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Vazados & Molambos

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Editorial editorial@editoradacasa.com.br www.editoradacasa.com.br Caixa Postal 5.092 CEP 88040-970 Florianópolis/SC Distribuição e atendimento atendimento@designeditora.com.br Fone/fax: 47 3372 3778 Vendas pela internet www.livrariascuritiba.com.br Editora da Casa é um selo da Design Editora Ltda. CNPJ 07.855.644/0001-00 www.designeditora.com.br

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Vazados & Molambos Laura Erber

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Coordenação editorial Carlos Henrique Schroeder Manoel Ricardo de Lima Coordenação da Série Alpendre de Poesia Carlos Augusto Lima Manoel Ricardo de Lima Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica Design Editora Comitê editorial Carlos Augusto Lima (For, CE) Edson Sousa (Porto Alegre, RS) Fabiana Macchi (Berna, SU) Gonçalo M. Tavares (Lisboa, PT) Júlia Studart (Fpolis, SC) Leonardo Gandolfi (Rj, RJ) Maria Lúcia de Barros (Fpolis, SC) Maurício Santana Dias (Sp, SP) Tarso de Melo (Sbc, SP)

B645q

Erber, Laura, Vazados & Molambos/ Laura Erber. — Florianópolis: Editora da casa, 2008. 40 p. ISBN 978-85-60332-25-0 1. Poesia – II. Título. B869.3

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tudo caía éramos flocos de aveia JEAN-CHRISTOPHE BAILLY

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as (causas) invisíveis

algo vai terminar numa cabeça de mulher silêncio, mocambo, teimosia a mão é cega (porque o pensamento é brusco) ela aposta no vocabulário noturno soprados e molambos os farroupilhas daqui os alemães e seus canhões de lá (mas ela gosta mesmo é de bater nos molambos)

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ela queria participar de um crime antigo chulo fedido comer churrasquinho no Bronx perguntar ao garçom onde jaz o teu sorriso? onde onde onde a coisa pega onde arde apesar das aparências onde morde onde se afoga embebida em querosene onde pesa – o que te faz pensar nesse momento que todo crime chulo é antigo, que todo labirinto é projetado? -

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Célula para Anna e Oleg

AQUILO QUE BRILHA POR SI MESMO E NÃO PRECISA RESPIRAR “uma estrutura de metal” - que pode ser uma jaula “e algo que se parece com luz fria” UM LUGAR ONDE NUNCA ANIMAL NENHUM ETC ETC ETC “os detalhes não carecem de importância” diz ela “eu venho com o metal” diz ela “ e ele com a luz” “e é assim que se faz” “funciona muito bem” “todo mundo gosta” NÃO HÁ NADA A ESCONDER SÃO AS LÁGRIMAS QUE MANTÊM A CÓRNEA ÚMIDA E SAUDÁVEL 9


“ela se fragmentou” HAVERÁ MUITAS NOITES ASSIM

(estranho, eles só se encontram em estados prestes a esfriar)

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mais devagar (discretamente) carinha de pietà rasgando lentamente o coração abre a boca como se fosse dizer “não inventem mais coisas desagradáveis” pega o cigarro fuma com prazer a tradição da dor exige uma certa sofisticação pausa suspira começa a contar a sua história “procuro uma boa desculpa” é uma frase que não sai de você “pra me desobrigar...” depois tudo acaba e acaba mal 11


na frente da mãe do Fassbinder Juliane disse que Werner nunca foi gay não tomava drogas tinha se tornado até muito caseiro nos últimos anos

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Poema com fundo de Paul Van Ostaijen

eu não posso colecionar os nomes dos terremotos [japoneses eu não posso colecionar os nomes dos afluentes do [Escalda nomes dos caçadores de diamantes nomes de beijos flamengos nomes destas tardes de chuva nomes de estar sem você pensando na força dos fracos [no sangue do Tejo invadindo o inverno de outro continente eu não posso, Paul, porque ninguém pode vamos recomeçar é uma noite de trégua e estamos nus eu te observo enquanto você escreve às margens do canal de onde o navio nunca mais sairá para que os turistas entrem para sentir

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que em outra vida o mar poderia ter sido uma vida inteira ligo o rádio e sintonizo o seu poema com uma canção [de adultério o resto de um carro de bois fora da neblina dentro da neblina [onde minha lembrança tenta se fixar mas não pode porque de repente eu desejei fixá-la demais aqui comigo [no avesso de uma foto sua, no seu silêncio, no seu silêncio tácito, Paul, mas ninguém pode

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doucement

ela quer soprar uma coisa em você a transcrição visual da boca dizendo et maintenant, écoute ela quer ver você subindo as escadas depois descendo como um boneco manipulado por dois ou três virgens do Japão antigo ela quer uma cena com estilo suave em que nada se [esconda ou se ofusque ela quer que tudo termine com o velho monge soltando [as cordas do veleiro ela quer puxar seus fios fazer você piscar ranger os dentes [mexer os dedos como um homenzinho-vivo ela quer te quebrar em mil pedaços e fugir com os tocadores de shamisen depois voltar reconstruir vestir você chorar sobre o seu corpinho esfarrapado

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Eu, esta mão Herberto Helder

eu filmava o seu rosto de vez em quando você se esquivava você era uma raposa alguma coisa podre viajava entre nós a morte sem capuz (fedia) quase sem movimento eu filmava apenas o seu rosto e um pouco as suas mãos falávamos em Zamenhof em petites tristesses que se curvam com as curvas do sotaque você se identificava (cada vez mais) com a raposa eu tentava fazer com que filmar fosse também carinhoso (sabendo que o melhor retrato é o de linhas) você me explicava como funcionam por dentro da boca 16


os coelhos os dentes crescendo por toda a vida eu desaprovava tudo mas por dentro da boca coincidia contigo seria lindo ter orelhas ativadas ao menor frisson e pendem quando ficam tristes havia também a idéia do nariz gelado e de uma língua que sua afinal a felicidade entre os mamíferos não precisa ser buscada na invenção de uma nova língua

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Férias prolongadas 35 mm 145 min.

à tarde ele vai ao Hospital Acadêmico de Utrecht

e logo as xícaras começam a temer é preciso prolongar as coisas

prolongar as férias ele quer tardes prolongadas ele quer entrar no tubo que conta gota-a-gota o tempo declinando numa escala acidentada em direção ao nada ao nada ao nada de nada pois talvez (era o que ele pensava) o nada também se pareça com alguma coisa 18


cintilante os movimentos mais giratórios do corpo

a espadachim indiana mais rápida do mundo no fim das férias o que ele filma já não é mais o grande rio africano mas os pequenos rios holandeses que ficam grandes na tela “o filme das férias e das coisas trêmulas” depois dele: um presente inacabado – o que se descobre jogando – mesmo quando não por muito tempo

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Poema com fundo de Paul Van Ostaijen 2

a garota de Pamplona agora vive em Honolulu com um colar de pérolas de plástico numa estufa – ela vai continuar crescendo – ela era o seu spleen alegre o seu chouchou com ela por perto você dizia flonflons, pink, bleu ruban as louças tremiam as palavras gorgeous gorgeous! vagas vagas mas ela estava resolvida e avançava

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Poema com fundo de Suzuki Harunobu

quando as ondas brancas ficam mais altas em Tatsutayama ninguém mais sabe se vai conseguir fazer a travessia de noite se o mundo dos prazeres é o mundo das coisas flutuantes se a gaivota de risco fino terá lugar fora da paisagem estilizada ninguém sabe se os amantes tramam suicídio em Amijima ou uma viagem pra Cuba se quando pronuncio certos nomes as ondas ficam mais altas em Tatsutayama ou aqui

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Interseções (Mondrian by Night)

I e gostava de dançar

podia acontecer entre laranjas púrpuras

escarlate e duas sombras de azul II

“liberar-nos, liberar ao menos a visão” 22


III vibrações podem saltar de par em par entre os restos de uma noite em abstrato vermelho amarelo e azul primitivos

IV pequenos blocos cintilantes (uma garota poderia de olhos abertos ficar até mesmo muito aturdida)

V ela não sabe até quando isso dura VI do you believe in the power of rock ‘n’ roll ?

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VII a pequena causa de uma paisagem inumana está perdida são mais bocas mais pernas mais linhas mais uma noite americana VIII antigas árvores onde tudo começou os galhos e depois partidos ritmo IX agora a cidade está secreta e calma X um romance não pode terminar assim XI mais boogie-woogie

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Matrioschka

talvez seja um grão de arroz por enquanto você não sabe do grão de arroz parece inofensiva tá sorrindo pra mim é dura todas são gordas e duras não desanime só podem ser como são engoliram as irmãs, as primas, as filhas e o grão de arroz não (são gordas porque são ocas por dentro) as crianças gostam muito no fim há um grão de arroz sorridente não é verdade, o que sorri têm vísceras têm interesses inconfessos não têm boca tem certeza que sorriem? têm interesses uns dentro dos outros uns dentro dos outros gordos interesses sorridentes esses buracos nos deixam um pouco incomodados mas nascem de novo 25


contra-plano d’après Olivier Cadiot

Sem querer no meio do barulho acho que acho que pensa que eu disse dançando ele pensa em alguma coisa parece pensar que eu disse ou? quer que eu diga acha que vou pensa que vou dizer ou que quero dizer ou prefere só olhar parece que prefere ficar olhando alguns preferem sujo acho que foi engano tem alguns que preferem

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só olhar pensando nas palavras dos outros mas? adormeceu agora parece que esta dormindo cochilou ou então está dendo com dor alguma dor acho que sente o barulho do ar se deslocando aguma coisa levando pra longe talvez um pensamento os anos vividos com uma mulher que nao gostava de viagens etc etc olhando de novo como se olhasse um jogo de cartas – um homem crível – talvez capaz

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de palavras ternas que talvez saiba chupar sem exibiçõezinhas mas olha olha nao sei é estranho obnubilado e agora acho que parece que caiu caiu caiu no seu dele próprio buraquinho

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O bebê de trincheira tem os olhos cor-de-rosa e sorriso de um remador. Não chora nunca, mas também não aprendeu a dizer sim. Soletra ferrugem e Lupicínio e te diz escrutínio sem piscar. Por um abraço ele desce as escadas com o bico-de-pena, o jargão e a foice. Já sabe ler mas prefere buzinar. Conhece os poços de petróleo do Oriente, o delta do Mekong as curvas da estrada de Santos. Conhece Morungava. Com um beijo ele sorri a tarde inteira. Com dois ele cospe. Com três começam os problemas. Já não se fazem crianças como antigamente. Mas esta aqui não tem preço. É só pra olhar.

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Ela acorda cedo aberta ao estupro. Não é assim que faz o tatu, o coelho, os roedores em geral, os soldados em tempo de guerra? Ela muda depressa e agora é um alexandrino acentuado em u. Ela pensa em mudar o emprego, em mudar o emprego da língua, ela pensa em cantar o Hino Nacional. Ela viu na televisão um condor que não sente as próprias asas. Ela viu como fazem os répteis e o saci. A natureza é linda e variada. Ela sonha em se casar com várias espécies de homens. Ela sonha com bichos que dançam e fazem um ruído próprio no acasalamento. Ela gosta de olhar a pista de patinação no gelo. A terra é redonda, nada é muito longe. Ela não pensa em viajar. Ela está exausta e só pensa em ser feliz. Ela não está nem aí. Ela quer saber sobre as estrelas, sobre coisas mortas que brilham há zil anos. Ela quer saber como Lázaro adoeceu de repente. Ela quer mais açúcar, mais beleza. Ela quer sair daqui. Ela vai até o banheiro. Ela volta. Ela mente um pouco. Ela muda de roupa. O dia termina. Ela abre o leite, parece azedo. Ela engole.

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O fim do Império

I Começava com você escrevendo sobre lábios ressecados no Tennessee. II Eu perguntava se a canção secreta da garota húngara não era o roman-fleuve de uma Lotte Lenya antepassada. IV Uma mulher que ficava apoiada na borda do camarote sonhando com o fim do Império. V Ela que não tinha profundidade alguma. VI Só ar brilho e nada mais. VII Alguém sonhava em guardá-la num tubo de vidro. 31


IX Chegaria o novo século, o fim do império, o fim da hungria, o fim do roman-fleuve, chegaria? X Ela nos olha de longe com uma expressão de pânico contida. XI É sempre seco no novo lugar? XII Com quantas línguas se lambe a memória de um Império? XIII Quantos metros de língua para se enforcar no solilóquio? XIV Quanto duas pessoas podem se afastar sem se perder de vista? XV E no Tennessee?

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Outras superfícies mexedoras para Marcela Levi

assíntotas são duas linhas que nunca se tocam mas tendem a se encontrar no infinito assíntotas são duas linhas que tendem infinitamente a se encontrar elas vão por extensões noturnas banhos de caneca pedidos de perdão se aproximam para se dispersar se dispersam para se tocar inventam um desvio, um tuiuiú, vira e mexem onde escorregar há repouso nas horas de cansaço uma sabe dos nós a outra das planícies uma vigia as arestas 33


a outra persegue pontas pânicas uma canta bem bengala blues a outra é tia em dificuldades uma está sentada no Pacífico e observa a outra escreve telegramas e pergunta se as massas de sentido aderem ao novo lugar pede “um miguilim pra mim” uma vacila a outra ops não são linhas biográficas mas envelhecem agora são fios brancos flocos de aveia caindo uma medita a outra se distrai, narrar não importa (girar é muito bom)

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você dormiu do outro lado da faixa e eu continuei aqui ouvindo fogos vendo o teto cintilar dizem coisas sobre você sobre o sexo do outro lado da faixa os corpos delas do outro lado da faixa eu não sei eu não sei eu não sei se quero ainda saber continuo aqui com essas rimas de pobre com o cheiro de bode com vontade de umas coisas mas com sono sempre querendo os meus joelhos dormem por cima do meu estômago sem saber de que lado da faixa você está eu estou

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Laurales

ordem de plantas angiospérmicas: plantas com flor, divisão Magnoliophyta. Características: a grande maioria são árvores e arbustos, exceto as trepadeiras parasitas do Gênero Cassytha. Folhas inteiras dispostas em geral alternadamente, sem estípulas. Flores geralmente pequenas, não coloridas, perfeitamente cíclicas, diclamídeas, hermafroditas, com um receptáculo bem desenvolvido no bordo do qual se fixam os elementos do perigônio e o androceu. Tépalas geralmente trímeras, em dois verticilos. Androceu formado em geral por 2, 3 ou 4 ciclos de três estames ou estaminódios cada. Antera dos estames férteis abrindo-se caracteristicamente por valvas (cada loja com sua valva). Fruto em geral carnoso. Ovário contendo um único óvulo. Devido à presença de óleos essenciais soltam um cheiro característico quando esmagadas.

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sewa-mono ao Pedro

vocĂŞ tambĂŠm pode correr pelo campo como um samurai desempregado buscar amantes suicidas em Sonezaki dramas mais domĂŠsticos abrir um teatro de marionetes falir insultar o chefe dos protocolos do Shogun gritar morrer andar de bicicleta

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Laura Erber nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É poeta e artista visual. Estreou em 2002 com o livro Insones (7Letras,Rio de Janeiro); em 2006 publicou Os corpos e os dias / Körper und tage (Merz-Solitude, Stuttgart) com versão alemã do poeta Timo Berger. Com Federico Nicolao realizou o livro Celia Misteriosa (Io & Villa Medici). Em 2008, Os corpos e os dias foi publicado no Brasil pela Editora de Cultura (São Paulo). Atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. 38

Vazados & Molambos_Laura Erber_2008  

lançado em 2008 pela Editora da Casa / Coleção Alpendre de Poesia coordenada por Manoel Ricardo de Lima e Carlos Augusto Lima

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