Issuu on Google+

DIÁRIO capital

Porto Velho-RO . 31 de dezembro de 2011, 1 e 2 de janeiro de 2012

B.3

entrevista. O pesquisador Luiz Carlos Molion gera polêmica ao defender que o homem não influencia no clima

Desmistificando o

O pesquisador Luiz Carlos Molion defende que o aquecimento global é natural e parte de um ciclo

aquecimento

global

LARISSA TEZZARI larissa@diariodaamazonia.com.br @larissatezzari

fotos: jota gomes

Luiz Carlos Molion, pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, PhD em Meteorologia, pós-doutor em Hidrologia de Florestas e membro da Organização Meteorológica Mundial, é conhecido como “o cientista que não se curva aos ambientalistas radicais”. Molion gerou polêmica por defender que o aquecimento global é natural e que o homem pouco influencia no clima. O pesquisador esteve em Porto Velho participando de um seminário sobre as pers-

Diário da Amazônia: toda começou com a primeira Como o senhor avalia as crise do petróleo, em 1973. O discussões acerca das petróleo deu um salto enorme, questões ambientais? passou de US$ 4 o barril para Luiz Carlos Molion: Do US$ 11 – recentemente chegou ponto de vista do aquecimento a US$ 150, mas ninguém reglobal, existiu um aquecimen- clama – mas naquela época foi to entre 1977 e 1998 e acabou. um problema sério. E aí surFoi um aquecimento natural e gem os especialistas. Um espefoi até 1998. Uma nova técnica cialista em petróleo dizia: “já estatística sugere que o aque- passamos o pico de extração, cimento tenha ido até 2004. 60% do petróleo que existe no Mas agora estamos entrando mundo já foi consumido”. Isso no resfriamento global que em 1973. Aí os países indusvai durar 20 anos. Até o ano trializados, Inglaterra, Alemade 2030, 2032, nós vamos ter nha, França, Estados Unidos, um resfriamento global e não ficaram preocupados com uma o aquecimento global. Ficou possível crise energética, falta muito claro ao longo desses es- de petróleo. Então eles passatudos que o gás carbônico não ram a utilizar essa hipótese de controla a temperatura global, que o gás carbônico aumentao gás carbônico é na verdade va a temperatura para evitar uma resposta. A temperatu- que os países subdesenvolvira sobe antes, principalmente dos quisessem se desenvolver dos oceanos, e o gás carbôni- e dividir o petróleo que restaco sobe depois, semelhante ao va no mundo. Acontece que, já que você vê no refrigerante, se sabia há muito tempo, você em que, quando o líquido está pode pegar livros publicados frio, ele retém o gás, na medi- na década de 1960 sobre clida em que ele se aquece, ele ma, que o clima passa de 25 expulsa o gás que tá em solu- a 30 anos se aquecendo e de ção. Isso acontece com os oce- 25 a 30 anos esfriando, e uma anos da Terra, que constituem variação pequena, menor que 71% da superfície do planeta. 1°C. No início dos anos 1970 Quando os oceanos se aque- nós já estávamos em um pecem, eles expulsam mais gás ríodo frio que começou em carbônico e a concentração 1946. A Europa passou por inde gás na atmosfera aumenta. vernos rigorosos nesse períoQuando os oceanos se esfriam, do, o Brasil também teve uma durante eras glaciais, aí eles frequência grande de geadas, retiram o gás carbônico da at- a ponto da última geada, em mosfera e a concentração da 1975, ter acabado com o culatmosfera diminui. Para você tivo de café no Paraná. O cater uma ideia, fluxos naturais feeiro precisa de quatro anos de carbono entre oceanos, ve- pra entrar em regime de progetação, solos e atmosfera, so- dução e a cada três anos tinha mam 200 bilhões de toneladas uma geada forte que matava o por ano. O homem, queiman- café e ele tinha que recomeçar do petróleo e carvão mineral, do zero. Então o pessoal saiu coloca seis bilhões de tonela- do Paraná e veio plantar café das, apenas 3%. E a incerteza em Rondônia. Em 1976 a temque nos temos dos fluxos na- peratura começou a subir, já turais é 20%. Essa é a incer- com a hipótese de que era o teza, o erro. Um dos maiores carbono liberado pelo homem bancos do mundo, o da Suíça, que fazia a temperatura sudivulgou o relatório em que bir. A hipótese ganhou força e ele mostra que a com uma adição: comunidade euroo fato do homem peia já gastou 280 viver na cidade. O bilhões de euros fenômeno do sécom medidas para XX foi o hotem se culo diminuir o aquemem sair do camgastado po e ir morar na cimento global. É muito dinheiro e Dinheiro cidade. Em uma um dinheiro muicom algo região com vegeto mal gasto, portação, floresta e que não tem com campo culque o aquecimento fundamento tivado, a água da global não passa de uma hipótese e científico chuva fica retida, essa hipótese não então o calor do nenhum sol é usado pritem comprovação científica, mas meiramente para todo mundo tem evaporar a água interesse econômie o restante para co por trás disso. resfriar o ar. Em uma cidade, impermeabilizada por asfalto, DA: Como começou telhados, concretos, a água essa teoria de que o pla- da chuva cai e vai embora e neta estaria aquecendo? não tem água para evaporar Molion: Essa história e todo o calor do sol é usado

para aquecer o ar. Então quem mora numa cidade, em geral, tá sentindo uma temperatura 4 graus mais elevada do que o indivíduo que tá na mata. A temperatura global começou a subir lentamente por conta desse ciclo natural, e ao mesmo tempo a sensação que o ser humano tem, vivendo na cidade, é de que a temperatura está mais elevada. DA: A temperatura mundial tem, em média, variado quanto? Molion: A temperatura ficou oscilando globalmente nesses últimos 150 anos em torno de 0,8 grau, mas localmente não, porque a medida que a cidade cresce o indivíduo sente mais calor do microclima urbano. Só que esse sinal não se propaga globalmente, porque a gente vive em um planeta de 71% de oceanos e apenas 29% de continentes. O oceano pacífico sozinho ocupa 31% da superfície do planeta. Todos os continentes juntos dão 29%. Desses, 15% são de gelo e areia. Sobram 14%, dos quais 7% ainda estão cobertos por florestas tropicais e temperadas. O homem manipula apenas 7% da superfície do planeta e aglomerado em grandes cidades. Então não tem como esse sinal pequeno mudar o clima global. Agora, o homem tem a capacidade enorme de destruir seu ambiente. Localmente o homem é desastroso. Quando o homem desmata, eu diria que o maior impacto ambiental do desmatamento não é o CO2 que é liberado - como afirma essa palhaçada da COP 17 - o maior impacto é quando você retira as florestas e expõe os solos à intensidade das chuvas tropicais. As chuvas desagregam os solos, as enxurradas carregam para os rios, esse solo muda a qualidade da água, da vida aquática, os rios ficam mais rasos e qualquer pico de cheia já inunda tudo. Então, lamentavelmente, tem se gastado muito dinheiro com algo que não tem absolutamente fundamento científico nenhum. DA: Se as mudanças são cíclicas, por que temos tantos ambientalistas divulgando o contrário? Molion: Ignorância. Nada é verdade. Por exemplo, de fato houve um derretimento nas geleiras, um derretimento no gelo flutuante do ártico, que atingiu o máximo em 2007, mas se eu olhar para trás, eu tenho registro de expedições que foram enviadas na década de 1920 para saber

por que estava degelando. E o que é que o homem lançava na atmosfera naquela época? Nada. No final da Segunda Guerra [Mundial], em 1945, estima-se que as emissões eram 6% do que é hoje. Então não era nada. Essas variações são cíclicas. Em longo prazo nós estamos caminhando para uma nova era glacial, mas vai se levar uns 100 mil anos para se chegar a temperaturas baixas, tipo 8 a 10 graus inferiores a de hoje. DA: Esse último ciclo de aquecimento começou de que forma? Molion: Em 1976, o oceano pacífico se aqueceu, porque a atmosfera é aquecida em contato com a superfície. E se um oceano grande como o pacífico mudou, se aqueceu rapidamente, então aos poucos ele foi aquecendo o clima. A temperatura média global subiu em função do aumento da temperatura do pacífico. Não sabemos o que aconteceu. Pode ter sido o grande terremoto do lado Oeste do Pacífico, próximo da Austrália, e lá, como o oceano é muito quente, pode ser que tenha provocado uma redistribuição de calor no Pacífico e ele se aqueceu. Mas é especulação. O que se sabe é que, a partir do momento em que ele ficou quente, ele começou a influenciar a atmosfera, mudando o tempo, diminuindo geadas, friagens, aumentando a temperatura, baixando a umidade relativa. DA: Existem problemas na forma como são medidas essas temperaturas? LM: Uma estação meteorológica representa apenas um raio de 150 metros. Então se você tirar ela e colocar a 5 quilômetros de distância ela passar a medir o micro-clima daquele novo local. Mas as pessoas não se preocupam com isso. As estações de medição geralmente são afastadas da cidade e continuam mandando o tempo como se fosse tudo igual. Na realidade, no momento que transportou para uma distância superior a 150 metros já está medindo um novo clima. Então as séries de temperatura têm muitos problemas além das manipulações. Se o pessoal quer provar que a década de 2000 foi a mais aquecida, eles colocam correções nos dados, para que esses dados correspondam ao que eles querem. Cientistas do mundo fazem isso porque tem muito dinheiro na jogada. Aqui no Brasil, entre os meus

pectivas climáticas e na ocasião recebeu a equipe do Diário para uma entrevista exclusiva. Na conversa, Molion contou que já esteve em Rondônia há 20 anos e que tem uma longa história em termo de Amazônia, que gerou sua tese de doutorado: “O desmatamento da Amazônia e os impactos no clima global e regional”. Com dados e relatos, o cientista põe em cheque o gasto mundial com pesquisas para combater o aquecimento da Terra e diz sem titubear que os ambientalistas divulgam informações erradas por ignorância. Para os próximos 20 anos, ele afirma que desastres graves voltarão a acontecer no Brasil e Rondônia sofrerá com problemas de abastecimento de água.

colegas, tem gente muito bem no Brasil inteiro. Onde eu vou, preparada, com doutorado no aproveito as oportunidades exterior, com excelente forma- para divulgar. As televisões ção acadêmica, mas resolvem não me dão abertura. A [TV] ficar do lado do aquecimento Globo não tem jeito. Mas agoporque fica fácil arrancar di- ra, nesses próximos 20 anos, nheiro, como fizeram agora, vai haver o resfriamento e a que receberam R$ 50 milhões natureza vai falar por mim. para colocar um novo supercomputador, caDA: Com as paz de fazer 258 mudanças que trilhões de contas acontecerão, por segundo. É qual a sua prea oitava máquinesses visão para o na do mundo. Se Brasil e região próximos Norte nesses eu chego para 20 anos, próximos um político, um 20 administrador e vai haver o anos? digo “olha, não se No Brasil resfriamento vai LM: preocupa, que o haver um aue a natureza mento de tornaclima é variado” ele me manda vai falar dos, mais tempesembora. Mas se por mim tades severas. Os eu faço um terrodesastres sempre rismo eu consigo. ocorreram, mas hoje a vulneraDA: Por que bilidade social é a sua teoria não é mais maior. O que já acontece há divulgada para que haja 50, 60 anos, hoje causa deum debate maior acerca sastres maiores. As cidades da existência ou não do precisam de seus espaços geaquecimento? ográficos repensados. As pesLM: Eu venho fazendo soas precisam ser retiradas de isso desde setembro de 1979. áreas de riscos porque os deMeu primeiro artigo escre- sastres vão voltar a acontecer. vi em 1990, depois em 1991 Nos próximos 20 anos a tenoutro. Mas até a metade dos dência é que volte a ter um anos 1990 aqui no Brasil nin- clima semelhante ao do final guém se preocupava com isso. da década de 1940 que durou Na década de 2000, o pessoal até 1975. Rondônia terá uma começou a perceber que era ligeira redução de chuva, na fácil conseguir recurso usando ordem de 5 a 15% durante o aquecimento global como o verão e isso vai reduzir a desculpa. Isso não só o pes- abertura de nuvens. No inversoal de tecnologia, como os no, a frequência de friagens ambientalistas de forma geral. vai aumentar de agosto a noMe lembro que na década de vembro, o período de seca, 1980 tudo o que acontecia no de abril a setembro, vai ficar mundo era culpa do El Niño. mais seco, com umidades reA partir de 1995 era tudo do lativas baixas, inferior a 20%, aquecimento global. Esse ano o que pode causar problemas eu já fiz mais de 70 palestras de abastecimento de água.

Molion afirma que a natureza confirmará sua tese


Entrevista com o pesquisador Luiz Carlos Molion