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Contra-história Comprometidos com as narrativas não hegemônicas, os estudos póscoloniais problematizam a noção de modernidade, buscando evidenciar a sua parcialidade e, ao mesmo tempo, a existência de outras modernidades. Desse modo, os saberes e culturas das populações autóctones, mestiças e escravizadas – submetidas às injunções do empreendimento colonial europeu – passam a ser reconhecidos como elementos fundamentais para a revisão crítica e ressignificação dos pilares da sociedade ocidental, dentre eles as ideias de civilização, desenvolvimento e riqueza. Parâmetros alternativos às lógicas de dominação e exploração vêm adquirindo ampla influência nos debates sobre a insustentabilidade dos modos de vida exercidos no capitalismo tardio, geradores de profundos problemas de ordem ambiental, social e econômica. Se concordamos que as narrativas históricas apresentam perspectivas capazes de nos desviar de um perigoso caminho sem volta, sobretudo no que se refere à continuidade da vida no planeta, estas devem ser procuradas principalmente no passado e no presente de comunidades resistentes aos processos unilaterais de conformação a uma única e excludente concepção do moderno. Algo dessa contra-história pode ser notado nas operações do projeto Lastro em Campo. Lançando mão da viagem como situação propícia à experiência e à produção simbólica a partir de outros registros culturais, os pesquisadores e artistas operam no avesso das expedições artísticas e científicas – amplamente empreendidas no Brasil do século XIX por especialistas devotados à descrição minuciosa de diferentes aspectos da colônia. Para os agentes ligados ao Lastro, suas excursões (ou seriam incursões?) ocorrem no mesmo continente, em países da América Central e no México. Distanciando-se dos expedientes classificatórios – que objetificam o outro e o desconhecido –, as ênfases de suas estadias em cada lugar recaem na convivência e numa diversidade de práticas experimentais abertas às contingências locais. Contraposta aos esquematismos das representações calcadas em modelos pretensamente universais, essa disposição vivencial coincide com a maneira como o Sesc compreende a potência da educação e da mediação cultural. Para a instituição, a interação entre diferentes culturas não se limita à interpretação de uma pela outra, tendo em vista as possibilidades de reinvenção de uma pela outra. Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do Sesc São Paulo


percursos ancestrais e cotidianos

¿Adónde en verdad iremos que nunca tengamos que morir? Cuacuauhtzin de Tepechpan Poeta asteca, meados do século XV1

O mundo mítico dos antigos povos da América foi de grande interesse para os hispânicos ao longo de todo o processo colonizador. Pelo viés artístico, esse fascínio correspondia ao estilo de escrita, visto que as correntes literárias que marcaram profundamente os séculos XVI e XVII tomavam como base narrações fantásticas e de aventuras. De Camões, Cervantes e Montaigne ao francês Jacques Bossuet, cuja oratória sacra fazia a defesa da origem divina dos reis. Contudo, a dedicação empregada ao estudo ferrenho das antigas tradições e seus deuses foi ferramenta para a Igreja Católica no trabalho de conversão. Era fundamental dispor de certas bases mitológicas pagãs para poder realizar efetivamente a missão catequizadora. Além disso, lendas e mitos também foram apropriados politicamente, nas ocasiões em que era favorável demonstrar suposta injustiça por parte das dinastias indígenas em contraponto às bases de tradição histórica europeia. Durante o primeiro século depois da conquista do México e do Peru, indígenas e mestiços começaram a registrar as tradições de seus antepassados – até então comunicadas por hieróglifos e códices – por meio da escritura apreendida dos hispanos, em seu idioma de origem. Geralmente em língua asteca e nos idiomas dos Maias de Guatemala e Yucatán, esses textos compõem preciosos relatos e fontes incontestáveis sobre modo de vida e visões de mundo, como o Popol Vuh e Historia de los Reynos de Colhuacan y de México, ambas anônimas. De valor similar, há o conjunto de obras do frei espanhol Bernardino de Sahagún – nesse caso, de acordo com os parâmetros da etnologia moderna, não é o autor quem relata, mas sim o informante indígena em seu próprio idioma e na sua lógica de construção gramatical. Sahagún logrou reunir para essa incumbência o núcleo central da cultura asteca – em sua maioria, antigos sacerdotes e sábios pertencentes às suas elites intelectuais. Infelizmente, essa metodologia de escuta e escrita adotada por Sahagún não foi seguida por seus descendentes. Muito do que conhecemos sobre a história dos povos originários da América foi escrito por não nativos. Narrada por missionários espanhóis e portugueses em viagens religiosas, cientistas e antropólogos em rotas expedicionárias, a sabedoria 1 “Onde, na verdade, iremos que nunca tenhamos que morrer?”. León-Portilla, Miguel. Trece poetas del mundo azteca. México, DF: Universidad Nacional Autónoma de México, 1984.

indígena foi (e continua sendo) roubada, queimada e expropriada. No Brasil, a aculturação se dá na forma de genocídio permanente, que nunca se tornou pauta para políticas de governo. Invisibilizados em sua terra de origem, os indígenas brasileiros “(...) descobriram [na década de 1970 e 1980] que, apesar de eles serem simbolicamente os donos do Brasil, eles não têm lugar nenhum para viver nesse país. Terão que fazer esse lugar existir dia a dia e fazer isso expressando sua visão do mundo, sua potência como seres humanos, sua pluralidade, sua vontade de ser e viver.”2 Neste sentido, a pergunta que nos é posta, a nós artistas e pesquisadores residentes, é crucial: como escrever sobre história e culturas originárias sendo um estrangeiro? Escrever, aqui, encarado como trabalho artístico e conceitual. A todo momento corremos o risco do fetiche, do romantismo, da apropriação. É inevitável. Ao lado de cientistas e exploradores, os artistas sempre apareceram como protagonistas interculturais. Dos pintores viajantes aos agentes urbanos da gentrificação contemporânea, é preciso atenção e responsabilidade ao fazer o discurso defensor da conexão entre povos, entre culturas, entre classes. Ao se perceber em viagem, o turista aprendiz (à lógica de Mário de Andrade) deve ser um interlocutor. Deve fazer da alteridade sua escuta e observação, e do vínculo involuntário seu molde para desdobramentos de criação. O traçado mental em um mapa, momentos antes de viajar, é decisivo para alterar o estado emocional do viajante. Imaginar o livre cruzamento de fronteiras na idealização de mundo sem cartografia faz a importância do projeto. O desenho inicial era atravessar a América Central e chegar ao México para a celebração de dez anos da pequena história do Lastro – Intercâmbios Livres em Arte. A esse sonho solitário juntaram-se quinze profissionais da arte com o intuito comum da vivência. Artistas e pesquisadores munidos do desejo do estudo in loco de assuntos nunca antes cogitados ou já um tanto obsessivos, porém longínquos, no campo de interesse de cada tripulante. O convite não esperava por resultados tangíveis, o corpo em deslocamento era a única prerrogativa de percurso. As previsões sobre o que viria a ser o cotidiano desses países em nada se aproximou da realidade. O início de nossa residência de pesquisa artística se deu pelo Panamá, ao lado de Pedro Víctor Brandão. Lugar de acúmulo de fortunas e transações econômicas em esferas planetárias, de onde se falou da ficcionalização dos mecanismos de negociações. O projeto seguiu rumo à Guatemala, para o encontro de Edgar Calel com 2 Krenak, Ailton. Encontros. Sergio Cohn [org]. Rio de Janeiro: Azougue, 2015.


Daniel Albuquerque, Danilo Volpato, Lucas Parente, Luísa Nóbrega, Maíra das Neves, Mariana Guimarães e Maria Catarina Duncan. Guatemala é a terra sagrada maia, lugar de rito e prece aos ancestrais, onde a humanidade surge do milho. População majoritariamente indígena, paisagem rural. Recebemos as saudações de bom caminho das tradições mitológicas locais. No México, Lucas, Luísa e Danilo somaram-se a Jonas Aisengart, Leonardo Araujo, Maya Dikstein, Olivia Ardui, Thais Medeiros e Van Holanda. Entre Oaxaca e Cidade do México. Entre a violenta culinária e a noite imortal da maior cidade do mundo. Na parada final do traçado imaginário, fomos arrebatados pelo legado das múltiplas civilizações mexicas3 atravessadas pelas insurgências urbanas. Passado um ano, a segunda travessia nos interpela novamente ao encontro. Agora são as memórias da experiência vivida, agrupadas em trabalhos e maturadas em exposição. Lastro em Campo – percursos ancestrais e cotidianos conta com obras que versam sobre temas entre a história ancestral e o cotidiano das cidades, e o objetivo é levar ao público a dimensão do ambiente de estudo e convivência diária como importante propulsor de diálogos entre os projetos de pesquisas. A exposição agrega instalações, performances, vídeos e objetos; um núcleo de pesquisa que reunirá o arquivo documental com processos e anotações em viagem; uma biblioteca com títulos acerca dos projetos de residência e uma programação paralela com falas e cursos que perpassará a mostra ao longo de todo seu ciclo. Os percursos entre passado e presente coexistem, se entrelaçam a todo instante. A realidade entendida como camadas de tempo encadeadas no espaço traz a concepção de existência como um aprendizado maia. A ancestralidade é cotidiana, deve ser nutrida na vida diária. Para além dos equívocos da história, o agora ainda é o engano urgente. Ressignificar o estatuto da objetificação cultural e do privilégio pode ser a saída para uma nova escrita. Beatriz Lemos Curadora

3 Mexicas é o termo usado para denominar todos os povos originários de onde hoje é o território do México.


daniel albuquerque

guatemala

Relato Guatemala O trabalho que resultou dos dias vividos na Guatemala é o tricô. Meus trabalhos com tricô são anteriores a esta viagem, contudo, estes ganharam novos sentidos a partir da ida à Guatemala. Em um primeiro momento, nos meus trabalhos iniciais, acreditava que os tricôs eram estritamente processuais. Que o tempo de execução deles e a proximidade do tecido - que ia se construindo sob as minhas mãos e agulhas, que ia roçando no meu corpo e a linha que ia se embolando no meu braço -, era o que tornava esse trabalho tão humano. De fato, esses dados continuam nesses trabalhos, são peças sensuais e frágeis como o próprio corpo que as produz. Agora, depois da Guatemala, percebi que esses trabalhos também lidam com noções imemoriais, com a presença e a própria memória afetiva. São também paisagens, reflexões sobre a perspectiva. Pensar sobre perspectiva no seu sentido estrito é, ainda, pensar nesse termo em sentido mais amplo. Ando refletindo, desde os meus primeiros trabalhos, sobre quais são os dados que são aprendidos e apreendidos e quais são, de certa forma, inatos à espécie humana. Não há nada como conhecer outras culturas para refletir sobre nossos paradigmas.

Volta VIII (guardanapo Oldenburg esfiha) tricô | 4x85x90cm 2016

Fita de Möbius confeccionada em técnica de tricô. Esse trabalho utiliza a mínima proporção possível entre largura e comprimento para que esse espaço topológico fique planificado, resultando em uma forma triangular.

Guate

Volta VII

tricô e tinta spray | 3 painéis de 220x240cm 2016

tricô | 64x15x15cm 2016

O trabalho consiste em 3 painéis de tricô posicionados lado a lado. Cada um desses painéis sobrepõe uma forma geométrica pintada diretamente na parede em tinta spray. Esses trabalhos buscam refletir sobre paisagem, processo e afecção.

Fita de Möbius confeccionada em técnica de tricô. Esse trabalho discorre sobre a condição desse espaço topológico, tão associado ao infinito por sua condição não orientável, submetido à gravidade.


danilo volpato

guatemala / méxico

managua tan viola, mi dulce1 posso ficar parado invisível bem no meio da cor digo diakachimba, deschongue, gracia, fufú, dolor2 ando tardando sim o impossível que vai de amor a humor penso andar chorar onde há calor corri uma trilha escura calado, que grita clara e sem som ver-te assim visionária parece não ser fora do tom nua com a nossa música afora cantas só o que é bom vislumbras tantas coisas até onde estou desnudos somos más bellos, pelada3 la perla4, nicaragua, hotel nós em león, carona na estrada, mira o vulcão pro céu a américa central é o caminho que lembra você e eu vazio dessa espera e distância, crime quem cometeu quando eu voltar pra guate5 ou pra cuba, costa rica, ibagué6 managua tan viola, mi dulce, no lago verei você deixo chegar em americana7, carcaça que vai dizer se foi ou não solitário escrever

Em lugar de uma carta - Cuicuilco vídeo | 18’40’’ 2016

No lugar de uma carta, o remetente destina um vídeo a uma amizade e tece diálogos relacionando lembranças, territórios e o uso de antigos espaços sagrados. A partir de Cuicuilco, uma plataforma escalonada circular do período pré-clássico, localizada em plena cidade do México - cujo nome se refere a lugar de cantos e danças os tempos, espaços, caminhos e mitos se sobrepõem.

nossos corpos tranquilos sagrados, lugar que não tem fim tremem explodindo tudo comigo, cocibolca8 em mim ilha, ometepe9, véu, saudade maíz, yuca10, aipim vida, viagem e morte não há sem um sim. 1 Managua, tão viola, meu doce. Tradução literal. Referência ao livro Nicaragua, tan violentamente dulce, de Júlio Cortázar. O presente texto é uma versão livre adaptada a partir da estrutura e letra da canção Nu com a minha música, de Caetano Veloso. 2 Expressões usadas na Nicaragua. Diakachimba: bonito, bom, super. Deschongue: situação descontrolada e barulhenta. Gracia: graça. Fufú: feitiço, malefício ou bendição. Dolor: dor. 3 Nus somos mais belos, garota. 4 Nome de um hotel em León, Nicaragua. 5 Guatemala, no modo de dizer local ao se referir à capital Ciudad de Guatemala. 6 Capital do estado de Tolima, na Colômbia. 7 Cidade do interior de São Paulo, citada na canção original e também moradia do autor do texto. 8 Grande lago da Nicaragua, de nome nahuatl, foi chamado pelos invasores espanhóis de mar dulce, mar doce, por ter ondas e parecer não ter fim. Contém o arquipélago de Soletiname e as grandes ilhas Zapatera e Ometepe. 9 Ilha localizada dentro do lago Cocibolca. 10 Milho, mandioca.

Poj Poj vídeo | 4’48’’ 2016

Trinidad volta ao lugar onde existiu o antigo Guayabal, povoado dos seus avós zoques que foi sepultado pelas erupções do vulcão Chichón, em Chiapas, no ano de 1982. Canta Poj poj, uma versão da canção Asa Branca.


edgar calel

guatemala

Kere` x on / Asi fue Kere` xb`anatej / Asi sucedió Nombres, cuerpos, ideas, saberes, Documentos, libros, textos, llagaron en diferentes tiempos a ciudad de Guatemala durante el mes de Abril y mayo de 2015, de manera orgánica se fue construyendo una constelación de energía y conocimiento durante las conversaciones e intercambio de ideas y procesos de los diversos trabajos que cada uno de los artistas y curadoras participantes de Proyecto lastro ha venido desarrollando a través de la experiencia que hay entre la vida, cuerpo, espacio, tiempo, rituales, viajes he idiomas…

IQ´ / Vento instalação com 52 caixas de papelão abertas e pintadas dimensões variáveis 2016

Pintura do rosto do tempo sobre a superfície de 52 caixas de papelão, de diferentes tamanhos, que abertas mostram sua essência. No vento estão o conhecimento e a palavra de nossos ancestrais.

jare` Lastro / Esto es lastro K`aslem, Pedro, N`oj, Maíra , Koten, Luísa, Tzij, Daniel, Juxuj, Mariana, Tz`ib`anik, Maya, B`enan, Thais, Kem, Lucas, Xajo,j Maria, kaq`eq, Catarina, Uxlanil, Danilo, Sipanik ,Edgar, Ti tz`iron, Jonas, Tz`ikin, Leonardo, Moloj, Victor, Etamab`el, Olivia, Kotz`ij, Van, Ijatz, Melanie, Ab`ej, Beatriz, Ch`ob`onik, Vida, Brandão, Alegría, Das Neves, Camino, Nóbrega, Palabra, Albuquerque, Tejido, Guimarães, Descansó, Dikstein, Silencio, Medeiros, Ritual, Parente, Dibujo, Duncan, Viaje, Volpato, Escritura, Calel, Aire, Aisengart, Conocimiento, Araujo, Investigación, Ardui, Fuego, Holanda, Semilla, Graille, Piedra, Lemos, Q´aq´…

apoio

>> A versão em português do relato acima encontra-se ao final desta publicação.

At nu jukukempe / Te trago arrastado comigo vida / ação / performance vídeo | 2’6’’ 2016

“Caminho, avanço, me canso, me detenho e minha história a trago arrastando comigo.”

At nu jukukempe - Q axomal - K´oten - Rayb´el - Oyobal - B´is - K´ayebal - Xib´iril - Samaj - etzelal - mak

Te trago arrastado comigo História Memória Idioma Dor Doença Castigo Injustiça Silêncio Medo Trabalho Erros

Vídeo-performance onde o artista amarra árvore e raiz de uma planta de milho ao seu cabelo e boca para caminhar arrastando a árvore. Nos braços Calel leva uma penca de cartuchos.


jonas aisengart

méxico

Relatos de um processo (Santificados foram) Para além das narrativas históricas, dados específicos, nomes e datas, me encanta na religião a fantasia. Saber que no imaginário humano lendas se misturam a fatos para se tornar mitologia e pessoas se tornam representações, ícones. Verdades tecidas ao longo dos séculos totalmente embebidas em ficção. Por todos os caminhos havia igrejas e os santos bonecos: esculturas vestidas com mantos coloridos em poses altivas. Era algo incrível! Em nichos e em caixões de vidro povoavam as igrejas, tornando aqueles sacros em cenários surreais. A vontade de produzir algo foi crescendo e com isso alguns indícios do que fazer. Em conversa com Lucas, num café, surgiram as primeiras pistas. Mas foi na primeira igreja da rota Dominicana, no interior do estado de Oaxaca, que a ideia começou a ser posta para os demais. Aos poucos todos trouxeram seus complementos tornando a ceia mais farta e fraternal. O plano era simples: representar cada um de nós como um santo. Não uma mera alegoria de um santo qualquer. Cada qual com suas peculiaridades, seus livros, computadores, pedras, lenços, lençóis, cacarecos e questões. Cada qual com seu Santo específico. Uma forma legítima e romântica de sacralizar nossas potências individuais e toda a troca que ali se dava, homenageando, ao mesmo tempo, a experiência nas igrejas mexicanas. Foi preciso partir pra D.F, enfrentar tempestades, crises e baratas para que a ideia ganhasse um cronograma. Iniciamos os dias de produção percorrendo lojas de tecido com a Thais, seguido de outro abaixo de chuva para conseguir emprestado os equipamentos de luz. Duas filmagens por dia que atravessaram as madrugadas. Em uma semana intensa de trabalho, na maior cidade do planeta, seis vídeos feitos. A grata sensação de trabalho realizado. A promessa de uma experiência pop barroca que eu acredito muito. Santificados foram e também já voltaram. Que assim seja. Amém.

Santificado Seja (Mis santos mexicanos) conjunto de 6 vídeos projetados simultaneamente | 19 minutos colaboração de Lucas Parente 2015

O conjunto de retratos filmados representa, concomitantemente, a sacralização do real e a realização do sagrado, pois dá vida a santos através de pessoas. Jonas Aisengart cercado pelas mais diversas representações é São Lucas, o Santo pintor devoto a retratar a virgem por toda sua vida; Lucas Parente com obsidianas e livros entre avenidas em plena chuva é São Cristóvão, o santo gigante que cruza os rios e protege o menino Jesus; Taís Medeiros, tão profundamente ligada à prática da boa mesa e da boa literatura (alimento da alma) é Santa Luzia; Leonardo Araujo, homem da palavra que percorre suas possibilidades através da leitura e realiza suas impossibilidades através da escrita é São Marcos, aquele que redigiu a bíblia isolado no deserto; Luísa Nóbrega que em sua produção delicadamente investiga os limites da existência é a Santa Morte, padroeira da boa morte e dos criminosos e marginalizados; Beatriz Lemos responsável pela projeto de residência é a Virgem de Guadalupe, padroeira do México.


méxico

leonardo araujo

Relato metafórico crítico de um grupo “a cerca de” em terras anacrônicas - viagem X viajem 1. Antes de viajar, toda a angústia é transferida para a expectativa. E a geração de todas as expectativas é a produção de mais angústia. Quando parte (São Paulo ou Rio de Janeiro, Brasil) o indivíduo (curador, crítico, artista) para o novo, vai partindo sem dormir até chegar no destino (Oaxaca, Ciudad de Oaxaca, México). O destino, sabendo-se ser de fato o extremo da passagem (duração de uma única semana), não deixa que o viajante recolha a si mesmo. A chegada cobra do viajante o estado de alerta máximo através do tempo, que passa lentamente para recobrar-lhe ser a si mesmo passageiro para internalizar tudo o que vive o viajante. O viajante, preocupado com o método que planejou (pesquisa, trabalho) antes de sair donde estava (casa), perde-se ainda mais com o destino que já não é mais destino, senão presente donde passa o viajante em viagem (grupo que chega da Huatemala). Entre uma coisa e outra, o viajante, metido a antropólogo que brinca de esconde-esconde com as coisas da viajem, escolhe inconscientemente as derivas (pueblo artesão de Oaxaca, fábrica de mezcal, novela mexicana em finalização com uma hora seguida da mesma cena do casal protagonista na lua de mel, a maior árvore do mundo e muitas cervejas novas) que faz. Pois a deriva não pode ser consciente, abre para o viajante, dentro da viagem, outras viajens (pueblos de Oaxaca, Abel carregador do mercado popular, queso oaxaqueño, os fernandos vereador e outro desejoso de crystal) ainda mais perdidas, ainda mais desérticas. Assim, o viajante viaja sem instrução nenhuma de como retornar ao método, quase esquecido das expectativas surgidas antes da viagem, e deixa surgir em si mesmo a mudança, outras viagens possíveis (a troca de direção do projeto, pesquisa ou investigação de todo o grupo durante a viajem), perde o planejamento.

Glosa. É de todo perplexo a percepção do real dentro de um parêntesis. O parêntesis da vida é a viagem. O entendimento social do real sempre se dirige ao texto, não ao parêntesis explicativo, que relata. Por isso existem diferentes modos de ir para o salto, para a organicidade do desconforto, para o desconhecido. Alguns, como nossos colegas de que recebemos a angústia, aqueles que levamos como leituras de cabeceira, viajavam muito por si mesmos, das leituras feitas dentro dos seus quartos ou bibliotecas. Lendo: um aumentava o próprio fluxo de intensidade das experiências do mundo e o outro só escrevia porque estava lendo ao escrever. Apenas para dar dois exemplos sem nomeação. Porque aqui não é necessário usarmos das referências, estamos desde já no parêntesis e não nas notas de rodapé. As referências, nesse nosso caso, são elas nós mesmos, em nossas memórias sujas. Há também os outros, os outros que se viajam por serem angustiados demais para só lerem. Aqueles que basicamente leem caminhando e a todo momento levantam a cabeça, para fora da leitura, a fim de se constituírem em objetivo comparativo e analítico entre onde estão no momento que leem sobre o que são ou para onde vão no mundo que estão fora da leitura. Esses são os nossos colegas geradores de angústias, os aventureiros neuróticos, desejosos por mudança e inquietos o bastante para o silêncio. A produção desses é que gera o silêncio. O silêncio deles é o grito. O pensamento desses, muitas vezes, é tão complexo como a perdida que se faz numa deriva donde nunca estivemos. É perigoso e intrigante. Há muitos modos de viajar. Diversas maneiras de estar viajando em si mesmo em relação contínua ao outro. Sem “eu” não há “você” e sem “você” não há outro que não seja eu mesmo sendo você. Talvez uma anedota. Um parêntesis simples e um sinal gráfico criado especificamente para a realidade do que se vive enquanto viaja ou enquanto lê-se viajando.

Alteridade Transitória Série de 4 vídeos-ensaio que problematizam o portunhol – ou a diferença e semelhança entre espanhol e português. Os vídeos foram montados e editados a partir de pequenos filmes realizados com uma câmera de celular durante a vivência em residência no México. Os ensaios surgem do ensejo comparativo de alteridade linguística e cultural entre Brasil e México, assim como subjetivamente comentam, de modo metafórico, a convivência coletiva do grupo residente.

BOXE

PLAY

vídeo-ensaio | 7 minutos 2015

vídeo-ensaio | 7 minutos 2016

CAMINHO

SITUAÇÃO

vídeo-ensaio | 5 minutos 2015

vídeo-ensaio | 5 minutos 2016


lucas parente

guatemala / méxico “Ouço uma voz que diz: as cores têm poder. Minha força é verde. Por isso ando tão obcecado pelo vermelho.

OBS IDI ANA é uma série de trabalhos com formatos e títulos diversos. São projeções de vídeo, filtros de luz e instalações com pedras e espelhos que envolvem o espectador na esfera noturna da obsidiana.

Vermelho/carmesim/vermelhão – exuberância/excesso/descontrole. Inutilidade. O verde e o vermelho dos tecidos das mulheres, da flor que brota na selva. Verde e vermelho, cores que, juntas, produzem uma vibração mística. Como na obra de um pintor romântico, orientalista, que da união dessas duas cores produz uma não-cor. Puro ruído. Desde nossa chegada, os dias estão envolvidos por um véu de névoa seca que lembra o vapor de fumigante. Observo o fenômeno a cada hora que passa, absorvendo todos os tons de cinza que cobrem o vale de Antigua. É como se a duração se cimentasse em uma argamassa de opacidade cinzenta – o contrário da transparência úmida de orvalho, da manta metafísica da Zona de Tarkovski. O contrário também do verde-e-cinza da Floresta do Rio. Não uma chuva clara – nem intensa, nem feita de recordações – mas um cinza de puro esquecimento: opacidade de cabeça oca, muro intransponível, concreto que arranca e atira contra os próprios ossos – contra os detalhes mais banais do cotidiano.

Caminho de Obsidiana : Chay Abah e Izepetl videoinstalação / díptico 2016

Videoinstalação com duas mesas (uma triangular e uma quadrada), duas projeções (de formato triangular e quadrado) e dois fones de ouvido. Sobre a mesa quadrada com tampão especular, estão dispostas uma série de obsidianas em estado bruto provenientes da Guatemala. Entre as pedras, dois corações de cera (ex-voto guatemalteco). Na parede, uma projeção de vídeo em formato quadrado onde vemos uma rua, de madrugada, na Cidade da Guatemala. Todos os semáforos piscam amarelo em ritmos diferentes.

O cinza da Guatemala, névoa estática que tudo endurece e de onde saltam os detalhes, parece emanar de quatro fontes distintas. O cinza da poluição (é o futuro) e o cinza da poeira (passado). Enquanto o sol diz verão (opacidade), a chuva diz inverno (transparência). É como se aqui a névoa poeirenta e tóxica fosse consubstancial ao sol do meio-dia. Cinza e luz universais, sol zenital do fim de abril, coração do céu unindo-se ao coração da terra. O ar e a água (o céu e o mar) são consubstanciais para os Maias. Nesse sentido, a origem do mundo está na cinzenta união do céu com o mar através da névoa. O cinza é a “embriaguez criadora”, como na grisaille de Bosch, a grisalha Criação do Mundo que contrasta com as cores do Jardim das Delícias. Estaríamos, por acaso, no verso do paraíso? Em baixo da água, a serpente, o futuro Quetzalcoatl – o verde é a cor do além, do centro, da árvore cósmica. Meio-dia, 29 de Abril. O sol zenital projetou seus raios tão verticalmente sobre Guate que todas as sombras da cidade desapareceram. Por um instante o mundo se rompeu em dois, como se tivesse recebido uma facada. O pôr-do-sol em Guate é monstruosamente belo. Bermellón. O centro da cidade quadriculado e orientado de leste a oeste permite que vejamos o sol despontar no final das ruas – infinitamente retas, como flechas. Sol vermelho brotando da fumaça dos camiões a diesel. À noite sinais amarelos parpadean em diversos ritmos. Hipnose da cidade que se torna amarela (toujours rougeâtre) à noite. Nuvens vermelhas em Fortaleza – banzo total. Deve ser dura a vida debaixo dessa cor, na noite vazia. Imagino detrás dessas luzes, amarelo piscando, no fundo da rua, no preto detrás do sol, um espelho de obsidiana. No final da rua.

Sol Jaguar videoinstalação 2016

Sobre uma mesa temos dois objetos redondos lado a lado. Trata-se de uma caixa de luz branca, redonda, com fragmentos transparentes de obsidiana verde, e de um espelho de obsidiana, redondo, negro e brilhante. Um projetor emite imagens de uma fogueira sobre o espelho negro, imagens que, refletidas pela superfície negra e lisa, aparecem transformadas, de cabeça para baixo na parede da sala de exposição.

Sobre a mesa triangular com tampão especular, estão dispostas uma série de obsidianas em estado bruto provenientes do México. Na parede, um vídeo em stop motion e de formato triangular, onde vemos percursos através de veredas repletas de obsidianas na Serra das Navalhas (Hidalgo – México). Entre os caminhos surgem buracos de minas seculares hoje desativadas. Acompanhando a instalação, dois fones de ouvido reproduzem em loop a composição da artista sonora mexicana Piaka Roela. Gravada em um apartamento no bairro de La Merced, na Cidade do México, Para las Piedras é o registro de uma meditação em guitarra feita diante de um montículo de obsidianas recém-chegadas da Serra das Navalhas durante a estação das chuvas.


luísa nóbrega / mercedes torres

guatemala / méxico

tanto y tan poco a la vez. opulencia y precariedad. viajes y literatura. he dejado mi espejo de obsidiana partido en la habitación del hotel ninive, y ahora estoy sola delante de esos trapos de realidad. rasuro un libro que habla de asombro y asesinato y ferocidad y escritura. 3 o 13 horas. 3 o 13 meses, no importa. canciones proféticas anuncian el eterno retorno, rostros se mezclan como cartas de baraja. no puedo mirar en la cara de las muertas de juarez, sólo puedo releer a roberto bolaño y recitar poemas de mara larrosa en el oído de un caballo sin horizonte. NO TEMAS DONDE VAYAS, HAS DE MORIR DONDE DEBES; la santa muerte hace tremer el mapa mundi en mis manos. hay cosas que uno no puede contar, que se te penetran bajo la piel, como veneno, como droga, como medicina: el perro muerto adentro del río muerto canta para hombres, mujeres y niños enterrados vivos bajo los árboles del destacamento. LOS CIEGOS MIRAN EL CAMINO CON LOS OJOS DE LOS PERROS, decías. cabezas de vaca desfiguradas cambian de color bajo las luces rojas de la ambulancia: no hay cameras ni flores ni grabadoras de sonido. EL ESPÍRITO NO ES UNA COSA LIMPA, EL CAMINO ESPIRITUAL NO ES UNA CALLE ASFALTADA, solo el cielo de comalapa me da fuerzas para contemplar las algas monstruosas del pacífico. EL PÁJARO ME ROBA LA SANGRE, EL LIBRO ABIERTO ME ROBA LA SANGRE, dije maria sabina; las onomatopeyas me llenan la boca, mientras los travestis arrancan perucas con sudor y lágrimas en la pista del diamonds club. AL OTRO LADO DE ESA VIDA SÓLO ESPERA

mercedes torres

EL ROCK’N’ROLL, silba leopoldo maría panero, mientras bolaño aún espera que mario santiago

Escarlata

le rapte de motocicleta y la lola de amalfitano sacude la cabeza como una botilla llena de agua al avistar el dorso de panero por detrás de las grades del hospicio. empiezan las decapitaciones de los narcos: hay que servir aguardiente a las máscaras, sacar el barro de los oídos de los íconos. poner el corazón, ese muslo estúpido, adentro de la bandeja de plástico de la estera del rayo x, para que no punce como un escorpión inofensivo al atraviesar los detectores de metales del aeropuerto. mi incomprensión es inmune a reflectores, una canción macabra que

vídeo | 20 minutos 2015

Uma figura de camisa branca e unhas pintadas de vermelho manipula uma série de objetos cortantes. Nunca vemos inteiramente seu rosto. Os movimentos deturpam a função inicial do objeto: oscilam entre o ataque e a defesa, a agressão e a sedução, a comunicação afoita e o nonsense.

transborda mis acuarios desorientados. NO TENGAS MIEDO, ESTAMOS TODOS ADENTRO DE UNA NUBE, dije madalena, mientras las pulgas trazan dibujos enigmáticos de una astrología desconocida. desisto de las narrativas todas. de todo lo que supuestamente conectaría un momento a otro a otro. no. nada. las cosas se suceden como alucinaciones. repito. las cosas se suceden como alucinaciones. herí mi ojo izquierdo en los cactos erectos que despuntaban de la ventana del autobús, y ahora no quiero curarme. cuantas veces he pensado en no volver. abandonar mi bagaje, dejarlo todo. DEJENLO TODO, NOVAMIENTE. un cráneo se enciende y apaga como una luciérnaga espantada. mercedes torres >> A versão em português do relato acima encontra-se ao final desta publicação.

luísa nóbrega e mercedes torres Crime para braille instalação 2016

Seis cadernos com linhas vermelhas traçadas uma a uma, seis facas repousam imóveis sob o vidro, seis notas agudas se engalfinham. Cada linha reta é uma linha torta afiada com lâmina.


maíra das neves

guatemala

oi pai, intensa aqui a guatemala…depois de 30 anos de guerra civil. acho que não está mais tão violenta como quando você veio, mas essas feridas demoram gerações pra sarar. estou com um portunhol bem avançado agora, isso é ótimo. estou lendo bastante em espanhol, procurando entender a história recente assim como as tradições mitológicas ancestrais. tivemos a sorte de sermos recebidos e ciceroneados por um artista indígena, que nos abriu portas inimagináveis. estou nos últimos dias aqui, momento de fechamento, mas que é na verdade um princípio. o projeto está só começando, é provável que guatemaltecos venham trabalhar com a gente no brasil, e que a gente volte pra terminar projetos aqui no ano que vem. o mais importante é manter diálogo e estabelecer parceria pra colaborações futuras. fortalecer e criar redes. retomada do pensamento ameríndio. aqui estamos no ano de 5131. foram os maias os primeiros a desenvolverem o conceito do número zero. fora a grande transformação no meu modo de comer molho de tomate e abacate. espero que esteja tudo bem por aí, logo mais nos falamos. beijos pra ti e todas elas, maíra

Biografia-guia como ponto cardeal cinco aquarelas e pastel seco sobre impressão em papel | 38 x 28 cm 2016

Desorientada, entre uma ocidentalidade bastarda, uma tropicalidade desbotada e um sul global difícil de engolir, a artista segue viagem pela Guatemala contando com guias especiais. Os abuelos lhe apontam direções com suas biografias. Aimberê, Anna Spieckermann, Emma Goldman, José Oiticica e Marietta Baderna foram referências para artista, no tempo e no espaço, durante a residência Lastro. Emma Goldman e José Oiticica foram influentes anarquistas e presos políticos, Emma nos EUA e José no Brasil, Anna Spieckermann foi a última mulher julgada, condenada e executada por bruxaria no oeste da Alemanha, Aimberê liderou os guerreiros Tamoios e morreu na batalha pela liberdade contra os portugueses no Rio, Marietta Baderna foi uma bailarina italiana radicada no Rio imperial que chocou a sociedade ao incorporar danças africanas no palco. O protesto de seus fãs contra o seu banimento deu origem ao termo “baderna” em nosso vocabulário.

Na primeira série aquarela e grafite sobre impressão em papel | 30 x 23 cm 2016

A artista revê uma aula de seu primeiro ano escolar. Reproduzindo a ação de apagamento em certas áreas da imagem e do texto, a artista revela a própria intenção de apagamento das comunidades indígenas embutida na aula. Todos os verbos estão no pretérito imperfeito.


maria catarina duncan

guatemala

O que estamos realmente fazendo ao tentar colocar em palavras uma experiência? Dimensionar, ponderar, agregar valor, considerar? Talvez seja um exercício de revelar percepção – considerando que a palavra ‘re velar’, além do sentido de esclarecimento tem na sua essência o ato de velar novamente, de acrescentar mais uma camada, um véu àquilo que já estava escondido. Como se, ao cobrir as coisas de palavras ou sentidos, compreendêssemos mais sobre elas e, ao mesmo tempo, nos distanciássemos mais de sua realidade. Continuamos gerando camadas, velando sentidos e acreditando que estamos nos definindo. Tudo é vida, uma coisa só, um só sentido. Com distância ou com proximidade as coisas se modificam, se complexificam e se apresentam novamente, muitas vezes. Completo rompimento com a realidade. Durante o período de residência na Guatemala perguntei para muitas pessoas sobre mitos tradicionais, folclóricos e religiosos. Na beira de um lago, uma tarde azul, disseram que naquele pueblo havia uma entidade que poucas pessoas conheciam. Um espírito que existia fisicamente e há muitas gerações estava embalado em um tecido de algodão: não tinha rosto, nem imagem, nem corpo, eram espírito e massa. Um corpo velado, que revelava sentido e adoração. Uma vez por ano, um grupo restrito cultuava esse Deus Maia tirando-o para dançar, cada um se envolvia e recebia as energias dessa potência através da dança. Não se menciona seu nome em vão, poucos sabem aonde o rito acontece e não se prolifera nenhum tipo de linguagem que possa corromper a essência da entidade. Só assim se poderia manter a verdade desse ser. Ao tentar explicar determinada experiência, uma energia específica ou uma entidade sem nome, me sinto criando algo outro, que difere da experiência e do ser em si. Sem descrições, me mantenho fiel à realidade. Até onde, podemos realmente nos expressar? Qualquer forma de linguagem gera incerteza, um campo fértil e comum, aberto a todas as interpretações e desdobramentos. Na cultura kaqchiquel (indígena Guatemalteca) preza-se um respeito mútuo pelo

outro que nos cerca e nos auxilia - cada grão, cada cadeira, cada passo, cada palavra merece consideração e emana sentido. A minha busca inicial para o projeto Lastro partia do erro, da necessidade de errar, sair do centro, de vagar. No convívio diário desse outro lugar, dessas outras pessoas, me deparei com o valor do mito, com a multiplicidade das coisas, dos outros e de mim mesma. Desisti de buscar qualquer verdade, deixei meu caderno de lado, cansei de tirar fotos, revelei o sentido dessas coisas em mim - aceitando que tudo era real e agregador. A beleza latente da transformação, cada história contribuía para o imaginário coletivo refletindo diretamente nos atravessamentos dos meus sentidos. Sem razão, apenas sentidos. Sinto que fomos linhas orgânicas que se encontravam naquele espaço e tempo, errantes pela América Central. Fomos corpos vivos, pulsantes, sujeitos a um vírus de grupo, uma experiência membranosa. Já não sabia mais onde eu começava onde terminaria, o deslocamento se tornou abrigo. A Guatemala permitiu que o experimentarse fosse exercício de plenitude, que errar fosse compreendido como verbo. Aceitando os passos, permitindo a escuta de tempos, a troca de linguagens e as projeções de movimentos. Lá, numa tarde outra, o céu se partiu em dois, metade cor de rosa e metade azul, no dia em que a dualidade regia o céu no calendário Maia esse fenômeno surgiu. Confirmando para mim que somos sempre dois lados, múltiplas histórias, caminhos possíveis e todos os outros dentro de nós. Intransponível experiência, com palavras nos resta apenas a ficção. Sem palavras.


mariana guimarães Como transpor abismos entre um ser e outro? Esse abismo se situa em nossas vidas, em nossas falas. Eu vos falo e vós me escutais. Nenhuma comunicação entre nós poderá suprir nossas diferenças, somos você e eu seres descontínuos1. Esse abismo é profundo, não vejo como suprimi-lo. Acontece que podemos você e eu tecer redes, e sentir juntos a vertigem desse lugar, não-lugar. Esse abismo nos fascina e nos apavora. Abismo espaço que habito. Bordado que liberta e aprisiona. Traiçoeiro Todo tecido é texto, todo texto é tecido. Há um jogo perverso no espaço entre, no avesso e no direito. Experiência da brecha que nos aproxima e nos separa. Travessia. Experiência rara, desalinha. Feito linha, feita de si. Avesso bem feito é moral de mulher bem comportada. Não se pode deixar marcas. Bordado deixa marcas, deixa rastros. Transgressão. Bendito sois vós entre as mulheres. As rainhas também tecem. Pela Deusa Ixchel, sagrada profana mulher que garantiu o direito ao gozo, a vida e a morte, mas nos aprisionou com um tear na cintura. Bordai e orai, contra qualquer forma de libidinosidade. Vigiai e orai nosso tear de cintura. O fio sai da cintura. Fio da vida. É preciso iluminar o que há ao redor de nós mesmos. O outro. Todo movimento, cada ponto bordado no tear de cintura é um deslizamento na direção da morte. Toda morte é vida. Experiência da brecha. A mão continua conduzindo a agulha que dança. Pano não sangra. Corpo sangra. Desaparece. Outros tantos outros. 45 mil pessoas dadas como desaparecidas durante os 36 anos (1960-1996) de guerra civil que sofreu este país centro-americano. Descontinuidades. Sangue derramado em pontos bordados. Deus tenha piedade. Tenho piedade de seu destino que é morrer no meu destino. A vós suplico, nesse vale de lágrimas. A distância entre as linhas é espaço entre. No espaço entre se configura o abismo. Ponto bordado com esmero. Ponto bordado com horror. Falta de opção. Violência. O silencio do tear preso na cintura é interrompido pelo gesto que tira as tramas de sua passividade, mede forças e estranhamente abrem suas entranhas para a agulha. Fecha-se. Cala-se. Violência de ser mulher. Apenar por ser. Guatemala é o segundo país do mundo com maior índice de feminicídios. Bordado cúmplice. Bordado de merda. Há um abismo entre nós que só pode ser navegado com barquinhos de papel. Bordado é nome, bordar é ato. Bordadura é modo. Pura ilusão. Descontinuidade. Bordado finito e soberano carrega a humanidade dentro de si. Instrumento de luta. O projeto é a vida viva que pulsa. Estética ética da conectividade. Arear panela, lavar louça, rezar o terço, criar filhos com dignidade e dormir com a curadora. É preciso curar a dor. Cartografia intuitiva e afetiva. Instrumento de luta. Amor. 1 Bataille, George. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2014.

guatemala Desenhos bordados sobre algodão | 110 x 51 cm 2016

Desenhos da pequena Madalena Calel durante viagem dos artistas residentes a Comalapa, Guatemala, abril/maio 2015. Bordados com lã de seda provinda da Guatemala, em pano de linho.

Como transpor abismos? livro de artista | 12 x 31 cm 2016

50 páginas do livro “Como transpor abismos”, produzido artesanalmente com bordados, fotografias e papel. Publicação integrante da coleção de livros Lastro em Campo, resultado editorial da residência na Guatemala.


maya dikstein

méxico

Aqui o ar é denso, o chão é torto. Equilibra-se como a justiça numa carta de tarô. Finíssimas pontas de aguilhoadas sobre círculos prestes a moverem-se em qualquer instante. Aqui pisamos sobre fendas, onde chocam-se as pedras, fissuras profundas que nos levam ao centro, uma passagem secreta ao interior, ao magma, ao fogo uterino, àquilo que cria e destrói. Há indícios de tremores e erupções por todas as partes. Estar aqui é estar à beira. Uma contenção do incontrolável. Aqui caminho sobre buracos; os meus próprios. Todos eles parecem se abrir, de repente ficam grandes e excrementos começam a sair por todos os lados. A boca engole o ventre o ventre engole o cu. Dos encontros emerge o vômito, emerge a merda e pelos buracos vira-se às avessas. Um ser carne viva. Linhas de ar e terra atravessam em eixo vertical. Corpo que suspende-se ereto sobre terra movediça e caminha por escadas enviesadas num equilíbrio improvável. Do que se expele, nasce o sagrado. Sonhei com o desenho de um lamed logo que cheguei. Tatuei sobre meu antebraço, onde o cotovelo faz a curva. O ponto cego de uma torção. Lamed é o centro do alfabeto hebraico, é a única letra que rompe a linha de base em direção ao alto e quando cursiva tem o desenho do infinito pero incompleto. Achei estranho essa incompletude da linha... Mas também, o que seria um infinito completo ?

Hydra documentos e fotografia digital | dimensões variadas 2016

Série de documentos mexicanos falsificados. O trabalho investiga a abundância da ilegalidade e relações entre disfarce e identidade.

Aqui os deuses cagam ouro, prata, todas as pedras que nossos olhos veem brilhar. As montanhas crescem do inframundo em direção ao céu, ou poderia dizer ao contrário, nascem onde a cabeça não alcança e puxados pela força da terra cravam-se como rochas. No obscuro ventre, entre as imundícies dos deuses, a terra segue o trabalho de gestação. A morte paridora da vida.

Yolotl objetos e instalação sonora 2016

A palavra é fatal como um tombo. E eu caí profundo. Tive meu olho rasgado em plena praça pública com uma ponta negra de obsidiana - ou mesmo numa galeria com lojas que fazia um atalho para a encruzilhada. Ali estava uma mulher, parada, com os braços estendidos e um copo na mão. Me ofereceu uma bebida. Eu estava com sede, meus lábios rachados dos ventos secos de Sonora. Havia um espelho e ambas a mesma de mim. Fui descobrir depois que este líquido levava à morte e me fez ejacular de ilusões todas as sementes até desfalecer. Dizem que aqui vive um morcego filho de Tezcatlipoca. Ele nasceu do sêmen que escorreu sobre a pedra e durante à noite enquanto dorme Xochiquetzal, arranca um pedaço de seu ventre e retorna ao inframundo ainda com pedaços de carne cravados nos dentes. A água com a qual se limpa espirra sobre a pedra onde brotam flores fétidas. Xochiquetzal é a deusa das flores, do sexo e do prazer; cultuada pelas prostitutas. O milho se pega com a mão, a mesma que recolhe o dinheiro que cai no chão, as unhas negras cortam a manga a qual me delicio. Sinto arder meus lábios, vermelhos como sangue que escorre as longas escadas. Abro no meio e vejo um tom de rosa brilhante, textura de carne, uma vulva molhada que como avidamente. O caroço se transforma em semente quando a planto. A terra aqui é fértil.

Develaciónes ou estudios sobre finales série de performances 2016

Série de 3 ações no espaço expositivo onde a artista investiga os buracos do corpo. Uma arqueologia de torres subterrâneas, um templo de ameaças que persiste em existir aos olhos dos que não creem. O trabalho nasce de um ponto cego, uma tentativa de ver através da relação que os pré-hispânicos estabeleceram com o excremento. Daqui vagam terrenos atemporais, onde reside a excreção imunda e sagrada.

Durante o tempo no México, a artista comprou tudo o que lhe foi oferecido no metrô, sem qualquer tipo de critério. Tal iniciativa deu origem a um inventário subterrâneo, uma arqueologia atual dos objetos que transitam ilegalmente e fazem parte da vida das pessoas que habitam essa cidade, antiga Tenochtitlan, centro do império asteca. Aqui, vozes jorram num só sopro sem medo de perder o fôlego e gozam em esquinas, vagões e carros ambulantes. Debaixo dessa terra há um lago, que a irriga e expele. Uma boca, um ânus que abre e fecha a palavra.


olívia ardui

méxico

Com’ un sombrero en la mano Depois de apenas alguns dias na Cidade do México, observei uma cena que me deixou intrigada. Quando um motorista o deixou atravessar a rua, um transeunte ergueu e sacudiu levemente uma mão aberta, chegando à altura do seu busto, desenhando assim um ângulo com o seu braço dobrado. Imaginei que aquele gesto, que pra mim manifestava uma provocação explícita por parte de seu emissor, pudesse se seguir de berros e xingamentos. Talvez isso ainda pudesse suscitar uma briga? Para minha surpresa, tanto o pedestre quanto o motorista sorriram e continuaram seus caminhos, satisfeitos por tamanha cordialidade. Fui eu que fiquei insatisfeita. Aquela cena tinha virado um enigma para mim: o que era aquele balançar de mãos? A minha curiosidade só aumentou quando percebi que aquele gesto e o efeito apaziguador que este parecia gerar não era um fenômeno isolado. Ao contrário: era moeda comum quando um carro dava licença a um pedestre. Talvez isso sim que fosse mais raro... Presumi que pudesse ser uma forma bem local de expressar gratidão. * Alguns dias depois, seguindo as recomendações de nossos anfitriões mexicanos, fomos uma noite a um bar de salsa chamado Barba Azul. Diziam que o lugar era tradicional e que a música era incrível, enfim, que precisávamos ir. De fato, o combo entoava uma salsa mais empolgante que a outra no pequeno palco localizado no centro da parede de fundo do cabaret. Na pista que se encontrava diante dele, fomos progressivamente imersos em uma ambiência cinematográfica, povoado de personagens insólitos. Alguns casais ocupavam mesas periféricas. Charmosos senhores com bigodes pontudos, gel no cabelo e ternos coloridos, prontos para demonstrar toda a sua destreza na pista de dança. No andar de cima, em frente ao banheiro, um colorido altar dedicado à Virgem Maria contemplava na parede à sua frente uma verdadeira galeria de fotos das dançarinas de aluguel, mulheres exuberantes que eram contratadas pela casa de salsa para dançar com alguns homens solitários. A decoração também merecia uma atenção particular: as paredes eram pontuadas por figuras em relevo. Uma das silhuetas grotescas me chamou a atenção. Era uma representação amadora de uma mulher despida e cuja silhueta reforçava seus atributos. O que a tornava especial é que ela parecia esboçar o mesmo levantar de mão que havia visto na rua e que tanto me havia chamado a atenção. Apesar de imaginar que o ar vazio que se desprendia dessa figura era fruto do amadorismo de seu artista, o que acontecia com aquele movimento uma vez petrificado e emergindo neste contexto tão inesperado? Provavelmente esse gesto estivesse destinado aos muitos admiradores que frequentavam o cabaret, uma retribuição pelo olhar que a fizesse existir e ser desejada. Imaginei que talvez fosse uma dessas dançarinas cujas imagens povoavam o primeiro andar, uma espécie de corredor da fama que, apesar de se encontrar no caminho ao banheiro, estava sobre os auspícios da Virgem. * Já estava me acostumando a almoçar todos os dias em um mercado, com sua profusão de cores e cheiros. Naquele dia, a única possibilidade de comer no que havia se tornado meu restaurante favorito do bairro, era, literalmente, compartilhar a mesa com a TV. Ela estava ligada e transmitia um discurso que parecia ser de um político. Quando ele terminou a sua fala, e a plateia levantou-se para aplaudi-lo, o mesmo ergueu suas duas mãos abertas com as

palmas para cima, posicionando-as até a altura do busto. Essa postura, ao mesmo tempo que lembrava uma louvação humilde, também remetia à imagem de um pai de família, com os braços abertos. Apesar da expressividade própria deste porte, que falava por si, não deixou de me lembrar o gesto do transeunte e da escultura do Barba Azul. Mas afinal, qual poderia ser o ponto comum entre um passante, uma mulher esculpida nas parede de um bar e um político? * Um dia, em visita a um artista - sim, afinal o objeto da minha viagem era acompanhar o grupo de artistas e curadores convidados por Beatriz Lemos para a residência Lastro -, mencionei a minha obsessão por esse levantar de mãos e do qual tão pouco sabia. Ele me explicou que esse gesto de agradecimento era um resquício do movimento de tirar o chapéu, uma reverência, uma marca de respeito e admiração ao mesmo tempo que um reconhecimento de uma dívida. De fato, o chapéu, que protege a cabeça do sol, da chuva, do vento e, portanto, protege o pensamento, é, na cultura mexicana, mais que um simples acessório. É um verdadeiro amuleto pessoal. Definitivamente, no México, levantar uma ou duas mãos, com as palmas levemente voltadas para cima, não é um signo de desacordo e ameaça, como poderia ser no Brasil. É a expressão corporal de um agradecimento e um respeito sincero. Mas, esse respeito, como a origem do gesto indica, não parece se enquadrar em uma relação horizontal: ele se insere em uma polaridade desigual entre duas partes. Mesmo que hoje persista em sua forma simplificada, a postura provém de uma reverência, na qual a manipulação do chapéu se acompanhava de leve inclinação do torso e da cabeça. Da mesma maneira que o fantasma do chapéu sobrevive nesse simples gesto, ele também parece constituir um vestígio, apenas velado, de subordinação, mesmo que disfarçada de cordialidade. Afinal de contas, além de falar e comunicar, mesmo os mais simples gestos, nos contam muitas histórias. Histórias de costumes, histórias de relações, histórias de poder. São memórias formuladas pelo corpo, são histórias vivas que rompem com o passado ao mesmo tempo que não deixam de se prolongar no futuro.


pedro victor brandão

panamá

Sobre a residência A residência de pesquisa no Panamá através do Lastro tornou-se uma experiência multidimensional concentrada em quatro palavras-chave: economia, especulação, autoespionagem e desenvolvimento urbano, considerando a paisagem política do país algumas semanas antes da Cúpula das Américas, assim como a presença da multinacional brasileira Odebrecht na maioria das obras de infraestrutura urbana no país. Visualizando o histórico da instalação do neoliberalismo na América Latina, foi realizado um plano de visitas, práticas e capturas. Vídeos, imagens, escutas sociais não solicitadas, ações e textos formam o resultado da experiência que contrapõe a possibilidade de abundância com a descolonização do capital. Um exercício de futurologia num diálogo aberto com Beatriz Lemos. O título A Quinta Renda engloba a série de trabalhos que começaram a ser desenvolvidos durante a residência, aludindo ao processo de devolução do controle do Canal do Panamá, em 1999, aos panamenhos, entre outras coincidências.

Trecho de um dos relatos: As linhas a seguir trazem a experiência de uma das aulas, que se realiza como um ambiente fragmentado e sensível ao toque. Cada objeto da aula dispara uma visão. Um vaporizador Volcano mostra reservas de petróleo sendo injetadas de volta na terra. Depois da total desvalorização do líquido negro durante a década de 2010, cientistas encontraram essa solução temporária para que a crosta terrestre parasse de se vingar. Um telefone público movido a fichas aponta para uma visão de trabalho em que o capital não passa do índice de avaliação num sistema de reputação. Um ranking mundial passa a determinar quem recebe frações de meteoritos valiosos que são minerados por duas empresas estatais-globais responsáveis pela distribuição de uma renda universal. Os saldos são liberados via contrato inteligente na blockchain. Um pacote de uvas dolarizadas sem caroço emite um som: anuncia-se que a Exposição Mundial de 2025 acontecerá no Panamá, mesmo. O Canal HKND da Nicarágua terá se tornado a maior rota comercial do mundo. Em um acordo multilateral estabelecido durante uma das muitas conferências especulativas ocorridas no ano de 2020, em Dubai, fica estabelecido que o Canal do Panamá se transformará em uma imensa área de lazer, com um projeto de revitalização inédito a ser implementado pela Odebrecht Entretenimentos S.A. O Lago da Nicarágua, que uma vez foi a maior reserva de água da América Central, se tornou um imenso armazém de contêineres flutuantes que prescindem da força humana para navegar, evitando desastres sociais. Perto das uvas há duas cartas de um oráculo animal que parecem se mexer sozinhas.

A oferta não equivale à procura, da série A Quinta Renda filme-ensaio vídeo HD com som | 12’05’’ 2015

Neste filme-ensaio de 12 minutos frases sobre tecnologia administrativa se alternam com relatos escritos durante a residência, que incluem possíveis especulações sobre o futuro das condições de trabalho, tendo como suporte imagens capturadas na Cidade do Panamá.

Cynthia nos vê de perto, da série A Quinta Renda #1 a #1200 | c-print 9x12 cm (cada imagem) | 180x720cm (painel) 2015

Instalação fotográfica composta de 1200 imagens realizadas com uma câmera-armadilha (sensível ao movimento e ao calor) durante o processo da residência no Panamá. Paisagens, retratos e abstrações se misturam numa linha do tempo com marcações de data, hora e lua compondo uma visão geral dos percursos como um experimento de autoespionagem.


thais medeiros

méxico

1º Relato México: Rébus 7

As férias do esqueleto série de desenhos a nanquim e aquarelas sobre papel dimensões variadas 2015

Antes de começar a viagem para o México, chegou em minhas mãos o livro da socióloga Silvia Rivera Cusicanqui, Ch’ixinakax utxiwa - Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores (Utxiwa Ch’ixinakax - Uma reflexão sobre as práticas e discursos descolonizadores) . Nele, Silvia, que é socióloga, historiadora e ativista aimará, propõe, dentre outras potentes ideias, uma reforma cultural na América Latina a partir de práticas descolonizadoras. Essa reforma, ou desafio de autonomia de independência dos cânones europeus e norte-americanos, passa primordialmente pela língua, ou melhor, pelo bilinguismo: “El retormar el bilingüismo como una práctica descolonizadora permitirá crear un ‘nosotros’ de interlocutores/as y productores/as de conocimiento, que puede posteriormente dialogar, de igual a igual, con otros focos de pensamiento y corrientes en la academia de nuestra región y del mundo.”1 Ao chegar a Oaxaca, cidade onde todo o grupo de residência Lastro se encontrou no México, logo nos deparamos com a feliz coincidência de poder assistir a uma palestra da própria Silvia, em carne e osso, na livraria La Jicara (librespaciolajicara.com). Nesse dia, Silvia falou em espanhol e em aimará, dando início a um diálogo com o público que trouxe à tona diversas línguas e canções indígenas mexicanas, como o mixteco, mazateco, nahualt (foi lindo). Saímos de lá animados com a provocação de sermos “Objetos Étnicos Não Identificados” e de podermos (devermos) brincar com essa ideia.

REBUS / LASTRO OBJETO ÉTNICO NÃO IDENTIFICADO De Oaxaca seguimos para a Cidade do México, onde fomos muito bem recebidos pelo Zerjio, do espaço de residência R.A.T., passando a trabalhar em parceria com ele e o espaço. Foram dias bem felizes. A partir desse encontro, surgiu a oportunidade de imprimir uma primeira publicação Rébus, com a colaboração de todos os residentes, tal como era previsto. A Rébus 7 está disponível no site do Lastro: em português, portunhol e espanhol. Esse ‘ jornal imaginário dos nossos dias’ foi impresso na gráfica A Casa del Hijo del Ahuizote (A Casa do Filho do Ahuizote), no prédio original do periódico El Hijo del Ahuizote (18851903), na Cidade do México. El Hijo del Ahuizote foi um periódico fantástico, revolucionário e de oposição – e que por isso teve muitos dos seus integrantes presos em diversos atos repressivos – que apresentava-se já no primeiro número como um ‘semanário feroz, aunque de nobles instintos, político y sin subvención como su padre, y como su padre, matrero y calaverón’2 , e trazia em suas capas caricaturas geniais e satíricas de Daniel Cabrera, que assinava com codinome de El Fígaro. Diego Flores Magón, também escritor e bisneto dos Ahuizotes, está para inaugurar uma exposição sobre a história do periódico e seu acervo no próprio edifício original, agora restaurado, localizado em pleno Centro Histórico: A Casa del Hijo del Ahuizote. Essa ‘Casa’, tem como proposta ser um espaço ativo de imprensa crítica e liberdade de expressão, o que faz dessa Rébus uma das mais especiais. 1 Retomar o bilinguismo como uma prática descolonizadora irá permitir a criação de um “nós” parceiros/as e produtores de conhecimento, para que possamos mais adiante dialogar, de igual para igual, com outros centros e correntes de pensamento na Academia da nossa região e do mundo. 2 Periódico feroz, ainda que de nobres instintos, político e sem subsídios como seu pai, sagaz e perdidão.

Desenhos sobre papel inspirados no conto “As férias do esqueleto”, de Denise Levertov. Traduzido por Thais Medeiros e publicado na revista Rébus 7 (México, 2015).

Situações de leitura instalação cartazes em serigrafia e pães servidos ao público 2016

Situações de leitura trata-se de uma instalação em forma de oferenda pública, são textos impressos em serigrafia e colocados sobre mesas, onde comidas são servidas. O trabalho já foi realizado em diversas ocasiões, principalmente, em espaços públicos, procurando dialogar ou revelar tensões destas localidades (feiras livres, festividades populares, rua, praça, eventos de arte). Aqui, o impresso Situações de leitura trabalha os altares de oferenda e festas do Dia de los muertos (Dia dos mortos) - celebração popular mexicana.

A saber, o ritual de Santa Muerte (Santa Morte) também representa o sincretismo mexicano entre a igreja católica e os rituais pré-colombianos. Para essa exposição, foram selecionados poemas do grupo infrarrealista mexicano, praticamente inéditos no Brasil - e alguns desses poemas foram traduzidos. A morte aparece nesses poemas, porém não se tratam de poemas sobre a morte. São poemas para serem lidos enquanto se come o pan (pão).

Rébus #7 Falo pero no silencio Leonardo Araujo Alguien lloraba, no muy lejos Van Holanda Scott Beatriz Lemos Antes de Tijuana Mercedes Torres As férias do esqueleto Leonora Carrington, tradução Thais Medeiros artes Leandra Plaza, Maya Dikstein, Lucas Parente, Olivia Ardui.


van holanda

méxico eje=piedra instalação 2016

O mapa de placas tectônicas da região onde atualmente se localiza o México é furado para indicar potenciais epicentros de sismos. À frente, em diálogo, um mapa político geográfico do México é soterrado por um quartzo bruto sob a mesa. E um tablet reproduz, em tempo real, a ordem dos abalos sísmicos que invadem o território mexicano.

a gravidade das coisas a policia governa essa ilha. fazem fronteira na praça com os transviados. escudos e peitos abertos. escondemos nossas armas de luta num saco preto. são corpos. temos gosto de sangue na boca, misturado ao mezcal. mordemos pescoços, rasgamos camisas, bebemos garrafas inteiras para engolir o exílio imposto na fronteira da eje central. para engolir o punhal que cravaram em nossas costas ao decidir que não poderíamos habitar os corpos que guardam nosso trânsito. bebemos para dizer não. muitas vezes num copo só. tragamos a fumaça do DF até esgotar o ar. exercitamos o medo supondo o que existe por trás da fresta de luz. um corredor expelindo os exilados pela janela. um coquetel de aranhas peludas no exoesqueleto. escutamos baratas comendo meias embaixo da cama. elas moram a mais tempo que nós na casa e cidade. a despensa guarda um banho frio que tomamos apressados. e uma coleção de objetos intocáveis, pesados para fazer de conta que se habita o cômodo. subimos escadas até as ruínas. tem um sofá que acompanha o desnorte em concreto e segura o prédio. acordamos no silêncio. com os ouvidos grudados na parede, ouvimos berros retroalimentando a empatia a todos os fantasmas que ficaram. a sensação de que somos os próximos. viveremos numa parede, embaixo de uma escultura, entre o vidro e a garrafa de barro, implorando para a noite chegar e nos enxergarem num delírio. aí existiremos fora da concha. balderas é uma ficção. secaram as ruas e seguimos os passos dos esqueletos impregnados na lama de cuauhtémoc. viramos areia movediça ao esperar o semáforo de 35s abrir e atravessar para o outro lado. era tempo suficiente para começar o processo de hibridação de corpos elementares, transpassar as poças espessas e, num túnel vertical, aterrissar no colo do vale de aztlan. existe um sentimento velado que escorre do céu aos corpos na chuva. um pressentimento de que tudo que habitava a cidade voltasse a forma líquida. e acordando com pedaços de tamales no chão, que gritavam por mais. porque todo mundo gritava então tinham que gritar para serem escutados. não tinha outra forma de avisar que a pimenta não queimava mais a boca. nem o sol queimava. depois do corredor de barro tinha um labirinto de animais de pedras. fitavam os forasteiros loucos para terem um pedaço do corpo-pedra que os homens de barro construíam em carrancas pra imitar a morte e o jaguar. enquanto escutava o jaguar, senti um tremor na terra. as pessoas se aproximavam do desfiladeiro, faziam sombra com as mãos nos olhos, arrastavam os filhos pelo braço, desciam correndo das ruínas. colocavam toda a comida na boca, respiravam e suspiravam ao mesmo tempo, caiam e se perdiam do bando, atiravam restos de frutas no chão e gritavam. o trem estava passando. as crianças arrastadas acenavam sentidas. elas se despediam ou encontravam situações que estavam no trem. talvez vissem alguém que nunca mais voltou. o barro sustentava até as despedidas. a pimenta encalacrada nas tripas fazia barreira pro nó na garganta. e eu só tinha borboletas no estômago.

cosmopuerto videoinstalação 2016

Imagem em loop do sol se desfragmentando através de um espelho de obsidiana. A videoinstalação propõe uma imersão sonora de um campo eletromagnético desconhecido, modificando o equilíbrio cósmico.


Lastro – Intercâmbios Livres em Arte é um projeto colaborativo, que se configura como rede internacional de cenas de arte na América Latina. Possui uma plataforma web (lastroarte.com) que é um banco de dados de artistas, pesquisadores, teóricos e espaços de arte latino-americanos. Lastro tem coordenação da curadora Beatriz Lemos, que desde 2005 tem promovido ações de desdobramento da rede, visando maior integração entre esses agentes, iniciativas e culturas. Para as comemorações de dez anos do projeto, foi realizada uma residência móvel pela América Central e México (fevereiro a julho de 2015), apresentada em exposição no Sesc Consolação, de maio a julho de 2016, e por meio de livros monográficos dos quinze residentes. Na mesma ocasião, será anunciada oficialmente a nova frente de pesquisa Lastro por países lusófonos. Ao longo de uma década, a rede Lastro passou por treze países da América Latina, além de Portugal, França e Marrocos, reunindo publicações de arte contemporânea. São livros e catálogos acerca da produção recente dessas localidades, devidamente catalogados e acessíveis a pesquisadores próximos ao projeto. A rede está à frente do selo editorial SISMOS e de um programa de residências móveis que ocorrem de forma espontânea. Lastro só existe como estratégia para o coletivo e tem a experiência como ferramenta de diálogo. É um projeto autônomo e livre em seus enlaces.


tradução em português dos relatos de:

mercedes torres

edgar calel

tanto e tão pouco de uma vez. opulência e precariedade. viagens e literatura. deixei meu espelho de obsidiana quebrar no quarto do hotel ninive, e agora estou só diante desses trapos de realidade. raspo um livro que fala de assombro e assassinato e ferocidade e escritura. 3 ou 13 horas. 3 ou 13 meses, não importa. canções proféticas anunciam o eterno retorno, rostos se misturam como cartas de baralho. não posso olhar nos olhos das mortas de juarez, posso apenas reler roberto bolaño e recitar poemas de mara larrosa no ouvido de um cavalo sem horizonte. NÃO IMPORTA ONDE VAIS, HÁS DE MORRER ONDE DEVES; a santa morte faz tremer o mapa mundi nas minhas mãos. há coisas que podemos contar, que penetram na tua pele, como veneno, como remédio, como droga: o cachorro morto dentro do rio morto canta para homens, mulheres e crianças enterradas vivas sob as árvores do destacamento militar. OS CEGOS OLHAM O CAMINHO COM OLHOS DE CACHORRO, diz. cabeças de vaca desfiguradas mudam de cor sob as luzes vermelhas da ambulância: não há câmeras nem flores nem gravadores de som. O ESPIRITO NÃO É UMA COISA LIMPA, O CAMINHO ESPIRITUAL NÃO É UMA ESTRADA ASFALTADA, só o céu de comalapa me dá forças para contemplar as algas monstruosas do pacífico. O PÁSSARO ME ROUBA O SANGUE, O LIVRO ABERTO ME ROUBA O SANGUE, disse maria sabina; as onomatopeias me enchem a boca, enquanto os travestis arrancam perucas com suor e lágrimas na pista do diamonds club. DO OUTRO LADO DESSA VIDA SÓ ESPERA O ROCK’N’ROLL, assobia leopoldo maría panero, enquanto bolaño continua esperando que mario santiago o rapte de motocicleta e a lola de amalfitano sacode a cabeça como uma garrafa cheia de água ao avistar o dorso de panero por trás das grades do hospício. começam as decapitações dos narcos: é preciso servir aguardente às máscaras, tirar barro dos ouvidos dos ícones. colocar o coração, esse músculo estúpido, dentro da bandeja de plástico da esteira do raio x, para que não pique como um escorpião inofensivo ao atravessar os detectores de metal do aeroporto. minha incompreensão é imune a refletores, uma canção macabra que transborda meus aquários desorientados. NÃO TENHA MEDO, ESTAMOS TODOS DENTRO DE UMA NUVEM, disse madalena, enquanto as pulgas traçam desenhos enigmáticos de uma astrologia desconhecida. desisto de todas as narrativas. de tudo o que supostamente conectaria um momento a outro a outro. não. nada. as coisas se sucedem como alucinações. repito. as coisas se sucedem como alucinações. feri meu olho esquerdo no cacto ereto que brotava da janela do ônibus, e agora não quero me curar. quantas vezes já pensei em não voltar. abandonar minha bagagem, deixar tudo para trás. DEIXEM TUDO PARA TRÁS, OUTRA VEZ. meu crânio acende e apaga como um vagalume espantado. >>

Kere` x on / Assim foi Kere` xb`anatej / Assim aconteceu Nomes, corpos, ideias, saberes. Documentos, livros, textos, chegaram em tempos diferentes à cidade da Guatemala durante o mês de Abril e Maio de 2015, de maneira orgânica, foi-se construindo uma constelação de energia e conhecimento durante as conversas e intercâmbio de ideias e processos dos diversos trabalhos que cada um dos artistas e das curadoras participantes da residência Lastro vem desenvolvendo através da experiência que existe entre a vida, o corpo, o espaço, o tempo, rituais, viagens, e idiomas... >> K`aslem, vida, Pedro, N`oj, conhecimento, Maíra, Koten, felicidade, Luísa, Tzij, palavras, Daniel, Juxuj, desenhos, Mariana, Tz`ib`anik, escritura, Maya, B`enan, viajar, Thais, Kem, tecido, Lucas, Xajoj, dança, Maria, Kaq`eq, vento, Catarina, Uxlanil, descanso, Danilo, Sipanik, presente, Edgar, Ti tz`iron, momento silencioso, Jonas, Tz`ikin, pássaro, Leonardo, Moloj, grupo, Victor, Etamab`el, ensinamento, Olivia, Kotz`ij, agradecimento, Van, Ijatz, sementes, Melanie, Ab`ej, pedra, Beatriz, Ch`ob`onik, consulta, Vida, Brandão, Alegria, Das Neves, Caminho, Nóbrega, Palavra, Albuquerque, Tecido, Guimarães, Descanso, Dikstein, Silêncio, Medeiros, Ritual, Parente, Desenho, Duncan, Viagem, Volpato, Escritura, Calel, Ar, Aisengart, Conhecimento, Araujo, Investigação, Ardui, Fogo, Holanda, Semente, Graille, Pedra, Lemos, Fogo… notas: palavras em negrito estão en Kaqchikel palavras em caixa alta estão em Português palavras em itálico são os nomes e sobrenomes de todas as pessoas que trabalharam na residência Lastro. >>

créditos de imagens pág. Daniel Albuquerque foto de Pedro Victor Brandão | pág. Danilo Volpato frames dos vídeos captados pelo artista | pág. Edgar Calel foto e frame de vídeo captados pelo artista | pág. Jonas Aisengart frames dos vídeos captados pelo artista | pág. Leonardo Araujo frames de vídeo captados pelo artista | pág. Lucas Parente foto e frame de vídeo captados pelo artista | pág. Luísa Nóbrega foto e frame de vídeo captados pela artista | pág. Maíra das Neves fotos da artista | pág. Maria Catarina Duncan foto da pesquisadora | pág. Mariana Guimarães fotos de Pedro Victor Brandão | pág. Maya Dikstein fotos e frame de vídeo captados pela artista | pág. Olivia Ardui foto da pesquisadora | pág. Pedro Victor Brandão fotos e frame do vídeo captados pelo artista | pág. Thais Medeiros fotos da artista | pág. Van Holanda foto e frames do vídeo captados pela artista | páginas de colagens arquivo documental e fotografias de viagem dos artistas e pesquisadores participantes da residência Lastro pelo Panamá, Guatemala e México.


o que te deixa desconfortável em um lugar completamente novo?

caderno do viajante

caderno do viajante

a expedição começa quando você sai da sua zona de conforto.


quais os outros jeitos de aprender algo?

você só aprende quando te ensinam?

caderno do viajante

caderno do viajante

“Navegar é preciso, viver não é preciso”


Sesc - Serviço Social do Comércio Administracão Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor do Departamento Regional Danilo Santos de Miranda Superintendentes Técnico Social Joel Naimayer Padula Comunicação Social Ivan Giannini Administração Luiz Deoclécio Massaro Galina Assessoria Técnica e de Planejamento Sérgio José Battistelli Gerentes Artes Visuais e Tecnologia Juliana Braga de Mattos Adjunta Nilva Luz Assistentes Juliana Okuda e Sandra Leibovici Estudos e Desenvolvimento Marta Colabone Adjunto Iã Paulo Ribeiro Artes Gráficas Hélcio Magalhães Adjunta Karina Musumeci Sesc Consolação Felipe Mancebo Adjunta Simone Avancini Sesc Consolação Programação Tiago de Souza [coordenação], Sabrina Popp Marin e Tatiana Zacariotti Comunicação Elaine de Sousa Administrativo Marco Antonio da Silva Alimentação Edna Ribeiro da Silva Fachetti Manutenção e Serviços Antonio Zacarias de Carvalho

lastro em campo Percursos ances tr ais e cotidianos Curadoria e concepção Beatriz Lemos Artistas Daniel Albuquerque, Danilo Volpato, Edgar Calel, Jonas Aisengart, Lucas Parente, Luísa Nóbrega, Maíra das Neves, Mariana Guimarães, Maya Dikstein, Pedro Victor Brandão, Thais Medeiros e Van Holanda Pesquisadores viajantes Leonardo Araujo, Maria Catarina Duncan e Olívia Ardui Projeto expográfico Frederico Teixeira e Penelope Casal de Rey Projeto gráfico Casa 202 - Fernanda Porto e Filipe Acácio Concepção educativa Marcela Tiboni Produção Melanina Cultural - Melanie Graille Produção executiva Luísa Estanislau Agradecimentos Lanchonete.org, Marina Lima Medeiros, Sabina Matz. PROJETO LASTRO lastroarte.com


lastro em campo Percursos ances tr ais e cotidianos

Visitação 11 de maio a 30 de julho / 2016 Segunda a sexta, 11h30 às 21h30 Sábados e feriados, 10h às 18h30 Agendamentos email@consolacao.sescsp.org.br

Sesc Consolação

Rua Dr. Vila Nova, 245 01222-020 São Paulo - SP TEL.: 11 3234 3000 /sescconsolacao

sescsp.org.br/consolacao

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