Page 1

DIÁRIO capital

PORTO VELHO-RO . 21 E 22 DE MAIO DE 2011

B.3 .3

EDUCAÇÃO. Livro que trata de uma variante da Língua Portuguesa provoca polêmica por mostrar uma forma de falar diferente da norma culta

Livro escancara preconceito linguístico Desde a semana passada, um livro distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para mais de quatro mil escolas do País causa polêmica por apresentar em suas páginas a diferença entre o discurso oral e o escrito. Um capítulo do livro “Por uma Vida Melhor” afirma que, na variedade linguística popular, pode-se dizer “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O fato gerou uma série de debates acerca do assunto e reacendeu a perspectiva do uso da norma culta, tão discutida e difundida nos embates entre linguística e gramática normativa. A professora Nair Gurgel, que pertence ao quadro de docentes da Universidade Federal de Rondônia (Unir) há 20 anos, acredita que o debate gira em torno da aceitação ou não aceitação dos pressupostos linguísticos, resultados de estudos científicos que visam descrever e explicar a linguagem verbal humana. Nair desenvolve, atualmente, uma pesquisa de pósdoutoramento com o tema

“Pluralidade cultural, leitura linguagem já está contemplae linguagem na formação de da nos livros didáticos há mais docentes”, na Faculdade de de 15 anos, “ou ninguém viu Educação da Unicamp, em as tiras de Maurício de SouSão Paulo e se mostrou assus- za sobre o personagem Chico tada com a forma agressiva Bento? E os poemas de Patacom a qual muitas pessoas se tiva do Assaré? E as letras das posicionaram em blogs e re- músicas de Adoniram Barbodes sociais, de modo geral, a sa? E as piadas sobre caipira, respeito do livro adotado pelo mineiro, nordestino, gaúcho?”, pergunta. Segundo a professoMEC. Para ela, é difícil dar uma ra, todos esses exemplos são opinião concreta porque não “representações” das variantes leu o livro inteiro, apenas a da língua. O que muda é que, meia página que foi divulgada com o livro do MEC, essa vapela mídia, mas, pelo que viu, riação apareceu como “real”. o livro convida os estudantes “Esse falante existe mesmo e a debaterem a diversidade e a isso incomoda”, opina. respeitarem o contexto do falante. A professora deixa A VARIAÇÃO claro que essa não é DA LINGUAGEM uma discussão nova. JÁ ESTÁ O Ministério da Educação apresenta, em CONTEMPLADA seus Parâmetros Cur- NOS LIVROS riculares Nacionais DIDÁTICOS (PCNs), documentos que orientam escolas, HÁ MAIS DE professores e editoras, 15 ANOS, “OU e que, desde 1997, NINGUÉM VIU incluem o tema da diversidade linguística, AS TIRAS DE orientando as escolas MAURÍCIO DE para que não conser- SOUZA SOBRE tem a fala do aluno. A O PERSONAGEM professora ainda afirma que a variação da CHICO BENTO?”

AFINAL, O QUE É LINGUÍSTICA?

PÁGINA DA DISCÓRDIA. Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado. livro (masculino, singular) à

os (masculino, plural) ilustrado (masculino, singular) interessante (masculino, singular) emprestado (masculino, singular)

Você acha que o autor dessa frase se refere a um livro ou a mais de um livro? Vejamos: O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Reescrevendo a frase no padrão da norma culta, teremos: Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados. Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.” Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião. Existe outro tipo de concordância: O menino pegou o peixe. Os meninos pegaram o peixe. a que envolve o verbo. Observe seu menino à singular meninos à plural pegouà singular pegaramà plural funcionamento: O menino pegou o peixe.

Eu peguei o peixe.

menino à 3.ª pessoa eu à 1.ª pessoa Na norma culta, o verbo concorda, pegouà 3.ª pessoa peguei à 1.ª pessoa ao mesmo tempo, em número (singular/plural) e em pessoa (1.ª/2.ª/3.ª) com o ser envolvido na ação que ele indica. Capítulo 1 Escrever é diferente de falar

15

PAPEL DA ESCOLA É ENSINAR A professora Nair Gurgel explica que a gramática não é uma ciência, é uma norma, ou seja, um conjunto de regras que disciplinam, assim como as normas de trânsito, de etiqueta. Para a professora, não se trata de jogá-la fora, mas de dar a ela (gramática) o devido tratamento. “Não são elas (as gramáticas) que garantem o bom desempenho na leitura e na escrita, esses, sim, os verdadeiros objetivos do ensino de Língua Portuguesa”, diz, defendendo que uma das maneiras eficazes de se ensinar o aprendizado da escrita coerente, dentro das normas gramaticais, seria o incentivo à leitura e à escrita. Segundo a professora, não há o que questionar sobre a postura da escola diante do impasse: “o papel da escola é ensinar a língua padrão. Sempre foi”. Mas a professora ratifica que não vê problemas em um livro didático dialogar com os alunos, mostrando a eles que existem diferentes formas de falar uma língua e que “não mostrar isso seria

como querer tapar o sol com a peneira”. A linguística tem o papel de mostrar ao professor como a língua funciona e porque esses fenômenos ocorrem e essa se torna uma das dificuldades na formação dos professores nos cursos de Letras: mostrar que se deve ensinar a língua padrão, mas sem discriminar quem não fala de acordo com ela. “A gente nem trabalha com a noção de certo e errado”. Dentro dessa temática, a professora ainda destaca os pressupostos de Paulo Freire, no livro “Pedagogia da Autonomia”, no qual traça alguns conceitos básicos sobre educação: respeito aos saberes do educando, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Nair finaliza afirmando que essa não é uma guerra; é, sim, uma constatação científica de fenômenos naturais da linguagem que devem ser socializados, “afinal, é esse o papel do cientista: observar, registrar, descrever, socializar as informações”.

A linguística surgiu em 1916, com o suíço Ferdinand Saussure, que passou a estudar a linguagem cientificamente, com objeto e métodos próprios, sistematizando os estudos, o que se tornou o divisor de águas no ramo. Antes de ser estudada como ciência, a linguagem era apenas uma especulação, tornando-se uma curiosidade de todas as áreas, principalmente na filosofia e na religião. De acordo com a professora Nair Gurgel, desde então, essa ciência veio se desenvolvendo, novos linguistas surgiram, inclusive refutando muito do que Saussure havia teorizado. E segunda a professora, “é assim mesmo que deve ser: sem dogma”. A professora explica que, dentro da linguística, existe um ramo chamado de Sociolinguística, que estuda a relação língua, sociedade e falante; é ela que nos explica de onde surge o preconceito, que não é visto como crime, mas que gera discriminação tanto quanto o racismo, por exemplo. “Quando a pessoa tem um sotaque diferenciado da região onde mora, um sotaque interiorano, ela sofre preconceito”. Em uma ocasião, a professora foi convidada a dar uma palestra sobre o assunto a pais de alunos de uma escola particular de Porto Velho. Os pais haviam pedido à direção do colégio para retirar uma professora de sala de aula porque ela possuía sotaque do Piauí. Por conta dessa falta de conhecimento da maioria da população, a professora diz que os linguistas são taxados como pessoas que “falam errado”. Nair explica que é uma inverdade. “Nenhum linguista fala errado, nem escreve errado, nem preza para fazerem isso nas escolas. As pessoas entendem dessa forma porque leem meia página do livro e se aventuram a dar uma opinião”, explica Nair, referindo-se ao livro distribuído pelo MEC.

PRECONCEITO CAMUFLADO Marcos Bagno é mestre em linguística e autor de livros sobre o tema. Polêmico pelo radicalismo na defesa da área, Bagno escreveu muitos livros a respeito do tema. No clássico “Português ou Brasileiro”, ele fala sobre a dificuldade dos professores de ensinar a língua em pleno século XXI, afirmando que a gramática tradicional, depois de 2,3 mil anos de soberania, é uma pá-

gina virada da história e que, apesar de ter sido uma importante contribuição, é preciso ir além dela, avançar, criar um conhecimento novo. Na novela sociolinguística “A língua de Eulália” Bagno fala que a escola não reconhece que a norma padrão culta é apenas uma das muitas variedades possíveis no uso do português e rejeita, de forma intolerante, qualquer mani-

festação linguística diferente, tratando, muitas vezes, os alunos como “deficientes linguísticos”. Para Marcos, “aceitar a diversidade que possuímos é o primeiro passo para que esse ‘preconceito linguístico’ pare de existir”, preconceito este que, segundo o autor, é, na verdade, uma forma de camuflar outras formas de preconceito. REPRODUÇÃO

LARISSA LEZZARI jornal@diariodaamazonia.com.br @larissatezzari

Adoniran Barbosa, autor de Saudosa Maloca, utilizava linguagem coloquial

SAUDOSA MALOCA. (...) Mais, um dia Nem nóis nem pode se alembrá Veio os homi cas ferramentas O dono mandô derrubá Peguemo todas nossas coisas E fumos pro meio da rua

Aprecia a demolição (...) E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim E prá esquecê nóis cantemos assim: Saudosa maloca, maloca

querida, Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas Saudosa maloca,maloca querida, Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossas vidas.

Livro escancara preconceito linguístico  

Livro distribuído pelo MEC causa polêmica.

Advertisement