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"A gentileza é de graça. O amor também." Cinderela (Adaptação 2015)


— 1 — Acordei em cima de algo firme e macio, fazendo com que eu me remexesse e me aninhasse ainda mais ali, de olhos fechados, sentindo os raios cálidos do sol matinal banhar meu corpo. Sorvi o cheiro bom que emanava debaixo do meu nariz e me perguntei que diabos de cheiro tão bom era aquele. Abri meus olhos limpando a baba que escorria do canto dos lábios e mirei a pele alva que tomava forma com as perfeitas ondulações. Meu rosto esquentou quando percebi que aquilo se tratava de um abdômen. Um grande e bem definido abdômen. Oh, não! O que foi que eu fiz? – Me levantei abruptamente, mirando o homem de cútis finas e com um enorme tufo de barba cobrindo quase toda a extensão de seu rosto. Ele tinha cabelos longos e dourados, que resultava em uma aparência similar a de um bárbaro, só faltava um machado. E este mesmo homem estava dormindo com o corpo esparramado no mesmo colchão o qual eu também estava sentada, nua e totalmente desnorteada. — Quem é você? – Murmurei choramingando comigo mesma, descendo o olhar por aquele corpo grandalhão e engolindo em seco quando minha visão parou em sua proeminência no finalzinho da barriga, coberta por um fino lençol, parecia grande e grosso. Um grunhido fez com que meu coração desse um pulo, e no mesmo instante, repuxei o lençol em meus pés, cobrindo minhas intimidades. — Bom dia! – A voz grossa e rouca soou como um tenebroso trovão como de uma impetuosa noite de tempestade. Tão logo fechei meus olhos e me comprimi por um breve instante, criando coragem para olhálo e respondê-lo. — Bom dia! – Soou como um piado, quando o olhei por cima do ombro e disse. Puta merda! Que olhos eram aqueles? O verde pingado nas órbitas se assemelhava a de um felino, caindo bem com seu rosto másculo e exuberante. Ele umedeceu os lábios de carmim, endireitando seu olhar para mim, estudando meu corpo, que a uma hora dessas, deveria estar todo encolhido debaixo dos lençóis. — Seja rápida! – Ele disse se levantando em um rompante, deixando o lençol cair enquanto procurava por algo em cima da cabeceira da cama. Desviei o olhar de sua obscenidade, enquanto fisgava o lábio inferior com a imagem daquele negócio enorme entre as pernas daquele homem. Não que eu nunca tivesse visto um negócio daqueles, mas eu só transei uma vez na vida, que foi na semana passada. Eu ainda me sentia muito envergonhada com aqueles


tipos de coisas. Ainda mais quando eu acordava com um desconhecido completamente nu, que tinha o dobro do meu tamanho e parecia ter uns anos a mais que eu. — Seja rápida, pra quê? – Perguntei baixinho olhando para minhas mãos. Ele pareceu me fitar ao meu lado, enquanto suspirava: — Para se vestir, ou pretende passar o dia aqui, nesse motel? – Ele perguntou impaciente olhando para os lados e recaindo sua atenção sobre mim em seguida. — Motel? – Sibilei. Ele pareceu suspirar pesadamente ao meu lado, então disse: — Garota, qual o seu o problema? Eu não tenho tempo pra perder. Cate suas roupas e vamos! – Ele falou mais grosso que da última vez, murmurando baixinho: — nem mesmo me lembro se valeu à pena, ou não – pestanejou. Céus, o que diabos eu estava fazendo ali com aquele homem grosso? – Pensei me martirizando. — Vamos? – ele perguntou mais uma vez com aquele tom áspero de grosseria. — Espere! Não ver que eu ainda não me vesti. Se teve tempo para tirar minhas roupas e fazer coisas em cima de mim... – engolfei, imaginando aquele grandalhão em cima de mim, no entanto, continuei afiada: — você também tem tempo para esperar que eu me vista. Ele me encarou como se eu tivesse desacatado a rainha da Inglaterra. Olhei em volta, e avistei meu vestido preto tubinho na beira da cama. Espichei-me para lá, sem deixar o lençol cair, e o tomei de lá. Antes que eu descesse o lençol, olhei para o homem em minha frente e disse: — Vire-se! Ele ergueu a sobrancelha em espanto e resmungou virando-se igual a um pingüim: — Espero que eu não tenha tirado sua virgindade. Respondi irritada, em alto e bom tom: — Não, não tirou. Passei o vestido por minha cabeça, e o ajustei em meu corpo. Senti a umidade entre minhas pernas, dando falta de outra peça. Ampliei minha varredura por o todo o quarto e encontrei minha calcinha no chão, na frente do idiota. Antes que fosse até lá, ele se abaixou e pegou o pedaço de pano branco nas mãos: — Está procurando por isto? Eu bufei e fui até lá, arrancando minha intimidade das mãos daquele cretino bonitão. Passei minha calcinha entre minhas pernas, a erguendo. Avistei ao lado da cama o Scarpin que Rafaela, minha melhor amiga, havia me doado, calçando-o.


— Vamos! – disse lembrando-me que não havia levado uma bolsa para a festa. Ele me olhou de esguelha, com uma indiferença estampada no rosto, e caminhou para fora daquele quarto de motel. Aliás, acho que aquele motel não era qualquer motel. Isso! Somente acho. Pois nunca estive em um. No entanto, aquele lugar era deslumbrante, parecia um tipo de hotel de luxo. Paredes em mármore, decoração em creme, detalhes em dourado. Sai acompanhada do bonitão rude em seu Austin-R8. Aquilo sim eu poderia afirmar: aquele carro era um verdadeiro luxo. Havia visto poucos em Florianópolis. Taciturnos, ouvia apenas um intimista barulho do ar condicionado recender no compacto espaço entre nós, o que era iminente. Afinal, éramos totais desconhecidos. Eu tentava me lembrar do aconteceu na festa da noite passada, mas quanto mais eu forçava minha mente, mais minha memória se embaralhava. Eu apenas me lembrava de Tomás beijando Lívia, a caixa do café o qual trabalhava. Quando percebi, o monumento estacionou no acostamento apenas três quarteirões depois do motel. — Tchau – ele disse ao meu lado, sem me encarar. — Não vai me deixar em casa? – perguntei incrédula. — Não costumo deixar os casos de uma noite em casa. – Ele falou me deixando perplexa. — Como assim? Acabamos de acordar juntos... — Querida, só saia do meu carro – ele virou me encarando com aquelas olhos verde-claros. — Que seja! – abri a porta e me coloquei para fora, e antes que batesse a porta com tudo, abaixei e falei mentindo para não ficar por baixo: — Adeus bonitão, que bonitão só tem de bonitão mesmo, porque é uma vergonha na cama. Vou pedir aos céus para nunca mais transar com um frouxo igual a você, mas acho difícil, já que você foi muito ruim. – Ele me encarava com o punho apertando o volante, enquanto eu ralhava. — Até nunca mais. – Bati com toda minha força a porta daquele cretino e subi na calçada pegando umas boas lufadas de ar. Escutei a arrancada do cretino ao meu lado e pincelei um sorriso satisfeito nos lábios. — Uau, eu até parecia uma vadia – comentei baixinho comigo mesmo enquanto ria. Percebi um casal de idosos sentados na frente de um café piscando freneticamente enquanto me fitavam. Quase em tom de cochicho, a senhora comentou com seu parceiro: — Zé, temos que cuidar que a Dudinha não fique desse jeito. — Não querida. Nossa neta nunca ficaria igual a essa... Moça; Oh, céus – sai dali morta de


vergonha, me lamuriando, desejando ter uma sacola de papel para poder enfiar na cabeça; Caminhei até a parada de ônibus mais próxima, e fiquei pensando no quão eu era idiota e burra, enquanto aquelas pessoas que ficavam analisando de cima a baixo. Eu deveria estar horrível com o vestido amassado e com o cabelo inchado, mas eu não me importava, chega uma hora que a gente não se importa mais. Como fui me embebedar e transar com um cara qualquer? Aposto que minha mãe não estaria orgulhosa de mim agora. Eu prometi para mim mesma que seria motivo de orgulho para ela, no entanto, as conjunturas da vida nunca corroboram com nossos planos e, muitas vezes, as coisas dão errado. Inclusive, minha vida toda.


— 2 — — Entra rápido – sussurrei para Rafa que entrava em passos furtivos na sala, tomando cuidado para não acordar Marlene, minha madastra, que estava assistindo TV no quarto. Isto porque eu estava terminantemente proibida de levar meus amigos para casa, principalmente Rafaela. Morávamos papai, Marlene, minha meia irmã de sete anos, a filha de Marlene de outro casamento e eu. Dois anos depois da morte de minha mãe, meu pai casou-se novamente. Eu tinha 15 anos quando ele se uniu a Marlene. Na época, não pestanejei, temendo abalar a felicidade do meu paizinho. No entanto, o que eu mais queria hoje em dia, é voltar no tempo e empatar aquele casamento, ou pelo menos, só tentar. Porém, quem diria que a mulher tão boa e terna que namorava meu pai se tornaria a madrasta má digna de um conto de fadas? Não que eu me ache a cinderela, já que não disponho de tanta ingenuidade e bondade. Eu tenho defeitos. Ô, se tenho! Mas a condição a qual vivia, por vezes, eu acabava me identificando com o meu conto de fadas favorito. Bati a porta de madeira do meu quarto, tão logo, pegando a sacola da morena de cabelos cor de rosa choque. — Trouxe o chocolate? – perguntei averiguando e abrindo as sacolas em minhas mãos. — Da melhor qualidade — ela disse sentando na beira do colchão, jogando as costas contra a espuma atrás, soltando um gemidinho sôfrego. Era o dia dos namorados, Rafa e eu tivemos a sorte de nossa folga cair nesse dia. No entanto, seria sorte se nós tivemos namorados. Mas pensamos: que se dane! Iríamos curtir do nosso modo o dia dos namorados uma com a outra, fazendo o que mais gostávamos de fazer: assistir um filmão da porra na netflix na TV que eu havia comprado no mês passado com o meu salário. Peguei a panela elétrica de fazer fondue no guarda-roupa, enquanto Rafa dizia: — Marlene sabe que trouxe isso aí pra cá? – Rafa perguntou curiosa. — Nem imagina – disse rindo, arrancando uma risada marota da minha amiga que adorava quebrar as regras. Liguei o aparelho na tomada e o coloquei em cima do criado mudo ao lado da minha cama de solteiro. Na TV, a série que iríamos assistir já estava pronta. Fiz o faltava, deitei-me ao lado de


Rafaela, fazendo com que ela passasse sua coxa direita por cima de minha cintura. — Será se devemos nos beijar, já que é o dia dos namorados? – ela falou em tom de troça mirando minha boca. — Sai, louca! Só curto homens – a empurrei para o lado caindo na gargalhada. — Falando em homens... – minha amiga não deixou a oportunidade passar, no entanto, eu sabia que de uma forma ou de outra, acabaríamos falando sobre o que rolou naquela noite. – Para onde foi depois da festa de ontem? Bárbara disse que saiu com um bonitão que estava na área vip. Disse que o cara é até famosinho. Ela afundou o cotovelo no colchão, apoiando seu queixo nas mãos, esperando que eu respondesse. Repuxei o lábio inferior com os dentes, um pouco sem jeito de falar o que aconteceu. — Er... – hesitei. — Er o que Natália? Tá me assustando, garota... — Eu acordei com um cara nu, que nunca vi em toda minha vida, em um motel – soltei atropelando tudo, deixando minha amiga embasbacada. Ela fechou a boca, enchendo-a de ar e depois explodiu uma gargalhada esganiçada. Pulei para cima dela, tampando a boca da garota. — Shiii, Marlene vai ouvir – ela tirou minhas mãos de sua boca e riu baixinho. — Gritoooooos. – Ela exclamava enquanto tentava recuperar o ar. – Mas iaí, ele é bonitão mesmo como Bárbara falou? — Não sei. Ele foi tão babaca que mal pude reparar se ele era bonito ou não – menti orgulhosa. Na verdade, ele era um puto de um gostoso. Digno de uma capa de livro erótico. — Ah, então, vamos reparar agora – ela disse sacando o celular do bolso e digitando algo que não pude ver. – Lembro que Bárbara mencionou um tal de Rick Mal alguma coisa. Bingo! – ela disse com um sorriso sapeca reluzindo no rosto: — Rick Maldonato. Puta merda! Misericórdia! – ela disse levando a mão para o peito num gesto de surpresa. – O que é isso, meu pai? Tem certeza que você deu para esse homem? – ela falou girando a tela para me mostrar a foto, enquanto eu pestanejava. — Que forma mais feia de dizer que transei com alguém – enquanto a censurava, engoli em seco em rever o rosto do homem que acordou ao meu lado. Ele estava de terno cinza e gravata azul-escura, estampando as primeiras imagens de resultados do Google. Ela reivindicou o celular para si, e caiu de costas no colchão, então a acompanhei quase


instintivamente, deitando ao seu lado. — Vamos ver o que ele faz da vida... – ela disse rolando a barra para baixo e puxando a ficha do cidadão. – Humm... Ele é um empresário. De qual ramo? Puta merda, ele é dono daquela marca internacional de carros luxos, a Strack; Comecei a ler sua ficha no Wikipédia, e Rafa fez o mesmo. “Rick Madolnato (Florianópolis, 09 de fevereiro de 1987) é um empresário do ramo automobilístico. Filho de dois grandes nomes do mercado nacional Renato Maldonato e Márcia Maldonato, Rick Maldonato construiu seu próprio império e é um dos principais nomes da indústria mundial, permanecendo no ranking dos 20 homens mais ricos do mundo por mais de cinco anos (...)” — Cho-ca-da! — Rafaela soletrava enquanto Naty ao meu lado. Ela rolou a barra para baixo, e eu reclamei: — Ei, eu estava lendo – resmunguei, ganhando a atenção de seus olhos castanhos. — Não foi a senhorita que fez pouco caso desse homão ainda agora? – ela ironizou, sorrindo por fim. – Espere! Preciso saber da vida pessoal desse pecado capital – ela continuou rolando a barra até encontrar em tacha alta: VIDA PESSOAL. Joguei meu corpo para o lado, fingindo desinteresse. — Eu tô no chão! – ela soltou surpresa, e não me contive e perguntei na hora: — O que foi? — Ok! Eu sou um ser humano, é quase inativo ser curioso. – Ele é casado? — Não, viúvo. A mulher dele morreu de câncer. — Tadinha – sibilei. — Tadinha de mim, se eu tivesse a chance de ter vivido na pele dessa mulher um dia sequer, já tinha zerado a vida. – Reprovei a asneira que ela havia dito meneando a cabeça de um lado para o outro, enquanto ela me mostrava a foto da ex mulher do tal Rick. Na foto, a mulher loira exuberante estava ao lado de Rick. Ela parecia muito com a princesa Diana. Parecia que estavam em uma festa de campo, já que a irmã gêmea da princesa Diana usava um vestidinho azul-calcinha, e Rick parecia confortável em sua blusa pólo e bermuda cáqui creme. — Olha esse tamanho! – Rafaela Cristina abriu a imagem, dando zoom na proeminência na bermuda do homem notoriamente feliz. Ela se virou me encarando com aqueles olhões e soltou: — Iaí, é grande mesmo? Juro que quase me engasguei com saliva.


— Rafaela! – a adverti. — Ô, fale logo Natália! Tô curiosa, é desse tamanho? – ela ergueu as mãos no ar para demonstrar, então fui rápida. — Não me lembro. – Eu poderia não me lembrar, mas poderia constatar isso com as assaduras que havia ganhado. Fora mais intenso que minha primeira vez na semana passada, com certeza. — Como assim, não se lembra. — Eu estava bêbada. — O que? Ele abusou de você... — Não. Não. Acho que não. Quando ele acordou, estava tão confuso quanto eu. — Não acredito amiga! Por que eu não deveria ter te deixado sozinha... Mas... Mas porque você bebeu tanto? Desviei o olhar e ela logo pegou no ar. — Thomás, né? Balancei a cabeça em positiva. — Ele estava lá com ela. — Amiga, escute! Esqueça aquele canalha. Ele não te merece – ela falava do meu quase namorado, com quem eu perdi a virgindade semana passada e, dias após, começou a sair com a nossa colega de trabalho, Kelly. – Você é linda, inteligente e meiga, chega a ser até um ultraje ver aquele pedaço de lixo ao seu lado. E agora que você pegou o homem mais sensual do planeta, não tem nada que sofrer por aquele cretino. — Mas amiga... — Mas amiga nada. Uma piroca de ouro conheceu tua pepeca e tudo que me diz é: Mas amiga... Ah, Natália me poupe – ela cruzou os braços em revolta, arrancando-me uma gargalhada baixinha. Cessando a crise de risos bobos, eu disse: — Vamos logo apertar o play nessa série, senão vamos ficar a tarde todinha conversando – espichei meu corpo para cima, tomando o controle jazido da superfície lisa do criado mudo. — Mas Natália... – rolei os olhos nas órbitas e indaguei suspirando. Assim nunca assistiríamos sequer o primeiro episódio.


— O que foi? — Eu estava pensando agora nestes últimos segundos: vocês usaram camisinha? Sua pergunta foi o estopim para o meu surto de paranóia. — Não sei... Quero dizer... Não lembro – titubeei coçando o topo da cabeça. – Ah meu deus... — Não se preocupe, Naty! Pessoas ricas como ele não falham em se proteger, afinal, não vão querer um herdeiro qualquer por aí, né? Com certeza, o bonitão se preveniu. — Mas, e se ele não se preveniu? – perguntei em desespero. – Ele parecia ter acordado confuso, como se tivesse esquecido. — Aí você tirou a sorte grande, minha amiga – ela disse em tom de troça. — E se ele tiver uma doença? – choraminguei na possibilidade de contrair os vírus do HIV em meus jovens 19 anos. — Pare de ser tão negativa, garota! Eu heim, vira essa boca pra lá. — Mas tem essa possibilidade... — Natália ele se protegeu, está bem? – ela disse se virando pousando as mãos em meus ombros e me sacudindo. – Agora, vamos derreter esse chocolate e assistir nossa série, antes que você surte. — Ela se levantou pegando o chocolate, rasgando o invólucro, fazendo todo o procedimento ao lado enquanto eu forçava a memória, com a mão na boca, arrancando uma lasca de unha com os dentes. Quando percebi, Rafaela havia se colocado ao meu lado com a tigela de chocolate derretido e os morangos nos palitinhos. Antes de apertar o play, senti sua mão roçar em meu ombro e dizer: — Esquece essa estória, Naty. Vou dar o play. Só relaxa e goza, bebê. Por mais que Rafa tentasse me divertir naquela noite, eu não parei de pensar um sequer segundo naquilo. No entanto, no final da noite, eu obriguei-me a esquecer. Pois na minha cabeça, ficar grávida naquele momento da minha vida, era quase uma tragédia.


—3— Dois meses depois... — Tem certeza, amiga? – perguntei fitando os olhos preocupados de Rafaela. Nós havíamos fugido do expediente, aproveitando a pouca movimentação no café para fazer o teste de gravidez no banheiro. — Sim, amiga. Quero dizer, esses testes podem falhar, mas... — Mas? Ela suspirou e disse: — Mas é quase uma raridade isso acontecer. — Eu tô morta – disse cobrindo o rosto com as duas mãos. Rafaela me envolveu com seus braços me alentando. — Não se preocupa amiga. — Como eu não vou me preocupar? – Perguntei enterrando meu rosto no ombro de Rafa, molhando seu uniforme com minhas lágrimas. – Eu tô fodida, Rafa. Papai vai me matar. E de sobra, Marlene fará a cabeça dele para me colocar na rua. Eu tô muito fodida Rafa. – Eu disse desabando um choro violento. – Eu quero minha mãe, Rafa – murmurei entre soluços; Rafa me repeliu cuidadosamente, e bramiu: — Ei, você tem a mim, ok? Eu não vou te deixar sozinha nessa, amiga. – Ela tornou a me abraçar em seus braços aconchegantes, enquanto a angústia corria-me por dentro. *** Rafaela havia me acompanhado aquela noite até minha casa, com receio que eu pudesse desmaiar no caminho. No ônibus, conversamos sobre o que eu iria fazer nos próximos dias. Acabei resolvendo que esconderia a gravidez até onde desse. Assim, sobraria tempo para eu juntar um bom dinheiro, caso eu fosse expulsa ao contar a minha família sobre. Abri a porta de casa e vi que meu pai havia chegado de viagem, pois suas botas estavam alinhadas na entrada da sala. Aliás, apesar de morarmos no sul, papai conhecia todo o Brasil de cima, pois ele era caminhoneiro. Um ofício difícil, no entanto, era o que sustentava nossa casa. Papai não estudou muito, e Marlene muito menos. Papai contava que mamãe era fascinante, porque Naty Platão e Homero nos finais de semanas, quando tinha folga do cargo de


professora da prefeitura de Florianópolis. Ah, ele me contava isso maravilhado! Claro, ele que contava isso longe dos ouvidos de Marlene, que até mesmo tinha ciúmes do amor que meu pai tinha por mim. — Vem! – falei sorrateiramente para que Rafa entrasse sem fazer barulho. Fomos até a cozinha, onde serviria um copo d’água para a garota sedenta de líquido, que iria para sua casa logo mais. Abri a geladeira e pescando a jarra de lá, despejando no copo de Rafa. — Huummm, que cheiro bom é esse? – Rafa enrugou o nariz antes de colar os lábios no copo. — Manga – eu disse vislumbrando a bacia com as viçosas mangas na segunda prateleira da geladeira. De repente, me garganta comprimiu-se, então bati a porta da geladeira, enchendo a boca de ar. Meu suco gástrico subiu grosseiramente até minha goela, fazendo com que eu procurasse desesperadamente um lugar para descarregar aquilo. Fui até a pia e jorrei todo o meu almoço no ralo. Puta merda! Que lambança! Rafa pendeu meus cabelos no topo da cabeça, enquanto eu trabalhava em liberar toda a gosma aquosa e nojenta. Terminando, Rafa espichou-se para o lado para capturar um pano de prato sem que deixasse escapulir meus fios, e me entregou o tecido nas mãos. Limpei os resquícios de vômito dos cantos dos lábios, e ela me fitou com o cenho enrugado: — Ô, Naty! Tomara que essa fase passe logo, senão ficará difícil esconder sua gravidez de Marlene se vomitar toda hora. – Rafa comentou, fazendo-me concordar. Eu não poderia sentir nenhum um cheiro esquisito, que já me sentia enjoada. — Grá-grá, o quê? — vir-me-ei e dei de cara com Marlene na soleira da porta da dispensa, com os olhos azuis estupefatos. Silenciei tão surpresa quanto ela. — Responda Natália! Você está grávida? Merda! A casa caiu. *** Estávamos todos reunidos na sala: minha madrasta; meu pai; Jéssica, a filha de Marlene, Rafaela e eu. Clarinha já estava lá em cima dormindo, quando Marlene chamou meu pai, quase


me obrigando a falar para ele sobre minha condição. — Menina, eu já disse que isso é uma reunião familiar... – Marlene dizia para Rafa sentada ao meu lado no sofá de frente para o meu pai. — E eu já disse que eu não saio daqui nem arrastada – Rafa disse turrona erguendo a sobrancelha para a megera que cuspia fogo pelas ventas com a petulância de Rafa. — CUIDEM! Eu quero assisti o jornal. O que tanto vocês têm para me contar? – meu pai resmungou ajeitando seu corpo robusto de caminhoneiro no sofá. — Natália vai lhe contar – Marlene falou me olhando incisiva. Vi o rosto cansado de meu pai, marcado por alguns vincos de estresse e me senti horrível em ter que contar aquilo para ele. Ele trabalhava tanto para sustentar aquela casa. Era de dar dó ter que contar aquilo para ele. Marlene me olhou mais uma vez com aquele olhar ameaçador de: se não contar, eu conto. Inspirei fundo, repuxando o lábio inferior com os dentes, criando coragem para dizer: — Pai... – minha voz soou trêmula. — Sim – ele me fitou com aquele olhar complacente que só ele dispunha. Precisei pegar outra lufada de ar para soltar aquilo, apertando os olhos disse: — Eu estou grávida – fui rápida como um raio. Abri os olhos morosamente, e meu coração partiu ao ver o rosto de meu pai mergulhado na amargura de uma decepção. — Natália minha filha! – ele disse antes de seus olhos encherem de lágrimas. – Como é que você faz isso? Nunca, nunquinha na vida, eu havia presenciado meu pai chorar. Fora numa noite de julho que o vi transbordar tristeza, por minha causa. Meu coração nunca sangrou mais que isso. *** — Seu namorado sabe? – meu pai perguntou, então balancei a cabeça freneticamente. — Ele não é meu namorado. – Confessei percebendo que quanto eu mais falava, mais ele esmorecia. — Mas o pai sabe? – Marlene perguntou parecendo tomar as rédeas da situação. — Ele... Eu não o conheço muito bem... Foi só uma noite... – Jéssica abafou um gritinho e comentou: — Que vadia!


— Cala a boca, naja filha! – Rafa rosnou para a garota loira ao lado. — Do que me chamou? – Jessica bramiu para Rafa que já estava espumando. — Cala a boca, Jéssica – Marlene repreendeu a própria filha e falou se levantando e concluindo: — Falarei com Rosa – falou se referindo a mulher que morava na última casa da rua. – Ela faz esse tipo de serviço. Tiraremos isto aí amanhã mesmo. — O quê? – Rafaela quase se engasgou. Com os olhos lacrimejando, soprei para o homem que me encarava no sofá à minha frente: — Pai... – aquilo soou como uma súplica. No entanto, ele desviou o olhar para o lado, negandome qualquer apoio. — Vocês estão loucos? ISSO É UMA VIDA. – Rafaela vociferou indignada. Eu continuava chorando igual um bebê sem raciocinar direito. Parecia que todos os meus hormônios estavam borbulhando, enquanto eu me sentia completamente desnorteada naquela sala. — Baixa o tom de voz, ratazana. Ou te jogo pra fora daqui agora. – Marlene disse entre dentes para Rafa. — Para, amiga! Vá embora! Está tudo bem – pedi entre fungadas, me sentindo a pessoa mais impotente do mundo. — Eu vou! Mas eu vou com você – ela falou tomando meu braço enquanto eu a indagava: — O quê? O que está fazendo, Rafaela? – perguntei enquanto ela me arrastava pela sala. — Te tirando daqui – ela disse antes de passar pelo o batente da porta de entrada, quando escutei a advertência de Marlene reverberar em minhas costas: — Se sair, não volta mais. – Ela disse sem dó, quando Rafa bateu porta de madeira imbuía com toda com sua força. — Rafa... — Você acha mesmo que seu pai não te deixará voltar? – Rafa lançou-me a reflexão. Pensei e neguei fisgando o lábio inferior. — Então, amiga! Vem comigo! Só hoje, eu tenho um plano! – minha amiga disse com um brilho nos olhos, e algo me dizia que deveria segui-la. – Vamos salvar a vida dessa criança, custe o que custar. *** — O que tanto olha aí? – perguntei espiando a tela do celular de Rafa, ao meu lado.


Estávamos no banco traseiro de um táxi, cruzando a cidade, com o destino marcado para um hotel que só ouvia falar nas colunas sociais de revistas. — Estou vendo se tudo está em seus conformes. — O quê? Rafaela Cristina, o que está aprontando? – perguntei impaciente. Ela me encarou com o peito cheio, então soltou o ar, rendida: — Ok! Ok! Ok! – Ela ergueu os braços no ar, com um biquinho nos lábios cheios. – Vou contar. Mas prometa que vai ouvir até o final – ela condicionou. — Fala logo! Um silêncio veio, mas tão logo ela começou: — Naty, eu andei esses dias investigando os passos do pai do teu filho. — É o quê? ... O que você fez? – titubeei boquiaberta. — Calma, Naty. Eu já desconfiava que você estivesse grávida, quero dizer, eu tinha quase certeza. Ninguém tem enjôos frequetemente quando se tem a possibilidade de ter transado sem camisinha há algum tempo atrás... Então, Naty, tomei a atitude e resolvi investigar a vida dele, e o que ele anda fazendo, já que não é tão difícil, pois a vida do individuo está quase toda esmiuçada no Google. — E? — E estamos indo o ver, para você contar toda sua situação pra ele – ela disse tão simples que quase gritei. — Como assim? Você não falou com esse homem, né? — Não. Não. Escuta: ele vai a um coquetel hoje no Pestana Hotel. Tudo o que temos que fazer, é conseguir entrar lá e pedir para falar com ele. Certo? Eu a olhei, um pouco receosa, então ela suspirou: — Amiga, essa é a chance. Pensei que teríamos mais tempo, mas você sabe o que pode acontecer, né? Não se envenene com o torpor da tua família. Eu nunca fui mãe, mas imagino que todas as mães querem proteger seus filhos. Não deixe que nada aflija teu amor por essa criaturinha. Se ficar chorando agora, sem fazer nada, uma vida toda de arrependimentos estará a tua espera. – No final, Rafa deu voz ao meu coração. Dando-me forças para lutar. — Mas no que esse homem pode ajudar? — Em tudo! Ele é rico. Se ele assumir o filho, vocês com certeza terão um lugar para morar. Assim, poderás decidir por si mesma. – Ela disse aquecendo minhas mãos e me animando. Lancei meu corpo contra o dela, envolvendo-a com os meus braços, dizendo: — Obrigada,


Rafaela Cristina! – agradeci profundamente afundada em seu ombro de linho.


—4— Quando Rafa explicou seu plano no carro, parecia tudo muito fácil. Entretanto, a realidade não era bem assim. Enquanto estudávamos os enormes seguranças conferindo as credenciais no hall de entrada do prédio, em frente ao acesso das salas de eventos, não vi a mínima possibilidade de entrarmos ali, sem que fossemos notadas. — Bingo! Olhe ali – ela chamou minha atenção para o homem que empurrava um carrinho enorme que ia em direção a porta dos seguranças. – Vem! – eu a segui e quando vi, já estávamos caminhando ao lado do carrinho, em paralelo. A estrutura metálica era tão grande, e estava tão abarrotada de caixas, que mal o senhor que o empurrava conseguia enxergar a frente, dobrando-se às vezes para o lado esquerdo, enquanto seguíamos pelo o direito. Com o coração palpitante, passamos pela a entrada sem sermos notadas pelos os armários de preto. Uma grande façanha. Desviamos do percurso do carro móvel cargueiro e ficamos a solta em um jardim de grama tão verde e viçosa, que tranquilizava os olhos. Alguns garçons passavam entre nós, equilibrando as taças de champanhes nas bandejas brilhantes. Avistamos um salão no meio do jardim, todo emparedado por vidros temperados. Ali, do jardim, poderíamos olhar perfeitamente tudo o que ocorria lá dentro: As mesas cobertas por toalhas finas e bordadas, de um gosto altamente refinado. Coisa de granfino mesmo, sabe?; As orquídeas Pink que estavam presentes em todos os cantos, abrilhantando o ambiente; o palco decorado, combinando com o resto do salão; E as pessoas, tão elegantes que me envergonhei de minhas vestes. Na verdade, não precisava de muito para me envergonhar, já que estava acabada em meus All Stars, jeans, e blusão de tricô vermelho, com uma árvore de natal enorme sob toda a extensão do meu tronco. Eu estava exatamente da mesma forma que volto para casa todos os dias depois de uma tarde de trabalho, num mês de natal. Meu cabelo estava amarrado em um coque tão mal feito, que Rafa o desfez na hora, alinhando os fios de minha franja em seguida e sussurrando: — Não pode chegar nele assim — ela disse sacando um batom laranja da bolsa, dando leves batinhas em minha boca pálida – Prontinho! Deixe-me ver? – ela analisou meu rosto, fazendo-me piscar: — Está ótima! – ela disse estalando a língua no céu da boca. — Só você mesmo para me fazer rir nesses momentos – disse soltando uma risadinha baixa. — O que foi? Está nervosa? — Morrendo de nervoso – confessei.


— Eu também – ela disse esfregando as mãos na calça em um frio lancinante. – Vamos procurá-lo? Inspirei fundo e meneei a cabeça para frente em positiva. — Vamos! Fomos em direção ao alpendre de vidro, abandonando a grama e fincando os pés no reluzente chão de mármore. Quando adentramos àquele lugar, uma nuvem gostosa de ar quente nos atingiu, assim como o som das risadas discretas intercaladas, do tilintado dos copos de cristais, e do som da música cantada por um senhor de cabelos grisalhos em cima de um palco ilhado no meio do salão, acompanhado por alguns músicos, talvez sete. Tudo era muito refinado, a começar pelos vestidos das madames e os ternos bem recortados dos cavalheiros. Sem contar com os assessórios brilhantes que eles carregavam nos pulsos e nos pescoços, que cegava qualquer pobretona como eu. Não que eu nunca tivesse visto algo parecido na TV, mas pessoalmente aquilo era de deixar o queixo caído. — Carambolas! Que lugar é esse?! – Rafa exclamou. — Não sei, mas tenho certeza que não estamos adequadamente vestidas para esse evento. – Disse quando recebi uma olhada esnobe de cima a baixo de uma senhora de vestido cor de berinjela. — Não precisa nem falar, amiga – ela disse sem parar de assaltar com os olhos todo o salão. – Achei! Pisquei duas vezes e tentei encontrar o que ela fitava. — Ali, bem em frente ao palco. – Ela deu as coordenadas para minha atenção, que pairou no cara de cabelos dourados e olhos claros, que estava sentado à mesa junto com outros senhores mais velhos. Não sei por que, mas meu estômago fez um rebuliço dentro de mim ao ver aquele homem. — Ok, agora, me escute! Senti as mãos de Rafa envolverem meus ombros, virando meu corpo facilmente em direção ao seu. Ela fitou profundamente meus olhos, inclinando levemente a cabeça para frente, como se requeresse minha total atenção, e falou: — Agora você vai lá, pedir para falar com ele a sós e quando ficarem sozinhos, fale tudo, ouviu? – Ela dizia sem respirar. – Quando digo tudo, é absolutamente tudo. Sobre o bebê, sobre sua família que não quer aceitar... – Enquanto Rafa falava, tive a impressão que o sangue do meu rosto se esvaía aos poucos, ao passo que minhas mãos suavam frio e tentava engolir o bolo entalado no meio da garganta. – Peraê, Natália. – Ela se afastou um pouco e pousou as mãos na cintura. — Não me vai dizer que está desistindo?


Não seria uma péssima ideia, já que meus nervos estavam suplicando para eu sair dali, no entanto, eu já estava decidida. Inspirei fundo, e disse soltando o ar: — Não. Claro que não. – Minutos atrás no táxi, tinha prometido a mim mesma que iria arranjar forças até de onde não tinha para proteger aquele ser, que nem mesmo imaginava como seria suas feições, mas estranhamente um instinto latente pulsava em mim, gritando para que eu o protegesse como se fosse a única coisa que importasse no mundo. Rafa soltou o ar e relaxou os ombros: — Que bom amiga, fico feliz em ouvir isso – ela dizia suspirosa. – Não há problema, Naty. Pelo que vejo, é só chegar lá e chamar o Rick para um papo. – Ela dizia enquanto parecia calcular o caminho até lá. Eu tornei olhar a mesa do tal Rick, e a sensação de mal estar me acometeu novamente, entretanto, sorvi uma boa lufada de ar e ouvi minha amiga sussurrar ao meu lado antes que eu desse os primeiros passos pelo o corredor de mesas: “Vai lá, garota!” Quando vi, já estavam cortando o salão, entre as mesas, e os garçons que circulavam de um lado para o outro a todo o momento com bandejas de balde de gelo e champanhe. Com as pernas trepidantes, andava tentando firmar os pés com força no chão, enquanto os perfumes das pessoas ali pareciam bombardear meu olfato que estava mais apurado que o normal ultimamente. Tremendo e sentindo todo o tipo de cheiro que passava por mim, eu me sentia como... Sabe aquele personagem do livro “O Perfume”, o Jean? Era exatamente assim que me sentia. Entre àquelas pessoas finas, eu definitivamente era uma estranha trajando aquelas vestes esdrúxulas em comparação as de toda aquela gente. Meu nervosismo só piorou quando eu me aproximei da mesa de Rick, que estava sentado em uma postura de ferro enquanto ouvia atentamente um senhor calvo que falava do outro lado da mesa. — Inspira e expira Natália! Inspira e expira! – Eu murmurava copiosamente quando estava quase alcançando aquela mesa, ao som de New York, New York de Frank Sinatra. Há poucos passos de meu alvo, meu coração batia violentamente contra minha caixa torácica, e em minhas mãos pareciam virarem uma nascente, suando exacerbadamente, quando um corpo grandalhão se pôs em minha frente. Puta merda! Meu coração foi na goela e voltou. Mirei o rosto do careca de preto, que me fitava com sulcos na testa. Confuso, ele analisava minhas veste e disse: — Desculpe-me, senhorita. Mas a área é restrita – ele disse educadamente, fazendo-me morder o lado de dentro da bochecha.


— Oh! Desculpa, não sabia... – disse envergonhada. O jeito como aquele segurança me olhava, me fazia sentir uma total insegura. Sentia o preconceito velado contra minhas roupas. – Eu só queria falar com aquele moço ali – disse apontando discretamente para Rick, que naquele exato momento levava a taça de cristal para os lábios enquanto os demais senhores cantavam New York, New York tão alto quanto o homem em cima do palco, que arriscava uns passinhos de dança. O homem em minha frente fitou o meu dedo, e por cima do ombro, olhou para a mesa. — Rick Maldonato – engoli em seco ao pronunciar. Como se meu dedo atraísse a atenção de Rick, o olhar perdido do homem de terno breu fixouse em cheio em minha direção. — Você quer falar com o Seu Rick? – o cara perguntou surpreso. — Sim, — disse encarando Rick que me fitava com uma expressão confusa no rosto. Parecia estar se perguntando de onde me conhecia. — Desculpe-me, mas o que uma garota como você quer com o Seu Rick? No mesmo instante, vi o tal Rick se levantar da cadeira, e caminhar em nossa direção, resvalando as mãos para o bolso da calça social cor de chumbo. Tinha até me esquecido da estatura anormal daquele ser. — Algum problema? – Rick perguntou atrás do careca, que pegou um leve susto com a voz grossa que ecoou um pouco alta, devido a música. Rick era mais alto que o careca, pelo menos, 10 centímetros. — Oh, senhor. – O segurança o cumprimentou, curvando o pescoço. – Nenhum problema. – Ele me olhou de soslaio e disse: — Apenas essa moça que pediu para falar com o senhor, a conhece? – ele questionou. O homem de madeixas douradas, barba de urso e maças viris me fitava pensativo, pousando a mão no queixo, me analisando. Ele prolongou aquilo até dizer: — Não, não. Acho que não, ou pelo menos, não me recordo. – Ele disse cinicamente, e tive certeza que ele estava mentindo. — Eu sou a garota do motel – fui direta, percebendo o olhar surpreso do segurança. Rick me fitou suspiroso, como se não esperasse que fosse dizer aquilo. — Senhor, quer que eu reserve um quarto para que possam conversar a sós. – O homem de preto cochichou ao seu lado. — Não, Victor. Apenas dispense a moça – ele falou como se eu não tivesse ouvindo, girando os calcanhares.


— Ei, eu tenho um assunto a tratar com você – eu disse dando um passo a frente, fazendo com que o Pitt Bull ao meu lado ameaçasse me impedir de prosseguir. Calmamente, Rick virou-se novamente para mim e proferiu em tom de seda: — Assunto? – ele riu. – Eu não tenho nenhum assunto a tratar com garotas de motel, a não ser, o de pagar a conta no final. O cretino disse me dando as costas novamente. Juro que se não tivesse tão fraca, arrancaria meu tênis do pé e tacaria na cabeça daquele filho da puta. Ele praticamente me chamou de garota de programa. — EI! Fora um simples “Ei”, no entanto, fora um “Ei” quase gritado no silêncio de um final de música. Senti as atenções se voltarem para mim. Merda, odeio ser o centro das atenções. Pestanejei comigo mesma, já sentindo meu estômago embrulhar novamente. — Senhorita, venha comigo! –O segurança se aproximou mais ainda e envolveu meu braço com sua mão. Não sei se o perfume dele era forte ou era eu que estava muito sensível, porém o bolo entalado no fundo da minha garganta ameaçou pular para fora; — Por favor, senhorita, colabore! – ele falou enquanto eu me encolhia em meu canto, tentando afugentar aquela ânsia de vômito. Mas o cara ao meu lado parecia disposto a me atingir com sua voz educadamente irritante enquanto seu perfume só piorava meu estado. – Senhorita... – meu suco gástrico foi na goela e voltou agressivamente. – Senhorita, você está bem? – Inspirei fundo, mas não adiantou conter o iminente. O jato de gosma atingiu em cheio o piso de mármore, e não sei bem, mas um coro surpreso se fez ao meu redor. Quando o meu almoço parou de voar pela minha garganta, o homem ao meu lado, falou novamente: — Senhorita... Tornei a vomitar novamente, só que dessa vez, mais vergonhosamente: tossindo e cambaleando de um lado para o outro. Quando aquilo cessou, limpei os resquícios do vômito dos cantos da boca, e levantei a cabeça e encarei aquela gente. Para que fui fazer isso? Eu deveria ter apenas saído correndo dali. Todos estavam me encarando, alguns surpresos, outros enojados. Poderia ouvir algumas risadas ecoarem pelo o salão, e no ímpeto, tudo começou a girar. Meu olhar pairou no homem em minha frente, e o Rick estava lá, com o cenho franzido e com uma bendita confusão montada na cara. Não demorou muito para sentir a pressão em meu pulso despencar, para em seguida eu desfalecer.


—5— — Senhor, não acha melhor chamarmos a ambulância? – escutei ao acordar, sentindo algo muito forte invadir minhas narinas. — Se ela não acordar nos próximos 10 minutos, eu mesmo ligo. Abri os olhos e dei de cara com o olhar esverdeado de Rick sob mim. Eu estava deitada em um colchão extremamente macio e Rick estava sentado ao meu lado segurando um pano com algo que cheirava a álcool nas mãos. — Ela acordou! – corri com o olhar pelo o quarto e vi que se tratava do segurança que bem me recordava. Oh, eu desmaiei! – pensei ainda muito aturdida. Novamente, varri com o olhar pelo o quarto e pelos os ornamentos barrocos muito refinados, deduzindo que se tratava de um quarto do hotel em que estávamos antes de eu apagar. — Victor, saia, por favor. Preciso de um tempo com a senhorita. – Rick falou sem tirar os olhos sobre mim. — Sim, senhor. Enquanto escutava os passos do homem de preto se distanciarem, o olhar intimidador de Rick não desviava do meu, fazendo-me encolher contra o colchão. Escutei o som do bater da porta, e não demorou muito para o homem em cima de mim abrisse a boca: — Então senhorita barra suja, o que tanto quer falar comigo? – ele falou incisivo, enquanto afundava sua mão ao lado de minha cabeça e se inclinava para ficar cara a cara comigo. Tão próximo que confesso que fique vertiginosa com sua aproximação. Rick era aquilo que as mulheres chamam de homão da porra; Seus lábios eram vermelho latente, e suas cútis eram tão delicadas quanto suas órbitas esverdeadas, enquanto seus braços eram espessos e seu ombro era largo de forma sensual, e seu cheiro... Ah, seu cheiro... Ah, não! O vômito subiu novamente, fazendo-me com que eu levantasse em um rompante e batesse contra a cabeça de Rick. — Au! – Ele resmungou me olhando com a mão na testa, enquanto eu estava com a mão esquerda tampando a boca. – O que foi? Quer vomitar de novo? – ele gaguejou, então assenti.


– Ah, não! Ele pulou para fora da cama, parecendo procurar por algo para colocar meu vômito. Quando o vômito subiu impiedoso, Rick veio uma cesta de lixo e aparou o meu jato de gosma branca. Segurei o cilindro em minhas mãos, e vomitei ali tudo que ainda restava em meu organismo. Levantei a cabeça, tirando alguns fios de cabelo que grudou no canto de minha boca e devolvi o balde para Rick. — Obrigada! — Não vai mais precisar? Meneei a cabeça em negativa. Ele pegou o lixeiro de minhas mãos e levou para o banheiro ao nosso lado, fechando a porta logo em seguida. Mesmo fazendo isso, o mau cheiro de vômito ainda impregnava o espaço. — Desculpe-me a indelicadeza, mas você só tem 2 minutos. Tenho pessoas me esperando lá embaixo... — Eu estou grávida. Falei sem rodeios e ele pareceu não entender muito bem o que se passava. — Nossa! – ele falou embrenhando os dedos nos fios negros. – Estou ainda mais curioso para saber o que uma grávida quer comigo. — Eu estou grávida de você. Juro que pude ver seu olhar trincando naquele momento. Ele abriu a boca e fechou pelos menos 3 vezes enquanto tentava absorver minhas palavras. — O que você disse? — Isso mesmo o que você ouviu. Eu estou grávida de você. Ele riu, e falou: — E você quer que eu acredite nisso? — Não quero que acredite em mim, só quero que ponha a mão na consciência e me diga o que aconteceu naquela noite entre nós. Ele me fitou impaciente, enquanto eu esperava por sua resposta. Ele fechou os olhos, enrijecendo os maxilares e soltou: — Eu não me lembro – ele disse como eu esperava. — Eu também não. – Eu disse tentando explicar melhor: — Olha, eu nunca transei sem


camisinha – eu até mesmo era virgem uma semana antes daquela noite, no entanto, lembro-me muito bem de me proteger em minha primeira vez — e pelo o jeito com que acordamos, é bem provável que tivéssemos transado naquela noite sem... — Garota, você acha que é a primeira? – ele falou aleatoriamente, então indaguei confusa: — Primeira o quê? — Que vem com esse papinho para cima de mim? — Papinho? Não acredito que está pensando que estou mentindo. — Escute bem menina: eu não te conheço. Como achas que vou crer em uma estranha que diz estar grávida de mim? Você acha que sou trouxa, é isso? — Mas eu realmente estou grávida de você. — Então prove! — Como vou provar? — Na justiça, quando o seu bebê nascer. Veja bem: se estiver mesmo falando a verdade, o seu filho terá todo o meu apoio financeiro. Se não, sugiro que peça a Deus que nunca mais cruze meu caminho, pois o que eu mais odeio nesse mundo são pessoas mentirosas – ele disse em um tom algoz. – Se me der licença, os dois minutos já passaram. Ele girou os calcanhares e como se eu tivesse uma única chance, disse sobressalta: — Eu não tenho tempo – ele parou. – Minha madrasta e meu pai estão ameaçando tirar meu bebê amanhã mesmo. – Droga, as lágrimas já assaltavam meus olhos, porém prossegui com a voz embargada mesmo: – Eu não tenho para onde ir, não ganho muito e não tenho um emprego fixo. Trabalho em uma cafeteria no centro, mas o contrato é temporário... – Ele me olhou por cima do ombro, então me levei ao chão. De joelhos, fitando o chão, roguei: — Por favor, não deixe que meu filho morra. Pelo meu filho, eu me humilharia. – Fora isso que pensei. Eu senti seus sapatos virarem lentamente em minha direção, e por um breve momento, ele ficou taciturno me mirando de cima. Porém, tão logo falou: — Sinto muito menina, eu apenas não posso acreditar em tudo que me dizem. Suas palavras me partiram por inteira. Logo o homem caminhou para fora do quarto, me deixando sozinha naquele chão aos prantos; Minha vida nunca fora um mar de rosas, no entanto, há momentos tão espinhosos que me pergunto o que eu fiz para merecer aquilo. ***


— Naty — caminhando para fora do saguão, Rafaela me esperava com os olhos mais esbugalhados que o normal. – Amiga... – ela percebeu o desalento em minha feição e me puxou para um abraço forte – Ah, amiga. Ele te esnobou, não foi? – passei os braços na cintura dela e escondi meu rosto em seu ombro, assentindo. – Ah, amiga! – As lágrimas desceram junto com os soluços. — Ele... Não... Acreditou... Em... Mim... – falei entre soluços; — Calma, querida! — ela falou afagando minhas costas enquanto inundava sua jaqueta jeans com minhas lágrimas. – Encontraremos outro jeito. Eu chorei no ombro de Rafaela por cerca de 5 cinco minutos, até que minhas lágrimas secaram e me desvinculei morosa de seu abraço. *** Fomos caminhando até a parada de ônibus mais próxima, já que não tínhamos muita grana solicitar um uber de volta. — Senta, amiga! – Rafaela disse quando chegamos à parada coberta. — Não amiga, estou bem – falei garantindo. — Quando você desmaiou lá no salão, eu quase tive um ataque cardíaco. Só não fui até lá, pois pensei que aquela talvez fosse uma ótima oportunidade para vocês ficarem a sós. Só não imaginava que o bonitão fosse uma pessoa tão estúpida. Sério amiga, quando esse bebê nascer, você vai esfregar o teste de paternidade na cara desse imbecil. Provavelmente, se estivesse em outra vibe, até entraria na onda da conversa de Rafaela e amaldiçoaria o tal Rick. No entanto, eu estava tão triste, que não tinha ânimo para xingar ninguém. No exato momento, um carro vermelho escarlate parou no acostamento em frente à parada de ônibus e Rafaela desviou a atenção para o vidro que descia em uma cadência automática. — Boa noite – a voz que saiu de dentro do carro era de uma mulher loira, de olhos claros e extremante elegante, que aparentava ter uns 40 anos. Ela vestia vermelho, assim como a cor de seu carro, que contrastava muito bem com sua pele muito alva. — Boa noite, — Rafaela e eu respondemos. — Eram vocês que estavam no cockailt ainda cedo? Rafaela respondeu escabreada: — Sim, nós estávamos lá. — Estão indo para onde? Querem carona?


Rafa e eu nos entreolhamos. — Não tem nada demais garotas, o que uma velhinha de 60 anos como eu faria de mal para umas moças cheias de juventude como vocês? — A senhora tem 60 anos? – perguntei boquiaberta. Ela assentiu e disse: — Se me deixarem dar carona para vocês, prometo que revelo meus segredos de beleza. Olhei novamente para Rafaela, e ela pareceu ler meus pensamentos: — Acho que não tem nada demais. Rimos e entramos no Porsche vermelho. Rafaela no banco de trás, eu no banco da frente. A mulher ao meu lado me lançou um enorme sorriso e deu partida em seguida. *** Depois de passarmos um bom tempo falando sobre diversos assuntos, Márcia, nome por qual respondia a mulher que dirigia, dizia: — (...) Mas o verdadeiro segredo da juventude é estar sorrindo o tempo todo, mesmo que as adversidades te aborreçam – Márcia disse reflexiva para Rafa. Depois de um período ininterrupto de pura conversa, o silêncio passeou por ali. E de repente Márcia proferiu: — Falando nisso, você me parece tristonha – ela disse fugindo o olhar da avenida para mim. — Nem sempre estamos felizes, não é mesmo? – disse reflexiva, assim como ela. — Ela está grávida – Rafa soltou, então me virei para encará-la, e ela balbuciou: — Foi mal amiga, apenas saiu. Como bem conhecia minha amiga, ela realmente não fez por mal. — Tudo bem. – Balbuciei de volta. — É mesmo? Quantos meses? Já providenciaram o enxoval. — Não, praticamente acabamos de descobrir. — O pai estava lá? — Que pai? – Rafa perguntou um pouco lerda. — O pai do bebê. Se praticamente acabaram de descobrir isso, talvez estivessem procurando por alguém. — Caramba, você é esperta, heim – Rafa disse surpresa. – Posso contar amiga? – ela


perguntou em cima do meu ombro. — Faça como quiser — falei mirando a avenida à frente. — O cretino que engravidou a Naty tava lá sim. Sabe, o Rick Maldonato? Um empresário do ramo automobilístico, conhece? — Não. – Márcia disse pensativa. — Pois é, foi esse o cretino que engravidou a Naty e não quer assumir o filho. — Espere, não estou entendendo. Vocês namoravam? – ela perguntou diretamente para mim, mas a linguaruda da minha amiga respondeu. — Não. Foi um caso de uma noite. Mas não pense que minha amiga é uma vadia por isso. Naty é uma das pessoas mais puras que conheço, não sei por que isto aconteceu justamente com ela. – Rafaela falava sentida, como se eu não tivesse ali. – Ela não merece isso. Aquele cretino ainda vai pagar muito caro por pensar que a Naty é uma interesseira. Ele vai comer o pão que o Diabo amassou. Enquanto Rafaela desabafava nervosamente para a senhora ao meu lado, a mulher desviou o olhar de novo do trânsito e disse para mim com um tom de voz terno: — Sinto muito, querida. — Tudo bem. Não sei explicar, mas aquela senhora emanava uma energia muito boa, e pode até parecer loucura, eu até mesmo lembrei-me de minha mãezinha quando ela sorriu para mim. Talvez ela fosse uma boa mãe como a minha foi. Deveria ser por isso. E naquele momento, invejei seus filhos, se é que ela tinha.


—6— Márcia estacionou bem em frente a minha casa, na Rua Castro Alves. Estava tarde, já passava da meia noite. Márcia deixara Rafaela em sua casa, há alguns minutos atrás e me preparava para me despedi e agradecer. — Muito obrigada! – Disse para a senhora carismática ao meu lado. — Por nada, querida. – Não sei por que, mas tinha impressão de ver uma enorme complacência em seu olhar. – Tchau. — Tchau – sorri e me virei para abrir a porta do carona. Olhei para o portão ao meu lado e suspirei, tinha um grande problema me esperando: — Algum problema, querida? – Márcia perguntou atrás. Pensei um pouco e meneei a cabeça em negativa. — Nenhum, obrigada! – agradeci novamente e me pus para fora do carro mais caro que entrei em toda minha vida. Quando caminhei até o portão, pedi aos céus para que todos estivessem dormindo. Eu estava exausta, provavelmente não agüentaria outra discussão. Pesquei do bolso o molho de chaves e abri a porta de madeira; E quando adentrei a sala, meus ombros pesaram. Papai e Marlene estavam assistindo TV no sofá menor, enquanto Jéssica havia adormecido no sofá maior. — Ela chegou! – Marlene deu um tapinha no braço de papai, enquanto se levantava alterando a voz. — Onde tu estavas garota? — Me deixe em paz. – Falei tentando atravessar a sala e ir direto para o meu quarto nos fundos; — NATÁLIA! – A voz de meu pai soou como um trovão, fazendo-me estancar, congelando meus dedos. Fitei-o com dificuldade, e ele começou: — Escute bem, menina mal criada. Você sabe o quanto eu trabalho para sustentar essa? Será se não pensou em mim quando fez isso? – Meu pai parecia outra pessoa. Com certeza Marlene teria enchido a cabeça dele a noite toda. – Está achando que vou passar a mão na sua cabeça? Caia na real, Natália. Amanhã mesmo você tirará isso. — Mas pai... – minha voz saiu como sopro.


— Ou faz isso, ou RUA! – ele esbravejou açoitando meu coração. Jéssica acordou com o grito de papai, e perguntou o que estava acontecendo, quando as batidas na porta de madeira ressoaram por toda a casa. — Ah, quem é uma hora dessas? – Marlene disse emburrada caminhando para a porta e abrindo-a. Quando vi quem estava à frente de Marlene, fiquei tão confusa quanto minha madrasta. Márcia estava parada na soleira da porta, encarando Marlene. — Boa noite, você deve ser a madrasta da Naty, não? Marlene fechou a cara e assentiu desconfiada. — Sim. E quem é você? Ela aprumou a bolsa preta reluzente no antebraço, falando com firmeza: — Eu a mãe do homem que engravidou sua enteada. Meu queixou foi no núcleo da terra quando ela falou aquilo. — Não vai me convidar para entrar? – Tive a impressão que Marlene espiou o carro estacionado em frente a nossa casa, e estranhamente assentiu gentilmente. — Claro! Márcia sorriu gentilmente, e passou por Marlene que bateu a porta atrás. Márcia parecia fotografar cada canto daquela sala com o olhar; Ela era tão elegante que parecia uma alienígena naquele humilde recinto. Quando finalmente seu olhar pairou em meu pai, ela o olhou de cima a baixo, analisando a camiseta surrada, que ficava apertada em sua enorme barriga, e o short do flamengo. — Suponho que o senhor seja o pai da Naty. — Sim. Sim. – Confirmou meu pai. – A senhora acabou de dizer que é mãe do sem-vergonha que engravidou minha filha? — Senhor...? — Clóvis. — Senhor Clóvis, com todo o respeito, mas se o senhor chamar meu filho novamente de semvergonha terei que mandá-lo para puta que pariu! – Arregalei os olhos em espanto. Nunca imaginaria que um palavrão daquele saísse da boca de uma mulher tão fina. Papai engoliu em seco com as palavras da senhora em sua frente e desculpou-se.


— Desculpe-me! Definitivamente a figura daquela mulher era forte. — Posso? – Márcia acenou para o sofá, e meu pai assentiu prontamente. Ela sentou-se ali, no sofá menor, cruzando as pernas, me fitando por cima dos ombros: — Naty por que não se senta ao meu lado querida? Fiz o que a senhora pediu e logo ela disse para Marlene e papai no canto da sala: — Por que não se sentam também? – Ela falou acenando com a cabeça para o sofá maior onde Jéssica observava tudo no cantinho. Marlene e pai fizeram o que Márcia sugeriu, e quando todos nós estávamos sentados, ela proferiu suspirosa unindo as mãos de unhas pintadas estilo francesinha: — Parece que temos um problema aqui. — Sim, um enorme problema. – Marlene comentou, mas Márcia não deu a mínima para ela. Não desviou um segundo sequer o olhar do meu pai. — Senhor Clóvis, quero que sinta inteiramente despreocupado no que diz respeito ao meu filho, ele assumirá toda a situação. O que ela estava falando? Ela sabia que o filho tinha dito para mim hoje mais cedo? Claro que sabia. Rafaela contou tudo para ela no carro. — Assumir a situação, como? Ele vai casar com minha filha? — Veja bem senhor, não posso obrigar ninguém a se casar. Mas a ajuda financeira, esta posso garantir com plena certeza que essa não faltará a sua filha e ao bebê. — E ela continuará solteira? O que vão pensar de minha filha? — Não estou entendendo o que o senhor quer dizer. Você quer que eu obrigue meu filho a se casar com a Naty? — Não estou dizendo nada. Só não me interessa sua proposta. Já resolvemos o destino disso antes de a senhora chegar. Já que sua proposta não muda em nada essa situação, por favor, apenas retire-se de minha casa! – Ele disse se levantando. — Espere! O que vocês resolveram? — pela primeira vez, Márcia estava nervosa. – Não me digam... Não... Não pode ser possível... – ela titubeou. — Senhora, apenas retire-se de minha casa como o meu marido disse. — Vocês vão matar uma criança? – ela perguntou com repulsa na voz.


— Senhora, não fale comigo assim em minha própria casa. Saia agora daqui! – Papai pediu a beira de se exaltar. Márcia se virou, pegando minhas mãos, me olhando nos olhos e perguntando: — Naty querida, você também quer isso? Meus nervos estavam em polvorosa, enquanto apertava os lábios fitando meu pai e meneando a cabeça em negativa. — SAIA DAQUI, SENHORA! – Papai vociferou feito um bruto. Ela se virou novamente para papai e não se intimidou com a fera. — Naty vai comigo. — O quê? – Marlene indagou boquiaberta. — Isso mesmo, a menina vai comigo. — Quem decide aonde minha filha vai ou deixa de ir sou eu. — Naty quantos anos você tem? – Márcia perguntou sem desviar os olhos de meu pai. — 19. — Ótimo. Ela é maior de idade e não há impedimento. Você quer ir comigo, Naty? — Sim. – Assenti. Pelo o meu filho, eu estava disposta a tudo. — Minha filha só sai daqui por cima do meu cadáver. — Do seu cadáver eu não sei, mas se tentar impedir que ela saia daqui, com certeza será depois de algemado. Você e sua esposa. O que vocês estavam a fazer é crime, ouviu bem? Então sugiro que o senhor sente a bunda no sofá e deixe Naty sair daqui tranquilamente. Papai calou-se com as palavras de dona Márcia e em desalento, disse: — Natália... – aquilo era uma súplica para que eu ficasse. Meus olhos encheram de lágrimas e disse com a voz embargada: — Perdoe-me, papai. Eu só não querer perder meu filho. – Limpei as lágrimas com as costas das mãos e Márcia falou: — Ande, querida! Vá buscar suas coisas. Girei os calcanhares e caminhei para o quartinho no fundo daquela casa, para arrumar minhas malas. Meu coração estava em frangalhos, no entanto, estava confiante de que estava fazendo a coisa certa.


—7— Abri a porta o porsche vermelho e fitei pela última vez minha casa. Avistei papai na janela, com uma cara de partir o coração. Apesar de tudo, eu amava muito o meu pai. No entanto, não poderia ficar mais ali. A vida me convocou para algo que eu não fazia ideia. Sim, eu sei que sou muito nova para saber o que é ser mãe, porém, eu já tinha idade suficiente para saber o que era certo ou errado. Mesmo cometendo alguns erros, nós devemos sempre ter a intenção de mirar o alvo certo. Márcia deu a volta no carro e logo estava no banco do motorista. — Pronta? – assenti então ela deu partida, arrancando numa rua taciturna de uma madruga cheia de ecos, — Desde quando sabia? – minha voz saiu fraca, batendo no teto e quicando sonoramente no assoalho. Márcia franziu o cenho enquanto dirigia e logo me respondeu: — Eu estava lá quando falou com meu filho. Ela falou deixando-me um pouco chocada. — Você estava lá? Como?... – Titubeei. – Eu não vi ninguém além de nós dois... — Eu vi quando você desmaiou no salão. Meu filho a levou para o quarto e eu fui atrás. Eu espiei tudo de longe, inclusive, quando Victor deixou a porta aberta, pude ver quando você se ajoelhou naquele quarto. – Ela pausou ao virar a esquina e prosseguiu: — Eu realmente fiquei estarrecida com aquela cena, então, assim que Rick saiu do quarto, corri para me esconder e fiquei a observando por um bom tempo. Eu até a vi saindo do hotel a pé com sua amiga Rafaela. Foi quando peguei meu carro e fui atrás de você na rua. Quando vocês aceitaram minha carona, e Rafaela contou toda a história, percebi o quão urgente era a situação. Quando você saiu do carro e entrou em sua casa, confesso que fiquei no limbo se interferia ou não. No entanto, eu tenho 60 anos, Naty, e me conheço muito bem. Eu nunca conseguiria parar de pensar em você: uma menina de 19 anos que está grávida de meu filho. – Ela fugiu o olhar da avenida e me fitou: — Como poderia? – Ela tornou a olhar o trânsito monótono de uma madrugada, e eu me encolhi com o frio que fazia lá dentro. – Que noite insana, não? Eu quem o diga? Pensei comigo mesma. Na verdade, tudo aquilo que estava se passando parecia uma verdadeira loucura para mim. Em menos de uma hora, minha vida havia virado de cabeça para baixo. Confesso que eu estava assustada com tudo isso.


— Para onde estamos indo? – Perguntei. Um barulho fez em sua garganta e falou: — Ainda não sei... Isso parece irresponsável da minha parte, mas não se preocupe querida. Pensarei em algo. Ela disse por fim, deixando o resto de nossa viagem silenciosa. *** Quando Dona Márcia estacionou em frente ao hotel que estávamos anteriormente, fora incontrolável, meu coração começou a palpitar forte quando me lembrei da conversa que tive com Rick mais cedo. Dois choferes saíram do saguão, alcançando o carro em que estavam e abriram, no mesmo instante, a porta do carona e do motorista. Saí, assim como Dona Márcia que deu a volta no carro, se juntando a mim. — Jeff, Rick ainda se encontra? – Dona Márcia perguntou ao Chofer que abrira minha porta. — Não, senhora. Seu Rick já voltou para São Paulo. – Meu coração tornou a bater aliviado. Dona Márcia pareceu pensar por um breve instante e disse: — Ok, Jeff! Apenas requeira um helicóptero. Desejo alçar vôo o quanto antes. — Sim, senhora. Márcia cumprimentou os senhores em nossa frente, e flutuou em seus Scarpins Victor Hugo pelo o saguão praticamente deserto. — Você já andou de avião? — Não, senhora. — Está bem. Providenciarei um recipiente para viagem. Corei relembrando-me do vexame, que passei algumas horas atrás. Provavelmente eu iria precisar de um recipiente. Ô, se ia. *** Depois da enésima vez vomitando no balde de gelo, não tinha mais força nem para erguer a cabeça de volta. — Tudo bem? – A voz de dona Márcia soou robotizada nos enormes fones que abafavam minhas orelhas. Assenti com um menear de cabeça, olhando pela a janela do helicóptero a cidade a qual morei


durante toda a minha vida. Era linda dali, porém não estava curtindo aquele momento. Não sei quantos pés estávamos pra cima, no entanto, aquilo era muito alto. Alto suficiente para o meu estômago abrigar uma montanha russa cheia de inclinações e loops. Santa mãe dos enjôos intermináveis, parecia que eu iria colocar meus órgãos para fora. — Aguente firme querida! São apenas algumas horas. Dona Márcia disse afagando minhas costas enquanto eu mirava novamente o meio do balde. Aquela viagem provavelmente durou pouco, no entanto, quando aquela aeronave preta aterrissou, senti que aqueles foram as horas mais angustiantes da minha vida. Dona Márcia destravou o meu cinto, e percebi meu estado deplorável: suada em todos os lugares, respirando pesadamente, olhando para cima como uma lesa segurando um balde de vômito e provavelmente com o cabelo parecendo um ninho de passarinho. — Chegamos! — Graças a Deus – murmurei agradecida. Ela puxou minha mão esquerda, me conduzindo para fora da cabine revestida por uma napa creme. Firmei meu pé no apoio do helicóptero e finquei meus pés no chão, sem deixar o baldinho de vomito cair. Tínhamos aterrissado em uma cobertura de um prédio, com o chão pintado de verde neon; — Obrigada Seu Roberto, foi um ótimo vôo – disse Dona Márcia ao meu lado para o senhor de cabelos brancos, o piloto que conduzira aquela mariposa gigante que me fizera colocar os bofes para fora. — Por nada, senhora. Já sabe: precisou? É só chamar – o piloto disse com um sorriso gentil nos lábios. Dona Márcia assentiu se despedindo, olhando para mim em seguida. Ela resvalou o olhar para minhas mãos que segurava o cilindro com uma nojenta gosma dentro. Seu Roberto pareceu ler a mente de Dona Márcia e falou alcançando o baldinho. — Deixe que eu cuido disso – ele arrancou o recipiente de minhas mãos e dona Márcia disse: — Muito gentil da sua parte, Seu Roberto. – Dona Márcia abriu um sorriso para o senhor que ficou orgulhoso com o simples elogio da senhora ao meu lado, no entanto, disfarçou a careta assim que fitou o conteúdo do balde. – Pronto? – Ela me perguntou, então assenti. Dona Márcia assentiu novamente para o piloto e fiz o mesmo, adicionando um “obrigada” envergonhado. Dona Márcia começou a andar para a extremidade contrária a qual nós estávamos, arrastando minha mala de rodinhas, então a segui esfregando os braços, devido ao frio. Segundo as diversas vezes que Dona Márcia citou durante a viagem, nós estávamos em São Paulo. Nem precisaria muito para deduzir aquilo, já que dali de cima daquele prédio era possível de enxergar o horizonte composto pelas enormes construções verticais intermináveis. Era assustadoramente grandioso para mim. Já que nasci e vivi minha vida inteirinha em


Floripa. Era uma cidade grande, mas não era como São Paulo. Imaginei o quão grande deveria ser NewYork. Depois de alguns passos, quase congelando naquele terraço daquele prédio, entramos pela porta de vidro num espaço bem iluminado e quentinho, que abrigava duas portas de elevador e algumas cadeiras de vime alternadas por vasos artesanais, de muito bom gosto por sinal. As portas do elevador direito, então segui a senhora que adentrava o espaço cheio de espelhos. E cruzes, quando parei ao lado da senhora refinada diante de tantos reflexos, me encolhi dentro do moletom vermelho que ganhei no natal passado em um amigo invisível na escola. Estava meio surradinho, mas aquela belezinha me salvara muitas vezes do frio. Dona Márcia colou o polegar em um tipo de leitor de digitais. Passei as mãos em meus cabelos negros tentando conter os frizes gritantes. As portas se abriram, tive a impressão que minha boca se entreabriu chocada com aquele lugar. Dona Márcia por o pé para dentro de um enorme salão. Em cima um grandalhão lustre de cristais em forma de espiral, embaixo um chão de granito negro. Em minha frente, a direita, uma escada pitoresca fazia uma perfeita curva, levando a um lugar desconhecido para mim. Nossa senhorinha do salário mínimo, onde eu estava? Aquilo era um santuário ou só um apartamento mesmo? Apesar da iluminação baixa, cada canto daquele salão brilhava. No canto esquerdo, havia uma enorme vidraça, que mesmo de longe, dava de toda São Paulo dali. — Você mora aqui? – Perguntei ainda chocada. — Eu? – ela riu. – Não querida, não moro. Quem reside aqui é o meu filho. — Mãe! – A voz reverberou em todo salão, e antes que pensasse muito, o enorme e forte Rick estava andando em nossa direção apenas de calça moletom e com o abdômen para fora. Ele esfregava a pálpebra com o dorso da mão, enquanto enrugava o cenho quando seus olhos desviaram de sua mãe para mim. — Mãe... Quem é ela? – Ele disse quando parou em minha frente. Um barulho estranho saiu de sua garganta, como se estivesse descrente com o que estava vendo. — Ela é a Natália! – Dona Márcia não fez rodeios. – A mãe do meu neto. — A mãe de quem? – Rick quase se engasgou com saliva, enquanto olhava para Dona Márcia com os olhos esbugalhados. — Isso mesmo que ouviu. Ela é a mãe do seu filho. – Ela disse deixando Rick pasmo. — Mãe, a senhora foi enganada... – ele gaguejava. — Eu não sou pai de ninguém. Vamos chamar a polícia – ele disse girando os calcanhares.


— PARADO! – Dona Márcia vociferou e Rick virou o corpo grandalhão e a fitou em espanto. – Está me chamando boboca, moleque?... Tá achando que essa menina me enganou? –Ela perguntou realmente irritada. – Ahhh, Rick! Ainda temos muito que conversar.


—8— Sentada num sofá cor de vinho, ao lado de Dona Márcia, o clima era exatamente o mesmo que pairava na sala de minha casa em Floripa horas atrás. Rick me olhava, não disfarçando a irritação e o desprezo com minha presença. — Como já disse, nunca deixaríamos você desamparada, querida. Se depender de nós — ela olhou para Rick que ficava mais emburrado a cada minuto que passava -, esse bebê será muito bem tratado assim como você. — Mãe, quantas vezes terei que dizer que não sabemos se esse bebê é mesmo meu filho? – Ele perguntou impaciente. — Você transou com essa menina sem camisinha, não foi? – Ela perguntou cortante. – Então se cale e não me faça a vergonha de se comportar feito um moleque, não assumindo as responsabilidades de seus atos. Ele se levantou num rompante, e embrenhou as mãos nos cabelos e grunhiu feito um bicho. Em seguida, olhou resignado para nós duas: — Faça o que quiser! – Ele disse se preparando para sair da nossa frente. Dona Márcia se levantou então fiz o mesmo. — Então é isso, querida. Eu vou indo. Espero que goste do seu novo lar. — É O QUÊ? – Rick se virou indignado. — É o que, o quê? – Dona Márcia perguntou impaciente. — Não me diga que vai deixar essa pilantra aqui. – Ele disse e me controlei para não mandá-lo tomar ir naquele lugar. Pilantra é uma ova. — Não achas que eu vou levá-la lá pra casa, não é? O problema é seu meu querido. — Isso mesmo, o problema é meu, e eu deveria resolvê-lo ao meu modo. Aliás, já tinha o resolvido. Mas já que a senhora insisti, eu mesmo levarei essa moça de volta para Florianópolis. – Eu estava me sentindo um pedaço de lixo ali, com o destino postos nas mãos de pessoas que mal conhecia.


— Você não vai fazer isso. – Ela disse meneando a cabeça. Ela me olhou e notou o desconforto em minha postura. – Olhe o que está fazendo! Está constrangendo a moça. — Disso não tenho culpa. Se não tivesse a trago, evitaria tal desconforto. Agora, sem mais! Assim que o dia raiar, a levarei de volta para Florianópolis. — Rick! – A voz de dona Márcia mudou. Em vez da mulher turrona, agora havia uma mulher aflita. – Por favor, filho! Não faça isso. Apenas até o bebê nascer. Por favor, não desampare essa menina. Deixe que ela permaneça aqui. São só alguns... Alguns meses, querido! – ela enfatizou e os olhos de Rick brilharam. Parecia que aquelas palavras queriam dizer algo. – Depois dos nove meses, você decide o que faz. — Mãe, por que está fazendo isto? — Filho — ela disse emocionada –, ontem você me disse que faria tudo o que eu pedisse, lembra? – Seus olhos reluziam tanto quanto os de Rick. – Então, esse é o meu pedido. Ele olhou para cima para conter as lágrimas empoçadas nos olhos e disse: — Tudo bem! Apenas até o bebê nascer. Dona Márcia sorriu aliviada e de certa forma, eu também estava aliviada, afinal, eu era praticamente uma sem teto. *** As portas do elevador se fecharam com Dona Márcia dentro, me deixando sozinha com o homem que não sabia ao certo se era confiável. Segundo Dona Márcia, ela morava com o marido num apartamento não muito distante dali, no entanto, mesmo assim, ela me deu seu número para eu ligar se algo me afligisse. E confesso que já estava com vontade de ligar para ela assim que as portas se fecharam me deixando com o homem que já havia posto uma camisa branca, que não ajudava muito a esconder o que tinha por trás do tecido. Senti seu olhar deslizar do elevador para mim e estremeci com a forte fitada que ele lançava. — Finalmente a sós! – Ele disse com a voz mais grave que o normal. Reuni forças e o encarei, com um sorrisinho nos lábios. — Pois é, né? – Soltei encabulada. Ele me olhava com tanta insatisfação, que resolvi não me abalar com aquele idiota e fazer aquele momento ficar menos constrangedor. — Então,... Tá quase amanhecendo... Eu queria saber... Sabe... Onde vou dormir? — Ah — ele abriu a boca fingindo complacência –, a senhorita quer saber onde vai dormir.


Assenti com a cabeça, então ele cruzou os braços contra o peito e me fuzilou com o olhar, e disse: — Aqui! — Aqui onde? – Perguntei confusa. — Aqui... — ele olhou para o sofá no meio do salão. – Faça um bom proveito dele. Eu pisquei um pouco atônita. — Qual é, cara? Aqui parece ter vários quartos... Vai deixar uma moça grávida dormir em um sofá? – Apelei, não porque achasse aquele sofá desconfortável, talvez fosse até mais que minha própria cama, mas sim porque eu precisava de um pouco mais de privacidade. Não queria acordar no outro dia com os olhos incisivos daquele homem sob mim, ainda mais com meu bafo matinal do cão e uma juba de leão. — Você está grávida, ou doente? – Que estúpido! — Para uma vigarista, você está bem exigente. — Eu não sou vigarista... — É VIGARISTA SIM! – Ele se exaltou me espantando. Ele continuou entre dentes: — Eu tenho nojo de você, usar de uma mulher doente para conseguir arrancar dos outros uma boa vida... — Quem? Que mulher doente? Dona Márcia? – Perguntei pasma. – Ela está doente? O que ela tem? — Câncer. – Seis letras e um arrepio na espinha. Na verdade, eu tinha horror daquela palavra. — O estado dela é quase irreversível. Os médicos deram apenas alguns meses,... – Ele continuou falando, mas eu estava um pouco ébria com aquilo. –Você não acha covardia usar da fragilidade de uma pessoa em beneficio próprio? Você não tem vergonha na cara? — Eu não sabia, ok? E pela última vez, o que eu mais queria nesse mundo é não ter que precisar da ajuda de uma pessoa como você. — Por Deus, então vá embora! — Eu sinceramente queria ir. Mas não posso. Você querendo ou não terá que me aceitar aqui. E sobre dona Márcia, eu acho que entendo pelo que esteja passando. Ele suspirou pesadamente e por fim disse: — Não, não entende. Ele se virou para se retirar de minha frente e eu soltei com a voz embargada. — Minha morreu quando eu tinha 11 anos... – ele estancou os passos ainda de costas para mim. – Ela teve câncer de pâncreas e na época, tudo o que eu mais queria era ir com ela.


As lรกgrimas assaltaram meus olhos e, como se jรก fosse um costume, Rick me deixou mais uma vez aos prantos. Era como se aquilo tivesse jogado sal em minhas feridas que um dia pensei que havia cicatrizado. No entanto, eu estava enganada. Aquela ferida estava mais viva do que nunca, porque mais do que nunca, eu precisava da mรฃe ao meu lado.


—9— Resignada, fui até o sofá e fiquei ainda mais ressentida porque Rick não voltou com um cobertor. Estava fazendo um frio glacial, e eu, de alguma maneira, queria chorar. Sim, eu ainda queria chorar. Parecia que havia me tornando uma completa sentimental esses dias, e é bem provável que isto seja culpa da gravidez. Fui até minha mala e tirei o lençol, que estava lá no fundo. Deitei-me no sofá vinho, muito bem acolchoado e gemi com tanta maciez em minhas costas. Costas estas que estavam em frangalhos. — Paizinho, não me deixe só. – Pedi a Deus, meu refúgio, fechando os olhos. Eu tinha fé que com ele ao meu lado, teria forças para lutar contra o mundo e pelo o meu filho. Aquilo era por ele. Só por ele. Pelo o meu bebê. Não demorou muito para eu apagar de cansaço. O dia foi longo e assustador. Mas o que mais me assustava era o que estava por vir *** Acordei com a luz solar incomodando meus olhos, e dei um solavanco quando lembrei onde estava e na casa de quem. Varri com o olhar a sala e vi uma mulher uniformizada que passava com uma bandeja na mão, sem nem sequer me notar ali. Ela atravessou a sala e entrou numa sala ao lado da escada. No mesmo instante, outra mulher que trajava o mesmo uniforme branco e preto, passou em minha frente feito um robô, sem olhar para os lados. — Ei! – Chamei. Ela parou, me olhando desconfiada de soslaio. — Bom dia! Er... Onde está... – engoli em seco –, o Rick. Como se falar comigo fosse um crime, ela murmurou: — Desculpa, mas não estou autorizada a falar. – Ela disse e saiu num compasso mais apressado. Inclinei a cabeça para o lado pensando naquilo. Ele havia as proibido de falarem comigo? — Louco! – murmurei e senti meu bafo matinal, tampando com as mãos minha boca. – Droga! – Preciso de um banheiro.


Olhei para os lados e pensei se eu poderia ou não explorar aquele lugar. — Que se dane! – Fui até a minha mala pegar minha escova de dente, pensando nas palavras de Dona Márcia: “Não se intimide com Rick. Se sinta sempre em casa.” E era isso o que eu iria fazer: explorar a casa como se eu estivesse em casa. Comecei pelas as portas do andar de baixo. Dei de cara com a cozinha, sala de estar, sala de jogos, uma piscina aquecida, e até uma sauna. Aquele apartamento era coisa de rico mesmo! – pensei. Quando achei o banheiro, no espaço da piscina, escovei meus dentes e tornei a sala para pegar minhas roupas. Eu precisava de um banho urgentemente. Quando voltei, me desesperei por não achar minhas coisas no chão da sala. Fitei a sala ao lado da escadaria, de onde vinha o barulho de algumas risadas e pensei que a pessoa que pegou minha mala estivesse lá. Caminhei até lá e quando vi que se tratava de uma sala de jantar e que Rick, um homem de cabelos negros, e uma mulher loira riam; arrependime amargamente de ter ido até lá. — Olhe só! A dorminhoca do sofá! — O homem de cabelos negros apontou para mim, fazendo com que Rick e a loira se virassem para mim. Rick estava com aquele mesmo tipo de olhar de desprezo da noite passada. — Desculpa! – Eu disse nervosamente antes de cair fora dali, entretanto, o homem ao lado de Rick se colocou para fora da mesa e me alcançou. — Epa! Para onde a senhorita pensa que vai? – ele perguntou segurando minhas mãos para que eu não fugisse. — O que você pensa que está fazendo? Solte-me! – Falei tentando me livrar de suas mãos sem que deixasse cair minha escova de dente. Não sei o que aquele cara queria comigo, no entanto, travamos uma pequena batalha desengonçada por aquela sala, e quando desequilibramos um pouco para o lado, minha escova escapou de minha mão e voou para longe. Mais especificamente para dentro da xícara de café de Rick. O líquido piche espigou na camisa branca de Rick, fazendo com que eu mordesse o lado de dentro da bochecha. Eita, porra! Como se estivéssemos em câmera lenta, ele levantou o olhar para mim e me fuzilou de um jeito, que não sabia nem se eu ainda estava viva. O homem ao meu lado aproveitou a deixa para me conduzir até a cadeira em frente a de Rick, ao lado da moça loira. — Ah, que mulher difícil! – Ele resmungou tornado a sentar ao lado de Rick. – Agora sim,


temos algo interessante a fazer. — O que, por exemplo? – a voz da moça ao meu lado soou pela primeira vez. — Interrogar essa moça que estava dormindo no sofá do Rick? – Ele falou meio óbvio para a mulher que me fitou com indiferença, enquanto Rick não tirava os olhos de mim. Parecia irritado, assim como as vezes que eu o encontrei. Sinceramente, eu tinha pena da saúde dele, já que não faz bem para o coração tanta amargura. — Não vejo nada de interessante nisso. — Como assim não vê nada de interessante nisso? Encontramos uma mulher dormindo no sofá do Rick em plena manhã, em vez de estar na cama dele, e não vê nada de interessante nisso? — Cala boca, João Miguel! – Rick bateu com a mão na mesa, já impaciente. — Já que sei que não vai dizer nada, eu mesmo faço as perguntas a ela. — Será se dá para ser menos enxerido. – Agora era a moça que estava impaciente. – Se Rick não lhe contou, é porque ele não quer contar, idiota. — Ah, Mia! Me erra! Sei que você também tá morrendo de curiosidades para saber quem é ela... Enquanto eles discutiam, suas vozes ficaram abafadas e sem formas quando vi o tanto de coisa gostosa que tinha na mesa: bolos, geléias, frutas, sucos de cor tão viçosa que nem parecia de verdade. Caramba! Minha barriga urrou tão alto que todos na mesa se calaram. — O que foi isso? – João Miguel perguntou. Olhei para Rick, que desviou os olhos para minha barriga, notando que o barulho vinha de lá. Olhei para a mesa e balbuciei para ele: — Posso? Pela primeira vez, aquele ser aborrecido assentiu para mim, claro, não deixando totalmente a carranca de lado. Tornei a olhar a comida, com as trepidando de fome. Servi-me um pedaço de bolo mixuruca. Devorei o bolo em segundos e com a fome que eu tava, não fiquei tímida para repetir. Repeti 1, 2, 3 vezes, sob os olhares atentos das pessoas ali. — De que abrigo você tirou essa menina? – João Miguel perguntou a Rick sem desgrudar os olhos de mim. — Bom dia, crianças! – A voz familiar reverberou por todo o espaço, fazendo com que eu erguesse o olhar e visse dona Márcia parada na soleira da porta. A senhora estava pra lá de elegante, não diferente da noite passada. Trajava um vestido branco que caía muito bem em


suas curvas. — Mãe? – João Miguel a fitou atônico. — A senhora não estava passando uns dias em Floripa? — Pois é, querido, voltei. Estava muito entediante por lá. – Ela resvalou o olhar para mim e completou: — Mas essa viagem me rendeu muita coisa. Quero dizer, nos rendeu, não é mesmo Rick? – Ela olhou para o filho que bufou. – Já conheceram a Natália? — Ah, esse é o nome dela? — Não apresentou a mãe do teu filho? – Ela se direcionou a Rick que revirou os olhos. — Mã— mãe dos filhos de quem? – João Miguel gaguejou. — Isso mesmo. Esta a sua frente dará a luz ao um membro da nossa família. — O quê? E eu pensando que ela era uma desabrigada... Você estava namorando e não nos falou? – Ele perguntou para Rick que parecia que ia explodir. – Que cachorrão! — Isso é verdade? – Mia indagou, com notável desgosto no tom. — Por que não conta tudo para eles, já que a senhora começou? – Rick disse se levantando, lançando o guardanapo contra a mesa e se retirando, fincando os pés no chão com força. Ele estava visivelmente furioso, causando um enorme desconforto assim que ele deixou aquela sala. Dona Márcia me fitou e disse: — Não liga não, querida. Uma hora você acostuma com jeito dele. – Ela disse sentando-se à mesa conosco e perguntando: — Como foi o resto da noite? Dormiu bem? — Do jeito que roncava no sofá quando eu cheguei, ela dormiu muito bem. – João Miguel disse. — Eu não ronco – disse áspera. — Calminha, baby. Eu só estava brincando. — Sofá? Como assim, sofá? – Dona Márcia perguntou. – Não me diga que aquele menino mal criado deixou você dormindo na sala? Eu me calei. Eu não queria dar mais motivos para dona Márcia brigar com o filho. — Que menino mal. Desculpe-me querida, já vou resolver esse problema agora mesmo. – Dona Márcia se levantou e eu fiz o mesmo. – Você pode continuar aqui. Afinal, precisa se alimentar muito bem. Não quero que meu neto nasça desnutrido. – Lentamente, me sentei. Então Dona Márcia disse olhando para João Miguel e Mia: – Meninos, cuidem bem dela.


— Pode deixar mãe! – João Miguel jogou uma piscadela para Dona Márcia que saiu em disparada pelo corredor. Olhei para os lados, me sentindo um pouco desconfortável. O tal João Miguel parecia ser um cara legal, no entanto, a tal Mia parecia um pouco surpresa com aquela carga de informação. Talvez esse fosse o motivo de seus maus olhares de soslaio. Dei de ombros, tornando a comer. — Então, cunhas. Se é que posso te chamar assim. Com quantos meses você está? – João Miguel começou com seu interminável questionário.


— 10 — — Aqui fica o armário, querida. Não é muita coisa, mas logo providenciarei um closet para você – Dona Márcia dizia entusiasmada. — Um closet? – Perguntei boquiaberta. – Ah não, não acho que seja preciso. Minhas roupas cabem perfeitamente aqui – ainda sobra espaço para armar um churrasco, pensei fitando o espaço vago. — Falando nisso. Onde está sua mala? Ela perguntou me lembrando de que ela tinha sumido da sala. Coçando o topo da cabeça, disse: — Não sei... Ela sumiu. Ela me olhou confusa e por fim fitou a mulher que parecia uma estatua do outro lado do enorme quarto. — Onde está? – perguntou para ela. — O senhor Rick mandou que tirassem as coisas dela da sala. Dona Márcia suspirou pesadamente e disse: — Traga-a e providencie roupas novas de cama. — Sim, senhora! – ela saiu, deixando-nos a sós. — Então, querida, tem algo que queira fazer? Estudei o momento concluindo: — Um banho. Eu quero tomar um banho. — Ah, sim! Claro! Então vou esperar lá fora. – Ela disse sorridente. Parecia que ela estava se divertindo com aquilo. Antes que ela saísse, ela falou: — Ah, aproveite e descanse um pouco. Tenho planos pra hoje. Nós iremos almoçar fora hoje. É bom que a gente aproveita e faz umas comprinhas. Ela falou antes de bater a porta, jogando um sorriso terno. Eu retribui da mesma forma. Dona Márcia era um verdadeiro oásis no inferno disfarçado de paraíso. *** — Gucci ou Chanel? – Dona Márcia perguntou segurando as duas sandálias na mão. — Essa vermelha. – Na real, eu era péssima de reconhecer marcas.


— Nós levaremos as duas! – Dona Márcia disse para a vendedora que estampou um largo sorriso no rosto. Tão logo embalaram as caixas de sapatos, e entregaram ao coitado do segurança que já não agüentava tantas sacolas. — Querida, ainda tem fôlego para uma loja? – Dona Márcia não perdia a animação. — Dona Márcia, eu realmente estou agradecida, mas não acha que isso é demais para mim? — Besteira, filha. Para uma mulher, nenhum acessório é demais. A única coisa que são demais são as rugas, que aliás, isto está muito longe de te acometerem. Ela enlaçou seu braço no meu, sorridente, enquanto caminhávamos pelos corredores do shopping. Vendo assim, nem parecia que Dona Márcia era uma pessoa doente, na verdade, ela era notavelmente mais alegre que eu.


— 11 — A noite já havia escurecido quando Dona Márcia me deixou de volta no apartamento de Rick. Ela nem sequer entrou, apenas voltou para sua casa. Tinha a impressão de que ela tivesse tentando nos deixar a vontade a nos aproximar. Entretanto, não sabia se isso era possível. Já que o grandalhão era uma baita de um birrento. Fred, o segurança, deixou as sacolas no quarto o qual Dona Márcia se instalou, me deixou sozinha ali, sem saber o que fazer. Sentei no colchão, altamente macio, e olhei para parede pensando que talvez estivesse num sonho bem longo. A porta se abriu em minhas costas, revelando uma menina ruiva de uniforme, ela parecia ter minha idade. Ela logo que me percebeu e preparou-se para sair dali. — Ei! Não vá, por favor. Eu quero falar com você – meu tom saiu como uma súplica. A menina olhou para baixo, desconfiada, dando a impressão que ela estava no limbo, se ela fazia ou não o que eu pedia. No entanto, ela assentiu olhando para os lados, conferindo se não havia ninguém. Ela entrou e trancou a porta. — Só um minuto! – Ela murmurou. — Senta aí! – Empolgada, cruzei minhas pernas em cima da cama. Quando ela sentou em minha frente, perguntei: — Qual é o seu nome? — Melissa. — Uau. Nome legal! — Qual o seu? – ela perguntou. — Você não sabe meu nome? – Tá ok que eu havia chegado ontem. No entanto, pensei que o meu nome já corresse solto entre os funcionários de Rick. — Na verdade, não! Nunca te vi por aqui. — Ninguém comentou?


— Não. Na verdade, é quase um pecado mortal fazer fofoca por aqui. Quem for pego falando da vida ou das visitas do patrão, estará literalmente no olho da rua, foi assim que disseram quando me contrataram. — Ah, por isso que não falam comigo? — Na verdade, essa é outra prerrogativa. Não falar com ninguém e nem sobre ninguém. — Duvido muito! Como conseguem? Eu aposto que não se seguram quando estão sozinhos na área de serviço. — Ai que tá. Tem muito dedo duro entre nós... — Ah, tá explicado... A porta se abriu de repente, causando um enorme espanto na moça em minha frente. Ela pulou para fora da cama quando viu Rick. Rick me fitou e em seguida olhou para a menina de respiração descompassada: — Saia! — Senhor... — Por favor, apenas saia... – Ele pediu educadamente para a moça que saiu toda encolhida. Rick tornou a fitar e me perguntei o que tinha de diferente em sua expressão. Bingo! Seu cenho não estava mais enrugado, como estava nas últimas vezes que o encontrei. Rick fechou a porta atrás, sem dizer uma palavra. Taciturno, ele veio até mim, resvalando as mãos nos bolsos da calça social e falou: — Como foi seu dia? Ele perguntou deixando-me avulsa quanto ao seu tom de voz de seda. Parecia mais calma e gentil. Devo começar a falar com ele normalmente, sem nenhuma defesa? — Foi bom... – Saiu um tanto sucinto, no entanto, não me estenderia muito. Afinal, não sabia o que o lobo foi fazer na casa do cordeiro. — Ótimo! – Exclamou rindo levemente. Ou melhor, rindo falsamente. – Parece ótimo que tenha se divertido, afinal, você foi esperta, merecia uma recompensa. Ele disse me deixando confusa. — Desculpa, mas não entendi. Esperta? Recompensa? — Oh, garota. Pare com isso! A minha mãe você pode ter enganado, mas a mim, não ouse usar a artimanha de boa moça e inocente. — Quem disse que eu sou inocente? – Perguntei pousando as mãos na cintura, jogando cabelo. — Uou, isso aí! – Ele aproximou, quase unindo nossos corpos. — Assim que eu gosto. Tudo


no claro. – Dizia enquanto nossos narizes lutavam para não esbarrar um no outro. Ele veio para me intimidar. – Agora, que já divertiu, você vai pegar seus trapos e sumir da minha casa agora. – Ele disse entre dentes. – E não ouse contatar minha mãe, eu não a perdoarei se fizer isso. Ele estava com os olhos inflamados cheio de ódio. Sinceramente, não via razão para tal sentimento. — Sabe, quando eu te vi lá na festa, quase me compadeci com seu desespero. Fiquei até mesmo na dúvida. No entanto, quando a vi chegar com minha mãe... – ele quase engasgou com a própria ira. – Vi logo que se tratava de uma verme vigarista que faz tudo por dinheiro. Usar uma mulher doente?... Você me dá nojo... – Ele enchia a boca para me insultar enquanto eu parecia não ter dignidade alguma. Ele apertou meu braço, e disse por fim: – Então, é melhor sair daqui de fininho, porque as coisas podem ficar muito feias pro teu lado se ficar. – Ele largou meu braço com força e deu alguns passos para trás, espumando ódio. — Eu não vou. – Disse capturando seu olhar. — O quê? – Ele murmurou. — Isso mesmo que ouviu: eu não arredo o pé daqui de jeito nenhum. – Disse firme. — Sua... – Ele começou e eu o interrompi: — O que tá pensando? Que estou aqui para aproveitar de uma boa vida? Que eu quero tomar algum dinheiro seu? Ou melhor, que eu quero fisgar um homem como você? – Perguntei incrédula. – Eu não vou. Eu vou ficar, mesmo que não goste. Eu vou ficar pelo o meu filho, mesmo que me odeie. Eu estou me lixando para seu ódio. Eu não tenho para onde ir mesmo. Se estamos na chuva, é pra se molhar, não é mesmo? — Menina, você vai se arrepender... — Por favor, me chame de Natália. E por favor, nunca pense que está fazendo um favor para mim, pois não está. Não fiz filho sozinha... — Você não sabe com quem está lidando... — Por favor, só saia daqui. Eu já disse que não arredo o pé daqui por nada. Se era é isso que queria de mim, então não tem mais nada o que fazer aqui. Ele silenciou e disse: — Eu lhe avisei. Espero que esteja pronta para arcar com as conseqüências. — Não sou só eu que tenho que arcar com as conseqüências aqui. – Disse cortante. — Apenas saia, por favor – disse educadamente. Rick fez o que eu disse, deixando-me aliviada. Ele bateu a porta, relaxando meus ombros. Num suspiro, pedi: — Senhor, me dê forças! – Pedi deslizando na cama ao meu lado, caindo


num profundo mar de pensamentos. Não demorou muito para as lágrimas esquentarem minhas bochechas, e quando dei por mim, o choro havia engrossado para algo mais violento. Chorei por horas. *** Não sabia que horas eram, mas arriscava dizer que estava tarde quando me levantei decidida a ser forte. Fui até a minha mala, e decidi pôr algumas roupas no armário. Avistei meu celular sem carga em cima do montante de pano, e decidi colocá-lo para carregar. Procurei pelo carregador e fui até a tomada ao lado da cama. Quando eu iniciei o Samsung J5 Prime, levei um susto com o tanto de chamadas perdidas. Ao todo: 256 chamadas perdidas. 200 de Rafa e 56 do meu pai. Putz! Havia me esquecido completamente de avisar Rafa. No entanto, o dia fora tão surrealmente inacreditável que talvez até que estivesse pensando que estaria vivendo em um universo paralelo. Antes que eu pudesse retornar, o celular vibrou em minhas mãos. Era Rafaela. — Alô. — Natália, é você? Meu Deus, é você Natália? – ela perguntou assustada na linha. — Sim, amiga. Sou eu. — Ai graças a Deus, você está viva – ela exclamou suspirosa, parecia aliviada. — Claro que estou amiga. Por que eu estaria morta? – brinquei. — Não brinca com isso, louca. Eu pensei realmente que estivesse morta. — Por que pensaria isto? – Perguntei confusa. — Por que eu pensaria isto? – Ela repetiu sarcástica e em seguida explicando: — Você não foi trabalhar hoje, então o que eu fiz? Fui na casa do teu pai, então Marlene me disse que você se mudara de repente e bateu a porta na minha cara, e ainda de quebra, você não atendia minhas chamadas, você quer o quê? Eu pensei que você tivesse morrido em alguma sala de aborto e Marlene estava escondendo o corpo... — Calma, amiga! Respira! — Cala boca, sua idiota! – Ela disse chorando. — Isto tudo é sua culpa por desligar a bosta desse celular.


— Amiga, eu estou bem. — E o bebê? Como o bebê está? — Acho que bem também. — Não estou entendendo? Marlene não mentiu ao dizer que se mudou? — Não amiga. Eu realmente me mudei. Você nem vai acreditar. Sabe aquele senhora que nos deu carona ontem a noite? — Sei. Márcia, não é? — Isso. Você está sentada? — Fala logo, filhote de unicórnio. — Ela é a mãe do Rick. — É O QUE? – Ela gritou do outro lado da linha. Por alguns segundos não pude ouvi-la. — Rafa, você tá ai? — Continua amiga, que agora tô sentada. – Eu ri e depois prossegui: — Ela me deixou em casa depois de te deixar em casa. Até aí tudo bem, mas quando ela surgiu na porta lá de casa dizendo que era a mãe do Rick... — Passada... — Pois é, miga. Ela explicou que iria arcar com as despesas, mas mesmo assim papai se negou e ela acabou descobrindo sobre o aborto. Na mesma hora, ela me perguntou se eu queria ir com ela... Ai, eu aceitei amiga. Então ela acabou me trazendo para São Paulo, mas especificamente, para a casa de Rick. Um enorme silêncio se fez, calado por um grito histérico de Rafa: — AAAAAAAAAAAAAAAAAH, AMIGA, NÃO ACREDITO! – Ela gargalhava. – QUE MARAVILHA! Refletindo um pouco entre as gargalhadas de Rafa, soltei: — Não sei se é tão maravilhoso assim. — Como não? — O tal Rick me odeia. — O quê? Ele disse isso? — Não! Mas ele acha que eu sou uma vigarista.


— Esse imbecil disse isso? Não acredito! Vou quebrar a cara desse desgraçado. Ali, numa madrugada, Rafa e eu continuamos conversando até o amanhecer. Falamos sobre Rick, sobre o bebê e até mesmo, Rafa planejou uma visita. A tia dela morava em São Paulo. Motivo de eu ficar triste todo o mês de junho, quando eu ficava sozinha em Floripa. No entanto, agora seria uma verdadeira alegria se ela viesse me visitar. Afinal, em um futuro incerto, a única certeza que tinha era do meu amor por esse bebê e de que tinha uma amiga para partilhar o que eu estava passando. Assim, talvez, aliviaria um pouco o peso em minhas costas.


— 12 — — Senhorita, acorde! Abri os olhos com dificuldade, vendo a figura da senhora ruiva ao meu lado. — Olá, querida. Eu trouxe o café da manhã. Levantei-me num ímpeto, um pouco assustada. Avistei no colo da mulher a bandeja alumínio recheada de coisas gostosas, e subi o olhar para ela. — Desculpe-me por acordá-la! Mas fora a pedido de dona Márcia. — Dona Márcia? Onde ela está? — Ah, ela não está aqui. Ela teve que viajar com urgência para a Alemanha. — O quê? Alemanha? Ela está bem? – Perguntei preocupada. — Sim, sim, querida. Ela só foi fazer alguns exames. – Ela disse e pensei que não seria conveniente falar sobre a doença de dona Márcia com aquela senhora. – Ah! Não me apresentei. Eu sou Lúcia, a governanta desta casa. Sou governanta da casa dos Maldonatos há 30 anos. Agora trabalho exclusivamente para Rick. — Uau, 30 anos é muita coisa. Prazer, meu nome é Natália, mas pode me chamar de Naty. Eu na verdade sou... – estanquei pensando: conto ou não conto? – Na verdade sou uma amiga do Rick. — Não sabia que amigos faziam filhos. – A mulher respondeu me deixando com o queixo caído. É claro que dona Márcia tinha contado para ela. – Não fique com vergonha. Eu sou quase da família e a ajudarei com o que eu puder – ela me lançou um sorriso gentil e acrescentou: — ordens de dona Márcia. Eu sorri nervosamente e ela disse: — Vou deixá-la sozinha para que possa comer a vontade – ela disse com um tipo de olhar complacente. Ela saiu e pensei que apesar dos pesares, eu havia conhecido pessoas que me pareciam muito boas estes últimos dias. Parecia quem só era arrogante e estúpido era aquele idiota barbudo. *** Eu passei praticamente quase o dia todo no quarto. Dona Lúcia me chamou para me juntar a


Rick no almoço, no entanto, eu sabia que aquela não era uma boa ideia. Eu não queria afrontálo de graça. Quanto mais eu evitar atritos nessa casa, melhor para mim. Apesar de ficar quase o dia todo dentro de um quarto, quase nem senti a solidão. Pois Rafa passou a tarde toda pendurada no celular falando comigo. Com certeza, a gerente não estava no café. Era segunda, e a movimentação costumava ser fraca por lá. — Amiga, você não pode ficar o tempo todo dentro do quarto. Amanhã, vá pelo ao menos dar uma voltinha na cidade. Rafa me sugeriu, fazendo-me pensar que aquilo era uma ótima ideia. Eu não conhecia São Paulo, então talvez aquilo fosse me animar no dia seguinte. — Amiga, vou desligar. Tô saindo do café. Tchau! Beijo. Fica bem. — Despedi-me de Rafaela, me sentindo incrivelmente bem por ter passado horas conversado com ela. Assusteime quando vi que já era noite. Olhei para os lados naquele quarto, onde a solidão me circundava. Suspirei e fui até o banheiro tomar um banho. Logo sairia daquele quarto e exploraria aquela casa. Tomara que o tal Rick não esteja em casa — Desejei. Afinal, não sabia nada sobre sua rotina. *** Eu andava em passos furtivos pelo corredor de mármore, tentando não ter encontros inesperados. Sim, eu estava tentando passear por aquela casa sem esbarrar em Rick. No entanto, aquela casa estava tão silenciosa que duvidava muito que alguma alma viva estivesse ali. Virando a esquina, adentrando a sala, dei de cara com a menina com quem conversei na noite passada. Ela parecia estar tirando a poeira dos móveis com um espanador de penas. — Olá! – Eu disse baixinho me aproximando, roubando sua atenção para mim. — Olá! – Ela disse timidamente. — Atrapalho? – Perguntei me sentando no sofá ao seu lado. — Não! – Ela respondeu sem mais, e tornou a olhar o móvel. — Ah, sobre a noite passada, eu fiquei extremamente arrependida de ter a feito ficar. Eu não sabia que Rick apareceria. Ele lhe repreendeu? Ela olhou para os lados e disse: — Podemos conversar em outro lugar? – Ela perguntou, então assenti. Ela guardou os materiais no baldinho de limpeza, então a acompanhei até um corredor que não


fazia ideia onde ia dar. Chegamos a uma cozinha, com um balcão ilhado no centro e armários tão brancos que reluziam ao ponto de quase me cegar. Ela guardou os materiais na dispensa, e tão logo, voltou limpando as mãos no avental. — Aqui podemos conversar melhor – ela disse se sentando na banqueta ao meu lado e me convidando a sentar junto. Eu me sentei ao seu lado e ela perguntou com um sorriso terno: — Quer um pedaço de bolo? — Não, não estou com fome. Talvez mais tarde. — Está bem! Só perguntei, porque minha mãe certa vez disse que grávida gosta de comer toda hora... — Espere. Como sabe que estou grávida? — Acabei escutando quando dona Márcia veio hoje pela manhã. Ela falou isso para minha tia e contou muito mais. — Sua tia? — Sim. Minha tia é a Lúcia, a governanta dessa casa. Mas não me gabo por isso, pois justamente por ser parente dela, o povo daqui me trata ainda mais com rigor – ela disse revirando os olhos. — Está falando do Rick? Ela te repreendeu? — Que nada! Nunca o patrão me direcionou uma palavra. Mas confesso que ontem tive medo de que ele me demitisse por ter quebrado uma cláusula tão importante. Entretanto, sequer o vi hoje. Quando me refiro “povo”, estou falando dos funcionários mesmo. É cada cobra! – ela disse suspirando, fazendo-me lembrar das najas do café o qual trabalhava. — Sei bem – disse rindo. – E onde elas estão? — Por aí, em qualquer lugar. Menos na cozinha. Elas não têm permissão para entrar aqui. Só a Laura, a chefe de cozinha; eu e minha tia. Laura saiu mais cedo hoje, por isso que estou relax. Ela é legal também... Melissa continuou tagarelando por muitas horas, tanto que nos esquecemos das horas e ela nem percebeu o final de seu expediente. Exatamente às 9, ela saiu às pressas, pois segundo ela, aquele era o horário de retirada dos funcionários. Ninguém poderia permanecer além dos seguranças. Ela me deixou sozinha na cozinha, então aproveitei para olhar o que tinha na geladeira. E puta


merda! Tinha muita coisa gostosa. Peguei bolo, queijo, iogurte, suco de laranja e fiz a festa. Não sei por quanto tempo eu estava comendo, mas pela a intensa escuridão que pairava na janela, arriscava dizer que estava se aproximando da meia noite. Espantei-me quando ouvi o som de uma gargalhada feminina se aproximar e quando a voz grossa reverberou junto, quase tive um micro-infarto, era Rick. Com o garfo na mão e a boca cheia, procurei por um esconderijo. No entanto, ao invés de me esconder na dispensa, eu acabei me metendo na brecha entre a geladeira e o armário. Ainda bem que minha barriga ainda não tinha crescido, caso contrário, senão não daria para me esconder ali. — Você não tem nem ideia do que minha língua é capaz de fazer – a voz da mulher soou interrompida, então inclinei um pouco a cabeça para espiar o que estava acontecendo. A mulher de cabelos negros, que batiam na bunda, estava entre beijos ardentes com Rick. — Então me mostre! – Rick afastou a moça e levou a mão para a braguilha da calça. A mulher mordeu o lábio inferior em desejo, e ele abaixou a calça cinza até os joelhos. Seu membro extragrande, como bem me lembra, tava tão duro que mal cabia na cueca boxer. A mulher se prostrou em sua frente e esfregou a mão ali, mesmo coberto. Escondi minha cabeça de volta, rezando para que eles não fizessem aquilo ali. Eu nunca havia me sentido tão mal fazendo coisa errada como eu estava naquele momento. Calma, Naty, eles vão embora logo! – repetia para mim, tentando me acalmar. No entanto, quando os gemidos de Rick irromperam aquele lugar, eu comecei a suar como se eu tivesse numa sauna. Os gemidos dele eram graves e roucos, deixando-me totalmente desnorteada com aquilo. Não sei onde vi, ou onde ouvi, mas lembro-me de algo que mulheres grávidas também ficam sensíveis ao sexo. Deveria ser o que estava acontecendo comigo. Uma mistura de repulsa, insatisfação e, estranhamente, desejo. Rick rasgou um gemido prolongado e eu dei graças a Deus, pensando que ele finalmente tivesse gozado e saísse da cozinha para eu poder sair dali também. — Vamos para o quarto. Quero te foder todinha, coração. Ouvi sua voz e suspirei aliviada. — Espere, quase ia esquecendo. As bebidas! – Ele disse fazendo com que eu prendesse a respiração e apertasse os olhos quando escutei seus passos se aproximando. Ele abriu a geladeira, e ficou, no máximo, alguns segundos lá. Senti-o fechar a geladeira e dei graças. Esperei que sentisse seus passos afastarem, mas não senti. Esperei mais um pouco, então pensei que ele já tivesse ido embora. — O que você está fazendo aí? – Sua voz saiu feito um trovão, fazendo com que eu tivesse um sobressalto e abrisse os olhos encontrando com suas incisivas esmeraldas sobre mim.


Engoli em seco e tudo que consegui dizer foi: — Oi. A mulher se aproximou, perguntando: — Quem ela é Rick? Rick ainda continuava a me fitar com aquelas profundas esmeraldas e respondeu: — Vamos, Renata! – Ele disse sem tirar os olhos de mim. Ele pegou a mão da mulher e ela continuou perguntando enquanto ele a conduzia para fora da cozinha. — Quem é ela Rick? – a mulher continuou insistindo, então ouvi Rick comentar: — Não é ninguém, meu bem. Apenas alguém sem valor. Eu já havia me preparado psicologicamente para as palavras grosseiras de Rick, no entanto, por algum motivo, me senti um lixo quando aquilo saiu de sua boca. Sentia como se eu realmente fosse sem valor. *** Depois daquela, retornei para o meu quarto. Demorei um pouco a pegar num sono, mas quando dormi, foi para valer. Naquela noite sonhei com muitas coisas, talvez, o excesso de informação tivesse enchido minha cabeça. Demoraria um pouco para eu poder me acostumar com aquilo. Um feixe de luz que escapava da cortina que cobria a enorme vidraça do meu quarto incomodava meus olhos, obrigando-me a levantar. E quando levantei, quase cai dura no colchão novamente. Rick estava sentado na poltrona no canto do quarto, trajando uma camisa slim branca e suspensórios. Ele estava... Fodidamente gostoso. — Bom dia, Dick Vigarista. Demorei um pouco para raciocinar que ele estava fazendo referência àquele personagem trapaceiro do desenho: a corrida maluca. Passei as mãos nos cabelos, que deveriam estar uma bagunça. — O que faz aqui? – perguntei. — Engraçado. Tenho a impressão de ter feito a mesma pergunta ontem à noite, mas não obtive resposta. – Ele disse cruzando as pernas. — Quer dizer que não vai responder? — Eu poderia– ele dizia se levantando e resvalando as mãos para os bolsos –, mas vou respondê-la. Eu vim avisar que seu contrato está pronto. — Que contrato? – perguntei não entendendo. — Seu contrato de permanência aqui. Ou pensou que me relacionaria apenas boca a boca. –


Ele disse, parecendo refletir sobre suas últimas palavras, meneando a cabeça de leve. — E cadê? — O quê? — O contrato — disse óbvia. — Está no meu escritório. Se vista adequadamente e vá até lá. A primeira porta no final do corredor – ele disse passando o olhar pelo o meu corpo e saindo pela a porta ao meu lado. — Adequadamente? – Olhei para o meu pijama e corei quando vi que o meu decote estava muito cavado. Cavado o bastante para ver um pouco das aréolas dos meus seios. – Oh, céus! – Resmunguei choramingando. Que vergonha! *** Vesti uma calça jeans e uma camiseta listra de malha. Penteei meus cabelos molhados em cima da penteadeira e suspirei pesadamente ao pensar que iria encontrar com aquele ogro novamente. — Coragem, Naty! – Disse para mim mesma em frente ao espelho e sai para o corredor. – Última porta do corredor, foi o que ele me disse. Caminhei até a última porta de madeira imbuía e inspirei fundo, antes de adentrar a sala. – Coragem, Naty! – Disse para mim mesma e entrei no calabouço. Rick estava do outro lado da sala, falando no celular, sentado atrás da bela mesa de vidro. O espaço era circundado por livros e era impregnado pelo cheiro do perfume amadeirado de Rick. — Pode entrar! – Ele balbuciou para mim, me indicando a cadeira em sua frente. Tão logo ele se despediu da pessoa do outro lado da linha. — Então, Dick... – ele disse me tomando com os olhos, enquanto me apelidava com aquele nome tosco. — Por favor, apenas me chame de Natália. — Então, Dick – ele prosseguiu irritante –, aqui está o contrato – ele arrastou uma folha de papel pela mesa, me entregando. Peguei o papel e perguntei seca: — O que diz aqui? — Nada demais, tudo o que já conversamos. — Desculpa, não me lembro de ter conversado com você, apenas me lembro de farpas e grosserias suas.


— Eu não tenho culpa se a senhorita só reparou no pior de nossas conversas. – Ele disse cortante e logo disse: — Ai diz que a senhorita ficará morará nesta casa até o bebê nascer. Há tecnologias que permitam que se faça o teste de DNA antes mesmo do bebê nascer, mas como já conhece minha mãe, ela me implorou que fosse desse jeito. — Ela pediu isso? — Sim, pediu. Eu quero que saiba que estou fazendo isso unicamente por ser um pedido dela. O jeito com que ele me olhou, fez com que eu sentisse um pouco mal por aquilo. Era horrível saber que dona Márcia estava lutando contra aquela doença. — O que mais tem aqui? – perguntei cortando aquele clima. — Humm... algumas cláusulas adicionais. — Tipo? — Tipo: nossa relação é estritamente contratual. Então você está terminantemente proibida de se meter em minha vida. Não somos um casal então não tem porque você... — Definitivamente, não somos um casal – interrompi, e ele calou me fitando um tanto irritado por ter o cortado. — É só isso? – Perguntei arqueando as sobrancelhas. Ele assentiu. Peguei uma caneta ao lado da mesa e assinei a borda do documento. — Prontinho! – Disse me levantando, e me curvando para cumprimentá-lo. – Tenha um bom dia, senhor Rick. – Disse sarcástica girando os calcanhares, pronta para sair dali. Entretanto, João Miguel surgiu, abrindo a porta, me deixando encurralada ali. — Ah, aqui estão vocês! — João Miguel exclamou triunfante. Vocês? Ele estava me procurando? — Ah, oi! – Disse timidamente, preparando para desviar dele e sair dali. – Dar licença! — Epa! Epa! Epa! Aonde você pensa que vai? – Ele segurou meu braço. – Fique aqui! Tenho planos para você. – Ele falou me jogando uma piscadela e logo voltou sua atenção para Rick. – Poxa maninho, todo mundo lá na empresa está esperando por ti e você aqui só namorando. Eu sei que o amor tá no ar, mas não precisa... — Há— Há –Há – A risada sarcástica de Rick fez com que eu olhasse o cretino por cima do ombro. Ele pegou um relógio da gaveta do armário atrás da mesa, e encaixou no punho enquanto dizia: — Estou indo pra lá. Eu havia avisado para Renata que chegaria um pouco mais tarde. Ela não avisou? — Avisou sim. Eu só tô te tirando.


— Como imaginei. Vamos? — Pra onde? Para empresa? Ah, não sei se reparou, mas tenho planos – João Miguel disse me olhando de esguelha. – Naty e eu passaremos o dia juntos. — O quê? – indaguei incrédula, me metendo naquela conversa. — Isso mesmo cunhadinha. Hoje te levarei para fazer exames, a pedido de mamãe. Já que o pai não vai, sobrou para o tio. — Não precisa... Quer dizer, precisa... Mas não agora... Não com você... – titubeei envergonhada. — Sem mais! Vamos logo que eu também sou um homem muito ocupado. – Ele disse tomando minha mão para sairmos dali. – Até mais, espero que saiba me recompensar futuramente. – Ele disse para Rick que sustentava uma expressão nada amigável na cara. Rick parecia me odiar ainda mais quando alguém de sua família se aproximava de mim. *** — Naty! Natália? Ei! João Miguel triscou no meu braço, trazendo-me de volta. Parece que eu havia entrado em um mundo paralelo quando ouvi as batidinhas do coração daquele grauzinho de feijão. Céus, o que era aquilo? Parecia que eu tinha uma orquestra sinfônica tocando em minha cabeça, enquanto meu corpo estava eletrizado por um tipo de energia estranha. Era o meu bebê. Era uma parte de mim. — Naty? Tudo bem? — Oi? Estou sim -, disse tranqüilizando o homem ao meu lado. — Desde que saímos daquela sala, não falou nada... — Não se preocupe comigo, estou bem... É só que... — É só que... — É só que eu acho que não estava preparada para isto. — Eu deveria ter esperado um pouco – ele murmurou resmungando enquanto chegávamos ao estacionamento do hospital onde João Miguel havia estacionado o carro. — Não é sua culpa, de toda forma eu iria ficar assim, independente do dia. – Eu disse complacente, então ele me abriu um sorriso fofo.


*** — Chegamos! – João Miguel disse suspiroso ao parar o carro em frente ao prédio gigantesco. – Vamos? – Ele perguntou destravando cinto, se pondo para fora. Não fazia ideia onde estávamos. Segundo João Miguel, era surpresa. Era mais ou menos três horas da tarde. Havíamos almoçado em um restaurante oriental. João Miguel era melhor que eu pensava. Apesar de fazer muitas perguntas, ele era muito divertido, arrancando boas risadas durante aquela manhã quente em São Paulo. E cá estávamos, em frente a um prédio colossal, estruturado por vidros temperados. Destravei o cinto e antes que pudesse abrir a porta, João Miguel o fez, como um perfeito cavalheiro. — Onde estamos? – Perguntei mais uma vez. — No prédio da Strack – ele falou abrindo um sorriso. Não fazia nenhum sentido estar ali. Já bastava ter que encontrar Rick pelos os corredores da casa dele, ter de encontrar ele na própria empresa dele seria a morte. — O que estamos fazendo aqui? Tá ligado que seu irmão me odeia, né? Ele riu com minha gíria. — Não é pra tanto. Ele só fala as coisas da boca pra fora. Ele é um cara legal. Mas não foi para ver ele que viemos aqui. Eu tenho uma reunião daqui a dois minutos. – Ele falou mirando o rolex no punho. – Como não queria a deixar em casa, pensei que pudesse aguardar apenas uns minutinhos. Depois daqui a pouco a gente vai naquela sorveteria famosa que te falei, ok? Eu não estava em condições de negar nada. — Ok! Ele abriu um sorissão, falando: — Tenho certeza que vai adorar nosso prédio, já que fã de Star Wars – Ele falou todo animadinho, lembrando da nossa conversa durante o almoço. Nós seguimos pelo saguão, entrando em um dos prédios mais bonitos que já vi em toda minha vida.


— 13 — Quando João Miguel me disse que iria adorar aquele prédio, era a mais pura verdade. Eu adorei aquilo. Era tão sofisticado e futurístico que parecia que eu estava num filme. Talvez por eles produzirem carros, a decoração se justificava. No entanto, apesar do deslumbrante ambiente, não me parecia divertido ficar sentada num banco de couro em uma sala de espera por durante quase 1 hora. – Poxa, ele me prometeu que iria ser rapidinho. Céus, Naty! Você parece uma criança pensando assim. Enquanto esperava, imaginava se Rick estaria ou não dentro daquela sala, já que quando chegamos, a secretária havia informado que todos já estavam na sala. Aliás, a secretária era a Renata. A mulher que fizera serviços em Rick na noite passada na cozinha, se é que me entende. Resolvi folhear pela enésima a revista de negócios que estava na mesinha de vime ao lado do sofá, quando uma voz triunfante saiu de dentro da sala a minha frente. — Que bom, meu caro Rick. A Generaléletrix está felicíssima com essa parceria. – O senhor atarracado saiu ao lado de Rick que sustenta um sorriso nos lábios. Sim, ele estava sorrindo. Nunca pensei que fosse vê aquilo. Rick resvalou o olhar para mim e como se sua boca tivesse amargado, ele retirou o sorriso da face, ao passo que subi a revista para cobrir meu rosto. — Desculpa Naty, demorei, né? – A voz de João Miguel surgiu na sala. O que faço? – Pensei nervosa. Num ímpeto, a mão de João Miguel circundou meu pulso, tirando a revista de minha mão e me levantou fazendo com que os olhares daqueles homens se voltassem para mim. — Que moça bonita! Quem é ela? – O barrigudo, que saiu da sala gargalhando com Rick, perguntou. — Ah, ela é mãe do meu sobrinho. — Sobrinho? Não sabia que Rick havia casado novamente. Felicidades, meu caro! – O homem de riso fácil deu leves palmadinhas no paletó de Rick que pareceu controlar-se. – Já estou indo,


qualquer coisa, já sabe, é só me ligar. – O homem falou se despedindo, e logo após, acenou para todos ali. Tão logo, aquela sala ficou mais espaçosa quando apenas restava eu, João Miguel e o cavalheiro das trevas, Rick. — Então, não vai cumprimentar a Naty? – João Miguel perguntou para Rick. Aquilo soou como uma provocação para Rick. — Vai para o inferno, João. – Rick saiu dali, feito um bicho raivoso. — Shiii, que bicho mordeu ele? – João Miguel perguntou coçando a cabeça. — Um bicho chamado Raquel – Renata, a secretária, saiu da sala comentando. — Raquel? A mesma Raquel que estou pensando? — Essa mesma. — Ela tá aqui? — Não, eu ouvi ele falando com ela no telefone hoje mais cedo. — Ah, agora tá explicado – João Miguel disse concluindo. A morena ao meu lado desviou o olhar de João Miguel para mim e perguntou: — Você está mesmo grávida do Rick? — Ah, não a apresentei? Renata essa é a Naty, Naty essa é a Renata, secretária do Rick. — Prazer. – Disse jogando um sorriso tímido me lembrando da noite passada. — Eu a conheci na noite passada, só não sabia da gravidez. Esse Rick! – Ela suspirou. — O que estava fazendo na noite passada na casa do Rick? – Ele perguntou desconfiado. — Coisas, bebê. Coisas que só um homem e uma mulher solteira podem fazer intensamente – ela disse enquanto saia deixando João Miguel pensando. — Não liga, não Naty. A Renata é... Ousada assim mesmo – ele disse cuidadoso, como se não quisesse me assustar. No entanto, eu tinha a impressão que não me assustaria mais com tanta pouca coisa. *** João Miguel havia me deixado na casa de Rick no comecinho da noite, depois de passarmos o resto da tarde conhecendo São Paulo. Eu poderia ficar fazendo isto pelo resto da vida, já que ficar no apartamento de Rick era


sempre desconfortável mim. Aquela noite estava mais fria que a anterior, enquanto eu andava pela casa silenciosa, atrás de um copo com água. Já havia dado 9 horas, e os funcionários já tinham ido, restando apenas os seguranças. Fui até a cozinha, me hidratei e caminhei em direção ao meu quarto. Quando cheguei à sala, me escondi no corredor quando ouvi Rick entrar. Ele parecia furioso, andando em passos pesados. Sua expressão tava tão rígida, que um frio na espinha irrompeu da ideia de ele dar de cara comigo com todo aquele mau humor. Deus me livre. Preferia dar de cara com Lorde Voldemort. Ele afundou no sofá, jogando o celular para outra ponta do estofado, cobrindo o rosto com as mãos. Ele ficou assim por breves segundos e quando ele tirou suas mãos, percebi que ele chorava silenciosamente. Seu rosto molhado refletia em meio à luz da lua que recendia da enorme vidraça. De alguma maneira, eu fiquei com pena dele. Por mais que eu não gostasse dele, eu não gostava de ver ninguém chorar. Antes que ele pudesse me ver ali, retornei para o meu quarto. No entanto, eu não consegui dormi quando deitei a cabeça no travesseiro. Eu fiquei por algumas horas pensando no que vi mais cedo. Ver Rick chorar fez com que eu me lembrasse daquela notícia. Rick era viúvo, de uma bela mulher, por sinal. Talvez a dor da perda ainda estivesse agonizando seu coração. De perda, eu bem entendia. *** Algumas horas haviam se passado e eu não conseguia dormir. Já era 3 da madrugada e minha barriga roncava muito. Então, decidi peregrinar de novo por aquela casa. Tirei o lençol sobre mim, calcei minhas chinelas e sai pé ante pé pelo o corredor. O que eu não esperava era escutar gemidos vindos da sala. Caminhei até o final do corredor e espiei, porque eu não sou de ferro, né? A minha curiosidade me levou a uma das cenas mais obscenas que já vira na vida. Rick, em pé, participava de uma orgia junto a duas mulheres. Elas estavam ajoelhadas diante dele, enquanto pareciam se unir para dar prazer q ele. A loira engolia o negócio dele, enquanto a outra chupava os seios da loira, enquanto Rick parecia se satisfizer presenciando a cena de lesbianismo. Engoli em seco, e como se tivesse no automático, sai dali. Atordoada, fechei a porta do meu quarto, ainda chocada e me deitei na cama. Fora exatamente ali que senti as primeiras dores de minha condição. Eu não sabia explicar, mas eu senti que ia vomitar. E sim, corri para o banheiro e vomitei, levantando a cabeça e me


perguntando, fraquejando: — O que eu estou fazendo aqui?


— 14 Uma semana depois... Uma semana havia passado depois daquela noite. E, no entanto, as noites naquela casa ficavam cada vez piores. Rick levava mulheres para a sala quase todos os dias. Eu sei que a casa é dele, mas ele não tem um pingo de respeito por mim. Poxa, se ele queria transar, que fosse em um quarto. Pra que fazer aquilo na sala? Até cheguei pensar que seria de propósito, já que suas ironias e tentativas de me atingir toda vez nos encontrávamos durante o dia eram quase iminentes. “Amiga, cheguei!” – A mensagem de Rafa estampou a tela do celular. Rafa não conseguiu esperar as férias e aproveitou o feriado para me visitar. E agora, eu a esperava chegar ao condomínio de Rick. Fui ao elevador para descer e pegá-la na recepção. Quando nos olhamos, foram inevitáveis, as lágrimas caíram dos olhos em meio à emoção. Um misto de saudades, ternura e dor fizeram com que corressem e envolvesse Rafa num abraço apertado. *** — Puta que pariu –, Rafa dizia admirada enquanto passávamos pela sala. – Isso é de verdade ou eu tô sonhando? – Rafa perguntou olhando o lustre de cristais em espiral. — Linda, não é? Também fiquei assim semana passada. Lá dentro é ainda mais bonito – disse me referindo aos aposentos. — Eu quero ver tudo! – Rafa olhou-me contagiante. — Tudo não sei se podemos ver... — O bonitão insuportável tá aqui? – eu já havia falado sobre o mau humor do meu senhorio. — Não. — Então miga, a casa é nossa! – Ela disse me puxando pela escada. Eu nunca havia subido as escadas.


— Amiga, aí não! Por aí é o quarto de Rick! – Adverti, porém Rafaela não me deu ouvidos. Quando vi, já estávamos numa sala de TV, repleta de estofados beges. Tinha tantos sofás e almofadas que mais parecia uma loja de móveis, só que perfeitamente sincronizados em uma constância elegante. — Será onde é o quarto do bonitão? – Ela perguntou varrendo com o olhar para as portas ali. – Vamos por ali – Rafa disse me puxando para a primeira porta que viu. — Rafa... – Tentei repreendê-la, mas fora inútil, já estávamos naquele quarto 5 estrelas. A cama era mais alta que o normal, proporcional ao tamanho de Rick. O colchão estava revestido por um edredom branco gelo e na parede do quarto, estava ocupada com um enorme quadro. E, aliás, a tela estava rasgada no meio. Como se alguém fizesse isto recentemente. — Putz, é aqui que o bonitão dorme?— Ela perguntou. — Tá parecendo – disse ainda muito assustada. Rafa abriu a porta ao lado e falou: — Uau, tem closet e tudo. Coisa de rico, né monamour? Outro nível. O que será o que tem do outro lado? — Rafa, pelo amor de Deus, vamos sair daqui. Se o Rick me pega aqui, ele me mata. — Amiga, calma. Não é pra tanto. Você não disse que ele passa o dia na empresa? — Sim, mas... — Não existe “Mas”. Já que estamos aqui, vamos marocar tudo! – ela disse abrindo a outra porta. – Caramba, isto é um banheiro? – Ela falou entrando. A seguir e fiquei tão admirada quanto ela. Havia uma banheira enorme rente a vidro fumê na parede que dava vista para a miríade de prédios lá fora. Rafa correu para dentro da banheira e disse sentada lá dentro: — Vem miga, aqui é lindo! – Ela falou olhando pela janela. — Rafa! — Para de besteira, guria. Entra logo aqui! Pensei um pouco e cheguei à conclusão que estava sendo medrosa demais. Rick tava na empresa e não tinha porque eu ficar com tanto medo de ser flagrada. A não ser que os funcionários me dedurem, no entanto, duvido muito, já que dona Lúcia sempre estava do meu lado. Fui até Rafa e sentei em sua frente. Rafa estava com sorriso enorme no rosto, denunciando que estava adorando aquilo. Ela se aproximou me abraçando e sussurrou: — Ah, que saudades miga! – Aquele “que saudades amiga” significava muita coisa. Ainda tínhamos muito que


conversar, só não esperava que fizéssemos isso dentro da banheira do ogro. *** — Tá ok, cinderela! – Rafa disse. – Agora, vou te chamar só assim. Revirei os olhos. — Cinderela tinha um príncipe. O Rick tá mais para um cavalo. — Calma, amiga, é só questão de tempo. — Questão de tempo? – Eu perguntei incrédula. – Nem fossemos imortais acharia que ele mudaria. – Eu disse me lembrando do jeito como ele me tratava. – Falando em tempo, acho que já está na hora de sairmos daqui – Disse me levantando da banheira e massageando minha bunda. — Ah, não! Tá tão gostosinho aqui – Rafa fez biquinho olhando para a paisagem impressionante ao lado. — Bora, Rafa! Agora é sério. Acho que o Rick está quase pra chegar. — Ok! Está bem! Vamos! – Ela disse se levantando. Num ímpeto, quando ouvimos o som vir do quarto, fomos ao assoalho da banheira com o coração na mão. — Ele chegou – murmurei tremendo para Rafaela. — Há alguma possibilidade de ser um funcionário? – Rafa perguntou. — Não sei – perguntei com a voz mais fina que a de um chihuahua. — Pode ser algum funcionário amiga... — Deus te ouça – disse já prevendo os latidos de Rick pra cima de mim. — Vamos ficar quietinhas aqui, até que essa pessoa vá embora. Foi exatamente quando a porta se abriu e nós nos abaixamos para espiar quem estava lá. Céus, era Rick. Céus, era Rick completamente nu. Na mesma hora me abaixei ao ver seu membro balançando de um lado para o outro. Olhei para Rafa que não piscava ao espiar o homem que vinha em nossa direção.


— Rafa, se abaixa peste! – pedi. — Tarde de demais – Rafa murmurou alucinada. Ergui a cabeça, dando de cara com a enorme tromba de Rick. Engoli em seco com seu tamanho e foi preciso inspirar fundo para conseguir erguer o olhar para o seu rosto. Nos seus olhos tinham confusão e incredulidade, enquanto meu rosto pegava fogo. Ele ficou parado nos olhando por um bom tempo, completamente nu e em seguida perguntou: — O que você está fazendo aqui? — Sua voz grave reverberou em meus tímpanos. Nossa senhorinha das cinderelas oprimidas! O que digo? Levanto-me feito um raio, tentando não olhar para o seu corpo. — Desculpa! Eu me enganei. Vamos Rafa? Rafa não desgrudava os olhos da anaconda de Rick, quando eu peguei a mão de Rafa, me preparando para sair dali. — Você não está pensando que vai escapar, né? – Ele perguntou segurando meu braço. Ele olhou para Rafa e disse: — Nos deixe a sós. Rafa me olhou e contra minha vontade, tive que assenti para Rafa sair. — Tem certeza?— Ela perguntou. — Tenho! — Tudo bem – Rafa saiu da banheira e, em seguida, saiu do lavabo. — Quem é ela? – Ele perguntou incisivo. Até parecia meu pai me dando bronca. — Uma amiga. – Falei olhando para o chão, tentando não fazer contato com a anaconda. — Ah, uma amiga! Quer dizer que já está tão a vontade que resolveu trazer uma amiga para minha casa, ou melhor, para o meu banheiro. – Ele não gritou, mas soou como tivesse. — Desculpa, tá? Eu não sabia... – Levantei a cabeça e estanquei meio zonza. — O quê? O gato comeu tua língua? – Ele perguntou ríspido. — Você pode se vestir ao menos? — O quê? Está com vergonha, senhorita Dick Vigarista? Que surpresa. Não sabia que mulheres como você tem algum tipo de vergonha... — Primeiro, meu nome é Natália. Segundo, eu tenho sim vergonha na cara. E terceiro... – falei


espumando. Não agüentava mais ouvir humilhações. – Não me compare com tuas mulheres. Eu não faço o tipo que me rebaixo por qualquer merda. – Disse quase gritando. — Engraçado que pra fazer filho de um merda... — QUE SE FODA! VÁ PARA O INFERNO, RICK! – Gritei. Minhas mãos trepidavam enquanto meus olhos estavam cheios d’água. Era como se eu não agüentasse mais. Rick me olhou espantado. Ele piscou duas vezes pasmo, então aproveitei para sair dali. Chegando a sala de estar, Rafa me olhava preocupada com meu estado. — Por favor, amiga, só me tira daqui – pedi entre lágrimas. *** — Isto é tão injusto! – Choraminguei, enquanto encarava a sopa de legumes em minha frente, enquanto Rafa se esbaldava num cachorro quente lotado de batata palha. Depois de ter brigado com Rick, acabei saindo com Rafa para conhecer São Paulo e espairecer um pouco. E não tinha certeza que voltaria para aquele apartamento naquela noite. — Amiga, pensa na saúde do bebê. Se comer só besteira, ele não vai se desenvolver saudável. — Tudo bem, já entendi! Mas uma batatinha não faz mal, né? – Disse pescando um riste de batata do cachorro quente dela. — Só essa – Ela disse feito um general. No final da noite, acabei indo dormir na casa da tia de Rafa. Ao contrário da mãe de Rafa, Dona Sônia era uma pessoa mais complacente e generosa, e acabou me acolhendo muito bem naquela noite.


— 15 — Rick Merda! Merda! Merda! Mil vezes merda! Por que ela tem que me perturbar novamente? Depois de anos, o que Raquel queria comigo? Eu não fui claro quando disse que preferia ver qualquer pessoa do mundo em minha frente ao ter escutar sua voz? Raquel era do tipo de mulher que qualquer homem deve ficar longe. Bonita, inteligente e sagaz, ela roubou meu coração em pouco tempo no passado. Agora o que ela queria de mim? Eu amei essa mulher como se fosse minha vida pra no final descobrir que ela estava tentando engravidar de mim para receber uma pensão bem gorda, quando ela fosse embora. Fico pensando se eu não tivesse descoberto há tempo. Fico pensando se eu não tivesse a sorte de conhecer Amélia. Mesmo sendo por pouco tempo, ela estancou a ferida no meu coração. No entanto, Amélia me deixou eternamente de luto. Fico pensando porque as coisas ruins acontecem com as melhores pessoas. Amélia era rica, bonita e boa. O que me dar mais raiva é pensar que meu coração ainda bate forte toda vez que escuto a maldita voz de Raquel. Aquela semana tinha sido difícil, a própria Raquel me ligou. Foi apenas um telefonema para me levar de volta ao passado. Agora não tinha Amélia, então apelei para o sexo. Fodi feito um louco durante a semana, mas ainda sim me lembrava daquela maldita. Agora se não bastasse, tinha a tal Natália, a Dick Vigarista. Céus, como aquela mulher me lembrava Raquel. Pobre, com o nariz empinado e toda cheia de si como se fosse honesta. E o pior, ela tinha uma boca irritantemente carnuda. Minha vontade era pegar pelos beiços, entre dentes e beijá-la ferozmente, descontando toda minha raiva. Eu sabia que não poderia fazer aquilo, no entanto, não passavam de pensamentos, pensamentos estes que escondia com palavras grosseiras. Era meu mecanismo de defesa. Cair no golpe do vigário uma vez era inocência. Agora, duas vezes, aí é burrice. No entanto, me assustei quando ela gritou comigo hoje mais cedo e saiu correndo chorando. Confesso que não esperava por aquilo.


Com o copo de uísque na mão, eu esperava a mulher de Cláudio, um dos sócios da empresa. Sua mulher me dava um tesão enorme. Loira siliconada, com um rabo gostoso. Sempre soube que ela tava louca pra trepar com o chefe do seu marido. Aquela noite nós iríamos nos divertir muito, diga-se de passagem. De longe, sentado no sofá, avistei-a saindo do elevador com um vestido vermelho que se ajustava muito bem em suas curvas. Ela desfilou até mim, fazendo-me levantar quando ela se aproximou. — Boa noite – eu disse com o meu tom de voz de caçador e ela retribuiu com um beijo lento e sexy no pescoço, enquanto pousava a mão em sua lombar, logo acima de seu rabo pomposo. — Boa noite, meu rei -, aquele tom me dizia tudo, aquela noite iria render. Deslizei minha mão mais para baixo, então ela me repreendeu: — Vamos com calma, baby – ela disse se desfazendo das minhas mãos e virando para mim, caminhando em minha frente, me provocando com aquela bunda gostosa. Não resisti, avancei e uni meu corpo no dela, pressionando meu cacete no seu rego. Ela soltou um gemido e eu sussurrei: — Você não está querendo ir com calma, não é meu anjo? Seria uma pena gastar todo o meu tesão para conversas fiadas. – Disse beijando seu pescoço. – Tô louco pra saber a cor da tua calcinha – disse entre beijos. — Quem disse que vim de calcinha? – Ela falou com aquela voz de mulher tímida. Cláudio havia se casado com uma profissional, pensei. Girei seu corpo e a beijei feito um animal. Eu precisava daquilo. Eu precisava aliviar a tensão dentro de mim. Estava muito bom o momento quando o som das portas do elevador soou. Minha mãe entrou na sala pigarreando algo, fazendo com que eu repelisse nossos corpos. — Boa noite –, ela falou se aproximando e olhando Verônica de cima a baixo. – Boa noite, Verônica – ela disse surpresa. — Boa noite, dona Marta. – Ela não se intimidou. — Me chame de Marta, afinal, não é como você fosse uma jovenzinha. – Minha mãe disse com seu humor agradável. Mamãe virou para mim e perguntou: — Onde está Natália? Dei de ombros e respondi: — Não sei. — Ok! Vou procurá-la... — Ela não está aqui. — Se não está aqui, onde foi? João Miguel veio aqui? — Não. Ela saiu com uma amiga. — Ela disse para onde foi?


— Por que ela diria algo para mim? — O que falou para ela antes de ir, Rick? Eu cocei a cabeça, lembrando de nossa discussão. — Vocês não brigaram, não é mesmo? – Minha mãe sempre pegava as coisas no ar. — Verônica, você poderia subir para o quarto? – Perguntei para a mulher ao meu lado. — Verônica, pegue suas coisas e vá embora imediatamente. – Mamãe ordenou. Verônica ignorou minha mãe e começou a subir as escadas. — Seu marido sabe que está aqui? – Minha mãe perguntou e Verônica parou. – Vá embora antes que eu perca a paciência. Verônica ponderou as palavras de minha mãe e logo tomou o caminho de volta. — Rick, você me prometeu... — O que eu prometi? Prometi que a deixaria ficar aqui por 9 meses. — Você está infernizando a vida... — Infernizando? Eu não estou infernizando. Quem está infernizando minha vida é a senhora me obrigando a manter aquela moça aqui dentro contra minha vontade. — Eu estou infernizando sua vida? – minha mãe perguntou ofendida. – Saiba que eu... – ela estancou as palavras passando a mão no rosto e se apoiando no sofá. — Mãe... – voei preocupado, aparando-a. – Você está bem? — Estou sim. Não passa de uma tontura boba –, ela disse sentando no sofá, um pouco cambaleante. Ajoelhei-me em sua frente, então ela pegou meu rosto, falando: — meu filho, por favor, ache a Naty. Se brigaram, ela deve estar magoada. — Mãe... — Você disse que faria isso por mim. E a única coisa que peço é vá atrás da mãe do teu filho. — Eu não sei pra onde ela foi. A voz de Lukas, o segurança, que provavelmente trouxe minha mãe do aeroporto, entoou: — Michael sabe onde está. – Ele disse se referindo ao motorista. Olhei minha mãe, que me jogou um sorriso terno e encorajador. ***


— Onde você se meteu? – bufei no banco do motorista. Segundo Michael, ele havia a deixado numa lanchonete na Rua Augusta, mas de longe dava pra ver que não tinha ninguém ali. Estacionei o carro, desci e caminhei até lá. Entrei no recinto e me direcionei ao caixa. — Olá, boa noite. Você sabe me dizer se uma menina branca, de cabelo castanho escuro, acompanhada de outra garota de cabelos cor de rosa, passou por aqui? – perguntei ao senhor de cabeça branca. — Boa noite... Hummm... Acho que não me lembro... – ele parecia confuso. — Sim. Ela estava aqui. — Uma mulher de mais ou menos quarenta anos saiu da cozinha secando as mãos numa flanela. — Você lembra, mulher? – O homem perguntou ainda confuso a companheira. — Claro que sim, Zeca. Acho que o homem refere-se à amiga da sobrinha de Joana. — Ah, é mesmo! Ela tinha cabelos castanhos. Muito sedosos por sinal. — Você disse “sobrinha de alguém”? Você pode me dar o endereço dessa mulher? — Claro! – Ela disse e depois repensando: — Mas antes terei que saber o que é pra moça. Ela não poderia só passar o endereço? – Pensei. Ela parecia estar um pouco relutante em fazer isto, então disse: — Eu sou o pai do filho dela – aquelas palavras saíram fortes de minha boca. *** Eu estava parado por horas do outro lado da rua de uma casa humilde na periferia de São Paulo. Eu simplesmente não consegui sair do carro. Era como se eu fosse perder minha dignidade ao pedir para Natália voltar para casa. — Ah, mãe, por que tem que ser tão chantagista? Num ímpeto, meu coração disparou ao ver a porta ser aberta. Uma menina de cabelos rosa saiu de lá carregando um enorme saco de lixo. E logo atrás vinha ela. Natália. — Agora, Rick! – Disse abrindo a porta e atravessando a rua. – Dick! – disse subindo na calçada. Natália me olhou surpresa e balbuciou meu nome: — Rick! — Olha, se veio humilhar minha amiga, pode cair fora daqui – a menina de cabelo rosa rosnou.


— Não, eu só quero conversar com você, posso? — Perguntei à Natália, que assentiu. A menina ao nosso lado jogou o saco na lixeira e entrou na casa me encarando. — Ande, fale o que tem pra falar! – Dick disse. — Você não vai voltar essa noite? — Não. Na verdade, tô pensando em voltar nunca mais. — Minha mãe voltou. — O quê? Dona Márcia voltou da Alemanha? – Perguntou afoita. — Sim. A primeira coisa que ela perguntou foi sobre você. Ela olhou para o chão, então continuei. — Ela não vai sossegar até que volte. — Desculpa, mas não posso fazer nada. Dá licença – ela disse virando-se. — O contrato. Você assinou. Caso você não fique na casa pelos meses acordados, terá que pagar a rescisão. – Ela estancou e por fim disse: — Faça o que quiser. Eu não tenho nada de material nesse mundo para perder. Ela prosseguiu, deixando-me frustrado. Num rompante, caminhei até ela e a alcancei, e quando vi, já estava com o seu corpo nos ombros levando-a para o meu carro. — Solte-a – ela dizia me chutando. — Calminha! – Eu disse ajeitando seu corpo no meu ombro. — Minha barriga! Solte-me! Doe. – Agora ela pedia desesperada. No mesmo instante, coloquei-a no chão, enquanto a via se contorcer. — Isso é sério? – Perguntei um pouco nervoso. — Sim, o bebê– ela disse com as veias saltando na testa. Nunca me sentira tão aturdido na vida como naquele instante. *** Eu aguardava na sala de espera, agoniado com tanta demora. Eu odiava hospital, especialmente odiava esperar em um hospital. Eu esperava ao lado da menina de cabelos rosa que estava tão


nervosa quanto eu. — Senhor Rick, — a enfermeira apareceu, e eu me levantei. — O doutor pediu para que entre. Fiquei nervoso com aquilo, não entendendo o porquê de meu coração estar quase saindo pela boca. — Depois eu saio para que você entre, ok? – Disse à garota que parecia não ir muito com minha cara. Entrei e dei de cara com a Dick deitada na maca. Ela abriu os olhos, fazendo com que meus ombros relaxassem. — Olá. Você que é o Rick, o pai do bebê? Pai do bebê? Engoli em seco e assenti. — Sim. Como ela está? — Agora está muito bem! Se não chegassem a tempo, talvez não pudéssemos estabilizar sua situação. Sente-se, temos algo a mostrar. – O doutor falou. Esfreguei as mãos no jeans e me sentei ao lado da Dick. — Olhos na tela papai – ele disse fazendo com que minha atenção volta-se a tela no canto direito da maca. Com a imagem embaçada, era possível ver o grau de feijão palpitando de forma frenética e quando percebi o som de algumas batidas abafadas, o doutor disse: — É o coração. É o coração do seu filho. Eu nunca acreditei que Natália estivesse mesmo grávida de mim. Mas o som daquelas batidas mexeu comigo. Talvez o instinto fosse maior que razão. ***


— 16 — Natália Eu esperava ao lado de Rick o elevador abrir as portas. Nunca me senti tão claustrofóbica quanto eu estava naquele momento. Rick havia deixado Rafa na casa da tia e me trouxe de volta ao apartamento. Durante todo o percurso ele não falou muito, no entanto, deixou bem claro que não permitiria que eu deixasse sua casa. Segundo ele, aquilo era por dona Márcia, porém, depois da ultrassonografia, permiti-me iludir que ele talvez estivesse finalmente aceitando minha gravidez. — Vamos! – Ele pousou a mão na minha costa e me conduziu para fora. Caminhamos até a sala e antes que pudesse tomar meu rumo, sozinha, ele falou: — Espere! Temos algo a conversar. — Eu estou cansada. — Só alguns segundos. Não vai demorar. É sobre minha mãe. — O que tem dona Márcia? Onde ela está? Ela está bem? — Sim. Ela está bem. Ela foi para casa descansar, ela estava preocupada com você. — Por isso foi me buscar? Por que ela lhe obrigou? Ele suspirou e confessou: — Sim. Eu fui porque ela me pediu. Mas... – Ele estancou. — Mas... — Nada. — Então é só? — Parece que sim. – Ele disse então me virei e se apressou: — Parece que não. Por favor, eu sei que devo ter te magoado, mas peço que me desculpe. — Desculpe-me? – sussurrei como se aquilo não tivesse saído de sua boca. — Sim. Desculpe-me pelo o modo que tenho te tratado. Meu coração amoleceu com aquilo, então ele prosseguiu: — Mesmo que seja uma vigarista, eu não devo tratá-la assim, afinal, você carrega um bebê meu no seu ventre.


Virei-me ainda sem acreditar. — Você ainda acha que eu sou vigarista? – Perguntei incrédula. — Estar grávida não te isenta daquilo que fez para estar assim. — Eu não acredito – eu estava irada. — Se quiser ir dormir agora, já terminei com você... — Vá para o inferno idiota estúpido – disse antes de sair fincando meus pés com força no piso reluzente, o deixando piscando freneticamente. Eu não acreditava que tive, mesmo que por 1 segundo, um sentimento bom por aquele ser. Minha vontade era de gritar até minha voz acabar. Fui até o meu quarto e me joguei contra a cama. Eu estava cansada e com muita raiva. No entanto, graças a Deus o cansaço venceu. *** Acordei no meio da noite. Eu estava urrando de fome. Minha barriga roncava tão alto que mal conseguia dormir. O jeito foi me levantar e procurar por comida. Sai em direção à cozinha e quando passei pela sala, bufei. O idiota do Rick estava sem camisa dormindo no sofá, com aquele corpo todo esparramado no sofá comprido. Prendi a respiração e passei por ali sem que acordasse a fera. Tive sucesso ao chegar à cozinha, sorvendo umas boas lufadas de ar para restabelecer meu pulmão. — Idiota estúpido – resmunguei. Olhei para a geladeira e fui até lá. Se eu tivesse sorte, aquela torta holandesa que vi ontem na primeira prateleira ainda estaria lá. Abri a porta e me decepcionei. — Poxa, queria um pouquinho de chocolate – choraminguei. Encurvei-me para frente, pousando as mãos nos joelhos, tentando achar algo que me agradasse nas prateleiras de baixo. Tinha pudim de leite, mouses, torta de morango e uma infinidade de geléias com o rótulo em francês. — O que eu escolho? – pensei alto, tamborilando meus dedos nas coxas. — Acho que um pedaço de torta seria uma ótima escolha – a voz grave soprou contra meu pescoço, fazendo com que meu corpo levanta-se num ímpeto e desse de cara com Rick. Jesus! Minhas pernas ficaram mais moles que geléia. Rick estava como ainda agora, quando o vi na sala: sem camisa, com uma calça de moletom que deixava o delineado do V entre seu ventre à mostra.


Meu peito batucava forte enquanto eu hiperventilava. De repente, minhas pernas falharam e, no mesmo instante, Rick me aparou contra seu abdômen quente. Nós ficamos assim por longos segundos, o suficiente para o meu corpo ficar em chamas. — Você está bem? – sua voz grave me enlouqueceu e pensei que talvez a gravidez tivesse aguçado minha libido. Ergui o olhar e dei de cara com aqueles lábios sexys e convidativos de onde saíam tantos insultos direcionados a mim. Rick parecia tão vulnerável quanto eu, já que sentia a corrente de desejo na forma com que sua mão apertava minha lombar. — Eu estou bem – disse contra sua boca. Minha voz saiu adocicada, então ele mordeu o lábio inferior, me apertando mais contra ele. Eu não queria admitir, mais eu estava ardendo em desejo enquanto ele me apertava contra si e poderia sentir os efeitos que eu estava causando nele. Seu bagulho dentro do moletom não escondia a agressividade e eu estranhamente estava começando a ficar molhad... Céus, o que eu estava fazendo? Despertei de meu transe e serpentei meu corpo para fora de seus braços. — Solte-me. – Disse nervosa. – Nunca mais ponha as mãos em mim – disse alterada como uma descontrolada e sai correndo com a respiração descompassada. O que foi aquilo? Ele agora queria me seduzir? Como assim? Ele queria me comer só pra deixar claro que eu era uma merda? Pois ele tava muito enganado. Nunca cederia. Nunca perderia minha dignidade para ele. *** Acordei péssima. Às 7 da manhã. Eu nem dormi direito. Se é que dormi. Acabei levantando para tirar Rick dos pensamentos e a maldita fome da barriga. Tomei uma ducha, me arrumei e sai pela casa. Percebi que os funcionários estavam chegando e levei um susto quando dei de cara com dona Márcia. Ela guardou o celular no sofá quando me viu. — Dona Márcia. — Naty, querida – ela se levantou vindo me abraçar. – Bom dia querida, não sabia que estaria acordada uma hora dessas – ela falou se repelindo. — Bom dia – disse timidamente. – Como a senhora está? Como foi lá na Alemanha? — Tudo ótimo, querida. Muito melhor que eu esperava. E você? Diga-me, como você ficou?


Tem passado bem aqui? — Sim – menti. No entanto, ela falou: — Não precisa mentir querida. Eu soube da briga que tiveram ontem. – Ela disse e fiquei sem palavras. Não tinha muito a dizer. Afinal, não poderia xingar o seu próprio filho na sua frente. — Pois é... — Por isso que vim logo hoje. Tenho planos para nós. — Planos? — Sim, sim, querida. Não irá ficar nessa casa. Pelo menos nos próximos meses. — Não tô entendendo... — Nós voltaremos pra Santa Catarina, filha. Eu tenho uma linda casa de campo em Joinville e é pra lá que iremos. De repente, a voz de Rick se fez: — É isso mesmo? Você a levará pra aquele... – ele engoliu em seco – lugar? – Rick parecia pasmo, mais que eu. A cada dia que pensava que eu finalmente iria tomar as rédeas de minha vida, chega uma notícia e abala todos os meus planos.


— 17 — Natália Parecia que eu estava tendo um Déjà Vu. Não fazia nem um mês que estava na casa de Rick e já estava me mudando novamente. No carro, já em Santa Catarina, a caminho a tal casa de campo, dona Márcia e eu conversamos sobre tudo. Especialmente sobre nossas lembranças. Dona Márcia me contou sobre a infância de Rick e João Miguel. Contou que ia todas as férias a casa de campo a qual estávamos indo. Contou sobre seu temperamento fácil, fazendo-me duvidar muito que aquele Rick dócil e gentil era o mesmo o qual eu lidava. — Ah chegamos! – ela disse enquanto atravessamos um lindo campo de margaridas. Olhando mais longe dava para ver uma casa no alto da montanha. Uma bela e charmosa construção de madeira. Subimos até lá, por uma estradinha íngreme, e logo estávamos tomando nossas malas do portamalas. Dois homens apareceram e nos ajudaram com o peso. Uma senhora de cabelos grisalhos e de avental surgiu no pé do terraço em nossa frente e desceu as escadas dizendo: — Dona Márcia! É a senhora mesmo? — Sim, Maria. Sou eu. Vim pra ficar. Dona Márcia disse para a senhora, que abriu um sorriso encantador. — Essa é a Natália, minha nora – dona Márcia disse me deixando envergonhada. A mulher colocou os olhos em mim em espanto e tentou disfarçar. — Nora é? Vão se casar? – Uma voz jovial irrompeu no espaço. Olhei para o terraço e encontrei a dona da voz, a mulher de cabelos castanhos na altura dos ombros. Muito bonita, por sinal. Teria no máximo 27 anos. — Sim, Raquel. Rick e Natália vão se casar – Dona Márcia disse e não interferi, mesmo sabendo que aquilo não era verdade. No instante, tive impressão que a mulher ficou abalada com as palavras de dona Márcia, mas era só impressão. Não conhecia aquela mulher para afirmar algo.


Dona Márcia subiu as escadas e eu a segui. Aquela casa era enorme e aconchegante e arejada. Tinha janelas pra todos os lados. E tinha atmosfera incrível. Por todos os cantos tinha fotos de dona Márcia com seus filhos e com o marido. Aliás, antes de alçamos vôo em São Paulo conheci o senhor Maldonato: é um senhor sério e de pouca conversa. Ela me acomodou no quarto de Rick, mesmo eu insistindo que eu poderia ficar no quarto de hospede. Eu não sabia o que aquele lugar poderia significar na minha vida, mas logo de cara senti a energia forte que passeava por ali.

2 Meses depois Um tempo tinha se passado desde que vi Rick pela última vez. E aquilo não fazia a menor diferença em minha vida, mas... Por que “mas”? Não precisamos de “mas”. Eu seguia mais um dia lindo naquele lugar abençoado por Deus. Acordava com o piado dos passarinhos e com o forte farfalhar das folhas, e aquilo me deixava mais feliz. Meu filho crescia cada vez mais em meu ventre, já apontando uma barriga saliente. Raquel surgiu na cozinha dizendo: — Um carro está vindo aí. – Ela falou comigo, fazendo com que eu estranhasse tal atitude. Ela nunca falava comigo. — Deve ser João Miguel – falei. João Miguel sempre encontrava um tempinho para vim me visitar, afinal, tínhamos nos tornado grandes amigos. Abandonei o copo de café na mesa e fui correndo para recepcioná-lo. Chegando lá, vi que não se tratava da Frontier de João Miguel, e sim de um volvo grafite. O carro parou na beira da escadaria, e como se eu tivesse um pressentimento, um frio irrompeu minha espinha e Rick saiu do veículo. Seu olhar pairou em mim, ao passo que seus dedos embrenharam nos longos fios dourados. Ele bateu a porta e seguiu para a escadaria, alcançando o topo e me intimidando com sua altura descomunal. Eu me sentia uma tampinha perto daquele homem, no entanto, eu não me sentia inferior. Não me permitiria ter esses tipos de sentimentos, eles não ajudam em nada, não é mesmo? — Olá – eu disse e ele me fitou, resvalando as mãos para os bolsos da calça jeans escura. – Não sabia que vinha... — Nem eu. Ele me surpreendeu, me respondendo sem parecer rude.


— Onde está minha mãe? — Eu não sei. Acho que ela saiu ainda quando eu estava dormindo. Ele me olhou de cima a baixo e balançou a cabeça dizendo: — Ok! — Ok? – indaguei. — É... Ok! – ele disse. Não sei se foi por falta de assunto ou porque simplesmente a conversa não flui com nós dois, mas eu me virei para adentrar a sala. E Rick fez o mesmo. Não tinha previsto que ele viesse atrás, no entanto, o grandalhão loiro me seguia pela casa até eu parar na cozinha. Chegando lá, Raquel estava cozinhando algo no fogão. — Quem era? – Raquel perguntou sem se virar. Eu ia falar, no entanto, uma energia pareceu preencher toda a cozinha. Demorou, mas a voz de Rick saiu grossa e firme: — Eu. Num ímpeto, Raquel virou-se e encarou Rick. Ela estava embasbacada com a presença de Rick ali. — Como vai, Raquel? Já faz um tempo... Raquel deixou cair o talher das mãos, fazendo uma zuada estridente. — Tudo bem? – perguntei a moça que parecia perplexa. No entanto, não obtive respostas dela, porém Rick falou: — Sim. Ela sempre está bem. O climão perdurou por alguns longos segundos, no entanto, Rick se pronunciou rompendo o silêncio. — Saia! – Ele ordenou com um tipo de torpor na voz, um tanto grosseiro, Idiota, — pensei me virando para sair dali. — Você não – ele segurou meu braço e completou: — Você fica. Estou dizendo para a criada. Saia imediatamente. — Não sei de onde tirou a ideia de que sou sua criada, no entanto, não vou sair. Esta casa é de dona Márcia e eu sou funcionária dela. — Mal criada como sempre. — Mal criada? Será se ele não se enxerga? – murmurei.


— O que disse? – perguntou a mim. — Nada não – respondi mostrando os dentes. — Vamos! — Pra onde? – indaguei confusa. — Só vamos! – ele segurou minha mão e Raquel disse: — Parece que seu sonho vai se tornar realidade. – Rick estancou e ela prosseguiu: — Será se te fará feliz ter um filho de uma mulher que não ama? – Aquilo não atingiu só a Rick — Quem disse que não a amo? — Rick perguntou. — Não precisam me dizer. Sei que teu coração ainda bate por mim. Eu olhei Rick que balançou a cabeça e me fitou: — Não escute essas baboseiras, Dick. Não quero que nosso filho nasça com sequer um resquício de cinismo. – Ele apertou minha mão e voou comigo ao seu lado. Andávamos pela casa sem desferir uma sequer palavra. A cabeça a mil, era o que imaginava como Rick estava se sentindo a partir de suas expressões. Atravessamos a casa até chegar ao seu quarto. Ele abriu a porta e soltou minha mão, finalmente, caminhando para dentro. — Pode ir! – Ele disse com o visível estresse na voz. — Desculpa, mas eu não posso ir. Eu estou dormindo nesse quarto. — Esse quarto é meu. — Sua mãe... — Dona Márcia, Dona Márcia, sempre ela! – Ele já havia começado a se irritar. — Vai uma maracugina? – pensei alto. Ele continuou falando sem me dar ouvidos: — Já que eu cheguei. Você pode ir para o quarto de hóspedes agora. — Desculpa, mas daqui eu não saio, daqui ninguém me tira – disse pensando que eu poderia perder aquele colchão dos céus que só aquele quarto dispunha. – Espere, você vai ficar? Na cidade? Nesta casa? — Vou. E vou ficar aqui, neste quarto. — É mesmo? Quero ver quem vai me obrigar a sair daqui? – Perguntei arqueando as sobrancelhas e pousando as mãos na cintura. — Você que pediu – ele veio em minha direção, feito bruto, então desviei pulando e deitando


na cama. Ele com certeza me colocaria no ombro, como fez naquele dia e me tiraria dali a força. Talvez me grudar na cama feito um gato fugindo da água fosse a melhor coisa a se fazer, eu só não imaginei que ele puxasse minhas pernas, enquanto eu agarrava o beira do colchão lutando contra a força de Rick. — Vai. Ter. Que. Sair – ele disse. — Nem. A. Pau – falei com dificuldade, apertando os lençóis. Aquela luta perdurou por alguns segundos até Rick cair ao meu lado, se rendendo. Sua cabeça na altura de minha barriga fazia com que eu sentisse pontadas na espinha enquanto sua respiração descompassada ricochetava meu ventre. Com a voz falha, ele comentou: — Está grande. Eu o olhei e o encontrei encarando minha barriga de forma estranha. — É... Cresceu — soltei um pouco envergonhada. — Pode ficar! — O quê? Você fez todo esse escarcéu para na hora desistir tão fácil? – comecei indignada. — Quem disse que eu não vou ficar? Dormirei aqui – ele me lançou uma piscadela sacana, enquanto se remexia no colchão. — Você vai ficar aqui? Espere, esse joguinho não cola comigo. — Não estou fazendo joguinho. Não vejo problema algum dormir acompanhado. — Até outro dia você me odiava. — Até outro dia? – ele arqueou as sobrancelhas. – Já faz meses. Ele falou e silenciou um pouco. — Sabe, Dick, tenho pensado muito nesse bebê e talvez eu tenha sido um pouco... — Injusto? — Não. Não acho que eu tenha sido injusto, mas sim grosso... Eu não deveria a tratar assim... — Você ainda acha que sou uma vigarista? — Eu parei de te chamar de Dick, não é mesmo? — Não respondeu minha pergunta. — Tudo que tem que saber é que eu tenho dificuldade de confiar em pessoas, principalmente


mulheres como você. — Como eu? Como assim: “como eu”? — Esqueça! Vou tomar um banho, se quiser ficar aqui, pode ficar. Se não quiser, temos quartos melhores nessa casa. Ele se levantou e saiu pela porta de entrada. Talvez fosse pegar suas malas. Relaxei meu corpo na cama suspirando, finalmente respirando e pensando porque eu estava naquele estado. Eu não queria admitir que a aproximação daquele homem me afetava. Não só de forma negativa. E era isso que estava me incomodando.


— 18 —

— O Rick está aqui? – dona Márcia parecia perplexa. — Sim. Chegou ainda pouco. Está tomando um banho agora. – Respondi quando ela chegou da cidade com um chapelão enorme de palha. Ela silenciou, e eu perguntei: — Algum problema? Parece... Chocada... — Não, querida. Nenhum problema – ela falou e não conteve a expressão de espanto. Raquel adentrou a sala, falando com aquela voz aveludada: — Eu sabia que ele ia voltar, era só questão de tempo... — Cala boca, Raquel. Não se esqueça que só te mantenho aqui a pedido de sua mãe. Eu não entendia muito bem o estresse, mas algo me dizia que tinha algo muito estranho ali. *** O dia passou voando. Ficar no terraço ao lado da piscina costurando me fazia muito bem. Ainda mais quando eu persistia pensar demais. Aliás, aprendi a costurar direitinho com dona Márcia. Quem diria que uma mulher tão granfina soubesse fazer tal atividade. Vou confessar que no fundo sempre quis saber costurar. Talvez para dar vida aos desenhos de roupas que eu crio desde criança. Nunca me vi sendo uma estilista, dizem que é profissão pra quem já tem dinheiro, no entanto, estava começando a pensar sobre aquilo. Talvez um sonho estivesse nascendo e com ele, meu amor incondicional pela a criaturinha em minha barriga e o amor que eu tinha por aquela senhora. Era difícil pensar que dona Márcia tinha aquela doença. Eu não queria a perder como eu perdi minha mãe. — Naty, não acha que já costurou demais por hoje? – Dona Márcia pousou a mão em meu ombro. — Estou terminando o acabamento desse vestido. Só mais um pouquinho. Esse irá ficar deslumbrante. — Ah, disso tenho certeza meu amor. Estou até pensando em pagar um curso para você. Em Paris.


— O quê? – perguntei surpresa sem tirar os olhos do vestido. — Seriíssimo, meu amor. Você tem talento garota. — Quem tem talento? – Rick adentrou a sala, fazendo com que eu levasse um susto. A agulha beliscou meu dedo e eu o tirei debaixo da máquina a tempo, antes que fizesse um estrago maior. — Au – resmunguei. — O que houve? Machucou-se? – Dona Márcia pegou minha mão. — Espera aí. Vou buscar um curativo para isso – Rick me surpreendeu dizendo. Ele voltou pela porta da cozinha. Com uma caixa de curativos nas mãos, sentou ao meu lado e pegou meu dedo, tomando as rédeas da situação. — Uau, estou surpresa! – Dona Márcia disse exatamente o que eu estava pensando. – Não sabia que tinha tomado jeito, meu filho. — Tomado jeito? – ele riu. – Isso tudo porque estou ajudando uma pessoa que se feriu? – ele passou o remédio em cima do ferimento, arrancando-me um gemido e em seguida, um arrepio, quando o encontrei me fitando com aqueles olhos cristalinos. Se eu não tivesse um reflexo bom, aquilo necessitaria de ir ao hospital. — Que bom, filho! Assim é bem melhor. Naty é a mãe do filho e é bom que já esteja se acostumando com isso. Ele ergueu o olhar, me fitando novamente e tomando todo o meu ar. *** Já estava dando meia noite quando adormeci esperando Rick. Eu não sei por que acreditei que ele dormiria comigo. No entanto, eu esperei. Mas ele não veio até eu adormecer. Como de costume, às 3 horas da manhã, me levantei e sai pela casa à procura de comida. Parecia que a fome do meu bebê era 3 vezes maior que a minha e aquilo só aumentava. E olha que eu sou boa de garfo. O que eu não esperava era encontrar o mesmo que encontrava na casa de Rick nas madrugadas, pelo menos não ali. Olhei pela janela de vidro, e vi Raquel sendo tomada pelos braços hábeis de Rick em cima da espreguiçadeira da piscina. Por um instante, tive a impressão que ela me viu, porém me escondi ao lado da cortina, com o coração palpitante. — Droga! Por que está batendo tão forte? – Sussurrei com os olhos ardendo. Uma desconhecida vontade de chorar me veio.


Eu sempre soube que Rick não era pra mim, no entanto, eu me senti exacerbadamente mal em ver aquela cena. Ver ele com Raquel era diferente. Era diferente porque me parecia que ele a... Amava. Poderia ser tolice, mas era o que parecia. Voltei para o meu quarto com fome e me obriguei a dormir. *** — Bom dia! – disse plantando um beijinho no topo da cabeça de dona Márcia que estava sentada na cadeira da mesa da copa. — Bom dia, meu bem. Como dormiu? — Muito bem – menti me sentando a mesa. – E a senhora? Como dormiu? — Bem, querida. Muito bem. — Bom dia! – a voz de Rick entoou no espaço e eu me encolhi quando ele sentou ao meu lado. — Bom dia, meu filho. Dormiu bem? Ele me olhou, falando: — Sim, dormi. Por quê? – ele perguntou com um sorriso no rosto. Nunca tinha o visto daquele jeito. — Acordou todo animadinho, posso saber o porquê? — O porquê? – ele perguntou desconfiado. – Deve ser porque estou acordando depois de anos com minha maravilhosa mãe a mesa. Ele disse empolgado. Talvez a Raquel o tivesse deixado assim. Não vou admitir, mas cá entre nós, eu tava com uma pitadinha de ciúmes. — Aconteceu algo ontem à noite? Vejo que não está em seu estado de humor normal – Dona Márcia falou fazendo-me quase engasgar. — Tudo bem, Natália? – ele perguntou enquanto eu tossia. — Sim... Muito bem... Não se preocupe... — Quero que leve Natália hoje para conhecer a fazenda dos Guerreiros. Eu falei para ela sobre o riacho que tem por lá e ela ficou encantada. Eu queria levá-la até lá esses meses, mas você sabe como é. Não aguento mais essas caminhadas. — Não precisa dona Márcia – eu disparei, pensando que ele não quisesse me levar até lá. Afinal, depois daquela noite, ele deveria querer se encontrar com Raquel. – Eu nem queria ir lá


tanto assim... — Por que está relutando? – Rick me encarou, dizendo: — Se disse que queria conhecer, então vamos lá. – Ele falou e em seguida me lançou um sorriso. Foi um sorriso tão lindo que fiquei meio zonza e assenti: — Está bem! — Coma bastante, irá precisar. Daqui a 1 hora, a gente sai – ele me avisou colocando uma lasca de mamão no pires. *** — Olha só se é ela, mesmo? A Dick – Rick disse me vendo em roupas de trilha. Ele também parecia estar adequado: camiseta, short, e uma mochila rechonchuda na costa. — Você disse que não me chamaria mais desse jeito. — Perdão. Força do hábito. – Ele disse se desculpando. – Vamos? Daqui pra frente terá muito chão para percorremos. Comecei a andar ao lado de Rick pelo jardim até a porteira da fazenda vizinha. Rick era enorme e eu me sentia uma verdadeira anã ao seu lado. Atravessamos a porteira, e seguimos pela a trilha por trás da casa de campo. Começamos a percorrer pela mata, que sempre eu observava de longe. Depois de alguns segundos em silêncio, perguntei: — Então, você andava muito por aqui quando criança? Ele me olhou e pareceu dar espaço para mim. — Sim. Eu vinha muito por aqui com João Miguel e Raqu... – ele estancou. — Raquel. — Sim. Raquel. — Ela era sua namorada? Ele demorou mais a responder. — Nós éramos amigos quando crianças. Ela acabou mudando de cidade e passamos um tempo sem nos ver. Quando a mãe dela voltou para trabalhar aqui em casa, ela já era uma moça feita. Muito bonita por sinal e ainda continua. Ai você sabem me apaixonei feio por ela e depois de um tempo começamos a namorar. – Me surpreendi com aquilo. Nunca pensei que Rick falaria tão abertamente sobre sua vida para mim. Acho que ele estava de bom humor mesmo. — Por que terminaram?


— Você não acha que pergunta demais? Tá ok! Eu abusei da boa fé – pensei. — Desculpa, só estava curiosa. — Não precisa se desculpar, tenho certeza que irá me odiar quando suas pernas estiverem doloridas quando voltarmos. – Ele disse me ajudando a subir pela trilha íngreme. Depois de quase uma hora caminhando, chegamos a tão louvável cachoeira dos Guerreiros. A água era tão cristalina que dava de ver os peixes, e a queda d’água era barulhenta e ao mesmo tempo reconfortante. — Uau! Que lindo! – comentei maravilhada. — É lindo mesmo! – Disse Rick, que estava tão maravilhado quanto eu. Penso que tivesse com saudades daquilo. De repente, Rick começou a tirar a camiseta, me deixando desconfortável. Ele tirou o calção ficando apenas de sunga. – Não vai entrar? – ele perguntou ao meu lado. — Não sei. Vai você primeiro – eu disse, e ele deu de ombros. — Ok! – ele caminhou mais pra trás e depois correu em direção a água, pulando e respingando água pra todos os lados. Fiquei observando ele encontrar a superfície, ajeitando os fios encharcados. — Entra, Natália! A água está quente. Mais gostosa não há. — Poxa, com uma propaganda dessas, acho que vou entrar.— Disse me arrependendo logo após, quando senti vergonha em me despir aos olhares atentos de Rick. Mesmo com vergonha, fiquei de calcinha e sutiã, e ao contrário dele, entrei devagarzinho. A água batia em minha cintura e como Rick disse, estava uma delícia! Quentinha, quentinha. Rick veio até mim e parou em minha frente me encarando. Ele desceu o olhar para minha barriga e ergueu a mão. — Posso? Eu assenti e ele colou a mão em meu ventre, fazendo com que todas as células de meu corpo entrassem em polvorosa. Ele se abaixou um pouco para que pudesse ficar na altura de minha barriga, e num dado momento, algo estranho me ocorreu. O bebê chutou pela primeira vez. — O que foi isso? – ele perguntou com os olhos brilhando. — Acho que ele chutou. – Disse emocionada. – Pela primeira vez, ele chutou. — Essa é a primeira vez? – ele perguntou maravilhado e eu meneei a cabeça sorrindo.


Rick parecia tão feliz quanto eu. Então, como se eu fosse enfartar, Rick se aproximou ainda mais da minha barriga e falou: — Eu estou aqui, filho. Seu pai está aqui – ele disse com um sorriso escancarado nos lábios e tão logo, depositou um beijo em minha barriga. Parecia que eu estava eletrizada. Nunca pensei que pudesse sentir um emaranhado de sensações como aquelas que senti naquele momento. *** — Rick, acho que vai chover e agora? – perguntei pensando se aquela estrada por qual viemos já era dificultosa seca, imagina molhada. — Não se preocupa. Tem um casebre aqui do lado – ele disse quando o céu desabou com uma chuva intensa e grossa. Pegamos nossas roupas e bolsas rapidamente e fomos para o tal casebre que Rick havia falado. Chegando lá, agradeci por aquele tal casebre ainda existir. Os trovões e raios fizeram daquela chuva um tormento. Eu odiava trovões e raios. Morria de medo de um raio cair em minha cabeça, já que eu não era uma pessoa de muita sorte. — Parece que vai demorar a passar – ele disse, olhando meu corpo seminu ensopado. – Acho que tenho roupas secas dentro da bolsa. — Não se preocupe, eu tenho as minhas. — Parece que estão molhadas – ele disse e tive que concordar. Ele me passou sua blusa e a vesti, não tinha como negar. Ficou parecendo uma bata em mim. — Vou ver se tem alguma lamparina que funcione. – Ele foi até o outro canto do casebre, revirando algumas tralhas e voltou com uma lamparina acesa. Ele puxou uma toalha da bolsa, e a espalhou no chão. — Nossa! Você é bem precavido. — Isso era para nosso piquenique mais tarde. — Nós faríamos um piquenique? – perguntei surpresa. — Claro que sim. Não deixaria uma grávida morrendo de fome. — Para um homem como você, você sabe muito sobre gravidez. — Eu já pesquisei sobre isso um tempo atrás quando pensei que iria ser pai... Ele parou e eu continuei: — Quem era a mãe? Amélia? – Me toquei de minha indelicadeza e


eu prossegui: — Desculpa, não tive a intenção. — Tudo bem. Não era dela. Era de outra. — Raquel? Ele me olhou surpreso. — Maldita língua— resmunguei. — Sim. Era dela. — Ela o perdeu? Ele ficou pensativo e me respondeu: — Ela nunca o teve. – Ele disse como se retornasse ao passado. — Vocês me pareciam felizes ontem.Vocês iriam voltar? — Você nos viu? – ele perguntou. – Não, nunca voltaremos a ser como antes. — Desculpa. Você acordou tão feliz que achei que tinham se acertado. — Sim. Eu me acertei. Não com ela, mas comigo mesmo. Depois de anos pensando que eu nunca a esqueceria, ontem eu não senti nada. – Ele disse pensativo. — Sabe, Dick, às vezes é tudo coisa da nossa cabeça. Alimentamos tanto um sentimento, quando na verdade, esse sentimento passa com o tempo e quando vemos, já morreu. No entanto, para mim isso é como renascer. Passei um bom tempo a odiando por ter me enganado e me iludido no passado, e não percebi que esse sentimento já não mais existia e não tinha por que eu ter ódio. — Uau, — “Uau” o quê? — Estou surpresa. Nunca pensei que fosse me falar algo tão profundo... Na verdade, nunca imaginei que fosse falar comigo amigavelmente nesta vida. Tipo agora e antes quando nós estávamos vindo pra cá – Disse envolvendo as pernas com os braços. – Aliás, porque veio? Ele se calou. Parecia tentando achar a resposta. — Talvez eu... Eu não sei... Eu apenas vim. — Você apenas veio? — Sim. Estranho né? Mas ultimamente eu tenho pensado muito no bebê que você carrega. E estranhamente, comecei a pensar muito sobre isso desde aquele dia no hospital. — O que você tem pensado?


O silêncio assolou o casebre. — Eu tenho muito pensado nas batidas do coração dele. Isso parece louco, mas eu não consegui parar de escutá-las até eu vim te ver. Eu não sabia o que falar. — Não se preocupe, não estou dando em cima de você. Minha intenção não é esta. — Não estou pensando nisso, eu só... Eu só não sei o que dizer. Minha barriga roncou alto e ele disse: — Pois eu sei o que dizer: vamos comer! — Ele tirou algumas garrafas de suco da bolsa, me deixando com aquele tipo de cara de boboca. *** A noite havia caído, e a chuva ainda não havia cessado. Rick e eu permanecíamos no casebre. No entanto, continuamos conversando o dia todo que nem percebi o tempo passar. Conversamos sobre várias coisas, sobre a infância, sobre a adolescência, bandas, músicos e comidas. Poderia arriscar que até me sentia uma amiga dele naquele momento. Era meia noite e o sinal do celular não pegava, quando resolvemos dormir ali mesmo. Rick forrou o chão com um pano e deitamos de bruços um ao lado do outro. Acho que aquilo foi uma péssima ideia. Talvez o calor que emanava do corpo dele fez com que fagulhas incomodassem minha derme. Ele se remexeu, e colocou-se de lado. Sua respiração cálida incomodava a pele do meu rosto que já estava em chamas. Como se eu fosse atraída pelo canto da sereia, ou melhor, pelo canto do príncipe, ou melhor, pelo o canto do ogro, ou melhor, pelo o canto do ex-ogro, virei o meu rosto e dei de cara com seus olhos verdes intensos e com sua boca rubi. — Está com frio? – ele falou tão lento que quase tive um or... Uou, Naty, o que você tá pensando? — Não. — Por que seus lábios estão tremendos? – ele olhou para minha boca. Ele fez de um modo tão sexy, que era quase impossível estar sentindo frio naquele momento. – Eu sei de uma maneira para aquecer. — Ah é? Qual? – perguntei engolindo em seco. — Essa! – Ele me tomou com seus lábios delicadamente, fazendo com que eu provasse o sabor de sua boca. Ele passou a mão no meu quadril e uniu nossos corpos enquanto ele me invadia com sua língua.


Eu estava embriagada. Embriagada de desejo. Meus sentidos queriam devorá-lo como se eu tivesse sedenta há uma vida. Beijamos-nos intensamente, com força, e com desejo. Subi no seu corpo e prendi meus dedos em seus cabelos. — Calminha, Dick. Eu não quero machucá-la – ele murmurou nos meus lábios, enquanto eu o beijava ferozmente. — Você não vai me machucar. Estudou sobre isso, não? Ele riu entre beijos e perguntou: — Confia em mim? Encarei suas esmeraldas e afirmei: — Confio. Ele mudou de posições, ficando em cima de mim. — Vamos fazer com bastante cuidado, está bem? — Tem camisinha aí? — Tenho! – ele falou beijando meu pescoço com aqueles lábios carnudos. Soltei um gemidinho sôfrego. Suas mãos foram na barra de minha blusa e se livrou dela rapidinho. Levantei-me um pouco para tirar o sutiã e me livrei dele rapidinho. Rick tomou meus seios em deleite, me chupando de forma intensa, corroendo todas minhas entranhas. Minha vagina já estava completamente úmida, enquanto os bicos dos meus seios estavam completamente enrijecidos. Eu gemia e aquilo parecia atear fogo em Rick que estava com um volume agressivo apontando no calção. Rick me chupou por inteira, me levando quase ao ápice. — Eu quero estar dentro de você, Naty. Muito. Droga! Eu quero muito! — O que tá esperando? – perguntei inflamada, puxando-o para mim. — Vou entrar com cuidado ok? — Eu já disse que confio em você. Por favor, só entra, por favor. – Clamei. Eu precisava daquilo e não estava aguentando mais. Rick colocou a camisinha e como esperado, seu volume era muito grande para mim. Ele encaixou nossos corpos e ele falou gemendo no meu ouvido: — Você é apertadinha demais. — Por favor, vai mais rápido – disse não ligando para aquilo. Eu só queria ter prazer. Eu necessitava senti-lo dentro de mim. Eu precisava ter aquela experiência lúcida. Ele chupou meu pescoço, e começou a estocar lentamente, no entanto, o suficiente para fazer minha vagina latejar de prazer. O prazer era tão grande que queria colocá-lo todo dentro de


mim. No entanto, aquilo não era possível. Nem parecia o Rick que transava todas as noites na sala. Se bem que era diferente, e eu estava amando vê-lo preocupado comigo e com o meu filho. Rick era muito bom naquilo, e quando vi, já estávamos num ritmo frenético tentando alcançar o ápice. E assim se fez. Gozamos quase no mesmo instante. Eu primeiro, Rick logo após. Ele gemeu e caiu ao meu lado. Com a respiração descompassada, Rick disse: — Tu és incrível, Dick – pela primeira vez sorri com aquele apelido. E no mesmo instante, passei a gostá-lo dele. Do apelido e dele, do pai do meu filho.


— 19 — Os feixes de luz incomodavam meus olhos e como se eu tivesse um Déjà vú, vi Rick nu ao meu ao lado como no dia em que nos conhecemos. Um barulho na porta se fez e a voz conhecida entoou em brados: — RICK! VOCE ESTÁ AÍ?! – Era Raquel. — Rick, acorda! – o sacudi, e ele levantou assustado. – Veste alguma roupa! -Pedi, colocando meu short e minha blusa que já estava seca. — Esperem um pouquinho! – Rick disse com a voz sonolenta, enquanto vestia a camisa. Fui até a porta e Rick tirou a madeira atravessada e a abriu: — Meu Deus, você está bem! – Raquel pulou em cima de Rick. — Graças a Deus, tão vivos! – o capataz disse logo atrás. – Lá na fazenda o povo tá tudo doido preocupado com vocês. Rick se desvinculou de Raquel e disse: — Pois é... Estamos bem. Vamos voltar. – Raquel se colocou ao lado de Rick e antes que ela andasse, ela me olhou de cima a baixo com cara de nojo. E eu também, que não sou de ferro, a olhei de cima a baixo também. *** Chegando ao casarão, encontramos dona Márcia aflita. No entanto, sua aflição se transformou em mimo. Ela mandou preparem um baita banquete no café da manhã. Eu não me segurei. Comi até a barriga espocar. Rick não ficou pra trás, já que pra manter aquele corpão nutrido deve precisar de muita comida. João Miguel chegou de surpresa, nos flagrando: — Eita, irmão, não vai deixar nem um pouco pra mim? – João Miguel caçoou entrando na copa. — João! – Me levantei para abraçá-lo. Senti o olhar de Rick me acompanhar e João Miguel pareceu perceber aquilo também, sussurrando em meu ouvido, enquanto Rick não tirava os olhos sobre nós: — Aconteceu alguma coisa? — Não, nada! – afirmei o abraçando novamente e logo batendo no seu ombro: — demorou dessa vez. Pensei que tivesse me esquecido – resmunguei. — Não fica assim, pimpolho. Não ia te esquecer nunquinha – ele disse apertando minhas bochechas.


Era assim que ele me chamava: de pimpolho, por ser pequena. — Pimpolho? – Rick perguntou sarcástico. – Ainda reclama de Dick. – Ele murmurou tão baixinho que mal pude ouvir. — Hãm? – João Miguel parecia confuso. Dona Márcia adentrou a sala e João Miguel foi até ela. — Mãe! — Meu doce! – eles se abraçaram fazendo Rick revirar os olhos. Parecia que tínhamos um filho ciumento ali — pensei. — Como vai? — Ótimo! Melhor do que nunca. Vim antes do dia quinze, antes da viagem. — Ah sim, filho! Quantos dias mesmo você vai ficar em Paris? — Seis meses. — O quê? Você vai ficar fora por seis meses e não me disse nada? – perguntei aflita. — Com quem vou conversar esse tempo todo? — Desculpa, pimpolho, mas é que eu sempre esquecia de te contar. — João Miguel, — disse quase chorando. — Pimpolho... — Por que não vai com João Miguel, querida? Você poderia fazer aquele curso que lhe prometi. — Como é? – Rick soltou quase engasgando. — Algum problema Rick? – Dona Márcia perguntou. Eu o olhei esperando sua resposta que fora decepcionante: — Nenhum. Desviei o olhar, tentando esconder minha frustração. — Então se prepare, querida. Você vai pra Paris. João Miguel vibrou ao meu lado e Rick saiu em disparada para fora dali. *** Fui ao meu quarto, chegando lá, encontrei Rick sentado na beira do colchão. Ele estava


encarando o chão e quando me viu, logo se levantou. — Oi – ele disse. — Oi. Preparei-me para sair dali, no entanto, ele me parou: — Você vai querer ir mesmo com João Miguel para Paris? — Se não tiver nada que me faça ficar aqui... Sim, eu vou. Ele olhou para o lado, como se tivesse sem jeito e colocou as mãos nos bolsos, silenciando. — Por que não me pede pra ficar? – ele me encarou. – Eu sei que não temos nada e que eu posso ter me equivocado, mas ontem eu pensei que aquilo tivesse significado alguma coisa. — Ainda é muito cedo. — Cedo? Cedo pra quê? Estou esperando um filho teu! — Eu não sei... Eu não sinto que posso confiar... — Rick, eu.não sou a Raquel! — Eu não disse que você era ela. — Você quer enganar quem? Eu sei que “tipo de mulher” eu sou pra você. Uma mulher sem dinheiro que provavelmente esteja de olho no seu dinheiro... — Se você está dizendo... — Estou dizendo, porque é isso que pensa de mim. Quer saber? Que se dane. Eu acho que essa viagem vai ser a melhor coisa que farei na minha vida. Pelo menos João Miguel não pensa assim de mim. Sai marchando com as lágrimas nos olhos. A verdade era que meu coração já pertencia a ele, eu que queria esconder e matar isso dentro de mim.


— 20 — 2 Semanas depois... Dois dias antes de embarcar num vôo para França, decidi que passaria na minha antiga casa em Florianópolis para me despedi do meu pai, e das minhas irmãs e até mesmo de Marlene. Estava em frente à construção que me remetia a boas e más lembranças, no entanto, todas elas contribuíram para quem eu sou hoje. Rafa estava ao meu lado, me apoiando. Eu não fazia ideia do que eu encontraria ali, e Rafa, como sempre, estava pronta para me aparar. — Vamos? – Rafa disse. — Vamos! – Assenti caminhando até a porta e batendo com os nós dos dedos contra a madeira. Era o último domingo do mês e com certeza papai estaria em casa, como de costume. — Quem é? – a voz de Jéssica soou enquanto abria a porta e quando viu, ficou de queixo caído. Ela me olhou de cima a baixo, averiguando todas as minhas peças de grife e minha bolsa da Gucci. — Olá, Jéssica. Quanto tempo... Onde está meu pai? — Mamãe! — O que foi Jéssica? – Marlene foi até sala e ficou tão embasbacada quanto a filha. — Natália. — Tudo bem, Marlene? Onde está o meu pai? — Você não tem vergonha, vagabunda, de aparecer aqui depois de tanto tempo? Você sabe o quanto fez teu pai sofrer? — Onde ele está? Quero falar com ele! — Nunca! Vá embora. — Chame meu pai agora. Eu não vou sair daqui.


— VÁ EMBORA, SUA ORDINÁRIA! — Natália? – A voz de meu pai se fez e o encontrei do outro lado da sala. Ele estava magro e abatido, que era perceptível ver a tristeza em seu olhar. — Pai! – disse afastando Marlene para o lado e indo para ele. Meus olhos estavam cheios de lágrimas. – Paizinho! – Voei para os seus braços e o abracei o mais forte que poderia. – Me desculpa, pai! Por favor, eu deveria ter ligado. – Disse o apertando com meus braços franzinos e chorando. — Não tem por que se desculpar minha filha. A única pessoa quem tem que pedir perdão é eu, por não ter a protegido. Perdoa-me, filha. Por favor, me perdoa por querer forçá-la a fazer aquele absurdo. – Nunca vi meu pai chorar, no entanto, aquele dia o vi desmoronar em lágrimas. — Tudo bem, paizinho. Tá tudo bem. Eu te amo. Às vezes tendemos guardar um “eu te amo” por tolice. Afinal, nunca sabemos se seremos capazes de dizer isto amanhã. Apesar dos erros, é necessário perdoar. *** Assim como combinado, voltei para São Paulo ao entardecer. Despedi-me de Rafa e do meu paizinho, e apesar de toda a aspereza da minha madrasta, não levei nenhum rancor de Marlene. Eu percebi que não tinha tempo e espaço pra guardar sentimentos ruins. Eu estava totalmente preenchida com amor que tinha pelo o meu filho. Como planejado, fui para o apartamento de dona Márcia. Eu pedi assim, pois não tinha certeza que aguentaria olhar Rick novamente. Eu me sentia muito mal por gostar dele e não ter aquele sentimento correspondido. Não que eu nunca tenha passado por isto, mas com Rick parecia ser diferente. Graças a Deus, dona Márcia, nem João Miguel desconfiaram sobre o que rolou no casebre da fazenda dos Guerreiros. E pensando bem, eu deveria apagar aquela noite da minha mente, pois sentia que estava quase pra enlouquecer pensando naquilo toda hora. Hoje seria o jantar de despedida e toda a família de Rick estava convidada. Seria num restaurante próxima a casa de dona Márcia e segundo ela, seria um grande evento, pois tinha algo a revelar. Algo muito importante, por sinal, pois nunca tinha o visto tão ansiosa. E não vou negar, também estava. Nosso vôo estava marcado para as 00:00 e mal conseguia controlar o nervoso em pensar que logo estaria na Europa. Chegamos ao restaurante às 20 horas. Todos já estavam lá. Até mesmo as tias de Rick e as primas dele. Sentei-me ao lado de João Miguel que conversava todo animado com o pessoal.


— O que foi? – João Miguel sussurrou ao meu lado. – Por que olha tanto para a porta? — Nada não – falei disfarçando, tomando um gole de suco. — É ele, né? Está esperando por ele. — João... — Não se preocupe, Naty. Acho que ele vai vim para se despedir. Assenti e mudei de assunto para aquela conversa não ficar deprimente. — Onde está Rick? – Dona Eleanor perguntou pela enésima para dona Márcia. — Eu já liguei um milhão de vezes para ele e só dá desligado. Acho que ele não vem. Então é melhor eu começar a dizer o que eu tenho para dizer. Então pessoal, — dona Márcia bateu com o talher na taça de cristal chamando a atenção de todos. – Bem, hoje é uma noite muito especial. – Ela fez aquela pausa dramática. — Hoje meu filho, João Miguel, e minha filha de coração, Natália, estão se despedindo. E escolhi justamente hoje para dar uma notícia muito especial. Nós não somos qualquer família. Nós somos A família. Há alguns meses atrás quando soube do resultado dos exames que todos nós sabemos do que se trata, eu recebi o apoio e o carinho de cada um de vocês. Eu não poderia pedir uma família melhor, nem filhos melhores, mesmo que Rick não esteja aqui, eu sei que houve algum imprevisto para não estar conosco. No entanto, não prolatarei, tenho que dizer para vocês, na verdade, eu queria gritar para o mundo. – Dona Márcia disse deixando as pessoas ali mais curiosas. — A verdade é que fui à Alemanha uns meses atrás em busca de uma cura não possível, segundo os médicos daqui. Eu fui com fé que Deus me concedesse um milagre. No entanto, quando recebi os resultados dos exames alemães, os médicos me contataram que eu não tinha nenhuma doença. Claro que na hora, pensei: não vá se animar, não seja imprudente. Mas eles me garantiram que eu não tinha absolutamente nada. Então resolvi fazer outra bateria de exames em Dublin na Irlanda, a fim de atestar qual era minha condição. E por fim, recebi os resultados semana passada. E os exames atestaram... – Ela estancou. — Que tudo não passou de um erro médico. Eu estou mais saudável do que nunca e vou viver por mais 100 longos anos. Eu sei que pode parecer loucura, ou que eu deveria estar odiando o hospital por fazer isso comigo, no entanto, só consigo pensar que sai daqui há 2 meses atrás com muita fé que Deus me proporcionaria a cura e tenho toda absoluta certeza que ele me concedeu. Com a emoção transbordando, todos estavam extasiados com aquela notícia. João Miguel e eu levantamos para abraçá-la e todos vieram, se juntando a um enorme abraço coletivo. Aquela noite não poderia ser mais especial. Desta vez, não foi cinderela que recebeu o milagre, mas sim, minha doce e amável fada madrinha.


— 21 — Rick O que estava acontecendo comigo? Depois de finalmente me livrar da dor que me corroia durante anos, parece que um novo sentimento, doce e letal, vinha me atormentar mais uma vez. Eu havia passado o dia todo pensando naquela mulher e não sabia exatamente se era só porque ela esperava um filho meu. Talvez só a palavra “filho” seja muito forte pra mim. Eu sempre fui incomum. Desde muito cedo sempre tive o desejo de ser pai, no entanto, esse sonho não se materializou com Raquel e muito menos Amélia, minha falecida esposa. Agora, eu estava confuso diante toda aquela situação. O meu plano inicial era desprezá-la, no entanto, quanto mais eu fazia, mas forte era a atração que eu sentia. Eu tinha medo que ela fosse igual à Raquel. Apaixonante, porém falsa. No entanto, estava enganado. A atração por aquela garota superava a que eu tinha por Raquel no passado. No final, ela tinha razão, eu tinha medo daquele sentimento, devido ao trauma do passado. Fui direto pra casa e minha mãe já mandava mensagens, avisando sobre jantar o qual já sabia. Ela ia embora hoje com meu irmão e não tinha muito certeza se queria ir àquele restaurante. Em vez disso, resolvi beber um pouco mais na sala. Talvez um pouco de álcool de no sangue me relaxasse. Sentei no sofá, pensando no dia em que a conheci. Tão feroz e ágil, ela sempre tinha resposta para mim. Ri daquilo, pensando no quão divertido era a ver com raiva. Eu era um grosso, mas aquilo não passava de um mecanismo de defesa. Eu continuei pensando nela até chegar morder o lábio pensando naquela noite. A pele dela, o cheiro, o sabor de seus lábios... Ah, eu ia enlouquecer. E por último, lembrei o quão forte foi tocá-la na barriga, onde aquele ser palpitante respondia por mim. Oh, senhor! O que eu estou fazendo aqui? Tenho que tomá-la pra mim. Peguei minhas chaves e sai em disparada ao elevador. Olhei para o relógio no pulso e já marcava 23:00. Ouvi João Miguel dizer que o vôo deles estavam marcado para as 00:00, então resolvi correr. Eu não poderia deixá-la ir. Não daquela forma. Não sem dizer como eu me sentia. Procurei pelo o meu telefone e xinguei quando o vi sem carga. *** — Merda! – Buzinei incontáveis vezes. O trânsito estava totalmente parado, e eu só estava a duas quadras do restaurante o qual Naty estava com minha família. Estacionei no acostamento e resolvi correr. Não podia perder tempo, eles deveriam estar saindo de lá.


Com o coração acelerado, com a respiração descompassada e o peito galopando, nunca tive tanto medo de perder alguém como eu estava naquele momento. Corri pelo menos por 5 minutos até chegar ao restaurante. — Boa noite, qual sua reserva? — Meu nome é Rick,... – falei colocando as mãos nos joelhos enquanto eu tentava recuperar o ar. — Rick Maldonato... — Ah sim. A senhora Márcia Maldonato está no piso de cima... Corri para as escadas antes que o senhor terminasse. Subi as escadas de lance em lance, e varri com o olhar pelo o salão do segundo andar, procurando por Natália. Ela estava lá, se levantando ao lado de João Miguel em frente a todos aqueles rostos familiares. Caminhei até lá com o pulmão agonizando. Quando me aproximei, senti todas as atenções se voltarem para mim, no entanto, só tinha olhos para a mulher que estava diante de mim. — Rick, filho! – ouvi a voz de minha mãe morrer no ar quando percebeu minha insistente atenção para Natália. — Rick – ela murmurou. — Podemos conversar? — Desculpa, irmão. Mas estamos no tempo limite. Nosso vôo sai daqui à uma hora, não temos muito tempo. – João Miguel falou ao lado. — Desculpa Rick – Naty murmurou e preparou para sair dali. Num ímpeto, com medo que ela deixasse aquele salão, segurei seu braço. — Rick! O que pensa que está fazendo? – Minha mãe reivindicou. – Se está querendo atingir Natália... – ela começou irritada. — Mãe, eu não quero atingir ninguém. Eu... Eu... – Droga! Por que era difícil dizer aquilo? – Eu só não quero que ela me deixe – eu confessei e recebi os olhares curiosos de todos. Olhei para Natália que estava me fitando em espanto. — O que está dizendo? – minha mãe me olhava sem entender. Para ela, aquilo não estava cogitado. — Isso mesmo minha mãe, eu me apaixonei por Natália. Parece loucura, mas eu me apaixonei por ela. Sei que a maioria das pessoas aqui deve ter conhecido-a nessa noite, mas quero que saibam que essa é a mãe do meu filho. E podem me julgar, eu mereço, mas eu tenho sido um idiota para ela. Se eu deixá-la ir hoje... – a olhei e percebi seus lindos olhos amendoados reluzindo. – Se eu a deixar partir hoje, talvez eu me arrependa por isto, talvez, pelo o resto da


minha vida. – Virei-me para ela e murmurei rogando: — Apenas um minuto. Por favor, me conceda apenas um minuto. Ela parecia relutante, porém ela assentiu. *** Tínhamos ido para a varanda, então comecei: — Ok! Vou ser rápido! Eu... Eu... – puta merda, porque as palavras não saiam agora? — Eu o quê? — Eu quero me casar com você. Ela me olhou perplexa. — Você quer casar comigo? — Sim. Você cancela essa viagem e a gente se casa amanhã mesmo. Não é ótimo? — Espere! Quem disse que eu quero casar com você? Aquilo foi um banho de água fria. — Você não quer casar comigo? Ela suspirou pesadamente. — Sabe, Rick, eu não acho que isso seja o certo. Ainda é muito cedo. Pelo jeito como chegou aqui, infiro que chegou a essa decisão há pouco tempo. E como você mesmo disse, ainda é muito cedo. Desculpa, mas eu não posso cancelar essa viagem porque voce simplesmente resolveu casar comigo. Com as mãos desesperadas, peguei suas mãos. — Escuta Naty! Eu estou apaixonado por ti. E acredite: eu tenho certeza desse sentimento, e talvez, ele cresça ainda mais se vo... — Rick... — Você não se sente assim? Ela repuxou o lábio inferior e assentiu com a cabeça. — Não é que me sinta assim, que eu deva tomar qualquer decisão baseada nisso. Desculpe-me Rick. Mas seu tempo acabou. Com os olhos brilhantes, a vi abandonar aquela varanda, enquanto meu coração era se


comprimia com a dor. Naquele dia Natรกlia levou consigo ela, meu filho e um pedaรงo de mim.


— 22 —

Seis meses depois. Paris. Natália.

— Tem certeza que não quer ir comigo? — Tenho, João Miguel! Eu marquei com Rick que faríamos uma chamada hoje... E também, você não acha que eu seria um pé no saco se eu for a um encontro do meu cunhado? — Se for por isso, eu já disse que não tem problema. Selena é uma garota especial. Ela adoraria te conhecer, pimpolho. — João Miguel, já chega! Vai logo, antes que eu me estresse! – Eu disse o empurrando para fora do meu apartamento. Eu sabia que ele não ia sair até que eu o expulsasse. Depois que minha barriga ficou parecendo uma melancia gigante, ele ficou paranóico que o bebê possa nascer a qualquer momento. No entanto, ainda faltavam 3 semanas. Fui direto para mesa ao lado da janela que detém de uma bela e privilegiada visão da cidade mais romântica e elegante do mundo. Antes de conhecer Paris, pensava que isso não passava de conversa fiada. Entretanto, tive que concordar assim que coloquei os pés naquela cidade. Os prédios europeus, que não iam muito além, davam um charme peculiar à cidade construída as margens do rio sena. Seja pela arquitetura, seja pelos sabores, seja pelo o ar romantizado, Paris havia se enraizado em meu coração. Abri o notebook, esperando a chamada via Skype de Rick, como de costume. Depois daquele dia no restaurante, eu tive mais que certeza de que tomei a decisão certa. Eu dei a nós uma nova chance de nos conhecermos. Ele passou alguns dias sem me procurar, mas acabamos nos falando por mensagens uma semana depois e não paramos mais desde então.


Antes, não acreditava muito em relacionamentos pela internet, mas agora, vejo que eles são tão sólidos quanto os tradicionais. Por diversas vezes, eu o quis ao meu lado, sentir sua pele, no entanto, algumas coisas não mudaram, inclusive, minha má sorte. Sim, má sorte porque a empresa de Rick entrou em crise nos últimos seis meses e ele nem sequer tinha tempo para fazer uma curta viagem. Então combinamos de eu retornar semana que vem, assim, daria uma pausa no curso de moda e daria a luz a João Ricardo, nome escolhido por dona Márcia. Esfreguei os braços e estranhei quando vi que Rick não ficou online nas últimas 24 horas. Ele sempre ficava. Decidida a comer um pouco mais, me levantei e resolvi ir a cozinha comer o resto do bolo de morangos que João Miguel comprou para mim na confeitaria aqui perto. No exato momento que levantei, senti a água escorrer entre minhas pernas. Está bem que minha bexiga estava sensível, mas não achei que aquilo fosse xixi. Aquilo era... — Minha bolsa se rompeu! – murmurei assustada. – Tudo bem, Natália. Não entre em pânico. Calma, calma! Inspira e expira! – Tentei me acalmar. — João Miguel! Isso! Vamos ligar para João Miguel! – Fui até o sofá procurando pelo meu celular e o encontrei entre as almofadas. Disquei o número de João Miguel e grudei o telefone na orelha, sentindo a primeira pontada no pé da barriga. Quando começou a chamar, no mesmo instante, ouvi o som do toque do celular de João Miguel reverberar na sala. Olhei para cima da bancada da cozinha americana e vi o celular de João Miguel lá em cima. — Ele esqueceu! – Choraminguei. Por que eu tive que apressá-lo? – Pestanejei mentalmente. — Calma, Natália! Ele vai voltar quando se der conta. Ele vai chegar à casa de Selena e vai perceber. Se acalme! E se ele não perceber? Ai meu Deus! E se ele perceber e achar que está tudo bem e não voltar? AI! – Outra pontada fez com que eu me encurvasse. – Vou ligar para Gemma, — minha colega de turma – Isso! Gemma vai atender, sem dúvidas! – Procurei pelo o seu número na lista de contatos e liguei. Fora de área ou desligado! — Merda! – Xinguei me contorcendo toda. – O que eu faço? – choraminguei. Ele virá. Ele sempre vem. João Miguel virá! — Rick! – o nome dele saiu avulso de minha boca. Meu desejo era que ele estivesse ali. *** Depois de uma hora sentindo dor, eu estava suando frio, ensopada de suor. Eu ainda tinha fé que João Miguel voltasse, no entanto, decidi chamar a ambulância, pois já não agüentava mais


a dor. Levantei-me do sofá com dificuldade e vi que minha situação era pior que eu imaginava. Minha visão começou a ficar turva e meus sentidos começaram a se esvanecer. A campainha tocou e um suspirou sôfrego de alivio se fez. Era ele. João Miguel. Comecei a caminhar até a porta e quando cheguei à metade do caminho, pensei que ia cair no chão. — Eu não posso apagar agora. – Grunhi e reuni forças para alcançar a porta. Cheguei à maçaneta com dificuldade e a girei num rompante, já não agüentando mais e quando a abri, o imprevisto. Rick estava em minha frente com buquê de rosas vermelhas e uma expressão feliz no rosto que foi desmanchada em segundos assim que percebeu meu estado. — Amor, o que você tem... — Hospital... O bebê quer nascer... – foram as últimas palavras que me lembro de proferir, até eu desmaiar, aparada por seus braços.


— 23 — FINAL

Em ritmo letárgico, abri os olhos, encontrando um clarão de luzes. — Ela acordou! – Reconheci a voz de João Miguel. Em um rompante, Rick se colocou ao lado da cama e me fitou um pouco afoito. — Rick! – balbuciei, sentindo o vazio em meu ventre. — Oi, meu amor! – Ele disse levando sua mão esquerda para o meu rosto e acariciando ali. — Onde está? O nosso bebê? Onde está João Ricardo? – Perguntei agoniada. Os olhos de Rick brilharam, como se tivessem enchido d’água, assustando-me. E por fim, ele abriu um sorriso reluzente, dizendo: — Ele é a cara do pai. Do outro lado da cama, vi João Miguel se aproximar com um pacotinho de lençol azul na mão, enquanto João Miguel dizia baixinho: — Olha aqui titio, se não é que a mamãe acordou. – Com voz de criança, ele brincou: — Tu queres conhecer tua mãe, hein? Queres? João Miguel se aproximou e com cuidado colocou o corpinho daquele ser miúdo nos meus braços. Ao olhar seu rostinho, as lágrimas despencaram sem avisar. Ele era o ser mais lindo e puro que já vira em toda minha vida. Seus olhos brilhantes me olhavam com doçura e ali pensei: eu faria tudo outra vez e até mais para que ele ficasse bem. Ali entendi de onde veio toda minha força. — Olha a mamãe, filho! Olha como é linda! – Rick falava todo bobão ao meu lado. Permanecemos ali rindo por longos minutos. Eu, Rick e nosso filho. Não havia provado sabor melhor.


5 meses depois... BRASIL SP — Rick, tua mãe chegou! – disse uma oitava mais alta para o papai mais babão do planeta, que não parava de brincar com João Ricardo no quarto. Eu estava um caco. Apesar de Rick contratar uma babá, eu não abria mão de cuidar do meu filho. Talvez por eu achar que ninguém cuida melhor de um filho do que a própria mãe. Assim, resolvi trancar meu curso de moda na França e fiz um blog só para mamãe, onde compartilho minha vida diária. Dona Márcia entrou no quarto já tomando João Ricardo do colo de Rick e babando feito uma vovó coruja que ela era. Dona Márcia iria ficar com João Ricardo aquela noite enquanto íamos a um jantar de confraternização da empresa. — Tava com saudades da vovó, tava? – Dona Márcia falava com voz de bebê. – Onde está a bolsa dele? — Está aqui! – Disse entregando-a. – Sopinha às sete, leitinho às... — (...) nove e depois cama. – Dona Márcia completou. – Não se preocupe, meu amor. Esqueceu que fui mãe de dois homens? Assenti me acalmando. — Deixa eu ir que vocês devem estar atrasados. — Eu passo lá no final da noite... — Não precisa minha filha, eu já disse, aproveitem-se a noite. Durmam onde quiserem. – Ela disse saindo do quarto e indo direto para as escadas. Fui até o elevador e quando as portas se fecharam, suspirei um pouco preocupada. Não que dona Márcia não seja confiável, mas sabe como é mãe, né? Subi as escadas e fui para o quarto tomar um bom banho. Encontrei Rick apenas de cueca boxer na cama, assistindo TV. Suspirei mais uma vez, mas foi em agradecimento. Pensei que sou muito abençoada em ter um homem daquele tamanho em minha cama.


Ele resvalou os olhos da TV para mim e falou: — Quer se juntar a mim? – ele perguntou batendo com a mão no colchão. — Não pudemos, Rick. Estamos atrasados, lembra? — Acho que não faz mal se eu não for... — Rick, você não pode faltar... – Ele cruzou os braços contra o peito e arqueou as sobrancelhas, ficando incrivelmente sexy daquele jeito. Jesus. Aquilo era covardia Minha vontade era ir lá, tirar a roupa dele e atacá-lo no mesmo instante. — Acho que vou ter que ir mesmo – ele falou embrenhando os dedos nos fios dourados e preparando para se levantar, mas eu caminhei até lá, abri minhas pernas e sentei em seu colo. — Acho que podemos fazer isto rapidinho! – Disse o beijando com força, enquanto ele apertava minha bunda por baixo do vestido. Nossos corpos estavam febris e bastante excitados, o suficiente para fazer que aquilo não precisasse de muitas preliminares. Rick me estocava profundamente e com ardor. Nós não transávamos muito, devido aquela nossa fase de papais de primeira viagem, talvez devesse isto o que aguçava tanto meu desejo que chegava urrar de dentro de mim. Naquela noite, nós nos amamos de todas as maneiras. Eu amava aquilo, eu amava o jeito como ele me amava e amava nosso filho, e sinceramente, apesar de nosso começo não ter sido azul, nosso final era vermelho. Cheio de paixão, amor, ternura e confiança. No final, meu “felizes para sempre” se resumia a eles ao meu lado. Com eles, eu poderia viver eternamente em paz e feliz.

Fim.

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BELA MATTOS https://www.instagram.com/bellamattos5/

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