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1 A ERA NAPOLEÔNICA

1. Napoleão Bonaparte (1769-1821) nasceu na Córsega, estudou na Escola Militar de Brienne e na de Paris. Casado com Josefina de Beaurnais, conseguiu fazer carreira rapidamente, graças ao prestígio da esposa. 1.1. Aos 24 anos era promovido a general, aos 30 anos tornou-se cônsul e aos 35 anos era imperador. Alie-se a isso sua eclética personalidade ( militar, legislador, estadista e escritor) e não serão poucos os tentados, diante de tais qualidades, a superestimar o papel do indivíduo na história. Tal engano pode levar a que se atribua ao gênio de um indivíduo todas as grandes realizações de um período histórico. 2. O CONSULADO: 2.1. O golpe do 18 de brumário de 1799, planejado pelo abade Sieyés (ex-membro do Diretório) e Napoleão, foi dado sem derramamento de sangue. O Diretório, corrupto e incapaz, ruía pela sua própria fraqueza interna. Com uma coluna de granadeiros, Napoleão invadiu a sala dos conselhos, obrigando-os a votarem o sistema do Consulado, a partir do que três cônsules passaram a deter o poder: Napoleão, Sieyés e Ducos. Esse abade Sieyés era o mesmo que em 1789 insuflara a Revolução através do panfleto “o que é o terceiro Estado”, sendo um dos raros líderes revolucionários a atravessar vivo os 10 anos que separaram as “jornadas revolucionárias” do golpe do 18 brumário. Ducos, general francês, era também ex-membro do Diretório. 2.2. Um mês depois do golpe era posta em vigor uma nova constituição. Por ela ficava estabelecido que Napoleão seria primeiro cônsul pelo prazo de 10 anos, além de lhe serem conferidos poderes ditatoriais. Estabelecia-se assim uma ditadura consular cujo objetivo máximo seria a consolidação do regime que ficou bem claro quando, logo depois do golpe, Napoleão convocou os banqueiros parisienses e requereu um empréstimo. “Todos subscreveremos o empréstimo”, declarou Mallais, em nome dos banqueiros presentes. “Há por acaso algum banqueiro ou negociante parisiense que, em vista de tantas belas esperanças, não se apressará a testemunhar sua absoluta confiança no Governo?” 2.3. A Bolsa respondeu ao golpe do 18 brumário subindo a cotação dos títulos do Estado. Os camponeses, que haviam sido beneficiados pela reforma agrária, anteriormente realizada, abrigavam a esperança de que Bonaparte defenderia a França contra o inimigo do exterior e co0ntra os emigrados, garantindo a posse de terras conquistadas durante a Revolução. 2.4. A primeira tarefa que Bonaparte se impôs foi a de eliminar o perigo externo. Para isso, avançou sobre a Segunda Coligação ( Inglaterra, Áustria e Rússia), utilizando até mesmo intrigas diplomáticas bem elaboradas, que acabaram redundando na saída da Rússia da Coligação. A seguir (1800), a Áustria foi derrotada na batalha de Marengo e, finalmente, em 1802, a Inglaterra e a França decidiram-se por uma trégua, assinando a Paz de Amiens. 2.5. A neutralização da ameaça externa abriu espaço para a “pacificação” interior da França. A crise financeira foi controlada pela fundação do Banco da França, que exercia o controle da emissão de papel-moeda, reduzindo o processo inflacionário. O desenvolvimento econômico ganhou impulso com a criação da Sociedade Nacional de Fomento à Indústria. As relações com a Igreja, paralisadas após o desencadeamento da Revolução, foram solucionadas pela Concordata de 1801, que estabelecia a nomeação dos bispos pelo primeiro cônsul e a transformação do clero em assalariado do governo consular.


2 2.6. Em 1804 o Código Civil Napoleônico viria a institucionalizar as transformações burguesas produzidas na França pela Revolução. O novo código assegurou a igualdade formal perante a lei, garantiu o direito de propriedade, proibiu as greves operárias e a organização sindical e ratificou a reforma agrária realizada pela Revolução. Este último item garantiu a Napoleão o numeroso e importante apoio dos camponeses ao seu governo. 2.7. Estabelecida a consolidação interna da Revolução e defendendo-se com êxito dos inimigos externos, Napoleão assegurava apoio da burguesia, do exército e dos camponeses. Assim fortalecido, mais um passo seria dado para a exaltação de sua personalidade: em 1804 promulgava-se a constituição do ano XII, aprovada em plebiscito pela imensa maioria da população francesa, que substituía o regime de Consulado pelo de Império. Napoleão fez-se coroar em Notre-Dame, sob o título de Napoleão I, imperador dos Franceses. 2.8. Seria errôneo concluir que esse ato fez retornar o regime monárquico, pois a mudança de título não alterou a base de sustentação política de Napoleão ( burguesia, exército e camponeses), tampouco desviou seu objetivo de consolidação da ordem burguesa por meio de suas instituições. O que na realidade ocorreu foi a utilização de uma instituição aristocrática, o título de imperador, para prosseguir numa obra de cunho nitidamente burguês. 3. O IMPÉRIO: 3.1. As várias coligações européias foram sempre obra da diplomacia do mais obstinado adversário francês, a Inglaterra, onde o poder da burguesia já estava consolidado havia mais de um século. Somente ali os setores dominantes da burguesia não nutriram simpatias pela Revolução Francesa. 3.2. Para a Inglaterra, a luta contra os franceses tornava-se inevitável, pois sua Revolução Industrial já havia sido iniciada e a França afigurava-se como concorrente comercial e industrial nos mercados europeus. Além disso, o exemplo francês poderia instigar na Inglaterra o levante de camadas da população que, desde 1689, data da Revolução Gloriosa, mantinham-se sujeitas ao controle da burguesia. Para as monarquias absolutistas européias, partidárias do Antigo Regime e defensoras dos privilégios aristocráticos, derrotar a França era uma questão de sobrevivência. 3.3. Por esses motivos as coligações européias colocaram, lado a lado, a Inglaterra parlamentar e burguesia e a Europa absolutista e aristocrática unidas contra o inimigo comum: a Revolução na França. 3.4. A França, por seu lado, teria de arrebatar os mercados consumidores europeus, até então sob controle inglês, ao mesmo tempo que precisava consolidar sua revolução internamente, o que somente seria possível com a expansão para os países aristocráticos. Dessa maneira, a paz francesa só viria com a disseminação das instituições burguesas sobre o restante da Europa – a estabilização da ordem burguesa na França tinha como contrapartida necessária a destruição dos regimes aristocráticos europeus. 3.5. Diante de interesses antagônicos da Inglaterra e das nações absolutistas de um lado e da França de outro, apenas a força das armas despontava como solução. 3.6. Em 1803 formou-se a Terceira Coligação antifrancesa (Inglaterra e Rússia e, em 1804 também a Áustria), à qual se opôs a Espanha, que apoiou a França. Em outubro de 1805, a marinha francoespanhola foi dizimada na batalha de Trafalgar, na qual os ingleses foram comandados pelo almirante Nelson. Em terra, porém, era clara a superioridade francesa: nas batalhas de Ulm e Austerlitz, Napoleão derrotou as tropas austríacas e russas. 3.7. Em 1806, o imperador francês suprimia o que restava do Sacro Império Romano-Germânico e criava a Confederação do Reno, reunindo a maioria dos Estados alemães e nomeando a si próprio “protetor”. Formou-se então, a Quarta Coligação (Inglaterra, Rússia e Prússia), mas a Prússia foi


3 rapidamente derrotada na batalha de Lena e os russos caíram em 1807 nas batalhas de Eylau e Friendland, assinando o Tratado de Tilsit, pelo qual se tornavam aliados dos franceses. 3.8. Derrotada a Quarta Coligação, Napoleão tornou-se o grande senhor da Europa continental. Os territórios que não eram diretamente dominados pelo imperador estavam entregues a aliados e familiares – seus irmãos José, Luís e Jerônimo tornaram-se, respectivamente, reis de Nápoles, Holanda e Vestfália. Em cada local por onde seus exércitos passavam, a velha ordem era destruída, implantando-se constituições, divulgando-se o Código Napoleônico e modernizando-se as estruturas econômicas. A jovem nação burguesa impunha-se às velhas nações aristocráticas; as instituições burguesas substituíam as arcaicas estruturas feudais. 3.9. Do outro lado do canal da Mancha, entretanto, protegida por suas esquadras, a Inglaterra mantinha-se incólume. Para atacá-la, a França, tendo perdido boa parte de suas forças marítimas em Trafalgar e impossibilitada de derrotar militarmente os ingleses, decidiu tentar asfixiar economicamente o reino britânico. Napoleão promulgou em Berlim o decreto que estabelecia o Bloqueio Continental, proibindo os países europeus de adquirirem produtos ingleses. 3.10. O declínio do império Napoleônico se dá gradualmente de 1808 a 1815 e é explicado por vários fatores conjuntos: 3.10.1. O nacionalismo das nações conquistadas – Napoleão cometeu um grave erro político ao difundir instituições francesas por toda a parte, ignorando as tradições e o sentimento nacionais dos vários povos europeus. A burguesia dos países dominados, que antes recebera os exércitos napoleônicos como libertadores, voltou-se mais tarde contra os franceses, que assumiam, na prática, o papel de opressores estrangeiros. A Espanha, antiga aliada, levantou-se quando Napoleão colocou no trono espanhol seu próprio irmão, José Bonaparte. Organizando-se sob a forma de guerrilha, os espanhóis destruíram o mito da invencibilidade francesa, derrotando-a em 1808, na batalha de Baylem. O exemplo espanhol alastrou-se. 3.10.2. O fracasso do Bloqueio Continental – Uma estratégia que no início pareceu ser extremamente eficaz tornou-se, alguns anos depois, altamente inconveniente, pois as esquadras britânicas comerciavam com as colônias do continente americano e impediam a França de obter matérias-primas no Novo Mundo. Por outro lado, as nações européias, na sua maioria agrícolas, ressentiam-se da falta do mercado inglês para onde antes expo0rtavam seus produtos primários, em troca das manufaturas inglesas. Começaram, então, a comerciar secretamente com os ingleses, burlando a vigilância francesa, ao mesmo tempo que tramavam seu rompimento com o Império. Agravando a situação, em 1809 formou-se a Quinta Coligação (Inglaterra e Áustria), mais uma vez derrotada por Napoleão. Mesmo vitorioso, as fissuras do Império iam se tornando mais profundas. 3.10.3. O fracasso militar na Rússia – Prejudicada pelo Bloqueio Continental, a Rússia rompeu o acordo que mantinha com a França, rebeldia que Napoleão resolveu punir de forma exemplar: invadiu a Rússia com u exército de 450 mil homens, enquanto mais 150 mil ficavam postados na Polônia fornecendo a infra-estrutura material necessária. Os russos utilizaram a tática de “terra arrasada”, ou seja, retiravam-se sem enfrentar o inimigo, levando tudo o que podiam e incendiando casas, envenenando a água, destruindo as plantações. Napoleão conseguiu invadir Moscou, mas encontrou a cidade incendiada pelos próprios russos. Cedendo às dificuldades, os franceses decidiram retira-se, mas um novo e poderoso inimigo iria minar ainda mais as tropas francesas: o inverno russo. Do gigantesco exército que invadira o território da Rússia, apenas 30 mil homens retornaram com vida. 4. O GOVERNO DE CEM DIAS: 4.1. Incentivado pelo enfraquecimento do Império Napoleônico, mais visível após o grande fracasso da campanha da Rússia, formou-se a Sexta Coligação (Prússia, Áustria, Rússia e Inglaterra). A


4 partir de então, as derrotas e perdas foram se sucedendo: em março de 1813, Napoleão era derrotado na batalha de Leipzig, e, já um ano depois os exércitos da Sexta Coligação tomavam Paris. O Império estava desfeito. Napoleão foi desterrado para a ilha de Elba, próxima à Córsega, ficando em sua companhia mil soldados. 4.2. Com ajuda das baionetas aliadas, retornava ao trono a dinastia dos Bourbon, corando-se o rei Luís XVIII, irmão de Luís XVI ( o filho de Luís XVI, que por direito sucessório seira Luís XVII, morreu aos 10 anos de idade na prisão por ocasião da Revolução Francesa). A restauração monárquica favoreceu a volta à França dos emigrados (aristocracia e membros do alto clero), que haviam sido despojados e exilados pela Revolução. O período que seguiu caracterizou-se pela violência e arbitrariedade dos que retornavam e passou à história com a denominação Terror Branco. Paralelamente às perseguições e massacres, os emigrados exigiam as terras confiscadas durante a Revolução, o que naturalmente causou descontentamento em meio aos camponeses, levando à explosão de revoltas. 4.3. Em Elba, Napoleão acompanhava, atentamente, a evolução dos acontecimentos e, em 1815, julgando ser propício o momento, fugiu da ilha e avançou em território francês `a frente de sua guarda de mil homens. 4.4. Ciente do que ocorria, Luís XVIII enviou um batalhão para aprisioná-lo e, próximo a Grenoble, às margens do rio Mure, deu-se o histórico encontro em que o ex-imperador retomou o comando do exército. Apeado do cavalo, Napoleão aproximou-se ficando a 10 passos das tropas reais e dirigindo-lhes então a palavra: “Soldados do 5º Batalhão, sou vosso Imperador. Reconhecei-me: se entre vós houver um soldado que queira matar o seu imperador, aqui estou”. Dito isso, entreabriu-se seu capote cinzento. Nervosos, os oficiais ordenaram fogo e os soldados recusaramse a atirar. Um grito soou em meio à tropa: “ Aqui estão nossos irmãos! Aqui está nosso General1 Viva o Imperador!” A guarda que acompanhava Napoleão respondeu: “ Viva o Imperador!” Os oficiais entreolharam-se e aderiram às saudações ao imperador. 4.5. Com apoio dos soldados e engrossando suas fileiras pelo caminho, Napoleão avança rapidamente em direção a Paris. As manchetes dos jornais parisienses da época informavam: “o monstro coros desembarcou na baía de São João”. “ O canibal marcha sobre Grasse”. Mas, à medida que o avanço de Napoleão obtinha êxito, os jornais mudavam de tom: “Bonaparte ocupou Lyon”, “Napoleão aproxima-se de Fontainebleu”. Finalmente, um dia antes do irreversível avanço sobre Paris, as manchetes anunciavam: “ Sua Alteza Imperial é esperada amanhã em sua fiel Paris”. 4.6. Luís XVIII fugiu para a Bélgica e Napoleão conseguiu pela segunda vez o poder, onde se manteria por mais cem dias. Organizou suas tropas e avançou contra os aliados que estabeleceram a Sétima Coligação, procurando enfrentá-los antes que invadissem a França. O embate decisivo foi travado na batalha de Waterloo, na Bélgica, onde ele foi definitivamente derrotado. Exilado na ilha de Santa Helena, na costa africana, faleceu a 5 de maio de 1821. 4.7. Um mês depois de sua prisão, o ex-imperador enviava carta ao príncipe regente da Inglaterra: “ Alteza Real: alvo das facções que dividem o meu país e da inimizade das maiores potências da Europa, terminei a minha carreira política. Venho como Temístocles sentar-me no lar do povo britânico; ponho-me sob proteção das suas leis, que reclamo de Vossa Alteza Real, como a do mais poderoso, mais constante e mais generoso dos meus inimigos”. 4.8. Apesar da aparente derrota, seu papel havia sido cumprido. Por toda a Europa, as instituições burguesas haviam se difundido e se solidificado; a restauração que se seguiu foi momentânea, nunca chegando a se reorganizar nos moldes da época de Luís XVI. Era impossível reviver o passado – o máximo que a restauração conseguira seria o retorno de algumas das instituições do Antigo Regime e, assim mesmo, por poucos anos.


A era napoleônica