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DIÁRIO capital

PORTO VELHO-RO . SEGUNDA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2011

B.3

ENTREVISTA. José Januário Amaral diz que a greve da Unir nunca foi por melhorias salariais ou estruturais

REITOR GARANTE: NÃO TEM POSSIBILIDADE DE

“Problemas existem, mas são passíveis de serem resolvidos”, diz.

renúncia LARISSA TEZZARI jornal@diariodaamazonia.com.br @larizatezzari

FOTOS: JOTA GOMES

Na última sexta-feira, a greve da Universidade Federal de Rondônia (Unir) completou um mês. De acordo com professores e acadêmicos que aderiram à paralisação, a decisão foi tomada diante do atual cenário da instituição, que está refletido na deficiente estrutura física e

DIÁRIO: Como está o posicionamento da Reitoria em relação à greve? JANUÁRIO: O nosso posicionamento é o mesmo desde o início. Nós acreditamos que greve é um instrumento democrático que qualquer categoria, qualquer grupo social tem o direito de fazer. No entanto, a greve da Unir nunca foi por melhores condições de salário, nem da nossa universidade. Foi sempre um processo montado por um grupo, de iniciação de um movimento, que seria a retirada do reitor. A prova disso é que nenhum desses grupos aceitou negociar as melhorias ou as dificuldades que a universidade enfrenta, com relação a alguns aspectos de infra-estrutura, da parte acadêmica, da parte administrativa. Problemas nós temos, mas eles são passíveis de serem resolvidos. Não vai ser resolvido só com a administração da universidade, tem que ser o conjunto da academia, da comunidade acadêmica, para que a gente possa resolver e encontrar saídas para esses problemas que temos. DIÁRIO: Se os problemas existem, mas podem ser resolvidos, por que isso não aconteceu até agora? JANUÁRIO: A Unir tem 29 anos e o campus ainda não tem um sistema de esgoto. Desde 2008 nós estamos trabalhando com um projeto para fazer um sistema de esgotamento, tanto químico quanto de dejetos, no campus em Porto Velho. Primeiro temos que fazer projetos, conseguir recursos, levar para o MEC, para a parte técnica, para ser aprovado. São problemas de 29 anos que nós temos que ir resolvendo. Além disso, nós criamos também mais 18 cursos na universidade nos últimos quatro anos. Nós temos que atender à demanda desses cursos novos e àquela demanda reprimida que nós temos na universidade como um todo. E não dá para resolver em quatro anos, um ano. Tem coisas que eu não vou resolver. Quando eu assumi a Reitoria, só tinha biblioteca em Porto Velho e estávamos terminando em Vilhena. Hoje nós já temos em quase todos os campi. Só está faltando a de Guajará-Mirím e a de Ariquemes, que é o campus mais novo. Os problemas existem, nós não vamos negar, mas eles podem ser superados com muito trabalho, com afinco. Só a Reitoria não vai resolver

os problemas, tem que ser um conjunto.

estamos comprando para o curso de engenharia florestal em Rolim de Moura. Esse é DIÁRIO: Se a greve um projeto que foi feito pelo busca exclusivamente Departamento de Engenharia a sua saída da Reitoria, Florestal para comprar uma como o senhor alega qual área em frente ao campus. seria o motivo? Nosso campus em Rolim tem JANUÁRIO: Tem um gru- 11 hectares, dos quais quatro po que perdeu a eleição no são de áreas alagadas e não dá ano passado, tem um grupo para construir naquele espaquer se candidatar, tem um ço. Em frente ao campus tem grupo que quer fazer holofo- uma área que funcionava uma te político para se candidatar serraria, de 111 hectares, dos à eleição para prefeito. Tudo quais 55 são de mata nativa. isso gera um palco privilegia- Então o departamento fez um do. Você vê que a mídia dá projeto, aprovou no conselho espaço para que eles possam de campus, mandou para cá falar inverdades e mentiras o e nós encaminhamos para o tempo todo. MEC. Foram três professores da engenharia florestal apreDIÁRIO: A falta de es- sentar para a área técnica do trutura não coloca em xe- MEC. O MEC orientou a fazer que a qualidade dos pro- uma avaliação. O Basa fez fissionais que vão sair da porque a Caixa não queria fauniversidade? zer. Quando mandamos para JANUÁRIO: Não coloca o MEC, eles alegaram que porque temos laboratórios precisava ser da Caixa. Aí nós provisórios. Nós enviamos um já compramos ofício para o [ex] boa parte dos ministro Fernanequipamentos, do Haddad, que principalmente reenviou para PRIMEIRO o presidente da da engenharia elétrica. Vale NÓS TEMOS Caixa, para deressaltar que em que QUE FAZER terminar 2006, quando eles fizessem a PROJETOS, avaliação. A Caifoi criado o curso de engenhaCONSEGUIR xa nos entregou ria elétrica, não RECURSOS, uma avaliação de havia nem autoque a área vale LEVAR PARA O R$ 7,5 milhões. rização do MEC MEC PARA SER E é essa área que e nem previsão de contratação APROVADO. SÃO nós estamos em de professores processo de com29 ANOS QUE pra e que estão para criar o curso. Nós tivemos NÓS TEMOS QUE dizendo que eu que conseguir IR RESOLVENDO estou fraudanas soluções para do. Não dá para contratar profesacreditar nesse sor e já tiveram tipo de coisa. E dois concursos é assim com as em que as vagas não foram outras denúncias que eles copreenchidas. Então é uma locam, inventam, produzem demanda que tem e nós não documentos. Eu não tenho neconseguimos captar profissio- nhuma condenação. Hoje em nais para assumir essas áreas. dia o controle do governo está Então é um problema do rei- aprimorado. Eu só espero que tor? É, porque nós temos os eles provem algo irregular. alunos, mas é um problema Tem um relatório do CGU que não é só o reitor que vai das minhas contas de 2010. poder resolver. Nesse relatório a CGU aprova as contas com 39 ressalvas. DIÁRIO: Qual o seu Se você for ver as ressalvas posicionamento em rela- são de funcionários que vão ção às acusações de des- ter que devolver dinheiro, vio de verba e denúncias porque receberam do Plano de irregularidades? Collor indevidamente; uma JANUÁRIO: Essa tem professora que inventou que sido uma prática que na his- estava viajando para o Pará, tória da Unir, em alguns mo- Amapá, que é coordenadora mentos, tem dado certo. Nós do projeto Proinfantil, e que tivemos um reitor eleito e ele é do comando de greve, que não assumiu porque ele tinha vai ter que devolver R$ 84 72 denúncias de irregularida- mil porque recebeu indevidades. Depois de passados dois, mente, dizendo que tava lá três anos, ele foi inocentado e não tava, tava aqui; outra de todas. Com relação às mi- ressalva é que nossos imóveis nhas não é tão diferente. Uma estão subavaliados e eu não delas é de um terreno que nós tenho como pagar para ava-

liar. Então quer dizer, se você for analisar as ressalvas, não é o reitor que fez coisa errada, são alguns servidores, alguma coisa que está faltando, coisas absolutamente normais dentro da administração. DIÁRIO: Quais as medidas que estão sendo tomadas para que o dinheiro do Hospital Universitário não seja devolvido? JANUÁRIO: O dinheiro do Hospital Universitário tá complicado porque ele está empenhado pela Fundação Riomar, e a fundação está com problema de regularização fiscal. Então a nossa Procuradoria Federal está verificando a possibilidade de, por vias judiciais, garantir a utilização desse recurso pela Riomar. A gente ainda não tem uma decisão. E é só o que pode ser feito. DIÁRIO: Em algum momento o senhor cogitou sua renúncia ao cargo de reitor? JANUÁRIO: Eu nem discuto isso. Essa não é uma questão que está posta à mesa. Nós não vamos discutir essa questão. Falei isso pra eles em Brasília, assim como o secretario Luís Cláudio, do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que falou que não existe possibilidade do MEC intervir na universidade, porque nós gozamos de autonomia constitucional. E realmente a única forma de atender essa reivindicação desse grupo, seria a minha renúncia, coisa que não vou fazer. Eu acho que a minha trajetória dentro da universidade e o apoio que nós temos de uma maioria de professores não permitem nem que eu pense em uma situação dessa. Seria uma irresponsabilidade minha. DIÁRIO: Há alguns dias o senhor esteve em Brasília reunido com o MEC. Qual foi o intuito dessa reunião? Januário: Foi um pedido feito pelo deputado Mauro Nazif ao Sisu, para que houvesse uma reunião com o comando de greve e a Reitoria. Foram lá dois professores do comando de greve e dois alunos. A bancada de Rondônia estava presente. E lá, o comando de greve apresentou como pauta única a saída do reitor. Foi lamentável porque o MEC estava disposto, com todo o seu corpo técnico, em avançar nas discussões sobre as necessidades da Unir. Foi uma questão desnecessária. Logo o MEC

de recursos humanos. Dentro da pauta de reivindicações dos grevistas, a saída do reitor Januário Amaral, acusado de desvio de verbas públicas e descaso para com os problemas da academia, é vista como meta principal. Em entrevista ao Diário da Amazônia, Januário falou sobre a situação pela qual passa a universidade e garantiu que não existe possibilidade de renunciar ao cargo.

ratificou a decisão de não po- consequentes, influenciados der intervir na universidade, por um grupo de professores porque se fizesse estaria ferin- que também é inconsequente, do a autonomia das universi- e que não quer o avanço da dades, que foi uma luta árdua nossa universidade. Esse mesda sociedade brasileira. Eu mo grupo de professores não poderia renunciar, sim, mas queria que a gente aprovasse isso não está em cogitação ou o projeto Reuni, projeto que o nosso conselho universitá- possibilitou a contratação, rio, por uma maioria de dois nesses quatro anos, de 320 terços, poderia me afastar. O professores. É um pessoal que lugar para decidir não produz. Eles é dentro da Unir, não têm compronão é fora. Nós misso com pestemos que discuquisa, com extir, amadurecer e tensão dentro da A universidade. Eles encontrar saídas UNIVERSIDADE têm tempo para internamente. ESTÁ SITIADA, fazer algazarra DIÁRIO: e influenciar os ESTÁ alunos a fazerem Se a pauta de INVADIDA, esse tipo de coireivindicação pede sua saída ESTÃO sa. É dessa forma e o senhor não DEPREDANDO que eu vejo esse vai sair, como movimento e não essa situação O PATRIMÔNIO tem como a gente vai ser resolvi- HISTÓRICO DO endossar e queda? ESTADO rer atender uma JANUÁRIO: pauta completaApós a reunião mente absurda. [em Brasília] fiA universidade cou entendido que não vai está sitiada, está invadida. Esmais ser discutida essa pauta tão depredando o patrimônio única e o secretário vem (a histórico do Estado. Eles que reunião acontece hoje) para repensem esse movimento. sentar com dois representan- Eles estão na clandestinidade, tes discentes, dois docentes desrespeitando o direito dee a reitoria, e a pauta vai ser mocrático do nosso País, desa questão das melhorias da respeitando as leis e a ordem. Unir. Na verdade, os maiores Eu não vou me sentir responprejudicados com a greve são sável por essa atitude imatura os alunos. Esses alunos in- deles.

Januário diz que problemas podem ser superados


Entrevista Januário Amaral