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Romances Históricos Madeline Hunter

O Sedutor

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Grupo de Romances Históricos Tradução e Pesquisa: GRH Revisão Inicial: Auxi Costa Revisão Final: Ana Paula G. Formatação e Arte: Tina Carloto

Nota da Revisora Auxi: Uma trama intrigante em que fiquei quase todo o livro pra descobrir qual o motivo da vingança que movia o Daniel contra todos aqueles homens. E o que a Diane tinha a ver com eles, o porquê de Daniel a querer mas não poder cair matando na mulher. Segredos, segredos e muito desejo, oculto é claro, uma incompreensão desse desejo afinal mocinha que se preza criada em orfanato não sabe o que é aquela sensação.....

Nota da Revisora Ana Paula G. Apesar de ser regência, gostei do romance. Cheio de intrigas e suspense.O herói e bem dominador, do tipo que eu gosto e a heroína não fica atrás.

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E depois , o clima de suspense fazendo a gente se perguntar quais as motivações que fazem o herói buscar vingança...prende a atenção!

Resumo A jovem Diane Albert viveu virtualmente toda sua vida

encerrada

Despojada

de

em toda

um

internato

família,

da

para

qual

senhoritas.

tinha

poucas

lembranças, a única visita que recebia anualmente é a de seu tutor Daniel Saint John. Depois de seu último encontro, Saint John decide tirar a jovem do internato e levá-la para sua casa, e para evitar falatórios, faz com que a moça passe Madeline Hunter – O Sedutor

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por sua prima. Diane será transformada por seu tutor em uma jovem e atrativa dama da alta sociedade, embora ignore que tudo faça parte de um perverso plano esboçado por seu protetor como vingança de um passado escuro. Entretanto,

o

calculador

Daniel

não

considerou

a

possibilidade que a beleza e personalidade de Diane fossem capazes de derreter seu frio coração. E, por sua má cabeça, agora está envolto em uma espiral de desespero causada pelos ciúmes.

Capítulo 1 1818

O Diabo tinha chegado. Madame Leblanc havia ameaçado de buscá-lo e, pelo visto, tinha feito. Diane observou como a carruagem reduziu a velocidade e parou ante a entrada do internato. Verde e dourado, com abundante ornamentação, puxada por quatro corcéis brancos. Era uma carruagem digna de um príncipe.

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O homem nem sempre aparecia com tanto estilo. Algumas vezes chegou a cavalo, e em certa ocasião a pé. Houve um ano em que nem sequer fez sua costumeira visita. Madame Leblanc esteve então a ponto de enviar Diane ao orfanato dominicano para pobres, mas uma mulher apareceu bem a tempo e pagou sua manutenção por uma longa temporada. O estomago de Diane fez um nó. O tutor acostumado a fazer uma única visita anual e por obrigação não sentiria nenhum prazer em ser chamado por causa de um desastre. O valente plano que tinha esboçado de repente pareceu impossível. Enfrentada com o inevitável, chegou à conclusão de que o destino proporcionava um futuro que parecia ser incapaz de enfrentar por si só. Enquanto contemplava a carruagem, sua frágil coragem a abandonou. O santuário do internato poderia resultar solitário e pequeno, mas era seguro. A busca que a convocava poderia esperar. Possivelmente com o tempo poderia inclusive ser ignorada. O Diabo desceu da carruagem, resplandecente em uma capa azul meia-noite e com botas altas. O vento soprou através de seu cabelo escuro. Não levava chapéu. Nunca usava chapéu. Nem sempre tinha aquele aspecto de tanta opulência. Ela recordava vagamente anos no qual aparecia com um estilo quase rústico. Houve uma época, fazia muitos anos, em que ela acreditava que ele estava doente. Rico ou pobre, seus encontros seguiram sempre o mesmo curso. Ele jogava um breve olhar e fazia suas perguntas. Estão tratando bem você? Tem alguma queixa? Está aprendendo bem suas lições escolares? Quantos anos têm agora? Não importavam as respostas. Ela sempre dizia o que ele queria ouvir. Salvo em uma ocasião. Açoitada por uma transgressão que não havia cometido e a humilhação seguia muito viva no momento de sua visita. Impulsivamente, queixou-se a ele. Incrivelmente após nunca mais

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recebeu açoites. Antes de partir, para grande frustração de madame Leblanc, ele tinha proibido. Ela não poderia ser castigada fisicamente sem seu consentimento. Era por isso que hoje o tinham chamado. Com seus grandes passos aproximou até a entrada. Ela mal conseguiu jogar uma olhada em seu rosto, mas viu o suficiente daquele semblante severo para não ter dúvidas de quem era. — Se me denunciar eu matarei você. — O sussurro agudo tirou Diane de seus pensamentos. Girou rapidamente. Madame Oiseau, a professora de música, a olhava com ferocidade da porta que obstruía com seu corpo. Embora fosse magra e de baixa estatura constituía uma barreira eficaz. Seus olhos brilhavam como dois carvões minúsculos em sua fina cara. Seu cabelo escuro estava despenteado, como se tivesse feito seu asseio matinal com pressa. — Não duvide Diane eu posso fazer. Aceita seu castigo, guarda silêncio, e serei sua amiga. Do contrário… — Elevou as sobrancelhas de maneira significativa. Uma rajada de frio deslizou através de Diane, como se acabasse de receber o fôlego do diabo em sua nuca. — Ninguém acreditará em você — disse madame. — E quando tudo terminar, nós duas seguiremos aqui. Você é o suficientemente preparada para fazer a eleição correta. — Abriu a porta. — Baixa quando chamarem você. Eu te acompanharei. Aturdida, Diane a viu partir. Jogou um olhar em torno do seu aposento espartano, procurando consolo nos objetos familiares. Sentia um estranho afeto pelo duro leito e a colcha antiga, pela cadeira de madeira e a singela escrivaninha. O armário precisava uma mão de pintura e a bacia rosada estava descascada depois de tantos anos. As comodidades eram escassas, mas o tempo havia feito do pequeno dormitório o centro de sua vida. Era o único lar que podia recordar. Ela imaginava a si mesma vivendo naquela quarto durante muitos anos ainda. Contente, embora sem ser feliz. Não era um futuro tão mau, diante do que tinha que enfrentar hoje, embora Madeline Hunter – O Sedutor

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madame Oiseau estivesse perto. A alternativa apresentou diante ela como um vazio sem fim, escuro e insondável. As perguntas de sempre começaram a importuná-la, despojando o parco consolo que a quarto dava. Perguntas procedentes de sua infância, pergunta que jamais tinha feito a ninguém e que jamais tinham recebido respostas. Quem sou eu? Por que vim parar aqui? Onde está minha família? Durante alguns anos deixou de se preocupar com essas coisas, mas recentemente as perguntas haviam retornado mais fortes e insistentes. Até chegar a converter em uma espécie de cântico silencioso que retumbava em algum oco de seu coração. As respostas não estavam ali. Descobrir a verdade significaria ter que abandonar aquele pequeno mundo. Só faltava agarrar a oportunidade que o destino havia proporcionado. Deveria fazê-lo? Deveria se colocar a mercê do Diabo?

***

—… Se não receber o castigo, devo insistir em que abandone o internato. Não posso permitir que a virtude de minhas moças seja corrompida… — Madame Leblanc divagava com tom severo. Distraído pensando no assunto que tinha deixado sem terminar em Paris, Daniel Saint John emprestou só a metade de sua atenção. Parecia que tratava de algo sobre um livro. É normal que a moça tivesse livros. Estava em um internato. Ele se forçou em prestar atenção a aquela professora grisalha e roliça, obtendo por fim parar o fluxo incessante de seus pensamentos. — A julgar pelas palavras com as quais insistiu que eu comparecesse ao internato, madame, tratava de um assunto sério. Por um momento acreditei que a moça tinha adoecido e estava à beira da morte. Madeline Hunter – O Sedutor

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Tinha sido uma estranha coincidência que a carta o encontrasse em Paris. Certamente não era sua intenção interromper sua visita à capital francesa para fazer essa viagem. Estava irritado que o tivessem incomodado por um assunto tão insignificante. — Se a moça tiver violado as regras, faça o que normalmente faz nestes casos. Eu pago você para que cumpra com seu dever. Não havia motivo para me fazer vir até aqui. Madame baixou seu queixo e o olhou com ira. — Esta transgressão requer mais que pão e água durante alguns dias, monsieur. E o senhor me deu ordens estritas de que não a castigasse com a vara sem sua permissão. — Ordenei eu isso? Quando foi? — Faz anos. Eu disse que semelhante indulgência terminaria mal, e agora podemos comprovar isso. Sim, tinha uma vaga lembrança da expressão intensa de uma menina com cara travessa que pedia justiça. Não recordava as instruções que tinha dado a respeito. Se imaginasse que resultaria tão condenadamente inconvenientes, não teria sido tão generoso. Endireitou-se na cadeira, disposto a anular a ordem. Seu olhar topou de repente com a vara de salgueiro colocada sobre a escrivaninha. Voltou à lembrança de uns olhos chorosos e uma voz quebrada que acusava madame Leblanc de uma brutalidade injustificada. — Você me disse algo respeito de um livro. Deixe-me vê-lo. — Monsieur, não é necessário. Asseguro que é de uma natureza que merece ser pelo menos proibida. — Isso poderia significar que não é mais que um volume de poemas de Ovídio, ou o tratado religioso de um dissidente. Eu gostaria de vê-lo e julgar por mim mesmo. — Não acredito que… — O livro, madame.

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A mulher caminhou rapidamente até um armário. Com uma das muitas chaves que tinha penduradas ao pescoço por uma corda, abriu-o e extraiu um pequeno livro vermelho. Com um gesto brusco passou ao homem e afastou para a janela. Dar as costas a seu interlocutor era sua forma de expressar corporalmente que condenava a literatura que ele sustentava entre as mãos. Ao abrir o livro ele compreendeu imediatamente por que. Não era literatura. De fato não havia palavras naquele livro. O magro livro continha unicamente lâminas que mostravam relações sexuais em toda sua criatividade. Folheou o livro. As primeiras posturas eram relativamente singelas, mas à medida que virava a página foram tornando cada vez mais atléticas. Para o final encontrou várias representações que pareceram totalmente inverossímeis. — Já vejo — disse ele fechando o livro de repente. — Em efeito. — O tom da professora assinalava que já tinha visto mais do que necessário. — Faça chamar à moça, madame. O rosto de madame Leblanc acendeu com satisfação. — Eu gostaria que você estivesse aqui quando proceder ao castigo. Ela deveria saber que você está de acordo. — Faça-a chamar.

Madame Oiseau acudiu junto a Diane. Tal como imaginava, um visitante esperava no escritório da diretora. O Diabo estava comodamente sentado na cadeira de madame Leblanc, atrás da escrivaninha de madeira de árvore frutífera. Madame permanecia de pé rigidamente a seu lado, um baluarte de censura. Dois objetos estavam estendidos sobre o escritório imaculado. Uma vara de salgueiro e aquele livro. Era habitual que Daniel Saint John mal olhasse para Diane. Parecia um pouco zangado e muito aborrecido. Ela quase esperava vê-lo bocejar e tirar sua caixa de rapé. Madeline Hunter – O Sedutor

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Em realidade não parecia um diabo. Ela tinha dado esse nome quando era uma menina devido a seus olhos. Escuros e intensos emoldurados por sobrancelhas igualmente escuras e arqueadas. Uns olhos que poderiam queimá-la por dentro se ele a olhasse com atenção. Mas posto que nunca parecesse prestar atenção nela já não os encontrava tão terríveis. Sua boca estava fixada em uma linha reta, dura e cheia, mas sempre era assim. Inclusive quando sorria só curvava o suficiente para sugerir que o que parecia ser uma divertida piada privada. Aquela boca, junto aos olhos e o rosto cinzelado, davam-lhe um aspecto cruel. Talvez fosse. Ela não podia saber. Não obstante, suspeitava que as mulheres o achassem bonito, talvez inclusive achassem atrativa sua aspereza. Tinha visto como madame Oiseau avermelhava e ficava perturbada em sua presença. Não era tão grande como uma vez tinha pensado. Parecia ter rejuvenescido enquanto ela amadurecia. Percebeu que não podia ter mais de trinta anos. Isso resultava estranho. Tinha sido um adulto durante toda a vida dela, e deveria ser maior. Era fácil esquecer quão duro podia parecer. Cada ano, os meses arrojavam uma neblina sobre sua memória. Ao vê-lo agora, compreendia que seu plano tinha sido uma estupidez. Ele nunca assumiria um inconveniente tão grande, e ela seria abandonada à espera da vingança de madame Oiseau. — Monsieur foi informado de seu comportamento vergonhoso — entoou madame Leblanc. — Como era de esperar, está escandalizado. Ele ensaiou um de seus sorrisos sardônicos diante da descrição de sua reação. Deu uns golpes ao livro com um dedo: — Há alguma explicação? Madame Oiseau aproximou de Diane, como uma lembrança física de sua ameaça. Madame Leblanc a olhava com raiva, desafiando-a que formulasse desculpas. O Diabo aparentava, como sempre, indiferença. Queria que aquilo terminasse quanto antes para poder ir embora. Madeline Hunter – O Sedutor

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Diane fez sua eleição. A eleição segura e covarde.

— Nenhuma explicação, monsieur. Ele levantou seus olhos para ela, repentinamente atento. Durou só um instante. Depois recostou na cadeira e fez um gesto impaciente em direção madame Leblanc. As duas mulheres preparavam a quarto para o castigo. Um genuflexório foi colocado no centro da quarto. Em frente, uma cadeira foi colocada a empurrões. A diretora levantou a vara de salgueiro e fez gestos à pecadora para que assumisse a postura adequada. O Diabo simplesmente ficou sentado, perdido em seus pensamentos, olhando fixamente o escritório, fazendo caso omisso da atividade. Ele ia ficar. Madame Leblanc tinha insistido em que fosse testemunha. Diane sabia que permanecer ali significaria suportar o castigo. Madame Leblanc acreditava firmemente que os pecados merecem açoites e não reservava a vara só para suas alunas. Alguns meses atrás tinha surpreendido uma criada mais velha que saía às escondidas para se encontrar com um homem e esta teve que receber a mesma justiça. Vermelha diante a humilhação e rezando para que ele permanecesse distraído, Diane aproximou do genuflexório. Ajoelhou sobre a almofada, inclinou seus quadris sobre o fofo apoio dos braços da cadeira e agarrou o assento para manter o equilíbrio. Madame Oiseau levantou cerimoniosamente à saia de seu vestido feito com tecido de saco. Madame Leblanc fez a exortação acostumada para que rogasse perdão. A vara desceu sobre seu traseiro exposto. Voltou a descer. Ela apertava os dentes contra a dor, sabendo que era fútil. Sabia que a açoitariam sem misericórdia até que implorasse o perdão do céu. — Basta. — A voz rasgou a tensão do quarto. Madame Leblanc bateu um último golpe. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Já disse basta! — Monsieur, o débito… — Deixe-o já. E saia. Diane fez um esforço para começar a levantar. Madame Oiseau a obrigou a inclinar-se outra vez. — Parece que seu tutor está tão enfurecido que sente compelido ele mesmo a distribuir o castigo, madame Leblanc — afirmou em tom untuoso. — É apropriado tratando de um pecado desta índole, não? Madame Leblanc se debatia resmungando. Madame Oiseau deu a volta ao genuflexório. As duas mulheres abandonaram o quarto.

Ela ouviu quando ele levantava e caminhava para ela. Desejava que fizesse o mais rápido possível. Aceitaria gostosa qualquer dor simplesmente para acabar quanto antes com a humilhação que sentia, nessa postura, meio nua. A saia caiu revoando. Uma mão firme agarrou seu braço. — Levante. Ergueu-se e alisou seu vestido. Agüentando sua indignação, o enfrentou. Ele voltou a sentar atrás da escrivaninha. Já não estava aborrecido. Permanecia claramente atento. Ela retorceu sob o olhar escuro de seus olhos. — De onde o tiraste? — perguntou assinalando o livro. — Acaso importa? — Eu diria que sim. Coloquei-te em um internato que é quase de clausura. Fico curioso que tenha podido conseguir algo assim. A ameaça de madame Oiseau retumbava em seus ouvidos. Ela seria capaz de fazê-lo. Seria capaz de matar. E quando ocorresse o Diabo faria o mesmo. Estaria agradecido de poder economizar uma viagem cada ano. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Roubei-o. — O roubou a um vendedor de livros? — Roubei e madame Leblanc o encontrou entre meus pertences. Isso é quão único importa. Segundo madame, as desculpas e explicações só pioram o pecado. — Isso diz? Vá estupidez. Entende por que madame escandalizou tanto ao ver que tinha este livro? — As mulheres estão nuas, assim suponho que trata dos pecados da carne. Aquilo parecia diverti-lo, como se tivesse ocorrido uma resposta inteligente, mas preferisse guardar para si mesmo. — Acredito que roubou este livro, mas me parece que o roubou de alguém daqui. Talvez madame Leblanc? Ela negou com a cabeça. — Já me parecia isso. Foi à outra, não? A que estava tão contente de te deixar a sós comigo. —Cravou nela seus olhos. — Agora me diga isso. Ela duvidou. Ele preocupava em realidade muito pouco por ela. Aquela era a primeira vez em anos em que tinha chegado a olhá-la de verdade. Não cabia dúvida de que agora a estava olhando. Claramente. Profundamente. Fez com que sentisse incômoda.

Aquela vez em que ela se queixou ele a ajudou. Possivelmente se agora o dissesse, consentiria em guardar silêncio e tudo poderia seguir como antes. Ou talvez, se ele queixava, madame Leblanc acreditaria e madame Oiseau seria despedida.

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Algo em sua expressão indicava que chegaria à verdade, de uma maneira ou outra. Um pouco decidido, quase desumano, ardia nesses olhos de diabo. Gostava muito mais quando parecia aborrecido e indiferente. — Você adivinhou pertence à madame Oiseau — disse. — Esteve mostrando a uma jovem moça, que não tem mais de quatorze anos. A moça contou como madame Oiseau descrevia as riquezas que poderia conseguir uma mulher que fizesse essas coisas. Fui ao aposento de madame e o agarrei. Estava procurando uma maneira de jogá-lo à lareira, mas madame Oiseau declarou que tinha perdido um alfinete e registraram todos os aposentos. No meu encontraram o livro. — E nunca encontraram o alfinete, não é certo? — Assim é. Entrecerrando os olhos enquanto seu olhar a percorria, parando em seu rosto. Estava tentando decidir se ela havia dito a verdade. — Quantos anos você tem agora? A pergunta de todos os anos, nesse momento, surpreendeu-a. — Dezesseis. — Falou de sua amiga de quatorze anos como se fosse uma menina. — Atua como se tivesse menos idade. Esquadrinhou-a. Nunca havia olhado-a durante tanto tempo e de modo tão meticuloso. Ninguém o tinha feito jamais. — Eu há coloquei aqui quando, faz dez anos? Doze? Foi justo depois de… Foi uma menina então, mas não uma menina tão pequena. — Seus olhos encontraram diretamente com os dela. — Quantos anos têm? Seu ridículo plano estava desdobrando apesar de sua covardia. Só que agora já não o queria. — Dezesseis. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Eu não gosto que as jovens tentem burlar de mim. Parece que se soltarmos seu cabelo dessas tranças infantis e a vestimos com algo distinto a esse saco, saberemos a verdade. — A verdade é que tenho dezesseis anos. — Ah, sim? Agrada, então, minha curiosidade. —Assinalou para sua cabeça. — O cabelo, solte.

Enquanto amaldiçoava a si mesma por ter atraído sua atenção, arrancou as fitas das pontas de suas tranças. Desfazendo-as e penteando com seus dedos, soltou o cabelo. Caiu em ondas em torno de seu rosto e sobre suas costas. Os penetrantes olhos dele tornaram mais quentes. Isso podia tê-la tranqüilizado, mas teve o efeito contrário. Um arrepio percorreu suas costas. — Quantos anos você tem? — Falava mais baixo agora, sem aquele fio duro em sua voz. Ela estava realmente preocupada. — Dezesseis. — Estou seguro de que não. Suspeito que chegaste à conclusão de que convém mentir. Mas vamos acabar com isso. O vestido, mademoiselle. — O vestido? — Sim, o vestido. Tire-o.

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Capítulo 2

Diane estava em frente a ele, seu cabelo castanho caía como cascata em torno de seu corpo ágil. Seus lábios separavam, confundidos, e seus olhos melancólicos aumentaram por culpa do susto. Com uma expressão assim, parecia quase tão jovem como afirmava ser. — Tire isso — repetiu ele. — Não pode deduzir minha idade... já tenho dezesseis anos… — Uma mulher não alcança toda sua maturidade a uma idade tão temprana. Há uma diferença entre a voz de uma moça e a voz de uma mulher, e a tua tem uma ressonância amadurecida. Também há uma diferença em seus corpos, sobre tudo nos quadris. As formas que antes vi me pareceram muito arredondadas para uma moça de dezesseis anos. Tire a roupa para que possa comprovar se minha impressão passageira foi correta. Sua cara cobrou um tom profundamente vermelho. Faíscas de indignação relampejaram em seus olhos escuros. Ele quase esperava que ela começasse a se despir e jogasse por terra sua conjetura. Mas o fogo desapareceu e o olhar de Diane esfriou. De repente a moça recordava a seu pai. Não havia motivos para que isso devesse incomodá-lo, mas sempre que ocorria incomodava; imediatamente perdeu interesse no jogo que tinha iniciado com ela. — Tenho vinte anos.

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O tom não era o de alguém que acabasse de ser vencido. Mas bem sugeria que tinha chegado a uma decisão. Ele sentiu a necessidade de proceder com cautela. — Sabe madame Leblanc sua verdadeira idade? — Nunca perguntou minha idade quando vim. Eu era pequena e não tinha ido à escola, assim que me colocaram com as moças mais jovens. Entretanto, ela sabe somar os anos. — Mas nunca abordou o assunto de seu futuro comigo.

— Não a interessava fazê-lo. Você seguia pagando a matrícula. Eu superei os cursos mais rápido que a maioria. Faz três anos que passei à parte dianteira da sala de aula e comecei a ensinar o que tinham me ensinado. — Muito conveniente para madame Leblanc. Entretanto, você tampouco quis tratar o tema. De fato antes mentiu a respeito, e acaba de fazê-lo outra vez. — Vi que as moças partem ao fazer dezoito anos. Não acreditava que me deixasse ficar se sabia que tinha alcançado a idade. Assim quando me perguntava, eu dizia a mesma idade durante vários anos seguidos. Daniel percebeu que tinha sido muito preparada. Mais preparada do que poderia esperar de uma jovem. Ele fazia as viagens anuais a aquele internado com um escuro ressentimento que inquietava sua alma. Servia de agudos avisos de deveres negligenciados e necessidades profundas, a passagem do tempo e de buscas não cumpridas. Sua responsabilidade naquele lugar lhe recordava que não haveria paz até que terminasse com o que anos antes tinha iniciado. Inclusive quando falava com ela cada ano naquele quarto, ocultava a maior parte de seus pensamentos. Ela tinha interpretado seu devaneio como indiferença e tinha tirado proveito disso. Madeline Hunter – O Sedutor

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Agora ela ruborizava de forma encantadora ao admitir sua culpabilidade. — Peço perdão pelo engano, mas este é o único lar que conheci. Tenho amigas aqui, é um pouco parecido com uma família. Lar. Família. Uma breve e melancólico sorriso acompanhava essas palavras. Tinha estado disposta que a açoitassem para poder conservar o pouco que tinha de ambas as coisas. Ele por sua parte, em seguida lamentou ter dado rédea solta a sua curiosidade. Ao contemplar o belo rosto de Diane, esqueceu quem era. Durante uns momentos ali havia um homem que jogava com uma mulher atrativa e desfrutava muito com seu mal-estar. — Esqueceremos esta conversação, mademoiselle. Pode ficar aqui. Não diremos nada de sua verdadeira idade, e seguirei pagando sua matrícula. Com o tempo, é provável que madame Leblanc comece a te compensar por seus deveres e ocupe oficialmente a sala de aula. Ela deu voltas pela quarto, distraidamente, tocando a vitrine da estante e o veludo do genuflexório. — Resulta tentador, não o nego. Mas o livro… madame Oiseau… Já não pode ser igual. Às vezes os acontecimentos conspiram para te obrigar a fazer o que deve fazer. — Seu perambular a conduziu de volta à frente da escrivaninha. — Não, teria que haver ido deste lugar faz muito tempo. Entretanto, devo pedir sua ajuda. Tão somente uma pequena ajuda, o prometo. Sou uma boa professora, domino os temas exigidos a uma preceptora. Se pudesse me ajudar a conseguir um emprego, estaria agradecida. — Suponho que será possível. Conheço famílias em Paris que… — Preferiria Londres. Disse com tal rapidez e firmeza que ele de repente ficou em tensão. Quanto recordava?

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— Acredito que poderei conseguir melhores condições em Londres — continuou ela. — Acreditarão que sou francesa. Isso deveria servir de algo. Acreditarão que sou francesa. Evidentemente tinha recordado o fundamental. — Paris seria mais fácil. — É preciso que seja Londres. Se não me ajudar, conseguirei isso sozinha. Imaginava ela chegando a Londres, desprotegida e sem supervisão. Ela arrumaria problemas tão rápido. E no final o meteria em problemas também. — Não posso permiti-lo. — O que você esteja disposto ou não a permitir não tem importância, monsieur. Estou neste internado graças a sua caridade, já sei. Mas tenho idade suficiente para que você já não tenha mais obrigações comigo, e eu tampouco com você. Se os acontecimentos me obrigaram a mostrar coragem, então serei valente. Devo encontrar meu próprio caminho, e tenho a intenção de fazê-lo em Londres. Devo encontrar meu próprio caminho. Sua cautela intensificou como o fio de uma espada. Como acontecia freqüentemente, isto produziu uma atitude de alerta mental que instantaneamente o ajudou a clarear certas coisas. Sua mente estava acostumada a transformar ordenadamente qualquer complicação inesperada em uma oportunidade. Uma que poderia aliviar a necessidade e concluir a busca. A oportunidade estava ali diante dele, esperando uma resposta. Orgulhosa. Decidida. Mas de maneira nenhuma tão confiada como aparentava. De maneira nenhuma tão valente. Às vezes os acontecimentos conspiram para obrigar você a fazer o que deve fazer. Isso era certo.

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Quanto ela recordava? Não tinha importância. E se esperava como ele suspeitava inteirar de tudo, tudo teria terminado antes que ela chegasse apenas a estar perto da verdade. Por agora ele podia vigiá-la.

Prestou atenção a sua agilidade e ao corpo que se deixava intuir vagamente através do tecido do vestido. Imaginou levando um vestido pálido à última moda. Um objeto que a fizesse atrativa e ao mesmo tempo recatada. O cabelo recolhido e uma única e delicada jóia luzindo em seu pescoço, além desses olhos melancólicos olhando-o desde seu rosto de porcelana, sem maquiagem. Jovem e encantadora. Fresca e vulnerável, mas sem ser uma estúpida colegial. Sim, ela serviria. Esplendidamente, além disso. — Falarei com madame Leblanc e explicarei que partirá hoje comigo. Falaremos dos detalhes respeito a um emprego quando chegarmos a Paris.

Diane dobrava seus poucos objetos e os amontoava na mala que monsieur Saint John tinha ordenado subir de sua carruagem. Eram muito infantis para uma preceptora. Teria que encontrar algum modo de reparar isso. Da pequena gaveta de sua minúscula mesa de escrever tirou uma Bíblia inglesa. Era uma dos dois pertences que conservava de sua vida anterior ao internato. Colocou sua mão até o fundo da gaveta e tirou dali um lenço enrolado. Desembrulhou-o e deixou cair seu conteúdo sobre o escritório. Um anel de ouro deu voltas e voltas até acabar parando. Um pedacinho de papel oscilou no ar e fixou ao seu lado. Durante vários anos pôs o anel no polegar cada noite ao ir dormir. Logo, chegou o dia em que o tênue contato com as lembranças de sua infância tinha falhado, quando estas lembranças Madeline Hunter – O Sedutor

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converteram em recortes fragmentados de imagens e sensações. O rito de colocar o anel já não tinha sentido e por isso o abandonou. Não fazia falta ler as palavras sobre a folha. Eram do Diabo, a única nota que jamais tinha enviado. Apareceu em certa ocasião com aquele anel, durante a festa do Natal, explicando que este tinha pertencido a seu pai e que pensava que a ela podia fazer ilusão o ter. Ela não sabia se ele recordava aquele gesto. Tinha sido há muitos anos. Seu segundo ou terceiro Natal no internato, possivelmente. Não o recordava com exatidão. Colocou o anel e a nota na mala. Teria que perguntar a Daniel Saint John como ele havia conseguido aquele anel. E também como havia chegado até ela.

A porta da quarto abriu e madame Leblanc entrou. Avançou para a janela e olhou fora com olhos severos. — Tome seu tempo. Que espere. — Se o faço esperar muito, é possível que se vá sem mim. — Não irá sem você. Confia nesta velha quando lhe diz isso. Não sou tão ignorante do mundo, nem dos homens. — Girou com brutalidade e assinalou para a cama. — Sente-se. Diane obedeceu. Madame ia e vinha diante dela, movendo a cabeça. — Estas coisas passam às vezes. Uma de minhas órfãs parte para converter em preceptora ou para viver com um parente, mas eu sei que aqui há algo mais. Posso sentir. Que me perdoe a Santa Mãe, não me é grato dar o conselho que estou a ponto de repartir, mas faltaria a meu dever se não o fizesse. — Não é necessário, madame. Sua instrução foi muito completa. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Nisto não. — Cruzou os braços sobre seus generosos seios. — Propriedades e jóias, asseguradas para ti. Isso é o que deve exigir. Legalmente asseguradas, para que não possa haver mal-entendidos. — Ele não tem motivos para semelhante generosidade. — Terá. Ele percebeu que você tem idade… e esse livro. Pensa agora que você é suscetível… Eu deveria ter considerado isso, mas em minha desilusão ante seu pecado, não o fiz. — Aflige-se você por nada. Ele consentiu em me ajudar a encontrar um emprego e estarei segura. — Tem a intenção de encontrar um emprego, Diane, mas não o emprego que você pensa. Quer você como amante. — Olhou-a com severidade, mas sua expressão abrandou em seguida. — Me olha com autêntica estranheza. Nem sequer sabe o que significa essa palavra, não é certo? Podia acreditar que sua expressão era de estranheza, já que não entendia tudo o que aquilo significava, salvo que tratava de algo pecaminoso. — O livro, Diane. As imagens terríveis desse livro. Aqueles são os deveres de uma amante, e sem o benefício do matrimônio. As estranhas gravuras cintilaram por sua mente. Sentiu que ruborizava. — Sem dúvida você entendeu mal. — Levo mais de cinqüenta anos neste mundo. Reconheço o interesse pecaminoso de um homem assim que o vejo. Ah, com sua atitude distanciada o esconde melhor que a maioria, mas escuta o que digo agora. Deve proteger seu futuro. Propriedade e jóias. Faz que pague caro cada liberdade que tome.

Diane apagou aquelas imagens de seus pensamentos. Era possível que madame tivesse cinqüenta anos de idade, mas não tinham sido anos muito mundanos, e sempre falava mal dos homens. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Estou segura de que está você equivocada. — É rico. Seduzirá você com luxos e gentilezas, e logo… Diane levantou. — Agradeço sua preocupação, mas minha associação com monsieur Saint John será breve. Madame a ajudou a fechar a mala. — Não esqueça suas orações. Cada noite. Possivelmente então, quando chegar à oferta… Possivelmente. Diane levantou a mala. Não pesava muito. De todos os modos, não seria fácil abandonar a quarto. Tampouco seria fácil despedir de madame, apesar de sua severidade. — Agradeço seus cuidados, madame. Impulsivamente, aquela mulher formidável a apertou em um abraço. Jamais havia feito antes. Até onde podia recordar Diane ninguém o tinha feito. Evocava, entretanto, sensações imaginárias da segurança e o consolo de outros, abraços longínquos. Deixou-a sem fôlego. O calor e a intimidade a assombraram e comoveram tanto que seus olhos encheram de lágrimas. O contato humano aliviou o estranho vazio que sentia em seu coração e de uma vez fez que este doesse. As pequenas crueldades ao longo dos anos de repente careciam de importância. Madame tinha sido o mais próximo a uma mãe. O momento de ternura encorajou Diane. Voltou à cabeça e falou com ouvido da mulher. — O livro. O roubei de madame Oiseau. Ensina às moças. Velozmente se separou e foi para a porta, vendo apenas de passada o rosto assombrado de madame Leblanc. Madame Oiseau a esperava abaixo. Deslizou um braço ao redor da cintura de Diane e a acompanhou até a porta.

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— Subestimei-te. — Sorriu com malícia, como se tivessem chegado a serem de repente grandes amigas. — Quem tivesse adivinhado que uma mente tão perspicaz operava por debaixo dessas formas afetadas. Felicitações, Diane. — Acredito que agora me está superestimando. — O que vai. Mas é muito jovem para apreciar o triunfo que te espera. Muito ignorante para colher tudo o que poderia. Deve me escrever para que a aconselhe. Podemos nos ajudar a uma à outra e nos enriquecer com sua astúcia. — Não quero sua ajuda. — Ainda orgulhosa. Muito orgulhosa para ser uma órfã sem passado. Muito orgulhosa para os mercados e advogados com quem tem ido a maioria das outras garotas. Saíram ao pórtico. Um vento fresco fez que se batessem as asas das bordas de seus gorros de musselina. Daniel Saint John apoiava relaxadamente contra o flanco da carruagem, seus olhos fixos no chão. Madame inclinou a cabeça. — Um homem apaixonante. Talvez perigoso. Não nascido para a riqueza. Sob suas maneiras distantes e elegantes há muita vitalidade como para isso. Entretanto conseguiu ser aceito nos melhores círculos. As mulheres permitem para tê-lo por perto, e é provável que até os homens se sintam intrigados. —Seus olhos entrecerraram. — Faça com que espere. Primeiro madame Leblanc e agora madame Oiseau. — Posto que já cruzei a entrada é muito tarde para tentar fazer isso. Madame riu, conseguindo que esses olhos de diabo fixassem nelas. — Possivelmente não precise dos meus conselhos — murmurou madame. — Sua inocência fará que com saiba tratá-lo com o mesmo êxito.

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Com um gesto Daniel indicou a um lacaio que levasse a mala. Madame caminhou para a porta. — Recorda o que digo. Escreva-me. O lacaio abriu a porta da carruagem. Daniel estendeu seu braço, para ajudá-la a subir. Não parecia muito perigoso. De fato, nesse momento, enquanto a brisa despenteava seu curto e escuro cabelo, parecia bastante jovem, e quase afável. Quem sou eu? Como vim a parar aqui? Onde está minha família? Enquanto descia os três degraus de pedra, seu coração pulsava de maneira trepidante. Cruzou a única terra sólida que conhecia, com muita incerteza. O Diabo esperava que ela se reunisse com ele.

Capítulo 3 Esperava que a residência parisiense a surpreendesse mais. Isso foi o primeiro que pensou Diane ao contemplar sua fachada de arenito e seus elegantes pilares, tão diferente daquele montão de pedra calcária áspera e fria do internato. Deveria ter se sentido transbordada. Entretanto, encontrou-a estranhamente consoladora. Talvez se devesse a que chegar até aquela porta significava que já não tinha que compartilhar a carruagem com o Daniel Saint John.

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Tinha sido uma viagem comprida e silenciosa. Ele tinha feito poucos intentos de cercar conversação e ela se sentia muito nervosa para fazer perguntas. Durante a maior parte do trajeto, o olhar afiado do homem se dirigia à paisagem que atravessavam, ao tempo que sua mente, sem dúvida, estava ocupada em algo. Em várias ocasiões, ao girar a cabeça para olhá-lo, Diane pôde ver que a observava de um modo que a levou a perguntar se seu ar distraído não teria algo que ver com ela. Nesses momentos a carruagem parecia de repente muito pequena. Pior ainda, não encontrava forma de desviar o olhar. Provavelmente ele pensaria que ela era muito atrevida por observá-lo com a mesma franqueza com a que ele a observava a ela. A casa se achava junto a outras igualmente contidas e delicadas em seu estilo clássico. O mesmo tipo de edifício aparecia por toda a rua. E todo o bairro. Daniel recolheu alguns papéis que tinha folheado durante a viagem e os colocou rapidamente em uma carteira. O olhar de Diane deteve em uma encadernação fina e familiar de cor vermelha que aparecia por debaixo daqueles papéis. — Roubou-o. — A surpresa fez com que escapassem as palavras. — Uma acusação de roubo é um modo muito peculiar de romper seu silêncio. Madame não me advertiu que fosse tão impertinente. — O silêncio não só foi meu. Você tampouco disse algo desde que abandonamos o internato. — Passei a maior parte da viagem tentando decidir o que fazer contigo. — Vai encontrar um emprego como preceptora. Recorda? — É obvio. Uma preceptora. Agora, quanto a sua acusação, o que é que eu roubei? Assinalou para a carteira. — O livro. Tem-no ainda.

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— Ah, o livro. Parece que deixou o internato comigo. Um descuido fortuito, não te parece? Com o tempo, suspeito que teria desaparecido da estante fechada de madame Leblanc para cair nas mãos de alguma outra moça. — Quer dizer que o tem feito para proteger às outras garotas. Muito gentil por sua parte. Adverti madame Leblanc a respeito de madame Oiseau, embora duvide que acredite. — Posto que madame Oiseau esteja agora alertada, suponho que não te acreditará. — Deveria queimá-lo. Não tem nenhum valor ou utilidade para ninguém. — Agradeço-te sua instrução, mas pergunto se tiver julgado adequadamente seu valor. Tirou o magro tiro da carteira. Parecia como se fosse abri-lo, justo diante dela. — Detivemo-nos, monsieur. Não deveríamos baixar agora? — Em seguida. Devemos desvelar antes a natureza deste livro — disse. — A encadernação é do melhor couro. As gravuras ficam bem protegidas dentro. Está muito bem feito e não é barato. É um engano, eu acredito, afirmar que carece de valor. — Não me referia à encadernação e o resto, a não ser às imagens. — É possível que algumas páginas contenham mapas ou poemas, em lugar de gravuras eróticas. Queimá-lo poderia ser precipitado. — Abriu a coberta para comprová-lo. A idéia de folhear aquelas páginas naquele preciso momento, com os joelhos quase roçando naquela carruagem, horrorizou-a. — Asseguro-lhe que não contém nada mais que imagens desse tipo. — Ah, sim? E como sabe? Sentiu como todo seu rosto ruborizava. — Para saber sem dúvida nenhuma que unicamente contém esse tipo de imagens, teria que ter visto cada folha do livro antes de tentar jogá-lo na lareira. — Levantou o olhar. — É assim?

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Sua cara ardia. Em efeito, tinha olhado página por página, com uma mescla de curiosidade, assombro e fascinação espantada. — É assim? — repetiu ele. — É obvio que não. Sorriu com esse privado sorriso dela. — É um alívio ouvi-lo. Se o tivesse feito, é possível que tivesse que lamentar ter posto fim aos açoites no internato. Aquela observação fez recordar os açoites e o que ele tinha podido ver. De repente veio à cabeça uma daquelas imagens, uma que mostrava a uma mulher em uma pose bastante similar. Sentiu desejos de desaparecer sob as pranchas do chão da carruagem. Não a ajudava nada o fato de que ele contemplasse sua reação com interesse. E esse libero… Ele agora pensa que você é sensível… meu Deus. Justo nesse preciso momento um lacaio abriu a porta da carruagem. Daniel baixou e deu a mão para ajudá-la. — Não sabia que Paris tinha residências de aluguel tão elegantes — disse ela. — Tem, mas esta não é uma delas. É minha casa. — Começou a caminhar para a casa. Diane levantou os olhos para a fachada de arenito, depois para o Diabo, e finalmente para sua mala, levada pelo lacaio. Lembrança sobre a conversação sobre o livro ilustrado surgiram em sua mente ao tempo que a assaltava a lembrança das advertências de madame Leblanc. Ocorreu então a ela que não tinha estudado muito bem os detalhes daquela aventura. Ao ver que Diane parava, Daniel girou e a olhou com curiosidade. — Eu… é que pensei que me alojaria em uma residência. Em realidade não parou a pensar onde se alojaria, mas naquele momento parecia uma estupidez muito grande consentir em ficar a viver naquela casa. — Não será necessário que a aloje em uma residência. Há muitos dormitórios aqui. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Sim. Certamente. Já o vejo. Entretanto, eu sentiria como se fosse uma intrusa. — Que absurdo. Além disso, te colocar em uma minúscula quarto em alguma residência ou hotel seria inconveniente para nós. Vêem comigo. Inconveniente? Aproximou-se dele, agora muito nervosa. Juntos subiram os oito degraus brancos que conduziam ao portal. — Para simplificar as coisas dirão aos criados e a meus amigos que é minha prima, e que vieste de visita do campo. — Sou-o? Uma prima? Uma parenta? — Não. Não era muito, mas não estava mal para começar. Agora, pelo menos, sabia o que não era em relação ao Daniel. Embora dadas às circunstâncias a falta de vínculos sangüíneos não era precisamente uma boa notícia. Tampouco o era o fato de que inventasse uma mentira para explicar sua presença na casa. A porta abriu. A casa parecia chamá-la. Entrou, temendo que ao fazê-lo começasse a abandonar sua inocência. Daniel deixou cair sua capa nas mãos atentas de uma criada. — Onde está mademoiselle Jeanette? — No salão do sul, monsieur. Daniel guiou Diane através da pronunciada curva de uma escada de mármore. — Apresentarei a minha irmã. Ela sentiu um repentino alívio. Se as intenções de Daniel Saint John fossem desonestas, era seguro que jamais houvesse a trazido ali, onde vivia sua própria irmã.

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Ao subir essas escadas se sentiu como uma rainha. Sua largura e sua elegância faziam que ao caminhar se fizesse um pouco mais alto e ficasse um pouco mais erguido. Seus pés afundavam silenciosamente no fofo tapete pálido, decorado com flores, que corria por seu centro. O salão a impressionou. Ao entrar, sentiu como se penetrasse em um rincão do céu. Aturdida, assimilou-o em uma série de impressões deslumbrantes. Não era quadrado, a não ser octogonal. Tudo pálido e de cor nata. Largos espelhos nas quatro paredes refletiam a luz que entrava radiante pela única janela alta. Umas lianas douradas emolduravam os espelhos e serpenteavam ao longo da cornija, como outros tantos delicados vinhedos. Um quadro ovalado sobre o alto teto estava colocado entre arcas de pouca profundidade. Os móveis, discretos e elegantes, de tamanhos reduzidos e estofados em tons bolos, estavam repartidos por todo o espaço. Uma mulher de incrível beleza, em torno dos quarenta anos de idade, com o cabelo escuro e de pele branca, estava sentada ao lado de uma pequena lareira. Não era simplesmente sua irmã, era sua irmã maior. Uma mulher amadurecida. Isso tranqüilizou ainda mais Diane. Ao cruzar o salão sentia como se as nuvens dançassem a seus pés. Logo vislumbrou a si mesma nos espelhos e no ato voltou para a terra. Seu vestido gasto, o gorro de musselina e as ridículas tranças refletiram, esvaídos, em quatro espelhos. Nesse lugar tinha a pinta de uma camponesa. — Jeanette, esta é Diane Albert. — Retornaste com ela. — Não era uma pergunta, mas a entonação deixava entrever um matiz de surpresa. — Foi necessário. Jeanette tomou a mão de Diane e fez gestos para que sentasse a seu lado, sobre um banco acolchoado. — Será muito bem recebida aqui, carinho. Madeline Hunter – O Sedutor

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— O agradeço, mademoiselle. Não os incomodarei muito tempo. Monsieur me ofereceu ajuda para encontrar um emprego como preceptora em Londres. Daniel instalou em uma cadeira. Esta acomodou em seguida a sua larga e magra figura e sua postura casual, sem dúvida porque sabia que era melhor que resistir. Do mesmo modo dominou todo o salão. Inclusive os cordões dourados pareciam restringir sua exuberância por deferência para ele. — Em realidade, passarão várias semanas antes que tenha que viajar a Londres, assim que esses planos terão que ser adiados. Espero que não te importe muito — falou distraidamente, ao tempo que escovava o punho de sua jaqueta. Que a moça tivesse que atrasar seus planos, por muito importantes que fossem para ela, não preocupava o mínimo. — Enquanto isso, minha irmã se encarregará de que esteja cômoda, e terá a oportunidade de visitar a cidade. Paris não é um lugar pelo qual possa ir simplesmente de passagem, a menos que realmente esperem a uns assuntos urgentes em outro lugar. — Não foi minha intenção requerer sua hospitalidade durante tanto tempo. — Não será nenhuma moléstia. Não é certo, Jeanette? Certamente te divertirá levando-a pela cidade. Assim desfruta de sua estadia conosco. O tédio de uma vida de preceptora a espera. Depois de anos nesse internato merece um descanso e um pouco de agrados antes de se atar a uma existência tão deplorável. Realmente conseguiu que o futuro que ela tinha escolhido soasse espantoso. Era impossível discutir com ele. Sobre tudo porque o único argumento que ocorria carecia de sentido. Como podia defender algo do que não tinha experiência? Mas o certo era que essa comprida e silenciosa viagem na carruagem tinha criado entre eles uma espécie de cumplicidade. A conversação em torno do livro aumentou a familiaridade e acrescentou um pingo de perigo. Tinha feito com que ela sentisse um pouco envergonhada, e face à tranqüilidade que representava a presença de Jeanette na casa, Madeline Hunter – O Sedutor

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ele seguia incomodando-a. A idéia de passar várias semanas na casa de Daniel Saint John resultava inquietante. Jeanette deixou que um comprido xale de seda deslizasse de seus joelhos. — Daniel, chama o Paul. Nossa convidada parece muito cansada. Levarei você para sua quarto para que possa descansar e se refrescar.

Paul resultou ser uma alta e grossa coluna em forma de homem. A elegância de seu casaco azul de criado não conseguia ocultar sua solidez terrestre. A crua aparência de seu cabelo avermelhado não suavizava suas facções ásperas. Cuidadosamente, com uma delicadeza insólita em um homem de seu tamanho, deslizou seus braços por debaixo de Jeanette e a levantou, sustentando-a como a um bebê. — Ao quarto chinês, Paul. Diane, nos acompanhe, por favor. Subiram juntos por outras escadas, esta vez não tão imponentes, mas mesmo assim impressionantes. No patamar acima havia uma fileira de altas janelas que davam a um jardim. Pararam ante uma porta grande e pesada que Paul abriu com facilidade apesar de sua carga. O quarto cheirava a cedro. A decoração em branco e azul recordou a Diane as urnas de porcelana dispostas nas cristaleiras das melhores tenda de Rouen. Havia muitas peças parecidas, só que estas eram muito mais formosas. Só apenas de vê-las Diane soube que eram muito valiosas e pensou que preferiria morrer antes que romper alguma. Paul colocou Jeanette sobre uma cadeira ao lado da lareira e se inclinou para preparar o fogo. Logo retrocedeu, e instalou fora, junto à soleira da porta aberta. — Como vê, não ando, sou coxa — disse Jeanette. — Sofri uma lesão faz muitos anos. Graças à força de Paul, entretanto, não faz falta que viva como uma reclusa doente. Todo mundo está acostumado a ver como me leva e suponho que não causará vergonha em você.

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— É, mas bem minha presença a que poderia incomodar a algumas pessoas. Seu irmão disse que devo afirmar que sou prima dele. Seus amigos se assombrarão ao ver que têm parentes tão pobres e com tão maus modos. Jeanette convidou a se aproximar e a observou de um modo mais minucioso. — Eu não diria que tem maus modos. Nessa escola ensinaram o básico, e em seguida aprenderá todo o resto. Não obstante, é verdade que seu aspecto… Mandarei a minha criada para que faça algo com o cabelo antes do jantar. Continuaremos com o resto amanhã. — Não é necessário, por favor. Unicamente permanecerei nesta casa até o momento de viajar a Inglaterra. — Meu irmão tem assuntos que atender aqui. Embora esta seja uma de suas casas, faz a maior parte de sua vida na Inglaterra, assim durante sua estadia aqui tem muitas visitas. Se vir que anda por aí escondendo, tratando de passar despercebida, desagradar-lhe-á notar que a está incomodando. —Seu sorriso parecia insinuar que desagradar Daniel Saint John não era muito recomendável. Um criado apareceu com a mala.

— Deixar-te-ei descansar. Minha criada virá mais tarde para ajudá-la a desfazer a mala e a vestir. Volto a dar boas vindas. Estou contente de que esteja aqui conosco. Paul a levou de novo em braços. A porta fechou. Diane sentou na cadeira que Jeanette acabava de abandonar e a aproximou um pouco à lareira. O abundante calor que emergia daquele fogo resultava delicioso. Fixou seu olhar nas chamas. Não se atreveu a olhar nada mais. A quarto lhe resultava excessiva. As urnas de porcelana pareciam estar aí dispostas a que as rompesse. Não a tinha sobressaltado a fachada da casa, mas seu interior sim.

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Daniel havia dito várias semanas. Possivelmente mais, tinha sugerido Jeanette. E depois uma vida de tédio. Não estava segura de que saborear brevemente aquele luxo fosse uma boa idéia. Viver entre tanta riqueza poderia converter tanto o anterior como o posterior em uma fonte de descontente. Ele a seduzirá com luxos e gentilezas, e logo… Ridículo. Um homem como aquele não tinha nenhuma necessidade de alguém como ela. Nas próximas semanas não tinham nada que ver com sua gentileza. Simplesmente não convinha viajar naquele momento a Inglaterra. O calor do fogo se introduziu até seus ossos, pondo fim ao frio que a tinha acompanhado durante quase toda sua vida. Fechou os olhos e desfrutou da sensação. O calor a rodeou com seus braços, consolando-a. Uma lembrança a assaltou de repente. A lembrança de outro comprido viaje de carruagem, interrompido por uma travessia em navio. A lembrança de haver-se sentido derrotada pelo medo e a solidão durante uma noite interminável enquanto se aconchegava no rincão de um espaço negro em movimento. A lembrança de uns braços que se tendiam para ela na escuridão e a apertavam para que chorasse contra uma jaqueta de lã. Talvez essa recôndita lembrança da infância explicasse a familiaridade que tinha sentido ao viajar na carruagem. Não, não de tudo. Para começar já não era uma menina, e ele tampouco a tinha tratado ou se dirigiu a ela como se fosse. De fato foi precisamente isso o que a fez sentir-se incômoda a seu lado. Mesmo assim, a lembrança aliviou um pouco seus receios. Finalmente dormitou durante um momento, contemplando em sua mente um jardim cheio de vinhedos dourados.

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Permaneceu sentada na cadeira ante a lareira, esperando a que a chamassem para jantar. Seu novo penteado a fazia sentir um tanto insegura, parecia-lhe estranho o modo em que se amontoava sobre sua cabeça. Quando a criada terminou de penteá-la não era capaz de reconhecer sua própria imagem no espelho, inclusive parecia a de alguém mais velha. A porta abriu, mas não era um criado quem apareceu atrás dela. Ali estava Daniel. — Jeanette me pediu que comprovasse que estava bem, para não ter que subir ela. Está cômoda aqui? Instalaram-na bem? Ela levantou e se aproximou dele. — Em realidade eu gostaria de saber se há outro quarto. — Este não te parece bem? — Preferiria um mais singelo. Menor. Não estou acostumada a este tipo de espaços. — As habitações menores estão acima e as usam os criados. Não podemos colocá-la ali. — Não vejo por que não. — Porque não é uma criada. É uma convidada. Ele entrou no quarto e olhou ao redor, como se estivesse comprovando suas proporções e sua opulência. Sua expressão se tornou de repente pormenorizada. Daniel aproximou da mesa que estava ao lado da cama com dossel. Sobre ela havia uma das formosas urnas. — Vêem aqui. Ela não se moveu. Não podia, e não era simplesmente porque o quarto a intimidasse. O espaço não era tão grande para poder esquecer que se tratava de um dormitório. Seu dormitório, e ele estava ali e realmente não deveria estar, por muito que a casa fosse dele. Ninguém jamais lhe tinha ensinado essa lição. Simplesmente sabia. Uma estranha aceleração no sangue, Madeline Hunter – O Sedutor

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outra atmosfera no ar, uma crescente familiaridade durante a viagem em carruagem: sua presença produzia uma chuva de efeitos que a advertiam que aquilo não era correto. — Vêem aqui — repetiu ele, levantando a preciosa urna. Como ela continuou sem obedecer finalmente ele se aproximou de seu lado. — Não pode passar as próximas semanas encadeada a essa lareira. Ao final terá que se mover. — Aqui faz calor. É o único consolo que necessito e que desejo. De fato, é um luxo maravilhoso.

— Não tinha uma lareira em seu quarto do internato? Não, suponho que não. E devem ter sido pequenas as que se acendiam em outras partes, sem dúvida. Madame justificaria o desconforto como algo bom para a alma. Estava junto a ela, balançando a urna despreocupadamente em suas mãos. — Pegue-a. Diane duvidou um momento. Finalmente a colocou em suas mãos. Pesava muito menos do que esperava. Era frágil. — Agora deixa cair. Ela o olhou com assombro. — Deixa-a cair. Observou os ladrilhos da lareira sob seus pés. — Romperá. — Deixa-a cair. — Não. Madeline Hunter – O Sedutor

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As mãos de Daniel cobriram as suas. Descansaram ali um momento, o calor de suas palmas ao redor das mãos de Diane, as ásperas gemas de seus dedos raspando os pulsos. O tato a surpreendeu. Uma quebra de onda profunda de intimidade fluiu através do contato. Olhou-o, surpreendida. Algo insondável cintilava em seus olhos. Isso a surpreendeu ainda mais. Permaneceram assim durante muito momento, com as mãos dele sujeitando as dela sobre a urna. Um momento. Embora possivelmente não fosse mais que um instante. Não podia sabê-lo. Diane sentia com tal intensidade a presença dele e desse contato físico que perdeu completamente a noção do tempo. Os dedos de Daniel moveram. Apartava à força as mãos de Diane. A urna terminou soltando-se. Ela contemplou, horrorizada, como caía sobre os ladrilhos e transformava em pedacinhos. — Agora que já tem quebrado uma não deve sentir medo de romper outra. Não são mais que objetos, Diane. Objetos sem alma, sem vida. Carecem de valor a menos que nos sirvam por sua função ou por sua beleza. Só um parvo se deixaria governar por eles. Falou em voz baixa e com suavidade. Com mais suavidade da que ela tinha ouvido jamais, como se queria compartilhar um segredo importante.

Seguia lhe sujeitando as mãos, e a pressão de seus polegares provocava estranhas pulsações nas palmas de Diane. Os olhos dele brilharam ainda mais e as pulsações estenderam aos braços de Diane. A seu sangue. A seu fôlego, e ao fogo e ao ar. À quarto inteira.

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Outro instante fora do tempo. Um instante incrível. Compulsivo e confuso. Dava um pouco de medo, mas era um medo acompanhado por uma excitante sensação de perigo, como a que se sente ao olhar para baixo de uma grande altura. De repente Daniel soltou suas mãos, rompendo o feitiço. Girou e caminhou para a porta. — Rompe uma a cada dia se necessitar. Rompe a quarto em pedaços se te convier. — Sua voz soava áspera, até o ponto que Diane se perguntou se o que acabava de ocorrer não teria sido fruto de sua imaginação. Parou na soleira e olhou para trás. Um breve tremor daquele batimento do coração voltou a apoderar-se dela. Como um eco. Como uma voz chamando de longe. — Suas intenções, Daniel. Queria ouvi-las agora. — Diz em um tom acusatório, Jeanette. Sinto-me ferido. — Ninguém tem o poder de te ferir. — Possivelmente não, mas se alguém o tivesse, seria você. Isso a fez retroceder. Levou suas costas para o encosto da cadeira e seu rosto perdeu a expressão severa. — Por que a trouxeste aqui? — Já disse isso, foi necessário. — Explicou o pequeno drama no internato e o descobrimento da verdadeira idade de Diane. — Suponho que nunca me ocorreu que os anos passavam tanto para ela como para nós. E parece muito jovem, a menos que a olhe de perto. — Ao melhor também resultou conveniente não ver que se tornou adulta e que tinha que arrumar a situação. Daniel não prestou atenção nela. — De todos os modos, ela mesma estava acumulando coragem para deixar o colégio. Foi só uma questão de tempo. Mencionou que queria ir a Londres, para encontrar seu próprio caminho. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Meu deus. — Exatamente. O rosto de Jeanette chegava multiplicado por cinco, refletido nos cinco espelhos da sala. Não gostava daquele salão antiquado, com seus raquíticos móveis e incessantes reflexos. Seu gosto era mais conteúdo, mas aquele era o ninho de Jeanette e o tinha decorado para criar um mundo próprio. Ele refletia a luz e a beleza de sua infância e ele não estava ressentido nem pelo gasto nem

pela opulência. Estaria disposto a construir um palácio inteiro cheio de cordões de ouro se isso pudesse conjurar a escuridão de suas lembranças. — Tem a intenção de retê-la aqui para sempre? Já ouviste que está disposta a ir a Londres. — Irá. Só necessito um pouco de tempo para terminar de arrumar o assunto Dupré. Logo poderei dedicar minha atenção a Inglaterra, e ao Tyndale. Surpreendida, Jeanette inclinou para trás sua cabeça escura. A preocupação estendeu um véu sobre seus olhos verdes. — Daniel… — Não se preocupe. E não se intrometa. Pensativa, voltou a acomodar o comprido xale em torno de seus ombros. Daniel esperou enquanto ela analisava o pouco que sabia e adivinhava o resto. Ele nunca explicava muito, mas ela sempre via tudo. — É muito bonita — disse. — Sem polir, mas isso tem fácil remédio. Eu me encarregarei. — Não faça que brilhe muito. Isso obscureceria seus encantos naturais. Não fez falta dizer mais. Jeanette compreendia. Com uma expressão de satisfação e as compridas bordas do sedoso xale cruzados no ponto preciso se endireitou ligeiramente. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Passaram tantos anos que acreditei que tinha renunciado. Acreditei que tudo tinha terminado. Mas se está arrumando alguns assuntos em relação ao Gustave Dupré, suponho que não é assim. — Só terminará quando acabar com isso. — E quando dedicar sua atenção a Inglaterra, acredito que encontrará uma forma de acabar com isso para sempre? Fez planos para tentar afundar Tyndale? Eu não gosto. Não quero. É o irmão de um marquês. Não vale a pena que arrisque. Poderia perder tudo, inclusive sua vida. — Ganhei tudo o que tenho precisamente para poder pôr fim a tudo isso. Não cabe dúvida de que vale a pena. — Não quero ver essa moça ferida por minha culpa. — Não é só por ti. Se pensar isso, está equivocada e esqueceste muitas coisas. — Não esqueci nada. Ainda… — Pedi que não se intrometa. — vislumbrou a si mesmo nos malditos espelhos, os olhos e o rosto repentinamente endurecidos. Esforçou por si controlar o rancor. — Não será prejudicada não. Não o permitirei.

— Como sempre, está muito seguro de si mesmo. É provável que, como sempre, tudo saia como planeja. Deixemos então de lado meus maiores temores. Não me preocuparei com eles até que seja necessário. Entretanto, a mulher que há em mim está intrigada também por um pouco de caráter no mínimo. Poucas vezes Jeanette se preocupava por coisas mínimas e correntes. Ele assegurava de que não ocorresse. — A que se refere?

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— Pediste que cuide dela. Estará sob minha responsabilidade, e você é um sedutor legendário. Por isso, o dever me obriga a repetir minha pergunta inicial, mas neste contexto no mínimo. Quais são suas intenções? Daniel ficou a rir, para indicar que a pergunta era completamente absurda. Ela não reagiu. O conhecia muito e estava convencida de que não tinha nada de absurdo. — Tem os olhos de seu pai. Acredita que seria capaz de persegui-la, sendo consciente do tanto que são parecidos? Isso era o que havia dito a si mesmo com o passar da viagem na carruagem. Só que às vezes ela o olhava dessa maneira direta e insistente, e em tais ocasiões ele se esquecia de ver a semelhança. Era justo isso o que acabava de ocorrer um momento antes no quarto chinês. — Isso me tranqüiliza bem pouco — disse Jeanette. — Mas se seus planos forem os que acredito que são, necessita que ela continue sendo inocente. Essa consideração deveria refreá-lo se sentisse tentado em algum momento. — Agora me fere de verdade. Não me dedico a corromper jovenzinhas. — Há coisas que inclusive você é incapaz de planejar, Daniel. Coisas que inclusive você é incapaz de controlar. — É possível, mas meus apetites não incluem entre elas. Não sou o verdadeiro diabo. — Levantou para sair, irritado pelas insinuações de sua irmã. O fato de que um momento antes tivesse estado a ponto de perder o controle não o punha no melhor humor. Ela deixou escapar uma risada. Os espelhos mostravam a ambos frente a frente, ela divertida e sacudindo sua cabeça, ele olhando para o chão, uma torre alta e escura que manchava aquele pequeno e cintilante mundo cor pastel. — Ai, Daniel — suspirou ela. — Não estou sugerindo que seja um diabo. Só pretendo insinuar que é um homem normal. Mas talvez isso seja um insulto ainda maior. Madeline Hunter – O Sedutor

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Capítulo 4 Gustave Dupré tirou dois livros de suas respectivas estantes e os depositou cuidadosamente sobre seu escritório, abrindo e colocando-os de tal forma que criassem uma disposição aleatória que desse um ar de desordem erudita. Era importante que certo tipo de visitante compreendesse que aquele era o escritório de um homem ocupado a cujo intelecto privilegiado resultava pouco gratas as distrações de natureza mundana. Naquele instante esperava a um visitante dessa classe. Repassou com carinho as múltiplas encadernações de couro sobre as prateleiras de mogno enquanto escolhia o livro seguinte. Era uma biblioteca científica sem igual, a inveja de todos os que o conheciam. Não tinha acudido o próprio Fourier para pedir emprestado algum livro? Entreteve fazendo-o esperar um pouco antes de recebê-lo, sobre tudo porque tinha sido Fourier quem fazia tantos anos tinha encontrado a falha na prova matemática graças a qual Gustave pretendia assegurar fama. Sim, se divertiu humilhando ao Fourier. Só um pouco, é obvio. Eram agora irmãos na ciência, iguais em status e reputação. Outra prova matemática tinha servido para obtê-lo, uma prova que nem o muito preparado Fourier tinha sido capaz de danificar. Adrian, seu novo secretário, entrou na biblioteca. — Sua carruagem já chegou. Gustave se colocou na cadeira atrás do escritório.

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— Faça-o passar assim que entre. — Quer que fique? Gustave arrepiou ante essa rabugice. Como se atrevia Adrian a sugerir que ele, Gustave Dupré poderia aproveitar o conselho de um cachorro que mal havia saído da universidade? Se não tivessem morrido na guerra tantos dos melhores filhos da França, não teria sido obrigado a recorrer a esse arrivista inglês. Na semana anterior, o jovem atreveu a corrigir o latim que Gustave tinha empregado em um tratado. Após, Gustave tinha detectado nele uma falta de deferência. Isso era uma presunção do mais inadmissível, posto que o sangue de Adrian fosse de origem duvidosa e tinha o aspecto de um cão mestiço. O moço podia se considerar afortunado

encontrando um emprego de qualquer índole, quanto mais o posto de secretário de um dos cientistas mais importantes da Europa. Por outra parte, aquele visitante tinha feito referência a textos estrangeiros. Sem dúvida uma pessoa assim consideraria o latim como um idioma estrangeiro. — Pode ficar. É possível que aprenda algo. Era certo que escrevendo em latim podia ter algum deslize, mas sua leitura do idioma era insuperável. Talvez tivesse alguma oportunidade para pôr a esse secretário em seu lugar. Adrian saiu e voltou pouco depois, trazendo consigo três livros encadernados. Um homem alto, de aproximadamente trinta anos, seguiu-o. Daniel Saint John aceitou a bem-vinda de Gustave e sentou na cadeira frente a escrivaninha. Adrian depositou sua carga e afastou para a parede. Gustave examinou seu visitante. Por tratar de alguém que havia ficado rico com o comércio, Saint John apresentava um bom aspecto e um ar de arrogante dignidade. Enfim, o

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dinheiro podia conseguir isso, da mesma maneira que o conhecimento. Tinha ouvido falar de Saint John, mas nunca tinham chegado a conhecê-lo. — Foi uma generosidade de sua parte me receber — disse Saint John. — Intrigou-me com sua carta quando falava de alguns livros estranhos. Duvido que surja nada deles, mas decidi que valeria a pena jogar uma olhada. Diga-me onde os encontrou. — Um de meus navios andava no leste do Mediterrâneo. O capitão, como um favor ao sultão turco, consentiu em levar um membro da corte real ao Egito como passageiro. Infelizmente, o ministro morreu a bordo. Os livros se encontravam entre seus pertences. E Daniel Saint John não tinha procurado devolvê-los nem à família do passageiro nem ao sultão. Entendia por que os livros eram oferecidos de maneira privada e secreta. — Ouvi falar de sua biblioteca — continuou Saint John. — E embora não acerto a compreendê-lo, o livro de acima parece tratar de algo cientista. — Abriu a coberta do magro tomo. — Olhe aqui. Há desenhos e números, e não só palavras. — Este não é um livro impresso. É um manuscrito. — Certo. Não o mencionei. Não o tinha feito. Que imbecil. Gustave aproximou o livro. A escritura não era em latim, a não ser em árabe. Diabos, ele não sabia nada de árabe. Escrutinou as fórmulas matemática e os desenhos. Avançou, passando as páginas.

Uma pequena imagem perto de uma esquina chamou a atenção. Mostrava uma fila de cilindros, conectados por linhas. Resultava familiar. Seu sangue começou a pulsar por motivos que não sabia nomear. Havia sentido de maneira parecida com o aproximar da conclusão daquela prova desventurada. Madeline Hunter – O Sedutor

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Esforçou por mostrar inexpressivo. Seria um grave engano revelar seu interesse. Saint John provavelmente pediria uma fortuna para algo que alguém quisesse de verdade. Seu secretário presunçoso estirou o pescoço para poder ver algo. Fazendo alarde de generosidade didática, Gustave o chamou. — Árabe — disse Adrian com assombro. — Uma observação brilhante. — Ensinaram-me algo de árabe. — O dedo do Adrian aproximou de uma linha dos apontamentos. — Posso traduzir parte disto. Gustave fechou a coberta de repente, quase esmagando o dedo intruso. — Monsieur Saint John, teria a amabilidade de nos desculpar um momento? Saint John saiu cortesmente. Quando fechou atrás dele a porta, Gustave enfrentou a seu empregado. — Jamais você tenha a presunção de instruir a mim, sobre tudo em presença de terceiros. Empreguei-o apesar de sua duvidosa história e sua falta de fortuna, mas há outros em espera do posto. — Desculpe-me. Simplesmente pensei que podia servi-lo saber do que tratava o manuscrito. Gustave abriu as páginas pelo mesmo lugar. Esses cilindros… por que resultavam tão familiares? Enfim, que sentido tinha empregar a um secretário se não tirava todo o proveito possível dele. — Bem — disse a Adrian. — Diga o que pode decifrar. O jovem franziu o cenho enquanto observava as guias e pontas. — Não acredito que seja algo unicamente científico, mas também mecânico. Parece-me que tem algo que ver com o ferro. Madeline Hunter – O Sedutor

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O coração de Gustave deu um tombo. Quebras de onda de sangue arrepiavam seu crânio e suas extremidades. Observou atentamente as páginas, as passando uma e outra vez. De repente compreendeu por que tinha resultado tão familiar esse desenho. Ele possuía outro manuscrito que continha uma imagem similar, mas menos elaborada, e que falava do ferro. Quase podia vê-lo na prateleira de acima, detrás dele, magro e gasto, sem tocar durante anos, cheio

dos ganchos de ferro ambíguos e incompletos de um homem cujo tempo se esgotava. A emoção fazia que o coração quase estalasse. Acreditou que estava a ponto de deprimir. Teve que se conter para não dar um salto e agarrar esse velho manuscrito para comprovar que tinha razão. Só se controlou porque Adrian estava no escritório. Necessitaria a ajuda do secretário com o árabe, mas não devia permitir que Adrian soubesse do que tratava em realidade aquele texto. Se estivesse certo, o nome Gustave Dupré ficaria imortalizado para todos os tempos. Converteria, além disso, em um dos homens mais ricos do mundo.

Um fogo mínimo faiscava na lareira. Na mesa ao lado da cama havia uma bandeja. Diane podia cheirar o cacau que fumegava na taça. Durante seu terceiro dia ali encontrou Daniel enquanto bebia cacau no jardim e a tinha obrigado a provar o fluido espesso e potente. Daniel divertiu com a reação de Diana, a quem adorou o cacau, e após tinha encarregado que levasse uma taça cada manhã. Um pequeno ritual tinha lugar ao começar o dia. Ela bebia o cacau enquanto o fogo da lareira esquentava a quarto. Depois a criada retornava e a ajudava a se lavar e a vestir. Logo baixava à sala do café da manhã, onde Jeanette reunia com ela, e juntas decidiam os planos do dia. Daniel nunca estava ali. À hora em que ela saía de sua quarto, ele já levava muito momento na cidade fazendo o que fora que fizesse. Madeline Hunter – O Sedutor

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Algumas manhãs o ritual alterava ligeiramente. Se Jeanette atrasava, Diana saía a passear. Ninguém tinha proibido, mas de todos os modos ela escapulia da casa pela entrada dos criados, e se sentia muito atrevida e amadurecida enquanto passeava entre a multidão da cidade. Levantava a frágil taça e o profundo aroma a chamava. Sorvia a substância agridoce. Uma moça poderia acostumar a isso. Olhava o cacau. De cor intensa, deliciosamente saboroso, muito caro. Escorria por sua garganta em um fluxo espesso, procurando uma grande sensação de bem-estar. Como tantas outras coisas naquela casa, era uma distração luxuosamente sensual. Sim, uma moça poderia acostumar a isso, e quando aceitasse o emprego de preceptora, voltar para as carências de antes resultaria terrível. Jogou para trás os lençóis e levantou de um salto. Aquele dia não ia ficar na cama como uma rainha em espera de seus servos. Ela se vestiu sozinha e demorou muito menos que quando o fazia com a criada. Escovou o cabelo, fez um pequeno coque recolhido sobre a nuca e examinou o efeito no espelho. Não era muito elegante, mas seria suficiente.

Entretanto, a sala do café da manhã não estava vazia, tal como ela esperava. Sua idéia de escapar para dar um passeio foi frustrada. Paul estava sentado à mesa em uma postura muito relaxada para um criado. A seu lado encontrava a presença escura de Daniel Saint John, que estava terminando seu café da manhã. A conversação chegou até ela enquanto cruzava a soleira e avançava para o aparador. — Tudo está em ordem — dizia Daniel. — Hoje deveria saber exatamente quando devo me mover. Está tudo preparado? — Só falta ultimar os detalhes, assim que tenha o dibuj…

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Diane estava de costas a eles, mas soube que a tinham visto. Imaginava a mão de Daniel, elevando-se em um gesto que cerceasse a frase. Detrás dela ouviu que alguém levantava. Serviria um prato de pãezinhos e se daria o luxo de um pequeno bolo. Girou, pensando que encontraria a mesa abandonada. Não foi assim. Tinha saído Paul, mas Daniel permanecia ali. Ele a submeteu a uma inspeção ociosa. Seu olhar parou nela o tempo suficiente para fazêla lamentar não estar mais bem penteada. Não podia ficar ali de pé como uma menina que tivesse sido descoberta roubando comida. Sentou em frente a ele. Daniel serviu café de um bule de prata que encontrava na mesa. — Suas visitas à cidade são divertidas? — Estão tratando você bem? Tem alguma queixa? Está aprendendo suas lições escolares? Isso fez que ele pusesse nela toda sua atenção. — As perguntas. Do internato — explicou ela ao tempo que notava a forma em que sua atenção a perturbava. — Você segue me fazendo as mesmas perguntas, em certa maneira. — Estão te tratando bem? — Sua cadência esclareceu que se referia agora aos cuidados e o trato que ele e os seus estavam procurando. — Muito bem. Além disso, estou aprendendo minhas lições. Sem dúvida é um tipo de lição as que me dá sua irmã, não é assim? As visitas a esta bela cidade e seus muitos lugares de interesse. As classes de baile duas vezes por semana. As instruções tão delicadas a respeito do comportamento. Inclusive as visitas às lojas são classes para educar o bom gosto. — E isso a desagrada? — Só uma monja seria incapaz de desfrutá-lo. Serei a preceptora mais talentosa e elegante da Inglaterra. — As boas maneiras só poderão aumentar suas possibilidades de conseguir um emprego. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Procuro um posto com uma família acomodada, não com um duque. — Pois talvez possa aspirar a um posto em uma família melhor a partir de agora. É possível que assim fosse, mas não parecia correto. Ela não tinha nascido em um mundo tão elevado. As respostas que desejava não podiam encontrar ali. Inclusive era possível que ele nem sequer estivesse se referindo a um posto de preceptora. As advertências de madame Leblanc não deixavam de ressonar em sua cabeça enquanto a rodeava tanta generosidade e tanta educação. Chegou à conclusão de que eram absurdas, mas havia ocasiões em que esse homem a olhava de tal forma que não podia evitar recordar aquele momento palpitante, o primeiro dia em seu quarto. Nada mudara em sua expressão, mas uma breve cintilação no tempo expandiria até se converter em outra hipnotizante eternidade. O fato de encontrar a sós com ele agora fazia que tudo repetisse. Ela esforçou para manter os olhos fixos em seu prato e assim romper o feitiço. — De todos os modos, às vezes me sinto como se ainda estivesse no colégio. — Um colégio mais confortável, eu espero. Agrada a minha irmã. É a primeira vez que teve a uma protegida, e está proporcionando muito prazer. Essa observação tivesse podido contribuir a dispersar seus receios. Entretanto, não podia desprender da sensação de que ela não era em realidade a protegida de Jeanette, a não ser a protegida de Daniel Saint John. — Paul é inglês, não é certo? — perguntou Diane para trocar de tema. Vocês estavam falando inglês quando eu entrei. — Sim, é. — E você? Paul fala francês com acento estrangeiro, mas você não.

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— Sou um cidadão do mundo, mas sou francês de nascimento. Passei muitos anos entre gente de fala inglesa. Ambas as línguas são naturais para mim e de fato me considero mais inglês que francês nestes momentos. — Deve ter sido incômodo durante a guerra. — Estive pouco nos dois países durante a guerra. Passava a maior parte do tempo nas Antilhas ou as Índias Orientais. A maior parte do tempo, mas não todo. Uma vez cada ano tinha retornado a França e tinha visitado o internato em Rouen. A Diane parecia pouco provável que houvesse tornado só para isso. Ao ver que parecia disposto a falar de si mesmo Diane encheu de coragem. Tinha sentido curiosidade a respeito dele durante anos.

— Seu sobrenome, Saint John, madame sempre o pronunciava a maneira francesa. Saint Jean, mas uma vez o vi escrito à maneira inglesa. — Tive a sorte de um sobrenome muito regulável. — Eu também. Albert. Madame sempre dizia Albrey, mas eu sabia que equivocava e que a letra “t” deve se pronunciar com claridade, porque sou inglesa. — O que a faz pensar isso? Por que estava tão segura disso? Não eram só os fragmentos de velhas lembranças e da travessia da água em sua infância. Não poderia atrever a jurar que idioma falava nessas escuras lembranças de seu passado. — Sonho em inglês. — Seus sonhos não mentem. Efetivamente é inglesa. Falava inglês no internato?

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— Madame era uma grande partidária de Napoleão e proibia que falasse inglês. Tampouco deixava que o estudássemos. —Tenho uma Bíblia inglesa. Eu a leio em voz alta cada noite. — Perdeste-o, então? Salvo em seus sonhos? — É obvio. A Bíblia. Ele parecia a ponto de se retirar, como se a menção da única coisa que havia trazido consigo a França tivesse aberto uma porta que ele preferia manter fechada. Ela empenhou em avançar. Era a primeira oportunidade que tinha tido em duas semanas para fazer esse tipo de perguntas. — Como ocorreu, monsieur? Como você chegou a me trazer para a França? Assegura que não é meu parente. Não recebeu nenhuma resposta. No instante mesmo em que deixou de falar, apareceu Paul com Jeanette em seus braços, e Daniel aproveitou para centrar toda sua atenção em sua irmã. Paul acomodou Jeanette em sua cadeira e preparou um prato para sua ama. — Você ficará alegre ao saber que logo teremos Diane livre desses vestidos espantosos. Sua última prova será hoje — disse Jeanette. Paul serviu o prato dela. — Desgraçadamente, mademoiselle terá que atrasar essa saída. Monsieur me pediu que fizesse um trabalho — explicou. Jeanette dirigiu a seu irmão um olhar azedo. — Bom, poderá esperar outro dia. — Não será necessário — disse Daniel. — Não tenho planos para esta tarde. Eu as acompanharei.

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Ninguém se surpreendeu pela sugestão. Era evidente que Daniel estava acostumado a levar a sua irmã nos braços pela cidade. Jeanette deixou seu café da manhã. — Seu cabelo, Diane. Faz que o arrumem para que os vestidos luzam adequadamente. Diane tinha esquecido seu cabelo. Desculpando-se, abandonou a sala. Daniel levantou para acompanhá-la. Caminharam juntos pelo corredor até as grandes escadas. — Minha irmã é muito severa. Seu cabelo está encantador tal e como está. Seu coração revoava ante o galanteio, por muito que fosse uma mentira cortês. — A partir de agora falaremos inglês para que volte a acostumar ao idioma. Necessitará quando for a Londres — disse ao tempo que adotava a língua que falava nos sonhos de Diane. A evidência de que a viagem a Londres não tinha caído no esquecimento a alegrava. — Quando disse que sonhava em inglês você parecia compreender. Sonha você em francês? — Não sempre. Entretanto, há outros momentos em que todos meus pensamentos são franceses. — Quais? Tinham alcançado uma das portas que saíam do corredor, e Daniel parou. — Quando estou em perigo. Então só posso pensar em francês. Essa menção acalmada do perigo a impressionou. Falava como se fosse uma experiência comum. Daniel abriu a porta. Diane teve a breve imagem do quarto de um homem. Uma expressão divertida e reflexiva apareceu aos olhos de Daniel. — E quando faço amor. Agora que o penso, sempre o faço em francês. — Muito encaixe, Jeanette. E lhes diga que tirem essa espuma da prega. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Se seguir assim, Daniel, passará outra semana antes que possa sair da casa de noite. Diane estava de exposição no salão da costureira no Palais Royale, engalanada em uma seda de cor violeta escura. Poderia ter desfrutado do calor fraternal patente em suas discussões, se não fosse ela a boneca que inspirava suas brigas. Assim se sentia. Uma boneca a que estavam vestindo. Não uma boneca fina de cara de porcelana e as mãos apropriadas para esses vestidos, a não ser uma simples boneca de trapo que jamais seria capaz de levá-los dignamente.

Daniel parecia compreender melhor que Jeanette. Os gostos de sua irmã tendiam para o dramático, e com esse critério havia comissionado os desenhos. Agora ele exigia que despojasse os vestidos da metade de seus adornos. Daniel estava de pé, ao lado da janela no salão da planta superior, seu rosto esculpido com um aspecto muito formoso na difusa luz do norte. A maior parte do tempo se contentava olhando a atividade abaixo no jardim. Cada vez que Diane emergia da sala do fundo com um novo conjunto jogava uma olhada, assimilava tudo, a assimilava toda, e repartia suas ordens para depois voltar a centrar sua atenção na cidade que agitava a seus pés. Voltou a olhar, dada a resistência de sua irmã. — Não acredito que demorem muito em tirar a espuma da prega. Poderão entregá-lo amanhã ou depois de amanhã. Não é certo, madame? A costureira apressou em confirmá-lo. A presença de Daniel tinha transformado à orgulhosa artista em uma criada total. Ninguém tinha pedido a opinião de Diane em relação aos objetos.

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Aproximou do espelho de corpo inteiro e se esquadrinhou. O violeta escuro destacava a palidez de seus braços e seu pescoço. O decote quadrado revelava mais de seu corpo do que tinha deixado ver em toda sua vida. O encaixe cor nata fazia que sua pele luzisse ainda mais branca, e a cintura alta pronunciava a forma de seus seios. Seus escuros olhos olhavam de um rosto delicado, quase infantil. Esses olhos pareciam muito grandes e um pouco assustados, e revelavam que essa mulher estranha não era exatamente mundana, apesar da sofisticação dos ornamentos. O espelho estava em frente à janela. Um movimento refletido chamou sua atenção. Daniel tinha deixado de contemplar a cidade e estava olhando para ela. Ao estar situado de um lado não percebia que ela podia vê-lo. A expressão de Daniel a assombrou. Algo tinha instalado em seus olhos e velava suas feições. Um pouco vagamente perigoso e totalmente hipnotizante. Endurecia e o abrandava de uma vez. Diane sentia que seu coração escapava do peito. Não podia desviar seu olhar, embora algo dentro dela avisasse que devia fugir o mais rápido possível. Alisou a seda do vestido para ocultar sua reação. No reflexo, via como os olhos de Daniel desciam ao encaixe proibido na prega, logo voltavam a ascender. Alcançavam seu cabelo, pego artisticamente em um estilo noturno apropriado para essa seda. A mão de Diane instintivamente levantou para tocá-lo.

Jeanette devia ter visto o gesto. — Tem muito cabelo. Por muito atrativo que seja a moda exige que esteja mais perto da cabeça. Cortaremo-lo. — Não. A ordem, e não cabia dúvida de que era uma ordem, provinha do único homem na sala. Madeline Hunter – O Sedutor

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Diane deu a volta. — Acredito que prefiro o encaixe na prega. Eu gostaria que conservasse. Jeanette elevou uma sobrancelha em direção a seu irmão. A costureira começou a explicar que o encaixe tinha sido um engano. Aqueles olhos de diabo brilharam com a consciência do desafio. — Se for o que prefere, conservaremos o encaixe. Ao fim e ao cabo, o vestido é teu. Pode ter tudo o que queira. Diane voltou para o quarto do fundo para se embelezar com a próxima extravagância. A verdade é que o encaixe não importava o mínimo. Tampouco seria realmente seu o vestido. Aquelas provas o estavam demonstrando embora ela não soubesse explicar muito bem por que. Ela pensava nos diversos objetos que começariam a alagar seu armário. Conjuntos para a manhã e a tarde, para visitar amigos que não tinha, e para assistir a jantares para os quais não recebia convites. Suspeitava que os amigos e os convites fossem organizados e escolhidos com tanto cuidado como os mesmos vestidos. Logo possuiria um vestuário maravilhoso. Da manhã de noite, seria a estranha que agora via no espelho. A boneca de alguém. Recordava a expressão de Daniel no espelho e seu magnetismo. Se ele tivesse levantado a mão para chamá-la possivelmente ela não tivesse tido forças para desobedecer algo que pedisse. Não tinha nenhuma prova de que ele quisesse algo dela, mas mesmo assim… Seduzirá você com luxos… Olhou o montão de vestidos. Deveria sair dali e rechaçá-los todos. Deveria abandonar essa casa. Deveria… As assistentes da costureira ofereceram um vestido para passear feito de musselina amarela. O tecido gorduroso era mais sedutor que a seda. Começaram a deslizá-la sobre seu corpo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel gostaria desse. Sua simplicidade seria de seu agrado. Esses pensamentos foram a sua mente, inspirando um sorriso.

Sua reação a consternou.

Capítulo 5 O dia depois da visita à costureira, Jeanette retirou à cama com dores de cabeça e Diane se encontrava sem nada que fazer. Era um dia espaçoso e fresco, mas não fazia muito frio, assim escolheu um livro da biblioteca e saiu ao jardim para ler. Logo que tinha lido duas páginas quando sentiu uma intrusão na paz do jardim. Ao levantar o olhar comprovou que Daniel a estava observando. Estava diante de uma fila de roseiras adormecidas, cujos ramos nus criavam um marco de linhas angulosas e espinhosas em torno de sua forma escura. Ele aproximou dela. — Está lendo por prazer ou por aborrecimento? — Um pouco por ambas as coisas. — Então o prazer poderá esperar enquanto aliviamos o aborrecimento. Decidi que o dia é muito esplêndido para ocupar-se de negócios e pedi uma carruagem. Faremos uma visita às Tullerías. Diane jogou uma olhada a sua velha capa. — Não posso aceitá-lo. Os novos vestidos ainda não chegaram. Tirou-lhe o livro das mãos.

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— É só um passeio em carruagem. Não faz falta que pareça uma duquesa. Acompanhou-o através da casa, pensando que preferiria não voltar a viajar a sós com ele em uma carruagem. Nunca tinha recuperado de toda a comprida viajem desde o Rouen. A carruagem esperava em todo seu esplendor. Daniel instalou frente a ela e as rodas ficaram em marcha. O sentimento de familiaridade, de intimidade, envolveu-a em seguida ao fechar a porta. Não ia permitir que a cercania a incomodasse esta vez. Ia exigir informação, e ele não poderia escapulir. Tinha sido uma casualidade que Jeanette tivesse dor de cabeça precisamente o dia em que Daniel não se ocupava de seus negócios, e Diane não tinha nenhuma intenção de desperdiçar aquela oportunidade. Daniel a olhou para assegurar-se de que estava cômoda, e logo fixou sua atenção na cidade que passava ao outro lado da janela.

Desta vez não, monsieur Saint John. — Como você me encontrou? — Ia pelo corredor e ao olhar pela janela a vi no jardim. — Não me refiro ao encontro de agora no jardim. Estou falando anos atrás. Como chegou a ser meu tutor? Olhou-a atentamente. — Não sou seu tutor, legalmente ao menos. — Isso me resulta ainda mais curioso. — Suponho que sim. Conhecia seu pai por meus negócios. Um dia recebi uma carta dele, escrita com muita pressa. Dizia-me que tinha recebido uma chamada urgente para sair do país e me pediu que cuidasse de ti até sua volta. — Foi muito gentil por sua parte aceitar o encargo. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não podia me negar, porque já havia ido quando recebi a nota. — Você deve ter sido um bom amigo, para que lhe pedisse algo assim. — Em realidade, não. Sempre suspeitei que pensasse em mim porque ao estar em Londres me encontrava disponível. Assim que seu pai a tinha deixado aos cuidados de alguém que conhecia de maneira casual, um homem muito jovem que, sem dúvida, havia-se ressentido com a obrigação. — Você devia ser muito jovem para um encargo desse tipo. — Em alguns sentidos. Em outros, não tinha nada de jovem. Diane não tinha esperado uma história tão desconcertante. — Por que meu pai não me enviou com sua família? — Acredito que tinha perdido todo contato com sua família. Quanto à família de sua mãe, acredito que tampouco resultava conveniente. Sua mãe tinha morrido e seu pai nunca falava dela. Todo aquilo tinha sentido. Diane conservava vagas lembranças de seu pai, de seu cabelo escuro e seus olhos azuis. Sobre tudo, recordava suas visitas ocasionais e o prazer que causavam seus cuidados. Não tinha lembranças assim de sua mãe. Entretanto, havia uma anciã a quem via em sua memória com um pouco mais de nitidez que a seu pai. Não era, ao parecer, sua avó. — E por que você não me devolveu a meu pai? — Não pude. Consegui que um casal de anciões cuidasse de você, mas quando não houve nenhuma palavra, quando ninguém recebeu notícias de seu pai, dava-me conta de que teria que fazer outros planos. Com a guerra… Seu tom reservado dizia à verdade que suas palavras evitavam.

A realidade crua a assaltou a modo de golpes consecutivos, como se alguém empenhasse em pegar no peito. Seu pai tinha morrido. Madeline Hunter – O Sedutor

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Sua mãe também. Tentou resistir o assalto, mas os golpes persistiam. Não tinha família. Não havia motivos para ir à busca de sua vida, porque não havia nada que encontrar. O vazio que existia em suas vísceras jamais seria cheio da maneira que tinha sonhado. Agora esse oco afundava, como se um doloroso grito retumbasse nele sem cessar. Admitir a verdade resultava terrivelmente desalentador. Baixou seu olhar para que Daniel não percebesse sua reação. — Seu nome. Como se chamava meu pai? — Jonathan. — Era granjeiro? — Trabalhava no mundo naval. — Lembro do campo. — Tinha uma casa no campo, onde você vivia. Diane levantou os olhos. As lágrimas apareciam, apagando o rosto de Daniel. — Tinha? A casa já não está? Daniel claramente duvidava se devia continuar. — Sofreu alguns reversos justo antes que isto ocorresse. Tudo apagava agora. Diane só via água. A casa também se perdeu. Nada a esperava na Inglaterra. Sentiu um nó na garganta, cada vez mais grosso e ardente, e seu peito pesava terrivelmente. Teria gostado de estar outra vez no internato, em sua estreita, mas familiar quarto. Teria gostado de estar em qualquer lugar menos nessa grande carruagem com Daniel Saint John.

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O grito silencioso seguia retumbando. Nunca tinha dado conta da vastidão do vazio, do alcance de um nada. Os sonhos de sua infância o tinham conservado como algo pequeno, mas nunca mais poderia ignorá-lo. Essa idéia a derrotou. Apertou os dentes para conter o pranto, mas as lágrimas não deixavam de fluir. O grito se fazia cada vez mais forte. Um movimento brusco interrompeu o ritmo pendular da carruagem. Um corpo sentou ao lado dela e uns braços fortes a embalaram.

Ela se aconchegou contra ele e chorou até não poder mais, com sua cara oculta em sua jaqueta de lã.

Teria que ter lhe mentido. Teria que ter contado a elaborada fantasia que tinha inventado. Ela seria obrigada a procurar nos lugares equivocados, mas ela seguiria com esperança. Frente a seus intensos e melancólicos olhos, tinha sido incapaz de fazê-lo. Houve omissões flagrantes em seu relato, mas só uma parte foi falsa, e contou essa mentira para evitar de contar o pior. Sujeitou-a enquanto chorava, oferecendo o breve alívio que a simpatia de um estranho pode proporcionar. Seu pranto o comoveu mais do que teria querido. Conhecia o gélido isolamento que surge da consciência de que alguém está completamente só no mundo. A diferença era que ele o tinha enfrentado em sua infância, e o tempo esconde estas coisas. Mas nunca desaparecem. Se não fosse por Jeanette, teria vivido com esse vazio durante toda sua existência. Teria que ter mentido e ter deixado que saísse em busca de sua amada família, perdida por algum capricho do destino. Teria que tê-la deixado ter fé durante um pouco mais de tempo.

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Suas lágrimas pouco a pouco foram acalmando. Endireitou-se no momento em que uma última lágrima percorria os contornos de sua bochecha. Daniel contemplou seu fluir sobre a formosa pele e algo além da simpatia cresceu em seu interior. A imagem que tinha dela, no dia anterior, no espelho da costureira entrou em sua mente e o possuiu. Recordava sua reação, e a pequena fantasia dessa seda violeta que baixava deslizando por seu corpo. Tocou com seus lábios essa lágrima. Ela voltou para ele seus olhos brilhantes. Olhos cautelosos e curiosos. O beijo a tinha confundido, como se percebesse que provocava algo mais que a simpatia. Seu lábio inferior tremia ainda dos esforços por conter sua emoção. Daniel esteve a ponto de beijá-lo também. A carruagem parou com um salto que o voltou para seus cabais. Amaldiçoando a si mesmo, freando tanto o carinho como o desejo, retirou seu braço e abriu a porta. Desceu da carruagem e entregou a Diane seu lenço. — Seca seus olhos. Caminharemos e sentirá melhor.

A familiaridade parecia de repente menos perigosa. Esse pequeno beijo não a tinha assustado tanto como tivesse acreditado. Houve amabilidade nele, como a houve também em seu abraço. Mas havia também algo mais. Em Daniel e nela. Esse algo que tinha visto no espelho e na forma em que ela reagiu. Como a aguada fina em uma aquarela, apagava as bordas de sua relação e trocava seu tom. Madeline Hunter – O Sedutor

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Secava os olhos, se perguntando se Daniel Saint John saberia devolver as coisas a sua claridade anterior. Ele ajudou-a a descer da carruagem e caminharam juntos. Os jardins continham buxo e hera suficientes para que não parecessem totalmente ermos. Também outros tinham aproveitado o dia e uma fila de carruagens esperava aos muitos caminhantes que salpicavam a paisagem. Apesar de que o ar era fresco, um aroma de terra anunciava a chegada da primavera. — Jeanette não tem nenhuma dor de cabeça, não é certo? A verdade chegou silenciosamente, como se a intimidade da carruagem tivesse aberto novas intuições respeito a aquele homem. — Tampouco é certo que me viu no jardim por acaso. Você planejou tudo isto, para que eu pudesse fazer minhas perguntas. — Já sabia que estava curiosa. Qualquer pessoa em seu lugar o seria. Se tive evitado contar antes estas coisas, já sabe por que é. Temo ter quebrado seu sonho de visitar a Inglaterra. — Não é culpa dela. Inclusive sem esse sonho não deixarei de ir. É o lugar onde nasci. Durante os passos e o silêncio que seguiam, Daniel obteve em efeito restabelecer a claridade das coisas, e as colocar onde estavam antes. Ela lamentava a perda dessa atmosfera. Fazia que o vazio resultasse um pouco menor durante um momento. O novo rei, restaurado ao trono pelos conquistadores da França, estava hoje nos jardins, rodeado por um séquito de nobres e damas. Estava, além disso, o duque Wellington, também rodeado de damas. Daniel ia identificando para Diane e distinguia a outra gente destacada, famosos e não famosos. Alguns eram amigos de Daniel. Embora tivesse sua casa principal na Inglaterra, era um homem muito conhecido em Paris. Homens aristocráticos com chapéus altos e pescoços levantados, assim como jovens dandis engalanados com coletes de seda estampada se detinham para conversar Madeline Hunter – O Sedutor

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com ele. Ele apresentava Diane como sua prima do campo. Com um olhar sozinho em seu aspecto pobre, os amigos entendiam sua insignificância.

Damas belas e elegantes o obsequiavam com sorrisos cálidos e olhares de avaliação. Em duas ocasiões, mulheres com expressões mais mundanas cercaram conversação com ele. Outras mulheres entretinham Diane enquanto Daniel afastava com elas para intercambiar umas palavras em privado. Algo na forma em que ele olhava à segunda, e na forma em que esta devolvia o olhar, fez que Diane recordasse o livro de lâminas. Foi a sua mente uma imagem escandalosa de Daniel fazendo coisas assim com essa mulher. E logo, em outra visão repentina, imaginou Daniel fazendo essas mesmas coisas a ela. Expulsou a imagem, mas foi difícil seguir caminhando a seu lado. Jogou uma olhada de perfil. A sensação desse breve beijo voltou, suscitando um comichão na bochecha. Sentia o calor áspero das mãos de Daniel sobre as suas durante esse primeiro dia em sua quarto, e o tempo voltou a estender-se em outra pequena eternidade… — Diane! A chamada a tirou de seu vergonhoso devaneio. Uma jovem, elegantemente vestida em lã de cor rosa e com uma cabeleira dourada, avançou para ela com os braços estendidos. Arrastou em sua esteira a um homem corpulento e loiro. — Diane, sou eu! Margot! Margot tinha abandonado o colégio de madame Leblanc no ano anterior. Diane aceitou o abraço e sustentou Margot a uma pequena distância para inspecioná-la. A lã rosa era muito fina, e a touca alada tinha sido fabricada por mãos peritas. Jóias muito caras rematavam o efeito. Margot parecia bela e sofisticada, à altura de qualquer dama das Tullerías.

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Esta vez foi Diane que se mantinha apartada enquanto o companheiro dela se ocupava de Daniel. Margot aproximou sua cabeça. — Mãe de Deus, Diane, esse é o Diabo. Abandonaste o internato para viver com sua família? Diane fez uma careta. Sempre tinha se referido assim a Daniel, e as moças no internato tinham adotado a mesma expressão. — Só por um tempo. Procurarei um posto como preceptora assim que cheguemos à Inglaterra. Margot pôs os olhos em branco. — Que vida mais infernal. Espera a ver o que é.

— Você deixou o colégio para trabalhar de preceptora e ao parecer sua vida não tem nada de infernal. Pelo visto foi muito bem. A mão de Margot subiu até seu colar e em seguida à touca. — Monsieur Johnson é muito generoso. Diz que viajará a Inglaterra? Monsieur vive em Londres, embora me comprasse uma pequena residência para quando visitarmos Paris. — Então talvez nos vejamos na Inglaterra. — Ah, mas não deve esperar tanto tempo, sobre tudo se vão lhe encarcerar como preceptora assim que chegue. Tem que me visitar uma tarde e me contar isso tudo sobre as demais moças. — Se monsieur Johnson for inglês, tem muitos amigos ingleses aqui? — É obvio. Nestes momentos Paris está cheio de ingleses. Queria conhecer alguns? Deveria convidá-la a uma de minhas pequenas reuniões? Madeline Hunter – O Sedutor

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— Acredito que eu adoraria. Daniel tinha contado que seu pai tinha trabalhado em âmbitos navais. Sem dúvida alguns dos ingleses em Paris teriam movido nesses mesmos círculos. Possivelmente algum deles pudesse saber mais da família de Jonathan Albert do que Daniel parecia saber. Nunca teria lugar o reencontro que tinha sonhado, mas conhecer alguns parentes, embora fossem longínquos, seria algo pelo menos. Devia haver umas quantas raízes que a atassem a alguém, a algum lugar. Seus acompanhantes aproximaram. Margot voltou a baixar a cabeça até o ouvido de Diane. — O Diabo dava medo quando fomos meninas, mas é um homem muito atrativo agora que nos tornamos adultas. Meu coração está dando saltos. É um milagre que não te deprima cada vez que ele a olhe. Monsieur Johnson pelo visto percebeu a apreciação de Margot. Pegou-a pelo braço e a separou de Diane, educadamente, mas com firmeza, para poder seguir caminhando. — Uma amiga do internato? — perguntou Daniel enquanto caminhavam de volta à carruagem. — Deve ser agradável voltar a vê-la depois de conhecer tanta gente estranha. — Muito agradável. — Recordava as jóias e o vestido da Margot. — Monsieur Johnson não é seu marido, verdade? — Não. Minha irmã pode explicar a você essas coisas. Suspeitava que Daniel, como homem, seria capaz das explicar melhor. — Pergunto-me por que não. Parecia carinhoso. De fato, ela parecia cativada.

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— Há muitos motivos pelos quais chegar a esse tipo de acerto. Possivelmente já tenha uma mulher, que talvez esteja doente ou louca, ou simplesmente seja frígida. Ou uma mulher longínqua, uma noiva oriental. Ou possivelmente não crê que seu amiga seja digna de ser sua esposa. Diane refletia sobre a atenção feminina que tinha recebido de Daniel no passeio. Imaginava que algumas dessas mulheres tinham sido suas Margot. Possivelmente a última seguisse sendo. Só que ele não tinha estado tão encantado por elas como monsieur Johnson com a Margot. — Você tem uma mulher que esteja doente ou em um país longínquo? — Sua pergunta é impertinente. Mas não, a resposta é não. — Então, você deve ser um desses homens que não encontrou uma mulher digna de ser sua esposa. Chegaram à carruagem. — Sou um homem que se considera a si mesmo pouco apto como marido. Ao recusar o matrimônio, estou economizando a alguma mulher bastante infelicidade.

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Capítulo 6 Chegou o vestuário. E chegaram os convites. Os objetos transformaram tudo. As amigas de Jeanette começaram a tratá-la como algo mais que uma menina e eram agora mais abertas em suas conversações. Um dia, Daniel voltou a acompanhá-la às Tullerías e aquela vez os homens a adulavam e as mulheres a olhavam mais atentamente. Alguém que levava chapéus tão finos deixava de ser insignificante. Daniel foi o único que parecia não perceber. A julgar pela atenção que lhe prestava poderia perfeitamente ter seguido com seus velhos vestidos e suas tranças. Comportava-se sempre de um modo educado, mas era como se a intimidade na carruagem jamais tivesse tido lugar. Apesar de seu recém adquirido status, a verdade é que não sentia cômoda nos salões e os jantares aos que assistia com Jeanette. Por isso, quando chegou à carta de Margot, convidando

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Diane para fazer uma visita, estava agradecida pela oportunidade de passar um pouco de tempo com uma velha amiga. Vestida com sua musselina amarela, baixou ao salão de Jeanette para comentar com sua anfitriã seus planos para a tarde. Ali encontrou Daniel com sua irmã. Uma atmosfera desagradável impregnava a sala, como se tivesse interrompido uma discussão. — Está encantadora, Diane — disse Jeanette, contemplando-a com afeto. — Não te parece muito encantadora Daniel? Estava ao lado da janela, tampando parte da luz e olhando para fora. Jogou uma olhada por cima do ombro. — Sim, muito encantadora. — Acredito que ficarei em casa hoje, Diane — disse Jeanette. — Esta última semana me deixou esgotada. Não se importa? — Para nada. De fato, recebi um convite de uma amiga e eu gostaria de ir. Vive perto e acredito que poderia chegar a pé. Aquilo arrancou ao Daniel de sua distração. — Tem a intenção de visitar Margot? Não acredito que seja apropriado. — Seu tom sugeriu que o assunto estava arrumado e que não faria sua visita.

— Agradeço sua preocupação, monsieur, mas Margot e eu falaremos dos velhos tempos, não dos novos. Acredito que interrompi uma conversação, assim que sairei agora e voltarei dentro de algumas horas. — Permitiu que seu tom desse a entender que estava empenhada em fazer sua visita por muito que o desagradasse. — Não interrompeu nada importante — disse Daniel. — De fato falávamos de ti. Assistirei à ópera esta noite, e você me acompanhará. Rogo-te que volte de sua visita a tempo para se preparar. Além disso, se pensa ir andando, leva a uma criada como acompanhante. Madeline Hunter – O Sedutor

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Diane despediu feliz em deixar atrás o tenso ambiente do salão. Não estava convencida de que realmente tivessem estado falando dela. Carecia de toda importância e era impossível que pudesse motivar uma discussão. Por outra parte, não podia esquecer que não tinha sido convidada pelo Daniel para acompanhá-lo à ópera, mas sim tinha recebido a ordem de ir com ele.

As multidões no Palais Royal irritavam a Gustave Dupré. Tinha desfrutado da redução na população parisiense provocada pela guerra. Agora, com a paz e a derrota, as arcadas clássicas que rodeavam os jardins se enchiam não só com franceses, mas também com ingleses e prussianos de toda classe. Em particular, parecia que os soldados do exército ocupante não tinham nada que fazer mais que passear por Paris. Em um dia tão formoso como aquele, em que o sol aliviava o frio nortista que seguia no ar, seria difícil encontrar um assento em um café ou em um banco dos jardins. Surpreendeu-lhe, portanto, vislumbrar vários bancos vazios. Além disso, estavam em um sítio favorecido, de onde a gente podia observar como as damas elegantes passavam muito perto sem ter que agüentar o ruído dos restaurantes. Havia um só homem sentado em um banco, lendo um livro. Gustave apressou para poder se instalar no assento de pedra. Com a bengala entre os joelhos para apoiar as mãos, gozou do calor do sol. Tentava fazê-lo cada dia em que o sol brilhava. Estava convencido de que estimulava a mente. Hoje, além disso, esperava que o aliviasse. No transcurso do dia, saberia se tinha razão a respeito desse manuscrito que tinha comprado de Saint John. Ou seja se sua vida trocaria por completo.

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Duas belas jovens se aproximaram. Gustave pensava que se sentariam no banco livre, ou inclusive no seu. Para sua surpresa, algo as fez afastar. Gustave comprovou sua vestimenta. Ao melhor seus calções… — Não tem você caído você em desgraça, Dupré. É para mim a quem evitam.

A cabeça de Gustave voltou-se violentamente. O rosto do homem sentado no banco contíguo levantou do livro que estava lendo. Emoldurado por mechas de longo cabelo escuro e decorado com uns bigodes de outra época, acendeu em um sorriso cínico. Não era estranho que todos aqueles bancos tivessem ficado inúteis. Gustave começou a levantar para ir embora. — Não seja um hipócrita insofrível — grunhiu seu vizinho. — Seria pouco inteligente de sua parte me insultar. Gustave ficou gelado. Sentou outra vez. Olhou para as arcadas com cara de desagrado, para que qualquer que o estivesse vendo soubesse que ele não celebrava a associação com o homem de sua esquerda. — Nenhuma saudação, Dupré? Nenhum reconhecimento, em memória de outros tempos? — Eu não saúdo traidores. — Vá, está ficando extraordinariamente fino. Sem dúvida, sua análise racional terá descoberto uma maneira de colocar certas coisas em uma categoria e outras coisas muito parecidas em outra. — Não tente me envolver em sua queda, Hercule. Todo mundo sabe que vendeu informação aos ingleses. É por isso que hoje até os ingleses o odeiam. Alegraram de receber o que lhes ofereceu, mas não querem ter nada que ver com alguém com tão pouca honra.

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— Napoleão estava enlouquecendo, Gustave. Ia destruir a França em sua fome de poder. O homem que foi enviado a Elba não era o mesmo homem a quem coroamos imperador. Tinha perdido toda a noção da realidade. — Assim agora se fez médico. — Sou um soldado que venerou a um herói, mas logo o viu se converter em um tirano. Não me arrependo do que tenho feito. Para começar, significa que encontro um espaço onde quer que vá nestes tempos. Gustave quase respondeu que Hercule não o tinha feito para a França. Tinha feito em uma perversa busca de glória. Tinha sido o suficientemente estúpido para acreditar que os ingleses o recompensariam depois. — Não entendo como se atreve a ficar em Paris, onde todo mundo sabe. — Fico em Paris para tentar aprender como pode ser que todo mundo saiba. Tratei com um só homem, um coronel que morreu em Waterloo. Tenho curiosidade de saber com quem falou, e quem me traiu.

Gustave tocava sua fortificação, irritado. Ficou de pé, pensando que ir agora não seria o insulto que incitou a ameaça do Hercule. — Dou-lhe bom dia. Se voltarmos a nos ver, não espere que o saúde. — É obvio que não. Depois de vinte e quatro anos, não há motivo para trocar isso. — A risada de Hercule seguiu Gustave enquanto este se afastava. Seguiu-o, também, sua última pergunta. — Ah, esqueci de perguntar Dupré. Como prospera sua célebre biblioteca?

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A casa da Margot era pequena, mas atrativa, em uma boa zona não muito distinta da de Daniel. Margot apareceu bela e amadurecida com um vestido azul e um colar de prata. ”Propriedades e jóias, asseguradas para ti.” Tivesse recebido ou não as instruções de madame Leblanc, era evidente que as tinha seguido. Diane mandou a seu acompanhante de volta à casa de Jeanette. Ela e Margot passaram uma hora com suas lembranças, e logo decidiram dar um passeio a um parque próximo. — Trouxe-te aqui porque quero que veja algo — disse Margot. — Me encontro aqui algumas vezes com uma nova amiga. Seu nome é Enjoe. Ali está com esses dois meninos. Enjoe é uma preceptora na família de um homem vinculado com o governo inglês. — Por seu tom se diria que está morta. — Poderia perfeitamente estar. Só falamos aqui, porque jamais tem a liberdade de visitar ou receber suas amigas. Cuida desses meninos da manhã até a noite, e quando vão à cama dão outras tarefas, como cerzir ou qualquer outra coisa. Quando deixei o internato trabalhei de preceptora durante alguns meses, assim sei muito bem do que falo. Tive a fortuna de conhecer monsieur Johnson um dia em um parque como este e ele me resgatou. — Então, madame Oiseau não arrumou as coisas para que conhecesse monsieur Johnson? — Essa ave de rapina? Ofereceu fazê-lo, mas as moças que aproveitam seu serviço recebem muito menos, porque seus protetores também têm que pagar a madame. De fato, tomei sua sugestão como um insulto. Escandalizou-me. Depois de três meses vivendo a vida de Enjoe o escândalo evaporou. Diane tentou se imaginar no posto dessa preceptora. A idéia de não ter tempo para si mesmo e tão pouco contato com outra gente a consternou. Para começar, como poderia perguntar por seus parentes se não falava alguma vez com ninguém? Tentou se convencer de que o aspecto anódino de Enjoe não tinha tido impacto em sua reação, mas encontrou a si mesma tocando a musselina gordurosa por debaixo de sua capa. Madeline Hunter – O Sedutor

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Um oficial inglês se aproximou de Enjoe. Fora o que fosse o que dissesse a reação de Enjoe foi imediata. Deu a volta rapidamente e se afastou caminhando com seus meninos. A risada do oficial deixava ouvir por todo o trecho que os separava de Diane. — É obvio alguns dos homens que alguém conhece nos jardins não são cavalheiros, apesar de sua linhagem. Alguns são menos considerados que monsieur Johnson — advertiu Margot. — É importante saber discernir a diferença. Margot trocou a conversação a temas mais gratos. Falaram de lojas e chapelarias, e Diane descreveu o vestuário que tinha recebido. Margot levantou as sobrancelhas com aprovação para ouvir a letania de luxos. Margot a pegou pela mão para ir do parque. —Terá que voltar. Convidei a alguns amigos para que os conheça e o mais provável é que já tenham chegado. Ingleses, como me pedia. Um pequeno grupo de carruagens contornavam a rua da casa de Margot. Uma resultou a Diane muito familiar. Pertencia a Daniel, e o próprio Daniel estava apoiado na porta. — Monsieur Saint John veio recolher você. Isso é muito considerado e cavalheiresco. Além disso, como os presentes custosos que me acaba de descrever, desnecessário. — Talvez pensasse que demoraria em retornar. Vamos ao teatro esta noite. As sobrancelhas de Margot voltaram a subir. — Tenho que ir. — Não. Vêem conhecer meus amigos. — Deveria… — Entra. Que espere. Margot não convidou Daniel a que entrasse. Apenas o saudou. Fez passar Diane para dentro, onde seus amigos estavam bebendo vinho. Madeline Hunter – O Sedutor

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Era uma mescla atrativa de gente jovem. Os quatro homens eram ingleses. Monsieur Johnson não estava presente. Margot conduziu Diane para um assento diante da janela. Por cima do ombro, Diane via como Daniel seguia apoiado contra a porta de sua carruagem. Margot chegou com um dos homens e o colocou quase a empurrões no assento ao lado de Diane. Margot o apresentou como monsieur Vergilius Duclairc, irmão de um visconde inglês, e logo os deixou sozinhos. Monsieur Duclairc era um homem jovem, formoso de uma maneira escura e grosseiramente anguloso, com chamativos olhos azuis.

— Você vive em Paris como estes compatriotas deles? — Diane assinalou para os outros três homens que estavam festejando as mulheres. — Estou só de visita, para ver o mais bonito da cidade e ir ao teatro. Não sou desses abutres que vieram para fazer um festim com sua nação derrotada, mademoiselle. Isso sim, seu tom o mostrava decidido a fazer um festim com as mulheres que tinham ficado desesperadas devido a essa derrota. — Conhece bem a Margot? — Conhecemo-nos através de amigos comuns faz uns dias e teve a gentileza de me convidar hoje. Diane via como Margot, apesar de seguir sua própria conversação, controlava o que estava ocorrendo no assento da janela. — Para me conhecer? — Não sei. Pelo visto, pode que tenha sido essa sua intenção, não lhe parece? Sim o parecia. Primeiro madame Oiseau, e agora Margot. Possivelmente seu amiga tivesse pensado como uma forma de salvação. Madeline Hunter – O Sedutor

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Monsieur Duclairc evidentemente tinha o nível que Margot exigia. Diane especulou sobre como seria ser sua Margot. Sentiu-se avermelhar e uma sensação desagradável provocou um nó no estômago. — Acredito que foi para que nos conhecêssemos e para eu crivá-lo de perguntas. Irei logo a Londres para trabalhar como preceptora. — Se tiver perguntas sobre a cidade, estarei feliz das responder. — Não refiro a esse tipo de perguntas. Também vou ali a procurar à família de alguém. Talvez lhe soe familiar. O sobrenome é Albert. — É seu sobrenome. Seus parentes? — Sim. — Não recordo ter conhecido ou ouvido falar de ninguém com esse sobrenome. Sinto-o muito. É uma família londrina? — Não sei muito bem. Um de seus filhos era naval. Talvez, como irmão de um visconde, você não se movia nesses círculos. — Talvez. Entretanto, há maneiras de procurar às pessoas se conhecerem os nomes e sobrenomes. O dono de um navio teria que arquivar certos documentos. Se tivesse comprado um seguro, os agentes teriam a direção de sua casa, por exemplo. Essa poderia ser uma boa forma de começar.

Monsieur Duclairc parecia interessado na idéia de resolver um quebra-cabeças. Diane lhe perguntou como se podia localizar aos agentes que asseguravam os navios. Enquanto iniciava sua resposta, um silêncio descendeu sobre o salão e sua voz soou de repente muito forte. Uma sombra projetou diante deles. Diane levantou os olhos e olhou de frente o rosto zangado de Daniel Saint John. Monsieur Duclairc pareceu desconcertado por um instante. Logo sorriu. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Saint John. Que feliz surpresa vê-lo. Não sabia que estava você em Paris. O sorriso de Daniel teria podido cortar até o aço. — Eu tampouco sabia que você estava, Duclairc. Vejo que conheceu minha prima. Olhos cautelosos deslizaram para Diane. — Sua prima? — Minha prima. — Não tinha nem idéia, eu o asseguro. — Assim o espero. Margot se tinha transladado a um lugar onde podia observar. Seus olhos cintilavam com o triunfo. De repente Diane compreendeu. O pobre monsieur Duclairc não tinha sido a não ser um peão no jogo de sua amiga. Ela os tinha colocado ao lado da janela onde Daniel podia ver a musselina amarela junto à jaqueta escura. Daniel estendeu a mão. — Vêem Diane. Chamou-a como se fosse uma menina errante. — Minhas desculpas, monsieur Duclairc. Meu primo esquece às vezes que alcancei a maioridade. — Duclairc sabe perfeitamente que já não é uma colegial, carinho. Não fez caso a ele, e tampouco a sua mão. — Você diz que está visitando Paris para assistir ao teatro, monsieur Duclairc. Possivelmente nos voltemos a ver. Agradeço seus conselhos sobre Londres. — Aproximou de Margot, deu um beijo em sua amiga e caminhou para a porta. Daniel demorou em segui-la. Ela olhou para trás e viu que falava em voz baixa com monsieur Duclairc. Teve a impressão de que dois homens estavam esclarecendo algumas costure.

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Daniel a alcançou enquanto descia para a planta baixa. Agarrou-a firmemente pelo cotovelo e não exatamente para sustentá-la. — Não volte a fazer isso jamais.

— Fazer o que? Visitar uma amiga? — Me fazer esperar. — Eu não pedi que me recolhesse e você tampouco me disse que o faria. Não pode pretender que renuncie a meus planos simplesmente porque resulte conveniente para seus impulsos e seus caprichos. — Pedi a carruagem e vim para que não tivesse que voltar caminhado. Estava se fazendo tarde e tem que se preparar para esta noite. — É possível que não queira ir esta noite à ópera. Ao fim e ao cabo, não é como se me houvessem convidado. Um brilho de compreensão atravessou os olhos de Daniel, mas sua expressão apenas abrandou. — Então agora mesmo a convido. Agrade-me. Não era um convite verdadeiro. Realmente não o era. Tinha outra vez a sensação de ser uma boneca. Aumentou a irritação e a vergonha que tinha sentido ao ser tirada dali à força. — A você não convidaram ao salão da Margot e foi mal educado por sua parte entrar. Sua irmã me ensinou isso perfeitamente, junto com todo o resto. A expressão de Daniel tornou mais severa. — Entrei porque era evidente que sua amiga estava pavoneando-a ante o Vergil e outros como uma possível amante. Foi uma estupidez de sua parte visitar esta casa, e uma estupidez minha não impedi-lo. — Abriu a porta da carruagem. — É hora de que minha irmã ensine algo mais a você que a forma de parecer elegante. Mas eu te darei a primeira lição. Há homens encantados de Madeline Hunter – O Sedutor

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ser a marionete de uma mulher bonita e que encontram divertido o tipo de jogo de Margot. Não me incluo entre eles. Repito isso: não volte a me fazer esperar jamais.

Capítulo 7 Ela o fez esperar novamente. Vestido para sair, Daniel deu voltas pela biblioteca. Primeiro avisaram que Diane atrasaria porque a criada tinha feito um desastre com seu cabelo, e logo pelo visto apareceu um pequeno rasgão em seu vestido. — Está fazendo de propósito — disse a Jeanette, que lia um livro ao lado da lareira. — É a primeira vez que vai ao teatro e quer estar impecável. Tenha um pouco de consideração.

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Jeanette poderia se enganar, mas ele não. Foi um desafio deliberado, uma maneira feminina de se vingar pela discussão dessa tarde. — Não deve visitar outra vez a essa mulher. Não se tratava só de um café entre velhas amigas. Havia outras pessoas ali. — Por outras pessoas refere a homens. — Jeanette levantou os olhos de seu livro. — Se tivesse me advertido a respeito desta Margot, haveria me oposto à visita, mas não tínhamos autoridade para proibir. Possivelmente seja bom que tenha ido. Não pode viver escondida dessas coisas, nem aqui nem em Londres. Sua falta de fortuna fará que seja vulnerável. Não quero que seja ignorante Daniel. Conduziria a uma catástrofe. — Então fala com ela com tanta franqueza como quando fala de sedas e toucas. — Estou convencida de que a visita a Margot terá ensinado muito. — Possivelmente não tanto como antecipaste. Margot pode ser uma má influência. — Se uma tarde passada com a amante de um homem significa uma má influência, só me posso imaginar o que terão significado estas semanas comigo. — Jeanette, não… — Esta conversação terminou meu querido irmão. E fique tranqüilo. Instrui-la-ei sobre como proteger adequadamente sua virtude. — Fez o gesto significativo de passar a página de seu livro, mas não sem antes dirigir um olhar malicioso.

Esse olhar dizia tudo. Jeanette sabia. Intuía em sua indiferença forçada para com Diane. Sabia interpretar a impaciência dessa noite, e entendia que o ressentimento de seu irmão ao retornar se devia a algo mais que à preocupação de um tutor.

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Daniel recordava à ira irracional que surgia em suas vísceras enquanto via a musselina amarela roçando com a jaqueta escura. Menos mal que tinha sido o jovem Duclairc. Se tivesse sido qualquer outro, podia haver dado uma surra. Que Duclairc acreditasse ou não isso da prima careceria de importância. Voltaria em qualquer caso. Mas os outros? Porque não cabia dúvida de que haveria outros. Voltou a se dizer que esse era o plano e que deveria estar feliz com o êxito. Sua própria reação constituía simplesmente uma complicação imprevista, e logo a venceria. Diane entrou na biblioteca. Não houve estrondos de trompetista, nenhum aroma floral impregnou o ambiente, mas ele soube em seguida que tinha chegado, apesar de seu passo silencioso. Olhou para ela e sentiu sua boca seca. Estava ali um tanto rígida, encantadoramente insegura de seu efeito. O vestido violeta e o enlace cor nata ressaltava a palidez de sua pele de porcelana. Sua abundante cabeleira estava recolhido em um estilo bastante solto, como implorando que umas mãos masculinas o desatassem. As demais mulheres na ópera formariam o alvoroço de um ramalhete. Entre suas flores abertas, Diane seria uma única rosa discreta, suas pétalas apenas entreabertas em um chamariz atraente do que viria depois. Esse era o plano, e tinha sido um êxito. Só que o homem errôneo se deixou enfeitiçar. — Assim está bem, Daniel? — perguntou Jeanette. — É obvio, jamais duvidei do resultado. Entretanto, acredito que deveria levar minha espada para protegê-la de admiradores. Era o tipo de comentário que revistam fazer os primos, banalmente gracioso e educadamente adulador. Duvidava se soava tão distante como tinha pretendido, porque um profundo rubor avançou do pescoço de Diane até suas bochechas. Durante um momento, enquanto Madeline Hunter – O Sedutor

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aproximava para acompanhá-la à carruagem que os aguardava, o olhar de Diane encontrou com o seu desse modo provocador e cauteloso que lhe era próprio. A parte verdadeiramente infernal do assunto era aquela. Não só Jeanette sabia. Diane sabia também. É possível que não o entendesse, mas o sentia. E estava assustada. Melhor assim.

Diane necessitou o caminho inteiro para o teatro para se recuperar desse olhar. Tinha durado só um instante, enquanto Daniel aproximava, mas seu coração parou durante um tempo que parecia interminável. Quando voltou a soar seu pulso, este retumbava com o passar do trajeto à ópera, porque o magnetismo dominante seguia emanando de Daniel como uma força que a chamava. A opulência do teatro e a fina elegância da multidão a assombraram. Não podia fazer mais que olhar e olhar, e tinha a certeza de parecer com uma menina com os olhos totalmente abertos. Foi uma noite de deslumbrante drama e brilhantismo. Flutuava ao lado de Daniel como em um sonho. Seus amigos visitaram o camarote. Já conhecia alguns, como Vergil Duclairc, mas a maioria era desconhecida. Durante o suntuoso jantar que celebrou entre atos, divisou a algumas das amigas de Jeanette com homens que não eram seus maridos. A diferença de Daniel e ela, era óbvio que não se tratavam de primos. O entorno fascinou tanto Diane que Daniel passou a ocupar um segundo plano. O assalto sustentado a seus sentidos a deixou enjoada, e as adulações procedentes dos olhares e as saudações dos homens a encheram de atrevimento. Depois de jantar, Daniel e ela ficaram sozinhos no camarote pela primeira vez durante a noite. — Por que me trouxe aqui? — perguntou.

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— Jeanette se nega a me acompanhar. Não fica envergonhada de sua enfermidade, mas que a subam em braços a um teatro resulta muito inclusive para ela. — Por que não traz sua Margot? Ao parecer outros homens o têm feito. — Trouxe você porque pensei que talvez desfrutasse. Se não me equivocar, nunca tinha estado na ópera. — Fez uma pausa. — Percebo que em seu caso a inocência não significa ignorância, mas essa foi outra pergunta impertinente, e acredito que sabe. — Tenho descoberto que recebo respostas francas quando me ponho impertinente. — Então possivelmente deveria perguntar essas coisas a minha irmã. É mais apropriado que ela explique os costumes mundanos para você. — Tenho perguntas que Jeanette não saberia responder. Justo então começou o segundo ato. Sua extravagância serviu para distraí-la. A bela música a alagou em uma corrente de emoções. Suspeitava que com o costume sua reação fosse menos extrema, mas aquela era a primeira vez, e ela carecia de defesas contra esse assalto de estímulos a seus sentidos. Quase esqueceu o homem sentado a sua direita. Poderia tê-lo esquecido completamente se ele também a esquecesse. Mas a observava com freqüência. Era capaz de sentir seu olhar.

— Que perguntas? — sussurrou quando começou a última cena. Não deixou de contemplar o cenário. — Já que insiste, estive ponderando algo durante toda a noite. Esta tarde você disse que Margot tinha estado me pavoneando como uma possível amante. Com que propósito está você me pavoneando, monsieur? Não, não era ignorante, apesar de todos esses anos no internato. Era muito preparada. Assimilava tudo, percebendo perfeitamente apesar do ofuscante brilhantismo. Seu deleite era infantil, mas suas valorações muito amadurecidas. Atrás dos olhos cintilantes podia ver como Madeline Hunter – O Sedutor

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sua mente colocava todas as coisas em seu lugar e absorvia as realidades que faiscavam sob a luz das velas. Isso fazia que tudo fosse mais difícil. A ignorância o teria desalentado por completo. Teria podido fingir que ela era ainda virtualmente uma colegial. Mas a compreensão que mostrava para os assuntos mundanos lhe dava a aparência de uma mulher e oferecia um contraponto a sua inocência que resultava perigosamente provocador. Talvez o houvesse sentido aquele dia no internato. Seus instintos o disseram. Por isso ela era tão perfeita para o papel. Parecia, entretanto, que poderia resultar muito perspicaz. “Com que propósito está você me pavoneando?” Enquanto a acompanhava para fora, percebeu que a resposta a sua pergunta não era a que ele tinha considerado autêntica. Tinha desfrutado da noite mais do que podia recordar no passado. Inclusive a companhia de uma Margot favorecida, como Diane tão engenhosamente se referia às amantes, jamais tinha gostado tanto. Não estava simplesmente pavoneando-a para sua educação, para adicionar um pouco de brilho e para fazê-la se sentir cômoda entre a riqueza e a alta sociedade. O fazia porque estava encantado com sua companhia e orgulhoso de que a visse seu lado. O mundo poderia acreditá-los primos, mas ele sabia a verdade. Estava imensamente orgulhoso dela e tinha reagido às aproximações de outros homens para Diane de um modo imediato e pessoal. E possessivo. Não devia ser assim. Pensava nisso enquanto saíam do teatro para esperar a carruagem. A zona estava abarrotada de gente. Rondavam não só o público, mas também os habitantes da urbe que deviam olhar boquiabertos as carruagens e os vestidos. Alguns desses habitantes gritavam insultos aos muitos homens estrangeiros que saíam do teatro, freqüentemente acompanhados por parisienses. As capas superiores da sociedade francesa tinham sobrevivido à Madeline Hunter – O Sedutor

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guerra mais ou menos intactas, mas a gente singela de Paris ainda sentia as privações e mostrava ressentimentos dos vencedores que agora ocupavam a cidade. Daniel guiou Diane para os limites da multidão quando viu como na fila de carruagens a sua avançava dificultosamente para eles. “Sanclare.” A palavra raivosa, cuspida como uma maldição, cortou o ruído. Daniel desviou o golpe quando um homem esfarrapado e barbudo, com olhos ardentes, surgiu da multidão para equilibrar sobre eles. Com os instintos a flor da pele, Daniel agarrou Diane para defendê-la do perigo. Alguém a arrancou de suas mãos, fazendo que tropeçasse com o atacante. O assaltante a atirou ao chão e seguiu avançando, rugindo outra vez essa palavra. Uma faca elevou no ar. Daniel agarrou o braço do agressor e lançou um murro com toda a força que possuía. A faca deu várias voltas até cair ao chão, enquanto que aquele homem enlouquecido dobrava pela força do golpe. Daniel apartou a arma de uma patada. Tudo aconteceu com tanta velocidade que quem achava perto tinham reagido só com mudo assombro. Agora estalou o pânico entre a multidão. Um círculo de espectadores formou em torno de Diane. Sem ouvir a voz interior que o aconselhava que mantivesse sujeito o atacante, Daniel abriu passo entre os corpos e ajoelhou a seu lado. Estava muito agitada e ofegava do susto. Uma rajada de horror atravessou Daniel quando uma mulher gritou que a faca tinha talhado Diane no braço. Enquanto que outros limpavam o caminho e chamavam a carruagem a gritos, ele a levantou em seus braços. À luz do farol da carruagem viu que o corte não sangrava muito e que era pouco mais que um arranhão. Entretanto, o corpo que levava em seus braços estava tremente. Colocou-a na carruagem e tirou a capa para envolvê-la. — Quem… por que… Madeline Hunter – O Sedutor

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— Algum louco, possivelmente zangado com os ingleses. Ao melhor acreditava inglês pelo corte de meu traje. Ela apertou a capa em torno dele. — De repente tenho muito frio. Levantou-a sobre seus joelhos para que percebesse que estava a salvo. Para que ele mesmo desse conta de que estava a salvo. Respirou profundamente para acalmar. — Sinto-me tão ridícula. Não me têm feito muito dano, mas não posso… Tenho a impressão de que a morte acaba de me roçar… Que estúpida sou, me perturbando tanto…

Em efeito, a morte sim acabava de roçá-la. Só pensando nisso Daniel estremeceu. Sentia como Diane notava seu medo e entendeu que isso devia atemorizá-la ainda mais. A bochecha de Diane estava à distância de um polegar da cara de Daniel. Tocou-a com seus lábios. — Sua reação não é ridícula. É normal. Mas agora está a salvo. Estamos na carruagem, a caminho de casa, e ele já não está. Diane aconchegou ao lado dele e ele a abraçou ainda mais forte. Pouco a pouco, como um véu que cai, o tremor diminuía. Daniel respirou o perfume de água de violetas e chegou a cobrar muita consciência do tato do corpo de Diane. Sua preocupação e seu alívio misturavam com novas reações. Sua mútua consciência

daquele

abraço

enchia

a

carruagem,

fazendo

que

o

silêncio

faiscasse

imperceptivelmente. Beijou a cabeleira sedosa de Diane, para reconfortá-la. Durante um instante, ela deixou de se mover. Daniel não conseguia ver sua expressão na escuridão, mas não lhe custava imaginar sua cautelosa confusão. Madeline Hunter – O Sedutor

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Se não fosse pelo perigo que acabavam de enfrentar, possivelmente tivesse resistido. Se o destino não a tivesse arrojado até seus braços, teria tido em conta a voz da razão que recitava os cem motivos pelos que aquele era um engano desastroso. Em vez disso, empreendeu o passo que complicaria tudo, e talvez chegasse a desbaratar os planos feitos para uma vida toda. Beijou-a. Diane deveria ter adivinhado o tipo de beijo que seria. Inclusive antes que os lábios de Daniel tocassem os seus, deveria ter sabido que não seria um beijo de consolo. O ambiente e os braços que a estreitavam a advertiam. O advertia também aquele pequeno infinito que se estendia em torno dos dois quando ele a olhava. Teria detido se Diane houvesse virado a cara. Ela não tinha nenhuma dúvida a respeito. Mas o abraço resultava tão seguro… e o beijo também. Surpreendente, mas doce e suave em seus primeiros instantes. Não durou muito assim. Adquiriu formas que ela não podia ignorar. A cálida pressão tornou de repente insistente, e logo exigente. Permitiu por que não sabia negar. Uma nova e assombrada parte dela não queria negar. Sua reação, a incrível emoção e o profundo rubor interno explicavam tanto… Tudo. Explicavam por que estar a sós com ele a intranqüilizava. A razão pela qual seu olhar escuro a

perturbava tanto. O poder que havia detrás dessa magnética presença. O beijo era tão somente uma pequena culminação de uma espera sem nome que tinha crescido durante semanas. Ele a hipnotizava. Aquela intimidade parecia maravilhosa. Despertou partes de seu corpo e de seu coração que nunca tinha imaginado poder sentir tão vivas. Era a coisa mais assombrosa e mais transformadora que tinha ocorrido em sua vida.

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Daniel não podia parar. O primeiro beijo se converteu em muitos, cada um queimando-a ainda mais, voltando a surpreendê-la. Em seus lábios e sua cara e seu pescoço. Uma série de deliciosas surpresas que deixou os sentidos intercalados em um caos de deslumbramento. Aquele pequeno infinito não fez mais que crescer e crescer até que o que ocorria converteu em um sonho que tinha lugar na escuridão eterna de uma carruagem silenciosa. Nada entrou em sua mente salvo a maravilha. Os dentes de Daniel rasparam sua orelha, enviando calafrios encantadores ao longo de seu corpo. O abraço descia por sua cintura, pressionando-a através do grosso tecido da capa. — Segue tendo medo? — Não… sim… um pouco… — E de mim, agora? Daniel lhe acariciava a face e a mão começava a baixar até seu pescoço. Diane não podia acreditar o que a faziam sentir os meandros dessa carícia. — É provável que fora o mais sensato. Ela não podia ter em conta sua pequena advertência. As sensações que uivavam por sua pele a distraíam muito. Distraiu-a também o seguinte beijo. Embora as palavras de Daniel sugerissem que o detiveram, suas ações exigiam o contrário. Os movimentos indagadores dos dedos em sua pele a tentavam para uma maravilhosa loucura. A paixão de Daniel refletia em todas suas ações — os ofegos e os suspiros que enchiam a carruagem eram todos de Diane. Ele tocou sua boca. Persuadia para que abrisse os lábios. Seus dedos deslizavam no cabelo de Diane para sujeitá-la firmemente enquanto seus dentes brincavam com ela, tentando-a com suas dentadas. A língua dele vibrava em busca da dela, logo que entrou em sua boca. A intimidade invasora enviou profundos e viscerais estremecimentos para seus quadris. Servia como uma advertência mais clara e um aviso mais peremptório que suas palavras. Madeline Hunter – O Sedutor

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O calor de seu abraço e a beleza dessa pequena união a derrotaram. Jamais em sua vida a tinham estreitado com força, e muito menos daquele modo. Nunca a tinham desejado. Nunca havia

sentido tão viva. Um pronunciado suspiro de alívio a sufocou. Queria aconchegar-se para sempre nesse enlace. Daniel não deixava de tomar mais. Mais de seu corpo e de sua vontade. Sustentava-a em um lugar minúsculo repleto de prazer, onde a consciência que tinha de si mesmo se dissipava. — Segue com frio? Ela negou com a cabeça. Embora estivessem tombados na neve não sentiria frio. Daniel arrancou a capa e a deixou cair no chão. Enquanto a beijava profundamente, seus dedos desatavam o laço de seu manto, afastando do corpo de Diane. O calafrio que a sacudiu não tinha nada que ver com a temperatura. O peito de Daniel esmagava o braço. Sem pensá-lo, Diane liberou seu braço e rodeou com ele os ombros de Daniel. Foi como se um ramo se rompesse. Tão fulgurante foi o efeito que teve nele o abraço compartilhado. Seus beijos eram cada vez mais insistentes e suas carícias cada vez mais atrevidas. O corpo de Diane gozava desavergonhadamente de seus descobrimentos. O seio que o peito de Daniel não roçava sentiu um comichão de ressentimento pela falta de contato. Diane inteira animava em silêncio a mão de Daniel para que esta explorasse atalhos distintos. Como se a tivesse ouvido, as carícias desciam. Com compridos, quentes chamariz lançado através da fina seda começou a lhe tocar o corpo com escandalosa intimidade. Inclinou a cabeça para beijar a pele por cima do vestido, e logo o vestido mesmo. O calor de seu fôlego a chamava e Diane curvou para ele como um arco. A boca dele jogava sobre seu seio, mordiscando através da seda, fechando sobre a ponta. Madeline Hunter – O Sedutor

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Deixou-a louca. Jamais tivesse imaginado que pudesse existir algo tão delicioso e tão necessário. O prazer, e o desejo de mais, venceram-na completamente. E lhe deu mais. O braço que a sujeitava trocou-a de lugar, para poder envolvê-la ainda mais estreitamente. Enquanto estimulava um de seus seios com a boca, sua mão apressava para excitar o outro. Provocava nela pequenos gritos, animando-a a se entregar a essa deliciosa euforia. Ela era incapaz de resistir ao que estava acontecendo. Não sabia como. Não queria sabê-lo. Daniel deteve para olhá-la. Ela sentiu como se uma tensão quebradiça surgisse nele, como se vacilasse para voltar em seguida a levantar o vôo. A mão de Daniel levantou e golpeou sobre a parede da carruagem. Deu-lhe um beijo profundo e a acariciou de uma forma possessiva que não conhecia restrições. Entretanto, a breve pausa havia devolvido a Diane algo de seus sentidos. A realidade

invadiu a carruagem por um instante. Viu de repente com toda nitidez o que estava ocorrendo e não pôde ignorar as implicações escandalosas do modo em que Daniel a tocava. Ele voltou a tomar em sua boca um dos seios de Diane ao tempo que acariciava suas pernas mais acima. Ela cambaleava outra vez na borda do abandono total. Seu corpo desejava desesperadamente sucumbir e algo incivilizado em sua alma desejava o mesmo. O prazer assegurava que seria maravilhoso. Mas outra voz, apenas perceptível, avisava do perigo. Obrigou-se a soltar seus ombros. Separou-se dele. — Não devemos fazê-lo. Você sabe que não devemos. Custou-lhe toda a força que possuía. Uma grande parte dela rebelou ante esta negação e rezou para que ele não a aceitasse. Daniel a olhou. Sua mão seguia sobre a coxa de Diane, sugerindo antecipações que ela não atrevia a reconhecer. Embora tivesse detido seguia tentando-a. Madeline Hunter – O Sedutor

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Se voltasse a beijá-la, seria sua perdição. Ele soltou seu corpo. — É obvio. Tem razão. O perigo superou aos dois. A gente está acostumada perder o controle em situações assim. Ajudou-a levantar de seus joelhos e a sentar a seu lado, e voltou a envolvê-la em seu manto. O coração de Diane retorceu. Tinha devotado uma desculpa para ambos, mas sobre tudo para ela. Deu outro golpe na parede. Nem afastou dela, nem trocou ao outro assento. Inclusive seguiu com seu braço em torno de Diane. Foi como se o fizesse por gentileza, para que ela não se sentisse tão envergonhada. Diane sentia, entretanto, como crescia a distância apesar da cercania. Antes que a carruagem parasse, ela sabia que ele havia resolvido guardar todo o ocorrido dentro do tempo e o espaço nos que acabava de ter lugar. Deveria sentir agradecida, mas enquanto a ajudava a baixar e a acompanhava até a porta, o peso da tristeza alojou em seu coração. As velas na entrada mal iluminavam o rosto de Daniel enquanto caminhava com ela até as escadas. — Deveria ir para seu quarto agora, Diane. Pede que uma criada limpe o braço. Suas ações eram tão frias e corteses como sempre, suas palavras calmas e distantes. Sua compostura a assombrava. Ela mal que conseguia respirar. Subiu correndo pela curva da escada. Na metade do caminho olhou para baixo. Daniel não se foi. Contemplava-a com uma expressão que a fazia tremer as pernas.

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Não parecia agora tão contido como sugeriam seus atos e sua voz. Um brilho masculino faiscava perigosamente em seus olhos. De repente compreendeu o significado daquele primeiro golpe na parede da carruagem. Esse golpe tinha sido um sinal para que a carruagem seguisse sem parar e não voltasse para a casa. Se não o tivesse detido… O rosto de Diane ardia enquanto subia as escadas, mais depressa agora, um pouco preocupada com medo de ouvir atrás dela o som de seus passos. Tinha estado perigosamente perto de ser deflorada naquela carruagem.

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Capítulo 8

Daniel caminhou silencioso e invisivelmente pelas escuras ruas da cidade dormida. Tentou dirigir seus pensamentos ao assunto que o ocupava, mas insistiam em voltar para a doce paixão de uma jovem em uma carruagem escura. Amaldiçoou em voz baixa. Era indesculpável que justo aquela noite, entre todas as noites, tivesse permitido que o prazer o distraísse. Teria podido destruir tudo em um só impulso imprudente. Se tivesse permanecido nessa carruagem, a demora teria posto em perigo não uma, a não serem duas metas. Ele nunca perdia o controle de nada, e muito menos de sua libido. Entretanto, quase o tinha feito, e estava enfurecido. Tentou agarrar-se a sua ira, mas as lembranças voltavam sem cessar, esfriando seu rancor com uma doce brisa, tentando para que abandonasse sua determinação.

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Parou a sombra de um portal. Nunca seria capaz de completar o trabalho dessa noite em semelhante estado. A lembrança dos suspiros e a suavidade de Diane o deixariam descuidado. Voltou a amaldiçoar e obrigou a seguir um caminho distinto. Suas pernas o levavam, mas seu espírito rebelava. Encontrou-se de repente em um lugar que jamais visitava salvo quando precisava recordar quem era. Sua carruagem jamais cruzava essa praça e quase nunca chegava em seus passeios a uma distância menor de três quadras dali. Evitava Paris por causa desse lugar. Produziulhe um ressentimento furioso ver que tinha chegado até ali agora, para acender o fogo de sua resolução e para castigar a si mesmo por esquecer a razão que o fazia seguir vivo. Apoiou contra um muro, notando em um ponto muito preciso na escuridão. Sabia exatamente onde estava, a quantos passos de distância. Não era mais que outra coleção de paralelepípedos, igual a muitas outras, com sua história atroz pisoteada até o esquecimento por milhares de pés.

As lembranças o assaltaram. Velhas lembranças, muito vivas se tinha em conta sua idade. Lembranças de um horror e uma impotência espantosa. Horríveis sons, imagens ainda mais horríveis e olhos que refletiam o assalto do terror em um último olhar. Não passou muito tempo ali, mas pareceu uma eternidade. Foi uma eternidade. Evitava esse lugar de um modo muito particular, mas sua alma nunca se apartava muito dele. Dirigiu para o destino que quase tinha esquecido enquanto tinha Diane entre seus braços, para um propósito quase abandonado pelo impulso de possuí-la.

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A casa estava escura, impregnada do descanso noturno. Daniel observou a fachada até divisar as janelas do desvão sobre o beiral. Um pequeno brilho de luz aparecia de uma delas através da escuridão. Atravessou a ruela que levava a parte traseira da casa. Tirou a jaqueta, deixando-a cair atrás de um arbusto. Procurou as fundas junturas das esquinas e centímetro atrás centímetro escalou o muro. Nenhum colete impedia sua ascensão. Sua camisa negra não ofereceria nenhum reflexo à luz da lua. Era uma forma negra que subia palmo a palmo por uma massa escura. Alcançou o segundo andar e procurou a janela a sua esquerda. Seus dedos prenderam no ligeiro saliente onde permanecia entreaberta. Com enorme cuidado conseguiu abri-la, deslizou por ela e entrou na quarto. As últimas brasas seguiam ardendo na lareira, mas não as necessitava. Reconheceu seu destino no estranho perfil cuja sombra projetava sobre uma larga mesa. Junto à mesa, fundo em uma poltrona, um homem dormia, muito ansioso para deitar mas muito esgotado para permanecer acordado. Daniel examinou o aparelho. Dois cilindros descansavam sobre um marco de madeira e uns arames que terminavam em um recipiente metálico cheio de líquido. Com um pau de madeira, tirou os arames do recipiente, recordando de cor suas posições corretas. Ao molhar os dedos no líquido, sentiu o tato de um pedaço sólido e quadrado de metal. Examinou sua forma, notando em um canto e as vagas incisões sobre a superfície. Extraiu de seu bolso outro pedaço de metal com sinais idênticos e se dispôs a substituí-lo pelo que tinha entre seus dedos, tirou os arames e voltou calmamente à janela. Ao sair da janela, encontrou os apoios para seus pés nas rústicas bordas das esquinas. Fechou a janela de um empurrão. Pela manhã estaria totalmente fechada.

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Caiu ao chão e voltou a atravessar as ruas escuras. Fazia sua parte. Depois daquilo, a vaidade faria o resto.

Agora devia chegar até o final. A maldição incoerente de um louco retumbava em sua cabeça. Devia terminar rapidamente, já que além disso era possível que ficasse pouco tempo. Tudo tinha trocado e Diane não podia fingir o contrário. Daniel atuava como se o ocorrido na carruagem não tivesse acontecido, mas embora voltasse a adotar sua educada indiferença já não podiam voltar para a situação de antes. O que tinham feito ficava suspenso no ar durante as comidas e nos breves instantes em que ela compartilhava sua companhia, e ocupava todos seus pensamentos quando permaneciam separados. Diane não podia reprimir sua nova suscetibilidade ante a presença de Daniel. O magnetismo seguia estando ali, e fazia palpitar o coração. Não fazia falta nem que a olhasse para que voltasse a abrir-se ante ela um daqueles momentos infinitos… Com freqüência estava esperando que se aproximasse para beijá-la outra vez. Preocupava a idéia de que a ele ocorresse acompanhá-la até a porta de seu quarto. Pior ainda, não estava de tudo convencida de ser capaz de resistir a esse beijo, ou inclusive a mais. Se é que voltava a sentir o que tinha sentido nessa carruagem. Isso significava que já não podia permanecer nessa casa com a consciência limpa. Durante as visitas sociais que fazia com Jeanette, mencionava sempre que não rechaçaria um emprego como companheira ou preceptora se alguma das amigas de Jeanette a pusessem à corrente de algum. Deixava muito claro que preferiria uma família inglesa. Assim poderia algum dia partir para a Inglaterra e talvez antes encontrar com pessoas que conhecessem uma família chamada Albert. Madeline Hunter – O Sedutor

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Uma semana mais tarde, ao baixar à sala de café da manhã, encontrou Daniel ali, em uma de suas incomuns aparições matinais. Jeanette e ele estavam sentados juntos sem falar. Diane se uniu a eles, mas depois das cortesias iniciais reinou o silêncio. Finalmente, Daniel se desculpou e levantou para partir. — Quando acabar aqui, Diane, eu gostaria que fosse a biblioteca. Há algo que devo te dizer… Ela não se apressou para terminar o café da manhã. Era possível que queria desculpar-se ou inventar mais desculpa para os dois. Ela preferiria evitar o tema completamente. Jeanette chamou Paul. Enquanto o criado levantava sua ama nos braços, Jeanette a olhou de acima.

— Meu irmão deixou que lado negócios importantes para poder falar com você. Faz o favor de não faz-lo esperar muito. Talvez o tivesse feito esperar eternamente se não tivesse sido por essa petição tão explícita. Achou-o na biblioteca, sentado em uma poltrona junto à lareira. Outra poltrona vazia esperava a seu lado, disposta para ela. Parecia distraído quando ela entrou, como o dia daquela viajem desde Rouen. Diane refletia sobre quantas vezes tinha visto aquela expressão, inclusive durante as comidas ou quando conversava com Jeanette. Seu ar de indiferença fazia suspeitar que grande parte de sua mente estava completamente absorta em algum assunto. Debatia melancolicamente com algo e não parecia que esse algo tivesse que ver com Diane Albert. Tratar-se-ia de negócios? Assuntos navais? A ela não o parecia. Era algo mais profundo e antigo. Muito mais pessoal. Sempre estava ali, uma força escura que agitava por seu corpo e sua presença como uma energia mal contida. Madeline Hunter – O Sedutor

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Sentou-se. Daniel jogou uma olhada e logo voltou a centrar sua atenção no fogo. — Minha irmã disse-me que estiveste pedindo a suas amigas que averigúem se houver um emprego para ti. — Acredito que é o mais sensato. Há muitas famílias inglesas aqui. — A maioria tem vínculos com o exército ou com o governo. Se trabalhasse com elas, poderia passar muito tempo antes que fosse a Inglaterra. — Então terei que esperar. Ao parecer, demorarei muito tempo também se ficar nesta casa. — Não é assim. Acabo de dizer a Jeanette esta manhã que partiremos para Londres dentro de uns poucos dias. Diane levou uma surpresa. Não tinha havido nenhuma menção desses planos. Parecia estranho anunciar uma viagem tão repentinamente. — Eu gostaria que voltasse a considerar sua decisão de partir por sua própria conta. Também eu gostaria de propor uma pequena mudança em seus planos uma vez que cheguemos à Inglaterra. — Que tipo de câmbio? — Espero que uma mudança atrativa. Um emprego melhor que o de preceptora. Diane não podia acreditar que fosse tão atrevido. —Minha irmã chegou a sentir muito carinho por ti. Ela me acompanhará durante esta viagem. Não se sentirá tão cômoda como aqui. Uma companheira aliviaria seu isolamento.

Diane fixou seu olhar naquele homem arrumado, confidencialmente depravado na outra cadeira. Não era estranho que Jeanette tivesse estado tão calada durante o café da manhã. Talvez suspeitava do que tratava.

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Possivelmente Jeanette fizesse mais que suspeitar. Talvez soubesse. A idéia a entristeceu. Diane tinha afeição por ela. Era em certa maneira a irmã que não tinha. Não fazia graça pensar que Jeanette poderia ter estado preparando-a conscientemente para que fosse a amante de Daniel. A julgar pelo que Daniel propunha e depois do ocorrido entre os dois na carruagem, esse parecia ser o verdadeiro posto que a esperava na Inglaterra. Não se sentiu tão surpreendida como cabia imaginar. Uma parte dela tinha estado esperando uma proposição desse tipo durante toda a semana. Durante todo o mês, possivelmente. Mesmo assim, teria gostado que não fosse certo. Cobria com uma mancha toda a gentileza, sujava toda a generosidade e fazia pensar que o acontecido depois da ópera tinha sido uma sedução calculada. Também incomodava que Daniel acreditasse que fosse muito estúpida para dar conta dessa armadilha. — Poderíamos seguir na Inglaterra como aqui? — Sim. — Teria liberdade para fazer minhas visitas e ter amigas? Você se encarregaria de meu vestuário e minhas demais necessidades? — É obvio. Sua absoluta calma a zangava. Ao menos poderia mostrar um pouco nervoso. — O que passará comigo assim que sua irmã retorne a Paris e você já não me necessite? — Para então terá várias opções, incluindo a de te converter em preceptora. Sem dúvida poderá também fazer de acompanhante para outra dama. Ou poderia inclusive casar, o qual resultaria pouco provável se tornasse preceptora. Daniel Saint John não era, pelo visto, monsieur Johnson. — Se aceitar este emprego, mais tarde serei indigna como preceptora, ou como acompanhante, e sobre tudo como esposa. Depois deste emprego, ninguém me teria em Madeline Hunter – O Sedutor

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consideração para semelhantes postos, e você sabe muito bem. Poderia pelo menos ter a decência de fazer como outros homens, e me oferecer propriedades, ou jóias, ou algum acerto. Daniel a olhou com uma expressão de surpresa, e logo com total assombro. Não cabia dúvida de que agora concentrava nela toda sua atenção. — Entendeste-me mau, Diane.

— Entendo muito bem. Sempre o entendi em meu coração, mas fiz caso omisso à evidência. Você foi excessivamente generoso, e me introduziu em um mundo de luxos e comodidades além de todos meus sonhos. Sou a proprietária de um vestuário que a filha de um conde invejaria. Apresentam-me como uma dama e vivo como uma dama. Madame Leblanc me advertiu sobre algumas costure antes de partir com você, e agora vejo que tinha razão. — Compreendo que possa pensar isso, sobre tudo depois do ocorrido na carruagem. — Em efeito. É possível que não seja muito mundana, mas tampouco sou tão ingênua como se logo saísse do casca de ovo. — Volto a insistir em que me entendeste mal. Seus olhos a olhavam divertidos, mas mostravam também uma calidez encantadora. Um pensamento atroz a aguilhoou. Talvez fosse certo que o tinha entendido mal. — Você está falando a sério de ser a acompanhante de sua irmã, e nada mais? É o único que esperará de mim? — É o único que esperarei de ti. A humilhação a alagou. Tinha sido terrível acusá-lo de semelhante costure, mas ter se equivocado… Cobriu o rosto com as mãos e ficou a rir de si mesma: — Eu… ai… Que incômodo é isto… Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não tem por que te sentir incômoda — ele falou e a olhou com mais gentileza que nunca. — Te pergunta sobre minhas intenções. Não posso culpá-la. As últimas semanas devem ter confundido você. Que sentido tinha esta generosidade? Para que te converter em uma dama se só pretendia ser uma preceptora? — Em efeito, tudo parecia bastante ao que predisse madame. — E além eu cumpri com as expectativas a semana passada. Posso prometer que tudo isto não é um plano para que termine em minha cama. Ruborizou acaloradamente e esteve agradecida quando Daniel levantou e caminhou para a lareira. Contemplava o fogo. —Talvez deveria confessar que fui generoso contigo também em benefício próprio, sua presença em minha casa de Londres me convém. Sou um homem de negócios. As algemas e as parentes são muito úteis para homens como eu. A enfermidade de minha irmã a impossibilita para atrair a atenção de homens aos que me beneficiaria conhecer. Você sim o fará, tanto em Londres

como o tem feito aqui. Não há nada sórdido nisso. Assim é o mundo. Com uma formosa prima na sociedade, meus círculos aumentarão, isso é tudo. — Espera que eu encoraje a esses homens? — Não. Acontecerá sem nenhum esforço por parte de ninguém. Aparecerão os admiradores. Conhecê-los-ei junto com seus pais e seus tios. As cartas serão jogadas nos clubes, os negócios se farão, e você não se inteirará de nada. Diane secou as lágrimas que caíam da risada e a vergonha.

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— Agradeço esta explicação. Não cabe dúvida de que dá mais sentido a estas últimas semanas. Depois do que me disse madame… enfim, parecia como se… e logo a ópera… mas vejo que foi realmente uma conseqüência do susto. É tranqüilizador saber que não fixou em mim. Daniel girou. — Eu não disse que não tenha me fixado em você. Diane precisou inspirar profundamente. — Não tem nada que temer, Diane. O fato de que tenhamos dado um primeiro passo não me obriga a tomar mais. Você é muito formosa e, como a maioria dos homens, eu me darei conta e reagirei, isso é tudo. — Se continuar vivendo em sua casa, isso pode complicar as coisas. Disse-me que não esperará nada de mim. Eu quero agora sua honestidade total. Não me pedirá nada mais? Tinha razão madame? Você pensou em me pedir que seja sua amante? — Não é essa minha intenção. Embora seja certo que nem sempre consigo me controlar. A ambigüidade de sua resposta não era exatamente tranqüilizadora. Sua expressão tampouco. O coração de Diane palpitava com cautela e com uma emoção que ela não queria reconhecer. — E se pedisse isso, como me responderia? —falava como se fosse de uma curiosidade insignificante. Diane o olhou, assombrada. — Porque se acreditasse que foste responder que sim, é possível que a tentação fora muito grande. — Quero que me prometa que se ficar com Jeanette, você jamais se renderá a essa tentação. — Eu não posso te fazer essa promessa. Como a maioria dos homens, estou acostumado a deixar o progresso dessas coisas às mulheres, como fiz contigo a outra noite. Em realidade você não Madeline Hunter – O Sedutor

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queria parar e as coisas poderiam ter terminado de outro modo. Um beijo mais, uma carícia mais. O fato de que não tomasse esse passo deveria tranqüilizar você mais que qualquer promessa banal.

— Você me assombra. Por um lado me diz que não espera nada de mim, e ao momento seguinte afirma estar convencido de que se o esperasse, eu não resistiria. — Pediu-me honestidade e isso é o que ofereço. Muita honestidade. Sentia-se envergonhada ao ver sua debilidade tão abertamente descrita. Tampouco a tranqüilizava a afirmação de que o futuro de sua virtude dependia completamente dela. Porque era claro que se mostrou débil, e Daniel a desconcertava tanto que não sabia se seria capaz de ser tão forte em outra ocasião. Olhou as mãos. Os dedos estavam entrelaçados, igual ao matagal confuso de suas reações e emoções. — Diane. — Era uma chamada em voz baixa para que o escutasse. Uma palavra, dominadora e delicada de uma vez. Levantou seu olhar. Daniel estava diante da lareira, escuro e perigosamente belo. As chamas apareciam em torno de suas pernas como se o fogo tivesse o impregnado de sua essência. Os olhos de Daniel a obrigavam a escutar. O nome com o qual o batizado em sua infância acudiu de repente a sua mente, mais apropriado do que nunca tivesse ousado imaginar. O Diabo. Um príncipe das tentações. — Diane, quer que dê esse seguinte passo? Quer ser minha amante? A sensação de escândalo refletiu em sua voz. — De maneira nenhuma! Daniel avançou para ela. Diane afundou na poltrona em um vão esforço por guardar certa distância. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel levantou o queixo dela com sua mão e a olhou fixamente aos olhos, fazendo que fosse incapaz de resistir. Seu áspero polegar roçou a bochecha e uma intensa sensação baixou serpenteando até seu coração. — Mentira. Não tem isso de forma tão clara, de maneira nenhuma. Soltou-lhe a mão e encaminhou para a porta. — Considera a oferta de minha irmã. É uma oportunidade para que tenha certa forma de vida. E estará a salvo de mim, por várias razões.

Capítulo 9

— Diane, esta é a condessa de Glasbury — disse Jeanette. A visitante, que esperava sentada na sala de estar da casa de Londres, tinha o cabelo escuro, a pele clara e uns olhos que brilhavam com calidez. Era muito mais jovem que Jeanette, e tinha poucos anos mais que Diane. Parecia muito menos orgulhosa que as condessas francesas que Diana tinha visto nas Tullerías ou na ópera.

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Os olhos poderiam ser amistosos, mas mesmo assim a inspecionaram. — É uma jovem muito formosa, Diane. Será um ímã de atenção, Jeanette. Não me surpreenderia que meus irmãos se apaixonassem por ela assim que a conheçam. — Em realidade, um deles já a conheceu — disse Daniel. Diane olhou para a janela. Não o tinha visto entrar na sala de estar. — Um dos irmãos da condessa é Vergil Duclairc, a quem conheceu em Paris — explicou. — Conheceste Vergil? Que maravilha. Estamos esperando sua volta de Paris em qualquer momento, assim terá outra cara conhecida. Diane tinha dúvidas de que a condessa mostrasse tanto entusiasmo quando inteirasse das circunstâncias desse primeiro encontro e os propósitos da pequena reunião de Margot. — A condessa aceitou ser sua acompanhante quando participar de reuniões e bailes — explicou Jeanette. — Só até que convençamos que você mesma a leve, Jeanette — particularizou a condessa. — Estou organizando um jantar para a quinta-feira desta semana. Daniel, possivelmente você e sua prima poderiam se unir a nós. Farei que envie o convite imediatamente e espero que vão. Eu teria dito antes se tivesse sabido de sua volta a Londres. — inclinou para Diane, como se fora contar um segredo. — Não será um grupo muito grande. Acredito que será uma apresentação fácil. Despediu-se. Diane procurou assimilar o fato de que acabava de se converter na protegida de uma condessa inglesa. Não tinha o mínimo sentido. Em Paris, Jeanette transitava em círculos

elevados, mas não na mais alta sociedade. Suas amigas eram ricas e algumas tinham sido aristocratas de menor fila, mas ela não se incluiu entre as mulheres que se acotovelavam com a nobreza.

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— A condessa é muito generosa — disse. — Acredito que serei um estorvo. Estarei deslocada em seu jantar e todo mundo saberá. — Não será como antecipa. A condessa é um tanto depreciada. O fato que eu seja seu amigo o prova — disse Daniel. — Prefere os círculos mais democráticos aos que seguem estritamente a moda, e tão melhor, porque os melhores círculos não a aceitam. — Por que não? — Separou de seu marido. — Hipócritas insofríveis — disse Jeanette com desprezo. — Uma mulher abandona um marido de má reputação e é ela quem sofre o castigo. Não o abandonou por outro. E as mulheres que lhe voltam às costas durante o dia passam a noite saltando de cama em cama. Os ingleses são gentinha. Segue me assombrando que se sinta capaz de viver entre eles, Daniel. Ao menos na França não usamos esta fachada de elevada moralidade para ferir outros quando nós somos iguais. Daniel não fez caso ao arrebatamento de sua irmã. — A condessa é uma entre muitas outras mulheres de sua fila que gozam de um grupo muito heterogêneo de amigos, Diane. Suas noites serão bastante entretidas, embora nunca a incluirão no Almack's. Jeanette pôs os olhos em branco. — Graças a Deus. São o pior do pior. — Possivelmente tenha razão à condessa, mademoiselle, e você termine por me acompanhar algumas dessas noites — disse Diane. — Eu não gosto da sociedade inglesa. Não há motivo, entretanto, para que você sofra por meus caprichos, e meu irmão se assegurou de que não seja assim. Não só se encarregou de sua diversão. Encarregou-se de que Diane fora pavoneada, para assim atrair aos homens que o pudessem beneficiar. Diane estava empenhada em não esquecer os motivos de tanta generosidade. Madeline Hunter – O Sedutor

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Jeanette parecia agitada. Não estava bem desde que embarcaram na França em um dos navios de Daniel. E tinha piorado assim que chegaram a casa em Londres no dia anterior. — Você gostaria de tomar um pouco de ar no jardim, Diane — disse. — Queria falar com meu irmão de um assunto. Foi a primeira vez que Jeanette a tinha despachado tão diretamente. Diane pediu permissão e saiu. Algo tinha trocado na chegada. A relação entre os dois irmãos tornou tensa.

— Não volte a fazer isso — espetou Jeanette. Daniel percebeu o tom venenoso e os olhos que ardiam. Lamentava o mal-estar de sua irmã, mas não podia evitar pensar que uma Jeanette zangada era melhor que uma Jeanette que flutuava pela vida em uma nuvem de lembranças parisienses. — Não volte nunca mais a convidar suas amigas para que me visitem assim. Uma coisa era receber à condessa em Paris, mas isto é algo muito diferente. Aceitei vir, depois de todos estes anos, por ti e pela Diane, mas deixei bem claro que não sairia desta casa. Nego-me que estas mulheres me enrolem, sejam condessas ou esposas de navais ou suas amantes. — Não fará nenhum dano a você receber visitas, embora não saia. Não é saudável que leve uma vida de reclusa. — Não me diga o que devo fazer. Como te atreve! E não se esqueça jamais de que sou a única mulher no mundo que não o venera. Paul e Diane serão companhia suficiente. — E quando alguém visitar Diane? Cedo ou tarde ocorrerá. — Você me jurou que Tyndale não viria. — E não virá, mas suponho que outros sim. — Então serei eu a presença cinza que lê seu livro em uma esquina.

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Daniel havia lhe pedido um grande sacrifício, ao exigir que o acompanhasse esta vez. Doía ver como lutava com as emoções que evocava para ela a Inglaterra. Ele aproximou e pôs a mão no ombro dela. Ela levantou os olhos. A ira evaporou de seu rosto, deixando ver as verdadeiras emoções que a estavam consumindo. Acariciou seu ombro para tranqüilizá-la. Ela inclinou a cabeça para apoiá-la no flanco de seu irmão, e o contato converteu em um abraço. — Não é justo que me leve assim — disse. — Tem tomado todo o assunto sobre seus ombros, e não deveria me queixar por estar um pouco incômoda. Só espero que tudo acabe logo. — O mais breve possível, carinho. Ouviu-a inspirar profundamente. Estava contente de não poder ver suas lágrimas, nem seus intentos de sufocá-las. — Há algo, Daniel. Disse-lhe isso deste o começo e volto a dizer. Não quero que ela saia danificada, isso não. Tomei-lhe bastante carinho. Sei que você a desejas, mas não pode ser. “Não pode ser.” Não fazia falta que Jeanette o recordasse. Aquela frase estava ali como um cântico em sua cabeça de noite e de dia. Sobre tudo de noite. Em Paris teria podido ser, e quase foi. Havia sentido muito tentado com a idéia de esquecer todo o resto para que pudesse ser assim. Ainda sentia, às vezes, essa tentação, como aquela mesma manhã ao vê-la entrar na sala de estar, tão delicada em sua beleza melancólica. Era fácil, nesses momentos, esquecer de tudo. Quem era e como a tinha conhecido e o fato de que ela poderia ser o meio de conseguir muito em breve a meta de toda uma vida. Abandonou Jeanette e saiu ao jardim, procurando Diane embora não devesse. Não tinha sentido que o fizesse. Não podia ser. Saiu de todos os modos.

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O jardim era maior que o que tinha em Paris, e menos formal. Era um jardim apropriado para a casa e para a Rua Mayfair, rodeado com outras imponentes fachadas. Sua organização, livre e natural segundo o estilo inglês, agradava-lhe. Havia vizinhos nessa rua que viam com maus olhos que Daniel ocupasse essa propriedade. Aqueles que, a diferença da condessa de Glasbury, preocupavam muito por como tinha chegado a adquiri-la. Ele sabia que tinha toda a aparência de um novo rico quando tomou posse da casa, o caso típico de um naval que se instalava entre seus superiores onde não o queriam. Essas coisas o preocupavam pouco, e embora não fosse assim, não faria conta. Tinha seus motivos para estar ali. Encontrou Diane sentada em um banco sob uma árvore sem folhas, envolta em sua velha capa do internato. Agora tinha capas de muita melhor qualidade e ele perguntou por que teria insistido em pedir essa. Nem sequer a cobria adequadamente, e só alcançava até a metade das pernas. Parou para contemplá-la. No internato tinham que ter procurado uma capa mais apropriada. Daniel tinha deixado dinheiro cada ano para que a cuidassem, mas jamais incomodou em comprovar que realmente gastasse em suas comodidades. Evidentemente não tinha sido assim, se é que aos vinte anos seguia usando uma capa provavelmente comprada quando tinha treze. Bem-vinda ou não, ela tinha sido sua responsabilidade. E não a tinha cuidado muito bem. Aquele era outro motivo pelo que não podia ser. Caminhou até seu lado. Diane o olhava aproximar com olhos que pareciam quase tão acusadores como os de Jeanette um momento antes. — Obrigou-a que viesse, não é certo? — Golpeou-o com a pergunta incluse antes que chegasse a seu lado. — Eu estou aqui para acompanhá-la. Ela está aqui para me acompanhar. Depois de um ataque assim, era inconcebível sentar a seu lado. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Está aqui porque necessitava que Paul estivesse aqui, e ela agora depende dele. — Então Paul deve ser algo mais que um simples criado que cuida de uma mulher doente. Ele tinha aproximado em busca de um pouco de conversação agradável e do prazer culpado de sua companhia, não esperava aquela interrogação incisiva. Teve a mesma sensação que tinha tido na ópera, de que as percepções de Diane, apesar de sua falta de experiência, eram muito agudas. — Paul é muito mais que um criado. Conheço-o há muitos anos, e às vezes cumpre outros deveres além de ajudar a minha irmã. É um dos poucos homens nos que confio totalmente. De fato, jamais permitiria que um simples criado a ajudasse como ele a ajuda. Agora, há outras perguntas ou acusações que queria me formular? Diane inclinou a cabeça. — Sim. O que é esse ruído? Referia a um trovão longínquo e apenas audível que chegava de vez em quando através da brisa. Converteu em tão habitual que tinha deixado de ouvi-lo. — É uma manifestação. Ultimamente ocorrem com bastante freqüência. Há descontente com a política do governo. — Deve ser muito grande se a ouvirmos assim. As manifestações em Paris não eram tão ruidosas. — Em Paris existia um exército ocupante para assegurar de que não fossem. Diane olhou para um lado, a um sebe de espinhos que cortava o jardim em duas metades. — A condessa se mostrava muito familiar com você. É sua Margot? Não se preocupe pensando que a resposta me escandalizará. Paris, e a fofoca das amigas de Jeanette, curtiram-me muito rápido. — Por que o pergunta? — Tenho curiosidade. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Por que a tem? Encolheu os ombros. — Se responder que sim, terá ciúmes? — É obvio que não. — Não me ocorre outro motivo para uma pergunta assim, Diane. Ela ruborizou profundamente. Daniel via descer a cor e pensava quanto gostaria de seguir seu caminho até os lábios. Diane percebeu seu olhar e uma expressão precavida encheu seus olhos. Embora não era tão cautelosa e inocente como em seus primeiros dias em Paris. Sorriu de uma maneira quase coquete. — Não me sentiria ciumenta, a não ser mais tranqüila. Um comentário tão atrevido o surpreendeu. Tinha pensado que jamais voltaria a mencionar suas suspeitas quanto às intenções que ele podia ter. Esteve a ponto de dizer que as coisas não funcionavam assim, que um homem podia ter a dez Margot e mesmo assim perseguir a outra. — A condessa não é mais que uma amiga. Quanto a sua tranqüilidade, minha palavra terá que bastar. Agora, se tiver terminado com suas perguntas, me deixe fazer algumas . É adequado seu quarto? Está contente? — Tem alguma queixa? Está aprendendo suas lições? — Ela usou as mesmas inflexões de voz que ele ao repetir as antigas perguntas do internato e até atreveu a imitar seu timbre. Jogou-lhe uma olhada com uma expressão pícara que o fez rir. Ela também riu. Foi um momento assombroso, um breve espiono de euforia. Daniel não tinha dúvidas de que estava burlando de algo mais que de suas perguntas.

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Diane via o absurdo mais profundo. Mantinham essas formalidades de anfitrião e sua hóspede, de tutor e sua pupila, para conter o perigo. Mas o perigo a atraía. Com essa pergunta impertinente tinha batido as asas em torno do fogo, sem perceber toda a paquera de sua alusão, de seu sorriso e de sua risada. — Meu quarto é de tudo adequado e estou plenamente satisfeita. Entretanto, tenho curiosidade a respeito desta vida social para a qual esteve me preparando. Um grupo heterogêneo, segundo suas próprias palavras. Não se trata de um círculo muito reduzido, suponho. — Claro que não. Por que me pergunta isso? — Um círculo reduzido não me conviria, e tampouco seria adequado um exclusivamente composto por gente da mais alta sociedade. Vim aqui por outra razão além da de acompanhar a sua irmã e ser um chamariz para seus negócios.

— Que razão é essa? Para procurar um marido? —disse-o com ligeireza, esperando que ela voltasse a rir. — Para indagar sobre minha família. Não era algo que Daniel queria ouvir. Inclusive tivesse preferido ouvir que procurava um marido. — Acreditei que tinha chegado à conclusão de que não havia nada que encontrar. — Embora meus pais tenham morrido, minha história segue viva. Tenho a intenção de começar minhas indagações amanhã. Diabos. Imaginou fazendo perguntas muito educadas a toda essa gente daquele círculo misturado e aberto da condessa de Glasbury. Possivelmente finalmente obtivesse uma resposta capaz de provocar os mesmos problemas que ele esperava poder evitar.

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— Por exemplo, o senhor Duclairc disse que se meu pai era naval é possível que seus navios tenham estado assegurados. Tenho a intenção de descobrir se foi assim. Aonde deveria ir fazer isso? Como naval, você deve sabê-lo. Era só sua imaginação, ou o esquadrinhava muito perto enquanto esperava sua resposta? Possivelmente fosse assim. Ou talvez não. Durante um instante, os olhos de Diane recordaram os de seu pai. Fazia muito tempo que isso não ocorria. O prazer do flerte que tinha derivado do intercâmbio evaporou. Ao ver essa semelhança, sentiu como se levantasse entre eles um muro que a risada seria incapaz de superar. Tampouco o desejo poderia contra ele. Celebrou a barreira. Convinha-lhe recordar o motivo elementar pelo que não podia ser. — É obvio sei aonde ir. Se esperar alguns dias, eu mesmo a levarei aos escritórios das agências de seguros, para que possa fazer suas indagações. A cara de Diana iluminou de alegria. — Você me ajudará? — É obvio. Só fazia falta que me pedisse isso. Nunca a tinha visto tão alegre. Quase esperava que o abraçasse de tanta gratidão. Ao ver que não o fez se sentiu tão aliviado como decepcionado. Ao despedir dela, recebeu de Diane um sorriso deslumbrante, repleto de confiança e fé renovadas. Por um momento ele sentiu o desejo de que ela o olhasse assim para sempre. Paul o esperava na casa. Entregou-lhe uma carta que acabava de chegar. Daniel leu a mensagem.

— Terei que ir a Hampstead esta tarde. Quero que fique aqui com minha irmã, Paul. Terá que passar bastante tempo até que se sinta cômoda sem a presença de um de nós. — Possivelmente nunca esteja cômoda sem um de nós. Pelo menos aqui. Madeline Hunter – O Sedutor

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Não, aqui não. Daniel olhou pela janela. Diane seguia sentada no jardim, perdida em seus pensamentos. Perguntava-se no que estaria ocupada sua mente. Sonhos de triunfar na sociedade londrina? Não, não acreditava que se tratasse disso. — Recorda aos criados o que disse sobre o quarto de Diane, Paul. Deve estar igual a em Paris. A lareira deve permanecer sempre acesa durante o dia, inclusive quando ela não esteja. Não quero que nunca encontre uma lareira apagada ao retornar.

Os dois homens duelavam com os sabres, representando um rigoroso baile de perigo. Daniel olhava da soleira de um comilão no Hampstead. Despojada de móveis e rústica em seu encanto Tudor, a sala ressonava com o estrondo do aço. Não o interessava esquadrinhar ao homem mais alto, magro e grisalho, vestido com calções de outra época e um colete de seda azul, cujos movimentos produziam versos ondulantes de poesia e cujos olhos permaneciam impassíveis. Era o outro, o de cabelo loiro talhado na moda, quem atraía poderosamente sua atenção. Vestido para praticar esgrima unicamente com uma camisa e calças, brandia o sabre com tanta sanha que até um olho inexperiente poderia imaginar que ganharia. Sua expressão delatava resolução e matizes de ferocidade. Daniel suspeitava que se ocorresse um acidente durante o treinamento, e se corresse sangue, a esse homem importaria pouco. Sempre que o sangue não fosse dele, certamente. O treinamento concluiu. O homem loiro secou a testa com uma toalha e aproximou de Daniel. Não houve sinais de reconhecimento porque nunca se conheceram de maneira oficial. Como irmão de um marquês e membro do Parlamento, Andrew Tyndale organizava treinamentos particulares para não ter que se associar com a mescla de jovens e arrivistas que freqüentavam a academia de esgrima do Cavalheiro Corbet. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel examinou Tyndale minuciosamente quando passou a seu lado. Possuía um rosto que inspirava confiança. Um rosto capaz de fazer que homens poderosos escutassem e que bispos assentirem com a cabeça às opiniões ponderadas que sua boca emitia. Esse rosto tinha garantido a Tyndale uma reputação inexpugnável. Se surgiam em algum momento rumores em torno dele, só fazia falta ver a honradez desses olhos para saber que eram falsos.

É o que tinha acontecido dois anos antes, quando um granjeiro escocês acusou Tyndale de ter violado a sua jovem filha. Antes que o escândalo desenvolvesse, Tyndale tinha convencido todas as pessoas que importavam de que no momento da agressão estava em uma caçada a uns trinta e cinco quilômetros de distância da granja da moça. Daniel, em troca, não duvidava da veracidade da acusação. Sabia o gosto que tinha Tyndale pelas moças inocentes. Tinha conhecimentos de que o respeitável membro do Parlamento tirava proveito de uma cafetina escrupulosamente discreta que lhe proporcionava virgens com regularidade. Daniel sabia também que não era o medo à enfermidade a raiz dessa debilidade pelas inocentes. Desembainhou seu sabre e se aproximou do Cavalheiro. — Esgrime bem — disse, assinalando por onde Tyndale acabava de sair. — Mas tem muita fome. Uma cabeça fria é tudo em um duelo autêntico, quando está em jogo sua vida. — Isso é o que sempre ensinaste, Louis. — O talento não é suficiente. A mente tem seu papel, e o sangue-frio é fundamental. — Um sentimento muito francês. — Daniel girava seu braço para aquecer. — Muito próprio do antigo regime. Louis sorriu. Madeline Hunter – O Sedutor

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— O que esperava? — Nada menos. Não pensaste em retornar agora, com isso da restauração e Louis Philippe no trono? — Passaram muitos anos. A um velho cavalheiro francês as coisas vão melhor na Inglaterra. Sempre, é obvio, que não nos toque agora ter uma revolução aqui. Seria cômico, não? Depois de haver escapado de uma revolução em minha juventude, morreria como um velho em outra. — Há descontentes, mas não acredito que exista uma ameaça de revolução na GrãBretanha. — Não estou tão seguro. Este governo é estúpido. A Lei do Trigo, por exemplo. Nunca pode ser uma boa política que os pobres não tenham o que comer. Não aprende alguma vez o mundo? — Gesticulou, mandando a política e o mundo ao esquecimento. — Basta. Comecemos. Sou mau como filósofo, mas como professor da espada sou dos melhores. Ficarei com o que domino. Daniel se preparou. Louis estava fazendo de modesto. Era em realidade um filósofo considerável, e sua mente era capaz de chegar ao coração de um problema com a mesma rapidez com que um sabre destrói o braço de um homem.

Daniel ficava alegre de que Louis não se unisse aos aristocratas franceses que voltavam em rebanho a Paris para reclamar seus direitos agora que Bonaparte se foi. No transcurso dos anos, Louis tinha convertido em seu conselheiro, mas também em sua consciência. Necessitava que seu amigo andasse perto durante nas próximas semanas. Louis verificou a caixa que continha as pistolas. Sua expressão delatava o asco que davam. — Objetos horríveis. Crus e pouco satisfatórios. — É certo — disse Daniel. — Mas também eficazes e úteis. Madeline Hunter – O Sedutor

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Enquanto Daniel levava a caixa ao parque que havia detrás da velha casa, um cavaleiro avançava pelo caminho. Daniel reconheceu ao jovem com rosto de inglês e os olhos escuros de um estrangeiro. Tinha o visto pela última vez no escritório de Gustave Dupré em Paris. — O que faz aqui, Adrian? — Supõe que Vergil e outros encontrarão comigo aqui. Ao falar de Vergil e outros se referia aos jovens aristocratas que congregavam com Louis para treinar antes de voltar para a vida londrina de jogo e álcool. Batizou como a Associação de Duelos de Hampstead e Daniel converteu em uma espécie de sócio periférico. — Não queria perguntar o que fazia aqui, a não ser na Inglaterra. Pusemo-nos de acordo em que ficaria na França durante outro mês pelo menos. — Dupré me mandou embora. Decidiu que nestes momentos não faz falta um secretário. Daniel continuou até o parque enquanto que Adrian acoplava seus passos. — Convém-nos assim. Desta maneira evitaremos despertar suas suspeitas partindo você mesmo. — Isso é o que pensei, embora fiquei sem trabalho. — Isso será resolvido assim que se saiba que está de volta. Castlereagh encontrará algo para ti. Detiveram em um claro além de uma barreira de árvores. Daniel mostrou uma folha de papel e Adrian a levou até uma árvore a vinte passos de distância. — Cabeça ou coração, Daniel? — Cabeça. Daniel abriu a caixa. Por cima das pistolas jazia um pequeno estojo de veludo azul. Amaldiçoava para si mesmo, enquanto o metia em seu bolso.

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Sabia que continha cem libras. Quando deu de presente essa propriedade a Louis dez anos atrás, tinha rechaçado receber algum pagamento. O velho cavalheiro, entretanto, tinha outras idéias e

os bilhetes apareceram com regularidade, embora nunca entregues pessoalmente. Que o fizesse em conceito de aluguel ou pensando na aquisição do imóvel no futuro, Daniel não sabia. — Preparado — disse Adrian. Daniel entregou uma das pistolas e carregou a sua. Dirigiram para a árvore, onde a folha estava exposta à altura da cabeça de um homem. Adrian disparou. A bala saiu muito baixa e de lado e desprendeu uma parte do tronco. — Segue sendo um péssimo atirador. — Teria acertado o ombro. — No ombro esquerdo, e isso significa que ele pode devolver o tiro. Deve dar na cabeça ou o coração, Adrian. A cabeça ou o coração. Daniel levantou sua própria pistola e apontou. — Por que já não necessita Dupré um secretário? — Não lhe disse isso? Deixará de escrever tratados durante um momento. Veio a Inglaterra. Daniel voltou a cabeça bruscamente para o Adrian enquanto disparava. O tiro errou o branco totalmente. Adrian assinalava a folha imaculada. Seus olhos escuros faiscavam. — Parece que errou, Daniel. Lembre, à cabeça ou ao coração. — Minha presença em sua casa converteu em um lastro — explicava Adrian enquanto caminhavam tranqüilamente para a casa grande.

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— Era claro que ele estava guardando um segredo e planos importantes. Tinha medo de que eu me inteirasse deles. — Mas por que ia vir à Inglaterra? Deveria estar preparando para anunciar seu descobrimento em Paris, para que o mundo recorde o brilhantismo da mente francesa. — Não estou convencido de que queira anunciá-lo em Paris. Não estava escrevendo nenhum tratado e chegou inclusive a perder umas quantas reuniões científicas bastante importantes. — Trouxe o manuscrito consigo? Adrian encolheu os ombros. — Talvez tenha a intenção de preparar uma demonstração aqui. Para que o mundo recorde o gênio francês poderia resultar inclusive mais eficaz se o fizesse na capital do vencedor da França. Se Adrian tivesse razão, poderia ser perfeito. A humilhação do fracasso seria duas vezes mais tremenda que em Paris. Seria um castigo justo para um homem cuja vaidade tinha apagado toda sua humanidade.

Desgraçadamente, duvidava que Dupré tivesse tal intenção. Era mais provável que outra idéia agitasse em sua mente, e Daniel suspeitava do que se tratava. A vaidade tinha sucumbido a um vício até mais poderoso. A avareza. Daniel perguntava se isso traria problemas. A Associação de Duelos estava desmontando quando chegaram de volta a casa. Vergil Duclairc os saudava e aproximou com o Julian Hampton, o jovem advogado que Daniel agora empregava para assuntos de negócios. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Você se unirá com nós, Saint John? — perguntou Vergil. — Terminei minha classe. Devo voltar para centro. — Era a verdade, mas de todos os modos não teria ficado. Evitava sentir como parte desse grupo, assim como evitava seu companheirismo. Em realidade, tinha pouco que ver com eles em términos de histórico pessoal, metas ou profissão. Passava o mesmo com os círculos sociais e seus vizinhos na Mayfair: movia entre eles, mas não formava parte deles. Além disso, eram filhos de sua classe social, e na hora disso verdade importaria mais que qualquer vínculo de amizade com alguém como ele. Nunca ficariam do lado de Daniel contra um dos seus. Se permitir que essas amizades crescessem, à larga teria que haver traições. Vergil e Hampton dirigiram para a casa. Daniel deteve Adrian quando este dispunha a segui-los. — Se consegue resistir à oferta de uma missão do ministro dos Assuntos Exteriores, agradeceria seus serviços durante um tempo mais. Descubra onde está hospedado Dupré. E se puder, vigia-o.

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Capítulo 10 O problema com o dinheiro é que um nunca tem suficiente. Andrew Tyndale considerava essa desafortunada verdade enquanto estava sentado em seu jardim, sorvendo um chá. Não fazia falta estudar suas contas para saber que as coisas andavam mais precárias do que teria gostado. Um balanço contínuo instalou em sua cabeça a partir do dia em que alcançou a maioridade. O destino tinha golpeado cruelmente ao fazê-lo irmão de um marquês em vez de convertê-lo no próprio marquês. Pior ainda, seu irmão maior mostrou não só avarento, mas também robusto e viril. Três fornidos sobrinhos haviam interposto entre Andrew e o título. Nunca deixou de estar ressentido por isso, mas tinha aprendido a forjar seu próprio caminho. Exercia mais poder na Câmara de quão comuns seu irmão na Câmara dos Lordes. Mediante investimentos ardilosos e um matrimônio proveitoso, tinha construído sua própria fortuna. Certamente, tudo tinha dependido da jogada atrevida que fez quando era jovem. Sem aquilo, não teria tido dinheiro suficiente para esses investimentos. Katy nunca o teria considerado como marido sem essa fortuna que tão inesperadamente tinha obtido. As lembranças da Katy corriam por sua cabeça. Tinha sido bonita e desamparada, infantil em suas formas. Durante alguns meses havia sentido um homem distinto. Desgraçadamente, muito em breve descobriu que também era tola e molesta, e que o fato de que ele fora um homem distinto

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carecia para ela de interesse. Queixava cada vez que se sentia infeliz, o qual significava que queixava muito. Quando morreu, sentiu aliviado por ter se libertado dela. O mordomo veio com o correio matinal. Andrew repassou os convites, detendo em uma cuja letra resultava familiar. Como esperava, não incluía nenhuma palavra, a não ser só uma data. Uma diversão muito especial esperava a noite seguinte. Sua boca encheu de saliva enquanto imaginava o presente. Mais valia à senhora P. ter conseguido essa vez com uma que realmente fora virgem. A última moça não o tinha sido, estava convencido, apesar de seus gritos afirmando o contrário e as promessas da senhora P. Deixou a carta a um lado e conteve a excitação antecipada que removia em seu corpo. O mordomo voltou desconcertado.

— Veio de visita um cavalheiro. Disse-lhe que você não recebe hoje, mas insiste. — É uma hora pouco civilizada para uma visita, assim duvido que se trate de um cavalheiro. — É obvio. Entretanto, fala de uma associação de muito tempo — estendeu a bandeja de prata. Andrew agarrou a carta, exasperado. Depois de jogar uma olhada, sua consciência deu um pequeno sobressalto. Não tinha visto o nome, nem o homem que o levava, em mais de vinte anos. Debateu sobre a conveniência ou não de atendê-lo. Mas a curiosidade o venceu. A suspeita e a inquietação também. — Leve-o à biblioteca. Eu o receberei. Gustave Dupré examinava as prateleiras da biblioteca. Continham uma coleção previsível de clássicos e umas quantas obras professoras modernas sobre história natural. Era uma vitrine intelectual típica de um homem que se considerava educado, mas que não havia tornado a desdobrar as encadernações depois de deixar a universidade. Madeline Hunter – O Sedutor

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Essas encadernações eram muito caras, assim como também tudo o mais na casa. As coisas tinham ido bem a Andrew. Mas claro, ele tinha o tipo de cabeça que sempre tiraria proveito de uma situação e saberia persegui-la até o final. Atraía o dinheiro mais à frente do bom gosto. Embora o melhor sangue corresse por suas veias, o seu era o coração de um mercador. Gustave reconhecia com tristeza que Andrew também tinha talento para executar planos com precisão e para inculcar na gente a classe de confiança necessária para que ditos planos chegassem a bom término. O próprio Gustave carecia dessa habilidade e esse dom. Por isso tinha vindo hoje. — Que surpresa vê-lo, Dupré. Havíamos dito que jamais nos voltaríamos a ver. Gustave girou bruscamente. Não gostava que o surpreendessem despreparado, e recordava que Tyndale podia ser muito escorregadio com essa maneira sua tão silenciosa. Recordava que os planos que um fazia estavam acostumados a fracassar com ele porque Tyndale tinha a habilidade de reservar sempre certa informação importante. Enfim, esta vez não seria assim. — Decidi visitar Londres. Ao fim e ao cabo, a metade da Inglaterra está visitando Paris — explicou Gustave. — Se tiver abandonado sua biblioteca para jogar uma olhada à minha, deve haver outra razão mais que umas férias.

A referência a sua biblioteca incomodou Gustave. Era de mau gosto por parte de Tyndale mencioná-la. A tentação de fazer um comentário mordaz quase o venceu. Gustave resolveu chegar ao motivo pelo que tinha quebrado o velho acordo. — Fiz um descobrimento de primeira categoria. Um descobrimento que trocará o mundo tal como o conhecemos. — Era a primeira vez que o havia dito com palavras e estas começavam a Madeline Hunter – O Sedutor

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emergir a torrentes, cheias de emoção reprimida. Tinha querido soar neutro, como se, para ele, um descobrimento assim fosse algo cotidiano. Tyndale apenas se alterou. Tirou sua caixa de rapé e serviu um pouco. — Não pode ter sido tão transcendente. Teria tido notícias se assim fosse. Trata-se de outra prova? Gustave ruborizou depois dessa nova alusão ao passado. — Você não teve notícias porque não comentei a ninguém. — Por que não? Sua reputação é o que mais importa. Os aplausos são para você o que para outros são as terras. “E o que são para você as libras e as virgens.” — Não revelei este descobrimento porque tem uma aplicação prática. E revolucionária. — Essa afirmação despertou a curiosidade de Tyndale. Gustave deteve para que sortisse efeito. — Este descobrimento dará riqueza a quem o possua. Tyndale assimilou isso enquanto tomava outro pingo de rapé. — Quanta riqueza? — Uma riqueza incalculável. Entretanto, para explorar o descobrimento faz falta dinheiro. — Assim que você veio a mim. Por que não o oferece a alguns compatriotas deles? Gustave sorriu, sentindo-se ardiloso. Quase tão ardiloso como podia sê-lo Tyndale. — Porque sei que você não se atreverá a me enganar. Os olhos de Tyndale gelaram. — É uma ameaça, Dupré? — É um aviso. — Quanto dinheiro requererá o descobrimento? — Calculo que cinco mil libras para começar, para convencer aos industriais de sua viabilidade. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Cinco mil, sem rodeios! Tem uma noção equivocada de minha situação econômica. — Logo que saiba do que se trata, você encontrará uma forma de conseguir o dinheiro.

Tyndale parecia pouco impressionado. Começou a distrair-se. Gustave pensou que tinha dirigido o assunto bastante mal. Deveria ter começado mais diretamente com a ceva do prêmio antes de referir às cinco mil libras. Tyndale o olhava, esquadrinhando-o. Gustave sentiu como a idéia de benefícios enormes voltava a reclamar seu interesse. — Me fale deste maravilhoso descobrimento, velho amigo. Gustave duvidou um instante. Explicá-lo significaria perder um pouco do controle. Não tinha nenhuma intenção de ser um desses homens que jamais recebiam um franco por suas investigações científicas. Sua experiência dizia que era impossível confiar em tudo de Tyndale. Por um momento se perguntou até que ponto a ameaça de revelar o que tinha acontecido tempo atrás seria suficiente para assegurar sua honestidade. Respirou profundamente. Contaria a Tyndale o descobrimento, mas jamais o deixaria saber os detalhes sobre como pô-lo em prática. Taças de cristal e garfos de prata. Dança, festas e visitas pela tarde. Ponche e cacau, bolos e chá. A condessa de Glasbury mantinha ocupada Diane todos os dias e todas as noites. A condessa, ou Penélope, como rogou Diane que a chamasse, poderia ser depreciada para alguns, mas a maioria dos salões de Londres se abriam para ela. Diane conheceu duquesas e poetas, empresários e condes.

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A temporada tinha começado e Londres estava cheio de atividade. Nas grandes casas de Mayfair e a Praça de Grosvenor, nos camarotes do teatro e nos grandes jantares, representava um matizado espetáculo de privilégio. Era suficiente para chamar a atenção a uma jovem. Suficiente para silenciar as perguntas e obscurecer o vazio. Suficiente como para que não importasse que a ajuda de Daniel para encontrar sua família voltasse a adiar. Sua decepção ao ver pela manhã que já tinha saído logo afogava nos preparativos para mais visita e festas, na atenção embriagadora de homens jovens e maiores, na ilusão de que a aceitavam e de que esse mundo era o seu. Era, não obstante, uma ilusão. Diane o reconheceu em privado uma noite, enquanto uma criada a penteava para um baile. Ao olhar no espelho e ver como os montões de tranças espessas esmagavam e atavam, a alegria frívola de repente evaporou. Observou atentamente suas próprias feições e, como tantas vezes tinha feito no internato, registrou sua mente em busca de lembranças de olhos e lábios semelhantes. Às vezes quando o fazia,

vinham imagens fantasmagóricas desses mesmos olhos olhando-a de frente, mas sem estar refletidos em um espelho. Todas as pessoas que conhecia pertenciam a outro, ao que também conhecia. Havia conexões por nascimento e matrimônio, por colégio e por política. Ela não pertencia a ninguém. À condessa certamente que não. Mas tampouco a Jeanette nem a Daniel, embora mentissem dizendo que era uma prima. Despediu da criada e abriu sua janela para que entrasse o ar fresco da incipiente primavera. Era a hora do crepúsculo e luzes rosa e douradas brilhavam abaixo no jardim. Ao longe ressonava o estrondo de um alvoroço, e notas agudas chegavam com o vento. Madeline Hunter – O Sedutor

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Era outra manifestação. Embora os salões e teatros fossem um espetáculo de alegria, outro drama arrastava pelas ruas, cheias de descontente e frustração. Depois de agüentar com estoicismo os sacrifícios da guerra, tinham transcorrido vários anos de paz e o povo rebelava contra a contínua privação. Acostumou a esse som, mas esta noite poderia ser o estrondo de um corno que a chamasse para seu destino real. Tocou o cabelo e percorreu com os dedos seu vestido. Encheu sua cabeça com imagens deslumbrantes e emocionantes das duas últimas semanas. Não ajudava. Era como se tivesse voltado para internato e estivesse outra vez diante da bacia descascada, com suas tranças de menina e vestida em um velho saco. O vazio enchia, estalando no mesmo lugar onde o tinha combatido. Crescia até transbordar seu coração. Sua própria insignificância tremia com uma solidão tão intensa que encheu os olhos de lágrimas. Nem todas as festas do mundo seriam capazes de acabar com esse vazio. Diane mal teve tempo de tomar fôlego no baile de lady Starbridge. Homens jovens esperavam em fila para conhecer e convidá-la a dançar. A condessa de Glasbury cumpriu seus deveres de acompanhante. Daniel vigiava o lugar junto às janelas do terraço onde a condessa instalou. Via sua forma de desalentar a um cavalheiro com fama de libertino. Favorecia, em troca, ao quarto filho de um barão, um homem sem uma grande fortuna para quem a prima de um naval não resultasse de um estrato muito inferior. A reação de Daniel foi de irritação imediata e teve que olhar a outra parte para poder tragar os ciúmes. Custava cada vez mais fazê-lo, mas não podia dizer de maneira direta à condessa que não devia oferecê-la a homens elegíveis. O jogo de casamenteira formava parte da atração para uma acompanhante.

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Diane aceitou a oferta de dançar e de repente ele a viu de frente. Era uma valsa, e o quarto filho de um barão sorria enquanto davam voltas pela sala. Diane parecia tão feliz, tão encantadora, que Daniel não podia separar seus olhos dela. A visão de Daniel convertia em uma nuvem de vestidos de cores e um relampejo de luzes, de corpos imprecisos e movimentos que flutuavam no ar. Só uma figura permanecia clara e intacta. Diane havia convertido em uma bela mulher, cheia de detalhes, que deslizava em meio de uma aquarela. De repente outra figura surgiu com nitidez. Do outro lado da sala um homem sobressaía, imóvel e vívido, um intruso na neblina fantasmal. Seus olhos também seguiam Diane. Examinava-a com tanto interesse que nem percebeu que Daniel o observava. O resto da sala perdeu substância. Até Diane foi engolida pela névoa. Daniel não via mais que ao homem e as minúsculas luzes calculadoras que cintilavam nesses olhos. Ao fim tinha acontecido. Diane tinha chamado a atenção de Andrew Tyndale. Um grito de rebeldia inchava no peito de Daniel. Apertou os dentes para controlá-lo e fixou seu olhar na única pessoa que agora existia nessa sala. Outras imagens chegavam desse rosto e esses olhos em outro quarto, em outra época. De um sorriso sincero e uma voz tranqüilizadora que prometiam salvação. De uma confiança nascida do desespero. De gente boa que às vezes esquece que o mal não aparece apregoando-se, que os diabos têm a mesma forma que os anjos. As lembranças mataram a rebeldia e evocaram outras amargas emoções, e uma resolução tão fria que cristalizava em seu sangue. “Você não me conhece mas eu o conheço você. Sei o que fez. Sei quem é.” A música chegou a seu fim. O olhar de Tyndale seguiu o caminho para as janelas do terraço. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ao distrair sua atenção de Tyndale, Daniel voltou a encontrar Diane. Era seu avanço o que Tyndale seguia. Tyndale começou a caminhar em direção à condessa. Daniel desfrutou de um instante de satisfação sombria. Logo, abrupta e irracionalmente, perdeu todo controle sobre a resolução e as lembranças. Um caos de energia primitiva o impulsionou. Tyndale podia esperar. Tudo podia esperar. Tinha esperado durante anos. Décadas. Outro mês mais ou dois não importariam.

Alcançou as janelas antes que Tyndale. O quarto filho do barão ainda não se foi e conversava com o Diane e a condessa. Daniel posicionou para que os três formassem um círculo protetor em torno de Diane, um círculo que Tyndale não poderia romper de maneira educada. A condessa apresentou Daniel ao adulador par do baile de Diane. Ele fingiu estar encantado de conhecer o moço de compleição corada, grossas bochechas e olhos redondos que se chamava Christopher Middleton. Diane imediatamente pediu permissão para retirar-se à sala de asseio. A condessa decidiu acompanhá-la. Ao partir, Diane roçou ao Daniel e inclinou sua cabeça para ele. — Seu irmão maior trabalhou nos canais no norte — sussurrou por trás de seu leque. Estava informando-o dos negócios que podiam organizar e os benefícios de conhecer esse admirador dela. Tentava cumprir com sua parte do acordo. Não tinha a mais mínima idéia de que o faria, mas não da maneira que antecipava. Uma dor aguda transpassou o peito de Daniel enquanto a via afastar. Por um instante odiava tão visceralmente a si mesmo como odiava Tyndale. — Pergunto-me por que sempre fazem isso —murmurava Meekum. — Fazem o que? Madeline Hunter – O Sedutor

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— Retiram-se juntas. Não se deu conta de que alguma vez vão sozinhas? Quero dizer que eu nunca procuro companhia quando vou… enfim… você já sabe… — Alegra-me sabê-lo. Quanto às damas, suspeito que vão juntas para poder falar em privado. — Isso crê? E do que pensa que falam? — De nós. — Nós? — Dos homens. — Bem. Céus. Meekum assimilava a assombrosa insinuação. Trocou de posição para olhar Daniel de frente. — Você, conforme me dizem, é naval. Era um desses homens que dizem tudo com um tom afável e risonho. Nas melhores situações, e esta distava muito de sê-lo, Daniel os encontrava insofríveis. — Sim. — E que produtos transporta? — Tudo o que seja legal e proveitoso, salvo o ópio e os escravos.

— Bom, disseram-me que se tira muito proveito do ópio. Não sei muito do outro. — Sempre tira muito proveito do sofrimento humano. — Minha família também trabalha nos transportes. Só investimentos, devo dizê-lo. A diferença de você, é obvio. — É obvio. Meekum ficou nervoso e deixou escapar uma série de pequenas tosses. Daniel se perguntou se seria consciente de que acabava de insultá-lo. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Sua prima é, ah, uma jovem muito encantadora, Saint John. — ficou mais vermelho e agitado que antes. — Eu gostaria de visitá-la, se você aceitasse minhas cuidados. — Não sou eu o que teria que as aceitar. Se ela estiver disposta a fazê-lo, eu não estou em condições de proibi-lo. — Esplêndido! Não sabe o feliz que me faz. É tão bela, tão fresca e doce, a diferença de algumas destas jovens. Muitas delas são muito orgulhosas, isso é o que digo eu. — Sim, é muito encantadora. É por isso que tudo resulta tão triste. — Triste? — Trágico. Você note, carece por completo de uma fortuna. — Daniel movia a cabeça com olhar melancólico. — Temo que nunca chegue a casar-se. — Nenhuma fortuna? — Nenhuma só libra a seu nome. — Nada? — Nem um só centavo. Meekum arranhava a cabeça ponderando a má notícia. — Mas você… quero dizer, qualquer simplesmente o assumiria… mas você não tem a intenção de ajudá-la um pouco nisso? — Se pudesse o faria. Atormenta-me ver que tenho as mãos atadas. Seu irmão temia que a quisessem só por sua fortuna se eu contribuísse algo para ela, e me fez prometer que jamais o faria. Queria assegurar de que se algum homem pedia sua mão fosse só por amor. O sorriso de Meekum iluminava e caía, iluminava e caía. — Um sentimento nobre, mas possivelmente um tanto precipitado. — É exatamente o que eu disse. Enfim, era um sonhador. Morreu antes de poder me liberar da promessa, assim aqui estamos. As damas vinham de volta. Meekum via aproximar de Diane. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Zeus, é muito trágico.

— É, verdade? Assim que Diane e a condessa se reuniram com eles a música voltou a começar. — Outra valsa — disse a condessa. O quarto filho de barão olhava desconsoladamente para Diane. — Me daria à honra, condessa? — perguntou. A condessa assentiu com alegria. — E você, Diane? Pode reservar uma só dança a seu primo? — As palavras saíram antes que Daniel tivesse decidido as dizer. Ruborizou bastante para fazer suspeitar que ambos sabiam perfeitamente que não eram primos. Com um sorriso torcido ela assentiu, ele sentiu vontades de mordiscar os lábios. A sala voltou a retroceder enquanto a conduzia. Davam voltas em uma aquarela de cores imprecisas. Podia ver como ela esforçava para não olhá-lo nos olhos, mas por fim o fez. A partir de então, o baile se converteu em um lugar muito íntimo onde não existia nada salvo eles dois. Nem o passado por vingar nem o futuro com suas tramas puderam intrometer. Daniel abandonou a biblioteca e começou a subir as escadas. A casa tinha o silêncio da noite. Imaginava Diane dormindo em sua cama, depois de sua triunfante noite do baile. Desejava estar ali, desejava mais do que jamais havia desejado visitar o quarto de uma mulher. Não podia fazê-lo, certamente. Por muitos motivos, não podia ser. O fato de reconhecer que desejava que pudesse ser o levou a um quarto distinto, não muito longe do de Diane. Abriu a porta e entrou no salão. Não era tudo pálido e cintilante como o de Paris. A mulher que agora o usava não o tinha decorado. Ele a tinha obrigado a deixar o mundo de seus sonhos e vir a esse outro mundo cauteloso, calculado e real. Madeline Hunter – O Sedutor

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Abriu outra porta e entrou no dormitório de Jeanette. Avançou para a cama e para a escura sombra que via nela. Ficou gelado. A sombra era muito larga. Muito larga. Enquanto seus olhos acostumavam à escuridão, percebeu que dois corpos dormiam na cama. — Não o desperte — sussurrou Jeanette. Daniel não estava seguro de poder falar, e muito menos de poder despertar a alguém. — Passe minha bata, que está no assento — pediu Jeanette, endireitando-se. A passou e ela a pôs. — Vamos ao salão — disse.

Daniel a levantou em braços e a levou a uma poltrona da sala contígua. Jeanette assumiu uma postura de uma rainha. Daniel acendeu um par de velas. — Está escandalizada — observou Jeanette. — Estou surpreso. — Por quê? Porque Paul é de uma família plebéia, ou porque eu sou inválida? — Não sei por que estou surpreso, simplesmente estou. — Deve ser uma emoção pouco habitual para ti. Sofreste muito sem que jamais tenham achado despreparado. Era uma emoção pouco habitual. Tampouco desagradável, tinha que confessá-lo. — Não diga nada para ele a respeito deste teu descobrimento, Daniel. Adora você, e qualquer indício de que esteja molesto ou zangado o feriria. — O que poderia dizer? Não é uma menina inocente. — Não exatamente. — Não queria dizer… Madeline Hunter – O Sedutor

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— Ambos sabemos o que queria dizer, e não me sinto insultada. Permaneceram sentados em silêncio enquanto ela esperava que dissesse por que motivo a buscava. Custava explicá-lo. Não estava muito seguro de por que tinha ido a ela. Simplesmente tinha parecido muito necessário enquanto tomava uma taça do porto na biblioteca e tentava calibrar tudo o que tinha experimentado durante as últimas horas. — Viu-a esta noite? — a pergunta chegou em voz baixa e delicada. Como era próprio de Jeanette, ela sabia tudo sem que contassem nada. — Sim. — Houve uma apresentação? — Ainda não. Mas logo a haveria. Não tinha dúvidas a respeito. Sua interferência contínua essa noite era quão único o tinha atrasado. — Está tendo dúvidas? — Não. Em realidade sim as tinha. Por todos os motivos equivocados. Motivos que logo passariam, deixando-o enojado consigo mesmo e ainda possuído por lembranças das quais não poderia escapar sem antes matá-las.

— Assim vieste para que eu fortaleça sua resolução — disse ela. — Nesse caso, acende mais velas, irmão. Quer que levante minha bata para que veja minhas pernas sem vida? Isso te ajudará? Parece que este é meu papel agora. Sempre o foi. Ser a lembrança viva, para que você não esqueça. — O que acaba de dizer é atroz. Madeline Hunter – O Sedutor

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— É? Por que, então, voltou para a França todos os anos durante a guerra, em que pese a todos os perigos e as dificuldades? — Para ver você! Para me assegurar de que estava a salvo, e de que cuidavam bem de você. — Não tenho dúvidas a respeito desses motivos. Mas pode dizer verdadeiramente que não houve outros? Que o fato de visitar Paris, inclusive de ir a esse colégio, não fazia falta para nutrir sua ira e mantê-la viva? — Não. — Ah, Daniel. Como pode um homem tão implacavelmente honesto em tantas coisas resultar tão cego ante si mesmo? Só colocou a essa moça em um internato francês para ter outro motivo que o obrigasse a retornar. Levantou e girou a cabeça para evitar suas acusações. — Instalei-a ali porque sabia que voltaria de todos os modos para ver você, diabos. Devia ter mantido a ambas aqui na Inglaterra? Teria isso feito graça a ti? Até te dá medo sair desta casa. — Não fale tão forte. Despertará o Paul. — Importa-me um nada o acordado. Maldito seja, está dormindo com minha irmã. Não me vou preocupar se perder um pouco de descanso. — Meu deus, está de verdade escandalizado. Seria encantador se não fosse tão ridículo. Estava escandalizado? Era essa a origem da irritação turbulenta que removia em suas vísceras? — Não, acredito que me equivoquei — acrescentou Jeanette. — Não está escandalizado. Está ressentido. Estava convencido de que também me possuía essa necessidade de vingança. Supõe que tinha que aceitar que minha vida acabou? Tinha que murchar enquanto esperava que você pusesse fim a tudo? Tocava a mim renunciar à felicidade como tem feito você? Ou talvez confiasse em que com estas pernas não teria onde escolher? Madeline Hunter – O Sedutor

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— Então, você é livre e eu sou um escravo. É isso? — Não estou livre. Traga esse homem horrível e darei um tiro no coração e irei feliz à forca. Mas não espere que viva o resto de minha vida sem outro propósito mais à frente do desejo de disparar essa pistola.

— Meu deus, está paralítica por causa dele. Como pode viver com outro propósito? Jeanette levantou seus dois braços e sacudiu a cabeça. — Me leve de volta à cama. Só veio para que o convencesse de usar a essa moça como chamariz. Já vejo que uma vez mais tenho feito tudo o que esperava que fizesse. — Só vim para falar com minha irmã. — Me leve de volta. Em silêncio, por favor. Levantou-a e a levou a cama. Paul seguia dormido, seu rosto anguloso embalado nos travesseiros, seus ombros nus visíveis sobre o lençol. Jeanette tirou a bata, deixando-a cair ao chão. Daniel deu a volta. — Daniel… — Seu sussurro chegou quando tinha alcançado a porta. — Daniel, há muitas formas de ser paralítica. Eu esqueceria tudo se pudesse voltar a sentir o movimento em minhas pernas. Se os movimentos de seu coração o tentam a esquecer, não se sinta culpado.

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Capítulo 11

— É obvio, as possibilidades de manufatura não são o interesse principal. Sou acima de tudo um cientista. — Gustave assentiu com a cabeça em resposta a ardente asseveração de sir Gerome Scot. Scot era um irmão na ciência, e a educação estava à ordem do dia. Por outro lado, Scot também estava convidando Gustave a essa comida em um clube privado.

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Entretanto, a Gustave importavam em realidade muito pouco os experimentos com substâncias químicas. Sua mente estava concentrada em outros problemas. Seus planos estavam atrasados. Tyndale queria uma demonstração do descobrimento quanto antes, e até agora Gustave não tinha podido conseguir nada. Teria ajudado que Tyndale tivesse mimado em que fora uma demonstração privada, como o experimento que tinha dirigido em Paris. Mas não, pretendia saltar essa etapa. Exigia algo maior, que pudesse servir para conseguir uma patente e atrair aos industriais. Tinha que adquirir materiais e produtos químicos. Tinha que encontrar um edifício afastado que não despertasse curiosidade. Tinha que mover por Londres em silêncio e com sutileza. Scot seguia falando francês, como qualquer homem civilizado e educado era capaz de fazer. Inclusive os criados nesse clube exclusivo sabiam o suficiente para garantir a comodidade do Gustave. A pena era que, ao dar um só passo fora das capas superiores da sociedade nessa terra de bárbaros, ninguém falava francês, e muito menos latim. E Gustave não sabia nada de inglês. A situação era impossível. Tinha que descer substancialmente no mundo para pôr as coisas em marcha, mas era incapaz de comunicar-se com os homens que precisava conhecer. Scot iniciou uma tediosa explicação de outro processo químico. Gustave fez o que pôde para mostrar-se interessado, mas depois de cinco minutos de monólogo algo chamou a atenção. Um jovem tinha entrado pela outra sala, tinha olhado em torno, e tinha sentado em uma mesa onde esperava um amigo. Era seu antigo secretário, Adrian Burchard. Scot se deu conta dessa distração. Olhou para Adrian e um sorriso de complacência encheu a cara.

— Parece fora de lugar, não é certo? — Sim. O que faz aqui?

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— É um sócio. Não teria sido apropriado negar ao filho de um conde. Embora sua paternidade seja claramente ilegal. A notícia era surpreendente. Adrian nunca havia dito que era o filho de um conde quando postulou ao posto em Paris. Quem ia adivinhá-lo com esses olhos negros do Mediterrâneo. — Assim que sua mãe… — Gustave elevou as sobrancelhas com cumplicidade. — Óbvio, não é certo? Foi um ato nobre por parte de Dincaster o simples feito de aceitar ao moço, é o que eu digo. Enfim, suponho que é só um terceiro filho, assim é pouco provável que chegue a herdar. Tem a delicadeza de guardar um perfil baixo, por difícil que seja com esses olhos. Esteve sozinho desde que deixou a universidade, dizem-me. Nem um centavo da parte do conde, como deve ser. Às vezes faz alguns trabalhos sem importância para o Ministério de Assuntos Exteriores. Como secretário ou algo assim, de vez em quando. Lamento dizer que há gente em nosso governo que dá pouca importância ao sangue verdadeiro dos empregados. Adrian disse que tinha sido o secretário de algum diplomático ou algo assim. Foi um detalhe que Gustave tinha tomado por uma mentira e que passou generosamente por alto. — Que interessante. Em realidade, que útil. Gustave duvidava que Adrian tivesse comunicado a alguém nesse clube que às vezes servia como secretário a gente menos ilustre que os embaixadores. Não era estranho que logo que saísse da casa em Paris, e que passasse suas tardes nesse quarto do apartamento de cobertura. Manteve seu olhar sobre o Adrian durante o resto da comida. Terminou a tempo para coincidir com seu secretário. Coordenou sua saída do clube com a desse filho de conde com aspecto de estrangeiro. A expressão de Adrian registrou certa surpresa quando Gustave aproximou junto ao guarda-roupa. Não obstante, nenhum dos dois delatou ter-se conhecido de antemão. Isso era quão único Gustave precisava comprovar. Seguiu ao Adrian quando chegaram à rua e deu umas quantas pernadas para alcançá-lo. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Mostra assim de mal educado com seu antigo patrão? — Surpreendeu-me vê-lo, isso é tudo. Está desfrutando de sua visita? — Estou muito ocupado. Acredito que o liberei com muita precipitação. A ajuda de alguém que conheça esta cidade me seria útil. — Há muitos secretários e empregados de escritório disponíveis. Se o pergunta a seus amigos, eles encontrarão a alguém.

— Necessito de alguém que fale francês. — Não acredito que seja muito difícil. — Preferiria a alguém conhecido. — Gustave sorriu. — Como você. Tinham chegado a uma esquina. Adrian deteve e o olhou de frente. — Nestes momentos não procuro emprego. — Não seria oficial. Não seria algo público — matizou Gustave, deixando saber que entendia quais eram suas inquietações. Adrian jogou uma olhada a seu redor e finalmente seu olhar parou em um edifício de frente. — Lamento não servir de ajuda. — Seria muito privado. Eu também desejo discrição. Nossa mútua necessidade será a garantia de que ninguém se inteire. — Sinto muito. Não posso. — Eu acredito que sim pode. Parece-me, além disso, que em débito. — Que devo? — Estou seguro de que não quer que vá pedindo ajuda a outros cientistas e dizendo em confiança que meu próprio secretário se mostra muito orgulhoso para me ajudar.

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Adrian o olhou com raiva. Mas sua irritação pouco a pouco dispersou, até converter em resignação. — Suponho que poderia ajudá-lo, sempre que fosse de modo extra-oficial. — Que bom. Não se trata de todos os dias. De fato, uma vez que se resolveram uns poucos assuntos, apenas me fará falta sua ajuda. O mesmo salário, sim? Equivalente há uma quinzena? A mandíbula de Adrian esticou como se falar de dinheiro fosse um insulto. Ali na Inglaterra, onde todos sabiam que era o filho de um conde — embora fosse de legitimidade duvidosa — o era. — Excelente. Agora facilitarei a primeira ajuda que de modo evidente necessita. Na calçada em frente há um homem barbudo que o esteve olhando desde que nos detivemos aqui. É provavelmente um ladrão de carteira e o identificou como estrangeiro. Gustave

deu

a volta, assustado. Em seguida, um homem barbudo, vestido

insuficientemente com um velho casaco e um chapéu, começou a caminhar pela rua. — Tome cuidado com essas coisas, monsieur. A Inglaterra tem os melhores ladrões do mundo.

— Senhorita Albert? — A chamada chegava de uma carruagem que passava pela rua. Diane distinguiu na janela os surpreendidos olhos azuis de Vergil Duclairc. Ao seu lado, na sombra, percebeu o perfil perfeito de seu amigo Julian Hampton, o jovem advogado de um punhado de clientes seletos que incluía Daniel e a família Duclairc. Tinha conhecido ao senhor Hampton no jantar da condessa. Era um homem de uma beleza melancólica e enormemente reservado. Ela tinha passado a noite esperando que falasse de poesia, mas não se dignou a abrir a boca. Madeline Hunter – O Sedutor

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Seguiu caminhando, fazendo um resumo da reprimenda mental que tinha estado dando a Daniel desde que o visse sair da casa essa manhã. Sentiu atrás dela o dar coices e soprar de uns cavalos. Encontrou de repente ao Vergil caminhando a seu lado. — Senhorita Albert, está você sozinha? Perdeu

seu acompanhante? Fique comigo e

procurarei o lacaio do Saint John. — Não perdi a ninguém. Tenho algo que fazer e me disponho a fazê-lo. Assim bom dia. Deu a volta em uma esquina, deixando-o atrás. Alcançou-a. — Está você sozinha? Não pode caminhar sozinha. — É obvio que posso. Estive-o fazendo durante ao menos um quarto de hora. Uma carruagem se aproximou detrás deles. O carro do senhor Hampton tinha dado a volta e agora circulava ao lado de ambos. Vergil avançou para lhe obstruir o caminho. —Senhorita Albert, ofereço nossa carruagem. O chofer a levará onde quer que vá. Devo insistir. Começava a ficar severo e autoritário. Ela não estava de humor para receber ordens de ninguém esse dia, e muito menos de um homem. — Senhorita Albert, ou sobe ao carro ou aceita minha companhia a pé. De qualquer modo pagarei caro com seu primo, porque já me advertiu que guardasse as distâncias, mas você tenha a bondade de… — Assinalou para o carro. — Estou caminhando porque quero caminhar. Eu não posso impedir que me acompanhe se tanto insiste. Quanto às advertências de meu primo, ele não se preocupará. É possível que saiba

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que você está enfeitiçado com alguma cantora de ópera e que não tem nenhum interesse em mim. Embora me dá no mesmo o que possa pensar Daniel Saint John, ou o que possa preocupá-lo.

Vergil piscou surpreso. Diane não soube muito bem se era devido à chocante indiferença que ela tinha mostrado em relação à opinião de Daniel, ou à constatação de que todo mundo sabia sobre sua cantora de ópera. — Você fala com muita franqueza, não é certo? — Rogo-lhe que me desculpe, mas passei estas últimas semanas falando com tanta educação e tanta vacuidade que a franqueza acumulada terminou por transbordar esta manhã. Vergil aproximou do carro e disse algo pela janela. O veículo acelerou e deu a volta na rua seguinte. Caminhava com grandes pernadas ao lado de Diane, procurando defendê-la dos empurrões dos corpos. — Aonde vamos? — Onde você me disse que fora, a uma das companhias asseguradoras de navios. Soube que uma chamada Lloyds na City. — Será um comprido passeio. Estou seguro de que Saint John a teria levado. Diane apertou os dentes. Daniel tinha prometido que a levaria em uns poucos dias. Disso fazia já duas semanas. Claro, para ele não existia nenhuma pressa. Por que ia importar? Não era ele quem andava a deriva no mundo, sem história nenhuma, sem uma família, sem um lar. Ele não levava consigo um vazio no coração, um desejo de algo, algo, que o enchesse. Seria capaz de postergar aquele assunto até que não tivesse absolutamente nada mais que fazer, e isso poderia significar até nunca. Levavam meia hora caminhando quando a sombra de um cavalo projetou sobre eles. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Demorou para chegar, Saint John — disse Vergil. Diane parou abruptamente e levantou seu olhar para a massa de pele cinza do cavalo e logo para o cavaleiro erguido que tampava o sol. — Não era minha intenção atropelar a ninguém —disse Daniel. — Hampton está me seguindo, se você retroceder encontrará com seu carro. O agradeço e minha prima pede desculpas pelo atraso que causou. Não é certo, Diane? — Não faz falta nenhuma desculpa — disse Vergil enquanto girava para ir embora. Daniel desmontou do cavalo. — O que vou fazer contigo? — Afastar-se de mim seria a eleição mais sábia hoje — começou a caminhar outra vez. Daniel a acompanhou, levando seu cavalo pego das rédeas. A multidão abria como o mar Vermelho enquanto o enorme corcel aproximava.

— Uma mulher não deve caminhar sozinha por Londres. Minha irmã não lhe explicou isso? — Vejo muitas mulheres que caminham sozinhas. — É diferente. São pobres e têm trabalho que fazer. — Também eu o sou. E também tenho trabalho. Daniel ignorou a primeira afirmação. — Que trabalho? — perguntou. — Vou ao Lloyds. — Ah. Assim que esta rebelião é o resultado de uma birra porque ainda não atendi esse assunto. Diane deteve diante dele, com tanta raiva que doíam os olhos.

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— Não burle de mim. É por isso que estou aqui. É por isso que deixei o internato. Não para sua diversão, e tampouco para entreter a sua irmã, por muito que a queira. Se esperar que você atenda este assunto, primeiro envelhecerei. Se não estivesse convencida de que sou para você totalmente insignificante, suspeitaria que me contou uma mentira no jardim para me desalentar. Diane deu meia volta e se afastou caminhado. Daniel voltou a acompanhar seu ritmo. — Vá. — Devo insistir em acompanhá-la. As ruas não são seguras e é muito longe para chamar o Paul ou a outra pessoa. Ela fez caso omisso do homem que caminhava a seu lado, mas era quão única o ignorava. Ambos, assim como o enorme cavalo que soprava junto a eles, atraíam muito a atenção. — Estamos oferecendo um espetáculo — advertiu Daniel. — A próxima vez me vestirei com minha roupa do colégio. Quando o fazia em Paris, ninguém fixava em mim. — Se levasse sua roupa do colégio, ninguém responderia a suas perguntas. De fato ninguém o faria hoje tampouco se eu não fosse contigo. Ele poderia haver dito diretamente: “Não é nada sem mim. Eu te criei.” — Isso crê? — Seus lábios apertaram com ira. — Já o veremos. Lloyds estava na Royal Exchange, e recordou a uma igreja inglesa, com seu pórtico de templo clássico. O pátio cavernoso que havia dentro estava abarrotado de comerciantes e homens de negócios, que mostravam seus produtos ao longo das bordas. Daniel a levava pelo braço para que a multidão não a engolisse e a conduziu por algumas escadas até chegar a uma larga sala cheia de homens.

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— Isto é Lloyds — disse. — Os agentes estão ao longo daquela parede. Apresentarei ao Thompson. Conhece-me. Ela não se escondeu à sombra de Daniel, por muito que desejasse fazê-lo. Aproximou do escritório do senhor Thompson com toda a grandeza da que era capaz e olhou ao agente diretamente aos olhos. O homem ruborizou, gaguejou e deixou caiu a pluma no chão quando Diane sorriu. Ela deslizou para o Daniel um olhar oblíquo, só para cruzar um momento com o olhar dele. O senhor Thompson estava encantado de ver Daniel, que apresentou Diane e tentou impor sua autoridade na entrevista, ao tempo que com outro sorriso ela exigia a atenção do senhor Thompson. Ele estava contente de poder procurar. Seu crânio ruborizava sob os escassos fios de seus cabelos. Até esquecia a presença constante de Daniel Saint John e iluminava a cara por cima do escritório enquanto escutava a solicitude de Diane. — Estou procurando informação a respeito de meu parente, Jonathan Albert. Trabalhava no mundo naval faz uns quinze anos. Tenho a esperança de que se a companhia de vocês assegurava algum de seus navios você tenha algo que possa me ajudar em minha busca. — Bom, é obvio podemos ver o que temos. Posso pedir a meus empregados que registrem os arquivos e enviem a informação. — Seria possível fazê-lo agora mesmo? Estaria extremamente agradecida. Levo meses procurando. Daniel suspirou. — O senhor Thompson está muito ocupado.

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— Não tão ocupado como para não poder ajudar a uma donzela afligida. — O rosto do senhor Thompson converteu em uma máscara de simpatia. Deu ordens a seus empregados e logo começaram a acumular em seu escritório uns enormes tomos encadernados. O senhor Thompson inclinou por cima do ombro de Diane para explicar como se faziam as entradas. — Sabe você os nomes dos navios ou seus capitães? Ela olhou para o Daniel, que negou com a cabeça. — Não, só sei o nome do dono. — Ah. Nesse caso resultará mais difícil. Devemos examinar esta coluna daqui, mas não há nenhuma ordem no registro. Olhe, você examine este, enquanto eu comprovo este outro, e meu empregado se encarregará do terceiro.

Diane lançou um sorriso de gratidão a seu rosto tão próximo. O senhor Thompson ruborizou até os borde de suas entradas. — Senhor Saint John, se você tiver outros negócios na City, estou seguro de que o senhor Thompson e seu empregado me atenderão — disse Diane. — Não se preocupe, Saint John, sua prima estará em boas mãos conosco. — Ficarei — foi sua firme resposta. Havia só três tomos, assim que sentou em uma cadeira ao lado da janela enquanto que Diane e seus dois enfeitiçados ajudantes os folheavam. Duas horas mais tarde Diane possuía provas irrefutáveis de que seu pai não tinha assegurado nenhum navio com o Lloyds durante os seis anos anteriores a seu desaparecimento. Tinha entrado no Royal Exchange sentindo-se valente e confiada e segura de estar fazendo progressos. Agora, enquanto fechava a pesada encadernação de seu tomo, um desalento espantoso a dominó. Madeline Hunter – O Sedutor

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O senhor Thompson percebeu. — Sinto tanto. Poderíamos estender a busca a anos anteriores se quiser. — Não, obrigado. Os dois homens pareciam estar dispostos a que amputasse uma perna com tal de economizar essa infelicidade. Isso a fez sentir culpada por suas pequenas paqueras. — Vêem, Diane. — A voz de Daniel soou diretamente atrás dela. Não queria olhá-lo. Provavelmente ia estar zangado por todas as moléstias ocasionadas para nada. Diane controlou seu desânimo dizendo que havia outras companhias de seguros e que aquilo não significava o fim de suas esperanças, e aceitou que a acompanhasse para a rua. Enquanto Daniel desatava seu cavalo viu seu rosto. Não era aborrecimento. Outra coisa esticava sua expressão e ardia em seus olhos. Caminharam para o oeste em silêncio. Melhor assim. Diane estava muito desalentada para enfrentar uma rixa com a desafiante atitude de mártir que tinha mostrado ao Daniel fazia um par de horas. De todos os modos quase ouvia a rixa. Chegava-lhe com o tom indiferente das velhas perguntas do internato. “Já está contente? Terá bastante por um tempo? É suficiente ter desperdiçado as tardes de três homens em sua grande busca?” Enquanto aproximavam do Tempere Bar, o caos e os ritmos das ruas trocaram abruptamente.

As pessoas caminhavam mais depressa. Os pobres e os plebeus corriam em um fluxo para o rio, enquanto as carruagens e a gente melhor vestida apressava na direção contrária. Daniel parou e jogou uma olhada ao longo da rua estreita, inclinando a cabeça. Um estrondo foi ouvido vagamente na brisa. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Outra manifestação — disse. — Perto do Parlamento. A sessão de hoje deve ter começado. —Tirou-a do braço e a fez retroceder na direção pela que acabavam de vir. — Teremos que ir por outro caminho. Temo que significa atravessar uma parte desagradável da cidade. Encontraram uma rua tranqüila, vazia de gente. As lojas tinham fechado suas portas. Daniel conduziu seu cavalo para uma pedra de montar. — É impossível saber com o que nos vamos encontrar. Será melhor que vamos a cavalo. Ponha de pé sobre este bloco e te subirei ao cavalo, atrás de mim. Subiu ao bloco. — Jamais montei a cavalo. — Então hoje será sua primeira vez para muitas coisas, não te parece? — Daniel subiu ao cavalo e inclinou para Diane. — Foi sua primeira vez em montar a cavalo, e sua primeira vez em paquerar para conseguir que os homens entreguem o que desejas. — Sua expressão voltou a esticar enquanto o dizia. O braço de Daniel rodeou a cintura, trazendo-a desagradavelmente perto. — Também será a primeira vez que mostre as pernas a toda à cidade de Londres. Isto só funcionará se sobe a saia, porque vais ter que montar escarranchado. Faz agora e te levantarei. Obedeceu-lhe. Um só impulso e já estava atrás de Daniel, sua saia arregaçada por cima dos joelhos. — Cubra tudo o que possa com sua capa. Então agarre em mim para não cair. Ela resistiu a esta última ordem, decidindo agarrar à parte posterior da cadeira de montar. Depois do primeiro rebote esteve a ponto de ir ao chão, e isso que o cavalo não fazia mais que caminhar. Deslizou seus braços tentativamente em torno do corpo de Daniel. Não era um abraço. Em términos estritos. Entretanto, a conexão e a calidez a subjugaram em seguida. Do mesmo modo que o abraço de despedida de madame Leblanc a tinha deixado sem

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fôlego, da mesma maneira que as escandalosas mãos de Daniel a tinham debilitado na carruagem, essa forma de agarrar ele, embora carecesse de intimidade, provocou uma reação imediata. O vazio a engoliu e logo suspirou com alívio, quase gemeu, enquanto a felicidade mais doce e mais humana a alagava.

“Vê, não está completamente sozinha, sussurrava-lhe seu coração. Há outras formas. Outros lares, e outros amores, além dos familiares.” Passaram através de ruas toscas. A gente que rondava nelas contagiada pela manifestação embora não participasse dela. Daniel pôs o cavalo a trotar com bom ritmo, ignorando os gritos que lhes dirigiam. De repente deteve o cavalo. Diane jogou uma olhada em torno de seu corpo, e viu que uma multidão formou na rua diante deles. Daniel girou o cavalo, mas uma massa de novos corpos estava chegando ao cruzamento por onde acabavam de passar. Cuspiu uma maldição, deu meia volta uma vez mais e avançou trotando. — Deve ter havido violência perto do Parlamento. A notícia propagou. Agarre firmemente em mim. Apertou-o com todas suas forças. Os rostos a seu redor tinham expressões desagradáveis, que deformavam a humanidade do grupo em uma turva de máscaras raivosas. Ela recordou o ataque à saída da ópera em Paris, e teve medo de que alguns daqueles homens pobres tivessem facas. Aproveitando a corpulência do cavalo Daniel avançou a empurrões. Uns quantos homens tentaram manter sua posição, apartando de um salto só no último momento. As maldições e as grosserias voaram por volta dos dois cavaleiros. — Por que estão zangados conosco? Você não forma parte do governo.

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— Estão zangados com qualquer que possa comer sem ter que contar os centavos que ficam. Os rostos que a olhavam, distorcidos pelo ódio, de repente pareceram menos desumanos. — Se tiverem fome, suponho que isso desculpa seu comportamento. Voltou à cabeça para olhá-la com ferocidade. — Não há nenhuma desculpa. Nesse momento um homem agarrou a brida do cavalo. Outro agarrou ao tornozelo exposto de Diane. Horrorizada, tentou sacudi-lo para se livrar, mas o homem não fez mais que rir. Com um rugido de fúria, Daniel deu ao assaltante uma patada tão violenta que o fez voar para trás e derrubar na sarjeta. Diane vislumbrou o rosto de Daniel em sua reação à ameaça. Durante um instante parecia tão duro e cruel, tão primitivo e desumano, que esteve a ponto de soltá-lo e quase caiu para trás. Piscou então e o olhar tinha desaparecido com tanta velocidade que se perguntou se em realidade a tinha imaginado. Daniel esporeou o cavalo para que fora mais rápido. A multidão se cindia. Não houve mais desafios.

Logo a multidão foi dispersando e desaparecendo, enquanto que os edifícios se faziam menos pobres. O trovão familiar seguia fluindo na brisa, mas as outras evidências do descontentamento cessavam. — Agora deve baixar — disse Daniel, enquanto detinha o cavalo. — Os outros não devem vê-la assim. Voltaram caminhando a sua casa. Daniel não falava, mas Diane tinha a sensação de que teria gostado de dizer algo. Nada agradável, estava convencida. Seu silêncio possuía um fio negro. — Vêem ao escritório, por favor. Madeline Hunter – O Sedutor

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Sentia como se estivesse no internato, quando a chamavam ao escritório da diretora. Odiava se sentir assim. Estava ressentida por se achar em uma situação tão desvantajosa, e sem saber, ou seja, o que esperava exatamente dela. Pelo menos Daniel não sentou na cadeira atrás da mesa para examiná-la como se fosse uma colegial infratora. Ao contrário, aproximou da janela e, como estava acostumado a fazer em sua presença, olhava para fora em vez de olhá-la. Também isso produzia ressentimento nela. — Sei que está triste pelo de hoje. Sinto muito. —Parecia sincero. Por que tinha Diane então à impressão de que não o sentia de tudo? — Possivelmente não deveria ficar obcecada com a busca de seus parentes perdidos, Diane. A decepção… É jovem e tem uma vida para construir. O passado pode ser uma cadeia e você pode se libertar dela. — Você não o entende. — Acredito que sim o entendo, melhor do que pode saber. — Se o entendesse, jamais falaria do passado como uma cadeia, como se encarcerasse as pessoas. — Às vezes é exatamente isso o que acontece. — Então eu quero algumas dessas cadeias. Quero que me atem a uma família, já seja boa ou má. Quero poder dizer que meu avô vivia nesta cidade e meu tio trabalhava nesse ofício. — Diane reconhecia o tom ressentido e suplicante em sua própria voz, mas não podia controlá-lo. — Quero saber que alguém se preocupava comigo quando nasci e que entristeceu quando teve que me deixar, mas pensava algumas vezes em mim. Quero saber que em algum lugar há algum primo ou uma tia que se pergunta sobre meu destino. A sala ressonava com sua declaração. Retumbou durante muito tempo antes que o silêncio a devorasse. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Isso é tudo? Agora quero ir — disse Diane. Daniel girou ficando de frente pra ela. — Não, não é tudo. Não deve voltar a sair sozinha. — Em Paris chegamos a um acordo de que poderia seguir aqui a mesma vida que ali. — Não sabia que estava acostumada a caminhar sozinha por Paris. No futuro leva sempre alguém para acompanhá-la. — Terminamos já? — Não. Percebo que nestas últimas semanas aprendeste o poder que exerce uma bela mulher. Entretanto, a forma em que paquerava com o senhor Thompson e seu empregado era muito descarada. — Não era não descarada. Era muito sutil. Vi a duquesas comportarem-se muito pior. — Você não é uma duquesa quarentona. — Não, sou uma jovem mulher órfã sem um centavo. Se um sorriso obtiver que os senhores Thompson do mundo abram seus livros, o preço que devo pagar é pequeno e é a única moeda que possuo. — Eu teria conseguido que abrissem esses livros. — Preferia fazê-lo eu mesma. Diga-me, monsieur, está produzindo nosso acordo quão resultados antecipava? — O que quer dizer? — Sirvo para atrair tanta atenção como esperava? Está conhecendo os homens a quem queria conhecer? Estão avançando os negócios sobre os naipes e nos clubes? Seu investimento está rendendo dividendos? — Quantas perguntas. Assombra-me às vezes.

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— Eu gosto mais quando você fica assombrado que quando me arreganha. Se tudo for como queria, não acredito que suas lições sejam apropriadas. Conte seus lucros e me deixe recolher os meus. Diane saiu, e com cada passado a breve fúria que tinha conhecido desde que a confrontava na rua aumentava. Chegou às escadas quase tremendo de frustração e com a estranha sensação de ter sido insultada. Ao final do passamanes havia duas urnas orientais. A diferença das de suas habitações em Paris, não eram de cor verde e rosa e com decoração de flores. Contemplou-as, expostas para que todos as vissem, como anúncios do gosto urbano de seu dono. Que também era o dono dela, em certo modo.

Elevou uma das urnas. A delicadeza da porcelana proclamava o talento do artesão com tanta claridade como a decoração. Acariciou-a com suas mãos, gozando do tato. Muito caro. Perfeita. Um objeto de beleza deliciosa. Deixou-a cair de suas mãos. Despedaçou-se sobre o chão de mármore. O som retumbou no corredor. As portas abriram e criados apareceram correndo com a boca aberta. Daniel saiu da biblioteca, com expressão de curiosidade. Ela estava de pé entre os pedacinhos da urna, apenas capaz de conter uma travessa euforia. Os criados passavam seu olhar dela para Daniel. Daniel avançou com uma expressão muito curiosa na cara. Assinalava a urna rota. — Era Ming. — Você inventa motes para sua cerâmica?

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— Da dinastia Ming. Tinha ao menos trezentos anos de antigüidade. Nenhuma a igualava em preço. — Disse-me que as rompesse. Todo o dia se queria. — Referia às urnas de seu quarto. — Importa? Daniel voltou para a biblioteca com uma expressão de paciência. — O simples feito de que tenha quebrado algo é o que importa. Não significa nada bom para mim, não parece?

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Capítulo 12 — Não concluíram senhorita. Acredito que demorarão ao menos uma hora. — O lacaio dirigiu a ela através da janela do carro e logo sua cabeça desapareceu. Penélope olhou Diane como pedindo desculpas. — Espero que não te incomode esperá-los. — É obvio que não. — Era a faceta da duquesa que mais a desarmava. Embora tivesse aceitado como amiga à escura prima de um naval atuava como se Diane não devesse se mostrar agradecida e como se tivesse direito de incomodar. — Sim me incomoda. Não é o atraso. Embora meu irmão me fizesse esperar toda a tarde não me queixaria. O que me irrita é ser tão covarde. Ofende-me que o conde possa provocar isto, mas me sinto impotente ante o medo. — O simples feito de que assista a sua festa mostra que não é uma covarde. Elas foram convidadas para uma festa em numa casa em Essex, por lady Pennell. Penélope tinha acordado parar nessa velha casa de Hampstead para encontrar com seu irmão Vergil e assim viajar todos juntos. Em circunstâncias normais, a condessa não teria necessitado esta companhia, mas essa festa poderia resultar muito incômoda. Seu marido, o conde de Glasbury, ia estar. A família da condessa se reuniu para apoiá-la. Seu irmão maior, o visconde Laclere, tinha a intenção de ir a cavalo para ficar ao lado de sua irmã. — Podemos jogar uma olhada — disse Penélope. — É uma academia de esgrima cujo dono é o cavalheiro Louis Corbet. Alguns afirmam que é a melhor da Inglaterra, apesar da fama da do Angelo, na Bond Street. Mas na academia de Angelo a esgrima é um esporte. Aqui se diz que o

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cavalheiro a insígnia como uma habilidade para a guerra ou para os duelos. Poderíamos jogar uma olhada. — É permitido? Podem as mulheres olhar na de Angelo? — Claro que não. Entretanto, tenho descoberto que uma vez que uma mulher abandona seu marido, há poucas coisas mais que possa fazer capazes de escandalizar a alguém.

Diane tinha percebido a algum tempo de que Penélope considerava sua nova liberdade digna de certa censura pública. Em realidade não explorava essa liberdade. A diferença de outras, que teriam tomado amantes descaradamente, os pecados de Penélope eram de outra natureza. Mesclava-se com pessoas que uma condessa normalmente não se associa e amparava como amigas a algumas que tinham caído muito mais baixo que ela. Segundo Jeanette, a condessa se estava manchando de maneira irreparável. As pessoas importantes perdoariam com maior facilidade uma relação com um homem casado que amizades democráticas. Era só uma questão de tempo que os salões ainda abertos começassem a fechar as portas para condessa. Penélope conduziu Diane até a entrada da casa grande e deu um pequeno empurrão à porta. Seguiram o estrondo do aço combatente até uma larga sala de um lado do vestíbulo. Apareceram à porta como meninos espiando em um baile e viram três casais de homens batendose com espadas. — Parece muito perigoso — sussurrou Penélope. — Não levam nem camisas reforçadas. Qualquer engano faria correr sangue. Diane não tinha pensado no perigo causado por seus objetos. Só tinha fixado na falta de objetos. Não era só que não levavam camisas reforçadas, mas sim não levavam camisas de nenhum tipo. A sala dava voltas com as imagens de seis fortes torsos nus. Jamais em sua vida tinha visto o torso nu de um homem. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não sabia que seu primo estaria aqui — disse Penélope. — O homem grisalho com o qual está duelando é o cavalheiro Corbet. Diane tinha distinto Daniel do primeiro momento. Estava frente a elas, mas toda sua concentração estava fixa em seu oponente, como correspondia. — Ele e o cavalheiro são claramente os mais destros. Os movimentos de meu irmão resultam menos atrevidos. Mais estudados. Diane não percebia os distintos níveis de destreza. Não podia tirar os olhos de cima de Daniel. Parecia-lhe muito formoso. A diferença das caretas de esforço que apreciavam nos rostos dos mais jovens, mantinha uma expressão calma, quase fria, enquanto respondia ao ataque do cavalheiro. Tinha um aspecto magnífico. Forte e crédulo e estilizado e musculoso e… maravilhoso. Um ligeiro brilho cobria a pele dele e tensos músculos esculpiam os braços, os ombros e o peito. Não era o homem mais corpulento da sala, mas era impossível não apreciar que cada centímetro de seu corpo estava sutilmente afiado e era potencialmente perigoso.

Os olhos de Diane vagavam por esses músculos, fascinada por sua cinzelada dureza. A forma em que seu torso estreitava para os quadris absorvia sua atenção. Um rubor a envolveu e lembranças proibidas de suas carícias na carruagem foi a sua mente. Como seria passar a palma de sua mão nesse peito? Parecia tão duro e, entretanto, a pele devia ser cálida e branda… — Diabos, Pen, o que faz você aqui dentro? — O grito de Vergil Duclairc arrancou Diane de suas especulações vergonhosas. Eles as tinham visto. Madeline Hunter – O Sedutor

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Os duelos cessaram imediatamente. Vergil e outros três homens avançaram a grandes pernadas para agarrar suas camisas. Daniel não o fez. Baixou sua espada de uma vez que olhou para a porta. Seus olhos cruzaram com os de Diane antes que esta pudesse se esconder. Sentiu como lhe subiram as cores. Algo em seu olhar sugeria que ele já sabia que ela estava ali. Assim como ela tinha visto a reação de Daniel no espelho da costureira, ele tinha visto a sua, apesar de estar concentrado na espada do cavalheiro. A diferença de Vergil Duclairc tinha deixado que os observasse. A expressão de Daniel não refletia nem vergonha nem surpresa. Seus olhos simplesmente reconheciam o que ela via, e o fato de que não tinha afastado o olhar. E ainda não o fazia. — Pen, Por Deus, no que pensava? — Vergil ficou de repente diante das duas, obstruindo a visão da sala. Sua camisa caía amplamente dos ombros, e não era mais que uma rápida cobertura sobre sua nudez. A seu lado havia um jovem perfeitamente belo com o cabelo castanho e um sorriso encantador. Vestido corretamente tinha estado convexo em um banco contra uma das paredes da sala. — Não tinha nem idéia de que duelavam sem roupa — explicava Pen. — Só quando praticamos os movimentos defensivos. É para que nos acostumemos à vulnerabilidade. Mas é você quem nos deve uma explicação, não eu. — Só tínhamos certa curiosidade por seus treinamentos. Graças a Deus não os encontramos totalmente nus, como nas métopas gregas do Elgin. Imagine, sempre acreditei que era uma licença artística por parte do escultor. Vergil deu um suspiro de exasperação. — Sabe muito bem que deveria ter saído em seguida. Além disso, trazer a senhorita Albert…! Madeline Hunter – O Sedutor

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Penélope olhou Diane. — Foi um descuido de minha parte. Iremos agora mesmo esperar na carruagem. Não se apressem por nós. Insisto. Terminem como o deixavam previsto. Tomou Diane pelo braço e caminhou para a entrada do edifício. — Vergil pode resultar um pouco afetado. Sempre foi assim, mas está ficando pior com os anos. Não sei de onde vem, porque nossa família não tem fama de ser assim. Mas bem ao contrário. É bem-intencionado, mas às vezes cansa. — Estou de acordo, Pen. Depois de escutar uma reprimenda que durou todo o caminho, devo dizer que seus melindres aumentaram bastante desde que o vi a última vez. De todos os modos, bisbilhotar assim foi bastante audaz. A resposta provinha de trás. Diane girou a cabeça e viu que o belo jovem de antes as seguia. O humor em seus olhos limpos sugeria que encontrava enormemente divertido um escândalo assim. Já no pátio, Pen abraçou e beijou o jovem. — Diane, este é meu irmão menor, Dante. Tem só dezoito anos, mas já teve uma vida inteira de problemas. Surpreende-me verte ali, Dante. Que gentil vir da universidade para estar comigo. — Estou feliz de estar contigo, mas confesso que não foi minha eleição vir da universidade. Pen pôs cara larga. Suspirou com tanta exasperação como Vergil fazia poucos minutos. — Quer dizer que tornaram a expulsá-lo? Outra vez, Dante! Já entendo por que Vergil o arreliava. O que aconteceu esta vez? — Só um assunto banal. — Jogou uma olhada a Diane, para recordar a sua irmã que estavam em companhia.

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— Parece que temos bastante tempo antes de partir, assim acredito que darei um passeio pelo parque — disse Diane. Pen estava totalmente absorvida por seu irmão menor e não opôs a que Diane afastasse. Quão último esta viu foi dar a volta pela casa grande. Foi para Dante que estava falando com uma expressão de cordeiro, enquanto Pen gemia ante o que ele dizia. Diane entrou no bosque quando percebeu que jamais em sua vida tinha passeado pelo campo. O internato estava localizado nos subúrbios de Rouen, mas os arredores não eram precisamente rurais. Tiveram saídas para a cidade, mas não para o campo. Em Paris, e agora em Londres, desfrutava dos parques, mas nunca se afastava das zonas cultivadas. Embora essa casa de

Hampstead não estivesse rodeada de granjas, seu terreno era o suficientemente amplo e abandonado para que o espaço parecesse rústico. Entrou por pequenos atalhos, surpreendida de que a experiência não a assustasse mais. Tinha ouvido falar da natureza como de um lugar transformador. Entretanto, resultava bastante familiar. Possivelmente porque era silenciosa e solitária, e o coração de Diane acostumou a ambas as coisas. Não de tudo silenciosa. O estrépito de algum disparo perturbava a tranqüilidade a intervalos regulares. Não muito longe de ali, alguém estava caçando. Isto tampouco a assustou. Em seguida entendeu o que significava o som. Sabia que pertencia a esse lugar e que não devia aproximar. Entrou por um novo atalho e encontrou com um claro por diante. Uma pequena casa de campo apareceu de repente entre as árvores.

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Parou. A imagem dessa casa, emoldurada entre os troncos e os ramos, resultava tão familiar que teve que conter a respiração. Tinha a estranha sensação de ter vivido esse momento em outra época. Não era a primeira vez que tinha essa sensação tão peculiar. Sabia que todo mundo a tinha às vezes. Entretanto, aquela vez era mais nítida que antes. Tinha a impressão de que seria capaz de descrever a casa com todo detalhe até sem chegar a vê-la. Tentou fazê-lo. Ao ver que seus intentos eram estéreis, que nenhum detalhe surgia na escuridão, riu de si mesmo e seguiu seu caminho. A casa, antiga com seu teto de palha, seus muros de gesso e as vigas à vista, parecia bem conservada. Alguém vivia ali. Como se sua curiosidade o tivesse atraído, a porta abriu e apareceu um ancião. Levava roupa velha, mas singela e uma larga barba branca. Fixou o olhar em Diane. — Agora o cavalheiro recebe a alunas? — A idéia fê-lo fez rir, enquanto enchia um cubo de um poço. — Só estou de visita. Não estou aprendendo esgrima. — Falas como ele. É francesa? Não aparecem mulheres por aqui. Diane se aproximou. A sensação de ter vivido antes esse momento foi mais intensa. — Quem é você? Olhou-a surpreso, e logo se pôs a rir. — Sou George. Sou o encarregado de cuidar das terras, embora me custe com estas minhas pernas. Levo quase toda minha vida aqui, desde antes da chegada do cavalheiro. Diabos, eu estava

aqui quando isto pertencia a esse descarado, antes de Corbet. Perdeu-o com o jogo, como eu imaginava. Como imagino também que esses jovens nobres que vêm aqui para aprender a duelar provavelmente perderão grande parte de suas posses nas mulheres e as cartas. — Girava a Madeline Hunter – O Sedutor

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manivela até conseguir que o cubo emergisse do poço. — Uma pergunta audaz merece outra. Quem é você? Uma desilusão profunda a aguilhoava. — Não sou ninguém — o disse sem pensar. Foi uma resposta nascida da estranha desolação que de repente estalava no coração. Deu meia volta, para afastar o quanto antes desse lugar que a fazia sentir tão estranha e desconhecida. — Sabe voltar? — perguntou George. Parou. Não tinha emprestado muita atenção aos atalhos que tinha tomado. Tinha sido um descuido. — Que sorte que não se perdeu. Deve tomar o primeiro atalho que sai para a direita. Este atalho a levará a bordo do bosque e logo só tem que segui-lo até chegar a casa. Há outra forma mais rápida de voltar, mas essa é a mais fácil. Mas não se afaste das árvores deste lado do prado. Esses disparos que ouço são de um desses nobres que está treinando com suas pistolas ao outro lado. — Pensei que estaria caçando. — Já quase não se caça por aqui. Estão construindo muitas casas. Isto antes era o campo, mas a cidade está aproximando. Diane agradeceu e seguiu o atalho que tinha indicado. Quando virou para flanquear o prado, o sol dissolveu a sensação do já visto. Não conseguia ver a casa, mas caminhava para ela, confiada nas indicações de George. Umas quantas flores temporonas salpicavam o pequeno prado. No verão, iriam cobrir como um manto.

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Perguntava-se se chegaria a conhecer cavalheiro. Se o conhecesse, talvez a convidaria a visitar aquilo outra vez. Imaginava correndo descalça por esse prado sob o sol. A fantasia resultava tão vívida que sentia sob seus pés a erva e a terra. Tinha deixado de ouvir os disparos, mas um estalo repentino rompeu o silêncio. De uma vez um ligeiro zumbido soou junto a sua orelha. Um golpe surdo a sua esquerda fez voltar à cabeça e gritar. Ficou gelada, aturdida. Demorou vários segundos em compreender o motivo de sua reação. Tinha sido uma bala.

Um calafrio de medo percorreu seu pescoço. O mesmo susto que tinha experimentado depois da ópera agora a imobilizava. Um homem apareceu ao outro lado do prado. Viu-a e começou a correr em sua direção. Enquanto aproximava, Diane só podia ver seu cabelo loiro e sua expressão alterada. — Está ferida? Te fiz mal? — As perguntas chegaram à voz alta em tanto que o homem aproximava. Não sabia muito bem. Acreditava que não. Negou com a cabeça. — Graças a Deus. Surpreendeu-me uma lebre e minha pontaria falhou. Ninguém caminha por estas terras, assim quando ouvi seu grito meu coração pulou. Diane voltou a ser proprietária de seus sentidos. — Estou perfeitamente bem. Acredito que nem sequer deu perto. Gritei pelo susto, isso é tudo. O homem respirou aliviado.

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— Me permita que a acompanhe de volta a casa. As apresentações oficiais terão que esperar, mas me chamo Andrew Tyndale, e nunca me perdoarei por este descuido. Parecia sólido e honesto, um autêntico cavalheiro. Com a cara já livre de inquietação, sua expressão o fazia parecer tão arrependido como preocupado. Diane calculava que teria algo mais de quarenta e cinco anos. Parecia sensato permitir que a acompanhasse. — Agradeço. Estou um pouco assustada, confesso. Enquanto caminhavam em silêncio, jogou um olhar oblíquo. Era um homem atrativo, com uma mandíbula forte e profundos olhos azuis. Suas feições francas sugeriam que era um homem incapaz de dissimular. Diane supôs que devia ter sido bastante elegante em sua juventude. O corte romano de seu cabelo loiro e o corte à última moda de sua jaqueta sugeria que seguia acreditando assim. Tinha conhecido a muitos homens dessa idade desde que deixou o internato. Alguns ignoravam o passar dos anos e fingiam ser ainda jovens, o qual lhes dava um ar mais parvo que preparado. Outros se rendiam tão totalmente à marcha do tempo que podiam chegar a aparentar sessenta. Andrew Tyndale parecia ter obtido um equilíbrio. Levava sua maturidade com franqueza, mas sua boa forma física e seu interesse pela moda anunciavam que seu tempo não tinha passado. Sorriu para Diane. Foi um sorriso cálido. Deu a seu rosto uma expressão que inspirava confiança.

— Como dizia, as apresentações oficiais terão que esperar, mas já que estive a ponto de matá-la, permite-me saber seu nome? — Diane Albert — pronunciou o «t», como tinha feito desde sua chegada a Inglaterra. Seguia tendo a esperança de que alguém reconhecesse seu sobrenome se o pronunciava assim. Para reclamar suas verdadeiras raízes, estava se esforçando também por purgar sua conversação de Madeline Hunter – O Sedutor

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palavras francesas e por reprimir seu acento, embora ambos considerassem aqui bastante elegantes. — É você francesa? — perguntou ele, demonstrando, como George antes, que o acento seguia assinalando-a. — Sou inglesa, mas me criei na França. — Esteve longe de sua casa, então, durante a guerra. Sim, muito longe de sua casa. Não sabia por que, mas sentia que o interessariam suas confidências sobre o tema. Ele teria muitíssimo mais interesse que Daniel. — É uma parente do cavalheiro? — Não. Vim com lady Glasbury. — Ah. Agora sei por que me resulta tão familiar. Acredito que a vi com ela no baile de lady Starbridge a semana passada. É a condessa uma amiga do cavalheiro? — Acredito que não. Estamos esperando que seu irmão termine o treinamento. — Deve referir a Vergil Duclairc. Um da Associação de Duelos de Hampstead. Assim se chamam a si mesmos. Uma Associação não de esgrima, mas sim de duelos. Treinam para um desafio que jamais surgirá e em suas fantasias imaginam como corsários. — Você não é, conforme vejo, um sócio. — Sou muito velho para me interessar por essas fantasias. — Mas você também vai à academia do cavalheiro. — Suas habilidades são insuperáveis, e está disposto a usar o sabre militar, como eu gosto. Eu gosto que treine sem objetos reforçados. A diferença de quão jovens estão ali agora, entretanto, não tiro a camisa, e guardo outra fresca para pôr depois do treinamento. Pôs-se a rir ao contar sua pequena brincadeira. Ela quase fez o mesmo, mas recordou a tempo que fazê-lo revelaria que os tinha visto sem suas camisas.

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— O dia é formoso e o prado realmente esplêndido — disse ele dirigindo um sorriso paternal. — Vamos cruzar o e chegaremos à casa pelo caminho do bosque de em frente. Há um arroio encantador onde estão já os açafrões em flor. — Ninguém mais estará disparando por ali? — Não, e saberei nos manter fora de seu alcance se começarem a fazê-lo.

Sentia-se muito segura com ele, embora tivesse estado a ponto de atirar nela. Tinha vontades de cruzar o prado, assim aceitou. Enquanto a prega de seu vestido roçava com a erva seca, decidiu que estava à vontade na companhia de Andrew Tyndale. Se não estivesse morto, poderia ter passeado assim algum dia com seu pai. Andrew Tyndale não a assustava, com todos seus anos, nem a fazia sentir-se incômoda. Tratava-a como se fosse uma sobrinha ou uma filha. Não criava essas pequenas eternidades nas que esquecia como respirar. — Peço desculpas por minha irmã, Saint John. Sua vida independente a impulsionou a fazer algumas costure muito peculiares. Daniel sorriu ante a exasperação de Vergil. Fazer coisas muito peculiares era algo assim como uma tradição dos Duclairc, e Vergil, com seu respeito pelas aparências e o decoro, era o estranho da família. — Enquanto estava casada, certamente, não resultava muito escandaloso. Sua prima, não obstante… — Vergil atou seu lenço diante do espelho do vestuário. — Recordarei a Pen suas responsabilidades a respeito. — Eu não exageraria as coisas. Estou seguro de que se sua irmã o tivesse sabido, jamais teria entrado, e certamente não teria permitido a minha prima. Vergil assentia, aliviado de receber a absolvição para sua irmã. — Muito decente por sua parte. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel não se sentia nada decente em torno daquele episódio. O comportamento de lady Glasbury podia desculpar-se. Mas o seu não. Descobriu a presença delas muito antes do grito de Vergil. Fixou nelas quando apanhou a espada de Louis sobre a sua. Viu como Diane o observava. Tinha sido muito consciente da expressão de seus olhos. Tinha desfrutado obscuramente cada maldito segundo do que lhe pareceu toda uma hora, pavoneando como um animal que se expõe ante sua fêmea. Estava convertendo em um ser ridículo. Saíram ao pátio onde o carro da condessa aguardava. Vergil aproximou com uma expressão que dizia que esperava a sua irmã, em qualquer caso, um pequeno bate-papo. Resultou ser um bate-papo muito curto. Voltou junto ao Daniel. — Sua prima não está. Saiu de passeio, para que minha irmã pudesse falar em privado com Dante enquanto contava a história de seu mau comportamento. — Irei procurá-la.

— Você disse que tinha que ir a uma entrevista antes de nos acompanhar ao Essex. Permita-me ir procurar, porque nos atrasaremos de todos os modos até que a encontremos. A entrevista era urgente, mas indubitavelmente podia esperar. Daniel não queria que Diane passeasse por esses bosques. Ao dirigir-se para a casa houve uma pequena comoção. Quando dois dos estudantes da academia partiram em seu carro, ficou à vista um cavalo pacote a um poste. — Não sabia que Tyndale seguia aqui — disse Daniel. — Saiu a atirar justo quando chegamos. Os disparos que ouvíamos durante o treinamento eram deles.

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Ao dizê-lo, os olhos de Vergil acenderam com ansiedade. O coração de Daniel encolheu também, com repentina inquietação. Era muito pouco habitual que alguém passeasse pelas terras, e quem treinava com as pistolas não se preocupavam muito por essas coisas. — Sem dúvida, se estivesse ferida… — começou Vergil. — Você e Dante registrem o prado e os bosques da direita — ordenou Daniel, avançando a grandes pernadas para a parte posterior da casa. — Irei à zona de tiro ao branco. Não estava ferida. Daniel soube assim que ouviu sua risada. Seguiu o som até encontrá-la sentada sobre um tronco caído ao lado do arroio. Tinha um breve montão de açafrões no regaço. Um homem oferecia um mais. Nenhuma bala a tinha alcançado. Andrew Tyndale sim o tinha feito. Diane sorriu ao aceitar a flor. Não havia nem um espiono de suspeita ou cautela em seu olhar. Nenhuma sensação de perigo. É obvio que não. Daniel não podia ver a expressão de Tyndale, mas imaginava cheia de aberta honestidade. Ninguém salvo Daniel tinha sido testemunha da ferocidade desses olhos quando Tyndale duelava com Louis. Ninguém mais tinha visto essas outras faíscas enquanto Tyndale observava Diane do outro lado do salão abarrotado de pessoas durante o baile. Daniel sim o tinha feito, só porque tinha permanecido cuidadosamente à espreita. Tyndale sentou ao lado de Diane e assinalou outra flor que tinha entre as mãos. Ela franziu o cenho ao estudá-la e recebeu alguma lição de horticultura. Teve que inclinar um tanto mais para poder vê-la bem. Daniel não deixou de constatar como Tyndale astutamente registrou o sutil deslocamento.

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Seria esse bode capaz de tentá-lo ali mesmo? Com os anos havia ficado mais audaz e atrevido? A flor caiu da mão de Tyndale e afastou flutuando pelo arroio. Risonho ante sua própria estupidez alcançou outra do montão sobre o regaço de Diane. Daniel observou essa mão, e a forma em que o braço roçava o corpo de Diane, e os olhos de Tyndale, e sabia que, de estar mais momento sobre esse tronco, o assunto se faria sem dúvida muito menos inocente. Instintos que Daniel desconhecia o impulsionavam a atuar. Emoções primitivas de amparo e posse gritavam em sua cabeça. Surgiam tão de repente e com tanta violência que quase o avassalaram. Outros instintos os refrearam. Os de um gato que permanece completamente imóvel espreitando o movimento de sua presa. Os de um homem que planeja durante toda uma vida para alcançar sua meta. Essa meta o esperava no tronco. Cinco minutos, possivelmente dez, e tudo teria acabado. Quase. Os meios de completá-lo estariam, não obstante, a seu alcance. Pensava que demoraria semanas. Meses. Em troca, o destino o tinha acelerado tudo. Depois de dar explicações sobre a flor, Tyndale e introduziu o caule no cabelo de Diane, junto a sua orelha. Uma sombra dessa cautela que Daniel conhecia tão bem batia as asas por seu rosto. Durante um instante esquadrinhou a cara do homem sentado a seu lado. Voltou a relaxar e sorriu, tranqüilizada. Daniel imaginava como essa cautela voltaria. Via seu horror no momento do assalto. Sabia até onde teria que permitir que chegassem as coisas para ter uma desculpa para matar Tyndale. O grito de protegê-la crescia e crescia enquanto em sua cabeça via como aconteceria tudo.

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Estalou em seu interior uma tormenta. O impulso de sair das árvores espantava ao homem em que Daniel tinha lutado por converter-se. Bandos de imagens encheram sua mente de todos os motivos pelos que deveria esperar a que esse bode condenasse a si mesmo. As lembranças o atacavam, enviando em cada assalto calafrios por sua coluna vertebral. Rasgado pelas forças que enfureciam em seu interior, o sangue precipitava em pulsações por seu corpo e sua cabeça afundava no caos. Diane se inclinou para recolher outro açafrão. O olhar de Tyndale, que não tinha nada de paternal, percorria seu corpo.

A luxúria desse olhar acendeu relâmpagos na tormenta. Uma decisão que Daniel jamais teria antecipado cristalizou-se no ato. Tinha sofrido o suficiente. Encontraria outro caminho.

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Capítulo 13

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Daniel surgiu entre as árvores. Diane o viu enquanto inclinava para recolher um açafrão de cor púrpura. O som de seu passo chamou bruscamente sua atenção. Endireitou-se no ato. O nome que tinha lhe dado em sua infância acudiu de novo a sua mente. O Diabo. Fazia várias semanas que não o via assim. Tinha, ao parecer, uma expressão amável. Avançou ociosamente. De todos os modos, ela sentia nele uma ameaça, um perigo escondido. Seus olhos continham sem dúvida as luzes que diziam que hoje nada o distrairia. — Está aqui. Temíamos que tivesse se perdido. A condessa está esperando. — O olhar de Daniel não se fixava nela, a não ser em Andrew Tyndale. — Você e eu nunca chegamos a nos conhecer. Sou Daniel Saint John. A senhorita Albert é minha prima. O senhor Tyndale levantou. — Devo pedir desculpas por não havê-la levado de retorno em seguida. Gostou tanto das flores que nos demoramos. — Em realidade sim me perdi, e o senhor Tyndale teve a gentileza de me indicar os atalhos acertados. —A mentira saiu de repente. Por algum motivo, parecia-lhe uma boa idéia contá-la. — É gentil por sua parte tentar esquecer meu imperdoável descuido, senhorita Albert, mas deve dizer a verdade ou seu primo pensará que nossa associação é inapropriada. Estava disparando e errei com uma bala, Saint John. Ao ouvir o grito de uma mulher, fui correndo para investigar. Sua prima não se machucou, por fortuna, mas estava bastante assustada. Pareceu-me apropriado nos deter ao lado deste arroio para que pudesse se recompor. — Agradeço seus cuidados. Ela não podia saber que estes bosques poderiam resultar perigosos. De ter suspeitado que teria a oportunidade de explorá-los eu o teria mencionado. Deveria tê-lo feito como precaução, em qualquer caso, ao me inteirar que passaria um momento aqui com a condessa. —aproximou-se de Diane e limpou o caminho. — Sou grato a você. Madeline Hunter – O Sedutor

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Era uma forma de despedida com educação. O senhor Tyndale deu cortesmente por aludido e se afastou pelo atalho entre as árvores. — Não deve ter nada que ver com esse homem no futuro. Nunca. Daniel lhe deu as costas ao emitir a ordem. — Parece-me muito gentil, e ficou muito afetado pelo acidente com a pistola. Não tinha querido soar tão desafiante. Daniel girou. Quando ela viu sua expressão, sentiu que fazia um nó na garganta. — Não foi nenhum acidente. Viu você caminhar sozinha e disparava em sua direção para ter uma desculpa para conhecê-la. É impossível que alguém que esteja usando a zona do tiro possa atravessar o prado com uma bala. Sua acusação a irritou. Ele estava pondo tão pesado como Vergil com o Penélope, só que Daniel Saint John não tinha nenhum direito de dar essas lições e reprimendas. Não era seu parente, e muito menos seu irmão. Se ele ressentia pela forma em que impugnava ao pobre senhor Tyndale, que se tinha preocupado e aflito tanto por seu engano. — Possivelmente usava outra zona. Uma lebre o distraiu e… — Nem um urso distrairia a esse homem. Tem fama de ser um dos melhores atiradores da Inglaterra. Graças a Deus, dada a armadilha que empregou para te conseguir. — Está delirando como um louco. O senhor Tyndale se comportou em todo momento como um cavalheiro. À margem de que poderia ser meu pai. — Meu deus, que inocente é. Crê que a idade de um homem importa nestes assuntos? — Sim, acredito. Seu comportamento comigo foi impecável. Desfrutei de sua companhia. Acredito que seria um bom amigo para mim. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Quer de ti algo mais que a amizade, acredita-o. Diane começou a rir. — Isso é o que madame Leblanc dizia de você. Quase as mesmas palavras. — E tinha razão, diabos. De repente estava mais perto. Justo diante. Diane teve que inclinar a cabeça para ver o rosto dele. Novas faíscas invadiram seus olhos. As fundas faíscas que tinha visto aquela primeira tarde em Paris quando rompeu a urna. Os olhos de aço que mostrou ao confrontar Vergil no salão da Margot. Tinha ciúmes.

Diane não tinha nenhuma experiência com o ciúmes, mas estava segura de que tratava disso. Uma parte estúpida dela se sentia adulada. Uma parte mais importante ficou furiosa. — Espanta você a todos? Passa todo seu tempo nessas festas e jantares me seguindo a todas as partes, lhes fazendo saber que não tenho um centavo e que sou órfã e não sou digna de sua atenção? — Faço-lhes saber que se não a tratarem dignamente terão que prestar contas comigo. — Mas você conta com que nenhum deles quererá me perseguir dignamente porque careço de fortuna. Não é assim? Não respondeu, mas ela tinha aprendido o suficiente sobre como funcionava o mundo para saber que tinha razão. O absurdo de sua situação golpeou Diane enormemente. Sua cabeça retumbava, indignada. Assinalou seus objetos e soltou uma risada amarga. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Mas você me mimou, Saint John. Estragou-me. Jogue uma olhada à boneca que comprou. Acredita que ficarei sentada na prateleira, me mostrando bonita, para sempre? Quando isto terminar, que eleição ficará? Deveria me contentar agora com um posto de preceptora? Ou sendo a acompanhante de uma dama? Depois de todas estas diversões? Acostumei-me a visitar duquesas. Já que não há uma forma digna de viver esta vida no futuro, acredito que me conviria considerar a alternativa. — O que quer dizer? — Margot já voltou para Londres com o senhor Johnson. Foi um descuido meu não visitála. Diane deu meia volta e logo três complacentes e iracundos passos antes que Daniel a agarrasse por braço. — Nem morta o fará. — Girou violentamente até tê-la em frente. Até tê-la contra si. O abraço a envolveu. Assombrou-a. Colocou um pouco de resistência antes que o calor do corpo de Daniel e a exigência de seus olhos começassem a vencer sua indignação. Diane lutou contra a sedutora intimidade, embora seu coração a desejava. Talvez isso era o que significava sua ameaça de se transformar em uma Margot. Possivelmente, se o fizesse, a solidão e o vazio ficariam obscurecidos durante um tempo. Como Daniel os obscurecia agora.

— Não vais ter nada que ver com Tyndale. —Falava esta vez com suavidade. Seriamente. Soava mais como um aviso que como uma ordem, mas ela ainda guardava o controle suficiente, o domínio suficiente do tempo e o espaço reais, para encher-se de ressentimento. — Ele não pensa em mim assim. Ele é um cavalheiro. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Todos os homens pensam em ti assim. — Não acredito que seja certo. Acredito… O beijo a silenciou. Sua firme exigência provava que ao menos um homem pensava nela assim. Os beijos chegaram lentos e duros e desumanos. Estavam cheios do perigo que sentia quando o viu emergir de entre as árvores e do ciúmes que percebia em suas acusações. Eram os beijos de um homem provocado, saltando as regras e o decoro, reclamando algo que ele não queria em realidade. Ela sabia tudo isso, mas seu coração e sua alma eram incapazes de resistir. O calor a debilitava, como sempre ocorria. O fato de que fosse importante para ele e que fixasse o suficiente para sentir ciumento era algo, pelo menos. Até a libido exigia atenção. Inclusive sua fome básica significava que de algum jeito a queria. A forma em que excitava seu corpo a debilitava ainda mais. As lentas carícias recordavam o gozo físico que era capaz de dar. Sucumbiu ao mundo impreciso. Esqueceu onde estavam e de que deveria detê-lo. Esse odiado vazio encolhia, morria, liberando uma felicidade que ela não merecia. Agarrou a ela, faminta, mas inclusive em seu êxtase sabia que era falsa e que não duraria. A mão de Daniel introduziu sob seu manto. Os beijos queimavam o pescoço, mordendo o pulso. Uma carícia sobre seu peito a fez gemer. Em sua alma sabia que ele não pararia que estava mais afastado do mundo que ela mesma. Seus dedos acariciavam o mamilo, enviando estremecimentos de prazer por todo o corpo. — Não terá nada que ver com nenhum deles — Daniel sussurrou. — Com nenhum deles. Uma pequena rebelião acendeu em sua mente, mas ele a anulou com outro beijo. Seu abraço mais que seduzir dominava. Diane perdeu o controle sobre sua débil resistência enquanto aquele poder a avassalava. Devolveu seus beijos, sem saber por que, simplesmente mostrando seu consentimento sem decidi-lo, porque as reações de seu corpo e seu coração o exigiam. Madeline Hunter – O Sedutor

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O abraço de Daniel errava, acariciava-a com audácia. Diane sucumbia ante essas carícias, inclusive quando o caminho de suas mãos a assustava. Sobre o ventre e o traseiro, baixando até as coxas, oprimia-a e a reclamava inteira. As carícias avançavam, escandalizando-a ainda mais,

entremetendo-se através de seu vestido ao longo da greta de suas nádegas, aventurando-se para o pulso que a estava enlouquecendo, fazendo que o prazer afundasse e palpitasse. Uma voz chamava Daniel, buscando-o. Ela a ouviu, mas ele não percebia. Penetrava no estupor de Diane e voltou a despertá-la. Assustada, retorceu seu corpo para ficar livre. Daniel levantou a cabeça e ficou gelado ao ouvir a voz de Vergil que aproximava pelo atalho. Diane conseguiu apartar-se de um salto. Separada dele, a confusão a alagou. — Disse-me que não o faria. Em Paris, prometeu… — Não prometi nada. De repente Vergil estava ali, na borda da pequena clareira. Olhou-a e a seguir olhou para Daniel. Podia ver que Vergil suspeitava o que acabava de interromper. Não cabia dúvida de que Daniel o via também. Não parecia preocupado, entretanto, como se o ocorrido fora digno do olhar de desaprovação que aparecia sob as pálpebras entrecerrados de seu jovem amigo. Vergil tentou ocultar seu desconforto. — Tyndale nos disse que a tinha encontrado. Que estava bem. Mas Pen gostaria de sair já. Quer chegar à festa antes que o conde. — É obvio. Que mal educado por minha parte fazer esperar à condessa. — Diane não sabia de onde tinha tirado a voz para falar. Conseguiu recompô-lo suficiente para afastar do olhar abrasador de Daniel e aceitar a companhia de Vergil para o carro que os esperava. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Está levando de uma maneira muito cautelosa — dizia Adrian enquanto guiava a Daniel através das ruas. — Se não soubesse do que se trata, não teria nem a menor suspeita do que ocorreu. Os dois homens caminhavam pelas ruas tranqüilas que flanqueavam o rio. Não se achavam em Londres, a não ser ao outro lado da ponte, no Southwark, em um favela de edifícios e armazéns desvencilhados. Tentou se concentrar no que contava Adrian, mas custava muito. Sua mente estava cheia de Diane. Seu corpo e seu coração seguiam junto ao arroio, sucumbindo ao ardente desejo desencadeado por sua decisão a respeito de Tyndale. Tinha sentido vontades de matar Vergil por sua interrupção, mas também o agradecia. De ter estado ali um minuto mais teria jogado Diane sobre o chão e… — Necessitava-me, é obvio, para encontrar este edifício. Nenhum dono de uma propriedade tão insignificante como esta sabe falar sua língua, e ele não sabe a sua. Também pediu que fizesse

desenhos para que construam os cilindros. Suspeito que foi capaz de conseguir as substâncias químicas por sua própria conta, porque não me necessitou para fazê-lo. — Que sorte a dele haver topado contigo — Daniel comentou, obrigando-se a atender ao assunto que traziam entre mãos. Adrian começou a rir. — Tive que me pôr diante de seus narizes três vezes para que me visse. Passa todo o tempo com os olhos no chão, ruminando alguma das grandes pergunta do universo, ou isso diria. Mas nunca pensei que usaria a chantagem para me obrigar a trabalhar para ele. Simplesmente pensei

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que seria mais fácil controlá-lo se trabalhasse para ele. — Parou ante um edifício que era pouco mais que um grande abrigo escondido entre seus mais altos e imponentes vizinhos. — Chegamos. — Poderia dizer que as jóias da coroa estão dentro. — Três grandes fechaduras brilhantes adornavam a porta. — Me ocorreu que o chaveiro podia fazer outras cópias das chaves, mas não quis arriscar que Dupré soubesse. Mas não passa nada. Olhe isto. Daniel estava atento à rua, vigiando, mas ao olhar de esguelha viu como Adrian tirava uma larga gazua metálica de seu casaco e começava a forçar a fechadura. — Onde aprendeu isso? — De um coronel na guarda de nossa embaixada na Turquia. É um talento útil para o secretário de um diplomático. As duas primeiras fechaduras abriram em seguida. Daniel fez gestos com o braço. — Espera. Vem alguém. Adrian deu a volta, cruzando os braços. Daniel inspecionava as sombras ao outro lado da rua onde tinha percebido algum movimento. — Deveria comprovar primeiro. Seria terrível se Dupré tivesse o lugar vigiado. — A menos que tenha encontrado um espião francês, não sei do que outra forma poderia fazê-lo. Mas adiante. Daniel saiu do pátio coberto de escombros que havia diante do edifício e caminhou para as sombras. Assim que deixou ver sua intenção, um homem saiu correndo pela rua. Nos poucos segundos que teve para vê-lo, Daniel precaveu da barba e do cabelo escuro debaixo do chapéu. Voltou junto ao Adrian. — Só era algum pobre diabo, ao melhor tão curioso como ocioso, como é de esperar em uma área como esta. Madeline Hunter – O Sedutor

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Adrian conseguiu forçar a última fechadura. Abriu a porta de um empurrão. O interior do edifício era tão pobre como o exterior. Fazia anos alguém tinha engessado as paredes, mas o tempo havia as tornado cinza e descascadas. Um pouco de luz entrava por uma pequena janela perto do teto, apesar das novas persianas e a fechadura que a cobriam. Contra uma das paredes havia uma mesa coberta por uma série de cilindros metálicos, cada um conectado com arames a um recipiente cheio de líquido. Daniel aproximou para inspecionar os recipientes. Cada um continha um pedaço de metal relativamente grande. — É funcional? — Acredito que sim. Não coloquei a mão para me inteirar. — Deve haver umas cem libras de ferro aqui. — Posto que eu mesmo me encarreguei da compra, posso dizer que são exatamente cem libras. Daniel analisava o extraordinário aparelho. — Deve ter gasto muito dinheiro. — Minhas compras subiram a mais de mil libras. Os produtos químicos devem consumido centenas de libras mais. — Adrian assinalava as barras de ferro. — Como verá, são de diversas formas e tamanhos. Acrescentei essa exigência. Não tinha nem idéia de suas intenções, mas se por acaso tivesse algum plano, pensei que a padronização conviria. — Que preparado — disse Daniel, embora ele tampouco sabia o que pensava fazer, ou se faria algo a respeito. — Não entendo como conseguiu todo este dinheiro. A casa em Paris pertencia a sua família, e não acredito que tivesse nenhuma herança importante. Tem poucos ganhos, à exceção de Madeline Hunter – O Sedutor

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alguns honorários da universidade dali. Digamos que o custo pode ter subido a umas mil e quinhentas libras. Pagou em dinheiro, e tive a impressão de que podia dispor de mais se era necessário. De onde tiraria tanto dinheiro? — disse Adrian. Daniel estudava o experimento. Não, não era um experimento. Era muito grande para sêlo. Muito elaborado. Este era um modelo funcional, para calcular custos e potencial. Tinha confirmado suas suspeitas. Dupré não o tinha feito para outros cientistas, a não ser para impressionar a homens relacionados com o mundo da indústria. Mil e quinhentas libras em efetivo, segundo Adrian. Um custo relevante. Algo que Dupré não podia conseguir sozinho, isso estava claro.

— Quantas chaves encarregou ao chaveiro? — Duas cópias. — Procurou um sócio — disse Daniel. — A questão é, quem?

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Capítulo 14

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“Não ter nada que ver com ele.” Resultou impossível, porque Andrew Tyndale também tinha sido convidado à festa. Por outra parte, não foi um grupo grande o que congregou esse fim de semana na casa de lady Pennell. No máximo seriam trinta pessoas. Como uma das damas mais notáveis que desfrutavam dos círculos mais amplos, lady Pennell tinha convidado a um grupo heterogêneo, que incluía um ator célebre e a um novelista popular, além de membros do Parlamento, um conde, dois barões e um visconde. É obvio, não assistia nenhuma mulher dos círculos mais seletos. Lady Pennell não recebia a aprovação das árbitras da sociedade, embora os maridos destas mostravam muito mais interessados por suas reuniões que por beber ponche em eventos mais decorosos. — Graças a Deus meus irmãos se puseram de acordo para vir — dizia Pen enquanto ela e Diane instalavam em seu quarto. Pen tinha insistido em que compartilhassem, embora a anfitriã tinha preparado um quarto para cada uma. Tinham, além disso, uma pequena sala de estar, assim não lhes faltaria espaço. — Não imaginava que a festa seria tão pequena. Temo que será impossível evitar discretamente ao conde — acrescentou a contra gosto. Diane suspeitava que seria impossível evitar a ninguém. Nem ao conde. Nem ao senhor Tyndale. Nem a Daniel Saint John quando chegasse de noite. “Não ter nada que ver com ele.” Daniel fazia essa advertência a respeito de Andrew Tyndale, mas o coração de Diane fazia o mesma agora com respeito ao próprio Daniel. O abraço e os beijos no bosque a tinham deixado muito perturbada, e não tinha podido deixar de pensar nisso. Tinha a impressão de que o pacto feito em Paris tinha ficado irrevogavelmente quebrado. As implicações a assustavam. Suas reações também. Não só tinha sido a preocupação o que a assaltava desde que sentasse na carruagem de Pen. Um desejo melancólico também a enchia. Reconhecia com tristeza que estava intrigada e excitada pelo Daniel, e não podia o consentir de

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nenhum modo. Apesar da ameaça rebelde que tinha formulado à beira do arroio, se converter em uma Margot suporia uma vida que ela seria incapaz de viver.

Pen dava instruções a uma criada em relação à colocação de seu vestuário. Os objetos de Diane seriam atendidas mais tarde. — Que gentil por parte de lady Pennell ter me convidado — observou Diane. De todos os convites que tinha recebido esse a deixava mais curiosa. — Gostar de estar rodeada de gente interessante. — Eu não sou interessante. — Isso não é certo. Entretanto, confesso que o fato de que eu tenha aceitado teve alguma influência em seu convite, como também a esperança de que animaria seu primo a aceitar também. — Assim Daniel interessa lady Pennell. — Como à maioria das mulheres. Daniel avançou na sociedade não só por sua riqueza e seu estilo, mas também pela fascinação que suscita em mulheres influentes. De fato, acredito que lady Pennell tem certa debilidade por ele nestes momentos. É bonito e cheio de confiança e mistério. Seu porte e sua presença deram lugar a múltiplos especulações ao longo dos anos. — Que tipo de especulações? — Por ser seu primo, as historias a farão rir. Quando chegou aqui faz vários anos, existiam rumores de que tinha feito sua fortuna por pirataria em alto mar. Alguns sussurravam que tinha empregado seus navios em missões especiais para a armada. Outros insistiam em que emigrou da França, da revolução, em sua infância, e que seu sangue é muito mais nobre do que diz. — Pen se pôs a rir e levantou a sobrancelha. Isso quer dizer, certamente, que também seu sangue é nobre. Diane esforçou para rir também. — Se assim fosse eu deveria sabê-lo, não crê? Madeline Hunter – O Sedutor

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— Enfim. Como te dizia, é pura especulação. Em realidade ninguém conhece sua história, assim que inventam as histórias. — Pen dirigiu um olhar interrogativo, animando-a a contar. Diane não estava em condições de satisfazer sua curiosidade a respeito de Daniel, já que ela tampouco sabia nada de sua história. Se o confessava revelaria a mentira de seu parentesco e isso, em definitivo, daria a todo mundo algo sobre o qual especular. Para evitar seguir conversando sobre esse tema, Diane disse a Pen que terminasse de desfazer as malas e passou à pequena sala de estar para aguardar seu turno. Chegou uma criada com uma bandeja de refrescos. Ao colocá-la sobre a mesa, olhou Diane com evidente curiosidade. Começou a sair da quarto, mas logo parou. Fez uma reverência, ruborizando de uma vez. — Minhas desculpas, senhorita Albert, permite-me fazer uma pergunta?

— É obvio. Diga-me. — Sou de Fenwood, e o pároco dali também se chama Albert. É parente dele? Diane olhou atentamente à bela moça, com seu gorro de musselina, sua pele formosa e olhos de um azul brilhante. Sentia-se incapaz de responder, porque seu coração tinha começado a retumbar tão forte e velozmente que doía. — Minhas desculpas — disse a criada. — Foi inapropriado de minha parte perguntar, é só que me parecia curioso, já que você é francesa e tudo isso… — Não tenho consciência de ter parentes nesse povoado que me menciona, mas se houver alguns, eu adoraria sabê-lo. Onde se encontra esse lugar? — Pois está a menos de duas horas de distância de carruagem. O povoado se encontra perto de Brinley. O senhor Paul Albert foi pároco ali sempre, desde antes de meu nascimento. Diane não podia acreditar em sua boa sorte. Se essa criada tivesse sido tão somente um pingo mais tímida… Madeline Hunter – O Sedutor

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— Como você chama? — Mary. — Agradeço-lhe muito, Mary, que me tenha dito isto. De outro modo, é possível que nunca me tivesse informado deste possível parente. — Não acredito. Somos muitos os que provimos da zona e trabalhamos nas casas deste condado. Cedo ou tarde você teria encontrado com algum de nós. — Mary, reside o pároco no povoado agora mesmo? Se eu enviasse uma carta, você acredita que chegaria até ele? — Vive ali. Sempre viveu ali. — Conhecia seus filhos? — Eram mais velhos que eu. Duas moças e um menino, se não me equivocar, mas se foram todos faz muitos anos. Não me lembro se retornaram. Minha família não conhece muito ao pároco, porque somos metodistas. A sala de estar, com seus clássicos móveis de mogno, resultava de repente claustrofóbica. A idéia de estar encarcerada nessa casa em uma festa parecia a Diane uma inconveniência espantosa. A resposta às perguntas que pulsavam insistentemente em sua alma poderia estar aguardando-a a poucas horas dali. — Obrigado, Mary.

Possivelmente pudesse encontrar uma forma de visitar esse povoado que Mary tinha mencionado. Enquanto isso poderia ao menos estabelecer contato com o pároco para ver se sabia algo.

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Enquanto que Pen se ocupava de seu vestuário na quarto do lado, Diane sentou junto a escrivaninha e ficou a compor uma carta. — É como se estivéssemos no Parlamento e convocou uma votação. — dizia Pen. Estava sentada ao lado de Diane no salão, finalizada o jantar. Diane apertava a mão dela com simpatia. Embora a distraíam a imagem de uma carta parcialmente redigida e as lembranças inquietantemente insistentes dos beijos no bosque, não podia desatender o drama social que se estava formando. A festa não se organizou com a intenção de criar uma confrontação entre o conde e a condessa de Glasbury, mas a presença de ambos afetava tudo. A espera mantinha tensos aos convidados. Durante o jantar, as olhadas disparavam para o final da mesa onde ambos estavam sentados, muito perto para poder ignorarem-se mutuamente. Assim que os homens voltaram a unir-se às damas, dois grupos se estabeleceram com grande sutileza. Os convidados anunciavam com sua colocação e sua conversação de que lado estavam. Diane olhava o grupo maior em torno do conde, e advertia a presença de Tyndale a seu lado. Daniel, que tinha chegado pouco antes do jantar, ia e vinha no grupo próximo a Pen. O advogado de Duclairc, o melancólico Julian Hampton, estava perto também, observando tudo, mas participando poucas vezes. O visconde Laclere emprestava seu prestígio, de acordo com sua promessa, mas era Vergil o que se erguia literalmente ao lado de Pen. — Abandonaram-me. Suponho que era o que cabia esperar. — Pen dizia em voz baixa enquanto seu olhar assinalava a Diane as mulheres ao outro lado da sala. Poucas damas se uniram em torno do sofá. A expressão e a postura de Pen diziam que nada estranho ocorria. Diane, não obstante, sentia a humilhação de sua amiga. Via nos olhos de Pen o cumprimento de todo o custo de ter separado de seu marido. Madeline Hunter – O Sedutor

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Pen ficou de repente tensa. O conde de Glasbury, um homem esbelto de média idade, com grossas sobrancelhas e uma boca débil, tinha cruzado o recinto e se dirigia para ela. O círculo de Pen afastou um pouco para deixar lugar ao combate privado. Todo mundo fingia não perceber nada, mas dúzias de olhos se mantinham pendentes da situação. — Ao menos ninguém está lambendo os lábios — sussurrou Pen.

— Que controle tão impressionante. O olhar do conde desceu sobre Pen. Diane acreditou ver nele o tipo de homem que desfruta olhando às pessoas com desdém, tal como fazia agora com sua esposa. — Como vai, carinho? — Vou bastante bem. — Já o vejo. Todo mundo comenta. Converteste na inveja de toda mulher descerebrada, com nada de graça e menos de discrição. Tem sua própria casa e sua própria carruagem. Tem a liberdade de te comportar escandalosamente. Gozas do prazer de cuidar da prima de um comerciante. A Diane não passou desapercebido nem a ênfase nem sua insinuação. Daniel também sentiu, embora estivesse nove metros mais atrás. Suas pálpebras baixaram, mas, além disso, não mostrou nenhuma reação. — A ver… — começou Vergil. — Obrigado, mas eu me encarregarei disto, Vergil. — Pen tinha encolhido enquanto o conde se aproximava, mas agora sua coluna vertebral endireitou. — É ridículo para um desavergonhado libertino impugnar a outro homem desse modo, carinho. — Também perigoso — acrescentou Vergil. O conde a olhou com desdém.

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— O mundo se estragou durante os últimos anos, devido a condessas e duquesas carentes de critério. Como se o dinheiro e uma cara formosa fossem suficientes para convertê-lo a qualquer um em um homem. Pen respondeu com um sorriso. — É melhor ter dinheiro e uma cara formosa que um velho sangue já azedo e degenerado. — Surpreende-me que tenha vindo, se tanto desdenha o círculo de lady Pennell — disse Vergil. — A gente tem a esperança de que suas festas sejam mais agradáveis a partir desta noite. Além disso, vim para poder encontrar com minha esposa. É hora de pôr término a esta separação vergonhosa. — Perdeste então seu tempo. Porque não voltarei contigo. — Se eu dito que sim, não terá eleição. A lei… — Tente fazer algo para coagir à condessa, e a lei será posta a par de todo este assunto. — A ameaça não proveio de Vergil. Julian Hampton aproximou para escutar e agora interrompia em um tom de voz muito baixo. O conde jogou um olhar irado.

— Ela não se atreveria. Hampton percorreu a assembléia com seus olhos, olhando tudo e de uma vez sem olhar nada. — É obvio que se atreveria. E você sabe, porque de outro modo jamais teria acordado os términos da separação que eu negociei. Agora, eu pensava passar estes dias na cidade em vez de me aborrecer em uma festa no campo. Parece-me que esta casa e este grupo são o suficientemente grandes para que você e a condessa não tenham mais necessidade de falar. Assegure-me que assim será, para que amanhã possa me despedir tranqüilamente. Madeline Hunter – O Sedutor

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Afastou-se, para não falar com ninguém. Lívido, o conde também se retirou. — Minhas desculpas por essa forma de insultar, a ti e a seu primo — disse Pen. — Também por essa maneira de falar com tanta liberdade diante de ti. Diane sabia que tinha falado com tanta liberdade porque a considerava muito insignificante para ter que se esforçar em ser discreto. Do mesmo modo que os homens como ele não se precaviam na presença dos criados, tinha atuado como se ela não existisse. Vergil se inclinou para lhe sussurrar algo ao ouvido de Pen. Diane o ouviu de todos os modos. — Onde está seu quarto? — Na asa oeste. Insisti em que Diane o compartilhasse comigo. — Boa garota. Em qualquer caso, irei fazer uma visita. O salão estava ficando vazio no momento em que Vergil aproximou de Daniel. — Hampton e eu vamos jogar às cartas. Por que não se une a nós? — Acredito que não. Não estou acostumado a jogar com os amigos. — Acessa, Saint John. Espera-me uma noite longa e, já que Hampton não fala, será insofrível. Daniel assentiu, a contra gosto. Vergil não podia permitir-se perder nas cartas, o que significava que Daniel teria que deixá-lo ganhar. Não é que isso importasse, mas fazia o jogo mais aborrecido. Junto com Vergil abandonou o salão. Não entraram na biblioteca, como Daniel tinha antecipado. Ao contrário, Vergil o conduziu até a escada. — A câmara de Pen tem uma sala de estar. Não tem sentido obrigar aos criados a tresnoitar para nos atender, e se jogarmos ali não será necessário.

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Enquanto subiam pelas escadas, cruzaram-se com outro homem que baixava. Andrew Tyndale os saudou friamente ao passar. Daniel deteve Vergil. — Por que não convidamos a ele também? Será mais divertido o jogo com quatro. — Melhor não. — Duclairc, vamos jogar às cartas nessa sala de estar para proteger a sua irmã em caso de que chegue o conde esta noite com intenções desonestas. Não é assim? O rosto de Vergil endureceu ao ouvi-lo expressar de maneira tão direta. — Tão melhor se um dos amigos do conde estiver ali sentado conosco. Menos probabilidade de que as coisas descontrolem se suas suspeitas se confirmam. Vergil terminou aceitando a contra gosto. Seguiu ao Tyndale pelas escadas, chamando sua atenção. Daniel observou como o convite se transmitia. Essa noite de cartas poderia resultar, finalmente, interessante. Não gostava de ganhar dos amigos, mas não tinha nenhum escrúpulo quando se tratava de um inimigo. Vergil voltou acompanhado de Tyndale. Hampton os esperava no segundo patamar. Os quatro percorreram esta asa até chegar à sala de estar de Pen. — Agora devem todos me prometer nos deixar dormir e não embebedar-se nem ficar a dar gritos — advertiu Pen enquanto instalavam uma mesa e quatro cadeiras no centro do quarto. Preparando sua chegada, tinha pedido vinho e uísque. Esse “nós” fazia alusão a ela e Diane. Daniel não se deu conta de que ambas compartilhavam o quarto. Supôs que estar em companhia de Diane era outra estratégia da condessa para frustrar qualquer intento por parte do conde de reclamar seus direitos como marido enquanto passavam a noite sob o mesmo teto. Madeline Hunter – O Sedutor

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Também significava que Daniel teria Diane perto essa noite. O quarto não era grande, e sua proximidade aumentou imediatamente a tensão que silenciosamente tinha crescido desde sua chegada à casa. Durante toda a noite, Daniel havia sentido como Diane era consciente de sua presença e do que tinha acontecido, embora se comportasse como se ele não existisse. Seguia ignorando-o agora. Estava sentada diante da escrivaninha, rabiscando algo sobre uma folha, sem mostrar nenhum interesse nos homens que se dispunham a jogar. A condessa permanecia sentada em um banco. Ao parecer, as mulheres os acompanhariam durante um momento antes de se retirarem, para que o encontro tivesse o aspecto de uma pequena festa privada.

Daniel escolheu um lugar do qual podia observar a Diane, embora sabia que isso o distrairia. Não queria que Tyndale estivesse ali. Ver como Tyndale observava Diane o distraiu ainda muito mais. Sua astúcia serviu de bem pouco. Diane terminou sua tarefa e sentou no banco junto à condessa. Assim estava em uma posição ideal para receber os sorrisos de Tyndale e para devolvêlos. Diane também sorria a Vergil e Hampton. A única pessoa a quem não favorecia com sua atenção era ao próprio Daniel. Fez grandes esforços para nem sequer olhar em sua direção, como vinha fazendo toda a noite. Mas não conseguia enganá-lo. A conexão entre ambos era tão intensa que teriam podido estar sozinhos, abraçados. Ao melhor ela não queria que fosse assim, possivelmente até se ressentia por isso, mas não cabia dúvida de que era assim e que isso afetava o ar, o tempo e a luz. — Está jogando mal, Saint John — disse Hampton ao ver como Daniel perdia outras dez libras em benefício de Andrew Tyndale. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Possivelmente não se trate de que ele joga mau, mas sim de que o senhor Tyndale está jogando bem —sugeriu Diane. Tyndale mostrou indecorosamente feliz com a adulação. Daniel apanhou o olhar de Diane. Reteve-a, permitindo uma breve, intensa e vívida lembrança do abraço junto ao arroio, um abraço cheio de suspiros e de entrega, do acontecido e do que quase aconteceu. Diane começou a ruborizar, como se os olhos de Daniel comunicassem a imagem e as sensações. — Por que não aumentamos as apostas? —perguntou Daniel. — Vocês, cavalheiros, deveriam aproveitar-se da estupidez de meu jogo. — De acordo. Para que valha a pena —disse Tyndale. Hampton não opinou, mas olhou para Daniel com olhos cheios de suspeita. — Talvez as damas queiram se retirar. Podemos continuar sozinhos. — Não, por Deus — interveio a condessa. — Não vamos nos retirar justo quando a diversão está a ponto de começar. Além disso, preciso estar aqui para tirar meu irmão a rastros antes que se arruíne. Vergil deixou escapar um suspiro. — Diabos, Pen, eu não sou Dante. — Quanto a Dante, quando o vi pela última vez estava com a senhora Thornton, que parecia arrulhar enquanto folheavam juntos um livro — disse a condessa. — Onde está agora, Vergil?

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— Acredito que se retirou, madame. — O tom do Hampton sugeria que quanto menos perguntasse sobre as circunstâncias e o lugar de retiro de Dante melhor seria. Tinha começado a repartir as cartas. — Cinqüenta libras, cavalheiros? Tyndale e Vergil assentiram. Hampton olhou Daniel para que o passasse. As apostas altas pareciam inquietar Diane, e não porque temesse que seu benfeitor pudesse sair mal parado. Daniel tinha a clara impressão de que se preocupava exclusivamente pelo Tyndale. O comportamento de Diane o provocava. Cada expressão de frieza em seu rosto negava a verdade e rechaçava a forma em que tinham estado totalmente unidos nesses abraços e seguiam estando-o nessa quarto. Pior ainda, apesar da advertência que tinha feito, estava animando conscientemente a Tyndale. Uma irritação nervosa cresceu em sua cabeça. Conseguiu controlá-lo, mas mesmo assim o afetava. Tinha renunciado ao desejo de toda uma vida pela bela mulher que agora se preocupava com quem tinha estado a ponto de assaltá-la. Ele, Daniel, sacrificou-se por ela e por algo que não podia ser, e ela atuava como se ele não significasse nada para ela, embora a verdade era que derretia cada vez que a tocava. Fixou sua atenção em Tyndale. — Por que não cem? — sugeriu. As pálpebras de Tyndale desceram em sinal de consentimento, mas sua resposta se viu interrompida pela porta da sala de estar, que se abria lentamente com um chiado. Um novo visitante deslizou dentro do quarto. O primeiro em aparecer foi seu abdômen. Entrou assim para comprovar que ninguém no corredor advertisse o que fazia. Hampton depositou as cartas sobre a mesa e cruzou os braços sobre seu peito. Vergil parecia o suficientemente zangado para matar, até tal ponto que Daniel o agarrou por braço para controlá-lo. Na expressão de Tyndale apareceu um sorriso divertido. O visitante fechou a porta com enorme e silencioso cuidado. Girou. Madeline Hunter – O Sedutor

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O conde de Glasbury demorou um momento em perceber que não acabava de entrar às escondidas em uma sala vazia, mas sim tinha interrompido uma pequena festa. Ficou imobilizado pela surpresa, sua boca débil aberta pelo assombro. — Queria algo, carinho? — perguntou a condessa. A boca do conde abria e fechava. Todo mundo esperava, deixando que o conde se retorcesse. Até seu amigo Tyndale desfrutou do momento mais desconfortável do amigo.

Foi Hampton quem ofereceu uma saída. — Um criado, sem dúvida, deve tê-lo informado de nosso jogo privado e você queria se unir a nós. — Sim. Isso. — Teve sorte, porque se não tivesse sido certo a intriga do criado, a situação poderia ser mal interpretada e você pagaria muito caro. Um rubor profundo estendeu pelo rosto do conde, mas em seguida compôs e voltou a olhar com desprezo aos reunidos. — A intriga foi errônea. Informaram-me que a mesa incluiria jogadores mais interessantes. — Sempre que houver dinheiro para perder, não nos preocupa qual seja a classe de homem que o perde — disse Daniel. — Não há motivos, portanto, para que não se una a nós. O conde endireitou, indignado pelo insulto. Sua mão procurou o fecho da porta. — Acredito que não. Eu sim me preocupo com a classe de homem com a qual associo. Perdoem a intrusão. — Dorme bem, carinho — disse a condessa docemente ao homem que partia.

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Diane parecia muito preocupada com o errático progresso de Tyndale durante a hora seguinte. Sua cara acendia deleitada quando ganhava e entristecia quando perdia. Isso despertou o diabo em Daniel. Como resposta, prolongou a destruição que tinha toda a intenção de perpetrar. O jogo foi ficando cada vez mais atrevido, e Hampton, que assegurava que a noite terminaria com as fortunas de alguém gravemente diminuídas, decidiu retirar-se, não fora a ser que esse alguém resultasse ser acidentalmente ele mesmo. Depois de perder trezentas libras, Vergil também se retirou. Daniel aproveitou a ocasião para perder mil libras muito rapidamente ante o único rival que ficava. — Sua sorte mudou consideravelmente, Saint John — disse Tyndale enquanto repartia outra vez as cartas. — Entretanto, parece que mais uma vez a maré mudou. — Encontro que minha sorte é sempre errática. Além disso, a condessa é uma grande distração. — É também sua prima — respondeu Tyndale com alegria, ao tempo que lançava um sorriso a Diane. Para Daniel foi como se arrojasse a luva à cara. — Se os distrairmos tanto, é hora de nos retirar.

Ao levantar a condessa, todos se levantaram. — Estão em sua casa, cavalheiros. Agradeço-lhes a companhia. Diane a seguiu até o quarto contíguo. Daniel ouvia os vagos sons ao outro lado da parede, sons que delatavam a duas mulheres se preparando para deitar. Permitiu fantasiar com a imagem

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de Diane despindo-se, lavando-se e sentando-se para que penteassem a longa cabeleira, e perdeu outras duas mil libras até que a fantasia alcançou seu desenlace. Os sons cessaram por fim. Uma criada saiu da quarto e partiu. Daniel imaginou Diane aconchegada sobre seu flanco, com as pálpebras fechadas e seu belo rosto descansando. Apartou a imagem de sua cabeça. Fixou toda sua atenção em Tyndale. — Pomo-nos sérios agora? O que lhe parecem duzentas libras?

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Capítulo 15 — No que anda tão ocupada, Diane? — perguntou Pen. — Uma carta. — Tinha escrito duas a noite anterior sem se sentir satisfeita com nenhuma. A mais larga, que explicava toda sua história, era claramente inadequada. Também o era a que terminou convertendo em uma coleção de petições implorantes. Agora rabiscava rapidamente uma simples solicitude de informação em torno de um tal Jonathan Albert, naval, no caso de soubesse algo dele o pároco de Fenwood. Deu sua direção em Londres e selou a carta antes de poder se preocupar mais. Levou-a para o quarto onde a criada estava terminando de arrumar o cabelo de Pen. — Como posso enviar isto? — perguntou. Pen tomou a carta e a deu à criada. — Entregue-a ao mordomo. Vá agora. Já estou preparada. A criada saiu. Pen esquadrinhou no espelho e beliscou um dos cachos soltos que emolduravam seu rosto. — Que dia tão espantoso me espera. Uma excursão ao mar, nada menos. Fará um frio atroz na costa, por muito que o céu limpe. Os homens saem primeiro, para pescar antes de nossa

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chegada, mas terei que estar ao lado desse durante quase todo o dia e, depois de ontem à noite, dáme mais medo que nunca. Pen referia ao conde, mas suas palavras descreviam também o desconforto da própria Diane. Depois da noite anterior estava ainda mais assustada com Daniel. Ou mais assustada de si mesma. Tinha sido tão terrível como estupendo estar sentada na sala enquanto os homens jogavam às cartas. Apenas fazia caso a Daniel, e não jogava mais que um olhar ocasional, mas as sensações físicas que tinha despertado junto ao arroio retornaram assim que entrou na sala de estar. A mão que sujeitava suas cartas tinha estado acariciando seu corpo e a boca que sorvia seu vinho poderia estar beijando o pescoço e os seios. Ele sabia. Esse único e ardente olhar o dizia. Ele também jogava com ela, mantendo vivos as lembranças e piorando tudo. Ela era incapaz de detê-lo e se sentia muito fraca para se desculpar

com uma dor de cabeça e abandonar a sala como tinha que ter feito. Uma espécie de comichão físico junto à viva conscientiza de sua presença era algo muito delicioso para poder ser rechaçado. A idéia de passar o dia em um estado semelhante a consternava. Precisava estar um tempo separada dele para recompor suas emoções. Tempo para tentar reordenar as coisas. — Não me sinto muito bem, Pen. Acredito que deveria ficar aqui e descansar. Pen abandonou o espelho, preocupada. — O que te passa, carinho? Se te tiver feito mal ao manter desperta quase toda a noite… — Não é nada grave. É só que estou muito cansada. — Talvez deveria ficar aqui contigo, no caso de… — É tão considerada, mas realmente não faz falta. Não estou doente. Acredito que sairei a tomar o ar e logo voltarei para dormir um pouco mais. Madeline Hunter – O Sedutor

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Pen insistiu, mas finalmente negou com a cabeça. — Se ficar, todos dirão que é uma estratégia de minha parte, em resposta ao de ontem à noite. Não, tenho que enfrentar isto. Manterei meu terreno por muito que o dia prometa ser horrível. — Soltou uma risada amarga. — E pensar que não pedi o divórcio para evitar um escândalo para ele. Enfim, o senhor Hampton me advertiu que quem sai perdendo é sempre a mulher.

Andrew Tyndale observava da janela enquanto as carruagens partiam em fila pelo caminho de entrada da casa. Seu olhar fixou sobre tudo em um muito custoso. Quatro cavalos negros o conduziam, muito mais finos que o gado que Andrew mesmo possuía. Doía-lhe que Daniel Saint John pudesse ter esses luxos. Doía-lhe até mais que, desde esse dia, Saint John estivesse em condições de adquirir muitos cavalos mais. Vinte mil libras de cavalos. Como diabos tinha acontecido? Andrew tinha passado toda a madrugada se perguntando. Jamais tinha perdido muito nas mesas de jogo. Desprezava a quem não sabia se retirar a tempo, a quem arriscava muito e em conseqüência se arruinavam. Em realidade nem gostava das cartas. Preferia sempre os jogos em que a sorte não contava. Jogos nos que sabia que ganharia, porque ele mesmo fazia as regras. A culpa tinha sido da moça, decidiu. Sua presença o tinha distraído terrivelmente. Não podia ter mais de dezessete, calculava, mas seu porte e seu ar sugeriam uma sensualidade deliciosa à

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espreita por debaixo de sua recatada inocência. Tinha passado muitíssimo tempo desde que encontrasse a uma assim de refinada, e isso aumentava seu encanto. As moças que a senhora P procurava eram ignorantes e estúpidas novilhas. Gostava muito mais das éguas de raça. Sim, a moça o tinha distraído terrivelmente. Encontrou em um estado de excitação todo o tempo que tinha permanecido nesse quarto. De fato, sentia-se excitado desde que a viu pela primeira vez no baile. De algum modo, a rivalidade tinha tido que ver com ela. Não tinha dado conta no momento, mas ao rememorá-lo… Seus sorrisos quando ele ganhava, sua preocupação quando perdia, a desaprovação de seu primo: todo isso tinha desempenhado seu papel, disso estava seguro agora. Mesmo assim, vinte mil libras? Nenhum rosto bonito podia lhe fazer isso. Tinha estado ganhando em tantas ocasiões durante a noite, ganhando quantidades enormes, que a consciência de quanto finalmente tinha perdido não podia deixar de assombrá-lo. Pior ainda, a dívida com esse cavalheiro tinha testemunhas que ninguém duvidaria. As carruagens diminuíram na distância, dirigindo para a costa. Tinha pedido permissão para se livrar da pesca, alegando uma enfermidade, embora sabia que Saint John daria conta da verdade. Ele não importava nada. Tinha problemas mais importantes que a opinião de um naval. Uma terrível raiva oprimia a cabeça, como tinha passado tantas vezes desde que teve que abandonar a sala de estar da condessa. Voltou a perceber a faísca de triunfo nos olhos de Saint John enquanto Hampton calculava a conta. Um aspecto muito parecido devia ter o diabo depois de ganhar uma alma humana. Só havia uma explicação, certamente. Esse bode de sangue plebeu tinha feito uma armadilha. Como, Andrew não sabia muito bem, mas isso é o que tinha que ter ocorrido. As carruagens desapareceram no horizonte e o caminho de entrada da casa ficou vazio.

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Um movimento abaixo, perto da casa, chamou-lhe a atenção. Uma silhueta esbelta com o cabelo castanho recolhido com um estilo fora de moda entrou agora em seu campo de visão. Enquanto observava Diane Albert, ocorreu uma solução para seu problema. Havia um pouco de justiça nela, e além disso funcionaria. Saint John tinha a arrogância e o orgulho suficientes para assegurá-lo. Em que pese todo seu brilho, a moça não era ninguém. Ao fim e ao cabo tampouco era Saint John. Depois do assunto pessoas importantes estaria de acordo em que Saint John tinha sido um parvo e em que tinha jogado uma má passada a Andrew. Por outra parte, as vinte mil libras teriam perdido toda sua importância. A fim de contas, aos mortos não os deixam recolher dívidas privadas.

Depois de tomar um pouco o ar para esclarecer seus pensamentos, Diane voltou para seu quarto. Seguiu ali até que pôde ouvir como, as mulheres se dispunham a partir para unirem-se com outros convidados na costa. Não voltariam até cair ao noite. Queria dizer que tinha um dia inteiro para ela sozinha. Já tinha decidido como empregá-lo. Enquanto caminhava pelo jardim, tinha efetuado uma dura reflexão sobre sua vida. E não tinha gostado do que via. Tinha reconhecido em seu interior que em que pese a todos seus intentos de tranqüilizar não estava a salvo do interesse de Daniel. Abriu o armário. Ao calçar suas botas curtas, confessou-se a si mesmo que não estava a salvo devido a suas próprias reações. Os beijos de Daniel podiam ser escandalosos, mas era igualmente a forma em que ela os permitia.

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Em definitivo ela já não era a moça que abandonou a madame Leblanc em Rouen. Tinha aprendido algo do mundo nesses últimos meses. Sabia que Daniel tinha tomado alguma decisão a respeito dela junto ao arroio ontem, e que a próxima vez esses beijos não parariam. E haveria uma próxima vez. Não tinha nenhuma dúvida a respeito. Retirou seu manto do armário. Ela teria gostado de ter ali todos os velhos objetos do internato, e não só porque a ajudariam a chamar menos a atenção. Dava-lhe vergonha completar a missão de hoje vestida com a roupa que tinha procurado um homem que não era nem um parente nem um tutor. Todo mundo sabia o que isso estava acostumado a significar. Tinha sido absurdamente ingênuo de sua parte acreditar em Daniel quando este dizia que não era assim em seu caso. Vestida de forma apropriada para a excursão, atravessou a casa silenciosa. Era hora de recordar o motivo principal de sua visita a Inglaterra. Se descobrisse a vida que tinha antes que Daniel Saint John entrasse nela, talvez acharia algo que serviria de âncora e sustento para cortar os vínculos que a uniam a ele. Assim o esperava. Não confiava em poder fazê-lo se não era assim. Só a idéia doía tão profundamente, deixava-a tão desamparada, que ficou sentada no jardim, tentando desalojar a de sua mente. Por fim, ao menos, tinha aceitado o que correspondia fazer. Tinha que abandonar sua casa e a sua irmã e seus presentes e sua generosidade. Tinha que fugir de seu calidez e de seus abraços.

Tinha que abandoná-lo. À medida que avançava, os olhos nublavam e o aborrecido vazio voltava a instalar-se, com toda sua enormidade, seu vazio e seu lastro, em seu coração.

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Uns quantos criados percorriam os corredores da casa e pediu a algum que encontrasse a Mary. A bonita moça foi a vê-la na cozinha. — Como pode chegar a seu povoado? —perguntou Diane. — Pensou em visitá-lo, senhorita? — Algum dia, possivelmente. — Não sei como chegar daqui. Terá que tomar o caminho do oeste para Witham e logo girar para o norte, e depois outra vez ao oeste até o Brinley. — Está a duas horas de distância, disse-me? — Ao melhor um pouco mais. Os caminhos são de terra uma vez que sai de Witham. Não sei a quanta distância está de Londres. Diane abandonou a casa pela porta dos criados ao lado da cozinha. Pareceu adequado sair por ali, como tinha feito nesses primeiros dias em Paris. Hoje não era a boneca do rico Daniel Saint John que embarcava em uma busca. Era a órfã que não possuía nem um centavo, tão escura que ninguém advertiria sua presença.

Duas horas em carreta, havia dito Mary. Uma pessoa viajava mais rápido que uma carreta. Diane dirigia pelo caminho do oeste. Deveria estar em condições de voltar antes que Pen e outros retornassem da costa. Uma hora depois, já sabia por que a gente estava acostumada escolher as lentas carretas em vez da velocidade do pedestre. Pôs as botas curtas, mas a elegância do calçado que vendia nas lojas de Paris fazia muito pouco práticos. As mínimas reveste que protegiam os pés pareciam incapazes de sobreviver um dia de marcha pelos caminhos. Madeline Hunter – O Sedutor

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As coisas pioraram assim que tomou o caminho de terra desde o Witham. Os buracos e as pedras pinçavam a planta de seus pés. Tentava esquecer o desconforto e censurava a si mesmo por ser tão delicada. Era a conseqüência do luxo, como sempre tinha ensinado madame Leblanc. Fazia às pessoas brandas e débeis e propícias ao pecado. Tinha razão. Quanta, quanta razão tinha.

Recordava como madame entoava as classes de ética. Tentava aceitar a dor de seus pés como um castigo por ter desfrutado dos beijos de Daniel. Dizia a si mesma que cada vez que a tocava tinha sido uma falta e um pecado, a amostra de que era um homem indigno de sua confiança. Um sedutor. Um depredador. Um diabo. Seu coração, entretanto, não o aceitava. Não se sentia pecaminosa com respeito a Daniel. Contemplava esta nova verdade quando o som de uma carruagem que aproximava monopolizou toda sua atenção. Separou do caminho para deixá-la passar. Para sua grande surpresa, a carruagem deteve a seu lado. Sentado no assento do condutor, com as rédeas na mão, olhando-a com cara de assombro, estava Andrew Tyndale. — Senhorita Albert, o que faz você aqui? — OH, só estou passeando. E você, o que faz? — Decidi passar o dia visitando um amigo no campo. Mas me permita levá-la primeiro a casa. Temo que você tenha caminhado mais do que crê. — Peço-lhe que não. Você tem coisas que fazer. De maneira nenhuma quero que se atrase. — Será só um breve atraso, e em qualquer caso sem importância. Rogo que me permita ajudá-la. — Nunca seria capaz de me perdoar por uma inconveniência assim. Estarei perfeitamente bem. Sério. Eu gosto dos passeios longos. Eu adoro. Você siga, como tinha planejado, e eu… Madeline Hunter – O Sedutor

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Tyndale desceu da carruagem. — Não posso permitir isso, deixe-me ajudá-la a subir. Era muito. Cada vez que se armava de coragem para conseguir sua meta, algum homem, empenhado em ajudá-la e protegê-la, intrometia no assunto. Fez caso omisso à oferta do senhor Tyndale e se deixou cair em uma pedra grande ao lado do caminho. Apoiou a cabeça entre suas mãos e ficou olhando as pontas de suas maltratadas botas. — Ocorre algo, senhorita Albert? — Tudo me ocorre. — Não compreendo. Levantou a cabeça. Os olhos de Tyndale não eram fundos, insondáveis e perigosos como os de Daniel. Eram transparentes, gentis e transbordavam simpatia. Sua expressão franca a fazia se sentir melhor imediatamente. Não havia mistério nesse homem, nenhuma confusa escuridão, nenhuma distração obsessiva.

Preocupou-se um pouco por ele ontem à noite. Ao vê-lo jogar às cartas com o Daniel tinha parecido que não era rival para o Diabo e condenado a perder. Já que parecia estar de bom humor, era evidente que as coisas não tinham ido tão mal. — Não só estou passeando por prazer — disse, e a confidência saía a fervuras sem nenhuma decisão consciente de sua parte. — Vou a um povoado chamado Fenwood. Inteirei-me que tenho ali um parente, e decidi lhe fazer uma visita. Já estava preparada para ouvir a decorosa sugestão de que deveria haver dito a sua anfitriã ou a Pen para que pedissem um carro para a viagem. Não gostava de ter que explicar a Tyndale que

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não queria que ninguém se inteirasse do que estava fazendo. Teria que fingir que não lhe tinha ocorrido essa idéia por puro descuido. Mas contra o que esperava, a expressão de Tyndale esclareceu, como se sua explicação resultasse perfeitamente sensata. — Esse parente a está esperando? — Não. Decidi ir esta manhã. Não o conheci jamais. Tivemos que nos separar… — Está segura de que a receberá? Não tinha pensado nisso. Era mais que possível que o pároco fosse um parente, mas um parente que não queria ter nada que ver com a filha de Jonathan Albert. Viu a si mesma de pé ante a paróquia com a porta fechando de repente ante seus próprios narizes. — Não se preocupe. O mais provável é que tudo ocorra como você espera. — O senhor Tyndale sorria com tanta amabilidade enquanto a tranqüilizava, que ela não teve mais remédio que sorrir também. — Minha visita pode esperar até manhã — disse ele. — Por que não me deixa levá-la até Brinley? Está perto de Fenwood. Você pode esperar ali, enquanto eu levo uma mensagem de sua parte a seu parente. Se estiver disposto a vê-la, então poderá fazer sua visita. Deste modo tampouco terá que caminhar de volta, e poderemos retornar juntos a casa antes que estejam de volta os outros. Um tom alegre e conspirador aparecia nas últimas palavras. Pensava que Diane estava ocultando esta visita de Daniel porque a separação tinha que ver com ele. A má interpretação do senhor Tyndale lhe convinha, entretanto. Não podia exatamente explicar que não era em realidade a prima de Daniel e que este parente era unicamente dele. Além disso, possivelmente o melhor fosse fazer o que o senhor Tyndale sugeria, assim o vigário poderia estar preparado antes de recebê-la. — Está sendo gentil e generoso, senhor Tyndale. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não, senhorita Albert. Não. Para isso estamos os amigos. — Assinalou para a carruagem. — Vamos? — Eu adoro o mar — dizia Hampton. Eram suas primeiras palavras em uma hora. — É o melhor exemplo do sublime. Em realidade me alegra não ter retornado hoje à cidade. — Eu o odeio — respondeu Daniel. Nunca tinha entendido essa tolice poética em torno do sublime, mas se o mar fosse um exemplo disso, também odiava o sublime. — Um sentimento curioso, Saint John — disse Vergil. — O mar foi à fonte de sua fortuna. A Daniel não importava que tivesse dado uma fortuna. Tinha passado anos balançando-se sobre suas ondas, mas o odiava com intensidade. Odiava sua vastidão e sua volubilidade. Detestava a forma em que fazia que os homens se sentissem tão pequenos e à mercê do destino. Aborrecia a capacidade de seu rítmico fluxo de desvelar à luz do dia verdades inundadas nas profundidades da alma. De todas as coisas inventadas pelos homens para fingir a imposição da vontade humana sobre o mar, a mais idiota pensava Daniel sempre foi à pesca esportiva. Era como em um duelo, só que o rival pertencia à natureza primitiva. Levantou sobre um promontório de rocha entre Vergil e Hampton, cujas largas varas de pescar formavam parte de uma inteira e ridícula formação delas. Junto a outros convidados da festa, enfrentavam suas míseras habilidades à força mais eterna do planeta. Uns quantos peixes tinham chegado a terra, entre aplausos e entusiasmo. Vergil tinha apanhado um peixe grande e formoso. Hampton não o tinha conseguido, mas permanecia tão sumido em sua atitude contemplativa que não manifestou nenhuma sombra de aborrecimento. Só o jovem Dante se mostrava inquieto. Sentou-se junto às pernas de seu irmão, claramente impaciente com o esporte e tampouco impressionado para nada pelo sagrado nem o sublime. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Quando acreditam que chegarão as damas? —perguntou. “Sim, quando diabos chegariam? Quando chegaria ela?” Daniel tinha esforçado em não olhar para o caminho para ver se vinham, mas seus ouvidos esperavam atentos o som das carruagens. — Pensava que estaria satisfeito — murmurou Vergil enquanto lançava um olhar iracundo à cabeça de seu irmão. — Espero que te dê conta de que se algum dia um marido o desafiar a duelo, será um homem morto. — A propósito, possivelmente tenha chegado a hora de que comece a tomar aulas com o cavalheiro —disse Hampton. — Valeria a pena o tempo e o gasto, sobre tudo considerando seu gosto pelos esforços atléticos. Dante levantou o olhar, como se fosse de repente mais um moço que um homem.

— Não crê realmente que me desafiariam, certo? Ao fim e ao cabo, no fundo não importo aos velhos imbecis. — Ver-se convertido em um corno por um moço que não saiu ainda da universidade poderia importar até ao homem mais apático do mundo — observou Vergil. — Como que um moço! Não é muito maior que eu. — O suficientemente maior para saber alguma coisa sobre a discrição. Daniel deixou de atender a sua discussão. Outro som absorveu sua atenção. Aproximavam-se as carruagens. Por fim. Fez um intento de se concentrar em seu fio para não ceder a seu desejo de olhar para o caminho. Só o som permitia calcular a proximidade de Diane enquanto lutava por controlar a espera que surgia em seu interior, quase o enlouquecendo.

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Apertou os dentes e olhou fixamente o mar, mas isso permitiu que as malditas ondas fizessem todo o possível por alagar com lembranças de paixão e prazer. Instintos possessivos acendiam nas ardentes faíscas de desejo que tinham flamejado dentro dele durante as últimas semanas. Fechou os olhos e se obrigou a controlar suas reações. Estava comportando como um moço, mais ainda que o próprio Dante. De modo mais temerário. Nem sabia o que diria assim que voltasse a vê-la. Não estava seguro do que queria dizer. — Olhem. Chegaram às damas. — A voz atravessou a linha de pescadores. Daniel esperou que as carruagens parassem antes de recolher o fio. Os criados começavam a estender os tecidos e as cestas sobre a colina coberta de erva do outro lado do caminho. Via como o conde dirigia um olhar de ódio a uma das carruagens. Daniel seguiu a direção desse olhar e observou como ajudavam a baixar à condessa. Outras duas damas a seguiam. Daniel esperava a que outra cabeça aparecesse pela abertura. Uma cabeça formosa, com olhos melancólicos capazes de fazer que um homem esquecesse de si mesmo. Mas não. O lacaio fechou a porta da carruagem. Daniel jogou uma olhada sobre o grupo, em busca de Diane. Aproximou-se da condessa. Estava junto a três mulheres que conseguiam falar por cima, através e em torno dela. Pedindo permissão como se a tivessem incluído na conversação, separou-se das outras e se reuniu com o Daniel na metade do caminho, com um sorriso de gratidão na cara. — Que gentil por sua parte vir a me salvar, senhor Saint John. — Eu adoraria acompanhá-la, mas me estou perguntando onde está minha prima.

— Ficou em casa para descansar. Foi muito desconsiderado de minha parte desvelá-la tanto com meu bate-papo ontem à noite, e se encontrava muito cansada esta manhã. Confesso-lhe que também me tentava a idéia de oferecer minhas desculpas mas… —Lançou um olhar Madeline Hunter – O Sedutor

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significativo para o conde e logo a suas próprias companheiras da carruagem. — Terá que guardar as aparências e o valor, e todas essas coisas. Daniel teria preferido que a condessa tivesse cedido à inclinação de se esconder. Seu valor significava que Diane tinha ficado sozinha sem acompanhante. Não havia motivos para que a condessa se inquietasse por isso, mas Daniel se inquietou profundamente. Outro convidado à festa não tinha mostrado a mesma coragem que a condessa. Andrew Tyndale desculpou por não ir à excursão. Isso significava que Diane não estava de todo só com os criados nessa casa. — Minhas desculpas, mas resulta que ao final não poderei acompanhá-la. Seu irmão a cuidará, estou seguro. Acredito que devo voltar para a casa, para me assegurar de que minha prima está bem. — Estou convencido de que não lhe acontece nada. Só está cansada. Daniel deu meia volta e caminhou até sua carruagem a grandes pernadas sem esperar a outros. Advertiu como Vergil e Hampton o olhavam partir. O deliberado esforço por interrompê-lo na porta da carruagem e o franzimento de seus cenhos faziam pensar que não conseguia ocultar muito bem sua preocupação. — Volto agora mesmo para a casa, Duclairc. Sua irmã poderá desfrutar de sua companhia nestes momentos. — Volta agora? Por quê? — Minha prima ficou ali. Está doente e deveria estar com ela. — Estou convencido de que se fosse grave Pen… — Irei comprová-lo eu mesmo, em qualquer caso. — Fez gestos ao chofer para que partissem. Vergil apanhou com sua mão o braço de Daniel e se apoiou nele para subir também à carruagem. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Sua irmã requer sua companhia, enquanto que eu não necessito nenhuma ajuda. — De todos os modos… — Me permita voltar em seu lugar — interveio Hampton. — A intrusão repentina de todo este ruído me danificou o dia. Acredito que finalmente voltarei para Londres esta noite, como tinha planejado. Não importará em levar a mim com meu cavalo, verdade Saint John?

Hampton, que estava acostumado a sorrir em muito poucas ocasiões, esboçou agora um sorriso com uma firmeza benigna que dizia que Daniel não voltaria sozinho à casa junto a uma Diane sem companhia. Diabos. Era improvável que Vergil tivesse irradiado suas suspeitas. Hampton devia ter intuído o que havia entre os dois a noite anterior enquanto jogavam às cartas. Quem mais o tinha visto? A condessa? Tyndale? Deveria espancar a ambos pelo insulto de sugerir que ele não era digno de confiança para estar a sós com o Diane. Com a condição, é obvio, de que tinham razão. Entrou na carruagem de um salto. — Vêem se quiser. Importa-me um nada.

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Capítulo 16 Diane esperava com impaciência, ensaiando o que diria ao se encontrar com o pároco. Representava em sua mente visões de uma reunião cheia de lágrimas ou pequenos dramas escritos durante os anos em sua cama no internato.

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Mantinha uma dura luta consigo mesma para deter o avanço dessas idéias. Era possível que o pároco inclusive se negasse a vê-la. Possivelmente não fosse, depois de tudo, nenhum parente. Poderia ser um tão distante que não tivesse nenhum interesse em estabelecer vínculos. Embora se dissesse todo isso, a espera seguia crescendo em Diane. Durante há primeira meia hora depois de que o senhor Tyndale partisse, era capaz de contê-la, mas à medida que o tempo transcorria não deixava de aumentar. Aproximou da janela pela vigésima vez para ver se a carruagem aparecia pelo caminho. Brinley não era um povo grande e essa estalagem era muito pequena. O senhor Tyndale tinha tido a generosidade de pagar uma quarto para que não tivesse que esperar em uma sala comum. Era uma quarto modesta, mas bonita. Cortinas de musselina cobriam tanto a janela como a cama. Alegres travesseiros de cor amarela adornavam a singela colcha azul. Era o tipo de quarto que imaginava que teria quando viajou para Paris com o Daniel. Entretanto, ele a tinha metido em uma vasilha de porcelana azul e branca. Distinguiu ao longe o ruído de uma carruagem. Enquanto ainda era apenas um ponto na lonjura, ela já sabia que se tratava do senhor Tyndale. Seu coração começou a palpitar vertiginosamente. Procurou compor-se, lutou por domar suas esperanças. Mas não podia, e finalmente se levantou de um salto disposta a correr escada abaixo. O senhor Tyndale já estava diante a porta do quarto quando a abriu. — Estava ali? Viu-o? — Estava ali. — O que disse? Aceitou me receber?

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— Sinto muito decepcioná-la, senhorita Albert. Não sabe nada de você e está seguro de que não há vínculos de parentesco. É um velho bastante áspero e não via nenhum sentido em celebrar a reunião que você pretendia. A emoção esfumou como se um punho a tivesse dispersado a golpes. O vazio de seu interior tornou mais profundo que nunca. Ficou tão grande que ela inteira podia caber ali. Aproximou até a janela e olhou para fora, para esconder sua reação. As lágrimas queriam fluir. Retrocediam até seu peito e sua garganta, e ao não poder desafogar-se enchia de tristeza. — Dói-me profundamente que tenha causado tanta infelicidade. Diane sentia o calor sobre seu ombro. A mão de Tyndale descansava ali como uma pequena oferenda de simpatia. O gesto paternal há ajudou um pouco. — A culpa é minha. Devi ter defendido seu caso com maior eloqüência. —Se não há parentesco, não tem sentido que nos encontremos. Agradeço que tenha ido e me tenha economizado a vergonha de me apresentar ante um estranho com quem não tenho nenhum vínculo. Deu meia volta e Tyndale deixou cair sua mão. Parecia tão preocupado que Diane sentia um pouco culpada. — Estarei bem. É simplesmente que tenho tão pouca família que tinha a ilusão descobrir mais alguém. É só isso. — Enfim, você segue tendo a seu primo. — Sim. Meu primo. Salvo que não era seu primo e não estava disposta ao ter mais. Percebeu então quantos planos inconscientes tinha formulado em torno desse velho pároco. Sem reconhecê-lo, tinha contado com o fato de ter um sítio aonde ir assim que abandonasse Daniel. Agora não estava segura de onde iria ou de como viveria.

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— Está muito afligida. Preocupava-me sua reação. Antes de partir encarreguei que nos preparassem uma comida. Tomei-me a liberdade de pedir que a subam aqui para que não tenha que comer abaixo onde as pessoas podem vê-la. — Que generoso é você. Confesso que não estou segura de poder ocultar minhas emoções muito bem e a verdade é que prefiro não estar com outros agora. Ele dedicou um doce sorriso. — Aceitará ao menos minha companhia? Possivelmente encontre melhor se não estiver totalmente sozinha. Um pouco de conversação poderia distraí-la.

— Ai, não referia a você. Foi tão considerado comigo e me ajudou tanto, que… enfim, alegra-me muito sua companhia. Embora em realidade não tenho muita fome. — Tem que comer algo de todos os modos. Seria muito inapropriado se a devolvesse a ponto de deprimir de fome. Nesse momento não tinha nenhuma vontades de voltar, jamais. Teria que fazê-lo, é obvio. Mas antes, entretanto, queria um pouco de tempo para se controlar e calcular o que supunha essa decepção com respeito a seu futuro. O hospedeiro chegou com sua mulher e sua filha, trazendo bandejas de comida. Puseram a mesa pequena ao lado da janela e aproximaram outra cadeira. De acordo com um sutil gesto do senhor Tyndale, antes de sair à mulher desatou as cortinas de musselina da cama para que esta ficasse mais dissimulada. — Cheira muito bem — disse Diane, aproximando-se para inspecionar a comida. Havia ave em um molho, batatas e pão. Uma garrafa de vinho acompanhava o conjunto. — Uma singela comida campestre — opinou o senhor Tyndale. — A prefiro aos pratos exóticos servidos em algumas das festas de Londres. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Eu também. Assinalou para a cadeira para que Diane ficasse cômoda. — Acredito que você é uma das pessoas mais gentis que conheci, senhor Tyndale. Ele lançou um sorriso modesto enquanto servia o vinho. — Qualquer cavalheiro faria o mesmo, senhorita Albert. Agora vamos ver o que podemos fazer para melhorar seus ânimos e para que volte a sorrir. Durante uma hora a manteve distraída com sua conversação. Sua voz e sua consideração atuavam como um bálsamo. A decepção retrocedeu até converter-se em nada mais que um fino véu que tingia seu ânimo. — Senhorita Albert, me perdoe se me meto em seus assuntos, mas os eventos de hoje pareciam afetá-la profundamente. Era importante para você descobrir outra família? É infeliz com sua situação? A pergunta, feita enquanto Diane trespassava o garfo em um pequeno bolo de nata. — Eu não diria que sou infeliz, mas estive pensando que poderia ser uma boa idéia procurar uma mudança em minhas circunstâncias. — Não estava segura de por que o admitia. Simplesmente a confissão saiu de sua boca, produto da familiaridade relaxada que no transcurso do dia foi criando entre os dois. — Acredito que é possível que tenha razão.

— O que quer dizer? Sua expressão adquiriu um aspecto grave e pensativo. — Arrisco a incomodá-la ao dizer o que estou a ponto de dizer, mas como um cavalheiro preocupado por seu bem-estar, não vejo eleição possível. Lamento dizer que a gente esteve falando. — Falando?

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— Não se preocupe. Muito pouco, e tudo é mera especulação. Enfim, com isso da chegada de Saint John saído do um nada, sem nenhuma história, rico como o pecado e provavelmente por causa de atos iníquos. Há rumores que dizem que se fez um lugar literalmente seduzindo nos círculos dos que você agora goza. Agora aparece uma prima, que tampouco tem uma história… a forma em que afugenta aos homens, a forma em que dançou com você nesse baile… o que posso dizer? Há rumores entre as pessoas. O conde de Glasbury tinha insinuado o mesmo, assim Diane não sentia excessivamente surpreendida. De todos os modos, de repente gostava menos do senhor Tyndale. Ele entendeu mal seu silêncio. — Senhorita Albert, peço que me perdoe por perguntar isto, sei que em realidade não me corresponde fazê-lo, mas você é tão inocente e jovem. Sua primo a importunou que alguma forma? Preocupou-me o assunto desde ontem à noite. Enquanto jogávamos às cartas sentia como se você tivesse medo dele, e me parecia que o interesse dele por você não era inteiramente apropriado. — Você se equivoca, o asseguro. Sua expressão clareou no ato. — Que alívio. É o que esperava ouvir. Quando me há dito que pensava que seria uma boa idéia trocar sua situação… — Não quis dizer que precisasse escapar de meu primo — mentiu, incômoda com o caminho pelo que derivava a conversação. O senhor Tyndale poderia ser gentil e paternal, mas não era seu pai. — Referia a coisas mais práticas. Não tenho uma fortuna e tenho pouco futuro nos círculos que estou visitando. Foi divertido como experiência, mas poderia ser bom encontrar um caminho mais factível. Não quero ser um desses parentes pobres sempre dependentes. — É um sentimento admirável. — Tyndale pôs os cotovelos sobre a mesa, juntou as mãos, apoiou nelas o queixo e a olhou muito diretamente. — Quero que saiba, entretanto, que se em algum momento necessita ajuda, ficarei honrado em poder oferecer. Madeline Hunter – O Sedutor

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Era um comentário muito característico do senhor Tyndale. Gentil e solícito. E entretanto… Diane não podia evitar sentir uma pequena pontada de cautela. Seus olhos azuis pareciam tão abertos

e honestos como sempre, incrivelmente preocupados, mas durante o mais breve dos instantes acreditou distinguir neles uma minúscula faísca que a advertia do perigo. — Queria que me considerasse seu amigo — continuou ele. — Reconhecerei, arriscando a que burle de mim, que espero que algum dia me considere algo mais que um amigo. A mesa resultou repentinamente muito pequena e o rosto do senhor Tyndale muito próximo. Uma cara ainda agradável e sincera, mas algumas dessas faíscas apareciam em seus olhos, trocando tudo. O assombro a deixou muda e imóvel. De repente o braço do senhor Tyndale cruzou a mesa e sua mão embalou o queixo dela. — Sei que há uma diferença de idade importante entre nós, mas isso não é algo incomum. Admirei-a desde que nos conhecemos pela primeira vez. Espero que acesse ao menos a considerar meu afeto e que seu primo não ponha objeções se me apresentar como um pretendente. Pretendente! Diane não fez mais que continuar olhando-o, aniquilada. O senhor Tyndale levantou de sua cadeira e se inclinou sobre a mesa. A mente confusa de Diane não conseguia entender por que fazia isso. O gentil, agradável e sincero senhor Tyndale lhe deu um beijo, e ao fazê-lo aproximou seu corpo, abandonando o outro lado da mesa.

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— Não existe prova alguma de que a tenha seguido. — Hampton ofereceu esse consolo enquanto o carro precipitava em torno de uma curva. — Não solicitou sua carruagem até muito tempo depois de que ela partisse e é possível que tenha tomado uma rota totalmente diferente. — Se o fez, saberemos muito em breve e você poderá dizer que sou um imbecil — disse Daniel. Ao chegar de retorno a casa tinham descoberto que tanto Tyndale como Diane estavam ausentes. Tinham demorado um tempo insuportavelmente comprido em localizar a alguém que soubesse para onde se dirigia Diane. Ao final, a governanta tinha recorrido a uma moça chamada Mary, que lhes deu a informação sobre o pároco de Fenwood. Daniel não teve tempo de perguntar o que poderia descobrir Diane do pároco. O cavalariço que preparou a carruagem de Tyndale chegou pouco depois e o convencimento de que Tyndale tinha seguido Diane alojou decididamente na cabeça de Daniel, sem deixar espaço para nada mais. Mantinha fixo o olhar no campo pelo que corriam, procurando algum rastro dela ou de Tyndale. Ou de ambos.

— Você suspeita que isto seja conseqüência de ontem à noite? — perguntou Hampton. — Parece um tipo decente. Todo mundo o diz. Não acredito capaz de vingar-se de você através da garota. Só que não era um tipo decente. Tyndale deleitaria em poder vingar-se assim de alguém, porque tinha uma debilidade por moças inocentes de maneiras refinados, com a pele branca e o cabelo escuro. Sobre tudo adorava que estivessem desamparadas e dependentes dele, e sem nenhum amparo.

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O carro atravessou Witham a toda velocidade e entrou pelo caminho de terra. Teve que reduzir o ritmo a partir de então. O atraso enfureceu Daniel. Hampton parecia incrivelmente acalmado, mas ao fim e ao cabo sempre era assim. A Daniel incomodava que o advogado não apreciasse o perigo que se precipitavam em evitar. — Se estiver tão seguro da decência de Tyndale, não sei por que insistiu você em me acompanhar. — Posto que estamos a ponto de chegar, o direi. —Hampton assinalou tranqüilamente para as pistolas penduradas na parede da carruagem por cima da cabeça de Daniel. — Estou aqui para me assegurar de que não leve uma destas com você quando sair desta carruagem. — Se tivesse a intenção de matar a um homem, seria capaz de fazê-lo tão somente com minhas mãos. — Não me cabe a menor duvida. De fato, suspeito que já o terá feito. Entretanto, hoje não o fará. Chegaram aos subúrbios de Brinley. Daniel ordenou ao chofer que conduzisse devagar. Hampton comprovava um lado do caminho enquanto que Daniel controlava o outro. Perto do limite do povo, Daniel divisou uma pequena estalagem em cujo exterior estava amarrado uma carruagem que ele conhecia muito bem. Saltou da carruagem antes que esta parasse, enquanto Hampton pisava nos talões. Dentro encontrou ao hospedeiro e perguntou pelo dono do carro. — Aqui não está — respondeu o homem dando meia volta. Daniel o agarrou pela parte dianteira de sua camisa e o levantou no ar até que os dedos de seus pés logo que roçavam o chão. — Onde está? Aturdido, o hospedeiro só fez um gesto para cima. — Está sozinho? Madeline Hunter – O Sedutor

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A cabeça que sobressaía da mão que a agarrava indicou que não. Deixou-o cair e avançou para as escadas. Hampton o agarrou pelo braço. — Não faça nada precipitado. Daniel soltou do advogado e subiu os degraus das escadas de três em três. No segundo andar havia só duas habitações. Uma porta aberta revelava que estava vazia. Abriu a outra porta de um empurrão. Uma ira cruel alagou sua mente ao assimilar a cena de sedução. Diane estava sentada, e Tyndale inclinava sobre ela, sujeitando o rosto com as mãos e beijando-a. As costas de Diane estava oprimida contra a cadeira e seus braços se aferravam aos de Tyndale. Resistindo? Abraçando-o? No segundo antes que a porta se chocasse contra a parede, não estava claro. Ao Daniel tampouco importava. Ao vê-lo, Tyndale se afastou da mesa. A expressão de Diane registrava surpresa e logo horror. Deu a volta e cobriu a cara com as mãos. Sem pensar, sem se preocupar com nada, levado por emoções muito negras para considerar o custo, Daniel dirigiu toda sua atenção a Tyndale e deu um passo para o homem a quem pretendia golpear até que o sangue corresse. Uma mão sobre seu braço o reteve. Tentou livrar-se dela, mas se negava a soltá-lo. Girou furiosamente sobre o Hampton, com a intenção de afastá-lo a golpes se fosse necessário. — Não se esqueça de quem é. Está disposto a ir à forca por isso? — disse Hampton em voz baixa. Daniel recuperou um pouco a racionalidade. Tyndale o olhava, aparentemente sem estar preocupado. Diane deixou cair às mãos. Estava ali sentada sem olhar a ninguém, notoriamente Madeline Hunter – O Sedutor

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humilhada. Cada um permanecia em seu sítio em um silêncio que corredor, um tableau vivant (N.T. – quadro vivo) de ruína, compromisso e ira. — Senhorita Albert, rogo que nos deixe um momento a sós, por favor. — Hampton falou com sua voz de advogado. Diane fez uma ameaça de responder, mas deteve. Daniel era incapaz de imaginar o que pensava dizer. Desculparia Tyndale? Ela iria acusá-lo de tê-la enganado? Não importava. A situação falava por si só. Nenhum homem traria uma mulher a um quarto como esse a menos que suas intenções fossem desonestas. Diane abandonou a quarto apressadamente e Hampton fechou a porta. Tyndale caminhou para a mesa, tomou assento e serviu um pouco de vinho.

— Não foi nada mais que um beijo — disse. — Não a incomodou o mais mínimo, assim para que deveria preocupar a você? Daniel teve vontades de estrangulá-lo. Hampton se interpôs entre os dois homens. — Você a comprometeu pelo mero feito de trazê-la a este quarto. É possível que ela não o tenha compreendido, mas não cabe dúvida de que você sim. Agora terá que encontrar uma solução. — Suponho que poderia oferecer alguma soma em compensação, não muito elevada. — Não se trata de uma leiteira, para que tudo possa resolver com um punhado de libras — disse Hampton. — Em realidade sim é assim. — Tyndale sorvia seu vinho com atitude reflexiva. — Ou acaso está sugerindo que devo me casar com ela? Suponho que poderia considerá-lo, sempre que tivesse algum tipo de família ou de fortuna… — Antes morto que permitir semelhante coisa —rugiu Daniel. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não pode pretender que a aceite sem um centavo, Saint John. Estou seguro de que a reputação dela é merecedora de algumas libras. — Você também tem uma reputação — disse Hampton. Tyndale deixou escapar uma risada. — Em que pese a tudo seus objetos de seda, ela não é ninguém. Em que pese a toda sua riqueza, tampouco é ninguém este amigo dele. Parece-me que minha reputação é capaz de sobreviver a este pequeno mal-entendido. — Em que espécie de acerto pensou você? —perguntou Hampton. — Não estou disposto a vê-la atada a ele, e que ele saia ganhando… — Para começar, a dívida de ontem à noite desaparece. Isso e outras vinte mil libras poderiam ser suficientes. — Quarenta mil libras é uma soma considerável —disse Hampton. — Acredito que é um ato de generosidade por minha parte o mero feito de considerar o assunto com seriedade. — Acredito que é um ato de generosidade por minha parte deixá-lo viver — replicou Daniel. Tyndale mordiscava o pedacinho restante do bolo. — É um desafio?

— Não é — disse Hampton com ênfase. — Está zangada, como é de compreender. E você não faz mais que provocá-lo com sua atitude. Não esqueça que sou uma testemunha de tudo, e eu não sou nenhum dom ninguém. Tyndale girou no assento e ficou a inspecionar Daniel.

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— Está extremamente molesto por um simples beijo, Saint John. Você parece tão protetor como se tratasse de sua irmã. O quarto desapareceu. E junto a ela toda possibilidade de qualquer acerto, à exceção de um. Era precisamente a resolução que não desejava com esse homem. Tinha planejado, tinha vivido para ela, e logo, devido a Diane, tinha a descartado. Mas estava ali, apesar de tudo. Às vezes o destino conspira para nos obrigar a fazer o que terá que fazer. — Não haverá nenhum matrimônio, nenhum acerto — disse Daniel enquanto abria a porta. Meu padrinho chamará ao seu amanhã em Londres.

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Capítulo 17 Era como se alguém tivesse morrido. Uma sobriedade silenciosa amortalhava a casa. Diane sabia o motivo pelo qual a atmosfera era tão lúgubre. Seu comportamento tinha manchado não só sua própria reputação, mas também a de Daniel e sua irmã. Toda a casa sofreria por causa de sua estupidez. Havia homens que visitavam Daniel, com a expressão que adota as pessoas nos velórios. O senhor Hampton se apresentou em várias ocasiões depois do dia que Diane e Daniel voltassem para Londres, e os visitou também Vergil Duclairc. Houve outros, homens a quem não conhecia. Por último, ao final da tarde, um homem grisalho de porte nobre foi conduzido ao escritório de Daniel. Diane o viu passar ante a porta da biblioteca, onde ela estava lendo. Saiu ao vestíbulo e olhou a porta do escritório. Daniel tinha passado a maior parte do tempo metido ali desde seu retorno. Não lhe havia dito nada desde que a encontrou na estalagem. Depois da confrontação com o Tyndale, quão único tinha perguntado era se estava ilesa. Suas

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afirmações ao respeito não tinham abrandado sua expressão e não tinha querido escutar suas explicações. Nem sequer tinha sentado junto a ela na carruagem durante a viagem de volta. Subiu junto ao condutor, e ele mesmo levou as rédeas. Tinham retornado em seguida. O senhor Hampton cuidou para que preparassem as malas e fossem levadas a Londres na carruagem da condessa. Aquele homem não permaneceu muito tempo no escritório. Saiu com um ar grave e calado, como o de um personagem em uma tragédia de teatro. A porta do escritório ficou entreaberta depois que partisse o homem. Diane cruzou em frente e olhou para dentro. Daniel estava de pé, como em tantas ocasiões, junto à janela, e olhando para fora. Parecia muito sozinho. Muito isolado. Diane entrou silenciosamente.

— Queria falar com você — disse. — Acredito que deveria voltar para a França. Este escândalo não o afetará tanto se for. — Não será necessário. A falta não foi tua. — A falta sim foi minha. Devia me dar conta. — Há gente mais sábia e mundana que você que não se deu conta. Soava tão distante. A maneira em que seus olhos a evitavam adoecia o coração dela. Tinha acabado toda a familiaridade que pudesse haver entre os dois. Tinha fechado uma porta. Ela era, outra vez, uma responsabilidade, e nada mais. Era o que tinha querido. Tinha decidido que essa amizade e sua intimidade tinham que terminar. Agora, experimentar o toque gelado de sua morte a entristecia mais do que nunca teria podido antecipar. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não era o que parecia — disse, ouvindo como sua voz gaguejava. A verdade não trocaria nada, mas de repente parecia vital que ele soubesse. — Me ajudou no caminho e se aproximou até Fenwood para ver se um pároco estaria disposto a me receber. Não fiz mais que esperar no quarto até sua volta, não para… Daniel girou para ela. — E logo dispôs tudo para que subissem a comida, e comeram juntos, e para sua surpresa descobriu que não te considerava como uma filha ou uma sobrinha. — Sim. — E logo aludiu a seu afeto e amor, e inclusive ao matrimônio. — Sim. Como sabe? — E logo te deu um beijo. E você o permitiu. — Estava assombrada, aturdida. Era tudo tão inesperado… — Não importa. — Sim importa. — Claro que importava. Naquele momento importava mais que algo no mundo. — Não aconteceu nada escandaloso. Você o viu ao entrar. — Não estou muito seguro do que vi o entrar. Não posso saber se Tyndale teria parado depois do beijo se eu não tivesse chegado, não posso saber se teriam podido imputar as piores acusações. Diane não sabia o que dizer. Tinha sido intoleravelmente confiada e estúpida. — Se eu me for daqui, estou convencida de que a ninguém importaria tudo isto. Ninguém saberia nada. — Todo mundo saberá. Estas coisas sempre terminam sabendo. Mas não se preocupe muito por isso. Eu me encarrego de solucioná-lo.

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Disse isto último com firmeza. O silêncio da casa e o retiro de Jeanette a seus aposentos foram à mente de Diane, como também a pequena procissão de graves visitantes. Uma suspeita terrível pinçava em sua mente. — Esse homem que acaba de estar aqui. Não era o cavalheiro Corbet? Nunca tinha vindo antes. Daniel aproximou da escrivaninha. Estava cheio de livros, muitos eram tomos grandes. — É um velho amigo e aceitou me conceder um favor importante. — Que favor? — Diane avançou para o escritório e viu as provas de um homem pondo seus assuntos em ordem. — Deus bendito, o que tem feito? Desafiou ao senhor Tyndale por isso? — É obvio. — É obvio? Mas se nem sequer sou sua prima. Não tem nenhuma responsabilidade sobre mim, e muito menos para um gesto tão perigoso como este. Tinha que ter outra forma de salvar seu orgulho, que não consistisse em tentar matá-lo. — Não havia outra forma que eu encontrasse aceitável. — E o que ocorre se ele mata você? — A idéia provocou um nó no estômago dela. Se ele morre por isso, por tão pouco, ela nunca seria capaz de perdoar-se. A culpa a perseguiria para sempre. Havia resolvido se apartar dele, mas não assim. Não podia suportar a idéia de uma separação tão permanente. O fato de saber que ele existia em algum lugar do mundo o teria feito mais fácil. Agora, em troca, poderia estar a ponto de uma perda que seu coração seria incapaz de suportar. — Não se preocupe. Se eu fracassar, haverá quem cuide de ti. Passei a manhã preparando recursos fiduciários para ti, para o Paul e para alguns outros. Não ficarão desamparados. — Eu não quero seu dinheiro. Não quero que mantenha este desafio. É temerário e é desnecessário. Você não pode saber se eu gostava dos cuidados de Tyndale. Talvez fosse sincero Madeline Hunter – O Sedutor

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quando anunciava suas intenções como pretendente. Talvez eu quisesse esse beijo e a oportunidade de me unir ao segundo filho de um marquês. Daniel, com ar distante, reorganizava o montão de tomos grandes. — Possivelmente seja assim. Ao menos isso parece. Diane esteve a ponto de cuspir sua negação, mas conseguiu tragá-la. Proclamar sua inocência, descrever a repugnância que provocavam os insistentes beijos de Tyndale, não faria mais que jogar lenha ao fogo.

Seu coração romperia só de pensar que Daniel pudesse acreditar que ela desejava essa sedução, mas seu orgulho próprio importava bem pouco agora mesmo. Não podia deixá-lo duelar. Não podia arriscar sua morte. Que se perguntasse, melhor, se estava protegendo a uma mulher indigna de tanto cavalheirismo. Possivelmente o convencesse para que retirasse o desafio. — Isto é não só temerário, mas também hipócrita. Seu próprio comportamento comigo foi imensamente pior que o do senhor Tyndale. — Tenho plena consciência disso. Entretanto, em essência, era muito distinto em um sentido que você não pode entender. — Não vejo nenhuma diferença, com a condição de que as últimas intenções daquele talvez tenham sido honestas. — Estou mais que seguro de que não o eram. E as minhas tampouco. De todos os modos, um de nós pagará por maltratá-la, e talvez por muitas outras razões. — Quando terá lugar o duelo? — Louis tem um encontro com o padrinho de Tyndale nestes mesmos momentos. Suponho que será muito em breve. — Sabe Jeanette o que está planejando fazer? Madeline Hunter – O Sedutor

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— É obvio. O havia dito a sua irmã, mas não à mulher cuja honra defenderia. — Suponho que suplicou que trocasse de opinião. — A diferença de você, Jeanette sabe que não tem sentido tentá-lo. — Talvez seja porque ela não conhece toda a história. Diane deu meia volta, para ir à busca de uma aliada. A voz de Daniel, preguiçosa em sua distração, seguiu-a para a porta. — Em realidade, isso é porque ela sim conhece toda a história. — Deve detê-lo. — Diane estava diante de Jeanette na sala de estar e o disse como uma ordem. — Ninguém pode fazê-lo agora. Jeanette parecia resignada e frágil. A brancura de sua pele mostrava tênues linhas que Diane nunca antes tinha percebido. Diane começou a dar voltas pela sala. Uma mescla de frustração e mortal inquietação pulsavam em sua cabeça. — A reação de Daniel foi muito extrema. Um duelo! Devia existir algum outro modo…

— Existia. O senhor Tyndale aceitou casar-se contigo para arrumá-lo. — Seu irmão preferiria morrer, ou matar, antes que pagar umas quantas libras? — Propôs uma soma extremamente grande e teve a intenção de insultar tanto a ti como a meu irmão. Entretanto, esse não é o motivo pelo que Daniel rechaçou a proposta. — Por que foi então? Jeanette acariciava as bordas de seu xale. — Ele jamais permitiria que sentisse obrigada a casar com um homem para evitar este desafio. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Tinha que ser minha escolha, não dele. — De todos os modos, ele tomou. Além disso, Daniel nunca deixaria que Tyndale a tivesse de nenhuma forma, nem sequer em matrimônio. Sem dúvida o mataria antes de permitir. Diane pôs a mão sobre o ombro de Jeanette e a olhou fixamente aos olhos. — Daniel disse que você conhece toda a história. Há algo mais neste assunto? — Eu direi algo para que não ache que toda a culpa é sua. Paul assinalou que é possível que o senhor Tyndale tenha levado você a essa estalagem com a intenção de provocar um duelo com o Daniel. A noite anterior perdeu uma quantidade importante contra Daniel em um jogo de cartas. Sua obrigação a respeito dessa dívida desapareceria se Daniel morre. — É uma forma radical de resolver uma dívida. — É uma forma muito eficaz. O senhor Hampton, o advogado, expôs esta teoria a Daniel. Meu irmão é obvio a considera irrelevante. Entretanto, explicaria por que o acerto que exigiu Tyndale para casar contigo resultava tão desproporcionalmente alto. Incluía essa dívida, não o entende? Assim que ela tinha sido um peão. A gentileza no caminho tinha que ver, simplesmente, com um homem que aproveitava a ocasião. Era possível inclusive que a tivesse seguido, com a esperança de encontrar uma forma de comprometê-la para que tudo pudesse desenvolver do modo que pretendia. Uma coisa era ser a boneca de Daniel. Ser a muito inocente do senhor Tyndale era outra. Tinha caído na armadilha como a estúpida, ignorante, idiota que era. Pior ainda, Daniel poderia morrer por isso. — Esta teoria só funcionaria se o senhor Tyndale confiasse em ganhar o duelo — disse. — Tem fama de ser um atirador excelente. “Um dos melhores atiradores da Inglaterra.” O havia dito Daniel aquele dia ao lado do arroio. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Temos que detê-lo, Jeanette. — Ninguém é capaz de fazê-lo. Acredite-me. Conheço meu irmão melhor que ninguém. Encontrará Tyndale e seu objetivo será matá-lo. Diane esperou até que o silêncio reinasse na casa antes de levantar da cama. Horas de confusão e culpa a tinham levado a tomar uma decisão. As emoções desses últimos dias a tinham preparado para esta eleição. Ou possivelmente fossem as emoções dos últimos meses. A desolação que sentia ao contemplar a possível morte de Daniel tinha revelado as verdades de seu coração. Tirou do armário uma bata que jamais usou. Um desenho frívolo e pouco prático, de cetim rosa intenso e encaixe cor nata, confeccionado em Paris por um capricho de Jeanette, apesar de que Diane tivesse insistido em que jamais vestiria semelhante peça. Perguntou-se como ficaria sobre sua singela camisola. A imagem que veio à sua cabeça era cômica, ridícula. Pareceria uma menina engalanada com os objetos de sua mãe. Decidiu que aquele não era um momento para andar com pudores, tirou a camisola e colocou o objeto rosado sobre seu corpo nu. Parecia quase um vestido de baile, mas a parte dianteira estava marcada com uma larga fenda e o fluxo sensual abraçava as curvas. O enlace marcava o fundo decote, antecipando o começo de seus seios em um ninho de plumas. Seu estômago fez um nó. Estava a ponto de fazer algo que qualquer um com mínimo de sentido comum tacharia de estupidez, de escandaloso engano. Pior ainda, era possível que fracassasse. Ele havia estado tão indiferente no escritório que ela não confiava que o plano funcionasse. Mas tinha que tentá-lo. Jeanette havia dito que ninguém poderia conseguir que retirasse o desafio. Talvez houvesse uma pequena possibilidade de que não tivesse razão. Armando-se de coragem, abandonou seu quarto para ir negociar com o Diabo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Capítulo 18 Abriu lentamente a porta do quarto de Daniel. A luz entrou em torrentes pela abertura. Os joelhos dela tremiam. Fez uma pausa para tentar se recompor. Esperava que não fosse muito terrível. Ele não era nenhum estranho. As boas intenções de Diane deveriam impedir que resultasse muito lascivo, por muito que outros o vissem de modo distinto. Por muito que ele o visse de outro modo. Abriu a porta um pouco mais e entrou no quarto. A elegância contida da sala a surpreendeu. Os móveis tinham um ar oriental. Admirou os ângulos e o bordado dos postes e o travesseiro da cama, assim como o armário esculpido de pássaros e flores. Junto à cama havia um arca com abundantes gravuras em três cores de madeira.

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Os toques exóticos não sobrecarregavam o quarto. Não era uma espécie de fantasia asiática. Parecia tratar de objetos que tinha adquirido em suas viagens e que simplesmente usava sem nenhuma ostentação. Daniel estava sentado perto da lareira apagada, lendo um livro à luz de um casal de grandes velas. A cadeira estava frente a ela e podia ver a bata japonesa de manga larga que levava bem envolta e atada. Era de cor azul escura com um desenho branco e lhe recordava o quarto onde ela ficava em Paris. A bata só cobria suas pernas nuas até a altura dos joelhos. Um profundo “V” de pele podia vislumbrar por cima do ponto onde as borda da bata cruzavam no peito. Parecia que não levava nada posto por debaixo da bata, de modo que as implicações que Diane fazia resultavam ainda mais evidentes. Tinha imaginado que o encontraria vestido com um casaco e botas, ou já dormido em um quarto escuro. Não sentado ali, com toda essa luz, quase nu. Tinha um aspecto maravilhoso, o de um homem de ação surpreendido enquanto descansa. Apesar de sua postura relaxada, o magnetismo irradiava invisivelmente dele, afetando-a como sempre, incomodando-a e a fazendo sentir mais viva do que o habitual. A luz das velas esculpia seu belo rosto em planos severos nos que seus olhos escuros brilhavam como astros negros.

Não a ouviu entrar. Ela estava de pé diante a porta, tão temerosa e nervosa que teve que se obrigar a falar. — O que está lendo? Daniel logo reagiu, mas ela viu que o tinha surpreendido. — Poesia. Olhou-a.

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A ela sua bata resultou de repente extremamente fina e muito perversa. Parecia cobrir agora muito menos que antes em seu quarto. Daniel a inspecionou larga e lentamente, cheio de interesse masculino. Uma vitalidade tensa e novamente acordada a alcançou através do quarto. — Está muito bela. Não tinha visto seu cabelo solto desde aquele dia no internato. — Assinalou vagamente para a bata. — É deliciosa. — Jeanette a escolheu para mim em Paris. — Ela sugeriu que usasse isso esta noite? — Não. Por que iria fazer isso? Ele sorriu dessa maneira tão peculiar inteiramente sua. — Assim foi sua própria idéia pôr isso, soltar o cabelo e vir aqui. Por quê? O rosto dela ardia. Não tinha preparado para anunciar suas intenções verbalmente. A bata e sua própria presença eram, supunha-se, uma declaração suficiente. — Veio para me tentar, Diane? — Sim. — Se pensa em me enfeitiçar com sua beleza e logo ir, advirto-te que não será assim. — Já sei. Daniel se obrigou a separar dela os olhos e olhar os restos do fogo. — Nem sequer sabe o que está me oferecendo. — Não sou uma ignorante. Sei o que espera de mim. — Não sabe o que eu espero. Volta para seu quarto. Esteve a ponto de obedecê-lo. Em vez de fazê-lo, caminhou para ele. — Não quero que este duelo tenha lugar. Quero que se retire.

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Daniel a olhava, aborrecido. Apesar de sua irritação, Diane o surpreendeu jogando um olhar à fenda da bata por onde suas pernas apareciam com cada passo que dava.

— Se tiver vindo para me ver assim, deve ter muitas vontades de que ele siga vivo. Preferiria a outra solução? Que casasse com você? Ela parou junto às pernas nuas de Daniel, e advertiu que seus olhos escuros continham profundidades perigosas. Esses olhos a tinham assustado durante muitos anos. Agora a encantavam. — O único que me importa é que não haja nenhum duelo. Os olhos de Daniel a percorriam, breve, mas inteiramente. — Não só se trata de ti. — Não, trata de você também e de seu orgulho. — Assim pretende salvar a um homem desonesto me fazendo mais desonesto que ele. — Levantou o livro de seu regaço e voltou a olhá-la. — Permita que eu tenha alguns escrúpulos. Faz o favor de voltar para seu quarto. Era uma despedida, repartida com pouca gentileza. A coragem de Diane cambaleou. Todo seu corpo tremia. A proximidade de Daniel era mais responsável por isso que o rechaço. A vergonha de ser desprezada foi dominada pela desilusão ao comprovar que não a desejava o suficiente. De ter tido mais experiência não teria fracassado. Se fosse mais bela, ou mais mundana, ou mais sedutora, ele não poderia resistir. Devia sair com os restos de seu orgulho, mas era incapaz de fazê-lo. Era possível que nunca mais voltasse a estar tão perto dele. Possivelmente nunca voltasse a ver as sombras que a luz das velas desenhava em seu rosto. Uma vez que se afastou dele, a aura de Daniel nunca voltaria a rodeá-la como agora, obrigando-a a ficar embora ele a repudiasse. Madeline Hunter – O Sedutor

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Voltou uma página. — Agora vá. Quero que vá. Tremente, quase incapaz de manter o equilíbrio, Diane ajoelhou junto às pernas de Daniel e apoiou sobre seus pés. Ele seguia lendo, mas podia vê-la por cima do livro. Diane soltou o primeiro dos botões de pérola de seu peito. Demorou muito porque seus dedos estavam torpes. Não eram só os nervos. O fato de estar a escassos centímetros dele a afetava. Por fim conseguiu desabotoar um. O encaixe da bata abriu um pouco. Avançou rapidamente com o botão seguinte. — Devagar, carinho. A sedução não é algo que deva fazer com pressa. Diane levantou os olhos. O livro estava sobre a mesa, ao lado das velas. O príncipe das tentações a observava. Sua atenção a manteve enfeitiçada.

Os outros botões seguiam cedendo com grande lentidão, já que mal dava conta do que fazia. Ao parecer ele tampouco se inteirava. Olhares conectados eram quão único existia, vinculava-os, criando aceitações e antecipações que jamais deviam reconhecer. Ela sabia que a desejava, era óbvio. Era menos evidente que aceitasse o intercâmbio. Ao chegar ao último botão, à altura da cintura, ele arrancou seu olhar do seu e contemplou seu corpo. O cetim pendurava aberto e mal cobria os mamilos duros que oprimiam o brilho do tecido. Voltou a olhá-lo. Era como se esperasse algo. Tragou saliva e separou ainda mais a bata. O cetim resplandecia contra sua pele. Apartou o tecido para que aparecessem seus seios.

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A sensação de estar ali ajoelhada, expondo sua nudez, enviou uma luz erótica por todo seu corpo. Seus seios cresceram plenos e pesados. Os mamilos endureceram ainda mais, sensíveis agora ao ar, aos olhos de Daniel e inclusive à luz. Tremores de excitação obscureciam sua vergonha. A carícia do cetim sobre a pele convertia em uma breve cascata de sensualidade. A expressão de Daniel endureceu. Sentia que em seu interior uma luta se travava. A tensão carregava o ar entre ambos. — Deveria permitir que despisse completamente, para que não haja nenhum equívoco em relação ao que está acontecendo nem por que. — Não haverá nenhum equívoco. Diane evitou seus olhos, temerosa de ver sua reação, elevou uma mão e olhou assombrada consigo mesma, como a deixava cair sobre a perna nua de Daniel e a subia, acariciando-o, até o joelho. O mundo começou a dar voltas. Em um gesto que a agarrou por surpresa, ele a apertou entre seus braços e apoderou de sua boca com um beijo selvagem. O cetim oferecia pouco amparo ante a cálida aspereza do abraço. A boca de Daniel exigia uma entrega mais completa do que jamais tinham ousado pedir seus anteriores beijos. A rígida crista de sua excitação, pressionada contra as coxas de Diane, era a prova de que era uma sedutora mais hábil do que tinha pensado. Os beijos de Daniel respiravam sua paixão, para que aumentasse ao nível dele. E o conseguiu quando ela começou a responder a suas ardentes e possessivas exigências. O poder das sensações que escorregavam e ferroavam ao longo de seu corpo a assustava. — Disse que fosse embora. Não me diga que não a adverti isso. — Voltou à cabeça. A suavidade de seu cabelo roçou a cara. A boca de Daniel desceu por seu pescoço. Os seios enchiam e

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um formigamento de desejo desenquadrante enchia sua cabeça, fazendo-a ansiar que ele seguisse baixando. Diane arqueou instintivamente para convidá-lo a seguir. Como resposta, Daniel beijou um seio. — Me alegro de que você queira isto, assim não será um sacrifício. — Também quero que ponha fim a esse duelo. —Logo que conseguiu pronunciar as palavras, que recordava que tinha que exigir a promessa. — Crê realmente que poderia ir agora se eu negasse? Soava como uma ameaça, mas Daniel deslizou um polegar contra seu mamilo para demonstrar que não podia ir porque ela mesma não queria. Todo o corpo de Diane flexionava. Seu fôlego acelerou. — Eu te entrego sua vida e você entrega a ti mesma. É uma troca diabólica o que exige Diane, e temo que nós dois cheguemos a lamentá-lo. — Seus olhos escuros penetravam diretamente nos seus. — Agora mesmo, entretanto, importa-me um nada. É tua responsabilidade. Levantou, levando-a em braços. Avançou para a cama e a deixou cair. Agarrou a bata pelos ombros e a atirou para baixo até que caiu ao chão, deixando Diane completamente nua. Enquanto a contemplava, começou a desatar o cinturão de sua própria bata. Ela quase trocou de opinião. Os instantes passavam pulsando, muito agudos e reais. A franqueza sensual do olhar de Daniel fazia inegável o que ia ocorrer. Tombada na cama, nua e vulnerável, sem nada que a cobrisse salvo a potência masculina que fluía desse corpo, sabia que ele tinha razão. Ela não tinha compreendido do tudo o que estava oferecendo. Apartou o olhar quando Daniel deixou cair sua bata. Era um ato covarde e não disse nada, mas segundos depois o quarto ficou às escuras, quando a luz das velas foi apagada. Diane ouvia como aproximava da cama e seu coração palpitava em um bater de asas de pânico. Esteve a ponto de saltar quando sentiu de repente que seu corpo nu esquentava o seu. Seus olhos logo acostumaram à escuridão e aproveitou para olhá-lo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Apoiado sobre um braço, estava observando-a. Na escuridão, a cama era um lugar pequeno e misterioso, cheio de uma intimidade feita de sombras. Não era um sonho, entretanto, embora a noite obscurecesse o mundo. Os sonhos nunca eram tão tangíveis e definidos. Sentia-se mais acordada que nunca antes em sua vida. A vitalidade melancólica que Daniel sempre inspirava nela converteu em uma consciência física. Daniel a agarrou e a estreitou entre seus braços. Acariciou seu corpo como se pudesse ver melhor que ela. Diane devolveu o abraço, sentindo-se torpe e insegura, muito consciente de que a surpresa que sentia ante o tato de sua pele e seus dedos por todo o corpo se refletia em seu fôlego entrecortado. Beijava-a com dureza, como impaciente ante seu medo, e começava a acariciá-la com maior intimidade. O interior das coxas. As turgidezes e a greta de suas nádegas. A liberdade com que dirigia o corpo dela insinuava posse. Seu atrevimento não deixava de assombrá-la, mas isso só aumentava o gozo das novas sensações. Suas próprias reações a surpreendiam ainda mais. Com as gemas dos dedos, Daniel riscou círculos sobre os seios de Diane. Ela já conhecia esse prazer. Já o tinha experimentado e carecia de defesas. Sentia a lenta carícia em seu interior, tão intensos eram os tentadores movimentos da mão de Daniel que provocavam sacudidas na parte inferior de seu corpo. A sensação a enchia por inteiro até que uma profunda e insistente palpitação em sua pélvis a fez tremer profundamente entre as coxas. Ele beijou o outro seio. Sua língua vibrava, esticando-a. Sob os cuidados de sua boca, o mamilo ficou insuportavelmente sensível. A combinação das carícias em um de seus seios e dos dentes e os lábios no outro a faziam tremer. Agarrou-o pelos ombros, tentando manter-se obstinada a ele, controlar seu tremor. Era incapaz. O temor, o assombro e a estranheza de se encontrar ali e fazendo isso dissolveram. A mente de Diane tornou de uma vez imprecisa e nitidamente enfocada. Seu pulso

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acelerava sem cessar, intensificado pelas sensações de sua pele e de todo seu corpo, sensações que começavam a possuí-la. O comichão dos batimentos do coração úmidos entre as pernas resultava cada vez mais incômodo. E o que Daniel fazia só servia para piorá-lo. Os quadris de Diane balançavam para aliviar a estranha fome que alimentavam. Reprimiu, mordendo os lábios, pequenos gemidos de frustração. A mão de Daniel abandonou seus seios e baixou acariciando o ventre. Parou ali enquanto o corpo de Diane subia e baixava involuntariamente, como procurando algo. — Deseja-me — sussurrou Daniel, enquanto pressionava brandamente, adivinhando o desconcerto e a vergonha de Diane. — Mas necessito que me deseje ainda mais. Sua mão a acariciava cada vez mais abaixo, até chegar à umidade que deslizava entre suas coxas. Ao lugar privado que a atormentava. A surpresa voltou a impactá-la, com força. Apertou as coxas, para proteger. — Deixa — ele disse. — É minha esta noite e é o que desejo. E você também o deseja. Apertou ligeiramente a coxa dela obrigando-a a abrir as pernas. Sua carícia a deixou aturdida. Diane o estreitava mais forte contra ela e procurava seus beijos para não ter que gritar. As sensações a dominavam, a enchendo de mais vontades. Tentou controlar o que estava passando, mas não podia. O prazer estava muito concentrado, muito direto, quase doloroso em sua intensidade. A reação de seu corpo a confundia. Os desejos primitivos que despertavam em sua mente a assustavam. Daniel deslocou até ficar em cima dela, uma forte e escura sombra cheia de calor físico, em parte um estranho, mas todo um homem. Continuava tocando-a, nutrindo seu abandono, forçando-a a desejá-lo por muito que o desejo a atemorizasse. — Separa as pernas um pouco mais. Dobra os joelhos. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ela assim fez. As coxas de Diane flanqueavam seus joelhos e seus braços agarravam os ombros dele. Daniel se esfregava contra ela, aliviando em algo o palpitante vazio e sufocando seus desejos. Durante uns poucos maravilhosos e perfeitos segundos Diane conheceu o gozo deslumbrante de tê-lo estreitamente unido a ela, entre seus braços e perto de seu coração. A paixão de Daniel pareceu acalmar um pouco, avassalando-a menos, para que pudesse regozijar-se na intimidade. Não durou. Uma crua dor a rasgou enquanto voltava a pressioná-la. Uma sensação de ser violada anulou de repente toda ternura. Diane apertou os dentes e se apertou violentamente a ele para não gritar. Daniel parou e ficou imóvel. A dor diminuía, mas seguia ali. Diane aceitou seu beijo, mas não conseguia livrar do temor de que acabava de entregar uma parte de si mesmo que jamais poderia recuperar. Embora fugisse até os limites da terra, algo seu pertenceria para sempre a Daniel. Acreditou que tudo tinha acabado, mas estava equivocada. Quando Daniel começou a se mover, Diane compreendeu que a união inicial tinha sido tão somente o começo. O corpo do homem elevava sobre ela, dominando-a, obrigando-a a obedecer cada vez que voltava a entrar nela. Daniel sujeitava com uma mão o marco da cama como forma de apoio e consumou uma rítmica e pendular posse. Significasse o que significasse esse ato, Diane pôde ver que era uma reivindicação primitiva de direitos. Pior ainda, os movimentos exigiam que se rendesse e aceitasse não reclamar os seus. Ele se movia agora com mais dureza, tomando tudo, enchendo de significado cada olhar intenso que tinha arrojado e cada reação incomodada que ela havia sentido. Diane tentava resguardar do poder, da aura que criava e as emoções que evocava. Concentrava na dor para se

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proteger. Mas mesmo assim aquele poder a afetava, maravilhando-a, recordando outra vez essa advertência de que ela não sabia o que oferecia, ou o que devia esperar. A cabeça de Daniel tornava para trás. Um duro e profundo impulso a penetrava. Manteve-se dentro dela, gelado durante um instante. O perigo espreitante que o definia se arrepiou. A tensão endurecia os músculos que Diane apalpava com suas mãos. De repente ambos saíram disparados para o ar. Ele deixou de mover. Baixou o olhar durante muito tempo, sacudido por profundos ofegos. Diane não conseguia ver os olhos dele, e se perguntava se continham uma atenção intensa ou essa frieza distraída que ela tão bem conhecia. Daniel caiu rodando para um lado, separando os dois corpos completamente. Afundou na cama a seu lado. A humilhação deslizava pelo corpo de Diane. Não podia nem levantar a cabeça. Estava além da vergonha. As emoções a haviam espancado. Tudo seguia sendo muito real, mas de uma vez se achava irrevogavelmente trocado. Não experimentava nem arrependimento nem triunfo, só um agudo sentimento do presente. Demoraria em assumir e compreender o que ocorria agora mesmo em seu coração. O silêncio tornou tenso e incômodo. Diane supôs que não falava porque não havia nada que dizer. Ao fim ela sabia de antemão o que ia fazer quando veio. Não pretendia fingir que tinha sido de outro modo, e tampouco esperava que ele o fizesse. Levantou-se da cama, procurando no chão em busca de sua bata. Vestiu-a e lutou torpemente com uns quantos botões ao tempo que se afastava da cama. — Valeu à pena? Girou para a cama. Daniel não tinha trocado de lugar. Ao parecer nem a estava olhando. — Valeu à pena, Diane? Deve importar mais do que eu acreditava, para fazer uma coisa assim. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ele a surpreendia tocando nesse tema. Ao melhor a intimidade física exigia que dissesse algo. — Valeu à pena. Foi um preço pequeno que pagar para salvar ao homem que quero. — Resultou incrivelmente fácil dizer essa palavra, ser honesta a respeito de seus sentimentos, embora soubesse que ele não os compartilhava. O que ocorreu nessa cama a tinha despojado de algo mais que sua roupa e sua inocência. Também a havia desprovido de todos os motivos pelos que as pessoas guardam em seus corações as verdades. — Ele não merecia seu sacrifício. — Ergueu-se sobre um cotovelo para olhá-la. — Não posso deixar que te tenha, embora pense que o quer. E agora menos que nunca. Deve sabê-lo. “Ele?” Caminhou para a porta. — Entendeu-me mau. Eu não tenho feito isto para salvar ao Andrew Tyndale. Daniel observou como a porta fechava atrás da silhueta de cetim rosa, e logo afundou na cama. Voltava a vê-la, ajoelhada ao lado de sua cadeira, tão formosa que seu coração tinha deixado de pulsar. Depois desse primeiro botão, tinha sabido que Diane não daria marcha atrás. Sabia que tinha perdido. E estava contente por isso, e tão faminto por ela que nada mais importava. Nada. Tirou as pernas fora da cama e alcançou a bata. A pôs e foi para a janela. Tinha comprometido todo aquela noite. Ela. Ele. Sua vida inteira. Abriu a janela. Ali fora estava a cidade, silenciosa e dormida. Conhecia perfeitamente a vista desse lugar. Tinha passado muitas noites ali, exercitando sua mente com planos e esperando. Ao lado dessa janela tinha preparado as estratégias para uma pequena guerra, infiltrando o acampamento inimigo, eliminando aos guardas, protegendo as costas enquanto se aproximava cada vez mais à meta. Madeline Hunter – O Sedutor

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E aquela noite a tentação de uma mulher tinha conduzido a uma derrota total sem que ele se desse nem conta. “Valeu à pena.” Tinha-o feito para salvar a um homem. Não ao Tyndale. Devia havê-lo sabido. Talvez soubesse. Mas mesmo assim não teria sido capaz de aceitar sua troca. Não teria podido levar a essa cama para despojá-la de sua virgindade. Para poder fazê-lo tinha que se sentir zangado com ela. E durante todo esse último dia, tinha sido fundamental não aceitar que, se tinha lugar aquele duelo, poderia ser outro em vez de Tyndale que morrera quem necessitasse que o salvassem. “Valeu à pena.” Fixou sua atenção na rua. Uma das luzes tinha um poste mais curto que as demais. Nunca antes o tinha visto. Tinha olhado por esta janela durante anos e anos e em realidade jamais tinha visto esses postes. Seu olhar começou a percorrer a vista, percebendo outras raridades que perdeu. Em um dos telhados divisou um estranho vulto na cornija, e a janela inferior da esquina de outra casa parecia estar cercada. Aquela noite todos esses detalhes surgiam de repente, detalhe durante muito tempo invisíveis, mas que hoje exigiam atenção. Melhor atender a eles que enfrentar questões mais críticas, como a forma em que essa permuta com Diane atava as mãos contra Tyndale. Como a forma em que as velhas lembranças o tinham assaltado enquanto jazia nessa cama a seu lado, o enchendo de asco para si mesmo e de raiva contra ela. Como o fato de que não tinha tratado Diane muito bem aquela noite. Ela tinha estado temerária e atrevida, e ele, por sua parte, faminto e zangado, mas teria podido se comportar com

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ela com mais cuidado. Não teria economizado nem a surpresa nem a dor, mas teria podido ser mais delicado, embora carecesse da força e a honra para rechaçá-la completamente. “Valeu à pena. Foi um preço pequeno que pagar.” Novos detalhes chegavam da luz das luzes. Uma das casas tinha só quatro em vez de cinco degraus no portal. Imaginava a visitantes que não percebiam seu empinamento e que tropeçavam cada vez que chegavam. Percebeu que dois edifícios que sempre tinha suposto idênticos tinham, em realidade, alturas ligeiramente distintas. “Foi um preço pequeno que pagar, para salvar ao homem que quero.” Essas palavras buliam em sua cabeça, resistentes a qualquer tentativa de as ignorar. Olhava atentamente a rua, mas de repente já não via nada ao tempo que as palavras de Diane se repetiam, uma e outra vez, deixando-o imobilizado. O tom de sua voz, a aceitação acalmada e a resignação retumbavam em seus pensamentos, enchendo o peito com uma estranha pesadez. Tinha tido razão em um sentido. O homem que tinha tentado salvar não merecia aquele sacrifício. E tinha sido um sacrifício enorme, entregue de forma inocente a um homem que não chegava nem a valorá-lo. Um homem possuído pelo passado, que alimentava sua ira e seu ódio porque temia que não ficasse nada dentro se eles desapareciam. Um homem que a tinha tentado muito antes que ela o tentasse, e que logo se ressentia por sua forma de empregar sua própria luxúria para frustrar a meta nascida desse ódio. Ela era idiota se importava em algo com um homem assim, e muito mais se o queria. Ardia-lhe a garganta, e voltou a ouvir esse silêncio cruel enquanto jaziam juntos na cama. Voltava a vê-la, afastando-se, orgulhosa apesar de sua desolação. “Foi um preço pequeno que pagar, para salvar ao homem que quero.” Deus.

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Deu as costas à janela e encaminhou para a porta de um quarto que tinha querido visitar muitas vezes nas altas horas da noite. Entrou nele e aproximou da cama. Ela estava deitada de lado, os joelhos encolhidos, vestida com uma camisola branca. Parecia sozinha e desamparada, como se aconchegada sob o lençol para se proteger contra um mundo indiferente. Daniel levantou o lençol e deslizou para seu lado. Ela teve um sobressalto que bastou para demonstrar que se antes estava dormida agora já não o estava. Estavam juntos outra vez, em outra cama e em outro silêncio. Havia muitas coisas que poderia dizer, mas muito poucas que não servissem para aumentar sua dor. Não merecia mais feridas. Era uma prisioneira inocente nessa guerra, não um soldado. — Sinto muito ter feito mal a você, não ter sido mais delicado. — Falava enquanto ela permanecia de costas. Seus ombros encolhiam um pouco. — Parece que não há mais remédio. — Não de tudo, mas… — Não foi completamente horrível. Não se sinta mal. Que característico dela preocupar-se com ele. Quase começou a rir e quase, também, ficou a chorar. — Enfim, alegra-me ouvir que não foi completamente horrível. — Mas se tiver vindo aqui para fazê-lo outra vez, não acredito que goste. — Estou seguro de que não. Não vim por isso. — Por que, então? — Para te dizer que me sinto honrado por te importar tanto, e para ficar aqui durante um momento, se me deixar. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ela ficou rígida. Tão rígida que era como se tivesse deixado de respirar. — Deixa-me? Assentiu com a cabeça. Tocou-lhe o ombro. — Deitará entre meus braços, para que possa abraçá-la? Houve uma pausa, como se desse tempo para refletir. Ela girou e Daniel a estreitou contra si. — Não se preocupe. Irei antes que levantem as criadas. Diane aconchegou a seu lado. Ele a abraçou brandamente, beijando a bochecha. Seus lábios tocavam a umidade. Tinha chorado sem parar desde retornou ao seu quarto. Isso destruiu o coração de Daniel. Apertou-a mais ainda, para protegê-la. Era maravilhoso sustentá-la enquanto dormia. Nunca antes o tinha feito com uma mulher. Jamais tinha compartilhado a cama com suas amantes ocasionais. O calor e a brandura femininos resultaram surpreendentemente agradáveis, e não se sentiu invadido, como sempre tinha imaginado que ocorreria se dormia com uma mulher.

Capítulo 19

Despertou sozinha sentindo o aroma do cacau e lilás. O cacau estava sobre uma mesa próxima, como todos os dias desde que provasse pela primeira vez a taça de Daniel. As lilás tinham sido colocadas junto a seu nariz, agasalhadas em uma greta entre os dois travesseiros.

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Uma criada havia trazido o cacau. Daniel devia ter deixado as flores. Sujeitou-as e as cheirou. Provinham de um arbusto que crescia em um rincão ensolarado do jardim. Imaginou saindo na escuridão para cortar o pequeno ramo. Tinha passado quase toda a noite com ela. Sentia seu abraço cada vez que se movia. Tinha sido maravilhoso ser abraçada assim. O comprido consolo do contato a tinha comovido mais que o acontecido na cama de Daniel. Durante uma noite memorável, esse vazio de seu coração sumiu. Desvanecido. Inclusive dormida assombrou diante sua ausência. Uma criada chegou para ajudá-la a se vestir. Ao terminar, Diane escreveu uma nota apressada à condessa de Glasbury, baixou-a para assegurar-se de que fora enviada imediatamente e saiu em busca de Jeanette. Encontrou-a em sua quarto, na mesma poltrona onde a tinha encontrado no dia anterior. Jeanette tinha um aspecto tão gasto e cansado que Diane se perguntou se teria deitado aquela noite. — Está tendo lugar agora. Agora mesmo — disse Jeanette. — O que está tendo lugar? — O duelo. Esperava-o amanhã, ou passado, mas não tão cedo. — Estou segura de que te equivoca. — Veio o cavalheiro. Daniel partiu com ele. Têm o encontro agora. Sinto-o em minha alma. — Não acredito, Jeanette. Daniel disse que se retiraria. O olhar de Jeanette desviou violentamente. Examinou-a do mesmo modo que aquele primeiro dia no quarto de princesa de Paris. — Quando disse isso? Diane ruborizou. — Ontem à noite. Prometeu-me isso. — Ontem à noite? Diga-me, onde fez esta promessa? Quando? Madeline Hunter – O Sedutor

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O rosto de Diane ardia. Chamas de compreensão e fúria vibravam nos olhos de Jeanette. — Enquanto faziam amor? Não ponha essa cara de surpresa. Sempre soube do interesse que tinha por você. Vi desde o começo. — Movia a cabeça e jogava maldições em voz baixa. — Um homem é capaz de dizer algo nesses instantes, Diane. Pior ainda, falará a sério nesse momento. E logo na luz da manhã cheio de arrependimento trocará de opinião. — Daniel não faltará a sua palavra. — Há promessas mais antigas que tem a obrigação de respeitar. Meu irmão jamais permitiu que nenhuma mulher interferisse com o que jurou fazer. Não se retira diante nada. Se a seduziu com essa promessa, foi desprezível de sua parte, e assim o direi assim que volte. — A aspereza de sua expressão quebrou. — Se voltar. — Não me seduziu ele. Tampouco se baterá nesse duelo. — Disse com toda a firmeza que podia, para tranqüilizar a mulher que tinha diante, que parecia já estar de luto. Jeanette estendeu a mão, em busca de consolo. Diane tomou e rodeou os ombros de Jeanette com o outro braço. — Ontem à noite foi a primeira vez? — Sim. — Prometeu-me que não te perseguiria. Em antecipação do duelo deve ter aproveitado a oportunidade de viver. Estou segura de que não teria tratado tão desonestamente em outras circunstâncias. Diane não estava tão convencida. Sua forma de beijá-la junto ao arroio sugeria que ele não estava disposto a respeitar a palavra dada a sua irmã. — Devemos decidir o que fazer agora — disse Jeanette depois de respirar profundamente, para compor. — Direi a Daniel que deve destinar algum dinheiro para ti. O suficiente para que possa te casar. Tem que haver homens dispostos a tomar como esposa se possui algum dinheiro. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não quero me casar com nenhum desses possíveis pretendentes. Jeanette acariciou a mão. — Agora mesmo é possível que não. Mas considera-o atentamente. Verá como tenho razão. — Em qualquer caso, depois do que me passou com o senhor Tyndale, não me parece muito provável que volte a ter pretendentes. — Se houver dinheiro suficiente, sempre os haverá. Confia no que te digo. — Se houver dinheiro suficiente, o senhor Tyndale me aceitaria. Eu não gosto da idéia de ser trocada como um objeto usado. Os olhos de Jeanette encheram de tristeza e compaixão. — Não faça ilusões em relação à possibilidade de um futuro com meu irmão. Há muito pouco espaço em seu coração e em sua vida para a classe de afeto que uma mulher espera. É um homem fechado a esse tipo de emoções. Sabe, entende-me? Ele o escolheu, porque qualquer outra coisa terminaria debilitando-o. Diane sabia que não havia espaço em sua vida para ela. Daniel era muito mais complicado, entretanto, pelo que Jeanette pensava. Não era o homem frio e fechado que descrevia. Um homem assim não teria ido a consolar e abraçá-la durante toda a noite. Diane havia sentido uma paz formosa e cheia de confiança nesse abraço enquanto dormia. Deu lugar a uma intimidade especial, distinta, mas de uma vez vinculada às intimidades físicas que tinham compartilhado na cama de Daniel. Ela queria reter esse resplendor tão especial. Queria que enchesse o vazio durante todo o tempo que sua memória permitisse. Nas profundidades de sua alma, não obstante, sabia que poderia manter vivo só se não procurava mais. Não queria se arriscar a descobrir que só o tinha motivado a piedade ou a culpa, e não o afeto.

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Estava empenhada em não se expor à possibilidade de que voltassem a fazer amor. Não seria capaz de suportar que o fizessem e logo, em vez dessa cálida intimidade, voltasse a experimentar um vazio e vergonhoso silêncio. — Já decidi o que fazer Jeanette. Acredito que deveria abandonar esta casa. Não haverá nenhum duelo, mas haverá rumores. Não quero seguir vivendo esta mentira de que somos primos. Não quero assistir a festas onde todo mundo conte intrigas sobre o que aconteceu com senhor Tyndale ou se pergunte a respeito do que pode haver entre Daniel e eu. — Aonde irá? — Pedirei à condessa que me permita alojar com ela enquanto arrumo as coisas. Pedirei que ela fique em contato com algumas de suas amigas do campo e que me dê uma referência como preceptora. Ou talvez haja um colégio onde possa dar aulas, longe de Londres. Se desaparecer antes que o escândalo comece, possivelmente não chegue a haver nenhum escândalo. Esquecerão em seguida. Jeanette assentiu. — Tenho um pouco de dinheiro. Direi ao Daniel que envie mais. — Não posso receber seu dinheiro neste momento, sob nenhum conceito. — Virá me visitar? Enquanto que esteja aqui, antes de meu retorno a Paris? — É obvio. — Diane inclinou para abraçá-la. Jeanette deu um beijo na bochecha. — Se não voltar, possivelmente poderia retornar comigo a Paris. Prometa-me que o terá em conta. — Voltará hoje, já verá. Não saiu para duelar. Chegou uma resposta da condessa, convidando Diane a que se unisse com ela em uma visita Laclere Park, a casa da família no campo. Penélope explicava que seria impossível se esconder

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em Londres, e o propunha como uma solução melhor, acrescentando que ela também sentia necessidade de se esconder. Diane subiu a seu quarto para fazer as malas. Custava-lhe mais do que tinha previsto e pediu à criada que a deixasse sozinha para que não percebesse suas reações. Durante todo o tempo esperava os sons da volta de Daniel. O que encontraria refletido em seus olhos quando voltassem a se confrontar? Suspeitava que pudesse resultar bastante incômodo. Como reagiria ele ao inteirar-se de sua partida? Surpreender-se-ia? Compreendê-la-ia? Sentiria alívio? Entenderia, sabia, que se ela ficasse sempre dependente dele, tudo terminaria mal. Todas as lilás do mundo, e todo o amor que ela guardava em seu coração, não fariam as coisas diferentes. Sua confiança na promessa de Daniel cambaleava à medida que as horas passavam. Ao abandonar seu quarto e baixar à biblioteca feito já muito precária. Abriu uma janela para ver a rua e ficou a esperar e escutar com tanta atenção que começou a doer a cabeça. Sua preocupação aumentava com o transcorrer do tempo, enchendo de angústia e mal-estar seu coração. Pela rua passavam carruagens e cavalos, e ela os ouvia todos. Finalmente, quando estava a ponto de renunciar à espera, quando já tinha começado a chorá-lo, um cavalo parou diante da casa. Identificou os sons do cavalariço enquanto conduzia o cavalo aos estábulos. Diane levantou de um salto e correu com o passar do corredor até chegar à entrada. Era Daniel. É obvio que era ele. Quem ia ser se não? Seu coração respondeu a essa pergunta. Tinha temido que fosse o cavalheiro, trazendo más notícias.

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— Suba para ver sua irmã — ela disse. — Está doente de preocupação por ti. Sobe agora. Estarei na biblioteca. Subiu as escadas. Diane esperou a que desaparecessem por completo suas botas antes de dirigir para a biblioteca. Em sua mente voltou a ver seu olhar um momento antes. As lembranças da noite seguiam em seus olhos, mas junto à outra coisa. Tinha reconhecido um toque da antiga distração. Por isso resultou mais difícil olhá-lo quando entrou finalmente na biblioteca. Chegou silenciosamente e fechou a porta. Já não havia nada daquele ar distraído. Os olhos ardiam com essa atenção total que era capaz de convocar. Sua boca formava uma linha dura. — Jeanette está mais tranqüila? — perguntou ela. —Sim. Louis e eu nos encontramos com o Tyndale e seu padrinho. Foi resolvido com honra. — Retirou-te? — Disse que o faria. — Não duvidava de que cumpriria sua palavra. — Claro que o duvidava. A inquietação deveu ver refletida em seu rosto enquanto corria a seu encontro. — Jeanette estará muito aliviada, certamente. — Não acredito que essa seja sua reação, não. Está mas bem assombrada. Faz muito tempo que não fui capaz de surpreendê-la, assim há um pouco de satisfação nisso. Era a única satisfação. Não tinha gostado de fazê-lo. Tinha ferido seu orgulho retirar-se e parecer um covarde. Estava ressentido porque o tivesse obrigado a fazê-lo. — Obrigado. Recebeu um olhar sombrio como resposta. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Minha irmã me disse que vais visitar a condessa. — Pensei que seria o melhor para… — De onde diabo tirou a idéia de que a deixaria ir agora? Falava como se a idéia lhe parecesse mais curiosa que outra coisa. Não podia ignorar, entretanto, a ira acumulada que saía a fervuras como tinha ocorrido esse dia junto ao arroio. Conteve-a, mas a mesma contenção só intensificava seu efeito no ambiente e nela. Caminhou para ela. — Acabo de ir a um homem a quem aborreço e me neguei a matá-lo porque você me exigiu isso, e enquanto isso estava fazendo as malas. — Não posso ficar aqui agora. Sabe. — Não vejo por que não. — Aproximou-se dela. — De fato, é imprescindível que fique agora. — Sabe por que não posso. Não estaria bem. — Ontem à noite esteve bem? Ele estava a confundindo, aproximando-se dela dessa maneira. Perturbando a cabeça dela. — Isso era diferente. — Possivelmente pense que ontem à noite esteve bem porque te entregou por uma causa nobre. Para salvar uma vida. Bem, se for esse tipo de sacrifício, deve ficar. Convença a si mesma de que esta vez o faz para salvar minha alma. Isso levará uma vida inteira de sacrifício. Falou com ironia, mas a calidez em seus olhos e uma suave ressonância na voz contradiziam a forçada ligeireza. Diane o olhava incapaz de conceber uma resposta para semelhante desafio. Ocorreu que possivelmente fosse assim como o diabo seduzia aos seres humanos. Quão eficaz seria empregar as próprias inclinações da gente para conduzi-la para o inferno.

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—Em que momento chegou a esta decisão de ir? —perguntou ele. — Ontem à noite? Vir a meu quarto foi o último ato de amizade? Incomodava-a mais que nunca antes, olhando-a assim, exigindo sua atenção. A Diane custava ordenar suas idéias. Suas referências da noite anterior só conseguiam que tremesse o coração. — Foi antes — respondeu. — Depois do arroio e o jogo de cartas. — Porque percebeu quanto a desejava e isso te deu medo? Diane evitou seu olhar e afastou dele uns passos. Não gostava dessa conversação nem a forma em que ele insistia em arremeter contra seus motivos e sua resolução. — Não pode ter dado tanto medo se veio me ver ontem à noite. — Ontem à noite tinha um motivo concreto. Eu não penso ser sua Margot. Não posso. Aprendi-o ontem à noite, embora fosse quão único aprendi. Acredito que estas coisas são distintas para as mulheres que para os homens. Mas agora tomei minha decisão e deveria ter a gentileza suficiente para aceitá-la. Sentia-o detrás dela, muito próximo. Logo as mãos de Daniel estavam sobre seus braços, o fôlego em seu cabelo. Um beijo breve e ligeiro na nuca enviou raios de vivazes sensações por todo seu corpo. — Não tenho a gentileza de aceitar isso. Não é tão fácil que renuncie ao que quero. Tampouco estou pedindo que vivas aqui como minha amante, Diane. Ela se libertou do abraço e o confrontou. — Ah, não? Então não quer… É obvio, ao melhor não foi precisamente como esperava… Quer que fique aqui como antes, só como a companheira de Jeanette. Essa resposta agitada fez graça. — Jamais poderá voltar a ser só a companheira de Jeanette. Nunca. Tenho a intenção de voltar a fazer amor e decididamente essa é uma razão pela que não posso soltá-la. Já que não sou Madeline Hunter – O Sedutor

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um homem que está acostumado a importunar a suas convidadas ou corromper a inocentes, só há uma maneira de resolver as coisas. Casaremo-nos. A resolução a deixou muda. — É a única solução, Diane. — Não o é. Ambos sabemos que não o é. — É certo. Poderia conseguir que Hampton trocasse o fundo fiduciário para que tivesse os ganhos a partir de agora. É o que Jeanette acaba de exigir. — Não poderia aceitá-lo nestes momentos. — Porque resulta que sigo inconvenientemente vivo? Que má fortuna a tua que não me tenham matado hoje em um duelo, então. Seu futuro teria sido tão cômodo como seguro. Deveria ter dado mais importância a seus próprios interesses ontem à noite. — Deixa de distorcer o que digo. Eu não… — Não tenho nenhuma intenção de arrumar nada para ti, apesar da insistência de minha irmã. Não vou facilitar sua saída. Casaremo-nos. Diane adivinhou o motivo dessa decisão tão contundente. Era a mesma culpa que provavelmente o tinha levado a seu quarto ontem à noite. Teria preferido não ver nenhuma prova dela. — Já vejo. Decidiste fazer o correto. Entendo. Entretanto, não é necessário. Eu não esperava… — Não esperava nada. Sei. Isso não fala muito bem da opinião que tem de mim. Uma jovem tem direito a esperar algo do homem que a despoja de sua inocência. — A culpa não foi tua. — Rechacei ofertas mais descaradas no passado. Um matrimônio de conveniência era quão último Diane queria de um homem, e especialmente desse homem. Madeline Hunter – O Sedutor

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— É gentil por sua parte. Muito decente. Entretanto não acredito que devamos fazê-lo. No fundo não é o que quer e não estou do todo segura de querê-lo eu tampouco. — Diane, há muitas razões pelas que isto pode ser um engano, e a maioria têm que ver com minha personalidade. Mas deve fazê-lo, embora não esteja completamente segura. Silenciará os rumores a respeito de Tyndale, e a nosso respeito. — Minha ausência teria o mesmo efeito. Meu desaparecimento. — Já disse que não posso deixá-la partir. Incomodava a forma em que ele repetia como se tivesse tudo controlado respeito a esse assunto. — Eu já disse isto. A decisão é minha. Não necessito seu dinheiro para isso, assim não pode me deter se decido fazê-lo. — É verdade. Quão único está em minha mão é fazer todo o possível para me assegurar que não queira ir. — Pôs a mão sobre a bochecha de Diane e a olhou nos olhos. — Devo mostrar de que modo posso quebrar seu empenho? O contato de Daniel foi suficiente para demonstrar isso. O calor desceu fluindo desde seu pescoço até seus seios, e os olhos de Daniel detinham o tempo. Diane percebeu que ele sempre tinha sabido o efeito que tinha sobre ela. Sua indiferença a tinha protegido, funcionando como um escudo que levava por ela, porque sabia que Diane tinha sido do começo uma presa fácil. — Tem receios pelo de ontem à noite? A primeira vez não está acostumada ser agradável para uma mulher. Mas será distinto no futuro. Diane sentia como a cor subia por sua bochecha sob a palma de Daniel. Baixou o olhar e encolheu os ombros. Sim tinha receios pelo de ontem à noite, mas não nesse sentido. A dor tinha sido a parte mais singela. — Não foi tão desagradável. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Isso disse. Não foi completamente horrível. Prometo que não será nem minimamente horrível a próxima vez. — Levantou o queixo dela com o dedo para poder olhá-la. — Aceita meu pedido, Diane? Sua forma de olhá-la, tão bela e prometedora em sua calidez, encantadora em seu poder escuro, a tentava para arrojar a cautela aos ventos. Seu coração queria aceitar. Seu amor desejava a euforia. Os dois ansiavam sentir-se avassalados pelo Daniel e pelo feitiço mágico e vivificador que construía naquele momento. Mas seu sentido comum não permitia uma capitulação total. Sussurrava que ela não sabia em realidade o que receberia de Daniel. As advertências de Jeanette ressonavam em seus ouvidos.

Perdia pé ao tratar com esse homem. Tinha capas ocultas que ela não conhecia e talvez nunca conhecesse. — Equivoca-te completamente a respeito de algo — ele disse. — Não só estou fazendo o correto. É o que quero fazer. Tenho a esperança de que disse a verdade ontem à noite, e que você também o queira. Falava com aspereza, como se custasse enunciar essas palavras. Soava como se não o agradasse de tudo fazer essa declaração, como se a tivesse arrancado do coração. Daniel inclinou a cabeça para beijá-la. Foi o beijo mais suave que havia dado nela. Oferecia cuidado e amparo e sugeria emoções futuras. Prometia, se não amor, pelo menos afeição. Encheu o coração de Diane do mesmo modo que o comprido abraço da noite anterior. Nada podia tranqüilizá-la mais. Às escuras e insondáveis profundidades deixavam de repente de importar. Tampouco importava o perigo que tinha intuído enquanto faziam amor. Qualquer que fosse o desenlace daquilo, nesse momento sabia que suas intenções eram nobres. — Aceita?

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Face à sensação de estar tomando um passo arriscado, assentiu. Na nuvem que Daniel tinha formado em torno dele, parecia a única resposta possível. Daniel sorria como se a decisão tivesse sido importante. — O direi a minha irmã — disse, dando um passo atrás. — Iremos para Escócia, se te parecer bem. O matrimônio será legal e nossas histórias ambíguas não serão um estorvo. Eu gostaria que ela e Paul nos acompanhassem e fossem as testemunhas. Parece-te bem? — É obvio. Não obstante, posto que apenas perguntasse se o matrimônio me parecia bem, esta nova atitude tão solícita me resulta deliciosamente surpreendente. As palavras chegaram enquanto ele caminhava para a porta. Voltou-se para olhá-la. — Lamento dizer que é pouco provável que dure. Acabava de receber uma boa advertência e sabia. — Estou segura de que não durará. A gente não troca tão de repente. — Não, suponho que não.

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Paul levava Jeanette em braços à capela da pequena aldeia perto de Dunbar. Às claras fragrâncias da primavera sopravam pelas janelas e o pároco esperava ao final da nave. Diane lançou um olhar para o Daniel. Parecia bastante tranqüilo. Uma vez decidido, simplesmente se tratava de algo que terei que levar a um feliz término. Não tinha demonstrado muita ansiedade durante os três dias de viagem. Na hora das comidas, nas estalagens do caminho, sua atitude tinha sido extraordinariamente relaxada, até alegre. A de Paul também. Tinham sido Jeanette e Diane quem permanecia em um tenso silêncio. Ambas tinham viajado na mesma carruagem, acompanhadas pela criada de Jeanette, enquanto que Paul e Daniel em subiram no outro. A distribuição permitiu Diane várias horas para pensar, porque Jeanette disse muito pouco durante todo o caminho para o norte. Paul instalou Jeanette em uma cadeira ao lado do pároco e sentou junto a ela. Daniel ofereceu o braço a Diane. Avançaram. Os votos eram uma nuvem. Diane ouvia dizer as palavras como se achasse a uma grande distancia. Tudo parecia tanto a um sonho que, quando saíram da capela, foi como se de repente despertasse, golpeada pelo resplendor do sol. — Voltaremos em uns dez dias, imagino — ouviu Daniel dizer. Um chofer subia o baú de Diane à carruagem onde Daniel e Paul haviam guardado sua bagagem. Jeanette deu um beijo nela. Logo Paul a levou em braços, colocou-a no carro onde a criada esperava e entrou atrás dela. — Aonde vão? — perguntou Diane. — De volta a Londres. Jeanette anunciará o matrimônio e quando retornarmos já será uma notícia antiga. A carruagem partiu rodando para o sul. Diane olhou a que ficava. Madeline Hunter – O Sedutor

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— E aonde vamos nós? — Tenho uma pequena propriedade perto daqui.

— Vamos nos esconder até que os rumores dispersem? — Trata-se mais de uma semana para estar a sós contigo. Diane tinha um nó no estômago desde que saíram de Londres, e naquele momento ele estava mais intenso. A porta aberta do carro esperava pela noiva. Sentia mais ou menos o que sentiu ao chegar pela primeira vez à casa de Daniel em Paris, paralisada pelo temor de ter se metido em algo que não tinha planejado muito bem. Uma vida com Daniel Saint John a esperava nesse carro. Não sabia mais que uma coisa sobre o matrimônio e supunha que essa coisa seria o único importante durante na próxima semana. De ter seguido ignorante, teria tido menos nervos. O braço de Daniel a agarrou pelos ombros. — Vêem comigo agora. Prometo não te violar durante a viagem, assim não é necessário por agora que ponha essa cara de a caminho da forca. A propriedade poderia ser pequena do ponto de vista de Daniel, mas para ela era um lugar encantador do tamanho ideal. Abrigada ao pé de uma colina e flanqueada por um bosque, era uma velha casa de pedra com vistas sobre um pequeno lago. Tinha dois pavimentos, com quatro habitações abaixo e quatro acima. O homem e a mulher que cuidavam da propriedade viviam em uma casita vizinha. Não esperavam a chegada de Daniel, assim o casal saiu a passear enquanto eles apressavam a preparar as coisas. — Parecem surpreendidos vê-lo — disse Diane enquanto passeavam ao redor do lago.

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— Mal vim aqui nestes últimos tempos. Levo vários anos sem aparecer. Vivi aqui durante alguns anos em minha infância, mas isso foi antes da chegada de Harold e Meg. Para eles sou o dono ausente, e o lugar é mais dele que meu agora. Diane via a propriedade com novo interesse. — Diz que viveu aqui? Depois de ter estado na França? Daniel caminhou uns vinte passos em silencio antes de responder. — Sim. — Pertencia a sua família, então? — Imaginou a casa abarrotada de gente e a um Daniel muito jovem brincando de correr pela campo. — Foi à casa da família de minha mãe durante várias gerações. Não sei muito bem como chegaram a tê-la. Provavelmente dos tempos em que a França e Escócia conspiravam juntas contra Inglaterra. — Quantos anos tinha ao vir aqui? Quando deixou a França?

— Oito. — É a mesma idade que tinha eu quando saí da Inglaterra. Que estranha casualidade. Você deixou a França para vir aqui e eu deixei a Inglaterra para ir ali, à mesma idade. Sempre supus que não tínhamos nada em comum, mas pelo visto o temos. — Suponho que sim. Abandonaram a borda do lago e seguiram um atalho que entrava em um pequeno bosque. Logo emergiram ao outro lado. Um muro de pedra encerrava um cemitério rodeado de árvores. Daniel continuou para o norte, na direção da colina, mas Diane entrou no cemitério, cheia de curiosidade. Daniel a acompanhou e ficou a seu lado enquanto estudava as várias dúzias de lápides. Madeline Hunter – O Sedutor

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— São os antigos criados e pessoas assim — disse. — São a história do lugar e as famílias que o habitavam. Fascinam-me estes sítios, porque eu não tenho nada assim. — Seu olhar passeou sobre os sobrenomes que definiam a vida nessas paragens. McGregor e Graham, La Tour e Mirabeau e Jervais. Smith e Johnson e Scott. — Não há nenhum Saint John — disse, enquanto começava a percorrer as tumbas para examinar o resto. Daniel a agarrou do braço. — Era a família de minha mãe a que vivia aqui, não a de meu pai, e como disse, são sobre tudo os criados os que estão enterrados aqui. Agora vamos. Eu não gosto das tumbas tanto como a ti. Diane acessou a que a levasse para a colina. Subiram ao pico e contemplaram de acima a casa e o lago. — Obrigado por me trazer aqui. Eu gosto de saber que viveu aqui de menino, e que sua família esteve neste lugar durante várias gerações. Não é minha família, é obvio, mas estou oficialmente vinculada a ela agora, não? Ele dirigiu um olhar significativo a ela. — Parece que está agora. Oficialmente. — Você não gosta de fazer isto. Ou me equivoco? — É obvio que sim. É divertidíssimo. Não tenho muitas oportunidades de fazê-lo, assim aproveito a ocasião. Estavam pescando. Depois de comer, ela tinha pedido a Daniel que ensinasse a fazê-lo. Ele aceitou em seguida, encontrou algumas varas, pôs a ceva nos anzóis e agora ali estavam, os dois juntos, esperando que algo ocorresse.

Esse algo levava já bastante momento sem ocorrer. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Acredito que isto induz à meditação, como quando um fica a contemplar as ondas do mar — disse Diane. — Sem dúvida. Só que é menos sublime. — Sim. Pescar em um pequeno lago em uma propriedade civilizada tem em realidade muito pouco de sublime. A vista teria que estar repleta de grandiosidade e potência para que fosse sublime. —Jogou uma olhada no pequeno livro que aparecia do bolso dele. — Se prefere ler seu livro, não me importa. Daniel fez uns quantos movimentos com seu fio. — Está segura de que pode fazê-lo sozinha? Não serão muitos peixes para ti? Não arrastarão às profundidades enquanto luta com eles? Soltou uma risada. — Acredito que estarei a salvo. — Se estiver segura, possivelmente assentarei debaixo dessa árvore até que você canse. Deixou sua vara sobre o chão e afastou. Diane jogava com a vara e o fio, procurando pescar uma das formas chapeadas que deslizavam pela água. Decidiu que essa era uma das melhores tardes de sua vida. Quando Daniel falou de estar a sós ela supôs que se referia à cama. Não imaginava esse calado companheirismo que tinham compartilhado durante várias horas, por muito que estivesse impregnado da intimidade dessa larga noite entre seus braços. Aquele peixe não queria ser pescado. Sabia que se decidia a jogar o fio mais longe no lago, sua sorte trocaria. Atrás dela Daniel permanecia concentrado em sua leitura. Sentada no chão, Diane tirou as meias. Recolhendo a saia até os joelhos com uma mão e sustentando a vara com a outra, entrou na água e lançou o fio.

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O anzol afundou. Diane permaneceu tão imóvel como podia enquanto a água fria agitava ao redor, umedecendo a borda de seu vestido. Subiu-o um pouco mais e colocou a vara sob o outro braço. Um puxão violento mostrou que havia um peixe preso ao anzol. Não houve maneira, entretanto, de arrastá-lo sem deixar cair sua saia na água. Emocionada por seu êxito, deu meia volta e caminhou para a borda do lago, arrastando detrás dela o peso que retorcia. Quando chegou a erva, a água escorria pelas pernas enquanto que a saia seguia enrugada em sua mão e ascensão até deixar descobertas suas coxas. Jogou uma olhada a seus pés sujos de barro e

logo, em seguida, levantou a vista, para topar diretamente com os olhos de Daniel. Tinha deixado de ler. Observava-a e supunha que levava tempo fazendo. Deixou cair o vestido e concentrou em apanhar o peixe. — Parecia muito maior na água — disse enquanto o tirava. — Acredito que deveria devolvê-lo ao lago. — Eu o farei. — Levantou para ajudá-la. Mas ela se encarregou do assunto. Sem pensar agarrou o peixe e tirou o anzol. Quando Daniel chegou a seu lado, o pequeno peixe estava já voando pelo ar, de volta à água. — Tem-no feito muito bem. À maioria das mulheres não gostam de tocá-los. Olhou a mão em que acabava de estar o peixe. Era certo. Tinha-o feito muito bem. Tampouco tinha ficado surpresa com o tato do peixe. — Acredito que já tinha feito antes. Em minha infância. Não pôde ser depois, porque o recordaria. Temo que agora cheire a pescado. Ele tomou a mão para cheirá-la. Seu fôlego enviou calafrios pelo braço.

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— Não cheira mal. De todos os modos, melhor lavar. — Tomou a vara de sua mão. — Entremos agora. Está ficando tarde. Diane recolheu suas meias e seus sapatos, e voltou descalça até a casa. A sensação da erva sob seus pés resultava familiar. Também tinha feito isso em outros tempos. Era outro breve eco de sua infância perdida, sabia. Daniel falou em privado com Harold antes de reunir com ela no salão. Enquanto permanecia sentado ao lado da janela à luz do último sol da tarde, chegava o som de botas subindo e descendo pelas escadas de trás. Em uma esquina havia uma mesa com uma urna a China. — É uma das tuas? — Sim. A trouxe depois de uma de minhas primeiras viagens ao Oriente. — Ming? Ele riu. — Não. Pode rompê-la. Estava feita para a exportação e não tem muito valor. Não sabia o que era nessa ocasião, mas eu gostava e comecei a aprender mais. — Tem muitas coisas orientais. Seu quarto de Londres… — Interrompeu de repente enquanto as lembranças desse quarto obstruíam a garganta. — É isso o que revista levar em seus navios? Urnas e coisas assim? — Às vezes. Mas freqüentemente são coisas menos interessantes.

— Embora menos interessantes deva ter sido valiosas, se o tornaram tão rico assim. — A sorte jogou seu papel. Fiz coisas arriscadas que saíram bem. Durante vários anos não transportava o carregamento de outros homens, a não ser só o meu. Se um navio afundou, poderia estar indo e vindo pelas águas hoje em dia, arrastando nada mais que pescado seco. — Por que não evitava esses riscos? Madeline Hunter – O Sedutor

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Ele encolheu os ombros. — Era muito jovem quando comecei. E muito impaciente. “Como de jovem?” Reprimiu a pergunta, mas queria fazê-la. Ao fim e ao cabo, seguia sendo bastante jovem. Devia ter sido muito jovem quando a levou para Rouen, mas dizia que tinha conhecido a seu pai através dos navios, assim devia ter sido depois desses riscos. Mas se fosse assim, teria que ter sido absurdamente jovem quando começou a amontoar sua fortuna. Jogou-lhe uma olhada. Talvez tivesse mais anos dos que ela acreditava. Há homens que parecem mais jovens do que são. Não obstante, a sua não tinha sido uma vida cheia de cuidados. Passou muito tempo no mar viajando pelo mundo. — Diz muito jovem como se fosse um ancião. É impossível que tenha mais de trinta e dois ou trinta e três anos. — Quando os anos são de plenitude transcorrem mais devagar. Era uma boa resposta, mas não a que desejava. Não a tinha corrigido, mas tampouco tinha confirmado o que disse. — Há rumores em torno de ti, além dos que agora me envolvem. Sabia? A condessa me disse que segundo alguns foi um pirata nos mares orientais. Eram tão grandes seus riscos? — Tem medo de ter casado com um pirata? Nada tão emocionante, temo. Enfim, não houve mais de dois ou três episódios em todos esses anos que pudessem descrever como emocionantes. Estava jogando com ela. Em grande parte. Mas Diane suspeitava que houvesse, em efeito, mais de um episódio que pudesse descrever como emocionante. Repassou os livros na estante de uma das paredes. Em realidade não assimilava os títulos e as encadernações. Retinha a imagem de Daniel, sentado na poltrona ao lado da janela, as pernas com botas cruzadas, o lenço descuidadamente preso, o cotovelo apoiado sobre o braço da poltrona, o queixo apoiado na mão. Sentia que Daniel a estava olhando. Madeline Hunter – O Sedutor

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Apareceu Harold na soleira da porta, cruzou um olhar com o Daniel e fez um vago gesto por volta do segundo andar antes de desaparecer. Os outros sons da parte posterior da casa, onde Meg movia pela cozinha, pararam. — Seu banho está preparado no quarto acima — disse Daniel.

Um banho viria muito bem. Seguia descalça e o barro do lago tinha secado nas pernas. Sua mão continuava cheirando vagamente a pescado. Ela girou para sair do salão. Daniel seguia sentado, tal como ela imaginava. Parecia tão formoso que não queria se mover. Sua presença carregava o ar da quarto, perturbando-a embora não fizesse mais que olhá-la. — Como quer fazê-lo, Diane? Prefere tomar banhar sozinha antes que eu suba? Uma punhalada de estímulos a sacudiu na mais funda intimidade enquanto seu corpo percebia as implicações ditas. Havia transcorrido o dia com tanta suavidade. Apenas a havia meio doido. Tinha suposto que tudo se atrasaria até depois do jantar. Até a noite. Ela ficou imóvel, sentindo-se estúpida e cheia de nervos. Ele levantou e se aproximou de seu lado. O coração de Diane começou a dar voltas em lentas espirais. — Meg e Harold retornaram a sua casa. Talvez necessite um pouco de ajuda com os botões e o resto. Agarrou-lhe a mão. Diane deixou que a conduzisse ao quarto, reprimindo o impulso de ficar tercamente no salão. Armou-se de coragem, procurando conter o caos de reações que mesclavam em seu interior. Já estavam casados e ela não estava disposta a comportar como uma menina tola. Além disso, já não era inocente e não se comportaria como se fosse.

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Enquanto subia as escadas, seguida de muito perto por Daniel, dizia-se tudo isso. Não obstante, notar sua presença a incomodava. Ela pensou que talvez tivesse sido preferível que a possuísse na carruagem. Já tinha visto Daniel sucumbir a uma paixão violenta. Esta sensualidade mais apaziguada, mais acalmada e mais contida parecia mais perigosa. E mais excitante. Não podia negá-lo. Quando entraram nos aposentos acima, seus sentidos estavam já sensíveis a tudo, sobre tudo à proximidade de Daniel. Uma larga banheira metálica tinha sido colocada em uma das habitações, atrás de uma tela baixa para a lareira. Ardia um pequeno fogo, para tirar o ligeiro frio da casa. Tocou com os dedos a água da banheira. — Perfeita. Ela o sentia atrás dela. As mãos de Daniel começavam a trabalhar sobre as cintas do vestido. Diane arrepiou-se instintivamente para controlar um tremor visceral que ameaçava sacudir todo o corpo. — Você está molesta que eu faça isto? — perguntou ele.

— Estou bastante inquieta, isso é tudo. — É desagradável, estar assim inquieta? Ela percebeu que não era desagradável. Realmente não o era. Negou com a cabeça. O vestido abriu pelas costas e pendurava em seus ombros. Sem nenhum esforço de sua parte, deslizou pelo seu corpo, deixando-a em roupa interior e com as pernas nuas. Daniel beijou a pele do ombro dela. — Não está inquieta, carinho. Está excitada. Está sentindo quanto nos desejamos um ao outro.

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Nomeá-lo fazia ainda mais intenso. A sensação voltava mais física. Seu corpo era agora mais consciente de Daniel. As partes do amor que não eram completamente horríveis, que não tinham nada de horrível, começavam a revoar por sua mente. Daniel dedicava agora aos botões do espartilho. Diane sentia como o objeto pouco a pouco ia soltando, consciente de que muito em breve estaria totalmente nua. A julgar pelo ocorrido à primeira vez duvidava que chegasse a tomar banho. Já não sabia muito bem se queria tomar banho. O espartilho também caiu ao chão. Não levava posta agora mais que suas finas anáguas. Era de dia ainda. Não havia velas que apagar. Envolvendo-a em seus braços, Daniel girou-a para beijá-la. Não a avassalou com sua paixão como tinha feito em seu quarto, mas o efeito foi o mesmo. Tudo o que estava sentindo, a excitação deliciosa e os estímulos físicos, multiplicava-se por dez, sepultando temores e cautela. Daniel seguiu com seus olhos as anáguas deslizando pelo corpo de Diane. Um eco de surpresa retumbava no quarto, mas o mútuo desejo cantava mais forte. O assombro ante sua própria nudez esfumava. Gostava de sua forma de olhá-la. Despertava esse pulso profundo e os batimentos do coração pareciam estender por todo seu corpo. Queria que voltasse a beijá-la. A tocá-la. Desejava-o tanto que não podia fingir o contrário. O imaginava fazendo e criava assim uma antecipação que a excitava inclusive mais. O poder do que sentia era quão único agora a surpreendia. O fato de confessar que se desejavam a estava convertendo em uma libertina. Em vez do beijo e a carícia esperados Daniel a inundou na banheira. A água estava sensual e refrescante, ondulava brandamente sobre sua pele cálida, mostrando toda a vitalidade despertada em seus sentidos. Ele passou o sabão.

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— Vai sair? — perguntou Diane, ao mesmo tempo em que elevava e ensaboava uma perna enlameada.

Os olhos de Daniel subiram em meandros por essa perna e logo por todo o resto de seu corpo. — Quer que vá? Viu-o de repente tal como tinha visto em seu quarto frente a ela nua. A mesma sensualidade voltava a estender entre ambos agora e voltou também algo do medo anterior. — Não sei. — Sim, sabe. — Sorriu Daniel, dirigindo para o outro lado da tela. Ensaboou a outra perna, decepcionada consigo mesma. Era tão covarde. Ele estava levando com tanta paciência nesta lenta sedução, e ela retrocedia. Subitamente estava atrás dela. Sentia-o ao lado de sua cabeça, ajoelhado junto à banheira. — Me dê o sabão. Ao olhar atrás enquanto o dava, viu que tirou a jaqueta e a camisa. Tinha um aspecto magnífico. Tão belo e quente encantador na força de seu esbelteza. Imaginou abraçando-o e seu fôlego entrecortou. Daniel molhou o sabão na água junto a seu corpo. Essa ação os aproximava. Enquanto movia as mãos para fazer espuma, seus dois braços a rodeavam em um vago abraço. — É muito bela para te deixar sozinha em sua intimidade. Se pudesse verte a ti mesma como a vejo, entenderia. Acredito que o ato de banhar a sua esposa pode ser um dos direitos de um marido. — Repartia a espuma por seus braços em uma carícia ensaboada. Brandamente ia estendendo sua brancura pela pele. Uma estimulação luxuosa e sedativa agitava por cima e ao redor de seus quadris. Ela se apertava contra o fundo da banheira, contra o peito de Daniel e seu apoio, e deixava submeter Madeline Hunter – O Sedutor

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pelas carícias sedutoras. Via seus duros músculos esticarem enquanto seus dedos abertos faziam escorregar o sabão, acima e abaixo, acima e abaixo. — Isto me ajudará também a ver que partes não resultaram completamente horríveis para você. — Pôs espuma em seus ombros e em seu peito. Suas palmas roçavam os seios enquanto cobriam o torso inteiro de sabão. Lavava-a agora mais devagar. Suas mãos moviam deliberadamente. Deslizavam por debaixo e em torno de seus seios, lhe provocando desejo. Diane fechava os olhos e esperava. — É o que quer? — perguntou ele, sua boca roçando a orelha dela. Acariciava ambos os seios em lânguidos movimentos circulares. O resultado era incrivelmente sensual. Quando suas suaves mãos concentraram em seus mamilos o prazer tornou mais intenso, entrecortava-lhe o fôlego, voltando o estímulo quase desesperador.

Ela o olhava através das pálpebras entrecerrados, mordia o lábio para conter os gemidos enquanto seus dedos riscavam delicados círculos nos mamilos, intensificando o prazer. — Ajoelhe me olhando de frente. Ela sentia tão bem que não queria que aquilo terminasse. Mas ele a elevou pelos ombros, guiando-a até a pôr de joelhos, levantada na água, em frente dele. Ela não era quão única estava afetada. A expressão severa de Daniel refletia sua própria excitação e sua consciência da dela. Acreditou que ia tirar da água e levá-la à cama. Mas, entretanto ele agarrou o sabão para fazer mais espuma. Voltou a acariciar os seios, e logo mais abaixo. Enquanto a beijava, suas mãos transladaram às costas de Diane e baixaram até seu traseiro. Percorriam as turgidezes das nádegas de todas as maneiras possíveis, fazendo pulsar o pulso profundo de sua excitação até que este se apoderou de sua mente.

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O ardor ali abaixo a enlouquecia. Agarrava-se aos ombros de Daniel, aceitando seu beijo, arqueando para receber suas mãos, respirando com todo seu corpo para que a tocasse mais abaixo e mais fundo. Ele agarrou suas mãos e as pôs nas bordas da banheira. Enquanto isso ficou ao lado de Diane, sem deixar de lavá-la, agora pela parte posterior das coxas e para cima, entre elas, por cima das nádegas e logo por debaixo, em todas as partes salvo onde ela mais o desejava. Era um tortura lenta e maravilhosa, e Diane se sentia impotente contra seus efeitos. Sem nenhuma vergonha apertou as bordas da banheira e elevou os quadris, de uma vez que arqueava as costas e baixava os ombros. Daniel inclinou para beijar as costas. Sua mão a aliviava ao entreterse ali acima, na suave pele do interior de suas coxas. — Não queria isto à última vez. Quer agora? Assegurou que sim. Queria-o tanto que apertava os dentes para conter os gritos. — Quer? — Tocou-a ali uma vez, levemente, como que perguntando. Então ela sim emitiu um grito, de alívio e assentimento. A seguir veio uma série de gemidos quando Daniel respondeu com carícias diretas. A sensação aumentava e aumentava até que sua intensidade a empurrou para o abandono total. Ergueu-se da banheira para agarrá-lo, estreitando-o contra seu corpo para poder sujeitálo. A paixão de Daniel estalava para unir-se à sua. Envolveu-a em um abraço firme e seguiu tocando-a até fazê-la esquecer de tudo, até que já não existia para ela nada mais que ele e essa sensação concentrada que transbordava um prazer insuportável.

Pequenas cascatas de água precipitavam pelo peito de Daniel da umidade de seus braços. Diane as beijava uma atrás de outra para detê-las. Sua língua percorria todo o caminho para cima

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vibrando sobre a pele, até chegar a seu ombro. Apartando ligeiramente a cabeça, via um novo gênero de paixão nos olhos de Daniel. Orgulhosa de si mesmo beijava-o. Seus lábios se apartaram e de repente ela o invadiu como ele antes tinha feito com ela. O atrevimento adicionou um estímulo triunfante a seu desejo. A água chapinhava em torno de seu corpo. Daniel a enxaguava com uma mão enquanto com a outra a estreitava contra si, provocando-a com suas explorações audazes. Tirou-a da banheira e se apertou a ela com mais força ainda em um abraço que parecia capturá-la por completo. Ainda atados juntos, ainda unidos pelo calor da carne e a tepidez da água, Daniel deixou cair sua roupa interior para que o abraço culminasse. Sujeitava-a tão firmemente pelos quadris e os ombros que era incapaz de mover. Seus beijos entravam profundamente nela, impondo uma entrega não só física. Uma sensação de estar sendo absorvida a alagava. De nenhuma separação. De estar sendo controlada do modo mais benigno, mas mesmo assim dominada. Seus pés deixaram de tocar o chão. Pegou-a no colo, ainda beijando-a, Daniel a levou a cama. Na temperatura fresca do crepúsculo ajoelhou em cima dela. Nenhuma noite negra o ocultava de seus olhos. Sua imagem, sua esbelta força muscular, seu controle severo e sua paixão, sacudiram seu coração com palpitações e acenderam seu corpo de desejo. Seus olhos escuros refletiam a confiada convicção de que o desejava e de que logo a possuiria. Aproximou mais, seus tensos braços em torno dela, ainda ajoelhado, e a beijou. Sua cabeça inclinava e sua língua vibrava contra seu mamilo como a dela antes sobre seu peito. O prazer tinha desembocado em um profundo fluxo de excitação, mas a boca de Daniel voltou a deixá-la cambaleante. Com seus dedos estimulava o outro peito. Ela apertou os ombros de Daniel e a sua própria prudência, mas a intensidade incessante do prazer o fazia perder esta última. Madeline Hunter – O Sedutor

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Fechando os olhos, submeteu-se a ele e avançou para um lugar onde a existência era sensação pura. A mente de Diane delirava entre gritos de alívio e exigências de mais. Estreitava-o mais forte, por toda parte, incapaz de manter quietas nem as mãos nem o corpo. Os braços de Daniel e seus flancos. Seu torso e seus quadris. Acariciava seu peito, tentando recuperar a absorção desse beijo perto da banheira. Seu corpo converteu em um vazio que desejava algo que o completasse. A mão de Diane roçou seu falo no espaço que havia entre ambos os corpos. Inclusive em sua loucura pôde ver que ele gostava, queria que o acariciasse assim.

Daniel olhava a mão de Diane mover-se. Levou a sua a esse espaço entre suas coxas e a tocou também. Compartilharam um momento de prazer erótico celestial. Logo começou a tocá-la de outro modo, de uma forma muito especial, e a Diane escapou um ofego. Começou a dar voltas em um anel cada vez mais apertado de um prazer insuportavelmente concentrado. Saber que a estava observando, que via a forma em que seu corpo implorava e ouvia os gritos e suspiros libertinos, só aumentava o controle que Daniel tinha sobre ela. Tornou atrozmente insuportável. Havia sentido antes algo similar, a última vez. Tentou retroceder, em busca de alívio. Daniel desceu a seu lado e Diane pôde abraçá-lo. Mas não durou muito. Começou outra vez a beijá-la e sua tortura suavizava levemente. Deu-lhe uma larga e funda carícia, estendendo a sensação desde esse sítio único e intenso. Sua boca roçava a orelha. — Cede a isso. Se te render, será magnífico. Não estava segura de poder fazê-lo. Não estava segura de querer fazê-lo. Só sabia que estava a ponto de chorar. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel beijava os seios. — Deixe se levar, meu amor. Quero que saiba o que isto pode chegar a ser. Um novo toque deteve o fôlego, esvaziando a mente. Uma tensão de prazer preciso dispersou toda possibilidade de retroceder. Obrigando-a avançar para algo que desejava. A tensão aumentava intolerável. Uma alta cúpula de sensação maravilhosa disparou pelas vísceras, provocando um chiado. Um prazer perfeito a sustentou, durante um instante que não era deste mundo, e em seguida estalou em um milhão de pedaços lançados em um grande fluxo ao longo de todo seu corpo. Ele estava dentro dela quando recompôs a mente, instalado entre suas pernas. Não houve nenhuma dor desta vez, só alivio, como se seu corpo tivesse estado incompleto e necessitasse que ele o enchesse assim. Esta vez era incapaz de resistir. Não podia proteger-se de nada, muito menos de seu próprio coração. Não podia obstruir essa forma de possuí-la. Daniel enchia todos os vazios dela, inclusive aquele mais antigo que residia em seu coração. Ficou desvanecida como aquela noite em seu quarto. Estava impotente contra as emoções que evocava a intimidade. Ela se entregou mais que ele. Sabia. Inclusive quando parou e a olhou nos olhos, e Diane teve a sensação de ver a alma dele, inclusive então reservava algo para si mesmo. Ela não podia fazer

o mesmo. Não sabia fazê-lo. Nem queria fazê-lo, porque seu coração nunca tinha conhecido uma plenitude semelhante. Voltou o prazer, tremente cada vez que se uniam. Diane levantava as pernas para acolhêlo mais e se movia em resposta a ele e à sensação. Ele empurrava com mais dureza, com mais profundidade, e o poder a chamava. Ela oscilava ao ritmo dos movimentos de Daniel, afundando-se em sua paixão até que o desejo e a fome e a loucura foram mútuos. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ao final o respirava, elevando os quadris para receber os últimos, ferozes empurrões. Gozava da prova de que ele era tão impotente ante a paixão como ela. Durante essa minúscula porção de tempo, quando a capitulação era mútua e pertencia a ela tanto como ela a ele, compreendeu o que isso podia chegar a ser.

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Capítulo 21 A primavera era formosa aquele ano. Isso pensava Daniel enquanto ia a cavalo pelas ruas de Londres, dirigindo para uma entrevista que importava pouco. Deveria importar muito. Prometia uma pequena e não uma grande vitória, mas algo seria. Não obstante, quando recebeu a carta que solicitava uma reunião, sua reação tinha sido mais de aborrecimento que de espera. Ria de si mesmo enquanto guiava seu cavalo entre os vagões e carruagens. As últimas duas semanas o tinham abrandado. Sempre tinha suspeitado que uma mulher pudesse fazer isso com ele. Não lamentava. Não teria renunciado nem a um só momento desses dias junto ao lago e essas noites entre seus braços. As lembranças da beleza e a paixão de Diane, de sua ansiedade e seu êxtase, distraíam-no. De largas horas de incrível prazer e madrugadas de uma paz assombrosa. Era com se Londres fosse outro mundo e o passado outra vida. Tinha estado a ponto de contar tudo a ela. Houve momentos em que a felicidade era tão completa que estava seguro de que nada a poderia danificar. Contemplava-a e enquanto isso as confissões e as desculpas faziam cócegas na língua. Mas sempre uma imagem dela confusa e doída, uma imagem de seus olhos precavidos e cautelosos o mantinha calado. Depois, pensava sempre. Quando voltarmos à cidade.

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Aquele ar de sonho tinha continuado ao voltar para Londres. Deixou-se envolver por ele e seguia feliz mantendo a realidade a raia. Inclusive a carta, e esta reunião, tinham sido incapazes de danificar as coisas. Sem perceber, tinha detido o cavalo e se encontrava frente à casa que procurava. Sua alma emitiu um suspiro de resignação, e não de triunfo como deveria. Desmontou e avançou para a porta. O mordomo o conduziu através de uma casa dispendiosamente mobiliada até chegar ao jardim posterior. Igual a casa, tinha sido organizado com mais interesse no efeito que na beleza. Arbustos de lilás, podados em perfeitas formas redondas, contornava um dos muros. Muitas flores

belas tinham sido sacrificadas para manter esses globos. Uma pequena árvore frutífera em um rincão poderia ser uma pintura de um artista dos salões, tão artificial resultava a cuidadosa forma em que seus ramos jovens cresciam. Os atalhos faziam suspeitar que alguém tinha passado horas cinzelando cada pedra. Recordou a um brinquedo que tinha visto uma vez em uma loja, composto de diminutos arbustos e flores e paralelepípedos de ferro que uma menina poderia dispor a seu desejo. Encontrava-se agora rodeado por versões gigantescas dessas mesmas formas artificiais. Andrew Tyndale estava sentado em uma cadeira ao lado de uma mesa de ferro, sorvendo um chá e lendo um volume de antiga filosofia grega traduzido ao latim. Ao Daniel pareceu divertido. Duvidava que Tyndale jamais tivesse lido essas coisas, inclusive quando o exigiam no colégio. — Chegou — disse Tyndale. Esboçou um amplo sorriso e assinalou para a outra cadeira. Ofereceu um licor e quando Daniel declinou, chegou o chá. — Vejo que retornou da Escócia. — O tom festivo de Tyndale delatava que sabia de tudo a respeito do matrimônio. Madeline Hunter – O Sedutor

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É obvio. Ao voltar para Londres, Daniel e Diane tinham descoberto que eram a fofoca da cidade. Em sua ausência, a condessa de Glasbury tornou de conhecimento geral a história verdadeira. Disse que Daniel se retirou porque o desafio tinha permitido que Diane e ele reconhecessem seus mútuos sentimentos. As intrigas agora centraram sobre o que teria estado acontecendo na casa de Daniel durante essas últimas semanas. O papel de Tyndale no assunto tinha sido quase esquecido. — Minhas felicitações por seu recente matrimônio. — Fê-lo soar como se fosse um reconhecimento da derrota, como se tivessem encontrado em um duelo de algum gênero menor e Daniel o tivesse ganhado. Daniel aceitou o parabéns e ficou esperando. Não tinha vindo para intercambiar cortesias, e não queria estar em companhia desse homem mais tempo que o estritamente necessário. A proximidade, de uma vez que a branda e falsa atitude de Tyndale, já começavam a formar uma nuvem sobre a última semana de sol constante. Outras antigas lembranças ameaçavam deslocando as de Diane. — Acreditei que deveríamos comentar o assunto da dívida — disse Tyndale. — Uma remessa bancária será suficiente. — Certamente. Não obstante, eu gostaria de propor uma alternativa, algo que poderia interessá-lo enormemente.

— Se quer me oferecer garantias sobre umas terras na América do Sul, não tenho nenhum interesse em semelhante coisa. O sorriso tenso de Tyndale mostrava que sabia que acabavam de insultá-lo. — É mais complicado que isso e tem um potencial importante. Há homens dispostos a matar para ter esta oportunidade. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Escuto-lhe. — Sabe como faz o aço? — Como sempre tem feito. — Correto. Forjado em pequenas quantidades com grandes esforços. Em conseqüência, é muito caro para ser usado habitualmente na indústria. — Sempre está o ferro. — Tem suas limitações. O ferro fundido é débil e o ferro forjado apresenta problemas por sua fabricação e seu peso. Imagine que pudesse fabricar o aço mais rápido, e quase sem esforço. Qual seria a seu julgamento, o valor de um processo semelhante? Daniel teve que lutar consigo mesmo para não revelar sua surpresa. Agora, pelo menos, sabia quem era o sócio de Dupré. — Seria impossível calculá-lo. Está dizendo que tem descoberto um procedimento desta índole? — Sim. Terei a prova dentro de um par de dias. — Sua proposição tem que ver com este procedimento? — Tinha a intenção de explorá-lo por minha própria conta, mas concluí que poderia ser uma boa idéia ter um sócio. — E teve a generosidade de pensar em mim? — Digamos que eu gosto do corte de sua jaqueta. Ah, já sei que tivemos esse pequeno problema a respeito da jovem, como está acostumado a ocorrer entre homens. Não foi mais que um mal-entendido, e se resolveu sem que ninguém tenha saído prejudicado e de maneira muito benéfica para você. Sou capaz de olhar além daquilo e espero que você também o seja. Acredito que temos muitos coisas em comum, em realidade. Reconheço algo de mim em você.

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Daniel mal conseguia se conter para não estalar um murro nesse intenso e sincero rosto que o olhava do outro lado da mesa. Ficou a contemplar uma fila de arbustos colocados como soldados e freou a fúria que rugia por suas vísceras. — Por que necessita um sócio?

— Me ocorreu que as explorações mais lucrativas requererão algum contato com a comunidade industrial. Acredito que um sócio poderia resultar mais eficaz na hora de encontrar e tratar com esses homens. — Quer dizer, preferiria ser exclusivamente um investidor em vez de tornar você mesmo em um industrial. Oferece-me isso para evitar fazê-lo. — Sim. — É obvio, faz também porque me deve vinte mil libras. Suponho que é esse o preço desta associação. Tyndale sorriu surpreso e encantado pela acuidade de Daniel. — Como posso saber que vale tanto? — Se pensar bem perceberá que vale muito mais. — Isso depende da eficácia do processo e do tamanho da peça que compro. — Acredito que poderia ficar em vinte e cinco por cento. Daniel contemplava o jardim e parecia do mais irônico que estivesse fazendo a ele aquela oferta. — Quero ver essa prova que mencionou. — Estará pronta amanhã ou passado. — Hoje. Se não estar preparada, quero ver o que está fazendo para prepará-la.

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— Isso é um segredo. Deve compreender que não posso permitir ver o processo sem ter seu compromisso. — E eu não posso me comprometer se não ver o processo. Não sou tão estúpido para receber uma quantidade de aço e aceitar sua palavra em relação à forma em que o fabricou. Se parecer inconveniente, sempre pode fazer essa remessa bancária. Tyndale parecia menos contente com esta nova acuidade. Franziu o cenho pensativamente. Daniel suspeitava que era a primeira vez que alguém tinha detectado uma expressão forçada na cara deste homem durante muitos anos. — Suponho que o poderei mostrar, mas há coisas que não posso explicar ainda. Há detalhes que devo reservar. — De acordo. Há outra coisa. Existem outros sócios? Eu não gostaria de descobrir em certo momento que sou o dono de vinte e cinco por cento e que de uma vez o são outros cinco. Tyndale soltou uma risada, mas a ira dava um som oco. — Não, só você.

Daniel esperava que fora verdade. Não queria que nenhum parvo inocente se visse envolto naquilo. — Me fale do inventor. Estou seguro de que não foi você mesmo quem descobriu o procedimento. — Compensarei ao inventor a minha maneira. O procedimento me pertence exclusivamente, e não haverá absolutamente ninguém mais que tenha que ver com isso à exceção de você. Veio a cavalo? Pedirei o meu para levá-lo a ver o procedimento.

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Daniel o seguiu até a casa, refletindo em torno de Gustave Dupré, a quem Tyndale compensaria a sua maneira. A quem exatamente tinha a intenção de extorquir, ao Dupré ou Daniel Saint John? O mais provável era que a ambos. Tyndale tirou de sua jaqueta três chaves e ficou a trabalhar com as pesadas fechaduras da porta do abrigo. — São as únicas chaves? — perguntou Daniel. Havia crivado Tyndale com perguntas receosas durante todo o caminho até chegar ao corredor do Southwark. Tyndale tinha celebrado o interrogatório, interpretando o interesse como um reflexo de seu sentido de posse. — Só o inventor e eu temos chaves. — De todos os modos, se aceitar isto, quererei a um guarda aqui. Um de meus homens. A segunda fechadura abriu. — Sugere que eu poderia estar mentindo e que trarei outros como trago você. — Sugiro que esta não é uma das melhores zonas da cidade e qualquer um poderia entrar no abrigo. É possível que você tenha as chaves, mas faria falta só uma tocha para derrubar a porta. Entraram no espaço úmido e sombrio. Ali sobre a mesa estavam os cilindros, cada um com seu recipiente cheio de líquido. Tyndale indicou Daniel que jogasse uma olhada. Daniel escrutinou um dos recipientes. — Acreditei que disse que não estaria preparado antes de manhã. Os olhos de Tyndale ficaram maiores. Aproximou a cabeça. — Disseram-me… é obvio, os cálculos sobre a massa e o peso podiam ser só aproximados… e terá que adivinhar o efeito da potência… Com um palito de madeira, tirou alguns arames do recipiente e tentativamente colocou os dedos no líquido. Madeline Hunter – O Sedutor

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A mão saiu da água obstinada a uma barra brilhante de aço. Entrecerrou os olhos, entusiasmado. Era como um homem que descobrisse ouro. — Parece que a transformação ocorre inclusive mais rápido do que antecipávamos. A reação física deve aumentar em velocidade com uma massa superior. Daniel tomou a barra úmida com suas próprias mãos. — Como se faz? — Esses cilindros contêm pilhas voltaicas que geram eletricidade, cujos poderes só agora começam a compreender. Este descobrimento de sua capacidade de alterar as propriedades do metal é um avanço científico de primeira ordem. — Por que não se publicou nada a respeito? Estas coisas revistam ser divulgadas mediante alguma das sociedades científicas. — Era muito valioso para dá-lo a conhecer. Não queremos que todo mundo se inteire disso antes de poder patenteá-lo e aproveitá-lo na prática. — O que há nesses recipientes? Água? — Sim, e substâncias químicas. Não posso dizer quais. Até que se comprometa, pelo menos. Daniel balançava a barra sobre sua palma. — Existe alguma possibilidade de que seja uma fraude? Poderia seu inventor as ter trocado? Ter tirado o ferro para substituí-lo pelo aço? — Não é o suficientemente preparado. Entretanto, saberei em seguida. — Tirou os arames do terceiro recipiente, levantou a barra e deslizou os dedos pela base. — Aqui está. Fiz uma marca sobre esta sem dizer-lhe precisamente para me assegurar de que era a mesma barra ao final que ao começo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel deu a volta à mesa. —Terá que voltar a fazê-lo em uma escala maior. É possível que não funcione se o ferro é muito grande. As barras pequenas servirão de pouco para a indústria. — Assinalou em torno do abrigo. — Terei que instalar vários assim, mas com quantidades distintas dos produtos químicos e números distintos de cilindros, usando barras grandes e pesadas. De outro modo, é impossível calcular os custos do processo, o tempo necessário e os possíveis benefícios. É provável que o custo de produção seja superior ao valor do aço final, assim também faz falta determinar o tamanho mínimo que devem ter os cilindros para que o invento funcione com ferros de um peso suficiente. Tyndale assentiu.

— Sim, compreendo o que diz. — Olhava Daniel com novo respeito. Era como se jamais tivessem discutido sobre uma mulher. — Acredito que está bem que você se envolva. Meus instintos eram acertados, convinha um homem de corte prático como sócio. — Não sou um sócio ainda. Até que veja os resultados do que descrevo, eu não investirei neste abrigo. E assim que comece a próxima demonstração, meu homem estará fora para assegurar que nada de aço entre por engano. Isto fez Tyndale vacilar. — Já vejo. Suponho que tem razão. Mas em sua opinião, quanto acredita que serão as lucros, se o processo resulta ser rentável? Daniel devolveu a barra de aço a seu líquido. Dirigiu a Tyndale um sorriso conspirador. — Embora a rentabilidade por libra sejam só centavos, acredito que se trata de milhões. — Vá história! Ah, Diane, é como um desses contos para meninos, com final feliz e tudo. — Margot tocava o seio como se tivesse palpitações no coração.

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Estavam sentadas juntas na sala de Margot. Em Londres, o senhor Johnson a mantinha com estilo, mas sem luxos. Seu ninho amoroso estava em um edifício o suficientemente próximo a Mayfair para resultar respeitável, mas em um bairro não de tudo elegante. Mesmo assim, o salão tinha sido equipado com bom gosto, e Margot também. Ao retornar da Escócia, Diane tinha recebido uma carta de sua amiga do internato e decidiu que seria mal educado de sua parte não visitá-la. — Como vai à vida de casada? — Margot sorriu sugestivamente e elevou as sobrancelhas. Diane sentiu ruborizar e soltou uma risada. — Bastante bem. — Me alegro. Mantém feliz de noite e tudo irá bem. Se não, virá em busca de alguém como eu. É um engano comportar como uma dama no leito. Nesse sentido, acredito que as mães inglesas ensinam a suas filhas coisas ridículas. Reduzem-no tudo a uma questão de dever, e não de prazer. “Como?” Diane não encontrava a maneira de formular a pergunta. “Como mantém feliz o senhor Johnson de noite?” A ela não a tinha criado uma mãe inglesa, nem nenhuma mãe, mas resultava incomodo falar dessas coisas. — Perguntei a monsieur Johnson sobre o Diabo — confiou Margot. — Nunca se conheceram antes dessa vez nas Tullerías, mas já sabia de seu marido de ouvir sobre ele. Começaram por ouvir coisas de Saint John faz uns oito anos, de gente que tinha tido trato com ele. Fez-se ao mar em navios mercantes quando era muito jovem, diz-se que logo conseguiu seu próprio navio. A partir de então, sua frota não fez mais que aumentar. Seus êxitos a uma idade tão temprana são muito

admirados, e sua pessoa também. A facilidade com que entrou nos melhores círculos é fonte de muitas invejas, conforme parece.

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“Como? — A pergunta voltou a surgir na cabeça de Diane. — Como conseguiu entrar com tanta facilidade?” Margot deu a resposta. — As damas o ajudavam, conforme se diz. É muito discreto e muito gentil, mas é legendário como sedutor. Isto só fez que voltasse a pergunta anterior, como uma moça ignorante ia poder manter feliz a um homem assim. Imaginou todas as mulheres formosas e mundanas com que relacionou, e se perguntou quais delas teriam facilitado a entrada de Daniel nos melhores círculos e quais teriam sido as amantes do sedutor. Não obstante, a história de Margot despertava também outras perguntas que em seguida deslocavam aquelas sobre as mulheres. Como tinha chegado a ter esse primeiro navio? A que idade conseguiu seu primeiro êxito? A curiosidade sobre estas coisas a tinha seguido roendo desde dia em que perguntou a Daniel sobre a urna em sua casa de Escócia. — Cuida bem dele e terá tudo o que queira, lhe prometo — disse Margot acariciando a mão dela. “Como?” Refletia sobre aquilo durante todo o caminho de casa. Daniel parecia bastante contente quando estavam juntos. Não parecia pretender outra coisa que não lhe desse. Possivelmente era porque a via como, segundo Margot, os maridos ingleses viam suas algemas. Como damas que cumpriam com seu dever, mas de quem não se esperava conhecimentos em torno do prazer. Recordava que madame Leblanc havia dito que as amantes faziam as coisas desse livro. Implicitamente, as algemas não as faziam. Margot dizia que era por isso que os homens

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procuravam amantes. Não devia então, como Daniel havia dito aquele dia nas Tullerías, à frieza ou a enfermidade ou a lonjura de suas algemas. Diane entrou na biblioteca e esquadrinhou as estante de livros, em busca de um livro pequeno e magro de coberta vermelha. Não estava ali. Finalmente possivelmente Daniel o tivesse queimado. Considerava essa possibilidade enquanto caminhava pelo corredor. Parou ante a porta do estúdio de Daniel.

Entrou silenciosamente. Ali não havia tantos livros, e as estante continham sobre tudo livros de contabilidade e carteiras. Entretanto, ao examinar uma prateleira que se encontrava justo em cima de sua cabeça, vislumbrou uma franja de couro vermelho brilhante. Extraiu o livro e aproximou da janela. Página atrás de página folheou as gravuras. As imagens não pareciam tão estranhas como quando as viu pela primeira vez. A maioria seguiam lhe produzindo vergonha, mas o rubor que sentia tinha que ver com algo mais que a vergonha. Um som a fez dar um salto. Deu meia volta para ver como a porta abria e conseguiu esconder o livro atrás de suas costas. Daniel entrou mais distraído que nunca. Demorou um instante em perceber que ela estava ali. Inclinou a cabeça com curiosidade. Uma pergunta apareceu em seus olhos. Enquanto avançava para ela, lançou um olhar afiado ao escritório e os papéis ali dispostos. — Queria algo, Diane? Ela negou com a cabeça e retrocedeu até a janela. Possivelmente conseguisse esconder o livro atrás das cortinas, sobre o batente… — O que tem aí, carinho? — Onde? Madeline Hunter – O Sedutor

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— Atrás de suas costas. — Nada. É só que não estive aqui muitas vezes e desejei muito ver como era. Não tinha que ter entrado, sinto muito. — Pode entrar. Pergunto-me, simplesmente, por que te comporta como se tivessem pilhado roubando. — Acariciava-lhe os dois braços. Até chegar às mãos atrás das costas. Conseguiu tirar o livro dela. De repente o tinha em suas mãos, diante dela. Jogou uma olhada ao livro, e logo a ela. — Pelo visto decidiste que tem certo valor, depois de tudo. — As lâminas têm algo de artístico. Há certa virtuosidade na forma da gravura. — Não soava tão objetivo como pretendia. De fato, notava que sua voz chiava. — Já vejo. Está estudando-o para melhorar sua apreciação das técnicas artísticas. — É um tema que freqüentemente se debate nos jantares e reuniões. — A arte não é só uma questão de técnica, é obvio, mas também de conteúdo. Encontraste os conteúdos do livro chocantes ou interessantes? Tragou saliva.

— Ambas as coisas em parte, suponho. Ele aproximou da escrivaninha e recolheu dois recortes de papel. Abriu o livro, passou umas quantas páginas, colocou os recortes entre duas delas e voltou a aproximar de Diane. — Por que não decide encontrar estes mais interessantes que chocantes? Estendeu o livro com as páginas marcadas. Ela se perguntava se seria um engano por sua parte agarrá-lo. Ele sorria com esse sorriso tão dele e uma cálida diversão iluminava seus olhos. Estava jogando com ela. Desafiando-a. Mas Diane tinha a impressão de que ele queria que o agarrasse. Que não importaria que ela encontrasse aquilo mais interessante que chocante. Madeline Hunter – O Sedutor

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Agarrou o livro e, com o que pretendia ser uma expressão sofisticada, abriu a primeira das páginas marcadas. Para ela agora essa lâmina não tinha nada de chocante. De fato, muitas vezes enquanto faziam o amor ela se perguntava se Daniel faria aquilo com ela. Envaidecida agora, procurou o outro gravado. Estava para o final do livro, era a lâmina XVI. Contemplou a imagem. Não resultava de tudo claro o que a gravura representava. Moveu a lâmina para a direita, logo para a esquerda, tentando decifrá-la. A não ser que o homem… — O que faz? — Está beijando-a. — Ah. — A imagem de repente cobrava um sentido escandaloso. — Parece um lugar muito estranho para dar um beijo a alguém. — É um beijo muito especial. — Não posso acreditar que ao homem faça muita graça. — Eu acredito que sim. Talvez inclusive mais que à mulher. Diane tocava nervosamente o recorte de papel que assinalava a lâmina. — Tem acaso a intenção de me beijar assim esta noite? — Sim. A menos que me proíbas. Perguntava se o proibiria ou não. Tinha superado o assombro inicial, mas a ela seguia parecendo muito estranho fazer algo assim. — Posso decidi-lo mais tarde? — Nada acontecerá jamais entre nós sem que você queira. O polegar de Diane soltou a borda da página e a lâmina deu a volta. A imagem seguinte era bastante parecida, mas também mais complexa. — Olhe aqui. Esta vez é a mulher quem está beijando ao homem. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel inclinou a cabeça para ver a lâmina. — Efetivamente. — Mas não a assinalou. Ele não respondeu. — Suponho que isso quer dizer que parece mais chocante que interessante. Silêncio. — Não gosta os homens que lhes beijem assim? Ele limitou a olhá-la. — É muito seletivo, Daniel, nas partes do livro que quer que eu tome em conta. — Deulhe um golpe com a encadernação contra o peito, como se o arreganhasse. — Se supõe que devo te permitir que me dê beijos muito estranhos, enquanto que você te economiza coisas semelhantes. Mas talvez também goste de dar beijos especiais em você. O que te pareceria isso? — Imagino que me deixaria convencer. — Assim o espero. A final de contas se tiverem que ocorrer coisas estranhas nessa cama, parece-me que você deve submeter a elas tanto como eu. — Tem toda a razão. Reconheço meu engano. Tomou o livro, rompeu o segundo marcador em duas metades e colocou uma assinalando a lâmina XVII. — De fato, se você decidisse algum dia me submeter a isto, acredito que… — O que crê? — Acredito que o mais provável é que ao dia seguinte te comprasse um colar de diamantes. Diane estava sentada ao lado da janela, esperando os sinais do retorno de Daniel. As luzes na rua jogavam para a noite auréolas de uma luz sinistra, e as poucas carruagens e cavalos que Madeline Hunter – O Sedutor

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passavam por ali foram tão somente de passagem. Diane não sabia onde tinha ide Daniel aquela noite, mas havia dito que não voltaria muito tarde. Ela tinha renunciado a um convite ao teatro para poder estar quando retornasse. Por fim o viu. Não era mais que uma sombra ao fundo da rua, mas sabia que era ele porque o cavaleiro não levava chapéu. Mordendo-os lábios, abandonou o salão e entrou em seu quarto. Permitiu que a criada tirasse seu vestido e o espartilho antes de despedi-la até o dia seguinte. Uma vez sozinha, abriu uma gaveta de seu armário e tirou o pequeno livro vermelho. Procurou a primeira das lâminas que Daniel tinha marcado. Tinha examinado em várias ocasiões

durante a tarde. Em certo momento, não sabia exatamente quando, tinha começado a resultar muito mais interessante que chocante. Não representava, em realidade, nada estranho. Um pouco diferente, mas sem chegar à libertinagem. Jogou uma última olhada à lâmina e devolveu o livro à gaveta. Começou a apagar as velas, mas logo parou. Havia velas acesas na imagem. Tirou as anáguas. Vestida unicamente com suas meias, subiu à cama. Afastou todos os travesseiros, à exceção do maior. Ficou de joelhos com este diante, e deitou para que formasse um pequeno vulto debaixo de seus quadris e elevasse o traseiro sobre uma pequena colina. Repassou a gravura em sua mente e separou as pernas. Sentia-se muito perversa nesta posição. Os sons na quarto do lado anunciaram a presença de Daniel. Escutou seus movimentos enquanto tirava a roupa e o grave murmúrio da conversação com seu ajudante de câmara. O simples feito de ouvi-lo e esperar sua chegada a excitava. Madeline Hunter – O Sedutor

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A excitava também essa postura. Surpreendia-lhe sua capacidade de estimulá-la. A espera e a vulnerabilidade pareciam incrivelmente eróticas. Os murmúrios terminaram. Os movimentos cessavam. Ouviu passos ao lado da porta que unia o quarto dela com o quarto de vestir de Daniel. Daniel parou diante a porta ponderando a possibilidade de dormir em seu próprio leito aquela noite. O ânimo havia tornado sombrio e nervoso. As lembranças retornavam permanentemente agora. Cada vez que pensava em Tyndale ou via a Jeanette, alagavam-lhe a cabeça imagens atrozes que gelavam seu sangue. Diane merecia algo melhor. Não queria poluí-la com isso. Nem queria que notasse que até ela era incapaz de vencê-lo. Realmente não deveria ir com ela. Abriu a porta de todos os modos. As velas seguiam acesas. Normalmente as apagava antes de deitar, para que não houvesse nenhum risco de incêndio durante a noite. O tênue brilho iluminava a quarto com uma luz vaga e misteriosa. Daniel entrou e em seguida a viu. Estava tombada sobre a cama em uma postura erótica. Deu conta de que era a postura do livro. As meias seguiam agasalhando as pernas até as coxas, mas não tinha posto nada mais. As

costas nuas descendiam até a base da coluna vertebral e logo levantava em uma curva mostrando a turgidez erótica de seu traseiro elevado. Parou atrás dela, enfeitiçado pela imagem de abandono de uma mulher que o esperava, convidando-o a se aproximar. O desejo o atravessou como um relâmpago, e tanto seu estado de ânimo como a postura total de Diane lhe deram uma força selvagem. Madeline Hunter – O Sedutor

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Tirou a bata. — Deve ter intuído meus mais profundos desejos esta noite. — Decidi que não era tão chocante. Ele não conseguia ver o lado da cara que apoiava sobre suas mãos. — Me olhe, Diane. Ela levantou a cabeça e olhou para trás, por cima de seu próprio corpo. As luzes em seus olhos eram inequívocas. A surpresa ante a excitação e a espera faziam sua expressão tão provocadora como à postura. Daniel subiu à cama e ajoelhou por cima dela. Beijou-lhe as costas, percorrendo toda sua coluna vertebral. — Está há muito tempo esperando? — Não muito. — Excita estar assim? Voltou a apoiar a cabeça entre as mãos e assentiu. Ele ajoelhou atrás dela e acariciou as nádegas com ambas as mãos. As costas de Diane inclinava ao tempo que seus quadris subiam um pouco mais. Mordeu o lábio inferior. — Já está úmida? — Podia ver que sim e estava contente de que fosse assim. Seu estado de ânimo não toleraria muitas preliminares amorosas essa noite. Diane voltou a assentir. — Bem. Porque te quero agora, em seguida. Entrou nela. Um prazer cru tomou o controle, obscurecendo tudo justo como ele tinha esperado. Só existia esse veludo dela agarrando-o. — Está nas nuvens — disse Diane.

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Pelas cortinas abertas podia ver uma lua radiante no céu escuro. Uma brisa suave refrescava o suor que brilhava sobre a pele. — Demorei muito tempo em entender o que ocorre quando fica assim. Sua mente está em outro planeta, não é assim?

Em outro planeta. Em outra vida. Tinha razão, e a Daniel incomodava que isso voltasse a ocorrer. — Sinto muito. — Não importa. Estou segura de que preocupa com seus assuntos de negócios. Sei que não posso tê-lo sempre para mim. Daniel beijou a testa dela, abraçando-a. Ela se abrigava junto a ele, apoiando a cabeça contra seu peito e envolvendo-o com um braço. Daniel refletia sobre seu encontro com Tyndale. Tinha que ter rechaçado a oferta de envolver nesse assunto. Tinha que ter exigido o dinheiro e ter sentido satisfeito com a pequena vitória. Em vez disso, tinha sido incapaz de resistir à oportunidade de arruiná-lo por completo. Sentia-se como uma vítima de seu próprio jogo. Tinha passado anos seduzindo a outros homens com prêmios que atraíam suas grandes debilidades. Hoje, sem querer, era possível que um desses homens tivesse feito o mesmo com ele. “Acredito que temos muitos coisas em comum.” O pálido ombro de Diane aparecia através de seus largos cachos. Daniel olhava como suas próprias mãos o percorriam, acariciando essa pele luminosa. Não estava arriscando-se a uma simples ruína ao sucumbir a essa tentação. Não se tratava de um desastre econômico. O perigo real estava ali, nesse abraço. A autêntica perda podia ser essa felicidade que agora possuía junto a sua esposa, e a liberdade da que gozava seu espírito quando sentia genuína e completamente com ela.

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“Há coisas que preciso dizer a você. Coisas que deveria ouvir de minha boca e de ninguém mais.” As palavras estavam primeiro em seu peito, logo em sua garganta. Entretanto, não conseguiam chegar mais longe. Se ela soubesse, nunca o perdoaria. Diane inclinou a cabeça para vê-lo melhor. À luz da lua Daniel a viu sorrir antes de estirar-se para beijá-lo. — Tenho trinta e dois anos. — Não sabia nem por que o dizia. Simplesmente saiu, possivelmente para animá-la a fazer mais pergunta que exigissem a verdade. — Na Escócia sentia curiosidade por saber minha idade. Tenho trinta e dois. Diane o olhou pensativa. — E veio aqui aos oito anos? Então possivelmente tinha razão à condessa. Contou-me que havia rumores de que emigrou na época da revolução. É certo? — Sim. Ela apoiou sobre um cotovelo para olhá-lo. — Era seu pai um aristocrata? Fugiram?

— Meu pai não era um aristocrata. Mas decidiu partir. Eram maus tempos e ninguém estava a salvo. — Assim vieram aqui para viver nessa casa da Escócia. Onde estão seus pais agora? — Minha mãe já tinha morrido quando viemos. Meu pai morreu pouco depois de nossa chegada. Louis veio conosco. O cavalheiro nos tinha ajudado a sair, porque era um velho amigo de minha mãe. Encarregou-se de mim até que tive a idade suficiente para me cuidar sozinho. — Margot disse que foi para o mar muito jovem. — O tom de Diane era como o de alguém que chegava ao final de um conto, feliz de ter lido o livro inteiro. Tornou-se para trás apoiando-se sobre seus braços. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Recorda muitas coisas daqueles tempos? Desde quando chegou aqui, e de sua vida de antes, na França? — Tenho a sensação de recordar tudo. Cada dia e cada coisa que tinha visto. Cada perda e cada medo. Recordava tudo muito bem. — Em troca eu não recordo quase nada. Ambos abandonamos nossas casas de meninos e logo tivemos outras novas. Por que você tem lembranças tão nítidas enquanto eu tenho tão poucas? — As lembranças são caprichosas. Algumas desaparecem e outros, às vezes insignificantes, duram para sempre. Possivelmente a diferença seja em que eu já tinha deixado de me sentir um menino quando empreendi essa viagem. Não sentia para nada como um menino. A vida já o tinha feito velho, duro e cansado. Não ficava nada da infância quando embarcou com Louis nesse pequeno navio. A conversação produzia esse ambiente íntimo que só criam as confidências noturnas. Apagava o dia e todas suas distrações. Daniel saboreava seu abandono. Os braços de Diane estreitavam em torno dele. Ela beijou o peito dele. — Daniel, eu preciso dizer algo. Eu vim para a Inglaterra em busca de algo. Havia um… buraco dentro de mim, um vazio, que parecia não me abandonar nunca. Pensava que se conseguia encontrar a meus parentes e minha história, seria capaz de enchê-lo. Acredito que pensava que me sentir querida o encheria. A Daniel doía no coração essa infelicidade dela, todos esses anos com esse vazio. Desejava com toda sua alma estar em condições de repará-lo, mas sabia que de todos os homens do mundo ele era precisamente quem não podia fazê-lo. — Encontrei o que procurava. — A voz de Diane era apenas um sussurro. — Estava totalmente equivocada. Pensava que me sentir querida encheria esse espaço vazio. Mas tenho

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descoberto que o que o enche é o fato de querer a outra pessoa. — Ficou calada, enquanto o silêncio implorava por mais palavras. — Sei que você não sente o mesmo, e não me importa. Acredito que deveria me importar e possivelmente algum dia chegue a importar. Mas agora mesmo meu amor por ti me enche tão completamente que só por isso me sinto agradecida. Suas palavras o tocaram tão dentro que Daniel era incapaz de falar. Aproximou-a até colocá-la em cima dele, a cabeça dela apoiada sobre seu ombro e sua cara frente à sua. Podia abraçá-la assim e sentir o tato de seu corpo ao longo de sua pele. “Conviria ter mais cuidado com seu amor.” Queria dizê-lo, para avisá-la. Mas não o fez. Em lugar disso levantou o corpo de Diane para poder voltar a penetrá-la, para que sua paixão obscurecesse não só a advertência, mas também a razão pela que deveria fazer-lhe. Elevou seus ombros até fazê-la ficar sentada, escarranchado sobre seus quadris, comodamente enganchados os dois. Aquela postura em que ela dominava a situação a confundiu. Parecia não saber muito bem o que fazer e sentisse surpreendida ao encontrar unida a ele antes de estar desesperada pelo desejo. — Isto não estava nas lâminas que me marcou — disse. — Não. Desagrada-te? — É diferente, te sentir dentro antes que eu… — Estudou outra vez a situação. — Ficamos assim e já está? — Um leve deslocamento acompanhou a pergunta e de uma vez a respondeu. Inclinou para diante para se acomodar. — Fique assim, para que possa tocá-la. — Estendeu os braços para acariciá-la. Sob seu tato Diane voltou a ficar excitada e estreitou o abraço. Ela estava bela, como uma estátua escura banhada na tênue luz da lua. Contemplava como as mãos de Daniel percorriam seu corpo. O auge lânguido de prazer criava uma intimidade maravilhosa. Daniel estava alerta a cada reação dela, a cada fôlego.

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Diane endireitou e passou as suaves palmas das mãos pelo torso dele. Não dizia nada, mas a declaração de amor que acabava de fazer voltava a repetir em sua forma de tocá-lo e de contemplá-lo. O coração de Daniel ardia dolorosamente. Belamente. Inclinou-a para seu rosto para poder beijar os lábios, logo mais ainda até que sua boca alcançou seus seios. Já não tinha que lhe mostrar o que fazer. O prazer o ensinava. Apoiava-se por cima enquanto a língua de Daniel lambia os seios. Os quadris moviam em resposta aos delicados e profundos tremores, atando-os duas em uma união absoluta.

O êxtase chegou devagar, em um comprido ascensão que os levasse a outros mundos. Os gritos de Diane, sua maneira de mover, seu assombro ante tanta intensidade… oferecia a ele um escapamento total para seu espírito e seu coração. Daniel não fez nada para acelerar o final. Postergava a chamada do clímax, sem querer renunciar à melancolia que havia sob o prazer. Entre seus braços, por um momento, deixava de ser um escravo das lembranças e da ira.

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Capítulo 22

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— Dupré está gastando dinheiro como um homem com grandes expectativas — informou Adrian. — Está voltando para todos os lugares onde o levei a começo para procurar mais fornecimentos, pedindo zinco, cobre, discos de prata, recipientes, produtos químicos e ferro. Muito ferro. Daniel tirou a camisa e a pendurou no cabideiro de seu quarto de vestir. Saiu com Adrian até o vestíbulo. — Preocupa-me esse teu sócio, Daniel. Disse em Paris que o ajudaria porque me salvou desses problemas na Síria. Falou de ajustar contas sem que corresse o sangue e tudo soava não muito mais sério que uma brincadeira. Mas eu não gosto da idéia de que alguém seja arruinando. — Investigarei para me assegurar de que nenhum inocente resulte prejudicado. Daniel não tinha explicado a Adrian que esse sócio era Andrew Tyndale. Não tinha comentado que seus planos a respeito de Gustave tinham tomado uma nova e diferente direção. — Acredito que deveríamos denunciar todo o assunto, para não correr riscos. — Com o tempo sim, mas ainda não. Assumo toda a responsabilidade. Conheço o sócio, e nem ele nem Dupré merecem sua preocupação. Acredite-me se disser que seus crimes são tão grandes que inclusive suas mortes seriam um castigo insuficiente. — Me sentiria melhor se dissesse isso tudo, Daniel. É evidente agora que sei bastante pouco. — Confia em mim. Não queira sabê-lo tudo. Daniel não queria que Adrian soubesse tudo. Se assim fora, ao melhor se sentiria obrigado por honra a avisar Tyndale. O filho de um conde sentiria o dever de proteger ao filho de um marquês. Adrian o olhava com cepticismo. — Temo que isto se converteu em uma fraude. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Sempre foi uma fraude, só que agora está em jogo não só uma reputação, mas também o dinheiro. Não é nossa a fraude, entretanto. Eu não sou responsável pelo que está fazendo Dupré. Foi

à avareza. E seu sócio é um ladrão, igual à Dupré, e é impossível fraudar a estelionatários. Não é nenhum pecado mentir ao diabo. — Isto se está pondo um pouco turvo, não crê? Qual de vós é o diabo e o estelionatário? Daniel jogava com o sabre. — Não há nada turvo. Somos todos estelionatários. Não tenho ilusões a respeito. Diane desceu pelo atalho do jardim envolta em uma nuvem de felicidade. Flores de muitas cores apareciam em seu passo e a pereira estava em flor. Adorava esse jardim, essa casa e sua vida. Parecia maravilhosa a forma em que havia tornado a nascer com esse amor. Sentia-se segura e reconfortada, desejada e plena. Agora desfrutava de todas as coisas que nunca tinha conhecido. Era como se a moça no internato não tivesse existido jamais. Jeanette estava sentada sob a pereira. Das bodas, Jeanette também tinha estado mais contente. Eram irmãs agora, e Jeanette estava acostumado a perguntar a respeito das festas e as peças de teatro que assistia Diane. Esta confiava em que algum dia Jeanette abandonaria sua vida de reclusão para acompanhá-los, a ela, à condessa ou a Daniel quando saíam de casa a noite. — Quando o tempo fique mais quente neste verão, talvez possamos ir todos a Escócia — disse Diane. Enquanto ia recolhendo, entregava a Jeanette as flores da pereira. — Imagino que gostaria de ir ali antes que termine esta visita a Inglaterra. Jeanette encolheu os ombros, aproximando as pequenas flores a seu nariz. — Ficou ali quando Daniel foi para o mar? Deve ter sido um lugar muito solitário. Muito isolado, sobre tudo depois da morte de seu pai. — Estar sozinha nunca me fez sentir nem triste nem solitária. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Quem te cuidava? Já tinha ao Paul contigo? — Durante os primeiros anos em que Daniel esteve viajando, duas mulheres me cuidavam. — Jeanette fez um gesto de impaciência. Foi há muito tempo. Já não penso naquilo. Assim que Daniel fez sua fortuna me levou de volta a França, onde pertenço. A diferença de meu irmão, nunca consegui me sentir cômoda aqui. De fato vou pedir que organize em breve minha volta a Paris. Levo muito tempo nesta cidade. — Eu adoraria que pudesse ficar aqui conosco. Eu não gosto de pensar que o fato de me casar com seu irmão signifique perder sua companhia. — Virá a Paris muitas vezes. Deve insistir em que Daniel a leve. Ele sente por essa cidade o que eu sinto por Londres, mas se pede a levará. Diria que viesse a me visitar você sozinha, mas acredito que ele te necessita mais que eu.

Era estranho que Jeanette dissesse isso. Daniel não necessitava a ninguém, até onde Diane sabia. Tinha tido uma vida independente e cheia de aventuras. Parecia contente com seu matrimônio, até feliz, mas não a necessitava. Desfrutava de sua companhia, mas não resultava imprescindível. Chegou o correio. Jeanette repassou um punhado de convites e as apartou com um murmúrio de exasperação. Apesar de sua vida de reclusa, os convites não deixavam de chegar para Jeanette, pequenos aguilhões diários que a zangavam. Nos últimos tempos vinham com maior freqüência, e Diane supunha que isso tinha que ver com a curiosidade dos que a convidavam. A história do matrimônio de Daniel fazia dessa irmã invisível um tema de especulação. Algumas damas tinham chegado inclusive a visitá-la, mas Jeanette se negou a recebê-las. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Decepcionar-lhes-á — disse Diane. — Se converteu em um jogo, para ver quem consegue que aceite o primeiro convite. Se decidisse aceitar um, espero que não seja de ninguém que se levou mal com Pen. — Se trocasse de opinião algum dia, só a condessa seria digna de um triunfo assim, asseguro isso. Mas me nego a ser um troféu para essas mulheres. Diane ficou a folhear suas próprias cartas. — Aceitará meu convite, ao menos? Acredito que oferecerei um jantar nos próximos dias. Um pequeno, com Pen e seus irmãos e talvez o senhor Hampton, embora não seja muito boa companhia, porque mal que fala. — Ao fundo do pequeno montão de cartas havia uma escrita em um papel menos elegante. Deslizou o polegar por debaixo do simples selo. — O que opina? Posso tirá-lo sem fazer um desastre de… Ficou gelada e sua voz emudeceu na ponta dos lábios. Havia uma palavra muito surpreendente na parte superior da folha que sujeitava nas mãos. Era o nome do povoado da qual enviou a carta. O povo de onde escrevia o remetente. Fenwood. A primeira linha da escritura revelou que a carta provinha do pároco de Fenwood, o senhor Albert. Depois das cinco primeiras palavras, Diane percebeu que Andrew Tyndale jamais tinha visitado pároco. A carta era a resposta a aquela que ela tinha enviado durante a festa de lady Pennell. Diane leu a toda velocidade. O coração acelerou, os batimentos do coração ficaram primeiro suaves e rápidos e logo fortes e estrondosos. A cabeça retumbava como se nela golpeasse uma bigorna, acompanhando o compasso.

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Tinha captado o essencial da carta, e era suficiente para deixá-la sem fôlego. Voltou para começo e a leu outra vez. Enquanto absorvia as implicações do conteúdo, o tambor das emoções desacelerava até converter em um pulso instável. Leu pela terceira vez a carta, tentando forçá-la a dizer o que não dizia. Seu coração doía tanto que acreditou que ia se romper. Teve forças para manter o de uma só peça. Sabia que se não o fazia os fragmentos acabariam ainda mais despedaçados pelas ondas de confusão que estalavam em sua cabeça. — Jeanette, onde foi Daniel hoje? — O que acontece, carinho? Parece a ponto de desmaiar. — Onde está Daniel? — Levantou os olhos da carta e viu como Jeanette franzia o cenho, preocupada com ela. — Onde? — Acredito que saiu a cavalo para o Hampstead. A ver o cavalheiro. Diane enrugou a carta com o punho e ficou de pé. Não havia movimento na casa de Hampstead. O cavalo de Daniel estava preso na entrada. Nenhum estrondo de espadas transpassava as janelas abertas. Diane não esperou que o chofer abrisse a porta. Fê-lo ela mesma, impaciente por sair dali. Por ordem dela, tinham chegado quanto antes e os cavalos agora ofegavam, sopravam e jorravam suor. A fúria que a impulsionou a sair de Londres tinha amainado. Sentia agora as náuseas da desolação. Olhava a carta, enrugada em sua palma. Se nunca tivesse falado com essa criada… se nunca tivesse escrito ao pároco… se este, como dizia a carta, tivesse seguido sua primeira inclinação de não responder… Se qualquer dessas coisas tivesse ocorrido, Diane teria seguido sendo feliz um pouco mais.

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Doía deu coração. Doía seu peito inteiro. Ardentes lágrimas queimavam seus olhos. Lamentava que não tivesse sido permitido mais tempo de plenitude antes que a verdade chegasse para estelar seus sonhos e voltar a esvaziá-la. Sentia vontades de atirar a carta e fingir que jamais a tinha recebido. É o que seu amor queria, com desespero. Mas não podia fazê-lo. Afastou-se da casa. Tinha vindo para falar com o Daniel, mas podia esperar. Não era tão valente para celebrar a idéia de enfrentá-lo com suas perguntas e escutar as respostas que daria.

Entrou no bosque e encaminhou pelo atalho. Seus pés sabiam exatamente para onde foram. É obvio que sabiam. Sempre o tinham sabido. Não tinha se perdido em sua primeira visita. Sem ter nem que pensá-lo tinha encontrado o caminho da casa grande à pequena casa de campo. Divisou-a ao aproximar da clareira. Esta vez não teve a sensação de estar vivendo um momento repetido. Parecia nitidamente familiar. Fragmentos de lembranças relampejavam em sua mente, dos arbustos menores e o atalho mais largo. Aproximou do poço para olhar ao fundo. O eco de uma voz de mulher a chamava em sua cabeça, advertindo que não subisse ali porque era perigoso. Girou quase esperando ver na soleira da porta a uma anciã vestida com um gorro e objetos singelos. Abriu a porta, mas nenhuma mulher saiu da casa. Era George, o homem que agora vivia ali. Parou para estudá-la. — Quer algo? — perguntou ele com curiosidade. — Você parece doente.

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— Não estou doente. — Olhava-o atentamente, implorando a sua mente que cooperasse. — Quando nos encontramos a vez passada você disse que levava muitos anos neste lugar. Sempre viveu nesta casa? Negou com a cabeça. — Antes vivia ali, onde estão os estábulos. Era moço de quadra por então, quando havia todos aqueles cavalos. Cheguei a ser o chefe dos cavalariços ao final. Logo ficou vazia e todos se foram, e eu me encarreguei do cuidado da propriedade, e sigo fazendo-o hoje. Cavalos. Sim, é obvio. Imaginou George com muitos menos anos, seu cabelo menos branco e sua barba mais escassa. — E a mulher que vivia nesta casa antes de você? A anciã? O que aconteceu ela? — Alice? Você sabe da Alice? Diabos! Ah, perdoe, sinto-o… É que me surpreendeu. Ficou um tempo mais, mas logo faleceu, ah, faz uns dez anos agora, assim que me instalei eu. — Inclinou a cabeça. — Como conhece você a Alice? — Sou Diane. Ficou boquiaberto e logo um enorme sorriso iluminou a cara. — Raios e trovões! Algo me resultou familiar aquela vez quando nos vimos. Não sabia por que. Algo que notava. É obvio! Você não era mais que um pequeno inseto quando partiu. E agora converteu em uma dama, verdade? Enfim. Quem o houvesse dito. Sim, em uma dama. Só uma pessoa não se surpreenderia com esta transformação. — Poderia ver a casa? Por dentro?

Deixou-a passar, assinalando o caminho como um cavalheiro. — Como não? Você viveu aqui quando menina, não é assim? Parou na soleira e respirou profundamente. Sua casa. Deu um passo para dentro. Madeline Hunter – O Sedutor

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As lembranças a assaltaram, enganchando-se a tudo o que via. Não ao espaço em conjunto, a não ser aos detalhes e sensações. A forma em que a luz projetava sobre o chão da janela aberta. Esse aroma que cada casa possui, peculiar e único. As vigas do teto e a forma em que uma delas gretou por uma de suas bordas. A lareira. Vê-la provocou de maneira súbita lembranças tão completas como precisos. A lareira no verão, fria e sem vida, mas uma fonte de calor no inverno quando uns braços a embalavam. Não permaneceu ali muito tempo e tampouco quis ver as demais habitações da planta superior. Não podia fazê-lo hoje. As lembranças não proporcionavam nenhuma paz. Não enchiam esse vazio angustiante que sentia por dentro. Em outra ocasião talvez fosse distinto. Outro dia, em que seu coração não pressentisse essa infelicidade atroz que a esperava, talvez desfrutasse ao reencontrar com essa história que durante tanto tempo tinha desejado descobrir. Armando-se de coragem, voltou para a casa. Seus pés souberam atravessar o bosque sem equivocar-se. O atalho a levou a aproximar-se da casa grande de um ângulo que a mostrava dos lados e de trás. Era como se essa imagem das vigas cortadas que se sobressaíam diagonais da esquina vertical, estivesse gravada em sua memória. A familiaridade a surpreendeu. Se houvesse tornado a vez anterior por aquele atalho e não por outro, se os beijos de Daniel junto ao arroio não a tivessem distraído tanto, teria percebido o que aquele sítio representava para ela. Os beijos de Daniel… Parou para fechar os olhos e reprimir um pesar insuportável. Encontrou-o na casa. Ouviu um murmúrio de vozes e o seguiu até um quarto no fundo da casa. Pequeno, ordenado e mobiliado com parca elegância, parecia ser o salão privado do cavalheiro. Sentados em duas cadeiras ao lado da janela, Daniel e ele compartilhavam uma garrafa de vinho. Estavam sem as jaquetas. Ofereciam uma imagem de relaxada amizade, de confiança absoluta. Madeline Hunter – O Sedutor

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Tinham ouvido que alguém aproximava. Deixaram de falar antes que Diane chegasse. Seus olhos a esperavam quando achou ante a soleira do salão. — Diane. — O tom de Daniel revelava surpresa e curiosidade. — Acreditávamos que era o carro de um dos alunos do Louis.

— Só sou eu. — As acusações agudas e engenhosas a tinham abandonado e também a fúria inicial. Não podia fazer mais que olhá-lo e desejar que esse dia jamais tivesse chegado a existir. — O que é que quer carinho? — Vim visitar a casa de meu pai. A cara de Daniel se decompôs. O cavalheiro apertou os lábios e abandonou a quarto. — Eu os deixarei sozinhos. Diane apartou para deixá-lo passar e logo aproximou de Daniel, que tinha posto a olhar pela janela, para o bosque e o prado que descendia ondulante pela colina detrás da casa. — Não faça isso — disse Diane, enquanto sua mão seguia obstinada à carta. — Não me ignore desse modo. Agora não. Olhou-a. Ao ver sua expressão, Diane soube que ele se sentia igual a ela, que ele também desejaria que esse dia jamais tivesse chegado. — Não te ignoro. Nunca te ignorei. Não estiveste jamais em minha presença sem que eu não estivesse total e absolutamente pendente de ti, inclusive quando foi jovem e me tivesse gostado de tirar de minha cabeça. Estendeu uma mão para ela, mas Diane deu um passo atrás. Suspirando, ele deixou cair à mão. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Como sabe que esta era a casa de seu pai? Mostrou-lhe a carta enrugada. — Meu avô escreveu em resposta a minha carta. Não ia fazê-lo. Nem sequer sabe quem sou, mas eu sim sei agora. Explicou-me o suficiente para compreendê-lo. — O que explicou que te tenha doído tanto? — Que sua filha morreu durante o parto. Que ela não estava casada com o pai do bebê. Que o pai aceitou cuidar de menino, em uma casa que possuía em Hampstead. Falava cada vez mais forte. As palavras precipitavam, enlouquecidas. — Que o homem que seduziu a sua filha trabalhava com os navios, mas perdeu tudo faz mais de doze anos, e que tanto ele como a filha desapareceram. Daniel a observava, esperando. — Que o homem se chamava Jonathan. Jonathan Makepeace. Não Jonathan Albert, como você me fez acreditar. Albert era o sobrenome de minha mãe. — A agitação interior a superou. Queria lhe pegar, sacudi-lo. Em lugar disso arrojou a carta. Ricocheteou contra a cara de Daniel e

caiu ao chão. — Me enganaste. Permitiu que procurasse a minha família sem nem sequer saber seu sobrenome verdadeiro. — Sim, enganei-te. — Levantou e aproximou dela. — Não me toque. — Separou-se dele, dando largos passos a seu redor. Gesticulou com o braço para assinalar a quarto e tudo o que havia além dela. — Como chegou a possuir este lugar? — Consegui-o uma noite graças às cartas. — Conseguiu-o mediante o jogo? — Eu era muito jovem e Jonathan simplesmente acreditou que ganharia. Começou como uma tolice e logo não deixou de crescer. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Quão mesmo aconteceu com o Andrew Tyndale? — Um pouco parecido. Quase ao final eu tinha ganhado muitíssimo. Seu pai era um homem temerário. Em uma jogada apostou tudo o que ficava seus dois navios, sua casa de Londres e esta também, contra tudo o que eu lhe tinha ganhado. — Estive vivendo na casa de meu pai em Londres também? — Não. Vendi-a para comprar outra alguns anos depois. — E você permitiu que o fizesse? Deixou que o apostasse tudo? As pálpebras de Daniel baixaram. Houve um raio de escuridão. Durante um instante, era de novo o Diabo. — Ah, sim. — Não sente saudades que tenha feito sua fortuna tão rápido. A roubou de outro. O tirou tudo em uma noite! Foi assim, então, como conseguiu seus primeiros navios? — Assim consegui meus primeiros navios. — Como pôde fazê-lo? Arruiná-lo assim? Não tinha por que aceitar essa última aposta. — Aceitei-a com alegria. Eu não gostava de seu pai. De fato, odiava-o. Tinha debilidade pelo jogo e foi isso, e não eu, o que o conduziu à ruína. Ela não podia acreditar na forma em que o dizia. Com voz neutra. Fria. — Assombra-me. Destruiu a vida de meu pai e arruinou a minha, mas não tem remorsos. Nenhum remorso. — Não tenho remorsos por ele. Arrependo-me pelo dano causado a uma pessoa inocente. A forma em que afetou a ti foi uma conseqüência lamentável. — Uma conseqüência lamentável! É uma maneira muito pulcra de expressá-lo, Daniel. Ele deu um passo adiante para tentar impedir o ir e vir incessante dos passos de Diane. Agarrou-a pelos ombros e a olhou.

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— Não sabia nada de ti. Ele não estava casado, não tinha família. Não soube que tinha uma filha até que te vi. Algo em sua forma de olhá-la provocava cautela. Havia algo brando em sua expressão, um arrependimento real, mas não pelo passado. Era a mesma forma em que a tinha cuidadoso aquele dia na carruagem caminho às Tullerías, quando tinha exigido informação. Diane abriu a boca para falar, mas a pergunta engasgou. Seu coração sabia que não queria ouvir a resposta. — Como chegou a ter a mim? — A última aposta incluía esta propriedade e tudo o que havia nela. Quando cheguei para tomar posse dela te encontrei. A verdade devastadora a assaltou como um martelo fazendo perder toda compostura. Seu pai a tinha deixado. Abandonando-a aos caprichos do destino. Possivelmente deveria estar agradecida a Daniel por não havê-la deixado na paróquia local. Algum dia talvez o estaria. Mas naquele momento a devastação era tão absoluta que não havia lugar para a gratidão nem para outra coisa que centenas de perguntas. Algumas dessas perguntas a aguilhoavam com insistência. — Por que mentiu? Por que não me disse isto em Paris? Não acredito que tenha sido para me economizar a dor. Se me deixou pensar que tinha outro sobrenome, se me deixou pedir informação sobre o homem equivocado, devia ter uma boa razão. Afastou-se dela para ficar de novo junto à janela. Não a estava ignorando. Diane sabia, embora fixasse seu olhar na colina ao longe. Toda sua mente estava atenta a ela. A ira de Diane começou a crescer como se formasse um escudo contra o golpe que ela sabia que estava a ponto de receber. — Não me convinha que alguém soubesse que foi a filha de Jonathan Makepeace. — Por quê? — A pergunta saiu em um grito de frustração. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel girou. — Porque Jonathan era um velho amigo de Andrew Tyndale, e eu não queria que Tyndale soubesse jamais que eu tinha conhecido Jonathan. Não queria que Tyndale soubesse quem foi você e que fizesse uma conexão com essa noite de cartas há tantos anos. A confissão só serviu para confundi-la ainda mais. Sua cabeça naufragava entre pedaços e fragmentos de coisas distintas, em uma confusão de impressões e palavras. Cruzou os braços sobre o peito para se manter em pé.

— O duelo. Disse que não tinha que ver só comigo. Disse que Jeanette não se oporia porque conhecia toda a história. Seu coração uivava com gritos silenciosos, alguns acusando, outros implorando. — Tinha planejado desde o começo, para procurar uma maneira de desafiar Tyndale? Não era por mim em realidade, mas sim por outros motivos? É por isso que não queria que ele soubesse de minha conexão com o Jonathan? Daniel trouxe-me para Londres e me converteu em uma dama para servir de chamariz em um duelo contra Tyndale? Vislumbrou a resposta na expressão de Daniel. Logo seu rosto se desfez na neblina e os olhos transbordaram em uma ardência de lágrimas. — Era meu plano inicial, Diane, mas não fui capaz de pô-lo em prática. Que transcorresse assim em que pese a tudo não era minha intenção. Não só a tinha enganado. Tinha pretendido usá-la. Não era capaz de agüentá-lo. Não podia ficar e inteirar-se de mais. Estava chorando tanto que logo que conseguia ver, mas pôde sair a tropeções do quarto e correr até a carruagem. A voz de Daniel a perseguia, chamando-a por seu nome. Madeline Hunter – O Sedutor

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Capítulo 23 Aquele homem esfarrapado o seguia outra vez.

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Gustave jogou uma olhada por cima do ombro. Era o mesmo ladrão que Adrian tinha famoso, o homem da barba. Parecia rondar pela zona onde Gustave tinha encontrado alojamento. Adrian tinha razão, sem dúvida. Devia ser um ladrão de carteira que vivia a costa dos homens de negócios e advogados que freqüentavam essas ruas. Devia ter reconhecido o corte estrangeiro da jaqueta do Gustave e ter decidido que terminaria por ser uma presa fácil. Era incômodo sentir-se vigiado. A Gustave não gostava de nada a idéia de que esse homem talvez o estivesse seguindo às vezes sem que ele se desse conta. Era possível, inclusive, que esse ladrão soubesse do abrigo ao outro lado do rio. A idéia o assustava. Poderia ser uma catástrofe. Havia limites a tudo. Faria esse ladrão saber que o tinha fichado, e que mais valia seguir a alguém menos ardiloso. Gustave começou a caminhar mais devagar. Finalmente deteve por completo para examinar os livros exibidos na cristaleira da loja de um impressor. Com a extremidade do olho via que o ladrão não seguia caminhando, mas sim tinha parado a esperá-lo. Parecia mais atrevido. Zangado, Gustave começou a caminhar mais depressa. Conseguiu estabelecer certa distância entre ele e seu perseguidor, e entrou em uma cafeteria. Escolheu uma mesa ao lado da janela e observou como o homem passou por diante. Logo deu a volta e entrou também na cafeteria. E foi sentar à mesma mesa do Gustave. Em realidade, isso já era muito. — Se pensar que pagarei para que me deixe em paz, escolheu mal a sua presa, monsieur. — Gustave falou com raiva, e foi só ao final que percebeu que tinha falado em francês e que esse criminoso jamais o compreenderia. Confiava, não obstante, em que o tom chegasse a transmitir suficientemente bem a mensagem. O homem sorriu e tirou o chapéu. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Pensei que já é hora de que falemos.

Para assombro do Gustave, a resposta chegou também em francês. — Parece-me extremamente improvável que você e eu tenhamos algo do que falar. — Temos muito do que falar. Por exemplo, podemos falar da forma em que o estão levando a ruína. — Você olhe… — Não, você olhe. Aqui. Justamente aqui. —destacava-se os olhos. Perplexo, Gustave esquadrinhou profundamente os olhos do homem. Um sobressalto de assombro o deixou enjoado. — Meu deus, é você! Mas você está morto! — Não estou morto. Simplesmente sepultado faz tempo que no álcool e uma pobreza atroz. — Esta é uma surpresa tão grande… O que quer dizer com isso de que me estão levando a ruína? — Estão o usando. O levarão a ruína. — inclinou por cima da mesa primeiro fui eu, logo Hercule, agora você. Levados a ruína, um após o outro. — Que ridículo. Ninguém está me levando a nenhum sítio. — Não? O que faz então na Inglaterra? Gustave o olhou com soberba. — Isso é meu assunto. — Só seu? Ninguém mais está envolto? Gustave removeu em seu assento, de repente incômodo. — A você não o levaram a ruína. Foi sua própria personalidade a que o arruinou, como aconteceu também ao Hercule. Você sempre quis a riqueza fácil, e ele sempre desejou a glória. Madeline Hunter – O Sedutor

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— E o que é o que sempre quis você, Dupré? Está-o procurando agora na Inglaterra? Uma rajada de inquietação obrigou Gustave a trocar de postura. — É obvio que não. — Então me equivoco. Não sou mais que um homem muito apegado à bebida, que imaginou planos que não existem. — levantou-se. — E pensar que percorri tanta distância para avisar a um velho amigo. Tive que viajar de vagabundo sob um montão de tecidos para atravessar o canal da Mancha. A inquietação voltou a turvar Gustave, danificando sua alegria ao ver partir aquele fantasma. — Espere. Sente-se. Tome um café. Conte-me quais são esses planos que viu.

Esperaram a que chegasse o café, e o homem esfarrapado pediu uns bolos e deixou que os pagasse Gustave. — Fale — exigiu Gustave, que já suspeitava que só estava aproveitando para comer grátis. — Quando perdi tudo o que tinha, fui correndo ao continente. Tinha dívidas na Inglaterra. Enfim, é uma velha história. Instalei-me em Nápoles. Um dia, faz algo mais de dois anos, justo depois de que Napoleón fora enviado a Elba, vi um de meus navios no porto. Tinha trocado um pouco com os anos, claro, mas o reconheci. — Assim viu o navio. E o que? — Perdi o navio pelo Edward Saint Clair. O navio era então propriedade da mesma pessoa, um homem com mais anos agora e com outro nome: Daniel Saint John. Gustave deu um salto. — Quando me encaminhei para a França, inteirei-me do ocorrido com o pobre Hercule. Que estranho que uma confidência a um oficial inglês tenha chegado a ser do domínio público. Madeline Hunter – O Sedutor

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— E acredita que Saint John… — Ele estava acostumado a jantar com os oficiais desse regimento. Acredito que este, entre as taças, resultou indiscreto. Foi curioso me inteirar dessa conexão entre o Saint John e o oficial. Fez-me pensar. — Estou seguro de que está fabricando castelos no ar. É muita coincidência. Você e Hercule… entretanto, houve anos. — Possivelmente. Mas eu pergunto. Você também é uma coincidência? Encontra-se de repente na Inglaterra, muito ocupado em algo. Conheceu alguma vez a este Saint John, ou Saint Clair, ou como se chama? Gustave teve uma estranha sensação na boca. Muito úmida. — O assunto que o ocupa tem que ver com algum encontro com o Saint John? Gustave tragou saliva. — Sim, você está no certo, por quê? — Primeiro eu, logo Hercule, e agora você. Só cabem duas explicações. Primeiro acreditei que Saint John sabia de nossa conexão quando fomos jovens. Entretanto, agora me pergunto se não é mais que um agente de outra pessoa. — Um agente? São muitos anos para que seja um agente. — A não ser que trabalhe para alguém capitalista. Alguém que poderia ser seu patrão. Este Saint John teve grandes êxitos. Recebem-no muito bem na Inglaterra.

— Mas quem? — Alguém, possivelmente, que preferiria ver nossa associação com ele tão sepultada como nossas fortunas e nossas reputações. Alguém ambicioso, a quem não gostaria que o mundo soubesse de certas coisas acontecidas faz muito tempo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Gustave sorvia seu café enquanto as implicações o alcançavam. De repente um azedo sabor revolvia o estômago. — Me diga Dupré, teve entendimentos na Inglaterra com Tyndale? Esse pequeno abrigo ao outro lado do rio que você visita, pertence também a ele? — Abrigo? Que abrigo? Você está equivo… — Explico-lhe por que o pergunto. Saint John teve entendimentos com Tyndale nos últimos tempos, e Saint John conhece esse abrigo. Sei por que o vi ali faz uns dias. Diane nunca se encontrou tão à deriva. Experimentava a existência desarraigada e sem sentido que sempre tinha temido. Tinha deixado o internato, confiada em que a verdade economizaria uma vida assim. Contra o esperado a verdade tinha imposto. Nunca retornaria à casa de Daniel. Dirigiu o carro a uma rua onde se transladou a um veículo alugado, que a levou a casa de Margot. Ao dia seguinte, enviou a procurar um baú de objetos práticos e deu instruções à criada da Margot para que não desse informação sobre o destino do baú. Não queria que Daniel soubesse por agora onde estava, embora enviou uma carta a Jeanette para assegurar que se encontrava bem. Ao saber que tinha abandonado Daniel, Margot a incentivou para que se recuperasse e fizesse novos planos. Mas ainda não estava em condições de fazer nenhum. Uma dor atroz a aturdia e a mantinha inteiramente ocupada. Era como se o vazio houvesse tornado, recuperando vida e apropriando de seu corpo e seu espírito. Virava da raiva à desolação, e a uma desilusão dilaceradora. Revivia seus tempos com o Daniel, com todos seus detalhes, uma e outra vez em sua mente, apesar de seus esforços para expulsá-lo de seus pensamentos. Por debaixo da angústia que tinha quebrado o coração, fluía outra emoção, igualmente devastadora. Um desejo de que as coisas tivessem sido de outro modo. O lamento melancólico pelo fato de que até as lembranças de plácida intimidade se danificaram. Não acompanhava Margot em

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suas visitas e festas. E quando era Margot quem fazia de anfitriã, Diane permanecia encerrada em seu quarto. Não pertencia a esse mundo. Não pertencia a nenhum mundo. De todos os modos, um desses mundos a descobriu no outro.

Três dias depois de receber a carta do pároco, Margot celebrou uma festa. Diane não saiu de seu quarto, mas em algum momento, muito tarde, baixou à cozinha para fazer um chá. No corredor, junto à sala onde os convidados de Margot jogavam às cartas, esteve a ponto de tropeçar de frente com Vergil Duclairc. Surpreendeu-o enormemente vê-la e incomodou ser descoberto ali. Antes que ele fechasse rapidamente a porta da sala de onde saía, ela vislumbrou a cara de certa cantora de ópera. — Assim está aqui. Saint John está… enfim, seu marido está muito aflito. Foi à casa de minha irmã para procurá-la. — Sabe que estou bem. Era por isso que não tinha acudido a Pen. Vergil conseguiu assumir uma expressão severa de uma vez que gentil. — Isto não pode ser. Você sabe. — Não é tão estranho. Pen… — O marido de Pen é um descarado da pior índole. — Possivelmente o meu também o seja. — Isso não é certo. Conheço Saint John e… — Parece-me que você e eu somos muitos jovens para conhecer de tudo a alguém como Saint John. Agora, rogo que me deixe passar. Você está intrometendo, como é habitual entre os homens. Vergil jogou uma olhada à porta da sala atrás da qual Margot e seus amigos riam e jogavam. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Não pode ficar na casa desta mulher. Não é apropriado e você não pertence a este mundo. — Não pertenço a nenhum mundo. Aqui, pelo menos, os amigos de meu marido não passam o dia me arreganhando. Tenho a desgraça de que sua amante conheça a Margot. Se não fora assim, poderia me haver liberado de todas as repreensões. Para ouvir mencionar a cantora de ópera, ele apartou a contra gosto. — Peço que não conte a Saint John onde estou. Vergil não disse nada, o qual significava que sem dúvida contaria a Daniel. Diane não conseguiu pegar olho aquela noite. Sua mente ensaiava a confrontação que viria. Não sabia o que dizer. Muito cedo à manhã seguinte, muito antes do habitual, anunciou uma visita. Não era Daniel. Era uma dama, mas não tinha dado nenhum nome. Diane abandonou seu quarto e baixou à sala de estar, antecipando que Vergil teria enviado à condessa para que a convencesse.

Chegou justo no momento em que um homem muito grande colocava a uma mulher com um véu sobre uma cadeira. Jeanette retirou o véu e indicou a Paul que as deixasse sozinhas. Diane inclinou para beijá-la. — Surpreende-me verte aqui, Jeanette. — Me surpreende verte a ti aqui, na casa de uma cortesã. — Não podia ir à casa da condessa. Tem já muitos problemas como para além de dar refúgio a uma mulher que abandonou a seu marido. A gente dirá que está formando uma Associação de Algemas Desobedientes. A Jeanette não divertiu a pequena brincadeira. — Não deveria estar nem aqui nem com a condessa, a não ser com seu marido. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Jeanette… — Sente-se. Soava muito parecido à ordem de madame Leblanc aquele último dia no colégio. Diane obedeceu. — O que havia nessa carta que leu no jardim o outro dia? Que mal te há dito para que abandone a meu irmão? — Jeanette exigia uma resposta. — Não era um mal. O homem que o escreveu não sabia o que significaria para mim seu conteúdo. Ele acreditava que estava simplesmente explicando que me equivocava ao pensar que ele e eu tínhamos algum parentesco. Não contarei o que dizia. Não quero falar mal de Daniel diante de ti. — Quer economizar isso? Que encantadora. Não pode me contar nada de meu irmão que possa me surpreender. Não, equivoco-me. O afeto que sente para ti, as mudanças que provocaste nele. Suspeito que você conheceste um lado dele que eu jamais poderei ver. Agora me diga o que aprendeste que esse outro lado, que eu conheço tão bem. Diane descreveu o conteúdo da carta e a prova do engano de Daniel. Explicou as revelações que teve que suportar durante sua confrontação no Hampstead. Jeanette não pareceu surpreender-se com a história. — Sim, foste ser um chamariz. Jogue a culpa em mim tanto como a ele. Não fiz nada para detê-lo e em realidade o respirei. Ele nunca teve intenções de te fazer dano, e não te ocorreu nada. Era perfeito. Você foi perfeita. Tyndale gosta das moças jovens, refinadas e inocentes. Tem uma debilidade insalubre por elas que não se atreve a satisfazer com as filhas de sua própria classe social. Não se reprimiria tanto com a prima de um naval. O desenlace foi exatamente o que Daniel tinha previsto, exceto por um inconveniente.

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— Que inconveniente? — Compreender que Jeanette o tinha sabido do começo não fez mais que adoecer ainda mais seu destroçado coração. — Meu irmão apaixonou por você. — Não me acredito. No meu entender concluiu que o plano funcionaria ainda melhor se Tyndale acabava importunando a uma esposa, e não só a uma prima. Parece-me que o plano seguia em marcha. Depois de ser obrigado a se retirar pelo que aconteceu comigo essa noite, acredito que encontrou outra forma de assegurar de que terminaria ocorrendo de qualquer maneira. — As palavras saíram derramadas do rincão mais desolado de seu coração. — Que ridículo. — Jeanette descartou essa idéia por completo. — Se meu irmão tivesse tão pouca honra, não teria respeitado o acordo que fez contigo. Diane mordeu a língua para não recordar que a própria Jeanette não acreditou que Daniel respeitasse o acordo e se comportasse com honra. — Não te explicou por que queria encontrar uma forma de apanhar ao Tyndale, não é certo? — Não quis ouvi-lo. — Não importa. Ele não queria me envergonhar com a revelação dessa história. Acredito que é por isso que não veio aqui ontem à noite para te levar a casa, depois de saber onde estava. Entretanto, eu posso te contar à parte que ele jamais contaria. — Estendeu os braços em um gesto dramático. — Andrew Tyndale é o responsável por isto. Do fato de que tenha tido que chegar até aqui nos braços do Paul, em vez de vir caminhando por meu próprio pé. É o motivo pelo que não visito a Inglaterra, e pelo que não saio de casa. — Está dizendo que Tyndale conhece você? — Conhece-me. Não posso te dizer se me reconheceria. Mas é possível. Ao fim e ao cabo, faz vinte e quatro anos fui sua amante. — Sua amante! Madeline Hunter – O Sedutor

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Jeanette percebeu a surpresa de Diane com áspera satisfação. — Eu era uma moça de dezessete anos. Minha família estava tentando abandonar a França e ele se ofereceu a nos ajudar. Antes que a outros, passou-me de contrabando a Inglaterra. Eu levava jóias e dinheiro, para que quando chegassem os outros já tivéssemos um lugar. Era ignorante e confiada, e quando me seduziu acreditei que estava apaixonada. A Diane não custou imaginar o rosto de Tyndale, muitos anos mais jovem, gentil e preocupado, falando de afeto e aludindo ao matrimônio. Ao fim e ao cabo, fazia o mesmo com ela.

— Comprou-me uma propriedade longínqua. O tempo passava e não sabia nenhuma palavra de minha família. Cada vez que ele vinha e lhe perguntava, dizia-me que essas coisas levavam tempo. Estava totalmente isolada e não tinha notícias do que acontecia na França. Mesmo assim, cheguei a suspeitar. Finalmente, enfrentei-me com ele e exigi que me levasse a Londres. A partir desse dia me converti em seu prisioneira, embora em realidade o tinha sido desde o começo. Continuou abusando de mim, mas a partir de então eu já não tinha nenhuma ilusão. “Temia suas visitas. Odiava sua forma de me tocar. Chegou um momento em que não pude agüentá-lo mais, roubei um cavalo e escapei. Era inverno e o cavalo escorregou. Caí sobre as costas e não pude me mover.” Sua voz revelava os terríveis feitos em frases curtas e neutras. Diane teve a impressão de que Jeanette quase nunca tinha falado do tema, e mantinha sua compostura fazendo uma tremenda força de vontade. Seu olhar estava perdido e seus olhos de repente cuspiam chamas. — Seguiu-me. Encontrou-me ali, em um campo baldio, paralítica. Ainda lembrando suas palavras. “Assim, já não me serve para nada.” Deixou-me ali. Levando o cavalo. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Poderia ter morrido. — O mais provável é que acredite que estou morta. — Crê que era essa sua intenção? — Desde não sê-lo como ia abandonar em meio da neve a uma mulher que não tinha nenhuma capacidade de salvar a si mesma? Entretanto, aconteceu que um granjeiro passou por ali essa noite, e gritei. Subiu-me em seu carro e me levou a sua casa. Sua mulher e sua irmã cuidaram de mim. Vivi com eles durante vários anos, encerrada na cama. Até que um dia Daniel entrou na casa. Não o tinha visto desde que era um menino. Tinha estado me procurando. Em cada viajem a Inglaterra, procurava as propriedades da família de Tyndale e perguntava na zona por uma jovem francesa de cabelo escuro. Terminou por me encontrar e por me levar de volta a França. Abriu os braços, anunciando o fim da história. Diane mal conseguia absorver o horror que devia ter sido a vida de Jeanette. Anos de medo e impotência. — Enquanto Daniel te buscava, por que não chegou simplesmente a confrontar Tyndale e perguntar onde estava? — Houve boas razões pelas que não podia fazê-lo, mas essa é a história de meu irmão, não a minha. Chamou o Paul. Tinha permanecido ao outro lado da porta, como sempre. Tinha-o ouvido tudo. Por sua expressão, Diane pôde adivinhar que ele já conhecia essa história.

Levantou em seus braços a sua ama. De acima, Jeanette olhava Diane. — Está pálida e débil. Amanhã promete ser um dia esplêndido. Acredito que deveria caminhar pelo parque Saint James amanhã pela manhã. Paul diz que há um pequeno lago rodeado de narcisistas. A visita te fará bem. A gente não deveria encerrar-se a menos que tenha uma razão excelente. Madeline Hunter – O Sedutor

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Dupré estava levando de uma maneira muito estranha. Normalmente Andrew não chamaria a atenção, porque inclusive em seus melhores momentos Gustave era um homem peculiar. Era o tipo de imbecil suscetível que se preocupava muito de guardar as aparências, mas que não conseguia dissimular uma pinta menos elegante que engravatada e pedante. Tantos anos de escritório e leitura o tinham deixado com a cara de uma velha e uma quantidade de gestos quase insuportáveis. Esse dia, entretanto, Dupré estava levando de um modo estranhamente cauteloso. Esperava antes de responder. E não deixava de mover mesmo que estava quieto. Andrew estudava a elaborada demonstração no abrigo e suas preocupações giravam desde o Dupré ao dinheiro que esses cilindros e esse ferro significavam. Tinha gasto uma fortuna para satisfazer as exigências de uma prova que fez Saint John. Mais valia ao homem dar-se por satisfeito depois disto. Com o cenho franzido, Dupré examinou um enorme pedaço de ferro no fundo de uma profunda caldeira metálica. — Preocupa-me este. O cobre do recipiente pode estar afetando o processo. — Possivelmente melhore as coisas. Talvez aprendamos que o processo resulta mais eficaz com o cobre. — Sigo sem compreender por que insistiu em um experimento tão elaborado e custoso. O último servia para comprovar as coisas, como o adverti. — Deste modo poderemos calcular melhor o custo e estimar os benefícios. Não teria sentido começar a vender aço se não sermos capazes de fazê-lo com rapidez ou se nos custasse mais do que poderíamos chegar a recuperar. Dupré inquietava como uma anciã nervosa. — Esse homem grande que está ali fora. O que faz aqui? — Protege o abrigo, já o disse. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Eu não gosto. Não fala francês. Vim ontem e não me deixava entrar. — Se me houvesse dito que viria, tivesse-o avisado. Dupré cruzava os braços, os descruzava e logo voltava a cruzá-los.

— Eu não gosto que você dita estas coisas sem mim, como se ocul… como se não confiasse de tudo em mim. Andrew levava tempo esquadrinhando um pedaço de ferro no que tinha feito uns sinais privados. Entretanto, as palavras reprimidas pelo Dupré chamaram a atenção. “Como se ocultasse algo”, esteve a ponto de dizer. Sim, Dupré estava levando hoje de uma maneira muito peculiar. Aproximou e passou o braço sobre os ombros do Gustave. — O que é que o preocupa, meu velho amigo? Gustave apertou a boca, adquirindo um aspecto um tanto escrupuloso. — Não há nada que me preocupe. É só que não previa esta etapa. Não esperava que durasse tanto. —Assinalou os cilindros. — E tudo isto. Eu dei a prova que queria. De repente resulta que faltam mais provas. Você insistiu em que eu empregasse toda minha pequena fortuna para construir tudo isto. — A maioria dos recursos são meus. Não era injusto que você também se arriscasse. — Assim o lembramos. É simplesmente que me pergunto por que quis você isto. Nada mais. — Fala como se suspeitasse de mim. Isso não é bom entre sócios. — Só me pergunto se está dizendo toda a verdade. Felizmente, Dupré era menos sutil que peculiar. — Sonha como se você acreditasse o contrário. O que o faz pensar isso? — Eu não… Madeline Hunter – O Sedutor

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— Venha. Com uma fortuna tão enorme em jogo, não deveríamos brigar por um assunto mínimo. Falemos com franqueza. Viu como Dupré se debatia. Finalmente tomou uma decisão e adotou uma expressão presunçosa dando ares de superioridade. Sim, o idiota jamais resistiria à oportunidade de mostrar seu brilhantismo. — Tenho razões para pensar que você me levou deliberadamente a arriscar tudo o que tenho. Suspeito que este ferro, por motivos misteriosos, não se converterá em aço. Suspeito que você intervirá, acrescentando outro produto químico possivelmente, para fazer fracassar o processo. — Por que diabos faria algo tão estúpido? — Para que eu cria que fracassamos e volte para a França, arruinado do mesmo modo em que se arruinaram outros, e o descobrimento pertença assim exclusivamente a você. Andrew soltou uma gargalhada.

— Toma por um conspirador enormemente sofisticado. — Consta-me que é um conspirador exímio. — Se eu conspirasse com tanto engenho, seria o dono do mundo. Você veio a me buscar, Dupré. Ou é que o esqueceu? E só você conhece a fórmula química. Recorda? — Não estou tão seguro de ser o único. — Como? — Não estou convencido de que você não a tenha também. Ao fim e ao cabo, eu mesmo a recebi de seu ajudante nesta conspiração. O aspecto do Dupré era insuportavelmente arrogante enquanto dizia aquilo. E muito crédulo. Andrew teria tornado a rir se não fora pelo brilho de satisfação nos olhos daquele homem. — Meu ajudante na conspiração?

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— Seu ajudante secreto. O homem que enviou para nos arruinar, para proteger esta estupenda reputação que você tem. — Dupré, se eu acreditasse que você ou qualquer outra pessoa poderia me fazer dano, não me limitaria a arruiná-lo. Matá-lo-ia e já está. Se eu já tivesse a fórmula, como você sugere não me faria falta conseguir que você a descobrisse para ver se ocorria vir em minha busca para financiar o projeto. Pense um pouco, homem. Está dizendo estupidezes. A palavra “mataria” fez que os olhos de Gustave saíssem das órbitas. Olhou rapidamente para a porta, como se procurasse uma via de escapamento. — Acalme-se. Só quero mostrar que esta conspiração que inventou é muito inverossímil, inclusive para mim. — Andrew estreitou sua pressão sobre o Dupré. — Entretanto, agora preciso saber por que você crê que tenho um ajudante que conhece a fórmula. Um fio de suor umedeceu a frente do Dupré. — Disseram que outra pessoa esteve aqui, além de nós dois. Outro homem foi visto. E se trata do mesmo homem que me vendeu o manuscrito que continha a fórmula e a explicação da maior parte do procedimento. É, além disso, o mesmo homem que arruinou aos outros. Andrew observava esse fio de suor e somava cada pequena gota. Uma gelidez cruel dominou a mente. — Quem o disse? Quem viu a esse outro homem? Dupré fechou os lábios. Idiota. Como se pudesse ficar calado se Andrew queria a informação. — Você disse que um homem vendeu para você o manuscrito que continha a maior parte do procedimento. Onde conseguiu o resto? Com experimentos?

Dupré assentia, mas a verdade aparecia em seus olhos.

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— Onde o conseguiu, Gustave? Esta não é uma prova matemática que não interessa a ninguém. Nossas fortunas podem depender do que me diga. Dupré escapuliu das mãos de Andrew. Seus olhos alargaram. — Como soube? A prova… consegui os cálculos do número das células na biblioteca, assim é como fiz a prova. “Deus.” — E quem vendeu o manuscrito? — Seu amigo, Andrew. Daniel Saint John me vendeu isso. “Deus.” Andrew teve de repente uma imagem mental de um túnel formado por seções, cada uma das quais correspondia a uma de suas recentes conexões com o Saint John. Ao final do túnel, olhando-o fixamente, estavam os olhos satisfeitos do mesmo diabo. — Você é um idiota, Dupré. Um completo idiota. — Eu sou um idiota! Como se atreve a insultar…? — Ponha a essa inútil e discutível brilhantismo seu a inventar algo prático de uma vez por todas. — Por que me grita? Sou eu o que deveria me zangar. Está claro que você contratou a esse Saint John como ajudante em sua conspiração. — Não para conspirar, a não ser para investir. Mas tem razão, Saint John o levou a ruína, e agora você me envolveu também. — Desde quando a culpa é minha? — Pense. Pense. Quem poderia ter sabido que o resto do procedimento se achava em alguma parte dessa maldita biblioteca? — Foi uma coincidência. Acontece constantemente na ciência.

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— Não foi nenhuma coincidência. Você comprou o manuscrito de alguém que conhecia o dono anterior da biblioteca. Alguém que sabia que outro homem já tinha começado a investigar o procedimento e que suas notas estavam nessa biblioteca. — Agarrou Gustave e o sacudiu com violência. — Alguém que sabia como chegou a suas mãos essa biblioteca.

Capítulo 24 Chegou para procurá-la na alvorada e entre o rocio, dando largos passos pelo parque com uma expressão grave e resolvida. Era o rosto de Daniel, ao mesmo tempo distraído e atento. Diane o contemplava atrás de uma árvore. A preocupação nos olhos de Daniel aumentava sua confusão e escavava sua firmeza. Quem haveria dito que chegaria o dia em que Daniel Saint John apareceria ante ela preocupado. Parou onde Jeanette tinha indicado, onde o lago se emoldurava com flores amarelas. Ao não vê-la, ficou a esquadrinhar a água e a esperar. O coração machucado de Diane batia as asas. Estava tão belo. Tinha cuidado muito seu aspecto. O lenço estava amarrado com perfeição e parecia digno de um modelo para um retrato. As botas brilhavam sob o sol matinal e as gotas de umidade cintilavam sobre elas como diamantes. Até

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levava chapéu, e o transladava de uma mão à outra como se não soubesse onde pô-lo. Suspeitava que seu ajudante teria deleitado e de uma vez assustado esse cuidado tão surpreendente. Diane não sabia muito bem por que tinha seguido as instruções de Jeanette. Foi uma decisão impulsiva. As revelações do dia anterior explicavam as ações de Daniel, mas entender e desculpar eram coisas distintas. Seu coração não podia absolvê-lo de tudo, por muito que o desejasse. Possivelmente o melhor seria escapulir, ou simplesmente esperar a que Daniel cansasse e partisse ele mesmo. Sem saber por que, emergiu silenciosamente de trás da árvore. O corpo de Daniel esticou ao perceber sua presença. Seguiu nessa postura durante cinco segundos antes de dar a volta. Diane se perguntava que emoções tinha suprimido durante essa breve pausa. Alívio? Aborrecimento? — Jeanette disse que possivelmente estivesse aqui esta manhã. Que possivelmente estivesse disposta a falar comigo. — Estou aqui, mas não sei muito bem por que. — Qualquer que seja o motivo, estou agradecido. Daniel Saint John agradecido? Queria acreditar, mas uma nova cautela, que a fazia sentir uma velha e enfastiada, mantinha-a precavida. — E eu te agradeço que não tentasse me obrigar a voltar.

— Estive a ponto de fazê-lo. Suponho que à larga o teria feito. Não aconteceram inadvertidas as implicações dessa afirmação. Possivelmente o faria ainda, à larga. Pelo menos era honesto e não fingia uma equanimidade que teria sido uma mentira. — Jeanette me falou de Tyndale e do que fez. Explicou-me o motivo de que planejasse me usar para apanhá-lo. — Só fica te pedir perdão por isso. Embora saiba que não tenho direito a esperá-lo. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Acredito que o compreendo. Tinha uma meta e eu era o meio para alcançá-la. Não era mais que um chamariz, e não corria nenhum risco. Meu sacrifício era pouco tendo em conta o luxo e as comodidades das que gozava. — Sim. —Demorou muito tempo em conseguir a vingança. Anos, pelo visto. — Sim. — É o único propósito em sua vida? Está em posse de sua alma? — Saiu de um puxão, revelando a dor que estava rompendo seu coração e a suspeita que tinha ido aumento durante toda a noite. “Não cabe nada mais, nem eu? Foi só paixão e compaixão o que me deu?” — Por que não deixamos que o céu e o inferno julguem minha alma? — Zangado, olhou por um instante o chão a seus pés e em seguida aos olhos de Diane. Houve chamas que ardiam, chamas que ela conhecia e temia. O Diabo tinha emergido convocado por suas perguntas. — Minha irmã disse muito, mas não tudo. O crime de Tyndale com ela foi, em realidade, a parte menor. — Eu diria que foi o bastante. Compreendo seu ódio. — É incapaz de compreender o ódio que tenho por ele. É muito boa para isso. — Não tão boa. Tampouco tão inocente, agora. Faz dois dias te odiava um pouco, assim cheguei inclusive a aprender dessa emoção, como você aprendeste que amor. Possivelmente deveria confiar em minha capacidade de compreender. Não é por isso que vieste? — Não sei muito bem por que vim. Provavelmente o tenho feito com a esperança de ver em sua cara algo distinto à desilusão que se refletia nela quando fugiu de mim em Hampstead. Não poderia suportar que fora essa minha última imagem de seus olhos. A tristeza com que o dizia a comoveu. Deu um passo para ele e levantou os olhos para olhá-lo. Não veria desilusão. As reações de Diane se feito mais complexas e confusas após.

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— Teria podido me dizer isso Daniel. Não me teria produzido uma surpresa tão violenta. Se tivesse sido você quem me dissesse isso, minhas emoções por ti teriam sido capazes, talvez, de vencer a consternação.

— Estive a ponto de dizer isso em várias ocasiões. Tinha a intenção de fazê-lo. Mas algo o deteve. — Possivelmente este seja o momento. Jeanette me disse que havia mais. Ele voltou a contemplar a água. — Custa-me falar disso. Você conhece meus pecados, ou a maioria deles. O resto não diz muito de mim. — Suspeito que o resto diz muito de ti. Sempre será um mistério, Daniel. Acredito que é impossível conhecer de verdade a um homem como você. Entretanto, não posso permitir que este mistério siga existindo, a menos que interesse mais a você conservar seu segredo do que conservar a mim. Daniel assentiu, dando um comprido suspiro de resignação. — Isso disse sua irmã. E você veio à Inglaterra, mas ele não deixou que Jeanette unisse a sua família. — Não ocorreu assim. Tyndale recebeu tudo, o guardou e deixou a trinta pessoas abandonadas aos caprichos do destino. Em um lugar da costa esperávamos o barco que nos salvaria, mas nunca chegou. Veio em seu lugar o exército francês, e tomaram presa a quase toda essa gente desamparada. — Apertou a mandíbula. — Eu era um moço, mas o recordo com nitidez. Cada detalhe. Sonho com isso. Vejo as caras, cheias de otimismo em sua espera, e logo desesperados. Foi à guilhotina que os esperava a quase todos. A diferença de Jeanette, não contou sua história com voz acalmada. Cuspia-a, como se o espetáculo da traição voltasse a representar diante ele enquanto falava. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Também levaram você preso? — Eu estava com o Louis, a alguma distância dos outros quando o exército chegou. Vimos tudo o que aconteceu logo encontramos o caminho de volta a Paris para ver se meus pais tinham sido liberados. Meu pai estava livre, mas era um homem quebrado que tinha perdido a razão. Minha mãe… Daniel dirigiu seu olhar rapidamente para o lago, atravessando a água com essa expressão de intensa concentração. Diane aproximou até que seu corpo quase tocava o dele. Pela primeira vez percebia tremores de dor por detrás dessa velada expressão. Tão absorvida pela angústia, sentia que lhe quebrava o coração. A dor sempre tinha estado presente. Ela tinha sido cega, isso era tudo. Só tinha visto o rosto que mostrava para o mundo, sem chegar às emoções ocultas depois da máscara. — O que aconteceu com sua mãe?

— Morreu. — Como? Ele esticou a mandíbula. — Minha mãe provinha de uma família que era o branco da perseguição de alguns revolucionários. Antes não importava, mas então, durante o terror… — Jogou uma olhada a Diane, logo girou os olhos, como se enfrentar com outra pessoa fizesse a revelação impossível. — A executaram. Caminhei ao lado da carreta, por muito que Louis me procurasse impedir isso. Eu fui quão último ela viu antes que a atassem a essa tabela e inclinassem seu pescoço para receber o fio. Diane ficou sem fôlego e agora ofegava, tentando evitar um desmaio. Ele tinha cuidadoso. Um menino e tinha visto tudo. — Ela não tinha nada que ver com nada — continuou dizendo com amargura. — Mas o país tornou louco pelo sangue e ela se equivocou de sobrenome. Foi assim de singelo, assim de Madeline Hunter – O Sedutor

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desumano. — Voltou a olhar Diane. — Sigo vendo as caras. As espantosas caras da multidão, ansiosas por ver cair outra cabeça mais. As caras aborrecidas dos verdugos. A cara de minha mãe, seu terror nos últimos momentos… sim, me vingar disso, e de minha irmã, e de todo o ocorrido, possui-me a alma. Foi o único propósito em minha vida — lançou isto último com tanta violência que ressonou como um juramento. — Não sente saudades que não tenha vacilado em arruinar a um homem com as cartas, em te apropriar de sua riqueza ou em me usar como um chamariz. Não acredito que possa culpá-lo por nada disso. Depois de uma traição tão feroz e um resultado tão terrível, compreendo que a meta termina sendo mais importante que qualquer outra coisa. A ira e a amargura desapareceram de suas palavras, como se o tivessem chamado de volta de outro lugar. O rosto de Daniel abrandou tanto que parecia quase infantil. Tomou a mão de Diane. — Não mais importante que você. Assombrou-me dar conta de que você importava mais. — Acredito que você sempre alcança suas metas, Daniel. — Não esta, temo-me. E você não será um meio para consegui-lo. — Não sei se acredito. — Dizia isso minha irmã. Dizia-me que suspeitava que me casava contigo para ter uma causa incluso melhor para desafiar Tyndale, assim que voltasse a te perseguir. Não é por isso que me casei contigo. — Não espero que o confesse.

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— Não aceite, então, a palavra de seu marido, a não ser a do homem que sabe que sou. Tyndale não tem nenhum interesse nas mulheres casadas. Quando tirei a sua inocência destruí qualquer fascinação que pudesse sentir por ti. — Assim, por uns quantos momentos de paixão pôs fim a um plano grandioso. Não sente saudades que me tenha resistido tão bem. Minha sedução resultou ser um negócio bastante deplorável, não? — Foi o melhor negócio de minha vida, carinho. — Não, não foi. O que eu ofereço não pode vencer as emoções nutridas por anos de raiva. Acredito que com o tempo terá para mim ressentimento. — De repente deu conta de algo. — O silêncio dessa primeira noite depois de… já sentia um pouco de ressentimento então, não é assim? Daniel levou sua mão à boca para beijá-la com suavidade. — Sim. Não esperava essa palavra. Essa honestidade. Despojava-a de suas defesas como nenhuma outra coisa poderia fazê-lo. — Olhe o que há entre nós, Daniel. Enganos e mistérios. Arruinou a meu pai, deixou-me órfã e agora intrometi na escuridão de seu sonho. — Não posso desculpar os enganos, Diane. Só posso prometer que não lamento que tenha intrometido. — De verdade? Deve ser um lastro pesado. Poderá viver sem resolvê-lo? — Acredito que poderei viver com algo se você estiver comigo. — Voltou a beijar a mão dela. — Quero que volte para casa. Agora. Diga-me que o fará. A proximidade de Daniel, os lábios sobre sua pele e o fôlego quente que batia as asas ao redor de sua mão a deixavam enjoada. A presença de Daniel em si a atraía, como sempre. Sentia que ele tinha aplicado toda a força de seu magnetismo, descaradamente e com plena consciência de seu poder. Madeline Hunter – O Sedutor

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Quase sucumbiu. Seu amor era sensível a todas as partes de Daniel que sabia boas. Mas o mistério e a escuridão tinham uma razão e um propósito agora, e não podiam ser esquecidos. Excitava-a antes e ainda seguia fazendo-o, mas Diane reconhecia que seu amor e sua felicidade corriam perigo. — Daniel, poderá abandonar a vingança que leva tanto tempo perseguindo? O fato de me ter é o suficientemente importante? — É o preço que me exige?

— Não sei muito bem se poderei conviver com ela como você o tem feito, agora que sei que está sempre presente em ti. — Não está sempre presente. Já não. Quando estou contigo, desaparece. Com o tempo, converterá em um ponto muito pequeno. — Ou possivelmente não. Possivelmente um dia ao despertar encontre com que já não está e me inteire de que morreste em um duelo com aquele, porque por fim chegou o ajuste de contas. Imaginava essa manhã. Imaginava a espera, ano atrás de ano, atenta sempre a esse olhar em seus olhos que dizia que esse dia terminaria por chegar. — Não acredito, tampouco, que você queira que se converta em algo pequeno. No fundo. Por isso, temo que sim, que esse é o preço que te exijo para me ter. O ultimato o zangou. Por um momento ela acreditou que a rechaçaria que se afastaria a grandes pernadas. Durante uma larga pausa não ouvia nem via nada ao redor salvo Daniel que sopesava e decidia, com seus lábios apertados contra a pele da mão de Diane. O coração de Diane pulsava dolorosamente. Não queria que se despedisse dela. Seu fôlego entrecortava enquanto compreendia o alcance da eleição que tinha devotado.

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O braço de Daniel rodeou a cintura. Atraiu-a para si para que os dois corpos se tocassem. Outros visitantes passeavam agora ao lado do lago, mas não importava que os vissem. O fôlego de Diane emergia com dificuldade, como se, ao sujeitá-la tão brandamente, em realidade a esmagasse. O pânico palpitava em silencio em seu peito. Sabia que seu sentido comum seria incapaz de contrapor ao desejo de sua alma de acreditar algo que dissesse. — Sim quero que seja algo pequeno, meu amor. Nunca pensei que poderia ocorrer. Supunha que não havia nada capaz de substituí-lo. Aprendi que não é assim. — Beijou-a docemente, como um moço beija a uma moça. — Volta para casa comigo. Tombe-te entre meus braços e construamos um futuro os dois juntos. Esqueceremos o passado. Se estiver comigo, posso fazê-lo. Por você posso fazê-lo. Se for o preço para ter você, eu o farei. Sua fé nela a deixou tremente e assustada. Não estava convencida de que seu amor fora capaz de substituir o ódio. Era inconcebível que tivesse tanto poder. Era impossível que a desejasse tanto como para esquecer o propósito de sua vida. Daniel levantou uma mão em um sinal de chamada enquanto voltava a beijá-la, esta vez com profundidade. O contato se converteu em um abraço. Aturdida, Diane ouviu vagamente os sons de uma carruagem que lentamente aproximava e o rumor de desaprovação de uma mulher que caminhava perto.

O beijo de Daniel a conduziu à euforia. A promessa expulsou suas inquietações e ela as soltava, agradecida. Ele tinha razão. Juntos podiam construir um futuro. Ela poderia esquecer o que ele tinha feito e poderia fazê-lo feliz, para que nunca tivesse vontade de culminar essa larga busca. É obvio que podia. Que podiam. Seus beijos o diziam. Seu abraço o exigia. Ele era dela e o resto carecia de importância.

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Levantou-a em seus braços para levá-la à carruagem. Não vacilou antes de subir. Sua alma queria acreditar em tudo o que ele havia dito. De tanto amor tremiam os joelhos. O desejo físico havia tornado a iniciar seu pulso concentrado. Fechou a porta da carruagem. Daniel a sentou sobre seus joelhos e a envolveu em um abraço que a atraía muito perto. Não chegou nem a beijá-la nem a acariciá-la enquanto a carruagem os conduzia. Simplesmente a estreitava contra si, seu fôlego quente sobre a testa de Diane, suas mãos firmes impedindo-a de soltar-se. A viagem tão lenta e silenciosa a excitou. Não necessitava nenhuma demonstração de quanto a desejava. Estava no ar e em seu silêncio. Sentia-o em seu corpo esticado e no rítmico batimento de seu coração. Levantou os olhos para olhá-lo. Sua expressão revelava onde estavam seus pensamentos, por muito que se controlasse. A antecipação despertava o corpo de Diane mais que cem carícias. A mescla de excitação sensual e intimidade emocional a estimulava enormemente. Quem haveria dito que os segredos compartilhados e um silêncio tranqüilo pudessem criar uma sedução tão poderosa. Sedução. A palavra permitiu que um pequeno relâmpago de razão penetrasse no estupor da excitação. Tinha devotado exatamente o que queria. Tinha seduzido-a para que voltasse, entregando o que mais desejava: a promessa de si mesmo. Nenhum criado abriu a porta. Nenhum som provinha das habitações. Daniel a conduziu pela casa, tomando sua mão, como se a guiasse para um lugar onde nunca tinha estado. — Todo mundo se foi? — Não. — Só estão ocultos? — Ele tinha dado suas instruções. Tinha querido economizar a Diane qualquer cerimônia ou vergonha em sua volta. Também tinha antecipado que voltaria. Madeline Hunter – O Sedutor

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O abraço no vestíbulo demonstrou que não tinha incomodado muito essa confiança. A lembrança de seu rosto enquanto a esperava junto ao lago dizia que em realidade não tinha crédulo tanto.

O beijo dele, possessivo, expressava a fome que tinha ido alimentado durante essa viagem tão lenta e tão sensual. — Não volte a me deixar — murmurava entre os beijos, sujeitando o rosto entre as mãos. Debaixo da ordem, havia um rogo. De repente sentiu que ele a embalava em seus braços, subindo as escadas através de uma nuvem de luzes e de sombras. Suas instruções tinham sido obedecidas. Não cruzaram com ninguém na casa. Embora a Daniel não teria importado. Levou-a para o quarto. Só ali poderia encher o vazio atroz que a promessa tinha aberto em suas vísceras. As cortinas e as persianas estavam fechadas, excluindo a cidade. Fechou a porta de uma patada. O sangue ardia, queria tombá-la, arrancar a roupa e enterrar a fome que rugia em seu interior. Ao dar conta desta violência parou. Se seguisse seus impulsos Diane poderia interpretá-lo mau. Não saberia explicar. Só sabia que não era unicamente físico. A simples excitação sexual jamais criaria esta classe de necessidade. Os braços de Diane seguiam rodeando o pescoço dele. Olhava-o com olhos divertidos. — Tem vontades de me violar, de me possuir com violência? — Sim. Olhou a cama e logo Daniel, interrogando-o. — Mudou de opinião? Jogou-a sobre a cama. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Hoje merece algo melhor. — Girou-a e tirou as cintas de seu vestido. Sentado a seu lado, entreteve-se com o enlace do espartilho. Estava muito bela, tombada ali na fresca luz que filtrava através das persianas. Sua pele se via mais pálida e seus olhos mais escuros. Ele tirando sua roupa a excitava. Percebia-o na maneira em que suas pálpebras baixavam e o sentia na flexão sutil de seu corpo. Acariciou as costas através das finas anáguas e riscou o mesmo atalho com seus beijos. Conter o desejo custava, mas esse paciente caminho dava um poder especial à urgência que o enlouquecia. Seus beijos chegaram agora aos ombros e à nuca. — Te desejar, sobre tudo agora, tem que ver com algo mais que com o prazer. — Ela merecia sabê-lo, especialmente porque não confiava em que seus atos o demonstrassem. — Não quero que pense que só estou reclamando meus direitos como marido.

Ela girou sobre suas costas. — Nunca me fez pensar que se tratava só disso. Inclusive a primeira vez. É isso o que me assustava. E mais tarde, quando se mostrou frio, era isso o que a destroçava. — Tampouco para mim é só uma questão de prazer. — Falava para tranqüilizá-lo, como se preocupasse que não soubesse. — Me parece que jamais poderia sê-lo. — Sorriu-lhe. — É uma sorte que me deseje e que eu deseje a ti, porque não me vejo capaz de ser uma Margot. Daniel percorria com os dedos a borda do vestido desabotoado. — Alegra-me ouvir você dizê-lo. — Que alguma vez poderia ser uma cortesã ou uma amante? — Que me deseja. — Duvidava-o? Disse que te queria. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Para as mulheres pode existir o amor sem o desejo. — Você pode notá-lo. Quando estamos juntos… — Posso te dar prazer, mas isso também é outra coisa. — Fui eu quem vim a ti essa primeira noite. — Tinha outra aula de motivo. Faíscas de compreensão apareciam em seus olhos. — Hoje não tenho nenhuma outra classe de motivo. — Escapuliu da cama, arrastando consigo a desordem de seus objetos. De pé diante de Daniel, a escassos centímetros de distância, mas sem tocá-lo. O cabelo tinha despenteado. Cachos e mechas caíam em torno do rosto e os ombros. Daniel estava agradecido de que não o soltasse de tudo, porque resultava muito belo tal e como estava. Diane tirou o vestido com sedutora lentidão. — Se tiver tornado, é justo que saiba todos os motivos, Daniel. Você queria que eu soubesse que não me quer só pelo prazer. Eu necessito que você saiba que o prazer é indubitavelmente um dos motivos pelos que eu estou aqui. O vestido caiu em torno de seus pés, amontoando-se em uma espuma da que surgia o corpo flexível. Estava tão bela que a Daniel doía todo seu ser. Queria agarrá-la. Diane o notava. — Não o faça. Ainda não. Não até que eu saiba de verdade que compreende como meu amor e meu desejo estão trancados juntos, que para esta mulher não são coisas separadas. Começou a desprender com elegância, as anáguas. Separava-as de seus ombros, as baixando ao longo de sua pele luminosa. A expressão de Diane fascinava Daniel tanto como seu corpo. Em

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parte mundana, em parte tímida, em tudo amorosa, olhava-o com os olhos abertos e deixava que seu olhar revelasse como se deleitava na atenção dela e nas correntes incríveis que fluíam entre os dois. O fazia arder. Esta vez estendeu os braços. Diane deu um passo atrás e negou com a cabeça. Seu delicado pé elevou do chão para abrigar entre as pernas. Com um sorriso travesso na cara, enterrou-o ali até que os dedos descansaram na base de sua ereção. Com os dedos da mão, Diane brincava com a parte superior de suas meias. O sangue trovejava na cabeça de Daniel. Esse pé o estava voltando louco. Deteve-o e deslizou as mãos pela perna de Diane. — Eu o farei. Acariciou-a até chegar à borda das meias, logo subiu por suas coxas. Diane respirava agora mais rápido enquanto sentia o tato da pele contra a pele e os dedos de Daniel tocando essa umidade. Apartava a perna justo o suficiente para deixar tocar o ponto escuro e sombrio que mal se via, mas que estava compulsivamente disponível. As carícias continuaram para que ela o desejasse, para que sentisse mais estimulada. Os olhos de Diane, fixos nos seus, refletiam como a sedução era agora mútua. Esperava o toque seguinte com os lábios separados e os olhos brilhantes, pronta para sucumbir à paixão. Se o fizesse, estariam entrelaçados sobre a cama em questão de segundos. Daniel percebeu que ainda não queria isso. Moveu as mãos para baixo para tirar lentamente as meias. A sensação e a demora curvavam os dedos do pé que ela mantinha entre suas pernas com tanta intimidade que Daniel teve que apertar os dentes para se controlar. Diane notou sua reação. Ao baixar essa perna e levantar a outra esses dedos retorceram ainda mais. Os olhos de Daniel nublaram. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Para, para. Diane lançou um sorriso pícaro, maliciosa, enquanto seu pé ensaiava um último movimento devastador. Daniel não se entreteve com a média. Agarrou Diane e a atraiu para si, impaciente por tocá-la. Mas ela exigia que o fizesse a sua maneira. Incorporando-se brandamente, a colocou em cima, olhando-o, com seus joelhos dobrados aferrando-se aos quadris dele e seu traseiro abrigando sobre seus joelhos.

Daniel lhe deu um beijo para aliviar algo da fome que o atendia. Só conseguiu desejá-la ainda mais. Em vez de demorar o beijo acelerava as coisas. Sujeitar o corpo nu e sentir a brandura de sua pele e o vago aroma de almíscar que subia das coxas separadas o faziam delirar. O abraço e os beijos de Diane eram igualmente agressivos. Juntos giraram em um apertado anel de prazer e antecipação. Ela tirou a jaqueta dele a puxões dos ombros e ele encolheu para que caísse ao chão. Enquanto o beijava e se movia ao ritmo de sua própria excitação, Diane tirou o lenço e o colete. Juntos desprenderam da camisa, embora Daniel não soubesse nem como. Enquanto isso, eles permaneciam unidos no mesmo ardente, interminável beijo, alternando, até que por fim ele pôde sujeitá-la contra seu peito para que a pele nua o acariciasse e o estimulasse. Daniel interrompeu o beijo e a abraçou, sentindo os batimentos do coração de Diane, ouvindo seu fôlego. Debaixo do desejo violento fluía a sensação mais deliciosa. Felicidade. Gratidão. Assombrava-o e o humilhava, enchendo o horrível vazio com o que tinha lutado enquanto voltavam para a casa. A nova sensação o fascinava. Não era um pouco separado de seu desejo por ela. Nunca poderia sê-lo. Tampouco extinguiria depois de fazer o amor essa manhã. Seria outro fio mais no galão. Era tão capitalista que possivelmente resultasse o fio mais forte. Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel afrouxou o abraço e a jogou para trás sobre seus joelhos. O movimento a confundiu. Franziu o cenho, um pouco doída. — Ainda não. — Daniel percorria seus seios com as gemas dos dedos. O fôlego de Diane entrecortou e aferrou aos ombros. Daniel jogava com seus mamilos, suscitando nela surdos gemidos. Ele adorava ouvir sua paixão. A maneira em que movia o corpo. O brilho sensual em seus olhos. Adorava a forma em que tinha retornado com o corpo, mas também com o coração, a forma em que agora o desejava. A loucura voltou a dar voltas. Diane pinçava em suas calças, em busca dos botões. Com novo atrevimento o manuseava, aproximando do lugar onde antes tinha posto o pé. Estava atenta às reações de Daniel como antes ele às dela. — Agora crê que te desejo? — Sim. Os dedos de Diane deslizavam acima e abaixo, tirando-o de gonzo. — Inclusive durante as comidas, desejo-te. Quando vai e penso em ti, desejo-te. Quando está perto, basta com que me olhe para que meu corpo e meu coração reajam. Inclusive antes de saber que nome dar sentia o desejo. — Seu dedo percorria, em círculos de efeito avassalador, a ponta do falo. — Me alegra que saiba. Não quero que pense de mim o que esses ingleses pensam de suas

algemas. Não quero que creia que para mim é só um dever. Não quero que vá buscar uma amante para encontrar o prazer. — Não o faria jamais. — Tenho a intenção de me assegurar que não. —Tomou o rosto entre as mãos para beijálo. — Estudei para que nunca faça falta.

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Apartou-se um pouco dele. Daniel não entendeu por que até que a viu ficar de joelhos. A antecipação do prazer uivava em sua cabeça, alagando todo o resto, inclusive a surpresa que causava a expressão confiada de Diane. O prazer esteve a ponto de fazê-lo perder o controle. Poderia tê-lo feito, se as sensações insuportáveis não tivessem criado uma nova fome e uma espera renovada. Enquanto a consciência de Daniel divagava em um delírio tormentoso, uma compulsão primitiva pulsava dentro dela. Alcançou-a, levantando-a e beijando-a com dureza. Ficando de pé, tombou-a sobre a cama e tirou a roupa interior. Toda ela revelava que a paixão estava desenquadrando-a tanto a ela como a ele. As pernas apartadas e a expressão espectador, a exuberância dos seios e os mamilos endurecidos, até o rubor da pele e a suave, mas agitada respiração eram sinais de uma mulher em estado de abandono. Os olhos de Diane o abrangiam, lenta e inteiramente, com uma franqueza que mostrava que já não haveria nenhuma inocência que os inibisse. Daniel abriu ainda mais as pernas e ajoelhou entre elas. Deu essa carícia que tinha desejado do começo. Os quadris elevavam, convidando-o a tocar. Um cântico de paixão, apenas audível, fluía de sua respiração descontrolada. Sua forma de tocá-la transformou os gemidos em gritos e em súplicas. Levantou os quadris dela. Não pediu permissão. Os beijos especiais de Diane já os tinham dado. Sua fragrância e seu sabor anularam tudo no Daniel além da consciência das reações de Diane. Ouvia e sentia a surpresa de seu corpo, sua aceitação e ao final seus suspiros. Fez que a língua bailasse levemente sobre sua excitação até que a surpresa esfumou, e logo mais deliberadamente, enquanto ambos sucumbiam a um prazer selvagem.

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O clímax de Diane chegou com estremecimentos violentos que os sacudiram a ambos, com um grito que nenhuma parede conteria. Rasgou todo sentido de controle para Daniel, fazendo-o desejar novos beijos e um novo abandono. Ela se prendia a ele enquanto seu corpo a penetrava. Agarrava-o enlouquecida e os gritos seguiam subindo entre os ofegos, o clímax não tinha acabado com seu desejo.

— Sim, sim. — Atraía-o até seu corpo que esperava. — Sim, me encha Daniel. Encha-me. Não falava só de seu corpo. Daniel sabia por que também ela o enchia. Diane já não ocultava, como antes, a fúria do passado, mas sim a substituía. O amor de Diane derramava sobre ele com cada beijo desesperado, com a urgência das carícias, com os gritos ofegantes, prometendo que não voltaria a ameaçá-lo o vazio. Nessa euforia em que se possuíam completa e mutuamente, Daniel por fim se convenceu de que seria capaz de cumprir a audaz promessa que tinha feito.

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Capítulo 25 — Espere aqui. Chamarei mais tarde para que pegue meu baú. Diane deu as instruções enquanto o lacaio a ajudava a descer da carruagem diante do edifício de Margot.

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Era uma tarde espetacular, fresca e radiante. Já que Daniel tinha partido para Hampstead, Diane aproveitou a oportunidade para reclamar seus pertences. Margot tinha escrito, pedindo que a visitasse e explicasse o acontecido. Não havia muito que pudesse dizer. De todos os modos, Margot a tinha acolhido no momento de sua fuga e merecia uma explicação. Diane ponderava no que consistiria esta enquanto a porta principal abria. A casa parecia vazia. Havia um silêncio tão absoluto enquanto seguia ao criado até o salão, que Diane pôde ouvir uns passos atrás dela que ressonaram com força. Margot a esperava, sentada em uma cadeira, reta e rígida, com uma expressão de inquietação nos olhos. Diane apressou para ela. — Não está bem. O que aconteceu desde que me escreveu para que esteja assim? Margot a tirou da mão, agarrando-a com violência. Diane a abraçou. — É devido ao senhor Johnson? Tem quebrado contigo? Margot negou com a cabeça. — Me perdoe. Temo ter feito algo que pode provocar mais problemas entre você e seu marido — disse em um sussurro. — Ele veio cedo e insistiu em que escrevesse e convidasse você. Disse que o amor havia o tornado atrevido. Disse que Saint John tinha obrigado a voltar e que teria vontades de vê-lo. — Sua testa enrugou. — Se me equivoquei, peço seu perdão. Diane a olhava, sem compreender. Enquanto isso, o ar na sala trocou sutilmente. Sentiu de repente uma nova presença e voltou à cabeça. Não estavam sozinhos. Alguém mais estava no salão agora, junto à porta. Diane deu um passo atrás, instintivamente.

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— Está tão formosa como sempre, carinho — disse Andrew Tyndale. — Que considerado de sua parte responder tão rápido à chamada de seu amiga. —Avançou por volta das duas. — Além disso, que conveniente. Fará que tudo seja muito mais fácil para nós. — Algo aconteceu hoje com você, Saint John — disse Vergil. — Siga cometendo enganos desse tipo e farei mal sem querer. Daniel deu um passo atrás e baixou o sabre. Em efeito, algo acontecia hoje e se tornou torpe e perigoso no treinamento. Seu coração estava em outro lugar. E também sua alma e sua cabeça. Levava anos aperfeiçoando sua destreza, mas o motivo para fazê-lo tinha deixado de existir. Aquilo podia ser um esporte para os jovens da Associação de Duelo, mas nunca o tinha sido para ele. Ao parecer, tampouco era capaz de conseguir que fosse. Fez gestos a Vergil para que tentassem de novo e esforçou para se concentrar. A seu lado, Adrian e Hampton treinavam, e junto à parede Louis oferecia a Dante sua primeira aula. Daniel conseguiu fixar-se pela metade no sabre de Vergil, mas a outra metade aplicava ao problema que o esperava. Tinha prometido a Diane que renunciaria a seu plano com Tyndale, mas era mais fácil dizê-lo que fazê-lo. O plano tinha cobrado vida própria e avançava com brios nesse abrigo de Southwark sem que ele fizesse nada. Livrar-se daquilo parecia quase impossível, a menos que se reunisse com Tyndale para confessar a armadilha. Isso desencadearia sem dúvida no duelo que Diane empenhou em evitar. Parecia que o único remédio era deixar que o experimento seguisse seu curso e fracassasse. Quando ocorresse supunha que teria que propor a Tyndale que descontasse os custos do aparelho e os produtos químicos de sua dívida pelo jogo. Parecia uma recompensa adequada que Diane mesma aceitaria como justa. Horrorizavalhe, mas nisso consistia a penitência. É obvio, Diane poderia sugerir que a dívida em si deveria ser perdoada. Seria próprio de ela exigi-lo. Daniel se perguntava se realmente era necessário. Madeline Hunter – O Sedutor

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Vergil deu meia volta e afastou, antes de voltar para o Daniel e o espetar: — Do que ri? Espero que não seja de mim. Não sou nenhum perito nisto, mas você tampouco é um grande professor esta manhã. — Não rio de você, mas sim de mim mesmo. — Saint John, você nunca se riu de si mesmo nos três anos em que o conheci, assim duvido que comece a fazê-lo hoje. — Possivelmente deixei que ser o homem que conhecia. Talvez, a partir de hoje, minha vida haja tornado a começar. — A idéia pareceu ao Daniel magnificamente divertida e voltou a rir. Conseguiu distrair a Adrian e Hampton. Detiveram-se para olhá-lo com curiosidade.

Vergil fez um gesto e pôs olhos em branco. — Acredito que está bêbado. Daniel avançou e pôs uma mão sobre o ombro de Vergil. — Bêbado, não. Estou tentando imaginar como posso me liberar de uma armadilha diabólica. — E lhe parece divertido? Em efeito, está bêbado. — Posto que eu mesmo fiz o plano, é tremendamente gracioso. Vergil se dispôs a responder. Mas algo o distraiu. Olhou para a entrada do vestíbulo e soltou um gemido de exasperação. — Diabos, está aqui outra vez. Uma vez é um engano, dois é muito atrevimento. Se seu marido não fora um bode tão espantoso, insistiria em que voltasse com ele para a tirar de seus problemas, porque é um trabalho excessivo para mim. — Livrou-se da mão de Daniel e caminhou a grandes pernadas até a soleira, onde esperava a condessa de Glasbury. — Tornaram-nos a honrar com uma visita — disse Adrian. — Quem é essa esplêndida loira que a acompanha hoje? Madeline Hunter – O Sedutor

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Daniel não se fixou na loira, que estava detrás da condessa e cuja cabeça apenas se via. Agora a viu bem. — É uma amiga do internato de Diane. — Entregou seu sabre a Adrian, no mesmo instante em que Vergil deu a volta e assinalou para Daniel. — Por favor, que alguém procure minha camisa. Uma premonição agitava em seu peito enquanto se aproximava da porta. As expressões das mulheres e sua mera presença a provocavam. Acreditava que Diane ia visitar a Margot essa manhã. Ao alcançar a porta, já sabia que essa intrusão augurava perigo. O que ficava do homem que tinha sido durante anos voltou a surgir das névoas embriagantes do amor para enfrentá-lo. Não esperou uma explicação. — Duclairc, as leve a escritório de Louis. Chegarei assim que esteja apresentável. Adrian veio com sua camisa e sua jaqueta assim que desapareceram as mulheres. Daniel se vestiu e as seguiu. — Peço desculpas por envolver a sua irmã nisto — disse Margot a Vergil. — Soube que monsieur Saint John estava aqui, mas não sabia como chegar. Seu mordomo me disse que ia encontrar com você assim visitei lady Glasbury para ver se sabia o caminho.

— Não peça desculpas — disse a condessa. — É obvio que tinha que vir. Estou agradecida de que o tenha feito se servir para arrumar isto quanto antes. Aqui vem Saint John, lhe entregue a carta. Daniel estendeu a mão e Margot pôs nela a carta selada. Reconheceu a letra de Diane no dorso. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Como a conseguiu? — De Diane. Deixou-me isso antes que ele a levasse. — Refere-se a Andrew Tyndale — interrompeu a condessa, agitada. — Daniel, parece que se trata de um seqüestro. O coração de Daniel desabou, horrorizado, e logo se encheu de uma raiva dirigida principalmente contra si mesmo. Já não haveria forma de livrar-se da armadilha diabólica. — Maldito seja, que atrevimento — disse Vergil. Sim, tinha sido atrevido. Mas, se tratava de Tyndale, não cabia dúvida de que seria algo bem ponderado. — Você sabe o que ocorreu? — perguntou a Margot. Ela negou com a cabeça. — Obrigou-me a sair do salão quando ela chegou. A carruagem dele estava esperando, assim se tivesse sabido que a ia levar, haveria… mas pensei que se iria sozinho, claro. Saíram pelo jardim e tinham desaparecido antes que eu pudesse advertir ao chofer. — Disse que eram amantes e que Diane teria vontades de vê-lo — contou a condessa com ira. — O tem feito tudo de maneira que pareça que Diane fugiu com ele. Margot estava ao bordo das lágrimas. — Ao princípio acreditei, assim escrevi a carta lhe pedindo que viesse. Mas quanto mais o pensava, mais suspeitava. Ela não o tinha procurado enquanto estava comigo. Ela não tinha escrito para me dizer que você a tinha obrigado-a voltar… Agi como uma parva, quando vi que se foram soube que algo tinha passado. — Agradeço-lhe que me tenha encontrado tão rápido, e agradeço a você, condessa, que tenha mostrado o caminho. Vocês foram verdadeiras amigas de minha mulher e nunca o esquecerei.

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Levou a carta à janela e deslizou o polegar sob o selo. Detrás dele, ouviu movimentos que indicavam que outros abandonavam a câmara. Tyndale tinha ditado a carta, isso era evidente. Diane declarava que o abandonava para sempre e que se alojaria com alguns amigos no Kent. Nada na carta poderia usar como evidência do crime, ao igual a ninguém acreditaria a opinião de Margot de que Diane tinha sido seqüestrada.

Contrapunha-se a palavra de uma cortesã a do irmão de um marquês, não cabia dúvida de quem sairia ganhando. A carta deixava ao marido com a só alternativa de perseguir os amantes. Uma vez mais, estava usando Diane como chamariz. Só que era um homem distinto quem agora o fazia. Um homem a quem não lhe importaria lhe fazer danifico. Daniel fechou os olhos e rezou pela primeira vez em anos. Rogava em silêncio que, uma vez ele tivesse ao homem que queria, deixasse que Diane partisse. Um som o interrompeu. Olhou por cima do ombro. A dez passos de distância se encontrava Louis. Sujeitava um sabre em uma mão e a caixa de pistolas para duelos na outra. — Quanto pensa que sabe? Daniel se encolheu de ombros. — O mais provável é que se trate só do aço. Seria suficiente. — Leva a alguns de seus jovens amigos. — O que lhes diria? Que enganei a um cientista proeminente e ao irmão de um nobre? Que um respeitado membro do Parlamento seqüestrou a minha mulher? Ninguém salvo ela e eu sabe que voltou por sua própria vontade e que não queria Tyndale antes que nos casássemos. — São seus amigos. Acreditarão em você. — São conhecidos, e quando ocorre algo assim os círculos democráticos não existem. O sangue importará mais que a vaga amizade que tenho com eles. Assim funcionam as coisas, Louis. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ambos sabemos. — Dobrou a carta. — Nunca me ocorreu que Gustave confessaria que não foi seu o descobrimento. Confiava em que seu orgulho manteria em segredo a conexão comigo. — O que fará quando os encontrar? — Dar a Tyndale o que quer que exija se com isso garanto a segurança de Diane. — É evidente que é a ti a quem quer. — Então me terá. — Se não levar aos outros, eu o acompanharei. — Se chego acompanhado, nos dirão que nem Tyndale nem Diane estão ali. Temo que se não jogue segundo suas próprias regras, vai fazer mal a ela. — Também temia que, por muito que satisfizera os desejos de Tyndale, Diane seguisse sob perigo. Tyndale não quereria que contasse ao mundo que a seqüestrou, embora pensasse que sua reputação sobreviveria à acusação. Louis colocou cerimoniosamente o sabre e a caixa sobre a mesa. — Duvido que haja tanto honra nisto — disse Daniel.

— Leva-os. Para ele é a forma mais segura. Não quererá o risco de suspeitas nem acusações de assassinato. E um homem assim jamais pensa que pode perder. — Serão as pistolas, então. Com o sabre não me leva vantagem. — Daniel sorria com amargura ao levantar a caixa de pistolas. — Prometi a Diane que as deixaria. — Não quererá que as deixe até o extremo de arriscar sua vida. — Não, suponho que não. — Quando o vir recorda… a cabeça limpa. Um coração frio. O sangue-frio é essencial. — Isso me ensinaste sempre, velho amigo. Daniel pôs a caixa sob o braço. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Faz anos te pedi que me deixasse me encarregar de tudo isto, mas agora te peço um favor. — Certamente. — Se fracasso e ela recebe qualquer dano, mata-o. — De acordo. É obvio. Será um privilégio, e um prazer. — É tão jovem. Tão bela. Como um pequeno pardal. Diane não se movia nem abria os olhos. Ao despertar, decidiu fingir que seguia dormindo. Não queria que Andrew Tyndale percebesse seu medo. Dormiu sem querer. Tinha sido delicioso poder escapar assim até o mundo de seus sonhos. Teria gostado de permanecer ali até que chegasse Daniel. Cheirava a umidade da casa. Inclusive a pequena cama onde tinha dormido cheirava a fechado. Esse modesto lar não tinha sido arejado desde fazia meses antes de sua chegada. Supunha que estava em uma das propriedades de Tyndale. Não a tinha levado a casa grande, onde teria criados, mas sim a tinha escondido aqui. O homem que falava não era Tyndale. Era o outro, um pequeno e curioso francês chamado Gustave, que os esperava na carruagem atrás do jardim da Margot. Adivinhava que Gustave não falava inglês, porque Tyndale se dirigiu a ele exclusivamente em francês e às vezes falava inglês com ela quando não queria, pelo visto, que ele homem o entendesse. As ameaças tinham sido em inglês. — Tão inocente. Tão… — Basta, diabos, basta. Parece um imbecil baboso. É a mulher de Saint John e, como todas, é uma puta.

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— Você é um selvagem ao falar assim dela. Eu não gosto. Uma mulher… não é digno de um cavalheiro — dizia Gustave. Sua voz estava muito perto. Sentia como se inclinava sobre ela para esquadrinhá-la. — Já o disse. Assim que ele chegue, nós a soltaremos. — Quando chegará? — Já disse. Esta noite. — Pode que não seja até manhã ou passado — opinou uma terceira voz. — Possivelmente tarde em descobrir onde está sua propriedade de Kent. Diane mal conseguiu reprimir o susto. Não tinha percebido que havia outra pessoa no quarto. Devia ter chegado enquanto dormia. Também falava francês, mas, igual à Tyndale, não como nativo. — Mais vale não me fazer esperar — disse este último. — É possível que não chegue nunca — sugeriu Gustave, agitado. — Virá. — O som de movimentos ao outro lado da casa chegou a Diane. — Irei a casa para esperá-lo, agora que você está. — Tyndale trocou ao inglês. — Se este francês idiota decide se comportar como um herói para esta nova dama de seus amores te encarregue você disso. Se tenta intrometer, mata-o. Uma mão acariciou o cabelo dela. A mão do Gustave? Não, outro aroma chegava no ar, o de outro homem. Tyndale. Quase se tornou atrás fisicamente ao dar-se conta de seu tato. — Sim, formosa — murmurou. — Mas danificada para sempre. Já não me serve para nada, salvo para atrair a seu marido. Um calafrio a sacudiu. “Já não me serve para nada.” Segundo Jeanette, Tyndale havia dito essas mesmas palavras ao encontrá-la. Ouviu como Tyndale abandonava a pequena casa.

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— Eu não gosto de — seguia queixando Gustave. — Leva muito tempo dormindo. Deu-lhe muito, estou seguro. “Só um pouco”, disse, “para que durma e não incomode”, mas parecia muito que jogou no chá. — É pouco provável que se equivoque com isso. — Não é um deus. Comete enganos. — Não esse tipo de enganos. Além disso, já não dorme. Leva bastante tempo acordada. Não é assim, madame?

Chocou-a que o dissesse tão diretamente. Perguntava se valia a pena seguir com a armadilha. Agora que Tyndale se foi, tinha deixado de sentir tanto medo. Além disso, tinha curiosidade respeito a esse terceiro homem. Apoiou sobre um cotovelo. Tinha uma estranha sensação na cabeça, como se alguém a tivesse recheado de algodão. Esfregou os olhos e se acostumou ao chão de pranchas de madeira e às duas janelas com as persianas abertas. A luz revelava que já era tarde. Gustave estava sentado em uma cadeira ao lado da cama. Sorriu, aliviado. — Vê, está perfeitamente bem — disse o outro. Sentado à mesa perto das janelas, seu perfil se recortava contra o sol poente. — Quem é você? — perguntou ela. — Simplesmente outro homem que tem muitas vontades de ajustar contas com seu marido. Diane observou a barba, o cabelo escuro e a palidez doentia da pele. Esquadrinhando com mais atenção, procurava divisar os detalhes do rosto. A inspeção o divertia. Girou. De repente, para sua enorme surpresa, Diane se encontrou frente a uns olhos iguais aos dela. Madeline Hunter – O Sedutor

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O homem notou que algo passava. Deixou de sorrir e inclinou a cabeça, com curiosidade. Diane estava boquiaberta. — Vai desmaiar — gritou Gustave. Diane elevou uma mão. — Não o farei. Não se preocupe. — Voltou a se recompor. — Quem é você? — Perguntou novamente Diane. — Isso não é seu assunto — disse o homem. — Eu diria que sim. Colaborou em meu seqüestro. Está aqui em espreita de meu marido. — Diga-me, madame. Quem é seu marido? Se você satisfaz minha curiosidade, talvez eu satisfaça a sua. — Daniel Saint John. — Eu o conhecia por outro nome. — Está equivocado. — A respeito deste homem não. Parece-me que é você quem se equivoca, e se for assim, ele não pode ser seu primo. Olhava atentamente seus olhos. Era como se as imagens sombrias de seu espelho, o rosto fantasmal que às vezes emergia, tivessem cobrado vida. — Não, ele não é meu primo — disse em inglês para que Gustave não compreendesse. — Quando eu era uma menina, encontrou-me abandonada em uma propriedade que comprou.

Ingressou-me em um internato e se ocupou de minha educação embora eu não fosse responsabilidade dele. Cada ano viajou para me visitar, embora significasse cruzar grandes distancia para fazê-lo e embora pusesse em perigo sua segurança entrando na França durante a guerra. Por muito que você o conheça por outro nome, esse é o homem a quem eu conheço. É o homem que me deu de presente uma vida depois de que outro me abandonasse. Madeline Hunter – O Sedutor

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Quando deixou de falar, o sorriso do homem tinha desaparecido. — O que disse? — perguntou Gustave. — Nada que interesse. Saia, Gustave. Vá tomar um pouco de ar. — Como? Para que? Não acredito que você deva ficar a sós… — Saia. Meu deus, homem, por quem me toma? Disse-lhe que saia. Agora. Desconcertado por esse arrebatamento, Gustave se elevou de um salto como uma boneco levantada pelas cordas. — Estarei muito perto — disse a Diane para tranqüilizá-la. — Chame se necessitar ajuda. Quando saiu um pesado silêncio desceu sobre o quarto. Diane observava ao homem sentado à mesa. Deixou que suas lembranças, as poucos que ficavam, aderissem a seus olhos e a seus gestos. — Falou-lhe de mim — disse ele, à defensiva. — É por isso que sabe… o está usando agora, para confundir as coisas. — Disseram muito pouco de você. Eu estou dizendo quem sou eu e quem é ele para mim. O homem olhou a seu redor, inquieto, como se sua mente procurasse uma forma de fugir desse diálogo. — Onde estava essa propriedade em que a encontrou? A Diane quase deu lástima. — Se você for Jonathan Makepeace, seguro que sabe onde estava. Hampstead. O homem fechou os olhos. — Merda. Sua voz soava cheia de raiva e ressentimento. Doía. Em sua infância, tinha sonhado encontrá-lo. Havia imaginado correndo para ele e dando um salto para aterrissar em seus braços. Possivelmente, quando ele a visitava no Hampstead, era assim como celebrava sua chegada de

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menina. Sempre ouvia risadas nas fantasias de seu encontro, não uma maldição rancorosa e surpreendida. — Fez-me acreditar que você estava morto — disse, querendo fazer dano também a ele. — Agora compreendo que foi uma gentileza por sua parte. Fez-me acreditar que o jogo de cartas com

você foi uma questão de má sorte. Nunca me disse que você estava envolvido com Tyndale ou que o tinha arruinado de propósito. — Assim agora pode ver a classe de homem que é. — Ah, sim. É a classe de homem que omitiria a verdade a respeito de você, para não aniquilar os pequenos sonhos de minha infância. Nunca me fez saber que meu pai formava parte dos planos de Tyndale para despojar a essa gente de suas propriedades e suas vidas. Suponho que seu navio ia recolher a esses desgraçados na costa, ou me equivoco? Não disse nada. Evitava seu olhar. — Chegou inclusive a embarcar e tentar resgatá-los? — Recebíamos o ouro e as jóias diretamente. Tyndale… se não os resgatávamos, poderíamos guardar tudo para nós, e era muito mais que o pagamento que de outro modo receberíamos. Isso foi decidido no começo. Todos sabiam como seria. Eu tinha dívidas… Ele encolheu os ombros, para desculpar a decisão. Mas Diane via seus olhos. Via a culpa. Até ao encolher os ombros tinha um aspecto de cansaço e aborrecimento, de resignação mais que de indiferença. — Eu não estava em condições de mudar as coisas — continuou. — Tyndale tinha arrumado tudo. Ao final nem me disse onde estariam se por acaso decidia buscá-los por minha conta.

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A Diane não pareceu que tivesse discutido muito com Tyndale a respeito, nem sequer minimamente. O tom sugeria, mas bem que não. — É um milagre que meu marido não o tenha matado. — Talvez tivesse sido melhor que o fizesse. Tirou-me isso tudo, até minha própria filha. — Foi você quem me abandonou. E o que ele tirou, parece-me, era o que você tinha conseguido mediante essa traição. Uma chama de ira acendeu nos olhos do homem. Mas a energia extinguiu no ato. Permaneceram em silêncio, estranhos em todos os sentidos salvo o mais importante. Diane sentia como os vínculos de parentesco a chamavam. Não lhe permitiam nem odiá-lo nem temê-lo. Davam-lhe umas vontades imensas de reconhecimento. O rosto de Gustave apareceu de repente pela janela. Jonathan rugiu uma maldição e o rosto desapareceu. — Quem é? — perguntou ela. — Um cientista. Um grande gênio, diria ele. Um imbecil, se me perguntarem. — O que ganhou ele com a traição? — Uma biblioteca.

— Uma biblioteca? Permitiu que pessoas morressem por uns livros? — Esses livros incluíam um tratado com uma prova de matemática. Não lhe importou que o homem para o qual cuidasse a biblioteca, e ao que ia enviar o tratado, morrera. A prova chegou a pertencer ao Gustave e assegurou sua reputação. Percorreu cada página nessa biblioteca em busca de algo escrita e cotada por seu dono, e construiu sua fama aproveitando do engenho de outro. Não, Gustave não lamentou que o navio não chegasse, embora fosse ele quem apresentou essa gente a Tyndale. Madeline Hunter – O Sedutor

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Fixou a atenção em seus próprios dedos, enquanto golpeavam a superfície da mesa. Os pecados de Gustave lhe tinham deixado de interessar. — Meteu-a em um internato, há dito. Então esteve bem cuidada. — Sim. Voltou a tamborilar a mesa. — Quando você nasceu a parteira quis entregá-la a um casal de granjeiros. Mas eu tinha querido a sua mãe e não fui capaz de fazê-lo. À larga teria sido melhor. Não a via muito, mas você parecia contente quando ia, até que… Logo, depois desse jogo de cartas… Não podia levá-la comigo. Não sabia nem aonde ir. — Entendo. — E em realidade o entendia, em sua cabeça. Seu coração era menos racional. O fato de que a tivesse abandonado seguia ferindo-a, mas esta nova evidência de que a tivesse querido o suficiente para não desembaraçar-se dela quando nasceu, suavizava a dor com algo próximo ao perdão. — Onde estava o internato? — No Rouen. Ele sorriu e moveu a cabeça. — Freqüentemente me perguntava o que teria sido de ti… e pensar que durante os últimos dois anos não estava mais que a um dia de viagem. — Seu olhar se afiou, como ficando em guarda. — Sabe quem é ele? — Daniel Saint John. — Não existia nenhum Saint John ou Saint Jean entre a gente que Tyndale prometeu salvar. Nenhum Saint John ou Saint Clair, que é o outro sobrenome que usou. — É o único que conheço. O homem olhava os dedos e seguia tamborilando a mesa.

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— Não permita que Tyndale e Gustave saibam que é minha filha. Não sei como reagirão. Sobre tudo Tyndale. — Crê que correria perigo? — Já corre perigo. Se não souber, entretanto, é possível que possa te ajudar. — Encolheu os ombros outra vez, com imprecisão, como se não tivesse decidido de tudo se poderia ou estaria disposto a fazê-lo. Foi uma pequena oferta, e não uma promessa, mas o coração de Diane estremeceu. Levantou para se aproximar da mesa e ficar ao lado desse estranho que era seu pai. Olhou-o aos olhos. Os anos dissolveram durante esse largo olhar entre pai e filha. As acusações, o ressentimento, as negações e o perdão, todos confluíram em silencio nesse estranho reconhecimento visceral que compartilhavam. Os olhos de Diane nublaram, e ao parecer acontecia o mesmo a ele. Diane lhe tocou a mão. Parecia muito natural tocar a esse homem tão pálido e doentio, porque seus olhos não tinham trocado e ela os reconhecia. Um pequeno sorriso desenhava na boca, e também a reconhecia. O homem tomou a mão de Diane na sua. — Falará de minha mãe? — pediu-lhe. — E de minha infância, e de todas as coisas que esqueci?

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Capítulo 26

Daniel não estava acostumado a negociar de uma posição de debilidade. Seguiu ao criado até o salão da propriedade de Kent, com plena consciência de estar totalmente a mercê de Andrew Tyndale. Tyndale parecia tão neutro e inócuo como sempre. Só que quando saiu o criado, acenderam essas luzes cruéis em seus olhos. Assinalou a caixa que levava consigo Daniel. — Pistolas? — Suspeitava que as escolhessem como armas. — Veio para bater-se em um duelo? Madeline Hunter – O Sedutor

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— É obvio. Seqüestrou a minha esposa. — Acompanhou-me de boa vontade. — Não é certo. De todos os modos, vim para exigir satisfação. — A darei, a condição de que me entregue de antemão o que exigirei. — Examinou Daniel com as pálpebras entrecerradas. — Você deve acreditar que é um homem muito preparado. Não cabe dúvida de que tem paciência, empregando anos em nos arruinar, um após o outro. Ah sim, os outros se deram conta de quanto tempo leva nisto e do papel que desempenhou você em suas desgraças. Agora inventa este esquema tão intrincado para o Gustave e para mim. Assim não se tratava exclusivamente do aço. A revelação aumentava o perigo e tudo o que estava em jogo. — Meus planos para Gustave eram muito singelos. Nunca suspeitava que viesse a Inglaterra e que envolveria a você. É a primeira vez que você interessou em enriquecer-se. — Acreditou que passaria por cima uma oportunidade tão esplêndida e se contentaria com a pequena fama que procura um descobrimento científico? — A fama não é tão pequena em seu mundo. Tampouco teria sido tão pequeno o desprezo, quando ficasse como um idiota.

— É certo. Teria aniquilado tudo o que mais lhe importa. Que pulcro — reconheceu Tyndale. — E muito apropriado. — Isso eu pensei. Quanto a sua associação com você, e logo a oferta que você me fez de outra, foi para mim um presente providencial. — Um presente infernal, em realidade, porque nos permitiu nos dar conta de seu plano. — Tyndale sorria com astúcia. — Se não imaginava que Gustave perseguiria os lucros de seu Madeline Hunter – O Sedutor

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descobrimento, deve ter tido outros planos para mim. Diane? Um duelo por uma mulher? Que vulgar. E que arriscado, também. Eu teria ganhado. Teria sido melhor me encontrar despreparado e me cortar a garganta. — Considerei-o. — É obvio que o fez, e o segue fazendo. Não me atrai a idéia. Tyndale aproximou da escrivaninha e tirou uma pistola de uma das gavetas. — Não pretenderá me matar aqui, agora, nesta biblioteca — disse Daniel. — Você não é tão estúpido. — Se for necessário, eu o farei. Há poucos criados aqui. Fiz partir para quase todos ontem, com a exceção de uns quantos homens que me devem suas vidas. — Apartou alguns papéis por volta do bordo do escritório. — Assinará isto agora mesmo. Se o fizer, nos bateremos nesse duelo que tanto gosta e você terá a oportunidade de me matar antes que eu o mate. Se não o fizer, eu o perfurarei a tiros como se fosse um cão. Daniel examinou os papéis. Transferia a Tyndale todas as posses de Daniel, como recompensa por dívidas não especificadas. — Teria que ser um idiota para assiná-los. — Morrerá se não o faz. — Acredito que você espera que morra de todos os modos, já que minha assinatura não valerá de nada se estiver vivo, por ter sido obtida pondo uma pistola contra minha testa. O agradeço muito, mas prefiro morrer rico. — Ela também morrerá se não assinar. — Por isso eu sei, já está morta. — Assinalou a pistola. — Permita-me comprovar que está ilesa, ou use-a. Se acreditava que assinaria esses papéis para comprar a possibilidade de salvar minha própria vida, equivocou-se radicalmente com seus cálculos. Ao melhor a idade está nublando a cabeça. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Com meus sessenta anos, minha cabeça é três vezes mais aguda que a sua em qualquer momento de sua vida. — Se for assim, então Diane está aqui e está a salvo. — Em efeito. Mandarei chamá-la. Economize o rogo, qualquer reencontro sentimental. — Tyndale abriu a porta e falou com o homem que esperava fora. Daniel tinha posto uma armadura de fria emoção antes de viajar a mansão, mas agora esta começava a gretar. O alívio de saber que Diane estava bem e a emoção de voltar a vê-la o alagou por um momento, mas em seguida o arrasou uma raiva desumana porque Tyndale se atreveu a ameaçar a segurança de sua esposa. Girou para que Tyndale não percebesse nenhuma destas reações. — Você tem uma propriedade impressionante — disse. — Não pude evitar admirá-la ao chegar. — É menor que a casa familiar, é obvio. Corresponde que assim seja, mas em muitos sentidos é uma propriedade muito superior. — Viu alguma vez seu irmão, o marquês, para admirar esse fato? — Uma vez, pouco depois de que a comprasse, fará uns vinte anos. Fazia vinte anos. Tinha adquirido a propriedade com todas as jóias e ouro do golpe aplicado. Tyndale o estava provocando ao fazer saber que liberavam agora a última jogada de uma partida começada fazia muitíssimo tempo. Uma partida que Tyndale parecia, como sempre, disposto a ganhar. Daniel tragou a fúria e as lembranças que lutavam por aparecer em resposta à alusão. — Você é consciente de que há gente que sabe que estou aqui.

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— A carta de sua mulher não mencionava esta propriedade. Teria podido ir a qualquer lugar de Kent. — Outras pessoas estavam pressentes quando recebi a carta. Sabem que o estou procurando. — Você veio aqui, mas não me encontrou… Essa é a história que dirão meus criados. Nem eu nem Diane estávamos aqui. Você partiu para procurar em outra parte. — Margot sabe que seqüestrou Diane. — A palavra de uma cortesã, mantida além por um comerciante, carecerá de peso. De fato, resulta que estou passando hoje e nos próximos dias com um velho amigo, que jurará que estive com ele todo o tempo. O conde de Glasbury. Deve-me o favor. A respeito de sua esposa, abandonou você, você obrigou a retornar e logo ela voltou a abandoná-lo. — Tyndale caminhava acima e abaixo enquanto falava, até colocar-se diante de Daniel. — Realmente acreditou que esqueceria tudo? Você me insulta.

Daniel se alegrava de que assim fosse pela simples razão de que começava a aludir a seus planos e intenções. Até o momento as revelações tinham sido pouco alentadoras. Diane poderia estar a salvo agora, mas se Tyndale pensava cometer um assassinato, não poderia deixá-la viva como testemunha. Lamentava ter exigido vê-la. Teria podido forçá-lo através dela. Se ficasse sem saber nada… Com a extremidade do olho se deu conta de que Tyndale o examinava. Não o tinha forçado. Tyndale o tinha tudo decidido desde o começo. — Eu gostaria que satisfizesse a minha curiosidade respeito a uma coisa — disse Tyndale. — Quem diabos é você? — Sou o filho de seu passado e a testemunha de seus pecados. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Me economize a poesia. Quem é? Você sabia o que havia na biblioteca, mas não recordo nenhum menino nessa família. Daniel tinha sonhado com o dia em que deixaria que esse homem soubesse quem o tinha abatido. Tinha vivido imaginando o momento em que o nariz de Tyndale entraria por força no inferno que suas próprias ações tinham provocado. Agora, de repente, isso tinha deixado de importar. Que seguisse perguntando. Que se inquietasse a respeito. Que seguisse esperando sempre a que outro filho do passado apresentasse. — Ao meu pai deixavam usar a biblioteca e comentou em minha presença os experimentos de seu dono. Os cientistas desfrutam discutindo suas teorias ante qualquer que se interesse por elas. Dupré o poderá explicar. A fim de contas, ele sabia que uma importante prova matemática se encontrava nessas notas e documentos. Tyndale entrecerrava os olhos. — Você não podia ser mais que um menino nesses tempos. O que entenderia de provas e teorias de eletricidade? — O que não sabia ou não entendia me explicavam isso outros. Não morreram todos os que esperavam nessa costa. Não todos os que você traiu foram executados. Não sou o único que recorda o que fez. Mate-me, mas não matará o passado. A guerra o protegeu, mas faz muito que terminou. Outros virão por você, agora que podem. A expressão de Tyndale angustiava e se endurecia de uma vez. Daniel percebia como um espiono de dúvida se unia às faíscas mais desagradáveis de seus olhos. Uma comoção no vestíbulo lhes chamou a atenção. A porta abriu e Diane entrou. Antes que um braço detrás dela fechasse a

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porta, Daniel pôde ver um cientista francês extremamente preocupado e a outro homem barbudo, provavelmente um dos criados de Tyndale. Diane aproximou de Daniel e lhe deu um beijo leve. Seus olhos encontraram os dele com um olhar breve, mas cheio de calidez e amor, que enviava também uma mensagem de precaução. Girou para Tyndale. — Confio em que não serei devolvida a essa pequena casa tão feia e tão úmida. — Ficará aqui. Já não estão os criados, assim não tenho por que seguir escondendo-a. — Não entendo muito bem por que o tem feito. Se simplesmente desejava reunir com meu marido, teria podido visitá-lo como qualquer outro. — Não visito gente como seu marido. Ordeno que me visitem. — Sorriu com astúcia a Daniel. — Alguma vez o disse, não é certo? — Alguma vez me disse o que? — perguntou Diane. — Seu marido, carinho, é um estelionatário. Também um farsante e um trapaceiro. É um impostor, que adota nomes e sobrenomes conforme lhe convenha. Que emprega seus poderes de sedutor para entrar nos círculos mais distinguidos para poder roubar às pessoas com suas armadilhas. Encontrou você em algum beco e pagou para que o ajudasse? Já vê, duvido que ele seja seu primo, assim tenho certa curiosidade por saber qual é sua relação com ele. Ante esta série de insultos, a expressão de Diane endureceu. — Não permita que seu rancor por perdê-la o converta em um parvo, Tyndale — disse Daniel. — Insulte-a outra vez, e não receberá nada de mim. — Receberei tudo o que eu queira de você — rugiu Tyndale. — Tudo o que você possua inclusive a ela se eu gostar. — Fechou os olhos e conteve uma rajada de ira. — É obvio, teve que danificá-la para que deixasse de me interessar. A menos que você se negue a seguir minhas instruções. Então me obrigará a me interessar por ela e lhe pegar um tiro na cabeça.

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Diane tentou mostrar a Tyndale que não tinha medo dele, mas Daniel viu como a ameaça a aturdia. Abraçou-a com gesto protetor. — Suponho que tem um quarto disposto para ela. Que se vá agora ali para que você e eu prossigamos nossa conversação. — É obvio. Meu criado indicará o caminho. Peço desculpas porque não tenha criadas para atendê-la, mas é impossível confiar nelas. Ah, e as fechaduras… enfim, é importante que não saia no momento, assim não se incomode em tentar abrir a porta.

Diane deu as costas ao Tyndale. Olhou a Daniel. Não podiam dizer nada sob o olhar de Tyndale. Este não podia ver o rosto de Diane, mas Daniel sabia que sim via o seu, e não se atreveu a revelar a dor que ardia no seu coração. Aquela poderia ser a última vez que a visse. Deveria estar lhe explicando coisas, dizendo palavras ainda não sortes e rogando que o perdoasse havê-la envolto nesses perigos. Mas lhe negava esta possibilidade. Quão único podia fazer era olhar esses olhos, tão úmidos e expressivos, e confiar em que ela o compreendesse. Um pequeno, trêmulo sorriso, desenhou-se na face de Diane, apesar de suas lágrimas. Levantou-se sobre as pontas de seus pés para beijá-lo. Murmurou algo apenas perceptível, mas que ele soube discernir. — Sei que me quer — disse. Diane não se despiu. Não tinha nenhuma intenção de passar a noite na quarto onde a tinham encerrado. Aguçava o ouvido para tentar inteirar do que estava passando. Sem dúvida o disparo de uma pistola chegaria. Com cada minuto que passava em silêncio, crescia sua fé em que Daniel encontrasse a forma de vencer Tyndale. Madeline Hunter – O Sedutor

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Através da alta janela, olhava a lua elevar-se no céu. Enquanto a noite seguia avançando brandamente, permanecia acordada pensando em Daniel. Concentrou exclusivamente em recordálo, como se o simples ato de pensar nele fosse o único capaz de protegê-lo. Quando tinha transcorrido já a metade da noite e estava convencida de que era a única pessoa ainda acordada na casa, um som ao outro lado da porta delatou que não estava sozinha. Desceu de um salto do peitoril da janela e agarrou um castiçal gigante. Tyndale havia dito que já não o interessava, mas ela não tinha nenhuma confiança nisso. Poderia danificá-la ou maltratá-la com o único fim de torturar Daniel. Houve um som de chaves na fechadura. A porta lentamente se abriu. Entrou com sigilo uma forma sombria. Diane levantou o castiçal, mas se conteve. Em sua alma tinha reconhecido o intruso. — Vêem comigo — sussurrou Jonathan. — Onde? — Gustave está esperando na casa pequena com um cavalo. Você será levada a um lugar seguro. — Tem que liberar também Daniel.

— Não posso fazê-lo. E não quero fazê-lo. Mas nem Gustave nem eu queremos que lhe façam mal. Se ficar aqui temo que ocorra algo. — Possivelmente a ti também. Solta a meu marido. Fujamos todos juntos. Se Tyndale contemplar o assassinato, nem você nem Gustave estarão seguros se sabe o que têm feito. Ninguém sentirá falta de vocês. Ninguém sabe nem sequer que está vivo. — Você sabe. Se você consegue escapar, Tyndale terá que trocar seus planos, sejam quais sejam. — Voltou a abrir a porta. — Não é só uma fechadura o que protege a seu marido. Não seria Madeline Hunter – O Sedutor

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capaz de chegar a ele, embora quisesse. Agora date pressa, antes que a coragem de Gustave fraqueje ou dita que entre arriscar à forca ou enfrentar à fúria de Tyndale prefere o primeiro. Aproximou dele, mas tocou-o no braço para detê-lo. — Por que não me leva você em lugar de Gustave? Quem permanecer aqui correrá maior perigo. — Tem que ser Gustave. Eu minto melhor que ele e resultarei mais convincente quando Tyndale comece com suas perguntas. — Cobriu-lhe a mão com a sua. — Quanto ao perigo… deixe-me ser um pai, embora seja uma só vez. Por fim. Diane sentia a aspereza de sua pele sobre a sua, e uma umidade que dizia que seu valor havia flanco muito. Tinha medo. Imaginou durante essas últimas horas, sopesando-a a ela em contraposição a todo o resto, sabendo que não deveria responder a essa conexão primitiva que os unia, mas sucumbindo de todos os modos às exigências do dever paternal. Diane deu um abraço de gratidão pela dura eleição que tinha tomado. — Não minta muito — disse. — Faz que Tyndale pense que fui à busca de ajuda. Que saiba que direi a todo mundo o que vi aqui. — O imbecil. Andrew não podia acreditar que houvesse aceitado a maldição de alguém tão estúpido como Gustave Dupré. A ironia a parecia intolerável. O homem era científico, mas se mostrava incapaz de qualquer julgamento racional. A prova era a ausência do Gustave e Diane essa manhã. O homenzinho a tinha ajudado a escapar. — Algo que ela diga implicará a ele — dizia. — Vai ao caminho de sua própria forca. Como pode ser tão parvo de não vê-lo? Jonathan se encolheu de ombros.

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— Acredito que se apaixonou por ela. Não parava de chamá-la “pequeno pardal” ontem pela tarde. Atormentava-lhe a idéia de que os planos seus a pusessem em perigo.

— Ela não corria nenhum perigo. Não era mais que um chamariz para conseguir seu marido. — Tyndale decidiu ignorar o pouco convincente que resultava a mentira. Se disser com convicção, e agora estava falando com total convicção, as mentiras se convertiam nas verdades para a gente faminta das ouvir. — Devia ter explicado melhor as coisas para ele, então. Gustave não podia entender por que não a deixava partir, sabendo que seu marido estava com você aqui. Eu mesmo não sabia como funcionava o plano e não pude convencê-lo. Ainda assim, não imaginei que seria tão audaz. Enfim, havia pouca lua ontem à noite e Dupré não sabe montar a cavalo. Possivelmente tenham cansado em uma colina e tenham agora os pescoços quebrados. Andrew esperava que assim fosse. Entretanto, não podia confiar nisso. Tampouco sabia exatamente a que hora teriam partido. Com a propriedade vazia de quase todos os criados ninguém tinha visto nada. Seu olhar alcançou os documentos amontoados em um rincão do escritório de sua biblioteca. Tinha gastado horas da noite anterior tentando conseguir que Saint John os assinasse. Horas de promessas a respeito de Diane, de juramentos de honra, de raciocínios e ameaças. Tinha aproveitado a preocupação de Saint John por sua esposa. Ao oferecer um caminho de salvação para a única pessoa que importava a sua presa, Tyndale esperava obter as assinaturas. Tinha funcionado em outras ocasiões. Mas, pelo contrário, Saint John se manteve inflexível, dizendo que não assinaria nada até que a soltasse. Não teria agüentado se tivesse apontado uma pistola ao coração de Diane. E era isso o que se dispunha a fazer essa manhã, tinha-o decidido. E agora Gustave fugiu com a garota, complicando-o tudo. Madeline Hunter – O Sedutor

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Enfim, se tinha que haver um duelo haveria. Ao fim e ao cabo era inconcebível que ganhasse Saint John. — Soltará a ele também? — perguntou Jonathan. — E passar o resto de minha vida vigiando se alguém me persegue? Vou dirigir isto de outro modo, isso é tudo. Traga-me esses documentos. Diga-lhe que ela se foi e que se os assinar nos enfrentaremos com honra para arrumar as coisas. A porta do quarto de Daniel abriu. O criado barbudo que tinha visto no corredor entrou. Levava os documentos da noite anterior. — Tyndale quer reunir com você — disse. — Até que tenha a prova de que minha esposa está a salvo, ele e eu não temos nada que falar.

— Acontece que sua esposa já foi. Partiu durante a noite. Não quer falar de nada. Quer que se reúnam. A notícia surpreendeu Daniel. Negou-se a acreditar, embora um profundo alívio o estremecesse por dentro. Seria muito próprio de Tyndale mentir sobre isto para conseguir as assinaturas. Assim que se secasse a tinta revelaria a armadilha. Enquanto se esforçava por controlar a vã esperança de que realmente ela escapou viu formar um pequeno sorriso sobre a barba do homem. Inspecionou-o mais atentamente. — Conheço você? — Por que o pergunta? Resulto familiar? Sim o parecia, vagamente.

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— Sou um velho amigo de Tyndale e uma velha vítima de você, Saint John. Ou deveria dizer Saint Clair? Saint Clair. Subitamente Daniel viu aquele homem sob as luzes de uma rua de Paris, equilibrando-se sobre ele com uma faca. Voltava a vê-lo, escapulindo por um corredor do Southwark. Por fim, com total nitidez, o viu já sem a barba e essa palidez doentia, sorrindo crédulo detrás de um baralho de cartas. Observou seus olhos. Conhecia-os perfeitamente porque os tinha visto com freqüência nos últimos tempos, em outro rosto. — Você a ajudou a escapar? — perguntou, sentindo a esperança crescia em seu interior. — Sim. — Então se deu conta de quem era. — Ela me reconheceu. Pode acreditá-lo? Apenas a via umas poucas vezes ao ano quando era uma menina, mas me reconheceu. — Mantinha viva sua imagem quando todas outras lembranças a abandonaram. Jonathan assentiu. — Enfim, foi-se e está livre deste assunto. — O agradeço. — Não o fiz por você. Por isso a mim respeita Tyndale o pode cortar em pedaços. De todos os modos, não será um assassinato, e é melhor assim. Fora qual fosse o plano que tinha preparado suspeito que Gustave e eu teríamos recebido uma triste surpresa. Agora terá que tratá-lo com honra. — Deixou cair os documentos sobre a cama. — Se assinar estes documentos, assim será.

Daniel não esperava que aquele duelo tivesse nada de honorável. As testemunhas seriam todos de Tyndale. De todos os modos, teria uma oportunidade, e isso era mais do que tinha esperado. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ficou a jaqueta. — Está seguro de que ela se foi? De que está a salvo? — Como pai dela, posso jurar que é verdade. O alívio foi imenso agora. Alagava-o, limpando uma noite inteira de preocupação e recriminações a si mesmo. Mais tarde, se sobrevivia, voltaria a enfrentar com elas, mas por agora não podia permitir que o distraíssem. Recolheu os documentos e os levou a uma mesa. Agarrou uma pluma e o tinteiro para rabiscar seu nome em cada um deles. — E agora vamos. É hora de pôr fim a tudo isto.

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Capítulo 27 Esperavam no parque detrás da mansão enquanto o céu de cor prata se iluminava. A manhã possuía uma qualidade mística. À exceção do coro matinal de pássaros, tudo era silêncio, enquanto a terra ia revelando sua beleza. Daniel respirava os aromas fecundos e advertia todos os detalhes como jamais o tinha feito. A paz o saturava junto a uma nova luz. Saber que Diane estava a salvo trocava tudo. A preocupação por ela deixaria, pelo menos, de distraí-lo. Jonathan aproximou da árvore onde tinha estado esperando com os três lacaios que vigiavam ao Daniel. — Deve estar a ponto de chegar. — O que dirá você quando chegarem às perguntas? Suponho que sabe que ele não terá nenhuma intenção de que isto seja justo. Tyndale se assegurará de que o duelo termine de uma só maneira.

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— Eu não devo nada a você. Esses documentos que assinou me devolverão a vida — disse Jonathan. — Se você morrer eu serei a testemunha de um duelo justo. — E sua filha? Diane saberá a verdade. Conhece todos os fios deste nó de traição e vingança que urdimos. — Eu a perdi faz muito tempo. Não tenho sonhos a respeito disso. Uma porta abriu na casa. Apareceu ao longe uma cabeça loira que se dirigia para eles. Dois homens o acompanhavam. Enquanto se aproximavam, Daniel viu que um homem levava a caixa de pistolas que ele havia trazido de Hampstead. O outro levava uma bandeja de prata carregada com taças e uma urna de café. A mente de Daniel repassou voando uma vida repleta de emoções. Não via Tyndale, a não ser imagens duras de sua infância e sua juventude. A ira começou a elevar-se em suas vísceras. Logo seus pensamentos viraram por volta de lembranças mais recentes, para Diane e a ternura de seu amor, e então a nostalgia mais doce e os remorsos mais profundos o alagaram.

Tinha vivido durante anos esperando esse instante, essa oportunidade de ajustar as contas do passado com Tyndale. A ruína tinha sido suficiente com os outros, mas sonhava matando a esse homem, o instigador de uma traição tão longínqua. Tinha antecipado que seria o ódio que o encheria ao chegar esse momento. Mas pelo contrário, quão único agora importava era a terrível consciência de que possivelmente nunca voltaria a ter Diane entre seus braços. Lutou com tristeza por libertar de seus pensamentos sobre ela. Não acreditava ter muitas possibilidades de sobreviver, mas não teria nenhuma se obcecava com o que poderia perder.

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O sol saiu por cima das árvores. Uma luz dourada estendeu sobre o parque, mostrando o aspecto impecável de Tyndale. Daniel esforçava por vestir-se com a armadura de concentração gélida que muito em breve requereria. O sol trouxe não só sons, mas também a claridade da luz. A natureza voltou para a vida para unir-se ao coro dos pássaros que piavam. Muito atrás, um vago ruído de rodas e cavalos impregnava o ar. O som crescia com cada passo de Tyndale. Ele o ouviu. Parou e dirigiu um olhar de interrogação para a mansão. O ruído cessou de repente. Os pássaros encheram o buraco que deixou até tal ponto que era difícil saber se realmente tinha existido. Tyndale avançou, com a mesma expressão franca de sempre. Assinalou para seu rival. — Café? Daniel olhava por cima da bandeja e sobre o ombro do criado que a levava. Um movimento tinha chamado a atenção. Uma figura que se deixou ver ao lado da casa, e logo desapareceu. O olhar de Tyndale seguiu a de Daniel até chegar a casa. — Temos, pelo visto, um convidado. — Uma nota azeda quebrava sua voz. — Deve ser meu segundo — disse Daniel. — O cavalheiro Corbet. Tyndale deixou sua taça na bandeja. — Ao aparecer, Jonathan, não caíram do cavalo nem se romperam os pescoços. E Gustave não teve a precaução de mantê-la confinada. — Estava muito apaixonado. Ela deve ter empregado todos seus encantos. — Enfim, isto não troca nada. A figura do cavalheiro voltou a aparecer. Mas não estava sozinho. Uma pequena assembléia o rodeava. Todos avançaram para a árvore. Madeline Hunter – O Sedutor

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Tyndale observava.

— O estúpido, imbecil francês. — Possivelmente preferiria retirar-se — observou Daniel. — Nem de brincadeira. O grupou aproximou. Os rostos de Vergil, Adrian e Hampton se deixaram ver. Uma figura diminuta rompeu as filas desde atrás e veio correndo sobre a grama, sujeitando-a saia para ir mais rápido. Diane parecia um anjo que descendia com a luz matinal. O coração de Daniel se enchia de gozo ao vê-la. Avançou e abriu os braços para recebê-la. O abraço o esquentou mais que nenhum sol. Fechou os olhos para saborear o aroma e o tato. O coração de Diane pulsava apressadamente enquanto se aferrava a seu corpo. — Jeanette fez chamar o cavalheiro e viemos na carruagem, mas enviei uma mensagem a outros e todos acudiram, nos alcançando no caminho — sussurrou tudo isto de um puxão, apertando a cara contra seus ombros, elevando-se para beijá-lo. — Vieram impedi-lo. Daniel olhou os rostos de Louis e os moços da Associação de Duelos. Todos eles estavam a par de suas diferenças com Tyndale, mas Louis era o único que sabia tudo. Suas expressões revelavam que supunham que seria impossível impedi-lo. Não tinham chegado para isso, a não ser para ser testemunhas e assegurar-se de que o jogo fora limpo. Quando alcançaram a árvore, uma nova figura apareceu ao lado da casa. Paul vinha caminhado pelo parque, levando em seus braços a uma mulher vestida com um véu. Sem dizer uma palavra, colocou Jeanette no chão sob a árvore e ela arrumou seu comprido xale sobre seu regaço e suas pernas sem vida. — Negou-se a ficar em Londres — disse Paul a Daniel. Madeline Hunter – O Sedutor

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Louis avançou para o homem que sujeitava a caixa de pistolas e lhe fez gestos para que a abrisse e ele pudesse inspecionar as armas. Hampton aproximou de Daniel e falou em voz baixa. — Seu navio em Southampton… Ordenei ao capitão que saísse com a maré e ancorasse perto da costa. Um barco o estará esperando para que reme até ali. A cabeça de Diane girou bruscamente. — Por quê? — Os duelos são aceitáveis entre cavalheiros, madame. Se seu marido matar o irmão de um nobre, não se pode garantir que não o enforquem. — Mas agora não é necessário que haja um duelo. Tyndale não pode obrigá-lo a fazer.

A um gesto de Daniel, Hampton retirou. Daniel abraçou Diane mais forte, acariciando o rosto amado. — Se não acabar hoje, terá que ser outro dia. Ele é tão tenaz como eu e encontrará uma forma de me matar, com ou sem honra. — A menos que conte a todo mundo. A menos que o denuncie por ser quem é e pelo que fez. — O fato de que tenha a possibilidade de fazê-lo só significa que o perigo é imediato. E não só para mim. Eu seria capaz de viver com isso. Mas mostrou que está disposto a machucar a ti também, e isso não posso permiti-lo. Não abandonarei este lugar sabendo que pode se vingar de mim através de ti. — Tem que haver outra maneira. — Não há outra maneira. Diga-me que entende. Não quero enfrentá-lo sabendo que está zangada comigo ou que crê que estou traindo a promessa que te fiz.

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A preocupação estremeceu seu esbelto corpo. Daniel sentia como esta aumentava até níveis enlouquecedores. Logo ela conseguiu dominá-la. Olhou-o e quão único havia em seus olhos era amor. — Compreendo-o. Sei que não foi você quem o escolheu. Daniel a beijou. A calma e alívio o apaziguavam enquanto se perdia inteiramente nela. Todo mundo retrocedia e estavam sozinhos na beleza do presente, onde nada mais que eles dois moravam, e onde nenhum passado sombrio nem ódio antigo podiam atormentá-los. — Hoje há algo que devo dizer — disse ele. — Me roubaste o coração. Agora é meu mundo inteiro. Quero-te tanto que me assombra. — E você é meu mundo. Ontem à noite te disse que sei que me quer. Não albergo nenhuma dúvida em minha alma sobre isso. Agora, faz o que tem que fazer. Deveria ir?Não quero vê-lo, mas não posso ir se estes podem ser… “Se estes podem ser nossos últimos minutos juntos.” Deveria obrigá-la ir, mas a consciência de que esse poderia ser o último adeus partia o coração. — Você deve escolher meu amor. Não permitem as mulheres assistir aos duelos, mas isto não é um duelo normal. — Então ficarei se não molesto. Se me permite escolher, escolho ficar contigo. Diane liberou lentamente do abraço. Daniel agradecia que tivesse a força suficiente para fazê-lo, porque ele não se sentia capaz de soltá-la.

Ficou ao lado de Jeanette. Daniel aproximou dos jovens da Associação de Duelos. Vergil parecia extremamente sóbrio, com os olhos azuis cheios de inquietação. — É necessário, Saint John? — É necessário, o asseguro. Madeline Hunter – O Sedutor

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Adrian parecia mais acalmado, mas não seria a primeira vez que veria morrer a um homem. — A cabeça ou o coração, Daniel — disse em voz baixa e com um breve sorriso. — Meu cavalo está esperando — disse Hampton. — Quando terminar dirija-se diretamente para a costa. Daniel tirou a jaqueta e a entregou a Adrian. Louis deu um passo adiante. Tyndale o esperava sob o sol. — Mantenha a cabeça fria — disse Louis. — O sangue-frio é essencial. Daniel olhou Diane e deixou que o amor que lhe tinha abrasasse sua alma. Então convocou o sangue-frio que Louis o aconselhava e que seria fundamental se queria sobreviver. Diane era incapaz de olhar. E era incapaz de não olhar. Com quanta calma se comportavam todos, como se essas coisas fossem habituais, como se fora freqüente ver dois homens trocar tiros várias vezes por semana. O estoicismo a indignava. Deveria haver algum sinal de que uma vida estava a ponto de extinguir. Rezava para que não fosse a de Daniel. Tyndale escolheu a arma da caixa e Daniel tomou a outra. O cavalheiro perguntou se existia alguma possibilidade de evitar o duelo e Tyndale soltou uma gargalhada. Diane não gostou da confiança que desprendia dessa reação. Tampouco gostava do ar vazio na expressão de Daniel. Deveria estar cheio de ira e intensidade. Esses olhos de diabo deveriam arder. Pelo contrário, tinha aquela expressão que estava acostumado a ter quando olhava pela janela.

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Os dois homens se separaram. O coração de Diane pulsava mais lentamente, ao ritmo de seus passos. Tyndale caminhava em sua direção. Quando tinha dado seis passos, um movimento o distraiu. Seu olhar se girou para o quadril de Diane enquanto seguia caminhando. Diane olhou para baixo para ver o que tinha chamado a atenção. Jeanette tinha levantado o véu para mostrar sua cara.

Tyndale franziu o cenho. Quase podia ver como sua mente procurava, como se algo que não compreendia o incomodasse. De repente deixou de caminhar e olhou fixamente Jeanette. Uma expressão de assombrado reconhecimento ardeu em seus olhos. Jeanette o olhava fixamente, enquanto suas mãos acomodavam o comprido xale sobre seu regaço. Tinha demorado uns poucos segundos, mas Daniel já tinha concluído seus passos e se deu a volta. Sua pistola apontava para as costas de Tyndale. — Andrew — sussurrou Jonathan para avisar. Tyndale girou para enfrentá-lo. Mas sua própria pistola pendurava a um lado. Não tinha chegado a terminar os passados rituais. Despreparado, despojado de sua confiança, disparou. Diane deu um salto para ouvir o estampido. Olhou, esperando que Daniel caísse ao chão. Este nem se alterou. Permanecia de pé, rígido, com as pernas separadas e a pistola na mão. Uma espantosa e tensa espera acontecia, enquanto todos olhavam imóveis, afinando os ouvidos para advertir o próximo estampido que arrebentaria a manhã.

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Diane não podia nem respirar. Parecia que o mundo inteiro tinha deixado de fazê-lo. O braço de Daniel se endireitou. Não havia nele nenhuma distração agora. Em que pese a sua expressão de frieza, luzes ardentes cintilavam em seus olhos. Ela podia adivinhar quais eram as lembranças e os ódios que as convocavam. Por um instante era de novo o Homem Diabo, feliz de estar a ponto de cumprir seu sonho e enviar Andrew Tyndale ao inferno. Apartou brevemente o olhar. Agora a estava olhando. As luzes afiadas se diluíram e eram muito distintas as que agora as substituíam. A linha rígida do braço vacilava. O estampido de uma pistola quebrou o silêncio. Uma bala penetrou no corpo de Tyndale. Daniel olhava na direção de Diane, e não Tyndale. Diane olhava o chão em um estado de aturdida confusão tratando de compreender o que era o que dominava sua atenção. Jeanette sujeitava em sua mão uma pistola fumegante. Uma multidão se reuniu em torno de Tyndale para comprovar como estava. Daniel atirou sua pistola ao chão e avançou para Jeanette. Agachou ao seu lado e arrancou a arma de suas mãos trementes. — Não devia… — Melhor que fosse eu. Quanto a como pude fazê-lo, deixarei que me julgue o céu. Minha mãe falará em minha defesa, junto com todos aqueles que ele traiu. — Tocou o rosto de Daniel. — Além disso, pensava que não foste ser capaz. Tinha perdido as vontades. Não havia resposta possível. Diane recordou o momento em que o viu vacilar e se perguntou se Jeanette tinha razão. — Não se sinta culpado, irmão — murmurou Jeanette. — Estou contente de que não conseguisse nos mutilar aos dois para toda a vida. Quando me enforcarem, estarei mais contente do que o estive em muito tempo, sabendo que é livre e feliz.

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— Não a enforcarão. — Levantou-se e agarrou Paul pelo ombro. — Tira a daqui, vá para Southampton e ao navio. Agora mesmo. Leve-a para França. Paul a levantou em braços e começou a afastar com grandes pernadas. Jeanette o fez parar e assinalou para Diane. Diane aproximou para receber o abraço de sua irmã. — Nos veremos em breve — prometeu. — A partir de agora duvido que Daniel ponha travas para visitar Paris. Jeanette contemplou a seu irmão. — É certo, Daniel? Tudo terminou? — Sim, terminou carinho. Enquanto Paul a levava, Hampton aproximou com a pistola de Daniel, inspecionando o interior com curiosidade. — Parece um pouco úmido aqui dentro. — Apontou para o ar e apertou o gatilho. Em vez de uma explosão, soou como um tossido. — Tyndale deve tê-la trucado. Louis não tem suficiente experiência com as pistolas para perceber. Menos mal que chegamos a tempo. Se não, você teria morrido embora fosse o primeiro em disparar. — Não diga a ninguém. Essa pistola é o único que se interpõe entre minha irmã e a forca se a agarraram. — O que quer dizer? — Se não escapar, você me viu disparar. Viu-me matar Tyndale. O coração de Diane deu um salto. O alarme ao ver que Daniel seguia em perigo produziu um estremecimento por todas as costas. De repente, a ascensão de Paul para a colina do parque parecia muito lenta. Hampton assinalou por cima de seu ombro. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Acredito que podemos confiar em que escapará. Louis e outros membros da Associação de Duelos tinham rodeado ao Jonathan e os criados. Suas expressões afirmavam que ninguém abandonaria essa propriedade durante um bom momento. Os olhos de Daniel brilhavam. Estendeu um braço para Diane, e ela se apertou contra ele. — Nem sequer sabem por que o tem feito. Vocês não entendem quem era Tyndale para nós. — Conhecem você — disse Hampton. — Confiam em que a história, uma vez contada, desculpará aos dois. Embora não seja aos olhos da lei, pelo menos aos olhos da honra e a justiça. — E você? Você é o homem da lei, Hampton. Obsequiou-lhes com um de seus incomuns sorrisos. — Hoje sou seu amigo, Saint John. Todos o somos.

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Capítulo 28 Ao marquês de Highbury deixou perplexo a notícia da morte de seu irmão. Julian Hampton contou a história com todo o aprumo de sua voz de advogado. O marquês examinava a quão visitantes tinham invadido sua casa de Londres. Seu olhar percorria com pereça ao filho de um conde, o irmão de um visconde e o cavalheiro francês. Parou por fim no homem menos importante que havia em seu escritório.

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— Assim que você é Saint John. Tinham me chegado rumores sobre o comportamento de meu irmão com sua prima. Minha esposa me disse que você se retirou para casar com a moça. Procuro não fazer caso às intrigas, mas é algo tão incessante que as coisas terminam sabendo em qualquer caso. Foi decente por sua parte dirigir o desse modo. — Infelizmente, como acaba de ouvir, seu irmão não era tão decente — disse Daniel. Vergil, que estava ao seu lado, o presenteou uma sutil, mas potente cotovelada. O marquês moveu a cabeça. — Seqüestrou-a, diz-me. Enfim, eu sempre soube quem é meu irmão. Daniel o duvidava, mas o resto da história, as partes mais antigas, não viria à luz nessa quarto a menos que fosse necessário. Todos tinham acordado assim no Kent. — Você jura que aconteceu como me diz? Que a pistola de Saint John não funcionou e sua irmã disparou para protegê-lo quando Andrew se negou a retirar? Vergil, Adrian e Julian murmuraram um vago assentimento. — Quem mais estava ali, além das duas mulheres? Vá coisa, mulheres presenciando um duelo… — Alguns criados de seu irmão — disse Daniel. — Enfim, seu silêncio é fácil de comprar. — Levantou da cadeira. — Cavalheiros, meu irmão morreu em um acidente. É a história que divulgarei. Estava em sua propriedade em Kent e morreu em um acidente de caça.

A Daniel não cabia nenhuma dúvida de que um marquês encontraria a um cirurgião que esqueceria que uma bala de pistola tinha entrado em Tyndale pelas costas. — Não quero que o resto, o assunto da mulher e o duelo, saibam. Prefiro sepultar a meu irmão em privado, com sua reputação intacta. Madeline Hunter – O Sedutor

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— O juiz de paz da zona… — começou Hampton. — Deixe-me explicar: O absolvo de toda responsabilidade, já que oficialmente você nem estava presente. O assunto está agora em minhas mãos. Não havia mais o que dizer. Conduzidos por Louis, os membros da Associação de Duelos despediram e saíram em fila do escritório. Daniel foi o último em abandonar a quarto. — Saint John — disse o marquês, detendo-o. Daniel girou para ver de frente o irmão de Tyndale. — Sei coisas de você. Toda a fofoca e o bate-papo entendem-me. Sei como penetrou em alguns dos círculos de meu irmão, fascinando a algumas damas para conseguir o lugar que agora ocupa. Minha esposa falou tanto de você que me perguntava se a perseguia. — A marquesa e eu jamais nos conhecemos. Seu mundo é muito seleto para mim. — Eu me encarrego disso. A diferença de outros, não estou de acordo com essas idéias modernas de mesclar as classes. É uma moda passageira e me alegrarei quando terminar, como terminam todas as modas. Podia ouvir o grave rumor de uma manifestação chegar com a brisa pela janela aberta. Sua presença flutuante parecia burlar das palavras do marquês. E ele decompôs de repente a cara. — Há algo mais em tudo isto que não me contaram, não? — Sim, mas acredite que se o disser que você preferiria não sabê-lo. — Então será melhor que ninguém saiba. Se me inteirar de qualquer calunia a respeito do meu irmão, qualquer indício de um possível escândalo como resultado deste assunto, terei que esmagar você. Os quatro homens que acabavam de sair sabiam tudo, mas seriam discretos. — Seu irmão deixou que me interessar. Está morto e o assunto terminou. Entretanto, não posso garantir que outros de seus pecados não sejam expostos com o tempo. Se você soubesse de Madeline Hunter – O Sedutor

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verdade quem era seu irmão, compreenderia o que quero dizer. Se eu fosse você, disporia de uma boa quantidade de dinheiro para comprar o silêncio a quem é necessário.

A biblioteca parecia um caos. Gustave estalava com a língua enquanto percorria as estantes. Levava horas fazendo-o, depois de despertar da larga sesta que a aventura tinha exigido. Já que os lacaios dessa casa não o deixavam partir, tinha que fazer algo. Além disso, examinar a biblioteca de Saint John o distraía. Não de tudo, por desgraça. Enquanto lia os títulos sobre as encadernações, seguia preocupado. O que aconteceria se viesse Tyndale para buscá-lo? Ou se a irmã de Saint John fosse à polícia? Se o pequeno pardal jurasse seu testemunho contra Gustave Dupré, por muito que ele tivesse arriscado a vida para salvá-la? Os livros careciam de toda organização. A diferença da biblioteca de Tyndale, entretanto, todos tinham sido lidos. Ao tirar alguns dos exemplares, tinha visto que alguns tinham inclusive nota nas margens. Continuou seu exame, desaprovando a diversidade dos temas. A biblioteca de Saint John era de um aficionado, que virava nesta e naquela outra direção. Nenhum foco, nenhuma especialização. A Gustave parecia que havia muita poesia. O homem favorecia, ao menos, aos velhos poetas franceses por cima dos caóticos e sentimentais meandros das estupidezes que estavam ultimamente de moda. — Encontrou o que procurava Dupré? Gustave deu um salto. Girou para Saint John e Jonathan, que estavam junto à porta. — Só jogava uma olhada para passar o momento. — Assinalou as estantes. — É habitual as organizar de acordo a alguma ordem. Resultaria mais útil. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Há uma ordem. A ordem em que os fui obtendo. Os mais recentes estão aqui embaixo. Por exemplo, o trabalho da Volta sobre a criação de efeitos elétricos de pilhas metálicas está na penúltima prateleira. Ao parecer, Saint John tinha a intenção de explicar. Isso era um mau augúrio respeito ao desenlace do desagradável episódio. As negociações, pelo visto, tinham prevalecido sobre o assassinato. Agora Saint John estava disposto a retificar seu comportamento criminal em vez de arriscar a ser exposto em público. — O descobrimento da Volta é célebre e seu conhecimento disso não me surpreende. Entretanto, você sabe que as especulações a respeito ao efeito da eletricidade sobre os metais podiam encontrar em minha biblioteca. Isto é algo mais provocador. — Essa obra não é dela. Pertenceu uma vez a meu tutor, quem mantinha correspondência com a Volta e conhecia sua teoria antes que outros científicos. Desenhou uma imagem em seu caderno de notas para mostrar como uma pilha dessa índole poderia funcionar e me contou suas

idéias a respeito de como as propriedades químicas e físicas poderiam ser isoladas uma vez que se conseguisse produzir a eletricidade com facilidade. — Está me dizendo que o resto era exclusivamente dele, extrapolado dessas conversações com seu tutor? Mas o outro manuscrito… — Uma falsificação. Uma simulação. O resto era todo produto de minha imaginação. Gustave tinha retido a frágil esperança de que a teoria tivesse algum mérito e que não tivesse investido sua fortuna e reputação em uma fraude total. A pesar do convencimento de Tyndale de que tinham sido enganados, confiava em que com uns poucos experimentos, umas mudanças aqui e lá… Lamentava ter se intrometido nos planos de Andrew de matar esse homem. Agora mesmo pegaria um tiro a Saint John se pudesse. O homem o tinha conduzido à ruína e ele mesmo tinha Madeline Hunter – O Sedutor

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seguido o chamariz como um cão o rastro de carne. Abriu a porta e outro homem entrou. Era Adrian, seu secretário. —O que faz você aqui? Adrian lançou um sorriso a Saint John. Aquilo já era muito. — Você trabalha para o estelionatário? Não tem limites esta conspiração diabólica? — A resposta o avassalou antes que pudesse terminar a pergunta. — O experimento em Paris, as marcas no ferro… Você o disse tudo. Traidor! Contarei a todo mundo quem são vocês. Aprenderão que Gustave Dupré tem influências. Arruinaram minha fortuna e agora arruinarei a vocês. Uma risada incontrolada saudou sua ira. Jonathan tossia e se engasgava enquanto se deixava cair em uma poltrona, derrubando-se da risada. — Dupré, você é um burro realmente sem par. — Logo que conseguia falar enquanto a tosse e a risada convulsionavam seu corpo. — Seqüestramos à esposa deste homem, imbecil. Deveria sentir-se agradecido de que permita seguir com vida. O mais provável é que seu próximo tratado o escreva do cárcere. “Cárcere?” — Não me deprima, Dupré. Não tenho planos para você — disse Saint John. — Adrian, se encarregará de ambos? Diane está me esperando, para saber o que aconteceu com o marquês. Depois que se fora Saint John, Gustave arremeteu contra seu secretário. — Decepcionou-me enormemente.

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— Saint John me explicou isso tudo — disse Adrian com frieza. — Conheço toda sua velha história com Tyndale e como conseguiu essa biblioteca. Assim sei também como conseguiu essa prova que leva seu nome. — Nunca se atreveria… — Mas possivelmente sim se atrevesse. Saint John, sem dúvida, seria capaz. Haveria gente capaz de suspeitar e de divulgar o rumor. Gustave nunca havia se sentido tão impotente. Não só sua fortuna, mas também sua reputação estavam em ruínas. — Pilharam-nos, Dupré — disse Jonathan. — Você está arruinado, como eu antes. Enfim, poderia ter sido pior para nós. Tyndale está morto. — Morto! — Em efeito. Estava esquecido. Condenado. — Mais vale me pegar um tiro. Não fica nem um franco. — Isso não é de tudo certo — disse Adrian. — Há um abrigo em Southwark que está cheio de metal. Há ali cobre e zinco, e também bastante ferro. Ao vendê-lo, você e Jonathan terão mais que no começo. Vamos agora mesmo e veremos o que se pode fazer. Jonathan parecia incrédulo. — Saint John o permitirá? — Sua mulher sugeriu e ele não podia negar depois de que a ajudassem ontem à noite. — Estou comovido — disse Gustave, eufórico de alívio. O pequeno pardal o tinha feito. Ele sabia que tinha certo afeto, mas um gesto assim… A biblioteca começou a dar voltas enquanto essa salvação tão inesperada impulsionava o sangue pelos caminhos equivocados. — Meu deus, vai. — Ouviu o grito de Jonathan justo antes que um nada engolisse a consciência. Assim que Daniel entrou no jardim, Diane o agarrou pela mão. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Mais tarde. Diga-me isso mais tarde — pediu. Levou-o a rincão mais afastado da casa e o abraçou sob as estrelas enquanto procurava com ânsia seus beijos. — Me abrace. Só me abrace, para que saiba que os dois estamos aqui e tudo terminou. — Terminou para sempre, meu amor. Agarrou-o, desejando desesperadamente tocá-lo. Toda a preocupação dos últimos dois dias ameaçava voltando de repente e só seu abraço conseguiria impedi-lo.

— Beije-me. Me ame. — As mãos de Diane percorriam seu corpo, perseguindo todo o calor que agora podia tocar. Apertava seus quadris contra os dela para sentir como a desejava. Já não queria mais palavras. Tudo isso podia esperar. Necessitava-o e a seu amor, à fome e a paixão que convenceriam sua alma de que ele estava ali, a salvo, e que tudo era real. O abraço a absorvia. Os beijos a consumiam. Não bastava. Necessitava mais. Tudo. — Aqui. Agora — Gemia seus rogos entre beijos selvagens. — Me ame. Encha-me, meu amor. Daniel tombou a seu lado sobre as flores da primavera. Instalou entre as pernas de Diane, rodeando-a completamente com seu abraço e cobrindo-a com seu corpo. Doces fragrâncias se elevavam das flores esmagadas, embriagando-a ainda mais. Diane saboreava a realidade dos perfumes e o céu, do peso de Daniel e seu desejo, da paixão que os vinculava totalmente. Não falavam e não faziam falta as palavras. Ela sentia tudo nele, todo o amor e o alívio. Daniel começou a levantar sua saia. Diane ajudava ansiosa por completar sua unidade, desesperada por estar juntos. Madeline Hunter – O Sedutor

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Ele a acariciou para prepará-la. Ela não queria, não o necessitava. — Não. Simplesmente entra meu amor. Enche meu corpo e meu coração, me encha inteira como só você sabe fazer. Enquanto Daniel a olhava de acima, sua cabeça ficava emoldurada pelo céu noturno. O frenesi amainava, mas não a paixão. Enchia-os e os rodeava como um vento espiritual. A Diane tanta beleza quase a fazia chorar. Quando a penetrou, lágrimas silenciosas corriam por suas bochechas. Nessa união o conhecia completamente. Sua alma compreendia os mistérios que carecem de palavras. Seu coração sentia o cauteloso milagre que havia na alma de Daniel. Ele fez amor com uma lentidão maravilhosa. Não reteve nada. O prazer era o menos, uma mera metáfora de tudo que compartilharam. O amor derramava entre eles, consolidando outra vez sua aliança contra um mundo indiferente. O final foi poderoso, mútuo, místico. Juntos se derreteram durante um comprido instante de culminação. Ao chegar ao êxtase, Diane sabia que o melhor dessa noite de amor permaneceria para sempre. Ela jamais voltaria a estar sozinha. Depois, Daniel permaneceu dentro dela, ambos apertados contra a terra que despertava. Falou tranqüilamente sobre a reunião com o marquês e a forma em que este os tinha deixado totalmente à margem da morte de Tyndale.

— Assim tinha razão quando assegurou a Jeanette que tudo tinha terminado — disse. — É como se nunca tivesse acontecido. Pode aceitar que o mundo jamais chegue, a saber, o que ele fez? — Nunca procurei que o mundo soubesse. — Por que não? Por que não o denunciou?

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— Não tinha nenhuma prova do que tinha feito nem de quem era eu. Quem teria acreditado? Ele era o irmão de um nobre e um homem poderoso. Embora tivesse gritado a verdade durante anos seu círculo não teria feito conta. Assim que o fiz de outro modo. Sim, de outro modo. Com sutileza. Em um duelo por uma mulher. Mas não pela Jeanette. Não havia provas disso, tampouco, salvo a palavra de um naval e uma mulher aleijada. — Levou a outros à perdição de forma que refletiam o passado e o que eles tinham feito. Acredito que quis fazer o mesmo com Tyndale. — Possivelmente sim. Diane passava os dedos pelo cabelo dele. — Assim agora sei tudo. Não ficam mais mistérios entre nós. Salvo um. — Qual? — Meu pai me disse que não havia nenhum Saint John que aguardasse nessa costa faz tantos anos. Tampouco nenhum Saint Clair, o sobrenome que empregou ao arruiná-lo. Conte-me, então, meu marido. Quem é você? Se sua história for a minha, quero sabê-lo. Daniel incorporou para olhá-la. —Hoje, agora, sou Daniel Saint John. Entretanto, nasci e me batizaram como Daniel da Tour. Meu pai ensinava línguas antigas na Universidade em Paris. — E sua mãe? Ela sentiu um eco da velha angústia tremer dentro dele e no ato se arrependeu da pergunta. — Minha mãe era a filha menor de um barão. Casou-se com alguém que a família considerava inferior e a deserdaram. Ao final, entretanto, isso não trocou nada. — Disse-me na Escócia que seu pai não era um aristocrata. Se esqueceu de me dizer que sua mãe sim era. Daniel se entregou outra vez ao abraço. Madeline Hunter – O Sedutor

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— Um esquecimento. Diane soltou uma risada. — Houve outros esquecimentos? Ele encolheu os ombros. — Possivelmente deveria mencionar que sou o último da linha, com a exceção de Jeanette.

— Isso quer dizer que agora é um barão. — Suponho que sim, se gosta de tentar reclamá-lo. A palavra de Louis sobre minha identidade poderia ser suficiente. — Quer reclamá-lo? Não respondeu durante bastante tempo. Diane pressentia uma nova sombra. — Passará tempo antes que o dita. Minha família não acreditava nesses privilégios. Como muitos intelectuais, meu pai apoiava a revolução, e a mim, em minha infância, parecia-me algo bom e necessário, um golpe a favor da igualdade. Nunca acreditamos que terminaria por nos devorar também. Diane não sabia o que dizer. Tinha acreditado que já sabia todos os mistérios de Daniel, sem intuir que esse último se escondia no mais fundo de sua alma. A grande causa em que tinha acreditado tinha tirado tudo àquilo que mais queria. Aquilo acrescentava um matiz escuro a suas experiências infantis e outro enredo no matagal emocional que o tinha impulsionado ao longo de sua vida. Libertar-se desse último secreto aliviou seus ânimos. Deu a Diane um beijo na bochecha. — Essas coisas deixaram de me importar. Tenho outras coisas das que me ocupar a partir de agora. — Que coisas?

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— Você, e o presente que me deste com seu amor. Sem ti, estaria hoje totalmente desamparado. Vazio, com uma vida já acabada e sem nenhuma outra me esperando. Entretanto, sinto-me feliz ao ver tudo isto terminado. Aliviado. Juntos construiremos uma nova vida, onde você queira. O único que me importa é que você esteja comigo e que seu amor seja meu. — É teu para sempre. O amor faz que alguém se sinta completo. Se não fosse por ti, eu seria uma órfã sem história e sem família. Nem o encontro com Jonathan teria podido encher meu vazio. Só seu amor pôde fazê-lo. — Nós dois fomos órfãos, Diane. Mas isso já acabou. Faremos nossa própria família e uma nova história. Ouvir a confiança e a segurança de sua voz a comoveu mais do que era capaz de conter. Seu coração enchia, cheio da promessa que o amor de Daniel oferecia. — Diane, à noite antes do duelo, quando você veio para ver-me… Foi muito valente e generosa. Quando disse que me queria… rasgou nuvens em meu coração que eram tão velhas como escuras. Até essa noite, nem tinha dado conta até que ponto escurecia o mundo.

Não tinha sido uma questão de valor. Tinha sido uma necessidade, para si mesma e para seu coração. Ainda em cima dela, Daniel a contemplava. A noite ocultava sua expressão, mas Diane sentia como toda sua atenção concentrava nela. Beijou-a. — Obrigado.

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Fim

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