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Ficha catalográfica da obra elaborada pelo autor através do programa de geração automática da Biblioteca Central da Universidade de Fortaleza

LOURETO, LARISSA DE ALMEIDA. RESSIGNIFICAR: : UMA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO NOS ESPAÇOS LIVRES DO PIRAMBU / LARISSA DE ALMEIDA LOURETO. - 2017 216 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Universidade de Fortaleza. Curso de Arquitetura e Urbanismo, Fortaleza, 2017. Orientação: CARLA CAMILA GIRÃO ALBUQUERQUE. 1. trabalho de conclusão de curso. 2. arquitetura e urbanismo. 3. espaço urbano. 4. microplanejamento. 5. pirambu. I. ALBUQUERQUE, CARLA CAMILA GIRÃO. II. Título.

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TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO UNIVERSIDADE DE FORTALEZA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO

[RE]SSIGNIFICAR : uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu

Larissa de Almeida Loureto Professora Orientadora: Carla Camila Girão Albuquerque 5


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Larissa de Almeida Loureto

[RE]SSIGNIFICAR : uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu Banca examinadora

Prof. Francisco Edillson Ponte Aragão Universidade de Fortaleza

Profª. Carla Camila Girão Albuquerque Universidade de Fortaleza

Arq. e Urb. Henrique Alves da Silva

Fortaleza Dezembro 2017 7


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AGRADECIMENTOS A minha família, pais e irmãs, que estão sempre ao meu lado nos momentos mais difíceis, obrigada pelo apoio e amor incondicional. A professora Carla Camila Albuquerque, mestra exemplar e única, pela dedicação incansável e pelo que me ensinou durante um ano de trabalho árduo. Ao corpo docente da Universidade de Fortaleza, em especial as professoras Vládia Sobreira e Fernanda Rocha, pelo auxilio dentro e fora de sala e pelas oportunidades de bolsa e estágio. Aos meus queridos amigos e colegas do curso, que me acompanharam nesse percurso de graduação e aos outros amigos que tonaram essa e outras etapas de minha vida memoráveis. E finalmente, aos moradores do bairro do Pirambu e líderes comunitários, que sempre muito prestativos e gentis me receberam em suas casas e concederam entrevistas e informações essenciais a minha pesquisa.

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SUMÁRIO VOLUME 0 1

PARTE 1

Objetivos

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C o n c e i t u a ç ã o : 20 Assentamentos precários e intervenções urbanísticas

Espaços públicos ur- 25 banos e periferia Espaços livres públicos: 27 do urbano ao político Espaços públicos em 33 assentamentos precários Os deslimites da 36 residência: A rua como extensão da casa

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CAPÍTULO 4 ESTUDOS DE CASO: ESPAÇO PÚBLICO COMO ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO EM URBANIZAÇÃO DE ASSENTAMENTOS PRECÁRIOS

Justificativa 14

POR QUE INTERVIR EM FAVELAS ?

UM OLHAR SOBRE O PIRAMBU

Introdução 03

CAPÍTULO 3 POR QUE INTERVIR EM FAVELAS ?

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 1

Biourban

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Navega São 45 Paulo Praças da Paz 46 Referências 48


PARTE 2

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Povoamento

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Marcha de 1962

64

Linha do Tempo

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Arte e Cultura no 70 Pirambu – Chico da Silva

UM OLHAR SOBRE O PIRAMBU

HISTORIANDO O PIRAMBU

Origem

Localização e 102 População 62 Espaços livres x espaços edificados Classificação dos 64 interstícios ur- 69 banos 70 Entorno Usos e apropriações do es- 92 paço público Metodologia de avaliação dos es- 96 paços livres

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CAPÍTULO 3

CLASSIFICAÇÃO E AVALIAÇÃO DOS ESPAÇOS LIVRES DO PIRAMBU

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 1

Vila do Mar

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Espaço da Luz

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Interstício a Beira Mar Pracinha Nossa Senhora das Graças Praça Chico da Silva Vias e Vielas

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Diagramas

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CAPÍTULO 1

INTRODUÇÃO O município de Fortaleza tem sua paisagem urbana marcada por assentamentos precários desde o início do século XX. Processos migratórios campo-cidade originados pelas secas influenciaram esse processo de explosão demográfica e a favelização da metrópole fortalezense. Entende-se por assentamento precário todas aquelas áreas que demandam a ação do poder público quanto ao atendimento de necessidades habitacionais e que tenham características como irregularidade urbanística e/ou fundiária, ocupados por população de baixa renda e possua uma morfologia urbana que o distinga do entorno quanto às suas características físicas. Atualmente, a capital apresenta 27,36% do total de domicílios em assentamentos precários ( PHLIS-For 2010). Os assentamentos precários em Fortaleza, portanto, são caracterizados por processos de expansão da cidade, sendo espaços bastante adensados, autoconstruídos e de precárias condições de salubridade e conforto ambiental. Ocupam boa parte da malha urbana e a forma como essas comunidades são consolidadas causam problemáticas no tecido urbano como a ausência de espaços livres. Estes, são essenciais para a vida na cidade. São destinados à circulação, lazer, recreação, assumindo também um papel democrático nas sociedades, sendo estes lugares de encontro e das mais diversas manifestações. A falta de espaços públicos livres nas favelas, somado as questões habitacionais como o déficit e a 13

qualidade das moradias nos assentamentos precários, criam ambientes cada vez mais hostis, gerando problemas de permeabilidade do solo e que de certa forma, acabam impossibilitam o uso e apropriação de desses espaços remanescentes pela comunidade. Dessa forma, a configuração dos assentamentos e suas precariedades de infraestrutura, saneamento e moradia diminuem a qualidade de vida dessas populações e criam ambientes de conflito e insegurança. Levando em consideração essa problemática, o objeto de estudo desse trabalho, o bairro do Pirambu, é um dos assentamentos precários inserido na região oeste, na orla turística do Município de Fortaleza, e assim como outras comunidades da cidade, é uma região carente de espaços públicos de qualidade. Esse trabalho propõe intervenções urbanísticas para a região, que busquem soluções projetuais viáveis para tornar os escassos espaços públicos existentes no bairro em espaços agradáveis, acessíveis e que permita a sua população apropriar-se deles e usufruí-los.


JUSTIFICATIVA As inquietações que deram origem à essa pesquisa foram despertadas durante uma visita técnica ao Bairro do Pirambu em outubro de 2016. A visita abordava discussões relacionadas ao grau de precariedade em que o assentamento se encontrava e as problemáticas enfrentadas pelos moradores da comunidade. A partir da experiência em campo foi possível observar a ausência de espaços públicos de lazer, e por essa razão, jovens utilizavam espaços, mesmo que não apropriados, para atividades esportivas. Conhecendo essa realidade da periferia fortalezense a respeito dessas condicionantes, vem o questionamento: Como aproveitar as oportunidades desses espaços e transformá-los em espaços de qualidade, de promoção da vida urbana e de união comunitária? Reflexões sobre a temática nos fazem questionar: Como seriam os espaços adequados para essa população de áreas de assentamentos precários? Por fim, esses questionamentos são importantes para o alcance de novas soluções que promovam a melhoria do espaço urbano e da qualidade de vida da população,e que se implementadas de fato, garantam o direito à cidade para aqueles que o foram negado.

Figura 1: Crianças brincam em meio ao lixo e esgoto, situação que demonstra degradação ambiental no bairro do Pirambu. Fonte: registrada pela autora, 2016.

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OBJETIVOS A proposta do trabalho se pauta na criação de espaços públicos livres de lazer no bairro Pirambu, que é um assentamento humano precário no Município de Fortaleza e que possui, além de carências de infraestrutura, déficit habitacional, falta de investimentos públicos no âmbito social, também carece de espaços livres públicos de lazer. Entendendo essas condicionantes, a pesquisa tem em vista além da criação desses espaços coletivos, a proposição de requalificação urbanística dos espaços residuais da comunidade, objetivando sua possível integração desta à cidade, (re) significando espaços comuns, assim, conferindo qualidade urbana. A pesquisa objetiva ainda de forma mais específica: • Analisar o conjunto de espaços livres existentes no Pirambu • Compreender a relação da população local com os espaços livres, de forma social e culturalmente. • Realizar uma metodologia participativa no processo de desenvolvimento desses espaços comuns, entendendo as necessidades da área estudada. • Identificar problemáticas existentes na região para a proposição de intervenções coerentes nas etapas posteriores. • Solucionar parte das conformidades levantadas através do desenho urbano, a partir de um processo de estudo aprofundado sobre o tema, compreensão e percepção da paisagem e por meio de participação popular

na tomada das decisões projetuais. Dessa forma, o objetivo final do trabalho é a requalificação e criação de um conjunto de espaços públicos de lazer, com microintervenções urbanísticas e paisagísticas de modo integrado e pontual, buscando melhor qualidade urbanística no assentamento precário Pirambu.

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METODOLOGIA Baseado nos objetivos pretendidos, que buscam a compreensão dos espaços livres existentes em assentamento precários e posteriormente, transformam-se em estratégias de ordenação do território, se fez essencial a adoção de métodos de análise quantitativos e qualitativos dos espaços livres e do espaço ocupado, para melhor entendimento do território e proposição do desenho urbano. A pesquisa se constituiu em três etapas principais, (i) levantamento do material bibliográfico para elaboração do referencial teórico, (ii) Pesquisa de campo com desenvolvimento de diagnóstico urbanístico da região, (iii) Desenvolvimento de propostas urbanísticas (desenho urbano). A primeira etapa consiste na realização da revisão bibliográfica para a elaboração de um referencial teórico consistente o bastante que sirva para um entendimento das questões levantadas acerca do território urbano estudado nesse trabalho. Se fez necessária a contextualização histórica das favelas no Brasil, a formação de espaços públicos na periferia bem como a importância de intervenções urbanas nesses espaços. A segunda etapa será aprofundada posteriormente no 2 volume deste trabalho (capítulo 3), e confere a realização de diagnóstico qualitativo dos espaços livres no bairro, sendo necessária uma pesquisa in locu, realizada com auxílio dos moradores da região, a partir de levantamentos, entrevistas e percepções do espaço construído e não edifica17

do. A última etapa consiste na definição dos elementos de projeto, produção de desenhos e propostas de ressignificação dos espaços públicos e livres na área estudada. A seguir, um diagrama conceitual da metodologia utilizada exemplifica as etapas abordadas.

METODOLOGIA - Mapa teórico Conceitual 1ª ETAPA

Espaços públicos em assentamentos precários (referencial teórico)

2ª ETAPA

Problemática Espaços púbicos de má qualidade

Contexto Bairro Pirambuerencial teórico)

Importância Carência de espaços públicos na periferia Potencialidades Usos e apropriações de espaços públicos

3ª ETAPA Soluções Projetuaiserencial teórico)

Reunir a comunidade Inserção social Qualificar o espaço público


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CAPÍTULO 2

POR QUE INTERVIR EM FAVELAS ? A QUESTÃO URBANA E HABITACIONAL NO BRASIL

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Conceituação: Assentamentos precários e intervenções urbanísticas As favelas, objeto de estudo e alvo de intervenção desta pesquisa, são assentamentos percebidos como um espaço de ausências urbanas, sociais, legais e morais. Estão presentes na maioria das cidades latino-americanas atuais. Dados do Ministério das Cidades (BRASIL, 2005), apontam Brasil possui 6,6% de sua população vivendo em assentamentos precários. A favela, conteúdo de estudo e intervenção urbanística a que se propõe esse trabalho, é uma expressão coletiva de imensurável complexidade e que será estudada ao longo dos capítulos para entendimento holístico sobre as questões que atuam nessas áreas e o entendimento dos seguintes questionamentos: O que são os assentamentos precários? Por que se fazem necessárias intervenções de qualificação nessa cidade ilegal e sua regularização? Qual a origem dos processos de segregação urbana brasileira e seus desdobramentos na dinâmica urbana atual? Essas indagações serão abordadas nesse capítulo e são de grande relevância, pois a partir desses esclarecimentos acerca do surgimento e desenvolvimento desses núcleos irregulares será possível uma melhor compreensão da área em estudo e de posterior intervenção.

Entende-se por assentamentos precários os locais em que há geralmente a carência de equipamentos públicos, de áreas de lazer, onde predominam a ausência de infraestrutura de esgoto, saneamento básico, coleta de lixo e condições de precariedade habitacional. É também o local da desordem, da ocupação coletiva e expressão do caos urbano. É o local da ausência, da omissão do Estado frente as populações marginalizadas, é cenário da violência e de paisagens diversificadas (OBSERVATORIO ¹, 2009). É o produto da produção capitalista do urbano e palco da segregação socioespacial e da miséria. Os assentamentos informais são locais onde habitam, geralmente, grande parte da população excluída socialmente das metrópoles brasileiras, e estão submetidas à irregularidade jurídica e urbanística, por estarem situadas normalmente em terrenos públicos, privados ou ambientalmente vulneráveis, constituindo parte significativa dos tecidos urbanos. As principais problemáticas em relação a essas áreas é a insegurança da posse, a carência de serviços públicos, grandes desigualdades sociais e de direitos civis e a violência (FERNANDES ², 2011). Diante de tantas problemáticas envolvidas nessas áreas, se faz necessário o questionamento: Por que então são necessários investimentos e intervenções em áreas ilegais da cidade? A consolidação dessas cidades informais se dá no primeiro momento por ocupações em terrenos públicos, privados ou comunais, na maioria das vezes de maneira 20

¹ Observatório de favelas, Disponível em: http://www. observatoriodefavelas. org.br/ ² FERNANDES, E. Regularização de Assentamentos Informais na América Latina. Cambrige: Lincoln Institute of Land Policy, 2011.


irregular, sem registro formal de propriedade e com o uso de materiais rudimentares. Com o passar dos anos, materiais novos são introduzidos, a cidade informal se expande e alguns serviços públicos são implementados na área. Entretanto, é importante constatar que mesmo com alguns serviços de infraestrutura, essas áreas continuam sendo núcleos de precariedade urbana, vivendo as margens da cidade formal e sendo marcadas como territórios da ilegalidade. Do ponto de vista jurídico, a falta de reconhecimento legal da posse da propriedade pode acarretar na impossibilidade da provisão de infraestruturas e de serviços na área, além da insegurança da posse e manutenção das comunidades no local, dificultando o acesso à moradia. Em relação as condicionantes sociais, a imagem das favelas como território disseminador da violência acaba estigmatizando seus moradores, e com isso, a oferta de trabalho é negada, excluindo-a socialmente. Nos aspectos ambientais, os terrenos frágeis onde se constroem esses assentamentos precários são gradualmente degradados, causando perdas de biodiversidade e poluição. Referente à questão política, a ausência do poder público nessas áreas fazem com que ocorra uma espécie de coronelismo político, que se prevalece a troca de favores entre políticos e população, que prometem mudanças estruturais nesses assentamentos. E por último, a problemática econômica se faz presente devido à ilegalidade jurídica das moradias, o que gera perda potencial de receita, uma vez que a população é excluída dos sistemas oficiais de impostos sobre a propriedade, não pagando tributação. Outros fatores como o histórico de formação da sociedade e da distribuição fundiária também contribuem fortemente para a configuração atual dos assentamentos precários. Por essa razão, os custos da informalidade são bastante elevados, o que

torna obrigação do poder público em intervir nessas áreas a fim de reduzir as problemáticas existentes e impedir a proliferação de novas áreas precárias. Os investimentos nessas regiões se fazem necessários para a garantia o direito de exercício da cidadania e da moradia. Intervir nesses espaços é construir uma cidade mais democrática, acessível e menos desigual. Dessa forma, na tentativa de mitigação dessas problemáticas históricas decorrentes desse modo de construção e consolidação de cidade, tem sido realizado nas cidades da américa latina conjuntos de intervenções de melhorias. Essas melhorias se fazem necessárias por não só ser o habitat de grande parte da população miserável da urbe, mas para evitar futuramente surgimento de novos núcleos precários, além de possibilitar o desenvolvimento desses núcleos populacionais, melhorando efetivamente a qualidade de vida dessas populações, garantindo o direito social à moradia e à cidade. Portanto, intervenções que acarretam na melhoria urbana e na qualidade de vida das populações de baixa renda se tornam fundamentais nos processos de inclusão social e na garantia de direitos. Dessa forma, requalificar espaços na periferia, é além de um ato democrático, é um direito, o direito à cidade e à vida urbana.

Figura 2 e 3: Espaços de Paz -Venezuela. Fonte: Archdaily. Disponível em: http://www.archdaily.com.br/br/756317/ como-o-projeto-espacosde-paz-esta-transformando-os-espacos-comunitarios-na-venezuela. Acesso em: 25/04/2017.

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CAPÍTULO 3

ESPAÇOS

PÚBLICOS URBANOS E

PERIFERIA

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O tema central dessa pesquisa, como visto anteriormente, está voltada para a compreensão de assentamentos precários, desde a sua formação, caracterização e identificação de conformidades. Este capítulo abordará a presença e disposição de espaços públicos urbanos nesses assentamentos humanos, buscando esclarecer o espaço público e seus significados e entender em como se dá sua formação, seus usos e apropriações pelos moradores da cidade ilegal. A primeira parte desse capítulo consiste na formulação dos conceitos de espaços públicos e sua categorização. A segunda parte reflete os modos de apropriação e significados dados a esses espaços coletivos nas áreas precárias. Na terceira parte, estudos de caso serão analisados, de forma a ilustrar como se ocorrem intervenções urbanísticas nessas regiões da cidade e em como o espaço público se torna essencial como elemento de sociabilidade e coesão da periferia.

Figura 4: Viela em Fortaleza. Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

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Espaços livres públicos: do urbano ao político

³ MAGNOLI, Miranda Martinelli (2006). Espaço livre - objeto de trabalho. In: Paisagem e Ambiente .nº 21, 2006. São Paulo: FAU/ USP, pp. 175-198. ⁴ HIJIOKA, Akemi et al. Espaços livres e espacialidades da esfera da vida pública: uma proposição conceitual para o sistema de espaços livres urbanos no país. In: Paisagem e ambiente, nº 23, 2007. São Paulo: FAU/USP, pp. 116-233. ⁵ BORJA, J. MAUXÍ, Z. El espacio público: ciudad y cidadania. Barcelona, Electa, 2003.

O espaço livre é definido segundo Magnoli ³ (2006, p. 179), como “todo espaço não ocupado por um volume edificado (espaço-solo, espaço-água, espaço-luz ao redor das edificações a que as pessoas têm acesso“. É vinculado a urbanização e as edificações que o envolvem, podendo ser classificado de uso público ou privado. Ou ainda, para Tardin (2008, p.17) “espaços livres são vistos, a partir de sua estrutura espacial e funcional, como partes do território não ocupadas pelos assentamentos e pelas infraestruturas viárias”. Compreendidos como o território da ausência do espaço construído, os espaços livres estão contidos no tecido da urbe e desempenham funções ligadas ao lazer, circulação entre outros. Já o espaço livre público pode ser considerado como o “ espaço da vida comunitária por excelência” (Magnoli, 2006). Nele são realizadas as atividades de apropriação pública e utilidade pública. Conforme Arendt ⁴, (2005, p. 59 apud Hijioka et al. 2007, p. 120) o termo público significa que “tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível”. Os espaços públicos, entendidos como espaços coletivos, são ambientes urbanos palco das atividades da vida pública e social da cidade. Nesses espaços se dá a identidade da cidade. São marcos históricos, onde neles se desenvolvem diversas atividades, como a manifestação de conflitos, manifestações artísticas, sociais e políticas. São espaços da expres27

são coletiva, da diversidade social e cultural. Conceitualmente, o espaço público da urbe não é apenas o espaço residual resultante do ordenamento entre as ruas e os edifícios. Não pode ser definido também somente por razões jurídicas (BORJA,2003). O espaço público aqui abordado, é definido de maneira mais ampla, é materializado como local das atividades políticas e democráticas, é apresentado como locus do exercício da cidadania, e visto como local de encontros, das conversas, das trocas sociais, de discussão e de vida pública. Espaço públicos vistos enquanto espaços de reinvindicação, de direitos e de decisão, lugar da coesão social. De acordo com Borja ⁵, o espaço público é a cidade, a medida que as histórias dos espaços públicos sempre se confundiram com a história das cidades.

La historia de la ciudad es la de su espacio público. Las relaciones entre los habitantes y entreel poder y la ciudadanía se materializan, se expresan en la conformación de las calles, lasplazas, los parques, los lugares de encuentro ciudadano, en los monumentos. (BORJA, Jordi & MUXÍ, Zaida, El espacio público: ciudad y cidadania, Barcelona, 2003, p.8) Para Borja, o espaço público é o espaço cidadão, é o local capaz da articulação e ordenação de um território, coordenando diversas funções. É símbolo da história, a medida que nele se fazem acontecimentos de re-


levância histórica cultural da cidade, é símbolo da identidade coletiva. É espaço da expressão coletiva, do desenrolar das questões urbanas cotidianas, do encontro, lócus das manifestações sociais e cidadãs (ABRAHÃO ⁶, 2008). Palcos do espetáculo urbano e das atividades, os espaços públicos podem ser compreendidos como símbolos da identidade coletiva e da manifestação da história e acontecimentos políticos, espaço da expressão coletiva da vida comunitária, da visibilidade dos diferentes grupos sociais, do espaço da afirmação ou da confrontação, espaços de participação e comunicação.

⁶ BRANDÃO, P.; CARRELO,

M.; ÁGUAS, S.; O Chão da Cidade – Guia de Avaliação do Design de Espaço Público, CPD, 2002, Lisboa.

Figura 5: Diagrama de espaço livre. Fonte: elaborado pela autora, 2017.

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Pessoas

Interstício

Espaço público

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Categorização dos espaços públicos urbanos Materialmente, o espaço público urbano pode ser entendido como áreas do domínio e administração do Estado, assumindo formas de ruas, avenidas, parques, jardins, praças e calçadas e em alguns casos, margens fluviais e marítimas. Podem ser classificados de acordo com os usos, equipamentos disponíveis e grandeza. Os de maior extensão, são compreendidos por parques urbanos, jardins públicos e áreas ajardinadas (fig. 5 ), são áreas livres públicas, geralmente dotadas de vegetação, sendo elementos de grande importância para as cidades sobretudo pelo seu potencial de permeabilização da água no solo das chuvas, sendo benéficos para as cidades tanto por questões de drenagem como por serem espaços de recreação e lazer. As avenidas e ruas (fig. 6) configuram-se como espaços públicos uma vez que são definidas conceitualmente por um “conjunto de espaços lineares destinados fundamentalmente à circulação e permanência de pessoas, à circulação e estacionamento de veículos” (BRANDÃO ⁶, P.; et all, 2002, p. 26) As praças, largos e pracetas (fig. 7) assumem formas e funções diversas, possuindo geralmente seu entorno ocupado por edificações. Exercem importante função de centralidade à cidade, bem como funções de recreação e concentração de pessoas. Conforme definido por Brandão, P.; et all (2002, p. 27) os terreiros e recintos multifuncionais ou áreas polivalentes, são espaços

públicos singulares, construídos por grandes plataformas retangulares sensivelmente planas e com pavimento permeável, de diversas funções como feiras, festas e mercados. Dentre outros espaços públicos existentes, destaca-se também as margens fluviais e marítimas (fig 8), como áreas que margeiam recursos hídricos, normalmente quando urbanizados com a presença de passeios pavimentados e o desenvolvimento de atividades turísticas e recreativas em sua extensão. Dessa forma, esses espaços públicos urbanos constituem os tecidos das cidades e são importantes sob o ponto de vista social, político e urbano para o desenvolvimento da vida citadina, da articulação enquanto espaços de atividades públicas, de atividades de recreação e lazer, servindo como ambientes de permanência e atratividade de pessoas. A seguir, será abordado o espaço público no âmbito da cidade informal, dos assentamentos precários no que diz respeito ao seu modo de significação e apropriação, privada ou coletiva, por moradores dessas regiões periféricas.

⁶ BRANDÃO, P.; CARRELO,

M.; ÁGUAS, S.; O Chão da Cidade – Guia de Avaliação do Design de Espaço Público, CPD, 2002, Lisboa. Figura 5: Central Park, Estados Unidos. Fonte: nyco. Disponível em: http://www. nycgo.com/venues/central-park. Figura 6: Avenida Paulista. Fonte: saopaulo. Disponível em: http://www.saopaulo. com.br/avenidapaulista-completa-125-anos/. Figura 7: Praça de campo, Itália. Fonte: Archdaily. Disponível em:www. archdaily.com.br/br/01145737/ranking-2013-dasmelhores-praças-publicas-do-mundo. Acesso em 25/04/2017. Figura 8: Calçadão de Ipanema, Rio de Janeiro. Fonte: Camille Panzera. Disponível em: https://guia. melhoresdestinos.com.br/ praia-de-ipanema-rio-dejaneiro-4-10-l.html

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Espaço público em assentamentos precários

⁶ BRANDÃO, P.; CARRELO,

M.; ÁGUAS, S.; O Chão da Cidade – Guia de Avaliação do Design de Espaço Público, CPD, 2002, Lisboa.

O espaço público urbano é o “local da manifestação da esfera pública, da vida pública, da realização da cidadania” (Abrahão ⁶,2008,p 23). O conceito do espaço público se relaciona ao privado, entre aquilo que pode ser entendido como espaço aberto, de acesso livre em contraposição ao que é restrito e propriedade. A concepção desses espaços livres em áreas precárias se dá de forma distintas daquela conhecida da cidade formal. Sua construção e consolidação em assentamentos precários se dá primeiramente a partir da ocupação espontânea dos lotes para a construção de moradias, de maneira por vezes orgânica. Geralmente, os assentamentos consolidados possuem alta densidade construtiva, poucos vazios, e um desenho orgânico da malha, com vias curvas e estreitas. A lógica de implantação dessas ocupações está firmada no maior aproveitamento do solo, buscando uma grande quantidade de habitações por metro quadrado. Dessa forma, os espaços livres são gerados a partir dos espaços residuais desse tipo de ocupação predatória da quadra. Os resultados desses agrupamentos da quadra tradicional configuram espaços livres no interior do lote, sendo definidos como os quintais das residências, de uso privativo, e que por vezes acabam gerando situações de becos e vielas no interior da quadra. As vias resultantes desses parcelamentos ficam sendo destinadas ao uso coletivo, são 33

perímetros lineares com função de circulação, mas também muitas vezes de usos e apropriações de maneiras distintas pelos moradores devido à carência de áreas livres nas habitações e no bairro precário. Essas áreas, conhecidas como vielas e becos do bairro, possuem grande potencialidade de sociabilização, podendo esses pequenos espaços, quando alvos de intervenção, assumirem forma de locais de convívio e lazer dos usuários. Algumas conformidades surgem dessa forma de adensamento, sendo outra característica em relação a esses espaços a falta de vegetação e mobiliário adequado ao desempenho das diversas atividades realizadas nessas localidades, gerando regiões quentes e impróprias a práticas ao ar livre. A presença desses espaços se torna essencial em áreas de carências, uma vez que os espaços públicos podem ser entendidos como meio fundamental de elaboração de cidadania e da civilidade, além de abrigarem atividades e funções que servem de suporte à vida das populações de menos favorecidas. É importante ressaltar que além da carência de áreas livres públicas nas comunidades também é possível constatar a carência de espaços públicos políticos, dotados de infraestrutura e mobiliário que permitam a coesão social. Os espaços políticos se fazem fundamentais como forma das populações mais pobres decidirem sobre as questões urbanas, além de darem força aos movimentos sociais e possibilitarem troca de debates e opiniões.


Algumas pequenas praças e espaços residuais ocupam a malha desses assentamentos, de forma que a população os utiliza para diversos fins. O caso mais recorrente é a utilização da rua como extensão da residência. A seguir, será analisado como esses espaços de uso coletivo são apropriados e usados pela população residente dessa cidade.

Figura 9: Vielas internas em assentamentos precários. Fonte: Elaborada pela autora, 2017.

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ÁREA EDIFICADA

ÁREA LIVRE

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ÁREA LIVRE PRIVATIVA


Os deslimites da residência: A rua como extensão da casa Na cidade formal, a partir do século XX com a elaboração de novos planos urbanos para o traçado das cidades modernas, a rua passou a ter um caráter essencialmente de circulação, de pessoas e veículos, de largura consideráveis e extremamente funcionalista. Para Jane Jacobs ⁷, a perca da função da rua como articuladora de usos e complexos, se deu por meio do entendimento e execução das vias como elementos de separação das atividades, negando a forma tradicional de desenvolvimento da cidade e suas relações. A rua da cidade formal perdeu então seu papel de sociabilidade, a medida que esta não proporcionava mais encontros e trocas sociais, apenas a passagem de um ponto a outro do território. Entretanto, na cidade informal, as relações de sociabilidade da rua foram mantidas conforme os assentamentos foram se configurando sem nenhuma forma de planejamento ou ordenação dos espaços. A escala adotada para a conformação desses espaços era a escala humana, e os construtores, seus próprios moradores, resultando em locais de extrema sociabilidade e contato humano. De acordo com o Observatório das favelas, as favelas são caracterizadas pelas “relações de vizinhança, marcadas por intensa sociabilidade, com forte valorização dos espaços comuns como lugar de encontro”. Outros espaços de uso coletivo, como as praças, quando existentes se tornam aglutinadores de pessoas e usos e conferem cen-

tralidade ao bairro, concentrando atividades comerciais para sobrevivência dos moradores como as feiras ao ar livre e barraquinhas de alimentos. Os fatores que tornam as vias grandes corredores de sociabilidade podem ser atribuídos pela demanda por espaços nas residências: como as habitações são extremamente pequenas, faltam espaços para o desenvolvimento das atividades domésticas como locais para estender a roupa ou espaço para crianças menores brincarem. Devido à habitação está limitada a calçada e diretamente próxima a rua, a rua serve como extensão dessas atividades. As portas, janelas e degraus das residências também oferecem apoio as atividades cotidianas de descanso, do olhar, sendo também locais para sentar e trocar conversas. Outras funções estão ligadas a apropriação privada por comércios, uma vez que as calçadas abrigam mesas e cadeiras dos estabelecimentos. As ruas também podem ser fechadas para a realização de atividades temporárias, como feiras, festas e manifestações sociais durante um período do dia. Outra condição que favorece sua apropriação se dá devido a carência de equipamentos de lazer e espaços esportivos nessas localidades, resultando no encontro de jovens para atividades recreativas e lúdicas nas ruas e vielas dos assentamentos. A conversa, as brincadeiras e os usos distintos desse ambiente público criam relações de sociabilidade essenciais 36

⁷ Referenciada em: O espaço público urbano na perspectiva de Carlos Nelson Ferreira dos Santos . Disponpivel em:http://www. vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.204/6560


para as comunidades precárias, pois essas relações permitem o estabelecimento de trocas sociais, comerciais e culturais. Dessa forma, a rua nessa configuração se conforma não somente como via de passagem, mas como estruturadora de uma diversidade de usos, universo de múltiplos eventos e relações sociais, encontros e atividades.

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Figura 10: Planta- Configuração de assentamentos humanos. Fonte: Elaborada pela autora, 2017.


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CAPÍTULO 4

ESTUDOS DE CASO

ESPAÇO PÚBLICO COMO ESTRATÉGIA DE INTERVENÇÃO EM URBANIZAÇÃO DE ASSENTAMENTOS PRECÁRIOS

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ESTUDOS DE CASO Usualmente, as obras de intervenção em assentamentos precários são voltadas para a construção de habitação de interesse social, ou urbanização para saneamento e de infraestrutura, deixando o espaço público como um componente de segunda importância na urbanização da região. Entretanto, esse modelo de concepção de projetos muitas vezes ocasiona a não apropriação do espaço público por seus moradores ou traz soluções de projetos que muitas vezes são padrões, não compatíveis com os usos existentes na região. Geralmente, são propostas de baixo custo e que não atendem as necessidades locais e não levam em consideração as demandas de moradores. Como estudo de caso, foram escolhidas 3 propostas de microplanejamento, são chamadas de micropráticas urbanas criativas. As propostas buscam, com pouco orçamento, criatividade e participação popular, a transformação de espaços públicos livres regiões de favelas, em São Paulo. Desenvolvidas a partir da observação dos usos existentes na região, as propostas serão apresentadas e utilizadas como modelos de estudo para a proposição de espaços públicos no bairro Pirambu, nas etapas posteriores.

Figura 11: Interstícios em assentamentos precários. Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

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Diagrama de Densidade de Ocorrência

BIOURBAN

Localizado na região Central do Município de São Paulo - SP, na favela Mauro, esse projeto consistiu na transformação de espaços de transição como vias e vielas, em espaços de convívio. A iniciativa busca reativar espaços subutilizados pela população, somando aos usos pré existentes novas formas de utilização do espaço sob a ótica da adição de atividades, criando pontos de coexistência. As intervenções realizadas buscam promover a identificação local, uma vez que os agentes transformadores do espaço e as ferramentas utilizadas são facilmente implementadas por moradores da localidade.

As estratégias adotadas para significação dos espaços de uso comum dessa comunidade foram também seguidas neste trabalho sobre o Pirambu. Além do método similar de diagnóstico e percepção do espaço, a disposição de mobiliários em vielas e o entendimento dos fluxos foram também incorporados no projeto de requalificação do Pirambu.

Figura 12: Assistir. Fonte: Microplanejamento práticas urbanas criativas. p. 31.

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NAVEGA SÃO PAULO

Diagrama de Densidade de Ocorrência

O projeto foi idealizado para transformar a área mais degradada do Rio Tietê, em São Paulo, em uma plataforma de conscientização ambiental, dispondo de práticas urbanas criativas que incentivam a ocupação do recurso em diferentes formas. Novas possibilidades de uso foram adotadas com um percurso aquático, objetos de arte nas margens e peças de teatro no rio. Novas ações como expor, vender, comprar, navegar contribuíram para a transformação da paisagem, que antes sem vida, torna-se mais agradável e releva um outro olhar sobre a cidade e seus recursos.

As estratégias adotadas que visam a ocupação das margens e a promoção de percursos aquáticos servirão como base para a etapa de projetos. As práticas dentro das águas, bem como a revitalização das margens e a possibilidade de novos usos como navegação e práticas artísticas serão incorporadas no novo projeto da orla do Pirambu, no novo Vila do Mar.

Figura 13: Contemplar a paisagem fluvial. Fonte: Microplanejamento práticas urbanas criativas. p. 98

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PRAÇAS DA PAZ

Diagrama de densidade de ocorrência

Situado também na Região Metropolitana de São Paulo, os Espaços de Paz são intervenções que promovem o envolvimento das comunidades locais para criação de espaços públicos onde se possa discurtir a vida pública, e seja palco de trocas sociais e encontros. O vazio entre edificações de até 3 pavimentos recebeu equipamentos de lazer, sendo possíveis os usos de empinar pipas, assistir, brincar, sentar-se, realizar reuniões, entre outros. A partir de um diálogo com moradores, foi possível mapear as necessidades dos locais e traçar ações que mudam o ambiente e a vida urbana.

A intervenção em um terreno vazio rodeado por casas na comunidade é similar aos interstícios presentes no Pirambu, e as ferramentas utilizadas como horta, arquibancadas, quadra esportiva, muros para grafite e espaços de encontro serão implementados em terrenos na fase de projeto. Espaços multiuso, assim como nesse estudo de caso, serão elaborados com a ajuda de moradores no projeto.

Figura 14: Brincar. Fonte: Microplanejamento Praticas urbanas criativas, p. 105.

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REFERÊNCIAS

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233. MAGNOLI, Miranda Martinelli (2006). Espaço livre - objeto de trabalho. In: Paisagem e Ambiente .nº 21, 2006. São Paulo: FAU/USP, pp. 175-198. TARDIN, Raquel. Espaços livres: sistema e projeto territorial. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. SILVA, José Borzacchiello da, COSTA, Maria Clélia Lustosa (Orgs.). Da cidade à metrópole: (trans)formações urbanas em Fortaleza. Fortaleza: Edições UFC, 2009.

ROSA, Marcos. Microplanejamento - Práticas urbanas criativas.Sçao Paulo, Editora de Cultura, 2011.

FERREIRA, João Sette Whitaker. A Cidade Para Poucos: Breve História Da Propriedade Urbana No Brasil. Simpósio: Interfaces Das Representações Urbanas Em Tempos De Globalização. Bauru: UNESP / 2005. HIJIOKA, Akemi et al. Espaços livres e espacialidades da esfera da vida pública: uma proposição conceitual para o sistema de espaços livres urbanos no país. In: Paisagem e ambiente, nº 23, 2007. São Paulo: FAU/USP, pp. 11648


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PARTE 2

RETRATOS DO PIRAMBU

MEMÓRIA COLETIVA E DIAGNÓSTICO URBANÍSTICO

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PIRAMBU Pirambu, em tupi-guarani, quer dizer peixe-roncador, também conhecido como sargo-de-beiço, riscadinha ou boca-mole. Nome do bairro, o peixe é encontrado facilmente na orla do Pirambu.

Era um lugar no fim da cidade. Era o fim mas tinha vida, gente, cachorro, floresta, estcola [...] tudo normal! Instituições habitavam esse lugar como em toda parte da cidade, mas algo ali transbordava obviedade. Talvez por conviverem com o fim, as coisas ali arriscavam-se à sinceridade, ou quem sabe, por serem sinceras demais tiveram seu fim decretado pelos donos da cidade. Não se sabe ao certo a ordem dos fatores, mas o resultado é que por lá as flores da subjetividade brotavam das mais concretas dificuldades.

Casa B: residência artística; conexão, imersão, ocupação. 2016

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CAPÍTULO 1

HISTORIANDO O PIRAMBU

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ORIGEM

A história do bairro do Pirambu é entrelaça-se a de Fortaleza. A origem do bairro está ligada ao sertão e ao mar, sendo uma comunidade que luta pelo direito de permanecer há quase 90 anos. O bairro está inserido na Zona Oeste do município de Fortaleza, e originalmente era considerado uma fusão de três grandes bairros: Cristo Redentor, Tyrol e Nossa Senhora das Graças, sendo este último citado parte do território atual do bairro denominado Pirambu. Suas primeiras ocupações datam na década de 1930, ocorridas devido ao grande fluxo migratório campo-cidade e aos consequentes períodos de seca do estado do Ceará. Diante disso, Fortaleza passou a atrair recebeu um grande contingente de pessoas, consequências da seca de 1915. Sertanejos migravam para a capital em busca de melhores condições de vida, desesperados por um lugar para habitar, onde pudessem encontrar água, alimentos e trabalho. Com um grande fluxo de pessoas, a cidade passou a abrigar seus flagelados em condições precárias. Conforme Silva,a partir dos processos migratórios campo-cidade no início do século XX, a cidade de Fortaleza iniciou seu processo de favelização, fazendo surgir vários bairros de classe baixa no espaço urbano.

A origem do processo de favelização de Fortaleza está ligada aos constantes deslocamentos de lavradores sem terras e pequenos proprietários que se dirigem para a cidade devido à rigidez da estrutura fundiária, que praticamente impede o acesso desses lavradores à terra e outros meios de produção. Nos períodos de estiagem mais prolongados, este processo se intensifica. (SILVA 2009, p. 132)

A área central foi ocupada pelas elites e possuía um alto valor, enquanto a zona litorânea não possuía alto valor de mercado e era considerada insalubre. Sem condições de se instalar nas áreas melhores infra estruturadas da cidade, a área não urbanizada da cidade serviu como local para moradia de centenas de sertanejos, principalmente a zona do litoral oeste da capital. Aos poucos, a região oeste fortalezense foi sendo ocupada, por em sua maioria, trabalhadores pobres e sertanejos.

Figura 2: : Antiga definição dos bairros que compunham o Grande Pirambu. Fonte: Centro de Pesquisa Popular, Documentação e Comunicação do Pirambu CPDOC, 1999.

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POVOAMENTO DO PIRAMBU

Com a crescente onda de migrações em 1932, e consequentemente, o aumento de flagelados na Capital, campos de concentração foram criados para alojar essa população. O campo do Urubu, conhecido por Pirambu atualmente, foi local de abrigo para muitos. E é dessa necessidade por habitar, que o bairro Pirambu se origina O termo Pirambu significa uma espécie de peixe roncador. É uma denominação em tupi-guarani, e foi atribuído esse nome ao local devido a este peixe, também conhecido por Sargo-de-beiço, riscadinha ou boca-mole. De acordo com antigos moradores, a região foi primeiramente ocupada por pescadores e possuía muitos peixes dessa espécie, dotando os samburás dos pescadores. Nesse período, o bairro começa a se configurar como insalubre, com péssimas condições de habitabilidade, tomado por vários casebres, servido de pouca infraestrutura, saneamento, sendo conhecido por local dos esquecidos, dos flagelados e de vulnerabilidade social. O processo de favelização do bairro se inicia então na década de 1930, com suas dunas, paisagem natural da orla fortalezense, sendo predatoriamente ocupadas por pequenas construções rudimentares em madeira, taipa e papelão. A paisagem de dunas brancas, coqueiros e lagoas se modifica, e o bairro vai se transformando. Aglomerados em péssimas condições de salubridade, a população flagelada passou a ocupar o território cujo haviam constantes

lutas pelo espaço para habitar, conflitos entre os moradores, insegurança e estigmatização do bairro como um local violento, de miséria e precário para se viver. Segundo Silva (1999, apud CAVALCANTE ¹, 2016, p. 22):

“Havia barracos de três metros de largura por quatro de comprimento que abrigavam uma família numerosa, com apenas uma divisão no meio. Aqueles barracos serviam de chatô. Era muito comum. O desrespeito reinava com toda autoridade. Era o meio de ganho daquela gente errada. Certas mulheres tinham cinco homens, e os filhos eram uma mistura de toda qualidade. A fome comandava todas as ações. As crianças eram verdadeiros faquires. ... Nada de bom podia se encontrar. Nunca o Pirambu foi visto a olho nu pelos poderes do Ceará. Tudo de ruim se procurava nesse Pirambu e se encontrava. Lugar da indiferença, o Pirambu vai se consolidando como uma das maiores concentrações populacionais do Ceará na época. Com o fim da Segunda guerra mundial e a queda do Presidente Getúlio Vargas, na década de 1940, o Brasil apresentava um clima democrático. Partido como o PCB (Partido Comunista Brasileiro), fundado por intelectuais, estudantes e operários, começou a ganhar força e ter seus ideais disseminados em terrenos de exclusão, nas favelas brasileiras. A zona oeste fortalezense, possuía um grande aglomerado populacional, principalmente no eixo industrial na Avenida Francisco Sá, sendo 62

CAVALCANTE ¹, Raimundo. Pirambu – Coleção Pajeú. Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora, 2016.


um polo de populações carentes e operários, que queriam melhores condições de vida. Lá, as ideias comunistas floresceram no território dos excluídos, e logo se instalaram no bairro, dotando a população de consciência politica. Por influência do PCB, os moradores do bairro começaram a se organizar e reivindicar pela garantia de seus direitos. O partido teve grande relevância na formação, organização do bairro e dos movimentos sociais, contribuindo para a conscientização de seus direitos à terra urbanizada e por melhores condições de trabalho. O PCB estava sempre presente na luta do povo operário da região oeste, através da criação do Comitê Democrático de Libertação Nacional, presente no Pirambu. Outro agente de transformação do bairro foi a Igreja, uma instituição que possuía uma liderança, o padre Hélio, que foi capaz de articular pessoas e comandar uma marcha de luta pela inclusão e cidadania no bairro. O padre Francisco Hélio Campos, foi designado como Pároco do Pirambu em 1958, onde inicia-se uma nova etapa e a igreja tornasse hegemônica no processo de organização e luta do Pirambu. Também em 1958, o Pirambu é reconhecido como bairro pela Prefeitura. Devido a esses dois agentes atuantes, nesse período as questões da propriedade de terra, do acesso aos transportes, saúde, água, eletricidade entre outras, tornam-se discussões debatidas pela população, que ansiava por mudanças sociais e sobretudo, urbanas.

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Figura 3: Primeiras ocupações do Pirambu. Fonte: Arquivo Nirez. Centro de Pesquisa Popular, Documentação e Comunicação do Pirambu - CPDOC, 2008. Disponível em http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/16316/1/2010_dis_rmfqueiroz.pdf . Acesso em 19/05/2017


PADRE HÉLIO CAMPOS E A LUTA SOCIAL O período compreendido entre 1950 e 1970 é marcado pela forte presença da Igreja, e em especial do Padre Hélio Campos, transformando a comunidade com a criação de uma Escola de Lideranças e o Centro Social Paroquial Lar de todos (CSPLT), este último em 1964, sendo o centro essencial como parte de uma estratégia político-religiosa para difusão de valores e crenças do Padre Hélio. A fim de facilitar a organização da comunidade e o trabalho da CSPLT, esta foi dividida em quatro zonas: Arpoadores, Casa Nova, Japão e João XXIII.

As gafieiras eram bastante usuais durante esses anos, situadas na Rua Nossa Senhora das Graças, surgiram as famosas gafieiras denominadas de Maracangaia, Pau-do-Meio, Gozo do Siri e Castanholeira (devido ao um pé de castanhola). Em noites de lua cheia e ao som de violas, as danças ocorriam em espaços abertos, com botecos que lhes forneciam suporte.

Nesse período, eram constantes as manifestações culturais no bairro como o forró da Castanholeira e a utilização das radiadoras no bairro, onde habitualmente a população enviava mensagens e dedicava músicas para pessoas a quem se queria homenagear. Segundo o CPDOC (1999, p. 20): Isso era uma rotina no bairro. Onde hoje é a Leste-Oeste, logo após a rua da Felicidade, tinha uma por nome de Seu Manoel. Com o objetivo da mensagem a pessoa ali ficava sentada e bebendo, curtindo sua saudade ou a sua chegada de uma paixão. A radiadora funcionava como uma radiola. O barulho era

Figura 4: Padre Hélio Campos. Fonte: Fortaleza em fotos. Disponível em: http://www.fortalezaemfotos.com.br/2012/08/. Acesso: 19/05/2017.

grande e funcionava o dia todo.

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MARCHA DE 1962

A partir de 1957, grileiros e supostos “donos” das terras do Pirambu começaram a surgir. A terra, onde em 1932 era terreno de retirantes e flagelados, agora possuía donos interessados no seu valor de mercado. Supostos herdeiros da família Braga Torres apareceram na região reivindicando sua posse, e exigindo a expulsão dos moradores do local. Diante das ameaças, os anos 60 se iniciam com uma fase de forte resistência dos pirambuenses ao despejo, marca a presença do Padre Hélio e seu engajamento na luta pela terra. Durante cerca de dois anos, moradores se organizaram em reuniões de quarteirões e missas, a fim de realizar uma marcha, a marcha de reivindicação de direitos, da democracia. A marcha do Pirambu, de 1 de janeiro de 1962, foi um marco cidadão muito importante para não só a região, mas para a cidade de Fortaleza. Esse movimento, que deu voz aos mais pobres e clamou por inclusão e direito à moradia, mudou a ideia que a cidade possuía do bairro e estreitou as relações sociais entre moradores, unindo a comunidade a lutar pelas suas causas e direitos. A sociedade fortalezense estigmatizava o Pirambu como local da desordem, da violência estampada nas manchetes dos jornais e tinha temor ao bairro. Depois da marcha, a sua imagem foi mudando, e dessa forma, foi adquirindo respeito e legitimidade da manifestação pública.

Figura 5: Notícia sobre a marcha do Pirambu, em dezembro de 1961. Fonte: Correio do Ceará. Disponível em: http:// www.fortalezanobre.com. br/2012/07/marcha-do-pirambu.html. Acesso em 19/05/2017.

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A marcha reuniu entre 20 e 40mil pessoas, comprovando o poder da coesão social e da organização dos moradores e com o apoio e liderança do Padre Hélio, de militantes do PCB e de lideranças sindicais. De acordo com o Centro de Pesquisa Popular, Documentação e Comunicação do Pirambu – CPDOC (1999, p. 23), o Hino do Pirambu: Vem ver oh! Fortaleza O Pirambu passar Somos pessoas humanas Temos direitos que ninguém pode tirar Somos cristãos que não temem O cristo é o nosso ideal Por Ele todos faremos A reforma social. Pirambu marchar Pirambu marchar Por um mundo melhor Vamos lutar Após a marcha de 62, o bairro se tornou um dos pioneiros e reunir sua população de forma organizada e se destacou entre os Movimentos Sociais Urbanos de Fortaleza. Como resultados obtidos, a região conquistou seu direito à terra através do Decreto nº 1.058 de 25 de maio de 1962, cujo conteúdo trata da desapropriação de duas áreas de terra situadas no bairro, sendo necessárias o melhoramento habitacional e execução de plano de urbanização e obras de higiene, abertura de vias e logradouros públicos. Após a desapropriação, foi acordado que cada morador poderia possuir apenas uma casa, entretanto, começou a haver processos de especulação imobiliária dentro da própria comunidade, onde alguns moradores queriam possuir mais de uma casa para fins de aluguel. Em

1969, Padre Hélio sai da paróquia do Pirambu. m 1973, foi inaugurada a Avenida Presidente Castelo Branco, ou Leste-Oeste, que hoje é um dos limites do bairro do Pirambu. A CSPLT é extinta, e em sua localidade é construída o Centro Educacional Moema Távora. A maternidade Nossa Senhora das Graças é erguida. Nesse período percebe-se a intervenção de algumas autoridades públicas no bairro, bem como obras de infraestrutura. A partir de 1976, várias normas formas de luta foram se estabelecendo na comunidade. Associações de moradores foram sendo organizadas, todas lutando por algo em comum: a melhoria da qualidade de vida dos pirambuenses. Nos anos 1980, percebe-se uma grande movimentação social, onde diversas associações vão se formando, dividindo o movimento e passando a lutar por causas imediatas, de acordo com as necessidades do momento, traduzidas em soluções muito localizadas. Atualmente, o bairro possui algumas associações e conselhos, que lutam pelo direito à terra e por melhorias urbanas. Nos últimos quinze anos, a região vem passando por mudanças com a construção do calçadão do Vila do Mar e por pequenas melhorias como a troca de pavimentação e reestruturação do polo de lazer da Areninha do Pirambu. O processo de transferência da propriedade para as famílias do Pirambu ainda está ocorrendo e tem até cinco anos para ser finalizado. A seguir, uma linha do tempo será apresentada com os principais acontecimentos, desde a formação aos dias de hoje do bairro. Figura 6: Linha do Tempo do bairro Pirambu. Fonte: Elaborado pela autora, 2017.

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LINHA DO TEMPO

Primeiras ocupações do Pirambu Primeiros casebres se instalam as margens do litoral oeste fortalezense, no campo de concentração do Urubu

1915-1930

migrações campo-cidade

1930-1940

1940 1957 Grileiros ameaçam a permanência da comunidade /1958 - chegada do Padre Hélio Campos

Secas de 1915 -1932

Início do processo de organização dos moradores PCB cria sede no Pirambu Aumento da população do bairro e falta de assistência do governo

1950-1960

Organização e articulação da população

1962 Início da especulação imobiliária no bairro

Marcha de 1962

1992- Decreto n º 1058 de 25 de maio de 1962

1960-1970

1960- criação da SECAI - Sociedade Esportiva e Cultural Arco-Íris. 1964 - criação da Fundação do Centro Social Paroquial Lar de todos

1970-2000

Inauguração da Av. Presidente Castelo Branco Criação de novas associações de moradores e entidades no bairro

2003 - Construção do Vila do Mar Início do processo de Regularização Fundiária

2000-2017 69


ARTE E CULTURA NO PIRAMBU CHICO DA SILVA Francisco Domingo da Silva, ou Chico da Silva, morou no Pirambu desde a infância, em 1935. Filho de mãe cearense e pai um índio peruano, Chico passou a ser conhecido como o “indiozinho débil mental” que rabiscava muros e paredes da região. O artista plástico foi descoberto ainda da década de 40 pelo suíço Jean-Pierre Chabloz, ao avistar as pinturas feitas por Chico em paredes dos casebres no Pirambu. Encantado por sua arte, Chabloz o ensinou as técnicas de pintura com tinta guache e a óleo, e um tempo depois, Chico da Silva teve suas obras reconhecidas internacionalmente na XXXIII Bienal de Veneza e no Palácio de Buckingham, onde sua obra fora adquirida pela Rainha Elizabeth II. O artista não teve influência de outros estilos ou escolas de pintura e utilizava técnicas como carvão para pintar muros. Seu traçado possuía uma riqueza em detalhes e abstrações, representando em sua maioria animais, dragões, peixes e sereias coloridas. De acordo com Cavalcante (2016, p. 58): Como tinta, usava folhas maceradas e argila ou outra coisa de onde extraísse cor para expressar-se por meio dos desenhos saídos de sua alma fantasiosa, de onde provinha um perene bestiário de animais fantásticos, híbridos: galos-peixes-cobras-cães-dragões nascidos dos confins de suas reservas inesgotáveis e ignotas abastecidas, creio eu, por sua ancestralidade amazônica.

Figura 7: Chico da Silva. Fonte: galeria estação. Disponível em: http://www. galeriaestacao.com.br/artista/39. Figura 8: Pintura a óleo de Chico da Silva. Fonte: Museu do sol. Disponível em: http://www. museudosol.art.br/Menu/ lightbox/franciscodomingossilva.html. Acesso em 19/05/2017.

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CAPÍTULO 2

UM OLHAR SOBRE O PIRAMBU

DIAGNÓSTICO

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Localização e População

Para o desenvolvimento da proposta de intervenção no Pirambu, foi necessário um diagnóstico do Bairro, através de uma investigação realizada com a população frequentadora do bairro, e da observação dos espaços de uso comum do mesmo. Na escala metropolitana, o bairro Pirambu está inserido na zona Oeste do Município de Fortaleza, na Zona Especial de Interesse Social do Tipo 1 (de Ocupação) - Zeis do Pirambu. Definidas pelo Plano Diretor Participativo de Fortaleza, a ZEIS 1 é composta por assentamentos precários irregulares, em áreas públicas ou particulares, sendo áreas destinadas a regularização fundiária, urbanística e ambiental. Um um dos objetivos dessa zona -IV –é ampliar a oferta de infraestrutura urbana e equipamentos comunitários, garantindo a qualidade ambiental aos seus habitantes. Sendo assim, a área escolhida é potencialmente favorável a adoção de propostas de requalificação urbana uma vez que esses projetos podem atuar na melhoria da qualidade de vida da população e trazer ganhos para sociedade. No entorno imediato, a comunidade está dentro do perímetro definido pela Avenida Presidente Castelho Branco (Leste- Oeste), R. Santa Inês (Vila do Mar), Avenida Pasteur e Rua Eduardo Studart. Segundo base de dados do IBGE relativos à escolaridade, renda e acessos a serviços de saneamento (abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo) esta 76


é uma área de alta vulnerabilidade socioambiental, onde se associam pobreza, precárias condições de saneamento e exposição a riscos ambientais. A renda mensal básica por chefe de família é de 1 salário mínimo e a média e moradores por domicílio é de 3,65. A ocupação do território se iniciou, como dito anteriormente, a partir do início de década de 1930, possuindo áreas consolidadas e não consolidadas, essas últimas, situadas próximas a faixa de praia. Atualmente o bairro possui uma população estimada em 17.775 habitantes (IPECE 2012), sendo 26,2% de crianças de 0-14 anos, 19,1% de jovens entre 15-24 anos, 44,2% de adultos entre 25-59 anos e 10,4% de idosos entre 6089 anos. O gráfico de distribuição por faixa de idade ilustra a grande quantidade de jovens e crianças no bairro ,sendo juntos o responsável por quase 45% dos moradores da região. crianças (0-14) anos jovens (15-24) anos

adultos (25-59) anos idosos (60-89) anos

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Para o reconhecimento da malha urbana do bairro e dos principais pontos de interesse propícios a intervenções, o mapa 2 foi realizado como um levantamento, caracterizando os espaços livres existentes pelos usos que nele ocorrem, com base em observações locais e entrevistas aos moradores.


MAPA 1 0

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200m

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MAPA 2

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Espaços Livres x Espaços Edificados A partir de observações da comunidade, foi possível perceber a grande quantidade de espaços edificados, e poucos espaços livres (MAPA 3). Densamente ocupado, o bairro é caracterizado pela carência de espaços livres. totalizando 447.179 m2 de área, o bairro apresenta apenas 24,8% de áreas livres (80.862m2) e 75,2% de área edificada (366.317 m2). O mapa 3 mostra a relação entre as edificações, em cinza, e os espaços resultantes livres Devido ao processo de ocupação predatório, habitações vão se consolidando a toda sorte, sobrando espaços internos, que são denominados de vias, becos e vielas. O gráfico abaixo ilustra a porcentagem entre os espaços livres e os espaços edificados computados.

Apesar de poucos espaços livres remanescentes, visível a ocupação dos espaços livres no Pirambu para atividades cotidianas, como estender roupas e brincar. Ao longo de seus percursos labirínticos, foram observados seus espaços residuais, espaços de transição e espaços de permanência, identificando os principais pontos de atratividade do bairro. Constatou-se que as vida ocorre por entre becos, nos passeios, pracetas. Assim, esses espaços foram analisados separadamente, e aqui chamados de interstícios urbanos, serão objetos de intervenção.

Espaços Construídos Espaços Livres

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Classificação dos interstícios urbanos

Após analisados, os interstícios urbanos aqui selecionados dentro do bairro Pirambu , que foram classificados em 9 tipos. São eles: Espigão, Viela, Depósito de lixo, Frente de água, Vias, Terreno Vazio, Praceta, Mar e Vazios naturais, como pode ser visto no mapa 4. O critério de escolha destes espaços se deu com base em entrevista com moradores, densidade de usos, capacidade de aglutinação de pessoas e pontos de referência da comunidade. Após a classificação geral, 6 espaços foram selecionados para intervenções urbanas, que podem ser vistos no mapa 4 , em tons de cinza.

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MAPA 3 0

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200m

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MAPA 4 0

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Entorno

A comunidade do Pirambu é uma área residencial localizada próximo a Areninha do Pirambu (antigo Kartódromo). Com residências de até 4 pavimentos, a região também apresenta residências de uso misto com comércios no pavimento térreo. A escala humana é adotada, onde é possível ver apropriação de muros, calçadas. A arquitetura vernacular com tijolos a mostra, cores e texturas diversas nos muros é característica das regiões periféricas da cidade, e se faz presentes também na região. A proximidade do mar marca a paisagem,a praia do Pirambu dá identidade do bairro bem como serve de ponto de atratividade para as comunidades vizinhas.

Figura 11 :Areninha do Pirambu. Fonte: esporteelazer. Disponível em : https://esportelazer. fortaleza.ce.gov.br/201605-19-20-27-40/endere%C3%A7os-das-areninhas.html. Acesso: 18/18/2017 Figura 12 e 13: desenhos de residências do bairro. De até 4 pavimentos, as edificações foram construídas em materiais simples, com ou sem revestimento externo.

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Usos e apropriações do espaço público

Durante as visitas ao Pirambu, o olhar foi sempre direcionado a capacidade de apropriação dos espaços livres pelos moradores e transeuntes. Apropriações de vielas para conversar, brincar, estender roupas foi bastante observada. Mesmo sem infraestrutura para isso, degraus, piso, muros, calçadas e janelas são utilizados frequentementes e são palcos das trocas sociais. Como os espaços das residências são pequenos, a rua assume o papel do centro da vida coletiva.

Figura 14:Moradores do bairro utilizam calçadas e vielas para sentar, conversar e brincar. Fonte: registrado pela autora, maio de 2017. Figuras 15 e 16: Utilização de passeios no bairro para trocas sociais. Fonte: elaborado pela autora, maio de 2017.

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Metodologia de avaliação dos espaços livres do Pirambu Os espaços livres públicos em assentamentos precários, como visto anteriormente, são espaços que ocorrem ao acaso, sem planejamento e condições adequadas. São áreas informais, residuais, entretanto muito utilizadas pelos moradores uma vez que existem carências desses locais em favelas e por servirem como extensão das atividades domésticas. São locais de grande sociabilidade, imersos em potencialidades, que, no entanto, são desperdiçadas, se encontrando muitas vezes em condições precárias de desenho urbano e infraestruturas necessárias. Essa metodologia de avaliação dos espaços livres e públicos em assentamentos precários busca compreender, caracterizar e analisar esses espaços, que são distintos daqueles compreendidos da cidade formal, dessa forma, necessitando uma nova abordagem e avaliação. Identificar potencialidades e criar métodos de análise qualitativas desses lugares urbanos são essenciais para que esses espaços sejam diagnosticados com eficácia e tornem-se objetos de intervenções e melhorias, principalmente por possuírem grande valor social e estarem situados em um território de carências e oportunidades – as favelas. A partir dessa avaliação e leitura criteriosa, que identifica potencialidades locais e firma o espaço comum como palco do encontro e das trocas sociais, será proposta uma organização dos lugares de convivência, possibilitando por meio do desenho e práticas urbanas criativas espaços que permitam seu

reuso e ressignificação, se tornem objetos de grande sociabilidade, de convívio e de qualidade urbana.

Figura 17: Diagrama conceitual. Elaborado pela autora, 2017.

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Etapas de Análise A primeira etapa de análise consiste na seleção dos interstícios urbanos em assentamentos precários de acordo com os critérios de Densidade, Usos e atividades, Acessos e ligações e Potencialidades. O método de seleção se baseia em entrevistas com moradores, observação dos espaços livres quanto a sua capacidade de atratividade de pessoas, potencialidades, usos e significações e a sua capacidade de conexão entre pontos de interesse. Na segunda etapa serão classificados os interstícios urbanos em 9 tipos: Espigões, Vielas, Depósito de lixo, Frente de água, Vias, Terreno vazio, Pracetas, Mar e Vazios naturais e dispõe os usos nessas regiões. (Ver anexo 20 e 21) A terceira etapa analisa os espaços de acordo com os critérios de: Acessibilidade/ Mobilidade, Continuidade / Permeabilidade, Segurança/ Conforto, Inclusão e Coesão social, Legibilidade, Diversidade/ Adaptabilidade, Resistência / Durabilidade, Sustentabilidade e Identidade. Serão realizados textos e apresentadas fotografias. A quarta etapa consiste na apresentação de um diagrama de densidade de ocorrência. O diagrama sintetiza as atividades ocorridas naquele interstício, relacionando-as aos edifícios que dão suporte às atividades e a morfologia existente. Fotografias, plantas, textos, mapas e análises qualitativas e quantitativas do espaço livre serão apresentadas. A quinta e última etapa traduz-se na elaboração de ferramentas, ações de micro intervenções urbanas, através de desenhos e mapas. 97

Todas as ações geradas visam potencializar o uso e apropriação desses espaços e promover a coesão social.


Etapas

2 ETAPA

1 ETAPA

Classificação dos interstícios urbanos em:

Seleção dos interstícios urbanos em assentamentos precários de acordo com Densidade

Usos e atividades

Espigão

Vielas

Depósito de lixo

Frente de água

ViasT

erreno vazio

Acessos e Ligações

Potencialidades

Pracetas

PRODUTOS: mapa de referências do bairro

98

Mar

Vazios naturais


3 ETAPA

4 ETAPA

diagnóstico gráfico qualitativo de cada interstício, levando em consideração os seguintes critérios:

Bom

Regular

Insatisfatório

Acessibilidade/ Mobilidade Diversidade / Adaptabilidade Continuidade/ Permeabilidade

Diagnóstico - Diagrama de densidade de ocorrência.

Croquis de análise espacial dos espaços selecionados,com identificação de usos existentes

5 ETAPA Proposição das iniciativas (práticas urbanas) e desenho do espaço público. Definição de novos usos, ressignificações.

PRODUTOS: desenho urbano, mapas.

PRODUTOS: Fotografias, plantas, textos, mapas e análises qualitativas e quantitativas do espaço livre.

Segurança/ Conforto Inclusão e Coesão Social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade PRODUTOS: Fotografias e textos Figura 18: Metodologia de trabalho. Fonte: alaborado pela autora, maio 2017. Figura 19 e 20: Moradores participando da primeira etapa. Fonte: acervo da autora, maio 2017.

99


100


101


102


CAPÍTULO 3

Classificação e avaliação dos Interstícios urbanos no Pirambu

Os 6 interstícios urbanos selecionados anteriormente, foram analisados separadamente, todos resultando em um diagnóstico em micro escala e soluções de micro práticas urbanas. Ao final, foi gerada uma tabela com os problemas, potencialidades, diretrizes projetuais e ações. A seguir será apresentado o diagnóstico de cada região estudada.

103


MAPA 5 - SELEÇÃO DOS INTERSTICIOS URBANOS NO BAIRRO DO PIRAMBU. 01 1- Vila do Mar - Percurso e paisagem

02 2- Espaço da Luz 3- Intestício a Beira Mar

03

04 4- Praça Chico da Silva

104


5- Pracinha Nossa Senhora das Graรงas

05 6- Viela Rua da Paz

06

105


106


107


Classificação:

1- Vila do Mar - Percurso e paisagem

Frente de água Usos:

Surfar

Descansar

Brincar

Espigão

Pescar

Andar de bicicleta

Nadar

Vender Contemplar /comprar a paisagem

Se bronzear Jogar futebol

Passear

O calçadão do Vila do Mar passou por processo de implementação desde 2013 no bairro do Pirambu, e não está finalizado, sendo a parte não urbanizada compreendida entre a Rua Santa Rosa e a Av. Pasteur. O calçadão possui ciclovia e uso constante dos moradores como local de sociabilidade. Nos espigões, também conhecidos como paredões, são locais de pesca, contemplação e locais que mulheres costumam bronzear-se. A faixa de praia é utilizada para jogo de futebol ao fim da tarde e para brincadeiras. O surfe é bastante praticado na região, desde a Barra do Ceará a 108


Areninha do Pirambu, no bairro Jacarecanga. Entretanto frequentadores da região reclamam que a falta de iluminação pública e acessos à faixa de praia tornam a região perigosa e de difícil acesso. O calçadão Vila do Mar e os espigões foram caracterizados em nove critérios em cinco níveis, de acordo com as cores abaixo, que são avaliadas do verde ao vermelho (em bom, regular ou insatisfatório) o nível de qualidade do espaço.

Regular Bom Acessibilidade / Mobilidade

Insatisfatório

Diversidade / Adaptabilidade Segurança / Conforto Inclusão / Coesão social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade Continuidade / Permeabilidade O passeio possui ciclovia e postes de iluminação. Não há bancos ou arborização pública. O calçadão não se conecta com a orla oeste, terminando ainda no bairro do Pirambu e continuando no Cristo Redentor. Os pisos de pedra Cariri e cimentício foram implantados no Vila do mar e são de grande durabilidade. A região é conhecida, segundo os moradores, pela insegurança. A baixa ilu109


minação, principalmente na faixa de praia, nos espigões e a qualidade do espaço público são fatores que podem contribuir para a disseminação de atividades ilícitas no local. Entretanto a região é bastante utilizada pelos moradores, e mesmo sem bancos ou escadas de acesso os mesmos improvisaram estruturas em madeira. Após a análise do espaço e sua caracterização, algumas práticas urbanas foram pensadas de modo a não só a aproveitar os usos e oportunidades locais, mas também para prover novas atividades e dar suporte as atividades já existentes.

ques, sinalização vertical e horizontal, cinema ao ar livre, anfiteatro e arborização urbana. Nos espigões além de pavimentação, iluminação pública e mobiliários para contemplação, serão criados píeres para ancoragem de embarcações. O projeto pretende a interligação entre bairros por via terreste e marítima e a melhoria do espaço público existente.

DIAGRAMA DE DENSIDADE DE OCORRÊNCIA pular corda

andar de bicicleta

andar de bicicleta

conversar contemplar a paisagem

Ações Geradas:

vender

brincar na areia

jogar futebol surfar

se bronzear

pescar

se bronzear

pescar

ações praticadas

pescar

Assistir

Vender/ comprar

Navegar

Ao analisar este espaço e entendersua dimensão e extensão, compreendidos fora do limite do bairro, as práticas e intervenções previstas para este espaço são voltadas para integrar o Pirambu ao Vila do Mar existente que percorre os bairros da Barra do Ceará e Cristo Redentor a oeste e o bairro Jacarecanga, a leste. Nesse sentido, equipamentos e mobiliários de grande dimensão e atratividade foram pensados para esta região, complementando os já existentes. Para tal, será realizado o projeto Novo Vila do Mar, de aproximadamente 600m de extensão, cujo trecho urbanizará a orla do Pirambu e interligará o Vila do Mar existente. Será realizada a implementação de novos equipamentos urbanos e mobiliários tais como bancos, mesas, rampas, escadas, academia ao ar livre, quios-

casas casas calçadão

faixa de praia

espigão

espigão

espigão

objetos e edifícios relacionais

vielas casas

Vila do Mar

espigão espigão

110

espigão

morfologia


Vila do Mar - Percurso e Paisagem

Problemas

Potencialidades

Ocupação irregular em área de risco. Má qualidade da água na orla do Pirambu. Obstrução do acesso à praia.Carência de mobiliário urbano (bancos, postes, bicicletários) e vegetação.Degradação paisagística e ambiental (erosão) com regiões de baixo atrativo turistico. Problemas relacionados com a precariedade dos serviços publicos e de moradia.

Turismo, pesca sustentável e valor paisagístico, histórico e cultural para a cidade de Fortaleza.

Diretrizes

Valorização da paisagem e dos recursos hídricos existentes.Melhorar a condição de habitabilidade local.Estimular a prática de esportes marítimos, a pesca sustentável e a utilização dos recursos naturais de maneira eficiente. Garantir acessibilidade aos portadores de necessidades especiais. Requalificar a área urbanizada, principalmente o calçadão existente Vila do mar. Incentivar tipologias diversas de espaços publicos.Reestabelecer a margem como espaço público, livrando-a da condição de degradação e insalubridade. Gerar emprego, renda e estimular o desenvolvimento econômico da região.

Programa de Necessidades

Anfiteatro, Quiosques, Piscina pública de água salgada, escadas e rampas de acesso à faixa de praia, arborização e iluminação pública, academia ao ar livre, mobiliário urbano, píer para embarcações.

Ações

Realocação de famílias da área de risco para outra localidade com infraestrutura e serviços urbanos em até 3 km da região. Regularização fundiária de imóveis. Projeto paisagístico da orla e de urbanização para o usos sustentável da faixa de praia. Criação de roteiros culturais aquáticos e percurso orla. Implementação de transporte modal aquático individual e coletivo.

111


O terreno vazio teve sua ocupação preservada por ter um desnível acentuado e ser possivelmente uma das fozes da bacia da Vertente Marítima. Devido a declividade acentuada e a carência do serviço de coleta , o local tornou-se um reservatório de lixo a céu aberto. Ao se aproximar da região, pela falta de urbanização e a presença de lixo, o local torna-se inseguro, violento e de certa forma apenas acessível aos moradores que residem próximos. Apesar do estigma violento desta área, crianças brincam nesse espaço e até mesmo no lixo, em meio ao mal cheiro e animais.

2 - Espaço da Luz

O local não possui nenhum tipo de tratamento, com o acúmulo de lixo na depressão do terreno. Não há bancos e as crianças brincam em meio ao lixo espalhado. Sofá improvisado e uma árvore nos quintais das casas servem como ponto de sociabilidade

Regular Bom Insatisfatório Acessibilidade / Mobilidade Diversidade / Adaptabilidade Segurança / Conforto Inclusão / Coesão social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade Continuidade / Permeabilidade 112


Ações Geradas

jogar bola

jogar

comprar/ descansar vender

De acordo com as entrevistas realizadas, os moradores gostariam que o local se transformasse em um ponto de encontro, com mobiliário e iluminação adequadas, além da retirada do lixo da área. A instalação de uma passarela de materiais duráveis também foi solicitado. Por ser um local de passagem e conexão das vias e vielas, dando acesso às residências e estar próximo ao futuro Vila do Mar, as intervenções na área contarão com o redesenho da paginação, estruturas para comércio, mobiliários multi uso, brinquedos, um pequeno campo e arborização.

113


DIAGRAMA DE DENSIDADE DE OCORRÊNCIA brincar

vender comprar conversar

ações praticadas

passarela

casas casas comércio

objetos e edifícios relacionais

viela

casas casas comércio via

casas

morfologia

114


Espaço da Luz Problemas

Potencialidades

Contaminação dos recursos hídricos com o acúmulo de lixo e despejo irregular de dejetos sólidos. Mal cheiro, poluição e ausência de saneamento básico. Ocupação irregular em área de risco.

Espaço residual de reunião comunitária e constante fluxo de pedestres.

Diretrizes

Fortalecer a organização comunitária e estimular a preservação ambiental. Recuperar a paisagem litorânea. Estabelecer medidas para redução da poluição dos corpos hídricos através do controle das cargas difusas. Remover barreiras e criar atrativos para a população. Manter os usos consolidados e a população local. Possibilitar acesso seguro ao mar. Melhorar a acessibilidade do pedestre.

Programa de Necessidades

Mobiliário urbano , biovaletas, palco multiuso, escadaria e passagem em nível.

Ações

Removeções de habitações insalubres, construção de passeio à beira mar. Criação de escadaria de acesso. Requalificação do espaço residual.

115


Classificação:

3- Interstício a Beira Mar

Terreno Vazio Usos:

Conversar na varanda

Conversar

Brincar

Sentar-se a calçada

O interstício à beira mar foi criado em 2015, resultante das remoções do processo de regularização fundiária e construção do calçadão do Vila do Mar. A prefeitura de Fortaleza, segundo os moradores, assegurou que o espaço seria destinado para a instalação de equipamento de ginástica. Atualmente, o interstício não possui um uso bem denifido e é apenas um vazio. As suas calçadas são ocupadas por vezes por animais e pessoas que se sentam para conversar. A avaliação dos aspectos qualitativos desse espaço se deu em nove critérios, em níveis definidos por cores. 116


Escala de cores

Regular Bom Acessibilidade / Mobilidade

Insatisfatório

Diversidade / Adaptabilidade Segurança / Conforto Inclusão / Coesão social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade Continuidade / Permeabilidade O espaço recebe influência direta das resiências em sua frente. Apesar de pouco uso, os moradores gostariam que o espaço fosse destinado às crianças. A pavimentação de pedra cariri é bastante resistente e plana. Por ser situado em frente ao calçadão do Vila do Mar, o espaço possui grande potencialidade para abrigar novos usos e servir como extensão das residências vizinhas.

117


Ações Geradas:

DIAGRAMA DE DENSIDADE DE OCORRÊNCIA estender roupas sentar-se

conversar

estender roupa

descansar

ler atravessar

conversar andar de bicicleta

As intervenções nesse interstício visam dar suporte as ações pré-estabelecidas como estender roupas, sentar-se e conversar. Por atualmente não ter uma função bem estabelecida, segundo os moradores a partir de entrevistas realizadas , o local poderia ser destinado para funções esportivas com equipamentos de ginástica ou ser uma praceta. Por a proposta de intervenção no Novo Vila do Mar possuir equipamentos de ginástica, optou-se por locar equipamentos multi usos para estender roupas, bancos, iluminação pública e arborização. O local servirá como um pequeno ponto de encontro, com uma lavanderia coletiva.

ações praticadas casas

casas

janelas abertas

casas

objetos e edifícios relacionais

casas

viela

via

casas

via interstício à beira mar vila do mar

118

morfologia


Interstício a Beira mar Problemas

Potencialidades

Diretrizes

Programa de Necessidades Ações

Terreno sem uso pela comunidade local

Usos e apropriações da população local nos passeios existentes, e muros para estender roupas, conversar.

Promover o espaço público para o desenvolvimento de atividades sociais e culturais. Incentivar o uso do logradouro, com a criação de equipamentos e espaços de permanência. Encampar as reinvidicações da comunidade. Bancos, mesas, arborização urbana, mobiliário para estender roupa.Rampas de acesso e sinalização da via.

Implementação de mobiliário urbano (bancos, mesas postes de iluminação) e arborização.

119


Classificação:

4- Praça Chico da Silva Terreno Vazio Usos: E

Conversar na varanda

Estacionar

Sentar-se a calçada

Conversar na calçada

Neste terreno antigamente funcionava uma escola de ensino fundamental, que foi demolida há pelo menos dois anos e hoje encontra-se sem uma função específica. Veículos utilizam o espaço apenas como estacionamento, e as pessoas não costumam usar o terreno para outros fins, apenas circulam no seu perímetro.

120


Para classificação do espaço, foram atribuídos níveis de qualidade em cores do verde ao vermelho. Como o terreno não possuía nenhum tipo de mobiliário, iluminação ou usos diversos, não foi possível determinar com precisão os fatores qualitativos do espaço.

Escala de cores

Regular Bom Acessibilidade / Mobilidade

Insatisfatório

Diversidade / Adaptabilidade Segurança / Conforto Inclusão / Coesão social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade Continuidade / Permeabilidade

Por ser um espaço não construído, muitos critérios na avaliação não puderam efetivamente ser levados em consideração. As ações geradas nesse espaço tem o objetivo de abrigar um edifício comunitário e espaços de arte e lazer. As ações geradas foram grafitar, expor pinturas, dançar, comer, comprar, vender e brincar.

121


DIAGRAMA DE DENSIDADE DE OCORRÊNCIA

estacionar

caminhar

ações praticadas

janelas abertas

comércio

edifícios e objetos relacionais

casas

comércio

vias Terreno

casas

morfologia

122


Praça Chico da Silva Problemas

Potencialidades

Terreno sem uso pela comunidade local

Terreno subutilizado com localização central no bairro e de acesso a infraestrutura e próximo de equipamentos como escolas.

Diretrizes

Promover o espaço público para o desenvolvimento de atividades sociais e culturais. Garantir o cumprimento da função social da propriedade. Conferir identidade ao espaço urbano. Criar pontos de convivência Promover o sentimento de pertencimento do cidadão e da identidade coletiva, a partir da recuperação e projeto do espaço urbano. Promover o envolvimento da comunidade por meio da arquitetura.

Programa de Necessidades

Centro comunitário (salas multiuso para oficinas e aulas, lavanderia comunitária, estúdio de música, banheiros e salas para consultas) Praça (mobiliário urbano - bancos, mesas, pergolados, estruturas para comércios, muros para arte local, horta comunitária, espaços multiusos).

Ações

Criação de um centro comunitário e de aprendizagem em parte do terreno e uma praça. Redesenho de paginação e criação mobiliários de maneira a resgatar lembranças importantes do passado histórico da comunidade, promovendo um grande espaço coletivo no terreno a ser utilizado.

123


Classificação:

5 - Pracinha Nossa Senhora das Graças

Praceta Usos: E

Conversar na varanda

Brincar de pião

Fazer exercícios

Brincar

Conversar Estacionar

Rezar

Sentar-se a calçada

A praceta Nossa Senhora das Graças, também conhecida como pracinha do Chafariz, é um dos poucos espaços livres formais do Pirambu e que se apresenta como um ponto de referência marcante do bairro. Limite com as vias Dom Quintino e Travessa Deuzimar, a área em destaque é bastante apropriada pela população local. A praceta recebeu obras de requalificação no ano de 2015, com a troca da pavimentação, bancos e a introdução de equipamentos de ginástica, brinquedos e uma estátua de Nossa Senhora das Graças. Dentre os principais usos observados durante a visita de campo pode-se citar : conversar na varanda, brincadeiras diversas como brincar de pião, correr, andar de bicicleta, pintar, vender alimentos e objetos, conversar, fazer 124


exercícios, rezar e sentar-se a calçada. Com as visitas realizadas em quatro ocasiões, nos períodos vespertino e norturno, foi possível perceber uma enorme capacidade de apropriação dos moradores pelo espaço público e o desdobramento de atividades em períodos e dias diferentes, como a realização da “Terça da mulher”, evento em que mulheres se reunem para rezar às terças-feiras e da disposição de uma cama elástica para crianças brincarem aos sábados. Durante o percurso deste espaço público foi possível perceber que quanto mais se aproximava do mesmo, mais pessoas se reuniam à calçada, jogavam jogos de tabuleiro nas estreitas vielas e se reuniam ao redor do logradouro público. Quanto mais próximo, mais pessoas, e maior sensação de segurança. A praceta Nossa Senhora das Graças foi caracterizada em nove critérios em cinco níveis, de acordo com as cores abaixo, que são avaliadas do verde ao vermelho (em bom, regular ou insatisfatório) o nível de qualidade do espaço.

Regular Insatisfatório Bom Acessibilidade / Mobilidade Diversidade / Adaptabilidade Segurança / Conforto Inclusão / Coesão social Legibilidade Resistência / Durabilidade Sustentabilidade Identidade Continuidade / Permeabilidade 125


A praceta, por ter sido alvo de recente reforma, teve sua troca de piso realizada para a Pedra Cariri, sendo este um material durável e de certa planinicidade. Os bancos, feitos do mesmo material, são igualmente duráveis, no entanto são de grande desconforto e não possuem apoios. Há a presença do piso tátil na praceta, entretanto apenas no perímetro interior a esta, não se conectando ao entorno. A ausência de faixas de pedestres, rampas e sinalização vertical também foram percebidas, o que dificultaria a mobilidade de pessoas idosas ou cadeirantes. Os brinquedos e alguns equipamentos de ginástica encontravam-se em mau estado de conservaçao. A disposição de bancos no interior da área analisada não favorece a troca de conversas ou reuniões, devido às relativas distâncias entre eles e a forma de implantação, em paralelismo. A presença de árvores contribui para melhora do microclima da área, sendo essenciais para sociabilidade em períodos de sol.

DIAGRAMA DE DENSIDADE DE OCORRÊNCIA conversar na calçada

telefonar

sentar-se a calçada

conversar na janela

rezar

comprar

comer

brincar

fazer andar de exercícios bicicleta

brinquedos

árvores

equip. de ginástica

janelas abertas telefone público estátua

ações praticadas

mesas bancos cadeiras

objetos e edifícios relacionais

comércio igreja

casas

interstício

rua casas

morfologia

126


Pracinha Nossa Senhora das Graças Problemas

Potencialidades

Diretrizes

Programa de Necessidades Ações

Não acessibilidade da área aos portadores de necessidades especiais . Intenso fluxo nas vias circundantes, criando barreiras e acesso à praça dificultado.

Intenso uso do logradouro público por parte da população local, sendo um pólo de atratividade e referência do bairro. Vitalidade do espaço público em vários horários do dia.

Proteger e aperfeiçoar os espaços destinados à reuniões e manifestações culturais. Melhorar a acessibilidade do pedestre Potencializar a vocação de recreação e lazer. Promover ligações entre bairros. Faixas de pedestre, rampas, piso tátil e passagem em nível. Mobiliário urbano (bancos, postes, brinquedos)

Determinação de uma Zona 30 para redução do tráfego no entorno da praceta. Implantação de rampas de acesso, travessias em nível, mobiliário e arborização urbana no local.

127


6 - Vias e Vielas

Classificação:

Vielas Usos:

Vias

Conversar na varanda

Plantar

Conversar Brincar

Sentar-se a calçada

Ruas e vielas da comunidade são bastante utilizadas pelos moradores para trocas sociais, como conversar, comer, brincar e sentar-se a calçada. Buscando potencializar seus usos, vielas e vias do bairro serão alvos de intervenções, que tentam adequar-se aos usos existentes. Estender roupas, sentar-se e brincar passa a ter mobiliários urbanos adequados.

128


Vias e Vielas Problemas

Potencialidades

Baixa iluminação e conforto térmico para transeúntes e moradores locais. Acúmulo de água/ formação de poças de água na pavimentação existente.

Espaço residual de reunião comunitária e constante fluxo de pedestres.

Diretrizes

Estabelecer medidas para redução da poluição dos corpos hídricos através do controle das cargas difusas. Estabeler padrão de qualidade do passeio com finalidade de assegurar condições adequadas de trânsito para pedestres. Promover o uso do espaço público para o desenvolvimento de atividades sociais Criar pontos de convivência. Melhorar a acessibilidade do pedestre. Incentivar a vitalidade urbana à beira mar

Programa de Necessidades

Mobiliário urbano , biovaletas, palco multiuso e passagem em nível.

Ações

Mobiliário urbano (bancos, mesas,paradas de ônibus, postes de iluminação) Faixas de ônibus e sinalização vertical e horizontal. Travessias em nível e rampas de acesso. Biovaletas,jardins de chuva. Arborização pública. Mobiliário multi uso (bancos, playgrounds, varais de roupa) Muros ativos (arte urbana). Horta vertical

129


01

nadar

se bronzear

brincar

contemplar a paisagem

pescar

jogar futebol

130


kitesurf

surfar

nadar

131


02

brincar

vender comprar sentar-se a calรงada

132


03 contemplar a paisagem brincar

andar de bicicleta

conversar

jogar futebol brincar

133


04

caminhar

a b

estacionar

134


05

exercitar-se conversar

andar de bicicleta brincar estacionar

comprar

jogar bola

rezar vender

135


06

estender roupa

conversar

brincar

136


06

conversar

andar de bicicleta

137


138


139


2


3


2


3


4


TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO UNIVERSIDADE DE FORTALEZA CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO

[RE]SSIGNIFICAR : uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu

Larissa de Almeida Loureto Professora Orientadora: Carla Camila Girão Albuquerque 5


SUMÁRIO VOLUME 02

RESSIGNIFICAR - UMA PROPOSTA DE INTERVENÇÃO DOS ESPAÇOS LIVRES DO PIRAMBU

CAPÍTULO 1 Memorial Justificativo 10

Conclusão

74

Plano de Intervenção e 14 MasterPlan Mobiliário urbano

18

Vila do Mar

22

Espaço da Luz

38

Intestício a Beira Mar

42

Praça Chico da Silva

46

Pracinha Nossa Senho- 52 ra das Graças Viela - Rua da Paz

56 6


7


8


CAPÍTULO 1

RESSIGNIFICAR: PROJETO URBANÍSTICO DO BAIRRO PIRAMBU

9


MEMORIAL JUSTIFICATIVO

Os espaços públicos podem ser compreendidos como palcos do espetáculo urbano, espaços da expressão coletiva da vida comunitária, da visibilidade dos diferentes grupos sociais e lócus das manifestações sociais e cidadãs. Em favelas, a construção desses espaços coletivos se dá muitas vezes de maneira espontânea, resultado das ocupações por residências, sendo caracterizados por espaços singulares, multifuncionais e carente de infraestrutura. Necessários à vida em coletividade, esses pequenos interstícios de uso comunitário se tornam lugares de grande potencialidade, uma vez que são bastante usados e apropriados por moradores locais para atividades, servindo como extensão das residências e espaços de trocas sociais. TEMA O tema central do projeto final de graduação está pautado no conceito de Ressignificação urbana, ou seja, na possibilidade de reintepretação de espaços públicos, de integração e atribuição de novos usos aos espaços comunitários .É proporcionar um novo olhar, reinventar o espaço público mesmo em locais precários e de pequenas escalas, concedendo novos significados em espaços de modestas dimensões e de grandes potencialidades. A construção da proposta se iniciou após visitas ao bairro do Pirambu, onde foi possível a partir da percepção dos espaços livres do local compreender sua a importância e necessidade em locais de carências, onde mesmo em

espaços repletos por lixo, crianças brincavam e se apropriavam de pequenos lugares urbanos. OBJETIVOS A finalidade deste trabalho é além da reflexão sobre os espaços livres em ambientes de carência, é a proposição de novas alternativas e interpretações do espaço coletivo em favelas, podendo servir como contribuição para uma possível requalificação. PARTIDO Os espaços livres de uso coletivo em assentamentos precários são ambientes de pequenas escalas, que podem ser entendidos como vielas ou terrenos resultantes da consolidação das casas, sendo utilizados para diversos fins. A figura 1 ilustra uma viela em um assentamento precário, que apresenta diversos usos como : estender roupas, brincar e conversar. A figura 2 apresenta uma possibilidade de intervenção utilizando-se dos usos preexistentes para desenvolver mobiliários de uso temporário e que podem abrigar distintas funções. A proposta de ressignificação desses espaços singulares de uso coletivo traz alternativas de mobiliários e projetos de requalificação de espaços existentes no bairro do Pirambu. Além de mobiliários multiusos e projetos de melhorias urbanas no bairro, proposições de ambientes mais acolhedores e que estimulem a coesão social fazem parte do escopo deste trabalho. A seguir, será apresentado com mais detalhes o local da proposta e as propostas de intervenção. 10

Figura 1: apropriação de espaços públicos. Fonte: acervo da autora, novembro de 2016.


11


PLANO DE INTERVENÇÃO E MASTERPLAN Após realizada a etapa de diagnóstico (ver Volume 1) , foram definidas as áreas de intervenção do projeto de ressignificação do bairro do Pirambu. Entre eles, estão a 1- a faixa de praia, com aproximadamente 600 m lineares e 1536m2; 2- Espaço da Luz; 3- Interstício a Beira Mar; 4- Praça Chico da Silva; 5- Pracinha Nossa Senhora das Graças; 6- Viela da Paz; e Rua Nossa Senhora das Graças. O plano de intervenção (figura 3) ilustra as áreas suscetíveis a intervenção urbana. A área 1: pertencente a faixa de praia, possui habitações em área de risco e não consolidadas. Para tal, seria necessárias remoções na região e a construção de um calçadão (Vila do Mar), interligando os passeios existentes do bairro Cristo Redentor a oeste, e do Jacarecanga a leste. Alguns moradores seriam reassentados para conjuntos habitacionais localizados no mesmo alinhamento da nova via a ser implementada. 2: O espaço da Luz seria uma região a ser urbanizada, com pavimentação, iluminação pública e a sofrer tratamento do recurso hídrico existente. 3: O interstício a beira mar é uma área sem uso atualmente, que receberia pavimentação adequada, e principalmente, mobiliários que atendessem aos usos pre existentes como varais para estender roupas e mobiliário urbano. 4: A praça Chico da Silva abriga duas funções,a primeira é a disposição de um edifício comunitário e a segunda é uma praça cen-

tral cujo principal tema é o resgate a memória cultural do bairro. 5: A Pracinha Nossa Senhora das graças, é bastante usada pelos moradores e serve como referência para o bairro. Obras de acessibilidade como passagens em nível, troca de pavimentação e implementação de mobiliários multiusos estariam previstas para o espaço. 6: Vielas: visando atender às necessidades locais, as vielas, espaços que servem como extensão das casas, são pontos de destaque nesta proposta. Com mobiliários lúdicos e funcionais para as atividades cotidianas, a intenção é dar um novo olhar para esses espaços, transformando-os em locais de permanência. Ruas: Para implementação do sistema de infraestrutura verde, a Rua Nossa Senhora das graças será a via que receberá jardins de chuva, que são essenciais para ajudar na drenagem da área, uma vez que apenas 75% do seu território é ocupado por edificações, dificultando a permeabilização do solo, assim, causando problemas como alagamentos no bairro.

12


13


MAPA 1 PLANO DE INTERVENÇÃO

LEGENDA

14


15


MAPA 2 MASTERPLAN 1

2 3

4

16


5 6 17


Mobiliário urbano

O mobiliário urbano foi projetado pensado para atender as necessidades locais. O conceito se deu a partir do símbolo do Peixe- O Pirambu. O arco e o quadrado,juntos, formam uma abstração da imagem do peixe. A partir dessa figura, foram propostas as criações de bancos, postes de iluminação, balizadores e mobiliário multiuso. Os materiais escolhidos levaram em consideração a alta resistência e conforto, tais como a madeira e o concreto.

18


19


20


21


(1)Vila do Mar - Percurso e paisagem

Cocos nucifera L.

Chamaecrista diplylla (L) Greene

AS REDES DO PIRAMBU Projetar a orla do Pirambu, é desenhar a identidade do próprio bairro. A água, o mar, o peixe, são características que contam a história do lugar, é a memória, é a paisagem costeira. O mar, percorre todo o perímetro norte do bairro, e é exatamente esta paisagem que faz referência as noções de permanências, de lugar, atribuídas pelos moradores da região. O peixe, chamado de Pirambu, é também o nome do bairro, conta a história de uma comunidade pesqueira, que até hoje usam as águas da Praia do Pirambu para pescar. Pensando na identidade, o partido foi concebido buscando unir a paisagem natural e arquitetura local, por meio de um percurso costeiro que potencialize a paisagem e os usos existentes na região, criando novas atratividades no calçadão do Vila do Mar. Integrado ao vila do mar existente dos bairros a leste Cristo Redentor, e a oeste, Jacarecanga, a proposta visa a criação de um espaço público atrativo e que se interliga ao bairro. Para a elaboração do projeto foram analisados os usos existentes na orla, espigões e faixa de praia, e produzido um diagrama de usos, onde foram constatados usos recreacionais como bronzear-se, portes, brincar, conversar, entre outros. Entrevistas aos moradores foram realizadas, onde as principais necessidades seriam relacionadas a acessibilidade a faixa de praia e mobiliário urbano. O programa de necessidades foi adaptado as atividades existes, onde foram

propostas piscinas de água salgada, anfiteatro, quiosques, píer, espigão, banheiros públicos e acessos dispostos no calçadão, conferindo ao espaço novas maneiras de apropriação. Os equipamentos propostos buscam, de diferentes formas, promover a interação social, e tem finalidade recreativa e de contemplação da paisagem costeira. Remoções A área é atualmente não urbanizada, com faixa de areia e edificações sobre a cota de alagamento, portanto, em área de risco. Foram contabilizadas para a viabilização do projeto 178 remoções em área de não consolidada (área de risco). DESENHO URBANO O percurso costeiro, tem um desenho de canteiros curvos, que remetem metaforicamente ao movimento dos peixes nas redes de pescas.O projeto de urbanização do Vila do Mar, está compreendido entre a Avenida Pasteur e a Rua Santa Rosa e com 1536m2 e quase 600 metros lineares de extensão, o projeto surge como uma imensa trama de linhas, pontuada por recortes, por onde surgem vegetação rasteira e árvores perenes. O passeio, possui dimensões variáveis, que foram desenhadas seguindo as curvas de nível existentes do terreno natural, e é construído sobre base de muros de gabião de 4 a 6 metros de altura, se integrando aos passeios pré existentes do vila do mar construído em 2015. 22

Inga edulis

Chamaecrista ensiformis (Vell.) H. S. Irwin & Barneby

03 150

Anancardium occidentale L.

Remirea maritma Aubl.

Piso intertravado de concreto poro so 40x40 na cor terracota

Piso intertravado de concreto poro so 40x40 na cor amarelo

Piso intertravado de concreto poro so 10x20 na cor cinza


0

01 50

04 CHEN 200 250 05 CONU 230 200

100m 05 ANOC 150 250 04 HAHE 280 300

02 ANOC 250

03 07 CHEN 200 250

03 COON 220 250

04

05 ANOC 150 250

04 CONU 230 200

05

07 CHEN 200 250

04 CONU 230 180

02 ANOC 150 250

03 CONU 230 200

05 CONU 230 200 04 CHEN 200 250 09 INED 300 220

o03 CHEN 200 250 03 CHEN 200 250

o-

03 ANOC 150 250

o-

01

02

03

04

23

05


O QUE QUEREM OS MORADORES?

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O QUE QUEREM OS MORADORES? Na etapa de diagnóstico, foi realizado um questionário aos moradores, cujo o objetivo final era reunir ideias do que poderiam tornar-se os espaços públicos existentes. Ou seja, o que os moradores consideram que seria necessário para aquele interstício urbano específico. Foi pedido para que eles anotassem em pequenos papeis coloridos as ideias e necessidades locais, como ser visto na figura ao lado esquerdo. Para o Vila do Mar, foi observado o calçadão existente e constatado a carência de acessos a faixa de praia. Ideias como escadas e rampas para acesso aos paredões (espigões) e faixa de praia são essenciais se tratando de uma paisagem costeira. Atualmente, o calçadão não possui bancos, lixeiras ou árvores, dessa forma, foi pedido pelos moradores tanto para o trecho existente como para o próximo trecho a ser construído a implantação de mobiliários urbanos. PAISAGISMO Para a escolha das espécies vegetais para composição paisagística foi levado em consideração a região a qual se insere o bairro, a região costeira cearense. As espécies típicas da região praiana dessa região são conhecidas por vegetação de restinga, e foram adotadas devido suas características de fácil adaptação as condicionantes climáticas. Também conhecida como vegetação pioneira psamófila, é caracterizada por ser uma vegetação predominantemente herbácea, com espécies resistentes à alta salinidade, escassez de nutrientes do solo, altas temperaturas, alta insolação e elevada mobilidade da areia. Dessa forma, diversos tipos vegetais foram empregados, sendo as principais espécies de porte arbóreo o cajueiro da praia (Anacardium occidentale L.),coqueiro (Cocos nucifera L.)e pau-ferro-da-praia ( Chamaecrista ensiformis (Vell.) H. S.

Irwin & Barneby). Espécies herbácias, muito adaptadas aos ventos fortes da região, foram bastante utilizadas, dentre algumas estão: Erva-de-coração (Chamaecrista diphylla (L.) Greene), malva-da-praia (Sida ciliaris L), pinheirinho-da-praia (Remirea maritima Aubl). Os materiais utilizados, também pensados na durabilidade e resistência, foram os pisos de concreto porosos em cores quentes; terracota e amarelo, nas dimensões 40x40cm. A paginação é marcada por bloquetes de concreto intertravado na cor cinza, 06x10x20, e arrematada com blocos pré moldados de concreto. Tabela de Espécies Vegetais NOME CIENTÍFICO

CÓD.

NOME POPULAR

QTDE

CONU

Cocos nucifera L.

INED

Inga edulis

Inga

9

ANOC

Anacardium occidentale L.

cajueiro

18

CHEN

Chamaecrista ensiformis (Vell.) H. S. Irwin & Barneby

Pau-ferro da praia

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REMA

Remirea maritma Aubl

pinheirinho praia

CHDI

Chamaecrista diplylla (L.)

erva-de-coração

coqueiro

21

da

58m2 125m2

Cortes esquemáticos - Calçadão Vila do Mar

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Croquis -

Desenvolvimento

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Acesso

EspigĂŁo

Piscina

Acesso 27


Projeto

Deck

Quiosques 28


Anfiteatro

Piscina de รกgua salgada 29


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01

CORTE TRANSVERSAL ESPIGÃO

01

CORTE TRANSVERSAL PÍER


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01

PLANTA - QUIOSQUES


01

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CORTE - QUIOSQUES


MOBILIÁRIO URBANO Bancos, lixeiras e postes de iluminação seguem a linha padrão de mobiliários projetados para o projeto de ressignificação dos espaços públicos do Pirambu. Especificamente para essa área, um mobiliário lúdico para observar a paisagem através de lentes de aumento foi concebido, sendo posicionado em pontos do percurso da orla. Tótens de informação em madeira aparafusado em base de concreto foram dispostos também no calçadão de forma a orientar os transeutes.

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01

PLANTA PISCINA


01

CORTE - ESCORREGADOR

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PLANTA - ESCORREGADOR

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CORTE - ESCADA

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PLANTA - ESCADA


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01

CORTE - CALÇADÃO

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PLANTA - CALÇADÃO


(2) Espaço da luz

Espreme-se entre pequenas residências, entre as vias santa Elisa e rua Santa Inês, um espaço residual em uma área de xxxxm2 . Analisando os usos locais, a área é utilizada por moradores para compra e venda de alimentos, brincadeiras infantis e circulação. O espaço é marcado pela presença de um recurso hídrico, hoje atualmente com utilidade de escoamento de lixo. A ideia é a ressignificação do espaço que hoje carrega estigma de sujeira e violência, para um espaço permeável e que sirva de ponto de encontro e união comunitária. O projeto tenta tornar o interstício um elemento de ligação física e social do tecido urbano da comunidade, redesenhando o seu traçado, qualificando-o e potencializando o seu usos e apropriações pelos moradores locais, transformando-se em um espaço de união coesão comunitária. Como identidade estética, o desenho do interstício segue um padrão de curvas baseado nas inclinações do terreno existentes, fazendo um direcionamento através da paginação de piso às residências também existentes. Em cores quentes, o espaço da luz recebe esse nome singular para mudar o significado atual de como ele é visto, para tornar-se um ambiente seguro, de fácil acesso e iluminado. Um espaço central é delimitado pela diferença de níveis, com bancos e um cuore central preenchido por mosaicos realizados pela comunidade local. Pérgolas de madeira e lonas servem de abrigo para dar suporte as ativida-

des existentes como a de venda, conversar. Contornando o recurso hídrico, após um tratamento da qualidade da água por infraestruturas alternativas (verde), a margem é contornada por muretas que por vezes transformam-se em bancos, e passarelas são introduzidas sobre as águas, potencializando maior integração do recurso ao espaço público. O espaço abriga diversas atividades e faz conexão com o projeto do Vila do Mar, abrigando diversas atividades como comprar/ vender/ brincar/ se balançar/ reunir-se e contemplar a paisagem.

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(3) Interstício a Beira Mar

Para a intervenção nesse pequeno espaço residual, situado a margem da beira mar, foi proposta a criação de espaço multiuso que funciona para estender roupas, brincar, pular e assistir filmes.. O mobiliário proposto em forma de pequenas arquibancadas ,junto a um anteparo para projetor, possibilitam aos moradores assistirem filmes projetados nas paredes de muros de residências lindeiras. Com estruturas metálicas, é possível a criação de uma cama elástica ao centro, bem como varais de roupas ou estruturas que suportam redes de dormir. A proposta considerou os usos existentes no entorno, como estender roupas e brincar, e apropriou-se dessas atividades para dispor de mobiliário condizente com a situação atual. Pérgolas em madeira cobertas por tecido, permitem trocas sociais, servindo como pontos de venda de alimentos ou locais a sombra. Para garantir melhor mobilidade e segurança, passagens em níveis foram criadas, e o perímetro da praça foi extendido, possibilitando livres acessos e um amplo espaço público multifuncional.

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(4) Praça Chico da Silva

Na região central do bairro, entre as vias Nossa Senhora das Graças e a rua Santa Rosa, implantada em um terreno de aproximadamente 600m2, a praça Chico da Silva é um espaço que visa o fortalecimento das relações sociais e ao mesmo tempo, busca a retomada das identificações artísticas e culturais do bairro, a memória e arte do pintor chico da silva, muralista antigo morador do pirambu. A área de intervenção é um importante logradouro que se encontra atualmente sem uso pela população local, é utilizado apenas como estacionamento, e pretende-se ressignificá-lo, tornando-o um espaço fundamental de usufruto da população. Essas características determinaram a setorização básica do projeto: ao norte, o local destinado ao encontro, manifestações públicas, feiras e shows, e ao sul, a área de caráter mais esportivo e de passeio. O espaço foi concebido para atrair a população local, estimular as trocas sociais e preservar na memória de seu povo. Com terreno de topografia irregular, a praça possui dois acessos, um rampado pela avenida nossa senhora das graças e um ao nível do passeio pela rua santa rosa. À primeira vista que se tem do espaço livre pela esquina são pérgolas de madeira, A setorização do projeto ocorre ao norte com um edifício para uso comunitário, ao oeste um espaço circular multiuso, com areas para atividades de danças, manifestações artísticas e

culturais, ao leste, uma area de caráter lúdico para crianças, e por fim ao leste um espaço dedicado a arte, com painéis suspensos de arte urbana e um mural que remete a arte naif de chico da silva. REUNIR-SE Com pérgolas em madeira com redes ao topo e iluminação colorida embutida, a primeira vista do espaço vista pela esquina principal ocorre em uma s sucessão de pergolados alternados, coroados por espécies trepadeiras, que funcionam não so como portão de entrada da praça, mas como estruturas de sombreamento e de marco visual para os transeuntes. O percurso segue por um deque circular, um banco rebaixado multiuso para danças, atividades festivas, iluminado por postes e balizadores nos degraus. O espaço infantil, segue um desenho ortogonal, o piso emborrachado possui pequenos morros para brincadeiras e mobiliário multiuso.

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Croquis -

Desenvolvimento

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Mobiliรกrio

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(5)Pracinha Nossa Senhora das Graças

A pracinha Nossa Senhora das Graças é bastante usada pela população local, entretanto o espaço possui vias que o circundam com grande fluxo de veículos e carece de faixas de sinalização e travessias no seu entorno. Pensando-se nisso, o espaço proposto ocorre primeiramente com a criação de uma grande área elevada, garantindo que ao se aproximarem, os carros reduzam a velocidade. Os mobiliários foram usados para atender as atividades existentes tais como rezar e brincar. Um espaço circular multiuso permite que as pessoas se reunam aos fins da tarde, podendo ser um espaço para debates políticos ou de apresentações.

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(6)Viela da Paz

As vielas em assentamentos precários não são meramente espaços de transição, mas sim extensões das residências. É nelas que acontecem diversas atividades como brincadeiras, conversas e estender roupas. Como intervenção foi selecionada a Viela da Rua da Paz, devido a proximidade a pracinha Nossa Senhora das Graças, pois o espaço é um dos fluxos bastante utilizado por moradores. Com aproximadamente 360 m2, mobiliários retráteis como bancos, mesas e mobiliários multiusos para hortas e brincadeiras foram dispostos em sua extensão. A troca da pavimentação por blocos de concreto intertravado se fez necessária para aumentar a permeabilidade local. As atividades existentes como conversar, estender roupas e brincar na viela recebem mobiliários que não só dão suporte para que ocorram, como potencializam novos usos do espaço. As figuras do lado direito ilustram distintas maneiras e mobiliários lúdicos que podem ocorrer em vielas. A seguir, serão apresentadas algumas formas de intervenção nesses espaços, e a intervenção na Viela da Paz, no Pirambu.

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RUA DA PAZ - projeto

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PLANTA - RUA DA PAZ


AMPLIAÇÃO

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CORTE - VIELA


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CORTE - VIELA


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CORTE - VIELA


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MOBILIÁRIO URBANO

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Maquete física Pensando nessa multifuncionalidade que as vielas podem assumir, um mobiliário multiuso foi pensado para esses espaços. Em madeira Eucalipto, o módulo de caráter lúdico permite diversas formas de utilização para redes, cordas e paredes de escalada O segundo módulo, possui suas funções voltadas para as atividades cotidianas, e permite estender roupas, se balançar/ dormir e também serve como postes de iluminação.

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CONCLUSÃO Os assentamentos precários são uma realidade consolidada das cidades atualmente, e ocupam grande parte do território de Fortaleza, assim, residindo uma grande parte da população da cidade nessas áreas de carências. Apesar das dificuldades enfrentadas nas nessas regiões, é importante perceber que essa parte da cidade possui grandes oportunidades e que intervenções nessas regiões tornam-se essenciais, uma vez que são áreas carentes de equipamentos e infraestrutura urbana. Intervir nessas regiões de carências é o desafio deste trabalho de conclusão de curso, que busca a proposição de intervenções urbanas em uma das maiores comunidades de Fortaleza, o Pirambu. Projetando espaços vazios da comunidade ou espaços de transição, esse trabalho procura oferecer novas formas de pensar o espaço público em comunidades e contribuir para a sua qualidade urbana e social. Observando os usos locais, foram propostas intervenções em várias escalas no bairro do Pirambu, buscando a transformação desses espaços que, apesar de não serem adequados, são bastante utilizados pelos moradores. Assim, a proposta procurou potencializar esses espaços urbanos e oferecer novas maneiras de usufruí-los a partir de desenho urbano, consulta popular e proposição de mobiliários, trazendo multifuncionalidade ao espaço de uso comum e adequando-o às demandas locais. A questão social também foi abordada, a proposta objetivou a criação de espaços de

coesão social, que, para além da garantia da qualidade urbana, esses espaços possam ser utilizados para encontros, trocas sociais e debates políticos. Dessa forma, são lançadas estratégias que sugerem a utilização e potencialização dos usos do espaço público dito informal, oferecendo oportunidades diversas de fruição e de união comunitária. Por fim, pode-se dizer que os assentamentos precários e seus espaços públicos possuem grandes potencialidades, e que uma vez aproveitados a partir de intervenções que ofereçam respostas as demandas locais, pode-se contribuir para a construção de melhores condições urbanas e sociais nas cidades.

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TCC -RESSIGNIFICAR: Uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu. [Larissa Loureto]  

RESSIGNIFICAR: Uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu Trabalho de Conclusão de curso em Arquitetura e Urbanismo - Volume...

TCC -RESSIGNIFICAR: Uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu. [Larissa Loureto]  

RESSIGNIFICAR: Uma proposta de intervenção nos espaços livres do Pirambu Trabalho de Conclusão de curso em Arquitetura e Urbanismo - Volume...

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