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ANAFENIX

d.f.

Ana Schlimovich


a.f. antes do farani d.f. depois do farani *

Fotografia & Design: Ana Schlimovich Feito em casa por Las Anas 萬 Rio de Janeiro ANAFENIX. Edição número única. Maio de 2012 anaschlimovich@gmail.com

* Farani Cinco Três é uma oficina de poesia e performance ministrada por Chacal na Biblioteca Pública de Botafogo.


Dedicado a todos os que ajudaram a abrir os caminhos da minha expressĂŁo, meus pais Chacal o grupo Farani Cinco TrĂŞs e o Rio de Janeiro


Anitcha, Acendi sete velas para ler seus versos de dor-e-amor. A lua já não tem aquela led cósmica comprada no Saara e deu um apagão programático no meu prédio, cujo síndico mandou circular: “vai faltar luz”. Qual o quê! Luz é o que não falta nesses poemas que hora apresentas como aprendiz de alquimista, mista de devota e feiticeira, toda faceira na sua moto. No seu caso, as palavras têm sotaques, pois já nascem carimbadas: aqui habita uma poeta; ora kodak, ora com o toque da metamorfose das borboletas.

Luis Turiba 10.05.12 Rio


Poemas Kodak


Futuro incerto cachos pretos olhos claros e jeito para se soltar das mãos adultas lacinhos de mariposa boca carnuda vestido branco com flores estampadas quase não tem nariz ela sabe como é bonita se balança na areia macia com um copo plástico na mão cheio de coca-cola light em que ela irá se transformar?

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Fotofalada vestido verde de tafetá cabelo grisalho, olhar perdido flores vermelhas numa sacola de supermercado sentada na beira da calçada espera sozinha no dia de São Sebastião

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Vôo ¿foi você que me beijou a testa enquanto eu tirava uma siesta na poltrona do avião?

palavras inventadas sem querer no Dia Nacional do Beijo.

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Altinha sobem bolas nas rodas na beira do mar os corpos dos garotos bronzeados salgados ensolarados fazem piruetas radicais algumas meninas corajosas embelezam as rodas ninguĂŠm abandona o jogo enquanto a bola esta no ar ele acaba junto com a luz ou na chegada da guarda municipal

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O que é, o que é enfeites no teto da rua montanhas de roupas íntimas flores plásticas lanternas de leds várias Casas Pedro uma charutaria rádio própria o resto é chinês

o Saara

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Saudade acho que só vou embora do Rio pelo tesão que me dá voltar.

Saudade II aquela foto tremida dos trilhos dos Arcos não há mais.

foto ach

ada na n

et

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Sagacidade

essa gíria de malandro aprendi com você e o molho da pizza napolitana e os truques na cama eu guardo e ainda faço upgrade me disseram que você era um gaiato mas não acreditei para mim é um gato pardo, azeitona, sem aroma que não da carona porque anda a pé

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A autora, curtindo a praia uruguaia de topless


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Poemas Tango

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A ordem das coisas

numa hora a gente se joga se agarra se amarra se enrola se olha se gosta se pega se engole se mexe se reflete se entrosa se provoca se desafia se asfixia se desencanta se descontenta se enjoa

se magoa

se joga fora

e vai embora 11


Faz tudo

fui outra fui eu mesma fui puta fui princesa usei salto alto inventei sobremesa fiz macumba cumpri promessas viajei para longe mudei de idéia alisei o cabelo escrevi poemas tentei teatro capoeira malabares com fogo medicina chinesa sai de festa provei outras bocas comecei terapia fiquei mais louca fumei maconha consultei o tarô corri na praia comprei um maiô só uma coisa me faltou fazer aceitar por fim que você não: quê? 12


Exorcismo vaza capeta! chega desses toques macabros que me quebram as pernas os dois braços, juntos e me deitam tire de mim esses lábios carnudos que absorvem meu êxtase lambem meus órgãos chupam minha alma pára demônio! desgruda do meu corpo esse prazer mascarado está me matando aos poucos se não fosse o sofrimento que me espanca quando fico em pé me deixaria devorar nesse ritual inesgotável que se intensifica por culpa desse pacto de adiar o gozo até transcender

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me erra, senhor das trevas! os delírios horizontais eu vou pagar com a vida você se transformou em minha heroína que me salve esse poema que essas letras digitadas conjurem para que seus talentos de galante não mais me alcancem vaza capeta! o elixir do meu ser você já tem que mais você quer?

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Completamente endrummoniada ando endrummoniada ando esquecida das coisas ando inventada ando vaga olho tudo na distância nada me toca nada me alcança tu já não faz parte eu que parto tu já és pretérito eu nada sinto ando desacordada ando levemente encorajada ando de novo completamente endrummoniada

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Meio Meia sempre fui meio partida dividida meu pai russo minha mãe da Turquia meu país católico minha família judia nasci em Buenos Aires cresci em Paraná roupas, carros, lancha e pais juntos até o bat mitzvá divorcio era vanguarda nessa pequena cidade ficar pobre então só Deus sabe quando era para fazer faculdade eu fui viajar quando era para casar eu fui viajar quando era para encher as arcas de grana escolhi o Rio para morar quanto mais longe mais em casa quem é exilada é a minha alma (e são as palavras sendo escritas que me acalmam) engraçado que até esse ato inato de precisar me expressar eu faço numa língua que aprendi há quatro anos atrás.

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A antipoeta há dias em que a arte do poeta me parece uma punheta realiza o desejo com a ponta da caneta em vez de escrever giraria a maçaneta correria até sua boca e ficaria quieta jamais me visita a tal da inspiração meu caso é simples a poesia vem quando você não

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Criar Salva era uma eternidade de tristeza os olhos lá no fundo do rosto o peito dominado pela angústia a pele murcha na terra da alegria me afundava tudo indicava mudança e eu firmemente estancada no vício da dor perdia luz, perdia vida sentia os fios pelos que ia me esvaziando me aferrava deles desfrutava até

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um dia procurei a poesia foi ela que me salvou mais escrevia mais me recuperava o inferno virou alimento que a poesia mordiscava e expelia em forma de verso poemas de l贸tus nasceram das entranhas a rainha dos alquimistas virou minha aliada, minha amiga, e eu com ela estarei infinitamente protegida

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Ventosas tiraram com ventosas o veneno do seu amor as costas ficaram roxas no lado do coração.

www.todaslasanasenuna.blogspot.com

ANAFENIX  

Esse é o meu primeiro livro de poesia em português. Esse é o meu primeiro livro de poesia. Esse é o meu primeiro livro.

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