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DIÁRIO cultura

PORTO VELHO-RO . SEGUNDA-FEIRA, 16 DE MAIO DE 2011

C.3

ENTREVISTA. Laurentino Gomes, autor dos livros “1808” e “1822” fala sobre Brasil, Rondônia, cultura e sociedade

Reconstruindo a história do Brasil o livro “1822”, em que desconstrói uma série de dados e fatos sobre a independência do Brasil. Na manhã do último sábado, Laurentino recebeu a equipe do Diário da Amazônia para uma entrevista exclusiva.

daquelas boas coincidências da vida. Eu fui jornalista de redação de jornais e revistas durante mais de 30 anos. E jornalista e historiador têm muitas semelhanças. Jornalista é o historiador do dia-a-dia. Ou seja, a gente tá narrando os fatos, acontecimentos, enquanto eles acontecem diante dos nossos olhos. Nós somos testemunhas, mas sujeitos a erros de interpretação e de uma narrativa menos profunda. O historiador é um repórter do passado. Ele olha o passado com mais metodologia, com uma disciplina, com mais profundidade. Em 1997, a (revista) Veja queria fazer um especial sobre a história do Brasil que iria ser distribuído como brinde para os leitores. E eu fiquei encarregado de coordenar uma equipe que apuraria a história da corte de D. João VI no Brasil. O projeto foi cancelado e eu fiquei um pouco chateado no começo Diário: Percebeu mui- mas aí percebi que havia uma ta diferença? oportunidade de Laurentino: lançar um livro na Eu percebo que comemoração de tem uma mudan200 anos da cheça na paisagem. gada da corte, em Mas a impressão VIR A 2008. E foi o que que eu tenho é fiz. Fiz a pesRONDÔNIA É eu que Rondônia está quisa por minha UMA LIÇÃO DE conta e lancei o pagando o preço daquela migração HISTÓRIA DO livro em 2007. Eu feita há 25, 26 BRASIL leio muitos livros anos atrás, na forde história amerima de muito descanos, ingleses, e matamento, gran- LAURENTINO GOMES, às vezes eles usam des dificuldades ESCRITOR essa fórmula de de produção, logísbotar uma data tica, distribuição, na capa. Decidi fornecimento de usar dessa forma energia e a propriedade da mas com um subtítulo provoterra. Você olha há 200 anos cativo, para chamar a atenção e pensa no Brasil, colônia de do leitor. E essa fórmula proPortugal, construído de forma duziu um resultado que eu não muito improvisada na época esperava. O livro se tornou um da independência, o que leva- Best Seller. ria, supostamente, a imaginar que esse Brasil novo, criado de Diário: Porque os limeio século pra cá, seria mais vros de história idealiorganizado, mais estruturado. zam tanto os aconteciÉ uma característica que per- mentos? manece: a improvisação na Laurentino: Esse é um construção do futuro. aspecto que me fascina no esVir a Rondônia é uma li- tudo da história, porque ela ção de história do Brasil. É não é uma ciência exata. Você um jeito de você olhar, ob- não muda nenhum detalhe do servar que o Brasil tem um que foi realmente a biografia DNA, um código genético do Dom Pedro I, mas apesar que se perpetua. Suposta- disso, o passado continua mente, Rondônia deveria ser mudando, o tempo todo, pela mais organizada. Essa é uma forma como nós, das gerações característica brasileira. futuras, olhamos. Existe uma construção mitológica do pasDiário: De onde surgiu sado, que geralmente reflete a ideia de trabalhar com em necessidades atuais, podatas? líticas, ideológicas, ou seja, Laurentino: Essa foi uma existe uma construção de uma

desconstrução do passado. Não é por acaso que a frase favorita do (ex-presidente) Lula era “nunca antes na história deste País”. Era, de novo, um esforço de redesenhar o passado, para justificar bandeiras políticas do presente. Provavelmente eu também participei dessa construção mitológica, com os meus livros. Não tenho a menosrilusão de ter feito a versão definitiva, equilibrada e verdadeira. Eu sou parte da construção mitológica, mas é uma contribuição a mais. A história é manipulada o tempo todo, em livros didáticos, em discursos políticos, na construção de monumentos, de quadros, de iconografias, de bandeiras, de hinos nacionais. Existe uma construção idealizada para refletir uma coisa que, talvez, nós não sejamos, mas gostaríamos de ser.

O projeto Sempre Um Papo recebe hoje, às 19h30, no auditório da Faculdade São Lucas, em Porto Velho, Diário: Você conhece a história de Rondônia? Laurentino: Conheço bem. Uma vez eu vim fazer uma matéria sobre uma cidade flutuante de garimpeiros, em cima do rio Madeira. Foi uma das etapas mais importantes da minha vida profissional. Em 1985, fiquei às margens da BR-364, entre Vilhena e Ji-Paraná, cronometrando quantos caminhões de mudança passavam por hora. Era um caminhão a cada cinco minutos, principalmente de gaúchos, paranaenses e catarinenses. Fiz uma matéria para a (revista) Veja, onde visitei a cidade de Machadinho d’Oeste, que havia sido criada fazia 6 meses. Era a maior concentração de malária do mundo: 70% das pessoas estavam doentes. Também estive em Porto Velho há 3 anos, no Sempre Um Papo.

Laurentino: o jornalista é o historiador do dia-a-dia

Diário: A falta de interesse das pessoas ajudou para que a história se perdesse? Laurentino: Não é verdade que brasileiro não gosta de história. O brasileiro foi desestimulado a estudar história. Essa é uma história construída, primeiro, para não ser interessante. Parece matemática: você tem que decorar nomes, datas, acontecimentos. Se você estudar história, vai descobrir coisas que não interessam a quem está ensinando. Vai descobrir que esse é um país construído na base da escravidão, latifúndio, concentração de riqueza, analfabetismo e exploração. É essa a imagem do Brasil que vem à tona quando se estuda. E quando você vê essa realidade você pode querer fazer alguma coisa a respeito dela. Então, o conhecimento da história pode levar a uma atitude política no presente. Por isso esse estudo é enviesado, contaminado pela ideologia do presente. Diário: Se o brasileiro gosta de estudar história, porque justamente o seu livro, que traz uma vertente diferente, foi o livro de história do Brasil mais vendido no País? Laurentino: Isso reflete uma mudança, primeiro de linguagem. Eu uso uma linguagem não acadêmica, não é didática, é jornalística, acessível. Mas, principalmente, reflete uma mudança no Brasil como um todo, ou seja, nós vivemos hoje um tempo inédito na nossa história: são 26 anos de prática continuada da democracia. É a primeira vez que as pessoas estão sendo chamadas a participar, por um tempo tão longo, da construção das decisões nacionais. E você faz isso olhando para o passado. Se você não olha para o passado, não consegue entender que Brasil é esse, quais são nossas características, nossos defeitos. Se você não sabe como é o Brasil, como chegamos até aqui, como você vai construir o futuro? O sucesso dos livros mostra que a sociedade brasileira está usando a história como instrumento para a construção do futuro. Esse é o objetivo da história: iluminar o passado para entender o presente e habilitar as pessoas para construir o futuro. Diário: No “1822” você afirma que, na his-

Laurentino Gomes é autor de “1808” e “1822”

FOTOS: ELIÊNIO NASCIMENTO

o escritor Laurentino Gomes. Autor do best-seller “1808”, Laurentino se define como “um jornalista, olhando para a história do Brasil com os olhos de um jornalista”. Nesta noite ele recebe o público para lançar

LARISSA TEZZARI cultura@diariodaamazonia.com.br @larissatezzari

tória, os papéis de heróis e vilões se confundem, dependendo de quem avalia. Para você, quem foram os heróis e vilões do Brasil? Laurentino: Como tudo o que envolve o ser humano, não existem heróis nem vilões absolutos. Todos nós temos um lado sombra, um lado perigoso, que pode ser revelado em momentos críticos. Todos nós temos medos mas também muita coragem, heroísmo, dependendo das situações que a vida nos oferece. E isso acontece também com os personagens na história e é o que me encanta neles. Quando você joga luz em personagens de carne e osso, com defeitos, virtudes, coragem, medo, insegurança, angústia, essa história se torna mais assimilável pelas outras pessoas. Por isso é importante você olhar para o passado tentando fazer um esforço para decifrar o mito que esconde o personagem real. Diário: Você diz que o Brasil era um país que tinha tudo para dar errado. Então você acha que o Brasil é um país que deu certo? Laurentino: A resposta dessa pergunta depende da perspectiva de quem pergunta. No livro falamos do ponto de vista territorial. O Brasil tinha mais chance de se fragmentar em três ou quatro nações independentes ou de entrar e uma guerra civil. E por uma curiosa combinação de acaso, improvisação, sorte e alguma sabedoria, foi se viabilizando na forma como nós somos hoje, ou seja, um Brasil grande, de dimensões continentais, com 190 milhões de pessoas que se reconhecem como brasileiros. Se o Brasil tivesse se fragmentado, na época da independência, a nossa noção de identidade nacional seria diferente. É nessa perspectiva que falo do dar certo e dar errado. Se você pensar em outros indicadores, como educação, saúde, cultura, segurança, distribuição justa e equilibrada dos recursos do Estado, eficiência do Governo, ciência e tecnologia, o Brasil se torna um fracasso. O Brasil nunca teve um prêmio Nobel porque não pesquisa. O Brasil importa conhecimento e passa adiante, ao invés de gerar conhecimento próprio. É um país que desestimula o empreendedorismo, um país paternalista que acha que o Estado tem que dar benefícios para prover o bem

estar de todos, o que amarra a economia. O País não cresce, fica parado, enquanto os outros, como China e Índia, crescem a níveis admiráveis. Por essa perspectiva o Brasil é um país que ainda está por se provar, ainda estar por dar certo. Mas se olhar só pelo ponto de vista demográfico e territorial ele é um sucesso. Diário: Como fazer para criarmos uma cultura de leitores? Laurentino: Nesse caso entramos em uma dimensão mais profunda que é a cultura. O Brasil tem dois desafios

manter relações cidadãs e éticas com seus semelhantes, sem passar necessariamente pelas instituições do Estado, faz parte da cultura. E isso vai demorar mais que uma ou duas gerações para melhorar. É um desafio de longo prazo. Eu percebo que, às vezes, as pessoas cobram do Estado relações éticas que elas não cultivam nas suas relações individuais. A qualificação do Estado brasileiro depende de uma qualificação da sociedade como um todo. É até crueldade você delegar às escolas a solução dos problemas. A escola sozinha não consegue.

De acordo com o autor, o próximo livro será “1889” Diário: Qual será a hoje. Um é o da educação e é um desafio de curto prazo. data do próximo livro? Laurentino: O próxiO Brasil primeiro optou por um avanço quantitativo, au- mo será “1889”, para fechar uma trilomentando muito gia de datas do o número de esséculo XIX, que colas, faculdaexplicam a consdes particulares, trução do Estado estudantes maAS PESSOAS brasileiro. O litriculados, mas COBRAM vro vai contar o tem o segundo passo que é o DO ESTADO, final do segundo avanço qualitatiRELAÇÕES reinado, abolição da escravatura, vo, que ainda estar por ser dado. ÉTICAS QUE ELAS guerra do ParaO outro desafio, NÃO CULTIVAM guai, período da regência. Vou fade prazo mais lar da figura que longo, é o avanço na cultura. LAURENTINO GOMES, é Dom Pedro II ESCRITOR e vou focar no Fazer com que as 15 de novembro, pessoas incorpoabordando a rerem hábitos que não vêm das escolas e sim pública que nasce no Brasil, das famílias. Ler, não jogar mas também narrado em lixo na rua, não furar fila, uma linguagem jornalística respeitar o vizinho, ou seja, e simples.

Entrevista laurentino gomes  

O escritor Laurentino Gomes esteve em Porto Velho para participar do projeto Sempre um Papo. Na ocasião, Laurentino concedeu entrevista excl...

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