preocupe... — ele me interrompe — O senhor Andrew já sanou a conta de sua suíte e avisou que você ainda estaria por lá — o senhor diz me fazendo unir as sobrancelhas. Então, todos aqui sabem quem sou? Maldito! — Forço um sorriso, reprimindo um ódio que se instala dentro de mim com ainda mais força. — Então, você o conhece? — Ainda sorrindo, ele assente. — Sim, eu o conheço. Na verdade, todos aqui o conhecem. O senhor Andrew é um frequentador muito assíduo do hotel. — Desgraçado! Ainda por cima é um cretino! — Sim, eu sei — minto ainda com um sorriso forçado. — Na verdade, ontem fizemos algo diferente e eu o contratei! — afirmo tentando parecer séria e seu sorriso se esvai rapidamente. — O senhor poderia me dar um envelope e uma caneta, por favor? — Ainda mudo, ele me entrega o que pedi. O envelope é exatamente igual ao que Andrew havia me deixado, então, escrevo uma nota parecida com a que ele deixou pra mim, fora do envelope para que todos pudessem ver, só que ao contrário. "Querido, Não acertamos os valores! Espero que você não se ofenda, mas tomei a liberdade de deixar o valor de (dois mil dólares) referente aos SEUS serviços prestados. Espero que esteja bom pra você. Apesar de não ter sido algo que tenha valido a pena, você se esforçou. Grata” Depois de entregar o envelope com a promessa de que o mesmo chegaria em mãos para um senhor não mais sorridente, deixo o hotel e pego o primeiro táxi que me leva em direção ao meu novo lar. É, Júlia ótima maneira de começar sua nova vida em Nova Iorque. CAPÍTULO 4


Andrew Almoço de negócios sempre é um momento muito chato e enfadonho. Discutir assuntos relacionados a contratos, vendas e afins... mais ainda. Depois da noite com a tal garota de programa, eu voltei para casa e não consegui pregar os olhos. Estou acordado até agora e devido aos compromissos, desliguei o meu celular. Não sei o que houve, mas por algum motivo, senti algo estranho quando deixei aquela bela mulher na minha suíte. Senti algo parecido com remorso. Não sei ao certo o que era, mas o fato é que pensei sobre essa noite o tempo inteiro. Certo incômodo preenchia a minha mente e até agora não entendo porquê. Talvez seja porque ela é de longe, a mulher mais delicada, gostosa, cheirosa e linda que eu já vi em toda a minha vida. Meus encontros geralmente são com mulheres incrivelmente lindas, mas ela conseguiu despertar algo que a difere das outras. Ainda não voltei ao meu hotel, onde a deixei e espero que ela tenha ficado satisfeita com a quantia que eu havia deixado. Sei que fui completamente antiético, grosso, mas eu não conseguia enxergá-la como uma prostituta. Sei que ela sentiu prazer como se não tivesse tido outro homem. É um exagero pensar nisso, mas o fato, é que ela parecia realmente possuída em meus braços. Envolvida com os seus desejos e nada "profissional". Eu sempre soube lidar com qualquer mulher, mas com ela, eu simplesmente não consegui. Meu dia foi totalmente tomado por compromissos e só agora pude chegar ao meu hotel. Preciso verificar alguns documentos pendentes e organizar à minha agenda com a minha secretária. Estaciono meu carro na porta e rapidamente desço, entregando a chave para o manobrista. Não faço contato visual e sigo direto para os elevadores. Porém, no meio do caminho sou parado por um funcionário que parece ofegante como se tivesse saído de uma maratona. — Senhor? — Franzo o cenho não entendendo tal reação. — Diga! — Encaro o recepcionista impacientemente. — É, que uma mulher deixou um envelope para o senhor. — Minhas sobrancelhas se erguem e logo se unem sem entender o motivo dele estar constrangido em me dizer isso. — Minhas correspondências são entregues no meu escritório. Quem o deixou? Você a viu? — Ele nega com a cabeça. — Outro recepcionista a viu, senhor. Ela estava na sua suíte, senhor. Ela pediu urgência e que o entregasse em mãos, já que há dinheiro envolvido. — Agora, eu não estou entendendo mais nada. Minhas sobrancelhas se unem novamente e eu rapidamente faço o meu caminho até a recepção onde o envelope se encontra. Estou impaciente enquanto o rapaz vasculha algumas gavetas de correspondência e finalmente retira o envelope. Ele está perdido já


que eu não costumo pegar correspondências aqui e sim, todas são encaminhadas ao meu escritório, exceto, essa correspondência com caráter de urgência na qual eu não faço a menor ideia do que seja. Ainda constrangido, ele me entrega. Seguro o envelope com as duas mãos e percebo que a mensagem está escrita com letras grandes estampando a parte de fora do envelope. Quando começo a ler, meu cérebro não consegue acreditar no que lê: "Querido, Não acertamos os valores! Espero que você não se ofenda, mas tomei a liberdade de deixar o valor de (dois mil dólares) referente aos SEUS serviços prestados. Espero que esteja bom pra você. Apesar de não ter sido algo que tenha valido a pena, você se esforçou. Grata” Pisco freneticamente. O termo estupefato não descreve o que sinto neste momento. A mulher que me proporcionou uma noite de sexo extraordinário me devolve o dinheiro e tem a audácia de me dizer que não valeu a pena? Então, ela se ofendeu? Se ela se ofendeu, só tenho uma constatação a fazer: ela não é uma garota de programa. Estou parado feito uma estátua com os meus olhos vidrados ainda sobre o envelope com a logo do meu hotel. — Mas que diabos! — praguejo, e o recepcionista parece sem reação agora ao me ver dessa maneira. Levanto a cabeça e, quando meus olhos passeiam pelo grande saguão, percebo que alguns funcionários me observam de longe. Claro, essa maldita fez de propósito apenas para me constranger. Obviamente, eles devem estar pensando que o meu maior hobby é me prostituir nas horas vagas. Agora, para todos, eu provavelmente seja: "o rico excêntrico”. Assim que meus olhos param em alguns deles, eles se viram como se não estivessem tentando testemunhar à minha vergonha. Solto um ar pesadamente e sem dizer nada ao recepcionista desapareço dali o mais depressa possível. Então, os meus pensamentos sobre ela de não parecer uma garota de programa, não eram infundados. Isso é uma mensagem de alguém que teve seu ego ferido. Imediatamente, pego meu aparelho celular e ligo para o Josh que precisa me explicar o que diabos está acontecendo. Ele atende no primeiro toque. — Ai senhor, que bom que ligou! Peço mil desculpas pelo ocorrido! Não sei onde ela foi parar! — Ela quem? — pergunto já imaginando o que vem pela frente. — A garota de programa. Ela não apareceu no horário e eu sinto muito senhor — ele diz com a sua voz fina, um pouco alta e quando ele fala dessa maneira, é resultado de muito nervosismo. — Josh, você está me dizendo que ela não apareceu?


— O senhor está bem? — Ele parece perdido agora. Não preciso perguntar, já que tudo agora parece se encaixar. Sim, eu peguei a mulher errada e, obviamente ela se ofendeu. Que grande confusão! *** Júlia. Esse é o seu nome. Apesar dela não ter assinado no envelope, lembrome perfeitamente quando ela me disse. Não posso negar que essa mulher me surpreendeu. Qualquer outra em seu lugar, dificilmente pensaria tão rápido como ela. A maldita me desmoralizou diante dos meus funcionários que devem estar contando uns para os outros o quão estranho é o seu patrão. Ela me fez sentir um merda depois de me desmoralizar daquela forma. Como ela pôde dizer que não valeu a pena? Como ela foi capaz de dizer isso? Além de um fracassado sexual, sou um homem milionário que faz programa por dinheiro. Isso é no mínimo contraditório. *** Balanço em minha cadeira confortável e o meu corpo está inclinado para trás. Afrouxo a minha gravada e respiro pesadamente. Meu cérebro agora decidiu relembrar a última noite com a aquela atrevida e esperta. Como ela pode ser capaz de me afrontar daquela forma? Esfrego meu rosto furiosamente. — Preciso parar de pensar nessa louca que nem mesmo sei como ela foi parar no meu clube. Isso já passou de todos os limites possíveis — digo exasperado. Essa mulher entrou no meu cérebro sem pedir licença e a única coisa que quero é que ela saia daqui, imediatamente. Solto um ar pesado. Preciso fazer alguma coisa. Isso! Vou ligar para Corinne. Ela sabe muito bem separar as coisas, e provavelmente deve estar em Nova Iorque. Ela vai me dar o que preciso! Procuro seu número na agenda e quando o encontro, disco instintivamente. Ela atende ao primeiro toque: — Andrew? É você me ligando? A que devo a honra de sua ligação? — Sua voz não é algo agradável de ouvir, mas ela é sem dúvida uma boa distração. — Corinne. Preciso de alguns favores sexuais! — digo, indo direto ao assunto. Ouço-a suspirar. — Você sabe que sempre estarei disponível para você, não sabe meu querido? Sem compromisso, como você gosta! — Exatamente! — respondo de forma concisa. — Quando? — Vá ao meu apartamento daqui à uma hora. Vou mandar o endereço por mensagem. — Humm... Vou conhecer finalmente o seu apartamento? — Não respondo


e ela não insiste na pergunta idiota. — Certo. Estarei lá em uma hora. — Encerro a ligação e me ergo da cadeira pronto para partir. Não sei se isso irá resolver, mas certamente irá ajudar a colocar o meu cérebro no lugar. *** Júlia Depois do último episódio, decidi ficar em casa durante dois dias seguidos. Precisava descansar e principalmente, precisava desesperadamente esquecer aquela noite tórrida. Infelizmente não está sendo um trabalho fácil. Penso naquele idiota, sobre o que fizemos, e o que poderia ter sido evitado. Penso na sua audácia de me confundir com uma garota de programa e refletindo sobre tudo que me aconteceu em apenas alguns dias nessa cidade. Preciso espairecer, distrair e então, decido pegar à minha máquina fotográfica e sair para fotografar. Sim, isso é a única coisa capaz de manter a minha mente ocupada. Sou uma excelente fotógrafa e apesar de não ter seguido a carreira; participei de vários concursos que me levaram a prêmios expressivos na minha cidade. Visto uma roupa confortável e termino de arrumar os meus equipamentos. Sigo pelo corredor e daqui, já posso ouvir a voz animada da Jessica. Minha amiga é demais, ela tentou nesses dois dias me animar de todas as maneiras possíveis pelo o que me aconteceu. Obviamente eu contei tudo a ela que, se sentiu extremamente culpada por ter me dado força em sair com o tal Andrew. Aproximo-me dela que, "para variar" está ao telefone. — Sim, pai. Eu fui ao "Standard" com a Júlia. Nunca iria imaginar isso, pai. Certo, tentarei fazer o que me pediu. Também te amo! — Ela encerra a ligação e me encara com uma expressão de surpresa. — Acredita que o clube que fomos é do filho do sócio do papai e eu nem sabia? — Inclino a cabeça com um gesto igualmente surpreso e ela continua. — Ele é de Los Angeles e jamais imaginei que estaria por aqui. Na verdade, eu nem me lembro dele. A sua família é de Menphis, mas que eu saiba, mora em Los Angeles há alguns anos. — Nossa, que coincidência! — digo. E ela continua: — Segundo meu pai, ele comprou o clube há mais ou menos um mês, e só veio algumas vezes depois que fechou o negócio. Além do mais, não sou amiga dele. Já o vi em um ou dois eventos da empresa, mas sempre estava acompanhado com alguma mulher. Acho-o arrogante e nunca trocamos mais que duas palavras — ela diz, me fazendo lembrar o arrogante que conheci e que quero desesperadamente esquecer.


— Sabe, meu pai sempre disse que ele é muito ligado ao pai dele. Porém, nunca soubemos o que aconteceu com a sua mãe. Eles nunca tocam no assunto — ela diz enquanto me sento. — Problemas de família! — digo, e ela acena positivamente. — Provavelmente algo muito sério. Enfim, papai quer que façamos as honras. Quer que eu o convide para um jantar ou algo do tipo — com o cenho franzido encaro-a nos olhos, já que Jessica parece maquiavélica agora. — Mas, como vamos convidá-lo?! Sabe o seu nome? — Ela faz uma careta. — Esqueci o seu nome! — Ergo às sobrancelhas e dou um olhar de reprovação. — É um pedido do papai. Quer fazer média com o filho do sócio! — Respiro profundamente. — Por mim, tudo bem! — Lanço um sorriso de cumplicidade e ela me devolve outro. — Bom, eu não queria te falar, mas ele é um gato. Não, ele é maravilhoso! — ela me informa e eu já sei aonde ela quer chegar. — Pode parar. Já sei exatamente o que você está querendo fazer — digo, apontando o dedo indicador em sua direção. Ela abre um sorriso do tamanho do mundo e com esse brilho nos olhos, posso afirmar que Jessica teve mais uma de suas ideias mirabolantes. — Tive uma ideia! Amanhã você vai até a cobertura dele e o convida para um jantar aqui — ela diz enquanto se ergue e me puxa, para que eu também fique de pé. — Não, não e não... De jeito nenhum. Nem conheço o cara. Já você, ao menos trocou duas palavras com ele. — É, mas ele pode achar que quero algo com ele. Já você, ele pode achar exatamente isso. Você é solteira, livre e desimpedida. — Ela me olha com um sorriso torto e exala um suspiro profundo. — Júlia, eu não te disse antes, mas eu estou completamente apaixonada pelo Alan. — Sei, aquele homem que você estava se atracando no Clube? — Ela faz que sim lentamente com a cabeça. — O importante é que você encontrou um cara legal. Espero conhecê-lo em breve e direito! — digo, com um tom de advertência. Ela ri, segurando o meu rosto com ambas as mãos. — Só me diz que vai até a cobertura do nosso vizinho sexy? Diz que sim, diz que sim! — Ela me encara com expectativa e com as mãos unidas como se estivesse implorando. Solto um suspiro resignado. — Ok, eu vou. — Um sorriso se desenha em seu belo rosto.


Depois disso, pego minhas coisas e saio para fotografar. *** No dia seguinte, decido sair para imprimir e emoldurar algumas fotografias que tirei no Central Park. Jessica acabou indo comigo e se transformou em minha modelo. Tirei fotos incríveis dela em várias situações. Alguns minutos de espera e lá estão elas, lindas e emolduradas fotos. — São lindas, você quem as tirou? — Me viro ao som de uma voz masculina. O homem alto e de cabelos castanhos claros está observando minhas fotografias sobre o balcão enquanto efetuo o pagamento. — Sim, eu as fotografei! — Informo-o orgulhosa. — Você tem um dom, sabia? — ele diz com sinceridade. — Eu amo fotografar! — Eu também amo. Também sou fotógrafo e sou sócio de agência de propaganda, próxima daqui — ele diz com seus olhos fixados sobre minhas fotografias e agora bastante pensativo. — Você não estaria à procura de um emprego? — ele pergunta me pegando completamente de surpresa. — Como disse? — pergunto estupefata. Será que ouvi direito? — Estou precisando de um assistente para ontem. Não pagamos muito, mas é uma ótima experiência para quem ama fotografar — ele diz animadamente. — Sério? Eu adoraria!— respondo sem pensar. — Certo. Tome esse cartão e amanhã pela manhã você poderá ir nesse endereço e falar com a minha sócia. Você já está contratada, mas ela irá cuidar das suas documentações — ele afirma, e eu ainda surpresa, não consigo conter um sorriso de felicidade. Despedimo-nos e eu corro para casa louca para contar para Jessica sobre o meu primeiro emprego na América. Nosso encontro foi tão rápido que, a única coisa que fizemos foi nos apresentar. Ele se chama Adam e a sua simpatia me deixou extremamente confiante. *** Depois de contar à minha amiga sobre o meu novo emprego de assistente, corro para o chuveiro e tomo um banho demorado. Afinal, andei o dia todo e preciso de uma água quente e revigorante sobre minhas costas. Saio do banheiro, me enfio em um vestido leve e uma rasteirinha confortável. Meus cabelos estão molhados e eu finalmente me sinto melhor para ir até a cobertura — onde o vizinho gostoso — e filho do sócio do pai da Jessica, está. Já passa das oito da noite e acredito que a essa hora, ele esteja em casa. — Vê se não janta por lá, ok? — minha amiga diz em tom de brincadeira. Faço uma careta e saio pela porta. O elevador para no último andar e por algum motivo, me sinto um pouco


nervosa. Parece que estou dando em cima descaradamente de um homem que jamais vi. Respiro profundamente tentando controlar o meu nervosismo. Sim, ele vai pensar que eu estou dando em cima dele, com certeza! Droga! Posiciono-me em frente à porta e com muita relutância, pressiono a campainha. Espero alguns minutos e ninguém responde. Confesso que me sinto aliviada apesar de curiosa. Quando estou prestes a me virar, ouço o barulho do trinco e então eu volto à minha atenção na porta se abrindo. À medida que a porta se abre vejo um braço forte, ombros largos e um rosto que jamais imaginei rever na minha vida. Nesse momento, eu quero me enfiar em um maldito buraco. Não pode ser possível que, novamente estou de frente com a última pessoa que desejei ver. Imediatamente, uma avalanche de lembranças daquela noite, me vem à mente e meu rosto se transforma, dando lugar a uma raiva que nem eu mesma sabia que sentia por ele. Seu rosto agora é indecifrável. Ele também está extremamente surpreso em me ver aqui, na porta do seu apartamento. — Você? — falamos em uníssono. Bem diante dos meus olhos está o homem que me levou do céu ao inferno em apenas uma noite... Andrew. CAPÍTULO 5


Andrew Sorte com mulheres é algo que eu não tenho tido ultimamente. Minha noite com a Corinne foi, sem dúvida alguma, um verdadeiro desastre, e para piorar, ela resolveu aparecer vestida de coelho ou algo parecido. Corinne estava em um sobretudo e assim que colocou os seus pés na entrada do meu apartamento, ela não perdeu tempo em tirá-lo. Aquela cena parecia surreal e eu só queria mandála embora daqui, imediatamente. Seu perfume, por alguma razão, parecia ainda mais enjoativo do que o normal. Ela parecia errada naquele momento e talvez, se minha cabeça estivesse no lugar, eu não ligaria para esses detalhes idiotas e transaria com ela do mesmo jeito. Entretanto, não consegui aceitar aquela situação e eu cometi um grande erro impulsionado pelo desespero em que meu cérebro errático me levou. O fato é que, vez ou outra, meus pensamentos me levam àquela mulher que eu levei para o meu hotel e que, obviamente, não é uma prostituta como havia pensado erroneamente. Penso na sua audácia em deixar aquele bilhete como se eu fosse o seu garoto de programa. Quem ela pensa que é? Quem ela realmente é? É o que a minha mente se pergunta. Só gostaria de saber o motivo de eu estar tão preocupado como isso. Eu não ligo para as pessoas, não ligo para nada! O que há de errado comigo, afinal? Fecho a porta do meu enorme apartamento, retiro meu terno e jogo-o no sofá juntamente com a minha pasta de trabalho. Atravesso a minha sala espaçosa sobre o piso de mármore branco seguindo para o bar que fica de frente à janela de vidro que me garante uma bela visão dos arranha-céus do Upper East Side. Sirvo-me de uísque sem gelo e afrouxo a minha gravata. O ar agora parece sair com mais facilidade das minhas vias aéreas e eu me permito um pouco de silêncio. As luzes cintilam lá fora e meu olhar fixado em nenhum ponto específico, na verdade, não estão prestando a atenção ao belo cenário. Não hoje. Tomo o uísque que desce queimando à minha garganta, me dando uma sensação bem-vinda. Estou absorto em meus pensamentos quando, inesperadamente, a campainha toca me fazendo unir as sobrancelhas. Quem poderia ser a essa hora? Seja lá quem for, eu não irei abrir. Não recebo visitas inesperadas que não seja o meu pai. Detesto ser incomodado na minha casa e se for quem estou pensando, vou jogá-la pela janela. Sim, estou pensando na Corinne. Ela demonstrou ser louca o suficiente para que eu me afaste. Meus olhos agora estão curiosos fixados sobre a grande porta de madeira maciça. Deixo meu copo sobre o bar e, por impulso, ando vagarosamente até lá,


e espio através do olho mágico. Do outro lado, vejo que é uma mulher loira e que me lembra muito alguém... — abro ligeiramente a boca e meus olhos estão totalmente surpresos com a visão. — Será? Não pode ser — sussurro. Abro a porta lentamente e quando meus olhos encontram os verdes profundos da mulher bem diante de mim, fico completamente em choque. É ela! Como veio parar aqui? Como me encontrou? Ela também parece em choque como se não soubesse o que veio fazer aqui. — Você? — perguntamos em uníssono. — O que você está fazendo aqui? — Minha voz falha, como se vê-la, no meu apartamento não fosse real. Ela está nitidamente com raiva agora, e eu já consigo imaginar o motivo. Aquele bilhete ainda está fixado em minha memória. — O que você está fazendo aqui? — ela pergunta com uma voz alterada dando-me a certeza de que eu a confundi totalmente, mas então por que diabos ela está aqui? Será que não satisfeita com o bilhete vergonhoso, decidiu brigar pessoalmente? Não sei o que pensar e o que de fato essa mulher queira comigo. Será uma perseguidora? Mais uma para me infernizar? — Acho que foi você quem tocou a campainha do meu maldito apartamento — informo calmamente e ela, parece sem graça agora. Sua expressão é de total confusão, como se ela não soubesse o que fazer ou, talvez ela não saiba mesmo. — Quem te deu meu endereço? Se quiser falar sobre o dinheiro ou sobre o quão ruim eu tenha sido, você perdeu o seu tempo, não recebo ninguém em meu apartamento. — Sua expressão está séria e, lentamente, ela se aproxima de mim. Seu rosto agora está indecifrável e abruptamente, sinto seus cinco dedos batendo com toda a força sobre minha face esquerda. O estralo foi grande e, quando volto a minha atenção a ela fico sem reação como jamais fiquei em toda a minha vida. Definitivamente, isso não está acontecendo! — IDIOTA! Eu não sabia que você morava aqui neste apartamento. Vim convidar o filho do sócio do pai da minha amiga Jessica, para um jantar na droga do apartamento dela que fica no quarto andar deste mesmo prédio, que por sinal, eu moro! — Ela respira profundamente. — Porém, infelizmente a pessoa só pode ser você. Junto as sobrancelhas com a mão esquerda segurando meu rosto e tentando entender de quem ela está falando. Ela disse Jessica? De repente lembro-me da única pessoa que também tem um apartamento neste mesmo prédio e que é brasileiro. Droga! O sócio do meu pai. Encaro-a e, abruptamente, seguro seus braços puxando-a, para dentro do meu apartamento. Ela amplia seus olhos e tenta se desvencilhar, mas eu obviamente sou mais forte que ela e não a solto.


— Você é amiga da Jessica Albuquerque? — pergunto e ela balança a cabeça em positivo. — Que bom que você finalmente entendeu que eu não vim atrás de você. Aliás, você seria a última pessoa na face da Terra que eu desejaria contato. — Suas palavras me deixam paralisado como se isso tivesse me afetado de alguma maneira. Geralmente não me preocupo com o que as mulheres pensam ou dizem. Entretanto, é como se eu encontrasse a única mulher do planeta que não estivesse tentando me seduzir. Ela se afasta ainda mais, me encarando como se eu fosse um verme. Essa mulher, definitivamente me odeia. Fecho os olhos e esfrego meu rosto furiosamente passando as mãos em seguida sobre o meu cabelo. Fixo Meus olhos nos dela. — Espere aí. —Vou até a minha pasta, abro-a e retiro o envelope que ela havia me deixado no meu hotel. Em seguida, volto e me posiciono em sua frente. — Sei que você deve estar me achando um monstro, mas eu não sou advinha. Houve um grande mal entendido e, sinta-se vingada, já que a essa altura os meus funcionários acham que eu sou um "maldito garoto de programa” — informo e ela pisca seus enormes cílios com surpresa. Tenho a sensação de que seu semblante se suavizou e acredito ter visto um fantasma de um sorriso. Ela gostou da notícia! Maldita! — Eu só quero saber de uma coisa. — Ela parece mais calma agora e suas mãos, passam sobre o seu grande cabelo um pouco molhado. Claro que ela mora aqui, ela acabou de sair de um banho, já que seu cheiro de lavanda parece tomar conta do ambiente. — Por que você estava usando aquele cartão preto na minha boate? — Ela ergue suas sobrancelhas. — Parece que você estava mesmo me vigiando! — Ela respira profundamente. — Jessica é amiga do Josh, o promoter. Isso responde a sua pergunta? — Fecho os olhos e me soco internamente por ter confundido tudo naquela noite. O mais louco é que passamos horas juntos e nem cogitamos falar nada sobre esse assunto. — Sopro o ar pesadamente. — Merda! Eu... — Fixo meus olhos nos ainda gelados olhos verdes da bela mulher à minha frente. — Sinto muito pelo equívoco. Eu a confundi com uma... — Garota de programa? Não me diga! — Ela solta uma risada sarcástica. — Deu para entender muito bem naquele envelope. Aliás, o envelope que te mandei foi apenas para que você se sinta um pouco no meu lugar. — Engulo em seco e pela primeira vez na minha vida, sinto-me um idiota. Aproximo-me dela, mas instintivamente ela se afasta. — Suas características físicas são exatamente como eu havia pedido ao Josh. Ele estava encarregado em me trazer uma... — Ela ergue às sobrancelhas. De repente me vem uma constatação. Júlia queria transar comigo apenas porque


gostou de mim e não por dinheiro ou pelo homem que sou. Ela não me conhecia e logicamente não me conhece ainda. — Eu realmente sinto muito, Júlia — digo seu nome e ela parece surpresa. Ficamos em silêncio por alguns segundos apenas nos encarando. Sua expressão parece se suavizar um pouco e eu não posso deixar de notar o quão linda ela é. Pela primeira vez na vida, sinto apenas vontade de beijá-la. — Tudo bem. Desculpas aceitas! Ainda bem que foi um mal-entendido! — ela diz e imediatamente se afasta, mas, eu não quero que ela vá. — Eu vou indo! — Meu corpo não se move do lugar e meus olhos apenas a observam. Não vá! É o que eu quero pedir, mas eu não verbalizo o meu pensamento. Ela olha de um lado para o outro parecendo sem graça agora e, rapidamente sai pela porta desaparecendo pelo corredor. Estou ainda de pé, como uma estátua não acreditando no que acabou de me acontecer. *** Júlia Muitos não acreditam em coincidências, já eu, acredito em falta de sorte. Quando eu acho que minha vida vai seguir em frente, "as coincidências" tratam de trazer aquele homem não só no meu caminho, mas no mesmo prédio em que vivo. Deus, o que irei fazer com este homem tão próximo? Assim que chego ao apartamento, conto tudo para Jessica que parece completamente sem fala. Afinal, quem passa por situações tão constrangedoras com o mesmo homem? Será que o destino está querendo me punir? — Meu Deus! Ele é o cara arrogante da boate? Como pode? Estou perplexa até agora! — Jessica diz com um olhar perdido. — Exatamente. — Ela me encara nos olhos. — Então, o hotel que você foi só pode ser o do pai — Respiro profundamente. — Ao menos ele recebeu a carta com sucesso! — Ela sorri. — Ele deve ter pirado com aquela carta! — Nos encaramos por alguns segundos e, do nada, caímos na gargalhada. — Esse idiota mereceu! — ela diz e eu me levanto. Limpo as lágrimas dos meus olhos de tanto rir. — Okay, chega de rir desse idiota. Eu vou dormir, pois amanhã cedo terei que ir ao escritório acertar o meu novo emprego. — Certo. Espero que tudo dê certo para você amanhã! — Curvo meus lábios em um leve sorriso. — Espero que sim! Boa noite, minha amiga! — Boa noite, Ju e boa sorte! — Nos abraçamos e em seguida faço o meu


caminho em direção ao meu quarto. Preciso de uma ducha fria ou o meu cérebro entrará em colapso devido aos últimos acontecimentos. *** No dia seguinte já estou no local indicado no cartão que Adam me deu. Confesso que estou muito ansiosa para começar a trabalhar logo. Mesmo trabalhando como assistente, isso será algo que me deixará muito feliz. A recepcionista reaparece depois de ter ido para a sala que eu presumo ser da sócia e me lança um sorriso forçado. — A senhorita Valentini já está te esperando! — Concordo com a cabeça e sigo em direção ao corredor que vai direto à sua sala. Assim que entro, a tal Valentini está sentada à sua mesa em formato de um C transparente. A decoração do lugar é repleta de fotos dela própria por todos os lados, até mesmo no teto. Oi, ego? Achei que iria encontrar uma mulher mais velha, mas sou surpreendida com uma mulher linda; talvez uns cinco anos mais velha do que eu. Seus cabelos muito pretos e longos emolduram um belo rosto bem cuidado e pele perfeita. Ela apenas exagera na maquiagem o que a deixou com uma aparência falsa. A mulher me analisa de cima a baixo descaradamente com uma de suas perfeitas sobrancelhas levantada. — Preciso que você leia este contrato o mais rápido possível e assine — ela diz sem nem ao menos me cumprimentar. Oi pra você também, sua mal humorada! — Claro! — digo, com uma fingida simpatia. Leio o mais rápido que posso enquanto a mulher não tira os seus olhos analíticos sobre mim. — Sabe de uma coisa? Não entendo por qual motivo Adam insistiu que queria você. —Ela deu ênfase na palavra "você" quando seus olhos vagavam o meu corpo. — Mas se é o que ele quer, que seja! — ela conclui em um tom de voz depreciativo. Assino o que devo assinar e entrego tudo que ela precisa. — Ótimo, você começa amanhã. — Lanço um olhar interrogativo. — Assim, tão rápido? — pergunto incrédula. Ela ergue as sobrancelhas. — Acredito que se está aqui, é porque precisa de um emprego, não é queridinha? — Respiro profundamente para não arrancar os seus olhos. — Sim, claro! — respondo com um sorriso forçado. — Não se preocupe com nada, apenas trabalhe. Sou uma mulher muito ocupada. Além do mais, precisarei de você apenas três vezes a cada semana. — Ela sorri com falsa simpatia. — Vi que está com permissão de trabalho e isso é excelente para uma brasileira. — A palavra brasileira, saiu de sua boca de uma


maneira debochada. — E o que eu farei exatamente? — Arrisco uma pergunta e como era de se esperar, ela me lança um olhar impaciente. — Você será uma assistente, então terá que agir com tal, ou seja, dar assistência. — Ela se ergue. — Entendeu, ou quer que desenhe? — a louca questiona com um sorriso sarcástico e minha vontade agora é de mandá-la para o inferno. Ignoro o que ela disse e tento ser educada. Estendo minha mão e ela finge que não viu. Valentini pega o seu celular que estava sobre a mesa e finalmente me encara. — Ok queridinha, não tenho mais tempo para você. Pode ir, e esteja aqui amanhã às sete horas — ela se vira, mas volta bruscamente sua atenção para mim. — Ah! Não se atrase. Esteja aqui antes do Adam. — Dito isso, deixo a sua sala com uma raiva descomunal e sigo direto para o meu apartamento. CAPÍTULO 6 Júlia Meu primeiro dia no trabalho, não poderia ter sido melhor. Pensei que teria dificuldades, mas na verdade, eu basicamente ajudei o Adam a montar o estúdio para algumas sessões. Ele teve muita paciência em me ensinar a montar alguns equipamentos complicados e foi muito educado o tempo inteiro. Ainda não tirei nenhuma foto, mas ele me prometeu que quando houver tomadas maiores, eu irei ajudá-lo a fotografar. — Pronto, terminamos! — Adam diz enquanto guarda o último equipamento. — Então te vejo na segunda? — pergunto cautelosamente e ele sorri. — Vejo que está gostando! Com certeza iremos nos ver na segunda, mas... — Ele fixa seus olhos nos meus. — Júlia, você gostaria de tomar uma bebida comigo? — ele pede com uma voz um pouco baixa, me pegando desprevenida. — Adam, eu não sei. Você é meu chefe e não gostaria de misturar o trabalho com ... — Como amigos, eu prometo! — ele interrompe. — Além do mais, o que há de errado tomar uma bebida em uma sexta-feira depois do trabalho com seu colega?! — Não posso negar, ele é persuasivo. Acho que ele tem razão. Adam em nenhum momento foi invasivo ou faltou com o respeito. Pelo contrário, ele demonstrou ser gentil o suficiente para que sejamos apenas amigos. — Tudo bem, acho que não nos fará mal uma bebida, não é mesmo? Afinal, preciso relaxar um pouco — afirmo e ele sorri amplamente.


Decidimos pegar um táxi, já que eu não tenho carro e Adam deixou o seu no estacionamento da agência. Vejo que ele é muito responsável e também esperto, já que estacionamento em Nova Iorque é absurdamente caro. Aliás, Manhattan é um lugar caro, porém há muitos transportes públicos, inclusive metrôs que praticamente tomam conta da parte subterrânea da cidade, além de nos poupar tempo. Se há um lugar onde não precisamos utilizar carros, esse lugar é sem dúvida, Nova Iorque. *** Queríamos ir a um lugar calmo, para que pudéssemos conversar sem maiores problemas, então, Adam sugeriu irmos ao Bryant Park Café que fica dentro do Bryant Park. Um lugar arborizado entre a quinta e sexta avenida. Bryant Park é lindo e por isso, eu amo esse lugar; cheio de contrastes entre a natureza e os arranha-céus. A noite de outono está fria e o lugar é aberto com aquecedores espalhados por todos os lados. O que mais me chamou a atenção no ambiente foram as lâmpadas penduradas em cordas finas em meio as árvores, que deixou o lugar simples e ao mesmo tempo aconchegante. Resolvemos nos sentar nas cadeiras altas do balcão que parece menos formal, já que não se trata de um encontro romântico. — Decidiu o que vai querer? — Adam questiona ainda com os olhos presos no menu de bebidas. A música que toca ao fundo é Girls on Fire / Alicia Keys. — Esse frio pede um vinho, que tal? — digo e Adam parece satisfeito. — Eu vou te acompanhar. As horas seguintes foram de muita conversa agradável. Adam me contou sobre sua vida em Menphis onde nasceu e como veio parar em Nova Iorque trabalhar como modelo. Ele e Freda Valentini — a insuportável sócia — se conheceram e montaram uma agência de publicidade com a ajuda dos pais da Freda e desde então, ficou por aqui. — Não sei como aguenta aquela mulher — acabo dizendo e ele ergue as sobrancelhas com um sorriso. — Desculpe falar assim da sua sócia, mas ela é intragável! — digo sem nem um resquício de arrependimento e, surpreendentemente ele parece se divertir com o meu comentário. — Freda sempre foi mimada, e na época, eu precisava dela para abrir a agência. Por isso a aguento! — ele confessa e em seguida bebe um pouco do seu vinho tinto. — Éramos para estar muito maior no mercado, mas Freda colecionou inimigos até a próxima geração. Poucos gostam dela — ele diz, mas isso não é novidade. Não consigo imaginar alguém que goste realmente dela. — Percebi — afirmo com as sobrancelhas arqueadas.


— Eu imagino que a Freda não tenha sido agradável com você, mas não se preocupe, Júlia. Ela quase não aparece naquela agência. Ufa, menos mal. Aguentar aquela mulher todos os dias em que eu estiver trabalhando, seria uma missão praticamente impossível. — Tudo bem, Adam — digo e encerrarmos finalmente esse assunto. A noite ao lado do Adam estava tão agradável que nem mesmo percebi que já passava das nove. Ele é engraçado e muito cavalheiro. Saímos do Bryant e minutos depois, já estava dando sinal a um táxi que passa na esquina com a quinta avenida. — Tem certeza de que não quer que eu te acompanhe? — ele insiste pela sétima vez me fazendo sorrir com a sua gentileza. — Realmente, não precisa. Moro a poucos quarteirões daqui — afirmo. Ele suspira resignado e fixa seus olhos castanhos nos meus. — Obrigado pela noite e pela companhia agradável. — Adam diz e nos despedimos com um abraço sem jeito. De repente, Adam me surpreende com um beijo no rosto e eu encaro-o com surpresa! — Eu também. Até segunda, Adam! — digo e rapidamente entro no táxi amarelo. Olho pela janela e, vejo que Adam me observa pensativo. O táxi acelera e em poucos minutos me deixa na porta do meu edifício. Assim que entro no hall de entrada, percebo que a porta do elevador está aberta. Corro para alcançá-la antes que feche, mas quando entro, dou um sobressalto ao ver Andrew encostado no fundo, incrivelmente desalinhado. Seus olhos estão fixos sobre mim e o meu coração bate em um ritmo acelerado devido ao susto e a sua presença, claro! — Andrew? — sussurro e ele não diz nada, apenas continua com o seu olhar fixo sobre os meu. Viro-me de costas e tento ignorar o belo homem que está tão próximo a mim. Pressiono o botão com o número do meu andar sem olhá-lo novamente. — Não queria te assustar! — ele finalmente diz, mas eu não respondo. A porta se fecha e, por mais que eu não o queira, não consigo negar a tensão sexual que há entre nós neste exato momento. Sinto sua respiração a poucos centímetros de mim e meus pensamentos voam para a noite em que ficamos juntos naquele hotel e que, infelizmente resultou em algo que eu jamais imaginaria. Droga! Os segundos presa aqui, com o Andrew, parecem uma eternidade. Mal consigo respirar apenas por sentir a sua presença bem atrás de mim. Deus, como este homem me afeta! O elevador finalmente para e quando a porta finalmente se abre, sinto mãos fortes segurando levemente o meu braço. Respiro com dificuldade apenas


sentindo seu toque. — O que está fazendo? — pergunto ao me virar, mas noto que ele parece sem reação agora. Andrew abre a boca ligeiramente, mas logo em seguida fechaa, dando-me a impressão de que ele iria dizer algo. Ele solta o meu braço e se afasta desviando o seu olhar do meu. A porta começa a se fechar e, rapidamente, Andrew pressiona o botão para abri-la novamente. — Espero que supere aquele dia! — É a única coisa que sai de sua boca. Encaro-o sem entender sua reação e saio. Instintivamente me viro encontrando lindos olhos azuis tristes me observando intensamente. Aos poucos, as portas de aço se fecham e por algum motivo, não desviamos nossos olhares até Andrew desaparecer da minha visão. ***


Andrew O que eu estava prestes a fazer? — me pergunto mentalmente. Não sei se há explicação para o que eu sinto quando estou próximo a essa mulher. Uma atração diferente, algo que foge do racional. Eu quase a chamei para ir ao meu apartamento. Tudo bem que, eu a havia visto descer do táxi e segurei o elevador de propósito, apenas para vê-la novamente. Agi por impulso, algo incomum em minha vida. Sou um homem decidido e completamente racional. No entanto, quase cometi o erro de chamá-la. É como se o meu cérebro não estivesse de acordo com o meu corpo. Respiro profundamente e fecho os olhos. Definitivamente preciso estar no controle do meu corpo e mente. Preciso ser aquele Andrew de duas semanas atrás. Entro no meu apartamento e como um ritual, jogo minha pasta e terno sobre o meu sofá. Sirvo-me de uísque e ao invés de apreciar a vista de pé, me espalho sobre o grande sofá. Confesso que, não seria nada ruim se ela viesse até o meu apartamento, mas algo me diz que isso me trará um grande problema e eu não quero pagar para ver. Seu olhar e seu corpo, respondem a mim de uma maneira diferente. Viro o meu uísque de uma só vez e o líquido desce queimando a minha garganta trazendo-me novamente aquela sensação de bem estar que eu já estou acostumado. Porém, nada que se compare ao que eu realmente desejaria agora. *** Seus olhos cristalinos estão desejando por sexo. Sua boca perfeita implora ser beijada. Júlia está deliciosamente nua de pé, na porta do meu quarto. Encaroa surpreso. Como ela veio parar aqui? — Andrew, eu quero você... agora! — ela sussurra e eu me sento sobre a cama com os olhos vidrados sobre seu belo corpo. Seus seios são incrivelmente perfeitos e eu estou duro, esperando por ela, aqui sobre a minha cama. Ela caminha lentamente em minha direção e, quando ela está prestes a me tocar, um barulho a faz parar. Ela ergue as sobrancelhas e me encara com uma expressão insatisfeita. O barulho não cessa e eu quero ignorá-lo de todo o jeito, mas não dá. Tento me mover, porém é impossível e quando meus olhos encontram a Júlia, ela já está caminhando de volta em direção à porta. Tento me levantar, mas não consigo. Meu corpo não se mexe e o barulho parece ainda mais alto agora. Abro os olhos repentinamente e a única coisa que consigo ver é o teto na cor creme e a decoração masculina do meu quarto. O barulho que toca incessante é o meu aparelho celular que acabou com o meu sonho. Ele está vibrando e tocando ao mesmo tempo sobre o criado e eu quero me socar por não tê-lo desligado ontem a noite. Droga! Estico o meu corpo para pegá-lo e assim que olho para o visor, vejo que é


uma socialite egocêntrica que eu já saí uma ou duas vezes. Decido não atender, mas obviamente envio uma mensagem, dizendo que mais tarde eu retornarei a sua chamada. Talvez ela seja uma distração, já que o inusitado aconteceu, tive um sonho quase erótico com a Júlia. Eu provavelmente devo estar necessitado ou perdi completamente o meu juízo. — Respiro profundamente. Não tem problema, mais tarde irei achá-lo com outra mulher. Levanto-me e decidido ir à academia. Preciso colocar essa energia para fora, antes que eu enlouqueça de vez. *** A academia é uma das melhores de Manhattan e desde que cheguei, tenho vindo muito aqui. Entro e sigo direto para a esteira onde fico por pelo menos uma hora correndo feito louco. No momento em que desço do aparelho sou abordado por uma belíssima loira que, provavelmente, eu já saí algum dia, mas eu não me lembro. Ela não me é estranha. — Andrew? Que bom te ver em Nova Iorque, lembra-se de mim? — Franzo o cenho enquanto seco o meu rosto com uma toalha aromatizada de eucalipto. Junto as sobrancelhas e a encaro para tentar me lembrar ao menos o seu nome, mas é inútil. — Claro, o seu nome é ... — dou a deixa para que ela complete a frase. — Samantha! — ela diz o seu nome, como já havia previsto. — Isso, Samantha! — respondo e ela sorri. — Fiquei esperando você me ligar aquela vez, e nada! — Ergo as sobrancelhas. — Sério? — pergunto com dissimulada surpresa. Ela se aproxima de mim e eu sei exatamente o que ela quer. — Seríssimo — ela sussurra com seus lábios próximos ao meu ouvido. — Você me disse que queria repetir a dose. Ela quer sexo e, eu preciso colocar a minha mente no lugar. Acho que seríamos uma combinação perfeita se os meus olhos não tivessem acabado de ver o que não deveria ou quem não deveria. Neste momento Samantha se torna um vulto, já que meus olhos não saem de cima da única mulher que consegue despertar algo diferente dentro de mim. Não bastou ela entrar sem ser chamada em meu sonho e agora, ela está aqui. O problema é que, Júlia, não está sozinha. Quando meus olhos a encontraram, ela me observava conversar com a loira, mas logo em seguida desviou o seu olhar para dar atenção ao o que parece ser um personal extremamente fortão da academia. Minhas sobrancelhas se unem e meus olhos não querem sair de cima dela. — Andrew? Você está me ouvindo? — Samantha ainda está aqui.


— O que disse? — pergunto, tentando me concentrar na mulher bem diante de mim. Entretanto, meus olhos desviam novamente para encontrar Júlia de quatro, em um aparelho para enrijecer os glúteos. Isso seria algo comum se o personal não estivesse se empenhando para que ela faça corretamente o exercício em um aparelho que até uma criança de cinco anos saberia. O desgraçado está com suas malditas mãos sobre sua bunda e neste momento, meu coração bate em um ritmo acelerado. Ele está aproveitando e a idiota nem percebe! Ela se levanta e ele a ajuda. O filho de uma puta ainda está com as mãos sobre ela. Desgraçado! — Aconteceu algo, Andrew? Sem desviar o olhar sobre a Júlia que agora está de pé, respondo: — Eu não posso conversar agora! — é a única coisa que digo enquanto instintivamente caminho em sua direção. Algo aconteceu, já que ele se abaixa para segurar o seu tornozelo. Ele parece muito empenhado para ajudá-la e por alguma razão, eu quero matá-lo e arrancar os seus olhos. Maldito! Aproximo-me e ambos não notam a minha presença. — Você está bem? — pergunta o personal de merda. — Acho que foi só uma dor. Estou bem! — Suas mãos ainda estão apertando o seu tornozelo. — Claro! — Ela está sorrindo para ele e meu estômago se revira. — Ela não precisa mais da sua ajuda! — interrompo o casal e ele se levanta imediatamente quando me encara. Ele provavelmente sabe quem sou, já que desaparece o mais rápido possível. — Você está bem? — pergunto sinceramente e sua expressão é de total surpresa. — Vamos, eu te levo para casa! — digo e ela se afasta. — Acho que você esqueceu uma loira bem ali! — Ela aponta para a Samantha que nos observa de longe. Ignoro o que ela diz e me aproximo ainda mais dela. — Vamos! — ordeno, mas ela se afasta novamente. — Volte para a loira. Ela parece combinar com você! — ela provoca e sai rapidamente. Vejo que seu tornozelo não está ruim, mas ela manca levemente. Chega dessa merda! Sigo-a e, abruptamente, enrolo meus braços em suas coxas, erguendo seu corpo até o meu ombro direito. Ela se debate, mas eu a ignoro enquanto caminho em direção à saída. Não me preocupo com todos os olhares direcionados a mim e saio caminhando em direção ao meu carro que está estacionado do outro lado da rua. — O que diabos você está fazendo? — ela grita ainda se debatendo sobre mim.


— Você vai ver. — Jogo-a na parte de trás no interior do meu carro e seus cabelos estão revoltos sobre o seu rosto. — O que pensa que está fazendo, seu idiota? Isso é um sequestro, sabia? — ela grita enquanto se recompõe. Não respondo e meus olhos estão fixos sobre seu rosto e desce para o seu delicioso corpo. Entro vagarosamente e ela se encolhe como uma presa prestes a ser devorada. Quando o meu rosto se aproxima, nossas respirações se misturam e em seguida selo meus lábios nos dela surpreendendo-a. Inicialmente, ela hesita, mas logo em seguida, Júlia segura os meus cabelos com força e nosso beijo se aprofunda ainda mais. Sua boca é macia como me lembro, e seu gosto ainda melhor. Pressiono meu corpo sobre o dela como se minha vida dependesse disso. Seguro sua nuca com a mão direita e com a esquerda, puxo a sua cintura em direção a mim. Não sei o que está acontecendo, mas eu preciso senti-la novamente. Preciso dela... agora! CAPÍTULO 7 Júlia Uma pergunta que atormenta a minha mente sempre que estou ao lado deste homem é: por que ele tem o poder de me deixar tão vulnerável? Isso é totalmente descabido! Enquanto esses pensamentos me afligem, nossas línguas dançam furiosamente, como se eu não tivesse controle algum sobre o meu corpo. Meus dedos seguram com força seus cabelos sedosos e Andrew aperta a minha cintura com urgência contra seu corpo forte. Sinto o suor do seu corpo e os gemidos que são emitimos entre os beijos que se aprofundam a cada segundo. Na academia, Andrew agiu feito um homem das cavernas, mas eu não posso negar o quanto isso me deixou excitada ao ponto de esquecer tudo que aconteceu entre nós. Posso sentir o seu desejo por mim agora. Posso sentir em cada poro do seu corpo, uma necessidade crua e totalmente irracional, porém, de repente o pensamento de estar sendo usada por ele, de novo, invade a minha cabeça, e o fato de eu ainda me sentir assim, me faz parar... — NÃO! — grito tão alto que ele se afasta abruptamente com um olhar de total perplexidade sobre mim. — Júlia... eu quero você! — ele diz em um sussurro, mas ofegante. — Sei que você também me quer. — Encaro-o e, nesse momento, tenho sentimentos conflitantes. Eu o quero, mas não o quero. Isso me deixa vulnerável como jamais


fiquei. — Eu... eu não quero você! — minha voz falha e minha respiração também está ofegante. Ele ergue suas sobrancelhas com um sorriso sarcástico impresso no rosto. — Júlia, que tal pararmos com esse joguinho? Encaro-o com total perplexidade. — Eu ouvi direito? Você disse... Joguinho? — Sugo o ar com força a fim de me acalmar e não arranhar a cara desse infeliz. — Andrew, entenda de uma vez por todas que, por mais que eu tenha sido "fácil" para você, eu não cometerei o mesmo erro de virar uma mercadoria em suas mãos. O que aconteceu naquele tórrido dia, foi uma exceção, mesmo que você não acredite, mas foi — afirmo com convicção agora, e sua expressão é impassível. — Entendi. — Ele olha para fora da janela. — Você é do tipo que gosta de receber flores. — Ele volta a me encarar nos olhos intensamente, mas o que vejo ali, não tem nada a ver com desejo. — Você quer um babaca para fazer todas as suas vontades. Para te levar ao cinema, comer pizza, dizer coisas idiotas e melosas — ele sacode a cabeça e, novamente, aquele sorriso sarcástico se mostra em seu belo rosto. — Eu não sou assim. Sou prático, gosto de sexo e é exatamente isso que quero com você. Sei que você pensa que ter um “relacionamento" me deixaria fora do alcance de outras mulheres, mas você está enganada. Homens traem. Não se iluda! — ele me informa, como se eu já não soubesse disso. Andrew consegue ser ainda pior do que pensava e aquele desejo que eu sentia, se esvai rapidamente. Fico tão estupefata com o que acabo de ouvir que, não tenho forças para argumentar. — Me deixa sair — peço em uma voz sussurrada. — Eu estou sendo sincero! — E eu quero sair do seu maldito carro! — dessa vez a minha voz soa em um tom normal e forte. Finalmente, Andrew se afasta e pressiona o botão para destravar as portas. — Você está livre — ele afirma e seu rosto continua impassível. Abro a porta e desço, mas decido me virar para encontrar ainda uma expressão séria enquanto me encara. — Eu sei o que é ser traída. Talvez seja por esse motivo, que eu tenha me entregado a você com tanta facilidade, porém, diferente de você, eu acredito que um dia encontrarei alguém que me mereça, de verdade — dito isso, bato com força a porta do seu valioso carro e me afasto caminhando o mais depressa possível para bem longe dali. Longe desse homem.


*** À tarde, decido ligar para os meus pais e matar um pouco da saudade, mas a primeira notícia que tenho, é que Pedro — meu ex-namorado— está à minha procura. Ele realmente acha que temos alguma coisa a dizer um com o outro? Depois disso, eu e meus pais falamos o tempo suficiente para que eu me acalmasse e deixasse um pouco os problemas de lado. — Também amo vocês! — Encerro a ligação e sigo em direção à janela. Apesar do frio e do cenário melancólico, lá fora, o dia está ensolarado e as folhas em tons amarelados de outono não param de cair. As ruas estão cobertas de folhas secas, o que deixa a vista diferente daquilo que estou acostumada em minha vida habitual no Brasil. Meus olhos não param de admirar a vista quando, inesperadamente, vejo o carro do Andrew estacionando em frente ao nosso prédio. Poderia me afastar, mas a minha vontade de apenas vê-lo é ainda maior. Meu coração dá um salto quando ela sai do carro, mas o que eu não esperava, é ver outra mulher saindo do lado carona logo em seguida. Por alguma razão, meu corpo começa a formigar. Estou no quarto andar, mas posso vê-los muito bem. Ela está usando um chapéu que me impede de ver o seu rosto. A única coisa que consigo ver é seu longo cabelo preto sobre seus ombros. De repente, ela enrola seus braços no pescoço do Andrew e então eles se beijam. Afasto-me imediatamente, não conseguindo ver essa cena. Por que isso me afeta tanto? — Ele é um canalha e ao invés de me sentir mal, deveria esquecer! — digo para mim mesma em voz baixa para que eu entenda de uma vez por todas que ele não é homem para mim. *** Já estamos na sexta e graças ao trabalho, pude ocupar a minha mente. Depois do último episódio com Andrew, eu não o vi mais. Provavelmente deve ter encontrado mais mulheres para satisfazer seus desejos sexuais, já que ele deixou claro o que realmente quer. Confesso que fiquei mal por tê-lo visto com aquela mulher. O fato de ele estar realmente falando sério sobre apenas querer sexo foi uma das verdades mais terríveis que tive que aceitar. Quando Jessica retornou da casa do Alan — seu namorado — contei a ela todos os últimos episódios, principalmente sobre sua atitude de "homem das cavernas" na academia. Ao contrário de mim, ela estava radiante com Alan que provavelmente sabe como tratar uma mulher e não usá-las. Estou imersa em meus pensamentos enquanto passo aspirador sobre o carpete do estúdio fotográfico. Esse não é o meu trabalho, mas ajuda a me


manter ocupada. — Sabe que você combina com esse aspirador? — Freda interrompe meus devaneios com seu habitual sarcasmo. — Aliás, acho que uma vassoura, combinaria mais com você — ela destila o seu veneno que eu quase posso ver escorrendo pelos seus lábios. Ignoro-a e continuo fazendo a limpeza. — Parece que você enfeitiçou meu amigo, Adam — ela continua tentando chamar a minha atenção. Paro de fazer o que estava fazendo e encaro-a nos olhos. — Você está enganada. Estou apenas fazendo o meu trabalho. — Suas sobrancelhas perfeitas se erguem e a expressão de sarcasmo continua em suas feições. — Sei. — Ela fixa seus olhos em mim com um sorriso dissimulado no rosto. — Que ninguém nos ouça. Adam é um fenômeno na cama — ela solta, me deixando sem entender o motivo da sua revelação. Não queria ouvir isso, não quero saber da sua vida sexual. Além de chata, essa mulher é uma vadia. Como eu pretendo ficar neste emprego, não respondo decidida a não entrar no seu jogo sujo. — Ah queridinha, você não reparou que ele está louco para entrar em sua calcinha? — Fecho os olhos e respiro profundamente sem responder a sua provocação. — Bem, bem, bem... Adorei falar com você, que-ri-da! Se quiser, pode limpar meu escritório. Pena não poder ficar para te fazer companhia. Tenho um encontro muito mais interessante agora. Adeus! — Ela sai, dando um “tchauzinho” como num concurso de miss. Que mulher patética! *** Finalmente, estou a caminho de casa com o Adam, que gentilmente me ofereceu uma carona. Não recusei, afinal, hoje foi um dia muito cansativo no trabalho. — O que vai fazer hoje? — Adam pergunta com as duas mãos sobre o volante e atento ao trânsito. — Jessica e eu combinamos de comer pizza e assistir a filmes antigos! — respondo com animação na voz. Ele me olha de relance. — Sabe que eu amo pizza e filmes antigos? — ele diz com um sorriso estampando. Encaro-o sabendo o que ele está fazendo. Quer que eu o convide, com certeza! Eu e Adam, nesses últimos dias, nos tornamos muito próximos, mas eu ainda não havia o convidado para ir ao meu apartamento. Almoçamos essa semana quase todos os dias. Adam é um verdadeiro gentleman. — Se quiser vir, está convidado! — ofereço, e ele sorri amplamente fingindo surpresa. — Sério? Adoraria!


*** A quinta avenida, em frente ao meu prédio, está tomada por carros devido ao Metropolitan Museu. Este é um horário em que geralmente o museu está fechando, mas ainda há muitos carros estacionados. Não há condições de parar por aqui. — Vou deixá-la aqui e estacionar na próxima rua, certo? — Adam pergunta com os olhos no trânsito enquanto encosta o carro em frente ao meu prédio para que eu desça em segurança. — Tudo bem — respondo enquanto saio. Fico parada esperando-o voltar a pé com meus olhos fixos sobre os carros passando. Vejo que os carros amarelos são definitivamente a maioria por aqui. De repente, ouço uma risada vindo do lado oposto de onde estou olhando, me fazendo instintivamente girar o meu corpo. O que me deparo, faz o meu coração quase sair pela boca. Andrew está vindo da esquina do nosso prédio, mas infelizmente não está sozinho. Ele está acompanhado por uma mulher que imediatamente, percebo quem é. De braços dados com ele, está Freda, a mulher mais detestável do planeta. Ela está com um chapéu que me remete ao dia em que o vi com uma morena, dando-me a certeza de que só pode ser a Freda. Andrew está com os olhos fixos sobre a tela do seu aparelho celular quando, ele levanta a cabeça e finalmente me vê. Ele chega a interromper por alguns segundos sua caminhada, mas logo se recompõe e continua a andar. A idiota da Freda, só repara quem sou eu, quando olha para o Andrew que ainda me encara fixamente. Imediatamente, ela solta o seu braço e caminha em minha direção com uma expressão interrogativa. — O que você está fazendo aqui? — ela questiona com suas sobrancelhas arqueadas. — Eu moro aqui! — afirmo, apontando para o prédio em um tom de voz exasperado e ela solta uma gargalhada sarcástica. — Impossível! Nesse lugar só vivem pessoas de altíssimo padrão. — Me aproximo fixando meus olhos nos dela. — Então, pelo visto eu sou uma pessoa de "altíssimo padrão" já que eu moro aqui! — afirmo, fazendo sinal de aspas com os dedos deixando-a sem fala e com um olhar surpreso. Com cara de espanto, Andrew nos encara sem entender nada. — Vocês se conhecem? — ele pergunta com o cenho franzido. — Sim, querido! Ela é a minha assistente. — Eu ouvi direito? Querido? Ela fez questão de dar ênfase na palavra "assistente”. ***


Andrew Durante toda a semana, mergulhei no trabalho para não dar espaço aos meus pensamentos. Não quero que o fantasma "Júlia" fique rondando a minha mente. Às vezes, sonho com ela e isso me intriga. Tive que tentar sair com outra mulher que praticamente se jogou nos meus braços. Até levei a Freda para o meu apartamento, mas logo me arrependi. Ela tem um problema que me faz broxar, mas que eu havia esquecido. Freda fala muito e, eu não consegui continuar o que comecei. Tive que mandá-la embora e resolver os meus problemas de outra forma. Sim, eu me rendi aos meus pensamentos e, me lembrei do fantasma "Júlia”. Será essa, a decadência de um homem como eu? Hoje, fui surpreendido no meu hotel com a presença da Freda — a mulher falante. Ela teve a audácia de me procurar, alegando que havia esquecido um anel muito valioso em meu apartamento. Freda agiu como uma namorada, no dia em que a levei e isso me deu certo medo dela. Espero que ela esteja falando a verdade para eu finalmente me ver livre de sua presença, caso contrário, eu serei capaz de enforcá-la. Porém, como a sorte não está do meu lado ultimamente, estou diante da Júlia, que por uma infeliz coincidência, está parada de frente ao nosso prédio como uma estátua e para piorar, trabalha para Freda. — Júlia, está acontecendo alguma coisa? — De repente, meus olhos vão direto para um homem que segura os ombros da Júlia, de uma forma íntima. Encaro seu rosto e meus olhos se ampliam. Eu conheço esse cara! Ele é da minha cidade natal. Tenho certeza! Estou tão estupefato que, mesmo ouvindo a Freda dizer a palavra "namorados”, momentaneamente, eu não me atenho ao que ela quis dizer. — Namorados? — Júlia pergunta, e meus pensamentos agora estão totalmente confusos. — O que você está fazendo com o Adam? — pergunto em um tom de voz firme. Não consigo entender o que está acontecendo. Como Júlia foi trabalhar para Freda? Adam sorri de um modo estranho e a minha única vontade é de quebrar cada dente da sua maldita boca. — Quanto tempo, Andrew! — Não respondo, e ele continua. — Ela trabalha comigo. Eu sou o sócio da Freda e... — Ele encara Júlia nos olhos. — Júlia e eu, somos namorados agora! — Sua declaração me faz unir as sobrancelhas. O maldito é o patrão dela e ela ficou com o primeiro cara que apareceu? Fixo meus olhos com perplexidade nos dela. Não digo nada. Porém, peço silenciosamente uma explicação que ela não me deve, afinal, eu fui bem taxativo sobre as minhas intenções assim a afastando


de mim. Fico sem ação e, uma vontade insuportável de arrancá-la de perto dele, quase me domina. Quase! — Sua Safadinha! — Freda decide falar. — Eu te disse mais cedo que Adam estava querendo entrar em sua calcinha, mas pelo visto ele já entrou, não é mesmo? — O que ela diz, por alguma razão faz com que o meu coração acelere. O que está acontecendo comigo? Aliás, o que é este sentimento perturbador que sinto? — Freda! — Adam a repreende e suas malditas mãos, ainda estão apertando os ombros da Júlia. — Minha vida íntima, diferente da sua, não é um livro aberto — Júlia diz com exasperação. — O que você disse? Acho que você se esqueceu que trabalha para mim! — ela grita, mas Júlia, não responde. — Freda. Mandarei alguém vasculhar o meu apartamento, caso encontrar o anel, te enviarei — digo, mudando o foco do assunto, já que eu estou farto desta mulher. — O que? Mas íamos... — NÃO. Eu não tenho a mínima intenção de sair novamente com você e muito menos cometer a burrice pela segunda vez de deixá-la entrar em minha casa. — Júlia nos observa atentamente e Freda a escaneia de cima a baixo. — Depois nos falamos! — Ela se vira e se afasta em direção à rua balançado o braço para os táxis que passam em excesso. — Bom, acho que sua amiga está nos esperando com a pizza e o filme. Deixa que eu levo a sua bolsa — Adam diz e eu apenas os observo caminhar em direção ao edifício. — Até mais, cara. — Ele tem a cara de pau de se despedir de mim e Júlia não me olha. Jamais fui com a cara dele e agora eu o odeio como se ele fosse o meu pior inimigo. Neste momento, pareço uma maldita estátua observando o desgraçado entrar no meu prédio com a mulher que deveria estar comigo, porém, eu fiz questão de afastá-la. CAPÍTULO 8 Júlia Como imaginei, Adam foi uma excelente companhia. Comemos pizza, assistimos a filmes antigos e finalmente eu pude conhecer o tal namorado da minha amiga. O nome dele é Alan e eles não se desgrudaram um só segundo. Embora eu tenha gostado, eu não conseguia me concentrar nos filmes ou


apreciar o momento. Logicamente, isso tem um motivo e o nome dele é... Andrew. Quando Adam disse que éramos namorados, essa atitude me pegou completamente de surpresa. Confesso que, no fundo, desejei que Andrew acreditasse. Queria que ele visse que eu posso muito bem seguir em frente, já que ele havia deixado claro sobre o que realmente queria. Perguntei ao Adam o motivo e ele disse que havia notado "algo mais" entre nós. Disse que queria me ajudar, já que Andrew parecia não se importar comigo. Realmente, Adam tinha razão. Andrew não se importa com ninguém e não se importaria comigo. *** Domingo chegou e com ele, muitos passeios pela cidade. Jessica fez questão de me levar ao memorial Word Trade Center para manter a minha mente ocupada. Funcionou, mas estar dentro do lugar onde uma grande tragédia aconteceu, parecia surreal para mim. Memorial WTC, foi idealizado pelo arquiteto israelense – americano Michael Arad. Apropriadamente, ele é chamado de "Refletindo a ausência" duas quedas d'água foram construídas exatamente na mesma posição das torres, com 10 metros de profundidade e cercadas por placas de bronze com os nomes das vítimas, onde os familiares podem ter um momento de lembranças e paz. As folhas de outono que caíam, transformou o cenário já triste em um ambiente melancólico. A única vontade que tive nos minutos em que fiquei por ali era de chorar. Depois da carga emocional, fizemos compras na famosa quinta avenida para recuperar os ânimos. Comemos o delicioso sanduíche do Shake Shack e no fim da tarde, seguimos para a casa, onde nesse momento o que mais desejo são um banho quente e cama. No momento em que entro no meu quarto, vejo que a luz do meu aparelho celular pisca incessantemente. Havia deixado o telefone carregando a bateria, já que não tenho muitos contatos por aqui. Apenas agora, me dei conta de que Adam poderia querer falar comigo. Olho para o visor e vejo que tenho algumas mensagens, e a primeira é do Adam. "Oi, linda, espero que os problemas com a Freda, não te façam desistir do trabalho. Te espero amanhã? " Tinha me esquecido desse detalhe. Como vou a um trabalho em que não sou bem-vinda pela sócia proprietária? Respondi imediatamente dizendo que precisaria dessa semana para colocar minha cabeça no lugar. Em seguida, abro a segunda mensagem que fazem minhas sobrancelhas se unirem. “Não venha mais trabalhar na minha agência. Caso fizer isso, terá uma inimiga para sempre. Espero que você tenha um pingo de sanidade e volte para o


seu país" Achei que Freda fosse louca, mas ela consegue ser ainda pior. Ela se titulou namorada do Andrew, mas logo que ele a dispensou, eu havia percebido que ela queria apenas me provocar. Talvez eu tenha realmente dado bandeira sobre como me sinto estando próximo a este homem. *** Já estamos quase no fim de outubro e Jessica apareceu com três convites. Ela disse que conversou com Josh que nos convidou para uma festa à fantasia. A princípio, disse não, mas logo ela me contou que essa festa não tem nenhuma ligação com o Andrew e que foi a primeira coisa que ela havia perguntado. Jessica contou para o Josh sobre o "incidente" e ele mal conseguia se expressar de tão chocado que ficou. Ele realmente confirmou que eu era completamente o tipo físico que Andrew procurava naquela noite e que, não consegue imaginar que não tocamos nesse assunto pelo tempo em que ficamos juntos. Acho que ninguém vai entender que não conseguíamos nos desgrudar um só segundo o que, quando acordei, ele simplesmente havia desaparecido deixando aquele bilhete. Agora, estamos em uma loja de Halloween no New York Costumes. Uma loja totalmente voltada para esse tipo de trajes. Escolhemos nossas fantasias e mais tarde, fomos ao restaurante Junior's que fica na Times Square, um dos mais famosos cheesecake de Nova York. Enquanto fazíamos nossos pedidos, Jessica avistou uma colega de dança e a convidou para se juntar a nós. Ashley, é o seu nome e, pelo pouco tempo de conversa, ela se mostrou extremamente agradável. — Bom, preciso ir, mas podemos marcar outro encontro. — Ela fixa seus olhos nos meus. — Prazer em conhecê-la, Júlia, Jessica sempre falou muito bem de você. — O prazer é todo meu, Ashley! — Retribuo o seu sorriso simpático. Ashley tem a pele negra, olhos grandes e bem expressivos. Seus cabelos cacheados são enormes e bem cuidados. Ela parece ser mais baixa do que eu e mais magra também. Ela é linda! *** Amanhã será a tão esperada festa de Halloween e hoje, eu e Jessica decidimos descansar. Agora, estamos assistindo a um filme de ação — os meus preferidos— e comendo pipocas. Devo admitir que meus pensamentos neste momento, estão voltados novamente apenas para uma pessoa. Embora eu devesse esquecê-lo, minha mente faz questão de me lembrar do seu cheiro, dos seus olhos intensos sobre mim quase o tempo inteiro. Às vezes, penso que isso deve ser algum tipo de obsessão. Andrew é sério, conciso e nada agradável. Afinal, o que eu vi nesse homem que me deixa completamente fora de mim?


Jogo uma pipoca na boca e tento me concentrar ao filme, mas de repente ouço um barulho de algo vibrando e então, me lembro do meu celular na mesinha de centro. Coloco a tigela de lado e pego o aparelho atendendo, sem olhar para o visor. — Júlia? — ouço a voz baixa e rouca do Adam do outro lado da linha. — Oi, Adam desculpa não ter entrado em contato, mas é que... — Quero te ver... Agora! — Ele me interrompe e em seguida ouço-o respirar pesadamente. — O que? Sério? — Miro o meu relógio no pulso. — Já passa das dez horas da noite... — Por favor! Só quero te ver — ele me interrompe novamente e resignada, solto um ar pesado. — Tudo bem. — Ótimo, estou aqui. — Jessica me observa com curiosidade. — Você já está aqui? — Ela ergue as sobrancelhas com uma expressão que questiona silenciosamente quem é. Faço um gesto para que ela espere com a mão. — Sim, estava por perto. Desça, não vou demorar. Prometo. — Ok. — Conto a Jessica quem está me esperando e ela sorri me dando força para que eu desça. Poucos minutos depois, eu já estou na portaria do meu prédio e Adam me espera encostado ao seu carro. Quando me vê, ele se aproxima e seus olhos me encaram profundamente. Estou no alto da escada e ele sobe sem tirar seus olhos dos meus. Por algum motivo, ele parece nervoso e quando seu corpo fica rente ao meu, ele simplesmente me beija na boca. Seu beijo repentino me deixa com os olhos abertos e totalmente sem reação. Seus lábios são macios, mas nem se comparam com os beijos de um certo homem que vem tirando o meu sono. Ainda com os olhos abertos, nossos lábios se separam e eu ainda o encaro com surpresa. — Júlia, eu estou... — ele engole em seco. — Estou muito apaixonado por você — ele confessa me pegando totalmente de surpresa. — Adam eu gosto de você, mas... — Não quero te apressar. Vamos nos conhecendo, sem pressa! — Ele sorri — O que acha? — Suas mãos passam pela lateral do meu rosto. Adam é um cara bom, atencioso e está disposto a um relacionamento. Já eu, como uma idiota que sou sempre me interesso pelo homem errado. Acho que devo deixar as coisas começarem a rolar. Tentar definitivamente, não mata. Ele me observa com expectativa. — Certo. Vamos nos conhecendo e quem sabe... — Ele não me deixa


terminar de falar e novamente, sela seus lábios nos meus. Dessa vez eu correspondo e ele segura meu rosto com as duas mãos. — Você não irá se arrepender! — Adam diz, mas logo meus olhos desviam para alguém que me chama a atenção, de pé, parado na calçada próximo as escadas com uma expressão séria nos observando. Andrew está aqui e, quando percebe que eu o vi, ao invés de entrar, ele caminha na direção oposta e desaparece pelas ruas. Adam o observa com uma expressão séria. — Júlia, você gosta desse cara? — ele pergunta ainda com os olhos no homem alto que já está longe de ser visto com clareza. — Infelizmente sim! — Forço um sorriso e ao invés de ficar triste, Adam me aperta em seus braços como se quisesse me consolar. — Conheço-o há anos e posso te garantir que Andrew Smith, não é um homem que trata bem as mulheres. Ele tem um histórico péssimo. Ele é um canalha, Júlia. Fique longe dele. — Não respondo e retribuo o abraço com um olhar perdido nos carros que passam. ***


Andrew Ultimamente estou sendo confrontado com os meus próprios pensamentos. Depois que vi aquele imbecil do Adam ao lado da Júlia, percebi que estou ainda mais perturbado por aquela mulher, mas vê-los aos beijos foi... Torturante. Eu parecia perdido, como se aquilo me fizesse mal por dentro. Como se aquele maldito estivesse com algo que me pertence. Depois disso, não consegui formar nenhum pensamento coerente. Aqueles dois, juntos não saem da minha maldita cabeça. Ele parecia possessivo e ela parecia corresponder bem aos seus beijos. Confesso que isso está me levando à beira da loucura. O pior de tudo é que, eu havia deixado claro para Júlia sobre não me relacionar emocionalmente e, no entanto, percebo que ela aceitou isso muito rápido. Essa atitude dela deveria ter me deixado aliviado, mas na verdade sintome mal por isso. Principalmente depois de tê-la visto ao lado dele. As mãos sujas daquele idiota estavam sobre ela e mesmo que eu quisesse fazer algo, eu não podia. Eu a afastei e agora não sei o que está havendo comigo. *** Já passa das quatro da manhã e eu estou relativamente bêbado. Pego meu celular com dificuldade no bolso da minha calça e disco o número do Frank, que atende ao primeiro toque. — Senhor? — Eu estou na cinquenta e três com a quinta. Preciso ir pra casa — digo com uma voz arrastada. — Estarei aí em poucos minutos, senhor — Frank diz, em um tom profissional. Depois de ver a mulher que persegue meus sonhos aos beijos com outro homem, acabei passando a madrugada em um bar e, agora pareço um indigente bêbado e completamente sem rumo. Mulheres não me faltam, mas o meu cérebro insiste em me lembrar de uma mulher que, eu não tenho o menor interesse de me relacionar. Eu não quero! Aliás, não existe essa possibilidade com mulher alguma. Chego em casa nos ombros do Frank e isso é algo incomum em minha vida. Sem dúvida, ele deve estar estranhando esse tipo de reação, afinal, sou um homem completamente equilibrado e controlado. — Qualquer coisa estarei por perto! Acha mesmo que vai ficar bem? — Frank pergunta e eu aceno lentamente com cabeça. — Pode ir. Obrigado! — agradeço e pela primeira vez, percebo que ele muda sua expressão de impassível para uma de surpresa. Provavelmente, seja porque eu o agradeci. Algo incomum vindo de mim. Assim que ele desaparece pela porta, me jogo no sofá e sem me preocupar em me despir ou tirar os meus


sapatos, apago. *** Ducha gelada é o melhor remédio para curar uma ressaca, ao menos para mim. Depois de tomar minha décima, decido ficar em casa hoje. Apesar de ter bebido durante toda a madrugada, sinto-me bem agora. Tomei um café preto e decidi malhar na pequena academia do próprio apartamento. Resolvi muitas coisas por telefone e falei com o meu pai, que está em mais uma de suas viagens misteriosas em algum lugar paradisíaco. Minha governanta, Betty, também me ligou reclamando que não tem recebido nenhuma ligação minha e muito menos do meu pai, ela tem razão. Ela me criou como uma verdadeira mãe, e, o mínimo que deveria fazer é tratá-la com mais cuidado. Conversamos muito e decidi trazê-la para o meu apartamento até que meu pai retorne. Deveria ter feito isso antes, já que ela parecia muito feliz ao telefone. Volto para o meu quarto e pego meu celular que obviamente está repleto de ligações perdidas. Ele volta a tocar de repente e vejo que Josh está me ligando. Sua insistência me faz atender. — Espero que seja importante! — atendo — Senhor, é... — Algum problema? — corto-o querendo saber o motivo de tanto desespero. — Senhor, desculpe a pergunta, mas a mulher que o senhor saiu naquele dia na boate, se chama Júlia? — Vejo que ele já sabe o que me aconteceu. Solto um ar pesadamente. — Sem enrolação. Fala logo! — É que elas vão a uma festa de Halloween que estou promovendo hoje entre a Broadway e a quinta. — Ergo as sobrancelhas. — Ela vai só? — pergunto com dissimulado desinteresse. Apenas quero saber se ela vai levar aquele imbecil do Adam com ela. — Na verdade, eu as convidei e Jessica me contou sobre o incidente... Achei que o senhor gostaria de saber. A Júlia vai apenas com a Jessica e o namorado, Alan. Eu só achei que o senhor deveria saber e claro, seria bom se o senhor fosse. — Se eu for, avisarei! — Sim, senhor. Ah! Não se esqueça de usar uma fantasia! Fantasia? Merda! Não tinha pensado sobre isso. Se bem que, eu poderia ir e não ser reconhecido. — Consiga uma para mim. — Desligo sem esperar sua resposta. *** Ridículo, não é bem a palavra que eu possa descrever como estou neste exato momento. Bizarro é uma palavra mais apropriada. Estou em uma fantasia


do Batman e graças a máscara, ninguém poderá ver quem de fato, sou eu. Ao menos, isso me encoraja a sair do carro. Estou parado dentro do meu carro na lateral do edifício, onde combinei com Josh. Ele disse que há uma entrada, que é apenas para os funcionários e ninguém a essa hora, passa por aqui. Com os olhos presos à porta, de repente vejo uma figura magra e alta, vestido de Robin saltitante em direção ao meu carro. Peço para ao imbecil me arrumar uma fantasia e ele consegue exatamente uma que combine com a dele? Batman e Robin... O casal! Saio do carro e "Robin" me analisa descaradamente. — Uauuu... Senhor! Perdoe-me, mas você está um espetáculo! — Aperto a mandíbula e o encaro através da minha máscara escura. Era só o que me faltava, Robin elogiando o Batman. — E a Júlia? — pergunto, ignorando seu elogio. Josh, agora me responde com o seu olhar preso nas partes baixa do meu corpo. — Ela já chegou há uma hora. — Aceno e logo sou conduzido para a cobertura. Assim que chego, Josh se aproxima do meu ouvido. — Ela está em uma mesa próxima ao bar. — Ele aponta com o dedo indicador, mas daqui não posso vê-la, ainda. Até agora, não sei qual é exatamente o motivo de eu estar aqui. Afinal, não vou atrás de mulher alguma. Mas essa festa, parecia tão fácil, simples que eu não pude recusar. Algo primitivo deu lugar ao homem racional e eu não quero que outro se aproxime dela. Josh tem sido muito eficiente no trabalho e pelo visto, em dias que ele não trabalha para mim também. Ele está sendo um bom cara! Pego no seu ombro magro e lhe dou um sorriso fraco. — Obrigado! — agradeço sinceramente.


Ele sorri — Somos uma dupla! — ele diz me empurrando com o ombro. Encaro-o sério em seu sorriso se esvai rapidamente. — Fique à vontade. Vá por aqui, é mais fácil! — Aceno sério e ele sai para continuar o seu trabalho. Sigo em direção ao bar e, percebo mulheres de todos os lados me observando. Ignoro-as varrendo todo o local e, finalmente meus olhos param, na única mulher que desejo ver. Ela está sentada sobre um imenso sofá e parece não muito feliz. Seus cabelos estão soltos em cascatas sobre seus ombros e, sua fantasia parece uma espécie de deusa grega. Linda, não seria uma boa definição. Ela está realmente de tirar o fôlego. As luzes de Manhattan brilham através das enormes janelas atrás da Júlia e, ela agora parece inquieta como se ela sentisse a minha presença a observando. Decido ficar um pouco de longe apenas contemplando a mulher mais linda que eu já vi. CAPÍTULO 09 Júlia Abóboras de todos os tamanhos estão espalhadas pelo chão e sobre cada mesa. Sim, estou na festa à fantasia que fica em uma cobertura na quinta avenida. Acabei de chegar, mas não sinto vontade de me divertir. O ambiente é convidativo e obviamente, está repleto de pessoas fantasiadas, felizes e animadas. Teias de aranhas por todos os lados e esqueletos pendurados nas paredes fazem parte da belíssima decoração. Das grandes janelas, vejo o imponente Empire States e vários edifícios que compõem o belíssimo cenário de Manhattan. Entretanto, isso não está causando tanta animação em mim, como havia imaginado. — Júlia, vou com Alan buscar bebidas! O que vai querer? — Jessica, a dama de cabaré, me pergunta tentando se fazer ouvir através da música. — Eu quero um Apple Martini! — peço próximo ao seu ouvido. Minutos depois, Jessica chega com a minha bebida. Sento-me novamente enquanto ela tenta me convencer que é super legal dançar com um casal que não para de se beijar um só minuto. — Agora não, vão vocês... — grito, e ela me encara com as sobrancelhas erguidas. — Você, às vezes, pode ser muito frustrante, sabia? — Concordo com a cabeça, mas, logo em seguida, ela é puxada pelo Alan que a faz esquecer rapidamente que eu estou aqui. Ela está muito entusiasmada com ele, embora o ache bem diferente dela.


Tomo minha bebida e tento ignorar o fato de que a minha única companhia da noite é uma caveira que está pendurada próxima a mim. Sei que homens me olham e me cercam, mas eu os ignoro. Simplesmente não sinto vontade de paquerar ou algo do tipo. A música que toca ao fundo é: Without You/David Guetta. Estou distraída, quando, de repente percebo que um Batman, alto, atlético e com uma boca perfeita vem se aproximando da minha mesa. Encaro-o descaradamente e me levanto. Algo nele, definitivamente me é familiar. Através de sua máscara escura, posso ver perfeitamente seu olhar intenso sobre mim. Desconfiada, aproximo-me até o meu corpo ficar rente ao dele. Aspiro seu cheiro inconfundível e agora, não há mais dúvidas, é ele. Andrew está bem diante dos meus olhos e é, sem sombra alguma o Batman mais delicioso que já vi. — O que diabos você está fazendo aqui? Não me diga que você tem relação ou é dono... — Não — ele me interrompe. — Josh me convidou! — Amplio os meus olhos exageradamente. Eu deveria imaginar! — O que? Josh? — Ele ignora a minha pergunta e segura meu braço com força e ao mesmo tempo, delicadamente. — Preciso falar com você, agora! — Andrew, praticamente me arrasta no meio das pessoas até chegarmos a um corredor estreito. Ele para abruptamente e, seu olhar intenso ainda está sobre mim e sua boca perigosamente próxima a minha. — Você está linda! — ele diz, e sua presença me desconcentra. Inesperadamente, Andrew me pressiona contra a parede. Seu rosto agora está tão próximo ao meu que, posso sentir o ar quente que vem da sua boca. Posso ver apenas desejo em seus olhos. — Retiro o que eu disse. Você não está linda. Você é linda! — Fico completamente sem ação com o que ele diz e quando menos espero, seus lábios selam nos meus. Sua língua invade a minha boca e eu perco completamente a razão. Impossível resistir a esse homem. Instintivamente seguro seus cabelos e nosso beijo se aprofunda ainda mais. Andrew não é apenas um homem que eu desejo. Sinto algo diferente por ele e, não há como ignorar isso. De repente me bate uma verdade que eu não queria me lembrar. Ele só está aqui provavelmente pelo sexo. Ele não gosta de mim e, eu quero me socar por agir emocionalmente. Nós mulheres, somos movidas de emoção enquanto os homens, agem apenas pelo sexo. — Não! — digo com a voz alterada, fazendo-o se afastar ofegante. Não posso ver o seu rosto, mas seus olhos parecem confusos agora. — Júlia... eu quero você! — ele afirma e mesmo através da máscara do


Batman, vejo sinceridade em seus olhos. Sim, ele me quer, mas se eu me entregar, sei que irei sofrer mais tarde. Sei que me sentirei usada mais uma vez, já que está claro que eu gosto deste homem. Meu coração acelera, mas não é apenas pelo desejo e sim, algo muito mais forte. Infelizmente, ele estava certo. Eu o quero além do sexo, e ele não será capaz de me dar o que quero. — Eu... eu tenho um namorado agora! — tento parecer firme, mas eu falho vergonhosamente. — Você não gosta dele. — Ele exala um ar profundo. — Acredite, ele não presta... Eu o conheço há anos! — Sim. Ele também me disse que você não tem um bom histórico em relação às mulheres! — afirmo e, ficamos nos encarando por alguns segundos. — Ele não tem razão? — Andrew dá dois passos para trás seus olhos ainda me encaram intensamente. — Nem tudo que parece é! — ele afirma e não faz mais contato visual. O desejo que via em seus olhos desaparece como mágica e sem dizer mais nada, ele se vira e caminha para longe de mim. Não o sigo e meus olhos estão fixados sobre o grande Batman que desaparece através da multidão. *** Quando chego a minha mesa, a música que ecoa em todo o ambiente é: Brand New Me/Alicia Keys. Peço mais bebidas e tento me juntar ao casal apaixonado. Conto para Jessica o súbito aparecimento do Andrew e ela acredita veementemente que ele gosta de mim por ter vindo até aqui. Eu sou mais realista. Ele tentou sexo, não conseguiu. E foi embora, simples! Agora, tenho certeza de que ele foi procurar outra mulher. Por que esse idiota faz isso? Ele vem, joga o doce em minha boca e desaparece, como se estivesse marcando território. Definitivamente ele conseguiu me enlouquecer ainda mais. Depois do meu quarto Apple Martini, decido que esse, é o último ou eu sairei daqui carregada. A bebida me relaxou, já que estava tensa e o único culpado, decidiu sumir. Fiquei sentada ao lado do meu querido amigo "caveira" que não se movia, mas ao menos não fazia perguntas. Meu Deus, a que ponto eu cheguei! Tanto homem bonito nessa festa e eu preferindo a companhia de uma caveira. Definitivamente, Andrew arruinou a minha noite. Levanto-me e algo me chama a atenção. Percebo um homem fantasiado de zorro, me observando intensamente. Ele não se aproxima, mas, definitivamente não para de me olhar. Isso me deixa irritada, já que a única coisa que quero neste momento é ir para casa e me entregar ao sono.


A noite prosseguiu sem maiores incidentes e o “Batman" não apareceu mais. Resolvemos ir embora depois que percebi o grau de loucura da minha amiga devido ao grande número de Apple Martinis que ela ingeriu durante a noite. Obviamente, Alan decidiu levá-la para a casa dele e eu, resolvo esperar um táxi. No percurso da boate até a rua, sinto minhas pernas bambas e meu corpo lentamente ficando mole. Os carros na rua passam como um borrão e eu tento ficar de pé. Respiro fundo algumas vezes, mas parece que o efeito do álcool só aumenta. Estranho. — Quer uma carona? — ouço a voz familiar do Adam que não havia reparado, mas ele estava parado bem à minha frente. — Como sabia que eu estava aqui? — pergunto, mas meu corpo parece que vai desabar a qualquer momento. — Eu estava passando por aqui — ele diz outras coisas, mas eu não consigo entender. Apenas sinto seus braços me colocando no interior do seu veículo. Forço meus olhos para não dormir e quando me dou conta, já estou dentro do seu carro. — Quer ir para algum lugar, ou prefere que a leve para casa? — ele pergunta e eu bocejo. — Acho que bebi demais... se não se importa, leve-me para casa. Sintome... Estranha. — respondo com uma voz arrastada. Ele não responde, ou talvez respondeu, mas eu não ouvi, já que tudo roda e um zumbido se instala dentro dos meus ouvidos. Quando menos espero, sinto mãos sobre meu corpo. Tento me mexer, mas é praticamente impossível. — Chegamos em sua casa — Adam diz, mas percebo que seu hálito está muito próximo ao meu rosto. — Você parece mal. Vou te levar para minha casa — ele diz, mas eu tento abrir a porta do seu carro com dificuldade. Abruptamente, sinto um puxão e Adam já está sobre mim. — Adam, o que está fazendo? Sai de cima de mim! — tento gritar, mas minha voz falha. — Eu quero transar com você, agora! — ele diz e, um pânico se instala em meu corpo. Inesperadamente, sinto seus lábios molhados sobre os meus e sua língua invadindo a minha boca. Meu coração dispara em alerta. Tento empurrálo em vão, tento me debater para que ele saia, porém, a única alternativa que tive, é de morder os seus lábios. Ele se afasta e eu aproveito para sair, mas quando estou prestes a sair, ele me puxa novamente para dentro do veículo. — Não, Adam! Para, por favor! — sussurro e meu corpo está cada vez mais


entregue ao cansaço. Minhas pálpebras estão se fechando. — Para ele você não faz cerimônia, e para mim você se transforma em uma santa. — Adam começa a me sacudir com força e quanto mais meu corpo se movimenta mais estranha e tonta eu me sinto. O que está acontecendo comigo? — Por favor, eu estou passando muito mal — suplico e ele me ignora. Suas mãos passam sobre os meus seios e não há o que eu possa fazer. Algo definitivamente está errado e meu corpo chegou ao limite. Não consigo mais ficar de pé. Não consigo lutar... — Eu sei! — ele informa. — Quanto mais difícil, melhor para mim. Parece que você não conseguiu dormir. Da próxima, me lembrarei de te dar uma dose um pouco maior — ele afirma e segura meus cabelos puxando-os com força. Estou com as pernas para fora do seu carro e Adam sai para tentar me colocar para dentro. Meu corpo não está obedecendo ao meu cérebro. Sinto suas mãos sobre minhas pernas e, eu sei o que ele está fazendo. Adam está tentando me colocar de volta para dentro do veículo. Meus olhos se fecham involuntariamente quando ouço um baque. Tento abri-los para ver o que está acontecendo e, então, vejo Adam caído sobre o chão e Andrew desferindo socos com muita força sobre o seu rosto. Tento me manter acordada, mas dessa vez, meus olhos se fecham e tudo se escurece… ***


Andrew Agora é oficial, algo está muito errado comigo. Desde o momento em que coloquei meus olhos sobre a Júlia, não tenho feito mais nada, além de agir impulsivamente. As minhas vontades estão sempre relacionadas com uma certa mulher que, neste momento não consigo tirar os olhos. Elas estão muito além de querer proteger ou cuidar. Tenho uma necessidade crua de estar próximo a ela, como jamais tive com qualquer outra mulher. Afastei-me da Júlia para tentar voltar com a minha sanidade mental e sair dessa festa, mas... Eu não fui capaz de deixá-la sozinha. Esses sentimentos conflitantes estão me deixando louco, e para não agir mais uma vez por impulso, achei prudente ficar longe, observando-a e tentando me controlar para não voar em cada homem que tenta uma aproximação. No entanto, um em particular, em uma fantasia de zorro, me chamou a atenção. Minha intenção era ir para a casa, entretanto, depois que percebi o modo com que esse Zorro a encarava, algo me dizia que eu deveria ficar. Embora, eu tenha a certeza de que eu esteja ficando louco... Eu apenas preciso ficar. O homem parece desistir de secá-la e finalmente, desaparece pela multidão. A amiga está bêbada e o namorado a leva embora, deixando Júlia sozinha. Já percebi que ele é um completo idiota. O imbecil poderia acompanhar as duas em casa e não abandonar a amiga da namorada. Meus olhos a seguem enquanto caminha em direção aos elevadores. Júlia está deixando a festa sozinha e eu, decido pegar o outro elevador. Em seguida, saio pela mesma porta que havia entrado e rapidamente faço o meu caminho em direção ao meu carro que está estacionado logo à frente. Sei que ela precisará de um táxi, já que não possui um automóvel. Entro no meu carro e retiro a máscara do Batman jogando-a pela janela. Ligo e acelero o mais depressa possível para chegar até a Júlia. Dou a volta no quarteirão e vejo que uma enorme fila para o táxi se forma. Se eu não estivesse aqui, provavelmente, ela demoraria alguns minutos até conseguir sair. Porém, assim que meu carro finalmente se aproxima da portaria principal, vejo a Júlia sendo conduzida para o interior de um veículo, abraçada com Adam. Meu coração acelera e, algo não me parece fazer sentindo. Afinal, o que ele faz aqui? Como esse idiota apareceu do nada? Júlia parece estar completamente bêbada agora, enquanto ele a ajuda, mas... O que me deixa totalmente intrigado é o fato de eu não tê-la visto bêbada em momento algum até entrar naquele maldito elevador. Queria descer e afastá-lo, mas não daria tempo, visto que, ainda estou no trânsito e um pouco longe. Minhas sobrancelhas se unem e assim que o carro acelera, eu, impulsivamente,


sigo-os. Seu carro está rápido demais e ele ganha uma grande vantagem sobre o meu. Adam dirige com imprudência cortando os outros veículos pelas ruas largas de Manhattan. Acabo imitando a sua forma de dirigir com o intuito de não deixá-lo escapar. Ultrapasso os carros e furo sinais vermelhos. Dois carros quase se chocam com o meu, mas eu não paro. Ouço xingamentos vindos de todos os lados, porém, eu não me importo. Meus olhos ainda estão fixos sobre o carro escuro que está desaparecendo da minha visão periférica. Pelo percurso, sei que Adam está dirigindo para o meu endereço, mas eu não posso confiar. Talvez, ele esteja esperando para agir. De repente, me vejo preso atrás de uma ambulância e pelas ruas de Manhattan, o carro do Adam desaparece das minhas vistas. Desesperado, acelero desviando da ambulância e, assim que chego, sinto um alívio quando vejo seu carro parado em frente ao nosso edifício. Estaciono alguns metros atrás e desço rapidamente. Quando me aproximo, noto que a porta do lado do passageiro está aberta e as pernas da Júlia estão para fora. Neste momento, eu congelo ao ver Adam com seu corpo sobre o da Júlia que, inutilmente se debate suplicando para que ele saia. Estou cego de raiva e quando me aproximo deles, apenas com um movimento, puxo-o, lançando o seu corpo brutalmente de encontro ao chão sólido. Minha raiva é tão grande que, desfiro socos incessantes sobre seu rosto. Ele não esperava minha atitude e apenas tenta se defender com as mãos. Isso é inútil, já que meus golpes são certeiros e cheios de ódio, deixando a sua face completamente desfigurada. — DESGRAÇADO! — vocifero e antes de dar o último golpe, tento entender o que aconteceu com a Júlia que está aparentemente desacordada em seu veículo. — O que você fez, seu desgraçado? — pergunto com exasperação na voz e ele sorri com seus dentes completamente sujos de sangue. — Eu a dopei. — ele confessa me fazendo unir as sobrancelhas e continua: — Você se acha muito esperto, não é? Idiota! — ele diz e em seguida cospe o sangue que se acumula no interior de sua boca voltando a me encarar. — Eu estava lá o tempo todo! Pena não tê-la dopado o suficiente. Tinha muitos planos para esta noite. Não pode ser possível! Esse cara é pior do que eu pensava! Encaro-o com total perplexidade. — Sabe, eu ia levá-la daqui, mas a idiota não dormia completamente e então, decidi adiar — Adam informa, com sarcasmo impresso na voz.


Então é isso, ele estava seguindo a Júlia e, provavelmente, a levaria daqui. O que é pior, ele já estava com péssimas intenções enquanto ela trabalhava ao seu lado. Provavelmente, Adam tem um motivo, mas ainda não consigo entender o que de fato possa ser. De repente, percebo que ele está dentro de uma fantasia que me remete instantaneamente ao zorro que vi naquela festa. Claro, é ele. Adam é o maldito zorro, mas agora, sem o chapéu e a máscara. — Batman batendo no Zorro, não é bizarro? — ele diz com ironia soltando uma risada sarcástica e mesmo com seu rosto desfigurado, Adam parece não se importar. Com as mãos em seu colarinho e prestes a dar o último golpe, ouço a voz da Júlia balbuciando frases ininteligíveis. Largo-o batendo sua cabeça com força sobre chão e corro em direção a ela, retirando-a do veículo. Com ela em meus braços sigo até as escadas e coloco seu corpo vagarosamente sobre chão. Retorno para terminar o meu serviço com o desgraçado, porém Adam já está dentro do seu carro. Tento alcançá-lo, mas o pilantra foge, acelerando com as portas abertas e cantando pneu pelas ruas. Claro que ele era o zorro! Devia ter percebido isso antes! *** Lentamente, coloco seu corpo sobre a minha cama. Retiro suas sandálias e meu cérebro apenas imagina o que aconteceria com ela se eu não estivesse por lá. Adam, sempre foi muito estranho pelas poucas vezes que o via, mas chegar ao ponto de agir dessa forma, é inimaginável. Nunca gostei dele e agora, desejo arrancar os seus olhos. Tento afastar esses pensamentos homicidas e aproximo-me dela. Júlia está um pouco torta. Ajeito sua cabeça sobre a almofada e observo seu belo rosto enquanto ela dorme como uma pedra. Adam a dopou com algo muito forte, mas não a dopou o suficiente para que ela apagasse imediatamente. Exalo um ar profundo e, lentamente, toco sua face delicada com o dorso da minha mão. — Linda! — sussurro, enquanto meus dedos traçam a linha da sua mandíbula. Vagarosamente aproximo meu rosto do dela e com suavidade, toco meus lábios sobre os seus. Neste momento sinto apenas vontade de cuidar dela. Meus olhos varrem sua fantasia e imagino o quão desconfortável isso possa ser. Viro seu corpo delicadamente de lado e, com muito cuidado desço o zíper na lateral. Deslizo o vestido aos poucos e seu corpo seminu, vai se revelando. Respiro profundamente antes de terminar de tirar e, por algum motivo, me sinto como um adolescente que não consegue se controlar. Definitivamente, algo não está bem e, vendo-a agora, assim tão indefesa tenho a certeza de que meus sentimentos em relação a ela são completamente diferentes. Nunca agi assim com mulher alguma. Jamais trouxe mulheres para dividir a minha cama e, no


entanto, não queria outro lugar no mundo que ela estivesse nesse exato momento. Levanto-me e sigo até o banheiro. Pego um lenço umedecido e retorno, sentando-me ao seu lado. Lentamente, retiro toda a sua maquiagem e ela apenas balbucia algo incoerente. Júlia se move, mas seus olhos não se abrem em nem um momento. Levanto-me e retiro a minha roupa do Batman. Fico apenas de cueca e, eu não resisto. Quero apenas sentir o seu corpo próximo ao meu. Deito-me ao seu lado puxando o seu corpo para mim. Aspiro o perfume delicioso dos seus cabelos e meus braços enrolam em sua cintura. Sua respiração é regular me fazendo exalar um suspiro de alívio. Ela está bem! Ultimamente, tenho lutado para dormir, mas ao lado dela, meu corpo instantaneamente relaxa e meu sono vem em poucos minutos... *** Meus olhos se abrem e a primeira coisa que vejo é um rosto sereno e lindo. Júlia ainda está desmaiada com o seu belo rosto apoiado sobre meu peito nu. Ela está apenas de sutiã e calcinha o que não me ajuda muito neste exato momento. Estou me segurando para não agarrá-la e acabar assustando-a de vez. Mesmo sentindo calor, confesso que essa sensação é confortante e diferente. Sinto como se eu já dormisse ao seu lado a vida toda. Não sei explicar. Com muita relutância, saio da cama vagarosamente. Ajeito seu corpo e ela nem se mexe. Pego meu celular e sigo até a cozinha com a intenção de preparar algo para Júlia. Enquanto espero o café ficar pronto, ligo meu celular e vejo que Betty, minha governanta, havia me ligado inúmeras vezes. Decido retornar às suas ligações com o intuito de acalmá-la, já que seu voo está marcado. Conversamos sobre seu voo e horários e o quão animada ela realmente está. Sei que estou em falta com a Betty, já que meu pai simplesmente desapareceu. Se não fossem suas ligações quase que diárias, imaginaria que ele havia sido sequestrado. Há meses, ele roda o mundo em viagens a passeio. Algo incomum vindo de um homem que trabalhou a vida inteira, e é exatamente por isso que acredito que ele deva aproveitar. Afinal, eu estou segurando as pontas e meu pai sempre está em contato, mesmo que não seja físico. Depois de arrumar a bandeja com café, biscoitos e cereais, subo as escadas retornando para o quarto onde, achei que encontraria Júlia ainda dormindo, mas ela está de pé e quando me vê, tenta cobrir o seu corpo inutilmente. Paro na porta e a encaro com uma expressão séria. — Volte para cama! — ordeno e, ela une suas sobrancelhas. — Como vim parar aqui? — Coloco a bandeja sobre o criado mudo e em seguida, aproximo-me dela. Júlia está deliciosamente linda e, se ela não se


cobrir, agora, eu não sei se serei capaz de me controlar. CAPÍTULO 10 Júlia Meus olhos se abrem e fixam em direção a uma grande janela de vidro que toma toda a parede do lugar onde estou. As grandes cortinas na cor creme estão parcialmente fechadas, mas daqui, consigo ver um pedaço do dia cinzento lá fora. Minhas sobrancelhas se unem e, abruptamente, me sento na cama em um sobressalto. Observo o ambiente com pouquíssimos móveis e vejo apenas dois criados mudos de cada lado da grande cama e um sofá bege. O lugar é bem masculino de cores neutras. Minha cabeça dói muito e, de repente, como uma avalanche, me vem à tona todos os acontecimentos de ontem à noite. Principalmente a cena onde Andrew golpeava o Adam. Amplio meus olhos exageradamente. Meu Deus! Será que Adam me trouxe para este lugar? Desesperada, salto da cama e então percebo que estou vestida apenas de calcinha e sutiã. Sinto-me tonta e não entra na minha cabeça como fiquei tão bêbada de uma hora para outra. Não consigo me lembrar muito do trajeto da festa até aqui e muito menos como vim parar neste lugar. O que vem a minha cabeça são apenas flashes e nada muito preciso. Meu coração bate em um ritmo acelerado enquanto procuro minhas roupas sem sucesso em cada canto desta suíte. Exalo um ar profundo e esfrego meu rosto. Decido seguir cautelosamente até a porta, quando, de repente, sou surpreendida com uma visão que imediatamente me deixa sem fôlego. Andrew está parado na entrada, segurando uma bandeja, vestido apenas com uma cueca boxer e cabelos bagunçados. Congelo. — Volte para cama — ele ordena e eu simplesmente não consigo responder. Tento me cobrir, enquanto seus olhos varrem todo o meu corpo descaradamente. — Como vim parar aqui? — pergunto confusa e ele exala um ar profundo. Andrew coloca a bandeja contendo cereais e café sobre o criado e, lentamente, aproxima-se de mim. — Eu a trouxe... carregada — ele diz com uma expressão séria e com seus olhos intensos sobre os meus. — O que exatamente aconteceu? — Você, desmaiou e... — Ele suga e solta o ar com força. — Você se lembra do que aconteceu ontem à noite? — Lembro-me apenas do Adam e você estava golpeando-o. Ele... — Minhas sobrancelhas se unem enquanto as lembranças voltam em minha mente.


— Ele me agarrou! — digo finalmente e Andrew aperta a mandíbula com força. — O filho da puta te dopou, Júlia! — ele responde com uma voz calma e controlada. Meu corpo treme com o que acabo de ouvir. — Como? — Andrew me encara com as sobrancelhas erguidas. — Júlia, o idiota estava naquela festa o tempo todo apenas te vigiando. Acredito que você tenha reparado em um "Zorro” — ele diz e eu encaro-o com perplexidade. — Como sabe que um homem fantasiado de Zorro me observava? — Andrew desvia seu olhar e se afasta sentando-se na cama. Ele coloca as duas mãos sobre seu rosto e apoia os braços em seus joelhos. Andrew esfrega seu rosto furiosamente e em seguida fixa seus olhos nos meus. — Eu fiquei! — ele confessa me fazendo unir as sobrancelhas. — Ele disse que te dopou, mas eu não vi. — Pisco freneticamente e, tudo isso parece surreal pra mim. Como pode? — A sua sorte é que o desgraçado não conseguiu dopá-la ainda mais. Era a intenção dele. Ele deixou claro que tinha "planos" para você. — Flashes de dentro do carro me vêm à mente. Sim, Adam disse que me dopou! — Você o matou? — Meu coração bate em um ritmo acelerado e ele me observa com uma expressão de raiva. — Infelizmente, não. O pilantra fugiu! — Como? Não me lembro muito bem, mas o pouco que me lembro é que você estava batendo nele. — Você parecia mal e ainda estava dentro do veículo. Eu o soltei imediatamente para te socorrer. Ele ainda estava deitado com seu rosto desfigurado e não imaginaria que ele tivesse força para fugir no estado em que se encontrava — ele me informa e meus olhos encaram nenhum ponto específico enquanto penso em tudo que fiz ao lado do Adam. Todos os momentos em que passamos juntos e como eu não havia notado o modo com que ele me olhava. Adam era excessivamente gentil e, isso despertava algo bom em mim. Ele jamais demonstrou um pingo sequer de agressividade. Nunca imaginaria que ele agiria assim. Nunca! — Por que você não me levou para o meu apartamento? — Andrew se levanta e vagarosamente caminha em minha direção. Ele se posiciona rente ao meu corpo e o dorso da sua mão direita passa sobre a lateral do meu rosto. Arrepios me percorrem dos pés a cabeça. — Eu queria te trazer para o meu apartamento. Para a minha cama. Queria cuidar de você — ele confessa e, sua última frase vem como um sussurro. — Não sei o que dizer, não tenho reação diante disso. Agora, chega de perguntas. Tome esse remédio. — Ele aponta para a bandeja de café onde não havia


reparado um pires branco contendo dois comprimidos. Andrew me conduz de volta para sua confortável cama como se eu estivesse doente. Ele coloca a bandeja sobre minhas pernas e se senta aos pés da cama. Andrew deita seu corpo e apoia os braços com o cotovelo. Olho para o cereal com iogurte, biscoitos e só agora percebo o quão faminta estou. Ele foi muito cuidadoso e preparou tudo de forma caprichosa. Começo a me alimentar e, quando meus olhos encontram os dele, percebo que Andrew sorri em divertimento. — O que foi? — pergunto com as sobrancelhas erguidas. — Apenas observando — ele diz e, pela primeira vez sinto-me constrangida pela forma de como ele me olha. — Vou tomar um longo banho no outro banheiro. Use a minha suíte. Deixei toalhas e um roupão pra você. — Ele se levanta e eu não consigo ignorar o fato de ele estar de cueca completamente à vontade. — Quero que fique o tempo que quiser — ele me informa e se afasta virando-se e me dando uma visão privilegiada de suas incríveis nádegas. Minutos depois, quando termino de me alimentar, sou interrompida por um barulho vindo do criado-mudo. Algo está vibrando dentro da pequena gaveta e instintivamente estico meu corpo já imaginando o que possa ser. Abro-a e vejo um aparelho celular. A minha curiosidade é maior e acabo pegando o aparelho e assim que olho para o visor, vejo o nome Kate. Ela deixou uma mensagem. Sei que estou invadindo a sua privacidade, mas mesmo assim, não consigo segurar a curiosidade. "Andrew, eu realmente fiquei muito feliz pela sua ligação. Saiba que ainda te amo muito. Espero que a sua iniciativa, seja um começo de uma nova história entre nós. Nosso amor não acabou, acredite! Sua Kate :) " Congelo imediatamente com o celular nas mãos. Então, é isso? Andrew tem um grande amor? Não me contenho e volto algumas mensagens e o que leio não ajuda muito. Andrew está carinhoso em todas elas. Sempre preocupado e prestativo. Suas mensagens são sempre muito curtas, mas em todas, existe certa preocupação. A última, por exemplo, ele dizia: “Não irei decepcioná-la dessa vez”. Está explicado o motivo de ele tratar todas as mulheres como mercadoria. Ele tem um grande amor que não está aqui. Parece que finalmente, ele tomou coragem de entrar em contato com essa tal de Kate. Por algum motivo, isso dói muito! Deus! Como sou burra! Mais uma vez estou me sentindo usada por ele, e dessa vez, nem houve contato físico. Essa história dele, sobre não se relacionar afetivamente, é mentira. Na realidade, ele não se relaciona com outras mulheres


que não sejam essa tal de Kate. Meus olhos estão perdidos e, por mais que não tenhamos nada, ou que ele não me deva satisfação, sinto-me enganada. Ele parecia carinhoso e, talvez mais aberto do que das outras vezes, mas claro que isso só pode ser um truque para me manter em sua cama. — Droga, preciso sair daqui! ***


Andrew Termino meu banho e enrolo a toalha em volta dos meus quadris. Por algum motivo, sinto-me revigorado, animado e muito bem por ter a Júlia aqui. Algo que eu não sei explicar. Apenas gosto de tê-la aqui. Curvo os lábios em um leve sorriso com os meus próprios pensamentos. — O que está acontecendo com você? — sussurro para mim mesmo enquanto faço o meu caminho em direção ao meu quarto. Assim que chego, vejo que ela não está deitada, então, acredito que ela tenha ido tomar um banho. Aproximo-me da porta do banheiro que está semiaberta e com a luz acesa. Empurro-a lentamente e, ela não está aqui. Olho para a cadeira onde deixei seus pertences e não há nada ali. Minhas sobrancelhas se unem. Onde diabos ela se meteu? Saio a passos largos e desço as escadas vasculhando cada centímetro quadrado do meu enorme apartamento e, nada! — MERDA! Cadê você, Júlia? — digo com exasperação na voz e exalo um suspiro profundo. Soco a porta sabendo que nada disso adiantará. Nenhuma atitude a fará voltar. Ela preferiu sumir e eu não pude deixar de lembrar de que havia feito a mesma coisa com ela, naquele hotel. Porém, diferente de mim, ela decidiu não deixar um bilhete. Coloco minhas mãos sobre a cabeça e minha raiva cresce ainda mais. Ela parecia relaxada e de repente desaparece, sem nem ao menos me dar nenhuma explicação? — Droga! — praguejo e pego o celular. Ainda bem que tive a ideia de gravar o seu número nele, enquanto ela dormia. Pressiono o seu número e, ela definitivamente, não atende. Aliás, ela não quer me atender. Decido deixar algumas mensagens que também não são respondidas. Ela só pode me odiar! Não existe explicação para isso. CAPITULO 11 Júlia Talvez eu me arrependa de ter saído do seu apartamento daquela maneira impetuosa. Talvez, Andrew tivesse uma explicação sobre quem é essa tal Kate. Porém, nenhuma explicação mudaria o que eu vi naquelas mensagens. Estava claro para mim que essa mulher, seja ela quem for, faz parte da sua vida e não do seu passado. As mensagens eram extremamente claras e eu, obviamente, estaria sobrando nessa história. Serviria apenas de consolo enquanto Kate não retorna para sua vida.


Assim que pude, contei à Jessica sobre os acontecimentos aterrorizantes com o Adam e ela parecia em estado de choque. Disse a ela como fui parar no apartamento do Andrew e sobre a minha curiosidade infantil que acabou resultando em minha rápida fuga. Ela havia ficado na casa do namorado e então, decidi contar apenas quando ela voltasse. — Nossa, se não fosse o Andrew, você poderia estar morta agora, ou sei lá. — Ela exala um ar profundo. — Você tem que denunciá-lo, Júlia! Isso não pode ficar assim — ela diz com exasperação na voz e eu concordo com a cabeça. — Depois pensarei sobre isso. — Jessica me lança um olhar de reprovação. — Júlia, você precisa fazer isso o mais depressa possível. É para o seu próprio bem e segurança! Se ele já tinha alguma intenção maldosa como você mesma havia me dito, então, seus cuidados serão redobrados a partir de agora. — Eu sei. Adam provou que é um louco agindo daquela forma. — Tento não chorar, mas minhas lágrimas insistem em descer dos meus olhos. Jessica se aproxima e segura meu rosto com as mãos. — Ju, você é uma pessoa maravilhosa e ninguém nesse mundo vai tirar isso de você, entendeu? Sobre o Andrew, sei que com certeza que você irá encontrar a pessoa certa. — Ela me dá um sorriso meigo. — Não creio que o Andrew seja alguém que se relacione, mas confesso que fiquei intrigada com a atitude dele. — Jessica exala novamente um ar profundo e passa as mãos carinhosamente sobre os meus cabelos. — Estou aqui. Sempre ao seu lado. Nunca se esqueça disso. Emocionada, eu a abraço apertado. Acredito que sozinha nesse país desconhecido, não iria suportar. *** A semana se arrastou lentamente e depois do dia em que saí do apartamento do Andrew, ele tentou entrar em contato principalmente através de mensagens. Eu me perguntei em qual momento ele havia adquirido o meu telefone, mas decidi não querer saber. Afinal, isso não importa mais. Não o respondi de forma alguma até ele finalmente desistir. Confesso que me segurei por várias vezes em retornar suas ligações ou subir até sua cobertura com o intuito de entender a situação. Porém, aquelas mensagens simplesmente não saem da minha cabeça. Andrew ama outra mulher. Durante a semana, cheguei a procurar empregos, mas não achei nada que eu realmente me identificasse. Ainda bem que posso me dar ao luxo de não trabalhar por enquanto. Tenho um bom dinheiro guardado e até hoje quase não gastei. Este mês, Jessica me surpreendeu com as contas pagas o que me deixou um pouco frustrada, mas eu a fiz prometer que no próximo mês eu a ajudaria. Até esse trabalho com o Adam, estava bom demais para ser verdade. Adam


só me contratou com segundas intenções e isso foi a única verdade que Freda disse desde que tive o desprazer de conhecê-la. No sábado pela manhã, pulo da cama sentindo-me mais animada que nos outros dias. Afinal, minha mente foi preenchida pela visão de um certo homem que mora na cobertura e que eu deveria esquecer. Estou disposta a tentar esquecer o que houve com o Adam e Andrew. Sei que deveria ir à polícia, mas simplesmente não tive ânimo e muito menos forças para isso. Embora eu esteja nos Estados Unidos, eu sei que as leis são diferentes, acredito que deveria ter ido no momento em que ocorreu tudo. Não tenho provas e certamente isso me traria muitas dores de cabeça. Termino de me vestir com uma roupa quente e confortável para encarar este frio que me espera. Sigo em direção à sala e, antes de sair, deixo uma mensagem para que a Jessica não se preocupe comigo caso ela acorde. Feito isso, saio pela porta apenas com a intenção de me distrair e tentar mudar o foco dos meus pensamentos. Sinto um ar frio tocando o meu rosto enquanto caminho pela quinta avenida. Já estou com meus fones de ouvidos e a música que toca é: "93 Million Miles” Jason Mraz. Exalo um ar profundo enquanto caminho, deixando que o som entre em todos os meus sentidos. Enquanto passeio pelo Central Parque admiro os galhos secos das árvores que nessa época estão bem mais visíveis. Já estamos em novembro e o frio começa a ficar intenso por aqui. As pessoas passam sempre apressadas, mas nunca posso deixar de reparar quão diferentes e despreocupadas elas são. Nova Iorque é caracterizada pelas diversas culturas, o que nos deixa completamente à vontade em qualquer lugar. Aqui, ninguém se preocupa com suas roupas ou estilo. Apenas vivem suas vidas. Viajo pelas lindíssimas e originais vitrines da quinta avenida, um dos lugares mais visitados pelos turistas em Manhattan. Quando dou por mim, já estou bem próximo ao Hotel onde há pouco tempo passei por um dos piores momentos da minha vida e que hoje eu sei, pertence ao Andrew. Paro por um momento observando a portaria antiga e elegante lembrando-me do dia em que passei por ali, me sentindo humilhada. De repente, percebo um carro preto encostando-se à entrada e me recordo que este carro só pode pertencer ao Andrew. O manobrista desce do veículo, indicando que veio entregar o carro ao dono. Isso significa que Andrew sairá por aquela porta a qualquer momento. Em um ímpeto, me escondo atrás de uma banca de jornal do outro lado da rua e meus olhos não saem de lá. Não sei o que estou fazendo, mas quero apenas observá-lo. Finalmente, Andrew sai do hotel e meu coração bate em um ritmo


acelerado. Sinto-me aliviada ao perceber que ele está alheio a minha presença. Entretanto, meu coração dá um salto quando noto que ele está acompanhado por uma mulher linda de cabelos loiros e longos. Ela parece bem íntima a ele e eu não pude deixar de reparar que suas mãos estão entrelaçadas. Enquanto ela o observa com devoção, ele olha para o visor do seu aparelho celular. Uma lágrima solitária começa a cair e meu coração parece que vai sair pela minha boca. Afasto-me daqui antes de ser vista e sigo novamente pela quinta avenida em direção ao meu apartamento. Praticamente corro em desespero e quando me sinto longe o bastante, sento-me sobre um banco no primeiro local que encontro. Uma hora depois, saio do meu estado de choque e finalmente me levanto, sentindo-me decente para retornar. Ando dispersa pelas calçadas pensando no que vi há uma hora. Quando ergo minha cabeça, vejo novamente o carro do Andrew estacionando bem no momento em que chego à frente do edifício. Que merda de coincidência! Congelo e, novamente meu coração dispara ao vê-lo sair. Andrew fecha a porta e imediatamente seus olhos encontram os meus. Dessa vez não há como escapar nem me esconder. Terei que enfrentá-lo. Ele me encara intensamente quando percebo a loira descendo do banco carona. — Andrew, querido! — Ela percebe a tensão entre nós, mas volta à atenção apenas para ele que sai do transe que aparentemente se encontrava. — Sim? — ele pergunta, mas seu olhar ainda está fixado sobre mim. — Esqueceu-se de abrir a porta do carro para mim? — Andrew não responde a sua pergunta e rapidamente caminha em minha direção. — Preciso falar com você! — Sua voz soa em um tom sério. — Acho que... — Olho para a mulher que nos observa impacientemente. — Não temos nada o que conversar. — Ele suga o ar com força. — Quem é essa, Andrew? — a loira pergunta com as sobrancelhas erguidas. — Ela é... — silêncio — a minha vizinha, Kate — ele responde quase como um sussurro. Mas antes que ele fale mais alguma coisa, eu subo pelas escadas em direção ao meu apartamento. Andrew acabou de confirmar que as minhas suspeitas estavam totalmente corretas. Essa é a Kate e seja lá o que ele queira falar comigo, eu não estarei disposta a ouvir. ***


Andrew Mesmo morando a alguns andares de distância da Júlia, ela fez alguma mágica para que não nos encontrássemos de forma alguma. Por vezes, me segurei para não ir ao seu apartamento e acabar estragando tudo. Não sei ao certo, mas senti que ela não queria me ver. Definitivamente, eu não me conheço. Esse não sou eu. O Andrew que costumo ser, ficaria feliz de ter conseguido se livrar de mais um problema amoroso. No entanto, Júlia parece estar impregnada em mim. Sua saída abrupta do meu apartamento me fez pensar em várias coisas e, até agora não cheguei a nenhuma conclusão. Durante a semana, preferi me manter ocupado, já que havia muitos relatórios, contratos e reuniões pendentes com fornecedores. Não tive tempo de entender exatamente o que houve, mas espero e quero encontrá-la em breve para que ela me explique pessoalmente. Silenciosamente, Júlia pediu um tempo e eu estou dando esse tempo. Jamais corri atrás de mulher alguma e não será agora que me tornarei um perseguidor. Hoje é sábado e decidi resolver algumas pendências do meu escritório aqui em minha casa. Tento me concentrar e por algumas poucas horas eu até consigo, mas vez ou outra a imagem da Júlia dormindo sobre a minha cama, surge em meus pensamentos. De repente, meu telefone toca trazendo-me de volta a terra. Olho para o visor e vejo que é, Kate. Minhas sobrancelhas se unem. O que ela quer dessa vez? — Kate? — Andrew, preciso que você me pegue aqui no aeroporto, tenho médico marcado daqui uma hora. — O que? Médico no sábado? — Ela havia me dito que viria no próximo mês para se consultar com um dos melhores psiquiatras de Manhattan. Enviei o dinheiro para que ela resolvesse essa pendência e agora ela apenas me diz que já está aqui? — Kate, você havia me dito que viria no próximo mês... — Você prometeu me ajudar — ela me interrompe. — Andrew, consegui uma vaga na agenda para hoje. Você me ligou, eu acho que está na hora de sermos ao menos amigos. Eu preciso de você, Andrew! Mais do que nunca. — Ouço-a respirar pesadamente. — Você me deve isso! Exalo um ar frustrado e totalmente vencido. — Tudo bem! — respondo resignado. Depois que entrei em contato com a sua família para saber notícias sobre como estão indo os tratamentos que por sinal, já venho pagando há vários anos, ela simplesmente não para de me importunar. Liga, manda mensagens e na sua


cabeça, voltaremos a namorar um dia. A única coisa que me faz ter contato com Kate é aquela sensação terrível de me sentir o único culpado por ela estar nessa situação. Por minha culpa, ela começou a usar drogas e hoje precisa de tratamentos ou voltará. Kate e eu tivemos um relacionamento quando éramos mais jovens. Ela me traiu, eu a abandonei e ela voltou grávida, dizendo que a criança era minha. Claro que eu não acreditei devido às circunstâncias. No entanto, fizemos os exames e o filho realmente era meu. Independente disso, eu a abandonei, mas disse que daria total ajuda ao bebê. Apenas não queria mais vê-la. Depois disso, Kate se entupiu com todo tipo de drogas e consequentemente perdeu o nosso bebê. Eu só fiquei ciente sobre tudo, quando seus pais me culparam. Confesso que a ideia de ser pai me fez sentir um homem diferente na época. No início, ela estava fazendo pré-natal em uma das melhores clínicas da cidade onde morávamos. Fiz questão de que ela tivesse os melhores tratamentos, mas por causa da minha negligência, ela jamais se submeteu a nenhum. Kate só havia colaborado nos primeiros meses, mas eu nunca estava presente. Ela me enviava os exames de ultrassom pelo correio mostrando-se animada. Porém, ela estava com alguém que a levou para o fundo do poço. Esse alguém que eu não sei quem é, mas que a empurrou para o mundo das drogas. Ela é um dos motivos de me fazer afastar de todas as mulheres que queiram se relacionar de forma amorosa. Depois de buscá-la no aeroporto, sigo em direção ao meu hotel. Quando o carro se aproxima, ela me observa com uma expressão de surpresa. — Você não vai me levar para o seu apartamento? — Encosto o carro e me viro para encará-la nos olhos. — Não. Além de você não ter me avisado da sua vinda, não costumo levar hóspedes, principalmente mulheres, para a minha casa. — Ah, Andrew! Tenho certeza de que você irá abrir uma exceção para mim, certo? — Sua mão esquerda toca a minha perna e eu a encaro erguendo minhas sobrancelhas. — Oh, desculpe! Força do hábito! — ela diz e eu não sei do que ela está falando. Não tenho nenhuma intimidade com ela há anos. Acho que ela realmente precisa dessa consulta. Faço o check-in da Kate como qualquer outro hóspede, e mando meus funcionários levar suas malas para uma suíte. Sigo direto para meu escritório onde eu aproveito para organizar algumas coisas. Assim que termino, mando uma mensagem para o manobrista trazer meu carro e desço em direção à entrada. Passo pela recepção alheio com os olhos presos à tela do meu aparelho celular. — Aonde vai? — Sinto as mãos da Kate entrelaçando com a minha. Paro


imediatamente e a encaro. — Qual o problema andarmos de mãos dadas? Somos amigos, certo? — Eexalo um ar profundo. — Kate, vá descansar. Mais tarde eu te busco e vamos à consulta. — Você não respondeu a minha pergunta. Aonde você vai? — Para minha cobertura. Tenho uns papéis que preciso organizar por lá. — Me deixa ir com você? Eu prometo que não atrapalharei. Juro! — Ela junta as mãos, implorando e se eu disser não, sei que ela vai insistir e causar uma cena na frente de todos os meus funcionários. Os pais da Kate me alertaram sobre súbitas mudanças de comportamentos e não será agora que estarei disposto a ver. — Okay, você vem comigo! — Um sorriso se amplia em seu rosto. — Mas quero que você fique quieta e na sala, enquanto faço algumas ligações. — Ela concorda com a cabeça e em seguida, seguimos em direção ao meu carro. No trajeto, Kate me fez ir a uma farmácia para comprar produtos de higiene pessoal. O trajeto que duraria menos de cinco minutos, demora por volta de uma hora. Finalmente, estaciono o carro em frente ao meu edifício e quando desço, paraliso com os meus olhos presos na Júlia que me observa intensamente. — Esqueceu-se de abrir a porta do carro para mim? — Kate diz e eu a ignoro. Preciso falar com a Júlia. Não era neste momento, mas preciso tentar. Júlia parece triste como se estivesse chorado o tempo todo. Seu olhar sobre Kate demonstra sua insatisfação e tristeza. — Preciso falar com você! — digo enquanto me aproximo dela. — Acho que não temos nada o que conversar! — ela responde com uma expressão firme agora. — Quem é ela, Andrew? — Ela é... — "a mulher que tem tirado o meu sono e que a cada dia me deixa louco". — A minha vizinha, Kate. — respondo apenas, já que Júlia parece irredutível. Ela se afasta e corre em direção ao edifício me deixando sem reação. Não quero que a Kate saiba de nada sobre a Júlia. Sobre minhas mudanças. Tenho certeza de que se souber, ela poderá infernizar a sua vida. Exalo um ar profundamente e minha vontade, é de correr atrás da Júlia, sacudi-la e fazê-la dizer o que realmente está acontecendo. Sua expressão me diz claramente que isso não vai dar certo. Ela não me quer, já que provavelmente está pensando que a Kate é mais um caso meu. CAPITULO 12


Júlia Embora eu tenha muito receio com o que farei da minha vida daqui por diante, sinto-me feliz em estar fazendo algo que realmente amo. Decidi fotografar, emoldurar e vender os meus quadros. Para isso, precisava de ajuda e não demorou para Jessica achar essa ajuda. Ela falou com Ashley, a sua amiga, que depois de ver os meus quadros, ficou bem entusiasmada em mostrá-los para sua irmã que tem uma loja de souvenirs na Times Square. Desde então, dediqueime a fotografar vários pontos turísticos na cidade de Nova Iorque e o resultado não poderia ser melhor. As imagens ficaram lindas e Diana, a irmã da Ashley, ficou encantada. Em poucos dias com os quadros que havia passado, já estava um sucesso de vendas. Estamos todas muito empolgadas. Fotografar para mim, é muito além de um "click". Retorcemonos para encontrar o ângulo perfeito. Os lugares que olho são vistos primeiramente com a minha alma. Cada paisagem é fotografada dentro de mim e somente depois eu as fotografo. Enquadro a imagem, consigo ver as sombras, o efeito e até mesmo como ficará antes mesmo de eternizá-las. Talvez, se não fosse por isso, eu não teria conseguido aguentar esse vazio que me consome a cada dia até aqui. Já estamos em dezembro e finalmente a minha vida voltou a tomar rumos diferentes. No entanto, Andrew, como era de se esperar, não me procurou mais desde que o vi com a tal Kate. Recentemente, soube através da Jessica que ele está em Los Angeles na Califórnia, onde fica a casa do seu pai. Adivinha quem deu a notícia? Só podia ser o Josh. Confesso que isso mexeu comigo em um nível inimaginável. Pensei em um milhão de coisas, principalmente, sobre a tal mulher. Acho que não encontra-lo acabou sendo um grande facilitador para não cair de vez em depressão. No entanto, não há um só dia em que eu não pense naquele bastardo. Queria arrancar aquele homem da minha vida, mas eu simplesmente não consigo. Diana é um amor e estamos nos dando muito bem. Combinei de ir à loja, uma ou duas vezes na semana para repor os quadros vendidos. Nunca poderia imaginar que as pessoas ficariam tão apaixonadas. Recebi elogios de vários turistas e uma das vantagens de estar em Nova Iorque é de ter a oportunidade de interagir com pessoas do mundo inteiro. *** Falta uma semana para o Natal e mesmo que os meus investimentos com os quadros tenham trazido ótimo retorno financeiro, sinto-me triste. Não sei se tem relação com a época do ano ou com uma certa pessoa que mesmo eu sabendo que o melhor é ficar afastada, não voltou mais. Sim, estou falando do Andrew. Ele não deu as caras. Aliás, eu não o vejo desde o encontro bizarro com a tal


Kate. Provavelmente, ele deve ter voltado à sua rotina normal. Vivendo na Califórnia com o seu grande e eterno amor, ou seja lá o que essa mulher representa para ele. Sei que eu o queria longe, mas eu me pergunto o motivo de tê-lo tão próximo, principalmente em meus pensamentos. Estive tão desanimada que nem vontade de comemorar o dia de Ação de Graças eu tive. Aliás, não tenho ânimo nem para comemorar o Natal. Nem mesmo os incríveis enfeites natalinos espalhados por toda Nova Iorque me fizeram sair de casa. O clima na cidade é bem animado com muitos "papais-noéis" passeando de um lado para o outro e a música natalina preenchendo todos os lados, mas o problema é que eu não encontro clima algum. Não tivemos tempo para nada em dezembro. Jessica está ensaiando todos os dias para começar sua primeira apresentação na próxima terça-feira e eu, entre tirar fotos, emoldurar e levá-las para loja. Compramos uma árvore de Natal tão grande quanto os exageros da Jessica. Precisávamos entrar no clima a força e aqui estamos nós, colocando o último enfeite sobre nossa primeira árvore juntas em Nova Iorque. Meu primeiro Natal longe dos meus pais. — Prontinho. Agora vamos nos arrumar! — Jessica diz enquanto fecha a última caixa de enfeites. Ergo as sobrancelhas encarando-a confusa. — O que foi? Disse algo errado? Quero que você saia comigo e o Alan. Vamos a um restaurante super badalado. — De jeito nenhum! — contesto. — Não tenho vocação para ser vela — digo, e ela ri. — Já resolvi esse problema. Alan chamou o Ethan, um homem bonito e galanteador para nos acompanhar! — Meu olhar agora é de total surpresa. — Você não faria... Faria? — Minha boca se abre ligeiramente — Não só faria, como fiz! — ela exala um suspiro profundo. — Não aguento mais te ver com essa cara de quem comeu e não gostou todos os dias. Você precisa reagir. Pensa que não percebi, mas eu percebi o seu desânimo. Acho que você merece dar uma chance a você. Além do mais, é só um passeio. — Encaro-a pensativa e acho que ela, como sempre, está coberta de razão. Não posso ficar pensando em alguém que eu mesma afastei. Preciso seguir em frente. Depois de entrar em um belo vestido preto com um decote que realça meus seios, sinto-me linda com uma maquiagem que marca levemente meus olhos compondo um visual sofisticado. Meu cabelo está solto e torcido na lateral. Jessica, também optou por vestir um preto com um grande decote nas costas, destacando seus cachos vermelhos. Ela aparece na sala onde estou, com duas taças de champanhe nas mãos e um grande sorriso estampado no rosto.


— Um brinde à vida! — ela diz, e eu sei que tudo isso é para me animar. Jessica é naturalmente alegre e tem um dom para isso. Sorrimos e brindamos, mas logo em seguida a campainha toca. — Devem ser os meninos! — ela diz animadamente enquanto praticamente corre em direção à porta. Sento-me no sofá e coloco a minha bebida sobre a mesa de centro. Meus olhos viajam sobre a taça pensativa quando, de repente, uma voz muito familiar chama a minha atenção. — Júlia está? — essa voz só pode ser a do Andrew ou eu estou ficando louca. Levanto-me e inesperadamente, ele surge com uma expressão séria. Pareço uma estátua e percebo seus olhos viajando por todo meu corpo. Por alguns segundos ele apenas viaja seus olhos até que, finalmente, eles encontram os meus. — Você está linda! — Andrew exala um suspiro profundo. — O que faz aqui? — Tento fingir que sua presença não me afeta, mas eu falho vergonhosamente. — Preciso falar com você! — ele sussurra. — Você já se cansou da sua namorada? — questiono, e ele me observa com uma expressão confusa. — Do que você está falando? Kate não é a minha namorada. — Eu vi as mensagens. As juras de amor entre vocês. Não precisa mentir, Andrew. Sei que agi errado, mas eu vi. Ninguém me contou. — Encaro-o nos olhos. — Não tenho esse direito, mas eu não aguentava o barulho do aparelho e... — não concluo o que digo e Andrew parece pensativo agora. — O que você leu, exatamente? — ele questiona com um olhar hesitante. — Disse que ficou feliz pela sua ligação. Que ainda te ama e adorou a sua iniciativa. Ela espera que vocês comecem uma nova história. Enfim, depois eu os vi juntos e vocês pareciam muito íntimos. O que quer que eu pense? — Exalo um ar profundamente e Andrew fica em total silêncio. — Quem é ela, Andrew? — questiono, e ele se senta no sofá apoiando os seus braços sobre os joelhos. — Ela por um acaso é a sua antiga namorada? — Ele me encara nos olhos com uma expressão atordoada. — Sim... — Andrew sussurra e imediatamente fecho meus olhos. Droga. Eu sabia. Ele ama outra mulher. — Então o que você faz aqui? — Ela não é mais. — Ele levanta e aproxima-se de mim. — É uma longa história, Júlia — ele conclui. — Se você não a ama, por que diabos estavam de mãos dadas? — Ele me encara com perplexidade. — Você estava lá?


— infelizmente, sim. Foi uma coincidência e eu não programei vê-lo — digo em tom de ironia. Andrew abre a boca fazendo menção em falar, mas somos interrompidos pelo barulho da campainha. Eu nem havia percebido que Jessica já não estava mais aqui. Desvio-me rapidamente dele e sigo em direção à porta. Andrew está parado no mesmo lugar ainda muito pensativo. Assim que abro, vejo que dessa vez é o Alan com o tal amigo. — Oi, Júlia, vocês estão prontas? Este é o Ethan — Alan nos apresenta. — Muito prazer, Júlia! — O prazer é meu. — Ethan me observa com seus olhos castanhos e intensos. — Entrem, a Jessica está vindo. Quando entramos na sala, percebo imediatamente o clima tenso. Andrew crava seus olhos no Ethan. — Andrew, estes são Alan e Ethan — apresento-os e ele os cumprimenta apenas com um acendo de cabeça. Seu rosto se transforma em uma máscara de insatisfação. Andrew reveza seus olhares entre mim e o Ethan e, eu já imagino o que ele esteja pensando. Ethan o encara da mesma forma, se sentindo confrontado. Eles demonstram claramente que não estão para brincadeira. Depois de seus olhares intensos e sem dizer nada, Andrew segue em direção à porta. Quando está prestes a sair, repentinamente, ele se vira fazendo menção em dizer algo, mas logo desiste e dessa vez ele sai sem olhar para trás. Um nó se forma em minha garganta e um sentimento de perda toma conta de mim. Por que eu tenho a sensação de que eu deveria ir atrás? Por que Andrew me afeta tanto? Apesar dos meus pensamentos, vez ou outra, irem de encontro ao Andrew e o que ele me disse sobre ele e a Kate não serem namorados, o tempo transcorreu muito bem. Fiz todo o esforço possível para me concentrar no momento, e na maioria das vezes, acabou funcionando. Ethan é muito simpático, mas não me despertou algo especial como gostaria. Ele me deixou muito à vontade ao ponto de conseguir finalmente relaxar. Apenas isso. A nossa noite terminou com a minha amiga indo para a casa do Alan e Ethan gentilmente me levando para a casa. Quando chegamos à entrada do meu prédio, ele foi muito respeitoso e, na despedida, beijou a minha mão. — Espero ter a honra de vê-la mais vezes — ele declara, com o seu olhar intenso sobre o meu. — Claro, não faltarão oportunidades! — Apesar de gentil, Ethan ainda não


despertou nada em mim, nem mesmo vontade de beijá-lo. Despeço-me dele e saio do carro seguindo em direção aos elevadores. O elevador alcança o meu andar e quando a porta finalmente se abre, eu congelo no lugar. Bem ao lado da minha porta está Andrew observando-me intensamente. Ele está encostado, carregando uma garrafa de uísque praticamente vazia. Sua camisa de linho branco está amassada e aberta até a metade revelando seu peitoral rijo e definido. Andrew parece estar bêbado agora. Ele tenta vir em minha direção, mas tropeça em seu próprio pé quase caindo. Apresso-me em segurá-lo e ele enrola seus braços em volta do meu pescoço. — Eu estou bem! Só bebi um pouco demais — ele informa, justificando seu tropeço com uma voz arrastada e só agora percebo que ele está além de bêbado. — Você está bêbado — afirmo, e ele ergue suas sobrancelhas. — Serio? Não percebi! — ele brinca, fazendo-me curvar meus lábios em um leve sorriso. — Por que está aqui? — Ele ignora a minha pergunta e enfia o seu rosto na curva do meu pescoço. Fecho os olhos momentaneamente sentindo a sua proximidade e logo percebo o que estou fazendo. — Esqueça a minha pergunta. Vamos, dê-me a sua chave de casa — peço e ele não se move enquanto seus braços apertam os meus ombros. Andrew inala o meu cheiro e arrepios percorrem todo o meu corpo. Respiro profundamente, inalando seu cheiro que mesmo bêbado, ainda é delicioso. Enfio as minhas mãos sobre o seu bolso e retiro um molho de chaves. Andrew continua curvado me abraçando enquanto tento levá-lo para o elevador. — Venha. — Ele me segue lentamente e, aos poucos, entramos dentro do cubículo. Pressiono o número do seu andar e Andrew não para de me abraçar um só segundo. Assim que o elevador anuncia a chegada, seguimos cambaleando em direção ao seu apartamento. Com muita dificuldade encontro sua chave, já que Andrew parece dormir em pé. Finalmente entramos e bem lentamente, conduzoo em direção ao sofá que fica próximo a grande parede de vidro nos garantindo uma visão incrível das luzes de Manhattan. Andrew se joga, literalmente, sobre o seu confortável sofá e não se move mais. Ele está torto e eu pego uma almofada apoiando sua cabeça sobre ela. Tiro seus sapatos e ajeito seus pés, porém, nada se compara a uma cama. Andrew está dormindo e nesse momento, movida pelo desejo, sento-me ao seu lado no sofá. Passo o dorso da minha mão sobre a lateral do seu rosto e ele nem se mexe. Quando decido me levantar, sinto seus braços fortes envolvendo a minha cintura impedindo-me de sair. ***


Andrew Fui para Los Angeles com o intuito de esquecer uma certa mulher que atrevidamente se enfia até mesmo dentro dos meus sonhos mais profundos. Júlia se transformou em um grande enigma para mim, já que venho modificando a minha intocável rotina apenas para não vê-la. Kate retornou para Memphis no dia seguinte e eu não tive mais notícias dela. Simplesmente não a atendo, já que ela é a única culpada da Júlia não querer mais falar comigo e neste momento estar jantando com outro homem. Com aquele babaca que foi buscá-la. Betty havia se surpreendido com a minha chegada, já que ela estaria a caminho de Nova Iorque. Disse a ela que estava fugindo de uma mulher e ela não achou nenhuma novidade no que disse, e ousou a rir da minha cara, mas quando contei que estava fugindo dela exatamente porque ela desperta algum sentimento em mim, ela parecia não acreditar nas minhas palavras. Betty é como uma mãe para mim. Ela me criou desde que nasci e não a vejo como uma empregada ou algo do tipo. Depois que revelei o verdadeiro motivo de estar longe de Nova Iorque, ela apenas disse uma frase que me fez mudar de ideia e pegar o primeiro voo de volta: "Se ela despertou algo em você, vá atrás antes que outro chegue primeiro". Não pensei duas vezes. De alguma forma, suas palavras me despertaram a vim para cá o mais depressa possível. Essa madrugada, Betty também estará aqui, já que eu antecipei o seu voo. Devido a minha pressa, ela não pôde vir comigo, mas obviamente, quando acordar, ela já estará aqui. Mal pude acreditar que suas palavras fossem proféticas. No momento em que pisei em seu apartamento, já havia um candidato a pretendente e até agora não consigo disfarçar a minha raiva e ansiedade. O problema é imaginar o idiota tocando nela, beijando-a e tentando convencê-la com o seu papo idiota. De repente, meu celular toca tirando-me dos meus pensamentos e quando olho para visor, vejo que é o meu pai. Embora já esteja bebendo a algum tempo, atendo rapidamente. — Pai, finalmente... — Ele não me deixa continuar. — Filho, eu já disse que estou nas Filipinas. Férias! Preciso de férias! Como vão os negócios? — Exalo um ar profundo. — Tudo sob controle! — respondo, mas noto que sua voz está um pouco cansada. — O senhor estava dormindo? Parece-me cansado. Silêncio... — Sim. Estava descansando, mas a sua voz está muito lenta, anda bebendo, meu filho? — Estou em casa e seguro. Não se preocupe! — respondo rispidamente. — Pai, já faz meses que você resolveu dar a volta ao mundo, ou seja lá que tipo de


viagem é essa que não acaba nunca. Eu te apoiei porque concordei que precisava dar um tempo. Porém, está na hora de voltar. — Ouço-o respirar pesadamente. — Em breve, meu filho. Estou de olho em tudo por aqui! Deixa seu pai conhecer os lugares e em breve eu estarei de volta. — Ok, mas me dê notícias! — Sim, darei. Agora, preciso desligar. — Ele exala um suspiro profundo. — Filho... Não gosto que beba. Confiei uma empresa em suas mãos. Não estrague tudo! — Respiro com resignação. — Tudo bem. Vou me controlar! — Eu confio em você. Eu te amo, meu filho! — Eu também! Desligamos e eu sinto um aperto no coração como se algo estivesse muito errado. De qualquer forma, foi bom falar com o meu pai. As horas se passaram e eu já bebi tudo o que tinha para beber. Neste momento, estou de pé com o meu corpo encostado ao lado da porta da Júlia, mas ela não está aqui. A única coisa que me vem à mente são as palavras da Betty: “Vá atrás dela antes que outro chegue primeiro". Será que cheguei tarde demais? Dou um último gole na minha bebida e, de repente, a porta do elevador se abre e, finalmente vejo Júlia saindo com uma expressão de surpresa no rosto. Ela está sozinha. — Você está bêbado! — Jura? Não percebi! — Por que está aqui Andrew? A única coisa que eu sei é que meu corpo está novamente perto do dela e eu só sinto vontade em abraçá-la. Aperto-a como se ela fosse fugir de mim novamente. Eu sei que ela está me levando para o meu apartamento. Estava tão bêbado que nem sei como a Júlia conseguiu me conduzir até a minha cobertura, mas agora, apenas sinto um cheiro delicioso floral e quando abro os olhos, vejo-a aqui, dormindo ao meu lado sobre o meu sofá. Ela está com sua cabeça apoiada sobre meu peito e dorme tranquilamente enquanto seus braços apertam o meu corpo. Nossos rostos estão tão próximos que posso sentir a sua respiração. Seus lábios cheios estão levemente abertos e convidativos. Estou completamente fascinado e, lentamente aproximo meus lábios dos dela e a beijo levemente para não acordá-la. Inesperadamente suas pernas enlaçam sobre meu corpo e a minha reação é imediata. Estou rígido, feito uma pedra e a única coisa que quero é senti-la novamente.


Respiro fundo e tento me acalmar antes que eu a agarre. Não quero que ela vá embora, já que é madrugada e precisamos de uma cama juntos. Preciso dela aqui, mas não sei exatamente por quê. Apenas preciso! Desvencilho-me do seu corpo aos poucos e quando estou finalmente de pé eu vagarosamente envolvo seu corpo em meus braços e Júlia resmunga algo ininteligível, mas instintivamente enrola seus braços em volta do meu pescoço. Enquanto subo os degraus, ela enfia sua cabeça na curva do meu pescoço e exala um pequeno suspiro. Assim que chego ao meu quarto, eu a coloco delicadamente sobre a minha cama. Retiro a sua roupa deixando-a apenas de sutiã e calcinha, respiro profundamente enquanto meus olhos varrem cada curva do seu belo corpo. — O que você está fazendo comigo, Júlia? — sussurro e ela nem se mexe. Retiro a minha roupa ficando apenas cueca, deito-me ao seu lado e mais uma vez, aquela sensação de paz que há muito não sentia me invade. Puxo-a para que seu corpo fique próximo ao meu e, aos poucos, meu corpo relaxa. Dessa vez, não é apenas pela presença da Júlia que em si já é um calmante. Não, sinto-me exausto por ter ingerido muito uísque e por esse motivo não demora muito para que eu me entregue novamente ao sono profundo. CAPÚTULO 13 Júlia Parecia um sonho. Lábios quentes me beijaram e um corpo forte me carregou para um lugar macio. O cheiro do Andrew esteve o tempo todo impregnado em mim como se... Abro os olhos, e num impulso, sento-me sobre a cama me deparando com o mesmo quarto em que adormeci depois de uma noite bizarra. Sim, esse é o quarto do Andrew. Então, não era um sonho? A resposta para minha pergunta sai do banheiro apenas com uma toalha enrolada nos quadris deixando à mostra seu abdômen rijo. Seus cabelos estão molhados e a barba por fazer dando-o um aspecto másculo e sexy. Deveria ser ilegal tanta beleza em um só homem. — Gosta do que vê? — ele pergunta com as sobrancelhas erguidas e um divertimento no olhar. Saio do transe em que me encontro percebendo o quão idiota eu sou por deixá-lo saber que sua presença me afeta. — Dormiu bem? — Andrew pergunta, caminhando em minha direção com os olhos fixados no meu corpo. Olho para baixo e me deparo com o meu corpo despido. Estou apenas de sutiã e calcinha. Andrew e sua mania de tirar as minhas


roupas sem que eu perceba. Como ele faz isso? — O que estou fazendo na sua cama? — Ele ergue as sobrancelhas e me lança um olhar de deboche. — Até há pouco tempo, dormindo! — ele me informa com sarcasmo impresso na voz. — Você entendeu! — respondo de forma ríspida e ele me encara com uma expressão séria. Eu só queria entender o motivo dele me querer aqui. Quero entender sua aparição depois de muitos dias em Los Angeles. Esse homem me confunde. Uma hora parece não se importar e na outra parece gostar de mim. — Você me assustou! — Tento não olhar para o seu corpo seminu, mas é quase impossível. Agora ele está apenas com uma cueca e é difícil ficar diante dele sem estar atraída pelo seu corpo, pelo seu cheiro... Na verdade, por tudo. — Desculpe, não foi a minha intenção — ele diz, mas seus olhos quase não piscam observando-me. — Andrew, o que você estava fazendo bêbado na porta do meu apartamento? — Ele exala um suspiro profundo, ignora o fato de estar seminu e se senta na lateral da cama. Seus olhos estão fixos nos meus. — Vou te contar tudo, principalmente sobre a Kate, mas antes, comeremos alguma coisa, Betty já está preparando o nosso desjejum. — Estreito os olhos e o encaro com uma expressão confusa. — Quem é Betty? — Uma pessoa muito especial. — Ele se ergue e, automaticamente, meus olhos se voltam para o seu corpo escultural. — Já volto! — Andrew se afasta sem dizer mais nada e desaparece pela porta. Levanto-me seguindo em direção ao seu imenso banheiro. Lavo as minhas as mãos o rosto e encaro meu reflexo através do espelho. O que ele quer? Às vezes ele parece gostar de mim e outras me odiar. Ele estava com aquela Kate, vai para Los Angeles e depois, simplesmente, surge em meu apartamento. Seco meu rosto com uma toalha macia e em seguida faço o meu caminho em direção à porta. Assim que abro, paraliso. Andrew está plantado de frente à porta com os seus olhos intensos sobre mim. — Vamos, nosso café está pronto. — Ele praticamente me puxa pelo braço, mas eu me desvencilho dele que me lança um olhar interrogativo. — Preciso saber, Andrew! — Já disse que iremos conversar depois... — Eu não conseguirei me alimentar se não entender o que se passa na sua cabeça. Sinto-me confusa. Você me deixa confusa. — Ele exala um suspiro resignado e segura minha mão conduzindo-me até o seu sofá confortável


próximo a grande janela de vidro. Eu me sento e logo em seguida, Andrew se senta ao meu lado. Estamos ambos seminus e chega a ser engraçado como não nos sentimos constrangidos um com outro. Tudo bem que chegamos a situações extremamente íntimas, mas estou falando em conversar sem nos incomodar. É como se nos conhecêssemos há muitos anos. — Júlia, eu não sei o que se passa dentro da minha cabeça. Ficarei te devendo essa resposta. Porém, eu não consigo negar que você, de alguma forma... me afeta. — Meu coração acelera e confesso que não esperava ouvir isso dele, não agora. — Kate não é a minha namorada, mas já foi no passado. Eu já gostei dela um dia. Tivemos planos, embora, ela não tenha me respeitado e acabado com uma vida dentro dela por minha causa. — Amplio os meus olhos exageradamente. — Vida? — Ele concorda com a cabeça e exala um suspiro profundo. — Sim. Kate engravidou, mas me traiu. Ela andava com um homem que até hoje não sabemos quem era. Separamo-nos e depois foi provado que o filho que ela estava esperando era de fato meu. — Ele engole em seco como se aquilo o fizesse mal até hoje. — De qualquer forma eu não a queria mais e, por esse motivo, ela se afundou nas drogas e acabou perdendo nosso filho. Estou reparando este erro, Júlia. Abro levemente a boca atônita com o que acabo de ouvir. — Você está me dizendo que estava com ela quando os vi, porque se sente culpado? — Ele concorda com a cabeça e apoia seus braços sobre os joelhos fixando seus olhos no chão. — A família dela me culpou, todos me culparam... eu me culpei — ele lamenta com seus olhos ainda fixos sobre o carpete. — Mas você não deveria se culpar. Ela é uma mulher e agiu daquela forma porque quis... — Não. O maldito que estava com ela a levou para as drogas. Se eu estivesse ao seu lado na gravidez, poderia ter evitado e... — Ficar por pena? — corto-o - Você mesmo disse que ela o traiu... — Ele me encara nos olhos. — Júlia, eu não gosto dela, apenas sinto-me na obrigação de ajudá-la. Preciso reparar o mal que eu a fiz. — Não digo mais nada e, se ele se sente assim em relação a ela, não sou eu quem mudarei a sua mente. — Quer saber por que fui atrás de você? — ele pergunta mudando bruscamente de assunto. — Sim — respondo com um olhar interrogativo.


— Eu... gosto de você, Júlia — ele confessa e meus olhos o encaram intensamente. — Você está de alguma forma contribuindo para que eu enlouqueça. Não consigo admitir que outro homem se aproxime de você e confesso que, mesmo longe, imaginava o que você estaria fazendo ou com quem estaria. — Meu coração acelera. Andrew gosta de mim? Será? Exalo um suspiro profundo e ele me observa atentamente. Pela sua expressão, Andrew espera algum tipo de manifesto da minha parte. — Diz alguma coisa... — Esfrego meu rosto com as mãos e novamente o encaro nos olhos. — Sinto-me exatamente assim. Eu gosto de você, Andrew. — Exalo um suspiro profundo e de repente, ele se levanta segura as minhas mãos e me puxa para que meu corpo fique de frente ao dele. Ficamos de pé nos encarando e, de repente, ele segura meu rosto com as mãos. — Júlia, não sei o que está havendo, mas eu não quero que acabe. Confesso que preciso amadurecer isso que está dentro de mim, mas o fato é que eu não consigo fugir mais. Não consigo tê-la longe de mim. Não me pergunte o porquê, apenas quero. — Suas palavras me enviam arrepios dos pés à cabeça. Finalmente um homem tão fechado está se abrindo e isso é algo que eu não esperava acontecer, mas aquela tal Kate ainda não me sai da cabeça. — Você tem contato direto com essa Kate? — Ele acena em positivo. — Eu pago seus tratamentos. Tudo. Ajudei e ajudo a família dela a se reerguerem. Faço tudo por eles, mas é estritamente voltado à sua saúde. Não existe interesse por ela e o contato só está acontecendo agora, já que não recebia notícias. — Ela ainda, te ama? — arrisco a pergunta e imediatamente sua expressão se fecha. — Sim. Kate acredita que um dia vamos voltar como no passado. Porém, sempre deixo claro que isso não vai acontecer. — Suas mãos não deixam o meu rosto acariciando-o com os dedos. — Júlia eu... quero tentar uma aproximação com você, você aceita? — O que seria essa "aproximação"? — Andrew curva seus lábios em um leve sorriso. — Quero você. Quero ficar perto e fazer coisas que somente casais fazem. Eu lutei contra esse sentimento, mas eu gosto muito de você, Júlia. — Instantaneamente um sorriso se desenha em meu rosto — Eu também lutei contra isso e me sinto feliz que você finalmente esteja se abrindo. Sempre que nos encontramos, algum desencontro acontece, mas... eu realmente não sei se... — Sim, você sabe — ele me corta. — Não somos crianças, Júlia. Algo está


acontecendo aqui e devemos lidar com esse sentimento de uma vez. —Fecho os olhos e engulo em seco. Meu coração bate em um ritmo acelerado enquanto deixo suas palavras resvalarem sobre mim. — Sei que sou estranho e às vezes grosso, mas se eu estou te dizendo tudo isso, é porque eu preciso que você me ajude. Eu tentei ficar longe de você e percebi que isso é inútil. — Andrew, eu tenho medo de me machucar, de me sentir usada e... — Ele me cala selando seus lábios nos meus. Quando me dou conta, minhas mãos já estão sobre seus cabelos macios. Seu corpo forte pressiona o meu contra a grande janela de vidro e ele segura a minha nuca aprofundando ainda mais nosso beijo. Relutantemente nos separamos e nossas respirações se misturam. — Hora de comer, vamos? — Tento recuperar minha respiração com um sorriso enorme e ele me puxa pelo braço conduzindo-me em direção à cozinha. ***


Andrew Não sei como consegui exprimir através de minhas palavras o que sinto para Júlia. Na verdade, não acredito que ela esteja aqui. Parece que tudo de alguma forma contribuía para que não nos encontrássemos, mas finalmente ela está aqui e, confesso que ao invés de me sentir mal, sinto-me totalmente aliviado como se tivesse tirado um peso de mim. Eu não sabia, mas eu já queria a Júlia para mim e espero que as coisas fiquem ainda mais claras para ambos. Apesar de Betty não estar aqui na cozinha, ela havia deixado um verdadeiro banquete. Sim, ela sempre foi exagerada, mas quando me levantei, havia informado que estava acompanhado por uma mulher. Ela achou que estava com uma mulher qualquer, mas então eu a informei que se tratava da Júlia, a mulher que despertou algo diferente dentro de mim. — Betty caprichou, espero que você goste! — digo enquanto me sento ao seu lado sobre o banco alto que fica na ilha da cozinha. — Já estou adorando, obrigada! Tomamos o café que Betty preparou e logo em seguida, ela surge pela porta com uma expressão alegre no rosto. Levanto-me e puxo Betty pelo braço a conduzindo próximo à Júlia. — Júlia, quero que conheça a Betty. — Com um sorriso no rosto, Júlia se levanta e elas se abraçam como se já se conhecessem há anos. — É um prazer conhecê-la, Betty. Obrigada por preparar esse banquete! — Minha querida, o prazer é todo meu. — Betty se afasta para olhá-la melhor. — Andrew me falou sobre você, mas esqueceu de me dizer o quão linda você é. — Júlia curva seus lábios em um sorriso nitidamente sem graça. — Obrigada. — Vejo que pelo seu sotaque, que não é daqui. De qual país você é, Júlia? — Sou brasileira! — Betty fica momentaneamente surpresa e lança um olhar questionador para mim. Ela jamais imaginou me ver com uma mulher dessa forma, principalmente brasileira. — Andrew, ela é linda. — Faço que sim com a cabeça enquanto Betty a observa com admiração. — Betty é praticamente como uma mãe pra mim. Ela chegou hoje da casa do meu pai na Califórnia. A partir de hoje, ela ficará comigo enquanto meu pai viaja para as Filipinas, ou seja lá onde ele estiver. — Eu troquei muitas fraldas desse meninão — Betty diz, pegando-me de surpresa. Júlia ri de sua declaração espontânea e eu me sinto um idiota. — Ele era um bebê muito lindo e se transformou em homem maravilhoso!


Assim que terminamos nosso café, sigo em direção ao meu quarto para me vestir e deixo as duas conversando animadamente. Confesso que me sinto bem agora embora, não me reconheça. Finalmente, respiro aliviado por conseguir fazê-la entender toda a minha situação. Retorno e, assim que desço as escadas vejo que Júlia está sentada sobre o sofá sozinha, com um olhar perdido através da janela. Aproximo-me e ela se volta para mim com um sorriso no rosto. — Onde está Betty? — Ela foi atender ao telefone. — Aceno positivamente. — Preciso ir ao escritório. Fique o tempo que quiser. Voltarei em no máximo duas horas. Tenho que participar de uma reunião importante. — Tudo bem, Andrew. Vou para o meu apartamento. Preciso de um bom banho e trocar de roupa. Precisarei ir à loja. Ela disse loja? — Loja? — pergunto nitidamente confuso. — Sim, é uma loja onde vendo minhas fotografias! O que? A Júlia fotografa? Percebo que tenho muito que saber sobre ela. — Você é fotógrafa? — Seus olhos brilham me dando a certeza de que ela realmente ama o que faz. — Sim. Bom, tem muita coisa que você não sabe sobre mim. — Será que ela lê pensamentos? Pelo que percebi, acho que tenho que passar pelo menos uma semana inteira ao seu lado para começar a entender essa mulher. Quem de fato ela é? Quais os seus sonhos? Tenho uma necessidade em saber cada detalhe de sua vida. Sobretudo, preciso consertar as coisas entre nós. — Quero te levar a um lugar. Preciso saber mais sobre você... iremos conversar! — Onde? — ela pergunta com animação na voz. — É uma surpresa! — Adoraria jantar com você. — Com um sorriso nos lábios eu, lentamente, acaricio seu rosto com o meu polegar. — Meu motorista pode levá-la para onde quiser. — Não há necessidade. Só irei à loja que fica próxima daqui — ela informa e eu concordo com a cabeça. Espero que ela goste da surpresa! Eu preciso consertar as coisas entre a gente antes de começar uma etapa completamente nova em minha vida. CAPÍTULO 14


Júlia Manhattan está cada vez mais fria. A neve cai timidamente em flocos pequenos do céu e, felizmente, estou vestida de forma adequada para esse frio Nova-iorquino. Já estou voltando da loja e meus pensamentos sempre vão de encontro ao Andrew. Confesso que tenho dúvidas sobre essa tal Kate. Essa mulher que nem conheço, pode estar aproveitando do passado para culpar o Andrew. Já posso imaginar o mesmo repertório para que ela atinja seu objetivo. Espero realmente que ele não sinta mais nada por ela, já que pelo pouco que vi, ela não está para brincadeira. Ando pela sétima avenida a passos largos quando meu celular vibra uma nova mensagem. Cesso os passos e tiro meu aparelho com certa dificuldade do bolso da minha blusa. Quando olho para o visor, vejo que é o Andrew. Um sorriso instintivamente se abre em meu rosto. “Onde você está, fui ao seu apartamento e não há ninguém." Andrew. Dígito uma resposta rapidamente: "Já estou chegando" Imediatamente, o celular vibra outra mensagem. "Fique pronta que, daqui a duas horas passarei em seu apartamento. P.S. Sugiro que use um vestido longo." Curvo meus lábios em um sorriso. Qual será a surpresa desta noite? *** Estou em um vestido longo vermelho de uma alça só. Resolvi usar meu cabelo preso em uma trança para trás. Ainda bem que sei fazer uma trança como ninguém. Morar num país tropical, muitas vezes exige que você prenda seus cabelos quando você os prefere mantê-los grandes. Para variar, Jessica ficou impressionada com o que aconteceu entre mim e o Andrew. Também não é para menos. Sai do restaurante com um homem e acordei com o Andrew novamente em sua casa. — Não há dúvida. Andrew gosta de você! — Jessica afirma com um sorriso doce e um olhar sonhador. — É o que ele diz — respondo e, inesperadamente a campainha toca fazendo meu coração dar um salto. — É ele — digo com um tom de voz baixo. — Vá. Abra a porta e faça o Andrew babar, literalmente. — Um sorriso se desenha em meu rosto e, segundos depois já estou de frente à porta de entrada. Exalo um suspiro profundo antes de finalmente abrir a porta. No momento em que meus olhos caem sobre o belo exemplar de homem à minha frente, sinto-me completamente constrangida e estática com o que vejo. Não imaginava que seria possível Andrew estar ainda mais lindo. Seus olhos


passeiam descaradamente por toda a extensão do meu corpo e sua expressão séria me deixa sem palavras. — Não imaginei que fosse possível você ficar ainda mais linda. — Ele curva seus lábios e eu devolvo um sorriso tímido a ele. — Obrigada! Você está... lindo! — Tento transparecer calma, mas falho vergonhosamente. Andrew me oferece o seu braço para que eu o acompanhe em direção aos elevadores. Deus, até seu perfume chega a ser inebriante. *** Uma bela limusine nos espera na porta e com um sorriso torto, Andrew abre a porta para que eu entre. Em seguida, ele se junta a mim sentando-se ao meu lado e entrelaça seus dedos nos meus. Confesso que enquanto o carro faz o seu percurso, meu coração dá saltos com expectativa do que irá acontecer em seguida. Embora minha expectativa esteja a mil, não pude deixar de reparar qual o lugar onde a limusine estaciona. Estamos parados em frente ao seu Hotel e instintivamente minhas sobrancelhas se unem. Encaro-o com um olhar questionador. — Por qual motivo, ele parou na porta do seu hotel? — Ele fixa seus olhos nos meus e exala um suspiro profundo. — Esse é o nosso destino, Júlia! — Tento forçar um sorriso, mas continuo observando-o sem entender. Neste momento estou me perguntando qual seria o motivo pelo qual ele me trouxe a um lugar que me traz péssimas lembranças. — Quero consertar as coisas entre nós. Te trazendo aqui, no mesmo lugar em que fiz você se sentir a mulher mais usada do mundo, é a melhor maneira que encontrei para me desculpar! — Pisco surpresa e um leve sorriso se abre em meu rosto. Andrew estende a mão para que eu desça e segundos depois já estamos fora do veículo, parados de frente a grande e luxuosa entrada do seu Hotel. Andamos de mãos dadas atravessando a grande recepção e não há uma pessoa que não esteja com os olhos em nossa direção. Tento parecer calma, mas Andrew segura com força a minha mão entendendo o meu nervosismo. Por que diabos estou tão nervosa? É somente um jantar. Os funcionários nos observam com certa perplexidade. Acho que essa cena não deve ser comum para os funcionários. Assim que atravessamos todo o lobby, Andrew me conduz aos elevadores e assim que entramos, exalo um suspiro de alívio. Deus, nunca fui observada por tanta gente ao mesmo tempo em toda minha vida.


— Desculpe. Às vezes as pessoas ultrapassam o limite da curiosidade — ele diz com um tom de voz calmo enquanto a porta do elevador se fecha e nos leva à cobertura do hotel. Estamos de frente a uma imensa porta que presumo ser a suíte principal. Inesperadamente, a porta se abre e dois funcionários uniformizados nos cumprimentam enquanto adentramos no ambiente luxuoso e sofisticado. A vista, para variar, não podia ser diferente através das grandes vidraças que tomam praticamente toda a parede. O lugar é gigante e daqui, posso ver mais dois ambientes que provavelmente sejam os quartos. Neste momento, estou diante de uma mesa de jantar espetacular com direito a velas e rosas vermelhas espalhadas por todo o lugar, Andrew segura a minha mão e com delicadeza me conduz até a cadeira estofada confortável. — Andrew, se sabia que viríamos a uma suíte, por que me pediu para me vestir assim? — questiono quebrando o silêncio que há entre nós. — Apenas para combinar com o momento! — ele responde e em seguida me puxa delicadamente para que eu me sente. — Andrew, isso é... lindo! — Tento reunir algo coerente, mas é impossível com tamanha beleza do lugar. — Tudo foi feito para você — ele afirma e nossos olhos se encontram imediatamente. — Acho que você já consertou as coisas! — digo de forma brincalhona arrancando um breve sorriso do seu lindo rosto sério. Depois do jantar regados a vinho e ao som de Frank Sinatra, Andrew me observa com um certo brilho no olhar. O que ele está pensando? — Fico feliz que você tenha gostado, já que o meu intuito é exclusivamente agradá-la — ele diz enquanto se levanta estendendo a mão para mim. — Levante-se. Quero que dance essa música comigo! — Minha boca se abre com o que acabo de ouvir. Andrew quer dançar? A música que ressoa através de algum aparelho é: "I Won't Give Up / Jason Mraz". Levanto-me com um sorriso impresso em meu rosto e seguro suas mãos. Quando meu corpo cola ao dele, eu enlaço meus braços em volta do seu pescoço. Instintivamente, fecho meus olhos e encosto meu rosto sobre seu peito rijo. Nossos corpos se movimentam na mesma intensidade da música. Sinto seu coração bater e o meu não está diferente. A sensação de estar assim com o Andrew é indescritível. Sua voz baixinha quase imperceptível canta ao mesmo tempo que a música: "I won't give up on us. Even if the skies get rough. I'm giving you all my love! "♫ ♩♫


“Não desistirei de nós. Mesmo que os céus fiquem violentos. Estou te dando todo meu amor "♫♩ ♫ A música termina e em seguida nossos olhos se encontram novamente. Nossas respirações estão próximas e seu hálito quente me faz ter apenas um pensamento... beijá-lo sem sentido. Não demora muito para que sua boca encoste lentamente na minha e um arrepio percorrer toda extensão do meu corpo. Com a intensidade do momento, seguro sua nuca e Andrew a minha mandíbula, fazendo o beijo se aprofundar cada vez mais. Nossas línguas dançam em um ritmo lento, nos fazendo sentir cada movimento que é a melhor sensação. Abruptamente, Andrew interrompe o beijo e sem dizer nada, me conduz apressadamente para dentro da suíte. Minha respiração esta acelerada e, o que queremos agora, está nítido. Queremos um ao outro da maneira mais íntima possível. Andrew segue ate o bar da suíte e nos serve com uma bebida âmbar enquanto eu o observo atentamente. — Posso ao menos saber que bebida é essa? Só estou acostumada com vinhos. — Ele ergue as sobrancelhas e me entrega a bebida. — Jack Daniel's , um uísque muito saboroso. Ele foi fundado no meu estado, Tennessee, na cidade de Lynchburg. Agora, beba! Viro o conteúdo do copo e inevitavelmente faço uma careta. Andrew curva os lábios em um sorriso me observando com um olhar fascinado. Um pouco do líquido escorre no canto dos meus lábios e ele, rapidamente, passa sua língua por toda a lateral, lentamente. Essa atitude me faz fechar os olhos e engolir em seco. — Hummmm... assim, o uísque fica muito mais saboroso! — ele afirma e quando abro os olhos, vejo-o se aproximando e pressionando o meu corpo contra a parede. Suas mãos percorrem a lateral do meu corpo e nossos lábios se encontram em um beijo profundo e demorado. Sua mão segura a minha nuca pressionando minha boca na dele. Nossas línguas agora se misturam furiosamente e o gosto da bebida âmbar fica ainda melhor agora. Ainda aos beijos, Andrew me conduz a algum lugar e sem perceber, minhas pernas tocam algo macio. Sim, estamos próximos à cama. Delicadamente, Andrew empurra o meu corpo para que eu fique deitada sobre a cama macia. Meus olhos estão cravados no homem que sem cerimônia alguma, começa a se despir bem diante dos meus olhos. Engulo em seco com a visão do seu impressionante corpo e logo em seguida ele, delicadamente, vira o meu corpo de lado, abrindo o zíper do meu vestido na lateral. — Já te despi algumas vezes, mas essa é a segunda que você está realmente acordada — ele diz com um sorriso brincalhão.


— Eu não me lembro. Quero ver se você é mesmo bom nisso! — provoco-o e rapidamente meu vestido é retirado, deixando-me apenas de calcinha e sutiã. Seus olhos varrem meu corpo de forma faminta. — Você fica linda de lingeries, mas não me leve a mal. Prefiro você sem elas — ele diz e, aos poucos, desliza a minha calcinha me deixando completamente nua e com o corpo quase entrando em erupção. Nossas respirações estão ofegantes e a tensão sexual pode ser palpável agora. — O que você faz comigo, Júlia? — O meu sentimento é cru, carnal e quero que ele esteja dentro de mim o mais rápido possível. Depois de muitas carícias e beijos apaixonados, Andrew se afasta pegando uma camisinha e abrindo-a com rapidez. Depois de devidamente colocada, ele, bem lentamente me preenche trazendo-me as melhores sensações. Um gemido involuntário escapa dos meus lábios e Andrew sela seus lábios nos meus enquanto ao mesmo tempo em que seus movimentos ficam cada vez mais intensos. Nossos movimentos contínuos e repetitivos, nos levam à beira da loucura e Andrew segura a minha nuca forçando os meus olhos a se fixarem aos deles. Sua boca semiaberta alternando com os seus beijos longos, demonstra que ele está à beira da loucura. Em poucos segundos, não há como segurar mais; o clímax vem com força total, nos deixando totalmente imersos e completamente desconexos sobre a cama. Com o seu corpo ainda sobre o meu, ficamos ofegantes por muito tempo até que, finalmente, nossos olhos se encontram. — Júlia... — ele me chama e logo em seguida, desliza seus dedos sobre a minha boca com os olhos fixos sobre meu rosto. Seus pensamentos parecem perdidos, mas diferente da última vez, ele apenas sorri. *** Meus olhos se abrem e mais uma vez estou só. Odeio acordar assim, principalmente quando estou nesse hotel. Levanto-me e as cortinas estão devidamente fechadas. Abro-as, e o quarto ilumina-se com o sol da manhã. Meus olhos varrem todo o ambiente e não vejo o Andrew. Meu coração dispara ao perceber um envelope sobre criado-mudo ao lado da cama. Sigo a passos lentos até que, em mãos, encaro o pequeno envelope com o logotipo do hotel. Como da última vez, sinto-me mal. — Ele não faria... — sussurro e em seguida abro-o com muito receio do que encontrarei. Prendo o meu ar até ler o conteúdo do bilhete. “Nossa noite foi maravilhosa! Te espero para o nosso café da manhã! Seu, Andrew. P.S. Não fique brava! :)”


— Filho da... — Exalo um suspiro profundo tentando diminuir a frequência cardíaca. Como ele foi capaz de fazer isso? Depois de me recuperar do que parecia ser uma catástrofe, um sorriso se desenha em meu rosto. Definitivamente, ele sabe como nos levar do inferno ao céu em questão de segundos. ***


Andrew Inexplicável. É o que senti durante toda noite até agora. Queria poder continuar nessa nossa bolha particular por mais vinte e quatro horas, mas isso não seria possível com o número de coisas que tenho a fazer. Acordar com a mulher que mais desejei em todos os aspectos, não tem nenhuma explicação. Sim, algo definitivamente mudou em mim e Júlia, é a grande culpada. Estou esperando a Júlia para o café e ela, para variar, dorme feito uma pedra. Não queria acordá-la. Júlia dormindo, é a coisa mais linda do mundo. Deixei um bilhete para que ela anule de uma vez por todas o outro bilhete em nosso primeiro e desastroso encontro. Na verdade eu não esquecerei nunca. Por mais que tenha sido algo ruim, foi de certa forma, inesquecível. Espero que ela não fique brava com a brincadeira. A mesa do nosso café já havia sido preparada e, enquanto espero a Júlia, leio o Jornal da manhã. De repente meu celular toca e minha expressão se fecha ao ver que a Kate está me ligando. — O que você quer, Kate? — atendo rispidamente. — Bom dia pra você também, meu amor! — Diga o que você quer, estou ocupado! — Nossa, que péssimo humor! — ela diz e eu me levanto. Ando de um extremo ao outro respirando fundo tentando me controlar. — Se não me disser o que quer, desligarei — ameaço-a. — Você acha que vai a Califórnia para o natal? Gostaria de passar o natal com você e o seu pai! Meu pai não dará as caras nem tão cedo. Se ele estivesse por lá, talvez eu iria. — Não sei se irei ao Natal — repondo de uma forma que ela não pense que eu esteja fugindo dela, já que na verdade eu estou. Kate tem problemas graves e definitivamente não quero que ela apareça sem avisar. — Preciso comprar mais remédios para ansiedade. Quero te ver. Posso ir amanhã? — Sobre o remédio, é só usar a receita da última consulta e... sobre vir até Nova Iorque, não venha! — Tudo bem, mas eu quero muito te ver. — Agora eu realmente preciso desligar. — Ouço-a respirar pesadamente. — Okay, você parece mesmo ocupado. Depois nos falamos. Não posso perder a paciência com a Kate, no último encontro com o médico, ele enfatizou seus graves e novos problemas psicológicos. Eu me sinto ainda mais culpado por tê-la causado tudo isso.


Ainda mal humorado eu me viro e meus olhos encontram a mulher mais linda que eu já vi e como mágica, o mau humor desaparece. — Bom dia! — cumprimento-a com um meio sorriso. — Venha, sente-se. — Ela se senta observando-me com uma expressão divertida. — Obrigada pelo envelope. Você me proporcionou o pior Déjà vu da minha vida. — Começo a rir e ela me observa com um olhar de admiração. Acho que nunca ri dessa maneira na sua frente. Ela parece surpresa. — Desculpe, não resisti. Quero que você se lembre apenas desse envelope! — Fixo meus olhos intensamente nos dela. Quero que ela sinta isso. — Seu recado foi substituído com sucesso! — ela diz com uma voz mecânica e logo em seguida sorri amplamente. Um sorriso lindo, alegre e verdadeiro. Tomamos nosso café e em seguida, peço à Júlia que me conte sobre sua vida no Brasil. — Bom, sou quase uma advogada e estava fazendo estágio em um grande escritório antes de largar tudo e vir. Estreito as sobrancelhas. Advogada e largou tudo pra vir? Deve ter um bom motivo. — E por que você parou sua vida para vir morar aqui? — Seu sorriso que estava impresso o tempo todo em seu rosto, se esvai lentamente. — Eu tinha um... namorado. — O que ela diz, me deixa em total alerta. Namorado? Claro que no Brasil não seria diferente daqui. — Ele me traiu. Eu o peguei na cama com a secretária da empresa em que eu fazia estágio. — Ela faz uma careta de descontentamento. — Por quanto tempo vocês namoraram? — Por sete anos. Sete longos anos da minha vida! — Encaro-a com perplexidade. — Há quanto tempo isso aconteceu? Quero dizer a... traição? — Há quase três meses! — Então é recente? Ela está recém-separada de um homem que ela pode talvez gostar? — Há pouco tempo. Você ainda... gosta dele? — Não diga que sim, Júlia. Não diga que gosta desse filho da puta que eu já posso odiar! — Não. Nossa vida era muito corrida e... nos víamos muito pouco. Com o tempo, acho que acostumei com sua presença, sua amizade... sei lá. Descobri que isso não era amor. Era comodismo! Os próximos minutos foram de perguntas ou bombardeios sobre sua vida e família. Nunca pensei gostar tanto de apenas conversar com uma mulher. Conversar com a Júlia é fácil e extremamente agradável. Minha curiosidade me surpreendeu em relação a ela. Quanto mais ela diz, mais eu quero saber.


*** No dia seguinte, decidi dedicar todo o meu tempo exclusivamente para a Júlia. Fomos almoçar em um dos meus restaurantes preferidos chamado: Remi. Passamos um bom momento e conversamos sobre tudo um pouco. Com a Júlia o tempo passa voando. O máximo que já consegui manter uma conversa agradável com uma mulher foi de um minuto e meio, contados no relógio. Era uma agente de viagens. Porém, com a Júlia, eu simplesmente quero ouvi-la sem parar. — Espero que tenha gostado do almoço. — Júlia, delicadamente, coloca seu cabelo sedoso atrás da orelha e me observa com divertimento no olhar. — Se sair com você mais dois dias, estarei pesando mais de trezentos quilos. — Sorrio com o seu comentário. — E mesmo assim seria a mulher mais encantadora deste mundo — afirmo com um olhar intenso sobre ela que sorri timidamente. — Andrew? Como vai? — Uma voz feminina nos interrompe e quando me viro, dou de cara com a Corinne de pé nos observando. Para que Júlia não perceba que ela é mais uma ex-ficante, tento ser simpático com Corinne. — Corinne? Que surpresa! — digo de forma profissional e ela sorri maliciosamente. — Que felicidade em vê-lo, querido! — ela diz com seus olhos cravados sobre a Júlia que apenas nos observa. Tento agir normalmente apesar de querer matar a Corinne neste exato momento. Provavelmente ela me seguiu. Eu nunca a vi por aqui e não pode ser uma coincidência. Uma merda de uma coincidência. — Corinne, quero que conheça Júlia. — Tento agir normalmente como se Corinne fosse apenas minha amiga e nada mais. Ela mal cumprimenta a Júlia e imediatamente volta sua atenção para mim. Eu sei. Ela está fazendo um dos seus joguinhos! Não estragarei o meu dia por sua causa. Ela é um passado que eu desejo que fique por lá. Da última vez que foi em meu apartamento estava vestida de coelho ou algo do tipo. Esse foi um dos motivos de mandá-la embora. — Então, querido. Você não me ligou mais desde... Ah, você sabe! Você nunca esteve ocupado pra mim! — Ela só pode estar me provocando e causando uma situação por causa da Júlia. — Estamos de saída, senão, a convidaria para se juntar a nós — digo, fingindo não estar preocupado com seu jogo. — Então, vocês estão... namorando? — Do nada ela faz essa pergunta inconveniente. — Parece que sim, não é... meu bem? — Júlia diz, quebrando o silêncio que pairou entre nós.


— Sim. — Apesar da Júlia me pegar de surpresa, decido concordar para que Corinne saia de uma vez. — Ah que lindo! Acabaram de se conhecer? — ela questiona com ironia impressa na voz. Cerro a minha mandíbula com força. Definitivamente, eu tenho o dom de atrair loucas em minha vida. CAPÍTULO 15 Júlia Andrew parece um chamariz de mulheres loucas e, eu sei perfeitamente que essa daí é uma ex. Espero que ela não seja mais um problema, já que a tal Kate, demonstrou claramente o que ela quer ou quem ela quer. Aliás, Freda entra nessa lista e somente depois, conseguirei definir o topo dessa lista de loucas varridas. Depois da sua declaração de ontem à noite, eu não tive dúvidas ao dizer que Andrew é sim, o meu namorado, embora, eu não tenha recebido um pedido oficial. Sei que estamos começando algo além de uma noite e sei também que ele está se esforçando muito. Se isso está acontecendo, eu sei que é por ele gostar de mim, então... não me rebaixarei para esse olhar mortal sobre mim. Andrew está claramente incomodado com a sua presença e isso me impulsionou a dizer o que somos. — Bom, como havia dito... estamos de saída. — Andrew se levanta e Corinne ergue suas sobrancelhas com um olhar desafiador sobre ele. — Que pena! Queria me juntar ao casal feliz! — Seu tom de voz é claramente ríspido e ao mesmo tempo irônico. — Sim, uma pena. — Andrew fixa seus olhos nos meus. — Vamos? — ele pede calmamente oferecendo-me a sua mão que eu, rapidamente seguro. Corinne nos observa com uma expressão fechada enquanto passamos por ela em direção à saída. Por sorte, já havíamos terminado nosso almoço ou teríamos que esperar para pagar a conta e aturar mais essa mulher intragável. Assim que entramos no seu carro, percebo que Andrew olha incessantemente no visor do seu celular. Minhas sobrancelhas se unem imediatamente e eu não posso deixar de notar sua expressão preocupada agora. Depois de alguns minutos em um silêncio desconfortável, encaro-o e, Andrew ainda parece nervoso com algo. Será que ele se incomodou com o que eu disse àquela mulher? Suas mãos apertam o volante de tal forma até que elas fiquem brancas. — Andrew, você está bem? — arrisco a pergunta e ele exala um suspiro profundo logo em seguida. — Não. Eu prometi que dedicaria todo o meu dia a você, mas... — Ele me


olha com uma expressão de desculpas voltando-o rapidamente para o trânsito. — Eu não posso! Terei que resolver um grande problema agora e... — Não precisa se preocupar! — interrompo-o. — Eu entendo — tento acalmá-lo, mas ele parece ainda pior. Deus, será que ele se arrependeu de algo? — Desculpe — ele pede em um sussurro. — Tudo bem — respondo apenas, e não posso negar que me sinto decepcionada por ele não poder passar o resto do dia comigo, como havíamos combinado, mas se é algo que ele tem que resolver, quem sou eu? O carro estaciona em frente ao nosso edifício e Andrew ainda está com os olhos fixos no volante. — À noite, posso te ligar? — ele pede de uma forma distante talvez, fria. Meu Deus, quanta formalidade! Nem parece que tivemos uma noite inesquecível. Bom, inesquecível ao menos pra mim! — Sim, claro! — sussurro. Esperei um beijo que não aconteceu e, acabei saindo do carro. Seja o que for que ele tenha dado prioridade, deve ser muito importante. À noite chegou e com ela o meu nervosismo, já que deixei muitas mensagens para o Andrew e nada dele me ligar como havíamos combinado. Seu telefone parecia desligado o dia todo e não havia e nem há meios de comunicação. Sinto-me frustrada, já que eu havia esquecido completamente que hoje é o primeiro dia da grande temporada dos espetáculos da minha amiga na Broadway. Ela havia deixado dois convites e um bilhete fofo, dizendo que fazia questão de que o Andrew fosse comigo, mas pelo visto... ele não vai aparecer. Termino de me arrumar e quando estou prestes a sair, ouço meu celular vibrar com uma mensagem que, para a minha frustração não é do Andrew. Jessica apenas queria falar sobre Alan e Ethan que também estaria por lá e que ela desligaria o celular logo em seguida. Exalo um suspiro de frustração e saio pelas ruas em direção aos táxis que rapidamente me levam rumo à Broadway. *** Impressionante é a definição dos shows da Broadway. Aliás, o show da minha amiga, já que esse foi o meu primeiro show por aqui. Ainda pretendo ir a vários outros musicais como esse. Mesmo sentindo-me triste, frustrada em saber que Andrew poderia estar lá comigo, fiquei completamente encantada com o tamanho, superprodução e a grandiosidade do espetáculo. É algo que, definitivamente, encanta a todos. Minha amiga teve o cuidado de escolher minha cadeira longe do Alan e Ethan com o intuito de que Andrew estaria comigo. Eu a agradeci mentalmente, embora, nada disso fez a mínima diferença. Andrew não


apareceu. Depois do show, decidimos ir ao The View, um restaurante que fica no topo do hotel Marriott Marquis na Times Square. Ethan e Alan, obviamente, se juntaram a nós para uma pequena comemoração. A vista do restaurante como a de muitas de Manhattan, é impressionante. O restaurante é giratório dando-nos o privilégio de uma vista de 360 graus da cidade em uma hora. Estamos todos sentados ao redor de uma mesa próxima às vidraças, mas meus pensamentos e preocupações estão voltados para o Andrew. O que será que houve para que ele não retornasse minhas chamadas até agora? — Calma, ele deve ter uma boa desculpa por não tê-la respondido ou vindo até aqui — Jéssica tenta me acalmar e eu forço um sorriso. Não quero estragar a sua noite. — Verdade, deve ter sido um problemão ao ponto dele ter que desligar o seu celular por todo o dia. — Ela sorri fracamente. — Vamos brindar! — Alan ergue sua taça de champanhe e todos fazemos o mesmo. — Saúde! — falamos em uníssono e brindamos ao sucesso da minha amiga. Dou um gole no meu champanhe e me forço a esquecer do Andrew, ao menos por esta noite. Eu sei que ficar assim, não vai resolver em nada. Engatamos uma conversa animada, até que através da vidraça da janela, vejo uma sombra de um homem que me chama a atenção pelo porte físico. Ele se parece tanto com o Andrew que me faz virar instintivamente, mas assim que meus olhos caem sobre o homem, percebo que se trata do... Andrew? É ele. Minhas sobrancelhas se unem. — Será que estou vendo coisas? — sussurro ao ver que nada do que meus olhos observam é fruto da minha imaginação. De repente, meu coração acelera quando vejo que ele não está sozinho. Andrew veio logo nesse restaurante ao lado da ex-namorada maluca que está se empoleirando sobre suas costas. Ela a abraça por trás e ele não faz nada. Ele parece distraído e cansado, mas não a impede de agir assim. — Júlia? Que cara é essa? — Jessica questiona e logo acompanha o meu olhar sobre o casal até finalmente entender o que está havendo. — Não é possível — ela diz, mas eu nem pisco meus olhos... nada. Apenas observo-os sendo conduzidos até uma mesa. — Júlia, você não vai até ele, entendeu? — minha amiga ordena, mas eu já estou de pé. — Olho para a nossa mesa e percebo que Ethan e Alan me observam atentamente. — Preciso que ele apenas me veja aqui... nada mais — digo, mas eles não dizem nada. Quando me viro, meus olhos encontram os do Andrew que


finalmente me vê. Quando ele assimila quem realmente sou, sua expressão é de surpresa e total perplexidade. Kate nos observa apenas com um sorriso malicioso estampando em seu rosto. Eu sabia que ela está no meu topo de mulheres loucas. Essa mulher não vale nada. Inesperadamente, Andrew caminha até mim e permanece parado bem na minha frente com uma expressão de poucos amigos. — O que você faz aqui? — ele pergunta fazendo minhas sobrancelhas se unirem imediatamente. Seu olhar sobre o Ethan demonstra claramente a sua raiva. Andrew quer virar o jogo. — Você tem certeza que sou eu quem tem que responder essa pergunta? — Andrew, amor? Vamos? — A tal Kate nos interrompe, mas ele a ignora. Ela não se move do lugar e cruza os braços. — Pensei que você queria "consertar" as coisas entre nós. Eu realmente achei que fosse uma noite especial pra você, Andrew. Mas agora — volto a minha atenção para Kate. — Eu entendo o motivo da sua distância quando você me deixou em casa hoje à tarde. Ela deve ter te ligado, não é? — Sua expressão não muda e ele parece querer me afrontar. — Eu estive resolvendo um grande problema com a Kate. Por que você não me deixou uma mensagem? — ele ainda questiona parecendo furioso. — Andrew, veja no seu celular ou pare, por favor, pare de mentir pra mim. — Ele parece tomado por um ódio, já que ignora o que eu digo. — O que esse cara está fazendo sentado ao seu lado em um jantar romântico? — Andrew insiste em fazer as perguntas aqui com uma voz um pouco alterada. Por qual razão ele quer me colocar como a errada? — O que? Ethan? — Os dois se encaram e meu estado de choque não me permite raciocinar muito bem. — Nossa, parece que você se cansou rápido. As mulheres são assim e você não seria diferente. Se você estava afim de ter uma noite romântica com esse cara, primeiro deveria ter ao menos a decência de me comunicar — Andrew diz com um olhar frio e distante. Suas palavras me deixam totalmente perplexa e com uma vontade imensa de chorar. Não consigo discutir, já que ele pensa estar certo em uma coisa na qual ele é o único errado. Decido apenas afastar-me dele saindo praticamente correndo em direção aos elevadores. Preciso desaparecer antes que eu quebre esse restaurante na cabeça dele. ***


Andrew Não pode ser possível. Será que o universo conspira contra mim? Agora eu sinto um misto de ódio com tristeza em saber que basta eu não ligar, que a Júlia rapidamente encontra outros meios para se divertir. O problema, é que ela não se comunicou comigo e eu não tive cabeça para entrar em contato até agora. Não quando estou na delegacia depois de conseguir um atestado do psiquiatra sobre o estado da Kate. Ela foi detida depois de quebrar um quarto de hotel que, por sinal, não é o meu. A conta? Foi toda para o meu bolso. Sentime tão mal, estressado por tudo, que nem pude olhar para o meu aparelho celular, mas eu garanto que ele não tocou nem uma vez. Kate não me avisou que havia chegado a Nova Iorque e minha raiva foi triplicada por mil. Ela me fez hospedá-la neste hotel alegando ver assombrações. Como ficamos o dia todo sem comer, Kate me arrastou neste restaurante e aqui estou eu. Obriguei-me a vir, já que claramente ela faria outro escândalo. Queria apenas me livrar dela e agora me vejo nessa situação. Júlia se afasta e logo em seguida corre em direção à saída. Jessica também corre para alcançá-la, mas eu permaneço no mesmo lugar. O tal homem ainda me encara, claramente me afrontando. — Então, ela te trocou? — Kate pergunta chamando a minha atenção ao meu lado. — Não é da sua conta. Vá para a sua suíte que a minha noite com você, acabou por aqui. Começo a andar em direção à saída, mas Kate me segue. Viro-me para encará-la. — O que você quer dessa vez? — Não quer saber o motivo do meu escândalo? O verdadeiro motivo por eu não querer me hospedar naquele seu hotel? Fico parado sem responder esperando que ela continue. — Você a levou lá. Você proporcionou a essa estranha, uma noite de amor que NUNCA fez para mim enquanto namorávamos. NUNCA! — ela grita chamando a atenção de todos ao nosso redor. Seus olhos estão avermelhados. Porém, não vejo nenhuma crise agora, vejo apenas raiva. Eu não imaginava que ela teria feito todo esse escândalo apenas para chamar a minha atenção. Tudo por causa da Júlia. — Quer saber? Dê o seu show, mas dê sozinha. E se novamente for detida pelo seu comportamento inadequado, terá que se virar para sair da cadeia — afirmo, seguindo em direção à saída e, abruptamente, viro-me encarando-a de forma ameaçadora. — Se me seguir, eu juro eu tomarei atitudes que irão doer principalmente no seu bolso, para sempre — dito isso, saio sozinho sem olhar


para trás. Como previsto, ela não me segue e eu entro no elevador momentaneamente livre dessa mulher que só me causa problemas. Depois de rodar pela cidade sem rumo, decido beber em algum bar aleatório enquanto imagino o que de fato pode ter acontecido. Meu celular sempre esteve comigo e não tocou, fiz questão de deixá-lo no último volume, mas ela não ligou ou deixou mensagens. Apalpo meus bolsos à procura do meu celular e percebo que ele não está aqui. Estreito as sobrancelhas e saio do bar em busca do aparelho. Depois de revirar o meu veículo, encontro dois aparelhos idênticos. Um deles está debaixo do meu banco e o outro na lateral da porta do carona. Como ele foi parar ali? O aparelho da Kate é idêntico ao meu e provavelmente eu utilizei o dela por todo esse tempo. — Fecho os olhos e exalo um suspiro profundo. — Merda! Para a minha surpresa, ambos os aparelhos não estão ligados e assim que eles acendem me surpreendo ainda mais com a quantidade de chamadas e mensagens perdidas em um deles. Que confusão é essa? — Estreito meu olhar analisando os dois aparelhos e constato que não estava usando o meu celular o dia todo e sim, o da Kate. Como fui capaz de confundir? E como eles foram parar aqui, escondidos no meu carro? Será que a Kate fez isso de propósito? Droga! Com uma raiva descomunal de mim mesmo, abro as mensagens e ali estão elas, as mensagens que Júlia me deixou por todo o dia. — Idiota. — Soco o volante com força. — Como fui burro! — Esfrego meu rosto furiosamente e encosto minha cabeça no volante. Júlia me convidou para sair com ela na estreia do musical da amiga. Ela tentou me ligar, mandou mais mensagens, insistiu e... eu apenas a tratei, novamente, como uma qualquer. Tudo culpa das minhas idiotices. Por que saí feito um louco atrás da Kate? Poderia estar ao lado da Júlia até agora e, no entanto, sou um imbecil. Poderia ter mandado alguém por mim, mas eu me sinto um maldito culpado e Kate está passando de todos os limites possíveis. O dia todo naquela delegacia tentando resolver um problema que nem é meu e agora, isso? E se ela nunca mais quiser falar comigo? Ela estava lá em um restaurante com um filho da puta qualquer, mas era para eu estar ao seu lado. Eu fui o convidado, não ele. Já passa das três da manhã, mas eu não me importo e, o mais depressa possível ligo o carro seguindo em direção ao nosso prédio. No caminho, bombardeio a Júlia de mensagens que, obviamente, não são respondidas. Preciso resolver essa situação o mais depressa possível.


CAPÍTULO 16 Júlia Estou em uma praia linda caminhando com os pés descalços sobre a areia fofa e admirando a imensidão azul do mar. O vento sopra com força, fazendo os meus cabelos voarem sobre meu rosto. De uma hora para outra, o mar começa a ficar revolto e o céu cada vez mais escuro. Eu estou em um vestido branco de pontas soltas e que, devido ao vento forte balança sem parar. Minhas sobrancelhas se unem ao perceber que em meio ao mal tempo, vejo alguém se aproximando de mim, caminhando na direção contrária na areia. À medida que nos aproximamos, noto que se trata de uma jovem com um olhar sofrido e com uma expressão triste. Sua pele é pálida e enormes círculos escuros estão ao redor dos seus olhos. Seu vestido branco é estranhamente parecido com o meu, mas muito sujo. Por incrível que pareça, eu não sinto medo, apenas compaixão. — Júlia — ela me chama pelo nome enquanto mantém uma certa distância. Sua voz é macia e baixa. — Como sabe meu nome? — Eu apenas sei! — Ela sorri fracamente. — Quem é você? — A jovem me observa atentamente. — Finalmente, ele encontrou o seu caminho — ela diz, ignorando a minha pergunta. — Quem encontrou o caminho? — Andrew — ela responde. — E qual foi o caminho que ele encontrou? — Ela sorri fracamente e exala um suspiro profundo. — Você — ela responde, me fazendo unir as sobrancelhas. Fico estática com o seu comentário e não sei o que dizer a essa estranha à minha frente. Ela parece enxergar dentro de mim, como se soubesse no que estou pensando. — Tenha paciência, Júlia — ela diz e logo em seguida fixa seus olhos sobre a imensidão do mar revolto. — Até o mar se acalma depois de uma grande tempestade — dito isso, uma luz branca invade meus olhos e eu não consigo enxergar mais nada. Dou um sobressalto na cama, me sentando e respirando um pouco com dificuldade. Meu coração está acelerado e estou tremendo levemente. — Que sonho maluco! — sussurro para mim mesma. O relógio marca seis da manhã. Ainda estou sonolenta quando decido me levantar. Sigo em direção ao banheiro para me higienizar ainda pensando naquele rosto sofrido que mesmo tão jovem sabia tudo sobre mim. Volto para o


quarto e vejo meu celular sobre o criado-mudo e o pego imediatamente. Sentome na beira da cama e meus olhos observam a tela do celular por longos segundos até finalmente ligá-lo. As luzes do visor se acendem revelando inúmeras mensagens que Andrew me enviou durante toda a madrugada. Exalo um suspiro profundo. Em todas as mensagens, ele diz que precisa me ver e precisamos conversar, mas eu não quero falar com ele. Não agora. Levanto-me e coloco minha roupa de corrida para enfrentar esse frio que me espera. Preciso correr no ar gelado, para acalmar os meus ânimos. O dia de hoje está cinza e o termômetro do meu celular marca dois graus. Mesmo neste frio, os nova-iorquinos ainda procuram ânimo para correr, já que por aqui o frio prevalece por mais tempo durante o ano. Corro por uma hora no Central Park e volto para a casa, sentindo-me mais revigorada. Por incrível que pareça, eu gosto desse vento gelado que ao contrário de muitos, me faz sentir bem. Subo às escadas correndo e, assim que abro a porta principal, ouço uma voz que, definitivamente, não esperava ouvir nunca mais. — Querida, pode segurar a porta pra mim? — Viro-me e dou de cara com a louca da Kate. Um táxi está parado na porta e acredito que ela deve ter saído dele. Encaro-a e nada respondo! - Júlia, é o seu nome... não é? — ela pergunta e eu posso sentir o deboche impresso na voz. — Não é da sua conta. Eu não sei se você se faz de vítima ou é louca como dizem... —provoco-a e o sorriso que estava impresso em seu rosto se esvai rapidamente. — Ontem, Andrew foi muito sem educação com você, querida. Ele nem apresentou a namorada — ela diz apontando seu dedo para si mesma. Kate tenta forçar um sorriso, mas falha, já que está nítida a sua raiva por mim. — É mesmo? Não foi o que ele me disse — respondo rispidamente e ela passa por mim feito um foguete pisando forte. Continuo observando-a enquanto ela espera os elevadores com o telefone no ouvido. — Andrew, amor... já recebi a sua ligação e estou subindo. Te amo! — Ela desliga e me lança um olhar com um leve sorriso maldoso. Sei que ela está tentando me provocar, mas o meu coração dispara apenas em imaginá-la nos braços do Andrew. Porém, de uma coisa eu sei. Eles não dormiram juntos. Só em pensar que ela está indo para a cobertura dele, me dá vontade de vomitar. Depois de esperar o outro elevador e subir sozinha, entro no apartamento e vejo Jessica na cozinha preparando nosso café.


— Oi, Jú, foi correr nesse frio? — Sim, mas advinha quem eu encontrei na entrada do prédio? Kate! — informo e Jessica ergue as sobrancelhas. — Sério? — Aceno positivamente com a cabeça e me sento no banco alto de frente ao balcão. — Você acredita que ela teve o descaramento de me dizer que é "namorada" do Andrew? Ainda ligou para ele na minha frente só para que eu veja que ele a chamou. — Em que você foi se meter, minha amiga? — Jessica diz com o tom de voz baixo me fazendo exalar um suspiro de frustração. — Não sei. Eu apenas não entendo por que Andrew é tão esperto para algumas coisas e não percebe que essa mulher está usando um passado para fazê-lo se sentir culpado. — Será que ele a chamou mesmo? — Jessica questiona enquanto derrama o café em nossas xícaras de porcelana. — Se eles não dormiram juntos, provavelmente ela aprontou feio. — Meus olhos estão pensativos sobre a xícara com o café fumegante. — Andrew não parecia envergonhado quando me viu e sim com muita raiva. Acho que ela é a culpada sobre ontem, embora ele tenha sido extremamente grosseiro comigo. — Então, você acredita que a louca tenha armado tudo, inclusive a cena do restaurante? — Exalo um suspiro profundo. — Tenho absoluta certeza. Um homem quando é pego de surpresa, se sente constrangido não chateado como se eu estivesse escondido algo dele. — Ela concorda com a cabeça e eu continuo: — Bom, de qualquer forma... ele foi estúpido e deu prioridade a essa mulher. Não conseguirei conversar com ele, além do mais, preciso levar alguns quadros para a loja. — De qualquer forma, não converse com ele. Dê um gelo. Ele foi estúpido e burro por ainda cair em armadilhas feito essas. Sopro o meu café enquanto imagino o que essa mulher está fazendo no seu apartamento. Andrew precisa acordar sobre essa tal Kate que está nitidamente querendo entrar na sua vida de vez. — O que não entra na minha cabeça é que se ele não gosta dela, por que largou tudo para fazer o que quer que seja para Kate? — Jessica pressiona seus lábios e maneia a cabeça de forma pensativa. — Culpa — é a única palavra que ela consegue dizer. ***


Andrew Acordo com uma grande dor de cabeça e saio da cama quase me arrastando em direção ao banheiro. Durante a madrugada, não parei de pensar na Júlia e nas coisas que disse a ela. O que ela deve estar fazendo agora? O que ela deve estar pensando? Preciso me explicar; preciso saber como ela se sente. Ela não retornou minhas ligações e eu sei que dessa vez, ela não vai falar comigo. Darei um tempo e não passará de hoje. Sei que será difícil, mas eu, ao menos, preciso tentar. Ligo o chuveiro e deixo a água gelada fazer o seu trabalho relaxante. Fecho os olhos e passo o sabonete sobre meu abdômen sentindo a água gelada entrar em cada poro do meu corpo. Passo longos cinco minutos apenas deixando a água cair e logo em seguida saio sentindo-me bem melhor. Desço até a cozinha à procura da Betty, mas não a vejo por aqui. Provavelmente, ela esteja fazendo compras. Sobre a ilha da cozinha, vejo que ela deixou torradas, frutas e bolos. Embora não esteja com fome, me forço a comer uma torrada e tomar um suco gelado enquanto reflito sobre ontem e a cena patética que protagonizei. De repente, ouço a campainha tocar e, sabendo que Betty não está, apresso-me a atender. Antes de aproximar-me, imagino que seja alguém do prédio, já que não foi avisado na portaria. Imediatamente penso na Júlia e meu coração acelera imaginando-a do outro lado da porta. Aproximo-me do olho mágico e minha animação vai embora rapidamente quando me deparo com a Kate sorrindo para mim do outro lado. O que essa mulher faz aqui logo cedo? Fecho os olhos e solto um suspiro profundo de frustração. É melhor eu resolver, antes que ela decida acampar aqui na minha porta. Afasto-me e em seguida com muita relutância, abro. Kate sorri como se nada tivesse acontecido. Seu cinismo ultrapassa todos os limites. — Kate? Como você entrou aqui no prédio? Por que diabos você veio sem me avisar? — Ela ergue as sobrancelhas e sorri como se isso fosse totalmente normal. — Eu precisava saber se você está bem depois de tudo que aquela mulher te fez. E claro, pegar o meu celular que está com você. Fixo meus olhos em um aparelho que ela segura em suas mãos e não o identifico. Eu dou todos os aparelhos a ela, mas não me lembro de ter dado esse que parece ser tão caro quanto o outro que ela havia esquecido no carro. — Você tem outro aparelho? — Assustada, ela olha para suas mãos e coloca o celular dentro da sua bolsa. — Sim... na verdade... eu ganhei dos meus pais. — Sei que ela está


mentindo, mas decido não dizer nada. — Quero que vá embora. Não irei pagar outra diária e muito menos aturar você por mais dez minutos. — Mas você me fez sofrer e não é justo eu ir embora depois de tudo que passei por sua causa. — Encaro-a com total perplexidade. — Aqui na minha casa, você não foi convidada. Então, por favor... Saia! Se continuar naquele hotel, terá que pagar! — Andrew, eu vim a Manhattan só para te ver. Você não pode me expulsar da sua casa e nem me obrigar a voltar para a minha cidade. Estou fazendo tratamentos e eu realmente posso ter outra crise. Por favor, me deixa entrar?! — ela insiste com os olhos marejados e eu a observo percebendo o quão baixa essa mulher pode ser. Definitivamente eu não tenho saco para suas loucuras. Dane-se... Ela não vai estragar mais a minha vida. — Kate... ouça bem. Quero que você suma daqui, agora. Acho que estou pagando mais do que deveria pelos erros que cometi com você no passado. Quero que você SAIA imediatamente do meu apartamento e principalmente, quero que desapareça de Nova York e volte para sua casa de onde você não deveria ter saído nessas condições psicológicas. Ela me observa paralisada e pela sua expressão, não esperava essa reação. Acho que agora ela finalmente entendeu o que eu disse. Afasto-me da porta e a fecho com força batendo-a praticamente na sua cara. Espero que agora ela desapareça. Depois de deixá-la plantada na porta e desejando sinceramente que ela suma, volto para minha suíte, me visto e ligo para o meu pai que há dias não dá nenhuma notícia. Falamos sobre a empresa e não pude prolongar o assunto, já que ele estava no meio de um jogo de golfe. Ele parecia exausto e eu não queria estragar o seu momento. Passei a manhã inteira tentando imaginar um modo de como pedir desculpas à Júlia. Porém, nada me veio à cabeça. Não posso ir ao seu apartamento e simplesmente dizer que sou um babaca. Merda! Esfrego meu rosto furiosamente enquanto me levanto do sofá. — O que houve, meu filho? — Betty surge na porta com muitas sacolas de compras na mão. Ignorando a sua pergunta, levanto-me e, rapidamente, vou até ela, ajudando-a com as compras. — Eu sei que você não está bem... Não minta para mim. — Exalo um suspiro profundo enquanto retiro as compras das sacolas e as coloco sobre a ilha da cozinha.


— Eu fiz merda, Betty. E desta vez, não sei se a Júlia vai me perdoar. — Betty aproxima-se de mim e segura meu braço com carinho. — Seja lá o que você tenha feito com essa moça, vejo nos seus olhos o seu arrependimento, meu filho. Sei que você a ama. Você ainda não se deu conta disso, mas... você a ama e, quer saber? Ela também te ama, querido! — Suas palavras me trazem um certo pânico, mas eu não posso dizer que esse, seria exatamente o sentimento que estou nutrindo por ela, já que eu nunca senti isso antes. — Ela deve me odiar e eu não sei como lidar. Isso é completamente novo pra mim e eu não... — Seja apenas você — ela me interrompe. — Ela te ama assim, do jeito que você é. Andrew. Você é bom, meu filho... Eu sei que ela vai te perdoar! — Betty, sempre foi compreensiva e enxergou o mundo de maneira diferente de mim. Ela é pura e não vê maldade e não acredita que eu seja uma pessoa ruim, mas eu sou. Eu a tratei mal e dei prioridade a quem não merece nem a minha presença. — Liga para ela, meu querido. Peça para conversar e abra o seu coração! — Mais uma vez, Betty, me deixa sem palavras. Ela é o meu anjo e mais uma vez tem toda a razão. Se eu cometi o erro, eu terei que consertar. — Ok, vou ligar! — afirmo. Pego o meu aparelho e procuro o nome da Júlia que, inesperadamente surge na tela do meu celular. — Fixo meus olhos nos da Betty. — Ela está me ligando! — informo animadamente. — Que coincidência! Agora atenda e resolva tudo de uma vez! — Concordo com a cabeça e me afasto atendendo a ligação logo em seguida. — Júlia? — A minha voz parece ansiosa, mas logo entro em alerta ao perceber que não é a Júlia que está do outro lado da linha. — O senhor é parente da Júlia? — estreito meu olhar e Betty me analisa com uma expressão preocupada. Quem é essa mulher? E o que está fazendo com o seu celular? — Quem é você? — pergunto com o tom de voz elevado. — Ela... acabou de ser atropelada! — Sinto meu coração acelerar e um sentimento ruim se apossa do meu corpo. Pânico é a palavra que me define neste exato momento. — Como ela está? Ela está bem? Me diga que ela está bem, pelo amor de Deus! ME DIZ? — Ando de um extremo ao outro, passando a mão freneticamente sobre meu cabelo. — Desculpe, mas eu não sei dizer, já que ela está desacordada. — Paraliso e a impressão que tenho é que uma bola se formou em minha garganta. O ar


parece faltar e meu coração bate em um ritmo muito acelerado. — Onde ela está? Preciso vê-la... AGORA! — vocifero. — A ambulância, já está se aproximando. O senhor terá que ir ao hospital de emergência da rua quatorze. — Ao fundo, posso ouvir o barulho de ambulância e o desespero toma conta de mim. Desligo o celular, pego as minhas coisas e, sem pensar, saio rapidamente em direção ao hospital. CAPÍTULO 17 Júlia Para minha surpresa, meus quadros estão vendendo muito bem e isso me deixa animada a continuar, já que não esperava um retorno financeiro tão rápido. Acabei indo mais cedo para loja e na empolgação, fiquei por lá durante toda a manhã. Na volta para a casa, decido caminhar e pensar em tudo que tem me acontecido desde que pisei aqui. Aliás, desde que eu conheci o Andrew. O problema é que eu percebi que estou realmente apaixonada por ele e isso, definitivamente, não estava nos meus planos. Vê-lo ao lado da Kate me causou mal-estar e eu não consigo imaginar outra mulher ao seu lado. Esse homem veio para virar a minha vida de cabeça para baixo e isso está me deixando louca. Enquanto ando pela calçada na sétima avenida admirando a movimentação, meu celular toca. Retiro-o do bolso da minha calça e percebo que o número que está me ligando é bloqueado. Estreito o olhar, mas decido atender a ligação. — Alô? — Júlia? — Meu coração dispara ao perceber de quem é essa voz. — Adam? Por que diabos está me ligando? — questiono-o de forma ríspida e com as mãos trêmulas devido à surpresa da sua ligação. O que ele quer? — Quero me desculpar por aquele dia. — Não respondo e tento pensar em algo para acabar com isso de uma vez por todas. Não quero que ele me ligue, não quero mais contato e muito menos receber a suas desculpas. — Você tem sorte que eu não te denunciei ainda. — Ele solta uma gargalhada sarcástica completamente diferente do homem que eu conhecia. Adam está mostrando quem ele realmente é. Isso me a — Você não tem provas, sua idiota! — ele afirma, mas imediatamente ouço-o respirar pesadamente. — Júlia... eu não paro de pensar em você. Vamos conversar pessoalmente, por favor?! — Esse homem é um lunático e depois disso, eu decido encerrar a ligação. Quem diabos ele pensa que é para fazer o que fez contra mim e me ligar como se nada tivesse acontecido? Aperto o passo ainda olhando para o aparelho com total indignação quando, de repente, meu corpo colide com um corpo duro e forte. Quando meus olhos


encontram o seu rosto, quase caio para trás de susto. Meu coração dispara e eu pareço uma estátua agora encarando-o. — Adam? — Arregalo os olhos ainda sem entender como ele está aqui. — Você está me seguindo — afirmo e ele sorri sem demonstrar emoção. — Sim. Gostou da surpresa? — ele pergunta calmamente. Tento me afastar, mas ele segura meus punhos com força e com um sorriso estampado no rosto. — Vem dar um passeio. Quero apenas conversar, prometo! — Olho ao meu redor percebendo as pessoas andando muito apressadas para reparar em uma tentativa de sequestro. Ainda mais quando parece uma briga comum de casal bem no meio da sétima avenida. Seu carro está parado a poucos metros e um pânico começa a se instalar em mim. Ele, definitivamente, não está brincando. — NÃO, ADAM! — altero a minha voz para chamar a atenção de algumas pessoas que até nos observam, mas nada fazem. Continuam a andar enquanto sou praticamente arrastada pela calçada. Preciso fazer algo, antes que ele consiga me levar para o seu maldito carro. De algum modo me afasto e chuto com toda a minha força a sua canela. Instintivamente ele me solta e se abaixa com uma expressão de dor. — Sua vaca! — ele grita e eu disparo em direção à rua sem olhar para trás. De repente sinto um baque forte sobre mim e tudo rapidamente se torna um borrão. Vejo-me deitada no chão e, aos poucos, tudo se escurece. *** Acordo com uma batida e, no primeiro momento, penso que vem de dentro da minha cabeça, mas é uma batida vinda da porta da ambulância onde estou sendo retirada e meu corpo sendo levado para dentro de um hospital. Olho ao meu redor e vejo pessoas uniformizadas conduzindo-me com rapidez. Estou com um tubo sobre minha boca e um colar cervical imobilizando meu pescoço. Segundos depois eu não vejo mais nada e contra a minha vontade, adormeço. Meus olhos se abrem vagarosamente fixando-os sobre o teto branco repleto de luzes muito claras que dificultam a minha visão e não consigo identificar onde exatamente estou. Movimento meu corpo e sinto uma mão quente pressionando a minha, com força. — Júlia? — a voz grave do Andrew me chama e, no primeiro momento, penso ser fruto da minha imaginação. — Júlia? Você me ouve? Você consegue me ver? — Forço a minha visão até encontrar belos olhos azuis me observando com uma expressão preocupada. Andrew está aqui, mas como? O que houve comigo? Minha mente está confusa, mas meus olhos não saem de cima do seu rosto que se aproxima lentamente do meu. — O que houve? — minha voz soa baixa e rouca.


— Graças a Deus. — Ele exala um suspiro profundo. — Estávamos preocupados. Como se sente? — Ele me observa com expectativa. — Não sei... — De repente, tudo vem à tona dentro da minha cabeça e, Andrew percebe minha súbita mudança de expressão. Sim, estou com medo. Muito medo do Adam. Ele parecia totalmente obstinado a fazer alguma coisa contra mim. — Adam — digo e Andrew une as sobrancelhas ao ouvir esse nome. — O que tem esse desgraçado? — Engulo em seco e forço o meu cérebro a me lembrar do que aconteceu. — Ele estava me seguindo e queria me arrastar para dentro do seu carro. Só me lembro de fugir dele e depois... não me lembro de mais nada! — Andrew esfrega seu rosto furiosamente e se ergue andando de um extremo ao outro com uma expressão transtornada. — DESGRAÇADO! Não pode ser. Você foi atropelada por causa desse pilantra? Eu deveria ter tomado uma atitude. — Andrew, acalme-se! — Ouço a voz da Jessica que surge pela porta e aproxima-se de mim. — Como você está se sentindo, Ju? Que susto você nos fez passar! — Ela se aproxima e seu olho inchado revela que minha amiga chorou. — Não sei! — respondo sem realmente saber o que de fato aconteceu com o meu corpo. — O médico disse que por sorte você não sofreu um traumatismo grave. — Ela exala um suspiro e Andrew está parado ao seu lado me observando com as mãos sobre a cabeça. Ele ainda está com um misto de preocupação e raiva no olhar. — Você foi atropelada por um táxi e, segundo ele, você apareceu do nada e o carro não teve como parar. Dê graças a Deus, foi apenas um susto. Você fraturou levemente o tornozelo e deslocou o ombro esquerdo — ela me conta e eu engulo em seco imaginando a gravidade da situação. Deus, realmente dei muita sorte! Os carros de Nova Iorque estão sempre em alta velocidade. — Ele relatou que estava com seu carro relativamente devagar, mas poderia ter sido muito pior — ela conclui e a minha expressão de medo continua. Se eu fraturei meu tornozelo, não poderei colocar os pés no chão. — Quanto tempo terei que ficar sem andar? — Jessica maneia a cabeça com um sorriso triste. — Não sabemos ao certo. Tudo vai depender de você e claro, de quem estiver cuidando de você. — De repente me vem uma constatação de que Jessica terá que parar seus ensaios diários por minha causa. — Não é justo. Você não pode parar... — Eu já tomei a minha decisão. Eu cuidarei de você!


— Não — Andrew nos interrompe e voltamos à atenção ao homem de pé ao seu lado. — Ela vai para o meu apartamento. Faço questão. — De jeito nenhum... — tento argumentar, mas ele se aproxima novamente sentando-se na cadeira ao meu lado. Seu olhar sobre mim é decidido. — Isso já está decidido. — Sua expressão se suaviza logo em seguida. — Por favor, deixe-me cuidar de você? Jéssica aproxima-se tocando seu ombro. — Andrew, eu posso ficar com ela sem problema algum e... — Já disse que não — ele a corta taxativo. — Betty está lá e, Jessica, você não precisa se sacrificar. Não é justo. — Ele fixa seus olhos nos meus. — Betty ficará em casa o dia inteiro e gosta de você, Júlia! — Ele usa esse argumento, sabendo que Jessica não poderia largar a sua vida. O problema é que eu prefiro voltar para a casa dos meus pais no Brasil, que aturar aquela Kate um segundo que seja. — Não. Eu não suporto essa Kate e... — Ela não entrará na minha casa. Eu a proibi e a mandei embora. — Ficamos nos encarando até que Jessica faz um barulho com a garganta. — Eu vou sair, vocês precisam conversar. — Tento chamá-la, mas ela se vira e sai fechando a porta logo em seguida. — Preciso falar sobre a Kate e você entenderá o motivo das minhas ações. —Estamos nos encarando e ele continua: — Kate é esquizofrênica — ele solta e meus olhos se ampliam com surpresa. — Aquele dia, ela veio a Nova Iorque sem me avisar. Não imaginei que ela pegaria uma droga de um avião viesse pra cá — ele diz me deixando perplexa com sua revelação. — Júlia, a minha mudança inesperada de comportamento se deve ao fato de uma de suas crises. Kate me ligou dizendo que estava presa. Ela havia quebrado toda a suíte do hotel onde ela estava hospedada. Tive que ir à delegacia e o pior é que tive que pagar uma nota pelos prejuízos que ela causou. Havia muito tempo que ela não tinha essas crises nervosas pelo o que a família dela me contou. — Ele exala um suspiro profundo. — Enfim, eu não te contei antes porque achei que não iria entender e eu não tinha tempo para explicar. Agora as coisas fazem sentido na minha cabeça e, de certa forma, sinto-me aliviada de que havia um motivo concreto dele se afastar de mim, mas, por algum motivo eu via maldade sobre o semblante daquela mulher. Esquizofrênica ou não, ela sabe o que quer. Os minutos seguintes, Andrew me contou tudo que passou com a doida da Kate e sobre a confusão do aparelho celular. Disse que, mais uma vez, ela apareceu sem avisar e eu, no fundo já imaginei que fosse isso, já que se


estivessem bem eles estariam dormindo juntos. — Meu Deus, Andrew. Se você ceder a tudo que ela quiser, você não terá mais vida. Você não acha que ela está exagerando? — Ele acena e solta um ar forte. — Depois conversaremos sobre isso. Prometo. — Ele solta o ar pesadamente. — Júlia, você não faz ideia de como eu me senti depois que recebi aquela ligação. Foi como se o mundo tivesse caído sobre a minha cabeça. — Andrew me encara com uma expressão de dor. — Júlia... — Ele segura o meu rosto passando o polegar lentamente sobre a linha da minha mandíbula. — Me perdoa! Perdoa-me pelo que te disse naquele restaurante. Perdoa-me por ter sido tão idiota, cego e burro? — Engulo em seco ao sentir desespero em sua voz. Andrew está arrependido e parece ansioso pelo meu perdão. — Tudo bem. Você se enganou com o seu celular e... esqueça isso. — Sentado na cadeira, Andrew abaixa seu rosto sobre minha barriga, e fica assim, calado de olhos fechados por longos segundos. Em seguida ele ergue sua cabeça e me observa atentamente. — Me deixa cuidar de você? — Ele engole em seco na expectativa. Exalo um suspiro profundo. — Contanto que você prometa que eu não verei aquela louca novamente. — Um sorriso ameaça a se desenhar em seus lábios. — Prometo. Ela não vai mais atrapalhar a nossa vida. ***


Andrew Júlia precisou ficar mais uma noite no hospital e, no dia seguinte recebeu visitas de policiais para contar o que havia acontecido. Eu os chamei e pedi que ela falasse daquele maldito e registrasse uma queixa formal contra ele. Agora, a polícia já sabe que Adam é o culpado pelo acidente e assim que for encontrado, será preso por tentativa de sequestro. Já liguei para os meus seguranças e todos aqueles que trabalham para mim estarão empenhados para encontrá-lo. Espero que seja breve. Espero que esse canalha vá para cadeira e não saia mais. Com Júlia em meus braços, subo as escadas até finalmente adentrar o meu quarto. Um de seus braços está imobilizado por causa do seu ombro deslocado. Lentamente, coloco seu corpo sobre a minha cama. Ela não questiona e apenas respira profundamente enquanto ajeito o travesseiro sob sua cabeça. Havíamos nos alimentando e a única coisa que queremos nesse momento é dormir. Júlia, por causa dos medicamentos e eu, por ficar a noite inteira acordado ao seu lado, até que o médico finalmente a liberou. Começo a me despir sem pudor algum e percebo seu olhar sobre mim. Embora sonolenta, Júlia estreita seus olhos como se o que eu estivesse fazendo fosse errado. — O que foi? — pergunto depois de retirar a minha roupa e ficando apenas de cueca. Ela exala um suspiro profundo e seus olhos não conseguem sair do meu corpo. — Você... Eh, vai dormir aqui? — Ergo as sobrancelhas curvando levemente meus lábios em um sorriso. — Você acha que uma pessoa que ficou a noite inteira sentado em uma cadeira de hospital muito dura e desconfortável, não mereça dormir? — Ela parece envergonhada agora. — Sim, verdade... apenas fiz uma pergunta idiota. — Júlia ainda está com receio e isso é nítido, mas eu vou fazer de tudo para que ela confie em mim novamente. Depois de tudo que ela passou eu não tenho dúvida sobre o que sinto em relação a ela. — Na verdade, apenas dormir com você na mesma cama... será um grande sacrifício pra mim! - brinco, mas na verdade é exatamente isso que eu quero dizer. Será um grande sacrifício dormir ao lado dela e não fazer o que eu realmente quero. Sem dizer mais nada me enfio ao seu lado na cama e sem machucá-la pressiono meu corpo no dela. Sinto seu corpo se arrepiar e um sorriso escapa dos meus lábios. Ela não está indiferente. Júlia me deseja. Lentamente, a encaixo em meu corpo e descanso minha mão sobre seu quadril. Ela não se mexe, não pede que eu saia e, essa sensação é tão boa que,


poucos minutos depois já estou mergulhado em um sono profundo. *** Sinto um corpo quente se mexer próximo a minha região e, quando abro os olhos, percebo que não é um sonho. Júlia está aqui e, como previa, estou completamente excitado. Sei que isso é totalmente descabido tendo em vista sua atual situação. Porém, não posso me culpar, já que ela é capaz de mexer com todo o meu sistema. Ela consegue me despertar a qualquer momento. Inclino a minha cabeça e noto que ela ainda dorme. Não sei quanto tempo dormi, mas sei que preciso de um banho e mesmo que com esse cheiro delicioso, ela também precisa. Afasto-me dela sem nem ao menos acordá-la, começo lentamente e puxar o zíper do seu vestido e Júlia abre seus olhos me encarando com perplexidade. — O que está fazendo? — Ergo as sobrancelhas enquanto termino de puxar o zíper na lateral do seu vestido. — Vamos tirar esse vestido. Precisamos tomar um bom banho. — Você vai... me dar banho? — ela pergunta com desconfiança e um pouco de perplexidade. — Não que você esteja fedendo ou algo do tipo, mas nada me dará mais prazer que poder te dar um bom banho — brinco e ela sorri de uma forma leve e agradável. Depois de deixar a banheira na temperatura ideal e ainda de cueca, delicadamente pego-a nos meus braços nua me esforçando em me concentrar apenas no banho. Havia retirado o suporte em seu braço e, aos poucos, eu a sento na lateral da banheira. Júlia não se sente constrangida e muito menos eu, ao vê-la dessa forma. É como se já nos conhecêssemos por toda a vida. Retiro a minha cueca e em seguida, com bastante cuidado emergimos nossos corpos dentro da água quente relaxante. Encaixo seu corpo sobre o meu bem devagar e ali permanecemos por muito tempo. Passo o sabonete líquido com um cheiro de lavanda sobre seu corpo enquanto sua cabeça está apoiada sobre o meu ombro esquerdo. Assim como eu, Júlia respira com dificuldade ao notar a minha ereção que parece explodir debaixo do seu corpo nu. Neste momento, eu estou fazendo um enorme esforço para não entrar nela aqui mesmo. Infelizmente, esse tipo de coisa não há como controlar quando se é um homem em pleno vigor físico. Precisamos sair daqui rapidamente. — Júlia? — chamo-a ofegante e meus lábios estão próximos ao seu ouvido. — Hum — ela responde com os olhos semiabertos. — Precisamos sair. — Ela exala um ar profundamente. — Sim. — Engulo em seco e definitivamente não quero que ela pense que


o meu intuito em trazê-la aqui, é para transar com ela, no entanto, terei de fazer um esforço descomunal. Não quero machucá-la e muito menos estragar tudo. Quero apenas cuidar dela e somente então, pensar no que farei com aquele desgraçado do Adam. Ele sim, não sai da minha cabeça. CAPÍTULO 18 Júlia Estamos na véspera de natal. É a primeira vez que passo as comemorações de fim de ano longe dos meus pais. Acho que ultimamente tenho ficando cada vez mais sentimental, principalmente depois do acidente provocado pelo Adam. Meus pais quase tiveram um ataque cardíaco quando contei sobre o acidente. Queria que eu pegasse o primeiro voo de volta para casa. Porém, argumentei dizendo que o acidente não foi grave e ocultando a parte em que Adam participa. Contei aos meus pais sobre o Andrew e como estou sendo bem cuidada por ele. Disse que somos namorados, embora não houve um pedido "oficial", mas é o que somos. Eles estranharam um pouco o fato de eu estar aqui, mas eu os acalmei contando sobre Betty e que Andrew é o filho de um dos sócios de seu amigo. Depois de várias explicações eles finalmente entenderam a minha situação e me apoiaram mesmo querendo que eu voltasse para casa. — Querida, já tomou seus medicamentos? — Betty pergunta com uma expressão preocupada. Ela está preparando nossa ceia de natal e mesmo assim, ainda separa um tempo para cuidar de mim como se eu fosse sua filha. — Acabei de tomar. Obrigada Betty. — Ela sorri e volta para os seus afazeres. Estou deitada sobre o sofá que fica de frente à grande parede de vidro. Estou dispersa lento uma revista, quando a porta da frente se abre revelando o homem mais lindo que já vi, e completamente exausto. Andrew está segurando seu terno sobre o ombro e caminha diretamente até mim. — Oi, como você está? — ele sussurra com uma voz rouca e macia. Andrew se abaixa e aproxima o seu rosto ao meu. — Melhor a cada dia. Como foi seu dia? — pergunto, enquanto passo os dedos sobre seu belo rosto. — Cansativo. Muitos assuntos pendentes, reuniões... — Ele exala um suspiro profundo enquanto também acaricia suavemente minha mandíbula. — Foi um dia difícil — ele conclui. — Você não está acostumado? — pergunto com curiosidade. Andrew quase


não fala sobre ele; sobre o trabalho. Ele sempre está interessado sobre a minha vida ou o que eu fiz. Também preciso saber. Ele se levanta lentamente e se senta em uma poltrona ao meu lado. — Fui preparado desde muito cedo para ser capaz de administrar qualquer empresa. Porém, sempre fiz tudo com o meu velho pai ao meu lado. Tenho minhas empresas separadas, como a boate que comprei recentemente. Onde te conheci. — Sorrio levemente. — E você está tendo alguma dificuldade? — questiono e Andrew não parece desconfortável com as minhas perguntas. — Não, não é isso. Eu gosto de administrar. Gosto mais ainda de fazer com o meu pai sempre por perto. Acho que é apenas preocupação de filho. Ultimamente ele veio com um papo estranho. Disse que eu tenho que fazer tudo sozinho, já que nunca saberemos o dia de amanhã. Ele tem viajado pelo mundo há meses alegando que precisa aproveitar um pouco a vida e devo confessar que essa atitude me causou estranheza. Enfim, só preocupação! — Seus olhos agora estão encarando a vista do lado de fora. — Entendo! — digo com um sorriso satisfeito e Andrew passeia descaradamente seus olhos sobre o meu corpo. — Senti sua falta o dia todo — ele confessa e meu sorriso se amplia ainda mais. — Eu também — confesso e, lentamente, Andrew se levanta e novamente se abaixa encostando seus lábios nos meus e me beijando profundamente. Acho que nunca vou me cansar disso. Seu beijo é incrível. Sua boca é deliciosamente macia. Mesmo passando o dia inteiro fora de casa, ele consegue cheirar ainda tão bem. Mesmo vendo-o todos os dias, ainda sinto saudade. Estou perdida por esse homem. Vim para Nova Iorque para esquecer uma desilusão amorosa e Andrew está me fazendo esquecer quem sou eu. — Adoro seu cheiro, Júlia. Adoro seu beijo e principalmente, estou ansioso para ter você completa para mim. — Ele me da um meio sorriso. — Adoro saber que no fim do dia, você estará aqui, na minha casa me esperando depois de um dia de trabalho cansativo. — Curvo meus lábios em um sorriso. Gostaria de continuar sendo cuidada por ele para sempre. Mas ele se assustaria. Pode achar que estou sendo muito rápida e se cansar de mim. Não quero que ele se canse. Nunca. — No que você está pensando? Você me parece, preocupada! Imagine, Andrew. Eu só quero passar o resto da minha vida com você. Não quero ir embora daqui, nunca mais. Sinto-me em casa quando estou com você. Amo dormir ao seu lado. Entendeu ou quer que eu desenhe? — Nada demais — digo sem verbalizar o meu pensamento e ele me encara


com um olhar curioso. — Não parece. Você fez uma carinha preocupada! Vejo ruguinhas na sua testa — ele diz pressionando suavemente seus dedos entre meus olhos. — Estava pensando como é bom ser mimada por você e a Betty. Quando for embora, sentirei muita falta de tudo. — Seu rosto repentinamente se fecha e Andrew parece pensativo agora. O que essa expressão quer dizer? ***


Andrew É noite de natal e eu estou pronto para a ceia. Hoje, estarei fazendo algo completamente diferente. Vou participar de uma ceia de natal ao lado da minha namorada. Namorada de verdade! E sabe o que é mais louco? Eu estou gostando disso. Sempre passei o natal ao lado do meu pai e a Betty. Na verdade, nunca dei tanta importância em comemorações de fim de ano. Acho que estou experimentando muitas coisas novas ao lado da Júlia. — Andrew, querido. Venha buscar a Júlia — Betty me chama do topo da escada e eu me levanto colocando o meu copo de vinho sobre a mesa. Júlia ainda não consegue tocar seu pé direito no chão, e não pode usar nada para se apoiar, já que seu ombro ainda está doendo muito. Subo as escadas e sigo pelo corredor até o nosso quarto e quando entro, dou de cara com a única mulher capaz de me deixar completamente sem fala, principalmente pela sua extrema beleza. Ela sorri quando me vê e meus olhos passeiam por toda a extensão do seu corpo. Júlia está simples com um vestido preto que a deixou com aparência de mais jovem. Ela não pode usar sandália, já que está com a bota ortopédica imobilizando seu pé. Seu ombro também está imobilizado e Betty sempre a ajuda se vestir e eu no banho. Entretanto, hoje Betty a ajudou, já que eu estou a ponto de explodir. Não a toquei ainda e confesso que está sendo cada dia mais difícil. — Sabe, olhando para você com esse vestido, tenho sérias dúvidas sobre realmente te levar lá pra baixo. Minha mente agora quer fazer coisas muito ruins com você. — Você não faria isso! — Ela amplia os olhos com fingida preocupação. — Como eu faria! Não duvide. Você está completamente indefesa nesse sofá. Poderia fazer o que eu bem entendesse com esse seu delicioso corpo — provoco, arrancando dela uma risada deliciosa. — Mas, deixarei para aproveitar de você outra hora, já que hoje é uma noite especial. — Disso, terei que concordar com você. Aproximo-me dela e, delicadamente, pego o seu corpo nos meus braços. Júlia enfia seu rosto em meu pescoço e eu a sinto suspirar o meu cheiro. Ela também cheira maravilhosamente e eu não estava brincando em não querer levála para sala. — Seu cheiro é viciante. Apenas olhar pra você, é viciante. — Você tirou as palavras da minha boca — ela confessa e isso não ajuda em nada. Preciso me concentrar ou enfrentarei problemas com o meu amiguinho aqui embaixo. ***


A noite de natal foi muito agradável. Betty preparou um banquete digno de um palácio. Tenho muita sorte de tê-la em minha vida. Betty não poderia estar aqui em melhor momento. Todos ficamos muito felizes. No entanto, ainda sinto falta do meu pai. Essas viagens dele são intermináveis. Até o natal, ele decidiu ficar longe. Hoje mais cedo conversamos e eu pude sentir através da sua voz que ele sente a minha falta; a minha presença e eu uma grande falta dele. Às vezes, conversando com ele, eu tenho a impressão de que ele está de algum modo triste. Não sei se é coisa da minha cabeça, porém, seja lá o que for, eu terei que respeitar. É o que ele quer. Isso é o que importa. Olho em direção a Júlia que está alegremente conversando com a Jessica que também veio passar a ceia conosco. Ela trouxe o seu namorado que pra mim, parece não se importar muito com ela. Sei lá, ele parece apenas uma companhia. Não é muito de falar e muito menos eu. Falamos apenas o necessário enquanto bebemos. A noite acaba e todos já foram embora. Agora eu só quero me enrolar na cama com a Júlia. — Hora de colocar o bebê na cama! — brinco, e ela, pela primeira vez me lança um sorriso malicioso. — Espera aí, já estava esquecendo o seu presente — informo e ela une as sobrancelhas me observando curiosamente. — Que presente, Andrew? — ela questiona desconfiadamente. — Espere, vou buscar! — afasto-me dela e corro até a árvore de natal que Betty havia montado. Pego a caixa de tamanho médio e aproximo-me dela. — Por que você fez isso sabendo que eu não havia comprado nada, Andrew? Isso é injusto, sabia? Ela não faz ideia de tudo que ela já me deu até hoje apenas estando aqui. — Abra! — ordeno com uma expressão séria e resignada, Júlia curva seus lábios timidamente e retira o papel, rasgando-o por completo. Assim que ela vê o conteúdo da caixa, ela me lança um olhar reprovador. — Um celular de última geração? Por quê? — Estou confiscando seu antigo aparelho e te dando um novo, apenas isso. — Exalo um suspiro profundo. — Júlia, você precisa se proteger. Aquele canalha pode estar planejando algo. Ele sabe o seu número antigo, pode haver algum localizador e, definitivamente, precisamos nos livrar dele. — Andrew, você realmente está preocupado, mas acho que ele é apenas um louco varrido. — Nego com a cabeça e solto um ar pesadamente. — Ele não é apenas um louco. Ele é um psicopata perigoso e provou isso. Não seja ingênua. Já venho ligando para alguns homens que trabalham na minha


segurança e eles estão há dias em busca de pistas que nos levarão até o Adam. — Ela exala um suspiro profundo. — Você tem toda a razão! — Ela parece envergonhada agora. — Eu vou achá-lo. — Aproximo-me dela e seguro seu rosto com as duas mãos. — É uma questão de tempo, mas eu vou encontrar aquele desgraçado. A polícia está à procura e eu contratei pessoas muito capacitadas. Já descobri algumas coisas dele. Mas prefiro não falar agora. Não quero te chatear. — Encaro-a nos olhos. — Não se preocupe com isso, okay? — Tudo bem, mas me conta uma coisa. Você foi à agência dele? — Sim, Júlia... está fechada há algum tempo. Ele desapareceu. Até a Freda desapareceu. Tem muito mistério nessa história e eu vou descobrir. — Ela concorda com a cabeça sem dizer nada. Eu quero passar toda a confiança para que ela sinta-se segura e despreocupada sobre esse canalha. — Depois falamos sobre isso. Agora eu quero te levar para a cama! — afirmo e seus lábios se curvam em um sorriso. — E eu quero que você me leve para cama! — Júlia parece querer algo mais do que estamos fazendo ultimamente. Não a toquei, além de algumas carícias e agindo assim, não sei se conseguirei me controlar por muito tempo. CAPÍTULO 19 Júlia Andrew me deita suavemente sobre a cama e, aos poucos, retira o meu vestido com total delicadeza. Seus olhos sobre mim são de desejo e sua respiração demonstra o quão excitado ele está. Eu também não estou diferente. Quero-o completamente. — Júlia, tem certeza? — ele pergunta e eu apenas sorrio maliciosamente. — Eu preciso de você dentro de mim, Andrew. — Ele curva seus lábios em um sorriso e depois de retirar a sua roupa, ele se posiciona entre minhas pernas. Andrew não quer me machucar então, age como se eu fosse uma boneca de porcelana. — Não está me machucando — afirmo enquanto sua mão direita desliza suavemente sobre a lateral do meu corpo. — Não quero que sinta dor, Júlia. Minha intenção é apenas fazê-la sentir prazer. — Suas palavras me levam à beira de um abismo e, suavemente, seus lábios macios encostam aos meus. Lentamente, nosso beijo se aprofunda e nossas línguas dançam em uma sincronia perfeita. Estamos ofegantes e sem nos separar um segundo, sinto sua ereção entrando lentamente em mim. Essa sensação é inexplicável e única. É como se


meu corpo não quisesse se separar do dele. Como não posso me movimentar de forma alguma, ele se movimenta me trazendo à beira da loucura. Nesse vai e vem, Andrew me beija e nossas respirações se misturam. Minhas mãos estão em sua nuca e seus cotovelos apoiados sobre a cama. Ouço seus gemidos baixinhos e, pouco a pouco tudo se torna ainda mais intenso até atingirmos nosso ápice. — Júlia... — Andrew me chama com os olhos fechados e lábios muito próximos aos meus. Minhas mãos estão segurando a lateral do seu rosto e as dele sobre o meu. Andrew ainda está dentro de mim e é como se ele também não quisesse mais sair. — Sim... — respondo com a respiração entrecortada. — Eu amo... ter você aqui comigo — ele confessa fazendo o meu coração bater descompassado. — Eu também amo estar aqui, Andrew. — digo com um sorriso curvado e ele me beija profundamente. Nossa noite ainda será longa. *** Estou praticamente recuperada. Ainda sinto leves dores nos pés quando ando, mas nada demais. Se não fosse a Betty em colocar gelos sobre o meu pé todos os dias, não estaria assim. Ela foi perfeita na minha recuperação. Hoje, vou falar com o Andrew. Preciso resolver nossa situação, já que posso me cuidar sozinha. Mesmo amando cada dia sendo mimada por ele, tenho que tirar esse peso de cima dos seus ombros. Não é justo. Cheguei a fazer fisioterapia no meu braço e agora, não há nenhuma necessidade de morar aqui. Já estamos no fim de janeiro e, durante todo o mês, não pude ver o Andrew na frequência que gostaria. Ficava o dia inteiro sem fazer nada e nem pude sair. Tentei editar algumas fotos que havia tirado e Jessica emoldurou cópias para repor as mercadorias da loja. A própria Diana, dona da loja, emoldura as mais vendidas e, com isso, a demanda está ainda maior. Os relatórios são enviados pelo meu e-mail e os valores bem além do que esperava. Estou realmente muito feliz com essa independência financeira. O pouco tempo que Andrew e eu temos juntos, aproveitamos ao máximo. Porém, tenho que fazer o certo. Confesso que queria ficar aqui, mas Andrew não se manifestou em momento algum e, obviamente, eu também não vou. Isso deve partir dele, não de mim. Betty implora para que eu fique mais, já que Andrew parece outra pessoa na minha estadia, mais feliz e bem mais paciente que antes. Aprendi a amar esse homem cada dia mais e, confesso que não gosto de me sentir dependente desse amor. Sinto-me dependente da sua presença. Nesse período, conheci o Andrew organizado, rabugento, mal-humorado e completamente carinhoso. Ele não gosta muito de falar sobre si mesmo e não se


vangloria por ter sido dedicado por toda a vida nos estudos e agora no trabalho. No trabalho, ainda não tive a oportunidade de vê-lo em ação, mas pelo pouco que o ouvi ao telefone, ele parece rígido e não aceita erros. A única pessoa que ele trata de maneira diferenciada é a Betty, que na realidade trata o Andrew como um bebê mimado e ele a trata como uma verdadeira mãe. Adoro ver a interação dos dois. Se os visse sem conhecer, falaria com propriedade que são mãe e filho. Outra coisa que Andrew ama fazer quando está em casa é ficar completamente à vontade. Quero dizer que ele ama ficar apenas de cueca e com os pés no chão. Essa parte eu particularmente amo! Finalmente, vou poder sair sozinha pelas ruas, ou pelo menos no Central Park que fica em frente ao prédio. Andrew não quer me deixar sair sozinha e isso está me irritando. Segundo ele, Adam está pronto para atacar a qualquer momento. Acho que em breve já poderei fazer uma caminhada leve, acredito não fará mal algum. Andrew, obviamente, é um super protetor. Já passa das dez da noite e eu, como de costume, estou à espera do Andrew que sempre tem chegado tarde. Estou lendo um livro absorta deitada sobre o sofá quando, de repente, ouço a campainha tocar. Inclino a cabeça com as sobrancelhas unidas. Betty já se recolheu e, não acredito que seja o Andrew, já que ele possui chaves. Novamente a campainha toca e eu me levanto caminhando em direção a ela. Através do olho mágico da porta vejo a mulher que não desejaria ver nunca mais. Sim, estou falando da Kate. Solto um suspiro profundo. A campainha toca incessantemente e eu não atendo ficando com os olhos presos à porta. De repente, ela começa a esmurrar a porta e eu me pergunto o que essa louca faz aqui tão fora de si a essa hora? — O que está havendo? — Betty surge com uma expressão sonolenta. — É a Kate! — sussurro e ela arregala os olhos. — Acho melhor ligar para o Andrew antes de atender. — Aceno com a cabeça positivamente. Pego meu celular e disco o número do Andrew que não atende. Quando está em reunião, ele costuma desligar, mas a essa hora? — Abra a porta, Andrew. Eu sei que você está aí. Você não vai conseguir fugir de mim tão fácil assim, ouviu? — ela berra descontroladamente. Betty parece sem reação e eu preciso fazer alguma coisa para que ela pare de gritar. — Betty, acho que vou abrir! — Ela pode ser perigosa, Júlia. Não abra. — Olho novamente pelo olho mágico e a vejo sozinha. Aparentemente ela está com uma bolsa de mão. Não acho que ela seja perigosa a ponto de cometer algo extremo contra mim ou a


Betty. Kate continua a esmurrar a porta com força e berrar para acordar todo o prédio. — Abra essa merda, Andrew, eu não vou sair daqui, até você abrir. Sentindo-me pressionada e sem pensar, abro a porta. Ela me vê e parece congelada ao perceber quem sou eu. — O. Que. Você . Está . Fazendo . Aqui? — ela grita pausadamente. O ódio que atravessa seu rosto é notável. — Eu. Moro. Aqui. — Tento parecer calma. — MENTIRA! — ela grita e, percebendo que a louca não vai parar de berrar, tento fechar a porta, mas ela é mais rápida e me empurra para o lado. Kate entra no apartamento e Betty a observa com uma expressão assustada. — Até você, Betty? — ela grita demonstrando muito ódio na voz. Kate se vira para me observar com desprezo. — Você acha que é a única na vida do Andrew? Eu o divido com a metade da Califórnia e metade de Nova York. Eu sou a mulher que ele ama, querida. Eu aceitei as outras, porque sabia que era só sexo, que eram mulheres descartáveis. — Ela passeia seus olhos com desprezo sobre meu corpo. — Acho que você está durando mais que o necessário. — Ela se aproxima de mim com um sorriso irônico estampando seu rosto cínico. — Não se anime, querida. Nesse momento ele deve estar trepando com alguma mulher. Saia do apartamento do meu namorado... AGORA! — ela grita e me empurra novamente. Porém, sinto um ódio que não cabe dentro de mim e empurro-a ainda com mais força fazendo o seu corpo cair de costas sobre o chão. — Eu só sairei daqui quando ele mandar — afirmo e lágrimas de crocodilo deslizam sobre seu rosto cínico. — Eu sou a mãe do filho do Andrew... — Você é patética e precisa de tratamento — corto-a com fúria na voz. — Ele te contou que eu estou doente? Andrew não tinha esse direito! — ela berra ainda mais alto. — Sinceramente? Não te acho nem um pouco louca. Você é muito esperta e sabe fingir como ninguém uma fragilidade que não existe. Não me subestime. — Ela ainda está sobre o chão e começa a gritar descontroladamente. Kate puxa seus próprios cabelos e se debate pelo chão me fazendo unir as sobrancelhas. Olho em volta à procura da Betty que surge com o telefone na mão. — Vocês brigaram? — ela pergunta e eu nego com a cabeça. — Ela está se debatendo e se arranhando. — Betty pressiona a mão na boca e a observa com total perplexidade. — O que está acontecendo aqui? — Andrew surge pela porta com um olhar


de incredulidade sobre ela. — Eu só queria ver o Andrew. Por que você me agrediu, sua louca? — ela grita e eu fico atônita com a capacidade que essa mulher tem de mentir. Andrew me encara ainda sem entender. — O que aconteceu, Júlia? — ele me questiona com uma expressão de surpresa. — Não sei, essa louca se jogou n... — MENTIRA — ela me corta aos berros. — Ela me bateu e me expulsou daqui. Perplexa, fico sem reação e balanço freneticamente a cabeça em negativo. — Júlia, por que diabos você abriu essa maldita porta? — Sua voz está alterada e esse tom acusatório me deixa sem reação. Como ele pode me olhar dessa maneira? — Betty? — Andrew questiona e ela parece apavorada também. — Filho, ela estava berrando do outro lado da porta e Júlia decidiu abrir... — Não é possível! — Ele altera a voz ainda me encarando como se eu fosse a única culpada. Kate nos observa atentamente enquanto continua o seu teatro. — Ela estava gritando e esmurrando a porta... Então decidi abrir! — MERDA, JÚLIA! Será que você sempre tem que fazer as coisas do seu jeito? Que tal me ligar antes de fazer qualquer coisa? — ele vocifera e lágrimas descem automaticamente pela minha face. — EU TENTEI TE LIGAR, SEU IMBECIL! — grito e olho para Kate que sorri vitoriosa. Vendo-a assim, a única coisa que me vem a cabeça é de sair daqui, imediatamente. Com lágrimas nos olhos passo por ele e saio pelo corredor. Minha sorte é que o elevador está aberto e eu rapidamente entro. — Júlia? — ouço Andrew berrar e eu aperto o botão freneticamente. Quando a porta está prestes a fechar, Andrew tenta impedir, mas não consegue. ***


Andrew — PORRA! — soco a porta do elevador com toda a força e aperto o botão freneticamente. — Filho, está muito frio lá fora e ela está com uma roupa fina. Será que ela saiu? — Betty se aproxima com uma expressão apavorada. — Vá, cuide da Kate que eu vou atrás da Júlia. Finalmente a outra porta do elevador se abre e eu aperto para a entrada do prédio, onde imagino que ela tenha ido. Assim que chego à rua não vejo ninguém. Poucos carros passam e obviamente quase ninguém se aventuraria a enfrentar temperaturas tão baixas. Ela não sairia. Olho para os dois lados e nem sinal dela. Retorno rapidamente para um dos elevadores que me leva para o seu andar. Assim que a porta se abre, meus olhos param sobre a Júlia encostada na parede ao lado da porta do seu apartamento. Imediatamente uma onda de alívio me invade e solto um suspiro de alívio. Aproximo-me dela até que ela se vira me observando com lágrimas nos olhos. — Júlia, graças a Deus. — Eu a abraço com tanta força como se ela fosse fugir de mim para sempre! — Andrew, eu não bati naquela mulher. Eu jamais faria isso! — ela diz com uma voz chorosa e eu quero me socar por tê-la feito achar que eu acredito naquela mulher. — É claro que não, Júlia. Sei que você não faria. Eu não desconfiei de você, mas você não deveria ter aberto aquela porta para uma louca como ela. — Mas eu tentei te ligar antes de abrir e você não atendeu. Merda! Tenho que lembrar-me de tirar a porra do meu celular do silencioso. Eu sempre faço isso. — Ele estava no silencioso por causa de uma reunião mais cedo. — Solto um suspiro profundo e ela abaixa sua cabeça limpando suas lágrimas com o dorso da mão. — Olha pra mim. — Seguro delicadamente seu queixo e inclino seu rosto para forçá-la a olhar nos meus olhos. — Mesmo assim, você não deveria ter aberto aquela porta. Ela é perigosa. Passou pela sua cabeça que ela poderia estar armada? Então a ficha da Júlia finalmente cai e eu tenho certeza de que ela não havia pensado nessa possibilidade. Agora ela me olha completamente envergonhada. — Me desculpe, eu não pensei na hora. Eu só queria me livrar dela o mais rápido possível... — Shhhh... — Pressiono seu corpo no meu. — Ok, agora vamos. Deixei a Betty sozinha com essa louca. Não faça mais isso, Júlia. Você ainda não se


recuperou totalmente. — De repente, ela me abraça e eu só sinto alívio por ela não querer voltar para esse apartamento. Não a quero longe de mim. *** Kate havia desaparecido depois que entrei novamente com a Júlia no meu apartamento. Segundo Betty, ela apenas se levantou e saiu. Trancamos a porta e levei a Júlia para um banho. Tomamos banho juntos e logo em seguida já estávamos deitados. Sinto que está na hora de fazer um pedido a ela. Preciso saber se ela deseja morar aqui, comigo. Confesso que adiei essa pergunta com um medo dela dizer não e me deixar frustrado. — Júlia, eu... quero te pedir uma coisa! — Com a cabeça apoiada sobre meu peito, ela apenas me observa com um olhar estreito sobre mim. — O que foi? — ela sussurra. — Sei que você vai brigar comigo, vai me chamar de louco, mas... — Solto um ar pesado. — Diz logo! — ela pede impaciente. — Mora comigo? — Seus olhos se ampliam e ela se ergue da cama. Júlia parece sem reação e não foi bem o que eu esperava. Espero que não tenha cometido uma burrada. — O que? O que você disse, Andrew? — ela me questiona incrédula. — Desculpe, eu fui precipitado, não é? Estamos juntos há pouco tempo, mas eu não quero que você volte a morar com a Jessica. Não a quero longe de mim. — Não. Você não foi precipitado, pelo contrário. Tinha certeza de que estava atrapalhando e... — Claro que não — interrompo-a. — É o que eu mais quero. — De repente um sorriso se abre em sua face e Júlia se joga sobre mim e me beija nos lábios. — Andrew, eu só estava esperando você me pedir! Minha imaginação durante esses dias foram longe e quando eu percebi, estava com medo. Pensei que você me mandaria embora ou algo do tipo. Mandar embora? Ela enlouqueceu? Será que ela não percebeu o que fez comigo? Depois dessa resposta exalo um ar de alívio. Ela quer ficar. — Sua casa é aqui, Júlia! Quero que você se sinta bem. Quero que você pegue tudo que ainda estiver na casa da Jessica. Quero você aqui e eu não pretendo deixá-la ir embora. — Ela sorri amplamente. — Não existe outro lugar que eu queira ficar se não estiver ao seu lado, Andrew — ela confessa me fazendo curvar meus lábios em um sorriso e puxá-la para um beijo profundo.


CAPÍTULO 20 Júlia Sinto-me completamente à vontade aqui. Depois que aceitei morar com Andrew, no dia seguinte, ele já havia providenciado mais espaço para eu guardar todas as minhas coisas. Jéssica parecia em estado de choque com a minha decisão. No entanto, o meu sorriso evidenciou a minha felicidade e ela não pode fazer nada em relação a isso. Não há o que esconder, estou realmente muito apaixonada pelo Andrew. Embora conciso, ele tem demonstrado muito cuidado comigo, mesmo depois de dizer a ele que estou bem e completamente curada daquele acidente. Agora estou no seu hotel, onde marcamos para almoçarmos juntos. Andrew tem trabalhado muito para suprir a falta que o pai faz e carrega uma grande responsabilidade sobre este hotel. No entanto, mesmo atribulado, ele fez questão de mandar um motorista me trazer até aqui. São mais de duas da tarde e esse, era o único horário disponível para encontrarmos. Não tenho muito o que fazer, já que Diana tem muitas cópias dos quadros e um grande estoque. Ela tem sido honesta com os meus pagamentos e muito compreensiva com a minha falta. Atravesso o saguão e sigo rapidamente em direção aos elevadores. Andrew me disse que estaria no restaurante e que quando chegasse, eu teria apenas que ir até ele. O elevador me leva até o andar indicado e quando saio, dou de cara com uma pequena fila de espera na porta do restaurante que fica em um grande saguão. Aproximo-me da recepcionista que parece um pouco perdida segurando um papel. Ao invés de ir ao fim da fila, decido seguir o meu caminho, já que Andrew me espera do lado de dentro. Porém, quando estou prestes a passar, sou barrada por ela que me observa com as sobrancelhas erguidas. — A senhorita tem reserva? — ela questiona sem ao menos esperar que eu me aproxime para me explicar. — Na verdade não, o meu namo... — Sinto muito — ela me corta. — Este restaurante só trabalha com reservas. — Forço um sorriso e vejo que o número de pessoas atrás de mim só aumenta. Este restaurante deve ser muito procurado para estar tão cheio. — Você não entendeu, eu preciso entrar, o meu namorado... — Sinto muito — ela me interrompe novamente e quando estou prestes a ligar para o Andrew, vejo que ele já está bem atrás da jovem que claramente parece impaciente. — O que está acontecendo aqui? — ele pergunta de forma inquisidora e quando nota a sua presença a jovem sorri. Sua expressão de mau humor


simplesmente desaparece, como mágica. Reviro meus olhos. — Ela quer entrar, mas eu a expliquei que este restaurante só aceita clientes com reservas, senhor. — Por um acaso você a deixou falar em algum momento? — ele a questiona com as sobrancelhas erguidas e ela faz que sim com a cabeça. — Ela disse que não tinha reserva, senhor. — Porque ela está comigo — Andrew afirma fazendo com que seu olhar se amplie com total surpresa. — Sinto muito, senhor. Eu, eu realmente não sabia! — Não peça desculpa a mim. Peça para a minha namorada! — Agora seu rosto se transforma em uma tonalidade avermelhada. As pessoas ao nosso redor disfarçam a vontade de rir e confesso que não esperava por isso. Ela se vira em minha direção e me encara engolindo em seco. — Sinto muito, senhorita. Perdoe-me! — Dou apenas um sorriso fraco como resposta e Andrew me puxa pelo braço, fazendo o meu corpo chocar-se contra o dele. — Da próxima vez, tente ouvir mais e falar menos. Essa é a minha namorada e tem acesso total neste hotel. — Ele não espera sua resposta e se vira, me puxando para dentro do restaurante. Sentamo-nos e Andrew já havia feito nossos pedidos. O almoço durou apenas uma hora, mas o cuidado que Andrew teve comigo nesse tempo, valeu cada segundo. Ele quer demonstrar que deseja ficar mais tempo comigo, mas o trabalho não está o deixando, fazendo-o com que ele se sinta culpado. De qualquer forma, sempre sou recompensada à noite ou nos fins de semana. Em tão pouco tempo, o que eu considerava impossível está acontecendo. Estamos nos tornando como marido e mulher. *** Já é fim de março e eu estou completamente feliz com os últimos acontecimentos. Fui convidada para expor os meus quadros em uma excelente galeria em Manhattan. Um senhor os viu na vitrine da loja e rapidamente pediu o meu contato. Irei expor com mais fotógrafos, mas isso já é um grande começo para uma carreira promissora. Jessica que já não estava muito bem com o Alan, teve mais um desentendimento com ele. Parece que Alan tem sumido com muita frequência. Alan chegou a sair do seu apartamento, mas voltou na noite seguinte. Eles conversaram e logo fizeram as pazes. Confesso que ela não me parece tão animada com este relacionamento e isso tem me deixado preocupada. Andrew se tornou meu fã número um. Mostrei a ele meus quadros na loja e no computador e ele ficou muito encantado com o que viu. Confesso que me


senti insegura, mas ele apenas me disse que eu tenho um dom. Andrew ama as minhas fotos. Finalmente, Andrew está bem mais tranquilo no trabalho e agora, podemos fazer aqueles passeios clichês que namorados fazem. Fomos ao cinema, fomos à pista de gelo no Rockefeller Center e jantamos nos restaurantes mais românticos de Manhattan. Andrew também me ajuda a escolher as fotos que vão ficar em exposição na galeria em breve. Não poderia estar mais feliz com o rumo que a minha vida tem tomado. — Júlia, preciso falar com você — ele me chama com um tom de voz preocupado enquanto se senta ao meu lado na mesa do café. — Aconteceu alguma coisa? — Andrew concorda com a cabeça. — Os detetives que contratei, finalmente descobriram muitas coisas sobre o Adam. — Sério? Me conta! — Ele exala um suspiro profundo. — Bom, eles descobriram que Adam usava a agência como fachada para lavar dinheiro com importação de armas e até drogas ilícitas. Freda finalmente foi localizada, mas a polícia constatou que ela era apenas um laranja. Ele a usava para que os documentos da empresa ficassem em nome dela e a agência funcionasse normalmente. Perplexa, encaro-o. — Meu Deus. E eu ainda trabalhei naquela empresa suja. — Ele concorda com a cabeça. ***


Andrew Nem consigo acreditar que já estamos no fim de março, próximo ao meu aniversário. Eu não falei com a Júlia sobre essa data, já que não estou nem um pouco animado. O fato de não ter o meu pai aqui comigo em todas as datas especiais, me deixa sem vontade de comemorar. Ao contrário de mim, Júlia está animada, já que em breve irá exibir suas fotografias em uma famosa galeria aqui de Nova Iorque. Fiquei realmente impressionado com o seu talento. Quando vi suas fotografias, entendi o que ela dizia sobre amar o que faz. Ela fotografa não apenas com os olhos, mas com a alma. Em cada foto, pude ver algo profundo e de fato me deixou ainda mais admirado por aquela mulher. *** Estou deitado quando Júlia sai do banheiro dentro de uma camisola branca e transparente. Nunca me canso de olhá-la. Eu a observo intensamente enquanto caminha em minha direção e se deita ao meu lado. Seu corpo se encaixa ao meu e automaticamente, eu aspiro o cheiro delicioso do seu cabelo. Puxo-a para mim e ter essa sensação já me faz esquecer o dia cheio que tive no trabalho. — Andrew? — ela sussurra com a cabeça apoiada sobre meu peito nu. — Hum? — respondo me virando de lado para observá-la melhor. — Quando você vai confiar em mim o suficiente para me contar sobre sua mãe? — Confesso que essa pergunta me pegou totalmente de surpresa e, aos poucos, meu corpo fica tenso e Júlia nota. Porém, acho que está na hora de encarar mais esse problema. Não posso mais ter segredos em relação a minha vida. Está claro de que Júlia está se sentindo incomodada pelo fato de eu nuca tocar no nome da minha mãe. — O que você quer saber? — pergunto, tentando esconder o meu receio. — Por que você sempre demonstra que nunca gostou dela? O que ela te fez? — Exalo um suspiro profundo. — Júlia... minha mãe me abandonou quando eu era pequeno, por dinheiro! — informo-a com uma expressão séria e ela me parece completamente atônita agora. — Andrew, eu... eu não sei o que dizer. Exalo um suspiro profundo e continuo: — Eu era apenas uma criança e minha mãe se apaixonou por outro homem. Meu pai descobriu e ofereceu dinheiro para que ela fosse embora. — Meu olhar está perdido enquanto tento me lembrar daquelas cenas que me marcaram para sempre. — Ela aceitou e foi embora para nunca mais voltar. — Fixo meus olhos nos dela e percebo que ela nem se mexe. Júlia está nitidamente perplexa com o que acabo de dizer. — Tem mais uma coisa, Júlia. — Enquanto ela espera que eu continue, solto um ar


profundo e desvio meu olhar. — Ela é ... brasileira! — afirmo e quando volto a observá-la, percebo que seus olhos estão ampliados ainda mais. Sua perplexidade denota apenas que ela jamais imaginaria que eu teria uma mãe brasileira. — Por isso o meu desdém quando a conheci — confesso, mas ela nada diz. Apenas me observa atônita. — Eu tentei te esquecer de todas as formas. Cheguei a ir para Califórnia. Porém, sempre que eu me afastava, mais perto de você eu queria estar. Você virou meu mundo controlado de cabeça para baixo. Assim que eu bati os olhos em você, eu não conseguia mais pensar em outra coisa. Ela me examina com o olhar completamente surpreso. Hoje eu abri meu coração para ela de uma forma que jamais fiz com qualquer outra pessoa. Nunca me abri. Nunca falei sobre meus sentimentos tão facilmente como estou falando, principalmente um assunto que eu tinha dado como encerrado na minha vida. Ela tem esse dom de me desarmar por completo. Acabei contando a ela tudo que senti naquela noite e principalmente, o fato de ter colocado os olhos nela e independente de qualquer coisa, eu já estava perdido. Júlia respira profundamente tentando absorver essas informações e sua expressão muda, sua mente finalmente se clareia e ela parece entender o meu comportamento desprezível. — Eu quero que você entenda que essas são minhas justificativas pela qual eu te tratei daquela forma desprezível. — Eu... realmente ainda não sei o que dizer. — Sua voz sussurrada é de apenas compaixão. — Eu carreguei um ódio desnecessário. O destino prega peças que não imaginamos que fossem possíveis. Eu cresci odiando brasileiras de todas as formas por causa de uma pessoa. Aí, você surge. Uma brasileira que estou completamente apaixonado. Você me curou, Júlia! — Sua expressão se suaviza e um leve sorriso se abre em seu belo rosto. — Eu fui preconceituoso durante muitos anos da minha vida por causa de uma mulher. Eu generalizei. Para mim, todas as mulheres do mundo eram traidoras e principalmente as brasileiras. Fiz tudo isso por causa de uma mulher brasileira que friamente teve a coragem de abandonar seu único filho. — Então você nunca se envolveu com brasileiras? — Não — respondo de forma firme. — Olha a ironia, seu pai é sócio de um brasileiro! O que você acha que o seu pai vai pensar quando descobrir que sou uma brasileira? — Ele já sabe! — informo-a e ela ergue suas sobrancelhas com um olhar questionador.


— Ele deve ter ódio de mim, Andrew. Vai achar que vou fazer com você o mesmo que sua mãe. — Quando eu disse a ele, meu pai caiu na gargalhada. Ele gostou, pode acreditar. Enquanto eu passei a vida odiando brasileiras. Meu pai continuou gostando da mesma forma. Não se abalou e não generalizou como eu fiz. Ele tem vários amigos brasileiros como os pais da Jessica. E principalmente, teve algumas namoradas brasileiras durante todos esses anos. Mas hoje, ele vive sozinho. Ainda tem suas namoradinhas por aí. Respiro profundamente e acho que está na hora dela entender de uma vez por todas que eu a quero independente de qualquer coisa. — Júlia, você me fez enxergar o mundo de uma forma diferente e eu serei grato a você... sempre! Eu. Te. Amo — confesso e aquele olhar de perplexidade se desenha em sua face. Ela não responde e, aos poucos, aproximo-me beijandoa profundamente nos lábios. Não há mais o que fazer, estou completamente perdido por essa mulher... CAPÍTULO 21

Júlia Andrew revelou coisas íntimas sem que eu precisasse pressionar. Ele demonstrou que confia em mim e, embora o que ele tivesse dito me deixasse impressionada, não posso deixar de entender o seu motivo. Andrew teve todos os motivos para fazer o que fez e hoje eu o compreendo. Estou muito feliz e jamais passou pela minha cabeça que aquele homem sério, se tornasse alguém tão amoroso e fascinante. Betty me contou que sábado será o aniversário do Andrew e imediatamente comecei a pensar em um monte de coisas que o alegraria muito. Porém, Andrew tem de tudo e seria muito difícil dar algum presente a altura daquilo que ele está acostumado. Então pensei em algo emocional, algo que dinheiro nenhum pode comprar. Sim, pensei no seu pai e o quão triste ele está ao perceber que o pai parece fugir dele há muitos meses. Enquanto tomo um chá na cozinha imagino um modo de ligar para o pai do Andrew e fazê-lo vir para o seu aniversário. Contei para a Betty, que me deu total força. — Aqui está. — Betty se aproxima segurando uma pequena caixa e colocando-a sobre a ilha. — Isso são fotos? — Ela acena e sorri docemente. — Sim, querida. Fotos do Andrew e do pai. Olhe esta. — Ela me entrega


uma em que uma criança de olhos azuis está na praia sobre os ombros do pai. Eles são incrivelmente parecidos. O pai quando jovem era exatamente o Andrew, agora. — Eles são iguais — afirmo impressionada e ela concorda com a cabeça. — Agora, veja essa mais recente do pai. — Betty me entrega uma foto em que vejo um homem de cabelos grisalhos, bonito e de aparência jovem. Ele é, sem dúvida, um belo homem mesmo estando mais velho. — Sim, ele é muito bonito e Andrew puxou toda a sua aparência. — Depois de ver as fotos que Betty separou para mim, ela segura o aparelho me observando. — O pai do Andrew, sempre foi muito presente. Eles são melhores amigos. E ficaram mais unidos quando... — Ela não conclui e eu já sei o que ela quis dizer. — Andrew me contou, Betty. Ele me disse sobre sua mãe! — Um sorriso se desenha em seu rosto. — Que maravilha, Júlia! Sinal que ele te ama muito, mais do que imaginava. — Ela começa a pressionar as teclas do aparelho e me entrega logo em seguida. — Tome, aqui está. Quem sabe você o convence a vir. O telefone toca muitas vezes até finalmente uma voz grossa e um pouco rouca atender. — Sr. John Smith? — Sim? Vejo que é o telefone da Betty... Com quem eu falo? — Aqui é a Júlia, namorada do Andrew. Como vai? — Não ouço nada por alguns segundos. — Então finalmente estou falando com a responsável que transformou meu filho em um homem completamente apaixonado?! — Suas palavras me deixam imediatamente constrangida. — Acho que é o contrário, senhor — afirmo com um sorriso idiota no rosto. — Por favor, chame-me de John. — Ok, John. — Júlia, eu preciso agradecê-la por estar com meu filho e fazê-lo melhor. — Então, preciso agradecê-lo por trazê-lo ao mundo. A única coisa que faço é amá-lo. — Ouço uma leve risada. — Então você faz tudo, minha querida! — ele afirma fazendo meus olhos marejarem. — Obrigada. O senhor é muito gentil. — Se faz o meu filho feliz, eu também estou feliz. — Suas palavras me encorajam ainda mais a prosseguir com o meu objetivo.


— Bom, o Sr. já sabe que o aniversário do Andrew é no sábado, certo? — Ouço-o respirar pesadamente. — Senhor John, eu gostaria muito, muito mesmo que o senhor viesse fazer uma surpresa para o seu filho — peço, e ele nada responde. Ficamos em um silêncio desconfortável por alguns segundos até ele finalmente responder. — Sinto muito, Júlia. Eu não posso! — Ele rejeita o meu pedido e eu não quero que ele faça isso. Preciso insistir. — Ele ficará muito feliz em te ver. Por favor, eu também gostaria muito de conhecê-lo pessoalmente. — Júlia, eu tive alguns problemas e realmente não sei se estou preparado para ver o meu filho. — Exalo um suspiro profundo tentando entender que tipo de problema ele tem, para não querer compartilhar ao lado da pessoa que mais ama. — Sempre achamos que nunca estamos preparados para nada, mas seja lá qual for o problema que estiver enfrentando, será muito melhor e reconfortante enfrentá-lo ao lado daqueles que te amam! — E novamente consigo ouvir apenas sua respiração pesada do outro lado da linha. — Ok. Você me convenceu. Estarei aí no sábado. Farei uma surpresa. — Abro um imenso sorriso e dou um sinal de positivo para Betty que também sorri amplamente. — Você não faz ideia do quão isso significará para ele. Obrigada mesmo, senhor. — Vou desistir se continuar a me chamar de senhor. — Sorrio com seu senso de humor. — Obrigada. Força do hábito! Tentarei chamá-lo pelo primeiro nome. — Júlia, será um prazer te conhecer pessoalmente. — Digo o mesmo! Depois de nos despedir, desligo o telefone completamente animada com essa surpresa. Andrew vai amar sem sombras de dúvidas ter o pai aqui depois de meses longe. *** Convenci o Andrew a me levar na pista de gelo do Rockefeller Center. Demorou, mas ele finalmente se rendeu. Nos divertimos muito passeando entre as pessoas em pleno frio nova-iorquino. Ao redor, víamos luzes e uma música do Frank Sinatra preenchia todo o ambiente. Sim, hoje patinamos ao som de Sinatra. Tiramos muitas fotos e depois fomos direto para a casa. Estávamos exaustos e completamente felizes ao mesmo tempo por ter tido um dia inteiro só para nós. Tive um dia inteiro ao lado do ocupadíssimo Andrew Smith. No dia seguinte, dia do seu aniversário, já estou na cozinha preparando o


seu café da manhã. Não sei como fui capaz de esconder sobre o seu pai, mas acho que essa surpresa será tudo que Andrew precisa. Entro no quarto segurando a bandeja colocando-a sobre o criado. Andrew dorme de costas, sem camisa e seu rosto está de lado sobre o travesseiro. Vendo-o assim, não resisto e monto o meu corpo sobre o dele depositando beijinhos em sua nuca. Andrew vira seu rosto e antes mesmo de abrir seus olhos, vejo-o sorrir. — Hummmm... Você poderia me acordar sempre assim! — ele diz com uma voz rouca e, abruptamente ele puxa o meu corpo fazendo com que eu fique embaixo dele. — Trouxe seu café da manhã! — Ele me encara surpreso e dou um beijo apaixonado em sua boca. — Parabéns, meu amor! — Acho que eu o desarmei por completo. — Como você... — Ele une as sobrancelhas. — Claro, a Betty te contou! — Concordo com a cabeça e ele curva seus lábios em um leve sorriso. — Obrigado! —Andrew me pressiona com seu corpo e me beija profundamente nos lábios. *** À noite chegou e com ela, minha ansiedade. Disse ao Andrew que a Betty estava preparando um jantar em comemoração ao seu aniversário e ele não se opôs em relação a isso. Convidei a minha amiga com o namorado, Alan, e obviamente o seu pai. Andrew não faz a mínima ideia de que, daqui a pouco, o homem que ele mais ama entrará por aquela porta depois de quase um ano longe. Estou em um vestido preto básico, frente única e um salto médio. Meus cabelos estão soltos em cascatas sobre meus ombros e Andrew parece bem relaxado enquanto toma o seu uísque com gelo. Ele conversa com o namorado da Jessica enquanto ela está comigo e Betty sentada sobre o banco alto que fica no bar próximo às escadas. — Júlia, vocês parecem muito nervosas. Acalmem-se ou Andrew vai notar! — Jessica pede erguendo as sobrancelhas com um olhar inquisidor intercalandoo entre mim e Betty. — Você está certa. Eu pareço uma louca agindo assim. Preciso me controlar. — Tem certeza de que o pai dele virá? — Jessica sussurra questionando e Betty não parece diferente de mim. Encaro-a e espero que ela responda, afinal, ela o conhece muito bem para responder. — Se ele prometeu, ele cumpre — Betty responde com convicção na voz. Andrew parece desconfiar da minha reação, mas nada diz, apenas me observa com as suas sobrancelhas unidas.


***


Andrew Aniversários são datas que na minha antiga vida, comemorava de formas diferentes. Ou seja, nada familiar. Sempre bebia algo com o meu pai e logo em seguida já estava com alguma mulher, mas confesso que mesmo que ele não esteja aqui este ano, sem a Júlia seria um milhão de vezes pior. Ela amenizou a minha preocupação e um medo de que algo esteja muito errado. — Parabéns, Andrew, espero que goste! — Jessica diz enquanto me entrega um embrulho. Não costumo ganhar presentes. — Obrigado, Jessica, não precisava! — digo enquanto desembrulho desajeitadamente o presente que ela fez questão em me trazer. — Eu sei que não precisava, mas eu sou educada. Costumo levar presentes quando sou convidada para um aniversário. Geralmente levo cartões, mas preferi te dar algo mais especial. Assim que termino de abrir, me surpreendo um porta-retratos. Se ela não combinou com a Júlia, posso dizer que elas têm uma ligação incrível, já que Júlia também me deu um grande quadro com a nossa foto enquanto andávamos de patins no gelo. Quando olho a foto que está nele, um sorriso idiota estampa o meu rosto. Vejo um bebê que tenho certeza ser a Júlia. Inconfundível! — Suponho que essa sapeca seja a Júlia! — afirmo com um sorriso impresso em meu rosto. — Exatamente — Jessica me confirma o óbvio. — E obviamente você foi o bebê mais lindo que eu já vi — elogio olhando para uma Júlia completamente surpresa Na foto, ela está rindo e seus cabelos loiros estão amarrados com uma chuquinha em cada lado. Ela devia ter uns dois anos aqui. — Obrigado, Jessica! — agradeço com sinceridade no olhar. Realmente não poderia receber presente melhor. Embora, sempre tenho a sensação de que falta alguém, à noite está sendo muito agradável. Porém, sempre que olho para a Júlia, percebo que seu olhar está muito apreensivo. O que está passando pela sua cabeça? Ela parece nervosa! Decido me aproximar para entender seja lá qual for o seu medo. Ela fixa seus olhos nos meus e força um sorriso, enrolando seus braços no meu pescoço. — Júlia, o que você tem? Você parece nervosa desde cedo! — questiono com o cenho franzido. — Ah! Acho que são os acontecimentos e o rumo que a minha vida tomou ao seu lado. Sei lá! — ela responde com um sorriso forçado e isso, definitivamente me deixa ainda mais preocupado. Algo está errado e ela não


quer me falar. Volto para o sofá com meu copo de uísque tentando imaginar o que de fato tenha acontecido para que a Júlia ficasse agindo tão estranhamente. Porém, nada me vem à mente. Depois precisamos conversar. Engato uma conversa com o Alan e Júlia está com a Betty e Jessica conversando. Meus olhares se alternam entre elas. Não consigo me concentrar vendo-a agir assim. Inesperadamente, ouço a campainha. Quem pode ser? Júlia me afirmou que apenas Alan e Jessica eram os convidados. Estreito o olhar esperando que não seja nenhuma louca varrida. — Então, Andrew, Jessica me disse que vocês estão vivendo juntos — Alan pergunta me fazendo desviar a minha atenção da porta. — Sim, estamos. Somos bons juntos — afirmo e ele sorri, satisfeito com a minha resposta. Na verdade, acho que não temos muito assunto e, qualquer coisa é um motivo para não ficarmos em um silêncio constrangedor. Viro-me novamente, voltando a minha atenção à porta, Porém, o que vejo, me faz congelar no lugar. De pé, próximo à entrada está o meu pai. Será que estou sonhando ? Encaro-o completamente atônito. — Filho... — Meu pai está bem ali, depois de quase um ano sem vê-lo pessoalmente. Estou sem palavras e completamente assustado com a sua aparência. O que diabos aconteceu com ele? Meus olhos estão vidrados no homem que deveria ter uma aparência saudável como da última vez que o vi, no entanto, vejo-o com uma aparência frágil, magro e aparentemente triste. Seus cabelos estão curtos como se ele tivesse raspado. Todos dizem que pareço com ele, principalmente pela sua força. Mas agora, ele está magro e seu rosto, completamente abatido. Com o olhar preso sobre ele, eu me levanto fazendo o meu caminho em sua direção. Meu pai nada diz, apenas me observa calado. Daqui, posso ver tímidas lágrimas escorrerem dos seus olhos e, confesso que eu estou fazendo uma força descomunal para não chorar. Quase nunca choro, mas essa cena que vejo, chega a ser quase inevitável não desabar. Posiciono meu corpo rente ao dele e não consigo entender o que de fato tenha acontecido para que ele esteja assim. — O que houve? — Meu pai está visivelmente emocionado e respira por várias vezes tentando controlar suas lágrimas. Algo incomum, vindo de um homem que raramente chora. — Por que você está tão magro e sua aparência está... Você parece abatido e exausto, pai. O que houve?! — Meu tom de voz está alterado. Ele fecha seus olhos rapidamente como se estivesse sentindo dor nas


minhas palavras. — Filho, eu estou em remissão de um câncer. — É a única coisa que ele me diz. Câncer? Meu pai, com câncer? Essa declaração, me pega totalmente de surpresa. Poderia ter imaginado tudo, menos isso. CAPÍTULO 22 Júlia Pelo seu olhar, vejo que Andrew tenta ao máximo segurar as lágrimas. Ele está muito surpreso com a presença do pai, sobretudo, com a sua aparência debilitada. Confesso que ele nada se parece com o homem saudável que vi na foto. — O que? Quando começou isso? — Andrew o questiona com uma voz alterada. Espero que ele não fique bravo comigo, afinal, eu sou a única responsável dele estar aqui. Não imaginaria que o pai estivesse fugindo do filho por causa de uma doença. — Eu descobri há mais ou menos um ano. Então decidi me tratar. Por isso desapareci. — O senhor John exala um suspiro profundo visivelmente emocionado. — Eu não queria que você me visse... Assim. Eu estava com câncer na próstata e decidi fazer todo o tratamento na Califórnia. Eu menti. Eu não estava viajando pelo mundo de férias. — Ele abaixa sua cabeça e Andrew o encara com perplexidade no olhar. — Eu não acredito que você teve a coragem de esconder algo tão sério de mim, sou o seu único filho. Você me fez acreditar que estava viajando de férias enquanto, na verdade, estava se tratando de um maldito câncer? Como pôde me ocultar isso?! Andrew está se sentido traído pelo pai, mas eu posso ver compaixão ao mesmo tempo em seus olhos. Ainda bem que tive a ideia de chamar apenas Jessica e Alan. Nunca imaginei nada disso. As poucas pessoas aqui presentes apenas os observam calados e igualmente surpresos. — Filho, a vida inteira você sempre me viu forte, como um herói. — Ele exala um suspiro profundo. — Não aceitei a minha súbita fraqueza. Eu não queria que você me visse com essa expressão de pena, como está fazendo neste exato momento! Agora eu sei de onde Andrew tirou esse jeito orgulhoso, protetor e controlador. Andrew é exatamente como o pai, tanto na aparência como na personalidade. Incrível! — Pai, você não pode decidir o que eu quero fazer. Sempre fomos parceiros


acima de tudo. Eu queria estar ao seu lado nesses momentos e... — Mas eu não queria — ele o interrompe. — Agora estou curado. Acabei há dois meses e meio meu tratamento e o médico me garantiu que não há mais sinal do câncer. Eu só estava esperando meus cabelos crescerem mais um pouco para ficar mais apresentável. — O pai se aproxima ainda mais do filho e segura seus ombros com as duas mãos. Embora contrariado, Andrew parece muito comovido. Ambos estão emocionados. — Eu te amo, filho, me entenda! — Andrew o observa por alguns minutos e todos ao redor, esperam com expectativa. Que ele entenda o pai e que eles se perdoem — peço silenciosamente. — Pai... — Andrew sussurra, visivelmente emocionado e, sem dizer nada, eles se abraçam apertado por longos segundos. Essa, sem dúvida é a cena mais emocionante que eu já vi na vida. Não consigo conter as lágrimas e choro ao ver essa visão de pai e filho, juntos e emocionados. — Bom, chega disso. — O pai se afasta limpando os olhos com o dorso das mãos. — Eu quero que você me apresente a sua namorada! Andrew sorri e se aproxima de mim, me puxando pelo braço e fazendo meu corpo colidir levemente contra o seu. — Pai, essa é a Júlia, minha namorada! — Que belíssima jovem você arrumou! Me da um abraço, minha querida! — Nos abraçamos apertado e apenas nesse abraço, consigo sentir todo o seu carinho. — É um prazer conhecer a mulher que mudou os pensamentos do meu filho. A teimosia desse garoto era inabalável. Você tirou isso dele e ele é um homem mais feliz, graças a você. Obrigado! — Parece que ele tem a quem puxar na teimosia — afirmo e todos rimos. — Obrigado por me convencer a vir! — Sorrio fracamente e Andrew estreita os olhos nitidamente confuso. — O quê? Eu ouvi direito? — ele questiona. — Andrew, meu querido. A Júlia quem chamou seu pai para vir até aqui. E ele não queria vir. Ela o convenceu! — Betty informa e Andrew me encara completamente surpreso. — Júlia, eu... não sei o que dizer! Obrigado! — Andrew aproxima-se de mim e segura o meu rosto com as duas mãos. — Então não diga nada, sua atitude disse tudo. Eu te amo, Andrew! — Ele sorri e me beija profundamente. Depois dessa mistura de sentimentos fomos todos jantar. O jantar foi super animado. Andrew estava bem mais feliz que antes em poder estar com o pai no dia do seu aniversário. O pai dele nos contou tudo o


que aconteceu e finalmente, Andrew entendeu as suas razões. Só em olhar para ele, eu percebo o amor e admiração que ele tem pelo pai. Jessica também engatou uma boa conversa com ele sobre seus pais. Enfim, foi perfeito nosso jantar. Eu posso dizer que esta noite ficará em nossas memórias, para sempre! *** A semana seguinte correu as mil maravilhas. Andrew estava mais feliz do que nunca. Ele não parava de me agradecer por eu ter convencido seu pai a vir a Nova Iorque. Disse que foi o melhor presente que eu poderia ter dado a ele. Fiquei muito feliz por eles. O pai ficou alguns dias com a gente, mas logo teve que voltar para Califórnia. Infelizmente, ele não pode ficar para me minha exposição, mas me garantiu que voltaria. Hoje é um grande dia para mim. Meus quadros estão em exposição na inauguração de uma galeria aqui em Manhattan. Irei dividir o espaço com mais alguns fotógrafos. Estou vestida em um longo de uma alça só na cor verde. O vestido abraça perfeitamente minhas curvas e meus cabelos estão semi soltos em uma cascata de cachos loiros caindo na lateral. Minha maquiagem é bem marcada para destacar os meus olhos. Meus quadros estão pendurados por cordas transparentes em todos os lugares e de todos os tamanhos. A impressão que tenho é que eles estão flutuando. Ficou realmente lindo! Andrew está maravilhado. — Essas imagens são incríveis, meu amor! Principalmente a do Central Parque. Parabéns. — Andrew me beija nos lábios. Nos separamos e eu o deixo sozinho por alguns minutos para cumprimentar pessoas. Quando retorno, ele já está com duas taças cheias nas mãos. — Um brinde à mulher mais talentosa e encantadora! — Ele entrega uma taça e brinda comigo. — Andrew Smith? — Uma mulher jovem loira dos cabelos compridos, lisos e claros, surge do nada. — Sim? — Ele a observa com uma expressão confusa. — Eu sou Rebecca Anderson. A designer que você entrou em contato na semana passada! — ela informa com um sorriso estampado no rosto. Um sorriso que eu sei muito bem o que ela realmente quer. — Sim, claro. Nos falamos por telefone, não é ? — Andrew diz de forma confusa e ela sorri amplamente. Ai meu Deus, mais uma! — Sim, exatamente. Estamos preparando o projeto para apresentar na semana que vem. Espero que goste! — a mulher informa de forma provocadora, ignorando totalmente a minha presença. — Vocês são os melhores, tenho certeza que iremos gostar! — Andrew


finalmente nota que estou aqui e toca o meu braço levemente. — Rebecca, quero que conheça a minha namorada, Júlia. — Ela ergue as sobrancelhas e me olha com um sorriso forçado. — Oi, querida! — sim, o seu "querida" soou completamente falso. — Oi. — É a única palavra que sai da minha boca. Rapidamente ela esquece que estou aqui e volta sua atenção para o meu namorado. — Bem, foi um prazer conhecê-lo pessoalmente e espero trabalharmos juntos... — Ela o encara nos olhos de forma intensa. — Em breve! — O quê? Que olhar foi este? — O prazer foi meu! — Andrew responde me fazendo querer enforca-lo. O prazer foi seu, Andrew ? Como assim ? Ela ficou o encarando por alguns segundos até finalmente sair. Quantas vacas eu vou ter que aturar? — Andrew, que trabalho vocês têm que fazer juntos? — questiono-o sabendo que não tenho esse direito, mas o ciúme fala mais alto e eu acabo perguntando o que não deveria. — Ela vai mudar a decoração da boate, claro, se o projeto for aprovado! — Mas pelo visto, o "projeto" dela foi aprovado, eles são os melhores, não é? — Ergo as sobrancelhas e Andrew me encara com uma expressão de surpresa percebendo o tom de ironia na minha voz. — Sim, de fato a empresa dela é uma das melhores de Manhattan — ele responde de forma séria e parece sem paciência com o meu ciúme. Solto um ar pesado. Odeio sentir ciúme! Andrew se afasta de mim para cumprimentar alguns conhecidos. Porém, acho que ele usou esse pretexto para não ficar perto de mim. Tudo bem que fui invasiva, mas o descaramento dessa mulher me tirou do sério. Ando em direção aos quadros e fico ali, parada, observando o meu trabalho, mesmo que eu não esteja de fato vendo-os. Ainda penso sobre aquela mulher e a forma ríspida que Andrew me tratou por causa do meu ciúme. — Júlia? — Jessica surge segurando o meu ombro e me abraçando apertado. — Desculpe o atraso... o trânsito estava horrível! — Forço um sorriso, já que ainda estou visivelmente irritada com Andrew. — Veio sozinha? — Ela me encara com uma expressão de desânimo. — Alan tinha compromisso com os amigos! — Decido não dizer nada, já que se ousar falar, provavelmente falarei merda. — O importante é que você está aqui — afirmo com sinceridade. — Onde está o Andrew?


— Ele está com alguns conhecidos por aí — afirmo e Jessica fixa seus olhos sobre meus ombros. — Que foi Jessica? — Não sabia que os "conhecidos" é loiro e magro com um vestido vermelho provocativo e sexy. — Ela arqueia suas sobrancelhas. Quando me viro, vejo uma mulher conversando com o Andrew de costas para mim. Ela parece jovem. Ela tem cabelos curtos e loiros. Quando ela se vira, vejo de quem realmente se trata. Droga, essa é a Corinne, a safada que estava no restaurante Remi. O que essa mulher faz aqui? Parece que as periguetes novaiorquinas estão todas concentradas aqui, nesta galeria! — Jessica, essa é a tal Corinne que te falei, lembra? — informo entre os dentes, agora estou mais que irritada. Sim, a minha noite não poderia ser melhor. Que ótimo! — O que Andrew está fazendo conversando com ela? — Não sei, mas ele não é burro. Ele sabe que ela estava dando em cima dele descaradamente. E ele deveria saber que eu não quero vê-lo de papo com uma ex-ficante. Ficamos observando os dois que estavam no maior papo. Ela sempre falando algo em seu ouvido e ele se afastando, mas não vai embora. — Jú, você tem que dar um chega pra lá nessa mulher. — Sem responder o que Jessica diz, me vejo caminhando em direção ao casal. Assim que chego, percebo que Andrew sente-se desconfortável, mas por quê? Não deveria. Ele deveria expulsar essa mulher daqui, isso sim! — Andrew, o que você está fazendo de papo com essa mulher? Seu rosto se transforma em uma carranca. Sua mandíbula se aperta e ele parece subitamente irritado comigo. — Nossa, parece que eu estou atrapalhando algo aqui. Ah! Júlia, parabéns pela exposição. Eu amei aquele quadro do cavalo. Idiota! Eu não tirei nenhuma foto com cavalos . Ela sai de cena com um sorrisinho irônico. Andrew continua com uma expressão mal-humorada. — Júlia, eu não tenho que dar satisfação sobre o que estou fazendo ou com quem estou conversando pra você! — ele diz e eu não acredito que ele realmente esteja bravo comigo. — Sim, você tem. Ainda mais quando se trata de uma ex — afirmo e ele me encara com uma expressão ainda mais irritada. — Isso não é da sua conta! — Tudo que diz respeito a você, é da minha conta — respondo de forma taxativa.


— O meu passado não é da sua conta, Júlia. Nunca será. Você já sabe quem eu fui e quem eu sou. Isso é o suficiente! — Como ele pode dizer isso? — Eu não o quero conversando com suas ex ou futuras — sussurro me referindo a tal da Rebecca que claramente quer o Andrew, mas ele parece muito ingênuo para não notar. — Eu sempre conversei com todas as mulheres e você não tem o direito de me dizer com quem devo falar — ele diz de forma ríspida e voz um pouco alterada, me fazendo ampliar os olhos. — Júlia? — De repente ouço uma voz grossa vindo bem atrás de mim. Uma voz muito familiar. Quando eu me viro, eu quase caio pra trás de susto. Ali, bem na minha frente está... Pedro. Sim, estou falando do meu ex-namorado. O causador de uma traição e que eu pensei jamais ver. O que ele está fazendo aqui ? Andrew o observa com os olhos estreitos e eu estou congelada. Pedro está aqui. ***


Andrew Corinne parecia não desistir, mas eu sei como lidar com mulheres iguais ela. A verdade é que eu não gostei da insinuação da Júlia sobre uma mulher que nem conheço e agora, sobre a Corinne. Afinal, ela confia ou não em mim? Será que é difícil dela entender que eu não tenho mais interesse nessas mulheres? De fato, eu abomino cenas de ciúme quando não se tem motivo para isso. Júlia não havia, em momento algum, demonstrado esse lado e eu, definitivamente, não gosto. — Nossa, parece que eu estou atrapalhando algo por aqui. Ah, Júlia... parabéns pela exposição eu amei aquele quadro do cavalo — Corinne provoca e logo em seguida sai rapidamente, deixando a maldita semente da discórdia. Independente se é a Corinne ou outra qualquer, Júlia deve confiar em mim e não me olhar dessa maneira, como se fosse um traidor. Sei que a noite deveria ser apenas dela e que eu, provavelmente tenha estragado tudo, mas é que, de fato me surpreendi com o seu olhar acusatório. — Eu sempre conversei com todas as mulheres e você não tem o direito de me dizer com quem devo falar. — Júlia amplia os olhos com perplexidade e quando estava prestes a falar, somos interrompidos. — Júlia? — Olho para o homem que está parado atrás dela, percebendo que jamais o vi na vida. Ele a chama pelo nome e isso me deixa em alerta total, já que ela não conhece ninguém por aqui. Pelo seu sotaque, percebo que não é americano. Afinal, quem é ele? Ela se vira, e quando seus olhos encontram os do homem, Júlia parece congelada, sem palavras e seus olhos não saem de cima do desconhecido. Que merda é essa? Franzo o cenho enquanto eles se olham de forma intensa, fazendo meu coração disparar. Eles começam a falar em português e eu não consigo entender absolutamente nada do que eles dizem. De repente, a realidade me bate como um trem desgovernado. Só pode ser ele, o ex. Instintivamente puxo o braço da Júlia de forma possessiva, fazendo o seu corpo colidir contra o meu. Ele estreita o olhar e logo em seguida, pergunta algo a ela que responde em inglês, me fazendo finalmente entender qual foi a sua pergunta. — Ele é o meu namorado, Pedro. — O cara parece não ter gostado e eu, menos ainda da sua expressão. Quero que ele suma daqui. Quero que esse verme evapore. — Quem é esse cara, Júlia? — questiono-a mesmo tendo quase certeza de quem se trata. — É o meu ex-namorado — ela confirma o que eu mais temia desde o momento em que ele colocou seus olhos sobre a minha mulher. O cara veio de


longe só para ver a Júlia? Se ele pensa que vai tirá-la de mim, pode voltar com seu rabo entre as pernas, porque ela é minha. — Júlia, eu preciso falar com você. Nos devemos uma conversa definitiva! Foram sete anos. Por favor, você me deve isso! — ele implora em inglês para deixar claro que ele fala fluente o meu idioma e para que eu saiba suas intenções. Imediatamente, entro na frente da Júlia e meu corpo fica tenso como se ele fosse tomá-la de mim. — Ela não vai falar com você! — rosno de forma firme para que ele entenda que ela é a minha mulher. Que ele perdeu. — Você não acha que ela deve decidir? — O canalha ainda me afronta na maior cara de pau? — Ela é a minha namorada e eu disse, NÃO! — Eu já o odeio com toda a minha força. Estou tremendo e esse sentimento é totalmente novo pra mim. Quero matá-lo e quero que ele suma da minha frente. Droga! Eu acabei de abominar o ciúme e é exatamente o que estou sentindo neste momento. — Andrew, ele tem razão. Eu decido. — Júlia se desvencilha do meu corpo e se aproxima dele. Meu coração dispara com essa atitude e, pela primeira vez eu não sei o que fazer, apenas em vê-la próxima a ele, me deixa doente. — Pedro. — Ela me ignora chamando o babaca para conversar. — Por que veio de tão longe para falar comigo? — Precisamos colocar um ponto final ou... recomeçar o que não deveria ter acabado. Eu ainda te amo, Júlia. — Amplio meus olhos de forma exagerada não acreditando no que ele está falando. O idiota está se declarando descaradamente. — Eu não volto para o Brasil enquanto não falar com você, a sós — ele enfatiza a palavra: "sós" enquanto me encara. — Pode ser outro dia. Eu sei que estamos na sua exposição. Hoje é um dia especial para você. Você sempre amou fotografia. — Ele faz questão de falar o meu idioma para que eu fique ciente o quão pilantra ele é. Júlia ignora completamente a minha presença e, por algum motivo, sinto medo. Medo de ela ceder ao homem que esteve em sua vida durante sete anos. — Estou hospedado nesse hotel. Por favor, me ligue quando puder. — Ele a entrega um cartão e eu estou me segurando para não estragar a noite. — Vou ficar aqui o tempo que for necessário. Eu realmente quero explicar tudo e colocar uma vírgula ou um ponto final na nossa relação. O ponto final já foi colocado e você não terá a Júlia. Nunca. — Me liga... Por favor! — dito isso, ele se vira e desaparece deixando a minha mulher com uma expressão atônita. Encaro a Júlia com perplexidade. — O que esse cara quer?


— Eu não sei! — Ela ainda está olhando para o nada como se eu não existisse. — Júlia, você sente algo por esse idiota? — A pergunta foge da minha boca. — Não, Andrew. Esqueça! Isso é um problema que eu tenho que resolver. — O que? Ela tem que resolver? Mas eu achei que eu fosse parte de sua vida. — Eu não vou aceitar que você converse com esse cara nem por cinco minutos! — afirmo com força nas palavras. — Andrew, se eu tenho que aceitar você conversar com suas ex, acredito que você terá que fazer o mesmo em relação a mim. — Agora eu percebi. Estou cobrando algo que há poucos minutos abominava. Não respondo. As palavras me faltam nesse momento. Depois deste episódio, um medo toma conta de mim. Não posso perder a Júlia pelo ex. Só em imaginar o tempo que eles estavam juntos, eu fico louco. Não consigo pensar que a Júlia esteja, ao menos balançada por ele ter vindo de tão longe só para vê-la. Não relaxei mais, durante toda a noite. Sempre que a Júlia se afastava de mim, eu já imaginava que esse cara estava à espreita para tentar convencê-la de algo. A noite pra mim, acabou. *** Minha expressão não mudou, mesmo chegando em casa. Ela não diz nada e muito menos eu. Minha cabeça só imagina esse cara tentando convencer a Júlia a voltar para o Brasil. Mesmo com todo o ocorrido. Júlia estava muito feliz por finalmente ser reconhecida e vender praticamente todos os seus quadros que estavam em exposição. — O que foi? — ela pergunta curiosamente enquanto entramos em nosso quarto. — Exalo um suspiro profundo enquanto retiro a minha gravata. — Júlia, eu não quero que você veja esse cara em hipótese alguma — peço, com um tom sério na voz. — Andrew, ele veio do Brasil só para conversarmos. Eu não vejo nenhum mal nisso! Agora, não consigo esconder o quão apavorado estou. Ela não pode fazer isso comigo. Está muito claro pra mim, ele ainda a quer. Ele ainda a ama. CAPÍTULO 23 Júlia Neste momento, estou diante do homem contraditório a tudo que havia me dito. O homem que odeia cenas de ciúme, mas que deixou claro que seu passado não era da minha conta. Que não se importou de conversar com sua ex e que depois de ser totalmente grosso comigo está agindo exatamente igual a


mim. Jamais imaginaria que ver o Pedro me daria tanto prazer. Porém, conversarei com ele para dar um basta em nossa relação. — O que foi? — pergunto com dissimulado desinteresse. Ele exala um suspiro profundo e se aproxima, segurando meu rosto com as mãos. — Júlia, eu não quero que você veja o seu ex-namorado. — Ele parece realmente desesperado pela maneira que me olha. — Andrew, ele veio do Brasil só para conversarmos. Eu não vejo nenhum mal nisso! — Mas eu vejo. Deu pra ver que ele ainda te ama. — Ele engole em seco suspirando profundamente. — Júlia, você não sente nada, absolutamente nada por esse cara? — Eu já disse que não. — Solto o ar pesadamente. — Eu amo você! — Foram sete anos! — ele sussurra. — E vocês estão há pouco tempo separados. — Andrew, cheguei à conclusão de que eu nunca o amei, sabe por quê? Porque eu não sabia o que significava essa palavra até conhecer você. — Consigo arrancar um sorriso do seu rosto tenso e em seguida Andrew me beija apaixonadamente. — Não quero te perder, Júlia. — Ele encosta sua testa na minha. — Não posso te perder — ele diz e isso é a melhor sensação do mundo. — Você não vai — sussurro. Confesso que eu preciso falar daquela Corinne. Tá na cara que ela quer o Andrew e obviamente não irá desistir. — Eu não quero que você fale com aquela tal Corinne. — Ele sopra o ar com força. — Eu fui apenas educado com ela, só isso. Aquilo foi apenas uma conversa, Júlia. Nada mais. — Então, com o Pedro será apenas uma conversa, nada mais! — Sem esperar que ele verbalize seu pensamento seguro seus braços e puxo-o caminhando em direção à nossa cama. — Vamos dormir, Andrew. Amanhã converso com o Pedro e coloco um ponto final nessa história. Ele decide não dizer mais nada e seu rosto apenas denota o quão frustrado está. Deitamos sobre a nossa confortável cama e Andrew puxa o meu corpo me abraçando apertando e aspirando o meu cheiro profundamente. Pela primeira vez posso sentir um medo em um homem que sempre demonstra total segurança em tudo na vida. Fecho os olhos tentando apagar todos os últimos acontecimentos da mente invocando o sono... Estou de volta a tal praia e a grande imensidão do mar está calmo. Desta vez, procuro a jovem bonita, mas não a vejo em lugar algum.


— Oi? Você está aqui? — Sim! — Me viro dando de cara com a jovem que, diferente das outras vezes que a vi, está sorrindo. — Nossa, você aparece do nada! — afirmo e ela sorri docemente. O mesmo vestido que ela usa, está totalmente branco, como o meu. Seus cabelos estão brilhantes e seu rosto antes pálido não está mais tão pálido assim. Mesmo com um sorriso no rosto, seus olhos ainda estão tristes, mas há um brilho neles, que antes não estavam lá. — Júlia, confie. Vejo muito amor entre vocês. Um amor verdadeiro. Não deixe os outros atrapalharem sua felicidade. Apenas Confie. — Por que me dá conselhos? Por que me ajuda? Afinal, quem é você? — Você vai saber, em breve ! Então a luz repentina reaparece e eu sou acordada por esse sonho maluco que até agora não consigo entender. *** Com muita relutância consegui argumentar com Andrew sobre resolver minha situação de uma vez por todas com o Pedro. Ele veio do Brasil apenas para conversarmos e é isso que irei fazer neste exato momento. Andrew queria muito vir, mas uma reunião importante de negócios o impediu. Preferi deixar as coisas bem claras para o Pedro e marquei dentro do hotel do Andrew. Aliás, fiz isso também por exigência do Andrew ou ele não conseguiria ir a essa reunião sabendo que estou em algum lugar de Manhattan com o meu ex. Assim que entro no restaurante do hotel, vejo que Pedro já me espera sentado em uma das inúmeras mesas. Não há muitas pessoas no local. Aproximo-me dele que se levanta no instante em que me vê. — Júlia? — Ele me analisa dos pés à cabeça e exala um suspiro profundo. — Nova Iorque está te fazendo muito bem, você está ainda mais linda! — Sorrio fracamente enquanto vejo-o aproximar-se de mim. Pedro se posiciona na minha frente e me abraça, pegando-me completamente de surpresa. Pareço uma estátua enquanto seus braços me envolvem e ele se afasta. — Desculpe, eu... estava com saudade! — Aceno positivamente pensando que um dia eu já gostei muito dele. Hoje, por incrível que pareça, nada sinto. Aliás, acho que nunca senti nem a metade do que sinto pelo Andrew. Sentamos e o garçom surge esperando o nosso pedido. Pedro pede apenas água e eu o acompanho. Ele faz um barulho com a garganta indicando que vai começar a falar. — Achei que iria encontrar uma Júlia mais aberta comigo. Mesmo com tudo que nos aconteceu, acho que você não deveria ignorar os sete anos que vivemos juntos.


— Acho que você não deveria ter vindo. Deixei claro que depois de te ver com aquela mulher, não iríamos mais ficar juntos. — Ele fecha os olhos por alguns segundos e os reabre com uma triste expressão. — Eu sempre te amei, Júlia. Só queria que você entendesse que o meu deslize não tem nada a ver com o nosso amor. Estou arrependido de tê-la enganado e quero realmente que você considere todos os anos em que fomos felizes... — Não. Não fomos felizes. — Exalo um suspiro profundo. — Aquela traição só me fez abrir os olhos do quão vazia era a minha vida ao seu lado. Eu não te amava e não te amo, Pedro. Hoje tenho um namorado e é com ele que quero passar os meus dias... — De repente, ele cobre suas mãos nas minhas que estavam apoiadas sobre a mesa e as segura com força. — Júlia, por favor, pense. Talvez você possa estar deslumbrada pela nova vida. De estar aqui, eu realmente te amo... — Pedro — interrompo-o. — Solta o meu braço, fique calmo! — peço com a voz baixa para não chamar a atenção, mas lágrimas começam a descer dos seus olhos e isso me deixa de certa forma com ... pena dele. — Não faça isso comigo. Por favor?! — ele implora e leva as minhas mãos sobre sua boca, beijando-a de forma desesperada. — Pedro, por favor... Pare! — Confesso que não sei o que fazer. Não esperava essa reação de um homem que sempre pareceu tão calmo. — LARGA A MINHA MULHER! — a voz imponente do Andrew ecoa de forma inquisidora bem atrás de mim. Viro-me e me deparo com uma imagem fora comum. Andrew com uma expressão transtornada. ***


Andrew Não seria idiota de mandar a minha mulher falar com este imbecil longe dos meus olhos. Ela parecia totalmente decidida sobre conversar com o ex e eu, não poderia dizer nada. Afinal, disse em alto e bom som que o meu passado não diz respeito a ela. Mentalmente me soco por ter dito isso, já que agora, Júlia está com a última pessoa que gostaria que ela estivesse. Ele não é apenas um ex como aquelas mulheres foram para mim. Eles têm uma história juntos e isso é o que mais me incomoda. Não consegui me concentrar na reunião. Aliás, eu não consegui ficar nela. Em todo momento, apenas a imagem da Júlia aos beijos com esse idiota não saia da minha mente. Pensei que ao final da reunião teria a notícia de que Júlia voltaria para o Brasil e ficaria com o seu ex. Quando decido vir até a minha mulher, vejo que o desgraçado está beijando suas mãos desesperadamente e um ódio tomou conta de mim. Eu quero apenas socar esse infeliz. — Andrew? — Júlia parece surpresa, mas eu não me importo. Quero que ela suma de perto desse cara. — SAIA de perto da minha mulher, agora — imponho de forma taxativa e ele finalmente se afasta percebendo que não tem a mínima condição de jogar comigo, definitivamente. — Pedro, vá embora! — Júlia pede com a sua voz ainda baixa, mas sinto que ela está tensa. Aproximo-me dela e puxo o seu braço, fazendo o seu corpo colidir contra o meu. Encaro-o de forma ameaçadora e ele não abaixa a cabeça. Então o que vi, não foi ilusão, ele estava chorando. O maldito ainda a ama. — Eu vou. — Ele desvia seu olhar para encarar a Júlia. — Mas não irei embora essa semana. Ainda estarei aqui, caso mude de ideia, Júlia — dito isso, ele sai caminhando enquanto me seguro internamente para não quebrar uma mesa sobre sua cabeça. *** Júlia voltou para casa com um dos meus motoristas de confiança. Confesso que não me lembro da última vez em que me senti tão desesperado. Acabei almoçando com ela que me contou como foi a sua conversa. O que mais temia era verdade. O idiota a quer de volta e usou o tempo em que ficaram juntos como arma para que ela tenha pena dele e o perdoe. Contudo, Júlia se declarou a mim novamente, dizendo que não tem a intenção de voltar para o imbecil. Mesmo acreditando, sinto-me como um adolescente, cheio de inseguranças. Ela me contou sobre um sonho que anda tendo em uma praia desconhecida e uma jovem mulher que sempre dá conselhos sobre nosso relacionamento. Confesso que não acredito nessas coisas, mas isso definitivamente me intrigou. Já estou a caminho de casa, quando meu celular toca. No visor, vejo que é o


meu motorista. Sim, pedi a ele que ficasse de olho na porta do nosso prédio para que aquele ex-maluco não volte a se aproximar da minha mulher. — Sim — atendo. — Senhor, precisa vir rápido. Freda está na porta do prédio conversando com a Júlia. —Congelo. O que essa mulher quer com a Júlia? Merda . — Estou indo! — Acelero o carro e sigo de forma imprudente pelas ruas. Deus, espero que não seja o que estou pensando. Aquela mulher pode ser cúmplice do Adam. CAPÍTULO 24 Júlia Decidi dar uma volta no Central Parque para pensar um pouco na vida, porém, jamais imaginaria que Freda estaria me esperando na entrada do meu prédio no momento em que colocasse meus pés na rua. Confesso que, em um primeiro momento, fiquei com um certo medo de que fosse algo relacionado ao Adam, mas ela implorou e me mostrou seu olho direito totalmente inchado, resultado de um soco. Adam a espancou e desapareceu. E o que parecia raiva se transformou em pena. Ela parece sincera, agora. — É isso, Júlia. Vim avisá-la que aquele homem aparentemente "bonzinho" é um psicopata. — Obrigada pelo aviso, mas ele já me provou que é um psicopata. — Ela concorda com a cabeça e volta com seus óculos enormes, escondendo a ferida em seu rosto. — Não irei mais importuná-la, só achei que você deveria realmente ficar atenta. Ele deixou claro pra mim no último encontro que não desistiu de você, Júlia. — Engulo em seco não respondendo o que ela diz. Achei realmente que ele tivesse desistido. Confesso que isso me deixa um pouco apavorada agora. — Meus pais são ricos e sempre fiz o que quis da minha vida. Eu sou impulsiva. Faço coisas sem pensar. Mas uma coisa eu te garanto. Não faço mal a ninguém. Sei que a maioria das pessoas tem dificuldade de conviver comigo, e eu não estou nem aí. Adam faz coisas terríveis e fez muita coisa com a nossa agência. Ele me usou. — Eu sei o que ele andou fazendo, Freda! — afirmo e Freda parece surpresa. — Ele queria dinheiro. Dinheiro que não existe. Nossa agência tinha mais dívidas que lucro. Vivíamos de aparência. Mas ele exigiu dinheiro. Eu neguei, e como prêmio, recebo um grande olho roxo. — Faz alguma ideia de algum lugar que ele possa estar?


— Não. Ele me procurou e desapareceu. A polícia já está à procura dele, mas o Adam sempre foi muito esperto. Ele está aprontando. Adam é muito inteligente! — O que está acontecendo aqui? — Andrew surge aparentemente cansado, como se estivesse correndo. Sua expressão demonstra nitidamente contrariedade em me encontrar aqui. — O que faz com essa mulher, Júlia? — ele questiona em um tom acusatório e enfurecido enquanto se aproxima de mim. — Vim avisá-la do perigo que ronda a vida de vocês. Adeus. — Freda se vira, ignorando a todos e caminha em direção a um táxi que estava parado na rua à sua espera. Andrew segura meu braço me puxando para o interior do prédio com o semblante fechado. Ele, definitivamente, odiou me ver com aquela mulher. *** Já passa das onze da noite e nada do Andrew aparecer. Subimos em um silêncio sufocante e não quis conversar. Tentei argumentar, mas ele pediu um tempo para pensar. Trancou-se em seu escritório alegando muito trabalho e de lá, não saiu até agora. Betty levou algo para ele comer e eu não ousei entrar sem ser convidada. Essa atitude me deixa triste, já que eu estou sempre aberta a conversar. Sei que ele está preocupado, mas não será agindo dessa forma, que conseguiremos nos entender. Depois de sair do banho, me deito e me cubro com o edredom, mas meu corpo parece não querer relaxar. Sinto falta do Andrew ao meu lado, enrolando meu corpo com seus braços fortes. Sinto-me protegida quando o tenho dessa forma. Algum tempo depois de rolar na cama por várias vezes, ouço-o entrar no quarto e imediatamente me viro, encontrando Andrew vestido com a mesma roupa. Ele não me olha em momento algum e segue em direção ao banheiro. Levanto-me imediatamente e sigo-o parando meu corpo rente ao dele. — Vai me ignorar até quando? — questiono-o de forma ríspida. Ele afrouxa agravada e finalmente fixa seus olhos nos meus. — Se depender de você, talvez estaria agora, tomando um café com a Freda. Por que você não entrou quando ela a abordou? Ela tem vínculos com o desgraçado do Adam! Será que você não entende que o Adam poderia te fazer mal? — Ele se vira, retirando seu terno e o jogando-o sobre a poltrona do banheiro. — Porra, Júlia! Poderia ter sido uma armação dessa mulher! — ele vocifera parado, me observando através do reflexo do espelho. — Ela não me faria mal, Andrew. Apenas veio me alertar sobre Adam. Disse que ele está cada dia mais louco. Ele a agrediu — afirmo com a voz


alterada e ele sopra o ar com força. Ele parece sentir-se contrariado com o que disse. — Júlia, não importa o que aconteceu. Você não deveria ter parado. MERDA! — ele gritou com um soco na parede me fazendo dar um sobressalto de susto. — Andrew? — chamo-o de forma desesperada aproximando-me dele, mas ele me impede com a mão. — Não. Você não sabe cuidar da sua própria integridade física. Se acontecesse algo com você, Júlia eu... — Ele fecha os olhos com força e quando os reabre, me olha friamente. — Preciso de um banho. — Retira suas roupas e eu me afasto consternada pela sua reação. *** No dia seguinte, não vejo o Andrew ao acordar. Na noite passada apenas senti o seu corpo pressionando o meu e seus braços me apertando. Senti seus lábios tocarem minha pele, mas logo adormeci. Agora, ainda é muito cedo, mas vejo que ele decidiu sair sem que eu perceba. Ele ainda está chateado comigo . Levanto-me, faço minha higiene, visto um roupão e saio em busca do mal humorado, Andrew. Discretamente, desço as escadas e, para a minha surpresa, vejo-o de costas olhando através da grande janela o nascer do sol. Ele está ao telefone, mas em um primeiro momento, não consigo deixar de admirar Manhattan e o sol que parece nascer entre os arranha céus da cidade. — Tudo bem, Rebecca. Marcaremos o almoço. Obrigado! — Aquele nome me remete rapidamente à noite da minha exposição, quando aquela Rebecca antipática nos interrompeu. Andrew se vira e finalmente me vê, enquanto caminho em sua direção. — Estou te atrapalhando? — pergunto de forma cautelosa, mas não consigo disfarçar a ironia na voz. — Não. Você, nunca me atrapalha! — ele afirma enquanto volta com seu aparelho celular no bolso de sua calça. — Por que você tem que almoçar com aquela mulher? — Ele exala um suspiro profundo, voltando a sua atenção para a bela vista de Manhattan. O sol, ainda alaranjado, clareia seu belo rosto que está extremamente sério. — É meu trabalho, Júlia. Eu já disse que não devemos misturar as coisas. — Desta vez, sua voz é macia, calma e, aos poucos, ele se aproxima de mim e segura meu rosto com as mãos. Lentamente, Andrew toca seus lábios nos meus, me beijando de forma lenta. Enrolo meus braços em volta do seu pescoço e ainda nos beijamos enquanto o sol faz o seu caminho no belo cenário de Manhattan. ***


Andrew A polícia e os agentes que contratei para procurar o Adam, não tem qualquer pista desse bandido. Tive que contratar seguranças que ficassem por conta da Júlia. Sei que Freda tem toda a razão sobre ficarmos espertos e é exatamente isso que faremos. Já conversei com a Júlia sobre não mais falar com essa mulher e mesmo que ela não entenda, já deixei isso bem claro para os dois homens que irão cuidar da sua segurança. Ela não contestou como pensei e isso me deixa um pouco mais aliviado. Sim, eu odeio me sentir impotente em relação à Júlia e é exatamente como me sinto diariamente quando tenho que ir para o meu escritório. Sinto que a qualquer momento esse imbecil irá aproveitar de algum deslize e fazer mal a ela. Finalmente, estou na minha cobertura depois de um dia difícil. Agora já é muito tarde e Júlia neste momento, deve estar dormindo. Entro vagarosamente no quarto e vejo a mulher mais linda dormindo da maneira mais serena. Exalo um suspiro profundo, tiro minhas roupas e sigo em direção ao banheiro. Entro no chuveiro e deixo a água cair sobre mim enquanto esfrego meu abdômen. A água me acalma e assim, fico por alguns segundos, apenas apreciando o banho que parece lavar a minha alma. Inesperadamente, sinto mãos macias acariciando o meu abdômen e um sorriso se desenha em meu rosto. — Júlia? — sinto seu corpo nu roçar minhas costas e eu me viro, ficando de frente a ela. Júlia está deliciosamente nua para mim e seu olhar demonstra exatamente o que quer. Ela sorri maliciosamente e eu a abraço carregando o seu corpo de forma que suas pernas enrolem na minha cintura. Enquanto a água jorra sobre nós, sinto sua abertura encostar de forma provocativa em mim. Fico ofegante e segundos depois estou dentro dela, o lugar onde sinto-me completo. Com ela, não há como me controlar. Os gemidos e os movimentos se intensificam e, aos poucos, sinto o ápice se aproximar me levando mais uma vez à beira de um abismo. Ainda conectados, fixo meus olhos nos dela e ofegante, a beijo profundamente. Ela segura meu rosto e ficamos nos encarando por longos segundos. — Eu te amo, Júlia — confesso ofegante enquanto sinto suas mãos sobre meus cabelos molhados. Ela me beija profundamente e sua língua dança furiosa em minha boca. Novamente estamos entregues, um ao outro. CAPÍTULO 25 Júlia O frio intenso de Nova Iorque resultou em uma garganta inflamada. Andrew voltou para a casa, abatido. O trabalho o tem deixado exausto, mas o frio o pegou de jeito. O pai, já está cuidando das outras redes de hotéis que eles


são sócios na Califórnia e parece bem melhor de saúde. Andrew, simplesmente ama o que faz e cuidar dos negócios, sempre foi algo prazeroso para ele, embora muito cansativo. — Acho que os papéis estão invertidos. Eu tenho que cuidar de você, não o contrário. — Andrew adverte, deitado sobre a cama depois de um banho demorado. Betty fez um chá e o medicamento anti-inflamatório parece trazer relaxamento. — Então, acostume-se! Quero cuidar muito de você — afirmo e ele sorri fracamente. Enquanto passo o dorso da mão sobre seu rosto, Andrew fecha os olhos vagarosamente ate mergulhar em um sono profundo. Eu apenas observo-o dormir e, pela primeira vez vejo-o frágil. Ele também precisa de cuidados... Precisa de mim. Hoje, recebi uma mensagem do Pedro dizendo que voltaria ao Brasil, esta noite. Porém, enfatizou que ainda não desistiu de mim. Decidi apagar a mensagem e não mais tocar nesse assunto com o Andrew. Em algum momento, ele terá que entender que não existirá mais uma relação entre nós. Ao menos, sinto-me aliviada em saber que ele, a essa hora, está em um voo de volta para casa e longe de mim. *** Andrew ficou durante três dias de cama e aquele sonho decidiu retornar novamente para me deixar ainda mais curiosa. A mesma jovem e a mesma praia, porém, ela estava nitidamente mais bonita e saudável. Reparei que a cada encontro, ela parecia ainda melhor que o último. Ela sempre me diz para ter confiança, seguir em frente e isso, de alguma forma me traz muita paz. Hoje, Andrew se despediu de mim e foi trabalhar me deixando apreensiva sobre seu estado de saúde, mas ele me garantiu que estava bem melhor. Acabei tentando me ocupar ligando para minha mãe e contando as novidades. Obviamente, minha mãe está muito preocupada sobre o Adam, mas eu a fiz entender que estou sendo muito protegida pelos seguranças do Andrew. Depois de me despedir, percebo que Jessica tentou me ligar. Retorno imediatamente a ligação. — Júlia? — Vi que está tentando me ligar. Tudo bem com você? — Não aceito um "não" como resposta. Vamos almoçar! — ela praticamente me ordena com sua voz autoritária. — Então, venha até aqui! — convido-a e ela bufa do outro lado da linda. — De jeito nenhum. Vamos a algum lugar. Preciso te tirar desse apartamento. — Exalo um suspiro profundo — É melhor não nos arriscar saindo


por aí. Adam está à espreita! — Que tal irmos almoçar no hotel do Andrew? Aí você aproveita e faz uma surpresa. O que acha? — Abro um sorriso com a sua ideia. — Excelente ideia, Jessica. Preciso animá-lo. Ele esteve doente e talvez minha presença o deixará feliz. — Claro que ele vai amar te ver em um momento inesperado. Te encontro lá em uma hora. Desligamos e rapidamente corro até o banheiro para me vestir. *** Jessica já está me esperando no saguão do hotel com um sorriso enorme. Nos abraçamos e ela segura o meu rosto com as mãos. — Estava louca pra te ver, minha amiga. Nunca conseguimos nos encontrar. Eu estou sempre ensaiando e você, presa naquele apartamento. — Sim, não tenho saído. Queremos que o Adam seja encontrado para podermos, ao menos, ter o direito de ir e vir. — Sim. Parece que ele não desistiu, não é? — Concordo com a cabeça. — Vamos almoçar e assim, colocaremos nossa conversa em dia. Assim que nos sentamos, pego meu celular e rapidamente envio uma mensagem, avisando ao Andrew que estou aqui. Porém, espero por meia hora e nada de uma mísera resposta. Isso, definitivamente, me deixa preocupada. — Ele ainda não respondeu — afirmo com uma voz de desânimo e Jessica maneia a cabeça com uma expressão preocupada. — Acalme-se, ele deve estar ocupado. Daqui a pouco ele vai te responder. — Faço uma careta de frustração e logo engatamos uma conversa animada. Pedimos nossa refeição e passamos um bom momento juntas. Tomamos vinho e colocamos nosso papo em dia. Estar ao lado da Jessica é tão fácil que o tempo passa e a gente nem percebe. Com ela, tudo fica mais agradável, mesmo que meus pensamentos estejam, vez ou outra, indo de encontro ao Andrew e o que ele deve fazer de tão importante para desligar esse telefone. Terminamos nossa refeição, pego meu celular e decido ligar para o Andrew que novamente, não atende. Estreito as sobrancelhas e a encaro com preocupação impressa em meu rosto. — E agora, o que vai fazer? Voltar para a casa? — Não. Vou até o escritório dele. Você me espera na recepção? — Ela concorda com a cabeça e logo em seguida, sigo em direção aos elevadores. Assim que as portas se abrem no andar indicado, ando pelo corredor e, à medida que vou me aproximando, percebo que a porta do seu escritório está entreaberta. Empurro-a vagarosamente e quando finalmente entro, congelo com a cena vejo. Bem ali, diante dos meus olhos está, Corinne, vestida apenas com sutiã e


calcinha pegando suas roupas que estão espalhadas por todo o chão. Meu coração acelera ao ver que, logo em seguida, Andrew sai por uma porta fechando os botões de sua blusa. Quando me vê, Andrew interrompe seus passos e parece obviamente surpreso com a minha presença. Ele olha para Corinne e em seguida seu rosto se transforma em um misto de pânico e terror. — Júlia? — Ele não sabe exatamente o que dizer diante dessa cena. Somente agora, percebo que Corinne sorri descaradamente enquanto nos observa. Espero, sinceramente, que Andrew não use a frase: “ Não é nada disso que você está pensando”. — Não sei o que você está pensando, mas não é nada disso... — A minha expressão de pavor o faz parar de falar, me fazendo entender que nem ele parece acreditar no que está acontecendo. — Venho fazer uma surpresa para o "pobre e doente", e eu sou a surpreendida? — questiono-o, consternada, tentando controlar a minha respiração. — Essa louca veio até aqui, Júlia. Ela tirou a sua roupa, mas eu não... — Cala a sua boca, Andrew! — interrompo-o com a voz alterada e com os olhos inundando de lágrimas. — Você não vale nada! — afirmo e meu tom de voz é alterado. Imediatamente, Andrew volta seu olhar para Corinne que finge estar alheia à nossa briga enquanto se veste. — É melhor você dizer a ela o que estava fazendo aqui. AGORA! — ele a ordena apavorado e ela apenas sorri com deboche. — Dizer o quê? Que você sabe como agradar uma mulher? Ela já sabe, Andrew. Isso é que eu estava fazendo aqui com seu namorado, queridinha. — Seu sorriso foi apenas o motivo para que eu queira acabar com essa mulher. Sem dizer uma palavra, caminho em sua direção ficando rente a ela. Corinne ainda sorri, mas, abruptamente, começo a desferir tapas sobre sua face e ela tenta se defender com as mãos, eu simplesmente não consigo parar. Andrew nos observa paralisado e meu ódio faz com que ela perca a sua força. Se é que ela tinha alguma. Seguro seu cabelo e seu sorriso de deboche se transforma em gritos desesperados. Ela berra enquanto eu a arrasto pelo corredor, agora vestida de saia e sutiã. Deixo-a ali, percebendo que isso não irá de fato amenizar nossa situação. Eles transaram e mais uma vez sinto-me usada por causa de uma traição. Caminho em direção aos elevadores e as lágrimas persistem em inundar os meus olhos. — Júlia, volta aqui. — O elevador começa a se fechar e ele corre, na


esperança de abrir desesperadamente as portas que fecham antes que ele se aproxime. *** — Acalme-se. Tome esse remédio! Ele a fará dormir por um bom tempo! — Pego o remédio de sua mão e jogo-o na boca, virando todo o conteúdo da água que estava em minha mão. Já estou na casa da Jessica e, a única coisa que quero fazer é esquecer toda essa situação. — Durma e pense que isso está muito estranho para ser verdade! — Meneio a cabeça ainda consternada com tudo que me aconteceu. — Não, Jessica. Ele realmente me traiu. — Seu olhar de tristeza demonstra que nem ela consegue realmente encontrar alguma justificativa plausível para o que Andrew fez. — Minha amiga. Você está segura aqui. Tente não pensar sobre isso e apenas durma. — Concordo com a cabeça e sigo em direção ao meu antigo quarto. O quarto que pensei jamais voltar. O remédio que Jessica me deu, começa a fazer efeito. Estou emocionalmente esgotada e sem trocar as minhas roupas, me deito. Não demora muito para que minhas pálpebras pesadas se fecham e eu mergulho em um sono profundo. Aqui estou eu, novamente, na praia e, rapidamente posso vê-la... Linda! A jovem, diferente das outras vezes, está sentada sobre a areia e seus olhos agora sorriem para mim. — Júlia? — Seus cabelos castanhos estão brilhantes assim como seus olhos. Sua pele pálida parece saudável e um belo sorriso impresso em seu rosto jovem. — Acho que você não vai querer me contar quem de fato você é — afirmo, enquanto ela se levanta ainda sorrindo mostrando seus dentes brancos e perfeitos. Ela está ainda mais linda e feliz agora. — Você sempre soube, Júlia. — Estreito as sobrancelhas e suas mãos delicadas se estendem para a minha direção. — Muito prazer, sou Alice. Sou a mãe do Andrew! — ela revela e eu congelo. Mãe? — Alice? — Ela concorda com a cabeça. — Sim, esse é o meu nome. Agora fomos devidamente apresentadas, certo? Não respondo e apenas analiso a jovem bem à minha frente. — Júlia, você está fazendo meu filho feliz e isso naturalmente refletiu em mim. — Ela faz um gesto com as mãos, apontando para ela mesma. — Andrew finalmente está vivendo sua vida. Ele não sabe, mas o meu filho me perdoou. Hoje ele está feliz. — Ela se aproxima ainda mais de mim agora com uma


expressão séria. — Ouça-o, Júlia. Ouça-o! Nunca deixe ninguém atrapalhar a felicidade de vocês. — Ele me traiu! — sussurro e ela maneia a cabeça com uma expressão de tristeza. — Ouça-o! — ela ordena e então aquela claridade invade meus olhos mais uma vez ... *** Acordo desorientada e, por uma fração de segundos, não sei onde estou. Imediatamente, me dou conta de que estou em meu antigo quarto. Tenho uma sensação ruim, como se estivesse no lugar errado. O relógio marca sete da noite e eu, definitivamente, apaguei. Levanto-me e sigo em direção ao banheiro lavando meu rosto com água fria. Encaro o meu reflexo no espelho e o sonho maluco que tive, volta com tudo em minha mente. Mãe do Andrew? Deus, que coisa maluca! A palavra que ela dizia, infiltrou em minha mente e só agora consigo unir um pensamento coerente sobre o que ela estava querendo dizer. — Sim, ela estava falando da traição! — sussurro encarando meu rosto no reflexo do espelho. Imediatamente sinto-me mal ao perceber que tudo poderia ter sido armado por aquela mulher. Que, por mais que seja improvável, Andrew pode ter sido a vítima dessa vez. Eu deveria tê-lo ouvido, mas não, deixei que o meu ciúme estragasse tudo. Seco meu rosto e, rapidamente, faço o meu caminho em direção à sala. Jéssica está preparando algo e, quando nota a minha presença, ela se vira me encarando com uma expressão triste. — Jú, você tá melhor? — Sim, me sinto muito mais calma agora! — Ela hesita um pouco, mas decide se aproximar. — Jessica, preciso ver o Andrew. Eu tive mais um sonho maluco e, definitivamente, preciso ouvi-lo. Talvez exista uma explicação. Não vou dar chance a essas mulheres. Não vou estragar um relacionamento me baseando em suposições. Está decido. Vou à sua cobertura e darei a oportunidade dele se explicar. Eu preciso saber se... — Andrew esteve aqui, Júlia! — ela me interrompe fazendo o meu coração acelerar. Minhas sobrancelhas se unem encarando-a totalmente surpresa. — E aí, o que ele disse? — pergunto entusiasmada e ela parece não querer me contar. Jessica hesita, mas decide falar. Prendo a respiração com medo de ouvir o que seus olhos querem me dizer. — Deixou uma mala com suas roupas e um envelope. Ele disse que estava com muita pressa. Andrew foi para Califórnia, Júlia, e não quis entrar em


detalhes. Sinto muito! — ela afirma fazendo meu entusiasmo se esvair totalmente. — Ele nem quis se explicar? Simplesmente... foi embora? Desistiu? Me abandonou? — Ela exala um suspiro profundo, me abraça forte. Sento-me sobre o sofá enquanto encaro a mala bem diante de mim. Minhas pernas estão moles e meu coração explodindo dentro do meu peito. Deus , eu estraguei tudo . CAPÍTULO 26 Júlia — Não se culpe. Você pensou como qualquer pessoa que estivesse em seu lugar pensaria. Talvez deveria ter ficado e ouvir, mas quem faria isso? — Jessica solta um suspiro profundo. — Eu também agiria exatamente assim. Quando veio até aqui, Andrew queria realmente falar com você, mas ele parecia muito apressado. Talvez algo tenha acontecido. — Então, ele se foi — sussurro com frustração na voz. — Eu estava disposta a ouvi-lo depois do sonho que tive, mas pelo visto, ele desistiu de mim. — Jú, não se precipite. Abra o envelope! — Fixo meus olhos sobre a minha mala com um envelope grande cor pardo sobre ela. Levanto-me e caminho vagarosamente até alcançá-lo e segurá-lo em minhas mãos. Meu coração dispara e um medo se instala dentro de mim. — Abra. Independente do que esteja escrito aí dentro, você precisa ler. — Encaro-a com uma expressão de pavor. Mas ela tem total razão. Não adianta sofrer por antecipação. — Respiro profundamente e começo a abrir o envelope. No interior, vejo um bilhete e algo pequeno ao fundo. Pego o pequeno objeto e percebo que se trata de um pendrive. Estreito meu olhar não entendendo o porquê dele me mandar isso. — Leia logo! Eu estou curiosa, Ju! — Concordo com a cabeça, entrego-a o pendrive e começo a ler: “ Júlia, Sinto muito, mas tive que ir o mais depressa possível para Califórnia. Meu pai sofreu uma parada cardíaca e eu não pude esperá-la. Sei que está com ódio de mim e, definitivamente, não tiro a sua razão. Eu faria exatamente a mesma coisa. Por favor, venha me encontrar. Precisarei de você mais do que nunca. Betty veio comigo e também foi a responsável por arrumar a sua mala. Creio que dentro dela, esteja tudo que você necessite. Por favor, eu imploro... Venha! Pegue o voucher que está dentro do envelope indicando o horário do seu voo nas próximas horas. Um segurança te fará companhia até o aeroporto e outro te esperará assim que chegar à Califórnia.


Eu te amo. Confie em mim... Andrew. P.S. Veja o pendrive, assim entenderá tudo." Desço meus braços e inclino a cabeça encarando a minha amiga que está de pé à minha frente. Ela sorri docemente para mim e lágrimas descem dos meus olhos. Estou triste pelo seu pai, mas ao mesmo tempo aliviada por ele não desistir de mim. — Eu sabia, Jú. Ele te ama! — Jessica faz o caminho praticamente correndo em direção ao seu quarto. Sem dizer nada, ela retorna com seu notebook nas mãos, se senta no sofá e encaixa o pen drive. Sento-me ao seu lado e ficamos aguardando a reprodução daquilo que já imagino que seja. Segundos depois uma imagem se abre e nela, vejo o escritório do Andrew. Ele está em sua cadeira absorto em frente ao seu computador quando, de repente, Corinne entra, sem bater. Meu coração dispara quando vejo a mulher se aproximar dele e retirando suas roupas descaradamente. Quando ele a percebe, rapidamente se levanta e parece nitidamente irritado com a mulher. Ela tenta por diversas vezes agarrá-lo, mas Andrew se desvencilha dela. Porém, com raiva de ter sido rejeitada, Corinne pega o copo com água sobre a mesa e joga todo o conteúdo sobre ele. Andrew aponta seu dedo rente ao seu rosto e parece alterar a voz. Não há áudio, mas consigo ver nitidamente que ele a rejeita. Andrew pega o seu celular e, falando ao telefone, caminha em direção à outra porta. Com expressão frustrada, Corinne fica sozinha e é exatamente nesse momento em que eu entro. — Que mulher pilantra! — consigo proferir ainda perplexa com a armação dessa descarada. — Está vendo? Ainda bem que você arranhou a cara dessa louca. Ele não fez nada. Agora corre atrás dele. Vá para Califórnia! — ela diz e, imediatamente me lembro do motivo que o fez ir para Califórnia. — Espero que não seja nada grave com o pai! — Não será. Tenha fé! — Preciso pedir desculpas por não tê-lo deixado falar. — Jessica sorri e segura meus ombros fixando seus olhos nos meus. — Acho que ele a entendeu perfeitamente, Jú! — Exalo um suspiro e sorrio abraçando-a apertado. — Preciso ir... estou atrasada! *** O voo até a Califórnia durou uma eternidade. Tivemos um atraso na decolagem e, finalmente aterrissamos. Andrew havia dito que um de seus seguranças estaria me esperando e, quando cheguei, não foi difícil identificar um 'armário' segurando uma placa com o meu nome de todo o tamanho.


Tentei ligar para o Andrew, mas seu telefone cai direto na caixa de mensagens. Insisto algumas vezes e percebo que é inútil. Então sigo direto para o hospital onde ele está à minha espera. ***


Andrew Como um mal entendido pode mudar completamente o rumo da minha vida? Por causa de uma louca, Júlia pode não me perdoar. Corinne me pegou de surpresa, entrando no meu escritório e jogando aquela água sobre mim. Sim, ela queria sexo e eu, apenas queria matá-la. Corinne foi retirada do meu hotel pelos meus seguranças pela porta dos fundos. Queria matá-la, mas tinha algo muito mais importante a fazer e que não poderia esperar. Meu pai precisa de mim e, pelos meus cálculos, ele já terminou a cirurgia que estava sendo submetido por mais de oito horas. Não tive mais contato com ninguém, já que não desgrudei um centímetro da sala de espera em busca de notícias. Espero sinceramente que Júlia esteja vindo e, pelos meus cálculos ela deveria estar aqui há mais de uma hora. Estou apavorado sem notícias da Júlia, mas primeiro preciso saber notícias sobre o meu pai. Depois de andar de um extremo ao outro tentando entender por qual razão ninguém consegue me dar uma informação que preste sobre o estado de saúde do meu pai, sento-me e apoio meus cotovelos sobre meus joelhos. Esfrego minhas mãos furiosamente sobre meu rosto e assim fico por muito tempo. Estou confuso, exausto e reprimindo emoções guardadas em apenas um dia. Sinto-me de mãos atadas diante de tudo que me acontece neste momento. Ainda com as mãos fechando meu rosto, tento controlar meus batimentos cardíacos e me acalmar. De repente, sinto mãos macias e delicadas sobre meus cabelos e, lentamente, inclino a minha cabeça para cima encontrando a mulher que mais desejava ver por todo esse tempo, bem aqui diante dos meus olhos. Essa é a visão que eu estou esperando desde que cheguei nesse hospital. Levanto-me ainda com meus olhos presos aos dela. — Júlia... — minha voz sai quase inaudível. — Sinto muito por não te ouvir, Andrew! — Ela parece arrependida e com os olhos marejados. Sem dizer absolutamente nada, eu a puxo para um abraço longo e apertado sentindo-a novamente aqui, perto de mim. A impressão que tenho é que eu não a vejo há anos. Deus, como eu amo essa mulher! — Shhh... Não chore! Eu também imaginaria isso, se fosse o contrário. Estou realmente aliviado que veio, Júlia! Se você não viesse, não sei como suportaria tudo isso. — Eu estou aqui, meu amor! — Ela se afasta e segura o meu rosto com as duas mãos. — Como está o seu pai?! — Balanço a cabeça em negativo. — Não sei. Ele sofreu um ataque cardíaco enquanto estava em nossa casa.


A sorte é que os empregados estavam com ele e chamaram a ambulância que chegou muito rápido. Estão fazendo uma cirurgia de emergência que deve ter acabado, mas ninguém veio até a mim e eu estou muito ansioso pela falta de informação. — Vai dar tudo certo. Acalme-se. Tenha fé! — Júlia diz com a voz macia e eu concordo com a cabeça. Passo meus dedos sobre a lateral do seu rosto. Ela parece tão cansada e abatida quanto eu. O dia foi longo e tudo que quero saber antes de finalmente descansar são notícias do meu pai. — Quando eu vi aquela porta do elevador se fechando, entrei em pânico imaginando que não a teria de volta. — Solto o ar pesadamente. — Minutos depois, recebi a ligação do hospital sobre meu pai. Então fui direto para casa e um dos seguranças me disse que você saiu com a Jessica do hotel. Você não atendia minhas ligações e eu rezei que estivesse a salvo. Nenhum segurança conseguiu te seguir e você... — Shh, tudo bem... — Ela encosta suavemente seus dedos sobre minha boca. — Não diz nada agora. O importante é que estamos aqui e, juntos cuidaremos do seu pai. — Não tenho forças para sorrir, mas a expressão do meu rosto se suaviza imediatamente. Exalo um suspiro profundo e encosto a minha testa na dela. — Eu amo você, Júlia. — Ela pressiona seu corpo contra o meu e assim ficamos, por longos minutos. CAPÍTULO 27 Júlia — Acorda dorminhoca! — Sinto lábios quentes e macios sobre os meus e, assim que abro meus olhos, dou de cara com dois intensos olhos azuis me observando. Andrew já está acordado há mais tempo pelo ânimo que aparenta. — Vamos à praia. Quero mostrar o lugar que passei a minha infância. — Sorrio ao perceber o seu rosto relaxado. Seu pai, já está fora de perigo. Não saímos do hospital até termos a total certeza de que ele estava realmente bem e que não corre risco de morte. Ele se submeteu a uma cirurgia de revascularização do miocárdio. Houve uma obstrução do fluxo sanguíneo. A cirurgia foi um sucesso e seu quadro é estável. Ele ficará dois dias na UTI e depois será levado para o quarto, onde ficará durante a semana e, se tudo correr bem, o pai do Andrew poderá receber visitas quando estiver no quarto. — Preciso de um banho e logo em seguida sairemos — informo-o e ele me beija demoradamente. Em seguida, ele se levanta enquanto eu faço meu caminho até o banheiro. A suíte em que estamos é exatamente a cópia do seu quarto em Nova


Iorque. Imaginava que iria encontrar uma bela mansão, já que estamos em Beverly Hills, mas a casa do seu pai é um verdadeiro palácio. Fomos recepcionados pela Betty e já na sala de entrada, me surpreendi com o tamanho e magnitude do lugar. Saio do chuveiro e me surpreendo com Andrew que entra segurando uma grande toalha. Ele se aproxima e me envolve e me seca sem fazer perguntas. Andrew me abraça de maneira carinhosa e seca cada parte do meu corpo como se estivesse em um ritual. — Adoro o seu cheiro. — Ele exala um suspiro profundo. — Que bom que você está aqui, Júlia. *** No caminho para Venice, pude admirar a bela paisagem. As ruas de Beverly Hills são tomadas por palmeiras. Belíssimas casas e mansões mostram muito luxo e riqueza ao nosso redor. Muitas dessas mansões extraordinárias abrigam artistas de Hollywood. Muitas são abertas com jardins lindos e muito bem cuidados. Depois de estacionarmos em frente à praia de Venice, saímos do carro e, à medida que fomos nos aproximando da areia, sou levada por uma sensação de estranha, como se estivesse em um Djavú. Giro o meu corpo e reparo em tudo ao meu redor. O céu de um azul vívido, a imensidão do mar e as enormes palmeiras. Sinto que já estive aqui, sem nunca ter vindo. — Andrew, estou tendo aquela sensação de ter estado aqui. — Ele une as sobrancelhas — Eu não sei explicar! — afirmo e continuo observando cada detalhe ao meu redor. De repente, algo cai sobre mim e todos os sonhos que tive com a mãe do Andrew vêm à minha mente. Sempre foi em uma mesma praia, e eu acabei de saber qual é essa praia. Sim, sempre foi Venice. — Giro meu corpo para encará-lo. — Lembra que te falei sobre os sonhos que tive com uma jovem? — Ele concorda com o cenho franzido me observando com curiosidade. — A jovem do sonho... é a sua mãe, Andrew. A praia do sonho sempre foi esta. Sempre foi Venice. — Andrew parece momentaneamente paralisado com a minha revelação. — Minha mãe?! — Faço que sim com a cabeça e ele engole em seco naturalmente surpreso com o que disse. — Andrew, no último sonho que tive, ela me contou que foi perdoada por você. E agora, estamos aqui! Não é maluco?! — Ele concorda com a cabeça ainda parecendo completamente aturdido com o que acabo de dizer. — Muito. Eu não sei o que pensar. A única coisa que sei, é que eu me senti na obrigação de trazê-la aqui, Júlia. Quando aconteceu tudo aquilo e depois vir às pressas para Califórnia, no voo até aqui, eu sonhei com a minha mãe.


Estávamos nos abraçando nessa praia — ele confessa me pegando totalmente de surpresa. — Ela me contou que você a perdoou. — Ele exala um suspiro profundo enquanto o vento revira seu cabelo sedoso. — Eu a perdoei há muito tempo, Júlia. Hoje, ela descansa. Minha mãe morreu um ano depois da sua fuga. Em um acidente. Ela não conseguiu viver a vida que tanto queria. Se ela estivesse viva, talvez estaria aqui. Estou feliz em têla abraçado, ao menos no sonho. Isso parece muito inacreditável. Não sei se a verei novamente, mas é intenso. Andrew realmente perdoou a sua mãe e por coincidência nos trouxe aqui como se ela tivesse nos guiado. Ela está feliz onde quer que esteja. Exalo um suspiro profundo e nos abraçamos apertado por longos segundos. Não tocamos mais no assunto e sua respiração é profunda enquanto sinto seu rosto próximo a minha nuca. Depois de caminharmos de mãos dadas por alguns minutos, sentamo-nos sobre a areia macia e ali ficamos apreciando o sol brilhando na imensidão do mar azul. Meu corpo está encaixado entre as suas pernas e de repente, Andrew coloca um fone de ouvido em minha orelha e outro na sua. Ele beija meu rosto e não diz nada. A música que começa a tocar em nossos ouvidos é: I don't want To miss I thing – Aerosmith. — Quero que ouça essa música — ele pede sussurrando ao meu ouvido. Enquanto a música ecoa em nossos ouvidos, deito minha cabeça sobre seu peito e fecho os olhos sentindo cada segundo desse momento. *** O Sr. John, já foi transferido para o quarto. Ficamos esses últimos quatro dias praticamente dentro do hospital. Andrew não queria sair de perto do pai e assim fizemos companhia a ele por todo esse tempo. Hoje, ele nos expulsou alegando que estava bem e que deveríamos nos divertir. Disse ao Andrew que ele deveria me mostrar mais os lugares ao invés de ser a sua babá. Por causa da sua insistência acabamos concordando e hoje, ele me levou para conhecer a Rodeo Drive, a rua das grifes famosas. Acho que estava mais empolgada em conhecer, principalmente por causa do filme "Uma Linda Mulher" que qualquer outra coisa. Quem não queria se sentir uma Júlia Roberts por um dia? Depois de rodarmos bastante, fomos jantar. Andrew optou por comida italiana e nos levou ao "Ago Restaurante". Um lugar é bem disputado pelos clientes. Ficamos em uma espera rápida até nos sentarmos em uma mesa confortável. Pedimos nossa refeição e um vinho tinto para acompanhar. Andrew se


transformou na atração das mulheres como em vários outros lugares que frequentamos. Acho que já estou me acostumando com esse assédio, mesmo que seja de longe. — Já volto! — ele diz enquanto se levanta apontando em direção aos banheiros. Assim que ele desaparece percebo que um garçom se aproxima da mesa segurando uma bandeira carregando um coquetel e um bilhete. Minhas sobrancelhas se unem e eu o encaro com surpresa. — Eu não pedi isso — informo-o com uma expressão desconfiada. — Senhorita, o senhor sentado bem ali, pediu para entregá-la. Sinto muito, mas ele insistiu. Peço que me perdoe, mas não quero ser demitido. — Olho em direção ao homem que me observa atentamente. Ele está com um sorriso e faz questão de que eu saiba quem é ele. Pego o bilhete e abro-o ainda sem entender. Linda e perfeita! Andrew não merece desfilar com uma mulher como você! Aceite meu drink.


Jack O que esse homem está querendo? Uma briga? Olho perplexa para o bilhete, amasso devolvendo-o imediatamente. — Diga para o Sr. Jack que eu não quero a sua bebida já que estou muito bem acompanhada com o meu namorado. Ele concorda com a cabeça e sai rapidamente levando o coquetel e o bilhete amassado em sua bandeja. — O que está acontecendo, Júlia? — Andrew surge, questionando com um olhar de interrogação sobre o garçom. ***


Andrew Vou ao banheiro por um minuto e quando volto, vejo que a minha mulher está sendo cortejada por algum pilantra? Um garçom sai com um bilhete e uma taça que não pertencem a Júlia. — Acho que foi um engano, vamos jantar! — Balanço a cabeça em negativo. Que merda foi essa? — Eu vi o garçom saindo com uma taça e um bilhete. Quem mandou isso? — Ela exala um suspiro, resignada. — Por favor, Andrew, não se preocupe com isso! É apenas um homem que, provavelmente, deve estar bêbado e não percebeu que eu estava acompanhada. Olho ao nosso redor à procura do "galanteador de merda" até o meu olhar finalmente parar sobre o desgraçado do Jack Collins. O filho da puta ainda tem a cara de pau de erguer a sua taça para mim. — Jack Collins? — Olho para Júlia — O que estava escrito no bilhete? — questiono-a com exasperação na voz. — Andrew... — Eu quero saber! — peço de forma inquisidora e ela exala outro suspiro profundamente. — Me chamou de linda e também disse que você não merece desfilar com uma mulher como eu. Andrew? Por favor! Não brigue com ele. Isso não vale a nossa noite — ela implora, segurando meu braço. — Exalo um suspiro profundo e ela tem razão, não irei estragar a minha noite por causa desse desgraçado. Jack quer me afrontar, já que sempre fomos rivais nos negócios. — Júlia, esse cara é um idiota. Ele se acha o dono do mundo. — Respiro profundamente — Não se preocupe, sei o que ele quer. Conheço-o há muitos anos e é apenas isso que ele faz a vida toda. Querer ser melhor do que eu. Não farei nada. Por você. — Ela sorri parecendo aliviada. Ele é apenas um babaca e sempre quis entrar em uma disputa que, muitas vezes sempre sai perdendo. *** Chegamos em casa exaustos e fomos direto para o nosso quarto. Claro, eu a levei sobre meus braços e ela não protestou. — Vou cuidar de você — informo-a enquanto ando pelo corredor e ela sorri com a cabeça enfiada em meu pescoço. Sinto-a aspirando o meu cheiro e gosto disso. Gosto dessa intimidade. Sinto que não há possibilidades de estar longe dela, nunca mais. — Hoje eu quero que você seja mau comigo! — ela pede me surpreendendo. Acho que Júlia nunca havia falado assim, tão descarada em se tratando de sexo. Não posso reclamar, ela é um furacão, mas não é muito de


falar. — Hoje quero ser bom para você. — Sorrio maliciosamente e ela beija o meu pescoço trazendo apenas as melhores sensações. Depois de tomarmos banho, separadamente, levo-a diretamente para nossa cama. — Hoje eu quero fazer amor com você, Júlia. — Encaro-a fixamente. Júlia está totalmente nua sobre a cama e meus olhos passeiam em cada extensão do seu corpo que parece ter sido feito para mim. Lentamente, me encaixo entre suas pernas. Abaixo meu corpo e começo beijando sua clavícula descendo meus lábios até alcançar seus seios. Ouço deliciosos gemidos vindos de sua boca quando encontro seus mamilos duros. Sinto meu corpo se arrepiar por inteiro tendo a sensação única de prová-la mais uma vez. — Adoro seu cheiro e adoro sentir o seu gosto, Júlia — sussurro com uma voz rouca e ofegante. — Hummm... Volto para seus lábios passando a língua pelo seu corpo até alcançá-los. Começo a mordiscar seu lábio inferior e ela já se contorce embaixo de mim. Estou ciente que, enquanto a deixo excitada, meu membro está firme sobre sua barriga. — Amo seus lábios — sussurro. Posiciono-me entre suas pernas e minha vontade de preenchê-la é quase incontrolável. — Quero entrar em você, lentamente, Júlia. Quero sentir cada centímetro de seu corpo. Quero vê-la mover contra mim devagar. Abra suas pernas — ordeno e ela, de forma receptiva, faz o que mando. Estamos ofegantes e sem esperar, deslizo dolorosamente lento até preenchêla por inteiro. Enquanto me movimento em câmera lenta, minha língua invade à sua boca de forma faminta. Quero ir fundo, mais profundo como se eu não conseguisse me saciar do seu corpo. Ela suspira forte e meus movimentos aos poucos se tornam fortes e urgentes. Júlia fecha os olhos cortando o nosso contado visual intenso. — Abra os olhos, Júlia — ordeno com a voz falha enquanto faço movimentos de vai e vem. Seguro seu rosto com as mãos e nossos beijos se tornam cada vez mais intensos e meus músculos se contraem. Sinto suas paredes me apertando e nossas respirações se tornam ainda mais difíceis. Sua pélvis vem de encontro a mim buscando o seu próprio prazer. Júlia está vindo e quando seu clímax finalmente chega, ela se contorce deliciosamente embaixo de mim e meus movimentos ficam ainda mais intensos até atingir o


ápice. Eu atinjo o meu próprio prazer — Júlia... — chamo-a ofegante e nossos rostos estão próximos de modo que nossas respirações se misturam. — Acho que não há condições de te amar mais — declaro olhando fixamente em seus olhos. Ela sorri e apenas segura cada lado do meu rosto me beijando profunda e demoradamente. CAPÍTULO 28 Júlia Finalmente, depois de vários dias preso naquele hospital, o Sr. John conseguiu alta e já está em casa. Era para voltarmos a Nova Iorque, mas Andrew me pediu para que ficássemos mais alguns dias com o pai. O Sr. John é um homem amável e sua recuperação está sendo rápida, mesmo com tantos problemas de saúde que ele enfrentou durante tantos meses. Andrew não quer se afastar e eu o entendo totalmente. Agora estamos na piscina da sua casa. Andrew convidou um amigo que não o via há muito tempo. Ele se chama Daniel e, sem sombra de dúvida, é tão atraente quanto o Andrew. Daniel é alto, corpo atlético e tem cabelos e olhos castanhos. Ele é um homem bem simpático e o oposto do Andrew que é tão sério. — Como assim, namorados? Isso é algum tipo de piada? — Ele parece incrédulo quando contamos sobre o nosso relacionamento. — Não é piada. Júlia é a minha namorada e eu quero que você tire seus olhos de cima dela. — Provavelmente, Daniel achou que eu era mais um caso do Andrew, mas quando ele me viu de biquíni, Andrew se apressou para contar a ele quem sou eu. — Andrew, namorando. Sério mesmo? Achou a mulher que finalmente o domou? Cara, eu sempre te disse que um dia você iria achar uma mulher que ficaria literalmente de quatro, mas não imaginei que estaria vivo para presenciar essa cena. Épico! — Muito engraçado. Essa é a Júlia, minha namorada. E eu quero que a respeite. Não quero te quebrar ao meio, entendido? — Tudo bem, meu caro amigo! Recado dado. A partir de agora, ela é a minha mais nova heroína. A segunda é a minha mãe. — Ele se vira para me encarar. — Você terá todo o meu respeito por ser a única que conseguiu domar o indomável. — Começo a rir e Andrew me observa com perplexidade. — Você está rindo desse idiota? — ele me repreende. — Ele é engraçado, amor. Não tem como não rir! — Eu ouvi direito? Amor? — Daniel ri e Andrew balança a cabeça e acaba


curvando seus lábios em um breve sorriso. — Certo. Eu juro que parei — Daniel diz entre risadas. Percebo uma cumplicidade entre eles. Nunca vi o Andrew com nenhum amigo antes. Ele sempre está ao lado de pessoas aleatórias ou sócios. Ninguém que ele possa realmente chamar de “amigo”. Apesar dessa expressão fechada, acredito que seja mais por conta do meu biquíni do que por qualquer outra coisa. Mas seu semblante está muito feliz por ver seu amigo aqui em sua casa. — E então, vocês topam ir à festa, amanhã? Será na mansão de um primo meu. Ele está dando uma festa pela minha chegada — Daniel conta satisfeito, já que esteve durante meses fazendo trabalho voluntário na Etiópia. Daniel é médico e, além de muito bonito, ajuda os pobres e oprimidos. — Não gosto desse tipo de festa. Muita gente — afirma Andrew — Não será uma festa para loucos — afirma Daniel, impaciente. — Você me deve isso. Somos amigos! — Andrew exala um suspiro resignado. — Tudo bem. Mas não ficaremos por muito tempo. — Daniel sorri animado por tê-lo convencido. — Então, Júlia, Andrew me disse que é brasileira. Sou louco pra conhecer o Brasil. Amo viajar e será um prazer receber suas dicas dos melhores lugares. — Claro, será um prazer poder te orientar. Você vai amar o Brasil. É um país lindo! — Vamos parar com esse papo — Andrew nos interrompe. — Que horas será a tal festa? — Amanhã ao meio-dia. — Combinado! — Ele me puxa pelo braço tentando esconder parcialmente o meu corpo. Acho que ele está com ciúme. *** O carro do Andrew estaciona na porta da mansão e meu queixo cai — não literalmente. A rua está tomada por carros incríveis e o mais barato, deve custar em torno de quinhentos mil dólares. É Júlia, bem-vinda ao fantástico mundo do Andrew. — Que foi? — Andrew questiona com suas sobrancelhas unidas. — Estava pensando, como vivo em um mundo completamente diferente do seu. — Ele interrompe nossos passos e se vira para me encarar nos olhos. — O meu mundo é você! — O que ele diz me pega completamente de surpresa e como resposta, eu apenas beijo-o nos lábios em forma de agradecimento. — Oi, namorados apaixonados! Ainda bem que vocês vieram. — Daniel surge e Andrew se separa para cumprimentar o amigo. — Vamos, sintam-se em casa!


Assim que atravessamos o belíssimo gramado, fomos até a área da piscina que fica nos fundos da grande mandão. Assim que chegamos, vejo muitas mulheres lindas apenas de biquínis segurando suas taças de champanhe. A maioria dos homens está apenas de bermuda cargo e sem camisa. Percebo olhares femininos direcionados ao Andrew e logo em seguida para mim. Daniel nos apresenta ao anfitrião e logo nos mostra uma mesa para sentarmos. — Então, falei que era tranquilo! — Andrew acena para o amigo satisfeito. Imediatamente somos servidos com taças de champanhe pelo garçom e alguns conhecidos do Andrew vêm nos cumprimentar. As pessoas parecem realmente surpresas ao vê-lo aqui e ao lado de uma mulher agindo carinhosamente como ele está. Andrew retira a sua camisa e imediatamente vejo olhares femininos famintos sobre ele. Também sinto calor e decido fazer o mesmo, tirando apenas a minha camiseta onde deixo à mostra a parte de cima do biquíni. — Júlia, por que você tirou sua camiseta? — Andrew questiona ligeiramente irritado. — Não é óbvio? Aqui é uma festa na piscina. Estou sentindo calor! — respondo sem entender a sua irritação. — Quer chamar atenção ainda mais? — Andrew sussurra para não ser ouvido. — Todas as mulheres estão de biquínis, qual o problema? — Mas nenhuma mulher tem o corpo tão lindo quanto o seu! Agora todos os homens não param de te observar. Olhei ao redor e realmente alguns olhares estão sobre mim. — Andrew, os caras só estão olhando. Relaxa! — Daniel tenta acalmar os ânimos. Continuei apenas de short e a parte de cima do biquíni à mostra. Estou de pé e Andrew aproxima-se de mim e me abraça pela cintura encostando a sua boca em meu ouvido. — Você quer me provocar ciúme? — ele sussurra com uma voz rouca. — Claro que não! Estou tentando não sentir calor. — Andrew não há problema algum em ficar de biquíni aqui! — Ergo as sobrancelhas e ele exala um suspiro profundo. — Eu sei. Mas eu gosto desse corpo delicioso à mostra somente pra mim. Sem olhares! — Não esqueça que eu te amo! — sussurro e ele curva levemente seus lábios. Alguns minutos depois decido ir em direção ao banheiro. Daniel me orienta e eu sigo rapidamente para o lugar indicado.


O banheiro fica dentro da grande mansão no fim de um comprido corredor. Entro e poucos minutos depois saio. Assim que abro a porta dou de cara com um homem sorrindo para mim. Amplio meus os olhos ao perceber de quem se trata. Sim, este é o tal homem "galanteador" do restaurante. — Você é ainda mais linda durante o dia. — O que você quer? — pergunto com a voz apavorada e ele passeia seu olhar por toda extensão do meu corpo. — Andrew não merece uma mulher como você. — Saia da minha frente. — Vejo que ele não se move e meu coração bate descompassado no meu peito. Inesperadamente, o louco me encurrala e, com o seu corpo, pressiona o meu contra a parede. — Eu pago o dobro! — Encaro-o perplexa. O que esse canalha quer dizer com isso? — Não se faça de boba. Andrew só anda com garotas de programa. Não me venha dizer que é "namoradinha" dele. Eu sei exatamente que tipo de mulheres ele gosta e sempre gostou! — Não. Eu não sou uma garot... — Ele não me deixou terminar e continua a pressionar seu corpo contra o meu. Em seguida, ele segura o meu queixo de forma agressiva me obrigando a beijá-lo nos lábios. — Tento gritar ou me debater, mas ele é forte o suficiente para me parar. Sua boca encosta na minha e eu aperto meus olhos com força enquanto suas mãos vagam pela minha cintura. Abruptamente, sinto seu corpo se afastar e chocar-se violentamente contra chão sólido. Andrew o tirou de cima de mim e agora está desferindo socos incessantes sobre sua face. Estou tremendo e apavorada, mas meu corpo não se mexe com o que estou presenciando. — DESGRAÇADO! — Andrew grita com ódio que eu jamais pude ver nele. Inesperadamente, alguns homens entram e puxam o seu corpo para que ele pare de bater. — Você vai matá-lo, Andrew! — grita Daniel que também tenta retirá-lo de cima do homem. Quando finalmente ele se afasta, Andrew respira com dificuldade enquanto é firmemente preso pelos braços. Fico imediatamente com medo e corro em sua direção. Com muita dificuldade de respirar, Andrew me lança um olhar frio. — Por que você deixou esse cara te beijar? — Balanço a cabeça em negativo. — Não, eu não o deixei. — Coloco minhas mãos sobre ele, abruptamente, se afasta desvencilhando-se dos homens que ainda o seguravam. Andrew não faz contato visual. As pessoas retiram o corpo, praticamente desmaiado de Jack Collins, mas Andrew parece não só estar com raiva do homem e sim, de mim.


— Andrew, acalme-se. Leve a Júlia para a casa e aí vocês conversam. — Daniel tenta acalmá-lo e ele balança a cabeça negativamente. — Daniel, leve a Júlia para a casa. — É a única coisa que ele pede para o amigo antes de sair e me abandonar. Daniel o observa sair sem entender nada e eu, menos ainda. — Vamos, eu levo você. Ele fica burro quando está com raiva. Não acho bom você falar com ele agora. Arrasada e com lágrimas inundando meus olhos, concordo com a cabeça observando Andrew que apenas sai, desaparecendo pelo corredor. ***


Andrew Depois de acelerar meu carro pelas ruas de Beverly Hills, estaciono em um bar esportivo ainda tentando tirar da minha mente aquele homem com as mãos sobre a Júlia. Não consigo acreditar que ela se deixou levar pela cantada desse idiota — exalo um suspiro profundo. Talvez ele a tenha agarrado como imaginei, porém, apenas o seu toque sobre a minha mulher, despertou o pior que existe dentro de mim. Daniel mandou uma mensagem me informando ter levado a Júlia com segurança para a casa. O que me deixa aliviado. Precisava me afastar dela ou eu teria descontado toda a minha raiva e frustração sobre sua cabeça. Mesmo que ela, de alguma forma, não tenha culpa de ter sido agarrada por aquele verme. Eu, definitivamente, odiei o que vi. Não sou racional quando penso sobre isso e não fui quando vi aquela cena. A sensação foi como se enfiassem uma faca no meu coração. Mesmo sabendo o contrário, parecia que ela estava realmente gostando — sopro o ar pesadamente. Claro que ela não estava, seu idiota. Eu estava possesso de raiva e acho que nunca me senti assim em toda minha vida. Esse sentimento é completamente novo pra mim. — Oi, bonitão. No que posso ser útil? — diz uma morena com um enorme decote atrás do balcão enquanto me sento. — Um uísque duplo! — peço com rispidez e ela sorri animadamente. Meu celular toca pela décima vez eu decido ignorar as ligações da Júlia. Ainda não estou preparado para conversar. Ainda sinto ódio. — Mais alguma coisa, bonitão? — questiona a morena de seios fartos enquanto me entrega a bebida. Balanço a cabeça negativo. Não quero conversar com ninguém. A única imagem que me vem à mente é daquele beijo. É a imagem da Júlia sendo pressionada contra a parede. No fundo eu sei que ele a agarrou, mas por que ela não gritou? Por que ela não voltou para o banheiro? Viro a minha bebida de uma só vez e faço uma careta logo em seguida. Ainda sinto o líquido descendo e queimando meu corpo. — Uauu... você me parece muito agitado. Precisa se acalmar? — A morena praticamente monta seu corpo sobre o balcão ficando bem diante de mim. — Sou ótima nisso! — ela conclui. — Quero mais um. — Encaro seus seios que estão apontados para mim. — Duplo! — respondo e ela se afasta ainda com um sorriso no rosto. — E aí, Andrew? — uma voz masculina se infiltra nos meus ouvidos. É um homem que, não identifico. Ele parece me conhecer. — Encaro-o com o cenho franzido.


— Quem é você? — questiono-o de forma impaciente. — Eu estava na festa de hoje. Cara, você quebrou o nariz do Jack. Parabéns! Ele finalmente achou um que lhe deu uma bela lição. — Ergo as sobrancelhas. — Eu estava por aqui e vi o seu carro estacionado na porta. Então resolvi entrar. Tenho certeza que esse cara não vai mexer nem com você e nem com a sua mulher novamente. — Fico apenas observando-o sem nenhuma expressão facial. — Ok, cara... então, vou indo. Até mais! — Aceno com a cabeça e ele se afasta desaparecendo no meio da pequena multidão masculina. — Assim, você ficará bêbado e eu terei que levá-lo para casa — a morena diz se aproximando novamente de mim. Encaro-a nos olhos e meu rosto não se move, não se mexe um milímetro. — Eu não estou interessado! — informo-a e seu sorriso largo se esvai rapidamente. Ela parece deslocada e sem ação diante do acabou de ouvir. Acho que esse foi o seu primeiro fora. Porém, ela volta a sorrir maliciosamente. — Você não sabe o que está perdendo! — ela diz segurando seus seios, provavelmente imaginando o que tem de errado com ela. — Já disse, não estou interessado! — Me levanto e jogo uma nota de cem sobre o balcão. — Fique com o troco! — digo e me afasto em direção a saída sem olhá-la novamente. *** Estaciono meu carro na porta de casa e encosto minha cabeça no volante. Fico nessa posição por alguns segundos até finalmente sair. Entro em casa e faço o meu caminho diretamente até a área da piscina. Assim que me aproximo das grandes portas de vidro, vejo que Júlia está sentada com um olhar perdido enquanto segura seu aparelho celular. Não estou pronto para conversar agora e decido dar meia volta e subir às escadas seguindo em direção ao meu quarto. Estou no escuro, sentado sobre uma poltrona ao fundo do quarto e minutos depois, à porta se abre e Júlia entra. Ela acende a luz e se assusta ao se deparar comigo. Ela coloca a mão sobre o peito e me observa com uma expressão triste. — Por que você não me atendeu? Fiquei desesperada imaginando onde você poderia estar! — Exalo um suspiro profundo. — Júlia, por que você deixou aquele verme te beijar? — questiono-a mesmo sabendo a sua resposta. — Andrew, você está bêbado — ela afirma e eu posso sentir um pouco de decepção na sua voz. — Bebi um pouco de uísque mas não estou... bêbado — respondo com a voz arrastada.


— Sua voz está lenta... — Responda, Júlia! — sussurro Sua perplexidade está evidente agora. — Como você tem a ousadia de me perguntar isso? — Ela me parece muito chateada, mas eu apenas não acho que esteja preparado para conversar. Sei que ela não tem culpa de nada, mas ainda sinto ódio. Muito ódio. Esses sentimentos são conflitantes e me deixam confuso. Nunca me envolvi emocionalmente com ninguém como estou envolvido com a Júlia. — Desculpe — sussurro e me ergo da poltrona logo em seguida. — Andrew, por que você me abandonou na festa? — Não suportei ver aquele cara te agarrando. — Fecho os olhos e me vem tudo novamente, aquele desgraçado e a Júlia. — Sei que estou parecendo dramático, mas é que esse ódio simplesmente não vai embora de dentro de mim. — Mas eu não tenho culpa, Andrew. Você sabe que aquele idiota me agarrou, pensando que eu era mais uma na sua vida. — Ela solta o ar pesadamente. — Talvez eu seja mesmo. — Júlia... — minha voz sai quase inaudível. — Por que você é assim, Andrew? — A forma que te vi com ele... Parecia que você estava... — Fecho os olhos. — Gostando! — Eu sabia que cedo ou tarde essa conversa não iria para um bom lugar. Acabei falando merda e obviamente Júlia deve estar me odiando agora. Seus olhos se inundam de lágrimas e eu me soco internamente por tê-la feito se sentir tão mal. — Eu não queria dizer isso. Sinto muito — tento consertar a merda que falei, mas ela apenas me ignora. Júlia parece pensativa e olha para o nada. No que ela está pensando? — Como você pode pensar... isso?! — Balanço a cabeça e a única coisa que preciso agora é de ficar sozinho. Amanhã estarei melhor e poderemos conversar. — Eu não te deixei sozinha. O Daniel estava lá, eu sabia que ele a levaria para a casa. Ele me disse que havia te deixado aqui. — Exalo um suspiro profundo. — Júlia, vamos conversar amanhã. Não tenho nenhuma condição agora! — tento soar calmo enquanto caminho em direção à porta. — Aonde você vai? — ela questiona com uma voz um pouco alterada, mas eu apenas não posso ficar. Não hoje. — Vou para a outra suíte aqui ao lado. Preciso ficar sozinho. — Fecho os olhos e solto um suspiro profundo. — Sinto muito, Júlia. Não quis dizer nada daquilo. Só... estou com raiva. Apenas isso. — Ela me observa enquanto saio do quarto sem dizer mais nada. Meu coração dói em deixá-la dormir sozinha. Eu apenas não posso ficar.


*** — Dou um sobressalto com o pesadelo que acabo de ter. — Deus, foi o pior pesadelo da minha vida — sussurro com dificuldade de respirar. Olho para lado e não encontro a Júlia. No mesmo momento, lembro-me do quão idiota eu fui ao deixá-la dormir sozinha. Esfrego meu rosto furiosamente. O relógio marca quase meio-dia e eu não consigo acreditar que eu dormi mais de doze horas. Esfrego meu rosto e me levanto. A bebida de ontem me fez apagar. Sinto algo molhado saindo dos meus olhos e percebo que são lágrimas. Sim, eu chorei. Chorei enquanto via o corpo da Júlia em meu sonho. Parecia tão real. Adam havia atirado nela dentro da minha casa. Saio pela porta e ainda estou vestido com a mesma roupa de ontem. Sigo rapidamente para o meu quarto com o intuito de pedir desculpa pelo que fiz. Porém, assim que abro a porta, percebo que não há ninguém dormindo em nossa cama. Na verdade, a cama está arrumada como se ela não tivesse dormido aqui. Meu coração dispara com o pensamento de que meu sonho poderia ter sido real e eu, imediatamente corro pela casa em busca da Júlia. Depois de ter ido a cada parte dessa casa e não a encontrar em lugar algum, entro em pânico e volto para o quarto para constatar que ela realmente não está em lugar algum. Droga. Ela não pode ter feito isso comigo. Eu fui um idiota, mas não ao ponto dela me abandonar. Enquanto vasculho os armários, vejo que seus pertences não estão mais aqui. Um pânico se instala em mim e instintivamente, coloco as mãos sobre minha cabeça. — Não pode ser! — Saio do quarto à procura da Betty e só depois de alguns minutos vejo-a entrar pela porta da sala. — Andrew, aconteceu alguma coisa, filho? — Betty parece assustada quando me vê. Encaro-a com uma expressão de pavor. — Diga que viu a Júlia? Diga que ela está com você. — Betty me observa por alguns segundos e em seguida maneia a cabeça com um olhar de tristeza. — Eu não a vi hoje. Pensei que estivesse dormindo com você. Aconteceu alguma coisa? — Sim. Eu fui um idiota com ela ontem à noite, dormi no quarto de hóspedes e hoje ela não está mais aqui. — Betty não diz nada, já que não há o que dizer. Volto para minha suíte e pego meu aparelho, ligando para o número da Júlia. Ela não atende. De repente, uma constatação cai como uma terrível bomba sobre minha cabeça. Júlia foi embora. Ligo para casa da Jessica, mas ela também não atende. Ligo inúmeras vezes e cai direto na caixa de mensagens. Começo a entrar em pânico e o desespero toma conta de mim. Resolvo mandar mensagens já


sabendo que ela não vai responder agora, mas eu preciso mandar. Ela tem que responder. ONDE DIABOS VOCÊ ESTÁ? Espero sem sucesso sua resposta e digito outra. POR FAVOR, DIGA ALGUMA COISA. DÊ SINAL DE VIDA! Ansioso, vejo que ela ainda não responde. NÃO DIGA QUE FOI EMBORA, POR FAVOR. Meu corpo treme e eu não sei como eu fui tão imbecil assim — solto um ar de frustração. DROGA! ATENDA ESSE MALDITO TELEFONE!!! Estou apavorado e sinto um ódio irracional tomando conta de mim. Dessa vez, um ódio de mim mesmo. Eu deixei mais uma vez o passado entrar no meu presente. A Júlia não é como a Kate ou como qualquer outra mulher. JÚLIA, ATENDE !! Espero um bom tempo e nada dela responder. O que eu sinto agora não tem nome. Uma mistura de revolta e medo toma conta do meu corpo e eu começo a socar a parede. — PORRA! De repente, pego a cadeira da mesa de jantar e lanço-a com toda a minha força contra o chão. Betty se afasta com uma expressão de pavor. Pego outra cadeira e a jogo na parede com toda a minha força. Agora eu estou transtornado, cego e com muito ódio de mim mesmo. — Cara, o que você está fazendo? — Sinto os braços do Daniel segurarem os meus e somente então, me dou conta do que estou fazendo. Meu pai está se recuperando e última coisa que quero é trazer problemas a ele. Exalo um suspiro de total frustração. — Ela foi embora, Daniel. Tudo por culpa minha... — Olho para o nada. — Se acontecer algo com ela eu nunca vou me perdoar. Inesperadamente ouço um barulho de mensagem e, imediatamente pego-o esperando desesperadamente que seja Júlia. Betty e Daniel me observam enquanto olho para o visor. Respiro aliviado ao ver que é ela. ESTOU EM NOVA IORQUE. NÃO SERÁ PRECISO SE PREOCUPAR. — Em casa? Não pode ser! — Ainda tremendo, digito outra mensagem. POR QUÊ? Pergunto já sabendo qual é a resposta. Sei que agi feito um idiota, mas nunca imaginei que ela teria coragem de me abandonar. Decido ligar para ela que não me atende. PORRA! Desesperado, digito mais uma mensagem. POR QUE VOCÊ NÃO ESPEROU PARA CONVERSARMOS? EU NÃO


ESTAVA BEM. Recebo outra resposta: "Eu queria conversar antes de você ter me deixado praticamente falando sozinha no seu quarto. Agora quem não quer mais conversa, sou eu. Fique com o seu ódio, eu não preciso disso!” Ela não quer mais conversar? O que ela quis dizer com isso? Ligo para ela e a droga do telefone toca e ela não quer falar comigo. — O que diabos está acontecendo aqui? — Ouço a voz do meu pai vindo do topo da escada e ele está sobre sua cadeira de rodas. Merda. Ele acordou e isso é uma grande merda. — Por favor, alguém pode me descer? Não respondo e os seguranças que já estavam aqui por causa da Betty, imediatamente sobem as escadas trazendo o meu pai até mim. — O que aconteceu aqui, Andrew? Por que essas cadeiras estão quebradas? — Encaro-o e resolvo contar tudo que aconteceu. Tudo sobre a festa e como saí de lá sem a Júlia. — Você é um burro! — meu pai diz e eu continuo sério, sentado com as mãos no rosto. — Preciso ir atrás dela, pai. — Balanço a cabeça — Não posso ficar... — E o que você está fazendo aqui ainda? Vá logo, seu imbecil... e não me volte sem ela, isso é uma ordem! — Eu vou com você, Andrew. Acha que vou perder a diversão? — Daniel diz em seu estado normal. Solto um ar pesadamente. — Providenciem o jato da empresa. Preciso chegar lá, o mais rápido possível — digo olhando para o os dois seguranças de pé. Eles também são responsáveis pelo jato da empresa. — Sinto muito, senhor. O avião estará em manutenção até amanhã — um dos seguranças me informa algo que eu já sabia e esqueci completamente. Levanto-me e encaro o meu pai que apenas me observa com um olhar de pena. — Providencie passagens para o próximo voo em meu nome e em nome do Daniel — digo e subo às escadas em direção ao meu quarto para arrumar as minhas coisas. *** Paguei um absurdo para um voo até Nova Iorque por ser de última hora. Sofremos atrasos e problemas de turbulências. Depois de muitos problemas e uma escala, finalmente cheguei. Deixei enfermeiros cuidando do meu pai e Betty, que o fará companhia. — Agora que estamos aqui, faça a coisa certa — Daniel diz enquanto subimos o elevador em direção ao andar da Jessica.


Deus, que ela me perdoe. CAPÍTULO 29 Júlia Sinto mãos quentes acariciando meu rosto e logo depois, um corpo forte se encaixa atrás de mim. Seus braços me puxam com força e urgência e eu sinto sua mão macia acariciando minha cintura. Aquele cheiro tão familiar invade completamente os meus sentidos e lábios macios tocam delicadamente os meus. — Eu. Te. Amo. Não faça mais isso! — a voz suave do Andrew sussurra soprando um ar quente sobre meu ouvido. Tento abrir meus olhos, mas é inútil. Estou com sono, muito sono. A sensação de estar agarrada a ele me faz relaxar. Logo em seguida eu me deixo levar, mergulhando em um sono profundo. *** Abro os olhos e quando me dou conta, estou agarrada a um travesseiro. O cheiro do Andrew está impregnado em mim como se ele estivesse dormido comigo à noite toda. Por um momento, achei que ele realmente estivesse aqui, mas ele não está. Exalo um suspiro profundo e me levanto caminhando em direção ao banheiro. Faço minha higiene e em seguida, lavo meu rosto com água gelada da torneira. Desde que estive no avião o dia todo de ontem, não me senti bem. Nada parou no meu estômago. Respiro profundamente enquanto encaro o meu reflexo no espelho. Estou pálida e sinto-me estranha. Enxugo meu rosto e quando volto para quarto, quase tenho uma síncope ao ver Andrew deitado sobre a minha cama. Ele está apenas de calça sem camisa. — O que você está fazendo aqui?! — questiono-o confusa e ele está sério com os olhos fixados nos meus. — Eu dormi com você, Júlia! — franzo o cenho. Então, não foi um sonho? — Mas você não estava aqui quando acordei! — Ele curva seus lábios em um sorriso. — Fui à cozinha. Precisava de água. — Não pode ser, eu achei que era um sonho! — Ele maneia a cabeça e me encara com uma expressão triste. Andrew lentamente se levanta e caminha em minha direção enquanto estou paralisada observando-o. — Se você soubesse a dificuldade que tive pra chegar até aqui... — Ele solta um ar pesado — Por que, Andrew? Por que está aqui? — Você acha mesmo que vou deixa-la sozinha em Nova Iorque com esse desgraçado do Adam passeando por aí? — Ele coloca as duas mãos em cada lado do meu rosto e respira profundamente. — Júlia? — sussurra. — Me. Perdoe? Eu sou um babaca, idiota, imbecil ou qualquer outro adjetivo que você


queira me dar, mas apenas me perdoe, por favor. — Ele aperta seus olhos com força. Droga, agora ele me pegou de surpresa. Eu não o esperava aqui, definitivamente. — Andrew, você não deveria estar cuidando do seu pai? — questiono-o tentando ganhar tempo no que dizer a ele. Na verdade, estou sem palavras e incoerente quando estamos tão próximos. — Na verdade, ele me deu força pra vir. E disse que, eu só entraria em sua casa novamente, com você — ele revela e, sem querer, um sorriso escapa dos meus lábios. Porém, volto a ficar com uma expressão séria. — Como você entrou aqui? — Jessica — ele responde e é fácil entender o motivo dela ter acordado para abrir a porta. Desde que cheguei, tenho me sentindo além de cansada, na verdade... exausta. — Eu precisava te ver, te cheirar. Sentir seu corpo, Júlia. Eu não conseguiria ficar longe nem mais uma noite de você. Se você queria me punir... você conseguiu. De repente, sinto um mal súbito me deixando tonta, quase caindo sobre seu corpo. Se não fossem os braços do Andrew, eu teria me esborrachado no chão. — Júlia, o que você tem? — Andrew questiona com um olhar preocupado. — Na verdade eu não consigo comer praticamente nada há dois dias. — Ele me lança um olhar de desaprovação. — Você está pálida. Como não comeu nada? — ele questiona enquanto segura o meu corpo. Ainda sinto-me tonta e, Andrew diz alguma coisa, mas ouço sua voz se distanciando. — Responda, Júlia? Por favor. — Não respondo. Sinto minhas pernas moles e, de repente, tudo se escurece... — Fala comigo, Júlia. Acorda! — Sinto leves tapas sobre o meu rosto e abro os olhos assustada. Eu estou sobre a cama e não me lembro de como vim parar aqui. — Graças a Deus! — Andrew exala um suspiro de alívio. — O que aconteceu? — questiono-o com o cenho franzido. — Você desmaiou de repente. Ainda bem que estava aqui. O que está acontecendo? Seu rosto está muito pálido! — Não sei. Desde que entrei no avião tenho me sentido mal. Uma azia e um mal-estar. Não sei o que pode ser. — Droga, você não está bem. Vou chamar o Daniel e em seguida, vamos ao hospital. — Daniel, o seu amigo? — E então eu me lembro que ele é um médico. — Ele veio com você? — Ele faz que sim com a cabeça — Não é hora de


falarmos dele. Fique aqui, vou chamá-lo. Não se mova! — Andrew ordena e sai do quarto logo em seguida. — Fecho os olhos e respiro fundo. — Que susto você nos deu — Jessica diz, enquanto entra e sentado ao meu lado. — Jessica, o que será que está acontecendo comigo? — Ela balança a cabeça com uma expressão preocupada. — Não sei, minha amiga. Andrew disse que o seu amigo irá examiná-la. — Ela dá a volta na cama e se senta do outro lado. Em poucos minutos aparece Andrew e Daniel. — Que bom vê-la novamente! — Daniel me cumprimenta enquanto seus olhos vão diretamente para a minha amiga. — Bom te ver também, Daniel. — Saiba que você quase provocou um ataque cardíaco no meu amigo aqui. — Não respondo e Andrew me observa encostado no batente da porta. Ele está calado e sua expressão é de preocupação. — O que você está sentindo? — Daniel pergunta se sentando ao meu lado desajeitadamente enquanto Jessica se levanta. — Há dois dias nada fica em meu estômago. — Ele acena e me observa com uma expressão estranha. Daniel mede a minha pressão e meus batimentos cardíacos. — Júlia, você está sentindo náuseas, vertigens, dor no estômago? — Faço que sim com a cabeça. — Você sente muito sono, fadiga e mal-estar? — Sim. Meu Deus. Você é bom! — Ele ri. — Isso é grave? — Ele faz que sim com a cabeça. — Muito grave. — Pare de enrolação. O que ela tem, Daniel? — Andrew o interrompe enquanto ele me examina. — Júlia, você só pode estar grávida. Embora não seja especialista na área, fiz muitos trabalhos voluntários com grávidas. Tenho quase total certeza. — O QUÊ? — minha voz sai muito alterada. O que ele disse? — Isso não pode ser possível. Não posso estar... — Quando meus olhos encontram o Andrew, vejo que ele está com uma expressão apavorada. Ele engole em seco e eu ainda estou em completo estado de choque. — Não. Pode. Ser! — digo e jogo o meu corpo de volta para cama. ***


Andrew Estupefato não seria exatamente o termo que me descreveria. Não sei exatamente o que fazer diante disso. Honestamente, eu não esperava por isso. Ela me disse que toma suas pílulas regularmente há anos. Como isso pode ser possível? — Pessoal, não é o fim do mundo. É somente uma gravidez. — Daniel quebra o silêncio e parece se divertir com tudo que está acontecendo. — Não pode ser. Eu... faço uso de pílulas há muitos anos. Eu nunca deixei de tomar uma sequer. Meu período às vezes atrasa, mas é normal. — Júlia fixa seus olhos desesperadamente no Daniel. — Diz que tem chances de ser uma virose? — Ele nega com a cabeça com um olhar de compaixão. — Como eu disse, tenho quase total certeza de que você esteja realmente grávida, Júlia. — Balanço a cabeça ainda incrédulo com essa situação. — Tem certeza, Daniel? Talvez as náuseas possam ser algo relacionado ao que ela comeu no avião. — Tento acreditar na minha própria voz apavorada. — Se uma barra de cereal fizer isso tudo, vou processar a empresa aérea — Júlia afirma, me fuzilando com o olhar. — Eu vou ter mesmo uma sobrinha, então?! — Jessica e Daniel parecem os únicos animados por aqui. — Júlia, me diz que você realmente tomou essas pílulas direito. — Ela me encara com perplexidade. — Claro! Eu não seria tão irresponsável! — Junto minhas sobrancelhas — Sim, você seria — afirmo. — Você não come nada há dois dias e age de forma impulsiva. Daniel e Jessica percebem a tensão entre nós e decidem sair do quarto. — Vamos deixar os dois conversando. Venha, vou fazer um café — Jessica o convida a sair e os dois desaparecem fechando a porta logo em seguida. Volto minha atenção para Júlia e solto um ar pesadamente. Ainda não consigo entender. — Andrew, eu não sou irresponsável! — Lanço-a um olhar de desespero. — Júlia, um filho é a última coisa que eu pensei em ter. Se é que eu pensei em ter um, algum dia. — Eu não planejei nada, Andrew — ela afirma e eu apenas não sei o que pensar. Fecho os olhos e coloco minhas duas mãos sobre meu rosto esfregando-o furiosamente. Deus, eu não sei o que é ser um pai, eu não tenho condições psicológicas para criar um... Filho! Solto o ar pesadamente. — Como isso foi acontecer? — lamento enquanto ando de um extremo ao outro sem fazer contato visual com a Júlia. Estou com os nervos à flor da pele e


aquele pânico volta com tudo dentro de mim. Júlia chora e agora não posso ajudá-la. Estou tão ou mais desesperado que ela. — Merda, merda, merda! — praguejo e meu corpo treme. Sinto uma vulnerabilidade terrível tomar conta do meu corpo. — Andrew, vamos fazer logo esse exame de sangue. Talvez eu nem esteja grávida. — Paro de andar e ela pode estar certa. Ela pode não estar grávida. — Vamos, agora. — Ela faz que sim com a cabeça. Preciso algo que comprove isso de forma eficaz. Sem suposições. *** Estamos em um laboratório de testes aqui em Manhattan e estamos esperando há algum tempo pelo resultado e finalmente, depois de ter ataques de pânico, o resultado sai e agora que a Júlia está com o envelope em mãos, ela sente medo em abrir. Arranco o envelope de suas mãos e começo a abrir sem dizer nada. Minhas mãos tremem e Júlia me observa com uma expressão de pavor. Não sei se ela está desesperada por me ver dessa forma ou está igualmente com medo de que seja positivo. Desdobro o papel e não entendo nada do que diz. A enfermeira do laboratório nos observa e eu a entrego o papel. Ela começa a olhar percebendo a urgência da situação. A profissional analisa o papel por alguns segundos e então, um sorriso escapa dos seus lábios. — Parabéns. Você está grávida! — Por um momento, não sinto meu corpo. Meu coração é a única coisa que está tentando sair dele. Abruptamente arranco o papel de suas mãos e o analiso com meus próprios olhos. No papel está escrito coisas que eu não consigo entender e no fim da folha vem dizendo: Interpretação: POSITIVO com letras maiúsculas só para o meu desespero. Fico observando essas letras por longos segundos. — Você está gravida... mesmo! — afirmo e minha voz sai como um sussurro. Júlia fecha os olhos e segura o seu rosto com as mãos. CAPÍTULO 30 Júlia Saímos do hospital do mesmo jeito em que entramos, completamente mudos! Chegamos ao apartamento da Jessica e, já que o Daniel ainda esperava por lá, decidimos confirmar para os dois o que eles já sabiam. Agora estamos aqui, eu e Andrew, calados dentro do quarto. Ele parece confuso, perdido e, de alguma forma me sinto culpada por isso. Acho que Andrew não acredita no que está


acontecendo, na verdade... Muito menos eu. — Era o que você queria desde o início? — ele quebra o silêncio. Não pode ser possível. Será que ele não percebe que estou tão ou mais assustada quanto ele? Isso dói. Acho que ele percebeu a pergunta idiota que fez, porque ele apenas nega com a cabeça. — Sinto muito, Júlia. Eu estou perdido! — Andrew, não sei o que pensar? — minha voz soa cansada e ao mesmo tempo triste. Sua agitação está me matando de nervosismo. — Júlia, eu não sei. Tudo está acontecendo tão rápido na minha vida e, um filho? Não estava preparado psicologicamente para um filho. — Ele me encara com uma expressão de pavor e por um momento, sinto pena dele. — Eu... perdi um filho por não ter dado a atenção que Kate precisava. Fui negligente, me senti culpado. — Ele esfrega o rosto furiosamente com as mãos. — Imagino o que está passando e sei que não está sendo fácil para você também — ele conclui. — Andrew, a pergunta é uma só: você quer ter um filho? — Ele me encara com uma expressão de confusão. Andrew fecha seus olhos e os aperta com força. Depois de vários segundos em total silêncio, ele volta a me olhar. — A questão não é querer um filho se ele já está aí. A única coisa que sei é que eu não queria um e não pensei na possibilidade, já que você havia me garantido que toma pílulas regularmente. — Não sei se foi impressão minha, mas senti um tom acusatório em suas palavras. Fecho os olhos e nesse momento decido que eu não quero mais nada deste homem. Ele veio atrás de mim de um dia para o outro, mas ainda parece indeciso sobre quem sou? Acabei de ter a certeza de que não estamos preparados para ficarmos juntos, não agora. A última coisa que preciso é uma indecisão. — Sai — ordeno sem conseguir colocar meus olhos sobre ele. Ele não se move. — SAI! — ordeno novamente aos berros e Andrew solta um ar pesado. — Não estamos em condições de conversar agora. Tudo é muito recente para ambos. Ainda estamos em estado de choque com a notícia que, de fato, nos pegou desprevenidos. Esperava qualquer coisa ao chegar aqui, menos essa notícia. Eu estou muito confuso. — Ele exala novamente um ar de frustração. — Sinto muito. — Não faço contato visual e, dito isso, Andrew gira seu corpo e sai pela porta batendo-a logo em seguida. Inesperadamente uma náusea toma conta de mim e eu corro imediatamente para o banheiro. Tento vomitar, mas não sai praticamente nada. Eu não comi hoje e me sinto muito fraca. A única coisa que quero neste momento é dormir e não acordar mais. ***


— Jú, acorda. Acorda! — Abro meus olhos e vejo a Jessica sentada ao meu lado na cama. — Trouxe café, frutas e iogurte pra você. Te acordei porque passa das dez da manhã e você não come nada há dois dias. — Concordo com a cabeça sonolenta. Sento-me na cama e Jessica coloca a bandeja sobre meu colo. Finalmente sinto fome e como tudo que ela me trouxe. Andrew não voltou para conversarmos e esse silêncio só reforça o que estou prestes a fazer. — Jú, não pense o pior. Andrew está tão assustado quanto você. Ele nunca imaginou nada disso e de repente ele vai ser pai. Talvez ao lado do amigo, ele vai perceber que um filho é tudo que ele precisa. Você vai ver! — Por falar em Daniel, você tem notícias do Alan? — Sua expressão muda e ela me encara tristemente. — Jú, liguei hoje cedo para a casa dele e ninguém atendeu. Ele não dormiu na sua casa. Liguei várias vezes para o seu celular e nada. Já está muitos dias sem vir aqui. — Ela exala um suspiro profundo. — Acho que acabou. — Não fique assim, Jessica. Ele vai aparecer. — Ela parece não acreditar nas minhas palavras e apenas nos abraçamos apertado. As próximas horas foram decisivas para mim. Andrew não apareceu e eu não esperava isso dele. Se ele quer fugir, que fuja, eu não estarei aqui esperandoo. Liguei para minha mãe contando todos os acontecimentos, inclusive meu atual "estado" e, mesmo com o susto, previsivelmente, ela entendeu assim como meu pai. Eles me apoiam na minha decisão de voltar ao Brasil. Chega. Não quero tentar provar para ao Andrew que minha gravidez não foi planejada e, embora ele não tenha dito explicitamente isso, é o que consigo entender com o seu sumiço. — Ele só está sendo um idiota como foi muitas vezes com você. — Jessica sorri e me observa com um olhar doce. — Dá pra ver nitidamente que ele te ama muito. Andrew só não está sabendo lidar com a situação. Porém, ela não te disse nada ainda. Acho que você está se precipitando. Claro que ele quer esse filho! — Acho que vai ser bom ir para o nosso país por um tempo. — Jessica faz uma careta e me observa tristemente. — O que você quiser fazer para o bem desse bebê que está aí dentro, eu vou apoiar. Se é o que você quer, então vá. Faço menção em falar, mas somos interrompidas pela campainha. Meu coração dispara ao imaginar que pode ser o Andrew do outro lado da porta. Jessica vai abrir e quando volta, vejo Daniel caminhando logo atrás. — Vim ver como você está — ele diz isso olhando diretamente para a minha amiga. — Andrew foi muito cedo ao escritório resolver um problema sério e estará de volta em breve. Foi um chamado de urgência. — Exalo um


suspiro de frustração sem responder a sua pergunta e ele se senta ao meu lado no sofá. — Conversei com ele, Júlia. De fato, Andrew parece perdido. Ele se sente responsável pela morte de um filho no passado e, de repente, ele se vê na mesma situação. Cara, ele está anestesiado tentando absorver essa nova realidade em sua vida. Dê um tempo a ele. — E você acha que está sendo fácil para a minha amiga? Júlia nunca foi mãe e obviamente nunca planejou uma gravidez. Ela sempre tomou suas pílulas. Imagina o medo que ela também está sentindo? Andrew não vai passar nem um terço das complicações e modificações que uma mulher passa durante uma gravidez. — Daniel a observa com muita admiração. — Concordo totalmente, e por incrível que pareça, eu disse tudo isso a ele. Ele até me pediu para ver como a Júlia estava. Andrew estava disposto a vir, mas não pôde — ele termina de falar e agora é a vez da Jessica encará-lo com admiração. É acho que o Alan se ausentou demais. — Daniel, hoje terei uma última conversa com Andrew. Definitiva! Se ele não se posicionar em relação a minha gravidez, irei para o Brasil. — Daniel franze o cenho enquanto me encara. — Você não pode ir para o Brasil. Andrew vai ficar louco. Quando descobriu que você veio para Nova Iorque, ele quebrou algumas cadeiras. Se você for para o Brasil ele pode pirar de vez. — Já disse, irei falar com ele uma última vez. Não irei fazer nada precipitadamente de forma irresponsável. Quero tentar resolver tudo da melhor maneira possível. — Daniel sorri satisfeito e se ergue ao perceber seu celular apitando no bolso da calça. Ele retira o aparelho do bolso e encara o visor. — É uma mensagem do Andrew. Ele disse que já está na sua cobertura. — Ele volta sua atenção para mim. — Júlia, quer vir comigo? Talvez agora seja bom pegá-lo desprevenido e conversar! — Concordo com a cabeça e talvez ele tenha razão. Minutos depois já estamos dentro da sua cobertura e assim, percebo que o silêncio reina como se ninguém estivesse aqui. — Andrew, a Júlia está aqui. — Daniel grita, mas não ouço passos ou a sua voz em lugar algum. — Olho ao redor e confesso sentir saudade daqui. Amo muito esse apartamento e pareço fazer parte dele. — Que estranho, ele disse que havia chegado! — Ele afirma e, sem avisar, vou subindo às escadas. — Ele deve estar em seu quarto — afirmo e ele concorda com a cabeça. Assim que chego ao andar superior, caminho apressadamente até o seu quarto. Quando me aproximo ouço uma risada feminina. Neste momento, meu coração parece estar na minha garganta e meu corpo treme. A porta está


entreaberta e, sem cerimônia eu a escancaro, dando de cara com uma cena que é no mínimo absurda. Andrew está deitado na cama apenas de cueca e Kate está sobre ele apenas de calcinha e sutiã. Quando ela percebe minha presença, ela o beija com vontade. Seus cabelos estão escondendo o rosto do Andrew que ainda não nota minha presença. Só consigo ver suas mãos segurando sua cintura e apertando com força. Andrew parece gemer enquanto ela esfrega seu corpo no dele. Coloco as mãos sobre boca e fico em completo estado de choque. Meu coração parece que vai saltar pela minha boca e então, com muita dificuldade de respirar, saio do quarto aos prantos correndo desesperada. Assim que chego à sala, Daniel parece confuso ao me ver transtornada. — O que aconteceu? — Paro com as mãos trêmulas sobre minha cabeça. — Veja com seus próprios olhos — afirmo e corro em direção à saída. Assim que chego ao apartamento da Jessica, conto devastada a cena que vi. Por um momento ela apenas me abraçou apertado. — Que canalha. Como ele pode fazer isso? Safado! — Sem forças para responder, apenas concordo com a cabeça com os olhos inundados. — Jess... preciso ir para o Brasil, agora. Não quero ficar nesse prédio nem mais um minuto. Preciso sair daqui o mais rápido possível. — Agora? E se não tiver voo? Você precisa descansar. — Quero sair daqui. Eu vou para um hotel. Não posso correr o risco de ele aparecer. — Ela respira resignada. — Vá para o Brasil e fique o tempo que achar necessário, mas me prometa que voltará. Eu vou te dar apoio porque esse cretino não merece te ver assim. Mas me prometa que vai voltar. — Quando me recuperar desse susto e cuidar mais da vida que tenho dentro de mim, voltarei. — Ela sorri e nos abraçamos mais uma vez. Jessica olhou passagens aéreas pela internet e acabou encontrando um voo que sai esta noite. O problema é que esse é o tipo de voo que todos fogem. Mesmo cheio, conseguimos uma vaga. Ele irá fazer duas escalas até aterrissar em solo brasileiro. Terei que esperar por muitas horas para finalmente embarcar. Decidi chamar um táxi e mesmo contra a vontade da minha amiga, fui para um hotel ao lado do aeroporto. Não poderia correr o risco de o Andrew me encontrar. Cheguei a desligar o meu telefone e, a partir de agora, só o ligaria quando chegasse ao Brasil. ***


Andrew Abro os olhos e eu não entendo onde estou. Vejo luzes fortes e quando olho ao redor, percebo que estou em um hospital. Vejo que Daniel está sentado ao meu lado com o celular nas mãos. — Droga de bateria! — ele pragueja. — O que estou fazendo aqui? — minha voz chama a sua atenção e ele volta com o seu aparelho na calça. — Cara, graças a Deus você acordou! — Minha cabeça dói e um mal súbito, me faz sentir muita vontade de vomitar. Coloco as mãos sobre a boca e Daniel chama enfermeira. Porém, é tarde demais. Viro meu corpo para o lado e vomito até as tripas. Depois de alguns minutos sentindo-me extremamente mal, aos poucos, começo a respirar normalmente. — Andrew, você me deu um susto. — O que aconteceu? — questiono-o confuso tentando forçar o meu cérebro a entender o que houve. — A Kate te dopou com o "boa noite Cinderela". Você ficou louco, incoerente. — De repente eu começo a me lembrar de ter ido ao hotel resolver o escândalo que ela aprontou e depois de muita insistência da parte dela, tê-la levado para meu apartamento. — Merda! — praguejo, tentando me levantar, mas ainda me sinto muito debilitado. — Ela te deu uma super dosagem e você teve uma forte intoxicação. Você não acordava e isso quase te levou a um ataque cardíaco. Os médicos foram rápidos. — Mas o que aconteceu? — Ele solta o ar pesadamente. — A Kate fez tudo de caso pensado. Ela te dopou e te levou para o quarto. A pilantra tirou suas roupas e te deixou apenas de cueca sobre a cama. Segundo o médico, essa droga faz com que a pessoa faça tudo que o outro queira sem saber o que está fazendo. — Ele exala uma respiração profunda e me encara com um olhar preocupado. — Andrew. Por algum motivo, ela estava esperando pela Júlia que chegou no momento em que vocês estavam supostamente se beijando seminu. Ela armou tudo. Fez com que a Júlia entendesse que vocês tinham acabado e transar. — Nego com a cabeça com uma expressão perplexa. — Não. Não pode ser. Eu vou acabar com essa mulher! — vocifero tentando me levantar, mas sou impedido pelas suas mãos. — Ela foi presa, eu a prendi no banheiro e chamei a polícia. — Tento me desvencilhar de suas mãos, mas sinto um enjoo forte voltando meu corpo rapidamente para a cama. Não me sinto bem e minhas pálpebras estão pesadas. — Que horas são? Onde a Júlia está? — pergunto e sinto que minha voz


está arrastada como se o remédio estivesse voltado a fazer efeito. — Já é tarde da noite. Júlia está com a Jessica. — Preciso vê-la... — tento falar, mas eu me sinto preso dentro do meu próprio corpo. Meu cérebro não quer que eu durma, mas o meu corpo se entrega cada vez mais. Ainda estou sob o efeito dessa merda. — Não pode sair agora. Você está pálido e suando frio, cara. Amanhã você fala com ela... — ele continua a falar, mas sua voz fica cada vez mais distante até desaparecer por completo e meus olhos fecharem. *** Acordo desorientado e minha cabeça dói. Mas agora me lembro de tudo que o Daniel me disse. — Meu Deus! O que a Júlia deve estar pensando à uma hora dessas? Droga. Ela está grávida e ainda não conversamos sobre nosso filho. Olho para o lado e Daniel está desmaiado na poltrona. Começo a tirar as seringas do meu pulso e arrancar os fios ligados sobre meu peito. Estou com uma roupa esquisita do hospital e começo a tirá-la de forma rápida. — Aonde você vai, Andrew? — pergunta Daniel quando percebe que já estou de pé. — Preciso sair daqui. Preciso ver a Júlia. Onde estão as minhas roupas? — Inesperadamente surge um médico no quarto. — Você não foi liberado ainda, rapaz — ele me informa com uma expressão assustada ao me ver de pé. Daniel me entrega um saco com minhas roupas e eu as visto. — Você não está bem ainda e precisa ficar em observação ao menos até amanhã — Daniel diz e eu também o ignoro. O médico continua perplexo me observando terminar de me vestir. — Eu não posso te autorizar a ir agora, rapaz. Você foi gravemente intoxicado. — Fixo meus olhos nos dele. — Eu me autorizo a sair daqui. E você não vai me impedir. — Ele acena nitidamente nervoso e eu passo por ele ignorando-o em direção à saída. Daniel me segue e para o seu bem decide ficar calado. Eu preciso ver a Júlia. Preciso saber se ela e meu filho estão bem. Preciso dizer que sempre foi ela. Preciso que ela saiba que o susto já passou. Que eu quero aquele filho. Que eu a quero para sempre ao meu lado. *** Esmurro a porta do apartamento da Jessica e em poucos minutos ela abre a porta com um olhar assustado. Passo por ela e vou direto para o quarto da Júlia sem dizer uma palavra. Só preciso vê-la. Minha ansiedade está a nível mil. Preciso me explicar. Preciso dizer a ela que eu a amo. Que eu quero aquela criança. Meu filho.


Assim que entro, percebo que sua cama está arrumada e vejo um quarto estranhamente vazio. — Junto minhas sobrancelhas e meu coração dispara ao constatar que ela não está aqui. — Ela não está aqui. — Giro meu corpo e encaro uma Jessica apavorada. — Onde está a Júlia? — questiono-a e ela apenas me olha sem proferir uma só palavra. Engulo em seco e um nó começa a se formar em minha garganta. Não tenho certeza se eu quero ouvir o que ela está prestes a me dizer. — Andrew... — Ela solta um ar pesado — Sinto muito, mas... — Diga logo? — vocifero e Jessica dá um sobressalto com a minha voz. —Ela voltou para o Brasil. — O que diabos ela está me dizendo? Nego com a cabeça sem acreditar em suas palavras. — Ela não pode ter ido. Ela não fez isso! — Dessa vez a minha voz sai como um sussurro. — Ela foi para o Brasil, Andrew. Sinto muito! — Balanço a cabeça freneticamente. — Não pode ser verdade. Droga! — Seguro minha cabeça com as duas mãos e começo a andar de um extremo ao outro. Estou apavorado com a sensação de que não a verei mais. — Sinto muito! — ela chora e Daniel surge abraçando-a apertado. Pego o meu celular e disco o seu número que cai direto na caixa de mensagens. Minha raiva é tão grande que, sem pensar, jogo o meu aparelho com toda a força em direção à parede da sala fazendo um rombo. Pedaços do aparelho voam por todos os lados e eu me viro em direção à saída. — Aonde você vai? — pergunta Daniel com aflição. Eu paro de andar e giro o meu corpo para encará-lo. — Não ouse me seguir — ameaço-o e saio batendo a porta com força atrás de mim. Júlia jogou fora todas as chances de ficarmos juntos. Ela desistiu de mim. CAPÍTULO 31 Júlia Se eu disser que o voo foi ruim seria um eufemismo. Eu quase desmaiei por duas vezes e fui ao banheiro tantas vezes que nem pude contar, mas agora finalmente, já estou no Rio, precisamente no bairro do Leblon onde meus pais moram. Minha mãe teve uma crise de choro e meu pai apenas não parava de me abraçar. Subi para o meu quarto e dormi por horas depois de ter avisado a Jessica por mensagem que havia chegado muito bem. Depois te ter dormido mais de doze horas, acordo e sigo diretamente para a cobertura onde eu sei que a minha mãe está.


— Filha, espero que você tenha descansado. — Sim, mãe. Eu finalmente tive uma ótima noite de sono. — Venha, preparei o seu desjejum como nos velhos tempos! — Sorrio enquanto meus olhos passeiam pela mesa repleta com um típico café da manhã brasileiro. Daqui da cobertura, posso matar a saudade da bela vista privilegiada que temos me fazendo lembrar o quão abençoada sempre fui por ter tido isso a vida inteira. O dia está lindo e o calor do Rio, como sempre, é úmido e muito abafado. Sinto a maresia invadir o ambiente, mas eu não me importo. É bemvindo quando se acostuma há anos com isso. Pra mim, esse cheiro é tão familiar que chega a causar nostalgia. Porém, fico dividida entre a vista deslumbrante e o frio de Nova Iorque. Acho que também me acostumei com aquele lugar. Já sinto falta do Central Parque. Sento-me na cadeira ao lado da minha mãe e, juntas, colocamos o papo em dia. Contei tudo que resultou a minha repentina vinda para o Rio. Contei também sobre os sonhos com a mãe do Andrew. Minha mãe ficou realmente muito impressionada com essa história de comunicação com alguém que se foi há tantos anos. Na verdade, eu também. Talvez seja apenas um sonho, mas não deixa de ser impressionante. Falamos sobre tudo e mesmo assim, ainda tínhamos muito o que conversar. — Filha, já estava esquecendo, Jessica ligou e parecia preocupada. Disse a ela que você estava dormindo e ela pediu para você ligar assim que acordar. — Entro em alerta imediatamente. O que Jessica quer de tão urgente? Pego o telefone e ligo para Jessica que me atende no primeiro toque: — Jú. Graças a Deus. Preciso te contar sobre o Andrew. Você não vai acreditar! — Fala logo, pelo amor de Deus! — Meu coração já está novamente saindo pela boca. Um silêncio ensurdecedor paira do outro lado da linha. — Andrew foi dopado pela Kate e por isso você o encontrou seminu na cama. — O que ela diz me deixa momentaneamente congelada. Fico calada tentando absorver e entender. — Explique isso direito, Jessica! — Ouço-a respirar pesadamente. — Ele não foi te procurar no dia seguinte, porque a Kate logo cedo estava no hotel exigindo falar com ele. Ela estava gritando e chamando a atenção dos hóspedes. Ele foi até lá para convencê-la a sair. Parece que ela só sairia de lá se o Andrew fosse buscá-la. O problema é que ela o pressionou a levá-la para o seu apartamento com a suposta intenção de que seus pais estariam indo ao seu encontro.


— E como ela o dopou? — Daniel me disse que pode ter sido na bebida que ele tomou. Os médicos identificaram a droga como rape drugs o famoso: “boa noite Cinderela". A pessoa faz de tudo, mas não se lembra de nada. Havia um copo vazio na mesa de centro da sala. Acharam no lixo um vidro de ampola vazio. — Um nó parece ter se formando em minha garganta. — O problema é que essa droga causou uma intoxicação forte e Andrew foi parar no hospital. — Meu coração dispara percebendo a gravidade da situação. Deus, como não havia percebido isso? — Ele parecia acordado quando o vi com a Kate. Deus, como ele está, Jessica? — Agora, está tudo bem, não se preocupe! — Exalo um suspiro de alívio tentando controlar a minha respiração. — Você não está me dizendo que ele está bem só para me acalmar devido a minha gravidez, não é? — Claro que não. Ele está realmente bem. Ele não acordava, mas foi apenas um susto. — E onde está essa louca? Não me diga que ela fugiu? — Kate foi presa. Daniel a prendeu no banheiro e assim que ele percebeu que Andrew estava inconsciente ele chamou uma ambulância. A polícia chegou rápido e prendeu a safada. Daniel disse à polícia que ela invadiu o apartamento e tentou matá-lo. — Graças a Deus! Essa louca não vai nos infernizar mais. Espero! — Ouço-a suspirar novamente e eu posso sentir a tensão do outro lado da linha. — Andrew voltou para casa. Ele realmente parece bem, mas não deveria ter saído. Enfim, a primeira coisa que ele fez ao chegar aqui, foi procura-la. — Agora que o Andrew surta de vez! — Jú, quando contei a ele sobre você ter ido para o Brasil, ele fez um buraco na minha parede com o aparelho celular. Ele estava transtornado. — Fecho os olhos bem apertados. — Onde ele está, Jessica? — minha voz falha. — Ele estava até chorando de raiva, Ju. Andrew saiu batendo a porta e desapareceu. Prometa-me que vai ficar calma? Você não pode se alterar por causa disso. Lembre-se do filho que você carrega. Ele não deve ter ido longe. Assim que tivermos notícias dele, eu te ligo. Meus olhos se inundam pensando sobre o que ele passou. Porém, como eu ia imaginar? Andrew agiu friamente sobre a gravidez e eu apenas não poderia ficar. Não poderia esperar que ele decidisse sobre algo tão importante. Eu simplesmente não poderia. Passei o resto da tarde tentando ligar para o Andrew que, obviamente não atendeu. O seu aparelho celular não existe, mas ele tem outros números. Andrew


não está em casa, não voltou para a Califórnia e, segundo o seu pai, não entrou em contato. Entretanto, Jessica me ligou horas depois avisando que ele finalmente chegou e decidiu dormir. Ela não entrou em detalhes sobre como ele está, mas isso me deixou mais aliviada. Ao menos ele está bem. *** Dois dias se passaram e depois de várias ligações e mensagens cheguei a uma conclusão: Andrew não quer falar comigo. Jessica diz que não o viu mais e segundo Daniel, ele está trabalhando muito. Honestamente, não pensei que ele ficaria com tanta raiva de mim por eu ter vindo, mas eu não me arrependo. Se ele desistiu de mim e do nosso filho, não sou eu quem vai correr atrás. Confesso que me sinto decepcionada, é triste vê-lo agir como um menino mimado. Pedro descobriu que estou no Rio e depois de muita insistência, eu aceitei almoçar com ele. Ele me prometeu que seria como amigos e embora eu não devesse alimentar esperanças, decidi que seria a hora de sermos amigos e colocar um ponto final em nossa relação. — Eu sabia que você viria, era questão de tempo — Pedro diz enquanto sentamos em um restaurante bem aconchegante da Lapa. Ele parece realmente convencido de que eu tenha me separado do Andrew. — Pedro, eu não vim por sua causa. — Ele sorri. — Eu sei, mas eu também sei que sete anos não se joga pela janela. — Você disse que sairíamos como amigos — repreendo-o e ele segura a minha mão fixando seus olhos nos meus. — Desculpe. Estamos aqui como amigos, mas eu ainda te amo — ele afirma e abre um sorriso de animação. Exalo um suspiro profundo não acreditando que ele ainda quer insistir nisso. — Pedro, eu estou grávida — informo sem rodeios e seu sorriso se esvai imediatamente. Ele pisca várias vezes com uma expressão perplexa. — O que disse? — O que você ouviu. Estou totalmente grávida do Andrew. — Ele fecha os olhos por longos segundos e os reabre com uma expressão de tristeza. — Então por que você está aqui, no Brasil, sozinha? — Solto o ar pesadamente. Acho que não será fácil fazê-lo entender que eu ainda amo o Andrew. — Por vários motivos que não te dizem respeito! — Ele te abandonou. É isso? — Claro que não. Eu vim porque quis. Essa gravidez nos pegou completamente de surpresa. — Ele me observa e eu sei que pela forma que ele me olha, Pedro está me analisando atentamente. — Eu disse que ele ia te machucar. Eu sabia que ele ia fazer algo que


pudesse te ferir. — Fecho meus olhos confusa com suas palavras. — Você pode me amar um dia. Outra vez! — Impossível — digo de forma enfática — Mas seria legal ter um amigo. Amigo! — repito e ele solta um grande suspiro resignado. O berço da boemia está calmo hoje, já que estamos em uma segunda-feira, Porém, ainda é animado. Os arcos da lapa e suas antigas arquiteturas fazem do lugar único e de muito charme. Eu e Pedro estamos há algumas horas aqui. Tinha me esquecido de como é bom conversar com ele. Quando éramos namorados, não conversávamos tanto. Ele nunca tinha tempo. Olho para o meu celular mais vezes do que deveria na esperança de que Andrew tenha me ligado, mas não há nada. Enquanto conversamos, uma música ecoa em todo o ambiente chamando, imediatamente, a minha atenção. A música se chama: Só Hoje do Jota Quest. A letra dessa música é exatamente o que estou sentindo nesse momento. Mesmo que o Andrew não mereça. Mesmo que ele aja de forma impulsiva, eu o amo e daria tudo para ouvir a sua voz. Não escolhemos a quem amar, mas embora ele faça as coisas ficarem mais difíceis, eu podia sentir o seu amor. Sempre pude sentir o seu amor. “Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito... Nem que seja só pra te levar pra casa Depois de um dia normal... Olhar teus olhos de promessas fáceis e te beijar a boca, de um jeito que te faça rir (que te faça rir) ..." Enquanto a música ressoa pelo alto-falante, percebo que Pedro parece triste com os olhos presos em mim. Estou viajando na canção e ele parece incrédulo. — Que foi, Pedro? — Você não vai esquecer esse cara, não é? — Nego com a cabeça. — Eu estaria mentindo para mim mesma se eu te dissesse que não. Sinto muito, Pedro. — Não sinta. Eu te joguei para longe, não o contrário! — Tive que concordar, já que, se não fosse a sua traição, eu não teria ido para Nova Iorque e conhecido o Andrew. Inesperadamente, sinto um cheiro muito familiar cada vez mais próximo a mim. A gravidez tem dessas coisas, meu olfato ficou muito mais sensível que o normal. Enquanto ainda ouço a música, o cheiro do Andrew invade minhas narinas e eu não consigo prestar a atenção em mais nada. — Júlia. — Além do cheiro, ouço a sua voz que, imediatamente me faz congelar e meu coração está na garganta. Quando meus olhos se levantam, eu vejo o que parece impossível sobre os ombros do Pedro. Não é miragem, não é um sonho. Andrew está aqui, dentro de um restaurante na Lapa. No Brasil. Mas


como? Pedro se vira, acompanhando meu olhar e, assim como eu, ele parece não acreditar. Andrew está aqui, parado, me observando com cara de cachorro abandonado e meus olhos se inundam. Sem pensar, eu me levanto da cadeira derrubando-a atrás de mim. Sigo em sua direção e quando me aproximo, instintivamente sinto as lágrimas descerem dos meus olhos e Andrew parece estar com os olhos marejados e sua expressão é de total pânico. Estamos próximos e, automaticamente minhas mãos vão sobre seu rosto como se aquilo não fosse real, como se ele não fosse real. Jessica e Daniel mentiram. Ele não estava trabalhando ou não queria me atender. Andrew estava vindo para mim. — Júlia... — ele sussurra e encosta a sua testa sobre a minha e, ao fundo ainda posso ouvir os últimos acordes da música. Só hoje... ***


Andrew As lágrimas caem sobre sua face e eu, rapidamente, beijo cada uma com carinho. Encosto novamente minha testa na dela e fecho os olhos. — Eu pensei que não fosse te ver... nunca mais. Achei que você não me quisesse. Eu precisava te ver, Júlia. — Exalo um suspiro profundo. — Andrew, eu vi você com a Kate e pensei... — Eu a beijo nos lábios sem esperar que ela termine. Seguro sua nuca, não me importando com o que ou quem está ao nosso redor. Quero apenas senti-la próxima a mim novamente. Peguei o primeiro voo que consegui, para chegar até aqui e o táxi me deixou exatamente onde pedi depois de conversar com a sua mãe por telefone. O seu inglês não é tão bom, mas ela me mandou por mensagem o mapa de onde Júlia se encontrava. Eu a agradeci muito pela ajuda e agora estou aqui. Júlia está acompanhada pelo ex que eu já imaginava que estaria com artilharia pesada. — Júlia? — Somos interrompidos pela voz do tal Pedro e eu sabia que ele não perderia tempo. — Você não desiste — afirmo com um tom ameaçador. — Você desistiria? — E sua pergunta me pega completamente de surpresa. Pela primeira vez, Pedro me fez concordar e pensar em algo que, de fato não me ocorreu. Somos iguais. — Não — respondo com sinceridade. Porém, eu demorei muito para chegar até aqui e não estou disposto a perder a mulher da minha vida para ele. Confesso que em um primeiro momento eu pensei que ela tivesse jogado tudo fora, mas não. Júlia veio para perto de seus familiares para se proteger. E eu, naquele momento, percebi que não conseguiria mais viver sem ela. — Foi o que imaginei — ele diz e vira-se para encarar a Júlia. — Ainda estarei aqui! — ele a informa, se afasta e vai embora. Nem por cima do meu cadáver. — Quero conversar com você... agora — afirmo e ela concorda com a cabeça. — Como você chegou até aqui, Andrew? E eu não sabia que você tinha documentações para estar aqui tão rápido! — Aceno e puxo seu corpo contra o meu. — Pensei que jamais precisaria usar meu passaporte brasileiro embora meu pai insistia que eu deveria sempre tê-lo renovado para uma viagem de negócios de emergência. — Júlia mostra um fantasma de um sorriso e, pelo visto, devo agradecer ao meu pai no fim das contas por eu ser filho de uma brasileira e ter a dupla cidadania. *** Entramos na suíte do hotel onde estou hospedado. O hotel que faz parte da


grande rede hoteleira em que o pai da Jessica toma conta aqui no Brasil. Júlia caminha em direção à janela admirando a vista magnífica da praia de Copacabana. Ela conhece esse cenário, mas parece que é como se o visse pela primeira vez. Consigo ver o seu amor pelo Rio e, olhando de perto eu posso entender o motivo. Júlia retorna e se senta em uma das poltronas de frente à cama. Sento-me de frente a ela e a encaro tendo a sensação de dever cumprido. Finalmente estou aqui. Tive que esperar dentro do aeroporto por muitas horas até finalmente embarcar. Peguei escalas e tive que ter paciência para finalmente aterrissar em solo brasileiro. Ela está aqui, bem na minha frente, só eu e ela, mais ninguém. Inesperadamente me ajoelho entre suas pernas e envolvo meus braços ao redor da sua cintura. Fixo meus olhos nos dela e, mesmo estando tão perto, sinto desespero. Quero que ela perdoe. Meu corpo treme novamente e a única coisa que preciso neste momento é dessa proximidade. Eu preciso dela como eu preciso do ar para respirar. Ela não pode se recusar a ficar comigo. Isso seria o fim. Seria a minha morte. Solto um ar pesadamente fixando meus olhos sobre sua barriga. No caminho até aqui, tive bastante tempo para pensar sobre esse filho e, a única coisa que me veio à mente o tempo todo é de como estou disposto em ser um bom pai. Sim, estava confuso, mas depois que eu imaginei a minha vida sem a Júlia ou essa criança, entrei em desespero. Júlia ainda parece apreensiva, mas feliz em me ver. Acho que a última coisa que ela esperava, era me ver aqui, no Brasil. Ficamos nos encarando por longos segundos até que, delicadamente, coloco minhas mãos sobre sua barriga. Quero mostrá-la de todo jeito que mesmo eu não esperando essa criança, eu a quero mais do que tudo. Seu corpo reage imediatamente com o meu toque. Meu filho. Eu vou ter um filho. — Meu. Filho — sussurro com a voz um pouco embargada. Enrolo novamente meus braços em volta da sua cintura e Júlia passa suas mãos delicadas sobre meus cabelos. — O que aconteceu com você? Como a Kate te dopou? — Me levanto e me sento na poltrona ao seu lado e conto para a Júlia tudo exatamente como aconteceu. — Por que você simplesmente não chamou a polícia ao invés de levá-la para a sua cobertura? — ela pergunta um pouco contrariada e eu sei que ela tem razão. Se ela soubesse o ódio que sinto da Kate e de como eu não quero me importar mais com ela. — Se eu chamasse a polícia, ela seria liberada por perturbação e provavelmente iria apresentar seu certificado de louca. Os exames que provam


que ela é esquizofrênica. Eu a levei para minha cobertura, porque ela me disse que seus pais estariam chegando a poucas horas. — Meu Deus. Não sei como você ainda acredita em uma louca com essa. — Júlia parece irritada em suas palavras e ela tem toda a razão. Fui ingênuo e burro por acreditar nela. Quero que a Kate se exploda que eu não darei mais a mínima. — Eu sou um idiota e só fui recobrar minha consciência no hospital. Fiquei mal por algumas horas. Daniel estava lá, me contou tudo o que aconteceu. Ele me disse como você estava, e como você saiu do meu apartamento. A única coisa que eu queria naquele momento era te ver. — Solto um ar pesadamente. — Eu já estava com a intenção de vir. — O que ela diz me apavora. Ela já queria se afastar. — Acredite, não colocarei mais ninguém em nossa vida. — Exalo um suspiro profundo e encaro com um olhar triste. — Você não estava lá, Júlia. Eu fiquei maluco, completamente sem rumo. Achei que não fosse te ver nunca mais! — Fecho os olhos me lembrando do pior momento da minha vida. — Quando a Jessica me contou que você foi embora eu fui imediatamente procurar um modo de vir para o Brasil e foi exatamente o que fiz. — Eles devem estar te procurando! — Balanço a cabeça negativamente. — Não. Liguei para o meu pai e para o Daniel. Ele está com a Jessica. — Ela parece satisfeita com a minha resposta. Porém, ainda me observa com um olhar triste. — Andrew... Você não se posicionou em relação à gravidez. Eu não sabia o que passava pela sua cabeça. No primeiro momento, pensei em apenas te dar um espaço. Mas acima de tudo, eu estava muito chateada com a sua atitude ou com a falta dela. —Ela ergue as sobrancelhas. — Você parecia triste, abalado com algo que não tivemos culpa. Aconteceu, Andrew. Ela tem toda a razão. Fui um idiota na Califórnia e fui um imbecil quando descobri a gravidez. — Andrew, eu não quero que esse filho seja um fardo ou uma obrigação. Eu já estava triste por você não ter me ligado. Sinto uma falta de confiança em mim. Em nós. Você faz e depois pergunta. — Pela primeira vez, sinto que suas palavras caem sobre mim como uma bomba. Sou um homem de negócios e não sei lidar com um relacionamento. — Estava chateada e pra completar, eu vejo aquela cena. Eu já estava com a ideia de vir, então isso só me impulsionou a vir no primeiro voo. — Droga, como fui muito burro! Ajoelho-me novamente entre suas pernas e seguro seu rosto entre as minhas mãos. Meus olhos estão marejados e imaginar que ela queria vir pra cá antes mesmo dela me ver com a Kate, me deixa decepcionado comigo mesmo,


desesperado e com muito medo de perdê-la. Preciso deixar claro que eu quero esse filho, que eu quero tudo que vier dela, que eu a quero como nunca quis ninguém em toda minha vida. Solto um suspiro profundo. — Júlia... — Ela está me encarando atentamente. — Eu. Quero. Nosso. Filho... Eu te amo e você é tudo pra mim. Eu não vivo sem você. Eu estava apenas confuso, não por ter a criança, isso nunca passou pela minha cabeça. Eu estava confuso por não conseguir ser um bom pai, ou de você ficar com ódio de mim por eu não saber lidar com um filho. — Suas lágrimas começam a descer sobre sua bochecha e ambos estamos emocionados. — Eu quero tudo que venha de você. Sempre quis. Entenda... Você é a minha vida, agora. Agora ela chora copiosamente e eu cubro sua boca com um beijo forte e urgente. Ela não sabe, mas eu nunca a deixarei partir, nunca vou deixá-la duvidar do meu amor por ela novamente. Nunca. Enterro meu rosto em seu pescoço e aspiro seu cheiro como se minha vida dependesse disso. — Não fuja mais de mim, Júlia... Por favor! — imploro e a última palavra sai com um sussurro. — Eu não quero mais sofrer, Andrew. Eu não quero mais chorar de tristeza — ela diz com lágrimas nos olhos e essas palavras doem. — Você não vai sofrer por minha causa. E se você chorar, eu limpo à suas lágrimas. — Ela suspira e me observa por longos segundos até que, de repente, Júlia pula em meus braços, enchendo meu rosto de beijos. — Que saudade — ela diz e eu começo a rir de alívio. Deus, acho que ela me perdoou. Me levanto e puxo envolvendo-a em meus braços. Sinto como se não precisasse de mais nada para viver apenas de Júlia perto de mim. CAPÍTULO 32 Júlia Andrew está arrependido e não há condições de ficar longe dele quando o que eu mais quero é estar bem próximo. Sei que tudo que ele me disse é verdadeiro e ele não viria de tão longe sem motivo algum. Andrew quer o nosso filho e eu não poderia privá-lo disso. Sua atitude de vir tão rápido provou o que ele realmente quer. No fim das contas vir para o Brasil, de alguma forma, o acordou. Depois de conversarmos sobre nossa vida, eu o levei para conhecer os meus pais que, não falam bem o inglês, mas se comunicam o suficiente. Eles gostaram do Andrew e como ele se mostrou disposto a ficar comigo, meus pais sentiram


assim como eu, o quanto ele me quer ao seu lado. Eles engataram uma conversa animada com a minha ajuda, claro, jantamos no terraço apreciando a vista do Rio. Meu pai fez questão de que ele se hospedasse em nossa casa e como era previsto, Andrew não protestou. Posso dizer que ele se sentiu feliz, acolhido de verdade, pela minha família e aliviado por ter o apoio deles nesse momento delicado. No dia seguinte, decidi levá-lo para os melhores pontos turísticos da cidade e Andrew estava realmente fascinado com a belíssima vista do alto do Cristo Redentor. Ele me confessou que não imaginava que o Brasil fosse tão lindo como via pela TV. Passeamos como namorados pelo calçadão do Leblon e Andrew, a todo o momento, se mostrou preocupado com a minha saúde. Ele me levou ao médico e, juntos, acompanhamos o meu primeiro ultrassom. Surpreendemo-nos com o tamanho do feto e, pra variar, me emocionei ao ouvir o coração do meu filho pela primeira vez. Nesse momento, a ficha caiu para ambos e a partir dali vimos que realmente seremos uma família. Não sei se foi impressão minha, mas ele parecia emocionado quando olhava para a tela e ouvia o coração do nosso bebê. Seus olhos não piscavam enquanto encarava a tela revelando um minúsculo corpo de um bebê em desenvolvimento. Depois continuamos aproveitando cada minuto da cidade maravilhosa. — A vista daqui é maravilhosa, Júlia. Obrigado por me trazer. — Andrew quebra o silêncio e minha resposta vem com um beijo demorado. Assim que saímos do obstetra, eu o trouxe para ver o pôr do sol do Mirante do Leblon. — Eu sempre vinha pra cá, com amigos da escola ou apenas sozinha! — digo pensativa enquanto apoio meu corpo contra o seu. O vento sopra forte e meus cabelos parecem dançar. — Já veio com algum ex-namorado? — Ele parece bem curioso agora. — Na adolescência com um rapaz e, depois algumas poucas vezes com o... Pedro! — confesso e, imediatamente, sinto seu corpo enrijecer levemente ao ouvir esse nome. — Espero que seu melhor momento nesse lugar seja... comigo. — Um sorriso se desenha em meu rosto. — Desde o momento em que te conheci, todos que passei ao seu lado foram, sem dúvida, os melhores momentos da minha vida. — Exalo um suspiro inclinando a minha cabeça para encará-lo nos olhos. Ele curva seus lábios em um sorriso. — Eu te amo, Andrew. Não duvide disso! Sua expressão se suaviza e Andrew me aperta forte contra ele, beijando minha têmpora demoradamente. Apoio meu corpo contra o seu abdômen e, ficamos ali, grudados, admirando o belo cenário à nossa frente. O pôr do sol visto daqui é incrível. O meu Rio de Janeiro é incrível.


Enquanto o sol com uma tonalidade alaranjada desce, fazendo seu caminho sobre o oceano, Andrew me vira e ficamos de frente um para o outro nos observando. Ele respira fundo enquanto retira, de forma carinhosa, as mechas intrusas que caem sobre meu rosto. — Júlia... — Ele passa as mãos sobre a minha mandíbula. — Eu quero passar o resto da minha vida ao seu lado. Eu... quero ser um homem melhor pra você. Eu quero muito ser um bom pai para o nosso filho e precisarei da sua ajuda. — Faço que sim com a cabeça e meus olhos já estão inundados. — Um ajudando o outro, Andrew. Precisamos um do outro — afirmo e ele curva seus lábios em um sorriso. — Quero que você volte comigo para Nova York, Júlia — ele diz com a voz falha. Eu poderia torturá-lo e passar a minha gravidez aqui o que, de fato, era o que planejava. Porém, não era o que eu queria, no entanto. Abro um grande sorriso e fico momentaneamente emocionada com suas palavras. Andrew finalmente se abriu pra mim, de um jeito diferente, único e muito verdadeiro. Ele ainda me olha com expectativa e eu enlaço os meus braços em volta do seu pescoço. — Claro que eu quero passar o resto da minha vida com você. Eu e esse bebê que estou carregando aqui no meu ventre. Ele suspira aliviado me fazendo acreditar que ele realmente achava que eu diria não. Aproximamo-nos ainda mais um do outro e ele cola seus lábios nos meus de forma lenta e suave. Sua língua invade a minha boca carinhosamente enquanto sua mão esquerda puxa minha cintura para que meu corpo colida levemente contra o dele. Nosso beijo é intenso enquanto o sol, aos poucos, desaparece no horizonte. *** Aquela linda praia e já tão familiar pra mim, aparece em meus sonhos novamente. Vindo em minha direção, vejo Alice. Dessa vez ela não aparece de repente. Ela vem ao longe andando em minha direção. Ela está linda e radiante como nunca! Seus cabelos castanhos voam com o vento, sua pele clara e rosada tem um novo brilho. Seus olhos estão finalmente alegres como jamais vi. O seu vestido agora é de uma cor azul vibrante, lindo. Uma belíssima coroa de flores brancas está sobre de sua cabeça e ela parece que veio de um filme de contos de fadas. — Alice? — Ela sorri amplamente enquanto se aproxima. — Júlia? Saiba que eu estou feliz que vocês estão bem e que meu filho será pai. Vocês serão muito felizes. Andrew será um pai maravilhoso. São poucos que têm o privilégio de encontrar um amor assim, como o de vocês! — Obrigada pelos conselhos. Andrew me ama! — informo-a entusiasmada


e vejo que ela se afasta com um sorriso imenso no rosto. — Sim. Andrew ama vocês. Agora preciso ir! — Alice diz e, rapidamente, se vira para ir embora então ela gira seu corpo e volta a sua atenção para mim. — Júlia, obstáculos fazem parte da vida. Sejam muito felizes. Não sei o porquê, mas estou com a sensação de que eu não a verei mais nos meus sonhos. Meus olhos se enchem de lágrimas e dessa vez eu me sinto feliz enquanto a vejo desaparecer pelo horizonte... ***


Andrew Mal consigo acreditar que estamos novamente em Nova Iorque. Confesso que essa ida ao Brasil fez mudar meus conceitos a respeito de muitas coisas relacionadas ao país e as pessoas. Nunca me imaginei indo ao Brasil e hoje, quero fazer planos para um dia voltar. Acho que nunca me assustei tanto ao perceber que estava perdendo a mulher da minha vida. Os pais da Júlia são pessoas especiais que eu me identifiquei imediatamente. A despedida foi emocionante para a Júlia e, sobretudo, para a sua mãe, Ana, que queria mais tempo ao lado da filha. Porém, ela compreendeu que o lugar da sua filha é ao meu lado e sentia-se feliz por isso. O seu pai, Fernando, me fez prometer cuidar dela, mas ele não faz ideia do que ela se transformou para mim. Vou cuidar do seu bem mais precioso, mas a Júlia se tornou também o meu bem mais precioso e eu cuidarei dela e do nosso filho mais que a minha própria vida. Quando chegamos, fomos surpreendidos com a visita da Betty e meu pai que é um verdadeiro cabeça dura por não esperar eu ir até ele. Ele ainda está em recuperação, mas acha que está bem para uma desgastante viagem. Contei a eles sobre a gravidez da Júlia e, para a minha surpresa, meu pai se emocionou tanto quanto a Betty. Outra surpresa foi saber que Jessica e Daniel estão juntos. Parece que o tal namorado da Jessica levou um pé na bunda por têla tratado mal e desaparecido por vários dias. Pedi desculpas a ela pelo o rombo que fiz em sua parede com o meu aparelho celular e ela me disse que está tudo corrigido e que entendeu totalmente à minha reação. Meu pai e Daniel ficaram aqui por alguns dias e voltaram juntos para a Califórnia deixando uma triste Jessica para trás e, Betty, ficou para acompanhar a gravidez da Júlia. Daniel prometeu que voltaria e, se bem o conheço, ele estará aqui em breve. Eu sabia que eles iriam se dar bem, era questão de dias. Fiz algumas ligações para me certificar que a louca da Kate ainda está atrás das grades e, provavelmente ela sairá em breve da cadeia ou será transferida para alguma clínica para tratamentos psiquiátricos. Sim, tenho certeza de que ela usará um atestado para escapar da prisão. — Nunca pensei em toda minha vida que um dia estaria assim, dormindo agarrado com alguém — confesso enquanto puxo o seu corpo contra o meu. Desde que chegamos, não fizemos amor. Júlia ainda estava exausta por causa da longa viagem. Porém, não vejo a hora de poder estar dentro dela e senti-la por completo. Ela se vira para mim até que seu rosto fique rente ao meu. Consigo sentir sua respiração. — A vida nos surpreende, muito — ela diz e meus lábios se curvam em um


sorriso. Agora estamos olho no olho deitados sobre nossa cama. — Acho que sempre te quis desde que botei meus olhos sobre você. Desde que transei com você pela primeira vez, Júlia. — Eu também — ela sussurra com os olhos fixados nos meus. Aproximo meus lábios dos dela e, bem lentamente, minha língua encontra a sua. Sem pressa, sentindo seu gosto, sua língua e seus lábios cheios nos meus. Suas mãos vagam pelo meu abdômen nu e as minhas em sua cintura, puxando-a para mim. Em poucos segundos já estou entre suas pernas e meu comprimento está livre para ela. Estamos ofegantes e Júlia abre levemente a boca, olhando descaradamente para meu membro que parece implorar para estar dentro dela. — Não suporto mais esperar, Júlia! — Ela fecha os olhos e eu, lentamente, entro devagar. Imediatamente gemidos são emitidos e nossas respirações estão ainda mais difíceis. Meus lábios colam aos dela enquanto meu corpo se movimenta bem devagar. O vai e vem dos meus quadris aumentam à medida que me aproximo do clímax. Júlia inclina sua cabeça indicando que está chegando ao ápice e eu me perco com as emoções e sensações que este momento nos causa. É como se estivesse dentro dela pela primeira vez... *** Junho chegou e com ele, o calor do verão. Nova Iorque é frio a maior parte do ano, mas quando chega o calor, o clima esquenta ao ponto de ficar quase insuportável. Júlia sente mais calor que qualquer outra pessoa que eu conheço e sair na rua em altas temperaturas não é nada bom para ela. Embora ela esteja com 18 semanas e sua saúde excelente, eu ainda me preocupo muito. Segundo ela, estou me preocupando mais que deveria e que eu a trato como uma criança. Não me incomodo de maneira alguma com o seu humor, apenas quero garantir que ela tenha uma gravidez saudável e sem estresse algum. Tenho trabalhado muito mais ultimamente, mas sempre que chego em casa, sou recompensado ao ver a mulher que, em tão pouco tempo, mudou radicalmente a minha vida me esperando. Júlia ainda tem os seus quadros sendo vendidos em galerias em Nova Iorque. Contratei um agente para cuidar de tudo para Júlia não se preocupar com isso na gravidez. Ela não teve escolhas, já que eu prometi ao seu pai que cuidaria dela. Não a deixarei sair enquanto Adam estiver solto por aí. Que esse desgraçado esteja atrás das grades. Quando eu não estiver e ela precisar sair com urgência, meus seguranças irão cuidar disso. Daniel e Jessica finalmente estão namorando. Na semana seguinte em que


ele deixou Nova Iorque, já estava de volta e os dois se acertaram. Parece que Daniel já está pretendendo ficar de vez aqui em Nova Iorque. Ele está olhando emprego em sua área e não será difícil encontrar, levando em conta o nome que sua família de médicos carrega em toda Califórnia. Agora, estou aqui, sentado sobre meu sofá e ansioso como um maldito adolescente. Confesso que não sei fazer o que estou prestes a fazer, mas eu sei que demorei tempo demais para isso. Preciso legalizar à minha situação com a futura mãe do meu filho. Sim, hoje eu a pedirei oficialmente em casamento. Quero que ela se case comigo depois que nosso filho nascer, mas quero que o pedido seja especial e inesquecível como ela merece. Cronologicamente, estou fazendo tudo errado, porém, eu sei que isso, mesmo tarde, será uma definição para uma vida juntos. Júlia pediu que eu a esperasse na sala enquanto ela termina de se arrumar. Pedi que ela usasse um longo, embora sua barriga já esteja visível, o que não tenho dúvida que ficará ainda mais linda. Viro o restante do meu uísque e deposito o copo sobre a mesa de centro e solto um suspiro profundo. Preciso me controlar. — Estou pronta! — A voz da Júlia se infiltra nos meus pensamentos me fazendo erguer a minha cabeça para encará-la e, é como se eu a estivesse vendo pela primeira vez. Ali está ela, no topo da escada vestindo um longo azul turquesa que abraça suas curvas e deixa à mostra a sua pequena barriga. Ergo-me e, imediatamente, subo às escadas em direção a ela. Assim que me aproximo, meus olhos varrem todo o seu corpo e, mentalmente agradeço aos céus por tê-la trazido para mim e por ela ter me perdoado. — Linda. — É a única palavra que consigo dizer a ela que me olha com adoração. Não sei como ela vai reagir, mas eu quero que ela sinta o meu amor e receba o meu compromisso como verdadeiro. — Acho tão fofos vocês dois juntos. — Betty surge com um amplo sorriso enquanto nos observa como se ela estivesse vendo algum filme romântico. — Betty, ele não quer me contar para onde vamos — Júlia diz com dissimulada frustração. Não contei a ela nada sobre hoje e quero que ela surpreenda. — Se é surpresa, não pergunte — Betty afirma e Júlia ergue suas sobrancelhas. — Apenas não faça perguntas, quero fazer uma surpresa — digo erguendo as minhas mãos, ela curva seus lábios e eu a ajudo a descer. — Betty... não nos espere. Vamos dormir fora! — informo-a e ela assente já sabendo de todo o meu plano. Na verdade, Betty é a cúmplice e ajudante. — Divirtam-se, crianças. — Júlia a abraça e em seguida saímos em direção


à limusine que nos espera na porta. CAPÍTULO 33 Júlia Estou em um vestido longo azul royal e tomara que caia, que realça meus seios deixando-os um pouco volumosos. Ele marca bem minhas curvas embora eu não esteja com tantas curvas assim. Porém, mesmo com uma barriguinha, ele me deixou sensual. Meus olhos estão, como sempre, devidamente esfumados de preto com detalhes em azul. Ainda não consigo acreditar no que Andrew está fazendo. Ele nos trouxe até uma marina aqui em Manhattan e quando dei de cara com o belíssimo e, extremamente luxuoso iate, meu coração quase saltou pela minha boca. Estamos cercados por muitos e enormes homens de ternos pretos que em tempo integral cuidará da nossa segurança. Não preciso dizer que Andrew está impecavelmente vestido dentro de um terno Armani e gravata azul turquesa. A todo o momento não pude deixar de notar um certo nervosismo. Ele não falou muito durante o curto trajeto, mas segurou a minha mão até chegarmos. Sei que ele quer "consertar as coisas", mas ele nem imagina que só o fato dele ter ido atrás de mim, provou o quanto ele me quer. Porém, não posso negar que um jantar em um iate luxuoso com vista privilegiada da incrível silhueta de Manhattan, me deixou extasiada. Andrew me conduz através uma porta em formato de arco, até entrarmos em uma espaçosa sala de estar. — É lindo, Andrew! — exclamo impressionada, varrendo com os olhos todo o ambiente aconchegante. — Eu sabia que você ia gostar — diz Andrew, enquanto me puxa delicadamente pela cintura. — Esse iate possui quatro solários, biblioteca, suítes e um excelente salão de jantar e é, exatamente pra lá que vamos. — Curvo meus lábios em um sorriso. Ele parece realmente nervoso, mas com uma súbita animação. De repente me pergunto se ele veio muito aqui. Se trouxe mulheres. Afinal, ele era um homem que adorava várias companhias femininas. Exalo um suspiro profundo afastando tais pensamentos da minha mente. — Impressionante! — É a única coisa que consigo dizer cercada com tamanho luxo. Andrew segura novamente minha mão e me conduz até o andar de cima me hipnotizando ainda mais com cada pedaço deste lugar. Assim que atravessamos uma imensa porta dupla, ficamos em um lugar que nos permite uma vista ainda melhor e magnífica de Manhattan em um


relacionamento direto com a paisagem graças à interferência mínima dos pilares sobre as grandes janelas transparentes. A mesa de jantar está preparada com velas e rosas enquanto, ao fundo, as luzes dos arranha céus parecem dançar, piscando ininterruptamente. A luminosidade interna é baixa e muito agradável para que o lado de fora seja ainda mais admirado. — Lindo, estou... sem palavras, Andrew! — Minha expressão atordoada revela o quanto estou surpresa de ter sido trazida até aqui. Achei que ele me levaria para um restaurante ou hotel, mas isso é realmente inacreditável. Andrew preparou tudo, nos mínimos detalhes, somente para mim. Ele me conduz até a mesa e puxa uma das cadeiras fazendo um gesto com as mãos. Agradeço e, imediatamente, me sento sendo inebriada pelo clima e pelo seu surpreendente romantismo. A música que ecoa ao fundo se chama: "Fly me to The moon" de Frank Sinatra. Não sei de onde vem a música, mas é agradável e combina exatamente com todo esse cenário nova-iorquino. — Hoje, a noite é só nossa — Andrew me informa o óbvio e eu não consigo parar de sorrir. Poucos minutos depois, somos servidos e como não posso ingerir álcool, nossas taças estão preenchidas com o mais delicioso coquetel de frutas. — Um brinde a você e ao nosso filho... — Ele para de falar e respira profundamente com os olhos intensos sobre os meus. — Um brinde a nós, Júlia — ele conclui enquanto nossas taças se encontram. Meus lábios se curvam em um sorriso. — Eu te amo, Andrew. Obrigada por me trazer até aqui! — Ele também sorri e depois de longos minutos descontraídos, somos servidos. Está tão maravilhoso que eu desejaria que o tempo passasse em câmera lenta. Depois de terminarmos nosso jantar, a mesa está completamente limpa e logo em seguida somos servidos de mais coquetéis. De repente, a música é interrompida, dando lugar a outra que me remete a única vez que dancei com o Andrew. A música se chama: “I won't give up" (Eu não desistirei) de Jason Marz. "When I look into your eyes... It's like watching the night sky..." — Dança comigo? — Andrew já está de pé com as mãos estendidas e com os olhos brilhantes me encarando. Um sorriso escapa dos meus lábios enquanto seguro a sua mão. Andrew me puxa carinhosamente pela cintura e nossos corpos quase se fundem enquanto balançamos no ritmo lento da música. — Essa música se tornou nossa, Júlia — Andrew diz com os lábios bem próximos ao meu ouvido e, imediatamente, arrepios percorrem por todo o meu corpo.


— É a minha favorita — respondo e suas mãos apertam suavemente minhas costas. Meus braços estão enlaçados em seu pescoço e meu rosto acima do seu peito. Posso sentir seu coração bater acelerado enquanto seu peito sobe e desce. Eu aspiro o seu cheiro bem-vindo como se precisasse dele para viver. Suas mãos já estão na curva do meu ombro nu, me fazendo sentir as melhores sensações. Não sei se tem relação com a gravidez, mas meus olhos estão inundados de lágrimas enquanto mexemos nossos corpos lentamente. Meus olhos passeiam pelo cenário nova-iorquino e as luzes dos arranha céus, parecem nos aplaudir. Quando a música chega ao refrão, Andrew segura delicadamente meu rosto com as duas mãos e encosta sua testa na minha. Ele me olha intensamente enquanto a música termina seus últimos acordes. "Não desistirei de nós. Mesmo que os céus fiquem violentos... Estou lhe dando todo meu amor...” "Não desistirei..." A música termina e, inesperadamente, Andrew se abaixa com apenas um joelho encostado sobre o chão. Engulo em seco paralisada ao perceber o que ele está fazendo. Ele fecha seus olhos e respira profundamente como se estivesse tomando coragem para falar. Andrew olha diretamente nos meus olhos e tira algo do bolso do terno. Uma pequena caixa de veludo se revela em suas mãos e meus olhos se ampliam. — Júlia, eu disse ao seu pai que quero passar o resto da vida com você! — ele me informa e minhas lágrimas já estão caindo de forma involuntária no canto dos meus olhos. — Eu estava falando sério. — Ele exala um suspiro profundo. — Eu não sabia o que era esse sentimento de querer estar ao lado de alguém todos os dias. No entanto, quando se descobre que quer passar o resto da vida ao lado desse alguém, queremos que esse "resto" comece o mais rápido possível. Suas palavras me impedem de formar qualquer pensamento coerente. Engulo em seco e, quando percebo, estou com as duas mãos presas sobre minha boca. — An-Andrew... — tento falar, mas a minha voz falha. — Júlia... Casa comigo? Nesse momento, sou incapaz de segurar a minha emoção e desabo em um choro descontrolado. — Júlia, eu preciso que você me responda, eu não estou mais sentindo às minhas pernas — ele diz brincalhão, provocando uma risada que se mistura com as lágrimas que descem. — Eu aceito. Claro que aceito — consigo finalmente dizer e,


repentinamente, ele desliza uma belíssima aliança com um solitário de diamante em meu anelar direito. Em seguida, ele beija a aliança demoradamente e se levanta sem quebrar nosso contato visual. Novamente ele encosta sua testa na minha. — Eu te amo, Júlia. Daqui por diante quero que tenha à minha palavra de que vou cuidar de você. — Ele se afasta, retira um lenço do seu terno e passa suavemente sobre minha face. — Eu prometi a você que, se você chorasse, eu iria limpar... — Ele beija meu olho direito. — Suas lágrimas. — Andrew passa o lenço sobre as laterais dos meus olhos e beija um de cada vez com muito carinho. Em seguida, ele beija a minha testa e finalmente seus lábios encontram os meus. Suas mãos apertam minha nuca puxando o meu rosto ainda mais contra o seu. — Eu, você e o nosso filho já somos uma família, Júlia — ele me diz entre os beijos. — Eu vou cuidar de vocês e vou amá-los mais do que a mim mesmo! — Fecho os olhos absorvendo suas palavras e me sentindo apenas a pessoa mais feliz do mundo. A noite prossegue com muitas danças ao som de Sinatra... ***


Andrew Júlia está com 22 semanas de gestação. Sua barriga, somente agora, está realmente com um tamanho significativo e incrivelmente linda. Amanhã iremos saber o sexo do nosso filho que decidiu se esconder nas últimas tentativas que fomos ao obstetra. Confesso que, querer saber o sexo do meu filho é irrelevante, quando o que eu mais anseio é pela saúde de ambos. Ultimamente temos recebido telefonemas anônimos e, por via das dúvidas, tive que trocar todos os nossos números telefônicos. Para que a Júlia se sentisse melhor, eu a deixava na companhia da Betty e seguranças para passeios no Central Park ao menos duas vezes por semana. Porém, isso não será mais possível. Embora acredite que Adam esteja bem longe daqui, não posso facilitar enquanto ele não estiver atrás das grades. Aumentei a segurança e intensifiquei as buscas por conta própria. Já estou cansado de receber informações vazias da polícia e FBI. Estou gastando uma pequena fortuna para que meus agentes contratados achem o Adam e o enfie logo em uma prisão. Não tenho mais notícias da Kate, mas a única e última vez em que falei com seus pais, ela estava dentro de alguma clínica em algum lugar. Não me preocupo mais com ela, já que sua família me garantiu que ela desaparecerá da minha vida. Kate não terá mais um centavo do meu dinheiro e muito menos poderá sair da tal clínica onde se recupera. Estou deitado sobre nossa cama esperando a Júlia vir se juntar a mim. — Júlia, o que você está fazendo?! Venha logo! — chamo-a impacientemente. Ultimamente tenho estado fora o dia todo e o único momento em que tenho ao seu lado, não posso desperdiçá-lo. — Acalme-se, estou hidratando o meu corpo. Já vou! — ela grita do banheiro me fazendo rolar na cama e ir até ela com o intuito de assistir a cena. Assim que me aproximo, encosto meu ombro sobre o batente da porta e a visão que tenho me deixa completamente embebido. Júlia está apenas de calcinha e sutiã passando um óleo extremamente cheiroso sobre sua barriga enquanto admira seu reflexo no espelho. Inclino a cabeça para o lado com um sorriso enviesado olhando-a com admiração. — Linda — sussurro e ela sorri me observando através do reflexo do grande espelho. — Quer? — ela oferece o frasco estendendo a sua mão em minha direção. Estou apenas de cueca boxer admirando-a e meus lábios se curvam atrevidamente em um sorriso. — Será um prazer. — Sigo até ele e me posiciono, abraçando-a por trás. Espremo com cuidado o frasco sobre a palma da minha mão e deixo o recipiente


sobre o tampo na lateral da pia. Júlia apoia a cabeça sobre o meu ombro esquerdo e fecha os olhos apenas sentindo minhas mãos deslizarem lentamente na superfície macia de sua barriga. Minhas mãos passam, vagarosamente e Júlia apenas relaxa apreciando o meu toque. Inesperadamente, sinto algo ondulando sob minhas mãos, fazendo a Júlia dar um sobressalto. Congelo. — Júlia... você sentiu isso? — sussurro questionando-a e ela se vira para me encarar. — Sim, ele mexeu sob suas mãos! — Um sorriso se desenha em meu rosto e, quando ela menos espera, me abaixo para ficar rente à sua barriga. Passo as mãos e sinto outra ondulação e não sei como explicar o que sinto. É como se meu filho estivesse me avisando que está tudo bem ou algo assim. É como se ele me reconhecesse. Engulo em seco e inclino minha cabeça para encarar a Júlia. — É a melhor sensação! — informo-a e ela concorda com a cabeça sorrindo já com os olhos brilhantes de lágrimas. Júlia passa suas mãos suaves sobre os meus cabelos enquanto beijo cada parte da sua barriga. — Amanhã é o dia do ultrassom. Vamos descobrir o sexo do bebê — ela afirma emocionada. *** — Bom, vejamos... — o obstetra diz. — O bebê de vocês, está ganhando peso e tamanho. Agora ele mexe um pouco e conseguimos ver exatamente o seu sexo — informa o obstetra com os olhos fixos sobre o visor na tela do computador. Por mais que eu queira reparar no visor, não consigo deixar de notar que a sua mão está deslizando quase próximo as partes íntimas da minha mulher. Sei que isso é idiota, já que ele deve fazer esse trabalho muitas vezes ao dia, porém, eu odeio que ele, tão intimamente, encoste as mãos nela. Da próxima vez, pretendo me certificar de que uma mulher a atenda. — E então, doutor? — Júlia pergunta, me tirando dos pensamentos secretos de arrancar a sua mão de cima da minha mulher. — Uma menina. Parabéns! — Uma menina?! Encaro a Júlia que está com uma das mãos sobre a boca e chora copiosamente. Estou paralisado olhando para o monitor vendo a minha filha se mexer rapidamente. — Uma menina! — sussurro e Júlia, obviamente, se desmancha em lágrimas. É isso. Em breve terei a companhia de duas mulheres para o total desespero de homem ciumento. ***


O corpo da Júlia está apoiado em meu abdômen enquanto passo minhas mãos sobre sua barriga. Agora, esse se tornou um dos meus momentos preferidos ao seu lado quando chego depois de um dia cansativo. Para a minha sorte, Júlia adora que eu faça isso quase todos os dias. Confesso que ser este homem que me transformei, tem sido incrivelmente melhor do que aquele homem sozinho e preocupado. Velas aromáticas estão espalhadas por todo o banheiro para garantir pleno relaxamento. Nossos corpos estão parados imergidos na água, mas a nossa filha não para de se mexer enquanto a minha mão desliza sobre ela através da pele aveludada da Júlia. O mais incrível disso tudo é que ela mexe muito mais, quando minhas mãos estão aqui. É uma novidade emocionante, nova e extremamente única. — É tão gostoso sentir a sua barriga mexer! — sussurro com uma voz rouca e quente próximo ao seu ouvido. Preguiçosamente, Júlia concorda com a cabeça com um sorriso enviesado sem emitir uma só palavra. Ficamos ali por tanto tempo que Júlia acaba adormecendo em meus braços. Se eu pudesse, ficaria assim para sempre, mas chega um momento em que a água não nos agrada tanto e é hora de sair. Preciso levá-la para cama. — Júlia, amor. Precisamos sair da banheira! — Ela concorda com a cabeça ainda com os olhos fechados. Eu a ajudo a sair e, cuidadosamente, passo a toalha felpuda sobre todo o seu corpo secando-a. Em seguida me seco e pego-a nos braços levando-a diretamente para a cama. — Meu amor, você não está tão leve quanto antes, mas carregar você até a cama com nossa filha aí dentro, me faz sentir a pessoa mais sortuda do mundo. — Júlia abre os olhos e me encara com uma fingida indignação. — Você está me chamando de gorda? — Ela ergue as sobrancelhas me fazendo sorrir. — Você é o meu presente e carrega o que há de mais precioso pra mim — informo-a e ela volta a encostar seu rosto sobre meu peito nu. — Eu te amo! — ela sussurra Júlia e eu dormimos agarrados. Eu quero dormir sentindo sua barriga e nossa filha o tempo todo até finalmente cairmos no sono. CAPÍTULO 34 Júlia Quando menciono que quero dar uma volta, Andrew, imediatamente, me


lembra que não devo sair e acrescenta com a frase: "Isso é uma ordem". Confesso odiar quando ele tenta mandar em mim. Porém, ao mesmo tempo, eu amo o seu excesso de cuidados. Esse seu modo, "além de protetor", é totalmente justificável quando se está na mira de um maluco, administrando sozinho um hotel e participando de reuniões através de teleconferências. Seu pai não será capaz de voltar ao posto e Andrew não quer decepcioná-lo. Para complicar ainda mais a nossa vida, eles estão fazendo reformas que precisam ser assinadas e monitoradas por ele. Não entendo o motivo de ele participar de tudo tão ativamente, mas é o que o pai faria se estivesse cuidando de tudo como sempre fez. Definitivamente, isso está no gene. Eles são iguais quando se trata do trabalho. O fato é que, mesmo morando no mesmo teto, eu não o tenho visto como gostaria. Sinto-me sozinha. Hoje, Andrew me acordou com beijos apaixonados e me prometeu um jantar. Porém, ele teve que, obviamente, trabalhar. Durante o dia, cheguei a ligar, mas ele parecia muito nervoso e disse que não poderíamos conversar naquele momento. Andrew tem estado tão ocupado que não conseguiu nem conversar comigo ao telefone. Quero-o aqui, ao meu lado, quero poder ter uma vida normal. Espero que esses momentos de tensão acabem logo. Adam se esconde muito bem e, sem sombra de dúvida, ele é bastante esperto para não ser pego facilmente. Enquanto trabalhávamos naquele estúdio, reparei no modo observador e de como ele calculava de maneira natural todos os meus passos. Só pude notar isso agora e, a forma carismática dele me parece totalmente apavorante. Sobre a Freda, nunca mais ouvi falar dela. Ela simplesmente evaporou e eu estou muito bem com isso. Kate, pelo visto, está internada em uma clínica em sua cidade natal e, Andrew, para a minha felicidade, não se importa e não está interessado sobre nada relacionado a ela. Ele a quer bem longe e isso é ótimo. *** Sinto mãos quentes sobre minha barriga que agora está de 25 semanas e, imediatamente, ela se mexe, sentindo as mãos quentes do Andrew que deslizam sobre minha barriga. Parece mágica. Seus beijos estralados sobre meu pescoço me trazem arrepios dos pés à cabeça. — Andrew? — Shhhh... Durma! Só pude chegar agora, meu amor. Está tarde! — ele sussurra ao meu ouvido, mas eu estou muito sonolenta para responder. — Eu te amo. — Suas palavras me fazem abrir os olhos.


— Não consegui esperar por você — digo, com a voz rouca e um pouco frustrada. Andrew balança a cabeça me encarando com uma expressão triste. — Me perdoe. Hoje deveria ter sido um dia diferente como havia prometido. — Ele exala um suspiro profundo e eu sei que está se referindo ao jantar. — Eu não esqueci, Júlia — ele informa com o olhar sobre o criado-mudo. Acompanho-o e vejo um enorme buquê com diversas flores coloridas e uma caixa da Tiffany. Mesmo que esse seja um belo gesto, eu não consigo sorrir. Não preciso de flores ou presentes caros, eu preciso dele aqui. — Eu sei que não tem sido fácil pra você. Eu só não conseguiria me concentrar no trabalho com a possibilidade de você em perigo. Mas eu prometo... Vamos pegar aquele desgraçado, então teremos a nossa vida de volta. — Andrew parece agitado e com uma expressão que denota um certo medo. — Júlia, se eu te contar como passei o dia de hoje, você ficaria agitada. — Sua afirmação soa mais como uma pergunta. Ele está me sondando para tentar me contar algo. — Não importa, Andrew. Eu preciso saber o motivo de tanta preocupação. — Ele concorda com a cabeça e solta o ar profundamente. — Adam me ligou de um número privado. — Amplio meus olhos não acreditando no que ele acaba de me dizer. — Como? Você não mudou todos os números? O que ele disse? — Ele, rapidamente puxa o meu corpo, fazendo-o apoiar-se contra seu peito. Andrew não responde, mas posso sentir seu coração acelerado. — O que ele disse? — peço em um tom quase inaudível e ele, novamente, exala um suspiro profundo. — Muitas coisas, Júlia. Uma delas é que... — ele para de falar e me segura ainda mais apertado contra ele. — Ele quer você para me atingir. — É a única coisa que ele consegue dizer e eu decido encerrar o assunto. Posso imaginar o monte de merdas que ele disse. Eu não quero ouvir. Não sei o motivo de esse imbecil agir assim, mas seja lá o que for, ele precisa parar. — Eu, eu estava preparando uma surpresa para você, mas tive que ficar o dia todo por conta de tentar rastrear o Adam. — Andrew se afasta e segura meus ombros me encarando fixamente nos olhos. — Prometo pegar esse maldito e trazer nossas vidas de volta. — Sua expressão é de total confiança e eu acredito nele. — Eu te amo tanto que chega a doer aqui. — Ele deposita minha mão sobre seu peito esquerdo e logo em seguida toca seus lábios nos meus. Andrew, mais uma vez, está provando com suas atitudes que me ama. Passei o dia todo me sentido frustrada enquanto ele apenas tentava me proteger. ***


Para recompensar, na semana seguinte, Andrew me convidou para almoçarmos no hotel. Vim escoltada por cinco seguranças e por mais que eu saiba da periculosidade do Adam, não posso acreditar que ele seja páreo para o Andrew. Porém, não vou discutir esse assunto, já que proteção nesses casos, nunca é demais. Os seguranças me deixam no elevador e, sozinha, sigo para o andar do restaurante. Assim que chego, já consigo vê-lo de costas conversando com alguém que não está na minha visão periférica. Sorrio e me aproximo, mas quando vejo com quem ele está conversando, meu sorriso se esvai rapidamente. Andrew está falando com a tal designer. A mesma que estava na minha exposição. Como da outra vez, ela não dispensou olhares de interesse e sorrisos animados para ele. Seus cabelos loiros e longos são jogados, o tempo todo, de um lado para o outro, e uma vontade de afastá-la me consome. Secretamente, desejo que ela pare de olhar assim para ele. Quero que ela suma. Faço um barulho com a garganta para que eles notem a minha presença e Andrew se vira, parecendo surpreso ao me ver. — Júlia, você decidiu vir mais cedo? — A sua pergunta parece uma afirmação e ele aproxima-se de mim, beijando meus lábios castamente. — Rebecca, lembra-se da Júlia? — Ela me analisa com as sobrancelhas erguidas e sorri de forma forçada. — Oh, claro. É um prazer revê-la, querida! — Seus olhos se abaixam para minha barriga e ela parece realmente surpresa agora. — Bom, espero que esteja tudo bem se almoçarmos na sexta — ela diz, ignorando o fato de eu estar aqui e totalmente grávida. — Ótimo, na sexta parece bom! — Andrew concorda e isso me deixa irritada. O que eles têm que fazer em um maldito almoço? Ela fala algumas coisas técnicas relacionadas ao seu projeto e logo em seguida se despede formalmente com um aperto de mão, um pouco demorado para o meu gosto, me lança um outro sorriso forçado e vai embora. Respiro fundo tentando reprimir o ciúme cada vez crescente por dentro, mas o fato é que eu não entendo o que essa mulher precisa para almoçar com o meu futuro marido. ***


Andrew — Um almoço? — Júlia parece realmente agitada sobre eu ter que almoçar com a Rebecca. — Não tenho horários disponíveis na minha agenda e, o único momento que encontrei para assinar os novos contratos, é o meu horário de almoço. Infelizmente tivemos que aumentar a reforma e ela está aqui para isso. — Júlia respira profundamente e parece não entender. — Eu não quero que vocês almocem! — Ela está taxativa agora. Confesso que sua desconfiança me deixa um pouco frustrado, já que minha intenção é tentar resolver minhas pendências profissionais de forma rápida. — Não se trata de um encontro, Júlia. Não havia nenhum modo de contratar outro prestador de serviço. Isso requer tempo que, infelizmente, não disponho. — Puxo uma cadeira e silenciosamente peço que ela se sente. Depois de nos sentar, somos servidos, mas sua expressão continua muito séria. — Ela é linda — sua voz sussurrada me deixa, momentaneamente, triste com o que imagino que esteja passando pela sua cabeça. Sei que já dei todos os motivos do mundo, mas eu não quero que ela desconfie de mim. Ela precisa acreditar. Exalo um suspiro profundo e fixo meus olhos intensamente nos dela. — Concordo. Ela é linda. — Ela abaixa sua cabeça aparentemente arrasada com o que acabo de dizer. — Mas eu não a quero, Júlia. Prefiro cada pedaço do seu corpo, cada fio do seu cabelo, prefiro o seu jeito e a sua alegria. Prefiro tudo que seja direta e indiretamente relacionado a você. — De repente um sorriso se revela em seu rosto dando lugar a expressão carrancuda de segundos atrás. — Eu te amo, Andrew. Porém, eu não gosto de vê-los juntos. Afinal, uma mulher sabe quando a outra está descaradamente afim do seu homem. — Curvo meus lábios em um sorriso, mas ainda me sinto frustrado sobre suas desconfianças. Ela acredita que voltarei a ser aquele homem de antes e eu mereço à sua desconfiança, já que agi como um verdadeiro cafajeste. *** A semana transcorreu de forma rápida para mim e lentamente para Júlia. Os meus agentes encontraram o Adam que está escondido no México. Ele está sendo monitorado, mas não há um modo de pegá-lo agora, já que ele está envolvido com algo muito além daquilo que imaginávamos. Adam está diretamente ligado ao tráfico de armas e com os maiores bandidos. Quero que ele seja preso por esse crime e que não saia nunca mais da prisão. O problema é que devemos deixá-lo entrar no país para pegá-lo e enquadrá-lo na lei americana. Adam está brincando de gato e rato e quer, de forma lenta e dolorosa, destruir o nosso psicológico. É difícil negar, mas ele é um homem extremamente


inteligente e essa semana, a polícia encontrou um de seus esconderijos em Nova Iorque. O que me surpreendeu de fato foi saber que ele sempre nutriu um ódio irracional por mim. A polícia encontrou um álbum contendo minhas fotos e um outro separado da Júlia. Ele quer a Júlia para me atingir. Ele sabe que perder a Júlia destruiria a minha vida. Ele a quer, mas agora está longe e sendo monitorado por agentes especiais. Morávamos em Memphis e jamais tivemos amizade. Porém, seu ódio nascia ali, naquele lugar. Isso me faz questionar o quanto corri risco de morte e, principalmente, saber que Júlia esteve por muito tempo próxima a ele. Quero me chutar por não ter notado nada durante todos esses anos. Pegar o Adam se transformou em uma missão de honra para mim e é exatamente o que vamos fazer. — Amanhã começaremos a analisar todos os corredores — Rebecca me informa, trazendo-me de volta a terra e ao contrato que seguro nas mãos. Ela continua a falar sem parar, passando as mãos excessivamente sobre seus cabelos, o que me deixa realmente irritado. Júlia não estava errada quando dizia que ela tem intenções além do profissional, mas eu não me importo quais são suas intenções. Estou com pressa para resolvermos logo todas essas pendências e me livrar dessa reforma que tem me dado muita dor de cabeça. — Certo — digo sem tirar os meus olhos sobre a última linha do documento que seguro nas mãos. Finalmente o assino e recosto meu corpo na cadeira, tomo minha água e a observo com uma expressão profissional. — Acho que estamos acertados! — afirmo e ela sorri, sem motivo algum, passando sua mão, com um gesto além de irritante, sobre os cabelos. — Ótimo. Vamos pedir o almoço? — Ergo as sobrancelhas e me levanto da cadeira deixando-a com uma expressão confusa. — Infelizmente, terá que almoçar sozinha. Estou muito atarefado e preciso ver a minha mulher. — Ela força um sorriso, mas o sua expressão é de total desgosto. — Você havia me dito que almoçaríamos. — Sim. Eu não tinha um horário para você na minha agenda e decidi usar este. Porém, conseguimos resolver esta pendência antes que esperava. — Ela abre a boca para começar a argumentar, mas eu estendo minha mão para cumprimentá-la. Ela olha de forma confusa e aperta a minha mão. Em seguida, pego a minha maleta e afasto-me. — Até mais, Rebecca. — Não espero sua resposta e me afasto para longe indo direto para os elevadores. Júlia havia dito que iria ao médico, e eu acabei deixando que meus


seguranças a levassem, mas confesso que eu não confio em ninguém ao seu lado se não a mim mesmo. Fiquei inquieto e ansioso a manhã inteira e agora não há como ficar aqui. Quero poder acompanhar o desenvolvimento do meu filho e que, ao menos hoje, esquecer do trabalho. CAPÍTULO 35 Júlia Estou a caminho da clínica para fazer mais um ultrassom. A cada consulta, sinto-me ansiosa para ver o desenvolvimento da minha filha. Minha barriga está grande e o cansaço é inevitável. Andrew tem andado ainda mais ocupado, principalmente depois dessas reformas intermináveis no hotel. Sei que ele deve estar almoçando com essa tal Rebeca. Porém, isso não me incomodaria se eu não soubesse que ela arrasta um caminhão por ele. O fato é que o Andrew está muito cansado e menos receptivo ultimamente. Ele não me atende durante o dia e quando chega tarde da noite, apenas sinto suas mãos sobre mim, mas sempre estou muito cansada para retribuir as suas rápidas carícias. Quando toco no nome dessa tal Rebecca, percebo sua expressão irritada, mas ele não diz nada, apenas que eu deveria pensar em outras coisas, já que é o seu trabalho. Enfim, não posso negar que, por mais que ele seja carinhoso, atencioso e está tentando de tudo para finalmente prender o Adam, que já foi localizado, sinto que esse estresse e irritabilidade estão me afetando de alguma forma. Ele tenta, mas não consegue ser o que ele promete. Algo totalmente justificável com o Adam fora das grades. Assim que entro na clínica acompanhada por dois enormes seguranças, eles ficam na recepção e eu sigo para antessala onde serei atendida por minha obstetra que Andrew fez questão que me examine até o fim da gravidez. Eles me chamam no horário combinado e, em poucos minutos termino o meu ultrassom. A obstetra está muito satisfeita com o desenvolvimento da minha filha e me parabeniza por eu cuidar tão bem da minha saúde. Queria compartilhar esse momento com o Andrew, mas aquele homem de negócios ultimamente tem tomado o seu corpo com força total. Agradeço e me despeço da médica saindo rapidamente em direção ao toalete. Esse é um grande problema quando se está grávida. Sua bexiga é espremida e isso não nos deixa muito longe de um banheiro por muito tempo. Sigo pelo corredor, entro no banheiro e vou direto para uma das cabines. Quando termino, faço o meu caminho até o lavabo e vejo que não estou sozinha. Uma mulher aparentemente jovem e com um sorriso exagerado no rosto me


observa. — Primeira gravidez? — ela pergunta e, por algum motivo, sinto que seu tom de voz soa irônico. — Sim — informo de forma monossilábica enquanto lavo minhas mãos. A jovem de cabelos curtos e loiros ainda me analisa dos pés à cabeça. — É uma pena — ela diz de súbito e eu franzo o cenho sem entender o que ela quis dizer. — Do que está falando? — questiono ainda muito confusa. — Sobre essa gravidez. É uma pena que ela não vai continuar. — Nesse momento, minhas pernas tremem e meu coração dispara violentamente no meu peito. Inesperadamente, sinto alguém me pressionando por atrás e me segurando com força. Tento lutar, mas quando vejo o seu reflexo no espelho, eu congelo. — Adam?! — Ele ergue as sobrancelhas e sorri diabolicamente. — Saudade? — Não consigo responder e, quando menos espero, ele pressiona um pano úmido sobre meu nariz e boca. Tento gritar, mas é impossível. Meu corpo fraqueja e minhas pálpebras pesam. Segundos depois o meu corpo já está totalmente entregue a um sono profundo. ***


Andrew — Sr. Smith? Que pena que senhor não chegou mais cedo! — a obstetra de cabelos pretos e amarrados, lamenta. — A Júlia, já foi? — Ela concorda com a cabeça — Sim, a sua filha estava com o polegar na boca. Você deveria ter visto. Ambas estão muito saudáveis. Como pude perder esse momento tão importante para nós dois por causa de um trabalho? Talvez eu tenha dado mais atenção ao hotel que a Júlia. Preciso consertar isso. A partir de hoje ficarei, ao menos, os finais de semana em casa. Dane-se, eles esperam. O que não pode esperar é a minha família que precisa de mim. — Estava trabalhando e não consegui chegar a tempo — informo com uma voz frustrada. — Entendo. Nem sempre podemos fazer o que queremos de fato. — Ainda sério, concordo com a cabeça. — Dra. Dra. — um funcionário da clínica surge em sua sala com uma expressão atordoada. Franzo o cenho. — O que houve? Aconteceu alguma coisa? — A obstetra também o observa confusa. — Sim. Devemos abandonar a clínica. A polícia pediu para que todos saiam, imediatamente. Meu coração acelera violentamente me deixando em total alerta. — Por que devemos sair? — questiono e ele não diz nada. Não espero por sua resposta e saio a passos largos pelo corredor. De repente paro ao perceber movimentos no banheiro feminino. Policiais estão do lado de dentro. Aproximo-me ao batente e sou surpreendido com uma visão que me deixa completamente em estado de choque. Meus dois seguranças estão mortos, ambos com tiros na cabeça. — DROGA! — rosno e pego o meu celular pressionando o número da Júlia que não atende. Começo a entrar em pânico e quando volto a cruel realidade, policiais já estão tentando me tirar do corredor a força. — NÃO. ONDE ESTÁ A MINHA MULHER? — berro e eles me soltam. — Ainda não sabemos quem são, senhor, você os conhece? — Coloco as duas mãos sobre minha cabeça e esfrego meu rosto furiosamente com as mãos. — Eram meus seguranças. Eles trouxeram a minha mulher para fazer ultrassom. — Paro de falar e encaro-os. — Eu quero. A. Minha. Mulher. AGORA! — vocifero transtornado e saio em busca da Júlia. Entro em cada sala, cada lugar que ela possa estar escondida e apenas sinto mãos me puxando, mas eu consigo desvencilhar facilmente, já que minha força e raiva estão triplicadas.


— PORRA! CADE A JÚLIA? — Meus olhos estão vermelhos e, neste momento, estou sentindo a pior sensação do mundo. Estou soando frio e tudo ao meu redor parece andar em câmera lenta. Droga, eu não sei o que fazer. Nesse momento, vejo as merdas dos meus pesadelos se transformando em realidade e isso me desespera. Sinto falta de ar e tento controlar minha respiração para não desabar de vez. — Onde ficam as câmeras de segurança? ONDE? EU QUERO VER AGORA! — rosno para os policiais e alguns funcionários que me seguem. Um senhor de meia idade aparece e tenta me acalmar. — Calma, senhor. Eu sou o responsável pela clínica. Venha comigo que te ajudarei. — Eles sabem quem eu sou e sabem o que posso fazer contra essa clínica caso não encontre a minha mulher. — Cadê a segurança dessa porcaria de clínica que não perceberam que minha mulher havia desaparecido? — questiono ao senhor que parece apavorado. — Tenho meios para fechar essa espelunca amanhã, se eu quiser! QUERO VER AS MALDITAS CÂMERAS DE SEGURANÇA. AGORA! Ele engole em seco e me leva para ver as câmeras de segurança que não devem servir para nada. Assim que entro, vejo a sala vazia e meu sangue ferve de raiva. — Onde está o funcionário que deveria estar aqui quando dois homens foram mortos e a minha mulher provavelmente sequestrada? — Ele engole em seco. — Nunca nos aconteceu absolutamente nada, senhor Smith. Essa é a nossa primeira vez. — E SERÁ A ÚLTIMA SE DEPENDER DE MIM! — berro e dois rapazes entram com uma expressão desesperada. Sem fazer contato visual, eles ligam a câmera e policiais já estão aqui para analisar. Ninguém tenta me tirar. Eles começam a passar as imagens quando Júlia e meus seguranças estiveram aqui. De repente ali está ela, Júlia. Ela está linda com um vestido azul e, vê-la tão despreocupada faz o meu coração doer. Meus olhos inevitavelmente se enchem de lágrimas ao ver as suas mãos deslizando sobre sua barriga. Ela parece calma antes de entrar ao consultório. Que eles não tenham feito mal a ela — rezo silenciosamente. As imagens que se revelam a seguir me deixam confuso. Júlia entra no banheiro e demora mais tempo que deveria. Minutos depois, vejo uma cadeira de rodas sendo levada por uma jovem mulher. Em seguida um homem sai de chapéu e não é possível ver a sua face. — Adam... — sussurro com a mandíbula cerrada e lágrimas nos olhos. — DESGRAÇADO! — Dou um soco na mesa que automaticamente se espatifa


sobre o chão. Um nó se forma em minha garganta e a única coisa que eu quero nesse momento é matar aquele desgraçado. As lágrimas de raiva ainda inundam meus olhos e o desespero toma conta de mim. Tento controlar minha respiração e esfrego o meu rosto como se isso me trouxesse sanidade. Pego meu aparelho e ligo para os agentes que estão no caso do Adam. Para a minha surpresa, estávamos investigando outro homem no México. Adam fez tudo de caso pensado tirando nosso foco e nos fazendo acreditar que estávamos no controle. Ele, provavelmente arrumou um sósia, fazendo com que meus agentes acreditassem que era ele. O desgraçado tem mais dinheiro que eu imaginava. Sinto-me impotente e não sei o que fazer, já que tudo parecia sob controle. Tento ligar inutilmente para o celular da Júlia, mas, obviamente, continua desligado. — Júlia? — Minha voz sai como um sussurro — Pra onde esse canalha te levou? — pergunto como se isso me trouxesse alguma resposta. *** Júlia Sinto um tremor terrível e meus olhos se abrem tentando processar exatamente em que lugar estou. Minhas pálpebras ainda estão pesadas, mas consigo ver poucas poltronas enfileiradas. A princípio, pensei que estava em um ônibus, mas descartei essa possibilidade imediatamente quando vi a porta de uma cabine sendo aberta. Sim, estou no chão de um avião pequeno. Tento me levantar, mas minhas mãos estão amarradas por cordas. Minha cabeça dói muito. — Vejam só. A bela adormecida acordou! — Andam diz me trazendo de volta ao pesadelo. — Pra onde estamos indo? E como fui parar dentro de um avião? — Você apagou mesmo, hein? — Ele ergue as sobrancelhas sorrindo debochado. Estou deitada e ele praticamente fica com seu rosto bem próximo ao meu. Adam encosta a mão direita em meu queixo me forçando a olhá-lo nos olhos. — Bom, tudo foi minuciosamente planejado há meses. Minha equipe é uma das melhores, Júlia. Eu tenho os meus contatos. Não sou nenhum milionário, mas consigo fazer coisas que até Deus duvida. Você saiu da clínica em uma cadeira de rodas. — Ele ri. — Parecia que você estava acordada. A Cindy é uma excelente atriz. Ela fingiu conversar com você enquanto saía. Vestiu-se com um jaleco e vocês passaram por todos. Simples! Claro, não antes de ela atrair dois


seguranças idiotas para o banheiro alegando que você estava passando mal. Então foi simples. Eu usei um silenciador e estourei os seus miolos. O que ele diz me deixa nauseada ao perceber o tamanho de sua frieza. — Enquanto você saía com a Cindy em uma cadeira de rodas, eu as segui pronto para matar qualquer um que se colocasse em minha frente. Foi como roubar doce de uma criança. — Ele ri com muito sarcasmo. — Seu "noivo" deveria ter se preocupado mais com a sua segurança, querida. Porém, o idiota preferiu ficar com a Rebecca em um almoço. Aquelas palavras doem. Andrew realmente preferiu seu trabalho que ficar comigo, mas é compreensível, já que tudo estava em suas costas. Na realidade, foi a primeira vez que ele me deixou ir ao hospital com seus seguranças. — Como você descobriu que estava na clínica? — indago com uma expressão desconfiada. — Eu sempre soube de tudo sobre a vida monótona do casal. Fiz o seu noivo imbecil acreditar que eu estava em sua mira, mas eu estava muito mais perto que vocês poderiam imaginar. — Por que você tem tanta raiva de mim? O que eu fiz contra você? — questiono enquanto as lágrimas descem inundando meu rosto. De repente seu rosto fica sério e Adam aperta sua mandíbula — Não tenho tanta raiva assim de você! — Ele inclina sua cabeça de lado me analisando dos pés à cabeça. — Sabe, eu poderia até te foder aqui nesse avião. Só por você ter me rejeitado, mas para sua sorte, eu tenho pavor de grávidas. Seria um sacrifício pra mim. Meu coração dispara. Fico sem ar e o medo atravessa todo o meu corpo. Ele não me estupraria. Ele não seria tão louco! Ou seria? Ai meu Deus! Um nó se forma em minha garganta e eu estou completamente apavorada. O que esse louco vai fazer comigo, meu Deus? O que mais temíamos aconteceu e eu me vejo como em um pesadelo. Preciso me livrar dele. Tentar avisar ao Andrew que estou bem, mas como? De repente não consigo parar de chorar. Seguro minha barriga e fecho os olhos rezando silenciosamente que isso tudo seja um pesadelo horrível e eu vou acordar a qualquer momento. CAPÍTULO 36 Júlia Assim que meus olhos se abrem novamente, percebo que ainda estamos em movimento. Porém, desta vez, estou deitada desajeitadamente sobre o banco de um carro e minhas mãos seguram possessivamente a minha barriga. Lentamente, ergo meu corpo e percebo que estou no último banco de uma van. Adam e a mulher loira de cabelos curtos estão nos bancos dianteiros. Um homem de


cabelos escuros dirige calado, mas eu não o identifico. Olho ao meu redor e me deparo com uma paisagem desértica e um belo pôr do sol desaparecendo no horizonte. Se estivesse em um dia "normal" acharia essa vista incrível. Como vim parar aqui? — Finalmente. — A voz irritante do Adam, quebra o silêncio me fazendo dar um sobressalto. — Achei que não iria acordar para ver a paisagem, bela adormecida! — Que lugar é este? — Ele ergue as sobrancelhas e sorri de maneira irônica. — Bem-vinda ao Vale da morte! — ele informa naturalmente e eu engulo em seco. — Morte? Por que estamos aqui? — Ele ri forçadamente. — Não irei te matar, querida. Estamos passando, de fato, pelo Vale da morte na Califórnia e em breve estaremos em Nevada, precisamente em Vegas. Minha boca se abre ao perceber o quão longe estou do Andrew. Meu Deus, eu estou na Califórnia! Meu coração dispara e a ficha inevitavelmente cai. Adam conseguiu o que queria, mas a troco de quê? O que o motivou a tanto? Quais são os seus verdadeiros planos, afinal? Andrew não me disse muito sobre ele com o intuito de me poupar, mas agora, sinto-me perdida. Enquanto tenho um ataque de ansiedade em silêncio, a viagem prossegue no mais absoluto silêncio. Depois de algumas horas, avisto luzes, muitas luzes coloridas em meio à escuridão. Por mais que eu jamais tenha vindo por esses lados não há como negar que aquela cidade se revelando, é Vegas. — Gosta de hotéis de luxo, querida? — Adam pergunta obviamente não esperando à minha resposta. — Vamos lá, melhore essa cara. Estamos em Vegas, baby! — ele brinca e, embora a escuridão não me permita enxergá-los com clareza, posso ouvir a risada da mulher ao seu lado. Poucos minutos depois, passamos pela placa iluminada com os dizeres: "Welcome to Fabulous Las Vegas”. As luzes vindas dos imensos outdoors de lojas e hotéis ao nosso redor chegam a doer os meus frágeis olhos que precisam urgentemente se adaptar a súbita claridade. Tudo aqui é convidativo. No entanto, eu não queria estar aqui. Talvez, em outra ocasião, eu adoraria, mas não agora, não dessa forma. Definitivamente. A van em que estamos, repentinamente, para no estacionamento de uma grande loja de departamentos e Adam abre a porta erguendo a sua mão para que


eu desça. — Venha, rápido — ele ordena e eu sinto que minha bexiga vai estourar. — Preciso de um banheiro! — informo-o depois que desço da van que, logo em seguida acelera, desaparecendo rapidamente de nossas vistas. — Leve-a! — ele ordena para a mulher loira que faz cara de tédio. Entramos na loja de departamentos e seguimos até o banheiro feminino. Cindy fez questão de entrar comigo no banheiro como se eu realmente tivesse condições de fugir. Sei que ela, Adam e seus comparsas estão por aí e totalmente dispostos a me matar a qualquer momento. Não posso arriscar a minha vida, já que agora carrego outra dentro de mim. — Dê a ela este vestido. — Ouço a voz do Adam ecoando do outro lado da porta e segundos depois, Cindy reaparece com o vestido simples sem mangas, na cor preta nas mãos. Ela me entrega e eu sei que devo me trocar. Termino e, quando saímos da loja, bem mais apresentáveis, uma limusine nos espera ao lado de fora. Entramos em silêncio e Adam se senta ao meu lado. — Vamos descansar. Afinal, você está com essa barriga estranha e precisa dormir. — Encaro-o tentando me controlar para não mandá-lo para o inferno. — Que foi? Por que eu tenho a impressão que você está com vontade de me matar? Não sou tão ruim assim, vou levá-la para uma cama. Contente-se! — Ele curva seus lábios e volta a sua atenção para um aparelho celular que não havia visto antes em suas mãos. Engulo em seco enquanto a limusine segue pela Las Vegas Boulevard com destino a algum desses hotéis temáticos. Poucos minutos depois o carro para no estacionamento do Hotel Bellagio. Seguimos até uma entrada que dá para luxuosos elevadores e Adam segura minha mão como se fosse um namorado. Apenas esse toque me deixa completamente enojada. Quero me livrar dele, mas não consigo imaginar como. Cindy nos observa com uma expressão sombria. — Cindy, leve a nossa hóspede para o quarto. — Adam segura o meu queixo me obrigando a encará-lo. — Não tente fugir, okay? Cindy está autorizada a te matar ou matar esse bebezinho que você carrega. — Suas palavras estão carregadas de muito ódio, mas baixa o suficiente para eu entender que ele está falando sério. O meu coração acelera violentamente no meu peito e a porta se abre, Adam sai me deixando com a tal Cindy que, em poucos minutos me conduz até o quarto em que foi orientada. Eles já tinham reservas, já tinham tudo armado há muito tempo. *** Alimentaram-me, me deram água e me prenderam na cama onde me encontro até agora. O quarto é incrivelmente luxuoso e, por mais que eu esteja tensa com os acontecimentos e com os dois pés amarrados, sinto-me bem em


descansar nessa cama. Não sei que horas são, mas desde que vi o Adam pela última vez, já faz muitas horas. Deve ser madrugada e Cindy deve estar na outra suíte que fica neste mesmo lugar que estou. Aqui deve ter pelo menos duas suítes e banheiros espaçosos com banheiras enormes. As janelas mostram que estou no último andar. Daqui da cama, posso ver a réplica da Torre a Eiffel do hotel Paris que fica do outro lado da Las Vegas Boulevard. Cindy não disse nada até agora, apenas trouxe uma bandeja com alimentos, águas e voltou para a outra suíte. Ela disse apenas que se eu tentar fugir, que o grandalhão que está no sofá tem autorização de atirar em mim. — Gosto de te ver pensativa! — Não sei como Adam tem a capacidade de chegar sem ser percebido, mas ele me assustou mais uma vez. — Você era jogo duro, Júlia. Demorei o que parecia décadas para conseguir um beijo seu. — Ele exala um suspiro profundamente enquanto se aproxima de mim. Encaro-o com os olhos ampliados e Adam se senta ao meu lado na cama onde estou deitada. Ele, lentamente, encosta seus dedos imundos sobre meu rosto e seu hálito exala puro álcool. — Preciso de grana... Muita grana! Estou devendo para pessoas perigosas. Preciso que seu noivo me envie muito dinheiro, Júlia. A minha vinda pra cá não foi por um acaso. Esse será meu ponto de encontro para minhas transações. Espero que seu noivo colabore. — Você planejou tudo — sussurro e ele sorri, mas seus olhos estão carregados de ódio. — Eu sempre planejo! — Andrew vai te dar o que quiser, mas, por favor, não me faça mal. — Abruptamente ele se levanta e se vira mirando o as luzes de Vegas que brilham do lado de fora da janela. — Sim, ele vai me pagar. Andrew sempre teve tudo. Sempre foi o melhor na faculdade, o mais bonito, o mais inteligente, o mais pegador. Claro que ele vai me pagar. — Suas palavras me trazem arrepios pelo corpo. Ele tem ódio do Andrew e isso vem de anos. Como pode? — Amanhã ligaremos pra ele. Mas... A ligação não pode passar de 30 segundos senão nossa chamada será rastreada. E se isso acontecer... — Ele se vira ficando de frente para mim. — Você já sabe o que eu faço com você, não sabe? Seja convincente. Mulheres tem esse poder. Até amanhã. Ele se vira e Cindy já está esperando na entrada. Adam beija castamente sua boca e sai. Amanhã. Ele vai ligar para o Andrew. Preciso pensar em alguma coisa. *** — Acorda princesa! — Sinto um cheiro de álcool e percebo que nada que


vivi ontem foi um pesadelo. Porém a voz é de uma mulher e quando decido abrir meus olhos, congelo. Meu corpo se afasta instintivamente enquanto encaro a mulher à minha frente. — Kate? — Ela curva seus lábios em um sorriso enquanto joga seus — agora curtos cabelos loiros—, de um lado para o outro. O que diabos ela está fazendo aqui? Ela me encara com um sorriso falso no rosto e eu estou completamente confusa. — Surpresa? — ela pergunta e eu permaneço calada encarando-a com total incredulidade. De repente vejo Adam entrando no quarto e Kate se levanta enlaçando seus braços em volta do seu pescoço. — Estava com saudade, meu amor. — Eu também! — Então os dois protagonizam bem diante de mim o maior beijo cinematográfico que já vi. Arregalo meus olhos. — Vocês dois... estão juntos? — questiono com uma expressão ainda muito confusa. Eles me olham ainda muito animados como se fossem dois adolescentes. — Sempre estivemos juntos! Como assim? Sempre estiveram juntos? Então se Adam é da cidade do Andrew e ela também... Meu Deus! Ele só pode ser o tal homem que a fez abortar. Que ferrou com a vida do Andrew. Fecho minha boca com as minhas mãos tentando reprimir um grito de surpresa e desespero. ***


Andrew Dois dias sem notícias da Júlia e a cada segundo um pavor se instala dentro de mim. Adam está me torturando por pura raiva. Ele está usando a Júlia para me atingir e isso é algo que me faz sentir ainda mais culpado por ela estar em suas mãos. Por mais que eu tenha feito todo o esquema de segurança possível, eu abaixei a guarda, imaginando que tinha tudo sob controle. Os pais da Júlia já estão em minha casa e, assim como eu, não estão com a mínima condição de falar. Eles não me culparam como imaginei, mas também não dizem nada a meu favor. Sei que eles estão pensando que se a Júlia não estivesse comigo, nada disso teria acontecido, afinal, eu prometi ao seu pai que cuidaria de sua única filha e eu falhei. Sempre fui um homem prático e tive tudo ao meu alcance, o meu excesso de cuidados não foi o suficiente para que Júlia estivesse totalmente a salvo. Demorou meses, mas Adam encontrou uma brecha para que ele concretizasse o que havia me prometido. Adam disse coisas terríveis naquela chamada, disse coisas relacionadas ao nosso passado. Ele havia alimentando um ódio sem fundamento sobre mim e agora ele está se vingando. Fizemos de tudo que a tecnologia nos permitiu para encontrar a Júlia e, agora estou na esperança que Adam entre em contato. Não aguento mais essa tortura. Não suporto imaginar a minha mulher sendo vítima de abusos, ou seja lá o que ele realmente esteja fazendo contra ela. Eu jamais vou conviver comigo mesmo se isso realmente acontecer. — Acalme-se, filho. Ele não fará mal a ela. Adam quer dinheiro, ele sempre foi assim. — Não respondo o meu pai que tenta me consolar a todo o momento. Porém, não tenho tanta certeza assim. Esfrego meu rosto furiosamente com as mãos. — Adam sabe com quem está lidando. Ele não fará nenhuma besteira — Daniel diz enquanto segura os ombros de uma desesperada Jessica que não para de chorar ao seu lado. Não posso consolá-la quando sei que estou nitidamente pior. Inesperadamente, o telefone toca e todos da polícia especializada que aqui estão ficam em alerta assim como eu. Meu coração acelera violentamente quando percebemos que o número no rastreio é restrito. — QUEM É? — atendo com a voz completamente desesperada. — Dormiu com o telefone grudado na orelha? — Adam ri ironicamente do outro lado da linha. — DESGRAÇADO! Aonde você levou a minha mulher?! — vocifero transtornado enquanto meus homens estão tentando localizar a chamada.


— Preste a atenção. Quero que você coloque 10 milhões em espécie na lixeira verde da rua 54 com a Broadway às três da madrugada. Já tenho homens que pegarão o dinheiro, então faça isso o mais depressa possível. Engulo em seco e meu coração está prestes a parar neste momento. Lágrimas descem dos meus olhos involuntariamente e eu só preciso da Júlia aqui. Preciso da minha mulher. — Escuta só a sua mulher, implorando. — Júlia? Meu amor? Como você está? E o bebê? — Sei que a minha voz soa desesperada, mas eu não posso fazer nada em relação a isso. — Andrew? — ela responde e sua voz está chorosa e meu coração dói. Ela está sofrendo. DESGRAÇADO! — Ainda estou bem! Estamos bem. Faça o que ele mandou... por favor! — A última palavra sai como um sussurro, fazendo com que as lágrimas escorram dos meus olhos sem pudor algum. De repente a ligação é interrompida e meus homens não conseguem rastrear a maldita ligação. Lógico, Adam sabia disso! CAPÍTULO 37 Júlia Ouvir a voz do Andrew me deixou de coração partido. Consegui sentir o seu desespero do outro lado da linha e imagino o desespero dos meus pais. Eles devem estar arrasados, sobretudo, a minha mãe. Coitada. Ela não merece passar por isso. Andrew deve estar se sentindo culpado por ter me permitido sair, pela primeira vez, ao médico com seus seguranças. Embora as chances que Andrew tem de me encontrar sejam ínfimas, preciso pensar em algo para avisá-lo onde estou. Talvez eu consiga avisar alguém do hotel ou estarei em grandes apuros. O quarto onde estou não tem portas de saída é a única maneira de sair deste quarto sem ser vista é pulando a janela, ou seja, teria que me suicidar para escapar. Agora estou me perguntando por qual motivo jamais imaginei sobre esses dois sempre estarem juntos. Adam e Kate sempre estiveram juntos e saber que Andrew foi enganado, me embrulha o estômago. Kate disse em alto e bom som que sempre esteve com Adam. Já passou mais um dia desde que ouvi a voz desesperada do Andrew. Preciso fazer com que ele dê um jeito de me descobrir aqui. Mas como? Espero que ele tenha conseguido rastrear o telefone, mas Adam não ligaria se soubesse que isso seria possível. — Acho que precisamos conversar! — a voz da Kate me faz sair dos meus pensamentos. Encolho o meu corpo e protejo a minha barriga como se minhas mãos fossem escudos. Como se elas fossem impedir que essa louca faça algo


ruim contra mim. Ela se senta na lateral cama de frente para mim e analisa a minha barriga. O desprezo que ela jorra sobre mim é palpável. — Nem um mísero filho fui capaz de dar ao Andrew! — ela lamenta com a voz carregada de ódio. — Quando namorava o Andrew, eu gostava dele... Gostava muito. Mas aí apareceu o Adam. Ele era carinhoso comigo. Andrew não era. — Seu rosto se contorce de raiva e suas narinas inflam. — Tentei gostar do Adam, mas eu simplesmente não podia. Queria o Andrew, mas ele jamais me amou. — Vejo lágrimas escorrendo dos seus olhos e um sorriso cínico logo em seguida. — Então eu tive a ideia brilhante de ter um filho. E eu não sei se quero ouvir o que essa doente vai me dizer. — Meus pais nunca aceitaram o Adam, já que ele não é de família abastada. Sim, eles são retrógrados e idiotas. Porém, o problema maior é que Adam sempre foi problemático e me dava drogas. A verdade é que Adam sempre quis tudo que o Andrew teve, ou seja, eu fazia parte do pacote. — Ela fixa seus olhos nos meus. — Você também. Ao mesmo tempo em que acredito que isso seja apenas um desabafo, um medo crescente toma conta do meu corpo. — Meus pais nunca o quiseram conhecer. Eu tinha que ficar com o rico da cidade. — Ela solta uma risada dramática. — Meus pais interesseiros jamais imaginaram que o "rico da cidade" não gostava tanto assim de mim. Já o Adam, demonstrava amor por mim. Namorava o Andrew, o homem que eu amava, e me encontrava as escondidas com o Adam, o homem que me dava amor. Até que, por um tempo, deu certo. — Por qual razão está me contando tudo isso? — interrompo-a e ela sorri amargamente. — Porque não tenho mais nada a perder. — Ela exala um suspiro profundo e se ergue, pega um cigarro do bolso do short jeans e acende olhando para a vista do lado de fora. — Gostava de me encontrar com o Adam. Ele sempre me tratou como eu merecia! — Ela puxa um grande trago do seu cigarro e sopra a fumaça, impregnando o quarto com esse cheiro horrível. — Andrew me dava dinheiro, presentes... tudo! Sempre foi ausente como um namorado, mas muito presente financeiramente na minha vida. Não tinha com o que reclamar! Meu Deus! Ela se sentia rejeitada pelo Andrew. — Esse filho que você esperou, era mesmo do Andrew? — arrisco a pergunta e ela ergue suas sobrancelhas. — Não. — Ela traga o seu cigarro. — Adam forjou o resultado do exame, assim como tudo que eu fiz até hoje. O filho existia, mas era do Adam. Acredita que até os médicos que me tratavam eram falsos? Tudo era uma grande mentira.


— E de repente meu corpo congela. Ela é pior do que eu imaginava. Tudo por dinheiro. Todo dinheiro que o Andrew mandou para ela, era para bancar o casal feliz? — Então... Andrew bancou vocês durante todos esses anos! — Ela sorri mostrando todos os dentes da boca. — Quero que o Andrew sinta na pele como é bom tratar alguém como um lixo. Ele só veio me tratar bem depois que perdi essa criança. Ele é um maldito de merda! — Ela apaga o cigarro na superfície lisa do vidro e se vira para me encarar. — Por isso estou aqui. Quero que o Andrew sinta na pele tudo que eu senti, mas através de você. Ela me analisa dos pés à cabeça. — Você foi a única mulher que Andrew se entregou de corpo e alma. A única! — E por isso tem tanta raiva de mim? — pergunto incrédula Ela balança a cabeça. — Não. Te odeio porque você tirou os dois únicos homens da minha vida. Quando eu acho que me surpreendi com esses dois, a louca me conta mais essa. — Você é louca! Andrew nunca desconfiou que, na verdade, ele estava, esse tempo todo, bancando suas drogas? — Ela ri — Ele queria provas, eu as dei. Ele queria ir ao médico acompanhar o meu "progresso" eu arrumei um ator que fez um excelente papel como um psiquiatra. Ele queria ser útil, por ter se sentido tão culpado por alguém ter me levado para as drogas depois que me abandonou. Porém, na verdade, eu sempre fui para as drogas. Ela ri dramaticamente. — Eu merecia um Oscar, não é? — Encaro-a com uma expressão perplexa. — Todos os nossos encontros eram armação. Eu sempre soube de todos os passos de vocês. Que mulher ordinária. Mexo-me inquieta sobre a cama onde ainda estou amarrada pelos pés. Queria poder matar essa mulher. Ouço a porta se abrindo e o Adam surge com a mesma expressão cínica estampada no rosto. — Vejam só! As amiguinhas estão batendo um papo? Deixa-me adivinhar o assunto. — Ele finge pensar com a mão sobre seu próprio queixo. — Unhas? Roupas? Encontros? Bebês? Ficamos sérias com o seu sarcasmo e ele continua rindo. Uma risada de dar medo. — Vaaaaamos! É apenas brincadeira! — Ele ri abraçando Kate por trás que devolve outro sorriso de forma amorosa.


De repente, Adam guia Kate até a porta e a expulsa silenciosamente do quarto. Ela sai sem se impor e novamente meu coração acelera. O que ele quer, afinal? Adam aproxima-se de mim e me encara nos olhos. — É isso aí, parece que seu noivo promete o que cumpre. Ele enviou o dinheiro e eu acabei de contar cada centavo na suíte ao lado. — Então você vai me libertar?! — Minha pergunta soa ansiosa e Adam ri de maneira debochada. — Acha mesmo que eu vou te libertar, sua bobinha?! — Ele fixa seus olhos nos meus. — Hora da vingança. Inesperadamente, sinto sua mão vindo de encontro ao meu rosto. O ardor é imenso e agora eu tenho certeza de que ele vai me matar. ***


Andrew Dólares recém-saídos da casa da moeda e com lacres de rastreamento. Foi a única maneira que encontramos para descobrir o paradeiro da minha mulher, e do desgraçado. Usei os meus meios e cheguei primeiro que a polícia, porém, eles devem estar aqui a qualquer momento e, em poucos minutos o hotel Bellagio estará completamente cercado, mas eu não os esperarei, já que o meu desespero de encontrar a Júlia é muito maior. Com a polícia aqui, teria menos chances de entrar no hotel e salvá-la. Eles são técnicos, mas a minha mulher não pode ficar no meio de negociações. Preciso tirá-la daqui o mais depressa possível. Daniel queria vir, mas eu o impedi. Não queria colocar mais ninguém em risco por minha causa. Eu e os meus agentes contratados, viemos no mesmo momento em que pegaram o dinheiro. O mapa da localização exata nos trouxe bem aqui e eu estou rezando para que o Adam não tenha sido esperto dessa vez. Espero que ele esteja no último andar com a minha mulher ou eu não sei o que farei para encontrá-la. A única coisa que quero, é que a minha mulher e minha filha estejam bem. É a única coisa que penso durante todos esses dias de verdadeira tortura. Vestido de preto para não chamar a atenção, entro no hotel e caminho pelo grande saguão. Neste momento há muitos turistas tirando fotos da escultura de vidro que enfeita o teto da recepção. O lugar está cheio de turistas, já que a escultura cobre uma boa parte do teto da recepção. A escultura de um elefante também enfeita o centro do lobby e as pessoas se dividem entre tirar fotos das duas obras primas. Meus olhos, rapidamente, detectam um homem suspeito com os olhos atentos sobre as pessoas que passam no local. Escondo-me atrás da escultura e, discretamente, observo-o enquanto fala em um aparelho. Engulo em seco ao perceber que este, pode ser um dos homens que estão com Adam. Espero que ele não tenha me visto, mas decido segui-lo quando ele decide caminhar em direção aos elevadores. Assim que chega, o homem pressiona o botão e segundos depois a porta se abre. Ele se apressa para pegar um senhor em uma cadeira de rodas que parece mal humorado. Exalo um suspiro de frustração ao perceber que ele não tem nenhuma ligação com o Adam. Esse hotel é extremamente grande e eu decido não perder mais tempo com suposições. Entro no elevador e pressiono o botão que me leva até o último andar. Não sei exatamente onde devo ir ao chegar ao último andar, mas eu preciso muito achar a minha mulher. Assim que as portas se abrem a tensão do meu corpo é cada vez maior, já que homens disfarçados podem estar em qualquer lugar por aqui. Respiro profundamente e tento controlar os meus batimentos. Saio vagarosamente do elevador e meus olhos vagueiam ao longo do corredor vazio.


Caminho com os ouvidos atentos a qualquer barulho. A tensão está presente a cada passo e, de repente, meus pés param ao avistar uma mulher de vestido preto e chapéu, andando apressadamente com a cabeça baixa em minha direção. Ela está em uma distância considerável, levando em conta a grandiosidade deste hotel. Franzo o cenho e decido me esconder atrás de um imenso vaso e esperar que ela passe por mim. À medida que vai se aproximando seu rosto vai se revelando quando ela ergue seu olhar para frente. Meu Deus, é ela. É a Júlia. Ela segura a sua barriga de forma possessiva e meu coração bate violentamente no meu peito. Ela está bem, graças a Deus. Tento reprimir a emoção para não estragar tudo e, quando finalmente ela está bem próxima a mim, eu a puxo pelo braço, fechando sua boca logo em seguida com a mão direita. Ouço um grito abafado. — Shhh... Sou eu, Júlia. Andrew! — sussurro. Seus olhos me encaram e ela os amplia quando percebe que sou eu. Tiro, lentamente a minhas mãos de sua boca e, Júlia, imediatamente, pula em meu pescoço fazendo cair o seu chapéu. — Andrew, você conseguiu me encontrar! — Eu a abraço apertado como se minha vida dependesse disso. — Júlia. Como você conseguiu fugir? — questiono enquanto seguro seu rosto com as duas mãos. Ela está com um hematoma na lateral do olho direito e meu corpo treme de ódio. O desgraçado a agrediu. — Cindy, uma jovem que ajudou o Adam a me sequestrar. Ela me soltou quando a suíte estava vazia. — Tudo bem, não temos tempo! Vou tirá-la daqui, meu amor. — Puxo-a pelo braço e quando caminhamos em direção aos elevadores, meus pés ficam no chão ao ver o Adam, parado a poucos metros de onde estamos. Ele está com um sorriso sarcástico impresso no rosto e com uma arma apontada em nossa direção. Instintivamente, eu seguro a Júlia protegendo-a com o meu corpo. — Que bom que eu não precisarei voltar a Nova Iorque só para te matar — Adam diz com a arma ainda apontada. — Tive que matar a Cindy por me trair, está satisfeita, Júlia? — Sinto seu corpo tremer atrás de mim. Adam se aproxima um pouco mais e, sem pensar... Dispara. No impulso, empurro a Júlia, mas sinto a bala penetrando a minha barriga. Como em câmera lenta, encaro Adam que sorri vitorioso enquanto meu corpo desaba sobre o chão. Eu não quero fechar os olhos, eu não posso deixar que esse desgraçado pegue a Júlia novamente. — Andrew! — Júlia grita apavorada, mas meus olhos estão cada vez mais pesados. Ouço outro tiro, mas não tenho forças para nada e, em poucos segundos me entrego à escuridão.


Júlia Mãos pressionam a minha boca abafando um grito que sai instintivamente da minha garganta. — Shhh... Sou eu, Júlia. Andrew! — Meus olhos se ampliam ao ouvir aquela voz. Não pode ser, eu estou sonhando?! Inclino a minha cabeça e me deparo com a última pessoa que imaginei ver e a única que desejei ver durante todo esse tempo. — Andrew, você conseguiu me encontrar! — Sinto o seu abraço me apertado e seus braços trêmulos envolvendo possessivamente meu corpo. — Júlia, amor. Eu senti tanto a sua falta! — Sua voz está embargada enquanto enterra seu rosto na curva do meu pescoço. — Como você conseguiu fugir? — Cindy, uma jovem que ajudou o Adam a me sequestrar — informo-o. Nunca imaginei que o ciúme da Cindy me ajudaria a escapar. Adam me deixou na suíte e minutos depois Cindy entrou. Pensei que ela fosse tentar algo contra mim, mas, para minha total surpresa, ela apenas disse que o caminho estava livre e que ela queria ver Adam e Kate no inferno. Não protestei e saí o mais depressa possível. Peguei um chapéu que estava jogado sobre o chão da sala de estar como se ele fosse me proteger do mal e saí, já que não havia ninguém além de mim e ela. — Tudo bem, não temos tempo. Vamos, vou tirá-la daqui. — Andrew se apressa me puxando pelo braço, mas não demora muito para que meu coração volte a bombear de forma desesperada no meu peito. Adam está ali, com um sorriso sarcástico e uma expressão de sofrimento. Ele parece um louco, agora. A arma que ele segura está apontada em nossa direção e o pânico, novamente, toma conta de todo o meu corpo. Andrew se coloca em minha frente me protegendo, como se seu corpo fosse um escudo. — Que bom que eu não precisarei voltar a Nova Iorque só para te matar — Adam afirma com os olhos cravados no Andrew que me aperta com seus braços possessivos. Ele está tenso. — Tive que matar a Cindy por me trair, está satisfeita, Júlia? — ele cospe as palavras e essa informação me deixa apavorada. Ele a matou! Ainda com a arma apontada, Adam caminha em nossa direção e, sem aviso prévio, dispara. Rapidamente, Andrew me empurra contra a parede, mas logo em seguida vejo-o desabar sobre o chão bem diante dos meus olhos. Ele segura a sua barriga e então, lentamente, vejo-o ficar fraco e inconsciente. — Andrew! — meu grito sai desesperado e logo estou ao seu lado


segurando sua cabeça e tentando fazê-lo ficar acordado. — Agora é a sua vez, sua vadia! — Adam chama a minha atenção com a sua voz tomada pelo ódio irracional e minhas lágrimas descem desesperadas enquanto ele segura o gatilho. O barulho reverbera em meus ouvidos e meus olhos se fecham com desespero, mas eu não sinto nada. O medo ainda está presente em cada poro, mas eu não sinto que ele disparou contra mim. Abro os olhos e me deparo com o Adam caído e o sangue saindo de sua cabeça. Alguém atirou nele. De repente, Kate surge do nada e corre para pegar a arma que Adam segura mesmo morto. Será ela quem o matou? Ela não faria isso! Ela está do lado contrário no corredor e, no impulso, eu corro na mesma direção para tentar alcançar a arma primeiro que ela. Porém, Kate consegue pegá-la primeiro e, rapidamente a aponta para mim. Estamos apenas eu e ela. Seu nervosismo pode ser sentido, mas ela não solta a arma. Meu coração bate violentamente apenas esperando que ela aperte o gatilho. A tensão está entre nós e a arma em suas mãos trêmulas demonstrando o seu total transtorno emocional. — Não faça isso, Kate — imploro com lágrimas deslizando sobre minha face. — Vocês mataram o Adam. — É a única coisa que ela diz antes de uma bala atravessar a sua cabeça e ela desabar sobre o chão. Minha boca está em formato de "Ó" enquanto meus olhos encaram os dois corpos inertes e ensanguentados. Kate também levou um tiro e eu não faço ideia de onde eles vieram. Inesperadamente, policiais e atiradores de elite surgem de vários lugares diferentes na extensão do longo corredor do hotel Bellagio e, rapidamente, estamos cercados. Acho que, pelo menos dez portas se abriram instantaneamente e dali de forma silenciosa e estratégica, eles agiram. Eles estavam apenas esperando o momento certo para atirarem. Volto correndo para onde Andrew está e o meu desespero se multiplica ao perceber que ele está desacordado. — ALGUEM ME AJUDA! — meu grito sai desesperado junto com as lágrimas que fazem a minha vista embaçar. Andrew está inconsistente e sangue sai de forma contínua da lateral de sua barriga. Os paramédicos também surgem e o corredor em questão de segundos parece pequeno com essa pequena multidão de pessoas. Sou forçada a me afastar do Andrew e, quando menos espero, sou colocada em uma maca. Sinto um oxigênio sendo colocado sobre minha boca e os primeiros socorros são feitos. Porém, estou inquieta, agitada demais pensando em como o Andrew está.


Enquanto eles vão me afastando, tento procurar um Andrew indefeso enquanto os paramédicos tentam salvá-lo. Eu não sei o quão mal ele está, mas as lágrimas de desespero descem dos meus olhos. Isso me apavora ainda mais. — Não me tirem de perto dele. Eu preciso do Andrew ao meu lado! — grito, desesperada, mas eu sinto algo me espetando e meu corpo imediatamente relaxa e minhas pálpebras pesam. Eles me sedaram. Aquele tiro poderia ter me atingido, mas ele foi o meu escudo me tirando da mira do Adam. No fim das contas, ele me protegeu com a sua própria vida. Se duvidava um segundo do seu amor. Agora eu não duvido mais. Meus olhos se fecham e a escuridão toma conta de mim... *** Estou no Spring Valley hospital de Las Vegas e minha saúde, graças a Deus está bem e por mais que eu tenha passado por intenso estresse, a gravidez não foi afetada. Acabo de acordar e vejo que agulhas estão enfiadas nos meus pulsos. Estou muito sonolenta ainda, mas não quero dormir. Preciso saber como está o Andrew. O homem que arriscou a sua própria vida para me proteger. — Finalmente acordou. — Uma enfermeira surge com um sorriso no rosto. Ela começa a medir a minha pressão sem dizer mais nada. — Eu quero notícias do meu noivo! — peço com a voz sonolenta, mas ainda muito aflita. — Você precisa descansar. Pense no bebê — ela aconselha, mas eu sei que a minha filha está bem. — Prometo que vou procurar saber do seu noivo. Acabei de chegar para o meu turno e não sei nada sobre ele. Ainda angustiada eu só consigo acenar para a senhora de mais ou menos cinquenta anos. Será que é difícil para essas pessoas entenderem que eu só irei me acalmar quando tiver notícias do Andrew? Deus, que ele esteja bem. Eu não saberia viver sem ele. As lágrimas começam a brotar dos meus olhos e o desespero toma conta de mim. Meu mundo gira em torno daquele homem e da nossa filha. *** Não percebi quando adormeci, mas o fato é que estou em Venice, a praia onde achei que nunca voltaria em meus sonhos. No entanto, estou aqui e pensei que jamais veria a mãe do Andrew novamente. O que está acontecendo? Onde ela está? Meus olhos passeiam por toda a extensão da praia, mas não vejo nada. Apenas areia, o mar, as palmeiras e nada de Alice. O mar está calmo e o vento


sopra os meus cabelos fazendo-os dançar. Estou caminhando sozinha com as mãos sobre minha barriga em um vestido branco. Sinto-me leve, em paz, mas eu não entendo o que, de fato, vim fazer aqui. — Júlia? — a voz do Andrew me chama a atenção e, quando me viro, vejoo caminhando a passos largos e desesperados em minha direção. Quando ele finalmente se aproxima, percebo ainda mais o seu desespero. Seus olhos estão aflitos enquanto observa a minha barriga. Inesperadamente, Andrew me envolve em um abraço apertado e urgente. Posso sentir o seu cheiro que é totalmente bem-vindo. Ele se afasta apenas para colocar suas mãos sobre minha barriga e nossa filha se mexe instantaneamente. Lágrimas descem dos seus olhos e eu acredito nunca tê-lo visto tão triste. De repente, uma claridade muito familiar atrapalha minha visão e eu lamentavelmente... acordo. Dou um sobressalto e agora eu estou só, no quarto do hospital. Minha mente volta ao sonho que, ao mesmo tempo em que é bom, não deixa de ser estranho. Porém, o pânico se instala em mim. — Andrew? ANDREW? Por que ele estava na praia? Por qual razão ele estava me abraçando daquela forma? — Isso me leva a apenas uma conclusão. — Não pode ser! Não! Ele não faria isso. Ele não me deixaria aqui com a nossa filha. Meu Deus, não pode ser. Andrew não pode ter me deixado. Por que ele parecia tão aflito e tão desesperado? — Querida, durma! — a enfermeira surge com uma expressão preocupada. — Estamos no meio da madrugada. — Encaro-a com os olhos encharcados. — Eu quero notícias do meu noivo. — Ela me analisa com uma expressão de pena e por mais que eu queira notícias dele, eu não sei se estou preparada para ouvir o que ela vai me dizer. — Querida, você tem que se acalmar! — NÃO! Por favor, eu sei que você sabe sobre meu noivo. Eu preciso saber! — imploro com a voz desesperada e ela solta um suspiro resignado. Ela me encara e sua expressão é nitidamente triste. — Ele passou por uma cirurgia delicada. — Ela solta o ar pesadamente. — Querida, eu sinto muito ele... — NÃO! — solto um berro e ela se assusta. — Acalme-se. Ainda é muito delicado o seu estado, querida. Queríamos poupá-la, mas... — Não pode ser! Não pode ser! — E de repente, tudo se confirma em minha mente: Andrew estava se despedindo de mim.


Epílogo Quase dois anos depois... As folhas do Central Parque estão em uma bela tonalidade. Mais uma vez a natureza em Manhattan se veste de um colorido impressionante. Lembro-me como se fosse ontem o dia em que vi essa belíssima paisagem pela primeira vez. Estava na janela do meu quarto, na casa da Jessica. Mal sabia, que minha vida naquele momento, iria mudar irrevogavelmente. O vento sopra os meus cabelos e com ele sinto a liberdade mais simples, a liberdade que eu desejava mais do que tudo. Poder andar nas ruas, nos parques sem imaginar que um psicopata e uma louca estão me perseguindo... é maravilhoso. Agora posso observar tudo ao meu redor de forma tranquila e segura, admirando cada pedaço que antes, passava despercebido. Respiro profundamente enquanto as lágrimas escapam dos meus olhos. Não sei se serei capaz de esquecer aquele dia. Sim, fiquei mal por um tempo, mas um dia eu sabia que deveria seguir em frente. Embora tenha sido ruim passar por cada dia imaginando que seria morta a qualquer momento, não poderia me vitimizar. Não poderia viver em auto piedade para sempre. Todos passamos por momentos ruins na vida e nem por isso esse momento significa que sua vida acabou. Eu não sou assim. Estou viva e tenho uma filha para cuidar, para dar carinho e, principalmente, dar todo o meu amor. Simplesmente não poderia me entregar. Não queria me entregar. Minha mente sempre voa para o Andrew e como aquele dia mudou completamente nossas vidas. O homem que mudou a minha vida. O único homem que eu amei e vou amar para sempre! Minha filha é linda. Dei a ela o nome de Alice em homenagem a mãe do Andrew. Eu precisava fazer essa singela homenagem pelo Andrew. Eu sei que a Alice, onde estiver, estará feliz por isso. Alice é a cara do Andrew. Tudo nela me lembra, Andrew! Ela é, sem dúvida, um pedaço de um grande amor. Um pedaço de um amor único e verdadeiro. Seus olhos são grandes, verdes claros e cabelos escuros. Seus cílios são longos, exatamente como os do pai. Com apenas um ano e três meses, ela é tão teimosa quanto o pai. Adoro quando ela fica séria, contrariada com algo. Consigo imaginar o Andrew bebê quando ela faz isso! O pai do Andrew diz que seu filho era exatamente assim. Alice é uma verdadeira cópia do pai e ainda por cima tem esse jeito mandão. O que seria de


nossas vidas sem Alice? O que seria da minha vida sem Alice? Não tem como não olhar pra ela e não me lembrar de cada pedacinho do Andrew. Impossível! No dia em que o Andrew estava em estado grave no hospital eu tive um sonho, um aviso. Quando a enfermeira me disse que ele estava mal, eu não sabia de fato o quão mal ele estava. Desse momento em diante, eu sabia que seria difícil, e foi. Tive que ser forte. Tive que suportar essa dor, esses momentos, mas mesmo grávida, eu consegui estar lá sem desabar. A única coisa que me deixou de fato aliviada foi a morte da Kate e Adam. Que Deus possa me perdoar, mas eles tiveram o destino que mereciam. Toda quadrilha que traficava drogas e armas que vinha do México e Uruguai foi presa em poucos dias. Os jornais não falavam em outra coisa. A notícia teve repercussão mundial e toda vez que eu saía nas ruas, tive que lidar com alguém da imprensa. Nada que me chateasse, no entanto. Sei muito bem que John é um dos homens mais ricos dos Estados Unidos e estar grávida de um neto dele, de fato, gerou uma grande especulação. Fui sequestrada principalmente pelo seu dinheiro. Pelo dinheiro da família. Ele acha que nunca irá me compensar pelo o que eu passei nas mãos do Adam, mas eu já fui recompensada. Minha filha nasceu saudável. Ele não me deve nada, afinal, se não fosse por ele, nunca teria conhecido o meu grande amor, o homem que estará impregnado em mim para sempre! Daniel e Jessica se casaram e não perderam tempo. Jessica está grávida. Isso mesmo! Foi uma surpresa para minha amiga que estava trabalhando muito e só queria um filho no próximo ano. Mas como o destino nos prega peças ela não se opôs a essa dádiva de Deus. Minha amiga será mãe. Ela será uma grande mãe. Eles moram em Nova York e hoje, Daniel tem a sua clínica particular. Porém, em breve ele fará uma de suas viagens para salvar alguém no mundo. Os dois fazem um casal perfeito. Daniel sempre pensando no próximo e minha amiga, sempre o apoiando. A madrinha da minha filha está radiante. Na época de toda essa tragédia que nos aconteceu, Jessica me apoiou a todo o momento depois que meus pais tiveram que voltar para o Brasil. Hoje eu não desejo menos que a sua felicidade. Sento-me sobre o gramado de um verde intenso. Daqui, observo John babando pela Alice que sorri enquanto a joga para o alto. Ouço aquela gargalhada gostosa que me faz abrir um sorriso imenso. Fico emocionada com o amor do avô por sua neta. John sempre se lembra do Andrew quando bebê, sempre que olha para ela. Acho que ele sente saudade! Betty, como sempre, está cercando John a todo o momento, preocupada. É muito engraçado ver os dois disputando a atenção da nossa Alice. Hoje é dia de piquenique no Central Parque. Estamos aproveitando esses


raros dias em que a temperatura eleva um pouco para sair de casa com Alice. Ela adora! John vem para NY duas vezes por mês. Ele simplesmente não vive sem ver a neta. Quer nos levar para morar em Los Angeles de qualquer jeito. Porém, isso não será possível. Essa semana inaugurei minha própria galeria. Agora exponho minhas próprias fotografias, pinturas de artistas renomeados e de artistas anônimos. Estou nas nuvens com meu novo trabalho e não pretendo me mudar tão cedo. Sobre o Brasil, também não pretendo voltar. Sinto que a minha vida é aqui. Segundo a minha mãe, Pedro está noivo, mas sempre entra em contato para conversar. Ela diz que ele ainda pergunta sobre mim e acredita que ele ainda me ama, mas nunca diz nada sobre me ver. Quem sabe essa nova mulher com quem ele está, o faça realmente feliz? Ele é uma ótima pessoa e eu só desejo o melhor para ele. Exalo o ar profundamente e Betty caminha em minha direção com Alice em seus braços. Ela está chorando e eu não sei o que pode ser dessa vez. — Oi, meu amor! — Ergo meu corpo, aproximo-me delas e Alice abre seus bracinhos fofinhos para mim — Papa... — Alice diz, me fazendo paralisar. Encaro a Betty com uma expressão de surpresa e ela está igualmente admirada. — Ela falou... papa? — pergunto com os olhos marejados e Betty sorri. — O que houve? — John está aqui e eu nem havia percebido. Ele nos observa com uma expressão interrogativa. — Ela disse papa! — informo-o e ele sorri amplamente. Alice tem seus olhos gigantes ainda mais verdes por causa das lágrimas. Ela chora e eu já sei qual é o motivo. — Oh meu amor, não chore! Mamãe está aqui! Coloco seu pequeno corpo sobre meus ombros e a consolo segurando sua nuca e balançando-a de um lado para o outro. — Porque vocês estão chorando? — Viramos ao som da voz do Andrew que está parado a poucos metros de distância. Ele nos encara com as sobrancelhas unidas. Ele está com a roupa de trabalho e seu terno está pendurado sobre seu ombro. Bom, aquela história sobre eu nunca me acostumar com este homem, ainda está valendo! Andrew está cada vez mais lindo e isso não é justo. Mesmo depois de um dia exaustivo de trabalho ele parece ainda mais sedutor. Sempre olho para aquele homem lindo e agradeço a Deus por ele ter saído daquele hospital totalmente recuperado. Andrew havia perdido muito sangue, mas tanto o pronto atendimento quanto a cirurgia, foram primordiais para sua rápida recuperação. Ele caminha em nossa direção até ficar próximo a mim e Alice.


— Eiii! — Andrew sussurra com um olhar admirado sobre a nossa filha. Andrew parece ter olhos somente para ela, agora. — Papai está aqui — ele diz e Alice levanta sua cabeça ao ouvir o som de sua voz. Sua expressão triste imediatamente se transforma e ela está alegre novamente. Seus olhos gigantes brilham e Alice sorri para o pai. — Papa... — ela diz novamente e Andrew fica momentaneamente estático ouvindo sua filha falar sua primeira palavra. — Ela disse... papai? — Nego com a cabeça — Ela disse papa! — informoo e ele sorri com os olhos brilhantes. Andrew está nitidamente emocionado. — Sua primeira palavra! — ele diz e eu aceno sorrindo e com lágrimas nos olhos. — Pá-pá! — sua voz é aguda é como uma ordem. Andrew finalmente pega a Alice no colo e começa a fazer o que ela mais gosta. Jogá-la pelo ar. Sua felicidade é palpável. Andrew estava ensinado Alice a dizer papai há meses. Ele se sentia frustrado ao tentar sempre fazê-la dizer uma palavra que, segundo ele, era tão simples pronunciar. Acho que não vejo o Andrew tão feliz desde o nosso casamento. Sim, nos casamos em Venice, o lugar que virou a praia dos nossos sonhos. Não existiria lugar mais perfeito para um casamento como essa praia que protagonizou os meus melhores sonhos. Fico ali, parada, admirando meu marido com a nossa filha nos braços. O pai com sua filha. É realmente a cena mais gratificante da minha vida. John reaparece e rouba Alice dos braços do pai. — Venha com o vovô. Você já matou a saudade do papai e o vovô tem que ir embora em breve. Andrew admira seu pai e sua filha enquanto eles se afastam e logo em seguida, se vira para me encarar nos olhos. — Senti a sua falta o dia todo! — digo, e ele solta o ar pelo nariz enquanto aproxima-se de mim. — Eu também senti a sua falta. — Seus lábios se curvam em um sorriso. Andrew me puxa e enrola seus braços ao redor da minha cintura. — Eu te amo tanto, Júlia — ele declara e seus lábios tocam os meus levemente. — Eu também! — sussurro com minha boca colada na dele. Em segundos, sua língua invade a minha boca e nos beijamos como dois adolescentes. Andrew enfia seu rosto na curva do meu pescoço e começa a inspirar deliciosamente provocando arrepios por todo o meu corpo. — Acho que está na hora de irmos para a casa. Preciso cuidar da minha


mulher — ele informa com um sorriso malicioso e eu aceno com os lábios curvados. — Acho que eu preciso de um banho! — afirmo e Andrew segura meu rosto com as mãos. — Acho que eu preciso te dar um banho. Aliás, eu preciso cuidar de cada curva do seu corpo com muito amor. Dar atenção minuciosa à minha esposa. — Andrew parece pensativo enquanto seus olhos vagueiam meu rosto. — No que você está pensando, meu amor? — Ele sorri e exala um suspiro profundo. — No quanto eu sou sortudo por ter você ao meu lado. A minha vida se tornou muito especial no momento em que te conheci... Não sei se foi amor à primeira vista, só sei que foi algo extremamente forte. — Não me faça te amar mais do que já te amo. É impossível — informo brincalhona e ele ri deliciosamente. Embora Andrew tenha ficado entre a vida e a morte, o cuidado que ele dedica a mim e nossa filha, é muito maior. Andrew aprendeu algo quando se deparou com a morte. Ele dá valor, assim como eu, nos momentos mais simples. Mesmo sabendo que não existe mais qualquer risco, ele quer sempre assegurar, muitas vezes ao dia, de que tudo esteja correndo bem. Ele continua dando atenção ao trabalho, mas dedica cada minuto do seu tempo para mim e Alice. Andrew sempre separa alguns dias na semana para que ele possa aproveitar ao máximo ao nosso lado e isso tem nos trazido aquela sensação de que não falta mais nada. A sensação de que tudo está completo. Tudo que eu preciso está aqui...


Fim Sobre a autora: De Belo Horizonte, Camila Ferreira deixou o Brasil com a família em 2011 para viver nos EUA. Sua primeira parada foi Nova Iorque, onde se inspirou para escrever o seus primeiros romances: "Infeliz Coincidência" e "Descobrindo Você" Aspirante a fotógrafa nas horas vagas e mãe em tempo integral, ela é apaixonada pelas coisas mais sutis. Acredita que o "simples" pode ter significados extraordinários Sua paixão pela escrita surgiu ainda na adolescência fruto das leituras que realizou. Por ser uma leitora compulsiva e apaixonada, as ideias foram fluindo, e o que parecia ser uma distração, se transformou em algo muito maior. Outros livros da Autora:

Adorável Cretino Descobrindo Você Depois que te Encontrei Inferno Perfeito


Table of Contents CAPÍTULO 1 Júlia CAPÍTULO 2 Andrew CAPÍTULO 3 Júlia CAPÍTULO 4 Andrew CAPÍTULO 5 Andrew CAPÍTULO 6 Júlia CAPÍTULO 7 Júlia CAPÍTULO 8 Júlia CAPÍTULO 09 Júlia CAPÍTULO 10 Júlia CAPÍTULO 14 Júlia CAPÍTULO 15 Júlia CAPÍTULO 16 Júlia CAPÍTULO 17 Júlia CAPÍTULO 19 Júlia CAPÍTULO 20 Júlia CAPÍTULO 21 Júlia CAPÍTULO 22 Júlia CAPÍTULO 23 Júlia CAPÍTULO 24 Júlia CAPÍTULO 25 Júlia CAPÍTULO 26 Júlia CAPÍTULO 27 Júlia CAPÍTULO 28 Júlia CAPÍTULO 29 Júlia CAPÍTULO 30 Júlia CAPÍTULO 31 Júlia CAPÍTULO 32 Júlia CAPÍTULO 33 Júlia CAPÍTULO 34 Júlia CAPÍTULO 35 Júlia CAPÍTULO 36 Júlia CAPÍTULO 38 Júlia

Infeliz coincidência - Camila Ferreira  
Infeliz coincidência - Camila Ferreira  
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