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análise do processo da concessão urbanística em são paulo

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adequado, um que estimulasse uma política habitacional para justamente fazer com que ela seja ocupada no período noturno. Portanto, essa área não é uma área morta, para “revitalizar”, é uma área que possui problemas de funcionamento.

Parece-nos que a definição do problema no bairro da Santa Ifigênia e a forma de resolvê-lo, encontradas pelas gestões PSDB-DEM, desconsideraram a vida que lá existe, como se os mais pobres – prostitutas, camelôs, encortiçados, desempregados e catadores de lixo – não existissem. Estariam mortos, de acordo com essa perspectiva. A vida presente é a vida de pessoas pobres, que justamente ocupam alguns pontos da região porque ela não era mais alvo do interesse do mercado imobiliário. As edificações existentes perderam preço e se tornaram espaço para abrigar exatamente quem não possui condições financeiras para participar do mercado, ou que participa dele com relações muito informais ou irregulares. Além disso, a denominada “Cracolândia” não é um espaço físico, a ser “resolvido” por meio de demolições e novas edificações, trata-se de locus de um quadro social onde adultos, jovens e crianças utilizam drogas a céu aberto de forma itinerante, migrando de rua a rua, e a depender das ações do Poder Público, migrando de bairro a bairro. A alternativa “arrasa-quarteirão” para promover a alteração no Centro de São Paulo pode ser vista criticamente também a partir de outro ângulo. Conforme afirmou Candido Campos Malta, a intensificação do uso de automóveis como meio de transporte no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, fez com que muitas pessoas se mudassem das áreas centrais, por conta da degradação ambiental resultante da poluição (Campos, 1989). Selecionar um bairro da cidade para demolição e posterior construção de edifícios sem pressupor qualquer reorganização do sistema de trânsito ou de transporte público da região central de São Paulo, nem melhorias ambientais para aqueles que moram e trabalham na região, nos faz questionar a essência do projeto Nova Luz, e pensá-lo como uma forma de “gentrificação”. Geralmente, num processo ocorrido em áreas urbanas com muitas diferenças

A Batalha pelo Centro de São Paulo: Santa Ifigênia, Concessão Urbanística e Projeto Nova Luz  

SOUZA, Felipe Francisco De. "A Batalha pelo Centro de São Paulo: Santa Ifigênia, Concessão Urbanística e Projeto Nova Luz". São Paulo: E...

A Batalha pelo Centro de São Paulo: Santa Ifigênia, Concessão Urbanística e Projeto Nova Luz  

SOUZA, Felipe Francisco De. "A Batalha pelo Centro de São Paulo: Santa Ifigênia, Concessão Urbanística e Projeto Nova Luz". São Paulo: E...

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