Page 1

o tirano Florianópolis, 11 de junho de 2014

Edição 1 - Ano 1

O TIRANO

Curso de Jornalismo da UFSC Atividade da disciplina de Edição Professor: Ricardo Barreto Arte: Carlos Latuff Edição, textos, planejamento e editoração eletrônica: Larissa Gaspar Serviços editoriais: Carta Capital, Época, Notícias do Dia, Carta Maior Impressão: Rhei Cópias e Impressões Junho, 2014

Grande mídia apoiou o regime militar

E

Cães de guarda explora a autocensura e os limites da convivência entre governo autoritário e imprensa A autora ressalta que existiram jornalistas que resistiram ao regime, outros que se opuseram e ainda, os que colaboraram. Estes últimos foram os chamados “cães de guarda”, que prefiriram permanecer no palco das decisões, que buscar a publicação da verdade. Alguns jornalistas trocaram as redações pela burocracia e tornaram-se censores federais. Outros foram policiais enquanto exerciam o jornalismo nas redações, e dessa forma colaboraram com o sistema autoritário implementado naquele período. A relação entre jornalistas, censores e policiais reforça o apoio por parte dos civis à ditadura, um colaboracionismo que passava por empresários, igreja e imprensa. Para evitar problemas com o regime, a maioria da grande imprensa optou pela autocensura. Kushnir explica que houve a identificação plena dos proprietários

dos jornais com os objetivos da repressão e por isso, um virtual colaboracionismo.

Na entrevista com censores, a autora descobriu o interesse dos profissionais pela função: salário e estabilidade da carreira. Alguns censores foram contratados para trabalharem dentro de empresas de comunicação, como a Rede Globo. Outras veículos, como a Editora Abril, permitiram que cursos sobre a censura fossem ministrados para seus funcionários, dentro da empresa. Essas eram formas de evitar problemas com a polícia e prosseguir com seu trabalho. Outro foco da pesquisa de Kushnir é a cumplicidade do jornal Folha da Tarde com o regime militar. A autora cede um capítulo inteiro para a análise deste jornal nos seus dois períodos: do retorno a circulação em 1967 até o AI-5, quando se torna um instrumento de apoio e propaganda do Estado autoritário. Nesta época o jornal ficou conhecido como Diário Oficial

da Oban (Operação Bandeirantes). Para a historiadora, a presença de policiais a serviço da ditadura no ambiente de trabalho dos grandes jornais configura mais do que autocensura. Era noticiado o que acontecia dentro do aparelho de tortura. O jornal era feito para que o público identificasse as ações de repressão não como tais, mas como assassinatos em trocas de tiros ou por fuga, e não assassinatos cometidos nos porões da ditadura. Esta, inclusive, é a principal explicação do porquê de o livro quase não ter sido divulgado. Até agora, a grande imprensa ignorou este trabalho. Os “cães de guarda”, ao protegerem a morada e defenderem o castelo, venderam uma imagem errônea, desfocada e particular. Por esse motivo, é preciso ter clareza do que se pode fazer com as palavras e do quanto elas revelam sobre a postura de quem as usa.

O livro Histórias na ditadura em Santa Catarina: 1964/1985, organizado pelos historiadores Ana Brancher e Reinaldo Lohn, será lançado em agosto no Encontro Regional de História, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A publicação traz uma coletânea de 14 artigos inéditos sobre os anos de chumbo no estado. Um deles, Imprensa e censura na memória dos Jornalistas, de autoria da professora Ana Maria Veiga, trata da relação dos grandes jornais catarinenses com a censura. A historiadora elaborou a pesquisa com base nas memórias de jornalistas que atuaram na imprensa catarinense no regime militar, sobretudo nos jornais O Estado e Jornal de Santa Catarina. Para Veiga, houve diferença entre a imprensa dos grandes centros brasileiros, marcada pela censura

representantes locais. O jornalismo catarinense, como destacou a jornalista Elaine Borges no artigo, era paliativo e não estava acostumado a “cutucar” políticos. Os jornais preferiam ter uma autocensura a uma censura oficial. As notícias Visita do presidente Figueiredo causou tumultos que poderiam ser cotidiana, e a imprensa de Santa vetadas pelo censor, eram barCatarina. Nas cidades maiores, onde radas internamente. Ao longo de dez se decidiam os rumos da política anos de atuação da censura, estimanacional, os jornalistas sabiam com se que o jornal O Estado sofreu um quem estavam lidando, estavam número aproximado de cinco mil mais próximos do poder e por isso proibições. “Houve a tentativa de sabiam onde podiam ou não ou- preservar a imagem da perfeição do sar. Isso não acontecia nas cidades regime aos olhos da opinião públimenores, onde a relação restringia- ca”, esclareceu Veiga. Em Santa Catarina, os chefes de se aos membros do regime e seus

redação dos principais jornais também agiram como “cães de guarda” da boa conduta pregada aos profissionais da imprensa, chegando ao colaboracionismo com o regime em determinadas situações. “O que aconteceu foi a passividade dos jornais catarinenses na primeira fase do regime, tocados pelo trabalho de jornalistas voltados para uma sociedade elitista e burguesa”, recordou o jornalista Laudelino Sardá. Em 1979, a capital catarinense foi palco da Novembrada, episódio em que estudantes organizaram uma manifestação contra o ditador João Figueiredo que estava visitando Florianópolis. A iniciativa foi apoiada pela população, que se concentrou na praça XV para se manifestar contra a ditadura, o alta do custo de vida e o aumento da gasolina. Para alguns jornalistas, este talvez tenha sido o maior

silêncio da imprensa catarinense sob a opressão do regime militar. A imprensa optou por divulgar a versão oficial do Exército de que os manifestantes eram poucos, vindos de fora e que não tiveram a adesão da população da cidade. Os jornais Diário Catarinense, A Gazeta, A Notícia, e O Jornal de Santa Catarina assumiram tal discurso, tentando minimizar os efeitos da mobilização popular no evento. No estado catarinense, quase não houve imprensa alternativa. Uma das poucas tentativas aconteceu por iniciativa do jornalista Valdir Alves, em 1978, com a criação do jornal alternativo Contestado, que durou pouco mais de um ano, e do jornalista Celso Martins, que foi distribuidor do Movimento. Circulavam também o Pasquim, o Versus, e alguns outros, que mostravam uma visão jornalística alternativa.

Reprodução

xiste uma certa crença quando se trata do comportamento da imprensa brasileira na ditadura: a de que o jornalismo combateu o regime militar. A grande mídia, no entanto, mais apoiou do que resistiu ao arbítrio. Essa temática foi tratada na tese de doutorado de Beatriz Kushnir, que resultou no livro Cães de guarda - Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. O exemplar foi lançado em 2004 pela editora Boitempo e foi vencedor do Prêmio Jabuti no mesmo ano. A violência é o objeto de estudo da obra, que aborda a censura e seu poder insidioso de negar a palavra, mas também de conquistar corações e mentes. A pesquisa não se debruçou sobre a resistência, mas buscou mostrar o outro lado da questão.

Livro foi Prêmio Jabuti em 2004

Reprodução do livro Novembrada

O jornalismo e a repressão em Santa Catarina

Autocensura como desculpa Após a decretação do AI-5, estabeleceu-se a censura prévia. Isso significava ter as matérias analisadas por um censor na redação ou o envio do material jornalístico ao Departamento de Polícia Federal (DPF). Esse mecanismo complicava muito a tarefa de publicar notícias atualizadas. Por esse motivo, a maioria da grande imprensa resolveu adotar a autocensura. O professor Bernardo Kucinski, citado no livro Cães de Guarda, lembra que, “para Médici, era melhor que o próprio jornalista se autocensurasse”. Além da autocensura que a grande imprensa institui para si, algumas empresas de comunicação foram adiante: montaram um aparato paralelo que lhes garantisse não ter problemas com o governo nessa seara. Essa estrutura existiu na Rede Globo e na Editora Abril. Octavio Frias, antigo publisher do Grupo Folha, advogou a tese de que “por uma questão de sobrevivência” os jornais do grupo não deveriam ter censores e sim fazer

1-A

autocensura. O Jornal do Brasil, por sua vez, editou uma circular interna de cinco páginas em outubro de 1969, que elencava normas intituladas “Instruções para o controle de qualidade e problemas políticos”, criadas com o objetivo de instaurar na equipe uma autocensura”. “Para bem cumprirmos o nosso maior dever, que é retratar a verdade, é preciso, antes de mais nada, sobreviver. Na dúvida, a decisão deve ser pelo lápis vermelho”, dizia a nota. Em meados da década de 70, a Globo também instaurou um sistema de controle revestido da ideia de um “padrão globo de qualidade”. A emissora contratou José Leite, ex-funcionário do DPF, para realizar a censura interna e evitar prejuízos por conta da proibição de telenovelas. Organizada a autocensura,

o “padrão Globo de qualidade” contou com outros ingredientes para o sucesso: uma “assessoria militar” contratada com a função de fazer a ponte entre a emissora e o regime. “Eu preferia decidir o que ia ou não para o ar, do que ouvir dos censores do regime”, relatou Walter Clarck, figura de destaque e poder na Globo no período. A imprensa, embora uma ou outra discordância eventual, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura.

Papel de jornais na ditadura

Sociedade brasileira ansiava por um golpe de estado “Estou certo de que um golpe virá. De lá ou de cá, ainda não sei”. Esta frase de Miguel Arraes, governador de Pernambuco em 1964, ilustra o momento vivido pelo Brasil nas vésperas da instalação do regime militar. O golpe veio da direita, mas poderia ter vindo de qualquer lugar. Desde o dia 13 de março, quando o presidente João Goulart ressaltou a necessidade de reformas de base, no Comício da Central, até o dia 1º de abril, o conflito político entre os grupos antagônicos assumiu proporções preocupantes para a continuidade do processo democrático. A direita tramava a tomada de poder. Líderes da esquerda defendiam o fechamento do Congresso Nacional. Os empresários lançaram uma campanha que incendiou militares, os estudantes da União Nacional dos Estudantes cantaram uma música com o refrão “Não dá pra ter democracia se a barriga está vazia”. Os Estados Unidos agiram ativamente para derrubar Jango da presidência e cogitaram invadir o país se o golpe fracassasse. Até mesmo a sociedade ansiava por mudanças, ainda que elas significassem o desapego à democracia. Em São Paulo, o então governador do estado Ademar de Barros, organizou, com a ajuda de lideranças católicas, a Marcha da Família, evento que contou com a presença de centenas de milhares de pessoas contrárias à “onda comunista”. O cenário para concretizar o golpe estava arranjado.

“A violência é muda, e começa exatamente onde a palavra é calada”

Hannah Arendt


o tirano Florianópolis, 11 de junho de 2014

No período da ditadura militar, a censura tinha por objetivo ocultar as arbitrariedades e garantir a continuidade do regime vigente. A legislação censória daquela época se baseou em um tripé de leis e decretos contraditórios: decreto 20.493 de 1946, decreto 1077 de 1970, ambos de caráter proibitivo, e a jamais aplicada Lei Gama e Silva ou decreto 5.536 de 1968, de caráter liberal e progressista. O decreto 20.493 foi elaborado e publicado após o Estado Novo. Sua formulação teve o intuito de reestruturar o serviço de Censura, com a criação do Serviço de Censura e Diversões Públicas. Por 42 anos, esse mesmo conjunto de normas balizou as atividades artísticas e orientou a programação das mídias. Esse decreto é uma das chaves para perceber como a censura se valeu de uma legislação obsoleta e como foi amplamente exercida no pós-1964, mesmo baseada em um decreto de 1946. Todos os censores entrevistados pela autora de Cães de Guarda sabiam o decreto 20.493 de cor. De 1946 a 1963, o censor obteve cada vez mais visibilidade. A segunda ponta do tripé foi formulada de maneira pretensiosamente liberal e executada nos últimos meses do governo Costa e Silva, em 1968. Um mês antes da decretação do AI- 5, o então ministro da Justiça, Gama e Silva, editou a lei 5.536, que dispôs sobre as regras de censura às obras teatrais e cinematográficas: proibia cortes no textos, mas deixava uma brecha para tal ação. Essa lei refez o plano de carreira do censor, que devia apresentar diploma superior em área das humanas (Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Jornalismo, Pedagogia ou Psicologia), e criou o Conselho Superior de Censura. No mesmo ano em que o AI-5 foi baixado, a imprensa carioca e paulista recebeu um “manual de comportamento”, que previa o total respeito à revolução de 1964 e proibia a divulgação de notícias que propiciassem o incitamento à luta de classes ou comentasse problemas estudantis. O decreto 1.077, de 1970, foi a última ponta do tripé, e instituía a censura prévia ao mesmo tempo em que justificava sua não existência. Esse decreto era a “bíblia dos censores”. Cabia ao Ministro da Justiça impor censura quando necessária e era dever do Departamento de Polícia Federal (DPF) executá-la. Embora existisse uma lei que permitia a censura prévia, em 1973, o DPF distribuiu aos jornais uma nota que dizia que era proibida a crítica à censura. Criouse o Serviço de Informação do Gabinete (Sigab), ao qual cabia o telefonema direto e os bilhetinhos às redações de todo país em que se informava o que era proibido publicar. É desse período a frase: “De ordem superior, fica proibida a divulgação...”. Em 74, houve o primeiro concurso para técnico de Censura, cunhado pela lei 5.536. O decreto 20.493 não caiu com a Lei de Anistia, de 1979. Pelo contrário, a censura persistiu até a Constituição de 88, através de critérios e normas para uma censura indicativa e classificatória da programação. Isso contradisse a famosa frase de Fernando Lyra, Ministro da Justiça do governo Sarney, “Adeus, Censura”.

Casos de colaboração na grande mídia foram mais comuns

D

O TIRANO: Algum grande veículo de comunicação resenhou seu livro? Beatriz Kushnir: Muitos pedidos foram feitos para que o livro fosse entregue a jornalistas da grande imprensa, mas foi publicada apenas uma resenha no dia primeiro de janeiro de 2005, no caderno do Globo. Mas quem é que lê jornal no dia primeiro de janeiro? O.T: Qual era a relação entre jornalistas e censores? As duas funções se misturavam? B.K: Eu localizei censores, que na época da instalação da censura, em Brasília eram jornalistas. Queria entender como os jornalistas se tornavam censores. Isso acontece, porque na maioria das vezes eles buscam por um emprego mais fixo, e na hora de optar entre ser jornalista ou censor, ele opta pelo emprego público.

Folha de S. Paulo - 22/9/1971

ele havia sido chefe de reportagem da Folha da Tarde; e o episódio da morte de Vladimir Herzog nos porões da Operação Bandeirante (Oban), completamente ignorado pelo jornal, que não reportou a missa ecumênica realizada em sua homenagem na Catedral da Sé. A prática, que se estendeu a outros órgãos de imprensa, mas foi exemplar na Folha da Tarde, foi a de transmitir integralmente a versão do Estado para desaparecimentos e assassinatos. Foi o caso da notícia da morte do guerrilheiro Joaquim Seixas, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Ivan Seixas, seu filho, preso com ele, foi levado para um “passeio” pelos policiais e na ocasião leu a notícia da morte do pai, publicada pela Folha da Tarde. Quando voltou ao Doi-Codi, viu que o pai estava vivo. O jornal anunciou a morte de Joaquim Seixas, já planejada pelos órgãos de repressão, em uma clara legalização de mortes sob tortura.

O.T: Como foi a entrevista feita com os 11 censores do seu livro? B.K: Eu fiz a entrevista em meados dos anos 90, e foi relativamente tranquilo conversar com os censores. Eles, porém, negaram que seus nomes fossem divulgados, por isso eu uso o codinome. Estavam magoados naquele momento, pois existia um processo de realocá-los como funcionários do Ministério da Cultura. Eles fizeram um grande lobby para permanecerem na Polícia Federal.

Portal do Servidor da Prefeitura do Rio de Janeiro

outora em História Social, Beatriz Kushnir escreveu um livro sobre episódios que preferem ser esquecidos pela grande imprensa: o jornalismo que colaborou com o regime militar. Em entrevista por telefone com O Tirano, ela descreveu o processo de pesquisa que levou à publicação de Cães de Guarda. Kushnir comparou o jornalismo dos anos da ditatura com o atual, e revela que o discurso pouco mudou.

O jornal de maior “tiragem”

Carro do Grupo Folha incendiado

Edição 1 - Ano 1

Autora desmistifica ideia de que os jornalões combateram a ditadura

A Bíblia dos censores

A Folha da Tarde, foi criada em 1º de julho de 1949 sob o slogan “vespertino das multidões”. Sua jornada foi interrompida em 1959, retornando em 1967 e sendo extinta definitivamente em 21 de março de 1984. A historiadora Beatriz Kushnir lembra que, “tudo valia para preservar o jornal enquanto instituição”, e que esse sempre foi o discurso dos que buscaram justificar os métodos utilizados para preservar o bem maior. O Grupo Folha, relançou a Folha da Tarde com o objetivo de reportar a efervescência cultural e as manifestações estudantis. Esse foi o momento da Folha do “logotipo vermelho”. Nessa fase, o jornal tinha como diretor o carioca Jorge Miranda Jordão. Para Kushnir, no entanto, o que se passou não foi nada além de “oportunismo mercadológico” por parte da cúpula do grupo. A Folha da Tarde foi completamente reformulada, e em agosto de 69, de toda a antiga equipe, não restava mais ninguém. A direção do jornal foi passada a Antônio Aggio Jr, conhecido repórter policial. Neste período o jornal era tido como o “de maior tiragem”, devido ao grande número de policiais que compunham a redação no pós AI-5. Durante esse período, alguns fatos marcaram a redação: a polêmica da destruição de carros do Grupo Folha por grupos de extrema esquerda, devido ao empréstimo de automóveis a agentes do Doi-Codi. A prisão de Frei Betto, minimizada pelo jornal, que não citou que

O TIRANO

Curso de Jornalismo da UFSC Atividade da disciplina de Edição Professor: Ricardo Barreto Arte: Carlos Latuff Edição, textos, planejamento e editoração eletrônica: Larissa Gaspar Serviços editoriais: Carta Capital, Época, Notícias do Dia, Carta Maior Impressão: Rhei Cópias e Impressões Junho, 2014

Kushnir entrevistou onze censores rem feitos e podem ser considerados uma imprensa alternativa, não necessariamente de igual modelo da época da ditadura, mas extremamente sintonizados com o momento atual.

“Grupo Folha estipula a ditadura como se fosse uma ditabranda”

OT: Em muitas entrevistas a “família Frias” diz não ter ficado sabendo do uso de carros do Grupo Folha pelo Dops. Mas Frias frequentava o Dops e era amigo do delegado Sérgio Fleury. Você acredita que eles não sabiam do uso dos carros? B.K: Atualmente, é mais do que comprovado o vínculo próximo simbiótico entre os grandes conglomerados de comunicação no Brasil e o apoio à ditadura. Por isso, é muito difícil que os donos de jornais não soubessem do que estava acontecendo.

“O romantismo de imprensa militante não pertence à grande mídia”

O.T: Ao escrever a tese, você se desiludiu com a imprensa e com os jornalistas? B.K: Não exatamente. Acho que quem trabalha com a imprensa, não como fonte, mas como objeto de pesquisa, percebe que os órgãos de comunicação são empresas, que visam ao lucro. Então, esse lugar quixotesco, de uma imprensa militante não vai estar vinculado aos grandes órgãos de comunicação. O.T: Hoje em dia quase não se vê imprensa alternativa. Como você avalia esse quadro? B.K: O auge da imprensa alternativa foi no pós-64. Existiram mais de 1000 títulos por todo o Brasil. Isso aconteceu devido às “limpas” na redação. A pedidos do governo militar, os jornalistas mais combatentes eram demitidos. Com o fim do processo ditatorial, muitos jornalistas foram novamente absolvidos, por isso houve a diminuição desse movimento. Hoje, vive-se o momento dos blogs. São mais baratos de se-

B.K: Os militantes de esquerda, em diversos momentos são levados à televisão e aos jornais para fazer um mea culpa público. A intenção é influenciar a juventude brasileira a não adeentrar nesse universo. A essa atitude deu-se o nome de “desbunde”. Isso demonstra uma força do aparelho repressivo em tentar fazer uma publicidade diferenciada dos momentos que estavam sendo vividos. A Folha da Tarde não é a única a fazer essas contratações. Isso acontece na TV Globo, na Editora Abril, no Jornal do Brasil. Vários meios de comunicação tentam se aproximar do aparelho repressivo, numa forma colaboracionista. Por isso a importância do livro, se é que tem alguma, de tentar reverter o olhar que se tinha na historiografia brasileira de que a imprensa resistiu à ditadura. Eu mostro que, se os momentos de resistência aconteceram, eles foram diminutos. O que se percebe, com muito mais frequência, são os momentos de colaboração.

O.T: Em Cães de Guarda, você destaca o receio de Antônio Aggio (diretor de redação da Folha da Tarde em 70) em conceder entrevista. Após a publicação, ele acusou seu livro de ser sensacionalista. Como você analisa o posicionamento dele? B.K: Ele é uma pessoa de perfil profissional bastante peculiar. Foi um jornalista que tinha carteira de servidor do Serviço de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Depois de se aposentar dos jornais, ele passa a ser assessor de imprensa do Romeu Tuma, um personagem com vasta ligação com os órgãos repressores e delegado do Dops. A maneira que o Aggio encontrou de responder às críticas que eu estava fazendo no livro, foi criar um blog. Lá, ele reproduz o jornal que está muito acostumado a fazer: tem sempre uma mulher nua e manchetes sensacionalistas.

O.T: Por que não há o parecer de alguém do Grupo Folha no livro? B.K: Eu solicitei entrevista várias vezes. Infelizmente, eles se negaram

O.T: Qual sua opinião sobre o mea culpa feito pelas Organizações Globo no ano passado? B.K: Foi um mea culpa bastante discreto. O.T: E o Grupo Folha? Você acredita que ele pode mudar de estratégia e se retratar publicamente? B.K: Acho difícil. O Grupo Folha estipula o regime militar como uma “ditabranda”, e resiste em refletir sobre seu momento passado. Já se passaram 50 anos, e mesmo assim, não se vê nenhum movimento nessa direção. Agora já não é mais necessário. A não fala deles produziu uma fala sobre a questão, ai é mais interessante. O.T: Você percebe alguma mudança no discurso da grande mídia, da ditatura para os dias de hoje? B.K: Não, nenhuma. Isso pode ser percebido na cobertura dos movimentos que aconteceram no país em junho de 2013. Não é a toa que, quando a Rede Globo vai cobrir essas manifestações, percebe-se uma repulsa da população. Gostaria de lembrar que, por mais que Cães de guarda seja uma tese com 10 anos de publicação, ele continua bastante atual. Mesmo com toda censura e boicote que o livro possa ter recebido, ele já está na segunda edição.

“Mesmo com toda censura e boicote, o livro está em nova edição”

O.T: A Folha da Tarde contratou dois arrependidos de militância esquerdista. Qual a importância de o jornal ter tomado essa atitude?

O.T: Você pretende se dedicar a outras publicações? B.K: Apenas em outras áreas. No aniversário de 50 anos do golpe, fui convidada a fazer diversas reflexões e isso está sendo publicado difusamente, em livros de amigos e revistas acadêmicas.

“O ato de censurar é fruto da aprovação de certas camadas sociais”

Beatriz Kushnir

1-B

Jornal mural - O tirano  
Jornal mural - O tirano  
Advertisement