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dossiê/revista landa

malvinas Horacio González Raul Antelo Jefferson Agostini Mello

Vol. 2 N° 1 (2013) / ISSN 2316-5847


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Vol. 2 N° 1 (2013)

Literatura ĞƉŽůşƟĐĂ͗ ĂƉĂƌƟƌĚĞ Malvinas 1

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Então, vou agradecer especialmente às pessoas que me convidaram à Universidade Federal de Santa Catarina. Um convite sempre é emocionante, apesar de que estamos obrigados a ser pudicos em qualquer conferência, ou numa palestra. Agradeço muito, especialmente, ao Raúl Antelo e a surpreendente lembrança que fez de um escrito2 que tinha esquecido. Agradeço à professora Liliana Reales, à secretaria de Cultura da Universidade de Santa Catarina, Maria de Lourdes Alves Borges, e ao ministro Emilio Neffa [ex] cônsul da Argentina em Santa Catarina. Todos esses agradecimentos, como já dito aqui, não são, senão, a tarefa última do orador. O orador é o grato de que haja a benevolência 1Conferência proferida na Universidade Federal de Santa Catarina no dia 10 de maio de 2012, como ato inaugural do ciclo de conferências Malvinas, mar e meio ambiente, organizado pela Secretaria de Cultura e Arte, pelo Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) e pelo Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino-americanos, da mesma Universidade. Este ciclo, cujos temas fundamentais foram política, cultura e meio ambiente, debateu a ocupação britânica do Atlântico Sul e a controvérsia entre Argentina e Inglaterra acerca das Ilhas Malvinas. Transcrição: Inês Skrepetz, Selomar Borges, Gastón Cosentino, Rubens da Cunha y Byron Vélez. Tradução português-espanhol: Rubens da Cunha e Inês Skrepetz. Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino-americanos. 2

El velo y la empuñadura. Crónicas de Largentinaquella. [São Paulo, s.n.], 1978, p.22-23.


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de poder ser escutado. É um velho momento civilizatório, este que estamos protagonizando aqui: alguÊm fala, outros escutam; os que escutam falarão – nesse momento ou em outro. É uma espÊcie de contrato primordial da cultura. Daí a pudica emoção de todo ato como este. Quero fazer uma primeira pergunta para anunciar o nosso tema, que Ê o tema das Malvinas: Quando a Inglaterra escolheu o mar? É um tema central da história contemporânea. O grande estudioso da história inglesa, Carl Schmitt, que Ê um pensador profundo e problemåtico, pensou que o momento fundamental da história inglesa – que foi sua escolha pelo mar, não pela terra –, foi seu ato massivo, tecnológico e comercial de se voltar para o mar. Esse ato pode ser encontrado no centro de uma obra literåria: Carl Schmitt disse que só revisando profundamen-

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te Hamlet de Shakespeare Ê que se pode entender em que momento a Inglaterra decidiu se converter em um impÊrio moderno do mar. Chama a atenção que uma decisão marítima e mercantil, por meio da qual se formou um grande impÊrio do sÊculo XVII em diante, possa ser encontrada em um grande texto literårio. Serå esse um vício do analista, uma paixão literåria indevida do pensador político, que procura encontrar na literatura o que se poderia encontrar muito mais facilmente em uma simSOHVKLVWyULDPHUFDQWLO"2XpXPDSURMHomRUH¿QDGtVVLPDGHDQiOLVHKLVtórica, em que os textos literårios não são só literårios, mas contêm eles mesmos todas as tensþes da história? Se isto for assim, se encontråssemos nos grandes monólogos de Hamlet ou do Rei Lear ou Macbeth, as razþes pelas quais a Inglaterra se volta para a dominação dos mares; se encontråssemos nos grandes textos de Shakespeare a ideia da soberania marítima imperial da Inglaterra, sem dúvida, a tarefa Latino-americana de pensar as Malvinas recuperadas para o continente tem que ser uma tarefa política, diplomåtica, econômica e tambÊm literåria. 7RGDVHVVDVIRUoDVGDUHÀH[mRGDDQiOLVHGRSHQVDPHQWRFUtWLFR – desde a literatura atÊ a economia política – devem colocar-se em jogo, por meio de algo que possa construir um horizonte que as conjugue ou as contenha. Esse horizonte não pode ser outro que o de uma Êtica anticolonialista, anti-imperialista, capaz de fazer um novo chamado de convivência entre os homens, e gerar um novo humanismo reparador. É uma tarefa política de nossos países, ligada a esses grandes níveis de compreensão da história. Pedimos isso a nossos políticos, a nossos economistas, a nossos diplomatas. Essa Ê uma grande tarefa política, de


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dimensĂľes ĂŠticas absolutamente inovadoras, porque implica reformular as condiçþes da vida nas novas perspectivas histĂłricas do nosso planeta. Essa ĂŠ a importância que tĂŞm as Malvinas y se deve começar a pensĂĄ-las a partir da histĂłria contemporânea e da formação do ImpĂŠrio InglĂŞs. NĂŁo digo essas palavras fazendo reparos morais nem crĂ­ticas insubstanciais, que poderiam servir a um anti-imperialismo de circunstâncias – estas circunstâncias seriam passageiras. Se digo a palavra “anti-imperialismoâ€? ĂŠ porque quero fundamentĂĄ-la, efetivamente, em feitos polĂ­ticos, ĂŠticos, sociais e literĂĄrios que pressuponham a vocação anti-imperialista de nossos povos; uma capacidade efetivamente reconstrutiva de seu prĂłprio pensamento polĂ­tico. NĂŁo ĂŠ cĂ´modo o que estamos dizendo, nem vĂŁo ser cĂ´modas as possibilidades polĂ­ticas do nosso continente, porque

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não pensamos por meio do anåtema, senão da auto- reconstrução de nossas próprias vidas políticas. E isso nos obriga a dizer que a Inglaterra, ou Grã-Bretanha, ou o ImpÊrio Britânico, Ê uma construção histórica extremamente complexa. Não responde somente a uma mera vocação de domínio que se poderia encontrar na alma obscura dos povos. Responde a um projeto, que se intitulou como um projeto civilizatório. Quando a Inglaterra conquista a �ndia não pensa somente que ali vai encontrar matÊrias-primas, ainda que isso ocorra. Na ambição ecoQ{PLFDGDFRQTXLVWDGDËQGLDSRGHVHWHUHPSULPHLUROXJDUDUHÀH[mRH a ideia de que se construía um impÊrio mercantil sobre as matÊrias-primas têxteis que a �ndia lhe permitia elaborar. Quando a Inglaterra pensa na �ndia, pensa com seus comerciantes, têxteis, com sua infantaria da marinha; pensa com seus fuzileiros de infantaria da marinha, pensa com seus capitães dos barcos de guerra e pensa tambÊm com seus poetas. A Inglaterra fez da �ndia a joia mais importante da coroa. Na �ndia, a Inglaterra encontra possibilidades econômicas em um grande quadro mundial de divisão internacional do trabalho e encontra tambÊm possíveis razþes GHDXWRMXVWL¿FDomRFRPRLPSpULR O estudo da relação entre a �ndia e a Inglaterra Ê cÊlebre no trabalho de muitos economistas. Quero recordar, em especial, o modo em TXHHVVDUHODomR¿JXUDQRVJUDQGHVHVFULWRVGH/HRQ7URWVN\(PA revolução permanente, um texto de grande importância na história do sÊculo XX, Trotsky analisa esse nó da história mundial quase com a mesma pergunta que faz Carl Schmitt em relação à obra de Shakespeare, e à H[SDQVmRPDUtWLPDGD,QJODWHUUD³FRPRGH¿QLURVpFXOR;;"´7URWVN\


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diz: “Na relação desigual e combinada que se institui nas relações políticas e sociais que entabulam a Inglaterra e a Índia, uma é a dominadora, mas ambos os polos da relação estabelecem o modo em que temos que compreender um mundo em desequilíbrio, um mundo com uma estrutura de injustiça e um mundo em revolução.” Isso escreveu Trotsky em A revolução permanente. O nó do século XX era a relação entre a Inglaterra e a Índia; relação díspar, desigual e de exploração colonial. Portanto, desatar esse nó do século XX era a entrada principal para a compreensão do modo em que se estabelecia a civilização contemporânea. No século XX, as coisas não ocorreram do modo que Trotsky as previu, e não ocorreram do modo previsto por Trotsky em relação à Índia. É sabido que a descolonização da Índia aconteceu por meio de

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um grande movimento profundamente enraizado nos valores culturais e religiosos do país, que seu líder foi um autêntico líder, que entendeu a política não como a expressão de uma força, senão como a expressão YLJRURVDGDDXVrQFLDGHXPDIRUoDRSDFL¿VPRGH*DQGKLHDQmRYLRlência. A famosa foto de Gandhi tecendo em seu tear é um emblema do século XX, também. A Índia poderia ser um país que fabricasse também as manufaturas obtidas por meio de suas próprias matérias-primas. A roca do tear, instrumento primitivo do tecelão indiano, estava no próprio centro da memória descolonizadora da Índia. A Inglaterra criou uma cultura na Índia, que é a cultura do colonizador angustiado ou é a cultura do colonizador orgulhoso de sua missão civilizatória. Estão as grandes poesias de Rudyard Kipling, que é conhecido por seus escritos Kim e O livro da selva, mas muito mais conhecido por suas apologias ao homem branco: o homem inglês, o dominador do mundo. Esse é um grande poeta do colonialismo inglês – porque se o colonialismo faz suas apologias, devemos saber criticar as apologias que o colonialismo faz de si mesmo com instrumentos políticos e poéticos da mesma dimensão daqueles com que o imperialismo construiu sua apologia. O Império Inglês quis construir sua apologia poética por meio de escritos fundamentais, como os de Kipling, em que a tarefa do homem branco é lamentável. “O homem branco não goza na dominação”, diz Kipling. A resposta dos anti-imperialistas de todo o mundo foi dizer o oposto, que o homem branco entendia a dominação como um gozo obscuro, e que esse gozo era um traço de inumanidade na humanidade do homem. Kipling diz: “nós temos de enfrentar a pesada tarefa do homem


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branco como tarefa não agradåvel, mas sim como uma tarefa civilizatória, com todos os custos gravíssimos que envolvem tal tarefa.� Assim sendo, os movimentos de liberação, de emancipação e de UHFRQVWUXomRGDSUySULD¿JXUDGRKRPHPGHYHPWHUHPFRQVLGHUDomR necessariamente, o nível em que chegou o imperialismo na autocelebração, na celebração do que se atribui como missão na ordem de criar formas de vidas superiores. A crítica a esse imperialismo deve trabalhar no sentido de que suas obras não eram superiores, que o que se chamava superioridade, universalidade, democracia eram grandes conceitos, e seguem sendo grandes conceitos, mas eram conceitos que encobriam uma forma de dominação que não se declarava. O pesar do homem branco, segundo Kipling, mascarava, no entanto, formas econômicas e políti-

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cas de dominação. Mas essas poesias eram grandes poesias. Quem sabe grandes poesias não equivocadas na ordem da poiÊsis, mas profundamente equivocadas na ordem política. Por isso, a tarefa anti-imperialista ou a tarefa anticolonialista, que ainda persiste em nossos povos, tem que ser uma tarefa que indague mais profundamente tambÊm em suas forças literårias. Entre os imperialistas angustiados, estå o grande romance Passagem para a �ndia de Edward Forster, que tambÊm forma parte da história do colonialismo britânico, mas desde sua crítica sutil e aristocråtica. Existe uma crítica aristocråtica ao colonialismo no romance de Forster, que pþe no centro da vida colonial inglesa o intelectual que vive a vida de colônias, que pode ser funcionårio colonial, que pode estar expatriado nas colônias como um personagem angustiado, banido, exilado. É o colonialista exilado e se Ê muito exilado, se seu exílio Ê um exílio profundo, Ê menos anticolonialista. Essa Ê a tese aristocråtica de alguns, de Virginia Woolf por exemplo, em relação ao imperialismo inglês. É uma sutil literatura que não critica a política colonial inglesa, mas pþe no centro de atenção um personagem desgarrado que encontra no outro supostamente selvagem, que tem outra religião, que seria inferior a ele; encontra o inverso: encontra um fator de fascinação, de sedução, e daí provÊm a profunda tese da cultura aristocråtica inglesa, que Ê a sedução da barbårie. Por isso o imperialismo, ou o colonialismo inglês, não Ê uma simples peça do mundo contemporâneo, mas sim uma peça muito complexa do imperialismo contemporâneo. Toda a saga de Thomas Edward Lawrence, conhecido tambÊm


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como Lawrence da Arábia, pertence aos impulsos do )RUHLJQ2I¿FH no mundo, pertence aos impulsos do Serviço Secreto Britânico. Mas não pertence somente aos impulsos de dominação do Serviço Secreto Britânico, também pertence a uma alta literatura, pertence à arqueologia, pertence ao desenvolvimento das ciências naturais em todo o mundo e pertence à construção de uma antropologia do colonizador profundamente angustiado e, no caso de Lawrence da Arábia, preparando-se para se tornar o chefe expatriado daqueles aos que domina e, ao mesmo tempo, quer conduzi-los para a libertação. Que Lawrence da Arábia tenha sido um agente do )RUHLJQ2I¿FH é também um dos acontecimentos fundamentais do século XX, porque é um dos grandes escritores da língua inglesa do século XX. É um renovador da língua inglesa com seu

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livro Os sete pilares da sabedoria e, nesse sentido, e como parte do imperialismo britânico, como parte dos serviços secretos do imperialismo britânico, sente a profunda tentação como chefe dos quais domina, como chefe das tribos árabes na Primeira Guerra Mundial em combate contra o exército turco. Carrega também o sintoma dos membros da aristocracia intelectual inglesa que acompanharam o imperialismo britânico em seu momento de esplendor, quer dizer, é a pergunta civilizatória por excelência: Estará certo o que estamos fazendo? Essa pergunta é a de Edward Forster, é a pergunta de Virginia Woolf, é a pergunta de Lawrence da Arábia; poderia ter sido a pergunta de Shakespeare, ou de Coleridge, y será a pergunta de Borges, também, que leu todos esses autores. Essa pergunta pode ser respondida com a poética de Kipling: “Sim, está certo, é muito pesado o que estamos fazendo, mas nós o fazemos a serviço da humanidade”. É uma resposta falsa, mas uma alta poética. A resposta do outro setor da aristocracia intelectual inglesa é: “talvez não esteja certo o que estamos fazendo, mas, por via das dúvidas, façamo-lo de uma forma estetizada, façamolo com as estéticas mais relevantes do nosso século, façamo-lo com a estética da anulação do eu; estabeleçamos a vontade de domínio da Inglaterra com uma estética que abandone toda a possibilidade de nos considerar dominadores. Sofremos com o que fazemos. Sofremos sendo imperialistas”. Essa é a alta doutrina aristocrática do imperialismo.

Não escarnecemos disso, não rimos disso, não pensamos que isso seja um gesto absurdo, banal, de pessoas inadequadas. Pensamos


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que essas pessoas exigem de nosso anti-imperialismo, de nosso latino-americanismo, esforços intelectuais ainda mais profundos, a aquisição de QRYLGDGHVWHyULFDVDLQGDPDLVH[SOtFLWDVHGHWRGRRSHQVDPHQWR¿ORVy¿FRGDKXPDQLGDGH3RUTXHSDUDUHVSRQGHUDHVWHHVWLORLQWHOHFWXDOGR imperialismo‌ –que jå não existe, o imperialismo de agora Ê um imperialismo decadente, basta ver os políticos ingleses falando, por exemplo Cameron, são muito grosseiros. Seus grandes poetas não estão mais aí, não existem mais. Basta ver hoje um debate da Câmara dos Lordes, Ê um debate de uma grande pobreza intelectual. Em qualquer um dos nossos SDtVHVDLQGDTXHFRPDVGH¿FLrQFLDVSROtWLFDVGRVQRVVRVSDtVHVTXH não são poucas, qualquer debate em nossos parlamentos, que são muito GH¿FLHQWHVWHPjVYH]HVWUDoRVPXLWRPDLVLOXPLQDGRVTXHRGHEDWH

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da Câmara dos Lordes. Esses grandes nomes jå não existem mais, esses que eu quis pronunciar aqui para revelar atÊ que ponto este momento da história da humanidade, de tanta transcendência para nós, chegou a tal ponto que devemos ser nós os últimos que escreveremos a história dos impÊrios. Desse impÊrio, que estou falando, e do outro, daquele que teremos que seguir falando. Sabemos a que impÊrio estou me referindo. Foram necessårias obras como a de Sartre, a de Frantz Fanon, nos anos 60, para colocar-se ao mesmo nível de crítica intelectual do imperialismo, porque o imperialismo britânico teve forte presença na vida intelecWXDO¿ORVy¿FD A história da Argentina estå absolutamente unida à história do ImpÊrio Britânico. Hå uma linha interna de referência na história argentina da presença da Inglaterra com operaçþes sigilosas, secretas, ou explícitas. A cultura inglesa Ê uma parte fundadora da cultura argentina. Para muitos autores relevantes da história da cultura argentina, a literatura argentina foi fundada pelos viajantes ingleses. Quem eram esses viajantes ingleses do sÊculo XIX? Os viajantes ingleses são muito cÊlebres na história argentina, alguns só conhecidos na Argentina, como os irmãos Robertson, Woodbine Parish, que são grandes escritores e são comerciantes; são os que vêm por trås do capitão de navio, são os que vêm com a infantaria da marinha inglesa. Ou são os que vêm sem infantaria da marinha, com a literatura inglesa, que Ê a literatura dos grandes naturalistas. Hå um viajante da Argentina, que Ê muito conhecido (porque tambÊm Ê um viajante do Brasil): Darwin, que passa pelo Rio grande


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do Sul à Argentina e passa pelas Malvinas seis meses antes da ocupação britânica em 1833. Esse acontecimento nos interessa. Darwin, como se sabe, fez uma das obras das ciências naturais de maior relevância no sÊculo XIX. Sua ideia de que a origem do homem tem que ser buscada na evolução, e de que a construção das sociedades tem que ser buscada na luta pela existência, são ideias centrais do pensamento evolucionista, SRVLWLYLVWD0XLWDVYH]HVD¿UPDGRWDQWDVRXWUDVYH]HVUHIXWDGRIH]WUHmer as grandes religiþes mundiais; os espiritualistas de todos os tempos, sejam religiosos ou não, tencionaram refutar Darwin. E Darwin ainda segue causando problemas. A ideia de que a origem das espÊcies surge da natureza, ao longo de milhþes de anos de trato com o material que a natureza oferece – sendo o homem parte da natureza, estabelecendo sua relação com ela por meio da luta – Ê uma ideia central do pensamento

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de Darwin. HĂĄ uma teoria estĂŠtica muito cruel em Darwin: o canto dos pĂĄssaros, as vozes dos animais, que ele celebra como poucos, somente FRQVHJXHPHVVDSHUIHLomRTXHWrPGHDRORQJRGRVVpFXORVVDFULÂżFDUR mais fraco. O canto de um pĂĄssaro ĂŠ mais bonito porque pĂ´de sobreviver na luta pela vida. De modo que na tese de Darwin existe sempre uma ideia artĂ­stica: sobrevive o mais poderoso e ĂŠ esse quem cria as formas da arte. Mas nĂŁo podemos fazer uma continuidade aĂ­. NĂŁo podemos dizer LVVRWHPRVTXHVDEHUGLIHUHQFLDUHQWUHXPHVWLORFLHQWtÂżFR TXHLUDPRV ou nĂŁo, Darwin segue sendo motivo de discussĂŁo) e as operaçþes de ocupação militar e comercial do impĂŠrio. Temos que saber diferenciĂĄ -las. Digo isso porque eu li, entre tantos artigos que se publicam em Buenos Aires, que Darwin esteve, suspeitosamente, uns meses antes da invasĂŁo na famosa viagem‌ Quando passa pelo pampa argentino recebe um salvo-conduto. E quem lhe dĂĄ esse salvo-conduto?: o senhor dos pampas, o homem poderoso dos pampas, o governante daquele momento Juan Manuel de Rosas, que ĂŠ o centro de uma vida polĂŞmica na Argentina. O encontro de Darwin com Rosas ĂŠ um episĂłdio central da histĂłria das ciĂŞncias naturais e da histĂłria polĂ­tica argentina. Quando Marx morre, em Londres em 1882, seu amigo Engels faz um famoso discurso no cemitĂŠrio de Highgate. Diz: “acaba de morrer o segundo grande cĂŠrebro do sĂŠculo XIX.â€? O primeiro era Darwin e o segundo era Marx. Existe uma tentação darwinista em certos aspectos do marxismo, assim como existem marxismos antidarwinistas. Digo isso para que se entenda a complexidade do problema de Darwin e das ciĂŞncias natu-


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rais: é a antropologia contemporânea, é a paleontologia contemporânea, são as ciências naturais contemporâneas, parte do Império Britânico, ou não? Se decidíssemos que o são, seria um inadequado ato de redução das ciências do homem, as ciências da natureza, a meros atos de ocupação. Se decidirmos que não, seríamos também muito ingênuos ao não ver o grandioso espetáculo das ciências se expandindo ao conjuro das ações militares. Não seríamos adequados historiadores, capazes de compreender o século XIX, se não víssemos algum tipo de relação, não causalista, não determinada grosseiramente. Pelo contrário, há que pontuar que se o império teve suas voltas, também protegeu e amparou seus grandes cientistas. Por isso, pedir para que a Inglaterra sente à mesa de negocia-

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ções não é uma tarefa simples, porque na memória inglesa estão todos esses episódios. Embora a classe política britânica seja a mais tosca em toda sua história ou, quem sabe, seja o que mais se pareça às épocas profundas de violência que formaram o império; a saga dos requintes, dos VRQKRVLQFUtYHLVGHVXDFXOWXUDOLWHUiULDHFLHQWt¿FD DSHVDUGHTXHLVVR quase já não existe mais) impõe que, de todas as maneiras, conhecer esta história possa ser fundamental também para o Brasil, porém mais para a Argentina, porque na Argentina existe uma linha interna da presença britânica que levou à ideia de que no século XX, alguns governantes disseram que não, como a Índia, a Argentina também era uma joia preciosa da coroa inglesa, devido ao comércio, às ferrovias inglesas, às companhias de eletricidade inglesas. A Argentina tinha todos os seus serviços básicos nas mãos dos ingleses, a cultura ferroviária argentina é uma cultura inglesa e a cultura ferroviária não é qualquer cultura, a cultura ferroviária ainda tem algo do Império Britânico. É a cultura ferroviária que está na Índia, está nos países africanos. É a cultura ferroviária que inventa a Inglaterra. A Inglaterra inventa a ferrovia, e a ferrovia é uma cultura de formação de povos, de trabalho disciplinado, é uma cultura do trabalho industrial. A ferrovia resume toda a indústria do século XX: o carvão, o ferro, o transporte de mercadorias. De modo que a cultura inglesa – e desmentindo um pouco o prognóstico de Carl Schmitt, de que a Inglaterra é o mar assim como a Alemanha é a terra, e isso para Carl Schmitt tem profundas implicâncias na guerra do século XX – também a Inglaterra inventa a ferrovia. É a terra, fundamental para o mar, porque para a divisão do trabalho


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internacional da Inglaterra a ferrovia era tão importante como os barcos. E a Argentina, como o Brasil, não tinha nem barcos, nem ferrovias próprios. O impÊrio jå era um impÊrio transmilitar: o tecido militar do impÊrio sempre subjazia no interior da demarcação da linha ferroviåria, QRLWLQHUiULRGRVEDUFRVQRVIULJRUt¿FRV2IULJRUt¿FRpPXLWRLQWHUHVVDQWH SRUTXH RV IULJRUt¿FRV VmR EDUFRV H[LVWHP EDUFRV IULJRUt¿FRV H IULJRUt¿FRVTXHVmREDUFRVHDFXOWXUDDUJHQWLQDpDIHUURYLDLQJOHVDR IULJRUt¿FRLQJOrVRVEDUFRVLQJOHVHV A independência argentina tambÊm tem muito da presença britânica, a independência argentina não pode se escrever sem a ação do )RUHLJQ2I¿FH2)RUHLJQ2I¿FH Ê uma presença fundamental no sÊculo XIX e no sÊculo XX: todas as operaçþes de Lord Stanford, entre o Rio

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de Janeiro e o Rio da Prata, ajudado pela corte portuguesa, são parte inerente da história argentina, impossíveis de separar dela. É impossível se pensar a Argentina, a independência argentina, sem a presença inglesa. A independência argentina se faz com a aceitação da Grã-Bretanha, depois da Grã-Bretanha ter tentado invadir Buenos Aires em duas oportunidades. A Inglaterra compreende muito rapidamente que o caminho militar não era o mais adequado, nem para as cidades centrais, nem para o território, e pedirão aos primeiros patriotas argentinos que não se independentizem da Espanha de uma maneira formal, daí que os primeiros exÊrcitos patriotas seguem atuando em nome do Rei da Espanha, Fernando VII, que estå aprisionado por Napoleão. Por que existe essa situação? Porque se os primeiros patriotas argentinos houvessem declarado de imediato a independência, a Inglaterra – que estava aliada com a Espanha contra Napoleão – houvesse tido que atuar, a pedido da Espanha contra aqueles patriotas, daqueles países onde estavam as matÊrias-primas que chegavam a interessar de fato ao reino da Inglaterra. Esta situação torna a independência argentina muito complexa, e a partir de aí, como existe esta situação (que não existe no Brasil, na história brasileira não existe esta mesma situação), na Argentina se desenvolve uma linha pró-britânica em todos os seus políticos, sejam de esquerda ou de direita, e uma linha nacionalista antibritânica de muitos políticos e intelectuais, sejam de direita ou de esquerda. Nacionalismo antibritânico de direita e de esquerda. Essas linhas políticas na Argentina são atuais e estão em pleno debate em relação às Malvinas. Quando os ingleses invadem Buenos Aires (estamos falando do ano 1806 ou 1807),


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a frota invasora vem do Sul da Ă frica. E ĂŠ uma frota muito importante: sĂŁo dez mil soldados em uma cidade que ĂŠ praticamente uma fĂĄbrica, que tinha poucos habitantes a mais que a frota. Talvez tivesse o triplo ou o quĂĄdruplo de habitantes que os soldados ingleses que a invadem e a conquistam. A gesta da reconquista de Buenos Aires de algum modo funda a Argentina, antes de sua independĂŞncia. E os ingleses nĂŁo vĂŞm somente com o exĂŠrcito, os ingleses nĂŁo vĂŞm somente com a armada. JĂĄ nesse momento a armada inglesa era a mais importante do mundo, posto que havia ocorrido a batalha de TraIDOJDU HP TXH KDYLDP GHUURWDGR GHÂżQLWLYDPHQWH D DUPDGD HVSDQKROD que atĂŠ esse momento era a mais importante. O almirante Nelson, que morre na batalha de Trafalgar, ĂŠ o grande herĂłi da marinha inglesa. Para

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os nacionalistas argentinos sempre foi o grande herói da marinha argentina, tambÊm, o almirante Nelson. Os nacionalistas argentinos zombam dos marinheiros liberais argentinos dizendo que na calça da infantaria da marinha argentina levam uma listra negra, que segue sendo o luto pela morte do almirante Nelson - anedota da política argentina. A Inglaterra vem tambÊm com uma imprensa, e os clåssicos não se movem sem imprensa. Recordam da primeira grande cena El siglo de las luces de Carpentier? Quando a revolução francesa desembarca no Caribe e da costa se veem as sombras de uma guilhotina e de uma impressora. A revolução francesa: a imprensa e a guilhotina, deixo essa interpretação de Carpentier. O exÊrcito inglês que ocupa Buenos Aires vem com uma grande imprensa que não consegue se estabelecer em Buenos Aires, se estabelece em MontevidÊu. A relação triangular MontevidÊu-Buenos Aires -Malvinas, atÊ hoje nos demarca, porque a relação das Malvinas sempre foi com MontevidÊu, estando velada a Buenos Aires, e muito mais problemåtica Ê a relação Chile-Argentina-MontevidÊu-Malvinas. Por isso, desfazer este nó Ê uma questão latino-americana de suma urgência. Nessa imprensa se editou um jornal formidåvel – chamado La estrella del sur, The southern star – que imprimiu doze números, que era um jornal de guerra, o jornal da task force inglesa. Esse jornal era um jornal que promovia a liberdade de culto, a liberdade de comÊrcio, Ê um jornal ideológico de altíssima qualidade. Porque a Inglaterra não ia só com o exÊrcito, ia com as letras. E Ê um jornal de grandes poesias, poesias ao almirante Nelson que acabava de morrer na batalha de Trafalgar. E não


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eram poesias de pouca importância. De modo que o ImpÊrio Britânico novamente aparece, não com seus políticos toscos de hoje, senão que aparece com almirantes e poetas, e com grandes jornalistas, que muitas vezes eram nativos do lugar. Queriam que a vida do monopólio espanhol acabasse, em nome da liberdade de culto, da liberdade de comÊrcio, de todas as liberdades. Então o ImpÊrio Inglês Ê um profundo paradoxo que Ê a atração pela liberdade em nome da dominação. Esse Ê um enigma da humanidade, e os povos, nossos povos (que antes chamavam de terceiro mundo: hoje temos que buscar outro nome, que tenha a mesma força), temos que desfazer este paradoxo de que em nome da liberdade se estabeleça a dominação, porque tambÊm queremos todas as formas de liberdade e sabe-

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mos que a liberdade se vincula a necessidades e estĂĄ, como quem diria, selada de necessidades. EntĂŁo o ImpĂŠrio InglĂŞs nĂŁo ĂŠ uma construção arbitrĂĄria, mas sim uma construção anĂ´mala que desfaz, suga, impede e proĂ­be liberdades em nome de liberdades. DaĂ­ a complexidade do tema Malvinas tambĂŠm na Argentina, em que se cruza a tradição nacionalista com a tradição liberal, que hoje estĂŁo em pleno debate. Antes de terminar esta fala e dizer qual ĂŠ esse debate –que ĂŠ muito importante, tambĂŠm para o Brasil–, queria dizer que as Malvinas sempre foram importantes, inclusive o debate pelo seu nome. Existem FDUWDVJHRJUiÂżFDVLQJOHVDVVREUHWXGRIUDQFHVDVTXHGL]HPÂł)DONODQGV ou Malvinasâ€?. As cartas argentinas do sĂŠculo XIX dizem “Malvinas ou Falklandsâ€?, existe certa indecisĂŁo quanto ao nome, e algumas cartas inglesas tambĂŠm dizem “Malvinasâ€?. Hoje isso nĂŁo seria possĂ­vel no estado em que estĂĄ a questĂŁo: ou ĂŠ “Falklandsâ€? ou ĂŠ “Malvinasâ€?. O mundo binĂĄrio que estabelecem as Malvinas, ligado ao nome: existe aqui uma TXHVWmRELQiULDTXHQmRFDEHULDQDVFDUWDVJHRJUiÂżFDVGRVpFXOR;,; Isto possui vĂĄrias razĂľes, e uma delas ĂŠ a presença da França na histĂłria das Malvinas. O nome das Malvinas ĂŠ um nome francĂŞs, nĂŁo ĂŠ nem inglĂŞs nem espanhol, ĂŠ um nome francĂŞs. AlĂŠm disso, as Malvinas foram descobertas pelos holandeses. Assim como, estabeleceram-se no Brasil, em Pernambuco, e cĂŠlebres artistas brasileiros portam o nome da Holanda, como o presidente francĂŞs. A Holanda estĂĄ em muitos lugares, menos nos territĂłrios dos nobres cĂŠlebres do Brasil ou da França. A primeira posição importante nas Malvinas foi francesa e o primeiro nome importante que as Malvinas


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tiveram foi holandĂŞs: “Ilhas Sebaldinasâ€?, chamavam-se assim devido ao marinheiro holandĂŞs, que dizem tĂŞ-las descoberto, mas nĂŁo se sabe bem quem descobre as Malvinas. Estamos falando de 1620, 1630, estamos falando das primeiras dĂŠcadas do sĂŠculo XVII. As “Ilhas Sebaldinasâ€? nĂŁo se chamavam mais “Sebaldinasâ€?, mas poderiam ser chamadas “Sebaldinasâ€? se a Holanda tivesse sido a Inglaterra. A Holanda nĂŁo pĂ´de ser a Inglaterra, e quis ser a Inglaterra. Porque de alguma maneira teve que se resignar a um destino continental, a Holanda. NĂŁo pĂ´de ter destino marĂ­timo como teve, e tem, a Inglaterra. O primeiro estabelecimento ĂŠ fundado por um naturalista; as Malvinas sempre estĂŁo ligadas aos estudos dos naturalistas, ingleses ou fran-

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ceses. E, no caso deste naturalista francês que funda o primeiro porto das Malvinas, Ê um marinheiro e naturalista da zona francesa do norte, de Saint-Malo. De aí que vem Malvinas, ou seja o nome provÊm de um povo marítimo francês – de Saint-Malo –, que estå ao norte da França. É uma pequena localidade portuåria da França e Bougainville, a quem estou me referindo, provÊm de Saint-Malo, Ê o primeiro que explora as Malvinas como naturalista, como comerciante, e como político, e como marinheiro. E desta exploração sai um grande livro de memórias de sua volta pelo mundo, que tem quase a mesma importância que as memórias de Humboldt sobre AmÊrica Latina. E são os naturalistas mais interesVDQWHV +XPEROGW %RXJDLQYLOOH TXH GHL[DP VHXV QRPHV QDV ÀRUHV nas plantas, nos animais. Como Colombo que, ao novo continente, lhe då nomes religiosos, lhe pþe nomes vinculados à religião católica, às ilhas que descobre, igual o nome da Cruz... os frades naturalistas vão em nome da razão e, ao continente, dão-lhe nomes latinos, não-cristãos. Daí que os nomes latinos, não-cristãos, que têm nossos animais, nossas ÀRUHVYrPGHVVHVQDWXUDOLVWDV+XPEROGWRX%RQSODQGTXHDWXRXPDLV na Argentina. Humboldt mais no norte da AmÊrica, Humboldt Ê um dos grandes mestres de Bolívar. Bolívar não pôde conhecer Marx – que não o apreciava, ao contrårio, o questionava bastante. Por outro lado Humboldt, o grande naturalista alemão, estimava muito Bolívar, e Bolívar estimava muito Humboldt, aí temos um viÊs muito importante para pensar a história latino-americana. O bolivarismo, o primeiro bolivarismo tem mais a ver com as ciências naturais românticas que com as primeiras ideias da revolução social, porque Marx desprezava Bolívar, e Humboldt se encontra com Bolívar, sobe o Chimborazo, Bolívar sobe atrås de Humboldt ao Chimborazo e escreve tambÊm as memórias poÊticas


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de sua subida ao Chimborazo, o grande vulcão do Equador. Por que o vulcão? Porque a teoria da natureza de Humboldt Ê vulcânica e a teoria político-militar de Bolívar –não a de San Martín, a de Bolívar– Ê tambÊm vulcânica: são vulcanistas, não netunistas, ou seja, não a natureza vista como forma de ågua, a veem como parte do fogo, daí o romantismo e a teoria naturalista de Humboldt herdada por Bolívar. E daí o modo no qual o bolivarismo tem interpretaçþes de direita e esquerda, tambÊm Ê muito mais ativa no continente que a gesta sanmartiniana do exÊrcito argentino do sÊculo XIX. As razþes se encontram menos na política militar que nas visþes sobre a natureza. Bougainville não teve muita sorte com os nomes, mas deixou seu QRPHHPXPDÀRUDEXJDQYtOLDTXHpD6DQWD5LWDHPQRVVRVSDtVHV

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a chamam de Santa Rita e em outros paĂ­ses a chamam de buganvĂ­lia. E HVWHKRPHPTXHFRORFRXVHXQRPHHPXPDĂ€RUFHGHHPQRPHGD)UDQça, as ilhas Ă  Espanha que as reclama sempre, porque de acordo com o Tratado de Tordesilhas – estĂĄ claro ao olhar o mapa –, as Malvinas estĂŁo encostadas no territĂłrio continental do Vice-reino do Rio da Prata. EnWmR%RXJDLQYLOOHDFHLWDRVDUJXPHQWRVGD(VSDQKDHWUDWDGRVÂżUPDGRV em Londres, em Madrid, e em Buenos Aires, consente em abandonar o porto San LuĂ­s, nĂŁo, Porto LuĂ­s – o nome de LuĂ­s XV – o rei da França. Por isso, quando explode a guerra entre os militares argentinos e a Inglaterra em 1982, um assessor vai atĂŠ Miterrand e rapidamente lhe informa: “monsieur le prĂŠsident hĂĄ guerra no sul do Atlântico, os argentinos invadiram as Malvinasâ€?, e Miterrand pergunta: “que histĂłria ĂŠ essa das Malvinas?â€?. O assessor vai e averigua, e num instante volta – isto deve ser uma ‘piada’ –, passado um momento o assessor vem e diz: “monsieur le prĂŠsident les Malvines sont françaisesâ€?. Essa era a averiguação que o assessor havia feito, e nĂŁo deixava de ter razĂŁo desde o ponto de vista das lutas dinĂĄsticas. Hoje as dinastias sĂŁo petroleiras: British Petroleum, Exxon, Chevron. Por isso ĂŠ tĂŁo importante a questĂŁo petrolĂ­fera; sĂŁo impĂŠrios dinĂĄsticos, os impĂŠrios petrolĂ­feros. A British Petroleum herda do ImpĂŠrio Britânico o mesmo olhar do impĂŠrio. A British Petroleum se chamava antes Iran Oil (nĂŁo sei se o cĂ´nsul saberia nos dizer), depois muda seu nome para British Petroleum. O governo do IrĂŁ em 1953 encabeçado pelo ministro Mosaddeq (era um Primeiro Ministro laico), cai pela questĂŁo petrolĂ­fera. E na Argentina tambĂŠm caem governos por


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causa da questão petrolífera. A relação entre a França, Holanda, Inglaterra e Espanha sobre as Malvinas, faz das Malvinas um lugar estratÊgico em relação ao olhar sobre a Antårtida, ao petróleo, à pesca. E em relação à pesca vem desde o sÊculo XVII em diante: pesca de focas, pesca de pequenos peixes. Em relação ao petróleo acontece no sÊculo XX, mas nunca as Malvinas deixaram de ser importantes. Não eram ilhas desconhecidas, eram ilhas sobre as quais os grandes impÊrios da Êpoca – encabeçados pela *Um%UHWDQKDTXHpDTXH¿FDFRPDV0DOYLQDV¹GLVSXWDPSHUPDQHQtemente, e quando o governo argentino se estabelece como tal, herdando os direitos da Espanha, as reivindicaçþes foram constantes. Governos de diferentes índoles, o de Rosas que mencionei, que era um governo

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de características rígidas e com certa simpatia para com a Grã-Bretanha, apesar de encabeçar grandes resistências militares à Grã-Bretanha, pessoalmente Rosas tinha certa amizade com o Primeiro Ministro da Grã -Bretanha, sobretudo com o Lord Palmerston. No entanto, encabeça um grande feito militar que Ê o impedimento da invasão inglesa sobre o Rio Paranå, algo que implicava a conquista da AmÊrica Latina praticamente: era entrar ao interior do continente, não pela costa. Era mais importante que tomar as Malvinas, tomar o Paranå. Quer dizer, com a chegada atÊ São Paulo perfeitamente, os brasileiros não podem permanecer tranquilos com isso. E nesse momento acontecem importantes batalhas marítiPDVPDVGHULRPDUtWLPRÀXYLDLV,QJODWHUUDH)UDQoDFROLJDGDV Nesse sentido, as reivindicaçþes tanto do governo Rosas como dos governos liberais posteriores – que derrocam Rosas, com o auxílio inestimåvel do outro impÊrio, o ImpÊrio Brasileiro, sem o qual Rosas não haveria sido derrubado. A ação militar contra Rosas tem a importante participação do exÊrcito de Duque de Caxias, e Ê o exÊrcito que, posteriormente, se coligarå com o exÊrcito argentino na guerra contra R3DUDJXDL6HPHVVHH[pUFLWRGL¿FLOPHQWH5RVDVWHULDFDtGR3RGHVH entender a queda do governo de Rosas de muitas maneiras, essa Ê uma discussão aberta, mas o fato Ê que os governantes posteriores tambÊm reivindicam as Malvinas. E isso Ê o que a torna uma causa de todas as correntes ideológicas. Os grandes governantes que derrocam Rosas, e posteriores: Sarmiento, Mitre, os socialistas... todos reivindicam as Malvinas e Ê um ponto de convergência de todas as forças ideológicas da Argentina. Um lugar difícil de convergência, porque aí tambÊm con-


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YHUJHXPDLGHRORJLDR¿FLDOGRH[pUFLWRDUJHQWLQRTXHQmRpXPD~QLFD ideologia: no exÊrcito argentino antes do terrorismo militar dos anos 1970 conviviam as ideologias nacionalistas e liberais. Os liberais argentinos escreveram grandes livros mencionando e demonstrando os direitos argentinos sobre as Malvinas. O principal livro da tradição liberal foi escrito por um francês, Paul Groussac, que era um francês argentinizado. Diretor da Biblioteca Nacional durante 40 anos; cargo que paradoxalmente, entendam o paradoxo, agora eu ocupo. A Biblioteca Nacional da Argentina são dois grandes nomes: Paul Groussac y Jorge Luis Borges. E ambos intervêm de modo muito explícito na questão das Malvinas. Se me permitem tambÊm a anedota, posso dizer

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que os dois estĂŁo intervindo na forma de como eu estou intervindo tambĂŠm aqui (RaĂşl saberĂĄ compreender meu ĂĄcido humor. NĂŁo, nĂŁo ĂŠ ĂĄcido humor, ĂŠ um humor cĂŠtico). Paul Groussac escreve um livro em francĂŞs com a mais interessante documentação que existe. Tentei expor aqui algumas partes, Bougainville..., e os demais sĂŁo os temas de Paul Groussac. Borges escreve o poema “Juan LĂłpez y John Wardâ€? depois da guerUDGH6HPHSHUPLWHPTXHÂżTXHPÂżRVQRDUGHWRGDDH[SRVLomR porque nĂŁo poderei retomar todos os assuntos que estive abordando, vou dizer algo muito breve sobre o debate entre liberais e nacionalistas na Argentina depois da guerra. A guerra introduz uma situação nova e de difĂ­cil interpretação porque o governo militar que toma a decisĂŁo da guerra, ĂŠ o governo militar que tortura, que faz desaparecer os corpos no mar, ĂŠ uma ditadura terURULVWDFXMDFRPSUHHQVmRDLQGDGHVDÂżDDYLGDLQWHOHFWXDOGD$UJHQWLQD &RPRXPQ~PHURLPSRUWDQWHGHRÂżFLDLVGDV)RUoDV$UPDGDVSRGHVH converter em assassinos? Esse ĂŠ um tema de trabalho para a vida intelectual: nĂŁo ĂŠ um enigma, mas nĂŁo ĂŠ fĂĄcil se converter em assassino, nĂŁo ĂŠ fĂĄcil converter os exĂŠrcitos em mĂĄquinas assassinas. Quem sabe seja fĂĄcil para os imperialismos (basta ver a ação dos exĂŠrcitos de ocupação do Iraque, na LĂ­bia), mas para os nossos exĂŠrcitos o plano sistemĂĄtico de desaparecimento de corpos... nĂŁo era fĂĄcil tomar essa decisĂŁo, posto que havia violĂŞncia. É claro que se torturava, evidentemente que havia operaçþes clandestinas de eliminação dos divergentes, dos contestadores, dos dissidentes, evidentemente. E tudo isso eram açþes criminais, mas o crime sistemĂĄtico e planejado era pela primeira vez que ocorria em um paĂ­s latino-americano. As tentativas de implantar esse mesmo


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sistema no Brasil, de algum modo fracassaram. E não é porque as Forças Armadas brasileiras não tiveram projetos nessa linha. Por muitas razões que não são desconhecidas por vocês, os planos nas Forças Armadas brasileiras, da mesma índole que nas Forças Armadas argentinas, VHPSUHVHIUXVWUDUDPHPJUDQGHPHGLGDSHODRSRVLomRGHDOWRVR¿FLDLV do mesmo exército brasileiro, que queria reprimir os insurgentes sem utilizar as hipóteses últimas do poder do Estado; quer dizer, a morte na clandestinidade do dissidente, a operação sobre os desaparecidos, que é D~OWLPDUHÀH[mRTXHXPHVWDGRID]VREUHRFRUSRGDVSHVVRDVeXPD operação de caráter muito extremo, quer dizer, matar o opositor e fazer desaparecer seu corpo, é uma operação de uma abstração que faz da crueldade a forma última do governo. O exército brasileiro teve uma

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discussão interna acerca disso e não triunfou o setor que o propunha. No exército argentino não houve nenhuma discussão interna e no primeiro momento do golpe se produziu essa política que ainda hoje é difícil GHGH¿QLU8PDSROtWLFDTXHQHPVHTXHUVHSDUHFHDQHQKXPDRXWUDQR mundo. Compará-la com o nazismo é possível porque houve campos de concentração, mas houve outras tecnologias, estava o mar, jogavam corpos no mar, ou no Rio da Prata, que tem uma parte de rio e de mar. Quando esse exército vai às Malvinas, está tentando se introduzir na grande corrente sentimental e emotiva que implica a questão Malvinas na Argentina. Essa questão sentimental e emotiva está em discussão na Argentina por setores ultra-liberais que pretendem uma Argentina despojada dessa questão sentimental. Quero dizer, pessoalmente, que minha posição à respeito é uma Argentina não despojada da questão sentimental, mas também sustentada nas melhores argumentações, nas melhores documentações, nas melhores elaborações e análises éticas universalistas. Bom, esse exército que vai às Malvinas tem um primeiro morto, que é o capitão da armada, Giachino, que era um militar torturador da Armada argentina. Vejam, é um tema tipicamente borgeano, o tema do traidor e do herói, então isto sacode o pensamento nacionalista e o pensamento liberal, e qualquer nuance que exista entre eles. Os matizes mais humanistas (no es un humanismo argentino), porque o capitão Giachino é um herói para certos setores que cultuam com certos segredos o heroísmo do primeiro morto argentino nas Malvinas; e a posição liberal, que hoje é minoritária na Argentina, e que se expressam em alguns diários importantes da tradição liberal argentina, como o diário La Nación. Estão mal encaminhadas as


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negociaçþes argentinas com a Grã-Bretanha, precisamente porque qualquer tentativa de desconhecer os direitos da população – agora tambÊm posso falar um pouquinho sobre isso –, da população inglesa das Malvinas, implicaria em trazer toda a questão para o momento em que morre o capitão Giachino, quer dizer, um torturador do exÊrcito argentino que morre em frente à casa do Governo nas Malvinas, frente à casa do Governador. E nesse sentido não hå nenhuma possibilidade para a Argentina de escapar da instauração do heroísmo do capitão Giachino, se abandonado o estilo de negociação que estå tendo o governo argentino, que Ê um estilo de negociação de forte reprovação da ditadura militar e de proIXQGRSDFL¿VPRQmRVySRUTXHpSURIXQGRQDVFRQYLFo}HVGRVSROtWLFRV argentinos atuais, senão porque, alÊm disso, não hå outra possibilidade. Mas a posição liberal extrema, que curiosamente estå conduzida menos

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por políticos argentinos que por críticos literårios argentinos, Ê que hå que abandonar qualquer tipo de negociação com a Grã-Bretanha que não inclua os direitos primordiais dos povoadores. E o abandono total da questão do imperialismo e do colonialismo, isso supþe praticamente construir uma nação chamada Malvinas à margem da Argentina. Esse raciocínio conduz, indiretamente, a uma apologia do ImpÊrio Britânico. Mas tampouco temos que deixar de compreender este pensamento, Ê um pensamento horrorizado frente à atrocidade que o capitão Giachino, torturador, possa ser um herói. Essa possibilidade tem tido certa expressão em um ato que foi feito em Ushuaia, a última grande cidade no mapa latino-americano, a cidade mais extrema da Argentina, que estå frente às Malvinas. Esse ato foi encabeçado pela Presidenta da República, e o Comitê Central dos Veteranos de Guerra foi encarregado de fazer o discurso antes ao da Presidenta. O presidente da comissão de Veteranos de Guerra da Argentina fez uma apologia ao capitão Giachino diante da Presidenta da República. Este Ê um tema delicadíssimo, e a Presidenta da República não respondeu nesse momento, fez um discurso totalmente diferente, antibelicista, que descartava implicitamente qualquer possibilidade de declarar herói nacional o capitão Giachino; e faz três dias mudou o representante do Comitê de Ex-combatentes de Veteranos de Guerra e colocou no lugar um jovem recruta daquela Êpoca, um jovem soldado que cumpria o serviço militar obrigatório e tem uma posição totalmente adversa à que expressou o anterior representante dos ex-combatentes.


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Essa é uma discussão terrível na Argentina, uma discussão na alma nacional… Hoje a presidenta, não havendo dito nada no dia do discurso, responde uns dias depois mudando esse personagem por outro que possui uma interpretação totalmente diferente, quer dizer, o mencionado capitão da Armada não é um herói de guerra, é um torturador. Mas agora, na própria exposição deste dilema, se vê qual é a disjunção que atravessa a Argentina; é uma disjunção em que o espírito liberal universalista cosmopolita diz “não toquemos mais no assunto; os habitantes das Malvinas têm o direito à autodeterminação”. E a posição do governo, que não é uma posição nem de nacionalismo abstrato nem está disposta a conceder heroísmo a nenhum torturador, que, ao mesmo tempo, lê a conjuntura mundial em que existem forças internacionais de caráter colonialista e imperialista, e o diz com diversas linguagens.

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Não é a linguagem do texto que mencionei no início desta exposição, de Leon Trotsky, não é esta a linguagem; não é uma linguagem facilmente localizável, como não a seja nos parâmetros de um constitucionalismo patriótico, um patriotismo constitucional, uma nação capaz de recuperar suas raízes humanísticas, que são muitas, junto a suas raízes de violência e de terror, que também não são poucas. Então, nesse sentido, está a questão dos habitantes das Malvinas: quem habita as Malvinas?; porque as Malvinas têm um núcleo pequeno, como dizia o cônsul, um núcleo de povoadores, majoritariamente de origem inglesa, de religião anglicana, e de certa cultura inglesa arcaica, quer dizer, não existe nas grandes cidades da Inglaterra. É uma cultura que provém de uma ilha, é uma cultura insular, como ilha é Grã-Bretanha também, e essa cultura tem um pequeno núcleo fundador de pessoas que estão estabelecidas desde os anos 40, quer dizer, depois da ocupação britânica. Em 1840 alguns desses povoadores – ainda existem seus descendentes e uma das descendentes dos primeiros povoadores originários que vêm pelos barcos de guerra ingleses é diretora do Penguin News, que é o único diário que existe nas Malvinas, onde não há cinema, não há teatro, há somente um pub, a ‘Globe Tavern’, e nenhuma outra coisa a mais… e internet. E além disso, as enormes riquezas que trazem as licenças de pesca. Essa é outra grande discussão na Argentina, que não é fácil resolver. Seria muito imprudente dizer, no contexto desta fala, “essa discussão está totalmente acabada”; porque os habitantes das Malvinas, como qualquer habitante em qualquer lugar, são sujeitos de direito. O que não pode ser estabelecido de nenhuma maneira é o direito


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de autodeterminação, porque seria um direito anti-histórico ou a-histórico, não existem direitos a-históricos. Os direitos realmente a-históricos VmRRVGLUHLWRVGDKXPDQLGDGHTXH¿QDOPHQWHVmRKLVWyULFRV(VHHVWHV direitos da humanidade são revertidos na história real da criação das nações, efetivamente estes habitantes têm direitos, são sujeitos de direito, de todas suas criações culturais, de sua língua, sua religião, desde seu estilo arquitetônico até a maneira de circular por suas ruas... As mãos das ruas são diferentes, as faixas de circulação pelas vias são as da Grã -Bretanha, não há a mínima diferença. Quando o exército argentino ocupa as ilhas coloca as vias de circulação nas Malvinas conforme as que existem na Argentina, essa foi uma grave alteração cultural. A posição do governo argentino é não alterar nenhum dos elementos culturais das

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ilhas, invocando o argumento de que a população argentina tem muitos núcleos de raiz e cultura inglesa em seu interior territorial. Não é exatamente a mesma situação, mas subsistem ainda importantes núcleos de cultura inglesa no território argentino pelas leis argentinas e com cultura inglesa que, além disso, sua parte mais importante ocorre em nosso país: o futebol, elemento fundamental, e muitos outros costumes, e formas literárias, inclusive a questão Borges, da qual não vou falar aqui, porque está intimamente ligada ao que diz seu poema: o profundo lamento pela guerra; porque toda a literatura e a poética de Borges têm a ver com um apelo à Inglaterra, por exemplo, o conto “História do guerreiro e da cativa” em que sua avó inglesa deve compreender que existe uma cativa inglesa, esposa de um capitão-índio do Pampa argentino. Essa ideia de junção cultural de Borges, essa espécie de cosmogonia mística borgeana, sobre determinadas fusões da cultura inglesa com a cultura do Pampa, ou com a cultura crioula. A literatura borgeana é um enigma, um enigma muito interessante. Daí o profundo lamento de que Juan López e John Ward tenham se confrontado nas Malvinas, e caídos juntos em meio à neve e à corrupção, diz. Quer dizer, é um profundo lamento pela ideia da guerra, e esse lamento é um lamento interessante. Também deve ser parte da ação dos nossos países, pensar que o mais exímio escritor argentino do século XX tenha pensado a partir desse ponto de vista. Porque a Inglaterra, e Borges não é um escritor inglês como às vezes o acusaram, a Inglaterra também é uma veia interna na literatura de Borges: com Shakespeare, Coleridge, Conrad...


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Para terminar, jå Ê momento de terminar esta fala: nada do que se refere às Malvinas irå ser fåcil, nada do que se refere às Malvinas – desde o ponto de vista da Argentina e desde o ponto de vista da AmÊrica Latina, que tende a ser quase o mesmo ainda que não seja o mesmo, porque o povo brasileiro não tem o porquê carregar todas as formas em que se deu a história argentina em relação à Inglaterra e às Malvinas –. Um novo cenårio latino-americano que só pode ser aquele que Raúl Antelo expunha: com novos direitos, com novos direitos da natureza –a natureza Ê sujeito de direito tambÊm, os animais são sujeitos de direito tambÊm, o gato que temos em nossa casa Ê sujeito de direito

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tambĂŠm. Com a expansĂŁo da ideia de sujeito de direito, nossos paĂ­ses dĂŁo um passo civilizatĂłrio importante e recolhem o melhor da histĂłria da humanidade e se colocam na situação de eles mesmos contarem, de eles mesmos relatarem, inclusive, a histĂłria do imperialismo, melhor do que poderia fazer o agente imperial ou o literato imperial. EntĂŁo, nesse sentido, resolver apressadamente a questĂŁo dos habitantes das Malvinas nĂŁo ĂŠ o mais indicado. Na reivindicação da Argentina para que a Inglaterra aceite o diĂĄlogo, que nĂŁo ĂŠ muito fĂĄcil, uma vez que a Inglaterra aceite o diĂĄlogo tem que aparecer de imediato a questĂŁo da soberania, e a Inglaterra sabe disso. Por isso, as açþes que estĂŁo sendo feitas na Argentina possuem vĂĄrias direçþes: o oferecimento de viagens aĂŠreas, que os habitantes atuais das Malvinas tĂŞm rejeitado; um curta publicitĂĄrio muito importante, que foi motivo de grande discussĂŁo na semana passada: um atleta argentino que irĂĄ aos Jogos OlĂ­mpicos de Londres estĂĄ treinando nas Malvinas e na legenda que sai depois do vĂ­deo, que passou em toda a televisĂŁo argentina, diz: “atleta argentino treinando em solo argentino para competir em solo inglĂŞsâ€?. É um curta muito extremo HPXLWRLQWHUHVVDQWHSRUTXHHIHWLYDPHQWHDHTXLSHGHÂżOPDJHPQmRGHFODURXTXHLDÂżOPDUHVVHFXUWDHVVHYtGHR\VHFRQYHUWHXHPXPDSHoD simbĂłlica fundamental, nĂŁo agressiva, com certo tom provocador. SĂŁo estilos diplomĂĄticos que me parecem aceitĂĄveis, a via de estender a mĂŁo amistosamente aos povoadores do lugar, viagens aĂŠreas como houve nos anos 60. Esta engenhosa publicidade, que se encontra no limite da diplomacia – explorar os limites da diplomacia faz parte da diplomacia –, estĂĄ nos limites da linguagem possĂ­vel da diplomacia, estĂĄ justo Ă  beiUD(VVHFXUWDSXEOLFLWiULRHVWiIHLWRFRPPXLWRSURÂżVVLRQDOLVPRHWRPD as Malvinas de uma forma comovedora: os pinguins, o mar que bate


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FRQWUDDVPDUJHQVDVHGL¿FDo}HVPDLVLPSRUWDQWHVTXHWRGRDUJHQWLQR conhece de memória. Não conhecemos as Malvinas, seu território, mas conhecemos a forma da sua igreja, a redação de Penguin News, os bares principais, a Globe Tavern, e o atleta argentino que vai competir em Londres arriscadamente caminha na madrugada quase em penumbras e corre como uma espÊcie de soldado espectral da Argentina pelas ilhas. Tudo isso supþe outro viÊs da convenção, tambÊm para o governo. Estes vieses são os que são rechaçados pelos críticos literårios libeUDLVTXHQmRVmRPXLWRVPDVVmRPXLWRLQÀXHQWHVQDRSLQLmRS~EOLFD no sentido de que essas açþes, por mais bem intencionadas que sejam, porque são açþes vinculadas aos símbolos e à diplomacia e a nenhuma outra coisa, confrontam um governo que tem muitos matizes. Discutir

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o governo argentino nĂŁo ĂŠ fĂĄcil, porĂŠm seu viĂŠs progressista ĂŠ o viĂŠs dominante, bem como o seu viĂŠs de raiz humanĂ­stica; e suas formas de intervenção estatal na vida pĂşblica recompĂľem formas profundas de justiça, e isso tambĂŠm ĂŠ uma predominância, para alĂŠm da vida cotidiana argentina, que ĂŠ tĂŁo complexa e tĂŁo ĂĄrdua como a de qualquer povo latino-americano. O pensamento liberal diz: “por melhores intençþes que haja, estas açþes conduzirĂŁo, de novo, a uma guerra, porque a Inglaterra ĂŠ incomovĂ­velâ€?. A posição do governo argentino, posição que me parece mais sensata e mais viĂĄvel para os latino-americanos, me arrisco a dizer que sem esta posição tampouco haverĂĄ AmĂŠrica Latina – ĂŠ que as açþes que estĂŁo se empenhando em nome de uma nova visĂŁo latino-americana, e que obrigam a Argentina a ser outra tambĂŠm, possuem uma coincidĂŞncia histĂłrica. Deve ser compartilhado novamente o rumo entre a Argentina territorial e uma espĂŠcie de Argentina exilada, com cultura inglesa; se hĂĄ um encontro e se compartilha um rumo territorial histĂłrico, irĂĄ ser um diĂĄlogo de duas culturas. É algo que inclusive interessaria aos habitantes das ilhas que hoje odeiam os argentinos, que os levaram a uma guerra. Esse sentimento tambĂŠm tem que ser compreendido, porĂŠm os habitantes das ilhas tĂŞm que compreender, tambĂŠm, o grande quadro histĂłrico que causa o imperialismo mundial, que dĂĄ lugar a este horizonte de UHĂ€H[mRTXHDWUDGLomROLEHUDOH[WUHPDGD$UJHQWLQDWHPHURVDGHXPD nova guerra, que nĂŁo irĂĄ acontecer de nenhuma maneira, nĂŁo estĂĄ em condiçþes de compreender: que ĂŠ a impossibilidade de abandonar uma razĂŁo crĂ­tica ao colonialismo do sĂŠculo XIX e XX. Nossos povos nĂŁo


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podem abandonar esse horizonte, que Ê um horizonte da razão crítica e dialÊtica, que constrói nossas liberdades sobre a base da compreensão crítica e adversa ao modo no qual se desenvolvem os imperialismos e os colonialismos. Isto pode ser feito resguardando todas as liberdades e convidando o povo atual das Malvinas, de fala inglesa, de religião anglicana, de culturas cotidianas totalmente diferentes das latino-americanas; convidando-os a uma aventura histórica de transcendental importância que seria, tambÊm, e quase em primeiro lugar, para eles mesmos. Isso supþe novas pedagogias, a utilização democråtica das psicologias, uma nova interpretação do terrorismo militar, dråstica, como a Argentina estå fazendo, com juízos permanentes aos militares que participaram do Terrorismo de Estado.

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Esses juĂ­zos sĂŁo a meta fundamental da histĂłria contemporânea argentina; isso tem tanta importância, ou mais, quem sabe, que nacionalizar a companhia estatal de petrĂłleos, devolvĂŞ-la novamente ao Estado. Ou tĂŞm a mesma importância. Para a Argentina, hoje, ĂŠ razĂŁo de Estado em relação aos seus recursos – nas Malvinas hĂĄ petrĂłleo, mas nas Malvinas tambĂŠm hĂĄ direitos humanos. Essas duas coisas, essa encruzilhada dramĂĄtica estĂĄ nas Malvinas. EntĂŁo, compreendendo-a como uma extrePDGLÂżFXOGDGHGRSHQVDPHQWRSROtWLFRpQHFHVViULRDGYHUWLUTXHDWUDGLção liberal nĂŁo se engana ao dizer que ĂŠ um problema muito complexo, nĂŁo se engana ao dizer que um nacionalismo primitivo, elementar, erraria, e muito gravemente, se acreditasse que isso se resolve com medidas coercitivas, obrigatĂłrias para a parte inglesa. Esse Velho ImpĂŠrio – decadente, sim, porĂŠm ĂŠ um Velho ImpĂŠrio que tem memĂłria de ter sido – ĂŠ um impĂŠrio que deduz seus interesses dos interesses econĂ´micos. Por isso, quando a posição argentina diz reconhecer aos povoadores das Ilhas Malvinas seus interesses, mas nĂŁo seus desejos, toma uma posição de partida. Essa posição deve crescer, em minha opiniĂŁo, porque nĂŁo reconhecer os desejos das pessoas nĂŁo ĂŠ fĂĄcil. Por isso, uma vez estabeleFLGRVRVGLUHLWRVKLVWyULFRVJHRJUiÂżFRVHVHQWLPHQWDLVGRSDtVDUJHQWLQR sobre essa parte da Argentina que tem outra cultura, evidentemente deve crescer essa polĂ­tica diplomĂĄtica de reconhecer somente interesses e nĂŁo desejos. Porque, sobre a base do diĂĄlogo, os desejos tambĂŠm podem ser reconhecidos, quando os desejos se questionem a si mesmos, a respeito da histĂłria dos povoadores desse lugar. Esta ĂŠ a aposta do que eu chamo: “humanismo crĂ­ticoâ€?, que pressupĂľe a exploração dos recursos naturais em termos racionais, reconhecendo a natureza como sujeito de direito; e


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a convivência entre seres humanos de diferentes culturas como uma possibilidade de recriar, não somente a natureza, senão a história da justiça a uma escala da humanidade. O tema Malvinas, por isso, não pode ser plenamente interpretado pelo simples liberal. Tampouco pelo simples nacionalista. Isso exige da história argentina um esforço dela mesma, também. As velhas ideologias argentinas, assim como estão, deverão questionar-se severamente a si mesmas, como acredito que muitas estão fazendo. Acredito que este governo também está fazendo. Porque para ter direito a algo tão imenso para a história argentina – como são as Malvinas, que atravessam essa história como uma linha de fogo –, para ter esse direito, há que pensar efetivamente nossa hierarquia intelectual, moral e sentimental, para

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poder ter direito a esse direito. Nesse sentido, é que é tão importante a discussão na Argentina, como assim também para os países latino-americanos. Atrevo-me a dizer que, ainda que o povo brasileiro não tenha o porquê de estar no dia-a-dia desta questão, também está sendo de fundamental importância para o povo brasileiro e os demais povos latino-americanos. Para terminar, penso que todos podem perceber a importância que tem este tema e, nesta medida, quero lhes agradecer que tenham HVFXWDGRDUHÀH[mRGHXPSURIHVVRUDUJHQWLQRHHYHQWXDOGLUHWRUGHXPD instituição histórica muito importante. Acredito que falei em nome de sentimentos próprios e do horizonte intelectual que muitas pessoas estão construindo atualmente na Argentina. É incalculável o agradecimento que tenho com vocês, por terem escutado estas palavras. Novamente, agradeço a Raúl Antelo, às autoridades da UFSC, ao querido cônsul Nefa. Um grande abraço!


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Literatura LJƉŽůşƟĐĂ͗ ĂƉĂƌƟƌĚĞ Malvinas 1

Horacio González (Biblioteca Nacional de Buenos Aires)

Bom dia. A primeira declaração que eu quero fazer é que vou falar em espanhol. Vocês já perceberão a razão: o estado defeituoso do meu português. Entonces, voy a agradecer especialmente a las personas que me invitaron a la Universidad Federal de Santa Catarina. Siempre una invitación es emocionante, a pesar de que estamos obligados a ser pudorosos en cualquier conferencia. Agradezco muy especialmente a Raúl Antelo y al sorprendente recuerdo que hizo de un escrito2 que había olvidado. Agradezco a la profesora Liliana Reales, a la secretaria de cultura de la Universidad Federal de Santa Catarina, Maria de Lourdes Alves Borges, 1

Conferencia pronunciada en la Universidade Federal de Santa Catarina el día 10 de mayo

de 2012, como acto inaugural del ciclo de conferencias Malvinas, mar e meio ambiente, organizado por la Secretaria de Cultura e Arte, el Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) y el Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino-americanos, de la misma Universidad. Este ciclo, cuyos temas fundamentales fueron política, cultura y medio ambiente, debatió la ocupación británica del Atlántico Sur y el diferendo entre Argentina e Inglaterra acerca de las Islas Malvinas. Transcripción: Inês Skrepetz, Selomar Borges, Gastón Cosentino, Rubens da Cunha y Byron Vélez. Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino-americanos.

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El velo y la empuñadura. Crónicas de Largentinaquella. [São Paulo, s.n.], 1978, p.22-23.


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y al ministro Emilio Neffa, [ex]cĂłnsul de Argentina en Santa Catarina. Todos estos agradecimientos, ya se dijo aquĂ­, no son sino la tarea Ăşltima del orador. El orador es el agradecido de que haya la benevolencia de poder ser escuchado. Es un viejo momento civilizatorio, este que estamos protagonizando aquĂ­: alguien habla, otros escuchan; los que escuchan hablarĂĄn, en este momento o en otro. Es una suerte de contrato primordial de la cultura. De ahĂ­ la pudorosa emociĂłn de todo acto como este. Quiero hacer una primera pregunta, para anunciar nuestro tema, que es el tema de las Malvinas: ÂżCuĂĄndo Inglaterra eligiĂł el mar? Es un tema central de la historia contemporĂĄnea. El gran estudioso de la

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historia inglesa, Carl Schmitt, que es un pensador profundo y problemåtico, pensó que el momento fundamental de la historia inglesa –que fue su elección del mar, no de la tierra–, fue su acto masivo, tecnológico y comercial, de volcarse hacia el mar. A ese acto se lo puede encontrar en el centro de una obra literaria: Carl Schmitt dice que sólo revisando profundamente Hamlet de Shakespeare se puede entender en quÊ momento Inglaterra decidió convertirse en un imperio moderno del mar. Llama la atención que una decisión marítima y mercantil, a travÊs de la cual se formó un gran imperio desde el siglo XVII en adelante, pueda ser encontrada en un gran texto literario. ¿Serå este un vicio del analista, una pasión literaria indebida del pensador político, que procura encontrar en la literatura lo que podría encontrarse mucho mås fåcilmente en XQDVLPSOHKLVWRULDPHUFDQWLO"2¢HVXQDSUR\HFFLyQUH¿QDGtVLPDGHO anålisis de la historia, donde los textos literarios no son sólo literarios, sino que contienen ellos mismos todas las tensiones de la historia? Si esto último fuera así, si encontråramos en los grandes monólogos de Hamlet o del Rey Lear, o en Macbeth, las razones por las cuales Inglaterra se vuelca hacia la dominación de los mares; si encontråramos en los grandes textos de Shakespeare la idea de la soberanía marítima imperial de Inglaterra, indudablemente la tarea Latinoamericana de pensar las Malvinas recuperadas para el continente tiene que ser una tarea política, diplomåtica, económica y tambiÊn literaria. 7RGDVHVDVIXHU]DVGHODUHÀH[LyQGHDQiOLVLVGHSHQVDPLHQWRFUttico –desde la literatura hasta la economía política– deben ponerse en juego, a travÊs de algo que pueda construir un horizonte que las conjugue o las contenga. Ese horizonte no puede ser otro que el de una Êtica


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anticolonialista, antimperialista, capaz de hacer un nuevo llamado de convivencia entre los hombres y a generar un nuevo humanismo reparador. Es una tarea polĂ­tica de nuestros paĂ­ses, ligada a esos grandes niveles de comprensiĂłn de la historia. Eso les pedimos a nuestros polĂ­ticos, a nuestros economistas, a nuestros diplomĂĄticos. Esta es una gran tarea colectiva, de dimensiones ĂŠticas absolutamente novedosas, porque implica reformular las condiciones de la vida en las nuevas perspectivas histĂłricas de nuestro planeta. Esa es la importancia que tienen las Malvinas y se debe comenzar a pensarlas a partir de la historia contemporĂĄnea y de la formaciĂłn del Imperio InglĂŠs. No digo estas palabras haciendo reparos morales, ni crĂ­ticas insustanciales, que podrĂ­an servir a un antimperialismo de circunstancias; estas circunstancias serĂ­an pasajeras.

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Si digo la palabra “antiimperialismoâ€? es porque quiero fundamentarla efectivamente en hechos polĂ­ticos, ĂŠticos, sociales y literarios que presupongan la vocaciĂłn antimperialista de nuestros pueblos, una capacidad efectivamente reconstructiva de su propio pensamiento polĂ­tico. No es cĂłmodo lo que estamos diciendo, ni van a ser cĂłmodas las posibilidades polĂ­ticas de nuestro continente, porque no pensamos a travĂŠs del anatema, sino de la autorreconstrucciĂłn de nuestras propias vidas polĂ­ticas. Y esto nos obliga a decir que Inglaterra, o Gran BretaĂąa, o el Imperio BritĂĄnico, es una complejĂ­sima construcciĂłn histĂłrica. No responde solamente a una mera vocaciĂłn de dominio que se podrĂ­a encontrar en el alma oscura de los pueblos. Responde a un proyecto, que se titulĂł a sĂ­ mismo como un proyecto civilizatorio. Cuando Inglaterra conquista la India no piensa solamente que allĂ­ van a encontrar materias primas, aunque eso ocurra. En la ambiciĂłn HFRQyPLFDGHODFRQTXLVWDGHOD,QGLDHVWiHQSULPHUOXJDUODUHĂ€H[LyQ y la idea de que se construĂ­a un imperio mercantil sobre las materias primas textiles que le permitĂ­a elaborar la India. Cuando Inglaterra piensa en la India, piensa con sus comerciantes, textiles, con su infanterĂ­a de marina; piensa con sus fusileros de infanterĂ­a de marina, piensa con sus capitanes de los barcos de guerra y piensa tambiĂŠn con sus poetas. Inglaterra hizo de la India la joya mĂĄs importante de la corona. En la India, Inglaterra encuentra posibilidades econĂłmicas en un gran cuadro mundial de divisiĂłn internacional del trabajo y encuentra tambiĂŠn las SRVLEOHVUD]RQHVGHVXDXWRMXVWLÂżFDFLyQFRPRLPSHULR El estudio de la relaciĂłn entre la India e Inglaterra es cĂŠlebre en la


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UHĂ€H[LyQGHPXFKRVHFRQRPLVWDV4XLHURUHFRUGDUHQHVSHFLDOHOPRGR HQTXHHVDUHODFLyQÂżJXUDHQORVJUDQGHVHVFULWRVGH/HyQ7URWVN\(Q La revoluciĂłn permanente, un texto de gran importancia en la historia del siglo XX, Trotsky examina ese nudo de la historia mundial casi con la misma pregunta que hace Carl Schmitt en relaciĂłn con la obra de 6KDNHVSHDUH\FRQODH[SDQVLyQPDUtWLPDGH,QJODWHUUD³¢FyPRGHÂżQLU el siglo XX?â€?. Trotsky dice: “En la relaciĂłn desigual y combinada que se instituye en las relaciones polĂ­ticas y sociales que entablan Inglaterra y la India, una es la dominadora, pero ambos polos de la relaciĂłn establecen el modo en que tenemos que comprender un mundo en desequilibrio, un mundo con una estructura de injusticia y un mundo en revoluciĂłnâ€?. Eso escribiĂł Trotsky en La revoluciĂłn permanente. El nudo

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del siglo XX era la relaciĂłn entre Inglaterra y la India; relaciĂłn dispar, desigual y de explotaciĂłn colonial. Por lo tanto, desatar ese nudo del siglo XX era la entrada principal para la comprensiĂłn del modo en que se establecĂ­a la civilizaciĂłn contemporĂĄnea. No ocurrieron las cosas en el siglo XX del modo en que las previĂł Trotsky y no ocurrieron del modo que las previĂł Trotsky en relaciĂłn a la India. Es sabido que la descolonizaciĂłn de la India se hizo a travĂŠs de un gran movimiento, profundamente enraizado con los valores culturales y religiosos del paĂ­s, que tuvo un lĂ­der original, un lĂ­der que entendiĂł la polĂ­tica no como la expresiĂłn de una fuerza, sino como la expresiĂłn YLJRURVDGHODDXVHQFLDGHXQDIXHU]DHOSDFLÂżVPRGH*DQGKL\ODQR violencia. La famosa foto de Gandhi tejiendo en su telar es un emblema del siglo XX, tambiĂŠn. La India podĂ­a ser un paĂ­s que fabricase tambiĂŠn las manufacturas obtenidas a travĂŠs de sus materias primas. La rueca del telar, instrumento primitivo del tejedor indio, estaba en el centro mismo de la memoria descolonizadora de la India. Inglaterra creĂł una cultura en la India, que es la cultura del colonizador angustiado o la cultura del colonizador ufano de su misiĂłn civilizatoria. EstĂĄn las grandes poesĂ­as de Rudyard Kipling, que es conocido por sus escritos Kim y El libro de la selva, pero es mucho mĂĄs conocido por sus apologĂ­as al hombre blanco: el hombre inglĂŠs, el dominador del mundo. Este es un gran poeta del colonialismo inglĂŠs. Si el colonialismo hace sus apologĂ­as, debemos saber criticar las apologĂ­as que hace el colonialismo de sĂ­ mismo, con instrumentos polĂ­ticos y poĂŠticos de la misma dimensiĂłn de aquellos con que el imperialismo construyĂł su


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apologĂ­a. El imperio inglĂŠs quiso construir su apologĂ­a poĂŠtica a travĂŠs de escritos fundamentales, como los de Kipling, donde la tarea del hombre blanco es pesarosa. “El hombre blanco no goza en la dominaciĂłnâ€?, dice Kipling. La respuesta de los antimperialistas de todo el mundo fue decir lo contrario, que el hombre blanco entendĂ­a la dominaciĂłn como un goce oscuro, y que ese goce era un rasgo de inhumanidad en la humanidad del hombre. Kipling dice: “la pesada tarea del hombre blanco la tenemos que encarar nosotros como una tarea no placentera, sino como una tarea civilizatoria, con todos los costos gravĂ­simos que entraĂąan tal tarea.â€? Siendo asĂ­, los movimientos de liberaciĂłn, de emancipaciĂłn y de UHFRQVWUXFFLyQGHODÂżJXUDPLVPDGHOKRPEUHGHEHQWHQHUHQFXHQWDQH-

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cesariamente, el nivel al que llegĂł el imperialismo en el autofestejo, en el festejo de lo que se atribuye como misiĂłn el crear formas de vida superiores. La crĂ­tica a ese imperialismo debe trabajar en el sentido de que sus obras no eran superiores, que lo que se llamaba superioridad, universalidad, democracia eran grandes conceptos, y siguen siendo grandes conceptos, pero eran conceptos que encubrĂ­an una forma de dominaciĂłn que no se declaraba. El pesar del hombre blanco, a la Kipling, encubrĂ­a, sin embargo, formas econĂłmicas y polĂ­ticas de dominaciĂłn. Pero esas poesĂ­as eran grandes poesĂ­as. QuizĂĄs grandes poesĂ­as no equivocadas en el orden de la poiĂŠsis, pero profundamente equivocadas en el orden polĂ­tico. Por eso la tarea antimperialista o la tarea anticolonialista, que aĂşn persiste en nuestros pueblos, tiene que ser una tarea que indague mĂĄs hondamente tambiĂŠn en sus fuerzas literarias. Entre los imperialistas angustiados, estĂĄ la gran novela Pasaje a la India de Edward Forster, que tambiĂŠn forma parte de la historia del colonialismo britĂĄnico, pero desde su crĂ­tica sutil y aristocrĂĄtica. Hay una crĂ­tica aristocrĂĄtica al colonialismo en la novela de Forster, que pone en el centro de la vida colonial inglesa al intelectual que vive la vida de colonias, que puede ser funcionario colonial, que puede estar expatriado en las colonias como un personaje angustiado, desterrado, exiliado. Es el colonialista exiliado y si es muy exiliado, si su exilio es un exilio profundo, es menos anticolonialista. Esa es la tesis aristocrĂĄtica de algunos, de Virginia Woolf por ejemplo, respecto al imperialismo inglĂŠs. Es una sutil literatura que no critica a la polĂ­tica colonial inglesa, pero pone en el centro de atenciĂłn un personaje desgarrado que encuentra al otro


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presuntamente salvaje, que tiene otra religión, que sería inferior a él; encuentra lo contrario: encuentra un factor de fascinación, de seducción y de ahí proviene la profunda tesis de la cultura aristocrática inglesa, que es la seducción de la barbarie. Por eso el imperialismo, o el colonialismo inglés, no es una pieza simple del mundo contemporáneo, sino una pieza muy compleja del imperialismo contemporáneo. Toda la saga de Thomas Edward Lawrence, conocido también como Lawrence de Arabia, pertenece a los impulsos del )RUHLJQ2I¿FH en el mundo, pertenece a los impulsos del Servicio Secreto Británico. Pero no sólo pertenece a los impulsos del Servicio Secreto Británico, también hace parte de una alta literatura, pertenece a la arqueología,

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pertenece al desarrollo de las ciencias naturales en todo el mundo y pertenece a la construcción de una antropología del colonizador profundamente angustiado y, en el caso de Lawrence de Arabia, preparándose para tornarse el jefe expatriado de aquellos mismos a los que domina y, al mismo tiempo, quiere conducir a la liberación. Que Lawrence de Arabia haya sido un agente del )RUHLJQ2I¿FH es también uno de los hechos fundamentales del siglo XX, porque es uno de los grandes escritores de lengua inglesa del siglo XX. Es un renovador de la lengua inglesa con su libro Los siete pilares de la sabiduría y en ese sentido, y como parte del imperialismo británico, y como parte de los servicios secretos del imperialismo británico, siente la profunda tentación como jefe de aquellos a los que domina, como jefe de las tribus árabes en la Primera Guerra Mundial en lucha contra el ejército turco. Porta también el síntoma de los miembros de la aristocracia intelectual inglesa que acompañaron el imperialismo británico en su momento de esplendor, es decir, se hace la pregunta civilizatoria por excelencia: “¿Estará bien lo que estamos haciendo?”. Esa pregunta es la pregunta de Edward Forster, es la pregunta de Virginia Woolf, es la pregunta de Lawrence de Arabia; puede haber sido la pregunta de Shakespeare, o de Coleridge, y será la pregunta de Borges, también, que ha leído a todos estos autores. Esa pregunta se puede responder con la poética de Kipling: “Sí, está bien, es muy pesado lo que estamos haciendo, pero lo hacemos al servicio de la humanidad”. Es una respuesta falsa, pero una alta poética. La respuesta del otro sector de la aristocracia intelectual inglesa es: “quizás no esté bien lo que estamos haciendo pero, por las dudas, hagámoslo de una forma estetizada, hagá-


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moslo con las estÊticas mås relevantes de nuestro siglo, hagåmoslo con la estÊtica de la anulación del yo; establezcamos la voluntad de dominio de Inglaterra con una estÊtica que abandone toda posibilidad de considerarnos dominadores. Sufrimos con lo que hacemos. Sufrimos siendo imperialistas�. Esa es la doctrina aristocråtica del imperialismo. No nos burlamos de esto, no nos reímos de esto, no pensamos que esto sea un gesto absurdo, banal, de personas inadecuadas. Pensamos que estas personas exigen de nuestro antiimperialismo, de nuestro latinoamericanismo, esfuerzos intelectuales aún mås profundos, la adquisición de novedades teóricas aún mås explícitas y de todo el pensamiento ¿ORVy¿FRGHODKXPDQLGDG3RUTXHSDUDUHVSRQGHUDHVWHHVWLORLQWHOHF-

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tual del imperialismo –que ya no existe, el imperialismo de ahora es un imperialismo decadente, basta ver a los políticos ingleses hablando, por ejemplo Cameron, son muy toscos. Ya no estån sus grandes poetas, no existen mås. Basta ver un debate hoy de la Cåmara de los Lores, es un debate de una gran pobreza intelectual. Cualquiera de nuestros países, D~QFRQVXVGH¿FLHQFLDVSROtWLFDVTXHQRVRQSRFDVFXDOTXLHUGHEDWHHQ QXHVWURVSDUODPHQWRVTXHVRQPX\GH¿FLHQWHVWLHQHDYHFHVUDVJRVPXcho mås iluminados que el debate de la Cåmara de los Lores. Ya no estån estos grandes nombres, que quise pronunciar aquí para revelar hasta dónde este momento de la historia de la humanidad, de tanta trascendencia para nosotros, ha llegado a un punto tal que debemos ser nosotros los últimos quienes escribamos la historia de los imperios. De este, del que estoy hablando, y del otro, del que tendremos que seguir hablando. Ya VDEHPRVDFXiOPHUH¿HUR¹)XHURQQHFHVDULDVREUDVFRPRODGH6DUtre, la de Frantz Fanon, en los aùos 60, para ponerse al mismo nivel de crítica intelectual del imperialismo, por que el imperialismo britånico WXYRIXHUWHSUHVHQFLDHQODYLGDLQWHOHFWXDO¿ORVy¿FD La historia de Argentina estå absolutamente unida a la historia del Imperio Britånico. Hay una línea interna de referencia en la historia argentina de la presencia de Inglaterra a travÊs de operaciones sigilosas, secretas, o explícitas. La cultura inglesa es una parte fundadora de la cultura argentina. Para muchos autores relevantes de la historia de la cultura argentina, a la literatura argentina la fundaron los viajeros ingleses. ¿QuiÊnes eran estos viajeros ingleses del siglo XIX? Los viajeros ingleses son viajeros muy cÊlebres en la historia argentina, algunos sólo conocidos en la Argentina, como los hermanos Robertson, Woodbine


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Parish, que son grandes escritores y son comerciantes; son los que vienen detrĂĄs del capitĂĄn del navĂ­o, son los que vienen detrĂĄs de la infanterĂ­a de marina inglesa. O son los que vienen sin infanterĂ­a de marina, con la literatura inglesa, que es la literatura de los grandes naturalistas. Hay un viajero de la Argentina, que es muy conocido (porque tambiĂŠn es un viajero del Brasil): Darwin, que pasa por Rio Grande do Sul a la Argentina y pasa a las Malvinas seis meses antes de la ocupaciĂłn britĂĄnica en 1833. Este hecho nos interesa. Darwin, como es sabido, hizo una de las obras de las ciencias naturales de mayor relevancia en el siglo

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XIX. Su idea de que el origen del hombre hay que buscarlo en la evolución, y de que la construcción de las sociedades hay que buscarla en la lucha por la existencia, son ideas centrales del pensamiento evolucionisWDSRVLWLYLVWD0XFKDVYHFHVD¿UPDGRWDQWDVRWUDVYHFHVUHIXWDGRKL]R temblar a las grandes religiones mundiales; los espiritualistas de todos los tiempos, sean religiosos o no, se han dedicado a refutar a Darwin. Y aún Darwin sigue causando problemas. La idea de que el origen de las especies surge de la naturaleza, a travÊs de millones de aùos de trato con el material que ofrece la naturaleza –siendo el hombre parte de la naturaleza, estableciendo su relación con ella a travÊs de la lucha– es una idea central del pensamiento de Darwin. Hay una teoría estÊtica muy cruel en Darwin: el canto de los påjaros, las voces de los animales, que Êl festeja como pocos, sólo consiguen esa perfección que tienen a travÊs GHVLJORVGHVDFUL¿FDUDOPiVGpELO(OFDQWRGHXQSiMDURHVPiVEHOOR porque pudo sobrevivir en la lucha por la vida. De modo que en la tesis de Darwin hay siempre una idea artística: sobrevive el mås poderoso y es Êste el que crea las formas del arte. Pero no podemos hacer una continuidad ahí. No podemos decir HVWRWHQHPRVTXHVDEHUGLIHUHQFLDUHQWUHXQHVWLORFLHQWt¿FR QRVJXVWH o no, Darwin sigue siendo motivo de discusión) y las operaciones de ocupación militar y comercial del imperio. Tenemos que saber diferenciarlas. Digo esto porque he leído, entre los tantos artículos que se publican en Buenos Aires, que Darwin estuvo, sospechosamente, unos meses antes de la invasión en el famoso viaje... Cuando pasa por la pampa argentina recibe un salvoconducto, ¿y quiÊn le da ese salvoconducto?: el seùor de las pampas, el hombre poderoso de las pampas, el gobernante de aquel momento, Juan Manuel de Rosas, que es el centro de una viva polÊmica en la Argentina. El cruce de Darwin con Rosas es un episodio


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central de la historia de las ciencias naturales y de la historia polĂ­tica argentina. Cuando muere Marx, en Londres en 1882, su amigo Engels hace un famoso discurso en el cementerio de Highgate. Dice: “acaba de morir el segundo gran cerebro del siglo XIXâ€?. El primero era Darwin y el segundo era Marx. Hay una tentaciĂłn darwinista en ciertos aspectos del marxismo, asĂ­ como hay marxistas antidarwinistas. Digo esto para que se entienda la complejidad del problema de Darwin y de las ciencias naturales: Âżes la antropologĂ­a contemporĂĄnea, es la paleontologĂ­a contemporĂĄnea, son las ciencias naturales contemporĂĄneas, parte del Imperio BritĂĄnico, o no? Si decidiĂŠramos que lo son, serĂ­a un inadecuado acto de reducciĂłn de las ciencias del hombre, las ciencias de la naturaleza, a meros actos de ocupaciĂłn. Si decidimos que no, serĂ­amos tambiĂŠn demasiado ingenuos, al no ver el grandioso espectĂĄculo de las ciencias

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expandiÊndose al conjuro de las acciones militares. No seríamos adecuados historiadores, capaces de comprender el siglo XIX, si no viÊramos algún tipo de relación, no causalista, no determinada groseramente. Por el contrario, hay que seùalar que si el imperio WXYRVXVYXHOWDVWDPELpQSURWHJLy\DPSDUyDVXVJUDQGHVFLHQWt¿FRV Por eso pedirle a Inglaterra que se siente en la mesa de negociaciones no es una tarea simple, porque en la memoria inglesa estån todos estos episodios. Aunque la clase política britånica sea la mås tosca en toda su historia o, quizås, sea lo que mås se parezca a las Êpocas profundas de violencia que formaron el imperio; la saga de las exquisiteces, de las DVRPEURVDVHQVRxDFLRQHVGHVXFXOWXUDOLWHUDULD\FLHQWt¿FD DSHVDUGH que esto ya casi no existe mås) impone que, de todas maneras, conocer esta historia sea fundamental, tambiÊn para Brasil, aunque mås para la Argentina, porque en la Argentina hay una línea interna de la presencia britånica que llevó a que en el siglo XX, algunos gobernantes dijeran que, como la India, la Argentina tambiÊn es una joya preciada de la corona inglesa, debido al comercio, a los ferrocarriles ingleses, a las compaùías de electricidad inglesas. La Argentina tenía todos sus servicios båsicos en manos de los ingleses, la cultura ferroviaria argentina es una cultura inglesa y la cultura ferroviaria no es cualquier cultura, la cultura ferroviaria todavía tiene algo del Imperio Britånico. Es la cultura ferroviaria que estå en la India, estå en países africanos. Es la cultura ferroviaria que inventa Inglaterra. Inglaterra inventa el ferrocarril, y el ferrocarril comporta una cultura de


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fundación de pueblos, de trabajo disciplinado, es una cultura del trabajo industrial. El ferrocarril resume toda la historia del siglo XIX: el carbón, el hierro, el transporte de mercancías. De modo que la cultura inglesa –y desmintiendo un poco el pronóstico de Carl Schmitt, de que Inglaterra es el mar así como Alemania es la tierra, y eso para Carl Schmitt tiene profundas implicancias en la guerra del siglo XX– tambiÊn Inglaterra inventa el ferrocarril. Es la tierra, fundamental para el mar, porque para la división del trabajo internacional de Inglaterra el ferrocarril era tan importante como los barcos. Y la Argentina, como Brasil, no tenía ni barcos, ni ferrocarriles propios. El imperio ya era un imperio transmilitar: el tejido militar del imperio siempre subyacía en el interior del WUD]DGRIHUURYLDULRHQHOLWLQHUDULRGHORVEDUFRVHQORVIULJRUt¿FRV

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(OIULJRUt¿FRHVPX\LQWHUHVDQWHSRUTXHORVIULJRUt¿FRVVRQEDUFRVKD\ EDUFRVIULJRUt¿FRV\IULJRUt¿FRVTXHVRQEDUFRV\ODFXOWXUDDUJHQWLQDHV HOIHUURFDUULOLQJOpVHOIULJRUt¿FRLQJOpVORVEDUFRVLQJOHVHV La independencia argentina tambiÊn tiene mucho de presencia britånica, la independencia argentina no puede escribirse sin la acción del )RUHLJQRI¿FH. El )RUHLJQRI¿FH es una presencia fundamental en el siglo XIX y en el siglo XX: todas las operaciones que lord Stanford, entre Río de Janeiro y el Río de la Plata, ayudado por la corte portuguesa, son parte inherente de la historia argentina, imposibles de escindir. Es imposible pensarse la Argentina, la independencia argentina, sin la presencia inglesa. La independencia argentina se hace con la aceptación de Gran Bretaùa, despuÊs de haber intentado Gran Bretaùa invadir Buenos Aires en dos oportunidades. Muy pronto comprende Inglaterra que el camino militar no era el mås adecuado. Lo comprenden para las ciudades centrales y para el territorio, le pedirån a los primeros patriotas argentinos que no se independicen de Espaùa de una manera formal, de ahí que los primeros ejÊrcitos patriotas siguen actuando en nombre del Rey de Espaùa, Fernando VII, que estå preso por Napoleón. ¿Por quÊ existe esta situación? Porque si los primeros patriotas argentinos hubieran declarado de inmediato la independencia, Inglaterra –que estaba aliada con Espaùa en contra de Napoleón– hubiera tenido que actuar a pedido de Espaùa en contra de aquellos patriotas, de aquellos países donde estaban las materias primas que efectivamente llegaban a interesarle al reino de Inglaterra. Esta situación hace muy compleja la independencia argentina, y a


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partir de ahĂ­, como existe esta situaciĂłn (que no existe en Brasil, en la historia brasileĂąa no existe esta misma situaciĂłn), se desarrolla en Argentina una lĂ­nea probritĂĄnica en todos sus polĂ­ticos, sean de izquierda o de derecha, y una lĂ­nea nacionalista antibritĂĄnica de muchos polĂ­ticos e intelectuales, sean de derecha o de izquierda. Nacionalismo antibritĂĄnico de derecha y de izquierda. Esas lĂ­neas polĂ­ticas en la Argentina son actuales y estĂĄn en pleno debate en relaciĂłn a las Malvinas. Cuando los ingleses invaden Buenos Aires (estamos hablando del aĂąo 1806 o 1807), ODĂ&#x20AC;RWDLQYDVRUDYLHQHGHOVXUGHĂ&#x2C6;IULFD<HVXQDĂ&#x20AC;RWDPX\LPSRUWDQWH son diez mil soldados en una ciudad que es prĂĄcticamente una factorĂ­a, TXHWHQtDPX\SRFRVPiVKDELWDQWHVTXHODĂ&#x20AC;RWD7DOYH]WHQGUtDHOWULSOH o el cuĂĄdruple de habitantes que los soldados ingleses que la invaden y la conquistan. La gesta de la reconquista de Buenos Aires de algĂşn modo

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funda a la Argentina, antes de su independencia. Y los ingleses no vienen sĂłlo con el ejĂŠrcito, los ingleses no vienen sĂłlo con la armada. La armada inglesa ya en ese momento era la mĂĄs importante del mundo, puesto que habĂ­a ocurrido la batalla de Trafalgar GRQGHKDEtDQGHUURWDGRGHÂżQLWLYDPHQWHDODDUPDGDHVSDxRODTXHKDVWD ese momento era la mĂĄs importante. El almirante Nelson, que muere en la batalla de Trafalgar, es el gran hĂŠroe de la marina inglesa. Para los nacionalistas argentinos siempre fue el gran hĂŠroe de la marina argentina, tambiĂŠn, el almirante Nelson. Los nacionalistas argentinos se burlan de los marinos liberales argentinos diciendo que en la calza de la infanterĂ­a de marina argentina llevan una franja negra, que sigue siendo el luto por la muerte del almirante Nelson (humorada de la polĂ­tica argentina). Inglaterra viene tambiĂŠn con una imprenta, y los clĂĄsicos no se mueven sin imprenta. ÂżRecuerdan la primera gran escena de El siglo de las luces de Carpentier? Cuando desembarca la revoluciĂłn francesa en el Caribe y desde la costa se ven las sombras de una guillotina y de una imprenta. La revoluciĂłn francesa: la imprenta y la guillotina, dejo esa interpretaciĂłn de Carpentier. El ejĂŠrcito inglĂŠs que ocupa Buenos Aires viene con una gran imprenta que no consigue establecer en Buenos Aires, se establece en Montevideo. La relaciĂłn triangular Montevideo-Buenos Aires-Malvinas, hasta hoy nos demarca, porque la relaciĂłn de Malvinas siempre fue con Montevideo, estando velada a Buenos Aires, y mucho mĂĄs problemĂĄtica es la relaciĂłn Chile-Argentina-Montevideo-Malvinas. Por eso


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deshacer este nudo es una cuestiĂłn latinoamericana de suma urgencia. En esa imprenta se editĂł un periĂłdico formidable â&#x20AC;&#x201C;llamado La estrella del sur, The southern starâ&#x20AC;&#x201C; que imprimiĂł doce nĂşmeros. Era un periĂłdico de guerra, el periĂłdico de la task force inglesa. Ese periĂłdico era un periĂłdico que promovĂ­a la libertad de culto, la libertad de comercio, es un periĂłdico ideolĂłgico de altĂ­sima calidad. Porque Inglaterra no iba sĂłlo con el ejĂŠrcito, iba con las letras. Y es un periĂłdico de grandes poesĂ­as, poesĂ­as al almirante Nelson que acababa de morir en la batalla de Trafalgar. Y eran poesĂ­as de no escaso interĂŠs. De modo que el Imperio BritĂĄnico nuevamente aparece, no con sus toscos polĂ­ticos de hoy, sino que aparece con almirantes y poetas, y con grandes periodistas, que muchas veces son nativos del lugar.

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QuerĂ­an que la vida del monopolio espaĂąol acabase, en nombre de la libertad de culto, de la libertad de comercio, de todas las libertades. Entonces el Imperio InglĂŠs es una profunda paradoja que es la atracciĂłn por la libertad en nombre de la dominaciĂłn. Es un enigma de la humanidad ese, y los pueblos, nuestros pueblos (que antes llamaban del tercer mundo: hoy tenemos que buscar otro nombre, que tenga la misma fuerza), tenemos que deshacer esta paradoja de que en nombre de la libertad se establezca la dominaciĂłn, porque tambiĂŠn queremos todas las formas de libertad y sabemos que la libertad se vincula a necesidades y estĂĄ, como quien dirĂ­a, lacrada de necesidades. Entonces el Imperio InglĂŠs no es una construcciĂłn caprichosa, pero sĂ­ una construcciĂłn anĂłmala que desbarata, succiona, impide y prohĂ­be libertades en nombre de libertades. De ahĂ­ la complejidad del tema Malvinas tambiĂŠn en la Argentina, donde se cruza la tradiciĂłn nacionalista con la tradiciĂłn liberal, que hoy estĂĄn en pleno debate. Antes de terminar esta charla y decir cuĂĄl es ese debate â&#x20AC;&#x201C;que es muy importante, tambiĂŠn lo es para Brasilâ&#x20AC;&#x201C;, quisiera decir que las Malvinas siempre fueron importantes, incluso el debate por su nombre. Hay FDUWDVJHRJUiÂżFDVLQJOHVDVVREUHWRGRIUDQFHVDVTXHGLFHQÂł)DONODQGV o Malvinasâ&#x20AC;?. Las cartas argentinas del siglo XIX dicen â&#x20AC;&#x153;Malvinas o Falklandsâ&#x20AC;?, hay cierta indecisiĂłn en el nombre, y algunas cartas inglesas tambiĂŠn dicen â&#x20AC;&#x153;Malvinasâ&#x20AC;?. Hoy eso no serĂ­a posible en el estado en que estĂĄ la cuestiĂłn: o es â&#x20AC;&#x153;Falklandsâ&#x20AC;? o es â&#x20AC;&#x153;Malvinasâ&#x20AC;?. El mundo binario que establecen las Malvinas, ligado al nombre: hay aquĂ­ una cuestiĂłn ELQDULDTXHQRFDEUtDHQODVFDUWDVJHRJUiÂżFDVGHOVLJOR;,;(VWRWLHQH


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varias razones, y una de ellas es la presencia de Francia en la historia de las Malvinas. El nombre de las Malvinas es un nombre francĂŠs, no es ni inglĂŠs ni espaĂąol, es un nombre francĂŠs. AdemĂĄs, las Malvinas fueron descubiertas por los holandeses. AsĂ­ como se establecieron en Brasil, o en Pernambuco, y cĂŠlebres artistas brasileĂąos llevan el nombre de Holanda, como el presidente francĂŠs. Holanda estĂĄ en muchos lugares, menos en los territorios de los nobles cĂŠlebres de Brasil o de Francia. La primera posiciĂłn de las Malvinas importante fue francesa y el primer nombre importante que tuvieron las Malvinas fue holandĂŠs: â&#x20AC;&#x153;Islas Sebaldinasâ&#x20AC;? se llamaban, por el marino holandĂŠs que dicen haberla descubierto, pero no se sabe bien quien descubre las Malvinas. Estamos hablando de 1620, 1630, estamos hablan-

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do de las primeras dĂŠcadas del siglo XVII. Las â&#x20AC;&#x153;Islas Sebaldinasâ&#x20AC;? no se llaman mĂĄs â&#x20AC;&#x153;Sebaldinasâ&#x20AC;?, pero podrĂ­an ser llamadas â&#x20AC;&#x153;Sebaldinasâ&#x20AC;? si Holanda hubiera sido Inglaterra. Holanda no pudo ser Inglaterra, y quiso ser Inglaterra. Porque de alguna manera se tuvo que resignar a un destino continental, Holanda. No pudo tener destino marĂ­timo, como lo tuvo, y lo tiene, Inglaterra. El primer establecimiento lo funda un naturalista; siempre las Malvinas estĂĄn ligadas a los estudios de los naturalistas, ingleses o franceses. Y en el caso de este naturalista francĂŠs que funda el primer puerto de las Malvinas, es un marino y naturalista de la zona francesa del norte, de Saint-Malo. De ahĂ­ viene Malvinas, o sea el nombre proviene de un pueblo marĂ­timo francĂŠs â&#x20AC;&#x201C;de Saint-Maloâ&#x20AC;&#x201C;, que estĂĄ al norte de Francia. Es una pequeĂąa localidad portuaria de Francia y Bougainville, a quien PHHVWR\UHÂżULHQGRSURYLHQHGH6DLQW0DORHVHOSULPHURTXHH[SORra las Malvinas como naturalista, como comerciante, como polĂ­tico y como marino. Y de esta exploraciĂłn sale un gran libro de memorias de su recorrido por el mundo, que tiene casi la misma importancia que las memorias de Humboldt sobre AmĂŠrica Latina. Y son los naturalistas mĂĄs interesantes, Humboldt, Bougainville..., que dejan sus nombres en ODVĂ&#x20AC;RUHVHQODVSODQWDVHQORVDQLPDOHV&RPR&ROyQOHGDQRPEUHV religiosos al nuevo continente, le pone nombres vinculados a la religiĂłn catĂłlica, a las islas que descubre, igual al nombre de la Cruz... los frailes naturalistas van en nombre de la razĂłn y le ponen nombres latinos, no cristianos, al continente. De ahĂ­ que los nombres latinos, no cristianos, TXHWLHQHQQXHVWURVDQLPDOHVQXHVWUDVĂ&#x20AC;RUHVYLHQHQGHHVRVQDWXUDOLV-


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tas: Humboldt, o Bonpland que actuĂł mĂĄs en Argentina. Humboldt mĂĄs en el norte de AmĂŠrica, Humboldt es uno de los grandes maestros de BolĂ­var. BolĂ­var no pudo tener relaciĂłn con Marx, que no lo apreciaba, al contrario, lo cuestionaba mucho. En cambio Humboldt, el gran naturalista alemĂĄn, apreciaba mucho a BolĂ­var, y BolĂ­var apreciaba mucho a Humboldt, ahĂ­ tenemos una veta muy importante para pensar la historia latinoamericana. El bolivarismo, el primer bolivarismo tiene mĂĄs que ver con las ciencias naturales romĂĄnticas que con las primeras ideas de la revoluciĂłn social, porque Marx despreciaba a BolĂ­var, y Humboldt se entrevista con BolĂ­var, sube al Chimborazo, BolĂ­var sube detrĂĄs de Humboldt al Chimborazo y escribe tambiĂŠn las memorias poĂŠticas de su ascenso al Chimborazo, el gran volcĂĄn de Ecuador. ÂżPor quĂŠ el volcĂĄn? Porque la teorĂ­a de la naturaleza de Humboldt es volcĂĄnica y la teorĂ­a

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polĂ­tico-militar de BolĂ­var â&#x20AC;&#x201C;no la de San MartĂ­n, la de BolĂ­varâ&#x20AC;&#x201C; es tambiĂŠn volcĂĄnica: son vulcanistas, no neptunistas, o sea la naturaleza vista como forma del agua, la ven como parte del fuego, de ahĂ­ el romanticismo y la teorĂ­a naturalista de Humboldt, que la hereda BolĂ­var. Y de ahĂ­ el modo en que el bolivarismo tiene interpretaciones de derecha y de izquierda, tambiĂŠn tiene mucha mĂĄs actividad en el continente que la gesta sanmartiniana del ejĂŠrcito argentino del siglo XIX. Las razones se encuentran menos en la polĂ­tica militar que en las visiones sobre la naturaleza. Bougainville no tuvo mucha suerte con los nombres pero dejĂł su QRPEUHHQXQDĂ&#x20AC;RUODEXJDQYLOLDTXHHVOD6DQWD5LWDHQQXHVWURVSDtses la llaman Santa Rita y algunos paĂ­ses la llaman buganvilia. Y este KRPEUHTXHSXVRVXQRPEUHHQXQDĂ&#x20AC;RUFHGHHQQRPEUHGH)UDQFLDODV islas a EspaĂąa que las reclama siempre porque, de acuerdo al Tratado de Tordesillas, las Malvinas estĂĄn recostadas sobre territorio continental del Virreinato del RĂ­o de la Plata. Entonces Bougainville acepta los DUJXPHQWRVGH(VSDxD\WUDWDGRVÂżUPDGRVHQ/RQGUHVHQ0DGULG\HQ Buenos Aires, concede abandonar el puerto San LuĂ­s, no, Puerto LuĂ­s â&#x20AC;&#x201C;el nombre de LuĂ­s XVâ&#x20AC;&#x201C; el rey de Francia. Por eso cuando estalla la guerra que hacen los militares argentinos a Inglaterra en 1982, a Miterrand un asesor rĂĄpidamente va y le informa: â&#x20AC;&#x153;monsieur le prĂŠsident hay guerra en el sur del AtlĂĄntico, los argentinos invadieron las Malvinasâ&#x20AC;?, y Miterrand pregunta: â&#x20AC;&#x153;ÂżquĂŠ es eso de las Malvinas?â&#x20AC;?. [El asesor] va y averigua, y al rato viene â&#x20AC;&#x201C;esto debe ser una â&#x20AC;&#x153;piadaâ&#x20AC;? â&#x20AC;&#x201C;, al rato viene el asesor y dice: â&#x20AC;&#x153;monsieur le prĂŠsident les Malvines sont françaisesâ&#x20AC;?.


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Esta era la averiguaciĂłn que habĂ­a hecho el asesor, y no dejaba de tener razĂłn desde el punto de vista de las luchas dinĂĄsticas. Hoy las dinastĂ­as son petroleras: British Petroleum, Exxon, Chevron. Por eso es tan importante la cuestiĂłn petrolĂ­fera; son imperios dinĂĄsticos, los imperios petrolĂ­feros. La British Petroleum hereda del Imperio BritĂĄnico la misma mirada del imperio. La British Petroleum se llamaba antes Oil IrĂĄn (no sĂŠ si el cĂłnsul sabrĂ­a decirnos), despuĂŠs cambia su nombre para British Petroleum. El gobierno de IrĂĄn en 1953, encabezado por el ministro Mosaddeq (era un Primer Ministro laico), cae por la cuestiĂłn petrolĂ­fera. Y en Argentina tambiĂŠn caen gobiernos por la cuestiĂłn petrolĂ­fera. La relaciĂłn entre Francia, Holanda, Inglaterra y EspaĂąa sobre las

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Malvinas, hace de las Malvinas un lugar estratĂŠgico en relaciĂłn a la mirada sobre la AntĂĄrtida, al petrĂłleo, a la pesca. Y en relaciĂłn a la pesca lo es desde el siglo XVII en adelante: pesca de focas, pesca de pequeĂąos pescados. En relaciĂłn al petrĂłleo lo es en el siglo XX, pero nunca las Malvinas dejaron de ser importantes. No eran islas desconocidas, eran islas sobre las cuales los grandes imperios de la ĂŠpoca â&#x20AC;&#x201C;encabezados por Gran BretaĂąa, que es la que se queda con las Malvinasâ&#x20AC;&#x201C; disputan permanentemente, y cuando el gobierno argentino se establece como tal, heredando los derechos de EspaĂąa, los reclamos fueron constantes. *RELHUQRVGHGLVWLQWDtQGROHÂŤHOGH5RVDVTXHPHQFLRQpTXHHUDXQJRbierno de caracterĂ­sticas duras y con cierta simpatĂ­a hacia Gran BretaĂąa, a pesar de encabezar grandes resistencias militares hacia Gran BretaĂąa, personalmente Rosas tenĂ­a cierta amistad con el Primer Ministro de Gran BretaĂąa, sobre todo con Lord Palmerston. Sin embargo, encabeza una gran gesta militar que es el impedimento de la avanzada inglesa sobre el RĂ­o ParanĂĄ implicando la conquista de LatinoamĂŠrica prĂĄcticamente: era entrar al interior del continente, no a la costa. Era mĂĄs importante que tomar las Malvinas, tomar el ParanĂĄ. Es decir con la llegada hasta San Pablo perfectamente, los brasileros no pueden quedarse tranquilos con esto. Y en ese momento hay importantes batallas marĂ­timas, pero de UtRPDUtWLPDVĂ&#x20AC;XYLDOHV,QJODWHUUD\)UDQFLDFROLJDGDV En ese sentido los reclamos tanto del gobierno Rosas como los gobiernos liberales posteriores; que derrocan a Rosas con el auxilio invalorable de otro imperio, el Imperio BrasileĂąo, sin el cual no hubiera caĂ­do Rosas. La acciĂłn militar contra Rosas tiene la importante participaciĂłn


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del ejĂŠrcito de Duque de Caxias, y es el ejĂŠrcito que posteriormente se coligarĂĄ con el ejĂŠrcito argentino en la guerra contra Paraguay. Sin este ejĂŠrcito difĂ­cilmente hubiera caĂ­do Rosas. Se puede entender la caĂ­da del gobierno de Rosas de muchas maneras. Esta es una discusiĂłn abierta, pero lo cierto es que los gobernantes posteriores tambiĂŠn reclaman por las Malvinas. Y esto es lo que la hace una causa de todas las corrientes ideolĂłgicas. Los grandes gobernantes que derrocan a Rosas, y posteriores: Sarmiento, Mitre, los socialistas... todos reclaman a las Malvinas y es un punto de convergencia de todas las fuerzas ideolĂłgicas de Argentina. Un lugar difĂ­cil de convergencia, porque ahĂ­ tambiĂŠn converge una LGHRORJtDRÂżFLDOGHOHMpUFLWRDUJHQWLQRTXHQRHVXQD~QLFDLGHRORJtD en el ejĂŠrcito argentino antes del terrorismo militar de los aĂąos 1970 convivĂ­an las ideologĂ­as nacionalistas y liberales.

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Los liberales argentinos han escrito grandes libros mencionando y demostrando los derechos argentinos sobre las Malvinas. El mĂĄximo libro de la tradiciĂłn liberal lo escribe un francĂŠs, Paul Groussac, que era un francĂŠs argentinizado. Director durante 40 aĂąos de la Biblioteca Nacional; cargo que paradĂłjicamente, entiendan la paradoja, ahora yo ocupo. La Biblioteca Nacional de la Argentina son dos grandes nombres: Paul Groussac y Jorge Luis Borges. Y ambos intervienen muy explĂ­citamente en la cuestiĂłn de las Malvinas. Si me permiten tambiĂŠn la humorada, puedo decir que estĂĄn interviniendo los dos como estoy interviniendo yo tambiĂŠn acĂĄ (RaĂşl sabrĂĄ comprender mi ĂĄcido humor. No, no es ĂĄcido humor, es escĂŠptico humor). Paul Groussac escribe un libro en francĂŠs con la mĂĄs interesante documentaciĂłn que hay. Algunas de las partes que intentĂŠ exponer acĂĄ, Bougainville... y lo demĂĄs, son los temas de Paul Groussac. Borges escribe el poema â&#x20AC;&#x153;Juan LĂłpez y John Wardâ&#x20AC;? despuĂŠs de la guerra de 1982. Si me permiten que queden hilos o ÂżRVQRDU de toda la exposiciĂłn, porque no voy a poder retomar todos los temas que estuve insinuando, voy a decir algo muy breve sobre el debate entre liberales y nacionalistas en la Argentina despuĂŠs de la guerra. La guerra introduce una situaciĂłn nueva y de difĂ­cil interpretaciĂłn porque el gobierno militar que toma la decisiĂłn de la guerra, es el gobierno militar que tortura, que hace desaparecer los cuerpos en el mar, es una dictadura terrorista, cuya comprensiĂłn aĂşn desafĂ­a a la vida intelectual de Argentina. ÂżCĂłmo se puede convertir a un nĂşcleo imporWDQWHGHRÂżFLDOHVGHODV)XHU]DV$UPDGDVHQDVHVLQRV"(VHHVXQWHPD


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de trabajo para la vida intelectual: no es un enigma, pero no es fĂĄcil convertirse en asesino, no es fĂĄcil convertir a los ejĂŠrcitos en maquinarias asesinas. QuizĂĄ sea fĂĄcil para los imperialismos (basta ver la acciĂłn de los ejĂŠrcitos de ocupaciĂłn de Irak, en Libia), pero para nuestros ejĂŠrciWRVHOSODQVLVWHPiWLFRGHGHVDSDULFLyQGHFXHUSRVÂŤQRHUDIiFLOWRPDU esa decisiĂłn, porque habĂ­a violencia. Por supuesto que se torturaba, por supuesto que habĂ­a operaciones clandestinas de eliminaciĂłn de los divergentes, de los contestatarios, de los disidentes, por supuesto. Y todo HVRHUDQDFFLRQHVFULPLQDOHVSHURHOFULPHQVLVWHPiWLFR\SODQLÂżFDGR era por primera vez que ocurrĂ­a en un paĂ­s latinoamericano. Los intentos de implantar ese mismo sistema en Brasil, de algĂşn modo fracasaron. Y no es que las Fuerzas Armadas brasileĂąas no hubieran tenido proyectos

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en esa lĂ­nea. Por muchas razones, que no se descartan a ninguno de ustedes, los planes en las Fuerzas Armadas brasileĂąas, de la misma Ă­ndole que las Fuerzas Armadas argentinas, siempre se frustraron en gran PHGLGDSRUODRSRVLFLyQGHDOWRVRÂżFLDOHVGHOPLVPRHMpUFLWREUDVLOHxR que querĂ­a reprimir a los insurgentes sin utilizar las hipĂłtesis Ăşltimas del poder del Estado, es decir, la muerte en la clandestinidad del disidente, ODRSHUDFLyQVREUHORVGHVDSDUHFLGRVTXHHVOD~OWLPDUHĂ&#x20AC;H[LyQTXHKDFH un Estado sobre el cuerpo de las personas. Es una operaciĂłn de Ă­ndole muy extrema, es decir matar al opositor y hacer desaparecer su cuerpo, es una operaciĂłn de una abstracciĂłn que hace de la crueldad Ăşltima una forma de gobierno. El ejĂŠrcito brasileĂąo tuvo una discusiĂłn interna en torno a eso y no triunfĂł el sector que lo proponĂ­a. En el ejĂŠrcito argentino no hubo ninguna discusiĂłn interna y en el primer momento del golpe VHSURGXMRHVDSROtWLFDTXHD~QKR\HVGLItFLOGHGHÂżQLU8QDSROtWLFDTXH ni siquiera se parece a ninguna otra en el mundo. Compararla con el nazismo es posible porque hubo campos de concentraciĂłn, pero hubo otras tecnologĂ­as, estaba el mar, tiraban cuerpos al mar o al RĂ­o de la Plata que es una parte de rĂ­o y de mar. Cuando ese ejĂŠrcito va a las Malvinas, estĂĄ intentando introducirse en la gran corriente sentimental y emotiva que implica la cuestiĂłn Malvinas en Argentina. Esa cuestiĂłn sentimental y emotiva estĂĄ en discusiĂłn en Argentina por sectores ultraliberales que pretenden una Argentina despojada de esa cuestiĂłn sentimental. Quiero decir personalmente que mi posiciĂłn al respecto es una Argentina no despojada de la cuestiĂłn sentimental, pero sostenida tambiĂŠn en las mejores argumentaciones, en las mejores documentaciones, en las mejores elaboraciones y anĂĄlisis ĂŠticas universalistas. Bueno, ese ejĂŠr-


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cito que va a las Malvinas tiene un primer muerto, que es el capitĂĄn de la armada, Giachino, era un militar torturador de la Armada argentina. FĂ­jense, es un tema tĂ­picamente borgiano, el tema del traidor y del hĂŠroe, entonces esto sacude al pensamiento nacionalista y al pensamiento liberal, y a cualquier matiz que haya entre ellos. Los matices mĂĄs humanistas (no es un humanismo argentino), porque el capitĂĄn Giachino es un hĂŠroe para ciertos sectores que cultivan con ciertos secretos el heroĂ­smo del primer muerto argentino en las Malvinas; y la posiciĂłn liberal, que hoy es minoritaria en Argentina, y que se expresa en algunos diarios importantes de la tradiciĂłn liberal argentina, como el diario La NaciĂłn. EstĂĄn mal encaradas las negociaciones argentinas con Gran BretaĂąa, precisamente porque cualquier intento de desconocer los derechos de la pobla-

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ciĂłn â&#x20AC;&#x201C;ahora tambiĂŠn puedo hablar un poquito sobre estoâ&#x20AC;&#x201C;, la poblaciĂłn inglesa de las Malvinas, implicarĂ­a traer toda la cuestiĂłn al momento en que muere el capitĂĄn Giachino, es decir, un torturador del ejĂŠrcito argentino que muere en frente a la casa de Gobierno en las Malvinas, frente a la casa del Gobernador. Y en ese sentido no hay ninguna posibilidad para la Argentina de escapar de la instauraciĂłn del heroĂ­smo del capitĂĄn Giachino, si se abandona el estilo de negociaciĂłn que estĂĄ teniendo el gobierno argentino, que es un estilo de negociaciĂłn de fuerte reclamaFLyQDODGLFWDGXUDPLOLWDU\GHSURIXQGRSDFLÂżVPRQRVRORSRUTXHHV profundo en las condiciones de los polĂ­ticos argentinos actuales sino porque ademĂĄs no hay otra posibilidad. Pero la posiciĂłn liberal extrema, que curiosamente estĂĄ conducida menos por polĂ­ticos argentinos que por crĂ­ticos literarios argentinos, es que hay que abandonar cualquier tipo de negociaciĂłn con Gran BretaĂąa que no incluya los derechos primigenios de los pobladores. El abandono total de la cuestiĂłn del imperialismo y el colonialismo, eso supone prĂĄcticamente construir una naciĂłn llamada Malvinas a orilla de la Argentina. Ese razonamiento conduce a una apologĂ­a del Imperio BritĂĄnico indirectamente. Pero tampoco tenemos que dejar de comprender este pensamiento, es un pensamiento horrorizado frente a la atrocidad de que el capitĂĄn Giachino, torturador, sea un hĂŠroe. Esta posibilidad ha tenido cierta expresiĂłn en un acto que se hizo en Ushuaia, la Ăşltima gran ciudad en el mapa latinoamericano, la ciudad mĂĄs extrema de la Argentina que estĂĄ frente a las Malvinas. Ese acto fue encabezado por la Presidenta de la RepĂşblica, y el ComitĂŠ Central de Veteranos de Guerra es encargado de hacer el discurso anterior al de la presidenta. El presidente de la comisiĂłn de Veteranos de Guerra de


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la Argentina hizo una apología al capitán Giachino delante de la Presidenta. Este es un tema delicadísimo, y la Presidenta de la República no respondió en ese momento, hizo un discurso totalmente diferente, antibelicista, y en él descartaba implícitamente cualquier posibilidad de declarar héroe nacional al capitán Giachino; y hace tres días cambió al representante del comité de excombatientes de veteranos de guerra y colocó a un joven conscripto de aquella época, un joven soldado que hacía el servicio militar obligatorio y que tiene una posición totalmente adversa a la que expresó el anterior representante de los excombatientes. Esta es una discusión terrible en Argentina, una discusión en el alma nacional... Hoy la Presidenta, no habiendo dicho nada en el discurso, responde unos días después cambiando a este personaje por otro

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que tiene una interpretación totalmente diferente, es decir, el mencionado capitán de la Armada no es un héroe de guerra, es un torturador. Pero ya mismo, en la propia exposición de este dilema, se ve cuál es la disyuntiva que atraviesa Argentina; es una disyuntiva donde el espíritu liberal universalista y cosmopolita dice “no toquemos más el tema; los habitantes de las Malvinas tienen derecho a la autodeterminación”. Y la posición del gobierno, que no es una posición ni de nacionalismo abstracto ni está dispuesta a conceder ningún heroísmo a ningún torturador, que, al mismo tiempo, lee la coyuntura mundial donde existen fuerzas internacionales de carácter colonialista e imperialista, lo dice con diversos lenguajes. No es el lenguaje del texto que mencioné al comienzo de esta exposición, de León Trotsky, no es este lenguaje; no es un lenguaje fácilmente ubicable, como no lo sea en los parámetros de un constitucionalismo patriótico, un patriotismo constitucional, una nación capaz de recuperar sus raíces humanísticas, que son muchas, junto a sus raíces de violencia y de terror, que no son pocas también. Entonces, en ese sentido, está la cuestión de los habitantes de las Malvinas: ¿quiénes habitan las Malvinas?; porque las Malvinas tienen un núcleo pequeño, como decía el cónsul, un núcleo de pobladores mayoritariamente de origen inglés, de religión anglicana y de una cierta cultura arcaica inglesa, es decir, no existe en las grandes ciudades de Inglaterra. Es una cultura que proviene de una isla, es una cultura isleña, como isla es Gran Bretaña también, y esa cultura tiene un pequeño núcleo fundador de personas que están establecidas desde los años 40, es decir, después de la ocupación británica. En 1840 algunos de esos


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pobladores –aún subsisten sus descendientes y una de las descendientes de los pobladores originarios que vienen con los barcos de guerra ingleses es directora del Penguin News, que es el único diario que existe en las Malvinas, donde no hay cine, no hay teatro, hay solo un pub, la Globe Tavern, y ninguna otra cosa más... e internet–. Y además, las enormes riquezas que traen las licencias de pesca. Esa es otra gran discusión en Argentina, que no es fácil resolver. Sería muy imprudente decir, en el contexto de esta charla, “esta discusión está totalmente acabada”; porque los habitantes de las Malvinas, como cualquier habitante en cualquier lugar son sujetos de derecho. Lo que no puede ser establecido de ninguna manera es el derecho de autodeterminación porque sería un derecho antihistórico o ahistórico, no hay derechos ahistóricos.

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Los derechos realmente ahistóricos son los derechos de la humanidad TXH¿QDOPHQWHVRQKLVWyULFRV<VLHVWRVGHUHFKRVGHODKXPDQLGDGVH revierten en la historia real de la creación de las naciones, efectivamente estos habitantes tienen derechos, son sujetos de derecho, de todas sus creaciones culturales, de su lengua, su religión, desde su estilo arquitectónico, a la manera de circular por sus calles... Las manos de las calles son diferentes, los carriles de circulación por las rutas son los de Gran Bretaña, no es una diferencia menor. El ejército argentino cuando ocupa las islas pone la circulación de las rutas en las Malvinas del mismo modo que existen en Argentina, una grave alteración cultural esa. La posición del gobierno argentino es no alterar ninguno de los elementos culturales de las islas, invocando el argumento de que la población argentina tiene muchos núcleos de raíz y cultura inglesa en su interior territorial. No es exactamente la misma situación, pero subsisten núcleos de cultura inglesa importantes en territorio argentino por las leyes argentinas y con cultura inglesa, que además, su parte más importante pasa a nuestro país: el fútbol, elemento fundamental, y muchas otras costumbres, y formas literarias, inclusive la cuestión Borges, de la que no voy a hablar acá, porque está íntimamente ligada a lo que dice su poema: el profundo lamento por la guerra. Porque toda la literatura y la poética de Borges tiene que ver con un llamado a Inglaterra, por ejemplo, el cuento “Historia del guerrero y la cautiva” donde su abuela inglesa debe comprender que hay una cautiva inglesa, esposa de un capitanejo indio de la Pampa argentina. Esa idea de junción cultural de Borges, esa especie de cosmogonía mística borgeana, respecto a ciertas fusiones de la cultura inglesa con la cultura de la Pampa, o con la cultura criolla. Es un enigma


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la literatura borgeana, un enigma de gran interĂŠs. De ahĂ­ el profundo lamento de que Juan LĂłpez y John Ward se enfrenten en las Malvinas y caigan juntos en medio de la nieve y la corrupciĂłn. Es decir, es un profundo lamento por la idea de la guerra, y ese lamento es un lamento interesante. TambiĂŠn debe ser parte de la acciĂłn de nuestros paĂ­ses, pensar que el mĂĄs eximio escritor del siglo XX argentino lo haya pensado desde ese punto de vista. Porque Inglaterra â&#x20AC;&#x201C;y Borges no es un escritor inglĂŠs como a veces se lo ha acusadoâ&#x20AC;&#x201C; Inglaterra es una veta interna tambiĂŠn en ODOLWHUDWXUDGH%RUJHVFRQ6KDNHVSHDUH&ROHULGJH&RQUDGÂŤ Para terminar, ya es momento de terminar esta charla: nada de lo TXHVHUHÂżHUHDODV0DOYLQDVYDDVHUIiFLOQDGDGHORTXHVHUHÂżHUHDODV

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Malvinas â&#x20AC;&#x201C;desde el punto de vista de la Argentina y desde el punto de vista de LatinoamĂŠrica, que tiene que ser casi lo mismo aunque no sea lo mismo, porque el pueblo brasileĂąo no tiene por que cargar todos los modos en que se dio la historia argentina en relaciĂłn a Inglaterra y Malvinasâ&#x20AC;&#x201C;. Un nuevo escenario latinoamericano sĂłlo puede ser como aquel que expresaba RaĂşl Antelo: con nuevos derechos, con nuevos derechos de la naturaleza; la naturaleza es sujeto de derecho tambiĂŠn, los animales son sujeto de derecho tambiĂŠn, el gato que tenemos en nuestra casa es sujeto de derecho tambiĂŠn. Con la expansiĂłn de la idea de sujeto de derecho nuestros paĂ­ses dan un paso civilizatorio importante y recogen lo mejor de la historia de la humanidad y se ponen en situaciĂłn de contar ellos mismos, de relatar ellos mismos, incluso, la historia del imperialismo, mejor de lo que lo pudiera hacer el agente imperial o el literato imperial. Entonces, en ese sentido, resolver apresuradamente la cuestiĂłn de los habitantes de las Malvinas no es lo mĂĄs indicado. En el reclamo de Argentina de que Inglaterra acepte el diĂĄlogo, que no es muy fĂĄcil, una vez que Inglaterra acepte el diĂĄlogo tiene que aparecer de inmediato la cuestiĂłn de la soberanĂ­a, e Inglaterra eso lo sabe. Por eso, las acciones que se estĂĄn haciendo en Argentina tienen varias direcciones: el ofrecimiento de viajes aĂŠreos, que los habitantes actuales de las Malvinas han rechazado; un corto publicitario muy importante, que fue motivo de una gran discusiĂłn la semana pasada: un atleta argentino que va a ir a los Juegos OlĂ­mpicos de Londres se estĂĄ entrenando en las Malvinas y en la leyenda, que sale despuĂŠs del video, que se pasĂł en toda la televisiĂłn argentina, dice: â&#x20AC;&#x153;atleta argentino entrenĂĄndose en suelo argentino para competir en suelo inglĂŠsâ&#x20AC;?. Es un corto muy extremo, y muy interesante, SRUTXHHIHFWLYDPHQWHHOHTXLSRGHÂżOPDFLyQQRGHFODUyTXHLEDDÂżOPDU


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este corto, ese video, y se convirtiĂł en una pieza simbĂłlica fundamental, no agresiva, con un cierto tinte provocador. Son estilos diplomĂĄticos que me parecen aceptables, la vĂ­a de tender la mano amistosamente hacia los pobladores del lugar, viajes aĂŠreos como hubo en los aĂąos 60. Esta ingeniosa publicidad, que estĂĄ en el lĂ­mite de la diplomacia â&#x20AC;&#x201C;explorar los lĂ­mites de la diplomacia es parte de la diplomaciaâ&#x20AC;&#x201C;, estĂĄ en los lĂ­mites del lenguaje posible de la diplomacia, estĂĄ justo en el borde. Ese corto publicitario estĂĄ hecho muy profesionalmente y toma las Malvinas de una forma conmovedora: los pingĂźinos, el mar que bate contra la orilla, ODVHGLÂżFDFLRQHVPiVLPSRUWDQWHVTXHWRGRDUJHQWLQRFRQRFHGHPHPRria. No conocemos las Malvinas, su territorio, pero conocemos la forma de su iglesia, la redacciĂłn del Penguin News, las tabernas principales, la

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Globe Tavern, y el atleta argentino que va a competir en Londres riesgosamente camina en una madrugada casi en penumbras y corre como una especie de soldado espectral de la Argentina por las islas. Todo eso supone otra veta de la convenciĂłn, tambiĂŠn para el gobierno. Estas vetas son las que son rechazadas por los crĂ­ticos literarios OLEHUDOHVTXHQRVRQPXFKRVSHURVRQPX\LQĂ&#x20AC;X\HQWHVHQODRSLQLyQ pĂşblica, en el sentido de que estas acciones, por mĂĄs bien intencionadas que estĂŠn, porque son acciones vinculadas a los sĂ­mbolos y a la diplomacia y a ninguna otra cosa, confrontan a un gobierno democrĂĄtico que tiene muchos matices. Discutir el gobierno argentino no es fĂĄcil, pero su veta progresista es la veta dominante, su veta de la raĂ­z humanĂ­stica tambiĂŠn lo es; y su formas de intervenciĂłn estatal en la vida pĂşblica recomponen formas profundas de justicia, y eso tambiĂŠn es una dominante, mĂĄs allĂĄ de la vida cotidiana argentina, que es tan compleja y tan ardua como la de cualquier pueblo latinoamericano. El pensamiento liberal dice: â&#x20AC;&#x153;por mĂĄs buenas intenciones que haya, estas acciones conducirĂĄn tal vez a una guerra, porque Inglaterra es inconmovibleâ&#x20AC;?. La posiciĂłn del gobierno argentino â&#x20AC;&#x201C;posiciĂłn que me parece mĂĄs sensata y mĂĄs viable para los latinoamericanos, me arriesgo a decir que sin esta posiciĂłn tampoco habrĂĄ LatinoamĂŠricaâ&#x20AC;&#x201C; es que las acciones que se estĂĄn empeĂąando en nombre de una nueva visiĂłn latinoamericana, y que obligan a la Argentina a ser otra tambiĂŠn, tengan una coincidencia histĂłrica. Debe compartirse nuevamente el rumbo entre la Argentina territorial y una suerte de Argentina exiliada, con cultura inglesa; si hay un encuentro y se comparte un rumbo territorial e histĂłrico,


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va a ser un diĂĄlogo de dos culturas. Es algo que incluso interesarĂ­a a los habitantes de las islas que hoy odian a los argentinos, que les llevaron a una guerra. Ese sentimiento tambiĂŠn tiene que ser comprendido, pero los habitantes de las islas tienen que comprender, tambiĂŠn, el gran cuadro histĂłrico que origina el imperialismo mundial, que da lugar a este horizonte GHUHĂ&#x20AC;H[LyQTXHODWUDGLFLyQOLWHUDULDH[WUHPDGHOD$UJHQWLQDWHPHURVD

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de una nueva guerra, que no se va a producir de ninguna manera, no estĂĄ en condiciones de comprender: que es la imposibilidad de abandonar una razĂłn crĂ­tica del colonialismo de los siglos XIX y XX. Nuestros pueblos no pueden abandonar ese horizonte, que es un horizonte de la razĂłn crĂ­tica y dialĂŠctica, que construye nuestras libertades sobre la base de la comprensiĂłn crĂ­tica y adversa al modo en que se desarrollaron los imperialismos y los colonialismos. Esto se puede hacer reguardando todas las libertades e invitando al pueblo actual de las Malvinas â&#x20AC;&#x201C;de habla inglesa, de religiĂłn anglicana, de culturas cotidianas totalmente diferentes a las latinoamericanasâ&#x20AC;&#x201C;, invitĂĄndolos a una aventura histĂłrica de trascendental importancia que lo serĂ­a, tambiĂŠn y casi en primer lugar, para ellos mismos. Eso supone nuevas pedagogĂ­as, la utilizaciĂłn democrĂĄtica de las psicologĂ­as, una nueva interpretaciĂłn del terrorismo militar, drĂĄstica, como se estĂĄ haciendo en la Argentina, con juicios permanentes a los militares que participaron del Terrorismo de Estado. Esos juicios son la meta fundamental de la historia contemporĂĄnea argentina. Tienen tanta importancia, o mĂĄs quizĂĄs, que nacionalizar la compaùía estatal de petrĂłleos, volverla nuevamente del Estado. O tiene la misma importancia. Para la Argentina, hoy, es razĂłn de Estado en relaciĂłn a sus recursos â&#x20AC;&#x201C;en las Malvinas hay petrĂłleo, pero en las Malvinas tambiĂŠn hay derechos humanosâ&#x20AC;&#x201C;. Esas dos cosas, esa encrucijada dramĂĄtica estĂĄ en las Malvinas. Entonces, comprendiĂŠndola como XQD H[WUHPD GLÂżFXOWDG GH SHQVDPLHQWR SROtWLFR HV QHFHVDULR DGYHUWLU que la tradiciĂłn liberal no se equivoca al decir que es un problema muy complejo, no se equivoca al decir que un nacionalismo primitivo, elemental, errarĂ­a, y muy gravemente, si creyera que esto se resuelve con medidas coercitivas, obligatorias para la contraparte inglesa. Este Viejo Imperio â&#x20AC;&#x201C;decadente, sĂ­, pero es un Viejo Imperio que tiene memoria de haber sidoâ&#x20AC;&#x201C; es un imperio que deduce sus intereses de los intereses econĂłmicos. Por eso, cuando la posiciĂłn argentina dice reconocer a los


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pobladores de las Islas Malvinas sus intereses, pero no sus deseos, toma una posiciĂłn de partida. Esa posiciĂłn debe crecer, a mi juicio, porque no reconocer los deseos de las personas no es fĂĄcil. Por eso, una vez esWDEOHFLGRVORVGHUHFKRVKLVWyULFRVJHRJUiÂżFRV\VHQWLPHQWDOHVGHOSDtV argentino sobre esa porciĂłn de la Argentina que tiene otra cultura, evidentemente debe crecer esa polĂ­tica diplomĂĄtica de reconocer sĂłlo intereses y no deseos. Porque, sobre la base del diĂĄlogo, los deseos tambiĂŠn pueden ser reconocidos, cuando los deseos se interroguen a sĂ­ mismos, respecto a la historia de los pobladores de ese lugar. Esta es la apuesta de lo que yo llamo: â&#x20AC;&#x153;humanismo crĂ­ticoâ&#x20AC;?, que presupone la explotaciĂłn de los recursos naturales en tĂŠrminos racionales, reconociendo a la naturaleza como sujeto de derecho; y la convivencia entre seres humanos de distintas culturas como una posibilidad de recrear, no sĂłlo la naturaleza, sino la historia de la justicia en una escala de la humanidad.

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El tema Malvinas, por eso, el simple liberal no puede interpretarlo cabalmente. El simple nacionalista, tampoco. Exige de la historia argentina un esfuerzo de ella misma, tambiĂŠn. Las viejas ideologĂ­as argentinas, asĂ­ como estĂĄn, deberĂĄn interrogarse severamente a sĂ­ mismas, como creo que muchas lo estĂĄn haciendo. Este gobierno creo que tambiĂŠn lo estĂĄ haciendo. Porque para tener derecho a algo tan enorme para la historia argentina â&#x20AC;&#x201C;como lo son las Malvinas, que atraviesan esa historia como una lĂ­nea de fuegoâ&#x20AC;&#x201C;, para tener ese derecho, hay que pensar efectivamente nuestra jerarquĂ­a intelectual, moral y sentimental, para poder tener derecho a ese derecho. En ese sentido, es tan importante esa discusiĂłn en la Argentina, como asĂ­ tambiĂŠn para los paĂ­ses latinoamericanos. Me atrevo a decir que, aunque el pueblo brasileĂąo no tiene por quĂŠ estar en el dĂ­a a dĂ­a de esta cuestiĂłn, tambiĂŠn estĂĄ siendo de fundamental importancia para el pueblo brasileĂąo y los demĂĄs pueblos. Para terminar, pienso que todos pueden percibir la importancia que tiene este tema y, HQHVDPHGLGDOHVTXLHURDJUDGHFHUTXHKD\DQHVFXFKDGRODUHĂ&#x20AC;H[LyQ de un profesor argentino y eventual director de una instituciĂłn histĂłrica muy importante. Creo que hablĂŠ en nombre de sentimientos propios y del horizonte intelectual que muchas personas estĂĄn construyendo hoy en la Argentina. Es incalculable el agradecimiento que tengo con ustedes, por haber escuchado estas palabras. Nuevamente agradezco a RaĂşl Antelo, a las autoridades de la UFSC, al querido cĂłnsul Neffa. Um grande abraço.


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hŵĞƐƉĂĕŽͲĐŽƌƉŽ ĨƌĂƚƵƌĂĚŽ: as Ilhas Malvinas na Revue des Deux Mondes 1

:ĞīĞƌƐŽŶŐŽƐƟŶŝDĞůůŽ (Universidade de São Paulo) Há dois momentos-chave e distintos, na história do Ocidente, em que os relatos de viagens servem de porta-vozes da construção de espaços: os séculos XV e XVI e, mais tarde, os séculos XVIII e XIX. Em uma primeira fase, as chamadas grandes navegações, viagens da Orbis terrarum ao desconhecido, acabam por topar com um outro pedaço de terra, até então inexistente, com o que mais tarde se chamaria América, ou a quarta parte do mundo. Na constituição da América, na sua invenção, o que surge é um novo continente, mas um continente, de acordo com Edmundo O’Gorman (1992), à imagem e semelhança do seu inventor. Tem-se, portanto, nestas viagens e nos textos que daí proliferam, 1

*

Revisito neste ensaio um dos capítulos da minha dissertação de mestrado, Interven-

ções insulares (Santa Catarina, Açores, Malvinas): viagens na Revue des Deux Mondes, defendida em agosto de 1999, no mestrado em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, e escrita sob a orientação de Raul Antelo. Passados mais de 10 anos, é normal que o texto original sofra mudanças consideráveis e eu me interesse, também, por outros aspectos da questão insular.


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uma relação com o outro que nĂŁo ĂŠ de ruptura, mas de continuidade, ou seja, de continentalidade; o explorador busca transplantar para as terras da AmĂŠrica as suas formas de vida e o outro dos relatos de viagem nĂŁo serĂĄ entendido como uma alteridade radical, mas como alguĂŠm que carece de uma consciĂŞncia do seu prĂłprio devir e que poderĂĄ ser trabalhado, isto ĂŠ, adaptado ao modelo. No sĂŠculo XVIII, serĂŁo outros os exploradores de espaços que passarĂŁo pelo continente americano â&#x20AC;&#x201C; nĂŁo mais â&#x20AC;&#x153;inventoresâ&#x20AC;?, mas â&#x20AC;&#x153;inWHUYHQWRUHV´ 6H R SUHÂż[R ÂłLQ´ GH LQYHQomR QmR SUHVVXS}H XP RXWUR que se impĂľe como diferença, a construção dos espaços nacionais que FRPHoDDVHSURFHVVDUQRVÂżQVGRVpFXOR;9,,,WUD]SHORFRQWUiULRXP atestado de maturidade e, logo, uma necessidade de ruptura por meio da imposição de limites que se querem cada vez mais precisos. Nesse

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segundo ciclo das viagens de colonização, o novo mundo nĂŁo oferece mais ao colonizador â&#x20AC;&#x201C; que nĂŁo ĂŠ mais portuguĂŞs nem espanhol (ibĂŠrico), mas sobretudo francĂŞs e inglĂŞs, em outras palavras, europeu â&#x20AC;&#x201C; um espaço Ă  sua espera, fruto da bondade divina. O espaço agora, alĂŠm de ser â&#x20AC;&#x153;reinventadoâ&#x20AC;?, deverĂĄ ser disputado. Com efeito, o almirante da marinha francesa, Jurien de la Gravière, relembra bem o que estava em jogo nas primeiras dĂŠcadas do sĂŠculo XX. Segundo ele, quando da sua expedição Ă  AmĂŠrica Latina, as â&#x20AC;&#x153;[...] ricas colĂ´nias, fundadas pela Espanha nessas paragens longĂ­nquas, proclamavam uma apĂłs a outra a sua independĂŞncia e a liberdade do comĂŠrcio se seguia ao monopĂłlio ciumento que as havia explorado durante quase trĂŞs sĂŠculosâ&#x20AC;? (GRAVIĂ&#x2C6;RE, 1860, p. 636-637).2 Cabia entĂŁo Ă  França avizinhar-se da Inglaterra em termos de vendas dos seus produtos aos latino-americanos, e a viagem que o rei da França, por meio de seu ministro, propunha a Gravière tinha como mote, justamente, a averiguação dos novos paĂ­ses, potenciais consumidores. Era fundamental mostrar Ă s jovens naçþes que os franceses tambĂŠm eram uma potĂŞncia naval e se encontravam presentes naqueles portos: O dever da França era reivindicar a sua parte das vantagens que esse novo estado de coisas prometia Ă  indĂşstria HXURSHLD 2V LQJOHVHV ÂżpLV jV VXDV WUDGLo}HV HVWDYDP D nossa frente. Pintavam a França como um paĂ­s enfraqueFLGRSHODVJXHUUDVFRQWtQXDVVHPPDULQKDVHPÂżQDQoDV incapaz de lançar ao mar qualquer armamento (GRAVIĂ&#x2C6;RE, 1860, p. 637).

2

Optei por traduzir todos os textos em lĂ­ngua estrangeira.


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Mas, alĂŠm disso, a viagem parecia ter igualmente o intuito de averiguar a governabilidade â&#x20AC;&#x201C; e, por que nĂŁo, o tipo de ocupação â&#x20AC;&#x201C; daqueles paĂ­ses â&#x20AC;&#x153;abandonadosâ&#x20AC;? pelos espanhĂłis: As colĂ´nias da AmĂŠrica do Sul vislumbraram se governar apenas no dia em que um estrangeiro tomou o poder na metrĂłpole.3 Sua educação polĂ­tica estava ainda por se fazer, e uma revolução imprevista tirava-lhes o chĂŁo antes que elas pudessem andar. Apesar de um impulso comum animar todos os revoltosos, apesar de eles sentirem instintivamente que as suas causas eram solidĂĄrias, nenhum pensamento de unidade pareceu presidir seus esforços (GRAVIĂ&#x2C6;RE, 1860, p. 637).

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Embora escrito em outro perĂ­odo, esse trecho retoma uma imagem dos relatos de invenção, a saber, a do Outro infantilizado, intuitivo, impulsivo, sem as ferramentas para pensar sozinho sobre o seu futuro. Da PHVPDIRUPDFRPRVHYHUiPDLVDGLDQWHUHVVLJQLÂżFDVHQHVVHVHJXQGR ciclo, a visĂŁo de um continente praticamente vazio ou caĂłtico, de uma natureza exuberante, que, dada a desorganização dos seus habitantes, poderia muito bem ser recolonizado pelos interventores europeus. *** O texto de Jurien de la Gravière, que trata dos anos 20 do sĂŠculo XIX, ĂŠ publicado em 1860 na Revue des Deux Mondes. Esta, que nasce em 1829, isto ĂŠ, no momento a que a sua viagem se refere, ĂŠ tambĂŠm, em 1829, um â&#x20AC;&#x153;Recueil de la Politique, de lâ&#x20AC;&#x2122;Administration et des Moeursâ&#x20AC;?, e, em 1830, um â&#x20AC;&#x153;Journal de Voyagesâ&#x20AC;?.4 Em outras palavras, a Revue jĂĄ nasce preocupada com a reorganização geopolĂ­tica do mundo.5 De modo que, no nĂşmero de abertura, a â&#x20AC;&#x153;AdvertĂŞnciaâ&#x20AC;?, possivelmente escrita peORV GLUHWRUHV HQWmR 3URVSHU 0DXUR\ H 6pJXU'XSH\URQ Âą TXH ÂżFDUmR 3

Gravière parece se referir, no caso, à posse do trono espanhol por JosÊ Bonaparte,

irmĂŁo de NapoleĂŁo. 4

A Revue des Deux Mondes estĂĄ disponĂ­vel no site Gallica, biblioteca digital de livros,

periódicos e manuscritos vinculada à Bibliothèque Nationale de France (BNF). O link para os números da revista Ê http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/cb32858360p/date.r=revue+des+deux+mondes.langPT 5

No frontispĂ­cio do primeiro nĂşmero de 1830 de Revue se lĂŞ: Revue des Deux Mondes,

Journal de Voyages, de lâ&#x20AC;&#x2122;Administration, des Moeurs, Chez les DiffĂŠrens Peuples du Globe. Estudiosos da Revue indicam que aos poucos ela deixa de ser uma revista de viagens para se voltar principalmente Ă  literatura e Ă s artes. Contudo, pelo menos nos seus primeiros 50 anos, enquanto ĂŠ dirigida por François Buloz, o ĂłrgĂŁo nĂŁo abandona a publicação de relatos de viagens.


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apenas dois anos na condução da revista â&#x20AC;&#x201C; indica o espĂ­rito interventor GDSXEOLFDomRHDYRQWDGHGHID]HUGHODXPyUJmRGHSROtWLFDHJHRJUDÂżD comparadas, tendo como ponto de partida a relação com o estrangeiro: NĂŁo sĂŁo das teorias administrativas que a França mais necessita, ĂŠ da administração prĂĄtica. Portanto, deve-se conhecer bem o que acontece ou aconteceu com os outros SRYRVDÂżPGHVHDGRWDUGDVVXDVLQVWLWXLo}HVDSHQDVR que puder ser aplicado aos nossos costumes, ao nosso caUiWHUDRSURJUHVVRGDVQRVVDVOX]HVjSRVLomRJHRJUiÂżFD do nosso territĂłrio. Muitas viagens sĂŁo feitas para descrever os sĂ­tios de um lugar. Tudo o que ĂŠ poĂŠtico, tudo o que se presta a brilhantes descriçþes, tudo que se oferece FRPRDVVXQWRGHUHĂ&#x20AC;H[}HVGHVYLDQWHVpDtWUDWDGRFRPXP cuidado, com uma atenção prĂłpria; mas no que concerne o modo da administração local, a organização civil e SROtWLFDGRSDtVRVVHXVUHFXUVRVÂżQDQFHLURVLQGXVWULDLV e agrĂ­colas, fala-se aĂ­ apenas de maneira incompleta. Trata-se de questĂľes que podem ser abordadas apenas quando nos dedicamos a estudos profundos e especializadosâ&#x20AC;? (1829, p. i-ii).6

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Assim, o contato e o aprendizado sĂŠrio e profundo com os outros povos, quando o intuito ĂŠ lhes adaptar modelos de sucesso, pressupĂľe, de acordo com o texto inaugural da revista, menos literatura e descrição romântica e mais ciĂŞncia, administração e tĂŠcnica. Essa, de fato, serĂĄ a tĂ´nica dos nĂşmeros publicados em 1829. PorĂŠm, concomitantemente, o ideĂĄrio romântico nĂŁo deixa de atravessar as primeiras dĂŠcadas da Revue des Deux Mondes. AliĂĄs, ele jĂĄ pode ser percebido nessa â&#x20AC;&#x153;AdvertĂŞnciaâ&#x20AC;?, em que se defende que tudo estĂĄ conectado, apesar das diferenças, em uma mesma atmosfera, como se um mesmo espĂ­rito integrasse todos os indivĂ­duos. Tal concepção se DUWLFXODVHPSUREOHPDVDRLGHiULRFLHQWtÂżFRHMXVWLÂżFDHQWmRRPpWRGR a ser utilizado, a saber, a comparação: â&#x20AC;&#x153;Eventualmente o que ocupa vivamente nosso espĂ­rito pode ser encontrado ao mesmo tempo em outro ponto do globo, e uma das aproximaçþes mais interessantes desta revista serĂĄ ver os mesmos princĂ­pios compreendidos e aplicados de modo diverso na França e na Inglaterra, no Brasil e na Alemanha, nas margens do Delaware, nos rios dos mares do Sulâ&#x20AC;? (p. ii-iii). Parece-me que nĂŁo se estĂĄ distante, aqui, nem da ideia de Goethe de uma literatura universal7, 6

Como esse texto nĂŁo vem assinado, a autoria dos diretores ĂŠ apenas presumida.

7

Em um primeiro fragmento, extraĂ­do de uma resenha a Tasso, e publicado em 1827,

*RHWKHDÂżUPDTXHWHQGRSDUWLFLSDGRGDIRUPDomRGDOLWHUDWXUDDOHPmHOHFRQVWDWDFRPRÂł>@D partir de elementos senĂŁo antagonistas, ao menos heterogĂŞneos, uma literatura alemĂŁ se forma, na verdade sĂł se torna uma porque ĂŠ redigida em uma lĂ­nguaâ&#x20AC;? (GOETHE, 1996, p. 299). Tendo


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nem do que Eric Auerbach, ao tratar de Balzac, nomeia â&#x20AC;&#x153;realismo de atmosferaâ&#x20AC;?, prĂłprio do romantismo de inĂ­cio do sĂŠculo XIX.8 Em estudo pioneiro sobre a Revue des Deux Mondes e o Brasil, Luiz Dantas percebe essa articulação de ciĂŞncia e pensamento romântico nos textos ali publicados sobre o paĂ­s. Comentando uma passagem de Francis de Castelnau, Dantas assinala que hĂĄ na revista, por um lado, a â&#x20AC;&#x153;[...] vitalidade das velhas imagens caras aos românticos, e associadas Ă  fascinação americana, e, por outro lado, as necessidades mais prĂĄticas (DANTAS, 1991, p. 141)â&#x20AC;?. Entretanto, para ele, [...] nĂŁo se deve superestimar o aspecto literĂĄrio ou exĂłtico das preocupaçþes desses viajantes. As descriçþes das paisagens tropicais, sua desolação ou sua imensidĂŁo, sĂŁo na verdade, passagens obrigatĂłrias em todas aquelas relaçþes. PorĂŠm os viajantes estĂŁo engajados numa investigação mais â&#x20AC;&#x2DC;sĂŠriaâ&#x20AC;&#x2122;: trata-se de cientistas no exercĂ­cio de VXDVPLVV}HVFLHQWtÂżFDVRXREVHUYDGRUHVTXHSHUFRUUHP R SDtV D ÂżP GH UHXQLU R PDLRU Q~PHUR GH LQIRUPDo}HV necessĂĄrias Ă  sua compreensĂŁo e anĂĄlise (DANTAS, 1991, p. 141-142).

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De sua parte, Mary Louise Pratt, em Imperial Eyes, ao analisar

jĂĄ assinalado a heterogeneidade de uma literatura propositadamente nacionalista, Goethe assinala, em um segundo fragmento de 1828, parte de uma resenha consagrada ao German Romance, que â&#x20AC;&#x153;[...] ĂŠ perceptĂ­vel que os esforços estĂŠticos dos melhores poetas e escritores de todas as naçþes estĂŁo voltados, depois de uma certa ĂŠpoca, em direção ao que ĂŠ universalmente humano. (P FDGD IHQ{PHQR SDUWLFXODU VHMD HOH KLVWyULFRPLWROyJLFRRX IDEXORVR VHMD HOH XPD ÂżFomR mais ou menos arbitrĂĄria, veremos cada vez mais a universalidade brilhar e transparecer atravĂŠs do carĂĄter nacional e individualâ&#x20AC;? (GOETHE, 1996, p. 299). O autor argumenta ainda, no mesmo fragmento, do â&#x20AC;&#x153;mercado das ideiasâ&#x20AC;?, em diĂĄlogo com os editores da revista: â&#x20AC;&#x153;Uma tolerância generalizada serĂĄ conseguida com mais certeza se nĂłs deixarmos em paz o que particulariza os diferentes indivĂ­duos humanos e os diferentes povos, convencendo-nos ao mesmo tempo que o traço de diferença do que ĂŠ realmente meritĂłrio reside no que pertence a toda a humanidade. Faz tempo os alemĂŁes contribuem a uma tal mediação e reconhecimento recĂ­proco. Aquele que compreende e estuda a lĂ­ngua alemĂŁ se instala em um mercado onde todas as naçþes oferecem suas mercadorias, ele faz função de intĂŠrprete, enriquecendo ele tambĂŠmâ&#x20AC;? (GOETHE, p. 299-300). 8

â&#x20AC;&#x153;O realismo de atmosfera, que ĂŠ o de Balzac, ĂŠ um produto da sua ĂŠpoca, ele ĂŠ um

elemento e um produto de uma atmosfera. A mesma forma de espĂ­rito â&#x20AC;&#x201C; a saber, o romantismo â&#x20AC;&#x201C; que tinha começado a experimentar tĂŁo vivamente e sensualmente a unidade estilĂ­stica das ĂŠpocas anteriores, a sua unidade de atmosfera, que descobriu a Idade MĂŠdia, o Renascimento e tambĂŠm a particularidade histĂłrica de certas civilizaçþes estrangeiras (Espanha, Oriente), esta mesma forma de espĂ­rito desenvolveu tambĂŠm a compreensĂŁo orgânica da atmosfera prĂłpria ao sĂŠculo, nas numerosas manifestaçþes em que ela se revelava. O historicismo de atmosfera e o realismo de atmosfera estĂŁo estreitamente ligados; Michelet e Balzac sĂŁo levados pelas mesmas correntesâ&#x20AC;? (AUERBACH, 2007, p. 469).


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os textos de viagem dentro de uma perspectiva pĂłs-estruturalista, foucaultiana, demonstra que a questĂŁo nĂŁo ĂŠ dicotĂ´mica, mas dĂşplice, isto ĂŠ, o modo de narrar estĂĄ diretamente articulado aos objetivos â&#x20AC;&#x2DC;sĂŠriosâ&#x20AC;&#x2122; da viagem imperialista; as passagens â&#x20AC;&#x153;obrigatĂłriasâ&#x20AC;?, mais do que lugarescomuns desgastados, como Dantas sugere, seriam, segundo a autora, fundamentais nos relatos de viagem de inĂ­cio do sĂŠculo XIX e constituiriam, entre outras coisas, o que ela entende como a narrativa da anticonquista. Esta, aliĂĄs, jĂĄ pode ser vislumbrada na prĂłpria â&#x20AC;&#x153;AdvertĂŞnciaâ&#x20AC;? do primeiro nĂşmero da Revue, e nĂŁo sĂł no trecho em que os editores DÂżUPDPTXHDUHYLVWDVHLQWHUHVVDULDDSHQDVSHORVSDtVHVTXHSXGHVVHP ensinar algo Ă  França, em termos de sua administração, mas tambĂŠm na medida em que eles colocam no mesmo plano, sem hierarquizar, França

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e Inglaterra, Brasil e Alemanha, os rios dos mares do sul e as margens de Delaware. Em uma espĂŠcie de eufemismo, de desvio, e por meio da atmosfera romântica, cria-se igualdade onde se sabe que nĂŁo hĂĄ. Mais DLQGDÂłKLJLHQL]DVH´HÂłPLVWLÂżFDVH´XPSURMHWRGHH[SDQVmRFRORQLDO a se dar pelo mapeamento do terreno alheio. Trata-se, segundo Pratt, de â&#x20AC;&#x153;estratĂŠgias de representação por meio das quais sujeitos burgueses europeus procuram assegurar a sua inocĂŞncia no mesmo instante em que FRQÂżUPDPDKHJHPRQLDHXURSHLD´ 35$77S  No que toca os escritos de viagem, tais estratĂŠgias implicariam, segundo o que se depreende do estudo de Pratt, ou 1) em um distanciamento radical do narrador do objeto, como se ele nĂŁo estivesse implicado no que conta e como se as coisas existissem por si sĂł, naturalizadas; ou, por outro lado, 2) em uma narrativa excessivamente auto-centrada, que enfatiza as provaçþes e os desastres da viagem, aparentemente apequenando o viajante. Ou, ainda, 3) uma sĂ­ntese dessas duas estratĂŠgias, em sintonia com os escritos nĂŁo-especialistas de Humboldt, que, ao invĂŠs GRVVHXVWH[WRVFLHQWtÂżFRVSURPRYHXPDPLVWXUDGHFLrQFLDHVHQWLPHQWRRXQRVWHUPRVGDDXWRUDDIXVmRGDHVSHFLÂżFLGDGHGDFLrQFLDFRPD estĂŠtica romântica do sublime (PRATT, 1997, p. 121): â&#x20AC;&#x153;Alexander Von Humboldt reinventa a AmĂŠrica do Sul primeiro e sobretudo enquanto natureza. (...) uma natureza dramĂĄtica e extraordinĂĄria, um espetĂĄculo capaz de superar o entendimento e o conhecimento humanosâ&#x20AC;? (PRATT, 1997, p. 120).

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No texto de RenĂŠ Primevère Lesson, â&#x20AC;&#x153;Relâche aux ĂŽles Malouinesâ&#x20AC;?, publicado em 1830 na Revue des Deux Mondes, percebem-se imbricados esses trĂŞs modos de olhar. A publicação do relato de viagem desse naturalista francĂŞs, de que pretendo me ocupar neste ensaio, e que a meu ver funciona igualmente como um alerta Ă  burguesia e Ă  monarquia francesas, antecede em apenas trĂŞs anos a tomada daquelas ilhas pelos ingleses, embora ele seja o resultado de uma viagem feita ainda em 1822. A sua visĂŁo das Malvinas como um espaço sĂł natureza pode ser interpretada como uma releitura dos relatos de descobrimento, mas nela estĂĄ implĂ­cito tambĂŠm o desejo de posse de um espaço â&#x20AC;&#x153;liberadoâ&#x20AC;? que jĂĄ foi francĂŞs, inglĂŞs, e que estĂĄ em vias de ser apropriado pelo maior inimigo, que nĂŁo deixa de rondĂĄ-lo, percebendo a precariedade

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administrativa dos seus novos donos, isto Ê, dos argentinos. As alegorias GRV SiVVDURV H GRV SLQJXLQV GH XP ODGR VHUHV SDFt¿FRV TXH DQGDP em bandos e se deixam abater por qualquer um9, e, de outro, das aves GHUDSLQDVHUHVFRQ¿DGRVTXHWRPDPGDPmRGRVPDULQKHLURVDVVXDV presas10, apontam para essa concepção de território livre, a ser (re)conquistado.11 Em outras palavras, a construção textual de um espaço só natureza sem pessoas (ou com pessoas sem governo, isto Ê, desgovernadas) pode ser interpretada como a indicação de um campo aberto tanto para a exploração comercial quanto para se tomar posse. Antes de entrar em detalhes, importa assinalar que o texto de Lesson Ê um fragmento do seu livro de viagem intitulado Voyage autour du monde entrepris par ordre du gouvernement sur la corvette La Coquille12 e publicado apenas em 1839, porÊm, no que diz respeito a sua estada nas Malvinas, os textos são praticamente os mesmos. O número da Revue em que o fragmento aparece dedica-se quase que integralmente aos 9

A imagem do pinguim como um ser estĂşpido, inocente e sem utilidade ĂŠ reiterada ao

longo do relato, como nesse trecho: â&#x20AC;&#x153;A estupidez desses pĂĄssaros ĂŠ tal que os marinheiros os massacravam em grande nĂşmero, sem que aqueles que se encontrassem ao seu lado parecem sentir o menor medoâ&#x20AC;? (LESSON, 1830, p. 343). Daqui para a frente, quando me referir a esse texto, indicarei apenas a pĂĄgina. 10

Âł2VSiVVDURVSUHGDGRUHVGHXPDFRQÂżDQoDVHPLJXDOYLQKDPSDUDWLUDUDVSUHVDVGDV

mĂŁos dos caçadores, e aqueles que, em um primeiro momento, escondiam sua caça na grama, ao voltar nĂŁo encontravam o menor vestĂ­gio delasâ&#x20AC;? (p. 335). 11

Como se sabe, a França instalou uma colônia nas Malvinas em 1764, requisitada, três

anos depois, pelo reino espanhol. 12

LESSON, RenÊ Primevère. Voyage autour du monde entrepris par ordre du gouver-

nement sur la corvette La Coquille. Paris: Pourrat Frères, 1839. O livro estå disponível, em cópia integral, no site Gallica, da Biblioteca Nacional da França: http://www.e-rara.ch/doi/10.3931/e-rara-16289


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relatos de viagem. AlĂŠm do texto de Lesson, hĂĄ outros sobre a Oceania, a Ă frica, a Ă sia, a Europa do norte, os Estados Unidos, o JapĂŁo. No entanto, o nĂşmero inicia com um â&#x20AC;&#x153;Ensaio sobre a população dos dois mundosâ&#x20AC;?, de Adrian, ou Adriano, Balbi, importante geĂłgrafo italiano radicado na França, que apresenta tambĂŠm um â&#x20AC;&#x153;Paralelo estatĂ­stico entre a riqueza da França e a da Inglaterraâ&#x20AC;?.13 Nesse, por exemplo, chama a atenção a nota do editor â&#x20AC;&#x153;Mâ&#x20AC;?, provavelmente Prosper Mauroy, que LQWHUSUHWDRSDUDOHORDÂżUPDQGRTXHD)UDQoDFRPHFRQRPLDHPDYDQoR e nĂşmero de habitantes estabilizado, estaria na dianteira da Inglaterra, jĂĄ que, apesar da evolução desta em termos de indĂşstria e comĂŠrcio, por conta do aumento da população, a sua riqueza acumulada diminuiria em relação ao passado. De modo que, no conjunto desse nĂşmero, ĂŠ como se o texto de Balbi constituĂ­sse a parte sĂŠria e os relatos de viagem, que

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sĂŁo a quase totalidade dos textos, constituĂ­ssem a sua parte desinteressada, literĂĄria, mas nĂŁo menos importante, pois sĂŁo eles que, ao mesmo tempo em que divertem e entretĂŞm, fornecem o material bruto para o projeto imperialista e competitivo que estĂĄ na base, tanto do texto de Lesson, quanto do projeto da publicação. Em outras palavras, os relatos de viagem sĂŁo o espelho de uma alta burguesia francesa que, de acordo FRP XP HVWXGLRVR GD UHYLVWD FKHJDYD DR SRGHU FRP Âł>@ FRQÂżDQoD no progresso, culto da liberdade individual e defesa da ordem socialâ&#x20AC;? (BROGLIE, 1979, p. 33). NĂŁo ĂŠ outro o argumento da apresentação do relato de viagem de Lesson.14 Ali, o articulista, anĂ´nimo, insiste justamente nesse aspecto dĂşplice e concomitante dos relatos de viagens, associando, com foco nos seus leitores, prazer e emoção com conhecimento e utilidade. Fonte inquieta de prazeres e de instrução, as viagens sĂŁo a leitura dos jovens e dos velhos, dos homens do mundo 13

De acordo com o verbete da Enciclopedia Italiana, Balbi Ê contemporâneo de Ale-

xander von Humboldt, porÊm seguiu caminho independente, e foi um sistematizador e divulgaGRUFRQVFLHQWHHLQVDFLiYHOGRVFRQKHFLPHQWRVJHRJUi¿FRVGRVHXWHPSR2VHXBalanço político do globo teria feito sucesso junto aos estudiosos do seu tempo, entre eles Humboldt (p. 904). 14

O tĂ­tulo dado ao relato ĂŠ â&#x20AC;&#x153;Journal Pittoresque (Encore InĂŠdit) dâ&#x20AC;&#x2122;un Voyage Autour du

Monde. Par M. Lessonâ&#x20AC;?. O Ă­ndice da Revue des Deux Mondes, publicado em 1875, indica que esse texto teria aparecido em 1831 juntamente com outro relato seu, sobre o Peru. Atualmente, nem a digitalização da Gallica, nem a da prĂłpria Revue trazem nos seus sumĂĄrios digitais a referĂŞncia ao texto de Lesson sobre as Malvinas. Talvez porque, na â&#x20AC;&#x153;Table des Matièresâ&#x20AC;?, ou seja, no Ă­ndice do nĂşmero, o texto de Lesson se intitule â&#x20AC;&#x153;Le Monde. Journal Pittoresque dâ&#x20AC;&#x2122;un Voyage autour du Globeâ&#x20AC;?. Ou seja, ao contrĂĄrio dos outros relatos do mesmo nĂşmero, ĂŠ curiosamente DSDJDGRRQRPHGRWHUULWyULRHVSHFtÂżFRDTXHRWH[WRVHUHIHUH


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e dos eruditos, dos simples amadores e tambÊm dos geógrafos; elas fornecem aos primeiros distração; elas pintam, para os últimos, costumes e håbitos novos; elas dão a todos uma leitura atraente, animada, sempre com bons resultados para a inteligência. Daí o sucesso dessa massa de relaçþes de viagem, que cada ano surge nas naçþes civilizadas e, por conseqßência, essa avidez geral por esse ramo da literatura. Não se pode nem mesmo dizer, rigorosamente falando, que existam mås narrativas de viagens. Mesmo nas mais medíocres, um espírito reto pode ainda tirar verdades úteis (p. 327).

7DPEpPQRTXHWRFDHVSHFLÂżFDPHQWHDQDUUDWLYDGH/HVVRQHVWD aqui â&#x20AC;&#x153;[...] pode, na sua redação, abandonar-se a todas as sensaçþes que o cativaram, e tentar trazer para a alma do leitor as suas emoçþesâ&#x20AC;?. Mas, alĂŠm disso, e apesar do romântico e do pitoresco (â&#x20AC;&#x153;ĂŠ como pintor que

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ele esboça com pinceladas largas as produçþes dos lugares que ele percorreuâ&#x20AC;?), â&#x20AC;&#x153;cada traço ganha ainda seus conhecimentos de naturalistaâ&#x20AC;? (p. 328). Como se verĂĄ, ĂŠ exatamente nessa trama de aventura, descrição naturalista (distanciada) e pitoresca (deslumbrada) que se constrĂłi este â&#x20AC;&#x153;Relâche aux ĂŽles Malouinesâ&#x20AC;?. *** Nesse relato de viagem, sĂŁo poucas as passagens em que o narrador centra a narrativa em si mesmo, como o fazem alguns dos narradores do mesmo nĂşmero da revista. No entanto, colocadas logo no inĂ­cio do texto, elas sĂŁo importantes para mostrar a fragilidade do viajante e, por assim dizer, sua humanidade. No caso, o outro com quem ele se confronta ĂŠ a natureza indomesticada e imprevisĂ­vel das Malvinas, e nĂŁo o autĂłctone, que a priori nĂŁo existe.15 Em um primeiro momento, nota-se o temor que se instala logo na sua chegada, na visita aos restos do Uranie, navio que naufragara naquelas ilhas. Retoricamente, a passagem sugere a sua pequenez frenWH DRV ULVFRV HP XP DPELHQWH VHP OHL PDV SRU RXWUR ODGR DPSOLÂżca o seu comprometimento com a viagem e a importância da empresa: â&#x20AC;&#x153;â&#x20AC;&#x2DC;Acabamos de deixar a França: nossos desejos sĂŁo sem limites, assim como nossas ilusĂľes! Qual serĂĄ o rochedo contra o qual esta mĂĄquina 15

O relato anterior, sobre o JapĂŁo, ĂŠ construĂ­do com base nos encontros de um go-

vernador das Ilhas Filipinas, Don Rodrigo de Vivero y Velasco, com prĂ­ncipes e imperadores MDSRQHVHV3RGHVHDÂżUPDUTXHHOHpXPDHVSpFLHGHDQWtSRGDGRUHODWRGH/HVVRQSHORGHVOXPbramento do viajante com o que encontra naquele paĂ­s, a que chegou por conta de um naufrĂĄgio.


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Ă&#x20AC;XWXDQWHLUiVHFKRFDU"(ODUHYHUiRSRUWR"8PDLOKDGHVHUWDVHUiQRVVD ~OWLPDPRUDGDRXRHVW{PDJRGHXPFDQLEDOVHUiRQRVVRW~PXOR" S 332)â&#x20AC;&#x2122;â&#x20AC;?. Como se percebe, a dramaticidade, aqui, ĂŠ obtida seja pelas exFODPDo}HVHDXWRTXHVWLRQDPHQWRVVHMDSHODLQWHQVLÂżFDomRGRVSHULJRV enumerados, que vĂŁo desde o rochedo atĂŠ o estĂ´mago de um canibal.16 Em outra passagem, o viajante-aventureiro serĂĄ vĂ­tima das intempĂŠries. Debaixo de chuva cerrada, e tendo saĂ­do tambĂŠm para caçar, acaba com o fuzil cheio de ĂĄgua, apenas observando, vencido, milhares de patos imĂłveis sobre a areia. No entanto, em meio Ă  narrativa desse SHTXHQRGHVDVWUHROHLWRUÂżFDVDEHQGRQmRVyGDDEXQGkQFLDGHYtYHres da ilha, como tambĂŠm do seu clima (assunto que voltarĂĄ Ă  pauta HPGLYHUVDVSDVVDJHQV HGHXPDVSHFWRGDVXDJHRJUDÂżDDVVXDVÂł>@

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longas praias uniformes, margeadas por dunas arenosasâ&#x20AC;? (p. 332). Logo em seguida, ainda vitimado pelo dilĂşvio, o viajante terĂĄ que se desfazer dos â&#x20AC;&#x153;diversos pĂĄssaros destinados Ă s nossas coleçþes, e das mostras de rochas cujo peso contribuĂ­a bastante para me fatigarâ&#x20AC;?. O desapontamenWR p VHJXLGR HQWmR GH XPD DXWRFUtWLFD DR FDPSR FLHQWtÂżFR FRPR VH a natureza adversa tirasse por um momento o viajante da lĂłgica a que estava integrado e lhe permitisse questionĂĄ-la. Escreve o viajante: â&#x20AC;&#x153;[...] e quem sabe se, na Europa, algum sĂĄbio sentado em um sofĂĄ, a cabeça rodeada de almofadas, os pĂŠs estendidos perto de um fogo vivo e bem DOLPHQWDGRQmRWHULDFULWLFDGRDHVFROKDHDSUHSDUDomRGHVVHVREMHWRV"´ (p. 333). Mas, ao mesmo tempo em que se trata de uma crĂ­tica Ă s instituiçþes que patrocinam a viagem â&#x20AC;&#x201C; e, de certo modo, Ă  prĂłpria Revue des Deux Mondes â&#x20AC;&#x201C; o entrecho serve igualmente para heroicizar o viajante e, mais do que isso, para mostrar a pureza das suas intençþes, que, assim como o relato que se estĂĄ lendo, escapariam da lĂłgica institucional, o que, obviamente, nĂŁo ĂŠ o caso. Por outro lado, contra o utilitarismo, pode-se argumentar que a natureza selvagem, os restos de um navio naufragado, assim como as escarpas dos rochedos e as ruĂ­nas de um lugar abandonado obnubilam a razĂŁo ocidental. De fato, sĂŁo imagens que dialogam, entre outros, com as telas de Turner e as paisagens desoladas e sublimes de Chateaubriand, Wordsworth e Humboldt. Trazem o pitoresco, o lĂşgubre e o selvagem a que, sobretudo, o romantismo soube dar forma, como resistĂŞncia e reação seja ao empreendimento burguĂŞs, seja Ă  natureza controlada da 16

Essa imagem, que remete ao corpo violentado, aparecerĂĄ em outras partes do relato.

7UDWDUHLGHODQRÂżQDOGHVWHHQVDLR


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aristocracia.17 Nesse sentido, duas descrições de Lesson merecem destaque. A primeira é a de um conjunto de montanhas: Os cimos dessas montanhas, com altura de mais ou menos trezentas braças, marcados pelo tempo e pelas catástrofes, são cobertos de recortes imensos de arenito de quartzo representando cubos ou tábuas de um grande volume, cujas bases imitam, a ponto de se confundir, restos de edifícios humanos. De um a dois mil, com efeito, esses montes de arenito lembram, a ponto de iludir, velhos castelos que coroam as colinas escarpadas de Dauphiné, ou os conventos semi-destruídos que os monges empoleiravam em lugares pouco acessíveis nos séculos feudais. Esses estratos de arenito e de quartzo foram arrumados com uma simetria e uma regularidade tais que se supõe que, apenas por causas maiores, como as vastas erupções de água, o seu paralelismo foi destruído em alguns pontos, e que desmoronamentos consideráveis se formaram sobre outros. Do cume dessa primeira cadeia, dominam-se essas montanhas que formam um segundo agrupamento na mesma direção. (...). Tudo nesse vale era a imagem mais perfeita do caos... (p. 338-339)

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Do alto da montanha – o que remete à tópica do “monarca que tudo vê”, segundo Mary Louise Pratt (1997) – e lançando mão de uma linguagem técnica que se pretende imparcial, o narrador introduz vocábulos que evocam principalmente grandiosidade, mas também simetria e dissimetria, construção e ruína. E é justamente esse jogo de contrários que dá movimento à descrição. Mas há também paralelismos, que se repetem ao longo do texto, em diálogo com o editorial do primeiro número da Revue e com a atmosfera romântica: em uma espécie de correspondência total, natureza e cultura, presente e passado se entrelaçam. Não são gratuitas, no caso, as referências a castelos, monges e mosteiros, vislumbrados na paisagem caótica e, ao mesmo tempo, perfeita das ilhas. A segunda descrição, que precede a anterior e que gostaria de destacar, vem após a visita de Lesson ao túmulo de um soldado inglês, morto nas Malvinas (o que pode ser lido também como um recado aos 17

Segundo Keith Thomas, em livro que trata da relação do homem com o mundo na-

tural no contexto inglês, “[...] no começo do século XIX, o gosto pela natureza selvagem não era tributário dos modelos artísticos anteriores, da mesma forma que ele ultrapassava os limites do jardim-paisagem de tipo irregular. Para os românticos, uma natureza ‘embelezada’ era uma paisagem destruída” (THOMAS, 1985, p. 346). Ainda, segundo Thomas, “esta devoção meio religiosa pela paisagem selvagem é obviamente um fenômeno europeu, e entre os seus profetas estão Rousseau e Alexander von Humbold. Mas foram os ingleses que foram o mais longe nisso que se chamou de ‘divinização da natureza’” (THOMAS, 1985, p. 340).


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inimigos de plantĂŁo). Lesson transfere o momento de melancolia a um conjunto de impressĂľes de paisagem que, enumeradas, evocam o traço romântico do seu relato, mas que se desdobram em uma sĂŠrie de observaçþes de cunho polĂ­tico: ,QGR YLVLWDU R 3RUW/RXLV R SULPHLUR SDVVR TXH HX Âż] sobre a areia me colocou em frente a um tĂşmulo: uma ardĂłsia servia de inscrição tumular e de mausolĂŠu a um pobre marinheiro inglĂŞs cujas cinzas repousavam em paz a uma grande distância da sua pĂĄtria. O silĂŞncio de morte que reina nessas terras, interrompido apenas pelas vozes estridentes de alguns pĂĄssaros aquĂĄticos, um cĂŠu nebuloso, um sol sem força, planĂ­cies avermelhadas, montanhas de arenito embranquecidas, casas de tijolos das quais nĂŁo sobra mais do que ruĂ­nas. Tudo isso fazia nascer vĂĄrias UHĂ&#x20AC;H[}HVVREUHHVVDWHUUDDQWiUWLFDLPSURGXWLYDHMRJDGD Ă s margens do mundo. (335-336)

296 Impotente frente Ă  paisagem, Lesson nĂŁo vĂŞ muito o que fazer com ela. NĂŁo hĂĄ, aparentemente, o que tirar dali. Mas, o comentĂĄrio sobre a improdutividade das ilhas, embora tenha efeito quase que instantâneo sobre o leitor, jĂĄ que vem precedido da descrição a â&#x20AC;&#x153;pinceladas largasâ&#x20AC;? do espaço, nĂŁo deixa de apresentar contradiçþes. Pois Ă  medida que se vai lendo, vĂŁo surgindo usos para essa terra â&#x20AC;&#x153;jogada Ă s margens do mundoâ&#x20AC;?, ou, como ele diz em outros momentos, abandonada pelo criaGRU2EVHUYHVHDVVLPTXDLVDVUHĂ&#x20AC;H[}HVTXHQDVFHPGHVVDH[SHULrQFLD visual â&#x20AC;&#x201C; estĂŠtica â&#x20AC;&#x201C; do viajante. O trecho, que ĂŠ a sequĂŞncia do parĂĄgrafo que acabo de destacar, ĂŠ a meu ver uma sĂ­ntese dos objetivos do relato: Foi em vĂŁo que Bouganville tentou fundar aĂ­ [nas Malvinas] uma colĂ´nia francesa: apĂłs alguns anos de tentativa, no momento em que esse navegador [...] entrevia a prosperidade do seu estabelecimento, foi necessĂĄrio satisfazer Ă s pretensĂľes dos espanhĂłis, e deixar para eles este cantinho de terra que eles reivindicaram como uma dependĂŞncia da AmĂŠrica [...]. Preguiçosos por hĂĄbito, inĂĄbeis para viver onde nĂŁo hĂĄ minas de ouro, os espanhĂłis logo deixaram esta porção do territĂłrio, mais afeita para ser cultivada por homens trabalhadores, ativos [...],como os suíços. Nesses Ăşltimos anos, a repĂşblica argentina tentou renovar os proMHWRVGD(VSDQKDHRFXSDUDVLOKDV0DOYLQDVDÂżPGHQmR deixar que qualquer outro povo se apoderasse delas. Essas ilhas, completamente estĂŠreis, e incapazes de serem cultivadas, podem servir apenas de ponto militar, destinado a comandar o cabo Horn e interromper o comĂŠrcio com o mar do Sul. Foi o que trouxe os ingleses a fundar o porto Egmont, sobre a ilha Falkland, a mais meridional das Malvinas, enquanto que os franceses se estabeleceram na Soledad, tanto esses dois povos sĂŁo divididos por uma ri-


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validade que seus costumes e as antipatias naturais jamais farĂŁo desaparecer. (p. 336-337)

EstĂĄ em jogo aqui, primeiramente, a ideia de que os suíços, neutros, ĂŠ que deveriam cultivar aquelas terras, ainda a essa altura do relato consideradas improdutivas (embora, anteriormente, a abundância da caça jĂĄ tenha sido mencionada). Ă&#x2030; claro que se a França era aliada da Espanha, de forma alguma Lesson poderia explicitar que os franceses dariam â&#x20AC;&#x201C; ou teriam dado â&#x20AC;&#x201C; conta do processo colonizador. Por outro ODGRQmRpRTXHHOHVXJHUHDRDÂżUPDUTXH%RXJDLQYLOOHHQWUHYLDDSURVperidade do estabelecimento e que foram os espanhĂłis que, gananciosos e desleixados, acabaram com o projeto dele, requerendo esse â&#x20AC;&#x153;cantinho GDWHUUD´"3RULVVRTXHDRPHQFLRQDURLQWHUHVVHGRVDUJHQWLQRVVREUHR

297

territĂłrio, Lesson nĂŁo tece nenhum comentĂĄrio, embora indique que eles seguirĂŁo os passos dos espanhĂłis, isto ĂŠ, colonizarĂŁo as ilhas apenas para impedir que outros se apropriem delas, mas sem fazĂŞ-las prosperar, quer GL]HUVHPID]rODV~WHLV(TXDOVHULDDXWLOLGDGHGDVLOKDV"1DGDPDLV nada menos do que de servir de ponto militar para se obter o controle do comĂŠrcio dos mares do sul. Ou seja, o detentor do espaço â&#x20AC;&#x153;improdutivoâ&#x20AC;? ĂŠ â&#x20AC;&#x153;apenasâ&#x20AC;? o detentor do comĂŠrcio marĂ­timo de uma regiĂŁo importante do globo. DaĂ­ as referĂŞncias Ă  Soledad, que â&#x20AC;&#x153;eraâ&#x20AC;? francesa, e Ă  Falkland, que â&#x20AC;&#x153;ĂŠâ&#x20AC;? inglesa. O longo parĂĄgrafo, que iniciou com o tĂşmulo do soldado britânico e derivou para a desolação da paisagem, termina portanto com a constatação da rivalidade entre ingleses e franceses, em diĂĄlogo evidente com o texto â&#x20AC;&#x153;sĂŠrioâ&#x20AC;? de Balbi sobre quais das duas naçþes esWDULDjIUHQWHQDFRPSHWLomRFDSLWDOLVWD(EHPDRÂżQDOGRIUDJPHQWR lançando mĂŁo de mais um eufemismo, em outras palavras, do desvio, o viajante transforma a verdadeira razĂŁo da rivalidade â&#x20AC;&#x201C; o poder colonial â&#x20AC;&#x201C; em uma questĂŁo â&#x20AC;&#x153;naturalâ&#x20AC;? dos costumes. +i ÂżQDOPHQWH XP WHUFHLUR PRGR GH ROKDU TXH DMXGD D DUPDU R relato de Lesson, a saber, o do naturalista que elabora descriçþes mais GHWDOKDGDVHWpFQLFDVGRWHUUHQRGRFOLPDGDĂ&#x20AC;RUDHGDIDXQD0DVQHP assim, esse discĂ­pulo de Lineu e de Humboldt deixa de ir alĂŠm da sua especialidade, misturando ciĂŞncia natural, economia, polĂ­tica e literatura. Ao tratar do solo das Malvinas, ele escreve: A ossatura da Soledad ĂŠ formada por um terreno de xisto folheado [...] que suporta um arenito branquĂ­ssimo, de JUmRÂżQtVVLPRFRQVWLWXLQGRVHPGLYLVmRWRGDVDVFDGHLDV montanhosas [...]. O solo propriamente dito se encontra reduzido a uma argila vermelha de tom ocre [...]. Ora,


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Foster e Cook, descrevendo a natureza das rochas do Hâvre de NoĂŤl e da Terre des Ă&#x2030;tats indicam-nos a mesma composição mineralĂłgica, e resulta daĂ­ esta prova palpĂĄvel de que as Malvinas, da mesma forma que todas as ilhotas recortadas ao extremo do estreito de MagalhĂŁes, formavam uma coisa sĂł, que foi violentamente separada da AmĂŠrica por alguma grande catĂĄstrofe da natureza. (p. 336)

Essa descrição â&#x20AC;&#x201C; que Paul Groussac pode ter lido18, e na qual imperam os termos tĂŠcnicos e se atenuam as â&#x20AC;&#x153;largas pinceladasâ&#x20AC;? â&#x20AC;&#x201C; nĂŁo deveria ser interpretada sem se levar em conta a passagem anterior, na qual o viajante busca deixar clara, tambĂŠm em termos histĂłricos, a ligação das ilhas com a Espanha e, consequentemente, com a Argentina.

298

O tempo histĂłrico ĂŠ, aqui, reiterado pelo tempo mais longo da natureza. Assim, segundo Lesson, as Malvinas (e as Falkland) seriam parte da AmĂŠrica e, logo, pertenceriam naturalmente aos argentinos. Tudo indica que quem estĂĄ sendo visada ĂŠ, outra vez, a Inglaterra. ApĂłs dedicar algumas linhas Ă  escassa vegetação das Malvinas, Lesson começa a trata da fauna. Ele jĂĄ passara algumas pĂĄginas relatando a curiosidade e estupidez dos pinguins, o modo como eles eram violentados pelos marinheiros, e ainda a abundância de focas nas proximidades das ilhas, objeto de interesse de navios americanos e ingleses. Ressalta-se, nessa especulação sobre o mundo animal, o paralelo com o processo colonizador, a se dar em um espaço livre, cujos habitantes sĂŁo animais inocentes, que se podem tocar â&#x20AC;&#x201C; e matar â&#x20AC;&#x201C; com as mĂŁos: â&#x20AC;&#x153;Essa inexperiĂŞncia dos animais com relação ao homem nĂŁo ĂŠ novidade nos lugares inabitados de que nos ocupamos. Suas praias xistosas e escurecidas estĂŁo cheias de pĂĄssaros, que as aproveitam em paz e em uma imobilidade perfeitaâ&#x20AC;? (p. 360). Caso se pense nos paralelismos e correspondĂŞncias que faziam parte das mentalidades do perĂ­odo, nĂŁo deve ser desprezada a relação dos pĂĄssaros locais com os argentinos, atuais proprietĂĄrios das ilhas, porĂŠm inĂĄbeis para se aproveitar â&#x20AC;&#x153;de fatoâ&#x20AC;? delas, ou seja, para sair da â&#x20AC;&#x153;pazâ&#x20AC;? e da â&#x20AC;&#x153;imobilidadeâ&#x20AC;?. Da mesma forma, nĂŁo deve ser desprezado o paralelo das aves de rapina com os europeus glutĂľes, atrĂĄs dos pĂĄssaros inocentes, jĂĄ abatidos por outros caçadores: 18 De acordo com Groussac, no livro em que, como Lesson, busca mostrar como os faWRVGDKLVWyULDFRQFRUGDPFRPRVGDJHRJUDÂżDHTXHSRUWDQWRGmRRGLUHLWRDRVDUJHQWLQRVGDV terras que antes eram dos espanhĂłis, as descobertas da geologia e da botânica â&#x20AC;&#x153;fazem das ilhas Malvinas uma dependĂŞncia natural da PatagĂ´niaâ&#x20AC;? (GROUSSAC, 2012, p. 18). A seguir, retomo a relação do livro de Groussac com o relato de Lesson.


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Se os påssaros inofensivos são numerosos isso se deve, sem dúvida, ao instinto conservador que lhes foi dado, pois os abutres e os falcþes se multiplicaram na mesma SURSRUomRHGHPRQVWUDPXPDJXORGLFHHXPDFRQ¿DQoD cega que denunciam tanto uma audåcia incomum, quanto uma estupidez pouco normal. Quantas vezes essas aves de rapina tentaram tirar das mãos do caçador a presa que ele DFDEDYDGHDEDWHU" 

De fato, nesse jogo de perde e ganha são vårios os caçadores. Sobre as presas, mais do que os argentinos, que não existem para o viajante, elas parecem agora ser as próprias ilhas, que podem mudar de mãos a TXDOTXHUPRPHQWRMiTXHDVDYHVGHUDSLQDVmRDXWRFRQ¿DQWHVHHVWmR sempre prontas para o ataque. Uma última passagem, que repete aquela

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que vem logo após o encontro de Lesson com o túmulo do soldado inglês, permite avançar essa hipótese: Sobre uma terra improdutiva, onde não crescia uma årvore, onde nenhuma cultura alimentava os colonos, sob um cÊu nebuloso que predominava uma grande parte do ano, onde as provisþes deviam ser trazidas da metrópole, os espanhóis, donos de um terço do globo e de lugares PDLVIpUWHLVQmRSRGLDPQHPTXHULDP¿FDUDOLSHUPDQHQtemente. Satisfeitos de haver expulsado os rivais, eles se retiraram abandonando as Malvinas ao isolamento ao qual elas parecem condenadas ainda por muito tempo. Não Ê que a nova república do Prata não teve, em 1825, a veleidade de tomar posse delas; mas as tentativas incompletas HVHPUHVXOWDGRVQmRIRUDPVX¿FLHQWHVSDUDGDUFRQWDGR que poderão fazer por elas em tempos mais prósperos e assim que sua administração do interior estiver consolidada. (p. 349)

Mesmo que Lesson jĂĄ tenha se referido Ă s Malvinas como ponto estratĂŠgico para o comĂŠrcio e, logo no prĂłximo passo, escreva que â&#x20AC;&#x153;a posição das Malvinas ĂŠ feliz sobretudo como centro de pescaâ&#x20AC;?, e que, em outro momento veja as ilhas como importante ponto de abastecimento e descanso para quem vai em direção aos mares do sul, mesmo com tudo isso, o viajante insiste, ao longo do relato, sobre a sua improdutividade. Na passagem acima, esta serve de mote para tratar, novamente, dos espanhĂłis e, em seguida dos argentinos. A reiteração da improdutividade ajuda, tambĂŠm, para distinguir dois momentos, duas fases da colonização, aquela das grandes navegaçþes, dos espanhĂłis e portugueses, de uma nova, que envolveria sobretudo franceses e ingleses â&#x20AC;&#x201C; que sĂŁo os â&#x20AC;&#x153;rivaisâ&#x20AC;? a que ele se refere no texto â&#x20AC;&#x201C; e cujo interesse nĂŁo seria apenas o


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GDH[WUDomRGHVDEXVDGDFRPRR¿]HUDPRV³JOXW}HV´HVSDQKyLVSRVVXLdores de três quartos do globo. Os novos viajantes, empreendedores, de que Bougainville jå Ê um exemplo, teriam o poder de transformar as novas possessþes em algo efetivamente produtivo. Porque os argentinos, mesmo que os considere como os herdeiros naturais da terra, Lesson não os vê como capazes de tomar conta das ilhas, dada a sua desorganização política e imaturidade administrativa. Em suma, na concepção do viajante, as ilhas Malvinas, à Êpoca de sua viagem, estariam sem dono, e à espera de interventores. *** Escrevendo jå no sÊculo XX, com base nos relatos dos viajantes,

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principalmente daqueles cujas viagens foram feitas ao longo do sĂŠculo XVIII, Paul Groussac, em Les ĂŽles Malouines: nouvel exposĂŠ dâ&#x20AC;&#x2122;un litige, SDUHFHID]HUHFRjVLPSUHVV}HVGH/HVVRQDRDÂżUPDUTXHDYHUGDGHLUD causa da tomada das Malvinas pelo ingleses [...] era a anarquia polĂ­tica e social que dilacerava esses territĂłrios infelizes, e fazia deles presas totalmente despedaçadas para as monarquias europĂŠias. O que as preservou, e reduziu a conquista a alguns fragmentos de territĂłrio, foi [...] a competição dos apetites rivais que se respeitavam, sem deixar de lado os Estados Unidos, que jĂĄ punham os dentes para fora visando o MĂŠxico. (GROUSSAC, 2012, p. 53)

Portanto, no seu livro, Groussac, assim como Lesson, defende a tese de que a Inglaterra teria se aproveitado da desorganização argentina para atacar. E, nessa passagem em especial, apesar de nĂŁo vincular desorganização a inexperiĂŞncia ou infantilidade, como o faz Lesson, ele se vale da mesma alegoria que o viajante francĂŞs, a saber, a das aves de rapina e suas presas. A diferença, porĂŠm, ĂŠ que Groussac redimensiona a imagem, pondo a nu o empreendimento; retrospectivamente, transforma a retĂłrica da anti-conquista em conquista pura e simples, ao empregar vocĂĄbulos como â&#x20AC;&#x153;dilaceravaâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;despedaçadasâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;apetiteâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;dentesâ&#x20AC;?, do mesmo campo semântico que os de Lesson, mas que remetem a um corpo que ĂŠ efetivamente violentado por outros. AlĂŠm disso, ao incluir a prĂłpria França entre os predadores, Groussac permite ler um texto como o de Lesson, misto de ciĂŞncia e sentimento, como parte de um projeto competitivo e interessado nos fragmentos e nas ruĂ­nas da AmĂŠrica


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Latina; assim como o eram, aliás, os artistas românticos e os viajantes naturalistas, que, por paralelismo, ou correspondência, parecem dever muito a esses lugares inóspitos, “improdutivos”, na periferia do mundo, sem os quais palavras-chave como nação, romantismo e modernidade provavelmente não teriam sido inventadas.

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Diversidade e história

Raul Antelo (Universidade Federal de Santa Catarina)

Ao começar a guerra mundial, em 1939, o presidente da Academia Brasileira de Letras, Cláudio de Souza (1876-1954), empreende uma viagem pelas ilhas do Atlântico sul e nelas registra, fundamentalmente, o mistério daquelas paragens. Mistério, porque mistério foi essa res nullius até às vesperas de nossos dias. Quem a queria até o segundo quartel do século passado?... Ninguem! Fantasmagoria espectral, pèlago de perigos mil, báratro inacessível, onde a vida agonizava no soluço desesperado dos ventos, de deuses rebelados e vencidos, essa terra, essas cordilheiras, essas ilhas, êsse arquipélago são o estrangulamento da terra esfacelada pelo cataclismo e esmigalhada entre as espirais das serpentes imensas, das giboias sinistras dos canais... A água entrou-lhe pelo corpo decepado. Cortou-o de fístulas. Impediu-lhe a comunicação universal, e, isolando-a da solidariedade do continente, tornou-a um amontoado de rochedos e arrecifes. Res nullius... Ninguem a queria. A avidez humana de terras enviava-lhe, entretanto, seguidas


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expediçþes. Mas os descobridores morriam de sede e de fome, esmigalhavam-se contra as pedras, ou regressavam esquĂĄlidos e combalidos para todo seu curto resto de vida, escrevendo como Cook em 1769: â&#x20AC;&#x201C; â&#x20AC;&#x153;Ă&#x2030; a terra mais horrĂ­vel que atĂŠ hoje tenho visto. NĂŁo pĂłde haver na natureza lugar mais agresteâ&#x20AC;?. 2XWURH[SORUDGRURFDSLWmR6DPXHO:DOOLVFRQÂżUPDHVVD impressĂŁo, escrevendo: â&#x20AC;&#x201C; RegiĂŁo selvagem e inhabitĂĄvel que mais parece ruina de um mundo que habitação de seres humanos. Contavam outros, entretanto, como John Byron, naquela PHVPDpSRFD9LQHODĂ&#x20AC;{UHVQmRLQIHULRUHVjVQRVVDVQD variedade, no colorido e no perfume. Essa regiĂŁo, trabalhada pela cultura, serĂĄ uma das mais belas do mundo. Outros haviam avistado naquela costa seres humanos de proporçþes avantajadas, com enormes pĂŠs lanudos, torsos vigorosos e cabeças altivas, raça forte e rara, descendentes dos deuses gigantescos de mundo desaparecido. Entretanto ninguĂŠm queria essa terra, espĂŠcie de polvo de mil tentĂĄculos, onde as fĂşrias infernais ora se deixavam surpreender na horridez de seu monstruoso sabbath, ora VHPRVWUDYDPĂ&#x20AC;RULGDVHIHVWLYDVLQXQGDGDVGHVROFKLOreantes de pĂĄssaros, repousantes de sombra e cheias dos encantos das sereias para atrair o viajante e devorĂĄ-lo.1

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A condição de ser uma terra habitada pelo mistÊrio alimenta, em 1

SOUZA, Claudio de. Terra do fogo (ImpressĂľes de viagem ĂĄ regiĂŁo do polo Sul).

Rio de Janeiro, P.E.N. Clube do Brasil, s/d, p. 7-9. Adolfo Prieto, partindo da hipĂłtese de que â&#x20AC;&#x153;algunos de los viajeros ingleses que llegaron a la Argentina entre los aĂąos 1820 y 1835 aproximadamente, elaboraron una imagen del paĂ­s segĂşn pautas de selecciĂłn y de jerarquizaciĂłn muy HVSHFtÂżFDV´FRQFOXLXTXHÂłDOJXQDVGHHVDVSDXWDVVHDQWLFLSDUDQHQYDULRVDxRVRIXHUDQHQHO momento de publicaciĂłn de los textos, estrictamente contemporĂĄneas a las empleadas por escritores que, como Alberdi, EcheverrĂ­a, Sarmiento y MĂĄrmol, proclamaron y contribuyeron, de hecho, a la fundaciĂłn de la literatura nacional argentinaâ&#x20AC;? (p.12-3). NĂŁo obstante, Prieto conclui o retrospecto do relevamento britânico com a constatação de que esse cenĂĄrio ĂŠ expandido por 'DUZLQH)LW]5R\FRPDLQFRUSRUDomRGRLPHQVRWHUULWyULRSDWDJ{QLFRD7HUUDGR)RJRHDV ilhas Malvinas, â&#x20AC;&#x153;un paisaje distinto, una poblaciĂłn y una historia remota o escasamente vinculada a la poblaciĂłn y la historia asentadas en el varias veces secular corredor establecido por los colonizadores espaĂąoles. De alguna manera, entonces, la particular naturaleza de este complemento viene a redimensionar, a reubicar, a ordenar de nuevo el grueso del material acumulado por el propio Darwin y por los otros viajeros que lo precedieron de cerca. Entender la segunda operaciĂłn como complementaria de la primera es admitir, simplemente, que Darwin construye en su diario una imagen de la Argentina mĂĄs abarcadora y compleja de la que muchos de los propios argentinos tenĂ­an del paĂ­s entre los aĂąos 1835 y 1845. La tercera operaciĂłn, sin embargo, la del rescate del recuerdo de la Patagonia como el recuerdo mĂĄs perdurable del viaje alrededor del mundo, tiene menos que ver con una Patagonia poblada todavĂ­a de nativos de alta talla, que con el ambiguo sentimiento sugerido por sus vastas latitudes a un observador europeo: el de UHSUHVHQWDUDFDVROD~OWLPDIURQWHUDDODYROXQWDGGHDSURSLDFLyQGHOFRQRFLPLHQWR´35,(72 Adolfo. Los viajeros ingleses y la emergencia de la literatura argentina, 1820-1850. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1996, p. 88.


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consequência, a conexão desse território com o mito. Um estudioso da questão, o italiano Furio Jesi (1941-1980), pautou suas pesquisas pelos HVWXGRVGHXPSUHFXUVRUFRPR%DFKRIHQTXHFRQ¿JXUDYDPXPGHVD¿R para o Esclarecimento, na medida em que foram sempre considerados equívocos para aqueles que do Iluminismo tinham escolhido, tão somente, seu aspecto diurno, espalhando a luz, no entanto, para a objetiYLGDGH¿OROyJLFDTXHSUDWLFDYDPFRPWRGDVDVDUPDVGRSRVLWLYLVPR Bachofen, pelo contrårio, inclinava-se em direção às profundidades do ser e do pensamento, essa região obscura que se apresentava como um perigo, um terreno tambÊm de perigosas areias movediças ou de pântanos cheios de fantasmas, onde o risco era particularmente grande porque a essência do pensamento iluminista implicava uma dialÊtica entre a

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luz e as trevas, que se traduzia, frequentemente, em exorcismo das trevas: considerava-se a luz como o contrårio das trevas, quando, caberia pensar, à maneira de Santo Agostinho, na treva como uma ausência de luz. Bachofen, que propunha um fundamento funerårio da propriedade, argumentando que o núcleo da propriedade era a posse fundiåria, e que o núcleo desta Ê o túmulo, punha o estudioso da mitologia frente à responsabilidade, despertada aliås por Rousseau, de ser um simples exegeta das características das sociedades primitivas e, portanto, de todas as sociedades humanas, graças à equivalência entre primitivo e primordial, ou, em outras palavras, em virtude da postulação de um fundamento perene para a avaliação simbólica ou cultural2. Particularmente em seu ensaio sobre Bachofen, Jesi esclarece um aspecto da måquina mitológica sobre a qual descansavam relatos como o de Clåudio de Souza, aspecto HVVHTXHpWULEXWiULRDOLiVGDVWHVHVVREUH¿ORVR¿DGDKLVWyULDGH%HQMDmin, ao argumentar que a relação com o antigo sempre suscitou, na cultura ocidental, uma quantidade de pesquisas esotÊricas, frequentemente PHVFODGDVDRXWUDVSURSULDPHQWH¿OROyJLFDVPDVGHVGHRVLQtFLRVGD HWQRJUD¿D H D HWQRORJLD HP WRGDV HODV FRPSURYDVH TXH RV GLYHUVRV enquanto antigos, possuem segredos e mistÊrios de que os diversos, enquanto selvagens, foram desprovidos. Para ilustrar essa violência de privação simbólica, poderíamos nos valer da imagem de John Byron citada SRU&OiXGLRGH6RX]DRVPDUHVGRVXOFRPRXPFRQ¿PKDELWDGRSRU um polvo de mil tentåculos que aí dominava em um monstruoso sabbath,HPTXHEHPSRGHPRVUHFRQKHFHUD¿JXUDGR Leviathan de Hobbes. Mas Jesi relembrava outro caso, o do monge benedetino Antoine-Joseph 2

JESI, Furio. O Mito7UDG/HPRVGH$]HYHGR/LVERD3UHVHQoDS


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Pernety, ou ainda Dom Pernety (1716-1801), um dos primeiros visitanWHV GD LOKD GH 6DQWD &DWDULQD TXH IRL WDPEpP DUTXHyORJR ¿OyORJR H esoterista, em cujos estudos, embora, de um lado, se admitisse que a WUDGLomRPLWROyJLFDGDJXHUUDGH7URLDVHUHODFLRQDYDFRPVtPERORVDOquímicos, de outro, antecipando-se, por exemplo, a Clåudio de Souza, limitava-se a assumir a função objetiva de etnógrafo, em seu relato da viagem empreendida com Louis-Antoine de Bougainville às ilhas Malvinas, em que descrevia os håbitos dos selvagens que lå encontrou sem resgatar-lhes, porÊm, nenhum segredo, nenhum enigma, como puro e simples viajante curioso e discretamente objetivo pelos mares do sul3. Em poucas palavras, Jesi nos diz que, para equacionarmos as relaçþes entre o antigo e o selvagem, Ê necessårio, antes de mais nada, analisar os

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modelos gnoseológicos utilizados para produzir as múltipas categorias do diverso às quais recorremos quase sem pensar. Em suma, Pernety procedeu a des-historicizar uma cultura que Clåudio de Souza, a seguir, S{GHHQ¿P¿FFLRQDOL]DUPDLVOLYUHPHQWH0DVLVVRQmROLEHUDRVWH[WRV em questão de uma marca histórica muito precisa, que Jesi desentranha com agudeza. Julga, assim, que os primeiros viajantes às Malvinas eram esotÊricos, na medida em que reconheciam, nas formas simbólicas, a precedência de antigos esquemas, mas, não obstante, observa que eles HUDPLJXDOPHQWHFLHQWt¿FRVHQTXDQWRDEROLQGRRVHJUHGRGHVFUHYLDP usos e pråticas culturais com uma suposta objetividade universal. Com esse raciocínio, Furio Jesi instala, no coração mesmo do mito (a fåbula), RHVSHOKRGDPLWRORJLD D¿FomR HQRVGL]SRUWDQWRTXHDOyJLFDGDUHpresentação (a história) estå minada, então, pelo regime da verdade (da ambivalência). E a esse respeito explica que

Ao atribuírem aos diversos-antigos e não aos diversosselvagens a propriedade do segredo, os esoteristas não se limitam a preservar passivamente sua riqueza, mas a defendem ativamente, usufruindo da dimensão temporal (em que colocam a exibição dos bens) para dar fundamento à projeção da duração dos bens exibidos. A esfera dos GLYHUVRVDQWLJRVSUHVHUYDFRPRXPHVWRMRGH¿QLWLYDPHQte congelado a raiz do segredo, entendido como diferença por antonomåsia. Ao conservar aí essa raiz, os esoteristas colocam-na, deliberadamente, a resguardo das turbulências da história: no seguro, em um lugar onde ela não poderå nunca mais ser cortada e, portanto, sempre poderå vir a fundamentar e alimentar a futura duração da planta.

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IDEM. Bachofen7RULQR%ROODWL%RULQJKLHULS


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Os diversos-selvagens, que gozam de contemporaneidade com os esoteristas, estĂŁo, pelo contrĂĄrio, expostos cotidianamente aos perigos da histĂłria â&#x20AC;&#x201C; e tanto mais, a partir do momento em que a descoberta de sua condição de â&#x20AC;&#x153;cidadĂŁosâ&#x20AC;?, quebrou as Ăşltimas barreiras que separavam seu prĂłprio tempo daquele dos â&#x20AC;&#x153;civilizadosâ&#x20AC;?, sua prĂłpria hisWyULDGDKLVWyULDGD(XURSD,VVRVLJQLÂżFDDOpPGRPDLV que a verdadeira diversidade, a diversidade por antonomĂĄsia, essa que pode coincidir com o segredo enquanto extrema diversidade, ĂŠ apenas a diversidade no tempo, uma vez que somente a diversidade no tempo pode ser FRQÂżJXUDGDFRPRHOHPHQWRHÂżFD]GHUXSWXUDGRPRGHOR da histĂłria como continuum Ăşnico. E justamente ĂŠ essa ruptura o objetivo preliminar das doutrinas e das prĂĄticas esotĂŠricas4.

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Ă&#x2030; bom observar que, pouco antes de ClĂĄudio de Souza, um dos mais celebrados modernistas do grupo MartĂ­n Fierro, Sergio PiĂąero ÂżOKRDTXHP%RUJHVDOLiVGHGLFDVHXSURWRWtSLFRÂł/H\HQGDSROLFLDO´ (1927), sorte de proto-texto de â&#x20AC;&#x153;Homem da esquina rosadaâ&#x20AC;?, empreende a mesma viagem mĂ­tica ao sul (tĂłpico compartilhado nĂŁo sĂł com BorJHVPDVWDPEpPFRP0DUHFKDORX0ROLQDUL PDLVHVSHFLÂżFDPHQWHjV Orcadas, e tambĂŠm equaciona o mistĂŠrio austral em chave policial, pois ĂŠ na convenção desse gĂŞnero que entĂŁo se exprimia o infame.

La vida aventurera tiene una atracciĂłn invencible. Es la vida del abandono donde impera constantemente la suerte. A la despreocupaciĂłn de lo que les rodea se aĂąade la voluptuosidad de lo imprevisto que cambia la vida y las rutas de la existencia. En las almas nĂłmades esa inclinaciĂłn al constante vagar se torna imperativo, obsesionante. Y en cuestiĂłn de suerte muchos hay que no pueden substraerse a la emociĂłn de un pleno cuando la ruleta es la vida mismaâ&#x20AC;Ś Viven dedicados a su trabajo atisbando Ăşnicamente el momento de encontrarse frente a frente con una botella de whisky. A las escasas mujeres, retraĂ­das en sus casas, poco se las ve; y cuando por cualquier motivo cruzan a la vista, los ojos van tras sus carnes, libremente desparramadas en impĂşdica observaciĂłn que desconcierta. Las conversaciones hieden a comercio y sexualismo como la bahĂ­a a aceite. Pero teniendo la precauciĂłn de repartir sendas y virtuosas copas, la plĂĄtica se vuelve inagotable surtidor de asuntos novedosos que se escuchan con avidez. Un viejo obrero de factorĂ­a se hizo gran amigo mĂ­o. Ha4

IDEM â&#x20AC;&#x201C; ibidem, p. 27-28.


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cĂ­a quince aĂąos que vivĂ­a en la isla. Contaba ya sesenta y cinco de edad. Por sobre la cabecera de su lecho de viudo, atrĂĄjome el cristal de una fotografĂ­a reproduciendo una preciosa joven noruega de ojos transparentes y cabellos sobre la cara, del color de los crepĂşsculos boreales. Era su hija. Me hablaba de ella con la emociĂłn temblorosa de un alucinado. RelatĂĄbame cĂłmo se viĂł obligado a dejarla y cĂłmo pasaron de veloces los aĂąos, uno tras otro, en el ansia de reconstruir la fortuna perdida en una mala racha del juego obstinado. â&#x20AC;&#x201C;Pero ya lo he conseguido,â&#x20AC;&#x201C; me decĂ­a, â&#x20AC;&#x201C;zarparĂŠ el prĂłximo mes para estrecharla entre mis brazos. ÂĄPobrecilla! ÂĄQuiĂŠn sabe dĂłnde estĂĄ y lo que es! Pero la verĂŠ. ÂĄOh, sĂ­ la verĂŠ! ÂżComprende usted? ÂĄVerĂŠ a mi hija!... Una noche mi viejo amigo me enviĂł a bordo un gentil obsequio: una gorra noruega de cuero, recubierta de pieles. Para sorprenderlo la coloquĂŠ sobre mi cabeza y me dirijĂ­ de puntillas a su habitaciĂłn en un pequeĂąo chalet cercano a la factorĂ­a. Sobre el lecho, el anciano descansaba con placidez, soĂąando quizĂĄs en las sonrosadas mejillas de aquella su hija, tan inocente y tan rubiaâ&#x20AC;Ś Me acerquĂŠ a llamarlo.

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Estaba muerto.5

Se o relato de PiĂąero, como Lenda policial, ĂŠ uma maneira de sentir-se em morte e equivale, remedando Sarlo, a um formalismo regional de vanguarda, o poeta Manoel Ricardo de Lima opera, em uma mesa de trabalho nĂŁo muito diversa Ă  de Vitor Chlovski em sua Viagem sentimental, no intuito de ler a poesia brasileira contemporânea, em particular, o caso limite de AnĂ­bal Cristobo (1971- ), poeta bilingue e encavalgado a duas culturas, atravĂŠs da evocação de um muito conhecido poema de Borges, â&#x20AC;&#x153;Juan LĂłpez y John Wardâ&#x20AC;?, que trata de um encontro imprevisto entre dois soldados, durante a guerra nas Malvinas. Observa o crĂ­tico que a transparĂŞncia desse enfrentamento rosto a rosto, ou livro a livro, e lĂ­ngua a lĂ­ngua, numa peculiar postulação do neutro (os ninguĂŠns Juan LĂłpez e John Ward) e, ao mesmo tempo, a demarcação da literatura de Cervantes e Conrad, que Borges louva, no poema, como paradigmas de suas respectivas lĂ­nguas, desfaz o semblante sugerido SHODVLGHLDVGHPLWRHWHUULWyULRRXGHOHLHQRPHHWHQVLRQDHQÂżPXP TXDGURTXHDSRLDGRHP*LRUJLR$JDPEHQ0DQRHO5LFDUGRLGHQWLÂżFD com a tĂłpica de â&#x20AC;&#x153;o amigoâ&#x20AC;? e â&#x20AC;&#x153;a amizadeâ&#x20AC;?. Evoca assim o nosso autor 5

PIĂ&#x2018;ERO HIJO, Sergio. El puĂąal de Orion. Apuntes de viaje. Buenos Aires: Proa,

1925, p. 113-116.


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que, em O amigo, Giorgio Agamben parte, com efeito, de uma tela de Giovanni Serodine, chamada Incontro de San Pietro e San Paolo sulla via del martirio SDUDDFHUWDDOWXUDDÂżUPDUTXH

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Na Galleria Nazionale di Arte Antica, em Roma, se conserva um quadro de Giovanni Serodine que representa o encontro dos apóstolos Pedro e Paulo a caminho de seu martírio. Os dois santos, imóveis, ocupam o centro da tela, rodeados pelos gestos desordenados dos soldados e dos carrascos que os conduzem ao suplício. Os críticos muitas vezes mostraram o contraste entre o rigor heróico dos dois apóstolos e a balbúrdia da multidão, visível aqui e ali por clarþes respingados quase que por acaso sobre os braços, sobre os rostos, sobre as trombetas. Por mim considero que aquilo que torna esse quadro propriamente incomparåvel Ê que Serodine representou os dois apóstolos tão perto um do outro, com os rostos quase colados, que eles não podem absolutamente ver-se: a caminho do martírio, eles se olham sem se reconhecer. Essa impressão de uma intimidade por assim dizer excessiva Ê ainda inWHQVL¿FDGDSHORJHVWRVLOHQFLRVRGDVPmRVTXHVHDSHUWDP abaixo, um pouco escondidas. Sempre me pareceu que esse quadro contivesse uma perfeita alegoria da amizade. O que Ê, na verdade, a amizade, senão uma proximidade tal que não Ê possível representå-la, nem fazer dela um conceito?

Manoel Ricardo, em poucas palavras, sublinha o carĂĄter ĂŞxtimo da relação amigo-inimigo mas, por outro lado, nĂŁo deixa de destacar que, com a assertiva de â&#x20AC;&#x153;um tempo que nĂŁo podemos entenderâ&#x20AC;?, retirada aliĂĄs do poema de Borges, e partindo, ainda, do princĂ­pio de que o temSRpÂżUPHHLPyYHOHTXHHPWRUQRGHOHQyVRVKRPHQVFULDPRVXPD ilusĂŁo insuspeita de movimento, poderĂ­amos concluir que

ĂŠ imprescindĂ­vel ler e ver tambĂŠm a poesia de AnĂ­bal Cristobo numa tripartição de quando, quanto e como ela pode ou consegue (ou conseguiria) ainda se desprender da histĂłria e, assim, sucessivamente, das ideias que poderiam YLUGHXPOXJDUHVSHFtÂżFRHQDFLRQDOL]DGR$UPDVHDVVLPXPWHPSRGDFRQWLQJrQFLDLUUHĂ&#x20AC;HWLGDGRFRUSRVROWR no mundo para experimentar a aventura, a aventura como espera, suspensĂŁo e, principalmente, com a permissĂŁo do HQFRQWUR H GD H[LVWrQFLD GH 80 28752 RX VHMD FRP coragem. Para Walter Benjamin, a coragem tem a ver nĂŁo sĂł com limitação, mas tambĂŠm com a posse do prĂłprio corpo; diz ele que a â&#x20AC;&#x153;coragem ĂŠ entrega ao perigo que ameaça o mundoâ&#x20AC;?, que para uma â&#x20AC;&#x153;pessoa corajosa o pe-


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rigo existe, no entanto, ela nĂŁo o trata com consideraçãoâ&#x20AC;? (...). Uma abolição da diferença entre um eu suposto e um outro mais suposto ainda tende a abolir a coragem, esta atitude que â&#x20AC;&#x153;quanto mais profundamente ĂŠ compreendida, torna-se menos uma caracterĂ­stica do que uma relação do homem com o mundo e do mundo com o homemâ&#x20AC;? (...); e ainda, sem parar, tende a abolir tambĂŠm a possibilidade de um eu num outro, apagando assim qualquer heterogeneidade.

Uma tal anålise, acionada, não esqueçamos, pelos rostos colados dos dois soldados amigos-inimigos, mas, certamente, mutuamente desconhecidos, leva o crítico Manoel Ricardo a montar esses textos junto a mais um, um poema de Francisco Alvim, logo de seu primeiro livro,

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Sol dos cegos  LQWLWXODGR³3DUDOD[H´HPTXHVHSRGHOHUHQ¿P a repetição diferida da imagem do quadro de Serodine e, tambÊm, a reiteração de uma imagem imposta como encontro e, ao mesmo tempo, a certeza de ser um encontro, certamente, fadado ao insucesso e, portanto, XPSRGHURVRVLJQL¿FDQWHGD³SDLVDJHPGRYD]LR´TXH0DQRHO5LFDUGR LOXVWUDYHUWLJLQRVDPHQWHFRPDOJXQVIUDJPHQWRVGRWUHFKR¿QDOGHVVH poema:

Amo-te sim como a mim mesmo irmĂŁo paralelo

olho no olho a luz do mundo sĂł se ilumina quando soma tua visĂŁo e a minha Nutre o tempo, o real de nossos ombros paralelos elos contra o velho)


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[...]

Um país de putas chão pisado de botas Um país pobre fezes que a cobra expele e que redevora

[...]

Puxa o gogo o pedagogo

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cusporeja a grande perda “Não deviam consentir é mesmo um país de merda”

Putas inventam o rio da sede 7DPEpPQDPHVDGREDU à conversa dá-se trela eu mais ela ela mais eu quando ela e eu eu e ela por onde navegas a paisagem do vazio6

Estes aspectos de uma luta cultural primordial se reativam quando ponderamos que a recente comemoração dos trinta anos da guerra das Malvinas provocou também uma série de ações e avaliações tão inéditas quanto ambivalentes. Exercícios bélicos britânicos que, ao que tudo indica, não desdenham armamento nuclear; novas explorações de petróleo na região, que se somam à pesca predatória já empreendida por outros 6

LIMA, Manoel Ricardo de. Aníbal Cristobo. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2013, p. 17-22

[Col. Ciranda da Poesia].


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paĂ­ses como o JapĂŁo e a Espanha, cujos efeitos, aliĂĄs, sentem-se em nossas mesas, dia a dia, com o sumiço de variedades outrora frequentes. No entanto, a cobertura corriqueira da mĂ­dia insistiu, quase exclusivamente, no carĂĄter anormal das declaraçþes do governo argentino, quase tachadas de bravatas, tirando relevância, ou mesmo naturalizando, a presença do PrĂ­ncipe britânico, em roupas de combate, no arquipĂŠlago. EstarĂ­amos, nos dizem, frente a um clĂĄssico exemplo de contradiçþes polĂ­ticas em torno a uma soberania inconteste, questĂŁo Ă  qual nĂŁo ĂŠ sensato deGLFDUQHPWHPSRQHPPHVPRUHĂ&#x20AC;H[mR0DVpSRVVtYHOFRQWXGRDLQGD TXDOLÂżFDURGLIHUHQGRGH0DOYLQDVGHFRQWUDGLomROyJLFD"6HULDPHVPR XPFRQĂ&#x20AC;LWRHQWUHPLWRHUD]mR"(QWUHDUFDtVPRHPRGHUQLGDGH"0HVPR .DQWHQDVXDHVWHLUDÂżOyVRIRVFRPR*DOYDQR'HOOD9ROSHSDUWLQGRGD

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diferenciação estabelecida pelo antecessor alemão entre a contradição lógica, que Ê sempre uma contradição entre conceitos, e a oposição real, entre os objetos do mundo, que Ê sempre uma disputa de poder, chegaram à certeza de que o antagonismo não pode ser uma contradição, simplesmente porque a contradição não pode acontecer entre objetos lóJLFRV$¿ORVR¿DKHJHOLDQDKRMHEDQDOL]DGDSHODPtGLDDWpVHWRUQDUFRQsensual, considera os antagonismos sociais meras contradiçþes, porque opera com um pensamento idealista que reduz a realidade a conceitos, quando o caso Malvinas nos ilustra, pelo contrårio, algo mais importante ainda: que os antagonismos sociais não são contradiçþes, nem oposiçþes reais. Antes pelo contrårio, são o limite de toda objetividade, o contorno GRTXHVLJQL¿FDDFDWDUDOHLVRFLDOXQLYHUVDOHSRUWDQWRLOXPLQDPWDPbÊm o instante em que a sociedade descobre sua própria impossibilidade de constituir-se como ordem objetiva necessåria. Apesar de todas as exortaçþes das Naçþes Unidas, a recusa britânica em sentar-se à mesa de negociaçþes representa esse limite que o universalismo idealista, tambÊm conhecido como colonialismo, decide ignorar: as efetivas condiçþes históricas de uma produção simbólica, o fato de o Atlântico Sul ter sido, tradicionalmente, uma årea de paz, condiçþes que são uma parte da produção histórica ela mesma. Relembremos que, em plena I Grande Guerra, e em Buenos Aires, então comemorando seu primeiro Centenårio de independência, Rui Barbosa constatava uma regra da modernidade ocidental, qual seja, a de que cresce, com efeito, a convicção de que os povos mais civilizados são os que mais lutam e investem em armamento, colaborando com o pensamento dominante no sentido de apresentar a guerra como uma divindade que


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VDJUDHSXUL¿FDRVHVWDGRVeHVVHRPLWRDJXHUULGRGRVQDFLRQDOLVPRV colonialistas. Contra o risco de que o ideal do estado se corrompa no ideal do dinheiro, ou diante da impossibilidade de ocultar essa inegåvel conivência, a única alternativa possível residiria na guerra. Portanto, a guerra, dizia Rui Barbosa em 1916, Ê um dos fatores essenciais da moralidade ocidental, uma vez que, graças a ela, a Êtica passa a se separar completamente da vontade, porque aquele que primeiro usar a força, sem medir o sangue derramado, terå sempre consigo, inexoravelmente, grande vantagem sobre o adversårio. Mas, caberia ainda, em um cenårio tão complexo quanto o contemporâneo, a possibilidade de sermos neutrais? Não se trata apenas de ser neutral, como Rui propunha aos países GR$WOkQWLFR6XOHP7UDWDVHSHORFRQWUiULRGHTXHRVJUDQGHV acatem a lei e se sentem à mesa de negociaçþes para garantirem a paz.

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Caso contrårio, nunca terão sido mais vålidas as palavras de Harold Pinter, em War³7KHGHDGDUHGLUW7KHOLJKWVJRRXW7KHGHDGDUHGXVW´ Qual a lição que nos deixa a poeira do tempo? Diante da atual crise da ordem global e, em particular, frente à ausência de respostas da GHPRFUDFLDDRGHVD¿RGDLJXDOGDGHRFLHQWLVWDVRFLDOSRUWXJXrV%RDventura de Sousa Santos perguntava-se, recentemente, por que motivo a atual crise do capitalismo acaba fortalecendo, paradoxalmente, a quem a provoca. Por que a grande maioria dos cidadãos assiste a seu próprio empobrecimento como se fosse inevitåvel, e, no entanto, avalia o escandaloso enriquecimento de uma minoria como se fosse necessårio? 3RUTXHDHVWDELOLGDGHGRVPHUFDGRV¿QDQFHLURVVypSRVVtYHOjFXVWDGD instabilidade, na vida da grande maioria da população? A resposta a esVDVTXHVW}HVVHJXQGR6RXVD6DQWRVpSRUTXHRFUHVFLPHQWRHFRQ{PLFR SDUHFHDWXDOPHQWHDSDQDFHLDH[FOXVLYDSDUDWRGRVHVVHVPDOHVHFRQ{micos e sociais, sem que nada se questione acerca dos custos sociais e ambientais dessa alternativa e isso simplesmente porque

o neoliberalismo Ê, antes de tudo, uma cultura do medo, do sofrimento e da morte para as grandes maiorias: a ele QmRVHFRPEDWHH¿FD]PHQWHVHQmROKHRSXVHUXPDFXOWXUD GDHVSHUDQoDGDIHOLFLGDGHHGDYLGD$GL¿FXOGDGHTXH as esquerdas têm, para assumirem-se portadoras dessa outra cultura, advÊm da queda, durante grande tempo, na armadilha com que as direitas sempre se mantiveram no poder: reduzir a realidade ao que existe, por mais injusto e cruel que seja, para que a esperança das maiorias pareça irreal. O medo na espera mata a esperança de felicidade. Contra esta armadilha Ê preciso partir da ideia de que a


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realidade ĂŠ a soma do que existe, e de tudo o que nela emerge, como possibilidade e luta por concretizar-se. Se as esquerdas nĂŁo sabem detectar as emergĂŞncias, serĂŁo submergidas ou irĂŁo parar nos museus, o que ĂŠ o mesmo.

Esse deveria ser, segundo o autor, o novo ponto de partida para as esquerdas, ampliar a realidade sobre a qual se deve atuar politicamente, como prova de que ĂŠ possĂ­vel lutar contra a suposta fatalidade da morte, em nome do direito Ă  vida. E essa luta, a seu ver, deve ser conduzida por trĂŞs palavras-guia: democratizar, desmercantilizar, descolonizar.

Democratizar a prĂłpria democracia, jĂĄ que a atual deixouse sequestrar pelos poderes antidemocrĂĄticos. Ă&#x2030; preciso tornar evidente que uma decisĂŁo tomada de forma democrĂĄtica nĂŁo pode ser destruĂ­da, no dia seguinte, por uma DJrQFLDTXDOLÂżFDGDGHULVFRVRXSRUXPDEDL[DQDFRWDção das Bolsas   'HVPHUFDQWLOL]DU VLJQLÂżFD PRVWUDU que usamos, produzimos e intercambiamos mercadorias, porĂŠm que nĂŁo somos mercadorias, nem aceitamos nos relacionarmos com os outros, e com a natureza, como se fossem uma mercadoria a mais. Somos cidadĂŁos antes de sermos empreendedores e, para que o sejamos, ĂŠ imperativo que nem tudo se compre, nem tudo se venda, que existam bens pĂşblicos e bens comuns como a ĂĄgua, a saĂşde, a HGXFDomR'HVFRORQL]DUVLJQLÂżFDGHVHQUDL]DUGDVUHODo}HV sociais a autorização para dominar os outros, sob o pretexto de que sĂŁo inferiores: porque sĂŁo mulheres, porque possuem uma cor de pele diferente ou porque pertencem a uma religiĂŁo estranha7.

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2GHVDÂżRSRUWDQWRpJDUDQWLUDGLYHUVLGDGHFXOWXUDOSRUpPQmR vendo os diversos enquanto selvagens, desprovidos do direito Ă  vida, mas considerĂĄ-los, entretanto, diversos enquanto antigos detentores de segredos e enigmas que ainda nos determinam, na linguagem e no pensamento.

7

SANTOS, Boaventura de Sousa. â&#x20AC;&#x153;Democratizar, desmercantilizar, descolonizarâ&#x20AC;?. PĂĄgina/12,

Buenos Aires, 12 abril, 2012.


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BIBLIOGRAFIA JESI, Furio. O Mito7UDG/HPRVGH$]HYHGR/LVERD3UHVHQoD _____. Bachofen7RULQR%ROODWL%RULQJKLHUL LIMA, Manoel Ricardo de. AnĂ­bal Cristobo. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2013 [Col. Ciranda da Poesia]. PIĂ&#x2018;ERO HIJO, Sergio. El puĂąal de Orion. Apuntes de viaje. Buenos Aires: Proa, 1925. 35,(72$GROIRLos viajeros ingleses y la emergencia de la literatura argentina, 1820-1850. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1996 6$1726%RDYHQWXUDGH6RXVDÂłDemocratizar, desmercantilizar, descolonizarâ&#x20AC;?. PĂĄgina/12, Buenos Aires, 12 abril, 2012.

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SOUZA, Claudio de. Terra do fogo (ImpressĂľes de viagem ĂĄ regiĂŁo do polo Sul). Rio de Janeiro, P.E.N. Clube do Brasil, s/d.


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