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Impressões

outubro 2011 Edição 11

centro

Muito

Lixo

Que medidas estão sendo tomadas para enfrentar o problema num dos bairros com maior produção de resíduos da cidade. P.6 e 7

Sexo e prazer

Em meio a lojas e camelôs, locais que garantem satisfação sexual. P.9

Botecando Saiba o que os representantes do Centro tem de melhor em concurso de culinária. P.8

Emprego via

torpedo

SINE inaugura sede no Centro e propõe ações inovadoras de divulgação. P.5

Por onde

andar?

Um passeio a pé para detectar os desafios dos pedestres. P.4


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{o2011 ombudsman Impressões Fortaleza | outubro de

sobre os lobos

Todos os caminhos que nos trazem até aqui

F

oi em meio à tranquilidade do Passeio Público que começou a tomar forma a terceira e penúltima edição do Impressões deste semestre. Sentados à sombra das majestosas árvores da também conhecida como Praça dos Mártires, repórteres, professor e convidadas discutiram sobre que pautas o Centro tinha a nos oferecer naquele momento. As nossas convidadas, a secretária executiva do Centro, Luiza Perdigão, e a proprietária do restaurante do Passeio Público, Rosana Lins, evidenciaram, entre outros aspectos, a questão da poluição ambiental no Centro, dando origem à matéria de capa, assinada por Natália Maia, Vanessa Madeira e Isabel Paz. As repórteres abordam de forma aprofundada a questão da produção do lixo no bairro... Ou

o correto seria usar o termo “resíduo”? Pois é, a matéria lança ainda a dúvida sobre a denominação correta para aquilo que é descartado por alguns e reutilizado por outros. A repercussão e as reflexões acerca do tema você confere no Vida de Repórter. Continuamos o nosso percurso tratando de um assunto que interessa a todo mundo que também precisa caminhar pelo Centro: a mobilidade e a acessibilidade nas calçadas e vias do bairro. Érico Oliveira e Lara Vasconcelos conversam com especialistas, pedestres e representantes do poder público para discutir por que é tão difícil se movimentar pelas ruas do bairro. O ponto de partida: as próprias dificuldades encontradas no caminho para preparar a matéria. Por falar em percurso, nesta

edição damos continuidade à tarefa de acompanhar o que acontece no Centro durante as 24 horas do dia. Thaís Jorge, Renata de Lima e Paulo Araújo trazem relatos de uma noite que aparentava ser vazia, mas que se mostrou rica, abrangendo desde relatos de um catador de materiais recicláveis, que tem a rua como morada, à animação de um grupo reunido na Praça do Ferreira ao som de bossa nova. Temos também um roteiro de dar água na boca! Tainara Carvalho e Evelyn Ferreira percorrem os estabelecimentos do Centro que participaram do concurso Comida di Buteco e trazem o melhor da culinária que enche os olhos e as barrigas dos fregueses. Com a fome satisfeita, é hora de cuidar do que mexe com a imaginação de quem anda pelo bairro: o mercado do sexo. Andressa Cavalcante, Larissa Lima

e João Carlos Bento visitaram motéis, sex shops e cinemas pornôs para contar em detalhes o que acontece por lá. E o Impressões tem uma novidade: a matéria produzida por alunos do terceiro semestre do curso de Jornalismo da UFC sobre o uso ilegal do Passcard inaugura o espaço de colaboração entre o Laboratório de Jornalismo Impresso e as produções dos alunos do curso. Como deu para perceber, nesta edição o Impressões dá continuidade à tentativa de documentar, com seriedade e leveza, a diversidade, os problemas e a beleza do Centro. Esperamos que as questões levantadas sejam objeto de reflexão e que as narrativas proporcionem a leitura mais agradável possível.

Talles Rodrigues | tallesrodrigues.tumblr.com

Vida de

repórter Natália Maia e Vanessa Madeira

DAS 8 ÀS 18 <orientação> Edgard Patrício <equipe> Andressa Cavalcante Caio Mota Dora Moreira Érico Oliveira Evelyn Ferreira Ingrid Baquit Isabel Paz João Bento Larissa Lima Lara Vasconcelos Lucas Mesquita Natália Maia Paulo Araújo Renata de Lima Roger Pires Tainara Carvalho Talles Rodrigues Tatiane Jovino Thaís Jorge Vanessa Madeira

Fale Conosco para falar conosco, escreva para impressoes@ufc.br

Nas reuniões de pauta e durante os processos de apuração para nossas reportagens, notamos que um dos temas que mais gerava debates era a questão da sujeira no Centro da cidade. O assunto sempre se fazia presente nos depoimentos de comerciantes, ambulantes e frequentadores do bairro em geral. Percebendo a grande recorrência do tema, decidimos, então, tornar o lixo no Centro de Fortaleza a matéria de capa desta edição do Jornal Impressões. Nossa primeira estratégia foi fazer um levantamento sobre a questão. Quanto lixo é produzido no Centro? Quem são os maiores responsáveis pela sujeira no bairro? O que a Prefeitura está fazendo para solucionar o problema? Essas foram algumas das perguntas que tentamos responder na matéria. No entanto, o processo de apuração não foi fácil.Tivemos dificuldades de entrevistar fontes pouco acessíveis, encontrar associações de catadores de materiais recicláveis no Centro e fotografar a relação das pessoas com o lixo nas ruas, por exemplo. Porém, depois de redigida a

matéria, surgiu um questionamento. Durante a avaliação coletiva do texto, foi levantada uma discussão sobre o uso da palavra “lixo” na reportagem. O argumento era de que o termo, de acordo com o contexto em que é utilizado, poderia trazer consigo uma carga pejorativa, e que apenas materiais que não podem ser reaproveitados poderiam ser chamados de “lixo”. Foi orientado, então, que substituíssemos a palavra por “resíduos”. Para que não houvesse nenhum equívoco, conversamos com educadores, especialistas na área, jornalistas e frequentadores do centro sobre como a palavra é, de fato, empregada no cotidiano e como ela deve ser utilizada. Com a ajuda deles, descobrimos que, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela lei nº 12.305 em agosto do ano passado, o que existe, na verdade, é a diferença entre rejeitos e resíduos. Neste caso, resíduos são somente os materiais que podem ser reutilizados, na medida em que rejeitos não são passíveis de reciclagem. Enquanto Fortaleza não possui uma coleta seletiva institucionalizada,

não há como distinguir, muitas vezes, o que é jogado fora. Para esses materiais que se encontram em um montante indefinido, é correto usar o termo “lixo”. É importante apontar, também, que o termo é de uso corrente no vocabulário das pessoas, o que torna problemático excluí-lo sem maiores explicações. A nova lei pode trazer consigo não só ações práticas de limpeza e educação ambiental, mas também mudanças de nomenclatura.As mudanças, no entanto, devem vir vinculadas a essas ações, em um processo de reeducação e adaptação da sociedade diante do assunto. *Agradecemos à jornalista Raquel Chaves e ao professor Gemmelle Oliveira (Departamento de Química e Meio Ambiente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará) pela ajuda e pelos esclarecimentos.


Impressões Fortaleza | outubro de 2011

Plural

A história do Centro passa por essa rua Porque a Rua General Sampaio tem esse nome? O Impressões traz um pouco da história e do cotidiano de uma das vias mais movimentadas do bairro Ingrid Baquit ingridbaquit@alu.ufc.br Nas 13 quadras que compõem a Rua General Sampaio, é possível sentir a carga histórica e cultural da via. Prédios históricos, espaços públicos, equipamentos culturais e faculdades. Sem escolher gênero, idade ou raça, a antiga Rua da Cadeia atende a diversas facetas da população cearense. Os frequentadores do centro de Fortaleza são os que mais apreciam. A famosa Praça da Bandeira e a Praça José de Alencar acolhem os que procuram

conversar, descansar ou só passar o tempo. A sombra das árvores e os bancos da praça convidam os transeuntes a saborear uma pipoca e observar o movimento das ruas e calçadas. Na época em que as ruas tinham nome de sentimentos, lugares e coisas, a homenagem à antiga sede da Cadeia Pública (atual sede da Emcetur), deu o primeiro nome da rua em 1872: Rua da Cadeia. Em 1890, as vias da cidade passaram a ser numeradas, e a Rua da Cadeia recebeu o número 4. A idéia se seguir os moldes norte-americanos de

numerar as ruas não vingou, e a rua retornou a seu antigo nome no ano seguinte. A homenagem ao general cearense Antônio de Sampaio na rua da Cadeia começou em 1900, quando foi erguida uma estátua no centro da Praça da Estação. A rua passou a se chamar General Sampaio graças às festividades de comemoração aos 90 anos do cearense. A rua General Sampaio nasce na orla marítima (interrompida com o viaduto de ligação com a avenida Leste-Oeste) e vai até o encontro com a rua Antônio

Pompeu, quando se transforma em avenida da Universidade. Em várias épocas, prédios famosos já se fincaram ou passaram por lá. Estação Central da RVC (RFFSA), o cine Luz, O centro de saúde, a Casa de Juvenal Galeno, IFOCS (DNOCS), Instituto BrasilEstados Unidos, Casa do Barão de Camocim, Faculdade de Direito e Praça da Bandeira são alguns.

O homenageado Herói da Guerra do Paraguai, o cearense Antônio de Sampaio morreu à frente de suas tropas em Tuiuti, a mais importante batalha

da guerra, com seu uniforme de general bordado a ouro em julho de 1866. Nascido dia 24 de maio de 1810, em tamboril (CE), era filho do oficial de ferreiro Antônio Ferreira de Sampaio. Participou da Balaiada e da Sabinada, além da pacificação da província do Rio Grande do Sul. O orgulho de ser cearense seguiu Sampaio até o fim. O carinho. Palavras de sua morte: “Quando voltar, diga aos cearenses que se viu expirar na guerra, em defesa da pátria, um homem que se orgulhava de ter nascido no Ceará”.

Livros usados no Centro: um bom negócio? Em espaços reduzidos e cheios de livros antigos, comerciantes mostram que, mesmo com dificuldades, têm lucro garantido e mercado em expansão Tatiane Jovino tatiane@alu.ufc.br

E

las estão espalhadas por todo o Centro de Fortaleza e, em muitas ocasiões, representam a solução para o estudante adquirir um livro sem precisar desembolsar tanto dinheiro. Mas é a Praça dos Leões e seu entorno que representam a meca das lojas de livros usados do bairro. Com o aumento dos preços de livros didáticos, vários livreiros encontraram uma forma prática de sobreviver, através da venda de livros usados para estudantes que não têm condições de comprá-los nas livrarias. Atualmente, a venda desses volumes didáticos supera o comércio de todos os demais tipos de livros, segundo pesquisa do Sebrae realizada em outubro de 2010. A livreira Vera Nóbrega, dona da livraria Santa Edwirges, explica que há uma grande diferença entre sebos e comércio de livros usados. A principal delas é que “nós, das livrarias, trabalhamos com livros novos e semi-novos, que serão usados durante o ano em escolas de ensinos Fundamental e Médio”. Já os sebos, segundo ela, trabalhariam mais com relíquias, não importando quando o livro fosse adquirido. “A gente tem que vender o livro para aquele ano, porque os colégios exigem a edição mais atualizada, e é por isso que a gente tem muito interesse em vender logo os livros”. Ela disse ainda que o perfil do dono de um sebo é diferente: “O Geraldo (dono do sebo do Magela) é um intelectual. A gente aqui é mais comerciante mesmo”.

A corretagem Além dos livreiros, outro personagem no comércio de livros usados é o corretor, ou vendedor ambulante de livros. A vendedora Edna Valente, proprietária da Neca Livros, reclama que o corretor é o grande carma dos livreiros. “A gente paga aluguel, energia, água. Esses corretores não pagam nada e ainda recebem mais lucro que a gente”. A corretagem funciona da seguinte forma: o cliente é abordado pelo corretor antes de chegar às livrarias de livros usados. Ele pergunta ao cliente qual livro ele procura e tenta arranjá-lo com um dos livreiros. Com o livro em mãos, o atravessador vende o livro ao cliente por um preço muito superior ao original, chegando a ter lucro de 100%, segundo Edna. Hosano Lopes, dono da Brasil Livros, explica que a figura do atravessador traz grandes prejuízos aos livreiros e, principalmente, aos clientes. “O problema é que a gente não pode deixar de vender pro corretor porque ele pode barrar a entrada dos clientes aqui pro perímetro das livrarias”, diz. Hosano é também presidente da Associação dos Defensores do Livro (ADL), uma reunião de 17 livreiros do Centro de Fortaleza. Ele explica que as principais épocas de lucro são entre janeiro e março, além do mês de julho. Durante estes períodos, a ADL utiliza, através de concessão da Prefeitura de Fortaleza, o espaço da Praça dos Leões. É a Feira do Livro. Segundo Hosano, ela “funciona como um

sistema de vendas, compras e trocas de livros. A troca funciona quando o cliente leva um livro, havendo uma negociação por ambas as partes, incluindo aí a compra de livros do cliente”. Os livreiros da associação trabalham, principalmente, com a venda de livros dos ensinos Fundamental e Médio, mas também adquirem obras do Ensino Superior. Maria do Socorro Macedo, livreira há 13 anos, justifica: “Não tem um grande acervo de livros do Ensino Superior porque as pessoas não se desfazem deles. Além do mais, eles são bem mais caros”. As áreas de Saúde e Direito, segundo todos os livreiros entrevistados, são as mais procuradas, seja para venda, compra ou troca. Já Ribamar Araújo, livreiro há 15 anos, afirma que também faz negociações de livros com outras cidades e estados. Contudo, nem ele nem os outros livreiros entrevistados demonstraram interesse por negociação de livros via internet, em sites como o Estante Virtual. Fazendo uma rápida busca neste site, podese constatar que há poucas livrarias cearenses cadastradas, embora haja muitos leitores de Fortaleza que vendam livros. O Estante Virtual é um site que media a compra e venda de livros

usados entre sebos, assim como pessoas, de todo o país. Nenhum dos livreiros entrevistados se lembrou da existência do site, quando mencionado pela repórter. Somente depois de explicado em que consistia a página virtual, todos afirmaram já terem ouvido falar, mas nenhum disse já ter cogitado a possibilidade de se cadastrar.

O difícil e prazeroso mundo dos sebos

Se todos os mercados culturais foram atingidos de alguma forma pela entrada da Internet no cotidiano da população, o que poderíamos dizer dos sebos? Os famosos centros de venda de livros usados formam, segundo José Alzir, dono do sebo Fanzine, um dos setores mais abalados pela chegada da tecnologia. “A Internet contribuiu para diminuir os clientes das minhas estantes”, afirma. Entretanto, o público fiel ao sebo continua comprando - “e cada vez mais”, diz. Para ele, o verdadeiro sebista se dedica a uma atividade mais prazeirosa, que exige dinheiro e muito conhecimento: pesquisar e encontrar raridades literárias. “Eu não vendo livro de ensino médio porque eu vendo literatura, eu vendo arte”, explica. O livreiro Geraldo Majela, dono do sebo O Geraldo, explica que “durante muito tempo, o Centro

foi o lugar dos sebos. Hoje, com as universidades, já há outras opções de local. Por exemplo, no Benfica, já tem vários sebos. Sempre essa proximidade com a universidade favorece”. Ele reitera a diferença entre sebistas e vendedores de livros usados: “Olhe, eu não me considero um comerciante. Eu só vendo porque são livros. Se fosse bebida, se fosse tecido, qualquer outra coisa, eu não venderia”. Magela diz ainda que existem formas de “fazer fortuna” com sebos. “Alguns sebistas compram bibliotecas inteiras e vendem os livros separadamente por preços incalculáveis. Mas a maioria, hoje, não tem condições financeiras para isso e se contenta apenas com a simples venda de livros velhos”. Apesar das dificuldades, o sebista Francisco Dias, dono do Cantinho do Livro, não reclama da profissão. “Eu só posso dizer que sou bem sucedido na medida em que eu consegui manter a livraria. Isso eu já acho que é muito”, diz. Ele afirma que seu principal objetivo é manter o sebo com a sua cara, vendendo o que ele gosta, mesmo sabendo que tal prática não era de um bom vendedor. ”O mercado poderia ter me tratado melhor se eu fosse um melhor comerciante, mas eu não quero ser rico. Então, eu estou no lucro”, diz.

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Fotos: Lara Vasconcelos

Circular

{o2011 ombudsman Impressões Fortaleza | outubro de

sobre os lobos

Devagar E sempre Tentando dar alguns passos pelas ruas do Centro, fomos conferir se o bairro recebe bem quem quer se mover a pé.

Érico Oliveira ericooal@alu.ufc.br Lara Vasconcelos laravasconcelos@alu.ufc.br

P

raça Clóvis Beviláqua, quatro da tarde. Esse é o marco zero do percurso que o Impressões fez para investigar as condições da mobilidade humana no Centro da cidade. Na parte inicial do trajeto, atravessamos a Avenida Duque de Caxias e identificamos um dos grandes problemas enfrentados por quem circula no Centro: a condição estrutural de pistas e calçadas. Buracos, pedras soltas no caminho, pisos que podem ser escorregadios em época de chuva: é preciso olhar com atenção onde pôr o pé, quando se caminha pelas ruas. Seguindo na General Sampaio rumo à Praça José de Alencar, nos deparamos com outro obstáculo. Encontramos placas e toldos baixos demais, quando a altura mínima permitida por lei para elementos projetados sobre a calçada é de 2,10 metros. Para a costureira Maria de Fátima, que costuma vir ao Centro semanalmente, o importante é

ter atenção. “Eu que sou baixinha não tenho muito problema. Mas uma pessoa mais alta, se não prestar atenção, pode acabar se machucando”. Depois de um tempo razoável esperando para atravessar a Rua Pedro I, devido à ausência de semáforo e faixa de pedestres no cruzamento com a General Sampaio, percebemos a ocupação das calçadas pelos vendedores ambulantes. O comércio se torna muito volumoso no cruzamento com a Rua Pedro Pereira, dificultando a circulação de pedestres e mesmo de carros. De acordo com o chefe de Serviços Urbanos da Secretaria do Centro (Sercefor), Aquiles Melo, ao longo da Rua General Sampaio, existem 365 ambulantes, indo da Avenida Duque de Caxias até a Rua João Moreira. Segundo Aquiles, “a General Sampaio é o próximo alvo” da desocupação do espaço público. Nesse quarteirão, encontramos Liduína Rodrigues e a sua sobrinha Márcia, que teve paralisia infantil e usa cadeira de rodas. Liduína afirma que não costuma andar no Centro com a sobrinha, devido às dificuldades de

transitar pelas calçadas. “O chão não tem condições de a gente andar. Tudo quebrado. Não tem rampa para subir. Não tem acesso nenhum”, diz. Para ela, o melhor lugar para transitar com cadeira de rodas são as galerias. Dobramos à direita na Liberato Barroso, uma das ruas mais movimentadas do Centro. Se nesse espaço o pedestre não tem de se preocupar com os carros, a disputa por espaço com o comércio prevalece. Uma das soluções encontradas pela Secretaria do Centro para reduzir o problema de circulação foi orientar os ambulantes a alinhar as barracas numa faixa central, liberando as laterais para passagem de pedestres. Segundo Aquiles Melo, nas ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha, a política de alinhamento das barracas tem ficado mais dura, com fiscais para observar a ocupação do espaço. Para o vendedor ambulante Cleiton de Sousa, há problemas no processo de controle da Prefeitura. Ele indica que existe violência por parte de representantes dos órgãos públicos no momento de conferir as normas de ocupação. “Estão

tratando [os ambulantes] como marginais. Estão fazendo de uma maneira brutal, tem pessoas agredidas pela polícia e pela guarda”, critica. Ele reconhece que, em alguns momentos, os próprios ambulantes contribuem para aumentar o clima de tensão, mas lembra que é preciso respeitar os direitos dos vendedores. “Somos cidadãos que estão trabalhando. Antes de sermos ambulantes, somos cidadãos e eleitores”. Para ele, é preciso resistir às ações do poder público. “Eles botam para correr, e nós voltamos de novo”, diz. E a mobilidade dos passantes? Para o vendedor de antenas e controles remotos no calçadão da Liberato Barroso, “a população já se acostumou a essa circulação”.

Pedestre e espaço público

Para a professora de Engenharia de Transportes da UFC Nadja Dutra, que estuda aspectos ligados à mobilidade humana e à acessibilidade, faltam controle e fiscalização do uso do espaço urbano. Ela propõe que as medidas não se dediquem somente à transferência do comércio, que ainda ocupa o espaço do pedestre. “Tem de

ter a retirada mesmo”, defende. Para Nadja, além do comércio ambulante, é preciso fiscalizar o despejo de resíduos na área pública, os estacionamentos irregulares, e poderia ser pensada uma política de taxar quem vai de carro ao Centro. A professora não vê nas ruas o respeito ao caminhar. O automóvel tem maior atenção que o andar a pé, segundo ela. “A gente esquece que em algum momento todo mundo é pedestre”, observa. Como se mover, então, no Centro da cidade? “O Centro é um mundo à parte. A lei para andar aqui é outra”, diz o ciclista Eduardo Moreira, que encontramos no percurso. Como no dia-a-dia de Eduardo, nossa caminhada teve de se adaptar ao compasso próprio das vias e dos desafios que se pode encontrar. “As pessoas não esperam o sinal fechar para atravessar. Os carros não esperam o sinal abrir para avançar. Nunca sabemos qual é a hora de fazer o quê”, observa. Pedestres, ciclistas, motoristas, todos querem mover-se. Espaço de características próprias, o Centro funciona com fluxos bem particulares.

Estratégias de

ocupação do Centro Concorrendo com o pedestre, o comércio ambulante pode dificultar o caminhar.

S

e o comércio ambulante é um dos fatores que dificultam a circulação dos pedestres pelo Centro, essa atividade tem uma dinâmica própria construída historicamente. E a Prefeitura precisa levar em conta essa lógica, quando adota políticas de controle. Essas são reflexões do professor Eustógio Dantas, do Departamento de Geografia da UFC, pesquisador das particularidades de ocupação no Centro de Fortaleza.

Como se articulam a mobilidade e a ocupação do espaço público, principalmente pelo comércio ambulante? Que tensões podem acontecer?

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Dantas – Nos primórdios, a dinâmica da cidade associava-se ao exercício também do comércio ambulante. Com o tempo, tem uma tônica que é a da normalização. No quadro contemporâneo, o comércio ambulante começa a ser visto como um gênero de atividade que coloca problemas para a lógica de circulação da própria cidade: para os transeuntes que andam no Centro, que começa a ser tomado pelos ambulantes, que colocam as suas bancas nas calçadas... Então, a Prefeitura, desde os anos 30, adota estratégias no sentido de remanejar, de fixar, de retirar o comércio ambulante de dadas áreas da cidade. E a solução do Centro da cidade é retirar o comércio ambulante? Talvez seja impossível.

E as ações da Prefeitura até então se apresentaram nesse sentido. Nenhuma ação foi eficaz, posto que existe uma dinâmica do Centro da cidade que reforça a manutenção e a reprodução desse comércio. Aí a Prefeitura tem de ser extremamente criativa no sentido de controlá-los. À medida que ela adota estratégias, eles adotam contra-estratégias. Para resolver, ela teria que estar à frente deles.

Como fica o direito da pessoa, do transeunte, pela mobilidade livre no Centro? Dantas – Na adoção de políticas de fixação do comércio ambulante no Centro e na implementação de políticas de fiscalização. Porque o ambulante não tem a preocupação com o que se refere à circulação, a preocupação dele é com a comercialização, ele quer vender. E ele vai colocar sua banca onde tem maior circulação, ocupando espaços que, às vezes, não são apropriados para o estabelecimento desse gênero de comércio. O comércio

ambulante não está fadado ao fim, e os problemas de circulação no Centro não findarão. O comércio ambulante sempre será um tema na pauta de discussão da cidade. Os ambulantes refinaram suas estratégias no tempo, mas a ação da Prefeitura é a mesma. Os ambulantes são mais criativos que a Prefeitura. Então, em suma, nós vamos resolver os problemas de circulação no Centro da cidade? Não. É possível? É. Realizável? Não. A Prefeitura não pode ser tão rígida. Para lidar com algo flexível, a rigidez não resolve. A ação rígida, embora aparentemente resolva a questão, no tempo se mostra ineficaz.

E, quanto ao pedestre, que estratégias ele pode adotar para fluir pelo Centro, sem se chocar com as bancas de comércio? Dantas – A presença do comércio ambulante, na realidade, não é negativa para todos os transeuntes não. Alguns, na realidade, são clientes e adoram o

comércio ambulante. E é um dado interessante: comumente, quando se faz o deslocamento do trabalho para casa, dispor de um produto vendido facilmente e a um preço aparentemente mais barato que no comércio formal é algo instigante. Nesse sentido, é um paraíso ter condição de fazer isso, e sem grandes problemas, negociando, barganhando. Então, não cria problemas para todo mundo. Mas existe um segmento que, de fato, é incomodado com esse gênero de comércio, e o deslocamento no Centro, de fato, fica difícil. E há necessidade de uma atuação da Prefeitura no sentido de resguardar esses espaços, preservando a natureza para a qual eles foram concebidos, que é de circulação mesmo. E podem gerar problemas sérios. Há necessidade, de fato, de intervir, no sentido de garantir o direito de ir e vir, o direito à circulação. Agora, o que a Prefeitura não pode imaginar é que esta é uma demanda de todos aqueles que frequentam o Centro.


Circular Foto: Isabel Paz

Impressões Fortaleza | outubro de 2011

Valetransporte Eletrônico é comercializado ilegalmente

no Centro de Fortaleza Beatriz Cavalcante (cavalcantebias@alu.ufc.br) Renan Campelo (renanbcampelo@alu.ufc.br)

Venda indiscriminada do Valetransporte Eletrônico (VT) é feita nas paradas de ônibus do Centro.A comercialização do bilhete eletrônico é considerada crime de estelionato, que prevê pena de um a cinco anos de reclusão e multa.Vendedores afirmam adquirir os vales de duas formas.Acham o cartão perdido pela rua ou compram o cartão de pessoas que não utilizam o benefício, fato por eles denominado “máfia do passecard”. Um dos vendedores informou que vende o vale transporte eletrônico por R$ 1,75 e entrega o cartão ao passageiro. Depois de passar pela catraca, o usuário devolve o cartão através da janela do ônibus ao cambista. O sistema de integração temporal permite ao usuário de transporte coletivo utilizar mais de um ônibus sem passar por um terminal de integração. O cartão do passageiro ao ser passado no primeiro ônibus é carregado com o tempo de 30 minutos mais o tempo que resta para que este ônibus complete sua viagem.Ao passar pelo segundo ônibus o tempo é zerado. É desse tempo de gratuidade que os cambistas aproveitam para lucrar R$ 1,50 a cada duas passagens vendidas.

A responsabilidade sobre o Valetransporte Eletrônico é do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus). A assessora de comunicação do Sindicato,Valesca Alves, relata haver fiscais e auxiliares de operação que são orientados a fazer denúncias a policiais que estejam próximos ao local da venda de passagens. Ela informou que pessoas identificadas nessa prática ilícita, da venda do próprio cartão, devem ser chamadas à responsabilidade pela empresa em que trabalham. “A Empresa Operadora, neste momento, possui direito a realizar inclusive o desligamento do operador, argüindo a adoção explícita de envolvimento com procedimentos de falsidade ideológica”. O Valetransporte Eletrônico pode ser restituído. O usuário liga para o callcenter do Sindiônibus e realiza o bloqueio de seu cartão. Em até 72 horas, a nova via do cartão com todos os créditos remanescentes restituídos estará pronta. Este procedimento também pode ser feito no site www.vte.fortaleza.com.br. Serviço Sindiônibus: 4005-0990

Mais uma opção para o Sistema de torpedos e atendimento agendado são algumas novidades da nova sede do Sine no Centro de Fortaleza. A meta é atender 300 mil trabalhadores por ano. Caio Mota caiomota@alu.ufc.br

I

magine estar em casa, lendo os classificados à procura de emprego, e, de repente, receber uma mensagem em seu celular avisando que há uma vaga esperando por você. Essa é uma das inovações a serem implementadas pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine), que inaugurou, em maio, a maior sede de todo o Estado no Centro de Fortaleza, localizada no Fórum Autran Nunes. Na nova unidade, são disponibilizados 19 guichês para fazer a mediação entre quem está à procura de emprego e aqueles que oferecem a vaga, relacionando o candidato certo para a vaga certa. “Para nós, a unidade não é apenas moderna e equipada. Nós estamos trazendo também um novo conceito: o

trabalho agendado”, afirma o coordenador estadual do Sine, Aricélio Mendes. O serviço está em fase de implementação. Pela internet, o trabalhador vai poder agendar o dia e a hora do atendimento para não precisar pegar senhas nem filas. Segundo Aricélio, enquanto a novidade não entra em vigor, o candidato já pode poupar alguns minutos do atendimento realizando seu cadastro pela internet. Depois disso, basta fazer a confirmação das informações presencialmente em uma das sedes. Outra inovação é o sistema de torpedos para informar da disponibilidade de vagas. “O sistema vai cruzar as informações e dizer quais trabalhadores estão com o perfil daquela vaga.

trabalhador

Aí vamos enviar um torpedo para ele: ‘tem uma vaga para você, compareça a unidade do Sine mais próxima’”, explica o coordenador estadual do Sine. Ainda na espera por essas novidades, a sede do Centro já opera com um novo formato de cadastramento. “A ideia é ter um cadastro mais detalhado para facilitar a inserção do trabalhador”, explica Jidlafe Rodrigues, gerente da unidade. Segundo ele, os funcionários ainda estão se familiarizando com a nova ferramenta, e, por isso, cada atendimento pode durar de 15 a 20 minutos, totalizando cerca de 500 ao mês. A meta é aumentar esse número em mais de 5.000%, para 300 mil ao ano. Segundo Jidlafe, a otimização do serviço está mudando a

cultura antiga de era preciso madrugar para ser atendido no Sine. A estudante de administração Kátia Cilene confirma que a meta está sendo cumprida. Em sua primeira ida à nova sede do Centro, ela chegou às 12h20 e, ainda assim, conseguiu ser atendida. Fez o cadastro, mas não havia vagas disponíveis. “Não consegui, porque não tenho experiência na área”, explica. Já Eliete Melo teve sorte logo na segunda visita ao Sine. A auxiliar-administrativa saiu com o encaminhamento em mãos. “Eles me deram o endereço com o horário e com quem eu devo falar na empresa”, diz. Além do cadastramento de trabalhadores, o Sine oferece outros três serviços principais gratuitos: atendimento ao

seguro-desemprego, solicitação de carteira de trabalho e inscrição em cursos e palestras de qualificação profissional. No Ceará, o Sine é gerenciado pelo Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), uma instituição de direito privado, vinculada à Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS).

Serviço > Sine/IDT – Unidade do Centro Endereço: Avenida Duque de Caxias, 1150 – Fórum Autran Nunes, Centro – 1º e 2º Andares. Telefone: (85) 3101 2774

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Central O grande gerador da

Fotos: Isabel Paz

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sobre os lobos

sujeira

Isabel Paz isabelpaz@alu.ufc.br Natália Maia nataliamaia@alu.ufc.br Vanessa Madeira vanessamadeira@alu.com.br

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uzentos e quarenta toneladas. Essa é quantidade de lixo recolhido diariamente no Centro de Fortaleza. Para ter noção do que o número significa, basta imaginar que é o equivalente ao peso de um avião do tipo Airbus A380. O dado alarmante representa a soma do que é coletado nos domicílios, estabelecimentos comerciais e pontos de acúmulo de lixo espalhados pelo bairro. Com base nas rotas de limpeza, desde a varrição até o descarte no aterro sanitário de Caucaia, foi realizado, em 2009, pela Secretaria Executiva Regional Centro (Sercefor), um diagnóstico sobre a produção de lixo na região central de Fortaleza. Segundo a autora do relatório e assessora técnica da Sercefor, Thereza Neumann Santos, as 240 toneladas são coletadas em todo o perímetro do bairro, desde o centro histórico até o chamado centro expandido (ver infográfico). O diagnóstico também identificou os principais pontos de acúmulo de lixo do bairro. Ao todo, foram contabilizados 45 locais. A Praça dos Leões, a Praça dos Voluntários e o cruzamento entre as ruas Barão do Rio Branco e Senador Alencar, por exemplo, são alguns dos lugares transformados em depósitos irregulares de qualquer tipo de material descartado sem nenhuma proteção. Para tentar reduzir a quantidade de lixo descartada nas ruas, a Prefeitura colocou aproximadamente 600 lixeiras distribuídas pelo bairro. Mas, de acordo com Thereza Neumann, os utensílios,

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muitas vezes, não são usados de forma adequada pela população e, principalmente, por ambulantes. “Nós temos muitos problemas com quebras e roubos”, diz a assessora. Segundo ela, já houve até mesmo relatos de pessoas que levaram as lixeiras para suas propriedades particulares. A principal responsável pela limpeza e coleta de lixo no Centro é a Ecofor Ambiental, concessionária da Prefeitura. De acordo com a assessoria da empresa, 150 varredores trabalham durante os dois turnos fazendo a limpeza da área. Já no processo de coleta, a Ecofor utiliza cinco microcoletores, pequenos caminhões que se deslocam pelo bairro das nove horas da manhã às nove da noite. Diariamente, 48 toneladas de lixo domiciliar são recolhidas pelos carros, além de 12 toneladas de coco verde. Segundo a assessora da Sercefor, os microcoletores deveriam retirar apenas o lixo coletado na varrição das ruas, mas acabam recolhendo também o que é produzido em alguns estabelecimentos comerciais. “Em virtude da falta de cumprimento da legislação e de conscientização dos comerciantes e ambulantes, esses resíduos vão para as vias, e os microcoletores, além de tirar os resíduos da varrição, tem que tirar aqueles produzidos e descartados inadequadamente nas ruas durante o dia”, afirma Thereza Neumann.

Grandes Geradores A legislação à qual a assessora se refere diz respeito às regras para a coleta do lixo produzido pelos grandes geradores, isto é, os locais que originam mais de 50 quilos ou 100 litros de e rejeitos e resíduos por dia. De acordo com o diagnóstico realizado pela Sercefor, alguns desses principais geradores são restaurantes,

lanchonetes e mercados. “Além da grande quantidade, ainda tem a problemática dos resíduos orgânicos, altamente perecíveis, que são prejudiciais à saúde e não podem ser descartados em vias públicas”, diz a assessora da Secretaria. Pela lei 8.408/99, esses estabelecimentos devem contratar empresas privadas para fazer a coleta, norma que nem sempre é obedecida. No dia 11 de maio deste ano, a Sercefor realizou a primeira etapa de uma operação para interditar restaurantes e lanchonetes clandestinos, que não possuem alvará de funcionamento, registro sanitário ou plano de gerenciamento de resíduos sólidos. Na ocasião, dois restaurantes situados próximo à Praça do Ferreira foram fechados. A lanchonete Duda’s Burguer, que possui quatro unidades no Centro, é um dos estabelecimentos que já estão regularizados. Jean José de Moura, gerente de uma das filiais, afirma que a loja contrata, há algum tempo, os serviços de uma empresa privada para fazer a coleta dos 1200 litros de lixo produzidos

O Centro produz toneladas de lixo diárias, entre materiais inorgânicos e orgânicos. Conheça a situação causada pelo excesso de resíduos e rejeitos em um dos bairros de maior movimento comercial de Fortaleza.

por dia no local. “Bem antes dessa nova lei, há uns 5 anos atrás, a gente já usava esse sistema”, garante. Já o Bar Lyons, na Praça dos Leões, ainda luta para legalizar sua situação com a Secretaria. Segundo a dona do local, Maria de Fátima Porto, o que é jogado fora no estabelecimento não chega a grandes quantidades. “O lixo do bar é só casca de legume e descartáveis. Não dá nem quatro sacos [de 100 litros] por dia”, afirma. Mas a proprietária

“Em virtude da falta de cumprimento da legislação e de conscientização dos comerciantes e ambulantes, esses resíduos vão para as vias”. sabe da obrigatoriedade da regularização. “A Prefeitura agora tá impondo isso. A gente tá correndo atrás. Tem que obedecer”, diz.

Plano de Ação Segundo Thereza Neumann, estão sendo feitas diversas mudanças de procedimento, no que diz respeito tanto ao quantitativo – pessoas trabalhando, número de lixeiras e microcoletores – quanto às estratégias operacionais. “Nós estamos em processo de reavaliação de planos de trabalho, que envolvem tudo isso”, diz. Entre os aspectos que devem ser melhorados na coleta está o trabalho com os ambulantes, principalmente os que vendem coco e milho. Há quatro meses, a Prefeitura designou que os vendedores de coco deveriam colocar os resíduos produzidos em dois locais específicos do Centro: O Mercado São Sebastião e o Mercado Central. Antes, os cocos eram depositados com mais freqüência nas vias, e retirados pelos microcoletores. A medida facilitou a coleta do produto, que teve cerca de 800 toneladas recolhidas até abril deste ano. Os resíduos são aproveitados por uma cooperativa para a produção de fibras de estofamento.


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Já o trabalho de coleta de espigas de milho ainda não teve início. Anderson da Silva, vendedor ambulante de milho, contou que foi procurado pela Prefeitura há dois meses, mas que não foi tomada nenhuma providência até então. “Pediram para eu fazer um cadastro, e estou esperando resposta”, afirma. Enquanto isso, Anderson deposita o lixo em um camburão da Ecofor, próximo ao seu ponto de venda. Em suas estratégias de ação, a Prefeitura também dá destaque à importância dos catadores de materiais recicláveis como agentes que complementam a coleta oficial, realizada pela Ecofor. No entanto, Thereza Neumann aponta que alguns catadores enxergam seu trabalho apenas como fonte de renda, sem ter consciência da questão ambiental. O gerente do Duda’s Burger, Jean Moura, diz que é comum ver os sacos plásticos que contém o lixo das lojas rasgados ao final do dia. “O Mcdonalds e os shoppings, por exemplo, colocam o lixo para fora antes das empresas privadas chegarem. Os catadores vêm, e rasgam”. Para ele, essa atitude gera uma série de conseqüências negativas, como a poluição e o mau-cheiro nas vias. O catador de materiais recicláveis Francisco Silva aponta que o papel ambiental dos catadores no Centro não é um consenso. “Às vezes quando a gente chega tem os [catadores] que não têm paciência para abrir os sacos [com resíduos]. Aí pegam os sacos, rasgam, e deixam tudo jogado. Isso suja um pouco, né? A gente, às vezes, também ajeita as coisas, vê o que tem para aproveitar. É uma coisa pela outra: Tanto limpa, quanto suja”. De acordo Neumann, boa parte dos catadores têm preocupação com uma coleta sustentável. “Uma grande maioria já faz um trabalho não só com a visão da sustentação pessoal e familiar, mas também da questão ambiental”, destaca. Francisco Silva diz que, mesmo com a correria cotidiana, procura fazer trabalhar com consciência. “Eu faço a minha parte, não mexo em nada de ninguém. Entrego às vezes as coisas do pessoal na banca, digo – ei chapa, tava no chão... Só pego o que já está no lixo”, reforça.

Educar é preciso Além das ações práticas, a Sercefor também elabora medidas que objetivam conscientizar a população sobre o meio ambiente. O conjunto de ações ainda vai ser implementado, e deve consistir em oficinas e apresentações com conteúdos educativos. “A gente quer também que as pessoas se conscientizem de que podem pegar seus resíduos e passar para a associação de catadores”, reforça Neumann. Ela aponta que já existe uma campanha geral sobre lixo coordenada pela Prefeitura de Fortaleza, mas que é necessário elaborar ações específicas para o Centro da cidade. “Não dá pra você fazer um trabalho no Centro como é feito com a maioria dos bairros”. A preocupação se deve ao fato de ser um local de confluência do comércio, com poucos prédios residenciais. O conteúdo do programa de conscientização vai mostrar como as pessoas estão tratando os materiais que são descartados para evidenciar que uma postura incorreta pode trazer prejuízos para todos. “É uma mudança de hábito”, explica.

Conscientização para

R

esolver o problema da sujeira nas ruas e calçadas da cidade não requer apenas que o Poder Público desenvolva ações: é preciso que a população tenha consciência para lidar com a situação. Para o militar aposentado e freqüentador do Centro, Alfredo de Sena, falta responsabilidade social: “O povo não é muito educado. Se fosse, jogava lixo no lugar, já que tem vários locais para botar”. De acordo com o professor do curso de geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador na área de meio ambiente, Edson Vicente da Silva, educação ambiental é uma estratégia pedagógica que busca um melhor relacionamento com o ambiente em que vivemos. Essa modalidade educativa, segundo ele, deveria estar inserida no próprio processo de aprendizagem convencional, dentro da família e da escola. “As pessoas devem ter a noção de que tudo que a gente está lançando na

natureza vai se acumular. Muitos dos resíduos que nós depositamos não são absorvidos como ocorria há 50 anos atrás”, alerta. Um dos fatores que gera quantidades cada vez maiores de lixo é o consumismo. “O consumo leva, cada vez mais, a um desperdício da própria embalagem”, diz. A produção, em larga escala, de produtos não-degradáveis também agrava a reutilização natural dos materiais disponibilizados no comércio. O vendedor de milho, Anderson da Silva, diz que várias pessoas costumam jogar o produto consumido em seu ponto de venda no chão, mesmo com uma lixeira próxima. “Às vezes, eu vou e junto”, comenta. Nem todas as áreas do Centro, porém, sofrem com o acúmulo de sujeira. A ambulante Francineide de Araújo, que trabalha com batatinhas fritas, diz que o local onde trabalha – o Calçadão C. Rolim – é mais limpo que outras regiões do bairro. “Tem mais gari

Central

quê?

limpando nessa área, e a gente também contribui”, justifica. O Professor Edson da Silva explica que a mídia é um importante instrumento para ajudar na educação ambiental da sociedade. Ele defende que os meios de comunicação devem promover campanhas para conscientizar a população da necessidade de se acondicionar o lixo. Para ter efeito, de acordo com ele, essa idéia deve ser democratizada: “O Centro da cidade é onde fica o centro de consumo. A própria associação dos lojistas, a população, todos devem participar”.

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Foto: Evelyn Ferreira

Roteiro

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sobre os lobos

Dois Dois

Bares, Centros

Evelyn Ferreira evelyn@alu.ufc.br Tainara Carvalho taimaira@alu.ufc.br

Visitamos os representantes do Centro no concurso Comida di Buteco e trazemos o que cada lugar oferece de melhor. Degustamos os pratos que concorreram na competição e mostramos por quanto saiu cada um. Os botecos ficam em pontos distintos do Centro e, pelo ambiente ao redor, dão a impressão de que não pertencem ao mesmo bairro.

O camocim

T

ranquilidade e aconchego à meialuz. O lugar nem parece um bar. Tem mais cara de um restaurante com decoração rústica. O cliente pode escolher entre sentar-se no interior do estabelecimento ou nas mesas dispostas ao longo da calçada. A música que embala as conversas soa baixinho ao fundo. A Mercearia dos Pinhões recebe logo cedo grupos de amigos que resolvem se encontrar simplesmente para conversar enquanto o movimento ainda está fraco. Mais tarde, a Mercearia vai se enchendo de pessoas de idades diferentes, que vêm para desfrutar da companhia dos familiares ou para celebrar amizades. A clientela pede a Mousse de Bacalhau, carro-chefe da casa, para provar ou para degustar novamente. O prato concorreu na categoria “Tira-gosto” com outros 16 petiscos no Comida di Buteco. Mesmo com a aprovação dos clientes, o prato não venceu o concurso. Feito com bacalhau temperado e batata, as claras em neve dão um toque leve e aerado à mousse. O prato tem o tempero na medida. Já o preço é mais salgado: a porção custa R$ 22,50. Na mesa da calçada, três amigas conversam assuntos em comum, discutem a vida, comem e bebem enquanto a paisagem se mostra calma

no começo da noite de um sábado. As irmãs Aldiane Lima e Dedê Oliveira conhecem a Mercearia desde que o lugar foi inaugurado, há nove anos, e eventualmente o freqüentam desde então. Entre essas idas, elas aproveitam para levar amigos para conhecer o lugar. A Mercearia dos Pinhões não fica em um local com grande trânsito de pessoas. A soma de ambiente, comida e bebida é o que cativa os clientes e os fazem vir de diversos lugares da cidade. Uma mercearia em frente ao mercado A Mercearia dos Pinhões nasceu de um projeto de amigas, que foi levado adiante por Maria Manuel e por Marisa Porto. A ideia inicial era montar algo parecido com uma lanchonete num ambiente que se assemelhasse, de fato, a uma mercearia, com sacos espalhados e decoração rústica. Por fim, o projeto deu lugar a um estabelecimento que pode ser classificado como bar e restaurante. Maria Manuel conta que a logomarca, a decoração, o cardápio e os apetrechos da Mercearia foram idealizados por elas mesmas. O lugar conta com programação especial às quartas-feiras, na qual os amantes da música se encontram para ouvir o programa “Encontro com o Jazz”, que vai ao ar às 21h na Rádio Universitária FM.

Serviço

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Bar O Camocim Torresmo do Romildo 4,10 Caipirinha 2,50

Mercearia dos Pinhões Mousse de Bacalhau 22,50 Caipirinha 4,80

Rua Padre Mororó, 1012 Funciona todos os dias a partir das 11 da manhã

Praça Visconde de Pelotas, em frente ao Mercado dos Pinhões Funciona de terça a sexta, a partir das 18h

convivência, os nomes deram lugar aos apelidos. Finado, Cocão e Orelha de Abano são alguns deles. Jogando baralho ou “esculhambando” um ao outro, eles vão ficando, bebendo e se tornando parte da história d’O Camocim. Um bar que atravessou gerações Saindo do trabalho, de casa ou da faculdade, uma parada no Bar do Camocim para “tomar uma saideira”

pode ser uma boa pedida “pra tirar o estresse”, diz Romildo Sousa, proprietário do estabelecimento. De acordo com ele, o bar não possui um público específico, mas costuma ser frequentado por pessoas que vêm ao Centro da cidade. O bar existe há cerca de 25 anos. O antigo “O Carneiro”, hoje “O Camocim”, passou por três proprietários até chegar ao atual.

Foto: Regis Torquato

Mercearia dos Pinhões

Os amigos saem cedo e se encontram no bar do Romildo, O Camocim. Comecinho da noite e já estão todos lá. De tão próximos, chegam a se considerar da mesma família. Amizade de boteco. São todos “primos”. As conversas alegres vão esquentando o clima, mas a cerveja é sempre gelada. O garçom é amigo e chega fazendo graça. O ambiente é pequeno, então melhor mesmo é conversar na calçada, ainda que esteja “serenando”. O Camocim tem a melhor caipirinha da cidade. E isso é fato comprovado pelo Comida di Buteco, concurso que traz pela primeira vez a Fortaleza os 12 anos de experiências gastronômicas em bares e botecos de várias cidades brasileiras (ver box). A bebida vem chacoalhando nas mãos hábeis do garçom e é servida onde o cliente estiver. Seja na mesa dentro do bar, seja na mesa improvisada num banquinho na calçada. A caipirinha d’O Camocim convida pelo preço: uma por R$2,50. “Aqui não tem tristeza. Quem quiser ser feliz, é só vir pra cá!”, diz a vendedora Andréa Alexandre, que frequenta o bar há 10 anos. O encontro com os amigos e o clima de descontração são os principais motivos de suas idas ao Camocim. As amizades formam uma espécie de família em torno da cerveja gelada. Os “primos” são assíduos. Alguns frequentam o bar de segunda a segunda e, de tanta

Comida di Buteco O concurso gastronômico Comida di Buteco surgiu em Belo Horizonte (MG), em 2000. Com o passar dos anos, o evento foi se expandindo e, na edição deste ano, contou com a partcipação de 15 cidades em oito estados brasileiros. A competição avalia os estabelecimentos de acordo com a comida (melhor tira-gosto), atendimento, higiene e temperatura da bebida. Em Fortaleza, o concurso aconteceu entre os dias 15 de abril e 1º de maio. O vencedor foi o Bar do Papai (Rua Monsenhor Bruno, 1345, Aldeota), com

o petisco “Pedacinho do Céu”, feito com peito de frango empanado, recheado com queijo e presunto, acompanhado de molho à base de maionese. Além da premiação principal, o concurso contou com premiações patrocinadas. Na categoria “A Melhor Receita de Doritos”, os vencedores foram Paulo do Camarão (Rua Delmiro Gouveia, 315, Varjota) e Freguesia 10 (Rua Padre Francisco Pinto, 186, Benfica). Já “O Bar Que mais vendeu Caipirinha” foi o Kina do Feijão Verde (Rua João Cordeiro, 1697, Aldeota). E o Bar O Camocim venceu a categoria “A Melhor Caipirinha”.


Ilustração: Talles Rodrigues

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Plural

24 horas

embaixo dos lençóis

O Entre quatro paredes, salas escuras e prateleiras:

os lugares do sexo no Centro Em meio ao caos das ruas no horário comercial, a intimidade e o prazer são vendidos, adquiridos e exercitados. O Impressões mostra para você os palcos da vida privada que mexem com o imaginário e as fantasias de quem frequenta o bairro. Andressa Cavalcante · andcavfer@yahoo.com.br | João Carlos Bento · bento@alu.ufc.br | Larissa Lima · larissalima@alu.ufc.br

Quando as luzes se apagam...

L

eva algum tempo até que a vista se acostume com escuridão do local, iluminado apenas pelas luzes do filme projetado na tela, um dos três exibidos durante o dia no salão do Majestick Cine Club, localizado à Rua Major Facundo. O cine pornô funciona de domingo a domingo, das 10h30 às 21h. “Na semana, os horários mais freqüentados são a partir de 15h. Há um crescente. Final de semana é bem mais”, explica o recepcionista Nadilson Freitas, de 51 anos. De freqüentador a funcionário, Nadilson conta que sempre gostou de filmes pornôs. Sua proximidade com a equipe do cinema lhe rendeu a proposta de emprego. “Acabei gostando, me

adaptei fácil à clientela. Aqui nós temos todo tipo de público. Tem homem, tem gay... Funciona todo tipo de orientação sexual”, diz. Um dos frequentadores é Roberto, de 42 anos. Sempre que consegue tirar uma folga do seu salão de beleza ou tem de ir ao Centro para pagar contas ou fazer compras, o morador do bairro Álvaro Weyne aproveita para passar no Majestick e colocar o papo em dia com os amigos. Aos filmes, ele nem assiste mais. “Eu já gostei muito de vir assistir. Logo na adolescência, a gente fica curioso para conhecer tudo isso, né? Hoje em dia não. Hoje é mais um passatempo, de ver as amigas e achar graça com as loucuras que elas fazem”, conta, referindo-se às

transas que garotos de programa e travestis – “as travas” – mantêm com outros frequentadores em cabines individuais que ficam no segundo andar. “Eu jamais iria para uma cabine dessas para fazer sexo com alguém”, assegura o cabeleireiro, “casado” há 15 anos. Mas nem todos agem desta forma.Vitor, de 22 anos, é um dos que costuma ocupar assiduamente uma das 200 cadeiras da sala de exibição. O jovem costuma sair da Parangaba, onde trabalha como pedreiro, e ir ao cinema para “relaxar, assistir um filminho” e acompanhar os shows de striptease e sexo ao vivo, também atrações do Majestick. Ele conta que já chegou a participar de um dos shows, nos quais homens da plateia

sobem ao palco para transar com garotas de programa. O desafio é manter a ereção ou ser vaiado pelo público. “O cara tem que estar firme na hora, senão a galera manda descer”, detalha. Entre as experiências,Vitor narra a vez em que um casal heterossexual lhe convidou para participar de uma transa. “Uma dona bonita. O cara pagou... fantasia, né?”, sugere. Mesmo com todas essas histórias, o jovem não se descuida nas relações sexuais que mantém e prefere o Majestick, entre os cines do bairro, pela organização e pelo público que o frequenta. “Aqui é muito mais ajeitado, mais limpo, as cadeiras são mais confortáveis. Nos outros, você tem até medo de entrar”.

Sex shop: apenas mais uma loja do Centro

M

esmo em menor quantidade e financeiramente menos acessíveis que motéis e cinemas pornôs, os sex shops também fazem parte do comércio do Centro voltado ao sexo. Na Rua Senador Pompeu, entre as ruas Senador Alencar e Castro e Silva, vitrines de um sex shop exibem uma pequena amostra do que pode ser encontrado do lado de dentro: fantasias, calcinhas comestíveis, algemas, chicotes, vibradores, cremes, óleos e outros produtos inventados para incrementar as relações sexuais. A loja, uma das primeiras desse ramo inauguradas em Fortaleza, pertence a Regina Célia de Paula, 54 anos. Com experiência de 30 anos no

mercado de sex shops, a empresária começou o negócio em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde nasceu e onde mantém duas lojas até hoje. “Meu marido era cliente de sex shop, gostava de frequentar, comprar produtos, achava legal, aí tivemos a ideia de colocar”, conta. Em 2002, a empresária visitou Fortaleza com o marido. Ele veio a trabalho; ela, a passeio. Durante a estadia, pensou na possibilidade de abrir uma de suas lojas na cidade. Deu certo. Um comércio de ferragens do Centro deu lugar ao mais novo sex shop da região. Por que no Centro? “Porque é um lugar onde todas as pessoas vêm”, explica. Sobre a relação com os comerciantes vizinhos, ela afirma que é “tranquila”, “é uma

loja como outra qualquer”. De acordo com a empresária, em Fortaleza há entre seis e dez sex shops. Só no Centro, ela acredita que haja uma média de três. Ela afirma que a princípio se assustou com a liberalidade sexual dos cearenses: “Aqui tudo pode, é um motel em cada esquina. Em Ribeirão Preto, é proibido ter motel dentro da cidade. As restrições lá são bem maiores”. Ela conta que as mulheres na faixa de 30 anos formam a maior parte do público consumidor, diferentemente de tempos passados, quando esse posto era ocupado pelos homens. A maioria dos produtos é de fabricação nacional. Os mais vendidos são os cosméticos e os vibradores. As

lingeries são fabricadas na própria loja, que conta com cerca de 12 funcionários. Regina faz questão de afirmar que não trabalha com pornografia, mas com o erótico. “Com prostituição não trabalho, aliás eu sou totalmente contra prostituição, seja ela qual for. Eu trabalho com produtos que vão ajudar no relacionamento do casal”, defende ela, que também dá dicas para os frequentadores da loja. Um deles é Márcio (nome fictício), 25, que costuma ir a sex shops há cerca de três anos. É a terceira vez que vai ao de Regina. Ele trabalha no Centro e aproveita o intervalo do almoço para ir à loja, sempre com a intenção de comprar algo diferente “pra agradar”.

mercado do sexo também gira em torno dos motéis do bairro. São dezenas de pequenos estabelecimentos que suprem, principalmente, as classes C e D. Os preços para duas horas de permanência variam de R$ 14,00 a R$ 18,00, em média, e a pernoite, em torno de R$ 30,00. Os valores dependem da tabela de preços de cada motel e da estrutura dos quartos. Andréia (nome fictício), recepcionista de um motel na Rua Pedro Pereira, afirma que os clientes preferem os quartos com uma estrutura melhor, com ar-condicionado e cadeira erótica, mesmo custando um pouco mais. “As pessoas pagam pra ter mais conforto”, diz. Andréia atua no ramo há quatro anos em um esquema em que tem dois dias de folga após trabalhar por 24h seguidas. A jornada de trabalho, no entanto, não parece ser problema. “A gente só trabalha dez dias no mês”, explica a recepcionista, que usa o tempo vago em casa, no Eusébio, onde vive com o marido.

clientes pernoitam sozinhos, para assistir filmes pornôs, e interfonam a noite inteira propondo programas para a recepcionista. Dos incômodos da atividade, Andréia conta que alguns clientes se exaltam quando são cobrados por algo que consumiram ou quebraram e querem agredí-la. Em outros casos, clientes pernoitam sozinhos, para assistir filmes pornôs, e interfonam a noite inteira propondo programas para a recepcionista. Mas os piores inconvenientes do serviço dizem respeito à segurança, já que os motéis funcionam 24h e o Centro tem pouco movimento à noite. A segurança é feita por profissionais contratados. Os donos, geralmente, aparecem pouco. Andréia relata ainda que a maior parte do público é de homossexuais e profissionais do sexo. A movimentação nesses estabelecimentos, segundo a recepcionista, varia de acordo com a rotina do comércio no Centro. O período de maior lucratividade vai de novembro a dezembro, quando o bairro recebe a maior quantidade de visitantes.

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Passeio

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sobre os lobos

Quando a do centro se revela

noite

As portas dos comércios se fecham após um dia inteiro de trabalho, mas o bairro não dorme. Inicia mais uma noite no Centro.

Paulo Araújo pauloaraujo@alu.ufc.br Renata de Lima

renatadelima@alu.ufc.br Thaís Jorge

thaisjorge@alu.ufc.br

Ensaio Fotográfico Isabel Paz

isabelpaz@alu.ufc.br

A

s buzinas dão as boas-vindas aos repórteres que andam contra a corrente. Enquanto passos apressados dão adeus ao Centro de Fortaleza e, numa sexta-feira, seguem ávidos por um fim de semana, adentramos, em busca de histórias que se escondem na noite do bairro. Enquanto uns vão embora, outros estão no horário de expediente em pleno vapor. Na Praça Coração de Jesus, por volta das 19h, Marcos Peixoto*, 29 anos, está num corre-corre vendendo passagens de seus vários cartões de vale transporte eletrônico, os passcards. É nesse horário que o movimento aumenta. São muitos os clientes que querem pagar passagem mais barata R$ 1,75 - na volta para casa. Carlos garante o preço mais baixo graças à compra de vales eletrônicos de pessoas que recebem auxílio-transporte das empresas. O expediente de segunda à sexta é puxado, mas garante uma renda. Da diária, Carlos consegue tirar de 50 a 70 reais. “O dia que eu vendo mais é no sábado, uns 10 cartões”, diz. Há um ano na correria das paradas de ônibus, o vendedor contabiliza a perda de apenas um cartão.

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“Às vezes, assim que eles [os passageiros] pegam os cartões, os motoristas saem nas carreiras no ônibus e aí nós temos que correr atrás pra pegar o cartão de volta porque senão temos prejuízo”, diz antes de apressar-se para abordar os passageiros na chegada de mais um ônibus.

A Praça se ilumina

Seguimos para o local que é apontado como coração do Centro: a Praça do Ferreira. O local não tem a mesma face da correria da manhã, mas alguns retardam a ida para casa para admirar a beleza da Praça iluminada. Casais, crianças e idosos aproveitam o vento e a calma das oito da noite que começa a tomar conta do Centro. Compondo a paisagem, Fábio Rodrigues, 34, puxa seu carro de reciclagem cheio de papelão. Há 14 anos, ele repete a rotina de rodar pelo Centro atrás de plástico, metal, papelão, tudo que possa vender para a reciclagem. Consegue apurar uns R$ 20 por dia. Onde mora? “Moro na rua”, diz simplesmente. Algo natural para quem, desde os 9 anos, divide as lajes do Centro com muitos outros. Fábio não conta com os abrigos que atendem a população de rua. “[Se for] só pra dormir, durmo em qualquer lugar”.

Enquanto Fábio segue com seu carro de reciclagem, a lanchonete em frente à Praça do Ferreira está movimentada. Trabalhadores aproveitam o happy hour da sexta-feira com cerveja e tira-gosto. A dona da lanchonete, Isabela Delfin, 42, explica que a sexta é sempre mais movimentada, por isso só fecha as portas às 22h. “Nossa clientela é basicamente pessoas mais velhas e também comerciários que trabalham aqui no Centro e depois do expediente vem pra cá”, afirma. Um dos clientes assíduos é Américo Vespúcio, 59, aposentado. Animado, ele começa a noite de sexta sempre na lanchonete “para fazer, como se diz na gíria do malandro, a cadência por aqui e depois sair por aí, farreando”. As noitadas são desde o tempo das festas no Clube dos Advogados, explica, sem saber precisar o ano. O roteiro pelo Centro ele já tem acertado: os bares da Praça do Ferreira, Avenida Duque de Caxias, Rua Pedro Pereira e “nos churrasquinhos da noite”. Saudoso, diz que a boemia do Centro acabou. Agora, para se divertir, Américo segue para os clubes da periferia. “Porque sou forrozeiro, gosto de dançar”, diz.

* Nome fictício. A identidade do vendedor de vale transporte eletrônico foi preservada por conta da ilegalidade de sua atividade.Ver matéria sobre venda de passcards na página 5 desta edição.


Impressões Fortaleza | outubro de 2011

Passeio

Fortaleza,

S

eguimos nossa visita pelo Centro e paramos na Confraria Raimundo dos Queijos, onde estava sendo exibido o média-metragem “Fortaleza, meu amor”. Segundo Pedro Álvares, autor do filme, a ideia era apresentar as belezas da cidade, atentando para a necessidade de revitalização de alguns espaços, inclusive o Centro, e de respeito à cultura cearense. “Todo mundo fala mal da cidade, mas a cidade é o quarto destino turístico do País. Nós estamos falando mal enquanto o Brasil todo está achando a gente lindo”, afirma. “Eu quis mostrar no filme que Fortaleza tem coisas lindas. O que restou dela é nosso, e a gente tem que preservar”, completa. Na ocasião, aproveitamos também para fazer o prélançamento da primeira edição do “Impressões Centro”. Um dos jornais foi para o casal Marlene Lima de Albuquerque, de 63 anos, e Mardônio César Diógenes, de 70 anos. Eles, que

meu se dizem “boêmios”, relatam o anseio de ver o Centro voltando a ter vida à noite, como nos antigos tempos. “Todo esse movimento aqui é para revitalizar o Centro, que todos nós queremos e aplaudimos”, declaram, em uníssono.

Aconchego do Passeio Próximo das 22 horas, o Passeio Público nos recebe com a beleza e tranquilidade costumeira. No quiosque, poucas pessoas aproveitam o clima aconchegante do happy hour, que segue até as 23h. A proprietária do restaurante, Rosana Lins, 50 anos, diz que ainda não fez divulgação do estabelecimento, mas que já existe um movimento considerável. Ela explica que o movimento da noite está um pouco menor por conta do evento no Raimundo dos Queijos, mas, nos outros dias, o número de pessoas não aumenta muito. “Eu acho que esse é o movimento ideal, porque

amor

fica tranquilo, as pessoas conversam, se conhecem...”. Quanto à segurança, Rosana diz que desde quando abriu o restaurante, em setembro de 2010, nunca teve nenhum problema. Para a proprietária, a presença da Guarda Municipal, pela manhã, e de segurança armada, pela noite, garantem a tranquilidade. A francesa Matilde Fillat, 23 anos, gosta de aproveitar as apresentações musicais do Passeio na sexta à noite. A estudante de intercâmbio diz que frequenta poucos lugares no Centro pela noite, mas gosta de ir para o Salão das Ilusões e para as festas alternativas do Cine Betão. Matilde explica que um dos motivos para não ser uma frequentadora noturna assídua do Centro é porque sempre depende de uma carona para voltar em segurança para casa. “O Centro pra minha casa é muito longe, não dá pra eu ir a pé, não tem ônibus nessa hora e eu dependo das pessoas [que tem carro]”, diz.

O Centro que

surpreende Bem perto das 23h, os arredores do Passeio Público já estavam desertos. De carro, passamos pela Praça da Estação, onde as inúmeras bancas montadas já anunciavam a feira do próximo dia. Próximo à Praça José de Alencar, o que mais chamava a atenção, além do silêncio, era o pouco lixo encontrado nas ruas. Aliás, com a presença dos profissionais da limpeza e a pouca circulação de pessoas, o Centro está bem limpo nesse horário. Próximo ao Theatro José de Alencar, trabalhadores da Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb) descansavam antes de dar conta do pouco lixo que ainda restava nas calçadas. Além deles, vendedores de milho, um casal de mãos dadas, catadores e seguranças sentados nas esquinas compunham a paisagem do Centro. Na Avenida Imperador, não era preciso utilizar a calçada para caminhar tranquilamente. Pouco carro passava por lá, as pessoas andavam no meio da rua. Movimento mesmo somente nos bares, em algumas paradas de ônibus e na boate Gata Garota, onde mototaxistas se aglomeravam próximo ao meio-fio. Seguindo

pela Avenida Duque de Caxias, perto da Igreja do Carmo, mais gente brindando a chegada do fim de semana. Passando às 23h pela Praça Coração de Jesus, as mesmas paradas de ônibus por onde começamos a matéria já estavam abandonadas. Era de se pensar que nada mais iria acontecer até meianoite. Engano nosso. Mais uma volta pelo miolo do Centro nos levou até a esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde a Polícia Militar parecia fechar um bingo. A movimentação lembrava outra ação da Polícia realizada em abril, quando houve a maior operação de combate aos bingos clandestinos de Fortaleza deste ano, com o fechamento de duas casas de aposta no Centro. Não paramos no local pela grande quantidade de carros estacionados. Não havia espaço para o nosso, então seguimos pela Major Facundo, em direção à Praça do Ferreira.

reúne familiares e amigos até às 2h da madrugada na Praça do Ferreira para relembrar os tempos áureos do local. Entre as memórias, as do Abrigo Central e da Banca do Bodinho, onde começou a trabalhar em 1963. Sobre a necessidade do Centro voltar a ter vida à noite, ele acredita que a saída é o projeto de revitalização, que “precisa sair do papel”. “Eu não sei quando esse projeto vai entrar em funcionamento, mas que existe, existe! Eu espero que não seja muito tarde, não”. Francisco Paixão afirma que é “tranquilo, tranquilo” beber e conversar sobre “futebol, religião, política, tudo” naquele horário na Praça. Após uma longa conversa, ele finaliza lamentando a morte do jornaleiro Bodinho, em 2004. “Deixou só saudade. Mas aí, fazer o quê, né? Hoje, ele morreu; amanhã, morre eu; depois, morrem vocês, e a vida continua...” Boêmios noturnos de Assim, nos despedimos Fortaleza da Praça do Ferreira, após as Às 23h22min, quem badaladas da Coluna da Hora. esperaria ouvir João Gilberto Não sem antes avistarmos (“Se você disser que eu pessoas dormindo amontoadas desafino, amor...”) por aquelas nas ruas, bem juntas para vencer ruas? É que toda sexta-feira, o frio que já podia se sentir há 15 anos, Francisco Ferreira com a chegada da madrugada. Paixão, dono da banca Paixão,

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Esquinas

Impressões Fortaleza Fortaleza| |julho outubro de 2011 Impressões de 2011 {o ombudsman

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O que as pessoas fazem para agravar os

problemas do Centro? E

você?

Os problemas de um bairro não são de responsabilidade apenas do Poder Público, mas também das pessoas que nele vivem, trabalham ou passeiam. No Centro, por exemplo, a solução de problemas como poluição e falta de gentileza depende bastante daqueles que circulam diariamente na região. Saiba o que os entrevistados do Esquinas desta edição pensam sobre atitudes, dos outros e deles próprios, que colaboram para que o Centro não seja um lugar melhor. As pessoas não contribuem na limpeza da cidade. Apesar de que, no Centro, existem vários cantos para guardar o lixo, o pessoal joga o lixo na rua. Eu acho que é um problema de educação, as pessoas já nascem com isso mesmo. Problema de estacionamento, as pessoas colocam o carro no meio da rua, sem ver que os outros precisam passar. Então, respeito entre uma pessoa e outra, o que não está havendo no Centro da cidade. E você? Eu deveria, (para) cada pessoa que entra aqui na loja, dar uma orientação sobre esse erro, porque a gente já é educado para ficar calado. Então a gente só sabe falar e reclamar entre quatro paredes. Deveria, (para) todo cliente que entrar aqui na loja, eu fazer uma orientação que estava errado e que essas pessoas deveriam mudar. Raildo Oliveira comerciário

Muitas coisas, por exemplo, o caso do lixo. Não tem uma lixeira adequada para as pessoas colocarem o lixo, não tem banheiros químicos. Às vezes as pessoas têm que pedir para um lojista para entrar num banheiro, uma coisa assim. E outras coisa mais, tipo assim, essa panfletagem, que suja as ruas, e estacionamento, que tá cada vez mais tomando o lugar das lojas.

Em primeiro lugar, não usar o bom senso. Se a pessoa procurar usar o bom senso para tudo, eu acho que já ameniza pelo menos 50% dos problemas. Ou seja, é muito fácil a pessoa querer ser muito individualista, pensar somente nela, não querer ceder um minuto do seu tempo para ninguém. Se ela quer atravessar a rua, ela pensa só nela, quando pode ajudar um idoso, uma criança. Se ela vem no seu carro, não pode parar pra passar ninguém, se preocupa em buzinar para passar mais rápido ainda. Se ela está aqui no Centro e toma um caldo de cana ou um refrigerante, ela se preocupa em tomar o caldo de cana, o refrigerante, mas não se preocupa, na sua maioria, em jogar no lixo o recipiente, o copo vazio ou a lata, ela joga simplesmente na rua. Se come um milho quente, joga o sabugo na rua, Então a sujeira é o fator mais crucial pra que tenha problemas no Centro da cidade. Se procurar usar as regras básicas do bom senso, usar as palavras mágicas, o bom-dia, boa-tarde, me desculpe, muito obrigado, por favor ou com licença, tudo isso já faria com que os problemas fossem pelo menos amenizados. Tem o estresse, tem a “liseira”, os problemas sociais, os problemas familiares. Então a pessoa, além de todos os seus problemas particulares, se depara no Centro, com transeuntes, comerciantes, condutores de veículos, com o descaso das pessoas e com a falta de educação, isso vai contribuir muito mais para que os problemas cresçam. E você? Quem sou eu para dizer como eu contribuo com os problemas do Centro. Nada, eu acho que nada, mas têm os críticos, as pessoas que não gostam. Guido Rabelo Nobre proprietário de estacionamento

E você? Agora você me pegou, eu não sei te dizer isso aí. Francisco Edson Silva ambulante

As pessoas sujam a rua, não usam as coletas de lixo para colocar o lixo. As praças não têm banco, como a Praça dos Leões. E os moradores de rua também, que fazem suas necessidades à noite e amanhece tudo sujo, as calçadas. E você? Às vezes eu também jogo lixo em determinado lugar porque não tem lixeira próxima. A gente fica com preguiça de se deslocar uma determinada distância pra colocar na lixeira e joga (o lixo) em qualquer lugar.

Os camelôs ficam interrompendo a passagem dos pedestres nas calçadas, não tem por onde a gente passar. A gente tem que arriscar muitas vezes a vida passando lá pelo asfalto porque eles tomam totalmente a calçada, não são organiza-dos, são totalmente desorganizados. E você? Essa aí você me pegou. Eu acho que às vezes eu não passo na faixa de pedestres. Às vezes eu passo entre os carros arriscando minha vida e também atrapalhando o trânsito. Francisca Luzia Henrique de Sousa comerciária

Francisco José Lopes mototaxista

Um dos principais (problemas) é o congestionamento, a grande quantidade de veículos e o desrespeito dos motoristas com os pedestres. Eu acho que é um dos problemas que temos hoje aqui em Fortaleza devido ao aumento da população. Consequentemente, o aumento dos carros faz com que, no Centro, a gente demore quase quinze minutos pra atravessar a rua ou pra se deslocar.

É a falta de responsabilidade. As pessoas estão poluindo muito e não estão organizando o Centro, estão deixando a bagunça acontecer mesmo. Não tá tendo trânsito. Não tá tendo limpeza, a segurança está horrível aqui. O que tá bagunçando o Centro é isso, fora os camelôs que estão invadindo a calçada, estão fazendo de tudo na rua, o que tá acontecendo é isso.

E você? Eu acho que a questão da poluição, da sujeira. Às vezes a gente passa no Centro, come, e não tem nada perto, e a gente joga (lixo no chão). Não só do Centro, mas também da cidade.

E você? É banca de revista, então às vezes botar propaganda do lado de fora, no poste, também ajuda a poluir. O que mais tem no setor de propaganda é isso (poluição), então o que eu ajudo na poluição é isso.

Sabrina Silva dos Santos estudante

Alisson Gomes jornaleiro

Impressões Centro 3  

Jornal Impressões Comunicação UFC

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