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A garota ao meu lado  


AGRADECIMENTOS  


Eu não  poderia  começar  a  agradecer  com  uma pessoa  melhor  que  minha  mãe.  E  meu  pai.  Eles  são  os  pais  mais  compreensíveis  que  eu  já  vi  em  toda  minha  vida.  Posso  ser  doidinha  e  acreditar  que  meus  personagens  são  pequenas  pessoas  que  interagem  comigo,  mas  eles  continuam  me  amando  e  apoiando  em  todas  as loucuras que faço e penso. É  claro  que  não  poderia  faltar  o  Lui,  meu  irmão  chato  e grande  admirador.  Um  agradecimento  especial  para  minhas  betas  –  eu  tenho  betas  gente,  olha  só  –  que  aguentam  spoiler,  demora  para  o  próximo  capítulo  ser  escrito,  meus  chiliques,  os  chiliques  da  Alice  e  por  ai  vai!  Muito  obrigado  pela  paciência  Vi,  Angel  (Stephani,  melhor  revisora!),  Izzy  (Mariana)  e  Gi.  Ao  meu  compositor  maravilhoso,  Gabriel,  meu  muitíssimo  obrigado  por  dar  ao  Nick  mais  identidade  musical.  Outro  agradecimento  especial  vai  para  minhas  leitoras  do  meu  “fã  clube”  de  BH.  Meninas,  eu  estou  louca  para  conhecer  cada  uma de vocês!  E  muito  obrigado  a  você,  leitor(a),  que  leu O Garoto  Ao Lado e veio aqui conferir mais um pedaço da história de  #Nicile!     


PRÓLOGO

Nicholas  


Quando encontrei  os  olhos  cristalinos  dela  tudo  que  havia  enfrentado naquela semana valeu a pena. É claro que ter  chegado  quatro  aulas  atrasado  –  após faltar a semana inteira –  não  era bom para meu histórico escolar. Mesmo assim, resolvi  arriscar.  Eu  havia  ficado  tenso  a  cada  minuto  que  a  imagem  dela  chorando  voltava  a  minha  mente.  Eu  a  queria muito. De  todas  as  formas  possíveis,  mas  jamais  poderia ter uma chance  estando ligeiramente brigados.  Um  pedido.  Era  apenas  isso  que  ela  precisava.  É  incrível  a  tentativa  vã  dos  homens  em  entender o cérebro feminino. Eu  jamais  a  entenderia.  Por  mim,  na  noite  do  terraço,  quando  jogamos  as  cartas  na  mesa,  tudo  já  estava  certo.  Por  mim, ela  era  minha  desde  o  primeiro  dia  em  que a vi. Como aquele dia  poderia  ser  tão  perfeito?  Jamais  poderia  esquecer  da  primeira  vez  que  avistei  a  baixinha,  loira,  de  olhar  determinado,  mais  linda e confusa que poderia existir...     


UM  


“Este seu olhar quando encontra o meu

Fala de umas coisas 

Que eu não posso acreditar  Doce é sonhar, é pensar que você  Gosta de mim como eu de você”  – Tom Jobim     


Meses antes...

Era o  primeiro  dia  de  aula.  Eu  estava  completamente  nervoso.  Não  conhecia  quase  ninguém  ali,  apenas  Enzo.  Mesmo  assim,  não  erámos  tão  chegados.  A  turma  era  em  grande  maioria  de  novatos  e  todos  eles  pareciam  interagir.  Muitos  me  cumprimentaram  na chegada. Eu apenas acenei ou  cumprimentei  de  volta  rapidamente.  O  mapa  de  sala  não  estava  estabelecido  ainda,  então  me  sentei  em  um  lugar  mais  ao  fundo,  mas  que  ainda  mantivesse  uma  boa  visão  do  quadro.  Assim  que  me  sentei  eu  a  vi.  Longos  cabelos  loiros,  estatura  pequena,  mas  curvilínea  e  olhos  azuis  que  transmitiam uma determinação que eu não conseguia entender  e  que  me  intrigou.  Ela  passou  por  todos  cabisbaixa  e  nem  sequer  olhou  para  escolher  o  seu  lugar.  Fiquei  a  observando.  Suas  mãos  não  paravam  quietas,  sempre  mexendo  no  cabelo  ou  tirando  algo  desnecessário  da  mochila.  Ela  parecia  completamente desconfortável em estar no meio social.  Eu  também  não  era  muito  sociável,  mas  por  escolha  própria. As pessoas na maioria das vezes me decepcionavam 


ou eu  a  elas.  Essa  era  a  ordem  normal.  Medo.  Isso  era  o  que  me  segurava  de  criar  laços.  Até  mesmo com meu avô. Sei que  ele  não  teve  culpa  de  nada,  mas  ainda  assim,  isso faz parte de  quem  eu  sou.  O  culpado  disso  tudo  é  ele.  Meu  pai.  Só  me  refiro  a  ele  como  pai  pois  detesto  pronunciar  ou  pensar  em  seu nome.  Por  causa  dele  as  cicatrizes  físicas  e  mentais  me  acompanham,  impedindo-me  de  seguir  em  frente.  O  que  não  entendo  é  a  vontade  que  brota em mim de ir cumprimentá-la.  Jamais  me  esforço  para  ir  até  as  pessoas,  não  penso  em  procurá-las  a  não  ser  que  seja  extremamente  necessário.  Só  que  ela...  Ela  me  intrigou  desde  o  momento  em  que  pus  os  olhos nos seus cristalinos.  Quando  dei  por  mim  o  professor  já  estava  em  sala  nos  dando  boas-vindas.  Ela  se  ajeitou  e  sorriu  levemente  enquanto  o  professor  perguntava  seu  nome,  idade  e  local  de  onde tinha vindo. Alice. Esse era seu nome. Confesso que não  ouvi  o  restante  do  que  ela  falou,  nem  mesmo  das  apresentações  seguintes.  Apenas  seu  nome  era  o  que rondava  meu  pensamento.  Só  quando  o  professor  se  dirigiu  a  mim  é  que  voltei  a realidade. Respondi a pergunta sem entusiasmos e  de cara fechada, assim ninguém pensaria em se aproximar.  Percebi que Alice não estava na sala quando me  apresentei e senti um pequeno desapontamento. “Que isso   


cara? Querendo  ser  notado  pela  garotinha?”,  pensei  comigo  mesmo.  Um  riso  irônico  atravessou  meus  lábios  enquanto  murmurava um “nem pensar”. 

       

Os olhos  dela  ainda  estavam  nos  meus.  A  canção  havia  se  expressado  melhor  que  qualquer  palavra  minha.  Eu  sabia  que  ela  iria  adorar  algo  criativo  e  que  fosse  da  minha  forma  estranha  de  comunicar.  Eu  queria  beijá-la  naquele  momento.  Como  queria!  Já  estava  me  arriscando  demais  ao  me  expor  com  a  música,  não  poderia  arriscar  ser  chamado  atenção por querer pedir Alice em namoro.  –Vejo que o trabalho trouxe bons resultados. –  Wendalla riu. 

Sorri  para  Alice.  Ela  entendeu  que  devíamos  voltar  para  nossos  lugares.  Assim  que  me  sentei  e  olhei  ao  redor  vi  que  vários  dos  nossos  colegas  estavam  sorrindo  ao  olhar  em  nossa  direção,  como  se  aprovassem  meu  pedido.  Wendalla  e  Fabiana  falaram um pouco mais sobre o trabalho e depois nos  dispensaram.  Alice  estava  fechando  sua  bolsa  quando  me  aproximei.  –Oi... – procurei seus olhos.     


–Oi... – ela sorriu ao encontrar os meus.

–Carona para casa? – ofereci. 

–Eu... – ela olhou para seus pés – Eu não sei. 

–O que tem de errado? – segurei seu queixo a  forçando a olhar para mim.  –Nada. – ela sorriu – Só queria te deixar com medo. 

–Você é incrível! – eu a abracei – Até quando me  engana com seu teatrinho.  –Eu sei. – ela riu. 

Realmente  ela era incrível. Mais incrível ainda era tê-la  em  meus  braços. Alguns bons centímetros mais baixa, cabelos  longos  que  cheiravam  avelã,  aqueles  olhos,  os  quadris...  Droga! Precisava me afastar.  –Então... – pigarreei – Vamos? 

Ela  concordou  meio  confusa com minha mudança de  postura  e  seguimos  para  o  estacionamento.  Naquela  sexta  quase  todos  estavam  ansiosos  para  ir  para  casa.  No  outro  dia  íamos  partir  para  quatro  dias de viagem no Jalapão. Mal podia  esperar  para  ficar  quatro  dias  com  a  minha  baixinha.  Com  o  violão em uma mão e a outra segurando a de Alice, atravessei     


o pátio sentindo olhares de todos. Dante e Maria esperavam na porta do colégio.  –Ei, casal do momento! – meu amigo brincou. 

–Cala boca. – eu ri. 

Alice  soltou  minha  mão e foi para perto da amiga que  logo  a  afastou  para  longe  de  mim  e  de  Dante  –  com  certeza  para  conversar  sobre  o  pedido.  Se  fiquei  com  ciúmes  disso?  Talvez  um  pouco.  Demonstrei?  Jamais?  Ou  era  o  que  pensava.  –Calma aí, ​man​. – Dante deu uma batinha em meu  ombro.   

–O que? – voltei minha atenção para ele.

–Ela  é  sua namorada há apenas minutos e você já fica  com ciúmes quando ela se afasta para conversar com a amiga?  –Ok.  –  suspirei  –  Eu  estou  exagerando,  mas  isso  me  deixou  louco  a  semana  inteira  e  ainda  está  mexendo  comigo.  Eu  vi  o  quanto  ela  ficou  magoada  comigo  naquele  dia.  Só  quero  compensá-la.  Fazer  com  que  ela  seja  feliz.  Se  diferente  de qualquer outro.  –Nicholas,  você  não  tem  culpa  das  frustrações  passadas dela. – ele me censurou.   


–A culpa  dela  achar  que  eu  não  queria  um  compromisso  é  totalmente  minha.  –  contrapus  –  Mas  é  totalmente  o  contrário disso. Eu quero um compromisso com  ela. É exatamente isso que preciso demonstrar.  –Se  você  diz.  –  ele  não  pareceu  convencido  – Algum  plano especial para a viagem?  –Ficar  com  a  minha  namorada  e  evitar  meu  amigo  chato. – tentei aliviar o clima pesado.  –Ai! – ele colocou a mão no peito dramaticamente – 

Essa doeu, ​man​. –Que bom. 

Nós  dois  acabamos  rindo.  Era  natural  um  zoar  o  outro  e  sempre  levarmos  na  esportiva.  Dante  era  meu  único  amigo  real.  Só  ele  poderia  entender  o  modo que eu agia e era.  Ele  havia  vivenciado  grande  parte  das  desgraças  da  minha  vida.  Éramos  apenas  eu  e  ele,  duas  crianças  tentando  sobreviver.  Depois  que  tudo  acabou,  mesmo  que  a  mãe  dele  tenha morrido, acabamos felizes e livres.  –Eu  acho  melhor  levar  a  Alice  para  casa.  –  eu  a  observo  enquanto  Maria  conversa  com  ela.  As  duas  parecem  bastante animadas.     


–Aposto que  estão  falando  da  gente.  –  Dante  pareou  ao meu lado e as observou também.  –Aposto  que  elas  estão  comparando  qual  pedido  foi  melhor. – eu olhei para Dante – O meu com certeza ganhou.  –Não  vem  não,  Nicholas!  –  Dante  se  colocou  na  defensiva  –  Eu  fiz  um  poema  para  Maria,  entendeu?  Eu  que  fiz!  –Eu cantei para ela! Eu tenho talento! Entendeu? 

–Meninos! – Alice chamou. 

–Você copiou, ​man​. – ele já estava vermelho de raiva –  Eu criei algo, você só pegou algo pronto e cantou. 

–Meninos! – Maria gritou. 

–Não importa! Eu fiz algo impressionante! 

–Meninos! – as duas esbravejaram. 

–O que? – respondemos ao mesmo tempo. 

As  duas  estavam  nos  encarando  assustadas.  Eu  e  Dante respirávamos forte, ainda agitados pela breve discussão.  Por  instantes  nós  quatro  ficamos  parados  até  que  Alice  e  Maria  desataram  a  rir.  Eu  e  Dante  nos  encaramos,  sem  entender qual era a graça.   


–Desculpa... – Maria respirou fundo – Vocês são engraçados demais.  –Principalmente brigando. – os olhos azuis mais lindos  estavam fixados aos meus – Agora podemos ir?  –Claro. – sorri – Tchau para vocês. 

Eles  nos  deram  um  breve  aceno  e  seguimos  para  o  estacionamento.  Eu  subi  na  moto,  coloquei  o  capacete  e  entreguei  o  outro  para  Alice.  Ela  hesitou,  mas  colocou  o  capacete  e  subiu  na  moto.  Quando  ela  se  segurou  em  mim,  senti que o espaço que sempre estivera vazio em minha moto  –  e  em  meu  coração  –  enquanto  vagava  por  ai,  estava  preenchido.  Alice  apoiou  seu  rosto  em  meu  ombro  e  perguntou:  –Nicholas? 

–Sim. – virei meu rosto e senti seu nariz próximo a  minha bochecha.  –Você trouxe dois capacetes, certo? 

–Sim. 

–Como sabia que eu iria aceitar? 

–Eu tinha 99,99% de certeza. O restante era duvidoso.     


–Mas ainda era uma chance. – ela argumentou.

–Então eu ia procurar uma gatinha para dar carona. –  brinquei. 

–Besta. – ela me deu um tapa nas costas. 

–Seu besta. Lembra-se disso.  Segui para sua casa.  –Chegamos. – o tom de voz de Alice parecia aliviado  quando ela desceu da moto – Você vai entrar?  –Não. 

–Por  que?  –  ela me entregou o capacete – Tem algum  compromisso  ou...  Desculpa,  eu  estou  me  metendo onde não  devia.  Ela desviou o olhar. 

–Ei! – segurei sua mão – Você pode perguntar  qualquer coisa para mim, ok?  Ela  assentiu  ainda  sem  olhar  para  mim.  Desço  da  moto  e  puxava  para  mim.  Seguro  seu  rosto  para  que  seus  olhos cristalinos encontrem os meus.  –Qualquer coisa, entendeu?     


–Sim. – um breve sorriso formou-se em seus lábios – Por que você não fica? 

–Porque eu pensei em chamar minha linda namorada  para sair. – analisei sua expressão – O que acha?  –Eu... – ela desviou o olhar. 

–O que foi? 

–Amanhã é a viagem e eu ainda não fiz as malas – ela  explicou.  –Ok. – suspirei e subi na moto – Então eu vou para  casa.   

–Espera! –  ela segurou minha mão – Você poderia vir  mais tarde para a gente ir em alguns lugar mais perto, mas sem  demorar muito. O que acha?  Droga!  Eu  não  conseguia  dizer  não  com  ela  me  olhando daquele jeito.  –Perfeito. – sorri e beijei sua mão – Vejo você às sete  e meia.   

Ela entrou  e  liguei  a  moto.  Peguei  a JK e segui para a  casa  no  meu  avô.  Ele  morava  no  condomínio  Polinésia,  bem  afastado da cidade, uma das razões de ter ganhado a minha     


moto e  ter  tirado  carteira  de  motorista.  Cerca  de  meia  hora  depois  cheguei  no  condomínio.  Carlos,  um  dos  porteiros,  me  cumprimentou  e  abriu  o  portão.  A  casa  do  meu  avô  ocupava  um  quarto  do  quarteirão.  Nunca  entendi  o porquê de ter uma  casa  tão  grande  se  antes  de  me  encontrar  ele  morava  só.  A  casa  tinha  cerca  de  doze  quartos,  inúmeros  banheiros  e  três  salas  de  jantar  que  mal  usávamos.  Estacionei  a  moto  e  segui  para a porta principal.  –Olá  senhor  Fontelle.  –  Ayra  me  cumprimentou  ao  abrir a porta.  Ela  era  a  secretária do meu avô, um pouco mais velha  que  eu.  Sempre  com  roupas  escuras  que  ressaltavam  seus  cabelos  cor  de  cobre  e  olhos  verdes.  Por  causa  dela  meu  avô  conseguiu me encontrar.  –Oi  Ayra.  –  coloquei  minhas  chaves no aparador – Já  conversamos sobre o uso do senhor comigo.  –Não custa tentar te irritar. – ela sorriu. 

–Você sabe que a única que conseguiu foi a Alice. –  lembrei a ele. 

O sorriso em seu rosto logo se desmanchou.     


–Bem – ela pigarreou –, seu avô está no escritório dele e aguarda sua presença.  –Beleza. – segui para a escada, mas me virei em  seguida  – Sempre esqueço... Qual escritório? 

–O principal, ao lado do quarto dele. – ela lançou um  olhar frio – Isso é algo que a Alice não pode te informar.  Ignorei o comentário dela e segui para o segundo  andar onde ficava o quarto do meu avô. Encontrei a porta  encostada.  –Vô? – chamei-o antes de entrar. 

–Nicholas. – ele sorriu ao me ver – Como foi? 

Ele  era  bem  mais  baixo  que  eu,  mas  era  diferente  do  que  eu imaginaria como avô. Era bem conservado na verdade.  Não  era  rechonchudo  e  nem  parecia  ter  saúde  debilitada,  como  a  maioria  dos  avôs,  mas  tinha  o  sorriso  simpático  e  as  marcas  dos  anos  expressas  no  rosto.  Seus  cabelos  eram  uma  mistura  de  grisalho  com  preto  e  os  olhos  eram  tão  negros  quanto  os  meus.  Eu  sabia  que  aquela  característica  era  marcante  da  parte  da  minha mãe, mas olhar para ele era quase  como me ver num futuro mais distante.  –Foi bem. – parei em frente a sua mesa.     


O escritório,  assim  como  a  casa  inteira,  era  uma  mistura  de  relíquias  de  família  e  de  peças  modernas.  Apenas  meu  quarto  não  tinha  nenhuma  peça  das  antiguidades  da  família por minha insistência.  –Então ela aceitou?   

–Claro. – eu ri – Conseguiu falar com seu amigo do Jalapão?   

–Sim. – ele me entregou um envelope – Vai encontrar  todas  as  informações  aqui.  Ah!  Já  comuniquei  ao  Aguinaldo  sobre. Ele está ciente da minha aprovação.  –Obrigado vô. – sorri. 

–Tem  certeza  que  quer  ir?  Você  passou  a  semana  inteira doente. – ele observou.  –Maior  parte  do meu desânimo foi por causa da Alice  e não posso deixar a ir com ela nessa viagem.  –Tudo  bem.  –  ele  sussurrou  – Diga a Ayra para pedir  que sirvam o almoço.  –Como quiser.     


DOIS  


“​O amor não vai te tornar outra pessoa, o amor vai fazer com que você sinta orgulho de ser quem você é.” 

– Zack Magiezi     


Já eram  quase  sete  horas  quando  terminei  de  me  arrumar.  Durante quase toda tarde fiquei fazendo minha mala.  Meu  avô  e  Ayra  tiveram  que  ir  até  o  colégio  acertar  alguns  papeis  administrativos  e  pude  ter  a  casa  só  para  mim.  Assim  que  a  mala  ficou  pronta,  peguei  meu  violão  e  toquei  algumas  músicas.  Precisava  garantir  que  a  música  que  cantaria  para  Alice em breve estivesse perfeita.  –Ei,  bad  boy.  –  Ayra  me chamou quando já estava na  porta – Pode me dar uma carona?  –Ahh... 

–Não diga que não é uma boa ideia. – ela se  aproximou  – Não é porque você está namorando que não pode dar uma  carona para sua amiga.  Assenti.  Ayra  me  seguiu  até  minha  moto. É claro que  eu  tinha  dado  caronas  para  ela  antes,  mas  nunca  tinha  me  sentido  mal  por  isso.  Sempre  soltava  uma piadinha aqui outra  provocação  ali,  mas  nada  que  não  pudesse  ser  deixado  de  lado.   


Ela me olhou atentamente antes de pegar o seu capacete e subir na moto. E lá fomos nós...  –Obrigada.  –  ela  me  entregou  o  capacete  quando  chegamos à sua casa.  –Está  na  hora  de  você  arrumar  um  carro  ou  algo  do  tipo. – peguei o capacete – Nem sempre vai encontrar carona.  –Você  quis  dizer  que  não  vai  mais  me  trazer  em casa  porque  sua  queridinha  Alice  é  sua  dona  agora?  –  ela  praticamente cuspiu o nome da minha namorada.  –Ayra,  ela não é minha dona, só não gosto de enganar  ninguém.  –  tentei  manter  um  tom  calmo  dado  as  circunstâncias.  –Como  se  estivéssemos  fazendo  algo  errado.  –  ela  debochou.  –Não enganar a Alice, mas você. – esclareci. 

–Oh... – as lágrimas brotaram em seus olhos –  Obrigada por manter as coisas claras, senhor Fontelle. 

–Ayra...   

–Boa noite, Nicholas. – ela se virou e entrou em sua casa.     


Liguei minha  moto  e  fui  para  a  casa  de Alice, que era  bem  perto  dali.  Eram sete e vinte e oito quando estacionei em  frente  à  casa  dela.  Sorri  orgulhoso  comigo  mesmo.  Quem  diria  que  eu  seria  um  namorado  atencioso,  romântico  e  que  chega na hora? Peguei o celular e liguei para ela.  –Ei, antissocial! – ela atendeu no segundo toque. 

–Ei! – sorri – Vejo que os velhos hábitos não  mudaram, certo?  –Nem faz tanto tempo... – ela suspirou – Você está  adiantado.  –Antes adiantar que atrasar! 

–Esse não é o ditado. – ela riu. 

–Quem se importa? 

–Eu. - ouvi o barulho de suas chaves – Sorte sua que  eu estou adiantada também.  Ela  desligou,  mas  apareceu  segundos  depois.  Eu nem  tentei  disfarçar  meu  sorriso.  Vê-la  era  como  ter  seu  próprio  sol,  chuva  e  furacão;  nunca  se  sabe  qual  deles  vai  encontrar,  mas  com  certeza  vai  ver  beleza  em  um  deles.  Ela  se  aproximou  aos  poucos.  De  jeans,  uma  regata  florida  azul  e  sapatilhas amarelas;   


eu mal a reconheci. Ela sempre usava jeans e uma peça básica, nada muito colorido.  –Oi. – ela sorriu. 

Tirei o capacete aproveitando o momento para puxá-  la para perto e lhe beijar.  –Oi. – sussurrei. 

–Então... – ela pigarreou – Onde vamos? 

–Estava  pensando–  entreguei  o  capacete  para  ela  e  coloquei  o  meu  de  volta  –,  porque  não  vamos  ao  Parque  Cesamar?  –Não é um pouco longe? – levantou um sobrancelha  – Pensei que... 

–Alice – segurei sua mão – Prometo trazer você em  casa cedo, ok?  –Ok. – sorriu delicadamente – Vamos. 

Ela  subiu  na  moto  e  passou  as  mãos  por  minha  cintura.  Segui  o  mais  rápido  que  pude  para  o  parque.  Assim  que chegamos, vi o olhar surpreso de Alice.  –Você já esteve aqui antes?     


–Não. – admitiu – Só passei perto.

–Então vem. – peguei sua mão – Você vai adorar! 

Ela  sorriu.  Fomos  caminhando  pelo  estacionamento  que  estava  bastante  cheio.  As  pessoas  em  Palmas  não  costumam  sair  para  beber  ou  ir  para  a  balada  – apesar de não  ter  nada  contra  as  cidades  que  tem  esses  programas  como  principais diversões. Elas preferem um passeio na praia ou um  piquenique  nas  praças e parques. O Cesamar é um dos lugares  mais  frescos  na  cidade,  perfeito  para  passeios  casuais.  Olhei  para  Alice  enquanto  ela  observava  cada  mínimo  detalhe  do  lugar.  Seus  olhos  estavam  brilhando  de  deslumbramento  e  vi  um  sorriso  surgir  em  seus  lábios.  Peguei  meu  celular  e  tirei  uma  foto  dela, que se virou instantes antes da câmera capturar  a segunda. Ela me olhou um pouco furiosa e ri.  –Nicholas!  –  ela  reclamou  enquanto  eu  tirava  outra  foto – É melhor você parar!  Ela  tentou  arrancar  o  celular  de  mim,  mas  eu  o  mantive  acima  da  minha  cabeça.  Alice  continuou  dando  pulinhos,  mesmo  que  nem  tenha  chegado  perto  de  pegar  o  celular  e  eu  continuei  rindo.  Depois  de  várias  tentativas,  ela  desistiu  e  parou  de  braços  cruzados.  Seu  rosto  estava  vermelho  e  alguns  fios  caiam  em  cima  dele.  Guardei o celular  e me aproximei da   


“fera”. Ajeitei seus fios rebeldes com os dedos enquanto seus olhos cristalinos me observavam. 

–O que foi? – perguntei. 

–Nada.  –  ela  descruzou  os  braços,  passou  as  mãos  pelo  meu  pescoço  e  descansou-as  em  minha  nuca,  com  o  indicador  roçando  a  cicatriz  coberta  pelo  meu  cabelo  –  Só  estou observando meu namorado.  Ela sorriu. 

–Você gosta disso, não é? – segurei-a pela cintura. 

–Disso o que? 

–De ser minha namorada. – beijei sua testa. 

–Eu não sei. – ela fingiu um olhar pensativo –  Pensando bem eu não quero ser sua namorada. 

–Então, sinto informar senhorita. – eu a soltei – Você  vai voltar a pé para casa essa noite.  –Mesmo? – cruzou os braços. 

–Sim. – sorri. 

–Bem, então acho melhor eu ir andando. – ela  esbarrou de propósito em mim.     


Antes que  ela  desse  mais  um  passo  eu  a  segurei  e  a  beijei.  A  princípio  ela  ficou  hesitante,  mas  logo  relaxou  e  se  entregou  ao  beijo.  Sempre  seria  uma  surpresa  tê-la  em  meus  braços.  Nunca  me  senti  digno  de  pena  nem  de  ser  amado.  Alice  nunca  teve  pena  de  mim,  o  que  aumentou  minha  admiração  por  ela.  Ela  amou  cada  cicatriz  que  trouxe do meu  passado,  mesmo  que  tenha  contado  apenas  o  básico  a  ela.  Esperava  que  com  o  passar  dos  anos  ela  fosse  recebendo  os  detalhes  da  minha  história  da  mesma forma que aquele dia no  terraço.  –Uau...  –  ela  sussurrou  ao  se  afastar  –  Eu  realmente  quero ser sua namorada se você beijar assim sempre.  –Eu  sabia!  –  fingi  ressentimento  –  Você  estava  só  querendo meus beijos!  –Bobo! – empurrou-me de leve. 

–Seu bobo. – segurei seu rosto entre minhas mãos –  Mantenha isso em mente. 

–Positivo, capitão. – ela riu.   

–Ok, Bob Esponja. – segurei sua mão – Vamos passear.   

Eu a arrastei para a pista de corrida antes que fizesse qualquer comentário sobre seu apelido improvisado. Durante 


metade do  trajeto  ela  permaneceu  calada.  Andamos  em  um  ritmo  entre  andar  e  correr  que  ficou  confortável  para  ambos.  As  pessoas  nos  passavam  a  cada  segundo  em  suas  roupas  de  ginástica, com fones – provavelmente tocando Ellie Goulding  –  e  seus  ritmos  de  corrida,  acelerado  demais  para  apreciar  a  beleza do lugar. Alice estava completamente encantada.  –Aqui  é  tão  fresco.  –  ela  comentou  enquanto  caminhávamos para o segundo quilômetro – E bonito.  Observei  o  lado  por  entre  as  árvores.  A  lua  estava  refletida  na  água  e  consegui  ver  algumas  estrelas  no  céu.  O  Parque  era  um  santuário  da  natureza  que  conseguia  se  preservar em meio a evolução da cidade.  –Aqui é realmente bonito. – concordei e sorri. 

Alice  sorriu  e  se  calou  pelo  próximo  quilômetro.  Quando  terminamos  nossa  volta,  podia  sentir  algumas  gotas  de  suor  em  minhas  costas.  Eu  devia  ter  tirado o casaco antes,  evitaria  ficar  com  um  odor  não  agradável  no  nosso  primeiro  encontro  de  verdade.  Deixei  Alice  na  área  onde  as  pessoas  costumavam  fazer  piqueniques.  Caminhei  até  o  que  parecia  ser  uma  lanchonete  e  pedi  duas  águas.  Não  quis  arriscar  a  pedir  algo  para  comermos.  Ainda  não  conhecia  o  lugar  totalmente.  Pedi  dois  churros  em  uma  barraquinha  –  que  já  conhecia e sabia   


que eram deliciosos – e voltei para minha garota. Ela agradeceu quando entreguei a água e os churros.  –Vamos sentar? – sugeri. 

Ela  concordou  e  sentamos  encostados  em  uma  das  árvores  que  se  espalhavam  pelo  ambiente  gramado.  Alice  observava  as  pessoas  e  tudo  ao  seu  redor  com  admiração.  Comemos  os  churros  em  silêncio,  o  que  me  deixou  apreensivo.  –Estou  começando  a  sentir  falta  do  tempo  que  a  gente  discutia  e  se  evitava.  –  arrisquei  brincar  com  ela  –  Pelo  menos a gente conversava mais.  –Você  quis  dizer  a  época  que  você  oscilava  entre  ser  obsessivo e me odiar. – ela bateu seu ombro de leve em mim.  –Eu nunca te odiei. – defendi-me. 

–Não?  –  ela  riu  –  Conta  outra,  Nicholas!  Lembra  o  primeiro dia em que fui falar com você?  Demorei  um  tempo  para  entender  a  qual  dia  ela  se  referia, mas logo lembrei. Era impossível não lembrar... 

     

Meses antes...  


Aquela droga  de  escola  tinha que nos deixar uma aula  inteira  à  toa?  Não  tinha  nenhum  professor  substituto?  Já  estava difícil me esquivar das perguntas frequentes de Rebecca  ou  dos  convites  de  Hilton  para  ir  a  suas  “festinhas”.  Esse era  o  maior  problema  das  pessoas:  querer  se  aproximar  de  quem  quer  ficar  no  seu  canto.  Durante  os  primeiros  vinte  minutos  tentei  ficar  sentado  em  meu  lugar  e  ouvir  Arctic  Monkeys  sossegado,  mas  não  consegui  me  concentrar  com  Alice  conversando  com  sua  amiga,  Maria  –  só  soube  que seu nome  era  esse  quando  ela  me  abordou  perguntando  meu  nome,  se  apresentou  e  depois  saiu  correndo. Sinceramente ela tinha um  parafuso  a  menos,  na  minha  opinião.  Sem  conseguir  me  concentrar  fui  para  o  corredor e só voltei cinco minutos antes  da última aula começar.  Maldita  hora  para  mudar  de  playlist!  John  Mayer  e  suas  letras incríveis, mas sugestivas, invadiu meus tímpanos ao  mesmo  tempo  que  os  olhos  de  Alice  encontraram  os  meus,  como  se  ela  pudesse  me  ler  com  apenas  um  olhar.  Ela  tinha  essa  determinação  em  seus olhos que me instigava a descobrir  se  era  apenas  impressão  ou  se  ela  realmente  era  assim.  Eu  mais  uma  vez  fiquei  hipnotizado  por  seus  olhos  azuis.  Comecei  a  caminhar  sem  desviar  o  olhar.  Ao  chegar  em  meu  lugar  arranquei  os  fones,  esperando  ter  coragem  de  falar com  ela. 


–Oi. –  um  mínimo  sorriso  apareceu  em  seus  lábios  rosados.  –Oi. – sorri. 

Eu  sorri?  Absolutamente  sorri.  Feito  um  idiota.  Ela  com  certeza  tinha  achado  meu  sorriso  idiota,  pois  desviou  o  olhar  automaticamente.  Resolvi  fazer  o  mesmo  para  não  parecer  um  psicopata  obcecado.  A  turma  estava  espalhada  pela  sala.  Vi  Enzo  com  a  doida  da  Teodora.  Ela  era  muito  gente  boa,  mas  tinha  um  parafuso  a  menos  –  igual  a  Maria.  Enzo  era  um  cara  legal  também  que  eu  havia  conhecido  uns  tempos  antes  em  uma  das  boates  que  trabalhei as escondidas.  Enzo  deixou  Teodora  e  veio  conversar  comigo.  Ele  chegou  falando  sobre  a  festa  na  casa  de  Hilton,  tentando  me  convencer  a  ir.  Meu  olhar  voltou  a  Alice,  enquanto  ele  tagarelava.  Ela  parecia  estar  olhando  para  alguém  atrás  de  mim.  –Olha,  se  quiser  ir  de  casaco tudo bem, cara. – Enzo  continuou  –  Ninguém  vai  te  zoar  por  isso.  Tudo  bem,  é uma  festa na piscina, então vai pelo menos de bermuda.  –Eu não vou. – olhei para ele – Esquece. 

–O  que  aconteceu  com  você?  –  ele  riu  –  Eu  te  conheço  faz  um  tempo,  Nicholas  e  eu  sei  que  você  adorava  fugir do orfanato para ir para as festas comigo. 


–As pessoas mudam Enzo. – respondi seriamente.

–Não  tem  jeito  de  te  convencer  mesmo,  não  é?  –  ele  riu  –  E  se  eu chamar a loira que você encarou quase a semana  toda, a minha amiga Alice? Nem assim você vai?  Antes  que  pudesse  responder,  Alice  veio  até  nós  parando  ao  lado  de  Enzo.  Fiquei  tenso?  Tenso  seria  eufemismo.  –Oi Alice! – Enzo beijou-a na bochecha.  Apertei minha mandíbula e cerrei os punhos.  –Oi.  –  ela  corou,  demostrando  vergonha  pelo  gesto  dele, o que me fez relaxar – Você é o Nicholas certo?  Como ela... Claro, a amiga dela tinha contado. 

–Sim. – assenti mantendo a seriedade. 

–Já  disseram  que  você  parece  o  Quentin  de  Cidades  de papel? Na verdade, o ator que interpreta ele.  Não,  ninguém  tinha me perguntado isso. Quem é que  pergunta  uma  coisa  dessas,  afinal?  Foi  impossível  não  rir.  De  tudo  que  aquela garota poderia gostar ela escolher logo o livro  do  Green?  E  ainda  um  dos  mais  sem  graça?  Sem  contar  que  ela estava me comparando ao carinha idiota do filme. Só pude     


soltar a  maior  gargalhada  que  dei  na  vida.  O  olhar  espantado  em  seu  rosto  me  fez  querer  pedir  desculpas  por  rir  e  não  ser  gentil  com  ela,  mas  eu  não  podia  ser  gentil.  Causava  esperanças  nela.  Era  melhor  machucar  seus  sentimentos  quando  ela  sabia  apenas  meu nome que arruinar uma amizade  – ou algo mais – e perder mais uma pessoa.  –Nunca ouvi falar desse cara. – respondi, por fim. 

Sentei-me  e  continuei a conversar com Enzo como se  ela  nem  estivesse  ali.  Era  melhor  assim.  Machucar  o  ego  de  uma  garota  antes  de  envolver  os sentimentos dela pode salvar  uma  vida.  O  problema  era  que  eu  sabia  que  ela  estava  ali,  paralisada.  Dentro  de  mim  pude  sentir  que  a  culpa  crescia,  mas  era  melhor  para  ela  manter-se  distante  de  mim.  Alice  só  voltou  ao  seu  lugar  após a professora Fabiana chegar. Ela não  era  das  minhas  preferidas,  mas  eu  gostava  da  maneira  que ela  nos dava certa liberdade para a criatividade.  –  Sentem-se  todos em seus lugares do mapa de sala! –  praticamente  gritou  para  a  turma  em  desordem.  –  Hoje,  o  “Poema do Dia” é com a Alice.  Pelo  canto  do  olho  vi  que  Alice  ficou  tensa.  Eu  não  entendia  o  porquê.  Ela  era  uma escritora fantástica, eloquente  na  hora  de  apresentar  seus  poemas.  Não  havia  espaço  para  aquela tensão. Fabiana começou sua aula, mas não consegui   


prestar atenção.  Alice  rabiscava  freneticamente  em  seu  caderno.  Era  impressão  minha  ou  a  senhorita  perfeita  estava  fazendo  um  poema  de  última  hora?  Aquilo  eu  teria  que  ver  com  certeza!  Quando  a  hora  do  Poema  do  Dia  chegou,  observei  cada  passo  dela.  Apoiei  os  cotovelos na mesa e olhei  fixamente para ela.  –O nome do poema é... 

Lancei um olhar curioso para ela. 

–... “Feitiço”. 

As  primeiras  rimas  eram  típicas  de  uma  garota  romântica  e  poética,  o  que  presumi  ser  as  duas  características  de  Alice.  “Ele  teve  suas  decepções”,  foi  essa frase que me fez  despertar  para  o  resto  do  poema.  Ela  realmente  havia  escrito  aquilo  para mim? As próximas rimas só confirmaram o que eu  suspeitava:  Aquele  maldito  poema  era  sobre  mim.  Com  certeza  era  sobre mim. Não havia dúvidas. Eu sabia, sabia que  ia  me  meter  numa  furada  com  aquela  loirinha.  Ela  tinha  que  parar. Absolutamente tinha que parar com aquilo.  –E ele como um leão,/Roubou meu coração. – ela  finalizou.  Eu sorri, incrédulo. Como uma mente brilhante como  ela poderia achar que eu prestava para roubar o coração de   


alguém? Jamais teria condições de retribuir romanticamente as  expectativas  de  alguém.  Decidi  que  tomaria  uma  providência.  O  primeiro  passo  era  fazer  com  que  ela  admitisse  que  o  poema era sobre mim.  –  As  notas do teste já estão no mural – Fabiana avisou  no  fim  da  aula.  –  Até  segunda-feira  que  vem  e  bom  fim  de  semana. 

       

–Você sabe  que  foi  bem  cruel  naquele  dia?  –Alice  perguntou  minutos  mais  tarde,  quando estávamos deitados na  grama.  Sua  cabeça repousava sobre meu peito e eu a abraçava,  sentindo as gotas de orvalho em seus braços.  –Sei. – engoli em seco – E eu me odeio por isso. 

–Não  precisa  chegar  a  tanto!  –  ela  riu  –  Naquele  dia  nós dois trocamos ofensas.  –Poema maldito! – murmurei. 

–Sabe  –  ela  ignorou  meu  comentário  e  soltou  um  risinho  –,  analisando  hoje,  depois  que  te  conheci,  aquele  poema é todinho para você.     


–Eu sabia!  –  debochei  e  rimos – Fiquei com medo de  você ainda me achar parecido com o Quentin.  –O  nome  do  ator  é  Nat  Wolff  e  você parece com ele  sim.  – ela deu um beliscão de brincadeira em meu braço – Por  falar nisso, você ofendeu um dos meus livros favoritos.  –E  qual  são  os  outros?  –  levantei  seu  rosto  para  encarar seus olhos.  –Os  outros  livros  que  você  ofendeu?  Que  eu  me  lembre foi só ​Cidades de Papel​.  –Os  seus  outros  livros  favoritos,  baixinha. – passei as  mãos  por  seus  cabelos  que  cheiravam  avelã  –  Eu quero saber  quais são.  –Eu  gosto  de tantos livros. É difícil dizer quais são os  meus favoritos. – ela desviou o olhar  –Escolhe  cinco  e  diz  porque  os  escolheu.  – beijei sua  testa  –  Depois  eu  digo  minhas  músicas preferidas e o porquê.  Fechou?  –Fechou.  –  ela  sorriu  –  Ok,  ​Cidades  de  Papel ​é um dos  meus  livros  favoritos  porque  é  do  John  Green  e  porque  me  ensinou  que  as  pessoas  são  diferentes  da  maneira  que  pensamos que elas são. Isso eu apliquei quando te conheci.     


–Acho que vou ler esse livro. – pensei alto.

–Não faz mais que a obrigação como meu namorado!  – ela zombou – Quer saber, você deveria se comprometer a ler  os meus livros favoritos e eu a ouvir suas músicas. Fechou?  –Fechou  nada!  –  protestei  – É injusto! Ouvir músicas  é  mais  fácil  e  rápido  que  ler. Sem contar que eu tenho minhas  desconfianças do seu gosto literário.  –Primeiro  –  ela  se  sentou  e  eu  acompanhei-a  em  seguida  –,  meu  gosto  literário  é  incrível.  Segundo,  quem  garante que seu gosto musical é bom?  –Eu e todo mundo. – sorri presunçosamente. 

–É mesmo? – ela riu. 

–É, todo mundo sabe que meu gosto musical é  incrível. – puxei-a para perto de mim.  –Convencido. – ela tentou me empurrar. 

–Seu convencido. – apertei meus braços ao seu redor  – Lembre-se disso. 

 

–Ok. – ela riu novamente – ​A Culpa é das Estrelas​. –Totalmente modinha! – desdenhei. 

 


–Não diga  isso!  –  ela deu um soco (que mal senti) em  meu braço – Eu nunca leio por modinha. 

–Ok. – segurei o riso – Por que ​A Culpa é das Estrelas​? –Porque  foi  o  primeiro  livro  que  li  do  John  e  foi  o  primeiro  que  mexeu  com  meus  sentimentos  do  começo  ao  fim.  Acho  que  é  o  livro  que  inspirou  minhas  melhores  mudanças.  Enquanto  ela  falava  pude  ver  o  brilho em seus olhos,  mostrando  sua  paixão  pelos  livros,  da  mesma  forma  que  eu  tinha  pela  música  e  por  ela.  Sorri  como  um  bobo apaixonado  – que no final era exatamente o que era.  –Qual o próximo? 

–​Orgulho  e  Preconceito​,  com  certeza!  –  ela  respondeu  com  tanta  segurança  e  convicção  que  quis  beijar  sua  boca  –  Foi  o  primeiro  livro  da  literatura  clássica  britânica  que li e me  apaixonei. Jane é uma escritora incrível!  –Sobre  se  apaixonar,  foi  só  pelo  livro  ou  pelo  Darcy  também?  –Darcy,  meu  primeiro  ​crush  ​literário  britânico.  –  ela  suspirou.  –E no fim ela ficou com o brasileiro. – murmurei.     


–Haha. – ela revirou os olhos – Agora quero que você diga suas músicas antes que eu fale os dois últimos livros.  –Ok.  –  concordei  –  ​Half  of  My  Heart​,  porque  é  do  John Mayer, meu cantor favorito. ​Thinking Out Loud​, na versão  junto  ao  John  Mayer,  porque  ficou  sensacional.  Wish  You  Were  Here,  porque  quem  não  gosta  dessa  música?  ​If  I  Could  do  Jack  Johnson,  outro  cantor  que  gosto  muito.  Por  último,  Black ​do Pearl Jam.  –Ela não é meio sombria? 

–Lembra da parte do final? – ela negou – Vou cantar  esse trecho para você:  I know someday you'll have a beautiful  life  I know you'll be a star  In somebody else's sky  But why? why?  Why can't it be, oh can't it be mine? 

Eu sei que algum dia você terá uma linda  vida  Eu sei que você será uma estrela 


No céu de um outro alguém Mas por quê? por quê?  Por que não pode ser, por que não pode  ser no meu? 

–Uau! – ela sorriu – É lindo! 

–Eu  falei  todas  as  minhas  favoritas.  –  apertei  sua  cintura de leve – Agora você me diz seus últimos favoritos.  –Meus  dois  últimos  favoritos  são  ​O  Pequeno  Príncipe  ​e  A Verdade Sobre Nós ​da Amanda Grace. – ela desviou o olhar e  sorriu  –  O  primeiro  porque  sempre  me  lembra  a  infância  e  que  mesmo  sendo  quase  adulta,  sempre  manterei  a  criança  dentro de mim viva.  –E o outro? 

–​A  Verdade  Sobre  Nós​.  –  ela  olhou  em  meus  olhos  –  Esse  me  ensinou  que  para  ter  uma  história  de  amor  não  precisa necessariamente que o casal fique junto no final.     


TRÊS  


“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas.” 

–Mario Quintana.     


As turmas  do  terceiro  ano  se  amontoavam  a  entrada  do  colégio.  Meu  avô  permitiu que Dante pegasse um dos seus  carros  emprestado  e  nos  levasse  até  o  colégio.  Nós  dois  buscamos  Maria,  passamos  pela  casa  dele  para pegar sua mala  e  enfim  fomos  buscar  Alice.  Depois  de  compartilharmos  nossos  “cinco  favoritos”  na  noite  anterior,  ela  ficou esquisita.  Percebi  que  era  por  causa  do que falara sobre ​A Verdade Sobre  Nós​.  Durante  o  trajeto  de  volta  até  sua  casa  eu  quase  podia  ouvir  sua  mente  pensando  em  milhões  de  desculpas  por  ter  dito aquilo.  –Ei. – peguei sua mão assim que ela desceu da moto  – Não se preocupe pelo que disse. Não vai ser nosso caso. 

Ela continuou encarando o chão. 

–Alice. – levantei seu rosto – Eu não sou ele, não vou  te deixar, nem te magoar, entendeu?  Ela assentiu, com os olhos marejados.     


–Vem aqui.  –  puxei-a  para  meu  peito  e  envolvi  meus  braços  ao  seu  redor  enquanto  ela  chorava  baixinho  –  “No  infinito de nós dois”, lembra?  Ela se afastou um pouco para me olhar. 

–Essa  é  sua  maneira  de  dizer que gosta de mim? – ela  sorriu maliciosamente.  –É.  –  escorreguei  minhas  mãos  para  sua  cintura  –  E  de  dizer  que  me  importo  com  você,  que  quero  o  melhor,  quero  viver  com  você  até  o  fim  da  sua  vida  e  ter  dezoito  filhos, sete cachorros, cinco gatos e duas calopsitas.  Nós rimos. 

–Dezoito  é  um  número  bem  alto.  –  ela  apoiou  suas  mãos em meus ombros.  –Podemos  dividir  por  nove.  –  sugeri  e  um  pequeno  riso escapou de seus lábios rosados.  –Acho melhor pararmos essa conversa. – ela brincou  – É nosso primeiro encontro e já estamos falando de filhos.  Estou com medo de sair com você de novo.  –Então  vai  ter  próxima.  – sorri – Agora é hora de sua  avaliação.  Em  uma  escala  de  ótimo,  excelente,  maravilhoso,  incrível e sensacional, como você classifica essa noite?   


–Foi até que boa. – ela me olhou tentando ser séria.

–Código inválido! – gritei. 

–Shhh... – ela tapou minha boca com uma das mãos –  Eu tenho vizinhos. 

–Ah é? – tirei sua mão de minha boca e puxei-a para  mais perto – O que faria sua noite ser perfeita?  Seus olhos cristalinos se tornaram travessos e um  sorriso surgiu em seus lábios.  –Isso. – ela segurou meu rosto e me beijou. 

Aquilo  foi  totalmente inesperado e novo. Alice jamais  tomara  a  iniciativa  de  me  beijar  e  ali  estava  ela  –  e  confesso  que  não  ligaria  se  fizesse  isso  mais  vezes.  Sua  boca  tinha  o  gosto  do  churros  ligado  ao  salgado  de  suas  lágrimas.  Suas  mãos  desceram  para  meu  pescoço  e  depois  para  minhas  costas.  Segurei  sua  cintura  e  a  afastei.  Nossas  testas  ficaram  coladas,  as  respirações  misturadas  e  os  corpos  entrelaçados.  Olhei  para  seu  lábio  e  flagrei-a  o  mordendo,  o  que  me  fez  querer beijá-la de novo. Pelo bem de nós dois eu me contive.  –Boa noite, baixinha. – beijei sua testa. 

Ela me olhou como se estivesse ponderando entre  discutir ou não o porquê eu a havia afastado. Por fim, ela  sorriu. 


–Boa noite. – afastou-se e entrou em casa.

Saí  de  minhas  lembranças  ao  ver  Alice  batendo  no  vidro  do  carro.  Seu  sorriso  era  o  mais  lindo,  com  covinhas  incomuns,  mas  que  a  faziam  única.  Dante  parou  o  carro  e  todos  descemos.  Abracei  minha  namorada  que  roubou  um  beijo  rápido  antes  de  se  afastar.  Conversamos  bem  pouco  do  trajeto  curto  de sua casa até o colégio. Após deixarmos nossas  bagagens  no  compartimento  do  ônibus,  Alice  me  arrastou  para  o  meio  da  nossa  turma.  Dante  e  Maria  nos  acompanharam.  –Ei, pombinhos! – Rebecca nos cumprimentou. 

Alice  riu  e  disse  um  oi  coletivo.  Apenas  dei  um  sorriso  forçado.  Várias  pessoas  estavam  olhando  em  nossa  direção.  Senti  um  pouco  como  uma  celebridade  tendo  sua  privacidade  violada  a  princípio,  mas  depois  descobri  que  eles  estavam  olhando  para  minha  namorada  e  não  para  nós  dois  juntos. Alice estava usando shorts jeans, regata preta e tênis de  corrida  roxo.  A  grande  maioria também estava usando roupas  como  as  de  Alice  –  até  eu,  por  incrível  que  pareça  –,  mas  ela  não  costumava  mostrar  tanta  pele.  Até  eu  estava  hipnotizado  com sua pele alva.  –Algum  problema?  –  Alice  observou  meu  rosto  com  um sorriso tímido.   


–Não. –  peguei  sua  mão,  levei-a  aos  lábios  e  dei  um  beijo – Está tudo bem.  –Que bom. – ela passou os braços por minha cintura  –

Porque se você reclamasse da minha roupa eu juro

que terminava aqui e agora. –Não  seja  por  isso.  –  brinquei  – O que pensa que faz  com  esses  trajes,  mulher?  Encurte  esses  shorts,  deixe  suas  vestes mais coladas e use mais cores em seus calçados.  –Bobo. – ela riu e disse antes que eu pudesse  responder  – Meu bobo, eu sei. 

–Que  bom  que  sabe.  –  passei  meus  braços  por  seus  ombros.  Observei  enquanto  nossos  colegas  conversavam.  O  reflexo  do  projeto  de  conhecer  uns  aos  outros  estava  nítido.  Nunca  diria  que  alguém  como  Pedro  iria  se  tornar  amigo  de  Rebecca,  ou  que  Ana  e  Ila  poderiam  se  misturar  com  o  restante  da  turma,  mas  ali  estavam.  A  nossa  turma  havia  passado  de  “apenas  algumas  pessoas  que  estudavam  juntos”  para  um  grupo  de  amigos.  Era  aquilo  que  Alice  precisava  quando eu estivesse em Londres.  –Eu  soube  que  lá  tem  lugares  lindos.  –  Rebecca  continuou falando sem parar – Essa viagem vai ser incrível, 


pessoal! A  gente  pode  fazer  guerra  de  travesseiro,  noite  do  terror, ou fogueira naquele lugar que me falou Hilton. Como é  o nome de lá mesmo?  –O  Mirante.  –  ele  segurou  o  ombro  dela  –  É  melhor  você se acalmar. A gente nem saiu ainda.  –Ok. – ela respirou fundo fazendo todos rirem. 

–Será  que  o  Aguinaldo  vai  levar  a gente na Cachoeira  da Velha? – Mônica, que raramente falava, perguntou.  –Com  certeza.  –  Enzo  respondeu  –  Vocês  vão  amar  tudo no Jalapão. Já fui várias vezes.  –Riquinho metido! – Rodrigo tossiu, brincando. 

–Ai!  –  Enzo,  fingindo  estar  ofendido,  colocou  a mão  sobre o peito.  Novamente a turma riu. 

–Vejo  que  vocês  já  estão  se  divertindo.  –  o professor  Aguinaldo  se  aproximou  da  nossa  turma  –  Só  falta  vocês  se  enturmarem com a outra turma.  Os  olhares  de  todos  se  voltaram  para  os  grupos  da  turma  A.  Eles  eram  claramente  separatistas,  tanto  entre  si  quanto  no  geral.  Eles  eram  o  pior  tipo  de  turma  de  terceiro  ano: 


se achavam  os  superiores  do  colégio,  como  se  fossem  reis,  rainhas  e  nobres  que  não  se  misturavam.  Isso  dificultava  qualquer  união  entre  as  duas  turmas  que  deviam  ser  as  mais  unidas.  Ao  meu  redor  todos  torceram  o  nariz  para  a  ideia  de  se  misturar. Apenas Alice estava com um sorriso simpático no  rosto.  –Acho que pode ser bom nos enturmarmos com eles.  –

ela parecia  realmente  estar  considerando  a  ideia  pela 

expressão em seu rosto. –Que bom que pelo menos uma se salvou. –  Aguinaldo riu – O que sugere que façamos? 

–Bem...  –  Alice  pensou por um instante – Já sei! Uma  vez  li  um  livro  onde  tinham  várias  espécies  de  seres  sobrenaturais  e  eles  usavam  um  tempo  para  passear  pelo  acampamento  com  outra  pessoa  de  outra  espécie.  Isso  fazia  com que eles se aceitassem.  –Eu  gostei  da  ideia.  –  o  professor  sorriu  e  todos  resmungaram  –  Gente,  vocês  também  não  eram  chegados  antes do projeto da professora Fabiana.  –É verdade. – alguns concordaram. 

–Talvez  com  a  outra  turma  a  gente só precise de algo  parecido.  –  Alice  sorriu  –  Nós  podemos  marcar  um  horário  em 


cada um dos quatro dias em que podemos fazer alguma atividade com a outra turma.  Nossos colegas se entreolharam. 

–Gente,  pensem  nisso.  –  Alice  estava  com  o  olhar  que  eu  chamava  de  “olhos  de  gato  de  botas”,  que  poderia  convencer  qualquer  um  –  É  como  no  livro.  Nós  somos  espécies  diferentes,  só  precisamos  passar  um  tempo  com  eles  e  ver  que  nem  tudo  que  pensamos  sobre  eles  é  verdade.  O  que acham?  Eles  hesitaram,  mas,  por  fim,  aceitaram.  O  professor  se  afastou  para  comunicar  a  outra  turma  sobre  “a  interação”,  como  ele  denominou.  A  reação  da  outra  turma  foi  tão  ruim  quanto  a  nossa,  mas  um  deles  –  um  loiro  que  já  havia  visto  pelos  corredores  do  colégio  –  estava  tão  empolgado  quanto  Alice.  Ele era o típico aluno da turma A, com cara de riquinho  e  metido,  mas  duas  coisas  nele  me  chamaram  atenção.  A  primeira  era  o  livro  em  sua  mão  – apenas consegui identificar  o  nome  do  autor,  Dickens  –  e  a  segunda  foi  seu  olhar  em  minha  direção.  De  primeira  pensei  que  ele  estivesse  apenas  me  encarando,  mas  depois  percebi  que  seus  olhos  estavam  sobre Alice.  –Algum problema? – ela tocou meu braço.     


Só então  percebi  que  estava  com  os  punhos  cerrados  e  apertando  a  mandíbula.  Desviei  o  olhar  do  riquinho  e  encontrei os olhos cristalinos de Alice me observando.  –Nicholas? Você está bem? 

–Sim.  –  relaxei  –  Então,  você  agora  é  uma  socióloga  inspirada na nossa querida Wendalla?  –De  maneira  alguma.  –  ela  respondeu  séria  –  Seria  preciso  ser  formada  e  ter  pelo  menos a coragem de dizer “oi”  para estranhos.  –Você me disse oi primeiro. – observei. 

–E olha o desastre que aconteceu! – ela riu. 

–Como? 

–Depois.  –  ela  continuou  a  rir  –  Eu  quis  dizer  logo  depois. Não tem nenhum desastre acontecendo agora.  –Talvez só pelo fato de que estamos indo para o meio  do  mato  acampar  num  lugar  onde  tem  onças,  cobras,  entre  outros animais perigosos, mas assim, nada demais. – ironizei.  –Não  pense  que  eu  vou  desistir de ir. – ela tentou me  lançar um olhar ameaçador.  –Não estou falando nada. – levantei minhas mãos e ri.     


–Bom mesmo.  –  ela  ficou  na ponta dos pés e me deu  um beijo rápido.  Quando  Alice  se  afastou,  percebi  que  o  mesmo  cara  que  estava  encarando-a  antes  nos  olhava.  Abracei  Alice,  sem  tirar  os  olhos  do  tal  loiro,  que  riu  e  desviou  o  olhar.  O  professor  Aguinaldo  chamou  atenção  de  todos  e  Alice  se  afastou.  Sem  querer  perder  contato,  segurei  sua  mão.  Ela  olhou para mim por um instante e sorriu.  –Escutem  bem,  porque  não  vou  repetir  essas  informações.  –  Aguinaldo  começou  – Daqui até o Jalapão são  trezentos  quilômetros,  cerca  de  quatro  horas  e  meia  de  viagem.  Vamos  acampar  próximo  a  Mateiros.  No  último  dia  nós vamos dormir na Pousada Santa Helena.  –Então  vamos  dormir no meio do mato? – uma aluna  da turma A perguntou com uma cara de nojo.  –Sim,  esse é objetivo da viagem. – com uma paciência  que  mais  teria,  o  professor  respondeu  –  Pessoal,  essa  viagem  não  é  apenas  para  diversão. Vamos estudar de forma prática a  biologia. Mantenham isso em mente.  O  professor  se  afastou,  deixando  as  duas  turmas  em  silêncio.  Até  Alice  ficou  quieta.  Quando  reuni  coragem  de  falar  com  ela,  nos  chamaram  para  entrar  no  ônibus.  A  turma  A subiu 


primeiro, pegando  todos  os  lugares  bons.  Alice  acabou  deixando  metade  da  turma  entrar  antes  que  nós.  Tentei  manter  a  calma  para  não  acabar  deixando-a  irritada,  mas  ela  conseguiu ver em meu rosto que não estava gostando daquilo.  –Qual o problema? – ela se virou, ignorando a fila a  nossa frente.  –Nada. – tentei disfarçar. 

–Nicholas. – ela semicerrou os olhos – Qual o  problema?  –Acho que... – respirei fundo – É você, Alice. 

–Como assim? 

–Isso de você querer juntar as turmas ou de deixar as  pessoas passarem na sua frente. – expliquei.  –Você quis dizer a minha bondade? – ela cruzou os  braços – Isso te incomoda?  Assenti. 

–Eu  não  posso  acreditar.  –  ela  riu  –  Como  ser  bondosa  pode  incomodar  você?  Acho  que  se  eu  fosse  um  egoísta  narcisista  você  não  iria se incomodar, não é mesmo? –  ela se virou irritada.     


–Alice. – segurei seu ombro – Não quis dizer isso.

–Não? – ela me olhou sobre o ombro, ainda furiosa –  O que quis dizer então? 

–O problema não é ser bondosa. – acariciei seu rosto  –

Isso é  incrível,  mas  eu  sei  que  o mundo está recheado 

de tudo,  menos  bondade.  Então,  as  pessoas  vão  acabar  tirando vantagem dessa sua bondade um dia.  –Você  acha  que  não  sei  disso?  –  ela  se  virou,  ainda  com os braços cruzados e com o cenho franzido.  –Eu  sei  que  sabe.  –  segurei  seu  rosto  entre  minhas  mãos  e  beijei  sua  testa  –  Só  mantenha  em  mente  que  nem  todos merecem sua bondade.  “Inclusive eu”, pensei. 

     

Graças  a  Dante  e  Maria  conseguimos  dois  lugares  vagos  lado  a  lado.  Alice  passou  quinze  minutos  tentando  conversar  para  não  sucumbir  ao  sono,  mas  sem  sucesso.  Ela  dormiu  durante  toda  viagem.  Olhei  para  o  lado,  procurando  por  alguém  para  conversar,  mas  só  encontrei  Maria.  Até  Dante  estava  dormindo.  Apesar  de  acordarem  cedo  todos  os  dias 


durante a  semana,  pelo  visto,  todos  dormiam  até  mais  tarde  aos  sábados.  Ou  noventa e cinco por cento gostava de dormir  em  ônibus.  Fiquei  repassando  todo  o  plano em minha mente.  Precisava  que  tudo  funcionasse.  Uma  falha  qualquer  e  Alice  descobriria tudo. Estava tão perdido em pensamentos que mal  percebi  quando o ônibus parou. Metade da turma já estava em  pé quando Alice acordou.  –Já chegamos? 

–Pelo visto seu sono foi profundo mesmo. – brinquei  com seu cabelo bagunçado.  –Quanto tempo eu dormi mesmo? – ela franziu o  cenho.   

–A viagem inteira. – sorri ao ver sua cara de espanto.

–Pareceram minutos. – ela riu. 

Um  estalo  nos  assustou.  Olhando  para  o  lado  descobri  o  que,  ou  melhor,  quem  era  a  culpada  por  nos  assustar.  Maria  estava  tentando  acordar  Dante.  Por  anos  de  convivência  com  ele  sabia  que  nem  um  soco  o  acordava,  quanto mais alguns tapas em seu ombro.  –Deixa comigo, Maria. – peguei a garrafinha de água  em minha mochila.     


Sabia que  Dante  só  conseguia  ser  acordado  se  jogassem  água  no  rosto  dele  e  foi  exatamente  o  que  eu  fiz.  Assim  que  as  primeiras  gotas  desceram  em  seu  rosto  ele  acordou  em  um  pulo  Alice  e  Maria  não  aguentaram  e  começaram a rir.  –Isso  é  maldade.  –  Dante  apontou  um  dedo  para  mim acusatoriamente.  –Maldade  é  lidar  com  seu  sono  de  pedra.  –  acabei  rindo  também  –  Ok,  agora  que  a  Bela  Adormecida  acordou,  podemos ir?  –Claro,  príncipe  encantado.  –  Dante  entrou  na  brincadeira  –  Só  que  antes  você  vai  ter  que  dar  um  beijo  na  Bela Adormecida aqui.  Alice, Maria e eu respondemos ao mesmo tempo: 

–Não mesmo! 

–Tá doido? 

–Sem chance! 

Dante riu e deu um tapinha em meu ombro. 

–Desculpa,  ​man,  ​mas  você  não  faz  meu  tipo. – virou-  se para Alice – É todo seu.     


Com um  clima  descontraído  descemos  do ônibus. As  duas  turmas  já  estavam  aglomeradas  em  um  semicírculo  em  volta  do  professor  Aguinaldo,  que  já  estava  dando  “explicações biológicas” sobre o local onde estávamos.  –Seguindo  a  trilha  nós  vamos  chegar  ao  Canion  de  Sussuapara.  Lá  embaixo  vocês  vão  encontrar  um  pequeno  riacho,  que  se  forma  a  partir  da  água  das raízes das árvores. –  ele explicou – Bem, vamos lá!  Olhei  para  Alice  que  parecia  completamente desperta  e  animada.  Fomos  os  últimos  das  duas  turmas  a  chegar  ao  Canion.  Na metade do caminho tive que deixar Dante e Maria  irem  à  nossa  frente.  Alice  acabava  tropeçando  a  cada  metro  que  andávamos.  Por  fim,  pedi  que  ela  me  deixasse  carrega-la  em  minhas  costas.  Primeiro  ela  recusou,  mas  depois  de  mais  dois  tropeços  e  um  tombo  que  resultou  em  um  arranhão  no  joelho, acabou aceitando.  Assim  como  na  estrada,  a  mudança  na  paisagem  era  visível.  Palmas,  apesar  de  ser  quente,  sempre  estava  em  seu  aspecto  verde,  graças  a  infraestrutura.  Já  ali,  não  tinha  como  controlar,  era  tudo  de  acordo  com  a  natureza.  As  árvores  de  casca  grossa,  com  os  troncos  e  galhos  retorcidos,  e  as plantas  rasteiras  gritavam  explicitamente  que  ali  era  o  cerrado.  O  clima foi melhorando a medida em que chegamos ao Canion.     


Alice pulou  de  minhas  costas  e  deu  um  beijo  de  agradecimento  na  bochecha.  Encontramos  parte  da  turma  tirando  os  calçados  e  suas  camisetas  para  entrar  no  riacho,  enquanto  outros  já  estavam  lá.  Alice  me  olhou  por  um  instante,  como  se  estivesse  pensando se iria entrar ou não. Eu  não  estava  com  a  menor  vontade  de  me  juntar  a  todos,  mas  por  minha  namorada  eu  entraria.  Tirei  meu  tênis  e  minha  camiseta.  Quando  olhei  para  Alice,  ela  parecia  chocada.  Por  fim, ela acabou fazendo o mesmo.  Segurou  minha  mão  e  seguimos  para  o  riacho.  Algumas  partes  nem  chegavam  aos  meus  joelhos,  mas  os  alunos  inventaram  uma  guerra  de  água  e  acabamos  bastante  molhados.  Aguinaldo  nos  explicou  sobre  a  formação  do  Canion  e  outras  coisas  “biológicas”  do  local,  mas  a  única que  realmente  gostei  foi  sobre  as  pedras  de  arenito  que  soltavam  tinta.  Rapidamente  pensei  em  algo  que  ou  irritaria  Alice  ou  a  faria  rir.  Torci  para  ser  a  segunda  opção.  Passei  minha  mão  pela  pedra  sem  que  ela  percebesse  e  me aproximei. Sem dizer  nada  puxei-a  pela  cintura  e  a  beijei.  Seus  lábios  estavam  quentes  em  contraste  com  seu  corpo  úmido.  Senti  sua  mão  úmida em minha bochecha e me afastei.  –Alice? 

–Sim? – ela sorriu.     


–O que você fez?

–Nada. – ela riu. 

–Você pintou meu rosto não foi? – passei a mão por  minha bochecha.  –E você achando que ia me fazer de besta. – ela  gargalhou.  –Vamos ver o quão besta você vai parecer quando eu  pintar seu rosto!  Ela  gritou  e  saiu  correndo,  enquanto  ria.  Eu  a  persegui  até  perto  do  paredão,  onde  ela  ficou  encurralada.  Com  um  braço  eu  a  segurei  colada  ao meu corpo e aproveitei  a  mão  livre  para  sujar  seu  rosto.  Ela  lutou  contra  mim  enquanto  ria  e  no  fim  acabamos  nos  beijando  novamente.  Assim  que  me  afastei  vi  que  alguém  nos  observava.  Era  o  garoto  da outra turma que ficara observando minha namorada  mais cedo.  –Algum problema? – perguntei. 

–Não... – ele desviou o olhar, completamente  constrangido – Eu já vou.  Virou-se. Alice olhou para mim sem entender nada. 

–Ei! – a voz dele nos surpreendeu.   


Voltou a se aproximar de nós.

–Eu,  na  verdade,  ia  entregar  isso.  –  ele  mostrou  duas  pedrinhas  brancas  –  Achei  que  seria  interessante  vocês  dois  saberem  do  costume.  Noventa  por  cento  dos  namoros  terminam  depois  do  ensino  médio.  Não  sei,  acho  que  isso  pode  parecer  besteira,  mas  quem  saiba  funcione...Eu  estou  tagarelando de novo! Desculpa...  –Tudo bem. – Alice sorriu – Qual é o costume? 

–As  pessoas  pegam  uma  pedrinha  dessa,  fazem  um  pedido  e  a  colocam  no  paredão.  –  ele  me  entregou  as  duas  pedras – Talvez seja algo bom para vocês.  –Quanta bobagem... – murmurei. 

Alice deu um tapa no meu braço e olhou para o  garoto. 

–Obrigada. – ela sorriu novamente – E desculpa pelo  comportamento do meu namorado.  –Sem problemas. – ele começou a caminhar para  longe.   

–Você não disse seu nome! – Alice gritou.

–É Ian. – olhou sobre o ombro. 

–Obrigado, Ian.   


Ele

não

respondeu.

Quando

estávamos

completamente sozinhos me afastei dela. –Qual o seu problema? – ela gritou – Precisa tratar as  pessoas assim?  –Se for alguém que está interessado na minha  namorada precisa sim. – retruquei.  –Isso é completamente ridículo! 

–Alice,  ele  está  te  observando  desde  a  hora  em  que  saímos  de  Palmas.  –  abaixei  o  tom de voz. – Não é ridículo, é  só a verdade.  –Não me referi a ele e sim a você com ciúmes. – ela  cruzou os braços.  Droga! Porque ela tinha que ter razão sempre? 

–Desculpa. – aproximei-me dela – Prometo não ser  um babaca ciumento de novo, ok?  Ela assentiu, mas ainda estava brava. 

–Ei! – olhei em seus olhos – Você quer fazer um  pedido comigo?  –Essas coisas não funcionam. – resmungou.     


–Então vamos fazer apenas pelo costume. – peguei uma das pedras e entreguei a outra para ela – Ok?  –Ok. – ela suspirou. 

Pensei em meu pedido por alguns instantes e coloquei  a  pedrinha  no  paredão.  Ela  demorou  um  pouco  mais  e  quando colocou a pedra me olhou ainda parecendo brava.  –O que você pediu? – perguntou. 

–Que o seu pedido se realizasse. – segurei suas mãos. 

–Bom. – ela sorriu maliciosamente – Eu pedi que você  morresse afogado nesse riacho.  –Olha a minha sorte! – ironizei – Tenho a melhor  namorada do mundo!  Ela tentou segurar, mas acabou rindo.   

–Agora é sério. – colei minha testa a dela – O que você pediu?   

–Que nós terminássemos esse ano juntos. E você?

–O mesmo. – menti. 

Meu pedido não poderia ser dito em voz alta. Ela  jamais entenderia o porquê eu havia pedido que ela fosse feliz,     


mesmo que isso significasse que ela não seria minha. Talvez um dia, quando estivesse em sua vida feliz e calma, ela  entenderia.     


QUATRO  


“Eu fui feito para acreditar que eu nunca amaria ninguém

Fiz um plano 

Continuar sendo o homem que ama apenas a si mesmo  Solitária foi a canção que eu cantei  Até o dia que você apareceu  Mostrando-me um melhor caminho  E tudo o que meu amor pode trazer”  –John Mayer.     


Só voltei  realmente  a  encontrar  Alice  à  noite.  Assim  que  chegamos  ao  acampamento,  Aguinaldo  nos  separou  em  duplas,  já  iniciando  seu  projeto  de  interação.  Alice  ficou  com  uma menina chamada Larissa e eu – para minha incrível sorte  –

com o  Ian.  Ou  era  o  que  pensava.  Estava  motivado  a 

permanecer completamente  calado,  mas  ele  continuava  a  conversar  sobre  “a  física  por  trás  da  montagem  de  uma  barraca”.  Chegou  a  um  ponto que já estava querendo deixar o  gênio montar a barraca sozinho.  –É simples, cara! – continuou com sua “tortura física”  – Só pense na teoria... 

–Ian,  pare!  –  quase implorei de joelhos – Eu vim para  aprender,  e  se  isso  realmente  for  acontecer,  sobre  biologia  e  curtir minha namorada.  –Ok.  –  ele  levantou as mãos e riu – Não falo mais em  física, mas pelo menos me chame pelo nome certo.  –Mas você falou lá no Canion que seu nome é Ian. –  lembrei a ele.     


–Não. – ele riu – Acho que você me confundiu com meu irmão gêmeo. Eu sou o Lucas.  –Isso explica a mudança. – pensei alto. 

–O que? 

–Pelo  visto  você  e  seu  irmão  são  completamente  opostos.  –  expliquei  –  Eu  vi  que  ele  estava  com  um  livro  e  você ficou meia hora falando sobre física.  –Isso porque você não viu nossa irmã. – riu – Ela é  totalmente diferente de nós dois.  –Vocês são trigêmeos? – assustei-me. 

–Não, mas para ela somos. Nem queira saber porque...  – ele suspirou – Ela é completamente pirada, mas é gente boa. 

–Nossa turma tem uma dessa também. – apontei para  Teodora.  –Eu conheço ela. – senti um ressentimento em sua  voz.   

–Senti que tem uma história interessante ai. – peguei a capa da barraca.  –Nem tanto. – ele voltou a me ajudar – Eu a conheci  em uma festa que seu colega quase me arrastou a força.   


Enzo. Como sempre sendo insistente quando o assunto é festa.  –Bem,  ela  me  chamou  atenção  de  primeira.  –  continuou  –  Nós  dançamos  e  conversamos,  mas  no  fim  da  festa  ela  simplesmente  sumiu.  Na  outra  semana  eu  a procurei  para chama-la para sair.  –E o que aconteceu? – fechei o zíper da barraca. 

–Ela disse não! – ele riu – Na frente de grande parte da  sua turma. Meu irmão avisou que aconteceria.  –Eu passei por algo parecido. – cruzei os braços – Foi  ao  contrário,  na  verdade.  Eu  meio  que  afastei  a  garota,  mas  tinha meus motivos. Talvez ela tenha os dela.  –Talvez. – ele se afastou para observar nosso trabalho  – Parece que terminamos. 

–É... 

–Então, o que aconteceu com a garota? Para ter uma  ideia do que pode acontecer comigo, sabe?  –Ela é minha namorada agora. – bati em seu ombro de  brincadeira – Talvez tenha esperança para você.  –Talvez. – ele riu.     


Quase como  uma  resposta  do  universo,  Teodora  me  chamou  e  pediu  ajuda  já  que  havíamos terminado. Eu chamei  Lucas  para  me  acompanhar  e  após  alguns  minutos  eu  os  deixei  sozinhos.  Alice  estava  do  outro  lado  do acampamento,  conversando  animadamente  com  Larissa,  enquanto  elas  montavam  a  barraca.  As duas estavam se divertindo tanto que  nem perceberam minha presença até que...  –Nicholas! – Aguinaldo me chamou. 

Alice,  ouvindo  meu  nome,  olhou  em  minha  direção.  Nossos  olhares  se  cruzaram e ela sorriu. Eu gesticulei para ela  se  aproximar,  mas  o  que  recebi  foi  uma  cara  feia  e  um  não.  Tentei  fazer  uma  expressão  triste,  mas  acabei  rindo.  Ela  apontou para Aguinaldo e disse:  –Vá! 

–Sim, senhora. – brinquei. 

Encontrei  Aguinaldo perto de duas meninas morenas,  típicas  alunas  da  turma  A.  Ele  pediu  que  eu  as  ajudasse  e que  seria  bom  pois  na  divisão  ele  teve  que  deixar  as  duas  como  dupla,  já  que  nossa  sala  tinha  menos  alunos. Sem muita saída,  aceitei.  As  duas  praticamente  não  fizeram  nada,  só  reclamavam  das  picadas  dos  insetos  ou  que  tinham  quebrado  uma  unha.  Enquanto  montava  a  barraca  delas,  pude  observar  Alice. Em 


alguns momentos, nossos olhares se cruzavam e eu sorria. Ela  estava com ciúmes, conseguia perceber claramente. Assim que  terminei me despedi das meninas.  –Espera. – uma delas segurou meu braço. 

–O que? Eu deixei alguma coisa sem montar? 

–Não.  –  sorriu  –  Só  pensei  em  te  chamar  para  ser  meu acompanhante na fogueira. O que acha?  –Não.  –  puxei  meu  braço  –  Nada  contra  você,  mas  tenho  namorada  e  não  a  trocaria  nem  mesmo  pela  Scarlett  Johansson.  Deixei  as  duas  boquiabertas  e  fui  procurar  Alice.  Ela  não  estava  onde  eu  a  tinha  visto  instantes  antes.  Encontrei  Dante  junto  a  Ian.  Meu  amigo  me  avisou  que  as  meninas  haviam  sido  chamadas  para  a  central  do  acampamento – uma  casa  onde  ficavam  os  banheiros  e  o  café  da  manhã  seria  servido.  Elas  teriam  uma hora para se arrumar e depois seria a  vez  dos  meninos.  Durante  a  hora  que  se  seguiu,  ouvi  a  conversa  de  Dante  com  Ian  sobre  Londres.  Já  sabia  cada  minúsculo  detalhe  sobre,  apenas  fiquei  em  silencio  e  tentei  não pensar muito em como desconfiava de Ian.  Aguinaldo  nos  acompanhou  até  a  central  e  disse  que  as meninas estavam voltando por outra trilha e iam montar a   


fogueira. Pelo visto eles haviam programado tudo para manter  os  meninos  separados  das  meninas.  Tomei  banho  rapidamente,  com  esperança  de  poder  encontrar  Alice  antes,  mas  o  professor  avisou  que  só  sairíamos  quando  todos  ficassem  prontos.  Quando  finalmente  voltamos  para  o  acampamento  o  céu  já  estava  parcialmente  escuro  e  a  lua  já  começava  a  aparecer.  Dante  logo  encontrou  Maria,  que  lhe  deu um beijo rápido.  –Você  viu  a  Alice?  –  perguntei  assim  que  eles  se  afastaram.  –Ela  estava  com Larissa perto da fogueira. – o ciúmes  ficou  completamente  visível  quando  ela  pronunciou  o  nome  da “nova amiga da Alice”.  –Vou tentar procura-la. 

–Não  precisa.  –  Dante  apontou  com  o  queixo  para  a  fogueira – Ela está vindo para cá.  Alice  estava  extremamente  linda.  Não  que  ela  já  não  fosse  excepcionalmente  bela,  mas  os  jeans  e  camisetas  acabavam  escondendo  parte  de  sua  beleza.  Ela  estava  usando  um  vestido  branco  curto  de  alças  e  rasteiras  douradas  que  refletiam  o  brilho  da  fogueira  assim  como  seus  cabelos,  que  pareciam mais dourados. Seus olhos azuis estavam realçados e     


seus lábios rosados, convidativos. Não perdi tempo e a beijei assim que ela chegou até nós.  –Estava com saudade mesmo hein? – ela riu. 

–Obviamente. – olhei em seus olhos e decidi colocar o  plano em ação – Eu acabei de pensar em algo. O que acha...  –Alice! – Enzo me interrompeu. 

Alice  se  afastou.  Irritado,  agarrei  sua cintura e a puxei  para  perto  de  mim.  Sua resposta foi um olhar que até o Darth  Vader  teria  medo.  Enzo se aproximou de nós com um sorriso  simpático.  Eu  nem  era  contra  ele  nem  nada,  mas  ele  já  havia  interrompido  demais  meu  progresso  com  Alice  e  parecia  ser  um hábito recorrente.  –Que bom que te achei! – ele se dirigiu para Alice. 

–Oi para você também, Enzo. – resmunguei. 

–Nicholas! – Alice me acotovelou. 

–Oi! – Enzo sorriu – Então, eu lembrei que seu  aniversário está chegando e...  –Espera! – olhei para ela – Como assim seu aniversário  está chegando e você não me fala nada?  –Eu ia te contar. – desviou o olhar.     


–Como estava falando. – Enzo continuou – Pensei em juntarmos a turma e preparar uma festa. O que acha?  –Eu não sei. – ela mordeu o lábio. 

–Pode fazer, Enzo. – respondi. 

–Não! – Alice gritou entredentes. 

–Você  não  pode  dizer  não  para  a  comemoração  do  seu  aniversário.  – argumentei – Muito menos quando são seus  amigos que querem comemorar com você.  Alice suspirou derrotada. 

–Tudo bem. – ela olhou para Enzo – Pode avisar ao  pessoal sobre a festa, mas nada muito grande, ok?  –Ok. – Enzo a abraçou e deu um beijo rápido em sua  bochecha – Você não vai se arrepender.  Antes  que  eu  pudesse  me  irritar  mais  uma  vez,  ele  saiu,  completamente  animado,  e  foi  conversando  com  quem  encontrou no caminho. Alice estava rindo quando me virei.  –Ele é uma figura. – ela olhou para mim. 

–E um tremendo obstáculo, as vezes. – brinquei. 

–O que quer dizer? – Alice franziu o cenho.     


–Agora a senhorita se finge de inocente?

–Ah! – riu – Você está falando do beijo. 

–Bom que sua consciência não pesa. – resmunguei.   

–Por que? – ela acariciou meu rosto – Você ficou com ciúmes?   

–Imagina. – ironizei.

 

       

Meses antes...

–As notas  do  teste  já  estão  no  mural.  –  Fabiana  avisou  no  fim  da  aula  –  Até  segunda-feira  que  vem  e  bom  final de semana.  Ainda  em  meu  lugar,  eu  observei  Alice  enquanto  ela  arrumava  seus  materiais  na  mochila.  Diferente  da  maioria, ela  não  foi  correndo  para  saber  sua  nota,  o  que  demonstrava  confiança  em  si  mesma  ou  ela  apenas  era  indiferente.  Assim  que a sala esvaziou, ela se dirigiu ao mural e eu a segui.  –Bonito poema.     


Ela me  olhou  por  um  instante,  os  olhos  azuis  completamente assustados, e murmurou:  –Obrigada. 

Sua  atenção  foi  voltada  completamente  para  o mural.  Nem  olhei  minha  nota.  Encarei-a,  tentando  encontrar  algum  sinal  que  me  lembrasse  de  onde  eu  a conhecia, pois não tinha  como  ela  saber  tanto  sobre  mim  sem  nos  conhecermos.  Acabei  não  encontrando  nada  que  me  revelasse  alguma  lembrança,  mas  pude  concluir  que  ela era bonita. Não do tipo  comum,  mas  algo  nela  exalava  uma  beleza  diferente.  Talvez  fosse o fato de que ela parecia se importar mais com o interior  das  pessoas  que  o  exterior.  Isso  me  aterrorizou  por  um  instante. Se ela soubesse como eu realmente era...  –Qual  é  o  problema?  –  ela  nem  olhou  para  mim  –  Não  consegue  achar  seu  nome  no  mural  e  tá  pensando  em  pedir ajuda a alguém com QI superior para realizar tal ação?  Ouch!  Aquela  menina  sabia  responder  aos  outros  como ninguém!  –Era  para  mim  não  era?  –  ignorei  sua  grosseria  –  Eu  sei que era...  Resolvi  me  aproximar  dela.  Talvez  só  precisasse  ser  intimidada para admitir.   


–Você tá  maluco?  –  tentou  se  afastar,  mas  colidiu  com a parede – Com licença, preciso ir.  Antes  que  ela  pudesse  sair,  coloquei  um  braço  em  cada lado de seu pequeno corpo.  –Olha  bem  para  mim  e  responde.  –  sussurrei  –  Era  para mim?  Ela  ficou  paralisada  por  instantes.  Pude  observá-la  mais  atentamente.  Sua  pele  extremamente  branca,  os  cabelos  loiros  ondulados,  sua  boca  carnuda  –  extremamente  convidativa  –  e  os  olhos...  Aqueles  olhos  azuis  seriam  minha  perdição.  –Era  para  mim?  –  deixei  meu  rosto  a  poucos  centímetros do dela.  –Com  certeza  não!  –  balançou  a  cabeça,  parecendo  confusa  –  Acha  que  eu  iria  escrever  sobre  alguém  tão  desinteressante?  Sua  boca  dizia  uma  coisa,  mas  seu  corpo  expressava  outra, totalmente contrária.     


–Sei que  era  para  mim,  ou  pelo  menos  sobre  mim.  –  fixei  meu  olhar  em  seus  olhos  cristalinos  –  Não pense que eu  desisti ainda.  No  momento  em  que  as  palavras  saíram  dos  meus  lábios  me  arrependi.  Não  queria  demonstrar interesse por ela.  Só queria ouvi-la admitir que o maldito poema era sobre mim  –

o que  provaria  seu  interesse  por  mim  –  e  ser  um 

babaca para  ela  se  afastar  logo.  Percebi  que  teria  que  mudar  minha estratégia se quisesse salvar Alice de mim mesmo. 

       

Na semana  seguinte,  estava  tudo  pronto. Pedi ajuda a  Enzo,  que, depois de rir muito, concordou. Ele sugeriu que eu  lesse  ou  assistisse  alguma  coisa  do  estilo  da  Alice,  assim  teria  algo  para  iniciar  uma  conversa.  No  domingo,  assisti  “Ligados  Pelo Amor” – um dos filmes do carinha que ela dissera que eu  era  parecido  –  e  tive  uma ideia bem melhor. Eu lerei o poema  que  o  Rusty  lê  no  filme  no  “Poema  do  Dia”  daquela semana.  Fabiana  pareceu  surpresa  com  o  meu  pedido, mas concordou  em me deixar ler.  Quando  a sexta-feira chegou não consegui tirar aquilo  da cabeça. Alice era um enigma, ora fácil de ler, ora difícil de     


compreender. A  única  certeza  que  tinha  era  que  eu  faria  com  que  ela  me  desprezasse no fim de tudo, para seu próprio bem.  A  professora  Fabiana  finalmente  entrou,  deixando-me  aliviado  e  nervoso.  Quando  ela  anunciou  que  eu  leria  o  “Poema  do  Dia” pude sentir o olhar de Alice sobre mim e um  pequeno  sorriso  escapou.  Mal  ouvi  o  que  Fabiana  dizia sobre  o  trabalho  que  iríamos  fazer.  Repassei  o  poema  em  minha  mente.  Tentei  decorá-lo  ao  máximo,  mas  parecia que todas as  palavras  haviam  fugido  da  minha  mente.  Algumas  risadas  me  despertaram dos meus pensamentos.  –Nicholas, sua vez. – Fabiana sorriu. 

Caminhei  até  a  frente  da  sala  com  uma  cópia  do  poema  em  minhas  mãos.  Encontrei  o  olhar  de  Alice  imediatamente  ao  me  virar  para  a  turma.  Respirei  fundo,  sentindo  o  nervosismo  tomar  conta  de  mim.  Desviei  o  olhar.  Precisava  que  aquilo  funcionasse  para  voltar  a  ser  o  Nicholas  de  antes,  apenas  um  colega  de  turma,  insignificante,  e  não  o  Nicholas  que  era  para  Alice  naquele  momento:  o  que  usa  palavras bonitas para se declarar.  –Bem,  o  poema  que  escolhi  não  é  meu,  na  verdade.  Ele...  é...  –  as  palavras  fugiram  da  minha  mente.  Meu  olhar  voltou  para  o  de  Alice,  que  me  encorajou  com  um  aceno  –  Ele     


está em um filme que assisti, Stuck In Love ou Ligados Pelo Amor, como preferirem.  O olhar surpreso dela foi o suficiente para me deixar  animado. Olhei para o papel e iniciei a leitura:  No mar de carteiras 

Há conversa de malas, jogos e longos cachimbos  Que destilam sonhos com um acender do fósforo.  E há ruidosos sussurros que ouço, mas não deviam ser ruidosos,  deviam?   

Olhei para Alice e sorri.

Há uma garota aí que todos conhecem 

E homens sem ouvido se postam à porta por um prêmio.  Em longos corredores há multidões agitadas de anões e ratos  E apenas um único anjo.  Os  aplausos  pareciam  distantes.  De  repente  o  poema  fez  sentido  como  nenhuma  música  terá  feito.  Os  olhos  dela  eram de um anjo. Ela era a garota que todos poderiam desejar,  mas  só  seria  do  cara  certo.  Perguntei  a  mim  mesmo  naquele  instante se eu não seria esse cara.     


–Parabéns, Nicholas!  –  mal  tive  tempo  de  agradecer  ao  elogio de Fabiana, pois ela se virou para a turma – Se vocês  esperarem  cinco  minutos  eu  posso  sortear  as  duplas  do  trabalho. Tudo bem?  A  turma  concordou.  Todos,  inclusive  Alice,  começaram  a  guardar  seus materiais. Aproveitei que a atenção  não  estava  mais  em  mim  e  voltei  para  meu  lugar.  Observei  Alice  por  um  tempo.  Ela  estava  tensa  por  algum  motivo.  Antes  que  pudesse  distinguir qual seria, a professora começou  a anunciar as duplas.  –Alice  e...  bem,  você  ficou  com  o  Nicholas.  Maria,  por  enquanto,  ficou  sem  dupla,  mas  vou  ver  se  encaixo  você  em alguma.  –Troca  ela  com  o  Nicholas.  –  a  sugestão de Alice me  acertou como um tapa na cara.  É  claro! Ela não estava interessada em mim. Devia ter  acreditado  nas palavras dela. Eu tinha feito papel de idiota por  uma  garotinha  mimada  que  se  achava  superior  a  todos.  Se  meu  primo,  Dante,  estivesse  ali teria me chamado de ​completely  fool.  –Não, Alice. Sorteio é sorteio. Sua dupla é o Nicholas.  –

determinou. Então, ela se virou para a turma: – Estão

liberados.


Coloquei os  fones  de  ouvidos  e  me  levantei,  pronto  para  ir  para  casa  e  esquecer  aquela  manhã.  Assim  que  Blushleaguer  ​começou  a  tocar,  vi  Alice  se  aproximar  e  um  pouco da minha falsa esperança voltou, mas a deixei de lado.  –A que devo a honra? – parti para a ironia. 

–Eu não gosto de trabalhos malfeitos, então... 

“Claro! Você é a garota perfeitinha do papai! Toda  mimadinha por mamãe!”, pensei comigo mesmo. 

–Então  você  está  doidinha  para  me  encontrar.  –  descontei  minha  raiva  em  minhas  palavras  –  Eu  odeio  velas;  jantar  ao  som  de  jazz  também  não  rola.  Então  compre  um  vinho  bacana  e  vamos  invadir  um  parque.  –  peguei  minha  mochila, querendo por fim àquela conversa.  –Sério, Nicholas? 

–Sério. – um riso nervoso escapou – Adoro ir a  parques quando eles estão fechados.  Ela cruzou os braços. 

–Ok, se não tem diálogo assim... 

Revirei os olhos. Por que ela apenas não deixava  aquele assunto se encerrar? Qual o sentido de continuar  insistindo em 


dialogar com quem não se tem nenhum interesse? Eu sinceramente não compreendia.  –Só queria que soubesse que gostei do poema. –  continuou. 

–É... – procurei pelas palavras – Rusty é um bom  personagem. Gostei dele.  –Quentin também. – ela voltou a olhar para mim – 

Você iria adorar ​Cidades de Papel. Aquilo me pegou tanto de surpresa que só consegui rir  a princípio e então decidi provoca-la um pouco.  –Aquela piada de livro? – levantei uma sobrancelha –  Eu dispenso. 

–Fique sabendo que ele é um dos meus favoritos! 

–Eu nunca confiei muito em seus gostos mesmo! –  continuei a provocar Alice. 

Ela já estava um pouco vermelha de raiva e pronta  para revidar, mas Ítalo, o funcionário que trancava as salas,  entrou.  –Você poderiam sair? – perguntou bastante irritado –  Podem continuar a namorar do lado de fora. 

–Ela está longe de ser uma possível pretendente, cara.   


–É. – Alice começou a revidar minhas palavras – Quem iria querer entrar na lista desse cara? 

Ítalo riu e apontou para porta. 

–Não me enrolem mais. Saiam agora! 

Seguimos  em  silêncio  para  fora.  Não  trocamos  nenhuma  palavra  nem  nos  olhamos,  apenas  seguimos  nosso  caminho.  Como  sempre,  um aglomerado de alunos bloqueava  a  passagem.  Parado  ao  lado  de  Alice,  sufoquei  meu orgulho e  perguntei:  –Realmente gostou do meu poema? 

–Do poema e do autor sim. – respondeu secamente –  Não de você recitando ele. 

E  saiu  para  o  meio  da  multidão.  Mal me recuperei do  choque  de  suas  palavras  e  recebi  outra  surpresa:  Alice  estava  beijando  Enzo  a  poucos  metros  de  mim.  Senti  a  raiva  fluir.  Enzo  tinha  me  ajudado  apenas  para  rir  de  mim  quando  estivesse  com  Alice.  Ele  ia descobrir que não se brincava com  um Fontelle e se saía ileso. 

  Combinei de encontrar com Enzo no bar da boate  onde a turma estava comemorando o aniversário de Ila. Alice   


parecia não  ter  sido  convidada  ou  então  escolhera  ficar  em  casa.  Pedi  um  coquetel  de  frutas  para  Jonathas  que,  como  sempre,  insistiu  em  me  convencer  a  beber  alguma  coisa  com  álcool.  Recusei  de  imediato.  Eu  sabia  meu  limites  e  não  iria  ultrapassá-  los.  Esperei  por  Enzo  por quase uma hora. Estava  quase terminando o coquetel quando ouvi a voz de Alice.  –Ok,  estou  descendo  de  volta  para  aquele  formigueiro de gente.  –Tudo bem, Paulo. – levantei-me impulsivamente –  Ela está comigo. 

No  instante  que  proferi  aquelas  palavras,  me  arrependi.  Inúmeras  questões  rondavam  minha  mente.  Por  que  ela  estava  ali  quando  seu  (suposto)  namorado  poderia  acompanha-la?  Ele  estaria  ali  também?  Se  estava,  por  que  ela  não  ficava  com  ele  em  vez  de  se  refugiar  no  bar  onde  eu  estava?  E  a  pior  de  todas:  Por  que  era  difícil  simplesmente  ignorá-la  agora  que  sabia  que  não  havia  esperança  na  possibilidade de haver um interesse mútuo?  Seus  olhos  azuis  me  analisavam  com  uma  certa  curiosidade.  Eu  também  a  analisei  por  alguns  instantes.  Ela  usava  jeans,  camiseta  e um casaco e calçava um All Star. Nada  de cores além de preto e branco. Sem mostrar nada de pele.     


Bem diferente  do  que  a  maioria  das meninas usaria na  balada. Talvez ela realmente fosse diferente...  –Você  vem?  –  interrompi o silêncio, o que a fez pular  de susto.  –Sim, eu... eu vou. 

Alice  estava  se  enrolando  com  as  palavras.  Não  pude  conter  o  sorriso.  Olhei  para  ela  por  um  instante,  com  medo  que  tivesse  flagrado  meu  sorriso,  mas  ela  observava  o  bar.  Sentei-  me  no  banco  que  estava  sentado  anteriormente  e  ela  me acompanhou.  –Como  veio  parar  aqui?  –  brinquei  com  meu  copo  para  não  ter  que olhar nos olhos dela e acabar perguntando se  ela era namorada do Enzo.  –O  Enzo  me  chamou  enquanto  eu  estava  lendo,  na  verdade,  relendo  Orgulho  e  Preconceito.  Ele  me  buscou  em  casa, mas confesso que vim meio forçada.  “O  que  é  bom!”,  pensei  comigo.  “Se  eles  fossem  namorados  ele  teria  ficado com ela em casa ou estaria com ela  nesse  momento.  Bem,  é  o  que  se  espera  numa  situação  assim!”  –O que é isso? – ela apontou para o meu copo. 

–Você lê? – tentei desviar o assunto.   


–Você não respondeu minha pergunta. – ela insistiu.

–E nem você a minha. – observei. 

Tomei o restante do coquetel para evitar falar algo  embaraçoso.  –Sim, eu leio. – o seu tom era amigável – Qual o  problema?  –Legal.  –  bati  o  copo  no  balcão  e  encontrei  seus  olhos  azuis  curiosos  me  encarando  –  Era  um  coquetel  de  frutas sem álcool.  –Você tem dezoito anos, por que sem álcool? 

“E lá vamos nós...” 

–Se você tivesse dezoito anos, pediria com álcool?  Ela negou.  –Bem, assim como eu, você tem juízo na cabeça.  Espero que não tenha problema alcóolicos na família. 

“Como eu”, completei mentalmente. 

–Longe disso. – ela desviou o olhar – Sua família tem? 

Como ela poderia saber? A raiva fluiu por mim e  quando percebi estava com a mandíbula contraída e quase   


quebrando o  copo  de  tanta  força  que fazia. Senti a suave mão  de  Alice  tocar  a  minha.  A  raiva  se  dissipou  e  tudo  que  vi  foram  seus  olhos.  Ali,  com  ela  tão  perto  de  mim,  vi-me  tentado  a  diminuir  a  distância  e  beijá-la, mas a lembrança dela  com  Enzo  pairava  em  minha  mente.  Ela  tirou  o  copo  de  minha mão e todo o clima do momento se perdeu.  –Pronto, agora não corre o risco de quebrar em suas  mãos. – ela sorriu, como um anjo.  Desviei o olhar e me levantei. 

–Ok, preciso... – apontei para trás – ... é... ir... 

“...ir matar o Enzo! Isso que preciso!” 

–Ao banheiro? – ela sugeriu. 

–Sim. – um riso nervoso escapou – Só tome cuidado  com o que pede, nem tudo é seguro por aqui.  Ela  riu  baixinho  e  me  contive  para  não  voltar  lá  e  beijá-  la  ali  mesmo.  Desci  para  a  pista  de  dança  e  encontrei  Enzo  dançando  com  Rebecca  e  Teodora.  Eu  o  puxei  pela  camisa  e  o  arrastei  até  um local menos cheio. Quando o soltei  a confusão em seus olhos era extrema.  –O que aconteceu? – gritou tentando ultrapassar o  som da música.   


–Eu que  pergunto.  –  ri  –  Como  que  você  me  ajuda  com a Alice e depois a beija? Bem na minha frente!  –Eu estava ajudando ela! 

–Como assim? 

–Alice  me  pediu  ajuda  para  afastar  você  dela.  –  esclareceu  –  Ela  só  está  fingindo,  cara.  Dou  noventa  por  cento de chance de que ela está na sua!  Pensei  nas  palavras  dele  por  um  instante.  Toquei  seu  ombro,  agradeci e soquei seu estômago. Ele se curvou e urrou  de dor.  –Mas o que... 

–Você  não  devia  ter  beijado  ela.  –  dei  dois  tapinhas  em  suas  costas  –  Espero  que  tenha  ficado  claro  para  você  agora.  Deixei  Enzo  curtindo  sua  dor  e  voltei  para  o  bar.  O  bêbado  que  estava  desde  que  chegara  ali,  tentou  bater  em  Alice,  mas  eu  o  impedi.  Vi  que  Alice  virou  todo  o  conteúdo  de seu copo que parecia bem semelhante ao do bêbado.  –Chega! – ela bateu o copo no balcão e se levantou.  Jonathas olhou para Alice assustado.  –Vamos para...   


Alice não  conseguiu  completar  a  frase.  Eu  a  peguei  antes  que  ela  caísse.  Sua  cabeça  estava  encostada  em  meu  ombro  e  seus  olhos  fechados.  Envolvi-a  com  meus  braços  e  ela se aconchegou. Apesar da situação, a sensação era boa.  –Não  me  sinto  bem.  –  ela  murmurou  –  Está  tudo  rodando.  –Claro  que  está!  –  o  bêbado  gritou  –  Ela  trocou  o  copo com o meu!  –O que tinha no copo? – berrei.   

–Água que queimava. – Alice murmurou em meus braços.   

–Oh, meu.  Não,  Alice.  –  lamentei  –  O  que  ela bebeu  Jonathas?  Ele respondeu e eu respirei aliviado. 

     

Deixei  as  lembranças  daquele  dia  de  lado  e  me  foquei  no  meu  plano.  Pedi  para  Alice  me  acompanhar  até  a  sede  do  acampamento.  Ela  ficou  meio  em  dúvida  a  princípio,  mas  aceitou. Encontramos Aguinaldo, que me entregou um papel.     


Alice estava  calada,  mas  sabia  que  por  dentro era um poço de  curiosidade.  Apenas  sorri.  Ela  ia  adorar  a  surpresa.  Vi  dois  faróis  se  aproximarem.  Era  Marcos,  um  amigo  do  meu  avô  que  vivia  em  Mateiros.  Ele  era  extremamente  rico  –  o  único  sinal  aparente  disso  era  seu  Jeep  Renegade  –,  mas  escolhera  viver em sua cidade de origem.  –O  que  está  acontecendo?  –  Alice  finalmente  perguntou.  –Bem  –  peguei  sua  mão  –,  estou  te  levando  para  um  encontro.  –E  você nem me consultou para saber se eu estava de  acordo? – ela fingiu estar brava.  –Era para ser uma surpresa. – sussurrei em seu ouvido  – Se contasse perdia a graça. 

Ela  riu.  Marcos desceu do carro e nos cumprimentou.  Abri  a  porta  traseira  para  Alice  e  entrei  em  seguida.  O  percurso  até  Mateiros  foi  silencioso  e  cheio  de  carinho.  Apesar  do  sorriso  em  seu  rosto,  sabia  que  ela  estava  nervosa  por  não  ter  ideia  do  que  esperar.  Marcos  nos  deixou  na  Pousada  Santa  Helena  e  disse  que  voltaria  em  uma  hora.  A  recepcionista  da  pousada  nos  levou  até  a  área  externa,  onde  havia  a  piscina  e  um  salão  de  jogos.  Uma  mesa  para  dois  estava posta. Poucas luzes 


estavam acesas e velas cachepot estavam distribuídas por todo canto.  Alice  estava  encantada  com  tudo.  A  recepcionista  serviu  nosso  jantar  –  peixe  no  leite  de  coco  babaçu  –  e  conversamos  sobre  a  montagem  das  barracas.  Ela  contou  animadamente  sobre  como  Larissa  era  divertida.  Eu  a  observava  enquanto  ela  falava.  Seus  pequenos  gestos  ao falar,  seus eventuais sorrisos e a mania de desviar o olhar e corar.  –Eu  acho  que  já  falei  demais.  –  ela  riu  –  Acho  que  é  sua vez de me explicar o porquê disso tudo.  Acenei  para  a  recepcionista  que  se  aproximou  e  retirou  nossos  pratos.  Reuni  toda  minha  coragem  e  me  levantei.  Alice  me  olhou  meio  receosa.  Sorri  e  me  ajoelhei  a  sua frente.  –Não surte. – tirei a caixinha preta de veludo do bolso. 

Ela  arregalou  os  olhos  e  abriu  a  boca  para  falar,  mas  eu a interrompi:  –Calma, não vou te pedir em casamento. – sorri –  Ainda.   

–Graças a Deus! – ela suspirou – Porque eu ficaria sem graça de dizer não e minha família surtaria!     


–Pode ficar  tranquila.  –  coloquei  a  caixinha  em  suas  mãos – Abre.  Ela  sorriu  ao  ver  o  conteúdo da caixa. Era um colar e  um  pingente  de  ouro  rosa.  O  pingente  era  um  infinito  com  um  pequeno  diamante  no centro e a frase “No infinito de nós  dois...”  gravada  na  parte  de  trás.  Os  olhos  de  Alice  brilharam  de emoção. Ela pegou o colar em sua mão e alisou o pingente.  –Nicholas... – uma lágrima escapou – É perfeito! 

Passei  o  polegar  em  seu  rosto  enxugando  a  lágrima  e  respirei fundo.  –Sei  que  não  faz  sentido  tudo  isso  já que você sabe o  que  eu  quero  com  você,  mas  preciso  fazer  isso.  Quero  te  pedir  em  namoro  quantas  vezes  forem  necessárias.  De  um  jeito  criativo,  com  uma  simples  pergunta,  para  seus  tios,  seus  pais  e  qualquer  outra  pessoa que for necessária. – segurei uma  de  suas mãos – E é só o começo, porque quando for o pedido  de casamento vai ser pior.  Ela riu. 

–Então...  –  olhei  em  seus  olhos  azuis  que  tanto  me  fascinavam – Você aceita namorar comigo?     


Ela se calou por um instante e o sorriso em seu rosto desapareceu.  –Alice? 

–É claro que sim! – ela voltou a sorrir – Só quis deixar  você preocupado.  –Além de namorada ela é atriz. – apertei sua bochecha  de leve.   

–Finalmente reconhecem  meu  talento!  –  dramatizou  me fazendo rir.  –Você  gostou  do  presente?  –  toquei  o  pingente  em  sua  mão  –  Se  não  gostou,  tudo  bem.  Eu  só  achei  que  seria  perfeito ter algo com “No infinito de nós dois...”, sabe?  –É perfeito. – ela apertou minha mão de leve e sorriu  – Pode colocar em mim? 

Assenti.  Posicionei-me  atrás  dela  que  afastou  seus  cabelos  e  me  entregou  o  colar.  Assim  que  o  prendi  em  seu  pescoço  ela  se  levantou  e  me  abraçou.  Descansei  meu queixo  em  sua  cabeça  e  a  envolvi  em  meus  braços.  Ficamos  assim  por  alguns  minutos  até  que  ela  se  afastou  um  pouco  para  olhar em meus olhos.     


–Sabe... –  ela  tocou  o  pingente  –  É  perfeito!  Esse  pode ser nosso lema.  –Como assim? 

–Como  nos  livros.  –  ela  explicou  –  Hazel  e  Gus  tinham  o  “OKAY”,  Snape  usava  o  “Sempre” para falar sobre  Lilian, Katniss e Peeta o “Juntos”.  –Então nós temos “No infinito de nós dois”? 

–Sim.  –  acariciou  meu  rosto  e  sussurrou:  –  No  infinito de nós dois.  –No infinito de nós dois. 

     

Quando  voltamos  ao  acampamento  as  turmas  estavam  reunidas  e  conversavam  amigavelmente.  O  caminho  de  volta  foi  tão  silencioso  quanto a ida, mas percebi que Alice  eventualmente  tocava  no  pingente  e  sorria.  Agrademos  a  Marcos  por  ser  nosso  motorista  e  ele  brincou  dizendo  que  passaria  a  conta  para  meu  avô.  Caminhamos  de mãos dadas e  nos sentamos perto de Dante, Maria, Teodora e Ian.     


–Parece que o casal finalmente voltou, não é mesmo? – Rebecca zombou fazendo todos rirem. 

–Não se animem muito. – Alice entrou no clima – Ele  só me levou para jantar. Nada demais, sabe?  –Nada demais? – fingi estar bravo. 

–Estou brincando. – ela me deu um beijo rápido. 

Algumas  meninas  soltaram  suspiros  –  seguidos  por  “owns” prolongados – enquanto os meninos riram. Aguinaldo  se  juntou  a  nós  e  a  atenção  se  voltou  para  ele.  Todos  pareceram  extremamente  animados  com  a  programação  do  outro dia, menos Alice. A reação dela foi notada por todas.  –Aconteceu alguma coisa, Alice? – Hilton perguntou. 

–Não.  –  ela  tentou  sorrir  –  Só  estava  pensando  em  como  vou  sentir  falta  de  momentos  como  esse.  –  seu  olhar  estava  distante  –  Sabe,  ano  que  vem  será  diferente.  Cada  um  seguindo seu caminho, arrumando novos amigos...  Fez uma pausa e suspirou. 

–O  que  estou dizendo é que pela primeira vez na vida  eu  me  senti  parte  de  alguma  coisa.  –  ela  piscou  várias  vezes  tentando  segurar  as  lágrimas  –  Só  queria  que  durasse  um  pouco mais.   


A turma  ficou  em  silêncio,  provavelmente  sem  saber  como responder àquela declaração.  –Ok!  –  quebrei  o  silêncio  –  Que  tal  cada  um  falar  onde espera estar no próximo ano, já que o assunto é futuro?  A  turma  concordou  animadamente.  Alice  me  agradeceu  em  silêncio.  Coloquei  o  braço  sobre  seu  ombro  e  sorri.  –Eu  espero  estar  nos  EUA,  conhecendo  uma  nova  cultura e vivendo novas experiências. – Carol iniciou.  E assim seguiu a noite. A maioria dos alunos da turma  A  queria  estar  cursando  medicina  ou  direito  – como era de se  esperar.  A  nossa  turma  tinha  variações.  Ila  e  Ana  queriam  passar  na  Juliard.  Hilton  queria  ser  DJ.  Apolo  e  Ricardo  iam  passar  seis  meses  mochilando  pelo  mundo  e  só  depois  pensariam  no  que  fazer.  Teodora  –  obviamente  –  queria  cursar  Artes  Cênicas.  Enzo  foi  quem  surpreendeu  todos  ao  dizer  que  pretendia  ser  médico.  O  restante  da  turma  seguiu o  padrão  entre  medicina,  direito,  engenharia  e  alguns  até  arriscaram  em  psicologia.  Quando  chegou  a  vez  de  Alice,  eu  gelei.  Tinha  ouvido  o  bastante  para  saber  que  pensar  no  futuro  era  difícil  para  ela.  Ainda  mais  quando  seu  passado  ainda não estava totalmente resolvido.     


–Eu... – encarou o nada – Acho que espero estar feliz.  Não  tenho  certeza  sobre  qual será minha decisão, mas sei que  escolherei aquilo que me faz feliz.  Suspirei aliviado. 

–Eu  sei  que  espero  estar  feliz  também.  –  encontrei  o  olhar  de  Alice  –  Se  eu  tiver  a  música  e  Alice  comigo,  sei  que  vou estar.  Ela  sorriu  e  se  virou  para  prestar  atenção  ao  que  Maria  ia responder. A noite terminou com boas risadas após o  momento  de  confissões.  Enzo  sugeriu  que  brincássemos  de  mimica.  O resultado foi que que todo mundo pagou mico e se  divertiu.  A  única  hora  que  me senti mal foi ao me despedir de  Alice.  Passar  o  dia  ao  seu  lado  havia  sido  maravilhoso  e  tive  que  controlar  o  desejo  de  pedi-la  em  casamento  naquele  mesmo  dia.  Sorri.  “Calma,  Nicholas”,  pensei  comigo  mesmo.  “Um passo de cada vez.”     


CINCO

 

Alice  


“O passado pode doer, mas do jeito que eu vejo, você pode fugir dele ou aprender com ele.”  –Rafiki (Rei Leão).     


Era o  penúltimo  dia  no  Jalapão.  Estávamos  esperando  o  pôr-do-sol  nas  dunas.  Nicholas  estava  conversando  com  Lucas  novamente.  Os  dois  pareciam  estar  bem  próximo  desde  o primeiro dia do acampamento. Dante e  Maria  conversavam  mais  afastados  de  todos.  Eles  estavam  tendo  muitas  conversas  sérias  durante  aqueles  dias.  Decidi  não  me  intrometer.  Problemas  de  casais  se  resolvem  entre  eles.  Larissa  –  digamos  que  minha  nova  amiga  –  estava  se  enturmando  com  Teodora  e  Enzo.  Foi  assim  que  fiquei  sem  saber  com  quem  conversar. Sem Nicholas eu sentia que todos  pareciam  encontrar  alguém.  Parecia  que  ele  havia  se  tornado  meu  elo  com  as  pessoas.  Estava  tão  concentrada  em  meus  pensamentos  que  me  assustei  quando  Ian  se  sentou  ao  meu  lado.  –Eu  diria  um  beijo  por  seus  pensamentos,  mas  considerando  quem  é  seu  namorado...  –  ele  fez  uma  careta  –  Melhor não. Tenho amor à vida.  –Se não fosse ele então você diria? – brinquei.     


–Não. – desviou o olhar.

–Por que? – empurrei de leve seu ombro. 

–Porque qualquer namorado seu seria possessivo. –  explicou – Se ele tiver juízo.  Fiquei em silêncio.  –Desculpa por isso. – Ian murmurou. 

–Não  se  preocupe.  –  olhei  para  ele  e  sorri  –  Estava  pensando  em  como  acabei  sem  saber  com  quem  conversar  sem Nicholas por perto. Para minha sorte você apareceu.  –De nada. – sorriu.   

–Então, como é viver sabendo que tem dois gêmeos por ai?   

–A Lari te falou isso? – franziu o cenho.

–Em  parte.  Já  imaginava  que  você  e  o  Lucas  eram  irmãos  dela  porque  vivem  perturbando  um  ao  outro.  Só  não  imaginei que eram trigêmeos.  E  realmente  não  havia  imaginado.  Ela  era  morena,  com  um  tom  de  pele  bronzeado  natural  e  olhos  castanho  escuro. Já os meninos eram loiros de olhos castanho claro.     


–Na verdade  não  somos.  –  ele  observou  a  irmã  que  gargalhava  junto  a  Enzo  e  Teodora  –  A  Lari  fala  isso  para  todo  mundo  porque  nasceu  no  mesmo  dia  que  eu  e  o  Lucas,  mas ela foi adotada.  –Isso explica porque ela não se parece nada com  vocês.  – pensei alto. 

–É  o  que  todo  mundo  fala  quando  vê  a  família. – ele  riu  –  Imagine  ser  morena  e  ter  os  pais,  irmãos,  tios  e  tias  loiros?  Não  demorou  para  ela  descobrir  que  era  adotada  quando pequena.  Desviei o olhar. 

–Como... – engoli em seco – Como ela reagiu? 

–Ela achou legal e criou a história dos trigêmeos. Acho  que hoje é quase real para ela.  –Queria poder pensar assim... 

–Por que? 

–Eu  sou  adotada.  –  encarei  Ian  –  Descobri  da  pior  forma  e  ainda  não  consegui  aceitar.  Foi  como  se me falassem  que  vivi  uma  vida  de  mentira,  onde todos fingiram que eu era  parte da família e não sou.   


–Você nunca desconfiou?

–Não.  Sempre  me  disseram  que  eu  era  idêntica  à  minha mãe! – irritei-me.  Ian  tentou segurar o riso, mas não conseguiu. Por fim  também acabei rindo.  –O  que  é  tão  engraçado?  –  a  voz  de  Nicholas  nos  assustou.  Olhamos  para  cima.  Nicholas  estava  parado  atrás  de  nós com uma expressão nada amigável.  –Eu  vou...  –  Ian  se  levantou  –  Foi  bom  conversar  com você, Alice.  Antes  que  pudesse  responder  ele  já  tinha  ido.  Nicholas, ainda parecendo bravo, sentou-se ao meu lado.  –Aquilo  realmente  foi  necessário?  –  perguntei  sem  olhar para ele.  –Você  esperava  que  eu  ficasse  de  boa  com  um  cara  que  gosta  de você conversando e te fazendo rir bem na minha  frente?  –Será que você está ouvindo o quanto isso é ridículo?  – senti a raiva tomar conta de mim – Se você tem ciúmes do     


primeiro amigo  que arrumo perto de você, como vai ser daqui  alguns  meses,  Nicholas?  Porque  você  vai  estar  longe,  não  vai  poder  me  vigiar  nem  brigar  comigo.  Como  vai  ser então? Vai  ficar  com  seu ciúmes e desconfianças ou confiar em mim para  podermos  ser felizes enquanto estamos juntos? Você sabe que  falta pouco para ir para Londres e não quero ficar brigando.  Nicholas suspirou. 

–Você  está  certa.  –  abraçou-me  –  desculpa.  Não  vou  deixar que nada nos atrapalhe daqui para frente, ok?  Concordei.  O  sol  finalmente  estava  se  pondo.  Ficamos  observando-o  por  mais  alguns  minutos  e  depois  voltamos  para  a  pousada.  Dante  e  Nicholas fizeram um show  improvisado  à  beira  da  piscina  enquanto  o  pessoal  curtia  os  últimos  momentos daquele dia. De longe eu observei Teodora  conversando  com  Lucas  e  Lari  trocando  olhares  com  Enzo.  No  fim  sempre  é igual: todos encontram o amor, não importa  de que maneira. 

       

Os dias  no  Jalapão foram mágicos. Além de conhecer  novas  pessoas  como  Larissa,  Ian  e  Lucas,  pude  passar  muito  tempo  com  Nicholas.  Confesso  que  o  lugar  também  ajudou.  O 


Jalapão é um paraíso que poucos conhecem. O pôr-do-sol nas  dunas,  os  Fervedouros  e  a  Cachoeira  da  Formiga  são  exemplos  de  como  aquele  lugar  é  lindo.  Nicholas  se  aproveitou  disso  e  criou  momentos  inesquecíveis. O colar em  meu  pescoço  sempre  me  trazia  a  lembrança  do  nosso  jantar.  Ele  era  extremamente  romântico  como  namorado,  bem  diferente do Nicholas que todos conheciam.  Voltar  para  o  colégio  foi  difícil  para  todos,  mas  mesmo  assim  eu  queria  que  o  fim  de  semana  demorasse.  A  minha  festa  de  aniversário  –  organizada  por  Enzo  e  Larissa –  foi  o  assunto  de  toda  aquela  semana.  Quando  a  sexta-feira  chegou,  estava  prestes  a  explodir  de  estresse.  Recebi  ligações  dos  meus  pais  assim  que  acordei  e  em  seguida  dezenas  de  mensagens  da  minha  família.  Deixei  para  responder  todos  quando chegasse do colégio e fui me arrumar.  No  colégio  senti  que  meu  sorriso  ficaria  congelado  em meu rosto e sairia dizendo “obrigado” para tudo depois de  receber  “Feliz  aniversário”  de  tantas  pessoas.  Maria  e  Larissa  –  que  finalmente  estavam  se  entendendo  –  me  deram  de  presente  um  vale  compras  que  elas  disseram:  “obviamente  será  gasto  em  livros”. Dante me abraçou meio sem graça, mas  desejou  que  eu  “aproveitasse  aquele  dia  e  fizesse  algo  inconsequente,  pois  seria  o  último  que as pessoas não iam me  considerar oficialmente adulta”.   


–Obrigada! – sorri – O Nicholas não vai vir à aula? –Não sei. – desviou o olhar – Vou me sentar, tchau!  Suspeitei do comportamento dele, mas deixei de lado.  Tive  a  sorte  de  todos  os  professores  me  tornarem  o  centro  das  atenções  naquele  dia.  A  pior  parte  foi  ter  que  ouvir  meus  colegas  cantando  “Parabéns  para  você”  na  aula  do  professor  Rafael  –  o  único  ser  humano  na  terra  que conseguia me fazer  entender  física.  E  Nicholas  não  estava  lá.  Dante  e  Maria  se  ofereceram  para  me  acompanhar  até  em  casa,  mas  preferi  andar  sozinha.  Assim  que  entrei  em  casa  encontrei  a  sala  lotada de caixas.  –Mas o que... 

–Calma! – Nicholas saiu de trás de uma das pilhas –  Eu que coloquei tudo aqui. 

–Como você conseguiu entrar aqui? – exigi. 

–Sua tia Rose me deu uma cópia da chave. – ele  mostrou – Mas eu prometi devolver depois.  –Ok. – tentei me acalmar – O que é isso tudo? 

–Antes... – ele me abraçou – Feliz aniversário! 

–Obrigada! – sorri – O que é isso?     


–Bem – afastou-se –, queria encher sua sala de flores, mas imaginei que não fosse o tipo de garota que adora flores...  –E não sou mesmo. – concordei. 

–... então eu peguei o dinheiro que gastaria com as  flores e comprei livros. – explicou.  –Isso tudo? 

–Flores são caras. – ele argumentou. 

–Não precisava disso tudo. – sentei em um pufe – Eu  não vou dar conta de ler isso tudo na vida.  –Eu acredito que vai. – ele me assegurou – Só que não  é apenas isso.  Nicholas  abriu  uma  caixa  do  topo  da  pilha  ao  meu  lado  e tirou uma bolinha de pelo branca que só depois percebi  ser um filhote de gato.  –Ah meu Deus! – senti as lágrimas brotarem – Não  acredito.  –Pode acreditar. – ele sorriu e colocou o filhotinho em  meu colo – Alice, eu apresento a você Cheshire, seu gatinho.  –Não, Nicholas. – o sorriso em meu rosto se desfez –  Esse não vai ser o nome dele, pode esquecer.     


–E qual  vai ser o nome dele então? – ele se ajoelhou a  minha frente.  –Não  sei  ainda.  –  acariciei  o  filhote – Achei que você  tinha esquecido.  –Eu  jamais  vou  esquecer  seu  aniversário. – ele cobriu  minha  mão  com  a  sua  –  Agora  que  descobri  a  data  não  tem  como.  Rimos.  Nicholas  era  incrível  como  namorado,  não  devia  duvidar  do  interesse  dele  por  mim. O silêncio entre nós  não  era  desconfortável,  era  apenas  silêncio,  mas  algo  dentro  de mim temia que toda a harmonia entre nós se quebrasse.  –Você vai a festa? – quebrei o silêncio. 

–Claro. – ele sorriu – Quer que eu te busque? 

–Não  precisa.  –  forcei  um  sorriso  –  Enzo  disse  que  viria me buscar e aproveitava para pegar o bolo.  –Não gostei da ideia. – fingiu estar bravo. 

–Assim  é  melhor,  você  sabe.  – baguncei sua cabeleira  escura – Eu prometo me comportar até você chegar.  –Ok, eu deixo então. – ele me beijou – Agora tenho  que ir.     


Nicholas se  levantou  e  me ajudou a colocar o gatinho  de  volta  a  caixa.  Ficamos  observando  o  filhote  que  dormia  tranquilamente  por  alguns  instantes  até  que  meu  namorado  disse  novamente  que precisava ir. Eu o acompanhei até o lado  de  fora e me despedi com um beijo demorado. Enquanto eu o  observava caminhar até sua moto “escondida” tive uma ideia.  –Nicholas!  Ele se virou.  –Já se o nome do gatinho. – sorri. 

–Qual. 

–Hat.  –  ri  de  sua  cara  confusa  –  Chapéu  em  inglês.  Chapeleiro  Maluco,  algo  a  ver  com  Alice,  mas  não  tão óbvio,  sabe?  –É  bom  –  concordou  –,  mas  vou continuar a chama-  lo de Cheshire. 

       

A tarde  foi  repleta  de  ligações  e  visitas  da  minha  família.  Tai  Flavia  me  fez  prometer  que  eu  almoçaria  com  a  família no dia seguinte já que comemoraria com a turma do     


colégio naquele dia. Enzo me buscou às oito em ponto. Fiquei  surpresa  ao  ver  Larissa  no  banco  do  passageiro.  Os  boatos  eram  que  ele  e  Teodora estavam “enrolados”. Minutos depois  estávamos  em  frente  à  casa  do  meu  amigo.  Ele  me  ajudou  a  descer  com  o  bolo,  já  que  eu  estava de salto alto. Lari elogiou  minha  roupa  dizendo  que  Nicholas  ia  ter  uma  síncope  ao  me  ver.  Agradeci,  mas  não  consegui  ver  o  que  uma  calça  jeans  skinny,  uma  regata  preta  de  seda  e  saltos  altos  tinham  de  especial.  Enzo  –  após  deixar  o  bolo  com  um  garçom  –  nos  arrastou para dentro de sua casa.  A  festa  estava  organizada  impecavelmente  na  área  externa.  Uma  tenda  fechada,  onde  uma  boate  estava  funcionando,  foi  montada  no  gramado.  Havia  mais gente que  podia  contar.  Arrependi-me  de  não  ter  deixado  Nicholas  me  buscar.  Eu  realmente  precisava  dele  ali  para  me  acalmar  em  meio  àquele  caos.  Lari  me  puxou  para  o  “bar”  da  festa  onde  realmente  tinha  um  barman  preparando  bebidas.  Ela  pediu  dois coquetéis que logo foram devorados – estavam realmente  deliciosos.  Cada  vez  mais  pessoas  chegavam,  que  me  procuravam.  Pela  quantidade  de  presentes  que  recebia  não  ia  sentir  falta  de  ir  às  compras  por  um  bom  tempo.  Fui  ficando  mais  relaxada  a  medida  em  que  a  festa  avançava,  mas  ainda  queria  que  meu  namorado  chegasse  logo. Lari – junto a Maria  e Teodora – me 


arrastou para  a  pista  de  dança.  Nós  quatro  dançamos  feito  loucas.  Tive  que  pedir  licença  para  ir  ao  bar  tomar  alguma  coisa, pois sentia minha boca extremamente seca.  –Eu quero um coquetel. – pedi ao barman. 

Sentei  em  um  dos  bancos  e  observei  todos  se  divertindo.  Meu  pensamento  foi  novamente  parar  em  Nicholas.  Lembrei  do  dia  em  que  estávamos  na  boate.  O  barman  me  entregou  o  coquetel e eu saboreei novamente. Foi  então  que  um  alerta  em  minha  mente  surgiu. Aquele coquetel  tinha  álcool,  assim  como  o  primeiro.  Lari sabia. Eu estava tão  distraída que não percebera.  –Ei!  –  chamei  –  Quanto  de  bebida  alcóolica  tem  no  coquetel?  –Não  muito.  –  o  barman  respondeu  –  Fique  à  vontade  para  beber.  É  seu  aniversário!  Você  não  vai  morrer  por beber um pouco.  Sorri.  Eu  estava  preocupada  a  toa. Naquele dia estava  completando  dezoito  anos,  vivia  sozinha  há  meses e sabia me  cuidar.  Beber  não  ia  acabar  com  minha  maturidade,  só  iria  reforça-la.  Por  um  instante  pensei  em  Nicholas  e  em  sua  aversão a bebidas. Balancei a cabeça e falei comigo mesma:  –É sua noite e você vai se divertir!     


Tomei o  coquetel  e  voltei  para  dançar  com  minhas  amigas.  Teodora  e  Maria  estavam  com  seus  “pares” – Enzo e  Dante  –  e  Lari  dançava  com  seus  “gêmeos”,  Lucas  e Ian. Ela  me  chamou  para  dançar  com  ele  e  nós  quatro  acabamos  formando  uma  rodinha  que  aos  poucos  ia  crescendo.  Um  de  cada  vez  ia  ao  centro  e  mostrava  suas  habilidades  de  dança.  Saí  meio  escondida  e  fui  tomar  algo  que  me  desse  coragem  para  dançar.  A  última  vez  que  tinha  dançado  tinha  sido  antes  do  acidente  e  no  fim  da  festa  acabei  brigando  com  meu  ex.  Depois  de  tomar  algo  mais  forte  fui  até  a  DJ – ela parecia ser  mais  velha  entre  todos,  inclusive  o  barman,  mas  ainda  assim  era jovem muito animada.  –Ei! – sorri – Acredito que você seja a DJ! 

“Brilhante, Alice! Extremamente brilhante!”. 

–Sim!  –  ela  sorriu  –  E  você  é  a  aniversariante!  O que  posso fazer por você?  –Será  que  posso  pedir  para  você  tocar  uma  especial  para  mim?  –  tentei  não  me  enrolar  nas  palavras,  pois  sentia  minha língua adormecer.  –Claro! É só falar seu pedido. 

–Toque  “​Worth  It​”,  ​please​?  –  eu  ri  –  ​Sorry​,  como  é seu  nome mesmo?   


–Renata. – ela sorriu, simpática.

–​Thanks​, Renata! – gritei enquanto voltava para a pista  de dança.  Ouvi  o  começo  da  música  e  voltei  para  a  rodinha.  Assim  que  dirigi  ao  centro  vi  Nicholas  chegando  a  festa.  Fechei  os  olhos  e  deixei  o  ritmo  me  guiar.  Dancei  como  não  fazia  há  meses.  Podia  ser  o  álcool  em  minhas  veias,  mas  me  senti  leve  e  livre  até  que  um  braço  me  puxou  e  me  arrastou  para longe.  –Qual seu problema, Alice? – Nicholas gritou. 

–Eu  que  pergunto!  –  cruzei  os  braços  –  Porque  me  tirou de lá daquele jeito? Eu estava me divertindo!  –Você  só  pode  estar  brincando...  –  ele  suspirou  –  Alice,  eu  chego  na  sua  festa e encontro você no meio de todo  mundo dançando feito uma...  –Feito  uma  o  que?  –  levantei  as  sobrancelhas  o  desafiando.  –Esquece... – ele esfregou os olhos parecendo cansado  – Pode ir curtir sua festa, vou procurar um lugar para sentar. 

Antes  que  eu  pudesse  falar  algo  ele  sumiu  entre  a  multidão.  Voltei  ao  bar  e  senti  um  peso  no  coração.  Enzo  e  Teodora se aproximaram de mim e forcei um sorriso. 


–Ok aniversariante!  –  ele  segurou  meus  ombros  –  Você  me  obrigou  a  ler  Belo  Desastre  no  começo  do  ano  e  agora você vai receber o troco por isso.  Teodora mostrou uma garrafa de ​Sierra Silver​. 

–Nós sabemos  que  você  é  fraca  para  bebidas,  então  vamos  considerar  que  cada  dose  vale  seis  anos.  –  ele  pegou  um  copinho  e  encheu  – Assim com três doses você chega aos  dezoito. O que acha?  Olhei para a dose em sua mão e resmunguei ao pegar  o copo:   

–Não devia  ter  feito você ler aquele livro. – virei tudo  de uma vez.  –Fique calma! – ele deu um tapinha em meu ombro –  Você tem seu Travis para cuidar de você depois. 

–Haha. – lancei um olhar furioso para ele. 

–Acho  melhor  a  gente  mostrar  a  surpresa  antes  que  ela  fique  bêbada  demais.  –  Teodora  olhou  para  Enzo  –  Não  queremos que ela se esqueça disso, não é?  Enzo concordou com um risinho em seus lábios. Eles  me  guiaram  de  volta  para  a  pista  de  dança  e  me  sentaram em  uma cadeira em frente onde Renata estava. A música parou e   


um telão surgiu. A imagem de Nicholas surgiu e logo soltaram o vídeo.  –Boa noite senhoras e senhores! – ele sorriu – Isso foi  minha tentativa fracassada de ser apresentador.  Todos no salão riram. 

–Bem,  hoje  vamos  contar  a  história  da  minha  namorada,  Alice.  –  ele  pegou  um  papel  e  pigarreou  dramaticamente  arrancando  mais  risadas  –  Nascida  em  20  de  março  de  1997,  Alice  Marta  Borges  Oliveira,  quem  diria  hein  Marta? Ela viveu por anos em uma cidade do interior de Santa  Catarina,  mas  nasceu  em  Minas  Gerais.  –  ele largou o papel –  Chega,  já  sabem  o  suficiente.  Eu  que  sou  o  namorado  dela  nem sabia que ela era Marta!  Todos riram e quis abrir um buraco no chão. 

–O  que  eu  quero  com  isso  tudo,  baixinha,  é  poder  trazer  a  você  mensagens  da  sua família. Sei que viver longe de  todos  te  deixa  com saudades e hoje eles querem te deixar uma  mensagem.  O  vídeo  cortou  para  minha  mãe.  Em  seguida  para  meu  pai.  Meus  avós  maternos  e  paternos,  primos,  tios  e  tias.  Todos  falaram  em  como  eu  sempre  fui  uma  devoradora  de  livros  e  que  desejavam  que  eu  fosse  extremamente  feliz.  A  cada 


depoimento eu  chorava  mais.  Quando  tudo  acabasse  eu  ia  bater  em  Nicholas  por  fazer  aquilo  comigo.  Perto  do  fim  eu  tive  mais  uma  surpresa.  A  pessoa  que  jamais  queria  ver  novamente  estava  ali  me  desejando  felicidades.  Mesmo  que  fosse  uma  gravação  eu  senti  a  raiva  fluir  por  mim.  Queria  poder socar a cara dele!  –Saiba  que  estou  morrendo  de  saudade  e  estou  contando  os  dias  para  te  ver  novamente.  –  ele  piscou  –  Feliz  aniversário, pequena!  A  tela  ficou  preta.  Sentia  a  raiva  fluindo  por  meu  corpo.  Precisava  relaxar.  Peguei  a  garrafa  de  Sierra  Silver  das  mãos  de  Teodora  e  tomei  um  grande  gole.  Senti  meu  estômago  reclamar,  mas engoli a bebida mesmo assim. Aquele  desgraçado  tinha  conseguido  se  infiltrar  no  vídeo  de  alguma  maneira  e  planejando  algo.  A  música  voltou  e  entreguei  a  garrafa  a  Teodora.  Procurei  Nicholas por toda a festa, mas ele  não estava em nenhum lugar. Entrei na casa de Enzo sentindo  meu corpo leve.  Encontrei  meu  namorado  deitado em um sofá da sala  de  estar. Sentei-me ao seu lado e o beijei. Ele correspondeu ao  beijo  automaticamente.  Afastei-me  apenas  para  tirar  meus  sapatos  e  me  deitei  ao  seu  lado.  Seu  boca  encontrou  a  minha  novamente  e  movi  me  corpo  até  que  estivesse  deitada  completamente sobre ele. O gosto da tequila se misturava ao 


seu hálito  fresco.  Suas  mãos  em  minha  cintura  me  apertavam  de  leve,  mas  ele  se  não  se  atrevia  a  avanços  –  e  eu  queria  naquele  momento  que  ele  se  atravesse.  Intensifiquei  o  beijo.  Segurei  seus  cabelos  com  força  em  meus  dedos  e  mordi  seu  lábio.  –Alice. – ele tentou me afastar. 

–O que? – beijei seu pescoço. 

–Pare. – ele riu – A gente está no meio da sala da casa  do Enzo.  –E se formos para minha casa? – sussurrei em seu  ouvido.   

–Você está bêbada. – sua expressão era séria. Sentei-me ainda sobre ele.  –E daí? – gritei – Eu só quero ir para casa! 

–Ok. – ele riu – Mas você tem que se comportar.  Balancei a cabeça.  –Vou buscar a moto. – ele se sentou – Você tem que  sair de cima de mim.  –E se eu não sair? – segurei seus ombros. 

–Ah, mas você vai!   


Nicholas se  levantou  comigo  ainda  pendurada  sobre  ele  e  em  seguida  me  jogou  no  sofá.  Não  sei  porque,  mas  acabei rindo.  –Meu Deus! – ele riu também – Como eu odeio você  bêbada.   

–Eu te odeio de qualquer forma! – continuei a rir.

Nicholas  não  respondeu.  Fiquei  encarando  o  teto e ri  sem  parar.  Pareceram  horas  até  meu namorado voltar. Sentei-  me  tentando  calçar  os  sapatos,  mas  acabei  trocando  o  pé  direito  com  o  esquerdo,  o  que  foi  motivo  para  mais  gargalhadas. Nicholas se aproximou tentando me ajudar.  –O  que  é  tão  engraçado?  –  ele  perguntou  enquanto  me ajudava a calçar o outro pé.  –Tudo. – sorri. 

Ele me ajudou a levantar, mas assim que dei um passo  meu  pé  virou.  Senti  a  dor,  mas  não  consegui  chorar.  Apenas  ria.  –Alice! – Nicholas estava mais bravo ainda. 

–Ai! – ri novamente.     


–Eu juro  que  amanhã  vou  conversar  seriamente  com  você. – ele me pegou no colo – Agora vamos. 

 

 

Alguns meses antes...

Era dia  onze  de  maio.  Sabia  que  era  dia  das  mães  da  mesma  forma  que  sabia  que  não  iríamos  comemorar.  Quatro  meses.  Como  tudo  havia  mudado  tanto?  Seria  possível  que  um  acidente  pudesse  destruir  a  vida  de  uma  família  inteira?  Minha  mãe  havia  passado  a  semana  da  mesma  forma  que  as  outras  –  grande  parte  do  dia  trancada  enquanto  chorava  e  a  noite  andando  pela  casa  até  chegar  ao  quarto  dele,  onde  ela  encarava  cada  detalhe  e  acabava  dormindo  na  pequena  cama  mesmo –, mas havia um peso maior.  Até  meu  pai  estava  sentindo.  Eu  sabia  que  as  horas  extras  de  trabalho  eram  uma  fuga  da  situação.  Por  fim,  eu  também  fugia  o  máximo  que  podia.  Durante  as  manhãs  e  tardes,  na  escola,  e à noite, mergulhada nos livros. Aos fins de  semana  eu  saía  sozinha.  Nos  dois  primeiros  meses  eu  havia  tentado  sair  com  meus  amigos,  mas  o  olhar  de  pena  era  demais  para  mim.  Então  passei  a  estar  só.  Meus  pais estavam  ocupados demais com sua dor para notar.     


A dor que o pequeno Daniel havia deixado em seu lugar.   

Como todos  os domingos, preparei o café, li o bilhete  do  meu  pai  que  dizia  que  tinha  acontecido  um  imprevisto  e  ele  teria  que  trabalhar.  Era  a mesma desculpa todos os fins de  semana.  Arrumei  a  bandeja  com  o  café  da  manhã para minha  mãe  e  segui  para  o  quarto  que  era  de  Daniel  e  que  estava  servindo  de  aconchego para minha mãe. Encontrei-a abraçada  com o dinossauro de pelúcia.  Meu  irmão  adorava  desenhos  animados.  O  seu  preferido era Peppa Pig. Ele teimava em me chamar de Peppa.  Para  ele  éramos  a  família  feliz de porquinhos. Meus pais eram  a  Mamãe  e  Papai  Pig.  Ele,  é  claro,  era  o  George,  amava  dinossauros.  Engoli  em  seco  e  pisquei  várias  vezes  lutando  para não chorar.  –Mãe. – minha voz saiu rouca. 

Ela  permaneceu  imóvel.  Deixei  a  bandeja  no  criado-  mudo  e  me  sentei  ao  seu  lado.  Chamei-a  novamente.  Ela não  se  moveu.  Só  então  percebi  ao  lado  do  dinossauro  um  frasco  de  remédio.  Ela  tomava  alguns  antidepressivos  e  eu  mesma  tinha  que  lembra-la  dos  horários  de  cada  um.  Peguei  o frasco  e  percebi  que  ele  estava  totalmente  vazio.  Não  segurei  o  choro.   


–Mãe! – meu grito saiu rouco – Mãe, acorda!

Segurei  seus  ombros  enquanto  gritava  entre  soluços.  Quando  ela  finalmente  abriu  um pouco suas pálpebras, vi que  ela  não  estava  morta,  mas  precisava  ir  ao  hospital.  Corri  para  meu  quarto,  peguei  o  celular  e  liguei  para  a  emergência.  Minhas  mãos  tremiam  e  eu  não  parava  de  soluçar,  mas  o  atendente  conseguiu  me  acalmar  um  pouco.  Quando  a  ambulância  já  estava  a  caminho  me  senti  mais  aliviada.  Sentei-me  novamente  ao  lado  dela,  que  estava  se  remexendo,  com  os  olhos  fechados  e  lágrimas  por  todo  rosto.  Peguei  sua  mão.  –Mãe,  fique  calma.  –  beijei  sua  mão  –  Já chamei uma  ambulância.  –Não... – ela murmurou – Não, Alice... Eu não quero... 

–Mãe, você precisa. – acariciei seu rosto. 

–Não!  –  ela  soluçou  –  Eu  preciso  morrer!  Não  aguento, não aguento...  –Sim,  você  aguenta.  –  apertei  sua  mão  de  leve  –  Eu  sei  que  deve  ser  difícil  perder  o  seu  filho,  seu  bebê,  mas  eu  estou  aqui,  mãe.  Eu  ainda  estou  aqui, sua filha, que precisa de  você, a mãe dela.     


–Não! – ela gritou entre soluços – Eu não sou sua mãe! Você não é minha filha! Ele era, meu bebê... Ele se foi... 

     

Eu  estava  de  volta  aquele  dia.  O  dia  em  que  minha  vida  mudou.  Revivi  cada  memória:  a  tristeza,  a  imagem  da  minha  mãe  quase  morta,  as  palavras  cruéis,  o  choque  e a dor.  Eu  senti  a  mesma  dor  quando  me  afoguei  em  um  lago  no  inverno. Meu corpo lutava para viver, era difícil respirar e meu  coração  parecia  congelar  aos  poucos.  O  meu  mundo  quase  perfeito se desfazia aos poucos. A dor me dominava de novo.  Por que eu estava chorando? 

–Não! Não! Não! – gritei. 

Senti  duas  mãos  em  meus  ombros.  A  voz  pedia  calma,  mas  tudo  que  fiz  foi  gritar.  As  lágrimas  desciam.  Procurei  pelo  ar,  mas  não  o  encontrei.  Abri  os  olhos  sem  consegui  enxergar  muito.  Sabia  que  estava  deitada  em  uma  cama,  mas  não  tinha  ideia  de  qual  lugar.  Senti braços a minha  volta e encontrei o ar. Era ele, meu namorado, Pedro.  –Você está melhor? – ele se afastou um pouco. 

–Sim. – tentei sorrir.     


O quarto  escuro  não  permitia  que  eu  o  enxergasse  perfeitamente,  mas  sabia  que  iria encontrar os mesmo cabelos  castanhos  bem  arrumados  e  os  olhos  acinzentados.  Ele  era  extremamente  alto,  mas  não  tão  forte.  Seu  rosto  era  perfeito.  O  queixo  era  anguloso,  o  nariz  reto,  as  maçãs  do  rosto  um  pouco  proeminentes.  As  vezes  eu  me  questionava  porque  ele  estava comigo.  –Quer voltar a dormir? – seu polegar roçou em minha  bochecha.  Eu  me  deitei  de  costas  e  ele  me  cobriu  com  um  cobertor  leve.  Estranhei.  Era  começo  do  outono.  Normalmente  fazia  um  pouco  de  frio  a  noite,  mas  eu  não  estava  sentindo.  Na  verdade  estava  com  um  pouco  de  calor.  Meu  namorado  deitou  ao  meu  lado  e  fechou  os  olhos.  Fiz  o  mesmo.  Tentei  manter  minha  mente  longe  de  todo  aquele  pesadelo,  mas  as  imagens  que  surgiam  em  minha mente eram  do acidente e de minha mãe gritando.  –Não consigo dormir! – suspirei, frustrada.  Virei-me de lado.  –Alice... – ele tocou meu ombro. 

–Você pode me abraçar?     


–Sim, claro. – ele se aproximou de mim.

Senti  meu  copo  relaxar  completamente.  Com  ele  ali  me  abraçando  estava  segura.  Enquanto  o  tivesse por perto eu  estaria  bem. Aos poucos senti o sono chegar, mas antes de me  entregar completamente a ele disse:  –Obrigado por estar comigo, Pedro.     


SEIS

Nicholas      


“A trajetória de um amor verdadeiro nunca percorreu caminhos suaves”

–William Shakespeare.     


Meses antes...

–Alô? –  a  voz  da  mulher  do  outro  lado  me despertou  dos meus pensamentos.  A  adrenalina  em  meu  sangue  parecia  aumentar  cada  vez  mais  desde  que  batera  em  Enzo.  Os  acontecimentos  desde  que  Alice  havia  desmaiado  eram  como  borrões.  Jonathas  me  ajudou  a  leva-la  para  um  sala  reservada  nos  fundos,  onde  a  deitei  em  uma  poltrona.  Fiquei  por  minutos,  após ele voltar ao bar, olhando para Alice, pensando em como  ela  iria  para  casa.  Encontrei  seu  celular  e  tive  a  sorte dele não  ter  senha.  Liguei  para  o  número  “mãe”  que  caiu  na  caixa  postal na primeira tentativa, mas na terceira ela atendeu.  –Alô...  –  minha  voz  falhou  –  Desculpe  senhora,  eu  sou  colega  da  sua  filha,  Alice.  Ela  acabou  trocando  o  copo  com um bêbado e...  –Ligue para a tia dela. – a mulher me interrompeu. 

–O que? 

–Rose. A tia dela vai saber cuidar disso. – e desligou.     


Encarei o  telefone.  Como  aquela  mulher  poderia  ser  mãe  de  Alice? Suspirei. Não importava qual fosse o problema,  eu  só  tinha  que  deixa-la  em  casa  e  seguir  com  minha  vida.  Liguei para “tia Rose” que foi bem mais gentil e logo chegou a  boate  junto  a  uma  jovem  que  se  parecia  com  ela  e  que  se  apresentou  como  Ângela.  Alice  estava  meio  acordada  e  murmurava  algumas  coisas  estranhas.  Eu  jamais  tinha  visto  alguém  reagir  daquela  forma  a  bebida.  A  princípio  eu  achara  que  ela  poderia  ter  entrado  em  algum  coma  alcóolico  raro,  mas  depois  vi  que  seu  desmaio  tinha  sido  causado  por  toda a  situação.  Ângela  dirigia  enquanto  Rose  estava  no  banco  do  passageiro  em  silêncio.  Alice  estava  com  a  cabeça  repousada  em  meu  colo.  Suas  pálpebras  não  estavam  completamente  fechadas e ainda ouvia alguns murmúrios e sussurros. A luz da  lua  e  dos  postes  a  iluminava.  Não  pude  deixar  de  notar  sua  beleza mais uma vez.  –Chegamos. – Ângela avisou. 

Rose  me  ajudou  a  tirar  Alice  do  carro  e  a  levamos  para  dentro  da  casa  que  a  tia  disse ser dela – de Alice, apenas.  Deixei-  a  em  seu  quarto  com  Rose  e  voltei para a sala. A casa  era  pequena,  mas  bem  decorada  e  perfeita  para  se  morar  só.  Enquanto observava a sala e a cozinha, Ângela riu.   


–O que?

–Você  deve estar se perguntando... – ela se sentou em  um  dos  pufes  –  Por  que  uma  adolescente  de  dezessete  anos  mora sozinha?  –Na  verdade  eu  queria  saber  quem  decorou  a  casa.  –  sentei-me  no  sofá  –  Ainda  não  encontrei  o  tom  certo  para  meu quarto. Um bom decorador ajudaria nisso.  –Você  é  dos  engraçadinhos...  –  ela  suspirou  –  Conheço bem. Meu marido era excessivamente assim.  –Você  não  me  conhece.  – semicerrei os olhos – Nem  sabe meu nome.  –Nicholas  Fontelle.  –  ela  sorriu triunfante – Conheço  seu avô. Enfim, Alice não morou sozinha a vida inteira, ela...  –Não estou interessado em saber sobre a ​barbie girl​. –  revirei os olhos. 

–Não?  –  riu  –  Então  por  que  veio  aqui  mesmo?  Até  onde eu saiba, não pedimos sua ajuda.  Fiquei em silêncio. 

–Foi  o  que  pensei.  –  Ângela  suspirou  –  Você  só  tem  que saber que ela perdeu muita coisa na vida. Ela resolveu     


morar sozinha  depois  que  os  pais  se  separaram  e  mesmo que  diga  que  isso  não  tem  nada  a  ver  eu  sei  que  algo  no  meio  disso tudo a fez decidir.  –Eu... 

–Ela parece estar bem. – Rose me interrompeu –  Ângela, leve-o para casa. 

–Mãe, você precisa descansar. – caminhou até ela. 

–Mas Alice... 

–Nicholas pode ficar aqui e cuidar dela, não é? –  Ângela me lançou um olhar desafiador. 

–Sim...  se  vocês  não  acharem  imprudente  deixar  um  completo desconhecido cuidar da Alice. – sorri.  –Você  já  provou  que  se  importa  com ela quando não  se  aproveitou  da  situação.  –  Rose  olhou  para  filha  –  Vamos,  acho que você tem razão sobre a questão do descanso.  Foi  assim  que  acabei  responsável  pela  garota  que  devia  manter  distância.  Fiquei  na  sala,  tentando  achar  forças  para  deixar  aquele  lugar  e  não  encontrar  Alice  tão  cedo,  mas  não  consegui.  Liguei  para  meu  avô  e  avisei  que  não  dormiria  em  casa  e  em  seguida  subi  para  ver  Alice.  Ela  estava  deitada  de  lado  com  uma  das  mãos  ao  lado  de  seu  rosto  no  travesseiro. 


Aproximei-me devagar,  sem  querer  acorda-la.  Observei-a  por  mais  tempo  que  gostaria.  Quando  estava  prestes  a  sair  do  quarto a ouvir murmurar:  –Não vá... 

Seus  olhos  estavam  lutando  contra  o  sono  para  se  manterem  abertos,  mas  ela  parecia  estar  bem  consciente  do  que pedia.  –Fique. – pediu. 

Suspirei.  Aquilo  ia  dar  muito  errado,  mas  fiquei.  Consegui  achar  um  espaço  para  me  sentar  ao  lado  dela  e  não  ter que me deitar do outro lado da cama.  –Obrigada.  –  um  pequeno  sorriso  se  formou  em  seu  rosto – Você sabe que te amo, não é?  –O q-qu-que? – engasguei. 

–Você sabe que te amo, Pedro. – ela suspirou. 

Tentei  processar  aquilo,  mas  simplesmente  não  consegui.  Alice  já  estava  dormindo  novamente  e  tinha  conseguido espantar todo meu sono com uma frase.     


Por volta  das  sete  da  manhã  a tia de Alice voltou. Ela  me  entregou  uma  roupa  e  disse  que  iria  preparar  o  café  da  manhã  enquanto  eu  tomava  banho.  As  roupas  serviram  perfeitamente  e  o  cheiro  de café era convidativo. Precisava de  cafeína  para  me  manter  acordado  e  confrontar  Alice  sobre  a  noite  anterior.  Rose  me  convidou  para  sentar  com  ela  enquanto comíamos.  –Correu  tudo  bem?  –  seu  olhar  era  amoroso  e  ao  mesmo tempo assustador.  –Sim.  –  tomei  um  gole  do  café  –  Eu  só  não  entendi  ainda  como  você  deixou  um  completo  desconhecido  cuidar  da sua sobrinha.  –Nicholas  –  ela  respirou  fundo  –,  preciso apenas que  você concorde com algo antes que eu te explique o porquê.  –Ok. O que seria esse algo? 

–Bem,  preciso  que  você  invente  uma  história  para  Alice  sobre  ontem.  Sei que ela vai se lembrar de muito pouco.  Ela precisa acreditar em cada palavra que você disser.  –Por que? 

–Ela  está  achando  que  todas  as  ações  que  fez  até  agora  estão  certas.  Não  concordo.  –  seu  tom  era  firme  –  Ela  só é uma 


adolescente. Algo tem que acontecer para que ela se lembre que precisa de adultos para cuidar dela.  –Eu... – soltei um riso nervoso – Não posso fazer isso. 

–Ok. – ela se levantou – Espero que você encontre seu  juízo logo também.  Não  respondi.  Rose  foi  embora  e  eu  perdi  a  fome.  Voltei  para  o  quarto  de  Alice  e  me  sentei  no  lado  vazio  da  cama.  Minhas  pálpebras  acabaram  se  fechando  em  algum  momento.  Só  acordei  quando  ouvi  barulhos.  Alice não estava  na cama. Corri para a porta do banheiro.  –Alice? Você está ai? 

–Sim... – a voz dela soou fraca. 

Tentei abrir a porta, mas sua voz me impediu: 

–Não, eu fiz muita besteira! Nem sei se consigo olhar  no espelho, quanto mais para você!  –Besteira? 

Ela não se lembrava de nada. 

–Não se faça de bobo! Você sabe que fizemos besteira!  – ela gritou e em seguida ouvi um barulho – Ai!     


Entrei sem  pensar  duas  vezes.  Ela  estava  sentada  no  chão  frio,  os  fios  dourados  do  cabelo  bagunçados  e  pálida.  Mesmo  assim  fiquei  aliviado  em  ajuda-la.  Alice  tinha  uma  determinação  em  seus  olhos  que  poderia  convencer  qualquer  um  de  que  ela  sabia  se  cuidar  sozinha.  Em  pouco  tempo  percebera  que  ela  não  estava  pronta  ainda,  precisava  de  alguém.  Talvez  por  acreditar  nisso  – ou por querer esquecer a  frase  da  noite  anterior  –  que  eu  menti  para  ela  sobre  o  que  havia  acontecido.  Eu  menti  sobre  tudo,  com  esperança  de  poder salva-la de coisas piores que eu. 

       

Pela segunda  vez  aquilo  havia  acontecido.  A  primeira  fora  inofensiva,  mas  a  outra...  Como  se  aceita  que  sua  namorada  o  chame  por  outro  nome?  Ainda  mais  de  um  cara  que  você  nem  faz  ideia  de quem seja. Mesmo chateado – para  não  usar  termos  pesados  –,  fiquei  com  ela.  Abracei-a  durante  o  resto  da  noite  que  sobrou.  Sabia  que  tinha  muitas  coisas  para fazer pela manhã, mas quis ficar e cuidar dela.  –Nicholas? – sua voz me tirou de meus pensamentos  – Acordou faz tempo? 

–Um pouco. – engoli em seco.     


–Minha cabeça dói... – ela fez uma careta – Nunca mais eu vou beber.  –Não seja radical. – apertei sua cintura de leve. 

–Ok. – riu – Não vou beber desse jeito nunca mais. 

–Bom. – tentei sorrir. 

–Tudo bem? – seus olhos me observavam. 

–Sim.  –  beijei  sua  testa  –  Não  poderia  estar  melhor,  sabe?  Acordar  com  uma  loira  descabelada  com  pijama  de  ursinhos ao meu lado é o sonho de todos.   

–O que? – ela olhou para baixo – Eu coloquei esse pijama?   

–Não exatamente. – segurei o riso.

–Como assim? – ela quase gritou e fez uma careta – Ai! 

–Digamos que a Alice bêbada meio que me atacou  noite passada assim que chegamos da festa e...  –Ai não... – ela escondeu o rosto. 

–...  ela  acabou tirando a roupa. – prossegui – Mas não  se  preocupe,  depois  disso  você  passou  mal  e  acabou  dormindo. Aí eu coloquei o pijama em você. Sem problemas.     


–Como assim, sem problemas? – Alice levantou a cabeça para me encarar – Você me viu seminua.  –Eu sou seu namorado. – acariciei sua bochecha –  Uma hora isso aconteceria. 

–Mas... 

–Sem  contar  –  interrompi  –  que  você  gritou  comigo  quando  eu  disse  não  ontem.  Se  eu  quisesse  ver  mais  poderia  ter  visto,  mas  não  quis.  Então  não  acho  que  ter  cuidado  de  você  durante  a  noite,  recusado  seus  avanços  e  ainda  aguentar  seu  mal  humor  de  ressaca  conta  alguma  coisa.  Ou  será  que  sim?  –Conta. – ela sorriu. 

Tentei me aproximar, mas ela se afastou. 

–O que? 

–Higiene  matinal.  –  sentou-se  – Algo que para mim é  importante  antes  de  beijar  o  namorado.  Principalmente  se  quero manter ele por um bom tempo.  –Isso é frescura. – ri. 

–Diga isso depois que eu escovar meus dentes. – Alice  se levantou e me puxou junto – E você não vai fugir não.  –Não sente dor no pé? – observei-a preocupado. 


–Não. – olhou-me desconfiada – Por que?

–Ontem você virou o pé. 

Ela fechou os olhos e quando os abriu novamente  parecia confusa.  –Não se lembra? – segurei seu ombro. 

–Não. – engoliu em seco – Desculpe. 

–Tudo bem. – forcei um sorriso – Tem coisas que são  melhores no esquecimento.  –É. – ela concordou – Vamos? 

–Claro. 

Segui  Alice  para  o  banheiro.  Ela  me  deu  uma  escova  nova  e  escovamos  os  dentes.  Aquele  momento  era  muito  embaraçoso  e  engraçado.  Ela  tinha  uma  pequenas  manias  doidas  que  me  divertiam.  Assim  que  terminamos  ela  me  beijou.  Como  tinha  errado  por  achar  frescura.  A  boca  dela  estava  fria  de  um  jeito  bom  e com gosto de hortelã. Precisava  me  afastar  dela  para  cuidar  de  outras  rotinas  matinais,  mas  não  sabia  como.  A  Alice  de  ressaca  parecia  tão  atrevida  quanto  a  bêbada.  Quando  me  dei  conta  estávamos  na  cama;  Alice  sentada  em  meu  colo  com  as  pernas  entrelaçadas  atrás  de mim. Segurei sua   


cintura tentando manter as coisas estáveis, mas ela conseguiu me deitar completamente.  –Alice... – consegui me afastar um pouco. 

–Sim? – ela beijou meu pescoço. 

–Achei que estivesse chateada por eu ter te visto  seminua. – minhas mãos estavam em suas coxas.  –Não estou. – pegou uma de minhas mãos e a beijou  – Será que ursinhos são ruins demais? 

–Para mim está ótimo. – beijei-a. 

Mais  alguns  beijos  e  ela  tinha  conseguido  arrancar  minha  camiseta. Estava quase criando coragem de levar aquilo  adiante  quando  o  som  do  celular  dela  nos  assustou.  Ela  levantou  rapidamente  e  atendeu.  Aproveitei  a  brecha  e  fui  para  o  banheiro.  Joguei  uma  água  no  rosto  e  vesti  a  camiseta  que  havia  pegado  no  chão  do  quarto.  Quando  voltei,  Alice  parecia assustada.  –Aconteceu alguma coisa? – tentei me aproximar  devagar.  –Não, mas acho que pode acontecer. – respirou fundo  – Meu pai está aqui.     


–Na cidade?

–Sim. – mordeu o lábio – Para ser mais precisa, na  porta daqui de casa.  –E o que vamos fazer? 

–Eu  não  sei.  – ela sentou na cama – Estou de ressaca,  tenho  que  encontrar  minha  família  no  almoço,  meu  pai  está  na  porta  da  minha  casa  e  assim  que  ele  entrar  vai  achar  que  noite  passada  eu bebi, o que é verdade, vim para casa e transei  com  meu  namorado,  o  que  quase  aconteceu,  mas  você  impediu. Como eu amo a vida adulta!  Alice enterrou o rosto em suas mãos e começou a  chorar.   

–Acho que tive uma ideia. – ajoelhei-me a sua frente – O que você disse a seu pai?   

–Só que ia tomar um banho e já ia descer. – levantou a cabeça.   

–Ok, escuta...  –  segurei suas mãos – Eu cheguei, você  acordou,  recebeu  a  ligação  do  seu  pai,  disse  que  ia  tomar  banho  para  depois  abrir  a  porta,  mas  mudou  de  ideia  e  pediu  para mim. O que acha?  –Deve funcionar. – ela sorriu – Obrigada.     


–Só me agradeça se funcionar. – beijei sua testa – Agora vai, estamos sem tempo. 

Alice  foi  para  o  banheiro  rapidamente.  Coloquei  os  sapatos  e  minha jaqueta – mesmo que estivesse extremamente  quente  –  para  melhorar  a  aparência  da  camiseta  amassada  e  desci.  Assim  que  cheguei  a  sala  uma  bolinha  de  pelo  branca  apareceu  em  meio  as  caixas.  Cheshire  parecia  faminto  e  ansioso  para  brincar,  mas  fiquei  devendo  uma  para ele. Antes  de  ir  encarar  o  pai  de  Alice  afastei  algumas caixas da sala para  ganhar  espaço  e  torci  para  ele  não  me  achar  louco  por  ter  dado  tantos  livros  a  filha  dele.  Reuni  toda  minha  coragem  e  fui abrir o portão.  –Oi fi... – o sorriso em seu rosto sumiu – Estou na  casa  errada?   

–Não. – estendo a mão – Eu sou Nicholas, namorado  da Alice.  Ele  me  cumprimentou  meio  desconfiado,  mas  com  um  pequeno  sorriso  em  seu  rosto.  Diferente da mãe de Alice,  ele  não  tinha  nenhuma  característica  que  parecia  ter  sido  passada  a  filha.  Ele  tinha  cabelos  e  olhos  escuros  como  os  meus,  mas  sua  pele  era  quase  tão  branca  quanto  a  de  Alice  –  provavelmente por morar no sul.   


–Por favor, entre. – abri espaço para ele passar.

Vejo  que  ele  é  bem  objetivo  e  entra  já  observando  cada detalhe. Junto-me a ele, quase atropelando Cheshire.  –Alice tem um gato? – franziu o cenho. 

–Tem.  –  pego  Cheshire  no  colo  –  Eu dei de presente  para  ela  ontem.  Bem,  isso  e  mais  essas  caixas  que  o  senhor  está vendo.  –Pode me chamar de Jonas. – senta-se no sofá. 

–Tudo  bem  então,  Jonas.  –  sorrio  –  Desculpa  pela  bagunça.  Ontem  foi  a  festa  da  Alice  e  eu  não  tive  tempo  e  ajuda-la com as caixas.  –Não se preocupe. – seu tom era amigável – E onde  ela está?   

–Tomando banho.  –  coloco  Cheshire  no  chão  –  Eu  cheguei  um  pouco  antes  do  senhor,  quer  dizer,  você  ligar  e  depois que ela desligou me pediu para abrir o portão.  –Acho  que  sua  definição  de  "um pouco antes" é bem  diferente  da  minha.  –  ele  ri  –  Eu  cheguei  por  volta  das  cinco  da  manhã,  aluguei  um  carro  no  aeroporto  e  vim  para cá. Juro  que  não  vi  você  chegando  enquanto  esperava  o  dia  amanhecer.   


Senti meu corpo paralisar por alguns instantes.

–Senhor, eu... 

–Não  precisa  se  desculpar.  –  ele  continuou  a  sorrir  –  Quando  deixei  minha  filha  morar  sozinha  foi  para  que  ela  tivesse  responsabilidade  sobre  suas  próprias  escolhas.  Só  espero que sejam cuidadosos...  –Nós não... 

–...porque não quero ser avô tão cedo. – ele continuou  – Se você tiver alguma dúvida pode vir até mim. Sério mesmo. 

–Tudo bem. – sentei-me em um dos pufes, sem  acreditar naquela situação.  –Sinceramente  eu  só  fico  feliz  que  você  seja  melhor  para  ela  que  o  Pedro  –  Jonas  suspirou  –  Nem  gosto  de  lembrar  o  mal  que  ele  fez  a  ela...  Mas  pelo  que  sei  você  é  tranquilo.  Depois  que  soube  do  vídeo  já  era  tarde  demais.  Espero  que  você  tenha  aceitado,  como  vocês  jovens  dizem,  “de boas”.  –Pedro? Vídeo? – fiquei confuso – Como assim? 

–Pedro  é  o  ex  namorado  de  Alice.  –  a expressão dele  se  tornou  séria  –  Ele  conseguiu  contato  com  Silas  e  mandou  um  vídeo  que  foi  colocado  junto  ao  que  você  fez  para  o  aniversário. Não sei porque o primo de Alice ajudou aquele 


desgraçado, mas fico feliz que isso não abalou o relacionamento de vocês.  Tentei  processar  aquelas  informações,  mas  parecia  que  todas  as  certezas  que  tinha  em  relação  a Alice estavam se  esvaindo.  Pedro.  Ela  tinha  me  chamado  pelo  nome  do  ex.  Apesar  das  palavras  que  Jonas  dissera  sobre  mim,  eu  estava  furioso.  Como  ela  podia  olhar  para  mim  sabendo  que  o  ex  dela  estava  mexendo  com  seus  sentimentos  a  ponto  dela  me  chamar de Pedro?  –Pai! – a voz de Alice me tirou de meus pensamentos.  Observo enquanto os dois se abraçam.  –Que  bom  que  veio!  –  ela  se afasta e senta-se ao lado  do  pai  no  sofá  –  Fiquei  surpresa  com  sua  visita  meio  fora  de  época.  –Bem,  aproveitei  que  era  seu  aniversário  e  quis  vir  fazer  uma  visita.  –  ele  segurou  as  mãos  de  Alice  –  Querida,  tenho uma notícia para te contar.  –Ok. – ela sorriu, mas vejo que está nervosa. 

–É... – Jonas olha para mim – Tudo bem se... 

–Sim!  –  Alice  ri  –  Acredito  que  vocês  se conheceram  bem enquanto eu estava no banho, não é Nicholas?   


Forcei um sorriso.

–Bem, sem me prolongar muito... – ele desviou o olhar  – Vou me casar. 

–Pai... – Alice ficou boquiaberta – Parabéns! Meu  Deus! Com quem? Eu a conheço?  –Tecnicamente sim. – ele sorri. 

–Como assim? – ficou apreensiva. 

–Depois  que  você descobriu que era adotada comecei  a  fazer  investigações  para  saber  o  paradeiro  da  sua  mãe  biológica. Consegui encontrá-la, mas ela temia que aparecer na  sua  vida  naquele  momento  só  pioraria  a  situação.  Combinamos  de  esperar  você  se  estabelecer  e  ficar  mais  tranquila  para  contarmos.  Só  que  continuamos  a  nos  encontrar  e  acabamos  nos  apaixonando.  Elena  descobriu  recentemente  que  estava  grávida  e  eu  a  pedi  em  casamento.  Discutimos  muito  se  seria  certo  contar  agora  e  no  fim  pensamos que estava na hora.  Alice ficou em silêncio por um tempo e depois  respondeu sorridente:  –Pai, estou muito feliz por vocês. 

–Que bom. – Jonas suspirou – Elena estava  preocupada com sua aceitação. Ela... 


Um toque em seu celular o interrompeu. Depois de checar ele o guardou.  –Desculpa, era ela. – levantou-se – Eu vou ter que ir  para o hotel, mas nós vamos ao almoço, tudo bem?  Alice concordou e se levantou. 

–Até mais tarde, pai. – ela o abraçou. 

Assim que eles se afastaram, Jonas veio se despedir de  mim.  Deixei  Alice  o  acompanhar  até  o  portão  e  esperei  que  ela  voltasse.  Assim  que  chegou  a  sala,  ela  desabou.  O  choro  era assustador, como se ela estivesse se quebrando ao meio.  –Alice? – ajoelhei-me a seu lado. 

–Liga para a Lari. – ela pediu entre soluços. 

Não questionei, só busquei o celular dela e liguei para  Larissa. A ligação foi direto para a caixa postal.  –Não atende. – coloquei o celular no sofá e voltei a  ficar ao lado dela – Diz como eu posso ajudar você.  –Tenta ligar para o Ian. – soluça. 

–Alice,  eu  sou seu namorado. – seguro seus ombros e  tento  acalma-la  –  Eu  sou  a  pessoa  que  deve  te ajudar e quero  ajudar.   


–Só liga para o Ian! – ela grita.

–Não  vou ligar. – levanto-me – Quer saber, Alice? Eu  não vou guardar o que estou sentindo.  Ela me olhou. 

–Estou com muita raiva de você. Muita mesma. Noite  passada  você  me  chamou  de  Pedro,  que  hoje  eu  descobri  ser  seu  ex  namorado  que  mandou  um  recado  no  vídeo  do  seu  aniversário.  –  deixo  a  raiva  sair por minhas palavras – Daí seu  pai  chega  e  eu  descubro  que  você  é  adotada!  Quantos  segredos  mais  vou  ter  que  descobrir  para  perder  a  confiança  em você?  –É por isso que não posso conversar com você agora.  – ela esconde o rosto nas mãos – Você não entende... 

–Não  entendo  o  que? Que você prefere chamar o Ian  para  conversar?  Porque  aparentemente  ele  tem  sua  confiança  para  saber  mais  sobre  seu  passado,  mas  seu  namorado  não. –  pego minhas chaves e saio.  No  meio  do  caminho  quase  me  arrependo,  mas  mantenho  meu  trajeto  até  que  duas  motos  me  encurralam.  Tento  pensar  em uma saída, mas vejo que é impossível. Estou  cercado.     


SETE Alice   


“Somos capazes de sobreviver a essas coisas horríveis, pois somos tão indestrutíveis quanto pensamos ser.” 

– John Green.     


–Você se sente melhor? – Ian pergunta acho que pela décima vez.  –Sim. – sorrio – Obrigada. Por tudo. 

Ele  sorri.  Depois  que  Nicholas  saiu  consegui  mandar  uma  mensagem  para  Ian  pedindo  para  ele  vir  até  minha  casa  junto  ao  endereço.  Ele  chegou  em  questão  de  minutos.  Depois  que  consegui  me  acalmar  ele  me  ouviu  contar  tudo  o  que  havia  acontecido.  Conversamos  por  alguns  minutos  e  eu  estava  realmente  melhor,  mas  ainda  me  sentia  mal  por  Nicholas.  –Ligue para ele. – Ian interrompeu meus pensamentos. 

–Para quem? 

–Nicholas. 

–Não sei se vai adiantar alguma coisa. – suspirei. 

–Claro que vai. – Ian segura minhas mãos – Vocês  estão juntos faz o que? Uma semana?  –Mais ou menos.   


–Então... namoros  não  terminam  assim  tão  fácil.  Além disso, é o Nicholas e... Bem, você.  –E? 

–Vocês  meio  que  tem  essa  coisa  em  volta  quando  estão  juntos,  como  se  fosse  uma  bolha  onde  só  existissem  vocês dois.  – ele explica – É quase mágico de se ver. 

–Sabe,  eu  queria  que  ele  estivesse  aqui  para  ver  que  você  não  tem  segundas  intenções  comigo  como  ele  pensa.  Prova  disso  é  o  que  acabou  de  dizer.  –  respiro  fundo  –  O  grande  problema  dele  é  esse  ciúmes grande. Por isso que pedi  para  ele  ligar  para  Lari  e  depois  para  você.  Ele  é  meu  namorado,  eu  sei,  mas  no  momento  o  ciúmes  tá deixando ele  diferente.  –E por que eu? 

–Porque  aquele  dia  no  Jalapão  eu  tive  coragem  de  te  contar.  –  engulo  em  seco  –  Eu  estou  com  medo  disso  tudo,  Ian.  Eu  fugi  quando  descobri  que  era  adotada  por  que  foi  a  última  gota.  Não  queria,  não  quero,  que  tudo  desmoronasse  mais.  Por isso eu vim para cá. Eu me afastei de tudo que achei  necessário e refiz minha vida, mas...  –O  passado  não  some  do  nada.  Muito  menos  os  problemas.  –  Ian  interrompeu  –  Não  podemos  mudar  nada 


que aconteceu,  mas  o  resto  a  gente  enfrenta.  Quando  Lari  chegou     


em nossa  família  não  foi  fácil de aceitar, passamos momentos  complicados,  dissemos  coisas  difíceis  uns  aos  outros,  mas  no  fim nós nos perdoamos, porque somos uma família.  –Ela  não  é  minha  família.  –  desvio  o  olhar  –  Elena  não me conhece e eu não a conheço.  –Agora você vai conhece-la. 

–Não  acredito  que  isso  está  acontecendo!  –  rio  –  Dá  para  entender  que  eu  vou  conhecer  minha mãe biológica, que  por  alguma  razão  me  deixou, e agora ela voltou e não basta se  casar com meu pai, está grávida dele!  –Eu entendo que você tem que ligar para o Nicholas.  – Ian se levanta. 

–Você já vai? – olho para ele. 

–Sim,  Alice.  Não  posso  ficar  mais  que  isso  se  quero  que  seu  namorado  não  me  mate.  –  ele  ri  –  Eu  cumpri  meu  papel de amigo não foi?  –Sim, se você já se considera meu amigo. – levantei-  me.   

–E o que mais seria necessário para ser considerado seu amigo além de vir aqui, ouvir você chorar e contar  histórias   


entediantes sobre sua família maluca? – ele pergunta assim que chegamos ao lado de fora.  –Tem razão, mas só falta uma coisa... – dou um soco  de leve em seu ombro – Agora sim.  –Ok, não tenho noção nenhuma do que foi isso. – ele  riu.   

–É tipo como nos filmes, tem dois amigos e eles tem algo como um “aperto de mão especial”, sabe? 

–Ok, acho que entendi. – ele repete meu gesto, mas  um pouco sem graça – Tchau, Alice.  –Tchau, Ian. 

Observei-o  caminhar  até  que  ele  desapareceu  na  esquina.  Já  dentro  de  casa,  peguei  meu  celular  e  tentei  ligar  para  Nicholas,  mas  caiu  direto  na  caixa  postal.  Hat  apareceu  me cutucando aparentemente me pedindo carinho. Acariciei-o  enquanto  sentia  as  lágrimas  saírem.  A  pequena  bolinha  de  pelo subiu em mim até estar olhando em meus olhos.  –O que está fazendo Hat? – acariciei sua cabecinha –  Está me consolando? 

Ele miou.     


–Ok, estou  conversando  com  um  gato.  –  rio  –  Pelo  menos  você  pode  me  ouvir  sem  me  julgar,  Hat.  Foi  por  isso  que  eu  não  quis  conversar  com  ele.  Com  o  Nicholas.  Ele  perdeu  a  mãe  dele  e  isso  ia  acabar  influenciando  sobre  o  que  ele  iria  me  falar  sobre  essa  situação.  Não  tem  muito  o  que  fazer  quando  sua  mãe  te  abandona,  sabia  Hat?  É quase como  se  ela  morresse,  mas  a  única  diferença  é  que  ela  pode  voltar  achando  que  você  vai  deixar  isso  tudo  para  trás  e  viver  uma  vida feliz com ela.  Hat miou novamente. 

–Acho  que  esses  miados  todos  não  são  só  concordância comigo. – levanto-me – Vamos alimentar você. 

  Benhur está online.   

Alice: ​BEN!!! Você sumiu esses dias... Por onde andou?   

Benhur: ​Bem  aqui,  minha cara, bem aqui... Acho que  quem  sumiu foi você e pelas fotos que vi no seu insta sua vida  anda bem diferente desde nossa última conversa, não é? 

 

Alice: ​Não imagina o quanto...  


Fiz um breve resumo dos acontecimentos dos últimos dias a Ben. 

Benhur: ​Quer dizer que sua mãe se chama Elena? Alice: ​Ela nem pode ser chamada de mãe de alguém.  Ela me abandonou. Eu era só um bebê. 

Benhur:  ​E  agora  ela  vai  ser  tipo  sua  madrasta.  Não  tem como fugir do destino de que de alguma maneira ela é um  tipo de mãe ruim sua.  Alice: ​Haha, você é tão engraçado quanto eu me  lembro.   

Benhur: ​Nossa missão é agradar, senhorita. Alice:  ​Acho  que  você  está  vendo  muitas  séries  e isso  tá  afetando  seu  cérebro.  Enfim...  Vou  ter  que  sair  daqui  a  pouco. Almoço em família.  Benhur: ​Ah é! FELIZ ANIVERSÁRIO (atrasado...  olha que amigo incrível eu sou)!  Alice: ​Obrigada <3 (você ainda é um bom amigo,  fique tranquilo). 

   

Benhur: ​(que bom kkkk) Alice: ​Tenho que ir! Beijos, maninho.   


Benhur: ​Até mais, maninha! Meia  hora  depois  já  estava  pronta.  Coloquei  uma  calça  jeans,  uma  regata  e  rasteiras,  pois  o  calor  não  estava  brincadeira  naquele  dia.  Tia  Flávia  me  buscou  e  fomos  para a  casa  de  tia  Rose.  Fui  recebida  no  jardim  da  casa  por todos os  meus  tios,  tias e primos cantando parabéns para mim. Mais ao  fundo  eu  vi  meu  pai  ao  lado  de  uma  mulher  loira  de  olhos  azuis.  Ela  era  muito  parecida  com  minha  mãe,  mas  era  perceptível  que  eu  tinha  herdado  muitas  de  suas  características.  Sempre  achara  que  era muito parecida a minha  mãe,  mas  naquele  momento  vi  como  estava  extremamente  enganada.  Meus  familiares  me  ocuparam  com  abraços  e  me  entregando  presentes  durante  um  bom  tempo,  mas  foi  inevitável ter que me aproximar dos dois.  –Alice, minha filha! – meu pai me abraçou. 

–Oi... – olhei para a mulher ao lado dele e engoli em  seco – Você deve ser Elena.  –Sim. – ela sorriu – É muito bom finalmente te  conhecer.  Forço um sorriso. 

–Pai? 

–Sim?   


–Posso conversar com você por um instante? – levanto uma sobrancelha.   

–Claro. – ele beija a bochecha de Elena – Já volto, querida.   

Reviro os  olhos. Caminhamos até um canto, distantes  o bastante para que ninguém ouvisse nossa conversa.  –O que quer conversar? 

–Vamos  ser  diretos,  pai.  –  cruzo  os  braços  –  Que  história você contou a todo mundo sobre a Elena?  –O que quer dizer com isso? 

–Você não ia contar a verdade, não sem antes vir falar  comigo.  –  afirmei  –  Agora  me  diz,  qual  foi  a  incrível  história  que você inventou sobre ela?  –Apenas  que  nos  conhecemos  há  alguns  meses  e  resolvemos nos casar. – ele respondeu nervoso.  –Bom.  Mantenha  isso.  –  encaro  seus  olhos  –  Não  quero  que  ninguém  saiba  a  verdade.  Elena  vai  se  casar  com  você  e  ser  minha  madrasta,  apenas  isso,  mas  minha  mãe  ela  não vai ser, ok?  –Mas eu achei...     


–Você achou  errado!  –  interrompi  –  Eu  passei  anos  da  minha vida tentando manter o que realmente sentia sempre  dentro  de  mim  para  ver  se  as  coisas  iam  ficar  bem,  mas  olha  onde  estamos.  O  que  aprendi  nesses  últimos  meses  é  que  eu  tenho  o poder de decisão sobre algumas coisas e aqui eu estou  decidindo. Só espero que aceite.  Deixei  meu  pai  boquiaberto  e  fui  conversar  com  Débora  –  a  namorada  de  Silas,  meu  primo.  Minutos  depois  a  tia  Rose  nos  chamou  para  entrar,  pois  o  almoço  estava  pronto.  A  conversa  seguiu  solta  enquanto  comíamos.  De  longe  pude  observar  que  meu  pai  estava  um  pouco  desconfortável  – provavelmente por conta do que havia dito a  ele.  Tio  Miguel  aproveitou  a  hora  em  que  foi  abrir  o  refrigerante  e  fez  uma bela adaptação de um brinde em minha  homenagem.  De  sobremesa  tia  Cecília  havia  feito  uma  surpresa e encomendara petit gateau.  Voltei  para  casa  por volta das cinco da tarde. Chequei  meu  celular  e  não  havia  nenhum  sinal  de  Nicholas.  Tentei  encontrar  alguma  coisa  na  TV,  mas  depois  de  meia  hora  acabei  ficando  sem  paciência.  Cogitei  ligar  para  ele,  mas sabia  que  não  atenderia.  Se  quisesse  conversar  já  teria  me  ligado.  Peguei  um  livro  aleatório  em  minha  estante  e  fui  para  o  quintal  junto  a  Hat.  Consegui  me  distrair  por  alguns  minutos  até que meu telefone tocou. Não reconheci o número.   


–Alô?

–Alice... como é bom ouvir sua voz! 

–PEDRO? – sentei-me completamente assustada –  Como você conseguiu meu número? 

–Calma,  amor,  não  seja  tão  rude.  Vamos  ser  civilizados pelos velhos tempos, ok? – ele riu.  –Olha,  não  sei  como  você  conseguiu  meu  número,  mas  acho  melhor  explicar  porque  eu  não  queria  estar  nem  conversando com você nesse exato momento.  –Então  porque  não  desliga,  amor?  –  ele  ri  quando  fico  em  silêncio  –  Alice,  é  claro  que  eu  consegui  seu  número  pedindo  para  uma  amigo  que  pediu  a  outro  que  conhecia  alguém... Você sabe como essas coisas funcionam.  –E o que você quer? 

–Apenas  ouvir  sua  voz,  querida.  –  seu  tom  meloso  fazia  meu  estômago  embrulhar  –  Fiquei  sabendo  que  você  arrumou um novo coração para despedaçar.  –Não,  não, querido. O papel de destruidor sempre foi  o seu, não se esqueça. – retribuo.     


–Ela ainda sabe ser doce e amável como me lembro... –

suspirou – Enfim, só queria saber se o metidinho já

ficou enciumado com o vídeo que mandei. –Você não tem limites mesmo!   

–Então quer dizer que ele ficou enciumadinho? Que ótimo!   

–Pedro, volta  para  sua  vida  medíocre  cheia  de  festas,  dinheiro, bebidas e todo o resto e me deixa em paz logo. Você  tem tudo que precisa ai com você!  –Não. – seu tom de voz era sério – Eu não tenho  você.  Falta você, Alice. 

–Por  favor...  –  suspirei  –  Você  acha  mesmo  que  depois  de tudo que aconteceu eu ainda vou te perdoar e voltar  com você?  –Acho. Só estou esperando a hora certa. 

–Então espera deitado no seu caixão. – desliguei.     


OITO

Nicholas      


“Quem quiser vencer na vida deve fazer como os seus sábios: mesmo com a alma partida, ter um sorriso nos lábios.”  – Dinamor.     


Ao abrir  os  olhos  senti  a  luz  incomodar.  Estava  deitado  de  bruços  no  chão,  nada  confortável.  Voltei  a  me  lembrar  aos  poucos  dos  últimos  acontecimentos  antes  de  apagar.  As  duas  motos  que  me  seguiam  conseguiram  me  encurralar e eu acabei sem saída. Os dois homens desceram de  suas  motos  e  vieram  até  mim.  Eu  desci  da  minha  moto  já  pronto  para  me  defender,  mas  os  dois  não  me  bateram  de  imediato, apenas me imobilizaram e depois disso... nada. Meus  olhos  lacrimejaram,  ainda  incomodados  com  a  luz,  mas  consegui  distinguir  onde  estava.  Parecia  ser  um  galpão  abandonado.  A  luz  do  sol  entrava  por  alguns  buracos  –  provavelmente  de  bala.  Tentei  mover  minhas  mãos,  mas  elas  estavam presas.  –Não  precisa  tentar.  Eu  pedi  aos  meus  colegas  para  amarrarem  bem.  –  a  voz  que  não  ouvia  há  mais  de  dez  anos  ecoou pelo galpão.     


Olhei para  cima  e  o  vi.  O  pesadelo  de  toda  minha  vida.  O  homem  que  tinha  destruído  grande  parte  dos  meus  sonhos  infantis  com  seus  atos  hostis.  Aquele  que  tinha  conseguido  assombrar  minha  mente  e  quase  me  fez ser capaz  de  amar  e  confiar  nas  pessoas.  Raul.  Também  conhecido  como  meu  pai.  Ao  chegar  perto  de  mim  ele  se agachou e deu  tapinhas em minhas costas.  –Bom  te  ver,  bom  te  ver.  –  o  sorriso amarelo em seu  rosto era repulsivo.  –Como  vai,  Raul?  –  tentei  manter  minha  voz  o  mais  firme  que  pude  –  Vejo  que  alguns  anos  de  cadeia  realmente  fazem bem ao homem.  –Não  sei  não...  –  levanta-se  –  Talvez  você  queira  ver  por si só.  –Diz logo o que você quer. – suspiro. 

–Paciência, pequeno gafanhoto... – ele ri – Rapazes!  Peguem a cadeira! 

Vejo  os  dois  homens  que  me  seguiram  trazendo uma  cadeira.  Os  dois me levantam – sem nenhuma delicadeza – do  chão  e  me  colocam  sentado.  Encaro  Raul  que  tem  um  riso  irônico  em  seu  rosto.  Ele  está  praticamente  como  eu  me  lembrava: cabelos escuros, os olhos negros fundos, corpo   


esquelético, a  barba  malfeita.  Detesto  vê-lo,  pois  lembro  que  sou  como  ele  era  quando  mais  novo  e  temo  que  um  dia  me  torne como ele.  –Você vai me falar o que quer? 

–Bem,  como  você  sabe,  passei  um  tempo  fora  da  sociedade.  –  ele  começou  a  sua  habitual  caminhada  em  círculos  enquanto  falava  –  O  passado  é  uma  coisa  muito  boa  de  se  viver,  mas  não  de  relembrar  ou  de  reviver,  caso alguém  tenha a chance. Em meu tempo de reclusão...  –Prisão. – corrijo. 

–...  eu  estive  sem  a  capacidade  de  cuidar  dos  meus  negócios.  –Do tráfico, você quis dizer. 

–Alguns  dos  meus  colegas  tinham  a  capacidade  de  se  comunicar  e  conseguiam  arrumar  sua  vida  aqui,  mas  para  a  justiça  o  meu  pequeno  crime  foi  motivo  o  bastante  para  me  manter  em  uma  cela  restrita,  com  vigias  por  vinte  quatro  horas.  –O  seu  pequeno  crime  na  verdade  foi  homicídio.  Você  matou  minha  mãe,  bem  na  minha  frente,  caso  você  tenha se esquecido.  Ele parou a minha frente e me deu um soco. 


–Espero que  isso  faça  você  parar  com suas correções  e  gracinhas.  –  voltou  a  caminhar  –  Como  estava  falando, não  tive  oportunidade de continuar com meus negócios e agora eu  preciso de dinheiro para me manter.  –E onde eu entro nisso? 

–Não  percebe,  filho?  –  ele  ri  –  Você  é  perfeito!  Sei  que  o  velho  pai  da  sua  falecida  mãe  te  adotou  e  agora  você  também é dono de toda a riqueza da família Fontelle.  –E  você  acha  que  vou  te  ajudar?  –  ri  –  Só pode estar  brincando comigo...  Outro soco. 

–Você  vai...  –  ele  se  aproxima  com  um  celular  –  Vê  essa loirinha aqui?  Raul  mostra  o  celular  onde  havia  uma  foto  de  Alice  tirada  ao  que  parecia  próximo  à  casa  dela,  quando  ela  estava  chegando. Olhei para ele.  –Você  não  vai  fazer  mal  algum  a  ela.  –  falei  entredentes.  –Isso  depende  de  você,  filho.  –  ele  guarda  o  celular  com  um  risinho  nos  lábios  –  Vai  ajudar  seu  querido  pai  necessitado?   


–Ok... – suspiro – Quanto você precisa?

–Digamos que uns vinte. 

–Vinte  mil?  –  quase  engasgo  –  Você  acha  que  meu  avô não vai perceber que eu retirei vinte mil reais da conta?  –Bem,  isso  é  com  você.  –  ele  se  aproxima  e  sussurra  em  meu  ouvido:  –  Só  espero  que  você  cumpra a sua parte ou  terei  que  procurar  a  loirinha  e  ver  se  ela  pode  me  ajudar com  esse problema.  Raul  se  afasta  rindo  e  chama  os  dois  homens.  Assim  que  eles  me  desamarram  parto  para  cima  deles.  Desconto  toda  minha  raiva em socos e joelhadas. Os dois são espertos e  sincronizam  sua  luta  para  conseguir  me  derrubar.  Assim  que  estou no chão ouço a voz de Raul:  –Não  matem  o  menino.  Preciso  dele  por  um  bom  tempo vivo.  Um  dos  homens  joga  algo  perto  de mim. São minhas  chaves  e  meu  celular  –  que  por  um  milagre  não  havia  quebrado.  –Vamos logo! – Raul gritou. 

Os  homens  saíram  me  deixando  totalmente  sozinho.  Comecei  a  sentir  a  dor dos socos e golpes que havia recebido.  Fiquei  imóvel  no  chão,  tentando  ver  se  o  desconforto 


passava,    


durante minutos  e  então  me  levantei.  Encontrei  minha  moto  do  lado  de  fora  do  galpão.  Dirigi  por  um  longo  tempo  sem  rumo  até  que  cheguei  a  um  dos  poucos  lugares  onde  poderia  passar o dia sem que ninguém me encontrasse facilmente.  –Nicholas! – Jonathas sorri ao me ver – Achei que não  o veria mais por aqui depois daquele dia.  –Pois é. – sentei-me – Infelizmente eu voltei. 

–E não está nada bem. – ele observa meu rosto – O  que aconteceu?  –Nem queria saber. – suspirei. 

–Acho  que você precisa de uma bela dose daquela sua  bebida  favorita,  perfeita  para  esses  momentos.  –  ele  ironiza –  Água.  Jonathas me entrega um copo cheio. 

–Haha. – tomo um pouco – Obrigado. 

–Você não vai me contar mesmo o que está  acontecendo?  –Não. – desviei o olhar – Só quero ficar por um tempo  aqui, tudo bem?  Ele apenas assentiu e voltou a trabalhar.     


–Alô? – a voz de Alice ecoou em minha mente.

Eram  quase  seis  da  tarde.  Eu  saí  do  bar  e  fui  para  o  terraço  do  colégio,  para  pensar.  Foi  então  que  criei  coragem  de ligar para Alice.  –Sou eu. – respondi. 

–Eu sei. – sua voz estava estranha. 

–Você está bem? 

–Não muito. – suspirou – Precisamos conversar. 

–Precisamos. – concordei – Você pode vir no colégio? 

–Posso. 

–Ok. Sabe onde me encontrar. – desliguei. 

De  todas  as conversas que havíamos tido aquela tinha  sido  uma  das  mais  estranhas,  mas  devido  a  todos  os  acontecimentos  ainda  estava  tudo  muito  calmo  entre  nós.  Enquanto  esperava,  observei  o  sol  se  pondo.  Preferia  que  estivesse  escuro  e  Alice  não  pudesse  ver  o  meu  estado.  Nem  eu  tinha  tido  coragem  de  me  olhar  no  espelho.  Ouvi  o  habitual 


barulho dos tênis dela enquanto subia as escadas. Não me virei, apenas esperei que ela se aproximasse.  –Oi... – ela murmurou.   

–Oi. – continuei a olhar para frente – Como foi seu dia?   

–Em grande parte não foi ruim. E o seu?

–Péssimo. – senti meus olhos lacrimejarem. 

Ela  não  respondeu.  Os  longos  minutos  de  silêncio  entre  nós  foram  interrompidos  por  soluços.  Arrisquei-me  olhar para o lado e vi que ela estava chorando.  –Alice... 

–Desculpa, é que eu não consigo pensar que estraguei  tudo o que a gente tinha de bom. – ela se virou.  –Ei...  –  abracei-a  –  Se  você  se  acha  culpada  por  estar  estragando  as  coisas  entre  nós  então  acho  que  eu  posso dizer  que  tenho  uma  grande  culpa  nisso  aí  também.  Nunca  culpe a  si  apenas  por  algo  que  envolve  um  relacionamento,  porque  eles são feitos por duas pessoas, não apenas uma.  Ela riu. 

–Acho que vi um bom sinal. – sorri.     


–Nicholas... – Alice abaixou a cabeça – Ele me ligou hoje. O Pedro.  Senti meu corpo tencionar. 

–E o que ele disse? 

–Que  tinha  esperanças  de  voltar  comigo  e  que  o  vídeo  foi  uma  maneira  de  te  deixar  com  ciúmes.  – suspirou –  Ele  fez  de  propósito.  Eu  sabia  que  faria.  Acho que uma parte  de mim temia se envolver com alguém por causa dele.  –Mas eu não vou deixar que ele me deixe com ciúmes  mais. – prometi.  –E tem mais um coisa... – ela se virou para olhar para  mim – O que aconteceu com você?  –Alice... – desviei o olhar. 

–Alice nada, Nicholas! O que aconteceu com seu  rosto? – gritou.  –Eu  andei  brigando  por  ai,  ok?  –  menti  –  Eu  fiquei  fora  o  dia  todo  morrendo  de  ciúmes,  é  claro  que  ia  fazer  alguma  besteira  como  me  envolver  em  uma  briga  de  bar,  por  exemplo.  –Você não tem juízo... – ela riu.     


–Acho que você estava falando que tinha mais alguma  coisa... – lembrei a ela.  –Ah  sim!  –  sua  expressão  ficou  séria  –  Eu  conheci  a  Elena hoje.  –E como foi? 

–Péssimo.  –  revirou  os  olhos  –  Olha, não vou mentir  para  você.  Fui  sincera  com  meu  pai  e  falei  como  me  sentia  sobre  a  situação.  Disse  que  não  ia  aceitar  ela  como  minha  mãe,  pois  eu  já  tinha  uma.  Se ela quiser ser a minha madrasta,  que  seja,  mas  eu  já  tenho  uma  mãe  e  estou  muito  feliz  com  isso,  obrigada.  Então,  se  você  quiser  brigar  comigo  por causa  disso eu não...  Interrompi  seu  falatório  com  um  beijo.  Ela  ficou  surpresa  a  princípio, mas depois se entregou totalmente. Eu já  tinha  ouvido  em  diversas  canções  sobre  beijos  de  reconciliação,  mas  com  certeza  não  se  pode  descrever  a  sensação até vive-la. Alice se afastou e sorriu.  –Você não está bravo? 

–Por que estaria? 

–Não sei... – ela riu – De qualquer forma, esquece.     


–Como quiser, Bob esponja. – aperto sua bochecha e ela sorri.  –Acho que é bom você ir olhar esses seus machucados  e tomar um banho. – ela toca meu rosto de leve.  –Acho  bom mesmo. Se minha namorada falou que eu  preciso  de  um  banho então é porque a situação está feia! – dei  um beijo rápido nela.  –Também não é assim! Você pode ir lá para casa e eu  cuido dos seus machucados.  –A oferta de ter minha namorada como minha  enfermeira é tentadora, mas eu realmente preciso ir para casa.  – seguro seus ombros – E quem sabe você poderia vir comigo? 

–Eu? 

–Acredito que não perguntei para o bloco de concreto.  – brinquei. 

–Eu não sei, Nicholas... 

–Com medo? 

–Não! – ela riu nervosa. 

–Alice Marta! Você está com medo de conhecer minha  casa? – tentei fazer cócegas nela.   


–Nicholas! – ela riu – Para!

–Não até você admitir! – continuei. 

–Tá  bom,  tá  bom.  –  ela  se  soltou  –  Eu  estou  morrendo  de  medo  de  conhecer  sua  casa.  Apavorada.  Estarrecida. Atemorizada. Espavorida. Completamente.  –Ok...  metade  das  palavras  eu  não  conheço,  mas  foi  convincente.  Vou  ligar  para  meu  avô  e  pedir  para  ele  colocar  mais um lugar na mesa do jantar. 

       

Nada era  tão  engraçado  quanto  a  expressão  de  Alice  ao  ver  minha  casa.  Sabia  que  ela  iria  ficar  encantada, mas não  imaginava  que  a  visão  da  mansão  do  meu  avô  iria  deixar  minha  namorada  sem  palavras.  Deixei  a  moto  parada  do lado  de  fora  mesmo  e  entramos.  Alice  observou  cada  detalhe  atentamente  com  seus  olhos  azuis.  Desde  a mobília antiga até  os  tapetes  persas.  Depois  de  alguns  minutos  chegamos  ao  meu  quarto.  Ela  me  olhou  receosa  antes  que  eu  abrisse  a  porta.  –Vou mesmo conhecer seu quarto? 

–Sim.  –  abro a porta – Seja bem-vinda ao quarto mais  sem graça que você já viu. 


Alice sorriu  e  entrou.  Seus  olhos  observaram  atentamente  todos  os  cantos:  as  paredes  brancas  e  completamente  vazias,  a  colcha  azul  marinho  sobre a cama, o  guarda  roupa  cinza  chumbo  e  as  cortinas  antigas  –  a  única  “relíquia”  de  família  que  permiti  ser  colocada em meu quarto.  Ela  continuou  calada.  Aproveitando  seu  silêncio,  peguei  uma  roupa  qualquer  e  fui  para  o  banheiro.  Senti  toda  a  tensão  ser  levada  junto  ao  sangue  dos  meus  machucados  pelo  água.  Minutos  depois  voltei  ao  quarto  e  encontrei  Alice sentada em  minha  cama  ao  lado  do  meu  violão  –  talvez  a única coisa que  me representasse ali.  –Oi. – sentei-me a seu lado. 

–Oi. – ela deu um sorriso fraco. 

–Algum problema? 

–Não. – seus olhos encontraram os meus – Por que  seu quarto é tão...  –Sem graça? – sugeri. 

–Não. – riu – Eu ia dizer vago. 

–Como assim?     


–Normalmente

as

pessoas,

principalmente

adolescentes, refletem muito de si em seus quartos. – explicou – Só que o seu quarto é completamente... Vago. 

–Talvez  porque  eu  não  precise  mostrar  meu  quarto  a  você para que saiba quem eu sou. – acariciei seu rosto – Posso  simplesmente falar para você. Ou demonstrar.  Ela me lançou um olhar malicioso. 

–Eu gosto desse Nicholas. 

–E existe mais algum? – beijei seu pescoço. 

–Bem,  existe  o  Nicholas  antissocial,  o  ciumento,  o  romântico,  o  furioso,  que  não  é  tão  diferente  do  ciumento,  o  aspirante a estrela do rock e esse.  –Qual seria esse? – sussurrei em seu ouvido. 

–Eu diria que atrevido. – riu. 

–Oh,  desculpe  senhorita.  Não  sabia  que  estava  a  incomodando  com  minhas  diversas  facetas.  –  fiquei  a  centímetros de seus lábios.  –Incômodo algum, senhor. – ela me beijou.     


Assim como  no  início  daquele  dia  o  beijo  se  aprofundou  e  de  repente  estávamos  deitados  na  cama  –  segunda vez no mesmo dia, nada mal.  –Nicholas?  –  a  voz  de  Ayra  fez  com  que  interrompesse o beijo – Você já chegou?  Mal tive tempo de me afastar de Alice e ela entrou no  quarto.   

–O seu avô... – ela se interrompeu assim que nos viu – Desculpa, não sabia que você estava com alguém. 

–É. – apertei os lábios. 

–Você deve ser Alice. – o sorriso dela não poderia ser  mais falso, mas Alice nunca ia saber.  –Sim. – Alice sorriu – E você é? 

–Ayra. Trabalho para o Sr. Fontelle. – virou-se para  mim – Posso pedir para servirem o jantar?  –Seria ótimo. – lancei um olhar para ela dizendo “cai  fora”.   

–Ok, volto logo para chama-los.    


Observei enquanto  Ayra  se  retirava,  pensando  em  como  aquilo  tinha  sido  embaraçoso.  Surpreendentemente,  Alice começou a rir.  –O que é engraçado? 

–Nada. – continuou a gargalhar. 

–Acho que você andou bebendo de novo. – fiz  cócegas nela – Agora me diz, você bebeu Alice?  –Não! 

–Então porque está rindo por nada hein? – comecei a  rir junto.  –Nicholas, para! – suas risadas continuaram – Ai meu  Deus! Eu vou passar mal...  –Ok, eu paro. – beijei seu rosto – Está pronta para  conhecer meu avô?  –Acho que isso soa quase tão difícil quanto “pronta  para conhecer meus pais” ou “pronta para conhecer sua sogra".  – brincou. 

–Você só vai conhecer um velho que fica gastando seu  tempo livre administrando um colégio e mandando um monte     


de estagiários de outras empresas para psicólogos. – entrei no clima.  –Colégio? 

–Achei que você soubesse. – franzi o cenho – Meu  avô é dono do colégio.  –Isso explica muita coisa! 

–Com certeza. 

–Então quer dizer que eu estou namorando o cara  mais legal do colégio? – semicerrou os olhos.  –Acho  que  antes  disso tudo eu já era legal... Espera! –  fingi  estar  espantado  –  Droga!  Mais  um  caso  onde  a  pessoa  está  comigo  pelo  resto  todo  e  não  por  quem  eu  sou.  Oh  Deus, quando vou achar a garota certa?  Alice riu. 

–Acho  que  você  já  achou,  desiludido. – ela me puxou  para  mais  um  beijo  –  E  saiba  que  justamente  por  não  saber  disso que eu me apaixonei por você, apenas por você.  –Ainda acho que a moto ajudou. 

–Talvez. – ela lançou um olhar malicioso.     


–Ok, garota  interesseira. – levantei-me – Agora é uma  boa  hora  para  sairmos  antes  que  a  turrona  volte  e  flagre  a  gente se pegando de novo.  –Não  foi  bem  assim...  –  ela  se  levantou  –  A  gente só  estava se beijando.  –Deitados  na  cama  do  meu  quarto  e  se  beijando.  A  maioria diria que a gente tava se pegando.  –As vezes eu te odeio sabia? – ela riu. 

–Só as vezes? 

Ela  me  deu  um  empurrão  de  brincadeira  e  começamos  a  caminhar.  Mostrei  a  ela  mais  alguns  cômodos  cheios  de  móveis  antigos misturados com decoração moderna  –  por  incrível  que  pareça  ela  estava  amando  essa  mistura,  até  ameaçou  roubar  a  cama  de  dossel  que  havia  em  um  dos  quartos.  Chegamos  ao escritório do meu avô e o encontramos  na porta.  –Nicholas! – ele sorriu ao nos ver. 

–Oi vô! Essa é a Alice, minha namorada. 

–Você  realmente  existe!  –  brincou  –  Depois  de  tanto  ouvir  falar  de  uma  garota  que  ele  nem  tem  a  audácia  de  apresentar ao velho antes de pedir em namoro você começa a   


desacreditar que ela realmente existe, sabe? De qualquer forma, é um prazer conhecer você, Alice.  –É um prazer conhecer o senhor também. – sorriu. 

–Respeitosa.  –  ele  piscou  para  mim  –  Gostei  disso.  Agora  vamos  ver  se  ela  come  como  uma  moça  ou  como  um  operário inglês do século XVIII diante de um banquete.     


NOVE

 

Alice  


“Seu próximo amor não tem culpa do anterior”  

– Saulo Pessato.    


A cada  cômodo  que conhecia da casa de Nicholas me  sentia  mais  estranha.  De  alguma  maneira  aquilo  parecia  ser  puro  interesse,  mas  eu  mal  sabia  que  o  avô  dele  era  dono  do  colégio  minutos  antes  do  jantar.  Eu  me  apaixonara  por  Nicholas,  apenas  por  ele.  Só  que  descobrir  que  ele  era  –  não  havia  palavra  melhor  para  isso  –  rico  havia  me  deixado  insegura.  As  pessoas  deviam  achar  que  eu  só  estava  com  ele  por  causa  de  ​tudo​.  Durante o jantar tentei manter o sorriso em  meu  rosto  e  ouvi  atentamente  a  conversa  do  meu  namorado  com  seu  avô.  A  intimidade  dos  dois  era  impressionante  visto  que fazia poucos meses que os dois viviam juntos.  –Acho  que  já  monopolizamos  a  conversa  demais.  –  Sr.  Fontelle  riu  –  Então,  o  que  a  bela  namorada  do meu neto  está achando do jantar?  –Está ótimo. – sorri novamente.     


–Que bom.  –  ele tomou um pouco de água e voltou a  olhar  para mim – Bem, vou ser um pouco curioso e indiscreto  hoje, tudo bem?  Assenti. 

–O que pensa em cursar, Alice? 

–Eu... – desviei o olhar – Ainda não pensei bem sobre  o  assunto,  mas  minha  família  sempre  disse  que  eu  seria  uma  advogada maravilhosa.  –Mas  a  minha  pergunta  não  foi  sobre  o  que  sua  família  pensa, querida. – o avô de Nicholas pareceu um pouco  desapontado  –  Eu  quero  saber  sobre  ​você.  ​O  que  você  quer  para sua vida.  –Sr. Fontelle, eu... 

–Alice ama escrever, vô. – Nicholas interrompeu. 

–É mesmo? 

Levantei  o  olhar  encontrando  os  olhos  do  meu  namorado.  –Sim.  –  ele  sorriu  –  Ela  ama  escrever  poesias. Nunca  tinha  visto  uma  pessoa  tão  apaixonada  por  palavras  como  Alice. Ela ama ler também.     


–Bem, então  temos  uma  raridade  aqui,  meu  neto. – o  Sr.  Fontelle  me  olhou  fascinado  –  Acredite  quando  digo  que  poucas  pessoas  nascem  com  certos  dons  e  a  escrita  é  um  deles.  –Eu só escrevo poesias, é só isso. – levanto os ombros  – Não é grande coisa. 

–Se  acha  que não é grande coisa então não tem muito  o  que  falar  para  você.  Um  dia  você  perceberá  que  as  suas  palavras tem poder de mudar as pessoas.  Ficamos  em  silêncio.  O  avô  de  Nicholas  era  uma  pessoa  muito tranquila e amigável, mas o tom de suas palavras  me  abalaram  um  pouco.  Escrever  era  apenas  uma  forma  de  deixar  o  meu  mundo  mais  leve.  Comecei a escrever por causa  de  minhas  mágoas,  não  para  mudar  a  vida  das  pessoas.  O  jantar  terminou  com  todos  em  silêncio.  O  Sr.  Fontelle  pediu  licença  e  se  retirou  para  seu  quarto.  Ayra,  junto  a  outros  dois  funcionários,  limparam a mesa. Nicholas me levou novamente  a seu quarto.  –O  que  você  tem?  –  suas  mãos  seguraram meu rosto  com delicadeza.  –Nada. – mordi o lábio. 

–Não  minta  para  mim,  Alice.  –  seus  olhos  escuros  pareciam sugar toda minha capacidade de mentir para ele. 


–Só estou  me  dando  conta  de  como  as  pessoas  devem  me  achar  uma interesseira por estar com você. – tentei  rir.  –Você  está  brincando?  –  Nicholas  riu  –  Alice,  não  acredito que está colocando essas coisas na sua cabeça!  –Mas  como  eu  não  vou  colocar?  –  afastei-me  –  Eu  mal  sabia  que  seu  avô  era  dono do colégio, mas um monte de  gente  deve  saber  e  achar  que  estou  com  você  para  aproveitar  isso tudo e ter benefícios.  –Não importa o que as pessoas pensam, Alice. –  suspirou – Você mesma disse que não sabia, não é? 

Concordei. 

–Então... – ele me puxou pela cintura para perto de si  –

Você não  sabia  quem  eu  era  e  nem  o  que  eu  tinha, 

mas mesmo  assim  se  apaixonou.  Vamos  combinar  que  é  difícil não se apaixonar por mim mesmo, mas...  –Convencido. – acusei antes de beijá-lo. 

Ele  retribuiu  o  beijo  automaticamente.  Suas mãos em  minha  cintura  me  ergueram.  Afastei-me  antes  que  acabássemos  novamente  deitados  na  cama dele e mais alguém  nos flagrasse. Ele me olhou um pouco desapontado.  –Já cansou de mim? – fez beicinho como uma criança.   


–Não, mas  acho  bom  a  gente  ter  mais  controle.  Já  fomos  pegos  hoje  e  ainda  temos  que  guardar  um  pouco  da  cota para os próximos meses.  –Bom  argumento.  –  ele  me  colocou  no  chão.  –  Vou  levar  você  em  casa.  Eu  pediria  para  você  ficar  e  dormir  aqui,  mas sei que vai dizer não.  –Que  bom  que  você  me  conhece.  –  apertei  suas  bochechas.  O  caminho até minha casa foi mais demorado que me  lembrava. Sabia que ele faria aquilo. Quando estávamos juntos  Nicholas  tinha  a  mania  de  querer  ampliar  nossos  momentos.  Fazia  pouco  mais  de  uma  semana  que  estávamos  namorando  “oficialmente”,  mas  esses  momentos  já  estavam  se  tornando  rotineiros.  Assim  que  chegamos  ele  estacionou  a  moto  e  se  aproximou  para  me  dar  um  beijo  de  despedida.  Em  um  reflexo  vi  um  homem  se  aproximando  de  nós  e  fiquei  tensa.  Assim  que  virei  o  rosto  vi  que  o  homem  era  meu  pai.  Nicholas soltou um suspiro aliviado.  –Boa noite. – meu pai nos cumprimentou de longe. 

–Oi pai. – mordi o lábio.   

–Será que podemos conversar lá dentro? – dirigiu-se a mim.     


–Claro. – peguei minhas chaves.

–Alice... – Nicholas pegou minha mão. 

–Não vá. – sussurrei – Preciso de você. 

–Ok.  –  ele  beijou  minha  testa.  –  Vou  esperar  aqui  fora enquanto vocês conversam.  Agradeci  em  silêncio.  Meu  pai  me  acompanhou  até  a  sala  ainda  abarrotada  de caixas. Hat estava dormindo em cima  do  sofá  e  reclamou  com  um  miado  assim  que  liguei  a  luz.  Peguei-o em meu colo e encarei meu pai.  –Pode falar. 

–Bem,  depois  de  ficar  bastante  chocado  com  o  que  você  me  falou  hoje  mais  cedo  eu  resolvi  ligar  para sua mãe. –  sua  expressão  demonstrava  cansaço  –  Ela  disse  que  agora  você  é  maior  de  idade  e  mora  sozinha,  então  devemos  deixar  que  você  faça  suas  próprias  escolhas.  Se  você  escolher  não  aceitar Elena não há nada que possamos fazer.  Fiquei  em  silêncio  por  um  instante.  Aproximei-me  devagar  do  meu  pai.  Deixei  Hat  no  chão  e  o  abracei.  Ele  me  envolveu com seus braços instantaneamente.     


–Obrigado por  entender,  pai.  –  senti  as  lágrimas  caírem.  –  Eu  sei  que  deve  ser  difícil  para  você  essa  situação.  Ela vai ter um filho seu também.  –Mas  você  veio  primeiro.  –  ele  se  afastou  para  olhar  em  meus  olhos  –  Sabe,  quando  tivemos  o  Daniel  eu  me  questionava  se  meu  amor  por  ele  seria  diferente  do  que  eu  sentia por você.  –E foi? 

–De  certa  maneira  foi.  –  sorriu  –  Daniel  tinha  uma  segurança  desde  bebê,  algo  que  me  encantava.  Diferente  de  você.  A  primeira  vez  que  eu  peguei  você  no  colo  eu  vi  um  bebê  frágil,  lutando  pela  vida,  querendo  alguém  que  cuidasse  de  tudo.  Meu  amor  por  você  não  foi  algo  instintivo,  eu  não  tinha nenhuma “obrigação” em te amar. Por isso foi diferente.  Amar  um  filho  que  é  seu  de  verdade  é  fácil,  mas  amar  uma  criança  que você sabe que um dia pode crescer e não querer te  reconhecer  como  pai  é  como  pular  sem  saber a profundidade  da água.  –Então  você  tinha  medo  de  que  eu  deixasse  de  te  considerar meu pai. – empurrei seu ombro de brincadeira.  –Tinha.  –  confessou  –  E  sou  grato  por  você  não  ter  dado as costas para mim ou para sua mãe.     


–Pai, mas eu...

–Sim,  você  se  mudou,  queria  deixar  tudo  para  trás.  –  ele  interrompeu  –  Quem  não  faria  isso?  Uma  coisa  que  sei  é  que  mesmo quando sua mãe gritou que você não era filha dela  naquele dia você ainda sim nos amou como pais. Estou certo?  –Está. – sorri. 

–Que bom. – beijou minha testa – Agora tenho que ir. 

–Vou te ver amanhã? 

–Não.  Estou  indo  para  o  aeroporto  daqui  a  pouco.  –  desviou  o  olhar  –  Deixei  o carro que aluguei estacionado aqui  perto e Elena está esperando.  –Ah. – não escondi meu desapontamento – Então boa  viagem.   

–Obrigado. – abraçou-me.

Eu  me  afastei  antes  que  caísse  no  choro  novamente.  Acompanhei  meu  pai  até  o  lado  de  fora  e  ele  se  despediu  de  Nicholas.  Entramos  em  silêncio.  Hat  ficou  todo  manhoso  perto  do  meu  namorado  que  o  pegou  no  colo  e  fez  carinho.  Sorri.  Até  meu  gato  sabia  se  comunicar  com  ele  sem  precisar  de muitas – ou nenhuma – palavras.     


–O que  é  essa  expressão  ai?  –  Nicholas  segura  Hat  com um braço e usa o outro para me puxar para perto.  –Só  estou  com  ciúmes  do  meu  gato.  – brinquei – Ele  raptou meu namorado e agora eu estou totalmente carente.  –Não seja por isso. – Nicholas colocou Hat no chão e  me puxou pela mão até estarmos no sofá.  Ele  deitou  primeiro  e  depois me puxou para seu lado.  Suas  mãos  acariciaram  meu  rosto  delicadamente.  Fechei  os  olhos.  Aos  poucos  ele  deslizou  seus  dedos  até  meu  pescoço  onde  senti  um  pouco  de  cócegas.  O  caminho  de  suas carícias  continuou  por  meu  ombro,  braço, pulso até chegar em minha  mão  onde  ele  juntou  a  sua.  Abri  os  olhos.  Ele estava apoiado  em um cotovelo me olhando atentamente.  –Você  não  tem  ideia  de  quanto  fica  bonita  quando  está assim. – sussurrou em meu ouvido.  –De  olhos  fechados?  Bem,  para  mim  é  meio  que  um  ensaio  de  estar  morta,  mas  se  você  gosta,  tudo  bem.  –  brinquei.  –Engraçadinha. – ele me beijou. 

Começou  como  mais  cedo  naquele  dia.  Apenas  o  mesmo  beijo  de  sempre.  Até  que  um  dos  dois  aprofundasse  mais. Nicholas deitou-se novamente e puxou-me para cima 


dele. Suas mãos continuaram apertando minha cintura de leve,  mas  sabia  que  era  apenas  questão  de  algum  incentivo  meu  para  aquilo  avançar.  Parecia  que  desde  o  dia  anterior  estávamos  indo  para  o  mesmo  lugar  sempre  que  começávamos  a  nos  beijar  e  só  tinha  uma  semana  que  estávamos juntos. Uma semana. Afastei-me.  –Algum problema? 

–Não.  –  levantei-me  –  Eu  vou  subir  para  trocar  meu  pijama, ok?  –Ok.  –  ele  sentou-se  no  sofá  me  olhando  com  um  olhar  preocupado  –  Daqui  a  pouco  eu  subo  também para me  despedir, ok?  Apenas  assenti  rapidamente.  Disparei  escada  acima.  Peguei  meu  pijama  –  o  mesmo  que  tinha  usado  na  noite  anterior  –  e  fui  para  o  banheiro.  Lavei  meu  rosto  e  escovei  meus  dentes.  Assim  que  troquei  o  pijama  observei  meu  reflexo  no  espelho.  O  que  eu  estava  pensando?  Fazia  uma  semana  que  estava  namorando  com  Nicholas.  Desde  o  aniversário  eu  parecia  uma  granada  de  hormônios  prestes  a  explodir.  Balancei  a  cabeça  e  saí  do banheiro. Nicholas estava  sentado na cama me esperando.  –Você já vai? – cruzei os braços.     


–Eu estava pensando em ficar. – ele caminhou até mim – O que acha? 

–Você que sabe. – desviei dele e fui para minha cama.  Ele suspirou.  –O que foi agora? 

–Nada...  –  tentei  mentir  –  Ok,  é  a  gente.  Acho  que  mais  eu,  na  verdade,  mas  isso  está  indo  rápido  demais  e  está  me deixando mal.  Olhei para ele que riu. 

–Qual a graça? – irritei-me. 

–Só você, Alice. – sentou-se ao meu lado – Sabe, seu  pai hoje meio que falou sobre isso comigo.  –Como que vocês chegaram nesse assunto? – assustei-  me.   

–Ele estava  esperando  desde  cedo  na  porta  da  sua  casa  e  a  história  de  que  eu  tinha  chegado  fazia  pouco  tempo  não  deu  certo.  –  Nicholas  respondeu  ainda  rindo  –  Foi  embaraçoso,  mas  não  senti  culpado  porque  ele  estava  errado  totalmente.  A  gente  está  junto  faz pouco tempo sim e mesmo  que  fizesse  mais  tempo  não  acredito  que  me  sentiria  bem  se  ele me dissesse isso. 


–Eu não consigo imaginar como foi ouvir isso. – ri.

–Não tente. – ele olhou em meus olhos atentamente. 

–O que? 

–Não  quero  te  deixar  confusa,  nem  com  medo  de  nada,  Alice.  –  abraçou-me  –  Você  merece  ter  seu  pequeno  momento  de  paz  e  quero  fazer  parte  dele,  mas  temos  que ser  mais sinceros um com o outro.  –Por mim tudo bem. – apertei de leve meus braços ao  seu redor.  –E quanto a isso... – ele me beijou – Vamos saber o  momento, ok?  Assenti. 

–Vai ficar essa noite? 

–Se você quiser. – ele acariciou meu rosto. 

–Vai me contar histórias para dormir? Ou melhor! Vai  cantar até eu adormecer? – brinquei.  –Eu vou ficar sim, Bob Esponja. – riu. 

Dei um beijo rápido nele e me levanto para arrumar a  cama. Nicholas aproveita para tirar os sapatos. Ligo o ar     


condicionado –  o  calor  não  estava  de  brincadeira  naquele  dia  –  e  pego  uma  coberta  fina,  apenas  por  costume.  Ele  se  deita  primeiro.  Apago  a  luz  e  me  aconchego  a  seu  lado.  Fecho  os  olhos sentindo o sono começar a me vencer.  –Alice? 

Resmungo. 

–O que acha de sairmos amanhã? 

–Pode ser. – sussurro. 

–Que tal tomarmos sorvete? – sugere.   

–Tanto faz, Nicholas... – suspiro – Agora eu posso dormir?   

–Ela não é brava só quando acorda não! – ele ri.

–Você  que  me  pediu  em  namoro,  nunca  prometi que  seria  uma  delicadeza  em  pessoa.  –  dei um soco de brincadeira  em seu ombro fazendo ele rir mais ainda.  –Ok, vou deixar você dormir. – beijou minha testa. 

–Finalmente... – suspirei. 

–Acho que podemos discutir algumas coisas então... 

–Deixa eu dormir, por favor...     


–Tá bom, mal humorada. – sussurrou – Dorme bem.

     

Acordei  no  dia  seguinte  sentindo  o  cheiro  de  café  e  completamente  sozinha  em  meu  quarto.  Levantei-me  ainda  sonolenta  e  caminhei  até  o  banheiro.  Assim  que  terminei  de  escovar  meus  dentes  olhei  para  o  meu  reflexo  no  espelho.  Meu  cabelo  estava  totalmente  bagunçado  e  meu  rosto  bem  inchado.  Devia ter dormido mais que o normal. Resolvi tomar  um  banho  antes  de  descer  para  ver  se  minha  aparência  melhorava  –  nada  garantia  que  Nicholas  gostava  de  mim  o  suficiente  para  encarar  a  minha  versão  matinal.  Enquanto  descia a escada ouvi vozes.  –Você perdeu totalmente a diversão da festa, ​man. ​–  reconheci a voz de Dante. 

–Enzo  e  Lari  acabaram  fazendo  um  monte  de  gente  dançar  no  que  eles  chamaram  de  “círculo  dançante”. – ouvi a  voz  de  Maria  –  Nem  me  pergunte  onde  ele  arruma  essas  coisas.  As  vezes  eu  acho  que  o Enzo não tem só dois anos de  diferença da gente porque ele parece um velho!  Os  três  riram.  Cheguei  ao  último  degrau  e  automaticamente o olhar de Nicholas encontrou o meu.   


–Bom dia. – sorriu.

–Bom dia. – aproximei-me e o beijei. 

–Agora o dia está maravilhoso! – Nicholas riu.  Dei um tapa de brincadeira em seu ombro.  –Bom dia para você também, educadinha. – Dante  tossiu.   

–Oi Dante... – virei-me para ele – Bom te ver na minha casa sem ter te convidado.  –Bem no coração. – Maria tossiu. 

Nós rimos. Aproximei-me de minha amiga e abracei. 

–Que bom te ver aqui, amiga... – afastei-me. 

–Bem, seu ​boy ​convidou a gente garantindo três  refeições e a gente veio. – ela me acotovelou de brincadeira.  –É mesmo? – coloquei as mãos nos quadris – E quem  é que vai cozinhar? 

–É... – Nicholas olhou para Dante – ​Man​? –Não, não! 

–Ah sim! – ele concordou.     


–Então... – levantei as sobrancelhas.

–Eu e Dante vamos cozinhar. – Nicholas sorriu –  Hoje teremos macarrão ao molho branco.  –Tá de brincadeira! 

–O que? 

–Eu adoro macarrão ao molho branco! – abracei-o –  Pode cozinhar a vontade. 

–Nossa missão é agradar, senhorita. – brincou – Agora  sente e tome seu café da manhã.  Juntei-me a eles. Nicholas tinha preparado uma mesa  simples, mas cheia de frutas cortadas, sucos, bolos e pães.  –Acredito que grande parte disso aqui foi você que  comprou porque até ontem minha geladeira estava bem vazia.  – coloquei café em minha xícara. 

–Sim. – desviou o olhar. 

–Você vai ter que levar metade disso para sua casa  porque eu não dou conta de comer tanta coisa assim sozinha.  –Mas quem disse que você vai comer tudo sozinha? –  ele olhou para mim.     


–Você não está pensando em tomar café da manhã aqui todo dia, está?  –Qual  o  problema?  –  franziu  o  cenho  –  Não  posso  tomar  café  da  manhã  com  você  antes  de  ir  para  o  colégio?  É  tipo  um  pecado  querer  ficar  perto  de  você  de  manhã,  por  acaso?  –Não, não... – suspirei – Você não entende. 

–Então me explica! 

Fiquei  em  silêncio.  Maria  e  Dante  observavam  nossa  discussão totalmente assustados, mas sem intrometer.  –Esquece. – murmurei. 

Terminei  de  tomar  meu  café  e  levantei-me.  Subi  para  meu  quarto  e  senti  as  lágrimas  descerem.  Por  que  sempre  que  as  coisas  estavam  indo bem eu começava a brigar com Nicholas?  Ele  só  queria  tomar  café  da  manhã  comigo  todas  as  manhãs.  Queria  aproveitar  a  maior  quantidade  de  tempo  comigo. Não  tinha  nada  demais  nisso,  apenas...  Foi  então  que  me  lembrei.  Era  por  causa  dele.  ​Pedro.  ​Ele  começara  a  aparecer  todos  os  dias  a  noite  em  minha  casa.  Não  importava  o  dia.  Com  o  passar  dos  dias  ele começou a vir cada vez mais cedo. Chegou  um  dia  em  que  ele  já  me  buscava  no  colégio  e  só  ia para casa  na hora que meu pai dizia que era hora dele ir.   


–Alice? – a voz de Nicholas me assustou.

Assim que ele me viu chorando veio até mim e me abraçou. 

–Desculpa, não sabia que você tinha uma relação exclusiva  com seu café e sua xícara.  Eu ri em meio as lágrimas. 

–Eu  que  preciso  me  desculpar.  –  olhei  em  seus  olhos  –  Sei  que  as  vezes  eu  pareço  estar  brava  por  nada,  mas  acho  que  encontrei a raiz das minhas neuras.  –E  o  que  é?  –  acariciou  meus  ombros  –  Quero  logo  acabar  com  cada  uma  dessas  neuras  para  curtir  bem  essa  minha  namorada.  –Bem, acredito que o Pedro seja o culpado. 

A expressão em seu rosto mudou completamente. 

–Por que? 

–Nosso  relacionamento  foi  complicado. – sentei-me na cama  e  ele  me  acompanhou  –  Pedro  era  um  cara  legal  e  eu  até  cheguei  a  pensar  que  era  o  melhor  namorado  do  mundo,  mas...  –Você conheceu o Nicholas. – ele brincou.     


–Não foi  bem  assim.  –  ri  –  Ele  acabou  se  tornando  muito  possessivo.  Chegou  uma  hora  em  que ele controlava todos os  meus  passos  praticamente.  E  tudo  começou  com  ele  indo  todos  os  dias  na  minha  casa.  Aos  poucos  ele  foi  aparecendo  mais  cedo  e  de  repente  eu  não  lembro  de  não  vê-lo  longe  a  não ser quando eu estava no colégio. A vida com ele era...  –Sufocante. – completou. 

–Sim.  –  desviei  o  olhar  –  Talvez  isso  que  me  deixe  tão  paranoica as vezes. Não quero que a gente acabe assim.  Nicholas  ficou  em  silêncio.  A  proximidade  física  entre  nós  era  imensa,  mas  cada  um  parecia  perdido  em  seus  pensamentos.  Naquele  momento  só  conseguia  pensar  em  como  queria  que  ele  dissesse  algo.  Senti  a  mão  dele  segurar  a  minha.  Encontrei  seus  olhos  escuros  que  tanto  amava.  Ele  levou minha mão aos lábios e sussurrou após beijá-la:  –Eu não sou ele e não vou sufoca-la, prometo.  Sorri.  –Obrigada. 

–Aceito seus agradecimentos em beijos, senhorita. –  aproximou-se. 

–Então acho que irei agradece-lo o dia inteiro.     


Depois de  uma  pequena  sessão  de  beijos  nós  descemos.  Dante  já  estava  na  cozinha  separando  os  ingredientes  para  fazer  o  almoço.  Nicholas  se  juntou  a  ele  e  eu  decidi  arrumar  os  novos  livros  na  estante.  Maria  me  ajudou  a  carregar  as  caixas  para  o  segundo  andar  até  que  os  livros  não  couberam  mais.  Eu  teria  que  comprar  uma  estante  maior  ou  colocar  prateleiras  na  sala  para  comportar  todos.  Com  “tudo”  arrumado  nós  duas  ficamos  conversando  até  que  os  meninos  gritassem  para  avisar  que  o  almoço  estava  pronto.  Eles  realmente  sabiam  preparar  um  macarrão  ao  molho  branco  maravilhoso.  No  fim  da  tarde,  após  nós quatro arrumarmos a  cozinha  –  sim,  fizemos  uma  guerra  de  água  porque  a  maturidade  é  nosso  lema  –,  fomos  para  o  quintal  da  casa.  Com  todos  deitados  –  inclusive  Hat  –  conversando enquanto  o  sol  se  punha,  podia  ver  o  que  Nicholas queria dizer com os  momentos  de  paz.  Aquele  era  um  deles  e  eu  queria  manter  para sempre assim.     


DEZ Nicholas       


Se você seguisse seu coração, para onde iria?”  

– Michele Valentim.    


Mais de  um  mês  havia  se  passado  e  sentia  que  podia  respirar  em  paz.  Depois  de  dar  o  dinheiro  que  Raul  pedira,  tudo  voltou  ao  normal.  Passava  praticamente  a  semana  ao  lado  de  Alice.  Nos  víamos  todos  os  dias  no  colégio  e  a  tarde  estudávamos  juntos  ou  na  casa  dela  ou  na minha. Aos fins de  semana  sempre  saíamos  –  com  Dante  e  Maria  ou  com  a  turma.  Os  poucos  momentos  que  passava  em  casa  eram  para  treinar  minhas  composições  que  se  tornaram  cada  vez  mais  numerosas  depois  que  começara a namorar com Alice. Estava  repassando  a  minha  preferida  –  talvez  por  que  ela  falasse  de  uma  certa  loirinha  que  gostava  muito  –  quando  Ayra  entrou  no meu quarto.  –Essa  aí  eu  nunca  ouvi.  –  ela  se  aproximou  de  mim  com o mesmo olhar de insinuação de sempre.  –Talvez porque você não conheça o compositor. –  coloquei o violão de lado – Acho que é melhor você parar de     


ouvir só o que é modinha, aí você reconhece as músicas que toco.  –Ouch! – riu – Como sempre você é um perfeito  cavalheiro.  –O que você quer? – perguntei impaciente. 

–Isso. – ela me entregou um envelope. – Aí diz que é  para você.  –Quem mandou? – olhei para ela meio desconfiado.   

–Não sei. Só achei o envelope na porta e trouxe para você.   

–Certo... – murmurei – Se é só isso, pode ir.

–Como  quiser,  Sr.  Fontelle.  –  ela  retrucou  com  um  tom irônico.  Revirei  os  olhos.  Ayra  se  tornava  a  cada  dia  mais  insuportável.  Não  podia  reclamar  dela  como uma profissional  com  meu  avô,  pois  em  seu  trabalho ela não deixava nada sem  estar  completamente  perfeito,  mas  sua  insistência  me  deixava  cada  vez  mais  irritado. Alice nas vezes que vinha a minha casa  dizia  que  eu  devia  ser  mais amigável com Ayra – mal sabendo  que ela queria mais que uma relação amigável comigo. Decidi     


deixar isso de lado e abri o envelope que continha um bilhete junto a uma foto.  – “Quem  diria  que  seguir  os  passos  da  loirinha  nos  levaria  a  isso?”  –  li  em  voz  alta  –  “Espero  que  não  seja  ciumento,  filhinho...  Se  quiser  que  essa  perseguição  a  ela  não  se  torne  um  habito  é  melhor  me  encontrar  hoje  naquele  mesmo local.”  Assim  que  peguei  a  foto  em  minha  mão  senti  meu  sangue  esquentar.  Alice  estava  sentada  em um banco da praça  de  sua  quadra  com  Ian  ao  seu  lado.  Sem  pensar  duas  vezes,  peguei  minhas  chaves  e  dirigi  o  mais  rápido  que  pude  para  a  casa  dela.  Assim  que  cheguei  a  encontrei  no  portão  com  Ian  ao  seu  lado.  Seu olhar encontrou o meu imediatamente. Desci  da moto sentindo a raiva me consumir a cada vez mais.  –Oi. – ela sorriu. 

–Oi  nada.  –  aproximei-me  dele  –  Quero  saber  o  que  ele faz aqui?  –Nicholas, é sério mesmo que você vai agir assim? –  cruzou os braços. 

–Você não me respondeu. – disse entredentes.     


–Não mesmo  e  nem  pretendo  responder.  –  virou-se  para Ian – Obrigado por tudo. A gente se vê amanhã na aula.  –Ok. – ele esboçou um sorriso e saiu andando. 

Alice  entrou e eu a segui antes que ela pudesse trancar  o portão. Assim que chegamos na sala ela começou a gritar:  –O que você pensa que tá fazendo aqui, Nicholas? Eu  achei  que  estivéssemos  tranquilos  em  relação  a  cada  um  ter  um tempo para viver a própria vida e não sufocar o outro!  –Ficar  até  tarde  na  sua  casa  com  outro  cara  é  sua  maneira  de  não  ser  sufocada  por  esse  relacionamento?  –  retruquei  –  Então  vejo  o  porquê  do  seu  ex não ter aguentado  ficar com você!  –Não acredito... – Alice se sentou no sofá – Você  não...  Não, não, não! Eu não acredito que disse isso! 

Não  consegui achar palavras para responder aquilo. Já  começava  a  me  arrepender  pelo  que  tinha dito, mas não tinha  como  voltar  atrás.  Deixei  Alice  na  sala  e  saí  de  sua  casa.  Quando  dei  por  mim  já  estava  dirigindo  para  o  local  onde  encontraria  Raul.  Eu  devia  saber  que  ele  tinha feito tudo para  me deixar enciumado e reagir no impulso. Ele conseguira, mas  ia  receber  minha  resposta.  Entrei  no  galpão  com  os  punhos  cerrados. Três homens estavam ali. A iluminação era péssima, 


mas reconheci Raul e os outros homens que tinham batido em mim da outra vez.  –O bom filho retorna! – Raul riu cinicamente. 

–O que você quer agora? 

–Meu filho, não seja mal educado. – aproximou-se –  Sei que você recebeu uma educação melhor no orfanato. 

–Só  fala  o  que  você  quer.  –  enfrentei-o  –  Não  estou  com paciência para seus jogos mentais hoje.  –Acho  que  algo  mexeu  com  você,  não  é?  Acho  que  foi uma certa loira que andou não sendo muito fiel com você.  –Cala  a  boca!  –  empurrei-o  –  Alice  não  fez  nada  e  você não vai conseguir provocar ciúmes em mim de novo!  –Acho  que  preciso  ensinar  bons  modos  a  você!  –  ele  socou  meu  estômago  –  Se  continuar  com  esse  comportamento  eu  vou  pedir  para  os  meus  amigos  capricharem com mais alguns desses.  Ainda  com  meu  corpo  dobrado  de  dor,  consegui  achar  forças  para  ir  para  cima  dele.  Assim  que  o  joguei  no  chão  e  comecei  a  soca-lo,  senti  quatro  braços  me  arrastarem  para  longe  de  Raul.  Foram  longos  minutos  em  que  tentei  me  soltar  enquanto  recebia  socos  e  chutes  por  todo  meu  corpo.  Quando 


estava prestes  a  desmaiar  em  pé,  o  homem  que  me  segurava  soltou  meus  braços  e  eu  desabei  no  chão.  Fechei  os  olhos  sentindo a dor me consumir.  –Escuta  garoto...  –  ouvi  passos  de  Raul  se  aproximando  –  Você  precisa  aprender  que  não  deve se meter  comigo.  Isso que os rapazes fizeram com você é exatamente o  que  eles  podem  fazer  com  sua  loirinha.  Não  teste  a  paciência  do seu velho porque você sabe que ela é igual a sua.  –O que você quer? – sussurrei. 

–Apenas mais um pouco daquele maravilhoso dinheiro dos Fontelle.  –Quanto? – abri os olhos. 

–Cinco  vezes  mais  o  que  você  me  deu  antes.  –  respondeu  tranquilamente,  como  se  dissesse  que  amanhã  iria  chover.  –Droga! – resmunguei – Sabe quanto vai ser difícil tirar  isso da conta sem que meu avô perceba?  –Aí não é comigo. – ele bateu de leve em meu ombro  –

Tenho certeza  que  nada  é  demais  para  você  quando 

envolve a segurança da sua namorada. Não respondi. Ele sabia que sim.     


–Acho que  é  melhor  eu  ir.  –  Raul  suspirou  –  Um  homem  tem  que  cuidar  dos  seus  negócios  também.  Bem,  os  mais importantes, pelo menos. Esse aqui já está resolvido.  Os dois homens riram. 

–Espero que você consiga me entregar logo, filho.  Tenho pendências que dependem de sua boa ação. 

Raul  saiu  com  seus  homens  me  deixando  sozinho  como  na  primeira  vez que estive ali, mas eu mal conseguia me  mexer  sem  sentir  dor.  Não  conseguiria  sair  dali  sozinho  ou  sem  esperar  algumas  horas  até  que  a  dor  melhorasse  um  pouco.  Pensei  em  ligar  para  Alice,  mas  duvidava  que  ela  atenderia  e  não  queria  envolve-la  mais  do  que  ela  já  estava.  Protege-la  era  o  mais  importante.  Não  conseguia  imaginar  como  me  sentiria  se  Raul  encostasse  em  um  fio  de  cabelo  dela, ou pior, se ele a machucasse. Tentei manter minha mente  distraída  para  esquecer  a  dor.  Pensei  nela,  em  como  seus  cabelos  refletiam  a  luz do sol e como ela sorria de leve em seu  sono.  A  lembrança  da  primeira  vez  que  a  vira  dormindo  veio  subitamente e logo sorri ao me recordar. 

     

Meses antes...  


Ligar para  ela?  Talvez...  Eu  tinha  que  ligar!  Dante  tinha  repetido  milhões  de  vezes  que  eu  tinha  que  ligar  para  ela,  mas  não  achava  a  coragem.  Depois  de  ter  sido  um  total  babaca  com  ela  e  ter  recebido  o  seu  tratamento  “muito  carinhoso” não acreditava que voltaríamos sequer a conversar,  mas ela me surpreendera com um poema e todo meu plano de  “manter  as  coisas  assim”  se  desmanchou.  Respirei  fundo  e  liguei para ela. Lá pela quinta chamada que fazia ela atendeu.  –Alice? 

Nada.   

–Alice? – repeti com medo de ter ligado para a pessoa errada.   

–Oi... – a voz dela me deixou aliviado.

–Ufa! – suspirei – Achei que tinha acontecido algo.  Está livre essa noite? 

“Droga!  Por  que  eu  estava  sendo tão patético? Quem  é  que  pergunta  se  a  menina  está  livre  essa  noite  sem  parecer  completamente desesperado?”, pensei.  –É, acho que sim. Se você não se importar que eu  esteja cheirando um pouco a água sanitária.   


–Olha, é um dos meus cheiros favoritos! – ri.

–Cada um com suas loucuras — murmurou 

–Então, vai sair comigo esta noite? – entusiasmei-me 

–Com certeza! – respondeu, não tão eufórica quanto  eu – Aonde vamos?  “Isso gênio! Você chama ela para sair e nem sabe onde  vão!”   

–É uma  surpresa.  Se  arrume,  e  talvez  seja  bom  levar  um  casaco.  Até  mais.  –  desliguei  antes  que  falasse  alguma  besteira.  Comecei  a  pesquisar  lugares  na  cidade  que  parecessem  certos  para  levar  Alice,  mas  nada  me  pareceu...  “perfeito”.  Foi  quando  lembrei  do  terraço.  Corri  para  o  escritório  do  meu  avô  e  peguei  a  chave.  As  vezes eu ia para o  terraço  apenas  para  ficar  sozinho  com  meus  pensamentos.  Dentro  de  casa  me  sentia  sufocado,  as  vezes,  e  lá  era  o  lugar  que  conseguia  me  deixar  tranquilo.  Tomei  um banho e vesti a  melhor  combinação  que  sabia  fazer  sem  me  sentir  inseguro:  camisa  branca,  calça  jeans  preta,  minha  melhor  jaqueta  de  couro,  coturno  e  a  corrente  prata  com  pingente  de  clave-de-sol.  Com apenas uma checada no espelho saí de casa.  Resolvi  passar  no  supermercado  e  comprei  algumas  coisas  antes de ir arrumar o terraço. Fiquei 


tão ligado  em  arrumar  tudo  para  que  ela  tivesse  uma  boa  impressão  que  me  perdi  no  horário.  Era  quase  meia-noite  quando  estacionei  em frente à sua casa. Liguei para seu celular  torcendo para que ela estivesse acordada.  –Alô? – atendeu no sexto toque com a voz sonolenta. 

–Estou  na  porta  da  sua  casa.  –  tentei  não  parecer  nervoso – Demorei muito?  –Imagina.  –  soltou  um  riso,  provavelmente  de  ironia  –  Só  assisti  a  uns  três  filmes.  Fique  feliz  porque  voltamos  às  boas  ainda  hoje,  ou  eu  era  capaz  de  brigar  agora  mesmo com  você!  –Venha logo, Alice! – desliguei. 

Senti  um  frio  na  barriga.  Não  sabia  se  aquela  era  a  melhor  forma  de  lidar  com  ela,  mas  pareceu  funcionar,  pois  pouco  tempo  depois  ela  saiu.  Ela  estava  completamente  de  preto  –  confesso  que  quis  rir  ao  ver  a  regata  dela  com  “I  S2  Books”  –  e  usava  botas  de  salto  alto.  Seus  cabelos  pareciam  bagunçados,  mas  aquilo  só  a  deixava  mais  bonita.  Balancei  a  cabeça.  Tinha  que  falar  algo  antes  que  parecesse  um  bobão  encarando ela.  –Oi gata! – ri de nervoso – Quer dar um rolê?     


“Sério mesmo, Nicholas? ESSE É O MELHOR QUE TEM?”   

– Acha que  é  fácil?  –  colocou  as  mãos  nos  quadris  e  se  aproximou  –  Eu  não  vou subir nesse monstro, que é lindo,  por sinal.  –Não? – eu a desafiei. 

–Não – lançou um sorriso malicioso. 

Capturei-a  pela  cintura  em  questão  de  segundos  e  ficamos  a  poucos  centímetros.  Ela  levantou  meu  rosto  para  me  encarar,  parecendo  muito  brava,  mas  subitamente  sua  raiva  se  dissipou.  Seus  olhos  cristalinos  invadiram  o  meu.  Sentia  que  ela  podia  enxergar  o  mais  profundo  em  minha  alma  e  torci  para  que  ela  visse  o  quanto  eu  queria  a  manter  por  perto.  Coloquei  uma  de  minhas  mãos  em  seu  rosto,  pensando  seriamente  em  beijá-la.  Seu  olhar  caiu  para  meus  lábios.  Sabe  quando  você  tem  milésimos  de  segundos  para  decidir  algo  e  resolve  não  fazer  o  que  quer  porque  acha  que  vai fazer merda? Foi exatamente o que fiz. Eu não a beijei.  –Acho que você vai comigo no monstro esta noite. 

Trouxe-a  para  perto  de  mim,  peguei-a pelos joelhos e  a  coloquei  na  moto,  facilmente.  Acomodei-me  atrás dela logo  em seguida, antes que ela protestasse.   


–Antes que  pergunte  –  peguei  os  capacetes  que  estavam  intactos  no  chão  –, aqui estão os capacetes. – Nós os  colocamos  automaticamente.  –  Segurança  em  primeiro  lugar!  –  Se  me  der  licença  –  passei  um  dos  braços  por  ela  para  alcançar o painel e ligar a moto –, vamos lá.  Dei  a  partida  e  saímos.  Nenhuma das vezes que tinha  andado  pela  cidade  foi  tão  incrível  como  aquela.  Apenas  por  ela.  Tinha  que  me  esforçar  ao  máximo  para  não  ficar  encarando-a  e  perder  a  concentração  em  meio  ao  trânsito. Lá  pelo  quarto  semáforo  que  parávamos,  percebi  que  ela  estava  arrepiada  e  tirei  meu  casaco.  Ela  o  colocou  e  a  expressão  em  seu rosto foi de alívio. Após isso ela relaxou completamente.  –Chegamos. – parei a moto. 

–O colégio? 

–É.  Não  estava  brincando  quando  disse  que  gostava  de  invadir  lugares.  Não  é  um  parque,  mas  está  de  bom  tamanho.  –  desci  da  moto  e  a  ajudei  –  A  propósito, bom que  veio  de  preto  e  vestindo  roupas  confortáveis.  Elas  são  as  melhores para pular muros.  –Você  não  pode  estar  falando  sério…  –  ela  disse  atrás de mim – Você é lou…     


–Calma aí…  –  parei  de  repente  quase  fazendo  com  que  ela  colidisse  comigo  –  Eu  não  vou  invadir  nada  –  assegurei  –  Achei  que  você  iria  curtir  a  brincadeira.  Eu  tenho  alguns  amigos  na  administração  e  às  vezes,  quando  quero  passar  um  tempo  no  terraço,  venho  aqui.  –  abri  o  portão  de  ferro pequeno e convidei: — Vamos?  Apesar de seu olhar ainda assustado ela me seguiu. Eu  a  guiei  até  o  terraço.  O  olhar  em  seu  rosto  ao  ver  tudo  que  havia  preparado  me  deixou  orgulhoso.  A  noite  seguiu  num  ritmo  que  eu  jamais  teria  previsto.  Depois  que  cantar  Everything  ​para  ela  senti  que  minha  inspiração  estava  fluindo  novamente  como  não  acontecia  há  anos.  Cantei  até  que  ela  adormecesse.  Sabia  que  era  melhor  leva-la  para  casa,  mas não  queria  me  afastar  dela.  Em  seu  sono  profundo  ela  não  se  mexeu  quando  a  cobri  com  a  manta  e  beijei  sua  testa.  Fiquei  observando  seu  sorriso  angelical  enquanto  ela  sonhava  e  minutos  depois  me  entreguei  ao  cansaço,  mas  não  antes  de  torcer para que ela um dia sorrisse por minha causa. 

       

Depois de  algumas  horas  deitado  no  chão  senti  que  conseguiria  me  levantar.  Com  um  esforço,  cheguei  a  minha  moto, mas assim que dei a partida senti a dor me dominar de   


novo. Eram  quase  quatro  da  manhã,  constatei  ao  olhar  em  meu  celular.  Não  podia  ligar  para  Dante  ou  qualquer  outra  pessoa  que  conhecesse  Alice  se  quisesse  manter  ela  fora  de  tudo.  Resolvi  ligar  para  Jonathas.  Ele  estava  saindo  do  trabalho  e  não  viu  problema  em  me  buscar.  Junto  a  ele  veio  uma  mulher  que  parecia  ser  um  pouco mais velha que ele. Os  dois  me  ajudaram  a  chegar  até  o  carro.  Jonathas  disse  que  levaria  minha  moto  e  então  partimos  para  minha  casa.  Tirei  um  cochilo  e  só  acordei  quando  os  braços  de  Jonathas  tentavam me tirar do carro.  –Tudo  bem,  Jonathas.  –  sentei-me  –  Consigo  descer  sozinho.  Nos  despedimos  e  entrei  em  casa.  A  quietude  similar  não  conseguiu  me  deixar  mais  tranquilo,  apenas  quando  cheguei  em meu quarto e vi Alice dormindo em minha cama é  que  suspirei  aliviado.  Antes  que  ela  acordasse  e  ficasse  assustada  com  meu  estado  fui  tomar  um  banho.  A  água  quente  conseguiu  aliviar  um  pouco  da  tensão  em  meus  músculos.  Voltei  para  o  quarto  e  encontrei  dois  olhos  cristalinos me observando enquanto eu caminhava até a cama.  –Oi. – deitei-me ao seu lado. 

–Onde  você  estava?  –  sua  expressão  era  uma mistura  de  preocupação  e  mágoa  –  Seu  avô  me  ligou  doido  da  vida  perguntando se você tinha ido passar a noite na minha casa e 


não tinha avisado. Eu fiquei completamente preocupada, Nicholas! Você sumiu totalmente por horas!  Desviei o olhar. Alice tocou meu rosto. 

–E  voltou  machucado.  –  suspirou  –  O  que  está  acontecendo com você?  Fiquei em silêncio. 

–Seu  ciúmes  está  levando  você  a  um  ponto  que  me  preocupa.  –  ela  sussurrou  –  Se  toda  vez  que  a  gente  se  desentender  você  sair  por  ai  brigando,  isso  não  vai  dar  certo.  É aí que você quer chegar?  –Não.  –  encontrei  seus  olhos  –  Prometo  que  vai  melhorar, Alice. Não vou deixar que nada nos separe.  –Mantenha  essa  promessa.  –  deitou  a cabeça em meu  peito – Para o bem de nós dois.  “Você  não  sabe  o  quanto  estou  fazendo pelo bem de  nós dois...”, pensei.  –Ok, Bob Esponja. – beijei sua testa – Agora durma. 

Não  precisei  nem  falar  suas  vezes,  Alice  caiu  em  um  sono  profundo  enquanto  eu  fiquei  tentando  esquecer  das  dores. Devia ter ido a um hospital para observar a gravidade     


dos ferimentos,  mas  depois  de  estar  com  minha  namorada  dormindo  tranquilamente  em  meus  braços  eu  não  quis  sair.  Fiquei  acordado  até  os  primeiros  raios  de  sol  invadirem  o  quarto  pela  cortina,  iluminando  diretamente  nos  cabelos  de  Alice.  Em  algum  momento  entre  observa-la  sorrindo  e  acariciar seus cabelos, consegui dormir.     


ONZE Alice   


“Estou sem resposta Uma grande confusão  De sentimentos  E de palavras  Eu já quis  Te dizer  Tantas palavras”   

– Fernando Tayrone.    


–Ok, gente.  –  Teodora  pediu  silêncio  pela  quinta  vez  –  O  professor  Aguinaldo  e  o  Rafael  liberaram  as duas turmas  para  que  a  gente  organizasse  as  ideias  prévias  para  nossa  formatura.  Suspirei.  Apesar  de  estar  animada  para  a  formatura,  eu  não  tinha  muito  entusiasmo  para  nada por conta da minha  preocupação  com  Nicholas.  Ele  estava  diferente  nos  últimos  dias.  Pelo  terceiro  dia  seguido  tinha  faltado  a  aula  e me ligava  apenas  a  noite,  dizendo que estava com dores ainda e por isso  não  tinha  saído  de  casa,  mas  quando  eu  dizia  que  ia  vê-lo  a  única  coisa  que recebia era um não. Mais suspiros. Resolvi dar  uma  chance  aos  planos  da  formatura  para  distrair  minha  mente.  –Eu  e  Teodora  somos  as presidentes das duas turmas  e  resolvemos  liderar  a  comissão  de  formatura,  tudo  bem?  –  Lari esperou a aprovação de todos.     


E as  duas  turmas  concordaram, pois sabiam que se as  duas  organizassem  tudo  não  teria  como  a  festa  não  ser  maravilhosa.  –Ok.  Agora  vamos  ao  tema.  –  Teodora  cantarolou  –  Pensei  que  poderíamos  inovar  completamente no conceito de  festa de formatura.  –Vocês vão adorar a ideia dela. – Lari sorriu para a  colega.   

–Qual é a grande ideia, marmota? – Enzo brincou.

Os  dois  pareciam  cada  vez  mais  distantes  e  provocavam  um  ao  outro  com  uma  frequência  absurda.  Chamar  ela  pelo  apelido  antigo  –  marmota  –  era  uma  forma  de  perturbá-la.  Desconfiava  que  isso  tivesse  uma  alta  influência  do  novo  namorado  de  Teodora:  Lucas.  Enzo  acabava  demonstrando  um  ciúmes  além  do  “nível  de  amigo”  frequentemente.  –A  minha  ideia  é  fazer  uma  festa  a  fantasia.  –  ela  ignorou Enzo – O que acham?  Como  sempre,  havia  dois  ou  três  que  discordavam,  mas  no  final  a  maioria  venceu.  Festa  a  fantasia  –  Êêêêêê...  Depois  que  o  tema  foi  decidido,  vários  tópicos  foram  discutidos, mas não prestei atenção a nenhum deles. Meus   


pensamentos voltaram  a  Nicholas  e  ao  seu  afastamento.  Estava  prestes  a  suspirar  frustrada  novamente  quando  Ian riu  ao meu lado.  –Não acredito. – cochichou para que apenas eu o  ouvisse.   

–O que? – olhei para ele.

–Você está com algum tique de suspiros por acaso? –  seu olhar era divertido e preocupado ao mesmo tempo. 

–Não, por que? – soltei um riso nervoso. 

–Você  suspirou  umas  trinta  vezes  nos  últimos quinze  minutos.  –  observou – Se você não tivesse o Nicholas eu diria  que está apaixonada.  –Bem,  ele  meio  que  é  o  problema.  –  suspirei  e  logo  em seguida nós dois rimos.  –O que aconteceu? – Ian segurou minha mão. 

Desviei  o  olhar e observei nossas mãos juntas. Ian era  um  ótimo  amigo,  tínhamos  muita  coisa  em  comum,  mas  em  nenhum  momento  as  coisas  mudaram  entre  nós.  Ele  me  lembrava  um  amigo  meu  que  um  dia  descobri  que  entre  esse  meu  pensamento  de  “é  apenas  meu  amigo,  um  bom  amigo”,  ele  acabou  se  apaixonando  por  mim  e  eu  feri  seus  sentimentos. 


Não queria que o mesmo viesse a acontecer com Ian, por isso afastei minha mão.  –Esquece,  Ian.  –  levantei-me  –  Não  estou  me  sentindo bem. Vou pedir para me liberarem.  Estava  quase  me  virando  quando  ele  segurou  minha  mão e disse:  –Espero  que  as  coisas  entre  vocês  melhorem.  –  apertou  de  leve  minha  mão  – Se precisar conversar, sabe meu  número.  Concordei,  peguei  minha  mochila  e  saí  em  silêncio,  antes  que  ele  dissesse  mais  alguma  coisa.  Aguinaldo  e  Rafael  autorizaram  minha  saída.  Caminhei  até  minha  casa  em  silêncio.  Assim  que  cheguei,  Hat  veio  trançar  entre  minhas  pernas – provavelmente ele estava sem comida.  –Já  vou  colocar  sua  comida,  seu  guloso.  –  peguei-o  no colo – Antes eu preciso deixar esse peso lá em cima.  Subi  as  escadas  rapidamente  e  ao  chegar  no  quarto  quase  gritei  de  susto  ao  ver  Nicholas  sentado na minha cama.  Seu  olhar  encontrou  o  meu.  Em  silêncio,  coloquei  Hat  no  chão e larguei minha mochila num canto.  –Oi. – mordi o lábio.     


–Oi. – sorriu ao se levantar.

–Está melhor? – cruzei os braços. 

–Sim. – segurou meu queixo – Está brava? 

–Não. – desviei o olhar. 

–Por que você está brava? – insistiu. 

–Por  tudo,  droga!  –  gritei  –  Você  some  do  colégio  por  três  dias,  só liga para mim umas duas vezes para dizer que  ainda  está  com  dor  e  quando  eu  digo  que  vou  te ver você diz  não  para  mim!  Sem  contar  que  eu  ainda  não  esqueci  do  seu  ataque de ciúmes!  Ele ficou em silêncio. 

–Nicholas,  não  diga  que  veio  aqui  para  terminar  comigo. – senti minha garganta se fechar.  –Não!  –  ele  me  abraçou  –  Não  pensa  assim,  Alice.  Jamais  iria  terminar  com  você.  Se  tem  alguém  que  não  suportaria a ideia de terminar com você, sou eu.  –Então porque veio aqui? – uma lágrima escapou. 

–Porque  estava  com  saudade.  –  ele  secou  a  lágrima  com  um  dedo  –  E  porque  não  queria  te  deixar  preocupada.  Esses dias foram horríveis para mim. Mal saí da cama.   


–E porque você não deixou eu ir te visitar?

–Você  sabe  que  não  consigo  manter  minha  boca  longe  da  sua  quando  estamos perto e estava difícil de respirar,  imagine te beijar. – ele riu.  –Não me convenceu. – murmurei. 

–Não  era  para  convencer.  –  segurou  meu  rosto  com  as  duas  mãos  –  Vamos  deixar  tudo  de  ruim  desses  dias  para  trás, pode ser?  –Pode. – suspirei. 

–Bom. – aproximou-se. 

O  beijo  começou  lento,  mas  rapidamente  se  aprofundou.  Depositamos  toda  a  saudade  de  dias  sem  se  ver  naquele beijo. Suas mãos apertaram minha cintura de leve e eu  o  empurrei  para  a  cama. Antes que eu começasse a beijá-lo de  novo ele me afastou.  –O que? 

–Acabei de lembrar que era para a senhorita estar no  colégio ainda. O que aconteceu?  –Saí mais cedo. 

–Por que?     


–Bem, eu disse que estava passando mal e me liberaram. – desviei o olhar – Só isso.  –Mas você parece extremamente bem. – observou. 

–É... 

–Alice. 

–O que? 

–Olha para mim. – pediu.  Eu olhei.  –Você está matando aula? 

–Não! Eu... 

–Não

acredito!

ele

começou

a

rir

incontrolavelmente. –O que? Você nunca fez isso? 

–Já, mas você fazendo isso é novidade. 

–Sou um ser humano como todos, Nicholas. – revirei  os olhos.  –Tá bom. – suspirou – O que perdi esses dias?     


–Bem, não muita coisa. – passei a mão por seu cabelo – Aulas chatas, escolha do tema da formatura... 

–Isso é muita coisa. – protestou. 

–... e caso tenha esquecido, amanhã tem prova  monstro de química. – conclui.  –Qual o tema da formatura? 

–Festa a fantasia. – resmunguei – Voltando a prova  monstro de química...  –Precisamos escolher a nossa fantasia. – interrompeu. 

–Nicholas, você ouviu o que eu disse? 

–Sim, tem prova de química amanhã. 

–Não é só prova de química. – quase gritei – É prova  MONSTRO de química.  –Alice... – riu – Você está com o melhor professor de  química bem aqui na sua frente.  –Sério? – zombei. 

–É  claro.  –  semicerrou  os  olhos  –  Posso  afirmar  que  entre  eu e você tem muita química rolando, gata. Nem preciso  te ensinar.     


–Ai não... – tapei os ouvidos – Desculpa tímpanos.

–Minha  namorada  nem  ri  para  dar  uma  força.  –  brincou  –  Mas  é  sério,  posso  te  ajudar  em  química.  Agora  vamos escolher as fantasias.  –Tudo bem. – suspirei – Posso ir de Bob Esponja, o  que acha?  –E eu iria de que? – franziu o cenho – Patrick? Lula  Molusco? Nem pensar...  –Ok, ok... – ri – Podemos ir de algum personagem dos  livros que li.  –Liz e Mr. Darcy? – sugeriu. 

–Não. 

–Hazel e Gus?  Torci o nariz.  –Seria modinha demais para você, capitão. 

–Que tal algum personagem de Harry Potter? –  levantou as sobrancelhas. – Eu vi todos os filmes.   

–Pode ser... Mas nenhum do trio principal. Óbvio demais.     


–Que tal Luna e Neville?

–Eles nem são o casal de verdade nos livros... 

–Mas poderiam ser no filme. – interrompeu. 

–Você sabe que eles não ficaram juntos de qualquer  maneira, não sabe? – semicerrei os olhos.  –Sim, mas e daí? – deu de ombros – Só queria uma  fantasia para usar com minha namorada. Algo que combinasse.  Sorri. 

–Além  disso,  nós  podemos  fazer  com  que  essa  Luna  aqui  fique  com  o  Neville  por  muito,  muito,  muito  tempo.  –  apertou minha bochecha.  –Ok. – ri – Podemos ir de Luna e Neville na  formatura. 

–Isso! – ele me deu um beijo rápido – Agora vamos  para aquela aula de química.  Resmunguei. 

–Eu sei, eu sei... Também preferia ficar com você aqui,  estudando essa química que a gente tem. – brincou.     


–Beleza! –  levantei-me  –  Acho  que  prefiro  estudar  bases,  ácidos,  sais  e  óxidos  que  ouvir  mais  uma  dessas  suas  piadinhas.  –Namorada ingrata. – resmungou de brincadeira. 

Nós  descemos  para  a  sala  e  ele  começou  a  “dar  sua  aula”.  Por  incrível  que  parecesse,  Nicholas  era  excelente  em  química.  Não  bastava  ser  lindo  e  músico,  o  exibido  tinha  que  ser  bom  em  química?  Ah,  claro!  Não  esquecendo  de  que  ele  era  bom  em  matemática  também  –  descobri  isso  quando  estava  indo  fazer  alguns  exercícios  de  estequiometria  que  envolviam  cálculos  monstros.  Tinha  vontade  era  de  bater  na  cara  dele  por  ter  tanta  facilidade  com  os  terrores  da  minha  vida.  –Ok... – enterrei meu rosto em minhas mãos e suspirei  – Preciso parar por aqui. Meu cérebro está fritando. 

–Calma,  Bob  Esponja.  –  senti  suas  mãos  em  meus  ombros  –  Você  fez  um  grande  progresso  hoje.  Amanhã  você  vai arrasar na prova.  Suas mãos começaram a massagear meus ombros  tensos.   

–Que tal uma recompensa pela tarde de estudos? – ele sussurrou em meu ouvido.   


– Se toda  vez  que  seus  filhos  fizerem  o  dever  de casa  ou  estudarem  você  os  recompensar,  você  vai  ser um péssimo  pai, Nicholas. – eu ri.  –Mas você não é meu filho, é minha namorada. –  beijou minha testa – Vamos tomar sorvete. 

–Sério?  –  abri  os  olhos  –  Achei  que  minha  recompensa era uma sessão de massagem ou de beijos.  –Isso pode vir depois, mas antes vamos tomar sorvete.  Topa? – piscou para mim. 

–Tá. – sorri. 

O  cansaço  mental  que  sentia  logo se dissipou quando  Nicholas  deu  a  partida  em  sua  moto.  Fechei  os  olhos  apertando  meus  braços  ao  redor  do  meu  namorado e curti os  poucos  minutos  em  que  o  vento  arrepiava  minha  pele e pude  ter  um  dos  pequenos  momentos  de  paz  que  Nicholas  tanto  falava.  São  momentos  em  que  você  esquece  tudo  de  ruim  do  seu  dia  –  ou  da sua vida – e aprecia aquele pequeno espaço de  êxtase.  Eram  em  momentos  assim  que eu não duvidava que o  amor entre Nicholas e eu iria durar.     


–Então tudo  bem  para  você  eu  deixar  de  passar  o  feriado  contigo  para  ir  a  uma  festa  do  pijama?  –  perguntei  a  Nicholas pela quinta vez.  –Sim. – respondeu com a mesma calma de sempre. 

Suspirei.  Quando  se  tratava  dele,  era  bom  sempre  esperar  surpresas.  Ele  implicava  comigo  dizendo  que  quase  não  dedicava  meu  tempo  para  ele  durante a semana e quando  tínhamos  a  chance  de  passar  o  feriado  do  aniversário  da  cidade  juntos,  ele  dizia  que estava “tudo bem” e que devia ir a  festa  do  pijama  na  casa  de  Lari.  Ainda  confusa  com  sua  mudança  de  comportamento  eu  o  beijei  para  me  despedir.  Estávamos  parados  na  frente  da  casa  da  minha  amiga  fazia  uns bons minutos.  –Não  se  preocupe.  –  murmurou  com  os  lábios  próximos aos meus – Eu vou sair com os caras.  –Agora eu vejo porque você está cheio de “tudo bem,  pode ir”. – bati em seu ombro e rimos.  –Você  vai  ter  sua  noite  com  as  garotas  e  eu  a  minha  noite com os caras. – puxou-me pela cintura.  –Eu preferia ficar com você. – cruzei os braços.     


–Eu sei. – beijou minha testa – Só que combinamos de manter as coisas saudáveis entre nós, lembra?  Concordei. 

–Então... – ele me virou e sussurrou em meu ouvido:  –

Agora vai lá e curta a noite com suas amigas. Amanhã

à tarde eu venho te buscar. –Ok. 

Nos  despedimos  com  mais  um  beijo.  Corri  até  a  entrada  antes  que  perdesse  a  vontade  de  ficar  ali.  Apertei  a  campainha  e  me  surpreendi  ao  ver  Ian  atender  a  porta  com  um terno.  –Bem-vinda, senhorita. – ele sorriu. 

–O que é isso? – ri. 

–Bem,  digamos  que  sou  eu  pagando  mico  em  mais  uma  festa  do  pijama  da  minha  irmã.  –  deu  de  ombros  –  Sempre acaba sobrando para mim. Lucas é melhor em escapar  dos pedidos de Lari.  –Pelo menos eu tenho alguém para fugir caso esteja  entediada na festa. – brinquei.     


–É. –  ele  riu  –  Se  você  quiser  trocar  a  programação  animadíssima  das  meninas  pelo  meu  quarto  onde  só  toca  do  nível Lana Del Rey para frente, fique a vontade.  –Vou  manter  isso  em  mente.  –  soquei  seu  ombro  de  leve e ele me retribuiu.  –Aliceeeee! – ouvi a voz de Teodora. 

–Tenho que ir... 

Saí  rapidamente  da  entrada  e  caminhei  até  chegar  a  sala onde as meninas estavam. A casa era bem maior que onde  eu  morava,  mas  nem  chegava  a  metade  da  casa de Nicholas –  seria  difícil  superar  a  casa  dele.  Balancei  a  cabeça.  Tinha  que  parar  de  pensar  no  meu  namorado,  apenas  por  uma  noite.  Lari,  Maria,  Teodora  e  Rebecca  estavam  esparramadas  pelo  enorme  sofá  cinza.  Haviam  vários  baldes  de  pipoca  e  chocolates  espalhados  por  todos  os lados. Deixei minha bolsa  no chão e me aproximei delas.  –Oi gente! 

–Shhh!  –  Lari  fez  uma careta para mim – Estamos no  meio do filme e você está atrasada.     


–Tenho quase  certeza  que  o  Nicholas é o culpado do  atraso  dela.  –  Maria  me  passou um balde de pipoca assim que  me juntei a elas.  –Eu mesma que atrasei, gente. – peguei um pouco de  pipoca.   

–Sabemos. – Lari riu. Revirei os olhos.  –Que filme é esse? – franzi o cenho. 

–Amor Sem Fim. – Rebecca suspirou – Ele é o meu  novo favorito.  –É muito bom mesmo. – Maria concordou – O casal  me lembrou você e o Nicholas.  –Mas sem o pai complicando a vida deles. – Teodora  ressaltou.  –Acho que vou ter que assistir ele então. – sorri. 

A  sala  entrou  em  um  silêncio  quase  total.  Apenas  ouvíamos  o  barulho  de  nós  cinco  comendo  pipoca  e  chocolates.  O  filme  era  muito  bom.  Não  entendi  muito  porque  tinha  perdido  o  começo,  mas  o  final  era  lindo.  Assim  que  o  filme  terminou,  Lari  chamou  Ian  para  pegar  os  baldes  de 


pipoca e  recolher  as  embalagens  dos  chocolates  do  chão  enquanto  as  meninas  escolhiam  outro  filme.  Acabei ajudando  ele  e  elas  nem  perceberam.  Peguei  dois  baldes  de  pipoca  e  o  acompanhei até a cozinha.  –Por que você faz isso? 

–O que? 

–Fica de “escravo” da sua irmã? 

–Alice...  –  desviou  o  olhar  –  Eu  não  sou  como  meu  irmão,  Lucas.  Ele  saí  com  os  amigos,  enquanto  eu  fico  em  casa  porque  não  tenho  pessoas  que  tem  o  mesmo  gosto  que  eu.  –Qual é, Ian... 

–É  sério.  –  interrompeu  –  Você  é  minha  primeira  amiga  em  anos.  Por  isso  que  eu  vivi  a  vida  inteira  sendo  o  escravo  de  Lari  nas  festas  do  pijama  dela.  Meio  que  gosto  disso.  Ele sorriu maliciosamente. 

–É mesmo? 

–Claro!  Imagina  quantas  meninas  eu  já  consegui  tentar  chamar  para  sair  nessas  festas?  –  ele  riu  e  logo  em  seguida suspirou – Não que nenhuma delas tenha aceitado. 


Fiquei em silêncio.    


–Alice?

–Sim? 

–Quer conhecer

meu

quarto? –

seus olhos

encontraram os meus. –Sim. – falei impulsivamente – Aliás, acho que é  melhor não. As meninas...  –Só cinco minutos. – ele estendeu a mão para mim. 

–Ok. – segurei-a. 

Ian  me  guiou  até  seu  quarto.  Assim  que entrei senti a  diferença  em  ver  um  quarto  vago  e  um  cheio  de  personalidade.  Ian  tinha  todas  as  paredes  repletas  de pôsteres  de  filmes  nerd,  uma  estante  com  o  dobro  do  tamanho  da  minha  e  outra  só  de  bonecos  Funko.  Ele  encostou  a  porta  e  deixou  que  eu  explorasse  seu  quarto.  Estava  observando  a  organização impecável de seu livro quando ouvi uma música.  –O que é isso? – sorri para Ian. 

–Lana.  Essa  se  chama  ​Blue  Velvet​.  –  ele  se  deitou  no  chão  –  Vem.  Você tem que deitar no chão, olhar para o teto e  apreciar essa voz.     


Juntei-me a  ele  no  chão.  O  teto  dele  era  pintado  de  azul  escuro  e  combinava  perfeitamente  com  tudo.  A  música  começou  a  tocar  e  eu  fechei  os  olhos.  Senti  a  mão  de  Ian  tocar  a  minha.  Engoli em seco. Precisava sair dali antes que as  coisas se complicassem.  –Essa é minha preferida. – Ian sussurrou.   

–Por que? – abri os olhos e o encontrei inclinado sobre mim.   

–Porque me lembra você. – aproximou-se.

–Ian... – afastei-o – Não.  Ele desviou o olhar.  –Desculpa.   

–Tudo bem. – suspirei – Não é ruim você gostar de mim.   

–Não?

–Não. – sorri – Você só não pode deixar que isso  atrapalhe nossa amizade.  Ele apertou os lábios, claramente frustrado.     


–Eu sei  que  tem  o  Nicholas  no  meio disso tudo, mas  você  não  pode  pensar que só existe ele no mundo. Vai chegar  um momento que ele vai para Londres e...  –E  tudo  ficará  normal,  Ian.  –  interrompi  –  Escuta,  não  é  porque  meu  namoro tem suas complicações que eu vou  terminar  com  o  Nicholas  ou  acabar  me  apaixonando  por  você.  Já  passei  por  essa  situação  com  um  amigo  antes  e  eu  o  perdi. Não quero que o mesmo aconteça entre a gente.  –Não se preocupe. – ele se levantou – Uma hora passa. 

Antes que as coisas ficassem estranhas mais entre nós,  saí  do  quarto.  Voltei  para  a  sala  e  encontrei  as  meninas  dançando  ​Hair  ​em cima do sofá. Teodora me puxou pela mão  e  me  juntei  a  elas.  Foi  divertido.  Por  alguns  minutos  eu  não  me  preocupei  com  meu  namoro  com  Nicholas  ou  a  amizade  de  Ian  se  tornando  algo  mais,  apenas aproveitei o momento e  dancei.  As  meninas  ficaram  empolgadas  e  emendaram  uma  música atrás da outra. Depois de uma hora estávamos as cinco  deitadas no chão, completamente suadas e exaustas.  –Isso  foi  demais,  gente.  –  Lari se juntou a nós depois  de  ligar  o  ar  condicionado  –  Nunca  me diverti tanto assim na  vida.  –Nem eu. – sorri.     


–Gente, agora  temos  que  arrumar  um  assunto  bem  longo  antes  de  fazer  qualquer  outra  coisa.  –  Teodora  choramingou – Eu estou praticamente morta nesse chão.  –A gente podia fazer um jogo. – Rebecca sugeriu.   

–Já sei! – Maria se empolgou – Vamos jogar “Eu nunca”.   

–Gostei! – Lari bateu palmas animadamente – Vamos para a cozinha. Tem duas garrafas de vinho lá.  –Eu vou ser a que fica sóbria. – Rebecca se levantou.  Suspirei. Eu devia ter pedido primeiro...  –Ok, mas não vale roubar na contagem das meninas.  – Lari ameaçou – Vamos lá, meninas! 

Levantamos  a  contragosto  e  fomos  para  a  cozinha.  Lari  arrumou  tudo  rapidamente. Quando percebemos já havia  copos de vinho na nossa frente.  –Eu vou começar. – Lari sentou do meu lado – Eu  nunca matei aula.  Merda! 

Virei o copo.     


–Alice! – Teodora me olhou espantada – Achei que você seria a pura aqui.  –Desculpa decepcionar, baby. – sorri. 

Rebecca anotou quem tinha bebido – eu e Teodora –  e encheu nossos copos. 

–Vamos para o próximo choque da noite. – Maria  sorriu – Eu nunca traí um namorado meu.  –Você estão de brincadeira comigo... – virei mais um  copo.   

–Agora você vai explicar isso. – Lari me olhou curiosa.

–Bem,  eu  não  traí  intencionalmente.  –  suspirei  –  Um  cara  me beijou numa festa que tinha ido sem meu namorado e  ele achou que tinha sido intencional.  –Só você mesmo, Alice... – Maria riu. 

–Ok, vamos continuar. – Lari encheu meu copo – Eu  nunca fui pega colando.  Silêncio. 

–Sério? Nenhuma de vocês? 

–Eu nem colo em provas. – ri.     


–Colei algumas vezes, mas não fui pega. – Maria confessa.  –Eu sou uma mestre em disfarçar minhas colas. –  Teodora sorri. 

–Beleza. – Lari vira o copo – É a vez da Alice. 

Congelei. O que dizer quando seu cérebro começa a  ficar confuso por causa da bebida?  –Eu nunca... – engoli em seco – Eu nunca fiz mais que  dar uns amassos.  –O que?! – as três gritaram juntas. 

–É isso ai! – comecei a rir descontroladamente. 

–Como assim, nunca? – Lari parecia surpresa. 

–Só não aconteceu. – suspirei – Nada demais. 

–Nem com o Nicholas? – Maria perguntou. 

–Não. – desviei o olhar. 

–Por que? – as três falaram junto novamente.     


–Só não  achamos  o  momento,  eu  acho.  –  olhei  para  elas  –  Nem  sei  se  ele  vai  existir.  Temos  pouco  mais  de  um  mês  para  ele  ir  para  Londres  e  as  coisas  não  andam  a  mesma  coisa  nos  últimos  dias.  Ele  é  ótimo,  mas  tem  algo  acontecendo. Algo mudando ele. Isso me assusta.  Elas  ficaram  em  silêncio  por  um  tempo,  mas  logo  depois  Maria  retomou  a  brincadeira.  Depois  de  três  rodadas  eu  acabei  pedindo  para  acabarem  porque  eu  ia  passar  mal  se  bebesse  mais.  Colocamos mais um filme para assistirmos, mas  na  metade  do  filme  todas  acabaram  cochilando  e  resolvemos  ir  dormir.  Antes  de  deitar  chequei  meu  celular  para  ver  se  havia alguma mensagem de Nicholas, mas não encontrei nada.  Suspirei.  –Boa  noite  para  você  também,  Nicholas.  – murmurei  comigo mesma.     


DOZE

Nicholas      


“Cada qual sabe amar a seu modo; O modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.”  – Machado de Assis.     


Deixar Alice  com  suas  amigas  tinha  sido  a  melhor  decisão  naquele  momento.  Eu  não  conseguiria  esconder  minhas  emoções  por  muito  tempo  se  ficasse  perto  dela.  Nos  últimos  dias  tinha  recebido  diversas  ligações  de  Raul  pedindo  mais  dinheiro,  mas eu não cedi. Meu avô percebera que estava  movimento  muito  dinheiro  da  conta  e  como  não  justifiquei  para  que  tinha  tirado  aquela quantia, ele bloqueou meu acesso  as  contas.  Naquela  noite,  pouco  antes  de ir buscar Alice, Raul  me ligara.  –Filho!  –  exclamou  com  o  mesmo  tom  sarcástico  de  sempre – Já conseguiu o que preciso?  –Não.  –  apertei  a  mandíbula  –  O  meu  acesso  as  contas ainda está bloqueado.  –Que  pena...  –  riu  –  Acho  que  vou  ter  que  procurar  seu loirinha então...  –Não! – gritei – Não envolve Alice nisso!     


–Então vamos ter que entrar em um acordo... – propôs.   

–Qualquer coisa. – concordei – Desde que deixe Alice fora disso.  –Termine com ela. – ultimou. 

–O que?! 

–É isso mesmo. Termine com ela. 

–Por que? 

–Você  não  pode  me  dar  mais  dinheiro, filho. A única  coisa  que  posso  tirar  de  você  é  o  seu  bem  mais  valioso.  –  riu  diabolicamente  –  Bem,  acredito  que  ela  seja  seu  bem  valioso  no momento já que você luta tanto para protege-la do sogro.  Suspirei. 

–Tudo bem. Vou terminar com ela. 

–É bom cumprir suas palavras, pois estarei vigiando  você. – desligou.  Depois  de  deixar  Alice  na  casa  de  Larissa  fui  encontrar  os  caras  na  casa  de  Hilton.  Assim  que  cheguei  Dante  me  recebeu  e  fomos  para  os  fundos  onde  havia  um  salão  de  jogos.  Além  dele,  Enzo  e  Lucas  estavam  ali.  Fazia  poucos dias que 


Enzo tinha  assumido  seu  namoro  e  apesar  de  Hilton  e  Rebecca  não  oficializarem,  estava  na  cara  que  os  dois  namoravam.  De alguma forma acabamos formando um grupo  dos  que  namoravam  e  sempre  saíamos  juntos.  “Logo  não  poderei fazer parte do grupo”, pensei comigo mesmo.  –Nicholas! – Hilton me cumprimentou – Achamos  que você não viria mais.  –Desculpa, gente. – tentei sorrir para disfarçar meu  mau humor – Alice acabou me atrasando.  Eles trocaram olhares entre si. 

–O que? – dei de ombros sem entender nada. 

 

–Nada não, ​man​. – Dante riu – Senta aí. Sentei em uma das poltronas em frente a Lucas e do  lado de Enzo.  –Quer beber alguma coisa? – Hilton perguntou indo  até o frigobar – Tem Heineken, Evian, Schweppes...  –Fico com Schweppes. – interrompi.  Hilton me entregou uma latinha e agradeci.  –Quais os planos para hoje? – tentei puxar conversa. 

 


–A gente só vai jogar God of War e conversar, eu acho.  – Lucas disse indiferente. 

–A  verdade  é  que  estamos  doidos  para que a festa do  pijama  acabe  para  gente  voltar  lá  e  buscar  nossas  namoradas.  – Dante brincou.  –Com certeza. – Lucas riu. 

–Eu não estou namorando. – Hilton tentou mentir. 

–Sabemos... – Enzo semicerrou os olhos. 

–É sério gente... 

–Estamos falando sério quando dizemos que  acreditamos em você! – entro na brincadeira. 

–Claro, ​man​! – Dante riu. –Vocês são insuportáveis! – Hilton resmungou –  Preferia estar com a Rebecca. 

Ficamos  por  meio  segundo  segurando  o  riso  até  que  Enzo  foi  o  primeiro  a  gargalhar.  Em  pouco  tempo  todos,  inclusive Hilton, estavam rindo.  –Como vão as coisas com Alice? – Lucas perguntou  minutos depois.     


–Bem. – sorri.

–Nosso amigo aqui é sempre tão vago em suas  respostas... – Enzo suspirou dramaticamente.  –O que? – soltei um riso nervoso – Você esperam que  eu detalhe cada momento que eu passo com ela?  –Não exatamente... – Hilton balançou a cabeça. 

–O que eles querem saber é se você teve algum  progresso com ela, ​man​. – Dante cochichou.  –Ah! 

–Então? – meu amigo esperou minha resposta. 

–Não, gente. – desviei o olhar. 

–Eu sabia! – Enzo riu – Vocês são muito certinhos  para isso.  –Deixa o cara... – Hilton se irritou – Se os dois não  querem é problema deles.  –Não  é que eu não queira. – confessei – Só tem muita  coisa acontecendo e eu disse a Alice que iríamos encontrar um  momento  que  achássemos certo, mas não acho que vai chegar  esse momento.     


–Eu pensava  assim  também.  –  Dante  suspirou  –  Até  alguns dias atrás.  Enzo,  Lucas  e  até  mesmo  Hilton  comemoraram  e  começaram  a  encher  Dante  de  perguntas.  Aproveitei  que não  era  mais  o  centro  da  atenção  e  fui  para  o  jardim  próximo  a  piscina.  Tinha  que  encontrar  um  modo  de  adiar  o  pedido  de  Raul.  Como  terminaria  com  Alice  sem  arrumar  um  motivo  que fosse convincente? Suspirei frustrado e liguei para Raul.  –Tão rápido? – ele riu. 

–Preciso  de  um  mês.  –  ignorei-o  –  Não  posso  terminar do nada com ela.  –E mais um mês vai adiantar alguma coisa? 

–Vai. Posso ir me afastando dela aos poucos – menti. 

–Tudo bem. 

–Sério? 

–Claro!  Posso  ver  como  esse  mês  vai  ser  torturante  para  você.  Saber  que  cada  pequeno  momento  com  ela  é  precioso  e  que  nunca  mais  vocês  vão  ter  isso  de  novo.  Só  espero  que  saiba  valorizar  cada  dia  que  estiver  com  ela,  porque vão ser os últimos.     


Desliguei.

As palavras de Raul não podiam estar mais certas. 

     

Um  dia.  Eu  tinha  que  terminar  com  Alice,  mas  faltando  apenas um dia para o prazo final não tinha como. Ela  organizara uma festa de despedida para mim na casa de Hilton  e  era  para  lá  que  estava  indo  quando  recebi  uma  ligação  de  Raul  me  lembrando  que  no  dia  seguinte  era  o  fim  do  prazo.  Durante  os  primeiros  dias  até  tinha  esquecido  que  cada  momento  que  passava  com  Alice  era  um  dos  últimos.  Deixei  os  dias  passarem  normalmente,  até  que  junho  chegou  e  me  lembrou  que  cada  vez  mais  ficava  sem  tempo.  Comecei  a  ir à  casa  dela  com  mais  frequência  e  sempre planejava algo para o  fim de semana.  O  dia  dos  namorados  não  foi  diferente.  Não  quis  arriscar  ir  a  algum  restaurante  e  só  montei  uma  cesta  piquenique.  Comprei  um  livro  que  sabia  que  ela  iria  adorar,  terminei  a  música  que  vinha  compondo  há  meses  e  fui  para  sua  casa.  Ela  estava  deslumbrante,  como  sempre.  Percebi que  vinha  fazendo  mudanças  em  suas  roupas  aos  poucos,  acrescentando  cores,  vestidos  e  salto  alto.  Eu  a  amava  de  qualquer maneira. 


–Feliz dia dos namorados! – dei um beijo rápido nela e me afastei.  –Feliz dia dos namorados! – percebi seu tom nervoso  – Então, aonde vamos? 

–Na verdade, vamos ficar aqui mesmo.  Entrei em sua casa e ela me seguiu.  –Como assim? – a expressão confusa em seu rosto era  a melhor.  –Não vamos sair, vamos ficar aqui, na sua casa. – fui  para o quintal.  Sabia que Alice iria ficar extremamente chateada, então  tentei arrumar tudo rapidamente antes que ela chegasse.  –Nicholas! – ouvi seu grito minutos depois. 

–Sim? – levantei-me com um sorriso no rosto. 

O  olhar  deslumbrante  em  seu  rosto  era exatamente o  que  eu  queria  provocar.  Ela  observou  cada  pequeno  detalhe  antes de dizer:  –Uau!     


– Bem, eu  esperava  pelo  menos  um  abraço  ou  um  beijo por isso – ri –, mas “uau” está bom.  –Como... 

–Como  fiz  isso?  –  aproximei-me  dela  –  Se  você  não  sabe  tem  uma  coisa  que  inventaram  chamada  supermercado  onde  a  gente  compra  praticamente  tudo  que  precisa  para  um  piquenique.  –Besta. – ela bateu em meu ombro e a puxei pela  cintura.   

–Seu...

–Meu besta. – colocou minhas mãos em seus ombros  – Tô sabendo.   

–Agora que reconhece? Depois de o que? Quatro meses?   

–Três meses, na verdade. – ela me corrigiu.

–Quatro, Alice. – insisti – Eu já era seu desde o dia em  que te vi.  –Não acho que a história é bem assim. – brincou com  uma linha que estava saindo na gola de minha camisa.     


–Nós já  éramos  um  do  outro,  só  fomos  bestas  e  não  aceitamos logo. – segurei seu queixo para olhar em seus olhos.  – Agora podemos começar a nossa noite? 

–Claro Mr. Darcy mandão. – afastou-se. 

–Graças  a  Deus!  A  Lizzy  passou  de  teimosa  para  obediente. – brinquei.  Ela  me  deu  um  tapa no ombro e rimos. Ela se sentou  primeiro  e  pegou  um  dos  cupcakes  que  tinha  feito.  Não  comentei  nada  quando  ela  disse  que  estava  maravilhoso,  apenas  continuei  a  comer  e  conversar  com  ela. Cerca de meia  hora  depois  nós  dois  ficamos  em  silêncio  e  eu  apenas  a  encarei,  gravando  em  minha  mente  cada  pedacinho  de  seu  olhar.  –Por  que  está me olhando assim? – um sorriso tímido  brotou em seu rosto.  –Quero  te  mostrar  uma  coisa.  –  peguei  meu celular e  o fone de ouvido.  –Lá vem... – brincou. 

Coloquei  no  player  de  músicas  na  faixa  “Paixão  Adolescente”  –  a  música  que  tinha  composto  para  ela  e  que  gravara  com  a  ajuda  de  Dante  num  estúdio.  Entreguei  o  celular com o fone plugado para ela. 


–Só ouça essa música.

Ela  assentiu  e  colocou  os  fones.  Fechei  os  olhos  e  comecei  a  murmurar  a  letra  da  canção  enquanto  ela  ouvia  a  gravação: 

  Era um garoto adolescente  Conheceu uma garota que  simplesmente  Mexeu com sua mente  E o fez tão sorridente 

Uma linda garota mas tão  sozinha  Que andava a escrever belas  poesias  Então  Segure a minha mão 

 

Eu só quero que essa distância  Não seja mais do que uma  grandeza     


Então vamos viver dia alegria  para que um Um dia 

nós possamos ter essa De se encontrar   

Todos os dias ele a procurava Ansioso e perdido mas não  encontrava  Gritou  Mas ela não ouviu 

Todas os dias ela só chorava  Querendo seu carinho pois  sentia falta  Mas não  Podia mais sentir 

 

Eu só quero que essa distância  Não seja mais do que uma  grandeza   


Então vamos viver dia alegria  para que um Um dia 

nós possamos ter essa  De se encontrar   

Assim que  abri  os  olhos  encontrei  Alice  chorando.  Ela  já  não  estava  ouvindo  a  música  no  celular,  mas  me  ouvia  cantar  sem nem mesmo estar acompanhado do violão. Ela me  abraçou e continuou a chorar.  –Está tão ruim assim? – brinquei. 

–Não! – ela riu e olhou em meus olhos – Está perfeita!  Tão perfeita que quero te bater! 

–Fique à vontade. – pisquei para ela. 

–Só  fiquei  curiosa  para  saber  porque  você  escreveu  como se já estivesse longe de mim. – desviou o olhar.  –Só  queria  que  você  soubesse  o  quanto eu vou sentir  sua falta. – senti as lágrimas brotarem em meu rosto.  –Que bom que não fui a única a escolher esse tema. –  riu. 


–Como assim?    


–Escrevi um  poema.  –  confessou  –  Meio  que  tem  a  ver  com  sua  música.  Fala  sobre  os  desencontros  que  vamos  passar, mas em como um salvou o outro.  –Eu quero ler. – acariciei sua bochecha. 

Ela levantou-se e rapidamente voltou com um papel.  Sorri ao ver a folha rabiscada e comecei a ler em voz alta: 

O​NDE OS CAMINHOS SE  ENCONTRAM​? 

Existem os desencontros  Existe a dor  Existem os arrastros  Existe o frio calor 

Existem as mágoas  Existe o rio  Existem as águas  De um perdão onde sorrio 

Existem os encontros  De fácil chegada 


O caminho é repleto de monstros  Mas belo como a alvorada 

Existe o amar  Existe o amor  Que de maneira singular  Nos desencontrou da dor  Engoli  o  choro. Ela sempre tinha as palavras perfeitas  em  seus  poemas.  Devolvo  o papel e vejo que ela também está  sem saber o que falar.  –Que  tal  isso?  –  quebrei  o  silêncio  –  Noite  de  lua  cheia.  Piquenique  no  seu  quintal.  Música  e  poemas.  Perfeito  ne?  –Quase. 

–Qual o problema? 

–A  lua  cheia.  Era  algo  que nós – desviou o olhar–, eu  e você sabe quem, tínhamos.  –Ok.  Então  vamos  esquecer  que  essa  lua  está  cheia.  Imagine  ela  na  fase  Nova.  Sem  trocadilhos  tá?  –  nós  rimos  –  A lua nova vai ser perfeita para você se lembrar de mim.   


–Como assim?

–Você  sabe.  –  enlacei  sua  cintura  e  sussurrei:  –  Eu  sou sexy e misterioso como a lua.  –Fala  sério  Nicholas  Augusto!  –  ela  me  deu  um  tapa  de brincadeira e eu ri.  –Ok, você apelou para o nome do meio! – soltei-a –  Alice Marta! 

Não  desviei  do  seu  tapa.  Aproveitei  e  a  puxei  pela  cintura  beijando-a  profundamente,  como  queria  desde  que  chegara  ali.  Não  quero  a  afastar de perto de mim, pois sei que  esse  é  um  dos  meus  últimos  momentos  ao  seu  lado.  Ficamos  ali  por  instantes.  Os  corpos  colados.  De  olhos  fechados.  Apenas a respiração entre nós.  –A lua nova significa que quando eu for embora... –  olhei para Alice. 

–Não  diga  for  embora.  –  abriu  os olhos – Você só vai  pra Londres.  –Quando  eu  for  pra  Londres  –  sorri  –,  eu  serei  como  a  lua  nova.  Você  não  vai  poder  ver,  mas  sabe  que ela está em  algum  lugar.  –  segurei  seu  rosto  com  uma  das  mãos  –  E  acredite  – beijei a ponta de seu nariz –, vou estar pensando em você.   


–Eu acredito  em  você...  –  acariciou  meu  rosto  com  a  ponta dos dedos.  –Mas? 

–Por que haveria um “mas”? 

–Porque sempre existe se tratando de você. – ri –  Diga. 

–Nada.  –  desviou  o  olhar  –  Eu  vou  pensar  em  você  também.  –Que  bom.  –  peguei  o  embrulho  dentro  da  cesta  –  Seu presente.  Ela  sabia  que  era  um  livro  assim  que  pegou  o  presente  em  suas  mãos.  Mesmo  tendo  ganhado  caixas  cheias  de  livros  em  seu aniversário, ela sempre tinha o mesmo brilho  nos  olhos  quando  recebia  um  novo.  Apoiei-me  em  um  cotovelo  para  observa-la  enquanto  abria  o  embrulho.  Assim  que ela viu a capa de Orgulho e Preconceito eu disse:  –“A  distância  não  é  nada  quando  se  tem  um  bom  motivo.”  Ela  me  olhou  e  vi  em  seus  olhos  que  ela  estava  encantada  com  o  presente.  Ela  se  jogou  sobre  mim  e  me  abraçou.  Fiquei  surpreso  a  princípio,  mas  depois  comecei  a  rir. 


–Você leu?

–Claro que li. Ou acha que achei essa frase no Google  e decorei?  –Segunda opção? – levantou uma sobrancelha. 

–Sério? 

–É. Porque essa frase foi dita pela Elizabeth sobre sua  irmã. Não tem nada a ver com...  –Com  Darcy?  –  interrompi  – Eu sei, só não acho que  o  motivo  que  ela  queria  dizer  naquela  hora  era  a  irmã.  Ela  já  sentia  algo  pelo  Darcy,  mas  só  não  sabia  reconhecer,  assim  como  você.  Então  acredito  que  o  motivo  era ele sim. Ela não  me engana com essa de ódio pelo carinha orgulhoso.  –Assim como eu? 

–Você sabia que gostava de mim, mas ficava fugindo.  – peguei um mecha do seu cabelo e a enrolei no dedo. 

–E você? 

–Eu o que? – sorri presunçosamente.   

–Você também fugiu dos seus sentimentos? – desviou o olhar.     


–Não. –  puxei  seu  queixo  para  que  ela  olhasse  para  mim  –  Eu  sempre  soube  o  que  sentia,  só  queria  garantir  que  não fosse estragar sua vida com meus problemas.  –Você não estragou nada. Você foi a salvação de tudo  que estava perdendo na minha vida.  A  frase  de  Alice  ficou  rondando  por  minha  mente  durante  toda semana. Tentei manter a maior distância possível  depois  daquele  dia. Quase caí na besteira de dizer “eu te amo”  a  ela,  mas lembrei que meu prazo era curto e não quis estragar  o  significado  daquelas  palavras  dias  depois.  Cheguei  a casa de  Hilton com uma hora de atraso. Não queria demorar muito na  festa,  pois  tornaria  mais  difícil  o  término  no  dia  seguinte.  Todo  mundo  tinha  que  ver  como  estava  distante  dela  para  quando  tudo  acabasse  não  sobrasse  dúvidas  que  eu  tinha  escolhido aquilo.  Encontrei  Alice  na  piscina.  As  duas  turmas  estavam  ali,  alguns  nadavam  e  outros  conversavam  na  beira.  Hilton  ainda  chamara alguns amigos de outras escolas. Pude observar  minha  loirinha  de  longe  sem  que  ela  me  visse  por  algum  tempo.  Feliz.  Era  assim  que  ela  estava.  As  amigas  dela  estavam  conversando  e  rindo  com  ela.  Como  eu  poderia  não  querer  ser  como  elas  e  fazer  Alice  rir todos os dias? Como eu  conseguiria  ficar  como  estava  naquele  momento,  vendo-a  ser  feliz enquanto eu queria 


ser o motivo de sua felicidade? Tinha que terminar com ela. Não passaria daquela noite.  –Seu namorado chegou, Alice! – Enzo gritou. 

Assim  que  ela  olhou  para  mim  senti  meu  coração  pesar.  Seu  sorriso  quase  me  fez  voltar  atrás,  mas  fui  mais  forte.  Acenei sem expressar nenhum entusiasmo. Alice saiu da  piscina e se enrolou em uma toalha.  –Oi. – ela se aproximou. – Que bom que veio.   

Continuei a encará-la, tentando achar as palavras certas.   

–Bem, acho  que  fiquei  paranoica  em pensar que você  não  viria.  –  desviou  o  olhar  –  É  sua  festa  de  despedida,  claro  que você viria. Diz alguma coisa.  Silêncio. 

–Nicholas,  por  favor.  –  implorou  novamente,  voltando a me encarar – Preciso que diga alguma coisa.  Eu  olhei  em  seus  olhos,  aqueles  mesmos  cristalinos  olhos  que  eu  amava.  Eles  transmitiam  as  emoções  de  Alice  com  cem  por  cento  de  clareza.  Eu  amava  como  ela  tinha  o  olhar  mais  determinado  que  já  havia  visto.  Esses  olhos  só  demonstravam tristeza e insegurança. Por minha culpa. Eu   


tinha causado  aquilo.  As  lágrimas  que  tentava  segurar  eram  por  minha  causa.  Já  não  bastava  suas  cicatrizes  sentimentais,  eu  tinha  que  causar  mais  danos?  Se  não  parasse  ali,  ela  se  machucaria mais, não só sentimentalmente.  –Você quer saber? – ignorei a dor que senti antes de  dizer as palavras e transformei-as em raiva – Eu quero  terminar!  Percebi  que  todos  pararam suas conversas depois que  gritei.  Alice  me  olhou  horrorizada.  Seus  olhos  deixaram  as  lágrimas  caírem.  Senti  vontade  de  dizer  que  era  apenas  uma  brincadeira, mas me segurei. Era melhor deixar uma marca em  seu coração que vê-la morta. Eu a estava salvando.  –O que? – sua voz era quase inaudível. 

–Você ouviu. – tentei ser cínico – Eu estou  terminando com você.  –Por que? – ela gritou e começou a soluçar. 

–Só estou terminando. – virei-me. 

Não suportaria vê-la se quebrando por minha causa.  Eu só pensava em mantê-la a salvo de Raul. 

–Deixa eu adivinhar. – ouvi ela fungar – Você não me  ama mais?   


Fechei os  olhos  sentindo  o  peso  de  suas  palavras  me  cortarem como adagas afiadas.  –Ou  melhor,  você  nunca  amou.  –  riu  e  soluçou  –  Porque  você  nunca  disse  isso,  Nicholas.  Que  tipo  de  pessoa  amaria outra e jamais diria isso em voz alta?  Permaneci em silêncio. 

–Diga  alguma  coisa.  –  sua  voz  tremeu  –  Ou  melhor,  não  diga  nada.  Eu sabia que você ia me magoar, Nicholas. No  fundo  existia  uma  parte  de  mim  que  sabia  que  você  seria  apenas  como  ele  e  acabaria  comigo  como ele fez. E adivinha?  Eu estava certa!  Voltei a olhar para ela. 

–Não tem o direito de dizer isso. – murmurei. 

–Eu  não  tenho  o  direito?  –  gritou  – Como assim não  tenho  o  maldito  direito  de  falar  a  verdade  sobre  você,  seu  idiota?  Você  passa  meses  namorando  comigo,  fazendo  declarações  enganosas  para  chegar  no  meio  da  sua  festa  de  despedida  e  terminar  comigo  na  frente  de  todo  mundo  e  daí  eu não tenho o direito? Ah vá se ferrar, Nicholas!  –Eu  já  comecei  a  me  ferrar  desde  o  começo  desse  relacionamento. Sabia que não ia dar em nada com você.     


–O que quer dizer com isso?

–Eu  quero dizer – fiquei a centímetros de seu rosto –,  Alice,  você  não  soube  me  satisfazer  do  jeito  que  queria.  Sabe  come é, não passou de uns meros beijinhos sem graça.  Instantes depois senti o tapa estalado em meu rosto. 

–Você  é  exatamente  igual  a  ele.  Fico  feliz  que  você  tenha  terminado comigo antes que começasse a me bater – ela  me intimidou – ou chegasse ao ponto de me matar.  Engoli  em  seco  e  saí.  Não  consegui  dirigir  por  muito  tempo.  Encostei  a  moto  e  desabei  na  calçada.  As  lágrimas  vieram  junto  com  a  voz  de Alice em minha mente. Dentro de  mim  sabia  que  tinha  feito  o  certo,  mas  a  lembrança  dela  não  me confortava. Ainda sentia a dor de sua comparação em meu  peito.  Só  torci  para  os  dias  passarem  rapidamente.  Quando  fosse  para  Londres  conseguiria  manter  a  vontade  de  voltar  atrás.  –É  para  o  bem  dela.  –  assegurei  a  mim  mesmo  –  Só  acredite nisso.  Eu não acreditava.     


TREZE Alice 


“E eu  me preocupei tanto em não partir corações, que no final quem saiu  despedaçada  fui  eu.  E  quando  a  noite  chegou  e meu coração ficou pesado  eu  pensei  em  você  e  pensei  em  todo  esse  sentimento  louco,  porque  é  doloroso saber que eu te perdi quando você me tinha tão fácil.”  – Kamilla Mendes.     


–Você está  bem?  –  Dante perguntou assim que Enzo  estacionou o carro.  –Não, mas vou ficar. – apertei sua mão de leve –  Obrigada por tudo. 

–Ah  imagina!  Quando  precisar  de  alguém  para  te  abraçar  enquanto  você  chorar  ao  ponto  de  ficar  com  o  nariz  escorrendo  e  limpar  na  camisa  da  pessoa,  é  só  me  chamar.  –  brincou.  –Ok. – sorri de leve. 

Eu me despedi de Enzo e saí do carro. 

–Só descansa e me liga se precisar de alguma coisa, ok?  – Dante me acompanhou até o portão. 

–Ok. – abracei-o – Obrigada. De novo. 

Nos  despedimos  e  ele  voltou  para o carro. Assim que  entrei  quase  tropecei  em  Hat.  Ele  miou  e  peguei-o  no  colo.  Novamente não consegui segurar o choro.  –Ele  terminou  comigo,  Hat.  –  sussurrei  –  Ele  partiu  meu coração.   


Benhur está online.

       

Alice: ​Preciso conversar com você. Benhur: ​O que aconteceu?  Alice: ​Posso te ligar?  Benhur: ​Pode.  –Alô? – a voz grave dele soou do outro lado. 

–Oi. – funguei. 

–O que aconteceu, maninha? 

–Ele... – solucei – Ele terminou comigo, Ben. 

–O que?! 

Não consegui responder. As lágrimas caiam sem parar  e os soluços me impediam de falar.  –Calma, Alice. – Ben tentou me consolar – Só tenta se  acalmar e me conta o que aconteceu.  Respirei fundo, enxuguei as lágrimas e comecei a  narrar os acontecimentos dos últimos dias.     


–Como assim  aquele  babaca  terminou  com  você?  –  Ben  se  irritou  –  Ainda  teve  a  coragem  de  terminar  na  frente  de  todo  mundo  no  meio  da  festa  que  você  preparou para ele.  Que cretino!  –Pois é. – murmurei. 

–Nem vou perguntar como você está porque sei que  tá um lixo.  –Obrigado por me animar hein? – sorri. 

–Te arranquei um sorriso, só agradeça. 

–Realmente você me conhece. 

–Então,  minha  mãe falou hoje comigo que vou poder  ir  para  Palmas  nas  férias.  O  que  você  quer  que  eu  leve  para  gente torturar o Nicholas?  Rimos. 

–A única coisa que quero agora é superar isso rápido.  –

suspirei – Demorou pouco tempo para que eu

superasse o Pedro... –Uns meses, você quis dizer. – ele interrompeu. 

–... mas acho que vou demorar para superar ele. –  continuei.     


–Lice, Lice...  – Ben suspirou dramaticamente – Assim  que  eu  chegar  aí  você  vai  sair  comigo  todos  os  dias  até  que  você delete o nome Nicholas da sua mente.  –Você vai passar o mês aqui ou o ano? – brinquei. 

–Muito engraçada. – zombou. 

–Só espero que as férias cheguem logo. – confessei –  Não sei como vou sobreviver esses dias. 

–Você vai ficar bem. – assegurou. 

Não  respondi.  Conversamos  por  mais  uma  hora  sobre  assuntos  que  não  levassem  a  questão  do  término,  mas  mesmo  assim  meus  pensamentos  voltaram  a  ele.  Depois  que  desliguei,  fui  para  o  jardim  e  me  surpreendi  ao  ver que estava  chovendo.  Hat  veio  para  perto  de  mim  e  sentei-me  no  chão  para  que  ele  subisse  em  meu  colo.  Fiquei  durante  minutos  olhando  a  chuva  e  me  esforçando  para  esquecer  aquele  dia.  Eram  quase  duas da manhã quando subi para meu quarto e só  consegui  dormir  quando  os  primeiros  raios  de  sol  entraram  pela janela. 

       

“Não se preocupe. Você consegue encarar ele”, pensei ao chegar no colégio na segunda-feira. O domingo tinha sido 


monótono e  cheio  de  ligações  das  meninas  –  e  do  Dante  –  perguntando  se  estava  bem  e  precisava  de  alguma  coisa.  Respondi  a  todos  no  automático,  pois  nenhum  deles  poderia  falar  algo  que  amenizasse o que sentia. Encontrei Ian no pátio  do colégio e ele me levou até um banco.  –Fiquei  preocupado  com  você.  –  disse  assim que nos  sentamos  –  Estava  na  festa  sábado  e  vi  tudo.  Não  quis  ligar  ou  aparecer  na  sua  casa  porque  fiquei  com  medo  de  que  pensasse  que  eu  estava  querendo  me  aproximar  só  pela  situação.  –Nem  pensei  nisso.  –  sorri  –  Eu  acredito  que  você  ainda sabe ser meu amigo nos momentos certos.  –Bom  que  sabe.  –  ele  retribuiu  o  sorriso  e  pegou  minha  mão  –  Então,  o  que  posso  fazer  por  você?  Apenas  como amigo.  –Você  poderia  me  acompanhar  numa  viagem  nesse  fim  de  semana.  –  desviei  o olhar – É o casamento do meu pai  e eu seria madrinha dele com...  –Com  ele.  –  completou  com  um  suspiro  –  Gostaria  muito,  mas  esse  fim  de  semana  tem  o  aniversário  de  casamento dos meus pais e não posso faltar.  –Droga, Ian! Estava contando com você, cara! –  brinquei.   


–Perdoe-me pelo descontentamento, senhorita. – levou minha mão aos lábios. 

Encontrei o olhar de Ian e começamos a rir. 

–O que está acontecendo aqui? – ouvi a voz que quis  ouvir durante todo fim de semana.  Olhei para cima e encontrei Nicholas com um olhar  furioso em seu rosto.  –Você vai me responder? – ele levantou uma das  sobrancelhas.  –Sério,  Nicholas?  –  ri  cinicamente  –  Você  acha  mesmo  que  vai  chegar  aqui pedindo satisfação do que eu faço  e eu vou responder a você?  –Eu só pensei... 

–Você pensou errado. – cruzei os braços e me levantei  –

Só se lembre que quem terminou foi você e a partir do 

momento que  você  quebrou  o  meu  coração  da  pior  forma  possível  perdeu  o  direito  de  receber  qualquer  resposta  minha  além de grosseria e indiferença.  Ele ficou em silêncio, com a mandíbula contraída. 

–Ian, vamos.     


Peguei minha  mochila  e  subi  para  sala de mãos dadas  para  Ian.  Ele  não  disse  mais  nada  assim  que  chegamos  na  porta  e  soltei  a  mão  dele.  Quando  professor  Aguinaldo  chegou  e  não  vi  nenhum  sinal  de  Nicholas  minha  raiva  se  dissipou.  No  lugar  dela  veio  o  vazio  e  com  ele  a  tristeza.  Durante  toda  semana  tive esperança de vê-lo novamente, mas  ele  não  apareceu.  Ian conversou comigo todos os dias, apenas  como  amigo.  Na  sexta-feira,  Dante  me  buscou  em  casa  e  me  levou  ao  aeroporto.  No  caminho,  após  minutos  em  silêncio,  ele começou a conversar:  –Você conversou com ele? 

–Não. – suspirei. 

–Ele não te ligou? 

–Não. 

–Eu vou socar a cara dele! 

–NÃO! – gritei. 

–Não acredito nisso. – Dante riu. 

–O que? 

–Você ainda gosta dele. – ele me olhou por um  instante  – Mesmo depois de tudo que ele fez e disse.   


–Não é tão fácil de esquecer, Dante. – murmurei.

–Eu sei. – respondeu em um tom triste. 

Assim que chegamos ao aeroporto ele me ajudou com  minha  mala  e  nos  despedimos  depois  que  fiz  o  check-in.  Dentro  do  avião  tentei  manter  minha  mente  lendo  e ouvindo  música,  mas  nada  resolveu.  Pelo  menos  eu  havia  parado  de  chorar  quando  pensava  no  que  tinha  acontecido.  Depois  da  conexão  em  Brasília,  consegui  pegar  no  sono  e  só  acordei  ao  chegar  em  Florianópolis.  Fui  de  táxi  até  a  rodoviária  onde  peguei  um  ônibus  para  a cidade que morei durante quase toda  minha vida.  Quando  dizia  na  minha  cidade  natal  ou  até  mesmo  em  Palmas  que  havia  morado  anos  em  Santa  Catarina,  todos  diziam  que  era  um  bom  lugar,  mas essa não era a realidade da  pequena  cidade  do  interior  onde  vivi.  É  claro  que  a  grande  maioria  das  cidades  do  sul  são  organizadas  e  muito  lindas,  só  que  tive  a  incrível  sorte  de  morar  em  uma  exceção  a  essa  regra.  Era  quase  de  manhã  quando cheguei. Preferi não avisar  a  ninguém  que  chegaria  um  dia  antes  e  que  ficaria  em  um  hotel.  Estava  ali  apenas  para  cumprir  meu  papel  de  madrinha  –  com  quem  quer  que  fosse  o  par  que  meu  pai  arranjara  de  última hora para mim – e voltar para minha vida.     


O hotel  onde  me  hospedei  era  perto  de  onde  a  cerimônia  seria  feita  e  só  precisaria  estar  lá  às  cinco  da  tarde.  Tomei um banho demorado e fui me deitar, mas não consegui  concentrar  meus  pensamentos  em  algo  que  não  me  deixasse  preocupada.  Por  volta  das  oito  da  manhã  resolvi  trocar  meu  pijama  por  uma  roupa  e  saí  pelas  ruas.  Acabei  encontrando  a  cafeteria  que  ficava  ao  lado  da  minha  livraria  preferida  e  entrei.  –Alice?  –  alguém  me  chamou  quando  estava  passando pelas mesas.  Virei-me e quase não acreditei no que via a minha  frente.   

–Meu Deus, não acredito! – abracei-o – Caleb!

–Eu que não acredito. – ele se afastou para me  observar – Você está muito diferente.  –E você continua o mesmo. – sorri. 

Ele  sorriu  um  pouco  envergonhado.  Foi  então  que  percebi  que  ele  não  estava  sozinho.  Ao  seu  lado  havia  uma  garota  que  aparentava  ser  um  pouco  mais  nova  que  ele.  Ela  tinha olhos verdes e cabelos ruivos.  –É... – Caleb pigarreou – Essa é Cristina, Alice. Minha  namorada. 


Abri a  boca para cumprimenta-la, mas as palavras não  vieram.  Caleb  e  eu  havíamos  sido  amigos  por  anos  até  que  Pedro  entrara  na  minha  vida  e  depois  que  eu  já  estava  apaixonada  por  ele,  meu  amigo  decidiu que era a melhor hora  de  me  contar que tinha gostado de mim durante anos. Era um  choque e tanto ver que ele superara seu “crush” em mim.  –É  tão  bom te conhecer, Alice. – Cristina me abraçou  enquanto eu ainda estava paralisada como uma estátua.  –É... – consegui forçar um sorriso. 

Afastei-me  dela  e  olhei  para  meu  amigo  que  estava  rindo.  Provavelmente  ele  tinha  notado  que  aquilo  tinha  sido  extremamente embaraçoso para mim.  –Bem,  adoraria  ficar  conversando  com  vocês, mas eu  tenho  que  tomar  café  e voltar para o hotel. – desviei o olhar –  Hoje é o...  –Casamento do seu pai. – ele interrompeu – Eu sei.  Ele me chamou para ser seu par de última hora. 

–Sério? – encarei-o novamente. 

–Sim.  –  Cristina  segurou  o  braço  de  Caleb  –  Eu  já  disse  a  ele  que  por  mim  tudo  bem,  desde  que  ele  seja  meu  durante a festa.     


–Não se  preocupe.  Vou  sair  assim  que  a  cerimônia  terminar. – assegurei a ela.  –Então...  –  Caleb  olhou  para  seus  pés,  pela  primeira  vez demonstrando desconforto com tudo aquilo.  –Vou  deixar  vocês  terminarem  de  tomar  o  café  da  manhã. – forcei um sorriso – Nos vemos mais tarde.  Não  esperei  pela  resposta  dos  dois,  apenas  me virei e  fui  para  o  balcão  fazer  meu  pedido. Levei meu café da manhã  para  o  hotel para não correr o risco de encontrar mais pessoas  e  passar  por  momentos  embaraçosos.  Consegui  tirar  um  cochilo  por  volta  das  dez  da  manhã  que  se  estendeu  até  às  duas  da  tarde.  Não  demorei  muito para arrumar meu cabelo e  fazer  a  maquiagem.  Meia  hora  antes  do  previsto  já  estava  saindo  do  hotel  para  a  chácara onde aconteceria o casamento.  O  vestido  lilás  era  grande  o  bastante  para  cobrir  minhas  sapatilhas.  Como  grande  parte  do  local  era  gramado,  escolhi  não arriscar com um salto.  –Olha se não é minha neta favorita! 

Era  impossível  não  reconhecer  a  voz  de  vovó  Alice.  Junto a ela estava o vovô Benjamim, vovó Marta e vovô João  –

pais do meu pai. Corri para abraça-los. Fazia um bom

tempo que não encontrava com todos eles.  


–Vó, que bom ver a senhora! – sorri para vovó Alice.

–É bom ver você também, minha xará. – apertou  minhas bochechas.  –E  o  que  vocês  fazem  aqui?  –  franzi  o cenho – Quer  dizer,  é  ótimo  ver  vocês,  mas  não  esperava  que  viessem  ao  casamento do meu pai.  –Bem, nem nós querida. – vovô Benjamim suspirou –  Só que você sabe como sua mãe é. 

–Ela veio?! – quase gritei. 

–Sim. – vovó Marta concordou. – Agora ela está  ajudando Elena com os últimos retoques da maquiagem.  –Ninguém ia me contar isso? – coloquei as mãos nos  quadris.   

–Acredite se  quiser,  filha.  –  vovô  João  segurou  meu  ombro – Estamos quase tão chocados quanto você.  Rimos.  De  braços  dados  com  minhas  duas  avós  eu  caminhei  até  a  fila onde os casais de padrinhos estavam. Meus  avós  maternos  foram  se  sentar  e  os  paternos se posicionaram  na  frente  da  fila.  Enquanto  esperava Caleb chegar observei os  convidados  da  festa.  Toda  a  família  do  meu  pai  estava  ali,  desde  as  tias  mais  distantes  até  minhas  primas  mais  novas.  Instantes 


antes de Caleb chegar com sua família encontrei Roberto e Cristina Cavalcante. Os pais de Pedro.  –Olá madrinha mais linda. – Caleb deu um beijo em  minha bochecha.  –Olá. – sorri envergonhada. 

–Tudo bem? – seu entusiasmo habitual me acalmou  um pouco.  –Não muito. – apontei com o queixo para onde os  Cavalcante estavam.  Caleb olhou para trás. 

–Ah isso. – desviou o olhar – Você não sabia que eles  vinham, não é?  –Nem me lembrei. – suspirei. 

–Calma. – ele segurou minhas mãos – Se ele vier a  festa eu prometo que vou mantê-lo bem longe de você.  Sorri. 

–Quase me esqueci de como é bom ter meu melhor  amigo por perto.     


A cerimônia  foi  mais  rápida  que  imaginara.  Minha  mãe  realmente  estava  ali. Ela parecia estar em um clima muito  amigável  com  Elena.  As duas deviam se conhecer, pois jamais  ficariam  tão  à  vontade  uma  com  a  outra  se  já  não  tivessem  uma  amizade.  Diferente  do  planejado,  acabei  ficando  para  a  festa.  Pedro  realmente  tinha  ido  ao  casamento.  Ele  chegou  junto  com  sua  irmã,  Isadora, instantes depois que Elena havia  entrado.  Tive  que  passar  todo  casamento  olhando  para  o  chão, pois sentia que ele estava me encarando.  Cristina  se  apoderou  de  Caleb assim que o casamento  terminou.  Sem  querer  ficar  rondando  pela  festa  ou  arriscar  ir  para  a  pista  de dança e acabar encontrando com Pedro, acabei  indo  para  a  mesa  dos  meus  avós.  Meu  pensamento  eventualmente  acabava  indo  para  Nicholas.  Imaginava  em  como  seria  incrível  estar  ali  com  ele,  apresenta-lo  aos  meus  avós,  ter  um  par  para  ir  até a pista de dança e não se importar  em  como  os  pés  doeriam  no  dia  seguinte,  pois  o  importante  era que ele estava ali comigo.  Suspirei. 

–Tudo  bem,  meu  amor?  –  vovó  Alice  perguntou  apenas para que eu ouvisse.     


–Mais ou menos, vó. – peguei sua mão.

–Tem um rapaz no meio desse suspiro, não tem? 

–A senhora sempre acerta. – ri. 

–Mas é claro! Sou sua vó. Agora me conta o que  aconteceu.  –Não é tão simples. – desviei o olhar – Ele terminou  comigo de uma forma horrível e ainda gosto dele.  –Não  se  preocupe.  –  ela  me  abraçou  –  Ou  você  vai  esquecer  esse  idiota  ou  ele  vai  perceber  como  foi  tolo  por  terminar  com  você.  Só  não  deixe  de  curtir  sua  vida  por  um  rapaz.  Você  basta  para  si  mesma.  Ele  é  apenas  um  complemento,  um  acessório  que  deixa  a  vida  mais  bonita  e  divertida.  –Obrigada, vovó. 

Saí  da  mesa  e  fui  procurar  Caleb  na  pista  de  dança.  Assim  que  me  viu  ele  cochichou  algo no ouvido de Cristina e  veio me encontrar.  –A idosa saiu da mesa. – ele me puxou pela cintura e  começamos a dançar.     


–Eu estava na mesa dos idosos. Era meu dever seguir o ritmo deles. – brinquei.  –Claro. – sorriu. 

Ficamos 

nos

olhando

fixamente

enquanto

dançávamos até que ele aproximou seus lábios do meu ouvido  e disse:  –Fiquei sonhando com um momento assim por anos. 

–Caleb, sua namorada... 

–Cristina foi minha última tentativa, Alice. – confessou  –

Depois que  você  foi  embora  eu  quis  tentar  esquecer 

você de  uma vez por todas. Foi aí que ela apareceu. Achei que  estava  bem  e  tinha  superado,  mas  foi só te ver hoje de manhã  que percebi a verdade.  Ele se afastou para olhar em meus olhos. 

–A verdade, Alice, é que eu ainda amo você. 

–Caleb... 

–Não  importa.  –  acariciou  minha  bochecha  –  Não  importa  que  você  ainda  não  consiga  retribuir.  Eu  vou  continuar esperando.  –Mesmo que eu tenha outra pessoa?     


–Até onde sei ele foi idiota o bastante para terminar com você. Uma hora ou outra você esquece.  Fiquei em silêncio.   

–Espere aqui. – Caleb me soltou – Preciso fazer uma coisa.   

Observei enquanto  ele  ia  até  Cristina.  Não  tinha  dúvidas  de  que  ia  terminar  com  ela.  Fiquei  parada  na pista de  dança  até  que  duas  mãos  seguraram  minha  cintura  por  trás.  Ao me virar encontrei Pedro rindo.  –Só vou pedir uma vez. – disse entredentes – Solta. 

–Alice... – puxou-me para mais perto – Vai negar uma  dança ao seu velho amigo?  –Amigo? – levantei as sobrancelhas. 

–Qual é... Não vai querer fazer cena no casamento do  seu pai, vai?  Continuei a fuzila-lo com os olhos. 

–Só uma dança. – pediu.  Suspirei.  –Ok.     


Coloquei as mãos em seus ombros e começamos a dançar.   

–Então... – o riso irônico ainda estava em seu rosto – Ouvi dizer que o príncipe encantado deu no pé. 

–Não é da sua conta. – pisei no seu pé de propósito. 

–Alice... Não machuca o coleguinha! – zombou – Vou  contar para sua mãe, hein?  –Ela vai dizer que devia era te dar um murro. 

–Sempre  carinhosas...  –  riu  –  Confesso  que  fiquei  triste  quando  soube  que  seu  namorado  tinha  terminado  com  você. Queria conhecer o cara e dar uns conselhos para ele.  –Tipo o que? Como ser um controlador de cada  respiração da sua namorada?  –Você  fica  mais  linda  quando  está  brava  comigo.  –  mudou  de  assunto  –  Estive  pensando,  agora  que  o  príncipe  saiu da jogada, você poderia aceitar minha ideia.  –Que ideia? 

–É simples. Apenas um beijo, é só o que quero. 

–Você realmente não tem juízo...     


–É só  para  ver se você sente alguma coisa por mim. –  interrompeu  –  Prometo  que  se  você  me  der  esse  beijo  eu  te  deixo em paz.  –Sem telefonemas ou mensagens?  Ele concordou.  –Ok. 

Puxei-o  pela  mão  até  que  estivéssemos  longe  o  bastante  da  festa.  Já  era  noite  e  a  lua  estava escondida em sua  fase  nova.  Quase  sorri  ao  lembrar  do  que  Nicholas  havia  me  dito  dias  antes.  Estava  com  meu  pensamento  nele  quando  Pedro  me  beijou.  Era  quase  como  se  cada  pequena  partícula  minha  o  rejeitasse.  Não  que  ele  beijasse  mal,  mas  ele...  Ele só  não era Nicholas. Empurrei-o.  –Então?  –Não me ligue nem mande mensagem mais. – ordenei.  Não consegui voltar a festa. Precisava ficar sozinha,  por  isso  fui  para  o  hotel.  Fiquei  durante  quase  uma  hora  no  banho  apenas  pensando  em  como  estava  ferrada.  Eu  amava  Nicholas.  Cada  pequena  célula  do  meu  corpo pedia para tê-lo  por perto. Naquela noite eu chorei como nunca tinha chorado     


na vida,  pois  percebi  que  eu  o  amava  até  mesmo  quando  ele  machucava meus sentimentos. Jamais conseguiria esquece-lo. 

  O  domingo  tinha  passado  rápido.  Acordei às onze da  manhã  e  almocei  na  casa de vovó Marta. Logo depois fui para  a  rodoviária.  O  voo  de  volta  era  um  pouco  mais  demorado,  pois  faria  duas  conexões.  Mandei  mensagem  para  Dante  avisando  que  ele  não  precisaria  me  buscar,  pois  pegaria  um  táxi.  Assim  que  cheguei  no  aeroporto  senti  meu  coração  pesar.  Meu  impulso  era  de  ir diretamente a casa de Nicholas e  gritar que eu  o  amava,  mas  mantive  minha  sanidade.  Após  pegar  minha  mala,  liguei  meu  celular.  Tinha  dezenas  de  mensagens,  mas  uma em questão me desestabilizou.  Preciso encontrá-la. É importante.  Venha até o terraço hoje, assim que  chegar de viagem.  Nicholas  Sorri.  Era um sinal.   

Dentro do  táxi  liguei  para  Dante  e  contei  da  mensagem  que  recebera.  Ele  não  gostou  muito  da  minha  atitude,  mas  torceu para que tudo ficasse bem. Desliguei ainda  com  um  sorriso  no  rosto.  “Vai  dar  tudo  certo.  Você  vão  se 


acertar”,    


pensei comigo  mesma.  O  táxi  parou  na  minha  casa e joguei o  dinheiro  no  banco,  sem  me  importar  com  o  troco.  Deixei  minha  mala  na  sala  e  ignorei  o  miado  de  Hat.  Caminhei  apressadamente  para  o  colégio.  Parei  no  portão  lateral  e  respirei  fundo.  Estava  prestes  a  abri-lo  quando  senti  uma  pancada na cabeça.  E tudo ficou preto, como se estivesse caindo num  sono profundo.     


CATORZE

Nicholas      


“Não corrigir nossas falhas é o mesmo que cometer novos erros.”

– Confúcio     


Faltava menos  de  uma  semana  para  minha  partida.  Alice  provavelmente  estava  em  Santa  Catarina  para  o  casamento  do  pai  naquele  fim  de  semana.  Depois  de  ter  ido  ao  colégio  na  segunda-feira,  achei  melhor  não  ir  durante  aquelas  duas  semanas.  Já  estava  quase  no  final  do  semestre,  não  haveria  nenhuma  prova  e  evitaria  ter  outro  ataque  de  ciúmes.  Ver  Alice  com  Ian  tinha  acabado  com  todo  meu  controle.  Pelo  menos  o  isolamento  do  mundo  naquela  semana  tinha  rendido  uma  boa  música.  Sabia  que  jamais  iria  cantá-la  para  Alice,  mas  mesmo  assim  eu  a  terminei.  Minha esperança  era  de  que um dia, quando seguisse minha carreira, ela ouvisse  a  música  por  acaso  –  tocada  no  rádio  ou  recebesse  uma  indicação  de  uma  amiga  –  e  então  se  lembrasse  de  mim.  Talvez  nesse  ponto  ela  já  teria  esquecido  de  mim  e  não  me  amasse,  mas  eu  ainda  a  amaria.  Com  cada  pedaço  do  meu  coração,  cada  letra  e  cada  acorde  do  meu  violão,  eu  amaria  Alice.  Estava  tocando  a  música  novamente  e  ajeitando  as  imperfeições  quando  Ayra  entrou  no  quarto.  Ela  tinha  ficado 


indiferente a mim durante toda semana e não tinha    


“denunciado” ao  meu  avô  que  não  estava  indo  a  aula  ou  fazendo  todas  as  refeições  regularmente.  Apesar  de  nossas  desavenças, acreditava que poderíamos ser amigos um dia.  –Você realmente está empenhado em produzir  músicas, não é? – ela se encostou na porta.  –Sim. – sorri. 

–Eu acho incrível essa sua dedicação... – aproximou-  se – Você vai ser um artista incrível, Nicholas.  –Obrigado. – pigarreei. 

Seus olhos verdes me observavam. 

–Sabe... – ela se sentou ao meu lado – Seu avô estava  falando comigo que o pai de Dante precisa de uma assistente.  –É? – franzi o cenho. 

–Sim. – sorriu maliciosamente – Bem, acontece que eu  sempre quis ir para Londres.  Engoli em seco. 

–E seu avô disse que quer o melhor para mim. – ela  acariciou meu rosto – Eu quero o melhor para nós, Nicholas.  –O quê?! – eu me levantei – Você está louca?     


–Não. – continuou sorrindo – Estou apaixonada por você!   

–E acha  que  se  mudando  para  Londres  comigo  vai  fazer  com  que  eu  me  apaixone  por  você?  –  ri  –  Você  é  ridícula, Ayra.  A expressão em seu rosto mudou. A raiva era notável.  Ela se levantou e disse antes de sair do quarto:  –Vamos ver o quão ridícula eu posso ser, Nicholas.  Assim que ela sai, suspirei frustrado e caí na cama.  Faltava  apenas  alguns  dias  para  que  tudo  aquilo  acabasse.  Alice  ficaria  segura  e  eu  seguiria  meu  caminho.  Peguei  meu  celular  e  olhei  todas  as  fotos  que  tinha  dela  e  de  nós  dois  juntos.  Não  era  muito  fã  de  fotos  –  nem  mesmo  de  selfies –,  mas  com  Alice  tinha  aprendido  que  muitos  momentos  merecem ser registrados.  “As  fotos  são  fragmentos  da  vida”,  ela  dizia.  “Minha  mãe  costumava  registrar  cada  aniversário  ou  até  mesmo  um  almoço  em  família.  Depois  de  um  tempo  comecei  a  entender  que  as  fotos  eram  uma  boa  forma  de  manter  as  boas  lembranças  vivas  em  minha  mente.”  Como  ela  tinha  razão. A  cada  foto  que  via  me lembrava dos nossos momentos. Queria  ter fotos de momentos antes de começarmos a namorar. A     


noite do  terraço  em  que  cantei  Everything,  o aniversário com  a  família  dela  ou  o  dia  em  que  interpretamos  Romeu e Julieta  e eu a beijei. Aquele dia era inesquecível. 

 

 

Meses antes...

A segunda-feira  estava  completamente diferente. Não  tinha  pegado  trânsito  para  chegar  ao  colégio,  estava  com  um  humor  excelente  –  mesmo  que  tivesse  dormido  muito  pouco  naquela  noite.  Até  o  clima  estava  melhor.  Quando ela chegou  na  sala  eu  entendi  porque  estava  vendo  o  mundo  tão  diferente.  Alice.  Era  apenas  por  ela.  Desde  o  dia  do  terraço  sentia  que  estava  mudado e naquele momento percebi que era  por causa dela.  –Ei  –  puxei-a  para  um  abraço  –,  como  foi seu fim de  semana, hein? – afastei-me e pisquei para ela.  –Bem,  tirando  a  madrugada  de  sábado,  foi  tudo  normal. E o seu?  “Foi  exatamente  igual,  a  única  diferença  foi  que  eu  comecei a me apaixonar por você.”, pensei.  –Ligeiramente divertido – ri.     


–Ei, Nicholas… — Dante se aproximou, mas mudou de ideia ao ver Alice.  –Desculpe. 

–Tudo bem. – Alice sorriu – Vou para o meu lugar. 

“Essa garota é incrível!”, pensei enquanto observava  ela ir para seu lugar. 

 

–​Man​, preciso da sua ajuda. – Dante parecia nervoso. –O que foi? – franzi o cenho. 

–Eu quero pedir a Maria em namoro. 

–Você? – ri – Você vai pedir ela em namoro? 

–Não, não. O King Kong. – zombou. 

–Ah, cara... – olhei para Alice – Só segue seu coração. 

–Você gosta dela. – Dante a observou também – Acho  que já está na hora de você superar o que aconteceu.  –Sobre seu pedido... – mudei de assunto – Canta uma  música para ela.  –Ah, claro! Porque eu sou a pessoa mais afinada, não  é mesmo?     


–Uma pena você não ser eu. – brinquei.

–Eu  tinha  pensado  em  ler  um  poema.  –  pegou  um  papel  no  bolso  e  me  entregou  –  Talvez  você  possa  entregar  para Alice e ela ver se está bom.  –Tá maluco? – empurrei seu ombro discretamente –  As duas são amigas. 

–E? 

–E  elas  contam  tudo  uma  para  a  outra.  –  expliquei  –  Se  você  quer  que  isso  seja  surpresa  não  pode  mostrar  isso  a  Alice.  –Se  eu  não  te  conhecesse,  diria que isso é você sendo  ciumento  com  sua  namorada.  –  ele  pegou  o  papel  de  minha  mão e guardou.  –Ela  não...  –  olhei  para  Alice  e  suspirei  –  Ela  não  é  minha namorada e você sabe disso.  –Então  parem  de  olhar  um  para  o  outro  como  se  estivessem  completamente  apaixonados.  Vocês  parecem  aqueles  casais  que  não  ficam  cinco  segundos  sem  ter  algum  tipo de contato.  –Cuidado,  man.  –  semicerrei  os  olhos  entrando  no  clima  de  brincadeira  –  Você  pode  virar  parte  desse  tipo  de  casal. 


–Haha.

Nesse  momento  a professora Wendalla entrou na sala  e  fomos  para nossos lugares. Mal prestei atenção naquela aula.  Alice.  Apenas  Alice  estava  em  minha  mente.  Eu  teria  problemas  se  não  conseguisse  me  concentrar  naquele  dia.  Tentei  manter  minha  mente  distraída.  Funcionou  por  um  tempo,  mas  assim  que  a  professora  Carlem  me  chamou  para  ser  um  dos  meninos  que  interpretaria  Romeu  e  Julieta  de  improviso,  só  consegui  pensar  em  Alice.  Acabei  caminhando  diretamente para ela.  –E aí, parceiro? – ela disse em tom brincalhão. 

Fiquei  atrás  dela  para  tentar  esconder  meu  olhar  completamente  apaixonado  por  ela. Segurei seus ombros para  ter um lugar para minhas mãos.  –Melhor  eu  escolher alguém com quem tenho alguma  ligação para atuar, não acha? – apertei seus ombros de leve.  –Sim. 

Como  queria  poder  ver  seu  rosto  nesse  momento  para  saber  se  aquele  sim  era  positivo ou não. Sim com sorriso  seria  positivo.  Sim normal era neutro. Sim com uma careta era  negativo. “Acalme-se...”, respirei fundo.     


–Ok, povo!  –  Carlem  pulou  da  mesa  –  Vocês,  meninos,  ficarão  com  o  papel  e  lerão  suas  falas.  Já  as  meninas…  Bem,  a  improvisação é com vocês. Não estou aqui  para  julgar  ninguém.  –  ela  se  defendeu  e  ergueu  as  mãos  –  A  cena  é  o  diálogo  entre  Julieta  e  Romeu  no  baile  ao  se  encontrarem  pela  primeira  vez.  Sei  que  parece  clichê,  mas  é a  improvisação  das  Julietas  que  vai  fazer  a  diferença.  Apolo  e  Carol, podem se posicionar em frente à turma.  Enquanto  a turma assistia – e ria – a apresentação dos  dois,  aproveitei  para  massagear  os  ombros  de  Alice.  Ela  parecia  tensa.  Confesso  que  a  sensação  era  boa  para  mim  também.  Nunca  imaginei  que  gostaria  de  tocar  alguém  como  estava  gostando  de  tocá-la  naquele  momento.  Minha  decepção  foi  imensa  quando  ela  colocou  suas  mãos  sobre  as  minhas,  como  se  pedisse  que  parasse.  Tirei  as  mãos  de  seus  ombros  e  prestei  atenção  nas  apresentações  para  tentar  esquecer  aquilo.  Assim  que  nossa  vez  chegou,  percebi  que  Alice ainda estava tensa ao se levantar.  –Tudo bem? – perguntei preocupado.     


–Sim – desviou o olhar – Eu conheço bem o texto. Acho que vou conseguir. 

–Ótimo. Vamos seguir o original e arrebentar! 

Carlem  nos  chamou  novamente  e  caminhamos  para  frente  da  sala.  Assim  que  nos  posicionamos,  vi  que  Alice  estava  com os olhos fechados, se concentrando como se fosse  uma atriz profissional.  –Pronta? – perguntei e ela abriu os olhos. 

–Sim. – respondeu com seu olhar determinado. 

–Ok.  –  olhei para ela como queria ter olhado desde o  momento  em  que  percebera  que  estava  apaixonado  –  Se  minha  mão  profana  –  deixei  que  minha  mão  a  rondasse,  mas  sem a tocar – o relicário em remissão, aceito a penitência: meu  lábio, peregrino solitário, demonstrará com sobra reverência.  –Ofendeis  vossa  mão  –  ela  pegou  minha  mão  –  ,  bom  peregrino,  que  se  mostrou devota e reverente. Nas mãos  dos  santos  pega  o  paladino.  Esse  é  o  beijo  mais  santo  e  conveniente.  –Os santos e os devotos não têm boca? – aproximei-  me mais.   

–Sim, peregrino, só para as orações. – sorriu, de leve.    


–Deixai, então,  ó  santa!  –  soltei  minhas  mãos  e  as  coloquei  em seu rosto, segurando com ternura e paixão – Que  esta boca mostre o caminho certo aos corações.  –Sem  me  mexer,  o  santo  exalta  o  voto  –  o  sorriso  se  aprofundou.  –Então  fica  quietinha:  eis  o  devoto.  Em  tua  boca me  limpo dos pecados.  Assim  que  meus  lábios  encontraram  os dela senti que  tudo  fazia  sentido.  Ela  tinha  conseguido  ultrapassar a barreira  que  havia  criado  por  anos  e  ainda  conseguira  me  deixar  completamente  apaixonado.  Eu  a  beijei  com  toda  minha  paixão,  mas  sem  ser  intenso  demais.  Sentia  que  seu  corpo  correspondia  a  mim  e,  ao  me afastar, vi em seus olhos que ela  sentira  algo  de  diferente.  Vi  também  que  isso  a  apavorava  quase tanto me assustava. 

       

–É melhor  você  me  dar  licença,  Sr.  Fontelle!  –  ouvi  a  voz de Dante do outro lado da porta.  –Tudo bem. Entre.     


Sentei-me na  cama.  Dante  entrou  no  quarto  batendo  a  porta.  Percebi  que  ele  estava  extremamente  furioso,  apenas  por  sua  respiração  irregular.  Meu  amigo marchou até mim e –  surpreendentemente – me deu um soco.  –Que mer... 

–Que  merda  digo  eu,  Nicholas!  –  disse  em  seu  tom  habitual  de  sermão  –  Como  você  pode  fazer  aquilo  com  Alice?  Terminar  com  ela  já  foi  cruel  e  não  ajudou  em  nada  quando você explicou o porquê.  Fiquei  em  silêncio,  apertando  o  lado  do  rosto  que  recebera o soco.  –Foi necessário. – murmurei, por fim. 

–Necessário?  –  ele  começou  a  andar  em  círculos,  hábito  de  quando  estava  nervoso  ou  estressado  com  algo  –  Necessário  seria  eu  terminar  com  Maria  antes  que  ela  acabe  com  meu  coração,  ​man​.  O  que  você  fez  com  Alice  foi  crueldade. Das piores.  –Espera...  –  franzi  o cenho – Por que você terminaria  com Maria?  Dante suspirou e sentou ao meu lado.     


–Ela vai  se  mudar.  –  disse,  cabisbaixo  –  A  gente  conversava  bastante  sobre  essa  possibilidade  já  que  o pai dela  trabalha  num  banco  e  sempre  é  transferido,  mas  a  resposta  dela  sempre  foi  que  relacionamentos  a  distância  não  funcionam.  –Que droga. – segurei seu ombro. 

–Nem me fale... – suspirou – Mas não pense que vou  deixar de ficar furioso com você por sua compaixão!  Ri. 

–Eu tinha que fazer aquilo, Dante. – confessei – Por  mais que doesse em cada parte de mim.  –O que está acontecendo? 

–Raul. – engoli em seco – Isso que está acontecendo.  Ele tem me ameaçado há meses, desde que saiu da cadeia. 

–Que tipos de ameaças? 

–Ameaças  de  vida.  –  olhei  para  meu  amigo  –  Ele  estava  ameaçando  machucar  Alice  se  eu  não  desse  o dinheiro  que me pedia.  –E você apavorou e terminou com Alice?     


–Não. Isso  começou  tem tempo. Os valores que Raul  exigia  eram  altos  então  meu  avô  percebeu  que  estava  mexendo na conta e bloqueou meu acesso.  –E  aí  Raul  exigiu  que  você  terminasse  com  Alice,  porque  se você não podia dar dinheiro, pelo menos ele veria o  seu sofrimento.  –Exatamente.  –  suspirei  –  Você  conhece  o  desgraçado tão bem quanto eu.  –Mas  se  ele  exigiu  isso,  por  que  você  marcou  de  se  encontrar com Alice hoje?  –Eu? – fiquei confuso. 

–Alice  me  ligou  agora  a  pouco  dizendo  que  você  mandou  uma  mensagem  para  ela  pedindo  que  o  encontrasse  no terraço. – explicou.  –Não  mandei  mensagem  alguma.  –  levantei  para  pegar meu celular.  –Tem certeza? – Dante me acompanhou. 

–Tenho. Olha aí. – entreguei meu celular a ele. 

–Merda... – murmurou.     


–Isso não está certo. – balancei a cabeça. – Só pode ser coisa do...  –Raul. – Dante concordou comigo. 

Esfreguei meu rosto, completamente frustrado. 

–Não acredito que ele não cumpriu com o acordo. Eu  sabia!  –  soquei  a parede – Sabia que ele não ia deixar Alice em  paz!  –Calma. – Dante bateu de leve em minhas costas – A  gente vai achar ela.  –Onde ela disse que ia me encontrar? – virei-me para  ele.   

–No terraço.

Antes  que  Dante pudesse dizer qualquer coisa, peguei  a chave da minha moto e saí.  –​Man,  ​você  não  vai  fazer nenhuma besteira, vai? – ele  disse enquanto tentava me acompanhar.  –Preste  atenção  –  virei-me  –,  você  vai  ligar  para  a  polícia  enquanto  eu  vou  na  frente.  Se  ele  estiver  no  colégio  com  Alice  eu  mando  uma  mensagem  e  você  vem  o  mais  rápido possível. Não hesite em entrar, entendeu?     


Ele concordou.

–Temos  que  pegar  o  Raul  de  surpresa.  Ele  nunca  vai  imaginar  que  eu  pensei  em  chamar  a  polícia.  Não  com  a  vida  de Alice em risco.  –Vai funcionar. – assegurou mais para si que para  mim. 

–Eu sei. – montei na moto – Quando isso tudo  terminar você me deve uma pizza.  –O quê?!   

–Você ouviu. – coloquei o capacete – Pelo soco e tudo mais.   

–O tudo mais foi salvar a vida da sua namorada!

–Não ainda. – dei a partida. 

Nunca  dirigi  tão  imprudente,  mas  era  necessário.  Cheguei  ao  colégio  na  metade do tempo que costumava levar.  O  portão  lateral  que  dava  acesso  ao  terraço  estava  com  o  cadeado quebrado. Ele estava ali. Mandei uma mensagem para  Dante  e  subi.  Assim  que  pisei  no  terraço,  avistei  Alice.  Ela  estava  amordaçada,  com  os  braços  presos  atrás  da cadeira em  que  estava  sentada.  Tentei  me  aproximar,  mas  ela  balançou  a  cabeça dizendo não. Só então percebi que havia outra pessoa     


ali. Parada a poucos metros, com uma arma em mãos, estava Ayra.  –Ayra? O que está fazendo aqui? 

–Ah,  você  chegou...  –  ela  sorriu  –  Estávamos  esperando, não é mesmo, Alice?  A  resposta  dela foi um resmungo. Seus olhos estavam  cheios  de  lágrimas  e  ela  se  contorcia,  tentando  desamarrar  as  cordas. Dei um passo para frente e Ayra gritou:  –Não! Você não vai ajudá-la.  Engoli em seco e levantei as mãos.  –Ok,  vou  ficar  aqui,  mas  você  tem  que  me  explicar  porque  está  aqui.  Achei  que  Raul  era  quem  tinha  mandado  a  mensagem para Alice.  –E foi. – continuou a sorrir como se fosse louca –  Você é tão ingênuo, Nicholas. Eu amo isso em você. 

Ela  se  aproximou  de  Alice  e  começou  a  caminhar  ao  redor da cadeira, com a arma apontada para a cabeça dela.  –Raul  saiu  da  cadeia  e  precisava  de dinheiro. Bem, eu  ofereci  a  ele  uma  oportunidade  para  ganhar muito dinheiro. –  parou para me olhar – Esse tempo todo você pensou que ele     


era a única ameaça, mas esqueceu de prestar atenção nos fatos, Nicholas.  –Você estava por trás de tudo. – suspirei frustrado. 

–Sim.  –  gargalhou  –  Eu  que  pensei  em  cada  ameaça,  cada  pequeno  detalhe  para  te  amedrontar.  Sabia  que  se  colocasse  a  sua  preciosa  no  meio  você  ia  até  o  inferno  para a  proteger.  –E por que? Para que isso tudo? 

–Por  você.  Apenas  por  você.  –  suspirou  –  Você  não  correspondia  as  minhas  tentativas  e  depois  de  um  tempo  vi  que  estava  diferente.  Por  causa  dela!  –  empurrou  a  cabeça  de  Alice  violentamente  –  Então  eu  pensei:  Se  ele  não  me  quer  por bem, vai querer por mal.  –Daí você se juntou com Raul e infernizou minha vida.  – concluí.   

–Só quero o melhor para você... Não me arrependo de nada.   

–Você que alertou meu avô sobre a conta, não foi?

–Sim. Depois de duas ameaças você não mudou nada.  Achei  que  iria  terminar  com  Alice  se  sentisse  que  ela  corria  perigo e isso não aconteceu.   


–Por isso o bloqueio de acesso a conta e a exigência que terminasse com ela. – pensei alto.  –Cada vez que passa você fica mais esperto. – riu –  Pena que não foi esperto antes. 

Ayra se posicionou atrás de Alice e apontou a arma  novamente para a cabeça dela.  –Espera! 

–Não tente me impedir. Se você se aproximar vai só  apressar a morte dela.  –Quem  disse  que eu estou me importando com ela? –  forcei  um  sorriso  –  Depois  de tudo que me contou comecei a  pensar em como você é brilhante, Ayra.  –Mesmo? – abaixou a arma. 

–É claro! Venha aqui. 

Enquanto  Ayra  se  aproximava,  Alice  arregalou  os  olhos  para  mim  sem  entender  o  que  estava  acontecendo.  Passei  a  mão  disfarçadamente  pelo  pescoço  e  ela  entendeu  minha  mensagem  ao  olhar  para  o  colar  do  infinito  em  seu  próprio pescoço.     


–Eu sabia,  sabia  que  você  ia  me  amar.  –  Ayra  me  abraçou.  –Sim.  –  apertei  meus  braços  ao  redor  dela  e  olhei  fixamente para Alice – Eu te amo.  No  instante  seguinte  tudo  mudou.  Tentei  desarmar  Ayra,  mas  ela  segurava  firme.  Usei  toda  força  do  meu  corpo  para  jogá-la  no  chão.  Depois  de  tentar  tirar  a  arma  de  suas  mãos várias vezes, ouvi o barulho de sirenes da polícia.  –O que é isso? – Ayra se distraiu. 

Aproveitei para puxar a arma de sua mão e me  levantei. 

–Não!  –  ela  tentou  puxar  a  arma  de  mim  –  Você  me  enganou!  Eu  vou  matar  ela,  Nicholas!  Eu  juro  que  vou  matá-la!  Ayra  continuou  a  puxar a arma de minha mão até que  conseguiu  puxá-la.  Ela  se  levantou  e  olhou  para  Alice,  mas  antes  que  pudesse  dar  um  passo  eu  a  interceptei.  No  susto,  Ayra  apertou  o gatilho. Foi como se tudo estivesse em câmera  lenta.  Eu  vi  Dante  chegando  com  os  policiais  e  o  olhar  assustado  de  Ayra.  Então  eu  caí  e  minha  visão  escureceu  completamente.  Meu  único  pensamento  era  que  tinha  esperança de que Dante conseguisse salvar Alice.   


QUINZE  


“A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.”  – Roger Bussy-Rabutin.     


Abri os  olhos.  Minha  primeira  constatação  foi  que  estava  num  hospital.  Sentei-me  na  cama  e  procurei  pelo  meu  celular.  Precisava  saber  onde  Alice  estava.  Queria  sair  correndo  pelo  hospital  para  encontrá-la,  mas  havia  diversos  fios  conectados  em  mim  e  uma  agulha  espetada  em  meu  braço  direito,  levando  soro  as  minhas  veias.  Segundos  depois  de tentar arrancar a agulha, Dante entrou no quarto.  –Você acordou! – sorriu. 

–Cadê a Alice? 

–Ela foi para casa descansar, ​man​. – sentou-se na  poltrona ao lado da cama. – Você devia descansar também.  –Quero vê-la. – tentei me levantar, mas senti dor no  abdômen. – Ai! Que mer...  –Eu disse para você descansar. – Dante riu. 

–O que aconteceu? – voltei a me deitar. 

–A doida da Ayra acabou apertando o gatilho, você foi  acertado de raspão no abdômen, acabou caindo no chão, bateu   


a cabeça  e  desmaiou.  –  contou  –  Assim  que  eu  cheguei  os  policiais  cuidaram  da  maluca  e  desamarrei  Alice.  Ela  estava  totalmente  assustada  e  só  sossegou  quando  te  colocou  numa  ambulância.  –E  aí  foi  para  casa.  –  concluí  –  Sabia  que  ela  não  ia  esquecer o que fiz.  –Calma  aí,  amigo!  Você  não  me  deixou  terminar.  –  prosseguiu  –  Alice  veio  direto  pro  hospital  com  você  e só foi  para  casa  porque  eu  exigi.  Ela  passou  a  noite  inteira  do  seu  lado.  –Vocês conversaram? 

Antes  que  Dante  pudesse  responder  a  porta  do  quarto foi aberta. Maria entrou junto a Larissa, Enzo, Rebecca  e Hilton.  –A  enfermeira  não  sabe  que  estamos  aqui.  – Rebecca  sussurrou.  –Só queríamos ver se você está bem. – Maria sorriu.   

–Com um pouco de dor, mas estou bem. – retribui seu sorriso.   

–Cara, que doidera. – Enzo se aproximou – Você não me avisou que ser seu amigo poderia ser perigoso.   


–Enzo! – Larissa o repreendeu.

–Fico feliz que tenham vindo aqui. Obrigado. 

–Só  não  dá  mais  esse  tipo de susto na gente. – Hilton  parecia abalado.  –Pode deixar. 

A  porta  do  quarto  foi  aberta  novamente.  Dessa  vez  era  Teodora,  Lucas  e  Ian.  Instantes  depois  que  Ian  entrou  vi  Alice  parada  na  porta.  Sua  hesitação  aumentou  ao  ver  todos  que estavam ali.  –Ninguém  me  avisou  que  era  uma  festa.  –  seu  tom  não  era  nada  brincalhão  –  Por  que  não  me  ligou  para  avisar  que ele tinha acordado, Dante?  –Você  precisava  descansar,  Alice.  –  meu  amigo  se  defendeu – Só quis fazer o melhor para você.  –Muito  obrigado,  então.  –  cruzou  os  braços,  provavelmente colocando a baixinha em ​mode on​.  –Pessoal...  –  pigarreei  –  Podem  dar  uma  licença  para  eu conversar com Alice, por favor?  Concordaram.  Assim 

que

o

quarto estava 

completamente vazio  senti  medo.  Não  sabia  qual  era  a  intenção 


de Alice naquele momento. Fiquei olhando para minhas mãos e quando tomei coragem de encará-la, encontrei-a chorando.  –Você está bem? – sussurrou, secando as lágrimas. 

–Sim. – sorri – E você? 

–Não. – soluçou. 

Minha  vontade  era  de  ir  até  ela  e  abraça-la.  Queria  que  ela  chorasse  a  vontade  e  que  eu  fosse  a  pessoa  que  a  acalmaria,  mas não podia nem me levantar. Além de não saber  se ela queria isso.  –Alice, tenta se acalmar. 

–Como  eu  posso  ficar  calma  se  eu  ainda  estou  completamente  assustada?  –  aproximou-se  –  Eu  fiquei  com  medo  de  morrer,  com  medo  de  que  você  morresse  junto,  Nicholas.  Não  consegui  dormir  essa  noite  em  parte  porque  queria  estar  perto  de  você  quando  acordasse  e  também  porque fiquei com medo de ter pesadelos com isso.  Desviei o olhar, sem saber o que dizer. 

–Sei  que  parece  coisa  de  criança,  mas  depois  de  tudo  que  aconteceu  nessa  semana  não  tenho  o  melhor  emocional  para aguentar essas coisas.     


–Eu entendo.

–Mesmo? 

–Você  acha  que  não  fiquei  morrendo  de  medo  todos  esses  meses  em  que Raul me ameaçou? – encontrei seus olhos  azuis  – Cada dia era uma tortura, Alice. Quando ele exigiu que  eu  terminasse  com  você foi terrível. Pensar em machucar seus  sentimentos me matou aos poucos durante todo aquele mês.  –Ayra me contou tudo. – desviou o olhar para seus pés  –

Eu entendi que o que fez não foi porque estava

desistindo de mim, mas porque me ama. –Amo. – sorri, mesmo que ela não pudesse ver. 

Alice se aproximou e disse, segurando uma de minhas  mãos, com os olhos fixos nos meus:  –Eu amo você também, Nicholas. 

Segurei seu rosto, ansiando por um beijo. Ela tirou  minha mão e soluçou.  –Mas eu não posso te perdoar. Não ainda. – beijou  minha testa e se afastou.  Observei enquanto ela caminhava até a porta do  quarto. Tentei segurar o choro ao máximo, mas foi inevitável.     


Antes de  abrir  a  porta,  ela  se  virou  e  me  viu  completamente  vulnerável.  Dois  segundos.  Esse  foi  o  tempo  necessário  para  que  ela  chegasse  até  mim  e  me  beijasse.  Nossas  lágrimas  se  misturaram,  os  medos  se  dissiparam  e  apenas  o  amor  ficou  entra nós.  –Senti sua falta. – ela sussurrou ao se afastar apenas  para me olhar.  –Eu também. – segurei seu rosto em minhas mãos. 

–Sei que o momento não é o melhor, mas você precisa  saber sobre seu avô.  –O que aconteceu? – preocupei-me. 

–Ele acabou enfartando quando soube de tudo. 

–Como assim? 

–Dante  ligou  para ele e as notícias o abalaram demais.  Os  médicos  disseram  que  ele  já  era  pré-disposto  a  ter  um  infarto e que não chegou a ser muito grave.  –Eu quero ver meu avô. – sentei-me. 

–Nicholas,  você  precisa  descansar.  –  segurou  minha  mão  –  Provavelmente  amanhã  você  vai  receber  alta  e  nós  vamos vê-lo, ok?     


–Ok. – concordei – Mas você tem que me prometer que vai descansar.  –Eu descansei. – protestou – Não quero voltar para  casa até que você saia desse hospital.  –Então promete que vai descansar comigo. 

–Chega pra lá. – ordenou com um sorriso. 

Abri  espaço  para  ela  deitar  ao  meu  lado.  Segurei  sua  cintura  e  ela  aconchegou-se  em  meu  peito.  Ficamos  assim.  Em  silêncio.  Ela  fechou  os  olhos.  Eu  também.  Ela  disse  que  me amava. Eu disse que a amava. Nós dormimos. 

       

–Eu estou bem, estou bem. – meu avô repetiu.  

–Não foi o que ouvi. – abracei-o – Que susto, hein velho?   

–Eu que digo! – empurrou-me de brincadeira – Como  você  deixou  isso  chegar  a  esse  ponto?  Não  pensou  no perigo  que estava correndo?  –Eu só pensei em salvar Alice dele, vô. – engoli em  seco.     


Ele me  lançou  um  olhar  repreensivo.  Assim  que  recebera  alta  do  médico  fui  visitar  meu  avô.  Alice  disse  que  ficaria do lado de fora com Dante.  –Eu  entendo,  filho.  –  falou,  por  fim  –  Se  Ana  estivesse viva eu também a protegeria sem pensar duas vezes.  –Você sente falta dela, não sente? 

–Todos  os  dias.  –  sorriu,  tristemente  –  Aconselho  você  a  aproveitar  cada  momento  com  Alice,  se  ela  realmente  for a pessoa que você ama.  –Ela é. – assegurei – E vou aproveitar. 

–Bom.  –  fechou  os  olhos  –  Odeio  ter  que  dizer  isso,  mas seu velho vai ter que descansar um pouco.  –Tudo bem. 

Saí  do  quarto  e  encontrei  Alice  conversando  com  Dante.  Observei-os  por  um  tempo.  Eles  pareciam  ter  criado  uma  amizade  em  meio  àquela  situação  e isso me deixava mais  tranquilo.  Quando  estivesse  em  Londres  ela  teria alguém para  cuidar  dela  e  conversar  se  precisasse.  Alice  riu  de  algo  que  Dante havia dito e acabou me vendo.  –Pronto para ir?     


–Sim. –  peguei  sua  mão  e  olhei  para  Dante  –  Ouvi  dizer que você é o motorista da vez.  –Pois  é...  –  dramatizou  –  Estava  contando  a  Alice  sobre  a  minha  primeira  aula da autoescola que por sinal foi na  semana  passada.  Apenas  digo que vocês são corajosos por me  deixar dirigir.  –O  carro  do  meu  avô  tem  um  seguro  bom.  –  bati  de  leve em seu ombro.  –Agora eu fico mais tranquilo! 

Nós  três  rimos.  O  caminho  até  minha  casa  foi  silencioso.  Dante  não  se  importou  de  ir  na  frente  sozinho.  Alice  parecia  não  querer  me  deixar  de  maneira  alguma,  mesmo  que  repetisse  que  estava  bem.  Comecei  a  me  questionar  como  ela  ficaria  ao  lembrar  que  em  quatro  dias eu  estaria  partindo  para  Londres.  Dante  estacionou  em  frente  à  minha casa e disse para Alice:  –Quando quiser ir para casa é só me ligar. 

–Certo.   

–Obrigado mesmo. – disse, assim que Alice saiu do carro.   

 

–​Anytime, man​. – sorriu.  


Encontrei Alice  parada  na  porta  da  minha  casa.  Ao  entrarmos,  senti  a  diferença.  A  casa  parecia  maior  ainda  sem  meu  avô.  Segurei  a  mão  de  Alice e fomos para meu quarto. A  cama  estava  da  mesma  forma  que  havia  deixado  dois  dias  antes.  O  violão  estava  jogado  junto  dos  rascunhos  da  música  que  havia  escrito.  Alice  se  aproximou  da  cama  e  pegou  um  deles.  –O que é isso? 

–Escrevi  uma  música  esses  dias.  –  senti um pouco de  tontura  e  me  sentei – Aquela coisa de que um coração partido  fica inspirado é verdade, viu?  Ela riu e sentou ao meu lado. 

–Você  cantaria  ela  para  mim?  –  pediu  –  Se  estiver  cansado ou com dor eu entendo.  –Estou  bem.  –  dei  um  beijo  rápido  nela  –  Depois  dessa semana longe de você vi que nada é pior.  –Talvez  quase  morrer  por  que  uma  doida  se  apaixonou por você chegue perto. – brincou.  –Talvez. – peguei o violão e comecei a tocar. 

Um mundo novo  Eu fui um tolo 


O tempo todo    


Sozinho estou a caminhar

Muitos olhares  Vários  lugares  Nessa cidade  Estou sozinho venha me  encontrar 

São tantas coisas que  Me fazem refletir  Há quanto tempo eu estou  Longe de ti  Não posso encontrar momentos  Que me fazem sentir  Tão vivo quanto eu estava  Perto de ti 

Aquela noite  No teu jardim  Nós dois se olhando  E um sorriso você deu pra mim     


Você e eu Estamos  Tão distantes  A lua faz você lembrar de mim 

   

São tantas coisas que  Me fazem refletir  A quanto tempo eu estou  Longe de ti  Não posso encontrar momentos  Que me fazem sentir  Tão vivo quanto eu estava  Perto de ti  –É linda, Nicholas! – chorou emocionada. 

–Eu  pensei  que  jamais  ia  cantar  ela  para  você.  –  coloquei  o  violão  de  lado  –  Minhas  esperanças  de  ter  um  futuro  foram  completamente  destruídas  no  dia  em  que  Raul  exigiu que eu terminasse com você.     


–Por falar nele... – ela me envolveu com seus braços –  A  polícia  conseguiu  encontra-lo  e  provavelmente  ele  vai  ficar  preso por um bom tempo.  –E Ayra? 

–Bem,  ela  foi  para  um  centro  de  tratamento  para  doentes  mentais  por  um  tempo,  porque  os  advogados  da  família  dela  alegaram  algum  tipo  de  transtorno  mental.  A  polícia vai analisar o caso ainda e encaminhar para um juiz que  vai  dizer se ela tem mesmo algum transtorno ou não. – deu de  ombros – Pelo menos podemos ficar tranquilos.  –Sim. – acariciei seu rosto. 

–Você se importaria se eu fosse para casa? Preciso  alimentar Hat.  –Primeiro, o nome dele é Cheshire. Segundo... 

–O nome dele é Hat, Nicholas. – interrompeu. 

–Segundo – continuei –, não me importo não. 

–Ok. – ela levantou – Vamos descer. 

–Por que? – acompanhei-a.     


–Porque –  parou  no  corredor  –  se  ficar  vendo  você  nesse  quarto  sozinho  e  começar  a  pensar  que  vou  te  deixar  nessa casa gigantesca, posso acabar mudando de ideia sobre ir.  –Se bem que você tem razão... – puxei-a pela cintura –  Acho que não quero ficar sozinho nessa casa enorme. 

–Eu  preciso  ir  para  casa.  –  tentou  se  afastar,  rindo  –  É sério, Nicholas.  –Vou te convencer a ficar. – semicerrei os olhos –  Aquele gato pode morrer de fome, mas você vai ficar comigo. 

–Você  é  cruel  demais!  –  Alice  me  deu  um  tapa  de  brincadeira.  –Mas  eu  posso  te  convencer,  não  posso?  –  sussurrei  em seu ouvido.  –Talvez...  –  mordeu  o  lábio  –  Quem  sabe  se  eu  ganhar um beijo posso pensar em ficar?  Eu  a  beijei  como  nunca  havia  beijado.  Jamais  iria  perde-la  novamente.  Ela  seria  minha  para  sempre.  Senti  suas  mãos  procurando  a  barra  de  minha  camiseta.  Segurei  suas  mãos  e  levei-as  para  o  meu  pescoço.  Eu queria faze-la minha,  mas  no momento certo. Afastei-me apenas para olhar em seus  olhos  azuis.  Ainda  havia  mágoa  neles,  mas  também  vi  algo  mais. Ela me amava.  –Nicholas, eu não quero perder você.     


–Você não vai. – beijei sua testa. Ela  segurou  meu  rosto  e  me  beijou.  Seu  corpo  pequeno  e  curvilíneo encostou ao meu e eu senti por todos os  lados  minha  pele  se  arrepiar.  Ela  jamais  havia  chegado  tão  perto.  Deixei  que  ela  prolongasse  o  beijo  por  mais  tempo.  Segurei  sua  cintura  e  ela  novamente  procurou  a  barra  de  minha  camiseta,  mas  minhas  mãos  não  foram  ágeis  para  detê-la.  Ela  deslizou  suas  mãos  por  minhas  costas. Aquilo era  bom,  mas  eu  tinha  que  me  afastar.  Já  estava  fervendo  por  dentro.  –Alice... – eu sussurrei – Por favor, não me mate.  –Eu não quero te matar. – ela arranhou suas unhas em  minhas costas – Só quero convence-lo.  –Você sabe que não...  –Shh... – ela me calou com um beijo – Eu quero e  você também.  –Alice, isso não...  –Por favor. – ela olhou para mim com seus olhos azuis  – Não me faça parecer uma idiota pedindo isso a você.  –Ok. 

       

Mais tarde  naquela  noite,  com  Alice  adormecida  ao  meu  lado,  permiti  que  meus  pensamentos  fossem  para  o  assunto  que  mais  temia:  os  seis  meses  que  passaria  em  Londres.  Justo  quando  mais  queria  ficar  ao  lado dela, quando 


tudo estava    


pacífico novamente  e  tínhamos  chegado  ao  mais  alto nível de  intimidade,  eu  tinha  que  partir.  O  quarto  estava  iluminado  apenas pela noite.  Olhei  para  ela  novamente.  Sua  respiração  era  tranquila.  Cada  segundo  ao  seu  lado  fazia  com  que  me  apaixonasse  mais ainda por ela. Aos poucos fui me lembrando  de  cada  momento  desde  que  a  vira  pela  primeira  vez.  Cada  sorriso,  cada  olhar,  cada  lágrima.  As  memórias  seriam  lembretes  de  que  apesar  do  meu  sonho  estar  em  Londres,  meu  lugar  era  do  lado  de  Alice.  Senti  as  lágrimas  escorrerem  pelo meu rosto.  –Ei... – ela sussurrou, ainda de olhos fechados – Por  que está acordado?  –Queria observar você dormindo. – beijei seu rosto. 

–Cuidado para não se apaixonar. – brincou. 

–Tarde demais. – puxei-a para perto de mim.  Alice abriu os olhos.  –Você está chorando. – acariciou meu rosto – Acho  que eu devia ser a chorona, não?     


–Tanto faz... – rimos – Só não queria ter que ir daqui quatro dias.  –Droga! – fechou os olhos – Esqueci que tinha isso.   

–Não se preocupe. – tranquilizei-a – Eu posso cancelar tudo.   

–Não! – arregalou os olhos – Você vai para Londres sim! Esse é o seu sonho.  –Mas Alice... 

–Nicholas,  para  de  ser  ridículo.  –  repreendeu-me  –  Nada  pode  mudar  seus  planos.  Isso  é  o  sonho  da  sua  vida  e  você vai seguir seu caminho.  –Como eu posso ir e te deixar? 

–Da mesma maneira que eu vou deixar você ir e ficar.  Suspirei.  –Vai ser difícil, você sabe. 

–Eu sei. – aconchegou-se em meu peito – A gente  consegue.  –Você é tão otimista. – beijei sua testa – Eu te amo,  sabia?     


–Nem percebi... – riu – Eu te amo também.    


EPÍLOGO

 

Alice  


“Se você ama algo ou alguém, deixa que parta. Se for seu, voltará; se não, é porque jamais seria.” 

– William Shakespeare.     


Foram os  quatro  dias  mais  intensos  da  minha  vida.  Nicholas  quis  aproveitá-los  ao  máximo.  Depois  que  Ben  chegou  tive  que  voltar  para  minha  casa,  mas  nem  assim  meu  namorado  desgrudou  de  mim.  Durante  os  três  dias  antes  da  sua  viagem  ele  ficou  na  minha  casa.  Ele  cozinhou  todos  os  dias  e  assistimos  filmes  e  séries  todas  as  noite.  Ben  não  ligou  de  ficar  de  vela e nem de ter que dormir na sala. Apesar de ter  explicado  a  ele  tudo  que  havia  acontecido,  meu  amigo  continuou a ter um certo ressentimento com meu namorado.  Na  manhã  da  partida  de  Nicholas,  acordei  mais  cedo  que  o  habitual  e  fiquei  olhando  para  ele.  Deixá-lo  ir  seria  difícil,  mas  era  necessário.  Nicholas  acordou  e  conversamos  até  que  chegasse  a  hora  de  levantarmos  para  ir  ao  aeroporto.  Descemos  para  tomar  café  e  nos  deparamos  com  Maria,  Dante e Ben nos esperando. O café da manhã foi uma mistura  de  diversão  e  troca  de  olhares  apreensivos  entre  Nicholas  e  eu.  Subi  para  tomar  banho  primeiro.  Nicholas  esperou  que  eu  me  arrumasse  e  entrou  no  quarto,  já  com  a  roupa 


trocada    


para a  viagem.  Ele  me  abraçou e comecei a chorar. Sabia bem  que  seria  doloroso  quando  o  dia  chegasse. Naquele momento  só  conseguia  pensar  que  não  seria  forte  o  bastante.  Ele  me  deu  um  beijo  rápido  e  descemos.  Dante  ainda  estava  com  o  carro  do  Sr.  Fontelle  –  que  permaneceria  em  observação  no  hospital por alguns dias mais – e nos levaria ao aeroporto.  Consegui  conter  minhas  lágrimas  durante  boa  parte  do  caminho.  Olhava  para  Nicholas  a  cada  minuto.  Ele  retribuía  com  um  beijo  na  testa  e  eu  sorria.  Podia  sentir  os  olhares de todos – até mesmo de Dante, que estava dirigindo.  –Vocês  podem  parar  de  olhar?  –  escondi  meu  rosto  em Nicholas e solucei.  –Amiga, não fique assim – pediu Maria – Ele vai voltar  logo.   

Nada adiantou.  Continuei  a  chorar  com  a  cabeça  enterrada  no  peito  de  Nicholas.  Ele  afagou  meu  cabelo,  tentando  me  tranquilizar  Eu  afaguei  seu  cabelo  e  segurei-o.  Levantei  a  cabeça  e  vi  que  tínhamos  chegado.  Nicholas  enxugou meu rosto e me deu um beijo na testa.  –Tudo bem? – segurou meu rosto em minhas mãos. 

–Sim. – forcei um sorriso – Vamos.     


Descemos do  carro.  Não  larguei  sua  mão  nem  mesmo quando ele pegou a mala. Dante se ofereceu para levar  a  mala  e  Nicholas  aceitou.  Seguimos  para  a  fila  do  check-in,  onde  encostei-me  nele  e  fiquei  em  silêncio.  Após  o  check-in  ter  sido  feito, esperamos no saguão, até que anunciaram que o  embarque logo iria começar.  –Está na hora – avisou, olhando para mim – Tudo  bem?   

–Não. – não segurei o choro. Ele sorriu e me abraçou.  –Ei, irmão! – Dante chamou. – Melhor ir para a fila. 

–Ok. – Nicholas se levantou, comigo ainda grudada  nele – No infinito de nós dois, lembra?  –No infinito de nós dois… – sorri em meio a lágrimas.  – Se cuide – abracei-o pela cintura. 

–Você também. 

Beijou minha testa e se apoiou sobre ela. Desejei que  pudéssemos ficar daquela forma para sempre.  –Nicholas – Dante chamou novamente –, está na hora.     


Nos afastamos.  Observei  Nicholas  enquanto  ele  se  despedia  de  Dante,  Maria  e  Ben.  Meu  amigo  estava  completamente  desconfortável  com  ele.  Sorri.  Nicholas  se  virou  e  me  abraçou  de  novo.  Assim  que  ele  foi  para  a  fila  Maria  me  abraçou  e  Ben ficou ao meu lado, tentando arrumar  uma  piada  que  me  fizesse  rir.  Consegui  me  distrair  por  um  momento,  mas  logo  vi  que  Nicholas  estava  entrando  no  portão. Nossos olhares se encontraram pela última vez.  E então ele partiu.     


CONFIRA O 1º CAPITULO DE  O garoto do outro  lado     


Dois dias. Apenas dois dias desde que Nicholas partira  para  quilômetros  de  distância.  Dois  dias  enfadonhos  que  tive  que  sorrir  e  fingir  que  estava  tudo  bem,  quando  nada  estava  bem.  A  cada  passo  na  rua  temia  que  alguém  me  perseguisse  ou  sequestrasse.  Evitei  transparecer  meu  medo  para  Ben.  Ele  estava  ali  para  passar  férias  e  não  para  lidar  com  os  meus  problemas.  Levei-o  ao  Parque  Cesamar,  às  inúmeras  praças  e  naquele dia iríamos ao shopping.  Ben  estava cochilando no sofá enquanto eu terminava  de  arrumar  a  cozinha. Hat dormia aos meus pés. Era estranho  ter  a  companhia  de  um  gato  como  reconfortante.  Nicholas,  mesmo  de  longe,  encontrava  maneiras  de  me  proteger  e estar  presente de alguma forma. Assim que terminei todas as tarefas  diárias, liguei para Dante.  –Alice! – atendeu com seu tom animado de sempre –  E ai?   

–Oi... Eu liguei para saber se você vai fazer alguma coisa hoje à noite. – sentei na escada.     


–Bem, até  agora  não  apareceu  nada,  mas  só  quero  lembrar  que  eu  tenho  namorada.  –  brincou  –  Só  em  caso  de  ter esquecido.  –Não esqueci não. – ri – Eu queria chamar você e a  Maria para ir no cinema comigo e Ben.  –É... – hesitou – Vou ligar para Maria e ver se ela quer  ir, mas te dou certeza que eu vou.  –Ok. Nos vemos lá. 

–Até. – desligou. 

Ouvi um bocejo. Ben estava acordado. 

–O que eu perdi? – perguntou, com a voz embargada. 

–Apenas eu limpando a casa. – levantei-me. 

–Fico tão feliz por você não ser como minha mãe. –  ele se sentou para que eu me acomodasse no sofá ao seu lado  –

Para ela férias é sinônimo de faxina todo dia na casa,

com direito a um faz-tudo. –E você seria esse faz-tudo? – ri. 

–É!  –  concordou  com  um  pouco  de  irritação  – Olha,  eu  sei  que  as  mulheres  precisam  de  ajuda,  principalmente  as  mães, mas a minha exagera.     


–Pode ficar tranquilo. – peguei sua mão e sussurrei: – Aqui você está seguro. 

Rimos. Hat nos surpreendeu pulando no sofá e  pedindo carinho.  –Esse gato deve ser treinado. – Ben franziu o cenho. 

–Por que? – acariciei minha bolinha de pelo.   

–Você só segurou minha mão e ele pulou no meio da gente.   

–Ele só  quer  carinho.  –  sorri  ao  ouvir  Hat  ronronando com satisfação.  –Ok,  então.  –  meu  amigo  se  levantou  –  Vou  me  arrumar para ver se o Tocantins tem mesmo um shopping.  Tentei  fazer  cara  feia,  mas  a  personalidade  divertida  de  Ben  era  invencível,  você  sempre  acabaria rindo com ele ao  seu lado.  –Você  vai  adorar  o shopping. – assegurei – Ah, quase  esqueci!  Convidei  Dante  e  Maria  para  ir  com  a  gente,  tudo  bem?  –Sim. Quanto mais gente, melhor. 

Ben  se  virou  e  subiu  antes  de  ver  meu  sorriso  contente.  Respirei  fundo  e  fui  me  arrumar.  Fiquei  tentando  colocar 


minhas roupas  “antigas”,  mas  tinha  prometido  a  mim  mesma  que  ficaria  da  mesma  forma  que  Nicholas  havia  me  deixado.  Coloquei  uma  calça  jeans  e  uma  blusa  com  estampa  floral  verde. Peguei minhas rasteiras douradas e coloquei-as. Evitaria  dores  no  pé  e  combinava  perfeitamente.  Assim  que  desci  encontrei Bem acompanhado de Dante e Maria.  –Oi! – sorri. 

Maria retribuiu com um sorriso fraco e um aceno. 

–Oi. – Dante respondeu – Eu liguei para o sr. Fontelle  e pedi o carro emprestado.  –Não precisava. – peguei minha bolsa na estante –  Nós íamos de ônibus.  –Alice... – minha amiga me lançou um olhar que só eu  entendia.  –Ok. – suspirei – Vamos logo. 

Caminhamos  até  o  lado  de  fora. Tranquei a casa após  checar  se  Hat  estava  deitado  em  sua  casinha.  Dante  e  Maria  pareciam  distantes.  Tentei conversar com ela no banco de trás  no  caminho  até  o  shopping,  mas  tudo  que  obtive  foram  respostas  vagas.  Enquanto  isso,  Ben  e  Dante  conversavam  como  se  já  se  conhecessem  há  anos.  Ignorei  o  silêncio  de  Maria  e  fingi  não  ver  que  ela  e  Dante  sequer  se  falaram  durante todo 


nosso passeio.  Até  Ben  tinha  percebido  que  algo  entre  eles  estava  indo  mal.  Mesmo  com  o  clima  pesado,  conseguimos  curtir  a  noite.  Antes  de  voltar  para  casa  paramos  para  tomar  açaí,  o  que  me  lembrou  das  inúmeras  vezes  que  Nicholas  havia  me  levado  ali  e  ficava  indignado  quando  eu  preferia  tomar sorvete porque achava o sabor do açaí forte. Sorri.  –Tudo bem, amiga? – Maria perguntou abrindo o  freezer.   

–Sim. –  terminei  de  pegar  meu  sorvete  –  Só  estava  lembrando do Nicholas.  –Como sempre. – brincou. 

–É. 

O  clima  na  mesa  parecia  mais  suave, apesar de Dante  estar mais calado. Como estávamos próximos de onde morava  disse  que  eu  e  Ben  voltaríamos  andando.  Maria  queria  contestar,  mas  insisti.  Sabia  que  meu  amigo  detestava  caminhadas  além  do  trajeto  quarto-cozinha-sala  e  vice-versa,  mas os dois precisavam conversar.  –Cuidado.  –  Maria  me  abraçou  forte  – Sei que você é  valente  e  tem  o  Ben  ao  seu  lado,  mas  a  preocupação  nunca  é  demais.     


–Pode ficar tranquila, amiga. – afastei-me para olhar em seus olhos – Nos vemos amanhã?  –Sim. – sorriu – A gente se vê. 

Dei  um  abraço  rápido  em  Dante  e  chamei  Ben.  A  caminhada até minha casa foi silenciosa. Assim que chegamos,  Hat  veio  exigir  atenção.  Peguei-o  no  colo  e  subi  para  meu  quarto.  Ao  deitar  com  minha  bolinha  de  pelo  muito  carente,  voltei  a  sentir  a  enorme  saudade  que  tentara  reprimir  durante  aquele  dia.  Peguei  meu  celular  e  calculei o fuso horário. Eram  quase duas da manhã em Londres. Suspirei frustrada.  –Ei... – Ben parou na porta – Tudo bem? 

–Sim. – sentei-me – Só queria que ele ligasse. 

–Por que você não liga? – ele se aproximou – Acho  que os telefones da Inglaterra não são difíceis de discar.  –Eu pensei nisso, mas tem um tal fuso horário que não  ajuda, sabe?  –Ah!  –  segurou  minha  mão  –  Vai  chegar  o momento  em  que  vocês  vão  encontrar  maneiras  de  encaixar  as  diferenças de horário.  –Tente lidar com a diferença de continente. – brinquei.     


Ben começou  a  rir,  mas  no  instante  seguinte  gritou.  Hat  estava  arranhando  o  braço  dele.  Peguei  meu  gato  e  me  levantei. Meu amigo esfregava o braço cheio de arranhões.  –Esse gato foi treinado! Não é possível! 

–Pare  de  implicar  com  ele.  –  coloquei  Hat  no  chão –  Ele  só  não  está  acostumado  com outras pessoas além de mim  ou o Nicholas.  –E  aí  eu  que  sofro  as  consequências  pelo  gato  antissocial?  –Não. – tentei não rir. 

–Espero  que  eu  volte  vivo  para  Brasília.  –  levantou  murmurando  –  Ou  você  vai  conhecer  minha  mãe  numa  versão nada legal.  Não  segurei  o  riso.  Ben  suspirou  e  saiu  do  quarto.  Hat foi correndo atrás dele.  –Aqui não, monstro! – ouvi meu amigo gritar – Alice! 

–Boa noite, Ben! – respondi antes de fechar a porta. 

Depois  de  trocar  meu  pijama  e  escovar  os dentes, caí  na  cama.  Dois  dias.  Se  em  dois  dias  estava  me  sentindo  completamente  deplorável,  como  estaria  depois  de  um  mês?  Ou depois dos seis meses? Tentei afastar aqueles pensamentos     


e me  focar  nas  férias.  Ainda  tinha  Maria  e  Dante  para  me  ajudar  nos  seis  meses  seguintes.  Bem,  mais  a  Maria  que  o  Dante.  Ele  ainda  era  um  pouco  distante  de  mim,  mas  tínhamos  “uma  amizade”.  De  qualquer  forma,  minha  amiga  estaria ao meu lado.         

–Vamos logo, Ben! – gritei – Enzo não vai esperar  para  sempre.   

–Já vou!

Suspirei.  Era  aniversário  de  Carol  e  a  turma  do  colégio  resolvera  se  reunir,  mesmo  que  alguns  estivessem  viajando.  A  comemoração  toda  tinha  sido  feita  por  Rebecca  que  ainda  conseguira  permissão  para  usar  a  casa  do  namorado.  Chequei  meu  celular mais uma vez. Nicholas tinha  me  ligado,  mas  meu  celular  estava  no  silencioso  e  só  fui  ver  horas depois quando estava me arrumando para a festa.  –Você  sabe  que  olhar  fixamente  para  o  celular  não  faz com que ele ligue. – Bem chegou de surpresa.  –Estamos  atrasados  por  sua  culpa.  –  peguei  minha  bolsa – Isso eu sei.     


–Não me  faça  colocar  a  culpa  no  seu  gato  maníaco  novamente.  –  tentou  se  defender  –  Eu  posso  contar  a  todo  mundo de quem são esses arranhões.  –Ben, ele estava parado do lado da porta do banheiro.  Não  é  como  se  estivesse  bloqueando  a  passagem  para  você  entrar. – disse quando já estávamos do lado de fora.  –Ele  estava  planejando  me  atacar!  Eu  vi  o  olhar  assassino naqueles olhos felinos!  Balancei  a  cabeça  e  ri.  Terminei de trancar o portão e  entramos  no  carro  de  Enzo.  Lari  estava  no  banco  do  passageiro, então Ben e eu fomos no banco traseiro.  –Tem  falado  com  Nicholas?  –  minha  amiga  perguntou depois que todos se cumprimentaram.  –Não  muito.  –  olhei  para minhas mãos – Os horários  não estão batendo para podermos conversar.  –Ainda  não  entendo  porque  vocês  não  conversam  por  mensagem.  –  Enzo  balançou  a  cabeça  inconformado  –  Os dois tinham que insistir em conversar por ligação.  –Desculpe  se  eu  prefiro  ouvir  a  voz  do  meu  namorado  e  não  ler  palavras  na  tela  do  celular.  –  levantei  minhas mãos em tom de brincadeira.     


–Você sabe  que  seria  mais  fácil  se  vocês  usassem  Whatsapp.  –  ele  encontrou  meu  olhar  pelo  retrovisor  –  Sabe  que sim.  –Eu  sei,  Enzo.  –  suspirei  –  Só  que  tem  muita  coisa  para  ele  viver  lá  e  se  eu  o  prender  vinte  e  quatro  horas  no  celular vou estar privando-o de viver tudo.  Todos  ficaram  em  silêncio.  Não demorou muito para  chegarmos.  Enzo  e  Ben  desceram  primeiro.  Antes  que eu me  movesse para sair, Lari se virou e disse:  –Vai ficar tudo bem, amiga. 

Sorri para ela tentando segurar as lágrimas. 

–Ok,  se  você  contar  para  alguns  dos  meus  irmãos ou  pro  Enzo  que  estou sendo amável, eu te bato. – brincou antes  de sairmos do carro.  Caminhei  com  Lari  de  braços  dados  para  dentro  da  casa  de  Hilton.  Eu  tinha  péssimas  lembranças  daquele  lugar,  mas  as  mantive escondidas. O importante era me divertir com  meus  amigos  e  não  ficar  remoendo  o  passado.  Encontramos  Enzo  e  Ben  conversando  com  Carol, a aniversariante. Depois  de  abraça-la e entregar seu presente, senti alguém me puxando  em meio ao amontoado de gente. Era Ben.  –O que foi, criatura?     


–Você não me avisou que tinha colegas tão...

–Olha a língua! 

–...bonitas! – sorriu. 

–Você nunca perguntou. – dei de ombros. 

Ben  abriu  a  boca  para  falar,  mas  ele  estava  num  estado  entre  raiva  e  nervosismo  que  o  impediu.  Enquanto ria  do  estado  de  choque  dele,  vi  Dante  chegando. Ele encontrou  meu olhar e se aproximou.  –Oi! – sorri. 

–Oi. – respondeu friamente. 

Dante  passou  por  mim  e  foi  até  Carol.  Fiquei  em  choque,  assim  como  Ben  e  todos  que  viram  como  ele  tinha  sido  grosseiro.  Depois  de  dar  o  presente  dela  e  desejar  feliz  aniversário,  Dante  saiu  para  a  área  externa. Juntei toda a raiva  dentro de mim e fui atrás dele.  –Espera! – gritei – Você e eu temos que conversar! 

–Hoje não, Alice. – parou e me olhou sobre o ombro. 

–Hoje  sim,  Dante!  –  parei  frente  a  frente  com  ele  –  Eu  quero  saber  porque  você  me  tratou  daquela  forma.  Na  verdade  eu  exijo  saber!  Ninguém  merece  ser  tratado  com  grosseria! E   


cadê a Maria? Você também tratou ela mal e por isso ela não veio?  –Maria se foi! – gritou como se tirasse um peso das  costas.   

–O que?

–Ela  se  mudou  hoje  pela  manhã.  –  abaixou  o  tom de  voz  –  Tem  algum  tempo  que  descobri  que  o  pai  dela  ia  ser  transferido para um banco em outra cidade.  –E  por  que  ela  não  contou  nada para mim? – senti as  lágrimas brotarem.  –Eu  disse  para  ela  contar,  mas  não  a  convenci.  –  sentou-se  em  um  dos  bancos  do  jardim  –  Ela  queria  manter  isso em segredo até o dia em que fosse.  –Mas e vocês dois? – sentei-me ao seu lado. 

–Nós  dois...  –  soltou  um  riso  angustiado  –  Simplesmente não existe mais “nós dois”.  Seus olhos escuros encontraram os meus e pude ver o  quanto  ele  estava  magoado.  Eu  sabia  que  era  difícil  terminar  um  relacionamento  e  que  nos  primeiros  dias  parece  que  nada  poderá te fazer esquecer.     


–Ela... – desviei o olhar – Ela nem pensou em continuar, mesmo à distância?  –Não. Maria já viveu dois relacionamentos assim e os  dois não deram certo. Então...  –Então vocês não iam dar certo também. – conclui. 

–Exatamente. 

Ficamos  em  silêncio  por  alguns  minutos.  Pensar  que  minha  melhor  amiga  tinha  ido  embora  sem  se  despedir  era  péssimo.  Pior  ainda  era  pensar  em  Dante  sendo  deixado  daquela  forma.  Eu bem sabia que era complicado passar pelos  primeiros  dias,  principalmente  sem  o  apoio  dos  amigos.  Não  ia  permitir  que  ele  deixasse  a  tristeza  o  consumisse.  Já  estava  longe de Nicholas e tinha perdido Maria.  –Ok! – levantei com meu melhor sorriso animador –  Vamos voltar para festa. 

–Eu acho melhor não... 

–Você  acha  uma  ideia  incrível!  –  puxei-o  pela  mão  –  Vamos  voltar  para  festa,  entupir  você  de  refrigerante  e  brigadeiro,  dançar  feito  bêbados  e  aí  sim  você  pode  ir  para  casa chorar e ouvir Adele.  –Alice. – ele nos fez parar – Eu vou ficar bem.     


–Eu sei.

–Então pare de tentar cuidar de mim! Era para eu estar  tomando conta de você, como Nicholas pediu.  –Você  precisa  estar  bem  para  tomar  conta  de mim. –  argumentei  –  Então,  como  sua  amiga,  vou  garantir  que  isso  aconteça o mais rápido possível.  –Você não existe! – balançou a cabeça. 

–Claro que existo. – belisquei seu braço – Viu? Sou  bem ​existível​.  Ele riu e, surpreendentemente, abraçou-me. 

–Obrigado. 

           

–Então quer  dizer  que  hoje  você  vai  para  mais  uma  festa,  ressaltando  que  é  a  terceira  nessa semana, enquanto seu  namorado  vai  ficar  quietinho  no  dormitório  dele?  –  Nicholas  riu.  –Sim. – continuei a revirar meu guarda-roupa – Mas  você sabe que é por uma boa causa.     


–Sinceramente, acho que Dante está ótimo e essas saídas são puramente para sua diversão. – seu tom era sério.  –O que? 

–Eu  tô  brincando!  –  defendeu-se  –  Quero  que  você  se  divirta  sim  e  se  estiver  com  seus  dois  seguranças  eu  fico  mais tranquilo.  –Tá falando do Ben e do Dante? – ri – Acho melhor  rever seus conceitos sobre eles como protetores.  –E por que isso? 

–Digamos que um deles

está completamente

apaixonado e o outro muito ocupado com a bad eterna. –O Ben tá apaixonado? 

–Sim, pela Carol. – sentei-me na cama – Os dois têm  saído muito desde o aniversário dela.  –E o que você acha disso? 

–É bom. 

–Mas? 

–Mas  só  acho  que  ele  tem  que  tomar  cuidado.  Ele  mora  em  Brasília  e  ela  aqui.  Você  sabe que relacionamentos à  distância são complicados.     


–Alice...

–Não  vamos  começar  a  discutir  de  novo  sobre  isso,  Nicholas.  Por  favor.  –  suspirei  –  Eu  só  estou  morrendo  de  saudade e piora dia após dia.  –Não fala assim, Bob Esponja...  Não pude segurar o choro.  –Vai ficar tudo bem. – tentou me acalmar. 

–Espero que sim. – enxuguei minhas lágrimas –  Preciso me arrumar. A gente se fala amanhã, ok? 

–Ok. – senti um pouco de ressentimento em sua voz. 

–Eu te amo. – sussurrei. 

–Eu te amo, baixinha. – desligou. 

Voltei  a  vascular  meu  guarda-roupa  e  finalmente  decidi o que ia vestir. Coloquei um vestido preto de alças finas  com  um  pequeno  decote  nas  costas  e  no  busto.  Peguei  uma  sandália  de  salto  com  tiras,  preta  também.  Meu  cabelo  estava  em  um  dia  bom  e  o  deixei  solto.  Passei  um  batom  nude  rosado,  chequei  mais  uma  vez  no  espelho  se  estava tudo ok e  desci. Para minha surpresa, apenas Dante estava na sala.  –Oi. – sorri – Cadê o Ben?     


–Está no carro do Enzo com a Carol. – balançou a cabeça e riu – Os dois parecem que não vão se desgrudar mais.  –Viva o amor. – resmunguei. 

–Alice... – Dante se aproximou – O que aconteceu? 

–Seu amigo se foi. – senti as lágrimas ameaçarem  voltar  – Apenas isso. 

–Não fala isso. – segurou meus ombros – Você sabe  que ele volta.  –Mas como? Sabe que as pessoas mudam e  relacionamentos à distância não funcionam. – cruzei os braços  – A Maria sabia disso. 

–Ela nem tentou. É diferente. 

–O diferente é que ela evitou sofrimento, apenas isso. 

–Eu  não  estou  sofrendo?  – fixou seus olhos em mim,  claramente  irritado  –  Ela  me  deixou,  Alice.  Nem  tentou, pelo  menos.  Agradeça muito pelo Nicholas estar acreditando que o  que  vocês  sentem  é  maior  que  a  distância  entre  dois  continentes.  Dizendo isso, ele se afastou. Desviei o olhar e disse: 

–Desculpa. 

–Eu entendo, Alice. 


–Podemos esquecer  isso  tudo  e  ir  para  festa?  –  encontrei  seus  olhos  e  arrisquei  sorrir  –  Preciso  muito  me  divertir e dançar. Principalmente dançar.  Dante sorriu.   

–Espero que o Nicholas não saiba que deixei você sair assim.   

–Sério? –  puxei-o  pelo  braço  até  a  porta  –  Achei  que  você  soubesse  que  ninguém  além  de  mim  mesma  decide  como eu me visto.  –Ah claro! – riu e bateu a mão na testa dramaticamente  – Esqueci totalmente. 

–Bom  que  pude  relembrar  a  você.  –  empurrei-o  de  brincadeira para o lado de fora.  Tranquei  a  casa e entramos no carro de Enzo. Carol e  Ben  estavam  sentados no banco de trás, vivendo na “bolha de  amor”  deles.  Assim  que  entrei  do  lado  do  passageiro, Enzo –  que  chegara  de  viagem  no  dia  anterior  –  recebeu-me com um  sorriso  caloroso.  Ele  estava  cada  vez  melhor  desde que Lari e  ele  começaram  a  sair.  O  namoro  de  Teodora  o  afetara  drasticamente.  Minhas  suspeitas  eram  de  que  ele  ela  tinham  um  sentimento  além  de  amizade,  mas  que  outras  pessoas  acabaram impedindo que se revelasse.     


–E ai, gata? – Enzo deu a partida – Tá bonita!

–Obrigado. – sorri, sentindo minhas bochechas  corarem – Você também está bonito.  –Você sempre elogia os seus amigos assim? – Ben me  provocou.  –Só os que merecem. – retruquei. 

–Parece que alguém está de TPM, gente. 

Todos  –  exceto  eu  –  começaram a rir. Enquanto suas  risadas  ecoavam  em  minha  mente,  eu  me  dei  conta  de  que  o  comentário  de  Ben  me  fizera  lembrar  que  estava  atrasada.  Comecei  a  contar  mentalmente  os  dias  desde  que  Nicholas  havia  ido  para  Londres.  Se  minhas suspeitas estivessem certas  eu  teria  muita  coisa  para  decidir  nos  próximos  dias.  Fiquei  perdida  em  pensamentos  até  que  uma  batida  no  vidro  me  assustou.  Era  Dante  me  chamando para sair, pois já havíamos  chegado. Respirei fundo e abri a porta.  –Ei, você está bem? – seu olhar preocupado quase me  fez chorar.  “Ótimo”, pensei. “Agora estou tendo alterações de  humor.”  –Sim. – sorri e saí do carro – Estou ótima.     


–Alice...

–Vamos  logo.  –  puxei-o  pela  mão  –  Estamos  perdendo toda diversão.  Dante  e  eu  entramos  na  festa.  A  boate  era  a  mesma  que  meses  antes  tinha  encontrado  Nicholas.  Avistei  a  escada  que  levava  ao  bar  e  senti  meu  peito  doer.  Tinha  que  acabar  com  aquele  turbilhão  de  emoções,  mas  temia  que  tudo aquilo  seria  minha  única  maneira  de  manter  Nicholas  sempre  por  perto.     


CONTINUA EM 04/07/2017 

A garota ao meu lado - Laritza Oliveira.  

Alice nunca planejou morar sozinha aos dezessete anos nem se mudar para uma cidade completamente diferente, muito menos se apaixonar por Nic...

A garota ao meu lado - Laritza Oliveira.  

Alice nunca planejou morar sozinha aos dezessete anos nem se mudar para uma cidade completamente diferente, muito menos se apaixonar por Nic...

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