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O PARTO – Abril de 2013

por Laura Melo

Vinte e dois de abril. A data já estava escolhida e a história desse dia eu escutei várias vezes, de como eu era enorme, sem líquido amniótico e de como a cesárea tinha sido uma ótima escolha. Até um pouco antes de ficar grávida não tinha a menos noção das questões realmente importantes que envolvem o nascimento de um bebê, de uma mãe, ou de uma família. Mas tinha certeza de que eu não agendaria nada e que o melhor lugar para o meu filho sair seria por onde tinha entrado. Descobri a gravidez em agosto, de quatro pra cinco semanas. Data provável do parto (DPP): 28 de abril. Daí, até a surpresa da chegada do meu filho, escutei que ele podia (MUITO) nascer no mesmo dia que eu. E não sei se por isso mesmo a cena do meu nascimento ficava martelando na minha cabeça, durante toda a gravidez, e me dando muita força pra trilhar um caminho contrário. Fui atrás de muita gente, alguns desconhecidos – viva a internet! O Youtube que me mostrou o vídeo de Nélia e o facebook que me permitiu um primeiro contato..e outros contatos reveladores. Assim, eu cheguei no nome de dois grupos de apoio ao parto humanizado, o Ishtar e o Boa Hora. Pronto, aí, a gente entrou num universo paralelo que não tinha mais volta, e cada vez mais as informações que tive acesso ali tomavam conta de cada poro meu, de cada piscada, de cada partícula da minha respiração... e me moviam na procura de novas informações, de novas atitudes, de novas relações. A gente fez muitos amigos nesses grupos, construiu uma rede de apoio pra antes, durante e depois do parto. Mergulhei e me deixei tomar por essa busca de um parto humanizado; e, depois que entrei em contato com tanto respeito, não consigo mais fazer parte ou digerir nenhum sistema de relações desumanas.. que me desculpem os que não entendem, e gratidão aos que compreenderam. Mas, enfim, isso é um relato de parto, então, vamos ao que interessa. Antes, preciso dizer que optamos por um parto domiciliar planejado, com uma equipe linda e amorosa, que me acolheu do jeito que eu precisava..e, na retaguarda, o médico mais humano, mais homem de carne, osso e coração, que eu já conheci, caso eu precisasse ir ao hospital. Fazia três dias que eu acordava de madrugada, sem sono, que resolvia voltar só quando o dia clareava. Eram três horas da manhã do dia nove de abril, uma terça-feira, o dia que eu completaria trinta e sete semanas de gestação. Acordei. Pensei: “de novo”. Fiquei na cama pensando se me levantava ou não para fazer xixi, pensei no trabalho que daria me levantar com aquela barriga enorme – era grande mesmo. No meio dessa preguiça, senti um “ploft” e um líquido saindo de mim. Pulei da cama, numa agilidade de dar inveja a qualquer gato – esqueci completamente do peso da barriga – e mais líquido se derramou no chão do quarto. Não era como um rio que escorre sem pausas, eram curtas escoadas. Chamei Fel: “A bolsa estourou!”. Ele duvidou, mas acreditou muito, quando viu tudo molhado. Ligamos para enfermeira obstetra que estava nos acompanhando, conversamos, tudo certo, tudo bem. Era descanso, água e esperar a equipe, que começou a chegar logo de manhã. A primeira foi nossa amiga, que tinha ficado responsável pelo registro fotográfico e por dar uma força na organização da casa, porque parir pode fazer muita bagunça e bate uma fome em todo mundo. Depois chegou Marcelle, outra enfermeira obstetra que nos acompanharia, e um


daqueles amigos que conhecemos nos grupos. Aí, chegou doula, chegou Tati, chegou Suzelly... só não chegavam as contrações. A bolsa estourou, mas o trabalho de parto ainda não tinha começado – não é como mostra na novela, não. Enquanto isso, deu tempo de Fel sair e comprar tudo que precisava pra lavar a piscina, que já estava lá em casa havia três dias, mas ninguém esperava que fosse se usar tão rápido. Em intervalos seguros o bebê era auscultado, minha pressão era aferida e minha temperatura conferida, porque com bolsa rota, qualquer sinal de febre pode ser indício de infecção.

Acupuntura, moxa, pedras quentes, chá, massagem, carinho, risadas..tudo estava sendo feito para estimular o trabalho de parto. Falamos de lua, era lua nova, Marília que sabe de tudo de lua, falou comigo por telefone e vibrou com a notícia da bolsa rota..era uma lua de espera e paciência. E depois dessa espera tranquila, as contrações começaram a ter seu ritmo certinho lá pra meia noite do dia onze. A casa se reorganizou e eu não lembro – porque quando começaram as contrações eu iniciei minha entrada no mundo da partolândia, e eu ainda não sei se faltam detalhes na minha lembrança, ou se foram eles que ficaram – mas, o quarto foi pra sala, a sala foi pra mala do carro e a piscina ganhou espaço no quarto. Lembro que senti calafrios. Lembro que queria Fel mais perto, menos organizando as coisas. Maiana me perguntou sobre o medo. Racionalmente, não tinha nenhum, mas eu tinha escutado tanta coisa ruim durante gravidez, que não duvido, não, que tivesse algum medo escondido. Um pouquinho depois o termômetro apontou o porquê da tremedeira: febre. Tati sugeriu um toque, cinco pra seis centímetros, não lembro se eu soube desses números na hora. Lembro do chuveiro. Lembro da piscina. Hoje, acho que Tati, percebendo que o trabalho de parto ainda estava no início, sugeriu o chuveiro e a piscina pra que eu relaxasse, pra dilatação aumentar um pouquinho e que a ida ao hospital interferisse o mínimo possível nesse processo. A febre tornou o parto domiciliar arriscado e eu precisava ir ao hospital pra tomar antibiótico. Fel veio me dar a notícia da transferência; eu estava na banheira, tava topando tudo, tava segura, confiava na equipe. Então, vamos! Renato já tinha sido acionado e a gente ia se encontrar no hospital. Cheguei lá perto de seis horas da manhã, esperei na recepção, as contrações estavam ficando mais fortes, mas eu me fechava pra dentro e ainda soltava um desaforo pra danada: “venha, que eu lhe aguento”. E fui


aguentando, conversando com aquela dor, sentindo o que ela fazia com o meu corpo. A gente encontrou Renato em uma sala do hospital, já tinha providenciado um quarto, eu precisaria tirar sangue pra saber da infecção e tomar um antibiótico. Lembro de sentir uma vontade forte de vomitar, assim que o antibiótico foi injetado. No hospital, eu já estava bem mergulhada na partolândia, só me lembro de flashes. Estava na cama. De repente, no chuveiro, sentada na banqueta de parto, me fechando em mim a cada contração que vinha, cada vez mais forte. Só tinha Fel comigo, dentro do banheiro; foi aí que começou a sensação de parto compartilhado, era nosso, não tinha mais nada pra organizar, era só deixar vir. Lembro de querer saber se ia demorar muito, mas não era medo, não lembro de ter tido medo. Acho que era essa nossa mania de controlar tudo. Queria um toque, “chama Tati!” – sim, eu estava no quarto do hospital com as enfermeiras que me acompanhavam em casa, com o médico, a doula e meu companheiro..era confortável, apesar da dor. Tati me falou em linha rubra e nem lembro mais do resultado dessa linha, o bicho já tava pegando! De repente, eu estava sentada na cama, aí, bateu a vontade de ficar de quatro apoios, porque alguém tinha dito que era uma boa posição para bebês grandes e isso foi outra coisa que eu escutei muito na gravidez: “esse bebê é enorme”. A posição não foi legal. Fel diz que eu pedi, ou sugeriram a banqueta de novo; de repente, a banqueta. Maiana, sentada atrás de mim, passava um óleo nas minhas costas que fazia eu me sentir uma chama, forte, viva. Fel sentou na minha frente, numa bola suíça, a gente abraçado; eu puxava ele pra mim toda vez que a contração apertava o bebê pra fora.

As contrações apertavam mais forte. Eu fazia força. Tentava não fazer, mas não conseguia; minha mente entendia que não precisava, mas quem mandava ali era meu corpo, minha consciência só observava. A dor serviu pra que eu me concentrasse nesse processo de transformação do meu corpo, ela me fechou em mim e naquele bebê que vinha trazendo lá de dentro o meu avesso, puxando pra fora meu lado instinto, meu lado fêmea...e foi aí que eu virei menos filha e saiu daqui de dentro o bicho mãe. Quando a dor parecia que ia me matar, o bebê veio coroando, e o sentimento de vida me invadiu, nem lembro mais se doía, era meu filho que vinha ali. Nasceu a cabeça, estava laçado, com um cordão mais grosso que cinto de franciscano. Saiu o resto, e foi saindo, saindo, saindo..era realmente enorme – e vejam que os bebês enormes também nascem. 10h20. Foi recebido pelo pai, Renato ajudou a amparar tanto menino. Eu vi aquela coisinha enrugada aparecendo por entre as minhas pernas, meu olho


seguiu ele até que chegasse no meu colo, não conseguia tirar os olhos dele. Era grande, era molinho, examinei cada pedacinho pra saber se estava tudo bem, Renato disse que sim. Eu não chorava, cheirava meu filho, lambia minha cria..sei lá onde estava meu lado manteiga derretida. E aí, lembrei de olhar no meio daquelas perninhas finas: “É Azuh!”. Aí, eu dei um sorrisão com o olho arrepiado, que nem ficou agora de novo. A placenta saiu logo depois . Azuh não sofreu nenhuma intervenção, só saiu do quarto no outro dia pra fazer um exame que diria se ele tinha infecção ou não – não tinha – e pra pesar. Com um dia de nascido o menino pesou 4, 350kg. Continuo muito grata à equipe e aos amigos que nos acompanharam nesse processo. Agradeço muito a Azuh por toda essa transformação na minha vida, pelas amizades construídas e pela paciência que ele tem com esses pais que ainda precisam aprender tantas coisas. Precisei escrever esse relato pra que não perdesse mais detalhes, e pra que Azuh conheça a história bonita de seu nascimento, que foi exatamente no dia que ele escolheu.


O parto