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Roger Q. Pires

Impressões

maio 2011 Edição 10

centro

As bancas, os novos tempos e a lei Os jornaleiros precisam diversificar os produtos que vendem nas bancas e devem seguir normas de ocupação do espaço urbano.

Viva seu dia de turista - aproveite para fazer compras e passear pelo bairro.

dama Lord

A última do

Evelyn Ferreira

Iana Soares

Moradora do Lord Hotel resiste ao tempo e às obras, mas terá que abandonar seu lar por conta de desapropriação do edifício.

Quase

Pronto

Em reforma desde fevereiro de 2009, o prédio do Cine São Luiz se prepara para receber a Secretaria de Cultura do Ceará

Prostituição no Passeio

Público Como a revitalização mudou a relação do lugar com as trabalhadoras do sexo.

Dora Moreira

Não precisa ser turista para conhecer as maravilhas do Centro


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{o ombudsman Impressões Fortaleza | maio de 2011

sobre os lobos

Múltiplas faces do Centro Nossa proposta de levar o Impressões para o Centro de Fortaleza continua. Cada vez mais firme e valendo a pena! Desta vez, nossa reuinão de pauta foi acolhida pela “Casa do Jornalista”, a Associação Cearense de Imprensa (ACI). E, como não adianta apenas estar no Centro, mas contar com experiências de pessoas que vivem o bairro, tivemos a presença do jornaleiro Sobral, aquele da banca homônima na Praça Nossa Senhora do Carmo. Ele nos trouxe a visão da modernização do Centro a partir das bancas de revistas, que hoje não se limitam apenas à venda de jornais e revistas... A matéria dos repórteres Érico Oliveira e Roger Pires aprofunda a questão das vendas que complementam a renda de quem quer se manter jornaleiro nos dias de hoje. O Esquinas desta edição traz opiniões de feirantes, consumidores e até autoridades

para saber o que as pessoas estão achando da transferência dos feirantes da Praça da Lagoinha e imediações para a Praça da Estação. O que será que os vendedores que já estavam lá antes da chegada dos 1.400 feirantes pensam a respeito? E o Centro tem gastronomia! Os repórteres Caio Mota e Isabel Paz percorreram o bairro e encontraram 3 opções diferentes (em sabor e preço) de lugares para ir na hora em que a fome falar mais alto. Depois do almoço, nada melhor que passar uma tarde no Centro... bater um papo com os colegas de trabalho, aproveitar o tempo para fazer umas comprinhas rápidas, tirar um cochilo... Quem conta melhor o que as pessoas fazem no período da tarde no Centro são os repórteres Érico Oliveira e Lucas Mesquita. As fotos que acompanham são um ensaio de Dora Moreira.

Caindo a noitinha, as mulheres que ganham a vida com o corpo saem e vão para as praças e ruas do Centro à procura de clientes. A repórter Thaís Jorge conversou com uma profissional do sexo. A mulher revelou que a vigilância em certos locais, como o Passeio Público, não atrapalha sua rotina laboral, apenas a faz migrar para outros lugares. Tanta oferta de comércio. De todos os tipos, para todos os gostos. Tudo isso atrai turistas. Não tanto quanto antigamente, mas ainda vem gente de fora para se hospedar nos hotéis do Centro de Fortaleza. Ingrid Baquit e Tatiane Jovino exploraram o lado turístico do bairro e descobriram que os turistas que se hospedam no Centro, fazem isso por falta de espaço na rede hoteleira mais próxima do mar. Mesmo com a vida comercial fervilhando no Centro de Fortaleza, o bairro ainda abriga moradores apaixonados. É o

caso da Dona Francisca Soares. As repórteres Evelyn Ferreira e Renata de Lima conversaram com a última moradora do prédio que foi um dia um grande hotel, que recebeu hóspedes ilustres. Depois da ameaça de derrubada do prédio, a Prefeitura de Fortaleza o tombou e o Governo do Estado pode transformar o prédio em mais um equipamento cultural. E a Dona Francisca, para onde ela vai? Velhos conhecidos dos frequentadores do Centro também aparecem por aqui. O Cine São Luiz e a Santa Casa de Misericórdia são abordados pelas repórteres Natália Maia e Vanessa Madeira, que tratam dos novos usos e reformas dos locais, além do tombamento recente do prédio onde funciona o hospital. Tudo isso faz parte da nossa segunda edição do Jornal Impressões. Esperamos que leiam, gostem e reflitam!

Talles Rodrigues | tallesrodrigues.tumblr.com

Vida de

repórter Thais Jorge

DAS 8 ÀS 18 <orientação> Edgard Patrício <equipe> Andressa Cavalcante Caio Mota Dora Moreira Érico Oliveira Evelyn Ferreira Ingrid Baquit Isabel Paz João Bento Larissa Lima Lara Vasconcelos Lucas Mesquita Natália Maia Paulo Araújo Renata de Lima Roger Pires Tainara Carvalho Talles Rodrigues Tatiane Jovino Thaís Jorge Vanessa Madeira

Fale Conosco para falar conosco, escreva para impressoes@ufc.br

Na reunião de pauta da turma para esta segunda edição, defendi a importância de escrevermos sobre o tombamento da Santa Casa de Misericórdia, no Centro. No entanto, a pauta acabou não sendo executada por mim, mas por Vanessa Madeira. Isto porque, na mesma reunião, surgiu uma discussão sobre o Passeio Público, a revitalização e a programação cultural que está sendo oferecida no local, assim como a presença (ou não) da prostituição. “Não seria interessante ver como as prostitutas enxergam a reforma do Passeio Público? Para onde essas mulheres foram após a revitalização?”, perguntei ao rofessor e aos colegas da

turma. Logo surgia uma nova pauta para a edição, que parecia bastante desafiadora, pois era preciso descobrir quem eram essas mulheres que antes ocupavam o Passeio e, principalmente, onde elas estão agora. Precisei ir ao Passeio Público durante três dias para observar o interior e os arredores, conversar com guardas municipais e frequentadores, caminhar próximo aos bares e me aproximar daquelas que seriam protagonistas do texto. Na primeira ida ao Passeio, nenhuma palavra delas. Na segunda visita, conversei rapidamente com uma das mulheres, mas sem papel, caneta ou gravador. Neide, como preferiu ser

identificada nesta edição, torna-se personagem da matéria somente após entrevista realizada na terceira visita, quando eu já quase estava desistindo de executar a pauta. A ideia era entrevistar Neide e mais mulheres que estavam com ela naquela tarde. No entanto, precisei finalizar as entrevistas precocemente, quando fui abordada por um homem que não compreendia o fato de eu estar ali apenas como estudante de Jornalismo. Mesmo com as explicações de Neide - e minhas – de que “eu não era nova no local”, a situação ficou embaraçosa e não foi possível entrevistar as outras meninas. E a pauta teve que seguir novos caminhos.


Plural

{impressões Lara Vasconcelos

Impressões Fortaleza | maio de 2011 Impressões Fortaleza | maio de 2011

“Ao redor

é a mesma coisa”

O Impressões ouviu quatro mulheres para saber: qual o lugar da prostiuição no Passeio Público após a revitalização?

thaisjorge@alu.ufc.br

Lara Vasconcelos

Para a socióloga Ana Paula Luna, autora do trabalho “Amor à venda? Uma etnografia da prostituição no restaurante Granada”, a prostituição no Passeio Público não acabou. O

Dora Moreira

N

eide*, de 36 anos, é “trabalhadora do sexo”, como se define, nas proximidades do Passeio Público há 20 anos. Ela acompanhou as diversas mudanças no local, desde o período de degradação, quando o fortalezense reclamava da prostituição e da marginalidade, até a reforma e reinauguração em 2007. Segundo Neide, com a reforma, a prostituição deixou de existir dentro do Passeio Público. No entanto, ela afirma que “ao redor é a mesma coisa”. A revitalização do local e, consequentemente, a implantação de uma programação cultural para atrair visitantes ao Passeio em “nada” alterou a rotina de trabalho dela.“Eu não ando aí”, afirma.A prostituição, que antes ocupava o interior do local, apenas migrou para os arredores e “bares e boates” situados nas ruas Dr. João Moreira e Major Facundo. Se não podem mais conseguir clientes dentro do Passeio, principalmente pela rígida vigilância da Guarda Municipal, durante o dia, as mulheres agora se deslocam para outras praças do Centro. Segundo Neide, a Praça José de Alencar é

“Muitas vezes, as pessoas passam sem olhar”

das prostitutas não deveria ser encarada, pelo poder público e pelos visitantes, como fator depreciativo para a praça.“Por mais que elas não estejam com os corpos expostos, até porque os clientes já não estão mais lá, elas fazem parte da dinâmica local”, conclui.

“Elas viram que não iam mais ter vez”

preconceito.“Algumas pessoas que não frequentavam, já frequentam. As pessoas estão se aproximando, porque existe muita programação no sábado e no domingo”. Sobre a importância da revitalização do Passeio Público para a cidade de Fortaleza, Neide é otimista.“É importante.Antes, vivia abandonado, sem luz, sem jardim. Hoje, não...”, finaliza.

lugar só deixou de ser preferencial para essas mulheres, já que muitos dos clientes não frequentam mais o Passeio Público após a revitalização. A pesquisa aponta que estes clientes, em sua maioria, moram na periferia da cidade e, muitos deles, não têm emprego. e vão ao Centro exclusivamente pela prostituição. De acordo com a pesquisadora, que conviveu com as prostitutas no restaurante Granada, em frente ao Passeio Público, durante oito meses em 2010, o preconceito ainda é muito forte.“Muitas vezes, as pessoas passam sem olhar; muitas vezes, mudam de rua”. Paula Luna enfatiza que as trabalhadoras do sexo não são contra as ações da Prefeitura no Passeio.“Quando a praça era destruída, também não era bom para elas”, diz. No entanto, a pesquisadora acredita ser “absolutamente hipócrita” a ideia transmitida hoje de que não há mais prostituição no Passeio, como forma de atrair turismo familiar para o local. Para a pesquisadora, a presença

A guarda municipal Ludmila Nunes acredita que “as pessoas ainda têm medo” de ir ao Passeio Público devido ao estigma deixado pela prostituição e lamenta: “É uma pena, porque essa praça é muito linda. É legal, é agradável”. Segundo Ludmila, que já fazia a segurança em 2008, logo após a reforma, as pessoas chegavam perguntando o motivo de a Guarda Municipal não expulsar as mulheres do local. “A gente falava que a praça é pública e todo mundo podia entrar”. Ludmila Nunes defende que a prostituição quase inexiste no interior do Passeio hoje, mas que está bastante presente nos bares próximos. “Elas viram que não iam mais ter vez”, afirma.

“Eu nunca percebi hostilidade delas” Rosana Lins assumiu o comando do Café Passeio, bar e restaurante localizado no interior da praça, em setembro de 2010. Desde que chegou ao local, ela observa uma situação pacífica entre as prostitutas que trabalham nos arredores do Passeio e as pessoas que visitam a praça após a revitalização. “Eu não percebo hostilidade delas (das prostitutas)”, diz. Para Rosana Lins, os espaços são respeitados e, muitas vezes, as prostitutas não procuram a praça “nem para passear”, o

que ela lamenta. “Tem festa no Passeio, elas não se manifestam. A gente também não se manifesta com a festa delas”. A proprietária do Café Passeio lembra ainda de dois eventos no restaurante– um deles, show cover do cantor Waldick Soriano – em que as mulheres estiveram presentes e, segundo Rosana, não houve problema algum com a clientela. No entanto, nem mesmo a proprietária do restaurante escapa do preconceito ainda existente na associação feita Lara Vasconcelos

um dos pontos para onde migrou a prostituição. Ela ressalta ainda que o preconceito sofrido nas proximidades do Passeio parte em sua maioria de mulheres casadas. Os novos visitantes do local, segundo ela, principalmente estudantes, não demonstram tanto

Thaís Jorge

entre prostituição e Passeio Publico. “As pessoas riem quando eu falo que trabalho no Passeio, mas eu não dou moral”, afirma. Ela enfatiza ainda a necessidade de empresas de turismo investirem mais na visitação à praça, que agora tem estrutura - segurança, internet, restaurante, banheiros, equipe de limpeza e jardinagem. Para Rosana Lins, as pessoas precisam “re-conhecer o Passeio Publico”, espaço sem marginalidade e sem drogas. “A pessoa que tem resistência (de ir ao Passeio) logo consegue perceber que dentro não existe mais isso, que é coisa do passado”, finaliza.

* Neide é um nome fictício para a “trabalhadora do sexo” (como preferiu ser chamada) que concedeu entrevista para a repórter. A pedido da entrevistada, ela não quis não ser identificada.

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{o ombudsman Impressões Fortaleza | maio de 2011

sobre os lobos

Roger Q. Pires

Central

Diversificar para se

manter Erico Oliveira ericooal@alu.ufc.br Roger Q. Pires rogerqpires@alu.ufc.br

D

á para notar bem que os jornaleiros – nome dado às pessoas que trabalham em bancas de jornais e revistas – são bastante requisitados. É possível também ver que jornais e revistas já são secundários nesses estabelecimentos. Bombons, cigarros, biscoitos, salgadinhos, créditos para celular, apostilas e editais de concursos públicos e até água de coco asseguram a entrada de dinheiro nas bancas. No Centro, bairro com maior concentração de bancas, algumas ainda resistem e comercializam apenas livros, jornais e revistas – no caso dos livros, quem vende são principalmente jornaleiros mais antigos. Daniel Fernandes trabalha na Banca Ravena, na Rua General Sampaio, de frente para as lojas. Na banca dele, o espaço ainda é tomado por revistas e livros,

pessoal procura mais” afirma Daniel. No caso de Daniel e alguns outros, a pequena estante que expõe com destaque os três jornais de maior circulação da capital (Diário do Nordeste, O Povo e O Estado) já não tem vez. Mas isso ainda não é o padrão na maioria das bancas, que mantêm a tradicional disposição de produtos, embora os jornaleiros concordem que a venda de jornais não é mais o “carro-chefe”. O casal Cristiane Queiroz e Carlos Lobão trabalha há 32 anos na Banca Calçadão, na Rua Guilherme Rocha, junto a uma das paredes da Academia Cearense de Letras. Para Cristiane, a diminuição das vendas tem explicação simples: “a internet atrapalha a venda das revistas. Os jornais, as pessoas não querem comprar para ver notícias que já viram ou vão ver na televisão”. De revista, até saem algumas de moda e muitas do tipo palavras cruzadas. A solução foi diversificar. “A gente vende até suco, refrigerante, essas

A banca Calçadão, há 32 anos na rua Guilherme Rocha

que convivem com bombons e outros produtos. Revistas em quadrinhos antigas e outras nem tanto são negociadas por apenas R$ 1,00. E os jornais, vendem? “Aqui, só Diário do Nordeste, que é o que o

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coisas. Sempre trabalho o geral, vendo tudo”, destaca Lobão. Mas na Banca Calçadão, além do fluxo de venda de cigarros, refrigerantes e créditos para celular, tem

muita gente que se interessa por revistas mesmo. Luciana Nunes e Diego Costa, estudantes, procuravam pela revista “Level Up”, mas são diretos ao explicar que a motivação pela compra é um cartão que daria acesso a uma área especial do site da revista de games. Já Rômulo Santos, técnico bancário, disse que compra não só biscoitos e refrigerantes, mas também revistas, principalmente na área de informática. “Não sei se, sem vender esses outros produtos, as bancas teriam como se manter”, reconhece. O Distrito de Políticas

Nem só de jornais e revistas vivem as bancas hoje em dia. É só dar uma passeada para ver como se viram os jornaleiros diante da concorrência com a internet.

o estabelecido e que não ocupa espaço do pedestre, até porque fica num calçadão largo para a passagem das pessoas.

Relação com os clientes

E para garantir o freguês, além de vender vários produtos, os jornaleiros procuram ser receptivos com quem chega. Muita gente vai, por exemplo, só pedir uma informação. “Aqui é um negócio incrível. Tem pessoas que querem saber onde é posto médico, farmácia, escritório, que ônibus pega, onde pega”, conta Lobão. E

circulado muito pelo Centro ultimamente. “Posso dizer bem muitas ruas, mas nem todas as lojas e comércios. E não vou ensinar sem saber, e a pessoa ir pro canto errado, né?”, diz. Na dinâmica de atendimento ao cliente, também é preciso confiança e abertura. “Acho que na banca eles se sentem à vontade”, destaca Raimundo, que procura dar espaço para as pessoas entrarem na banca e olharem além do que está exposto na parte de fora. O resultado é fidelidade, fala empolgado: “Já tenho o cliente certo para a revista certa”. Com seu Lobão, lá

“A internet atrapalha a venda das revistas. Os jornais, as pessoas não querem comprar para ver notícias que já viram ou vão ver na televisão”. Públicas Urbanas da Prefeitura fiscaliza. Conceição Silva, que mantém uma banca na Rua Major Facundo, conta que já foi notificada e teve de justificar a venda de água de coco e outros produtos em sua pequena banca. Ela diz também que tem recebido revistas de apenas uma distribuidora, e o fluxo de vendas dessas publicações é pequeno. “Hoje em dia em todo lugar tem revista. No supermercado, na farmácia. Jornal, lá no frigorífico perto da minha casa, eles dão mesmo”. Já o seu Lobão acredita que está tudo em ordem com a Banca Calçadão, caso a Prefeitura vá conferir. “Eu, no meu caso, não vou ter problema nenhum”. Aponta que o tamanho está conforme

Na bancas, foi preciso ampliar os tipos de produtos oferecidos, para manter os clientes

ele, morador do Centro “há vinte e tantos anos”, procura sempre indicar os caminhos com clareza. Na Banca RAIV, na Praça José de Alencar, Raimundo Ribeiro também presta esse tipo de serviço a quem passa. Ele nota que, muitas vezes, as pessoas demonstram grande desconhecimento do bairro mesmo. “Tem muita gente que não conhece o Centro. Tem gente que confunde aqui com a Praça do Ferreira, e é totalmente diferente”, enfatiza. E seu Raimundo destaca que só informa quando sabe com certeza. Morador do Cristo Redentor, lembra que não tem

na Guilherme Rocha, algo semelhante acontece. Durante a nossa conversa, duas demonstrações da confiança dos clientes: em determinado momento, uma pessoa vem pegar uma chave que outra tinha deixado; depois, um homem já chega com o dinheiro na mão, e seu Lobão pega cigarros dizendo: “Seis, né?” Depois, ele nos fala rindo: “É, já tenho uma clientela fixa. Tem uns que sabem até o número do (meu) telefone”.


Impressões Fortaleza | maio de 2011

E, além dos novos ,

tempos a

Lei

M

anter uma banca não é tarefa fácil. Além de se adaptar aos novos tempos, é preciso andar na linha e seguir uma série de especificações previstas em lei. O ramo dos jornaleiros é colocado no conjunto do comércio ambulante em geral e é regulamentado pelo Decreto 9300 de 1994, elaborado a partir da Lei 5530 de 1981, que trata do Código de Obras e Posturas do Município. São estabelecidas normas relacionadas ao tamanho das bancas, à exposição dos materiais, às condições de conservação da estrutura, ao tipo de produtos vendidos (leia mais no infográfico). Nesses aspectos, a fiscalização da Prefeitura acontece cotidianamente, lembra Ana Lúcia,

...

coordenadora do Distrito de Políticas Públicas Urbanas e do Departamento de Meio Ambiente (DMA), da Secretaria Regional do Centro (Sercefor). “É que a gente resolveu dar uma geral”, destaca em relação ao momento atual. O que tem acontecido, no contexto do processo de reordenamento do Centro, é um levantamento do número e das condições das bancas, de forma a acompanhar melhor o uso do espaço urbano. Com um número maior de fiscais em relação a anos anteriores, agora é possível desenvolver um plano de ação junto às bancas. Primeiro, é feito um diagnóstico da situação do comércio, numa visita a cada banca da área coberta pela Secretaria. Constatadas irregularidades, é dada uma notificação, com um prazo para se adequar – se não

for seguida a recomendação, há multa e possível perda do termo de permissão de ocupação. “A única coisa negociável é o prazo. Tamanho é imperdoável”, enfatiza Ana Lúcia. “Por ora, tem se tratado mais de uma orientação formal”, destaca Silvia Bezerra, advogada que assessora a secretária do Centro. E o prazo de adequação costuma ser curto, em torno de 30

“A única coisa negociável é o prazo. Tamanho é imperdoável” dias, porque “eles já sabem que estão inadequados há muito tempo”, diz Silvia. Ela lembra que tudo poderia ser resolvido com aplicação imediata de multa e revogação, mas o processo se dá em etapas, “pra que não seja uma coisa agressiva”. Já foi possível constatar, por exemplo, que todos os espaços disponíveis para bancas de jornais e revistas já estão ocupados. Levantamento feito pela Sercefor indica que a maior concentração dos estabelecimentos é ao longo da General Sampaio, com 17 bancas – 8 delas só na Praça José de Alencar.

Licença precária e unilateral

E a responsável pelo Departamento de Meio Ambiente destaca que, independente das adequações, a Prefeitura pode a qualquer momento revogar o termo de uso, por se tratar de uma licença em “caráter precário e unilateral”, já que o espaço é público. Se a Prefeitura avaliar que a retirada da banca do local é de interesse público, ela pode dar a ordem. “Já retiramos todas as bancas do entorno do Theatro José de Alencar”, lembra a coordenadora. Segundo ela, foi avaliado pelas autoridades que lá não é um bom local para ter bancas. Um dos atingidos pela medida foi o seu Raimundo Ribeiro, da banca RAIV, na Praça José de Alencar. Ele teve que sair da calçada que fica na lateral do teatro. “Eu preferia ficar lá. Tinha mais movimento. Aqui muita gente só passa. Lá passava, mas comprava”, queixa-se. Ele lembra que, na época da transferência, houve orientação do Sindicato dos Jornaleiros pela permanência das bancas, mas “quem não saiu, teve que sair à força, e eles não deram apoio”. Segundo Raimundo, falta união na categoria dos jornaleiros, o que deveria ser tarefa do Sindicato. “Eu pago (contribuição sindical) e não

Central

sou bem servido”, reclama. Alberto Vieira, presidente do Sindicato dos Vendedores e Distribuidores de Jornais e Revistas do Ceará, revela que uma nova lei deve ser colocada em pauta na Câmara Municipal. Se aprovada, ela orienta que o tamanho e a localização das bancas devem

Seu Raimundo precisou se mudar para a Praça José de Alencar. A Prefeitura retirou todas as bancas do entorno do Theatro

seguir o que o espaço público permitir. “Se couber uma banca maior que 8m² numa praça, sem atrapalhar nada, não tem porque retirar ou reformar”, defende o sindicalista. Alberto confirma que a categoria está desmobilizada, ocorrendo poucas reuniões entre os membros do sindicato e reclama da Prefeitura. Ele discorda que as bancas sejam tratadas, legalmente, como “comércio ambulante” e propõe que seja seguida uma regulamentação específica para elas.

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Fatos

{o Impressões {o ombudsman ombudsman sobre sobre os os lobos lobos Impressões Fortaleza Fortaleza||maio maiode de2011 2011

História preservada Vanessa Madeira vanessamadeira@alu.ufc.br

U

ma importante parte da história de Fortaleza está oficialmente protegida por lei. O Conselho Municipal de Patrimônio (Comphic) aprovou, no último dia 5 de abril, por unanimidade, o pedido de tombamento da fachada da Santa Casa de Misericórdia. A solicitação foi feita no ano de 2007, mas o processo ainda se encontrava em caráter provisório. Somente no início de abril, o prédio teve sua fachada reconhecida como patrimônio histórico da capital cearense de forma definitiva. Segundo Raimundo Gomes, historiador do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura de Fortaleza, a grande importância da Santa Casa para a história da cidade foi um dos motivos que levou ao tombamento. Junto a outras construções localizadas no Centro (ver box) de Fortaleza, o prédio também faz parte da cultura cearense. “A Santa Casa está inserida em um corredor cultural. Ali, tem a 10ª Região Militar, o Passeio Público, a Estação João Felipe. Aquele conjunto todo forma um patrimônio cultural e arquitetônico da cidade de

preservar seus edifícios e prédios mais antigos.”, diz. Em 2010, o hospital teve as quatro fachadas restauradas em um processo de recuperação que respeitou ao máximo o estilo neoclássico da arquitetura original. “Se já não bastasse o grande trabalho assistencial e filantrópico que a Santa Casa presta, o prédio tem importância histórica pelo fato de ser uma construção de 150 anos que guarda alguns traços arquitetônicos da época que devem ser preservados.”, lembra Luiz Marques. Ainda sobre as reformas no edifício, Marques diz que qualquer

intervenção realizada no hospital a partir de agora, terá que ser feita de acordo com o plano diretor da Santa Casa, implantado este ano. Segundo o provedor, o projeto, que deve ser executado em um período de 10 a 12 anos, prevê, entre outras obras, a restauração da Casa de Saúde Eduardo Salgado, uma das alas do hospital que se degradou com o passar dos anos. A fachada, agora tombada, não pode mais sofrer nenhum tipo de demolição ou acréscimo. “Pretendemos, daqui para frente, seguir religiosamente esse plano diretor”, promete Marques.

começaram há 8 meses e só foram concluídas no dia 13 de abril deste ano. O Grupo orçou o Cine São Luiz, inicialmente, em 4 milhões de reais. Após meses de reuniões entre as partes interessadas, chegou-se ao valor de venda do prédio: R$ 2,2 milhões. A quantia já foi liberada pelo Governo do Estado, garantindo a compra do equipamento pelo Poder Público.

responsável pela reforma do Cine São Luiz, explica que o Corpo de Bombeiros determinou que fosse construída uma torre anexa, com elevador para deficientes físicos e escada de emergência. Ele afirma que as duas obras estão sendo realizadas. Uma nova, de construção do anexo, e outra de reforma, para readaptação do prédio antigo. O edifício, entretanto, não pode ser completamente modificado. O hall de entrada e sala de projeção foram tombados pelo Estado, em 1991, e só podem ser restaurados. Com a mudança da Secult, espera-se a retomada da restauração

pronto

Fachada da Santa Casa. Inaugurada em 1861, é o primeiro hospital de Fortaleza.

Lara Vasconcelos

Quase

Fortaleza.”, enfatiza o historiador. Para Luiz Marques, provedor do hospital, o local se destaca pelos serviços que presta aos cearenses. “Somos o maior hospital de atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e, como tal, atendemos aquela camada da população que mais necessita e, muitas vezes, não encontra guarita em nenhum outro hospital público”, ressalta. O provedor também acredita que a decisão da Prefeitura de tombar a Santa Casa é importante para a preservação da memória de Fortaleza. “Louvo a iniciativa, já que a cidade tem tão pouca história no sentido de

Dora Moreira

Aos 150 anos de idade, a fachada da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza é tombada de forma definitiva pelo município

Em reforma desde fevereiro de 2009, o prédio do Cine São Luiz se prepara para receber a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult) em junho deste ano. Natália Maia natmaia@alu.ufc.br

L

ocalizado na Praça do Ferreira está o Cine São Luiz. O espaço tem 53 anos de existência e já foi considerado um dos mais luxuosos de Fortaleza. Além de inúmeros filmes, recebeu mostras cinematográficas e musicais, como o Cine Ceará e o Festival de Jazz e Blues. O prédio, no entanto, está desativado. No letreiro, antes povoado pelas letras vermelhas que descreviam a programação, só consta o nome do próprio cinema. A reforma tem o objetivo de preparar o edifício para receber a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult) e um projeto da Secretaria de

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Ciência e Tecnologia (Secitece), a Universidade do Trabalho Digital. Segundo Otávio Menezes, da Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural da Secult (Copahc), a idéia é levar ao Centro da cidade equipamentos do governo do estado para mobilizar as instâncias oficiais e trazer novos aspectos à vida no bairro. “Isso acaba agregando valores, pessoas, melhoras na economia. Há uma movimentação, quer queira ou não”, explica. As negociações do Governo Estadual com o Grupo Severiano Ribeiro, antigo proprietário do cinema,

Modernização

Como o projeto do prédio é de 1939, foram necessárias algumas alterações na estrutura do local. Paulo Cavalcante, engenheiro

do cinema. O projeto deve ser de autoria do arquiteto Fausto Nilo, com intenção de aprimorar o espaço para que ele possa receber uma gama mais vasta de atividades culturais. De acordo com o engenheiro Paulo Cavalcante, a estimativa para o término da construção civil no Cine São Luiz é junho de 2011. Nesse período, a Secult já deve começar o processo de transferência para o local. “Nós estamos trabalhando em cima de um bem tombado, então, não pode haver nenhum erro. Daí a complexidade, o tempo que se demora para acabar uma obra dessas”, justifica.


Moradia

Impressões Fortaleza | maio |de 2011 Impressões Fortaleza maio de 2011

O destino de uma

Evelyn Ferreira

Única moradora do edifício Lord Hotel, no Centro, Dona Francisca convive com a incerteza do próprio futuro e o do prédio

Evelyn Ferreira

evelyn@alu.ufc.br Renata de Lima

renatadelima@alu.ufc.br

C

imento, tijolos, marretadas, carrinhos de mão e homens em um vai e vem sem fim. Dona Francisca Soares, 59 anos, mora sozinha, ilhada em meio a uma grande reforma. Única remanescente do grande Lord Hotel, ela espera, com uma paciência inabalável, o resultado que dificilmente lhe trará benefícios. O prédio foi desapropriado e, em breve, ela terá que sair do local que reside há 38 anos. A moradora acredita que não terá condições financeiras para permanecer no Centro. “Como a indenização é pouca, não dá para eu ter novamente minha casa própria. Não sei nem como vai ser”. Dona Francisca ainda não sabe quando terá que dar

construído em 1956 pela família Philomeno Gomes. O prédio recebia hóspedes ilustres, desde artistas como Dercy Gonçalves até a seleção brasileira de futebol. Desde 2000, a moradora passou a conviver com as incertezas do destino do edifício. Nesse ano, a Defesa Civil de Fortaleza alertou para o risco de desabamento do prédio, que apresentava graves problemas estruturais, com infiltrações e comprometimento da estrutura. A construção das linhas do metrô de Fortaleza no Centro, pela Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor), trouxe uma nova questão para o local. As estruturas do Lord Hotel não aguentariam as escavações realizadas pelo Metrô de Fortaleza naquela área. No ano seguinte, em 2001, o Governo do Estado desapropria o prédio e inicia a negociação de

“Tudo é mais fácil. A pessoa desce e tem tudo, supermercado, farmácia”.

adeus ao Lord Hotel, mas as preocupações já a afligem. Para ela, morar no Centro só tem benefícios. “Tudo é mais fácil. A pessoa desce e tem tudo, supermercado, farmácia...”, aponta. Tudo isso ficará no passado, assim como a lembrança do período áureo do grande prédio que lembra um navio. O Lord Hotel fica na esquina das ruas Liberato Barroso com 24 de Maio e foi

indenização com os moradores. Após o tombamento do Lord Hotel pela Prefeitura de Fortaleza, em 2006, o prédio começa a passar por reformas para suportar as obras do Metrofor. Com isso, o temor de Dona Francisca de que o edifício fosse demolido foi apaziguado, mas a tristeza de sair do lugar que tanto gosta de morar permanece. Para ela, o jeito é esperar e se conformar. “Tem de aguentar. Eu não vou me desesperar, gosto das coisas tudo na calma, então eu fico tentando”, diz com a paciência de quem já espera há dez anos na justiça por uma decisão.

Negociação

A advogada do Metrofor, Layza Viana, disse que dos 120 imóveis do edifício, 19 tiveram o processo encaminhando para a Justiça. “(A pessoa) entra na justiça ou porque não concorda com o valor que a gente oferece, ou quando não tem a documentação comprobatória que é proprietária”, explica. Dona Francisca está no primeiro caso e é a única cujo processo de negociação ainda não foi concluído. Segundo a advogada, a última proposta para a moradora foi de R$ 37.740, valor baseado no preço de mercado. Layza Viana diz que a proposta é compatível com o valor do imóvel, pois, apesar de estar localizado no Centro, o prédio apresenta graves problemas estruturais.

Saiba Mais

O Lord Hotel está incluído na lista de bens tombados em caráter provisório pelo poder municipal. Segundo o setor de Patrimônio da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), o processo de tombamento permanente está próximo de ser concluído. O caráter de tombamento provisório garante que o prédio não seja demolido. Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Infraestrutura do Estado do Ceará (Seinfra), órgão responsável pela reforma, o investimento no prédio é de R$ 3,7 milhões. Ainda não foi decidido qual será o destino do Lord Hotel após a obra, mas há estudos para que se torne um equipamento cultural.

Você moraria no Centro? O bairro é um dos melhores da cidade para se viver, de acordo com o presidente da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza, Habitafor. “A área central é uma área nobilíssima”, afirma. Ele destaca a frota de ônibus que passa e circula pelo Centro de Fortaleza e também aponta o saneamento e a iluminação como pontos positivos de morar do bairro. No entanto, ainda segundo Roberto Gomes, o Centro passa por uma fase na qual existe falta de sociabilidade, de pertencimento e de respeito à cidade. “É uma herança que nós recebemos de 30 a 40 anos para cá e que isso não se modifica em um governo e não se modifica apenas a partir da ação governamental”. Numa tentativa de reverter essa situação, a Prefeitura de Fortaleza vem trabalhando no Plano Habitacional para Reabilitação da Área Central de Fortaleza desde 2007. O plano trouxe um diagnóstico do Centro e apresentou o número de 660 imóveis vagos ou subutilizados no bairro. Desses imóveis, apenas 72 possuem potencial habitacional, com interiores possíveis de serem transformados em residências. O número é

reduzido ainda mais quando se trata de aptidão para habitação, caindo para 11. Os imóveis aptos para moradia são os que estão vagos, não possuem problemas com os proprietários e que são próprios para abrigar famílias. Quem financia o plano é a Caixa Econômica Federal. O projeto piloto do plano está sendo analisado pela financiadora e depois vai passar pela fase de publicação do edital para a escolha da empresa que vai levar o projeto adiante. Para o professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará, José Borzarcchiello, o plano de incentivo à moradia no Centro terá um impacto positivo, principalmente porque reanimará o bairro no período noturno.“Essa política é necessária e já deveria ter sido implantada”, salienta. Bozarcchiello explica que, para potencializar os efeitos positivos do plano, é necessário que as moradias atendam ao público de aposentados, estudantes e pessoas que trabalham no Centro. O professor diz que esses grupos têm suas principais atividades localizadas no bairro e assim utilizariam menos transporte público ou particular.

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Passeio

{o ombudsman Impressões Fortaleza | maio 2011 de 2011

Tarde de

diferentes fluxos

Acompanhe os movimentos do Centro de meio-dia às seis da noite Erico Oliveira ericooal@alu.ufc.br Lucas Mesquita lucasms23@gmail.com Dora Moreira ensaio dorambc@gmail.com

sobre os lobos

É

com o almoço que começamos uma tarde ensolarada no Centro. Já dava para aproveitar e conversar com as pessoas, mas era preciso antes matar a fome mesmo. E falar com o proprietário do restaurante naquela hora ainda não era uma opção, já que é justo nesse momento em que o movimento é mais intenso. Ao meio-dia, os restaurantes estão lotados, as pessoas querem aproveitar o intervalo do trabalho, e os donos dos estabelecimentos querem servir bem e dar conta do pedido dos clientes.“Todo dia tem frango, frango não pode deixar de faltar. Se faltar, o pessoal reclama – é ao molho e assado”, destaca Diogo da Silva, proprietário de um restaurante na rua Senador Alencar.Só deu pra falar com Diogo às 14h quando o ritmo já estava mais tranqüilo, e ele podia dar uma parada e sentar para conversar. “Já começa dez e meia, mas o pico é de onze até uma e meia”, pontua. Ele lembra que o movimento foi mais fraco na tarde anterior, bastante chuvosa.“No Centro, choveu, acabou com o Centro”, enfatiza. E Diogo, empolgado com o negócio, fala com orgulho que tem um dos pratos feitos mais baratos do bairro – quatro reais para se servir à vontade.“E eu vejo que tem muita gente que não tem nem quatro reais”, observa. No restaurante, almoçam principalmente pessoas de loja e camelôs que trabalham no entorno. Muitos são “pessoas humildes”, como lembra Diogo. “Os camelôs às vezes não arrumam o dinheiro nem para o prato”. Ele destaca que todos são bem acolhidos e “se sentem na casa deles”. Mas sempre com o problema do dinheiro contado. Sobremesa? “Já botei pudim por um real e não sai. A maioria come só a comida e bebe água”, observa Diogo.

Aproveitando o intervalo

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Mas o horário do almoço não é só para comer. É justo na pausa do

corre-corre do trabalho que dá para entrar em outro corre-corre: o das compras rápidas.“Engulo o almoço e aproveito para vir”, diz Tárgila Monteiro, que trabalha no Censo Territorial da Prefeitura de Fortaleza e dava uma passada em uma loja da Praça do Ferreira. Ela só tem uma hora de almoço e já tem de saber bem o que quer comprar para não perder tempo. “Tenho que vir destinada”, enfatiza. Na mesma loja, a vendedora Andreza Carvalho ainda esperava a hora em que também poderia fazer uma refeição rápida.As pausas são organizadas por escalas: de 12h às 15h, são distribuídos intervalos de uma hora entre os funcionários – Andreza ficou com o horário de três da tarde. Enquanto a Coluna da Hora não convida a vendedora para o almoço, ela tem que atender os que estão aproveitando o tempo livre, justamente o momento de pico na loja.“As pessoas aproveitam o almoço para vir fazer compras, mas também tem gente que passa o dia inteiro aqui”, observa.

Um cochilo depois do almoço A tranqüilidade do Passeio Público convida ao cochilo. E tem gente que vai lá deitar-se em algum banco e descansar um pouco depois do almoço. Mas só pode de 12h até 14h30, como alerta Paulo César, responsável pela administração do local. “Passou disso, um guarda chega e chama”, fala rindo. Mas o público tem gostado de visitar o Passeio nos últimos dias, depois do processo de revitalização promovido pela Prefeitura em 2007. “Houve uma mudança 100% para melhor. O povo tá vindo, tá bem freqüentado.Domingo tem piquenique o dia todo, quando não chove. E os colégios visitam, só que mais pela manhã”, observa. E no sábado à tarde ele ainda lembra que tem feijoada e chorinho.

Um tempinho para a História

No Museu do Ceará, a movimentação por volta de 15h não

era muito intensa. Os horários de visitas em grupo podem ser agendados para 14h30 e 15h30, mas nesse dia ninguém tinha marcado. Carolina Rodrigues, monitora no espaço, acredita que o fluxo depende muito da época do ano.“Nas férias escolares, é lotado. E quando chega final de semestre, já aumenta”, observa.Aos sábados à tarde, o Museu também costuma ser mais freqüentado. Carolina nota que falta regularidade nas visitas: ela percebe quando a pessoa pergunta por alguma exposição que já saiu de cartaz há algum tempo. E alguns visitantes nem sempre vão com o objetivo inicial de conferir as exposições. “O banheiro do museu é muito visitado”, destaca Carolina. É quando algumas pessoas aproveitam e ficam mais curiosas para conhecer melhor o espaço todo. Os profissionais do Centro são alguns desses visitantes ocasionais. Com alguns freqüentadores, já deu até para estabelecer uma relação. Carolina aponta para uma banquinha de recarga telefônica em frente ao museu, indicando:“Ela já conhece a gente”. Saindo do museu, falamos com a moça que trabalha na banca, Joana de Araújo. Costuma visitar o museu? “Pra falar a verdade, só fui ao banheiro”, responde. Joana diz que tem pouco tempo para a visita. Quando tem de sair da banca, tranca a porta com a chave e precisa ser rápida. Até o almoço é no pequeno espaço com grades que separam a vendedora do visitante. Tem de almoçar e atender algum cliente ao mesmo tempo. E no final do expediente, depois de passar o dia quase sem sair do posto, não dá mais para conferir o que tem no museu. “Quando fecha lá às 17h, eu também tô fechando aqui”, destaca.

Permanência e mudança Na Praça dos Correios, um senhor calmo cuida de sapatos. Com olhos cansados e voz baixa, o sapateiro fala


Impressões Fortaleza 2011 Impressões Fortaleza | maio| maio de 2011

que depois de passar pela Praça do Ferreira e pela Praça José de Alencar, passou a engraxar e fazer consertos em sapatos ali em frente ao Banco do Brasil há 34 anos. Expedito da Silva veio do interior “há muito tempo” e mora no Centro mesmo. Queixa-se da situação atual do bairro, das autoridades que não dão atenção a quem trabalha e que “quando passa a política, desaparecem”.“O Centro já foi bom, hoje tá acabado”, lamenta. Mas nem por isso seu Expedito pensa em voltar ao interior.“Morrer por aqui mesmo”, fala sorrindo. Ele lamenta o movimento fraco, um pouco melhor de 14h às 16h.Atribui isso ao material de fabricação dos sapatos ultimamente, o que diminui a demanda pelos serviços dele. Na hora em que passamos, mais de 15h30, seu Expedito não atendia clientes – devia sair em breve, já que costuma ficar no posto até 16h. No sábado, só fica até 13h.

Hora da merenda A Morena do Milho, como é chamada Daniela Vasconcelos, vendedora de milhos na esquina da Senador Alencar com a Major Facundo, recebe mais clientes depois de 15h, quando “o pessoal vem merendar”. Ela fica até 18h e depois recolhe o carro com o material de trabalho para um estacionamento do entorno – é esse o momento em que ela pode voltar para o bairro em que mora, Vila Velha.Aos sábados, não é muito empolgada com o movimento e

fica só até 14h.“É um deserto o Centro no sábado durante a tarde”, destaca. Ela só vai trabalhar no sábado para desocupar a vaga do estacionamento e não ter que pagar mais caro o aluguel. Ao lado de Daniela, Francisco de Sousa vende frutas, como atas e abacaxis. Ele diz que o movimento está fraco.“O dia fica pingado. É o pinga-pinga o dia todo”, pontua. O abacaxi é o que mais sai, principalmente o que já é cortado. De 16h em diante, até encerrar às 18h30, cai ainda mais o fluxo de pessoas.

Tarde de comércio E ao longo do dia, cada um tenta se virar com algum negócio.Vendem, esperam o tempo passar, buscam convencer o cliente.A Feira da Praça da Estação começa a ensaiar alguns

passos. É espaço provisório para a antiga Feira da Lagoinha, já que a Prefeitura prepara um galpão para os feirantes.Alguns resistem a parar um pouco para conversar – “a gente tá começando agora, não tem muito pra falar não”. Mas encontramos a animada Albanisa de Araújo, a Loura, que tem expectativas de movimentações maiores em breve. “Fui a primeira que fez essa banca [nessa estrutura].As pessoas já começam a olhar pra fazer igual”, fala orgulhosa sobre o próprio negócio. Segundo ela, as pessoas ainda começam a tomar conhecimento da mudança recente para a Estação. Reverente com a secretária executiva do Centro, Luiza Perdigão, a feirante vê qualidades na gestora: “Muito inteligente aquela mulher”. Albanisa fica na banca até às 17h, quando recolhe os celulares

que vende e deixa a estrutura do comércio sob os cuidados de vigias que passam a noite na Praça. É só quando voltar para casa que Loura vai “almoçar”.“As comidas aqui são cruéis. Não gosto das comidas daqui”, observa.Ao longo do dia come lanches que traz de casa e deixa para comer algo mais quando chegar ao Antonio Bezerra, onde mora. Da Feira na Praça para uma das mais tradicionais ruas de comércio no Centro: a Guilherme Rocha. Um dono de loja de calçados, Robson Cabral, aponta que, junto com a Liberato Barroso, essa é a rua em que mais circulam pessoas para fazer compras, tanto porque são espaços só de calçadas largas, quanto por ligarem duas praças, a Praça do Ferreira e a Praça José de Alencar. Lojistas e ambulantes

Passeio

convivem nesse espaço em que o comércio pulsa. Segundo Robson, com os ambulantes, a relação é tranqüila de modo geral: no caso dele, acontece até de o vendedor da frente guardar a mercadoria na loja durante a noite. Mas Robson reconhece que, em alguns casos, os lojistas não gostam da presença dos ambulantes.“O ambulante não é bom para o comércio, mas para o povo é bom”, reconhece. Ele é sincero ao dizer que, se não fossem os ambulantes, os preços dos produtos poderiam ser maiores. “Quem é beneficiado com isso é o povo”, observa. Conforme passam as horas, já se aproxima o momento de fechar o caixa.“A partir das 11 até 17h, o movimento é bom. Depois de 16h, já começa a diminuir”. Robson conta que assaltos às lojas são comuns no final da tarde. “Não sai na imprensa, porque os empresários não querem; no outro dia, os anúncios diminuiriam”, destaca. Para o lojista, “a imprensa é um braço do comércio” e “o Centro se resume à política – tudo é política e dinheiro”. Ele indica que os comerciantes se associaram para pagar seguranças particulares, que ficam observando as lojas e tentando evitar os assaltos. No final das contas, com assalto ou sem assalto, à medida em que o sol se põe, só resta recolher os produtos, desmontar as barracas, descer as portas das lojas e pegar o ônibus rumo a outras paragens... Ou ficar pra ver o que promete a noite.

Confusões de sábado à tarde Lei que regulamenta o horário de funcionamento do comércio em Fortaleza coloca em lados diferentes lojistas, comerciários e prefeitura. As tardes de sábado se tornaram motivo de disputa entre comerciários e lojistas do Centro.A causa do embate é a Lei Municipal n°. 9452, em vigor desde 2009, que regula os horários de funcionamento do comércio em Fortaleza. Segundo a lei, os estabelecimentos comerciais devem funcionar, aos sábados, das oito da manhã até quatro da tarde. No dia 14 de abril, quando fizemos nossa visita ao centro, foi realizada uma Audiência Pública no Teatro José de Alencar para debater o cumprimento da lei. Presente na audiência, o vereador Ronivaldo Maia (PT), líder da prefeitura na Câmara Municipal, prometeu que haveria fiscalização no dia 16 de abril, primeiro sábado após a audiência. Porém, em nota divulgada na internet, o Sindicato dos Comerciários de Fortaleza acusou a prefeitura de não realizar a fiscalização e exigiu a imediata aplicação da lei. Mas isso não vem ocorrendo. Segundo Kiciane dos Santos, vendedora de uma loja de roupas na Rua General Sampaio, muitos estabelecimentos fecham após as 16 horas nos sábados e não há fiscalização para obrigar os lojistas

a obedecer à lei. Kiciane participa das discussões no Sindicato dos Comerciários e aponta falta de mobilização de muitas colegas. “É preciso brigar pelo que é nosso”, defende. Segundo José Claudio Diógenes Porto, chefe da equipe de fiscalização da Secretaria Executiva Regional do Centro (Sercefor), não houve verificação do comércio no dia 16 devido à remoção dos feirantes da Lagoinha para a Praça da Estação, mas garantiu que já existem fiscais para conferir não só o funcionamento das lojas durante os sábados, mas também de segunda à sexta, quando a lei determina que os estabelecimentos fechem as portas às 19 horas. Em relação aos novos horários de funcionamento das lojas, o Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Fortaleza (Sindilojas) obteve uma liminar concedida pelo juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública, Paulo de Tarso Pires Nogueira, no dia 29 de março.A decisão do juiz permitiria o funcionamento das lojas do Centro durante os fins de semana. Porém, de acordo com José Claudio, a liminar não é clara em relação ao funcionamento dos estabelecimentos comerciais durante o sábado, de forma que apenas aos domingos as lojas poderão funcionar sem restrição de horário

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Mercado

{o ombudsman Impressões Fortaleza | maio de 2011

sobre os lobos

O Centro e seus sabores Isabel Paz

A diversidadede preços e sabores povoa lanchonetes e restaurantes do bairro. Mas quando o assunto é qualidade e higiene os locais são, muitas vezes, tratados com desconfiança.

Caio Mota

caiomota@alu.ufc.br Isabel Paz

isabelpaz@alu.ufc.br

N

a hora de matar a fome, quem costuma andar no Centro, seja a trabalho, compras ou lazer, encontra diferentes formas de se servir. Alguns exemplos são os restaurantes self-service, as lanchonetes fast-food, o famoso prato feito – conhecido como “PF” – e os lanches vendidos por ambulantes. Segundo Thereza Neumann, assessora da Secretaria Extraordinária do Centro (Sercefor), existem no bairro 226 estabelecimentos voltados para o comércio de alimentos e

bebidas, dentre restaurantes, bares e lanchonetes. Alguns desses locais caíram nas graças do público e mantêm fama há muitas décadas. Um desses casos é pastelaria Leão do Sul, criada em 1926. Localizado na Praça do Ferreira, o estabelecimento funcionava como uma mercearia de produtos de luxo vindos do Sul do País – por isso o nome Leão do Sul. Hoje, os pastéis já se tornaram um lanche típico para quem passa pelo centro. Segundo Dani Dantas, um dos administradores da pastelaria, o público que vai ao local procura uma refeição rápida. “É para a pessoa que está sem tempo de almoçar”, explica. Em média, são vendidos 800 pastéis por dia, nos sabores queijo, carne e frango, cada um por R$

3. Para acompanhar, refrigerante, cajuína, suco, água ou a opção mais tradicional, o caldo de cana. Descendo a rua Floriano Peixoto até bem perto da avenida Duque de Caxias, o Centro oferece outra opção: o restaurante self-service Mistura Paulista. O local surgiu em 1993 e é voltado para um público com maior poder aquisitivo, com preço de R$ 29,90 por quilo. “A gente é o quarto restaurante mais caro do Centro”, diz Felipe Vasconcelos, gerente do estabelecimento. De acordo com ele, a clientela é formada principalmente por pessoas de fora do bairro, que estão ali para fazer compras ou ir ao banco. Além da variedade de pratos e bebidas, o restaurante se consolidou no Centro, pela sua

O bom e barato do cardápio

P

róximo à Praça José de Alencar, localiza-se um dos restaurantes mais populares do bairro, criado em 1975 pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). É o Restaurante Sesc Centro, que oferece, no sistema de selfservice sem peso, cerca de 3 mil refeições por dia, além de 300 porções de sopa ao final de cada tarde. Os preços são bem acessíveis. Para quem é comerciário, a refeição completa, com direito a suco e sobremesa, custa R$ 2,70. Já, para conveniados do Sesc, o prato fica

a R$ 4,05. O valor aumenta um pouco para os usuários que não tem vínculo com a instituição, mas ainda sai bem em conta: R$ 5,40. De acordo com a coordenadora do setor de Nutrição do restaurante, Aline Rabelo Ribeiro, o dinheiro arrecadado com a venda das refeições é insuficiente para cobrir os custos. A razão é que a maioria do público diário do restaurante é formada por comerciários. “Mais de 95% do público é de comerciários dessas lojas próximas ao Theatro José de Alencar”, explica Aline. Os recursos são complementados pelo Departamento Nacional

do Sesc, órgão executivo do Conselho Nacional da instituição. Além dos cuidados com a segurança alimentar, o restaurante também mostra preocupação com o valor nutricional dos alimentos produzidos. No balcão de serviço, há dicas para os clientes, que ensinam como montar um prato saudável e quais nutrientes estão presentes em cada refeição. Para a coordenadora do local, os frequentadores já estão acostumados com o cardápio. “Eles fazem uma divisão bem equilibrada dos nutrientes”, afirma.

preocupação com a “segurança alimentar”. O termo se refere ao conjunto de regras de produção, transporte e armazenamento de alimentos que se estabeleceu como parâmetro de higiene. “A gente tem uma nutricionista que faz a fiscalização. Ela vem uma vez por semana, de surpresa, para ver o que está errado e o que está certo”, conta o gerente.

Centro não conseguem cumprir os requisitos de segurança alimentar”, diz a nutricionista Luciane Pereira. A profissional está à frente do projeto “Centro em Ação”, organizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Por meio de palestras de sensibilização, cursos de capacitação e serviço de consultoria, o objetivo é formar e conscientizar os donos de bares, lanchonetes e restaurantes do Centro sobre as questões que envolvem a segurança alimentar. Para ela, a falta de conhecimento por parte dos donos e funcionários é um dos principais motivos para o descuido com a higiene e manuseio dos produtos. “Eles podem até conhecer como fazer a comida, trabalhar com o público, mas eles desconhecem sobre a legislação sanitária, os aspectos técnicos de higiene que devem ser feitos”. Atrelada ao desconhecimento, vem a pouca importância dada à segurança alimentar. “Como as pessoas não conhecem, elas acham que estão fazendo correto, e assim vai passando”, lamenta Luciene.

A preocupação não é de todos Nem todos os locais, porém, têm essa preocupação. Além de uma possível interdição, o descumprimento das normas de higiene pode gerar infecções nos consumidores e, em casos mais graves, até morte. “Muitos estabelecimentos de lá do

Serviço Projeto “Centro em Ação” Para donos de estabelecimentos de venda de comidas e bebidas no Centro R$ 100 por empresa – Três funcionários podem participar do curso de capacitação Outras informações: 3255 6687

Serviço

OPÇÃO 1: Hora do lanche

Pastelaria Leão do Sul – Pastéis de carne, queijo e frango, com refrigerante, cajuína, suco, água e caldo de cana. Endereço: Rua Pedro Borges 193, Praça do Ferreira – Fone: (85) 3231 0306

OPÇÃO 2: Self-service com peso

Restaurante Mistura Paulista – Opções de filé, frango, peixe e churrasco, além de amplo cardápio de saladas e guarnições; Endereço: Rua Major Facundo, 844 – Centro – Fone: (85) 3221 2140

OPÇÃO 3: Self-service sem peso

Restaurante Sesc Centro – Saladas, acompanhamentos, sobremesa e suco à vontade e duas opções de carne servidas por um funcionário. Endereço: Rua 24 de maio, 692 – Centro – Fone: (85) 3455 2100


Impressões Fortaleza | maio de 2011

por onde andam os turistas?

Mercado Central, Theatro José de Alencar, Emcetur – o Centro da cidade abriga opções turísticas atrativas e variadas. Mas por que a busca pelo bairro é cada vez menor? Tatiane Jovino

tatiane@alu.ufc.br

O

Centro de Fortaleza não é conhecido por calmaria, especialmente quando os dias da semana deslizam barulhentos à luz do sol. São farmácias, lanhouses, prédios históricos, colégios, bancos, lojas em geral disputando a atenção dos passantes. Mas, para além disso, houve uma época em que o bairro foi o principal destino turístico de Fortaleza. De acordo com informações da Secretaria de Turismo do Ceará, o Centro já foi responsável, até a década de 70, por mais de 50% do turismo fortalezense. Hoje, as regiões litorâneas da cidade tomam o espaço que antes era

De

reservado ao Centro. Ainda de acordo com a Setur, em 2010, as praias do Estado, junto aos parques aquáticos, ocuparam 77% das reservas turísticas. O Centro da cidade ocupou 4%. Este percentual mínimo se deve, dentre outras causas, às poucas vagas disponíveis no Centro, ocasionadas pela diminuição da quantidade de pousadas e hotéis do bairro ao longo do tempo. “Quem vem a Fortaleza pela primeira vez deve começar a conhecer a cidade passeando pela orla da Beira-Mar ou da Praia do Futuro”. Esta é a dica de Miguel Dias, turista de Minas Gerais. “Lá em Minas, não tem praia. Então, a gente vem aqui atrás de mar”, diz. Tal situação se repete ao passearmos por hotéis e pousadas da cidade. O destino

turístico da maioria dos hóspedes são as praias. No Centro de Fortaleza, não é diferente. “O pessoal vem à procura de sol, de areia e de mar”, explica André Sargueira, gerente do Fortaleza Hostel, localizado no Centro. Ele explica que o bairro ainda é pouco procurado pelos hóspedes. “Eles vão, no máximo, no Mercado Central para fazer compras”, diz. Amanda Ferreira, administradora da agência Luthy Turismo, no Centro, credita a falta de interesse dos turistas pelo bairro à pouca divulgação por parte das agências de turismo, da Prefeitura e até do Governo do Estado. “Você pode prestar atenção: nos pacotes que a gente oferece, só tem pra Jericoacoara, Morro Branco, Beach Park, esse

pra quê, só pra ficar parado no trânsito igual na minha cidade. Não imaginei encontrar em Fortaleza tanto descaso público”. “Não é que o Centro deixou de ser destino turístico, o nosso público que mudou”. Esta é a visão de Silvio Batista, gerente do Hotel Meridional, no Centro. Ele destaca que os hóspedes deixaram de ser aqueles vindo em busca das praias do Ceará para os que vêm basicamente a negócios. “Hoje, nossa clientela é basicamente de vendedores, representantes, bancários, sindicalistas. Muitos vêm a negócios ou para congressos no Banco do Nordeste, por exemplo”. Silvio diz que o Hotel não sofreu grandes perdas ao longo dos anos, mas uma adaptação aos novos tempos. “Claro que, em janeiro e julho, a clientela aumenta, não temos do que reclamar”. Tatiane Jovino

Centro de Fortaleza:

tipo. Por que não oferecem um city tour pelo Centro? ” Já a turista carioca Bianca Sá, hospedada no Hotel Catedral, reclama que “no Centro, não tem comidas típicas como tem na Beira-Mar, por exemplo. Eu achei que lá tinha muito mais a cara do Nordeste do que aqui”. Manuel Wellington, gerente do Hotel Chevalier há 38 anos, destaca que o Centro foi perdendo seu espaço turístico ao longo dos anos pela invasão do comércio. “Antes, a gente tinha aqui mais de dez hotéis importantes. Hoje temos o quê? Dois?”. Segundo Manuel, os turistas só chegam a se hospedar no Centro quando não há mais vagas nos hotéis e pousadas próximos à praia. João Tarcísio, turista vindo de São Paulo, reclama: “Aqui na Duque de Caxias, só tem buraco e sujeira. Aluguei um carro nem sei

Turismo

bordados a castanhas,

Centro

Ingrid Baquit

ingridbaquit@alu.ufc.br

B

ordados, rendas, algodão em blusas, vestidos, toalhas, boleros, colchas, fronhas e no que sua imaginação alcançar. Rendeiras que trabalham ao vivo, pra todo mundo ver. Dá até para pedir conselhos e dicas. Completando 38 anos, a Emcetur abrigou, por mais de um século, a Cadeia Pública da Capital, desativada em 1967. Seis anos depois, reabriu as portas para as atividades comerciais turísticas cearenses, como o artesanato e a culinária. Hoje, é referência no assunto. Francimar é costureira há mais de 50 anos. Confessa que não compra muito na Emcetur, mas diz que adora visitar para pegar ideias de modelos e tecidos. Para ela, o centro tem “os bordados e rendas mais lindos e bem trabalhados do Estado”. No quesito preço, diz que tanto as peças prontas como os bicos de renda têm o valor “condizente com o trabalho que o artesão tem”, em média de 10 reais cada. Mesmo com cearenses comprando, são os visitantes que ficam mais impressionados. “Tive uma cliente de São Paulo que ficou encantada com o trabalho do acabamento do bico de renda.

a peça e recebeu o vestido”, diz Francimar. Há seis anos, o paulista Frei João vem a Fortaleza para passar uma semana por ano. “Sempre deixo um espaço na mala para as compras”, diz. As castanhas de caju estão garantidas. Na Emcetur, o quilo da semente custa, em média, 25 reais. Além das guloseimas, estão chaveiros, blusas e jangadas em miniatura. “Tudo para meus colegas e familiares”, diz. O Mercado Central é outro ponto para atividades turísticas no Centro de Fortaleza. Ele existe desde 1809, mas não no mesmo prédio. Sua reforma mais significativa foi em 1931, quando o comércio de carne, fruta e verdura foi proibido por lá. Assim, os lojistas deram lugar aos boxes de artesanato e introduziram produtos dos mais variados tipos: como artigos para vestimentas, cama e mesa, derivados do caju, bebidas, doces etc. O Novo Mercado Central, no local que conhecemos hoje, iniciou suas operações em janeiro de 1998, com 559 boxes. O Mercado é administrado pela ALMEC, Associação dos Lojistas do Mercado Central, que conta como receita para cobrir as despesas a contribuição dos lojistas, cobrança de taxa de estacionamento e taxa de uso das áreas comuns por pequenos

afirma que, há 12 anos, nenhuma reforma significativa foi realizada nas instalações do prédio, provocando um aspecto de abandono. Segundo a ALMEC, isso põe em risco o retorno desses turistas e de uma possível propaganda contrária ao Mercado. Tendo em vista a realização da Copa do Mundo no Brasil e o fato de Fortaleza ser uma das sedes dos jogos de 2014, a Associação acredita que receberá centenas de milhares de turistas não só no ano de 2014, mas também em todos os anos que antecedem a Copa. A preocupação será tanto o fluxo de turistas que irão ao Mercado como o retorno deles nos anos subsequentes. Enquanto o Mercado Central e a Emcetur são destinos certos para os turistas, o Mercado São Sebastião se configura como parada fortalezense. Ana Sílvia, arquiteta, é uma frequentadora assídua. “Estou lá todos os sábados”, diz. São frutas, verduras, queijos e coco verde. Mesmo sendo um local bem cearense, ela diz que muitos turistas gostam. “Quem quer ver um lugar típico, tem que ir lá mesmo. Comer uma panelada, provar um abacaxi”, explica. A época que mais enche de turistas é o mês de julho, mas sempre é possível encontrar alguns em outros períodos.

Fotos: Lara Vasconcelos / Iana Soares

o encanta turistas e cearenses com seus produtos Só sossegou quando encontrou comerciantes. A Associação

Serviço

Horário de Funcionamento

Mercado Central

Segunda à Sexta: 8 às 19h Sábado: 8 às 17h Domingo: 8 às 12h Estacionamento: 220 vagas (carros) e 10 (ônibus)

Emcetur:

Segunda à Sexta: 8 às 18h Sábado: 8 às 12h

Mercado São Sebastião: (85) 3468-1039 Segunda à Sexta: 7 às 20h Sábado: 6 às 12h Domingo: 6 às 12h

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Esquinas

{o ombudsman ombudsman sobre sobre os os lobos lobos Impressões Fortaleza Fortaleza| |maio maiode de2011 2011 {o Impressões

você pensa

O que sobre a transferência dos feirantes para a Praça da Estação? Povo de fé e paciência, os feirantes da Praça José de Alencar e da Praça Capistrano de Abreu, mais conhecida como Praça da Lagoinha, aguardam o camelódromo prometido pela Prefeitura de Fortaleza na Rua Princesa Isabel. Como justificativa para a retirada desses vendedores, a Prefeitura aponta o Plano de Reordenamento do Comércio Ambulante, que prevê a desocupação das ruas do Centro e a transferência para espaços apropriados de cerca de 3.000 ambulantes identificados na pesquisa realizada pelo IEPRO (Instituto de Estudos, Pesquisas e Projetos da Universidade Estadual do Ceará). Enquanto isso, os feirantes ocupam a Praça Castro Carreira, a Praça da Estação. Apesar de provisória, a situação desses vendedores ainda não tem data definida para mudar.

A transferência dos cerca de 1.400 feirantes que estavam com suas bancas na Praça da Lagoinha e no entorno da Praça da Lagoinha já faz parte do Plano de Reordenamento do Comércio Ambulante do Centro da cidade de Fortaleza. A Praça da Estação é uma praça que, na verdade, é um terminal de ônibus que estava sem utilização, subutilizada, e nós resolvemos fazer daquele espaço um espaço de transição dos feirantes ou ambulantes, que hoje ocupam as calçadas do Centro, para passagem dos camelódromos. A Prefeitura de Fortaleza abriu já um processo de manifestação de interesse de privados para proporcionar concessões públicas para construção dos camelódromos. E, antes de a gente colocar essas pessoas nos camelódromos, eles vão todos passar por esse estágio da Praça da Estação, até serem encaminhados para outro espaço. Nesse momento, a gente vai trabalhar com essas pessoas a questão da formação, da educação ambiental, do tratamento dos resíduos. A própria prefeitura já trava com essas pessoas uma relação de forma diferenciada, praticamente uma relação de permissionário. Ainda não é uma relação jurídica de permissionário, mas já poderá ser dentro em breve porque a gente já começa a ter contato com essas pessoas: de onde elas vêm, de onde é que elas trazem essas mercadorias. Cada um já tem a sua carteirinha e já começa a estabelecer um contato com eles de uma forma mais efetiva. Eles passam “a estar sob o domínio do município” no desenvolvimento das suas atividades comerciais no Centro. Luiza Perdigão, titular da Secretaria Executiva Regional do Centro (Sercefor)

Para mim, eu achava melhor quando era ali na (Rua) 24 de Maio porque descia ali na (Avenida) Imperador e era bem pertinho. Aí agora eu não sabia que estava aqui (a feira na Praça da Estação). (Quando mudar para a Rua Princesa Isabel) Aí vai ficar bem pertinho para mim porque a parada do ônibus é bem pertinho da Rua Princesa Isabel. Maria da Conceição Consumidora

Melhorou porque dá condição de a gente vir comprar aqui e pegar o ônibus ao mesmo tempo. A gente vem de longe. Aí as pessoas que vêm de longe não ficam na contra-mão e aqui (na Praça da Estação) está desocupado, né? Fica bom para eles (os feirantes). Eu nem sabia que estava aqui e pode ser que outra vez, quando a gente vir, já esteja em outro canto. E a gente sempre atrás, comprando, porque aqui é mais barato.. Carlos Ferreira Consumidor

Atrapalhou muita coisa em respeito a gente porque a gente ficou um pouco misturado em termo de vendas de confeccção, venda de aparelho celular, televisão. Ficou um pouco misturada a feira. Deus queira que seja melhor aqui (na Praça da Estação) porque lá (na Praça da Lagoinha) tinha pouco espaço, era muito pequeno. Aqui, realmente, o espaço é um pouco melhor, né? Tem mais espaço para a gente poder ficar mais à vontade.

Por enquanto ainda não melhorou não (com relação às vendas). A gente espera que melhore para todo mundo. Quando a feira sair, os ônibus voltando, melhora também porque têm os ônibus, né? Quando tinha os ônibus aqui era bom, mas tiraram os ônibus daqui aí piorou, né? Tiraram 10 linhas de ônibus. Aí com essa saída dos ônibus, piorou as vendas para todo mundo.

Tiago Roberto Feirante

Augusto Moura Dono de banca de revistas na Praça da Estação

Eu acho que não sei não. Só sei que eles aceitaram. Não sei porque eles aceitaram. Tava a maior confusão, né? Lá na (Praça da) Lagoinha, eles (Prefeitura) queriam botar eles (feirantes) para fora e agora botaram aí (na Praça da Estação) e querem tirar. Não, não atrapalha não (a vinda dos feirantes para a Praça da Estação). Aí é questão que eles não gostam, não dão valor. Lá na Lagoinha, passou foi tempo lá. Aí agora eles (Prefeitura) pegaram e fizeram um reparo lá (com relação às obras da Metrofor) aí desistiram e vieram para cá (Praça da Estação). Mas daqui a pouco eles (os feirantes) saem de novo.

Para nós aqui, que trabalha de mototáxi, a gente achava que ia dar umas corridinhas pra nós aqui também, mas por enquanto está do mesmo jeito. Parece que não está muito bom para eles aí não (os feirantes). Não sei como é que está o movimento lá (na feira da Praça da Estação), mas, pelo visto que nós estamos olhando aqui, ninguém está vendo movimento não nessa feira aí.Acho que os feirantes devem estar sentindo muito. Espero que melhore (o movimento). É porque está muito recente também, época de inverno, mas acho que vai melhorar, viu?

Raimundo Gomes Aposentado

Robson Araújo Mototaxista

Acho bom (os feirantes na Praça da Estação), dá mais desenvolvimento. Depois (da transferência), só Deus que sabe. Eu trabalho ambulante, vendedor ambulante. Eu vendo remédios medicinais. Tou com um bocado de anos que fico ali (apontando o local onde costuma ficar na Praça da Estação, fora das marcações da Prefeitura). Aí um rapaz passou lá, um fiscal, me cadastrou... É coisa pouca (mostrando suas mercadorias: pequenos recipientes de metal com um produto semelhante a uma cera dentro). Não vale a pena ir daqui pra acolá e botar dentro de box ou dentro do acampamento. A não ser que você tenha uma mercadoria maior, que é mais espaço. E, se a Prefeitura quiser me colocar pra’li (para o camelódromo), eu vou vender na mão, noutro canto. O mundo é muito grande. Eu não vou é parar. José Nelson de Carvalho Ambulante

A mudança, para mim, foi uma maravilha porque, quando Deus fecha uma janela, abre uma porta. Porque lá (na Praça José de Alencar) eu não estava vendendo nada porque eram duas feiras: a da Lagoinha e a da José de Alencar. Como nós estamos tudo junto, ficou melhor para mim. Eu acho muito melhor aqui (na Praça da Estação). Para os clientes, eles se afastaram daqui porque fica muito distante, né? Ficou muito distante mesmo da Lagoinha para cá. E, às vezes, nem querem vir para cá porque pensam que não está todo mundo aqui. E os clientes pensam também que aqui é perigoso, mas não é perigoso de maneira alguma. Aqui é melhor que na Lagoinha. Mil vezes! Por mim, eu tomava minha vida aqui até quando Deus me tirar porque aqui eu estou achando uma maravilha. Jecineide Rabelo Feirante

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