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a Ăşltima gota


Ă­ndice

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reportagem

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crĂ´nica

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reportagem especial


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reportagem

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galeria

FICHA TÉCNICA Produção em Jornal

Professores: Eduard0 Seidl. Juan Domingues e Fábian Chelkanoff Reportagens: Bianca Gross, Levi Gois e Felipe Lopes Concepção Gráfica: Isabela Pizzzi e Laura Paré Fotografia: Nícolas Chidem Escola de Comunicação, Artes e Design (FAMECOS) Avenida Ipiranga, 6681 Prédio 7 – Sala 317 Porto Alegre/RS - Brasil - CEP 90619-900 Telefone: (51) 3320.3569 Fax: (51) 3320.3619 E-mail: famecos@pucrs.br


sede de acesso


No alto do morro, Patrícia é uma entre os diversos moradores que sofrem com a falta de abastecimento de água

Bianca Gross

Q

uarta-feira é o dia mais esperado pelos moradores do Morro da Polícia. No alto dos 286 metros de altitude da comunidade é possível avistar quase toda a zona norte de Porto Alegre, o lago Guaíba e uma boa parte da zona sul da cidade. Uma vista privilegiada que encobre uma realidade oculta - a dificuldade de acesso à água. Desde que se mudou, há dois anos, Patrícia da Silva Azevedo não sabe como é ter água encanada. Ela e outros moradores da região dependem do abastecimento semanal que chega através do caminhão-pipa. Quando o ponteiro do relógio está prestes a marcar oito e meia da manhã, o motor do caminhão tanque ecoa na lomba íngreme da comunidade. Na área de casa, Patrícia prepara a caixa d’água. Um funcionário do DMAE tira a mangueira do caminhão. O outro libera os litros de água que abastecem a casa onde mora com outras duas pessoas. Na cozinha, a moradora também se vira

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como pode. Ela armazena sete galões de água para garantir a bebida e a comida da semana. Quando se depara com uma coloração ou cheiro diferente, já sabe: não vai dar para consumir.


Sem esperança alguma para melhorar a situação, Patrícia também relata a dificuldade que enfrenta na hora de realizar as atividades diárias, como lavar louça. Para isso, é preciso ir até a caixa d’água, na área de serviço, encher uma bacia e levar até a pia. Mesmo com tanto cuidado para economizar ao máximo, nem sempre a água dura até a semana seguinte, quando recebe novamente o abastecimento. Quando a água acaba, o jeito é recorrer aos vizinhos que moram na parte mais abaixo do morro ou comprar água mineral no mercado da esquina. “Mas não é sempre que eu tenho dinheiro para comprar”, lamenta. A casa de Patrícia é apenas uma das muitas que ainda dependem de um caminhão-pipa para receber água. Segundo o censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul é o 14º estado do Brasil no ranking de distribuição de água por esse meio. Patrícia não sabe quando, nem como, vai ver a água escorrer pela torneira, mas tem uma certeza - ela sonha com esse dia.

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é difíci man c


il pra gente se nter tendo que comprar ĂĄgua. PatrĂ­cia da Silva Azevedo, moradora


desvios crĂ´nica de Felipe Lopes


A

credito que a parte mais legal da vida são os desvios que a gente dá. Veja bem, vocês já olharam para um longo caminho, reto e em uma única direção, e logo de cara já pensaram “Mas que bela bosta, tenho que andar isso tudo”. Com a vida é igual. Nascer, fazer cocô e mamãe trocar, mastigar o dedo, chupar bico, crescer, fazer muitas perguntas, esfolar o joelho, brigar na escola, se masturbar, tirar nota baixa, se apaixonar, espremer cravos, fazer sexo, terminar o ensino médio, ir para a faculdade, se apaixonar, namorar, casar, ter filhos, trabalhar, 8 horas por dia, segunda a sexta, envelhecer, cuidar dos netos, receber aposentadoria, morrer. Ufa. Se em nenhuma dessas rotas você fez algo diferente da sua rotina, ao encontrar com a entidade superior que vai estar à sua espera peça para voltar. Ou tentar de novo. Se ela não permitir, você gastou sua vida em vão. E se não existir entidade superior, bom… Gastou igual. Decidimos fazer uma reportagem sobre pessoas sem acesso à água em Porto Alegre. 0,5% das pessoas na capital gaúcha não possuem água encanada ou saneamento básico. “Ah, são só

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0,5%”, diriam alguns. Pra mim é “porra, são 0,5%”. Apuramos e chegamos ao Morro da Polícia, comunidade a mais ou menos 10 km de distância do centro da cidade. Um lugar onde há sorrisos de verdade. Mas não há água em alguns pontos. Há muitos cães, entretanto. Gatos, crianças e material reciclado. Em meio a restos de tijolo, brita e chão batido, também há chás de diferentes tipos. Esses, vão sendo colhidos pelos entrevistados ao longo do caminho, como se estivessem em uma grande floresta florida. “Fica tri bom no mate”, dizem. Um dos cachorros nos acompanha por todo o trajeto. Todo mesmo. Morro acima ou morro abaixo. Além de sorrisos, há lealdade também. Mas não há água em alguns pontos. Encontramos o marido da Baixinha, que me fugiu o nome agora. Eles moram exatamente na esquina onde o cano que leva água (ou levava) para o alto do morro foi interceptado pela prefeitura. Ele se indigna. Fala que era tudo normal, mas aí vieram e parou tudo. Agora a vida é dificultada diariamente. Reclama mais. Reclama do descaso, não só com a água, mas com a saúde, com a educação, com o povo pobre. Lembra que o único que olhava


por ele, pelos moradores do Morro da Polícia e por outras tantas pessoas sem recursos no país, estava preso em Curitiba. Segundo ele, por fazer demais, por quem precisa. A todo o momento falava “podem fazer o que quiser comigo, eu falo mesmo”, como se temesse algo. Ou temesse fazer algum comentário. Tinha medo de falar demais. Aliás, frase que escutei diversas vezes. Em alguns momentos relacionadas a gente que já se foi. Além de sorrisos, há lealdade e medo de falar demais aqui. Mas não há água em alguns pontos. Botamos o equipamento, mochilas e blocos de anotação na van que nos levou, à duras penas por aquelas ruas íngremes, até o morro. Voltamos a nossa vida ordinária e sem dificuldades de acesso à água. Nossa vida com bem menos sorrisos. Bem menos lealdade e uma falsa ilusão de que estamos a salvo se falarmos o que quisermos. Esse desvio do meu cotidiano mudou alguma coisa que talvez eu ainda não saiba. Por isso prezo por esses desvios. Só torço para que eles não sejam desvios do DMAE. Pode acabar com a água em alguns pontos.

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é muito s


o morador sem รกgua. Domingues Cardoso Pinto, ex-funcionรกrio do DMAE


uma histĂłria que parece nĂŁo ter fim


Moradora do Morro da Polícia, Lúcia Rejane da Silva Monteiro sofre com as dificuldades do acesso à água

Bianca Gross

A

carência do saneamento básico atinge a todos, mas o maior impacto está nas famílias de baixa renda, muitas delas residentes em áreas irregulares. Há um ano e seis meses, o abastecimento de água é um problema para os moradores do Morro da Polícia, no bairro Glória, localizado na Zona Leste de Porto Alegre. Água para escovar os dentes, tomar banho e cozinhar. Água para dar descarga, lavar roupa e limpar a casa. Água para beber. Um bem fundamental e indispensável, mas que ainda, em 2018, assombra Lúcia Rejane da Silva Monteiro e seus 60 anos. Moradora de um dos pontos mais altos da encosta do Morro, Lúcia vive no local há 29 anos. Quando chegou, as árvores tomavam conta da região. Aos poucos, esse cenário foi se modificando com a chegada de outros moradores, outras casas irregulares, outras vias de chão batido, outros problemas. Empregada doméstica,

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Lúcia se viu obrigada a abandonar o emprego para cuidar do filho mais novo, Tawan, portador de autismo. Divide uma casa de madeira de três cômodos com dois filhos e o neto, de sete anos, e sustenta com o dinheiro que recebe do benefício do jovem. É grande


o volume de problemas no entorno de Lúcia. Mas algo que deveria ser simples, amplia ainda mais as dificuldades cotidianas da dona de casa. Se para muitos basta abrir a torneira para ter água, para Lúcia essa realidade é distante. Conhecida por todos na comunidade, ela conta que a provisão de água sempre foi precária e com pouca pressão. Quando a água chegava até o morro, geralmente à noite, enchia os galões e corria para avisar a vizinhança. “A água vem chegando!”, gritava. A partir de junho de 2017, no entanto, o que já era escasso, secou de vez. E a água parou de subir nos canos. A alternativa, então, foi buscar na parte mais abaixo do morro e guardar a água da chuva. Essa foi a rotina por longos sete meses: idas e vindas pelas lombas íngremes da comunidade carregando baldes e galões. “Eu já carreguei muita água na minha vida”. Cansados desta realidade, Lúcia e outros moradores da região fizeram um abaixo-assinado para que um caminhão-pipa pudesse levar água até a comunidade. A luta deu resultado. Desde dezembro do ano passado, uma vez por semana, a pipa abastece

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a população do Morro da Polícia. O cenário melhorou. Mas ainda é precário. De acordo com dados do governo do Estado, por meio da Lei de Acesso à Informação, 99,5% da população em Porto Alegre têm acesso à água encanada. Os outros 0,5% dependem do abastecimento por caminhão-pipa. Ou seja, cerca de 7,5 mil porto-alegrenses não têm água em casa. Parece pouco. Mas não é. Isso representa uma população maior do que Protásio Alves (2000), Vespasiano Corrêa (1974), São Vendelino (1944) e Tupanci do Sul (1573), municípios do Rio Grande do Sul. É como se todos os habitantes dessas cidades dependessem cotidianamente de um caminhão-pipa. Na frente de casa, Lúcia conta com uma caixa d’água de mil litros, cinco tambores e 23 galões de cinco litros cada. Tudo para armazenar uma água de qualidade questionável. “Tem vezes que chega com uma coloração diferente”. Segundo o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), a água do caminhão-pipa é a mesma entregue para a população nas torneiras, atendendo aos padrões de potabilidade do Ministério da Saúde.


Hoje, o cenário das quartas-feira é sempre o mesmo. Lúcia, no sol ou na chuva, enche os galões no caminhão-pipa e carrega tudo para dentro de casa. Desce e sobe as ladeiras esburacadas do Morro da Polícia para ter o básico, água. Lúcia e os vizinhos não sabem até quando vão seguir nesta rotina. Não sabem se os filhos e os netos seguirão buscando água em caminhões-pipa. A única coisa que eles sabem é que esta é uma história que parece não ter fim.

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aqui nó família. um a a gente sob


ós somos uma ajuda o outro, brevive assim. Vera Lúcia Machado de Oliveira,

co-fundadora e líder comunitária da Associação das Mulheres do Morro da Polícia, na zona leste de Porto Alegre.


uma alternativa que vem das nuvens


Catia e seus filhos utilizam outras maneiras de adquirir água além do caminhão-pipa, pois é uma batalha diária para não acabar antes da próxima quarta-feira

Levi Pires

C

om um olhar de tristeza e uma música ao fundo, Catia aparece para conversar conosco, ela é mais uma entre tantos moradores do Morro da Polícia que não tem acesso à água. Uma caixa d’água de cinco mil litros chama atenção. E de que forma ela consegue encher esse reservatório? Com a água da chuva. Contudo, a água da chuva não é própria para consumo. São encontrados desde dejetos de pássaros, até poluentes por causa da atmosfera. Cátia não usa somente a água da chuva porque todas as quartas-feiras o caminhão-pipa chega ao Morro. O problema é que dificilmente dura até a próxima semana. A casa de Catia fica distante do local onde o caminhão-pipa estaciona para disponibilizar água. Mas a necessidade fala mais alto. Mesmo chegando pelo DMAE, Catia e seus filhos não tomam a água, pois muitas vezes a coloração da água denuncia uma qualidade não tão boa, então eles preferem comprar água para beber

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do que utilizar a que vem pelo caminhão, ainda que tenham que gastar quinze reais por uma garrafa de cinco litros. Desde que se mudou para o Morro da Polícia, há dois anos, Catia, junto com os outros moradores, enfrenta o problema com a chegada de água nas torneiras. Em 2016, havia água. Chegava tarde, por volta das 23h. Mas chegava. Agora, os canos estão secos porque a água não sobe ao topo do lugar. A solução, por muito tempo, ainda deverá ser o caminhão-pipa, uma vez por semana, e a água da chuva, quando Deus quiser.


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“

muitas tem que fic


vezes a gente car sem tomar banho. Cรกtia Regina Rosa, moradora


galeria

por NĂ­colas Chidem


O andar escorregadio subindo e descendo vielas molhadas enquanto carregam garrafas d’água, o cansaço das inúmeras vezes refazendo o trajeto entre o caminhãopipa e a casa. Esses são alguns dos preços que os moradores pagam por uma das melhores vistas da cidade de Porto Alegre. Não é fácil. Há mais de 1 ano e meio, os moradores do Morro da Polícia mantém a espera de que suas torneiras percebam que estão no século 21 e comecem a lhes fornecer água. Nícolas Chidem

A Última Gota  

No alto dos seus 287 metros de altitude, o Morro da Polícia esconde uma realidade diferente para o século 21. Os moradores só tem acesso à á...

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