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ACORDO COM UM REBELDE – Annie West Cinco anos atrás, Poppy Graham se casou com Orsino Chatsfield sob uma constelação de flashes dos paparazzi. Contudo, no pior momento de sua vida, ele a decepcionou. Quando Orsino sofre um acidente escalando, sabe que só pode contar com a ajuda de uma pessoa: sua esposa! Mesmo separados, existem assuntos pendentes entre os dois. Uma paixão avassaladora ainda arde em seus corações, deixando no ar a esperança de que talvez seja possível recuperar um matrimônio em ruínas…

HERDEIRA DESAFIADORA – Lynn Raye Harris Lucilla é a única Chatsfield a honrar a linhagem da família. Mas quando sua posição é usurpada pelo arrogante e sensual Christos Giatrakos, ela se recusa a curvar-se perante as ordens dele. Afinal, Lucilla apenas joga para ganhar, por isso, decide aumentar as apostas com a ameaça de revelar segredos de Christos! Para salvar sua reputação, ele é obrigado a voltar ao lar que quase o destruiu. Ao conhecer a verdade sobre o passado de Christos, Lucille sabe que precisa curar as feridas que ajudara a reabrir… e se entregar de corpo e alma ao homem que ousou desafiá-la.


Bem-vindo ao hotel mais glorioso do mundo, cujos clientes são extremamente ricos e famosos. Seja nos Estados Unidos, na Austrália, na Europa ou em Dubai, nossas portas estarão sempre abertas para recebê-lo. Hotel Chatsfield Sofisticação, desejo… e escândalos! Por muitos anos, os filhos de Gene Chatsfield chocaram a mídia global com suas façanhas. Mas chega! Quando Gene indica Christos Giatrakos como o novo CEO com o intuito de pôr as crianças na linha, mal sabia a reação que estava desencadeando. A primeira ordem de Christos é espalhar os Chatsfield por todos os seus domínios internacionais – de Las Vegas a Montecarlo, de Sidney a São Francisco… Mas será que esses herdeiros estão a altura do desafio imposto por um homem que carrega tantos segredos obscuros em seu passado? Que o jogo comece! Seu quarto já foi reservado, faça o check-in e aproveite toda paixão e escândalo que temos a oferecer!


Annie West Lynn Raye Harris

HOTEL CHATSFIELD 4 DE 4

Tradução Leandro Santos

2015


SUMĂ RIO

Acordo com um rebelde Herdeira desafiadora


– Cuide de mim durante algumas semanas, e eu liberto você. – Como assim vai me libertar? A boca dele se ergueu em um dos cantos. – Óbvio. Vou aceitar o divórcio. – Por que eu devia ter esse trabalho se posso simplesmente procurar um advogado e dar entrada nos papéis? Ele não gostou daquilo. Poppy viu isso na contração de sua boca. – Porque posso facilitar o divórcio... ou dificultar. Você pode escolher se vai ser tranquilo e rápido, ou demorado e muito, muito público. O silêncio latejou entre eles, trazendo de volta vulnerabilidades que ela pensara ter superado, e um desafio que Poppy não ousou recusar. O divórcio significaria o fim do relacionamento deles. Nada mais de arrependimentos, nada de pensar em possibilidades durante madrugadas insones. Um divórcio a libertaria. Ela se considerara livre de Orsino, mas sua reação lhe mostrara o oposto. Apesar de ele ter destruído seus sonhos, ainda restava emoção. Um resquício que ela estava determinada a aniquilar. – Então, temos um acordo, Orsino. Vou dar a você algumas semanas, pelos velhos tempos. Depois, nunca mais quero ver você.


Annie West

ACORDO COM UM REBELDE

Tradução Leandro Santos


Sobre a autora Annie West Annie West passou a infância com o nariz enterrado nas páginas de livros – hábito que jamais perdeu. Depois de anos preparando correspondências oficiais e relatórios para o governo, ela decidiu escrever algo que realmente lhe desse prazer. E não existe nada que Annie goste mais do que um bom romance. Apesar de passar a maior parte do tempo dentro do escritório, ela teve uma vida interessante, incluindo uma oferta de casamento com a promessa de camelos como parte do acordo. Hoje, Annie tem um marido paciente e nenhum dromedário. Eles vivem com os dois filhos perto do lago Macquarie, cercados de eucaliptos, na costa leste da Austrália.

Agradeço às “Garotas Chatsfield” pelas risadas e pelo apoio. Foi fantástico trabalhar com vocês.


Capítulo 1

– CHEGO ASSIM que arrumar um voo. Orsino ouviu o estranho tom sombrio na voz de seu irmão. A notícia de que um irmão gêmeo quase morrera deixaria qualquer um sério. Depois de anos correndo riscos, a sorte dele terminara. Encarar a própria mortalidade e uma possível paralisia permanente o estava obrigando a reavaliar sua vida. – Sem pressa, Lucca. Não há nada que você possa fazer. Além do mais... – falou ele forçando um sorriso – ... você ia passar o tempo todo flertando com as enfermeiras e me ignorando. – Como pode dizer isso? Estou mudado. Só existe uma mulher para mim. Além do mais, as enfermeiras devem estar totalmente ocupadas com você. Já marcou um encontro com a mais bonita delas? – O conquistador é você, lembra? – Olhe com quem você está falando, Orsino. Já vi como as mulheres reagem a você. Só não entendo o motivo, já que eu sou o gêmeo bonito. Está me dizendo mesmo que não está tendo de rechaçar mulheres? – No momento, não. Orsino cerrou os dentes ao pensar no desastre que seu mundo se tornara. – Claro. – Lucca soava sério novamente. – É por isso que um de nós deve ir para aí. Você precisa da família. – Família? – Orsino não disfarçou sua amargura. O mais perto que sua família chegara dele recentemente fora quando Christos Giatrakos, o diretor executivo do pai dele, entrara em contato, querendo se aproveitar da reputação de Orsino, pedindo... não, exigindo que ele fosse o “rosto” da empresa. Orsino e seu pai nunca haviam sido próximos, mas ao menos ele próprio poderia ter telefonado. – Sim, sei que andei ocupado, mas... – Eu não estava falando de você, Lucca. Desculpe. Estou de mau humor. Não estou acostumado a ficar preso numa cama de hospital. – Ele inspirou fundo, sabendo que seus ferimentos eram apenas parte do problema. – Agradeço pela oferta, mas não há nada que você possa fazer aqui. – Talvez não agora, mas, quando você receber alta, vai precisar de alguém.


– Está se oferecendo para bancar a enfermeira? Acho que vou aceitar só para ver isso. A risada do irmão dele foi a melhor coisa que ele ouvira fazia dias. Até aquela semana, Orsino não se dera conta do que importava em sua vida. Agora, ele sabia, e faria questão de entrar em contato com seu irmão gêmeo mais regularmente. Mas apenas depois de se recuperar o suficiente para que não sentissem pena dele. – Não se preocupe comigo. Já arrumei uma pessoa. – Lucilla? – Não, mas ela telefonou. Nossa irmã mais velha ainda se preocupa conosco depois de todos esses anos, e apesar de Giatrakos a encher de trabalho. – Você precisa de alguém experiente em quem possa confiar. Orsino conteve uma risada. Confiar? Não, confiança não era o que ele sentia por Poppy. Certa vez, ele jurara nunca mais vê-la. Contudo, os dias preso numa montanha, esperando a morte, haviam lhe dado uma nova perspectiva. Ele nunca confiaria novamente nela. Todavia, saber disso lhe dava uma liberdade, um poder. Poppy e ele tinham negócios pendentes. Era por isso que ela ainda atormentava seus pensamentos. Durante cinco anos, ele dissera a si mesmo que o passado estava terminado para ele. Porém, num surto de clareza, ele soubera que só terminaria quando a encarasse novamente. Algo restava. Algo que ele precisava enfrentar antes de virar as costas para sempre. Ela odiaria estar novamente com ele. Depois do que ela fizera, seria difícil, até mesmo para uma mulher tão ousada. Quanto a estar à disposição dele... Orsino sorriu. Ele estava ansioso para vê-la desconfortável. Uma pequena vingança pelo que ela fizera. O MEDO dominara Poppy no instante em que ela vira a notícia da avalanche e dos dois alpinistas feridos. Ela não via Orsino fazia cinco anos, mas não conseguia imaginar um mundo sem ele. Sua vitalidade, sua paixão... oh, Deus, sua paixão! Dentro do táxi, ela uniu as mãos quando as lembranças vieram, aquecendo sua pele. A arrogância. As exigências. A maneira como ele estava sempre pronto para julgar, mas indisposto a encarar os próprios defeitos. Apesar de tudo de negativo, ela sentiu um aperto no peito. A mensagem do hospital confirmara seus temores e a fizera sair às pressas da França até o sopé do Himalaia, o coração a mil por hora. O táxi parou, e Poppy olhou para o feio hospital. Ela sequer piscou os olhos quando um grupo de repórteres avançou, bombardeando-a com perguntas. Ela mal os ouviu. Tudo em que conseguia pensar era no que a esperava lá dentro. Por favor. Que ele sobreviva. Que ele consiga viver. Ela afirmara a si mesma que não sentia mais nada por Orsino Chatsfield. Que os sentimentos negativos tinham morrido há muito, enterrados sob o árduo trabalho que a levara ao topo de sua profissão. Não houvera tempo de sentir mágoa, pesar ou culpa, pois todas as horas de seu dia tinham sido ocupadas. Fora o que ela passara cinco anos dizendo a si mesma. No que acreditara. Até o dia anterior.


O fato de ele quase ter morrido numa das montanhas mais inóspitas do mundo, a possibilidade de que estivesse morrendo naquele instante, fez Poppy engolir em seco. Ele não pode morrer. Ela finalmente chegou ao último quarto. Inspirando tremulamente, ela entrou, mas parou imediatamente ao ver a silhueta paralisada na cama de hospital. Ele estava tão imóvel que, por alguns segundos, ela se perguntou se ele ainda estava respirando. Poppy levou a mão ao peito. Seu coração martelava. O olhar dela se fixou na cama. Ela não conseguia se recordar de Orsino parado. Ele estava sempre em movimento, como se sua força vital fosse maior que a de todos. A única vez em que ela o vira parado fora quando acordara antes dele. Ela se recordava de tê-lo observado, deslumbrantemente lindo, tão precioso deitado ao lado dela. A intensidade de seus próprios sentimentos a aterrorizara. E ela devia ter confiado em seus instintos e fugido. No entanto, fora fisgada no primeiro olhar. Orsino estava envolto por ataduras, extremamente brancas em contraste com o bronzeado dele. Um dos braços estava numa tipoia, coberto dos dedos ao cotovelo. O outro, nu sobre o lençol, exibia hematomas. A cabeça dele estava enfaixada. Não apenas a cabeça, mas também os olhos. O coração de Poppy murchou. Apenas o maxilar e o bronzeado pescoço dele estavam à mostra. Fortes, bonitos e poderosos. E a boca... Ela observou aqueles finos lábios cujo sorriso fazia o coração de uma mulher flutuar. Ela tentou não se lembrar das palavras que haviam sido disparadas por aqueles lábios cinco anos antes. Entretanto, o tempo abrandara sua lembrança. Elas a dilaceraram novamente, despertando a culpa, a indignação, a dor. – Amindra? É você? Tudo dentro dela congelou com aquelas graves palavras, roucas como se ele não estivesse acostumado a falar. Ela se recordou daquela voz pela manhã, das vezes em que a despertara, murmurando sugestões maliciosas enquanto as mãos dele manipulavam o corpo dela como um maestro afinando um instrumento. O alívio por ele estar suficientemente bem para falar a atingiu, e também o horror por aquela trêmula onda de emoção. Poppy juntou forças. Depois de mais de uma década sendo modelo, ela se tornara especialista em se esconder atrás de uma inexpressiva máscara. Seu olhar se voltou para os olhos enfaixados dele, e ela estremeceu. O medo gelou sua espinha. – Enfermeira? – A voz dele estava mais ríspida. – É você? – OI, ORSINO. – A voz dela era como mel, tão sedutora quanto nos sonhos dele. Ele enrijeceu ao sentir o cheiro de desinfetante do hospital e se dar conta de que não era um sonho. Algo o atingiu com força no peito. Ela viera. Mesmo enfaixado como uma múmia e, ainda por cima, cego, ele reconheceu a voz dela. Conheceria em qualquer lugar. Até mesmo pensara tê-la ouvido debaixo de meia tonelada de neve. Ela o incentivara a não desistir. Que ironia... – Quem é?


Orsino a ouviu arfar levemente. Obviamente, ela esperara que ele reconhecesse sua voz, mas Orsino não lhe daria essa satisfação. Ela chegara cedo demais! Eles tinham prometido retirar as faixas de seus olhos naquele dia. Ele não queria que ela o visse daquele jeito; impotente e zonzo da medicação que reduzia a dor a um fraco latejar. Como ela chegara tão rápido? – É Poppy. – Ela estava ao pé da cama. – Poppy? – Inesperadamente, a voz dele ficou embargada. Orsino detestou a emoção ouvida naquela simples palavra. O calor surgiu sob a pele dele, e ele soube que não era apenas por seu orgulho ferido, por ela tê-lo visto daquele jeito; tão menos do que o homem que ele fora. Era algo mais profundo e perturbador. Algo que ele não queria mais sentir. Finalmente, ele reconhecera que eles tinham assuntos a resolver, mas nada o preparara para a indesejada explosão de emoção que a presença dela detonara. Fora um erro chamá-la? Não teria sido primeiro cometido por ele em relação a ela. – Sim, sou eu. – A voz vinha do lado dele. – Como você está? Orsino tateou em busca do controle da cama. Ele detestava ficar deitado enquanto ela estava de pé a seu lado. – Deixe que eu faço isso. O que você quer? – Dedos suaves tocaram os dele, e ele recuou. Assegurou a si mesmo que era porque não gostava da pena na voz dela. O formigamento em seus dedos era apenas um resquício das queimaduras do gelo. – Orsino? Os lábios dele se contraíram quando seu corpo reagiu ao rouco sussurro dela, lembrando-lhe da última vez em que eles haviam estado juntos. – Eu mesmo faço. – Dessa vez, quando ele estendeu a mão para o controle, a dela já desaparecera. Segundos depois, ele estava se sentado, a cama apoiando seu corpo. Ele tentou ajustar o corpo. – Posso ajudar. – Nenhuma rouquidão desta vez. Apenas uma fria eficiência. Orsino convenceu a si mesmo que aquilo era melhor. Então, o aroma de framboesa o atingiu, e ela ajustou os travesseiros atrás dele, para deixá-lo mais confortável. Algo macio roçou no maxilar dele, e Orsino o segurou. Era uma mecha de cabelo. Ele a puxou levemente e sentiu o calor o envolvendo, como se ela tivesse se curvado para perto. Ele ordenou a si mesmo para soltar, mas sua pegada se firmou na seda do cabelo dela. Ele tentou imaginá-lo caindo em ondas vermelho-escuras em torno dos claros ombros dela e se sentiu incomodado ao perceber que conseguia imaginar tudo com clareza demais. – Seu cabelo cresceu. – Ela sempre mantivera o cabelo curto. O ar de fragilidade juvenil de Poppy, reforçado por seus deslumbrantes olhos naquele lindo rosto, dominara a imaginação do público. Ela fora o rosto novo e inocentemente sensual da moda. Inocente?! – Eu queria um novo visual. Orsino a soltou. Recusava-se a perguntar se o novo visual dela começara logo após a separação deles. Durante cinco anos, ele evitara as colunas sociais e revistas nas quais ela poderia aparecer. Não era hora


de sua curiosidade despertar. Nem sua libido. Mas ela despertara. Mesmo ferido, o corpo dele reagia ao perfume feminino, ao som da voz dela. Fora um erro mencionar o nome dela tão cedo aos eficientes funcionários do hospital. Ele devia ter esperado. Detestava não estar no controle da situação. – Como se sente, Orsino? Uma risada arranhou a garganta dele. – O que foi? Estava preocupada comigo? Ela não respondeu, mas ele sentiu uma nova tensão no ar. Sentiu a confusão interna dela, e seu sentido de predador despertou. Como ele queria poder vê-la! – O mundo inteiro está preocupado com você. Você é um herói internacional por ter salvado seu parceiro de alpinismo. – Ah, foi por isso que você veio tão rápido. Para aproveitar a mídia. – Em todos os lugares aonde eles haviam ido houvera alguém com uma câmera tirando fotos deles, publicadas posteriormente em alguma revista de baixo nível com a legenda “o casal mais badalado do ano”. Orsino demorara a se dar conta de que era atenção que Poppy queria, com sua constante necessidade de ser acompanhada pela mídia. – Estou vendo que você não mudou, Orsino. Continua encantador. E tão pronto a julgar todos nós, meros mortais. Ele ignorou aquilo. O que havia para ser dito? Ele estivera certo. Ela, errada. Para a sorte de Poppy Graham, ele simplesmente fora embora. Alguns homens teriam se vingado pelo que ela fizera. Tê-la a seu dispor durante algumas semanas enquanto ele se recuperava sequer contava. – Você mudou, Poppy? – Claro que mudei. – Ele ouviu os passos dela pelo chão. – Não tenho mais 23 anos. Sou uma mulher independente, segura e capaz. – Você sempre foi independente – murmurou ele. – Nunca precisou de ninguém, não é? Só de acordo com seus próprios termos. – Ele a ouviu inspirar fundo. – Você usava as pessoas em proveito próprio. Seu estilo continua sendo esse? – Veja só quem fala! Quando foi que você deu ou dividiu? – Orsino ouviu a respiração entrecortada dela e sentiu uma intensa satisfação por saber que não era o único a estar sentindo. – Eu me lembro de ter dado muita coisa. Dinheiro, o prestígio e as conexões que você tanto queria... A acusação dele foi recebida com silêncio. Ao menos uma coisa mudara. No passado, ela fora dominada pela paixão, um ímpeto por se defender. Agora, ela sabia a hora de desistir. Orsino franziu o cenho, contendo uma inexplicável decepção. – Claramente, você não me quer aqui. O hospital cometeu um erro quando me procurou. Ele balançou a cabeça, desejando novamente poder ver o rosto dela. A força de sua necessidade de vê-la o deixou perplexo. – Não houve erro. Mas eles foram rápidos demais. Você ainda não é necessária. – Necessária? Você não precisa de mim. Orsino ouviu o choque em sua voz e não se deu ao trabalho de conter seu sorriso. Talvez fosse fútil da parte dele, mas, depois de tanto tempo, depois do que ela fizera, era bom tê-la exatamente onde ele a queria.


– Mas, quando eu sair do hospital, vou precisar. Quem mais devia cuidar de mim enquanto me recupero alÊm da minha esposa?


Capítulo 2

– ESPOSA? VOCÊ está brincando! Contudo, ao ver o satisfeito sorriso dele, Poppy teve a terrível sensação de que ele não estava. As linhas em torno de sua boca haviam surgido depois da chegada dela. Elas indicavam uma ferrenha determinação. E dor. Ela sentiu um aperto no coração. Os ferimentos dele eram muito sérios mesmo? Ele ainda não lhe contara. Aqueles olhos cobertos... – Por que eu brincaria? A arrogância estava na voz dele. Como se ele estivesse gostando da reação dela, de seu desconforto. Aquilo a fez estremecer. Orsino fora rígido, nada razoável, implacável. Porém, aproveitar-se de uma situação dolorosa nunca fora seu estilo. Ele preferira ir embora, abandonando-a. Teria mudado? – Porque não sou sua esposa. Você não pode querer que eu cuide de você. – Você não vai cuidar o tempo todo. Espero conseguir me virar assim que as ataduras forem retiradas. – Era um toque de dúvida o que ela ouvia na voz dele? – Só vou precisar de alguém por perto por precaução. É aí que você entra. – Como eu declarei, Orsino, não sou sua esposa. Não vou ser eu quem vai cuidar de você. Peça a outra pessoa. Então, um terrível pensamento lhe ocorreu. A lesão na cabeça teria afetado a memória dele? Ele não se recordava do que acontecera entre eles? – Claro que você é minha esposa. Você não deu entrada no divórcio. – Ele parou. – Por que, Poppy? Porque você ainda podia se aproveitar da publicidade do meu nome? O alívio a atingiu. Nada de perda de memória. Orsino se recordava de tudo. E ainda a culpava. Poppy endireitou o corpo, dizendo a si mesma que fora idiota pensar que ele ficaria feliz por vê-la. Ela não queria aquele homem em sua vida. Estava feliz por ter se livrado dele. Todavia, a pergunta reverberou dentro de seus ouvidos. Por que ela não se divorciara? – Você também não deu – retrucou Poppy, detestando o fato de sua voz ter saído fina, revelando seu caos interno. Ela inspirou fundo.


Orsino sempre a fazia sentir coisas demais. O tempo não cauterizara as feridas. Ela apenas fingira que isso acontecera. E isso a deixou morta de medo – Nosso casamento terminou quando você foi embora. – Mas ela demorara demais para se dar conta disso. A lembrança de suas loucas esperanças, dos frenéticos telefonemas, todos ignorados, deixou-a envergonhada. – Quando eu fui embora? Que memória seletiva! – Orsino balançou a cabeça. – Fui eu quem informou seu nome ao hospital. Ele orquestrara aquilo?! Poppy olhou para a porta. Para que ficar e permitir que ele a manipulasse? No entanto, algo a manteve parada ali. Pena dos ferimentos dele? Era a melhor alternativa; a de que, no fundo, ela ainda se importava. De que não queria ir embora antes de descobrir se ele estava muito ferido, se enxergaria novamente. – Você não tinha nada de ter dado meu nome. Ele deu de ombros, e Poppy detesto a si mesma por observar os largos ombros dele se movendo, como se ela fosse alguma adolescente apaixonada, hipnotizada pelo físico atlético dele. Já acabou. Se ao menos ela acreditasse nisso... – O hospital precisava do meu familiar mais próximo. Essa pessoa é você, Poppy. – E Lucca? Lucilla? Você tem tantos irmãos. Além do seu pai. Qualquer um deles... – Estão todos ocupados. Além do mais, por lei, você é meu familiar mais próximo. – E você achou que eu não estivesse ocupada? – A raiva cresceu. – Ao contrário de você, tenho de trabalhar para me sustentar. Estou no meio de uma sessão de fotos. Não posso simplesmente largar tudo para cuidar de você. – Mas foi exatamente o que você fez, não foi? Ele tinha razão. Ela largara tudo na pressa para encontrá-lo. Seu trabalho continuaria lá quando ela voltasse? Ela nunca se comportara assim. Poppy Graham sempre fora perfeitamente profissional, pontual, confiável. Ela foi até a janela. Ao erguer o olhar, ela viu a silhueta escura do Himalia. Seu coração murchou quando ela pensou no que podia ter acontecido. – O que você estava fazendo lá em cima? Devia ter imaginado que era ridiculamente perigoso, especialmente nesta época do ano! – Ora, Poppy, se eu não conhecesse você, quase acreditaria que ficou preocupada comigo. Ela se virou. – Poupe-me dessa farsa, Orsino. – Ela inspirou fundo. – Por mais que eu... deteste você, nunca desejei sua morte. O tenso sorriso dele desapareceu. As linhas que contornavam sua boca se aprofundaram. – Sério? Mas você ficaria ótima com roupas de viúva. – A voz dele a irritou ainda mais. – Você se sairia muito bem fingindo estar de luto e conformada. Pense na solidariedade que a imprensa direcionaria a você, melhorando sua imagem. Ela se aproximou rapidamente da cama, parando ao lado dele. – Que coisa horrível para dizer! Eu nunca... – Ela engoliu em seco. – Você pode ser um completo canalha, sabia disso?


– Já me disseram isso. Sem dúvida, alguma mulher. Poppy deu meia-volta, mas parou quando longos dedos se fecharam certeiramente em torno de seu punho. Como ele soubera exatamente onde ela estava se não conseguia enxergar? Poppy afirmou a si mesma que só estava sentindo fúria pelas acusações dele. Mas não era verdade. Ela conteve um calafrio quando seus sentidos despertaram, reconhecendo o toque dele. A lembrança a bombardeou. A mão de Orsino entrelaçada à dela quando o celebrante os declarara marido e mulher. A mão dele em sua nuca quando ele inclinara o rosto para o dela no primeiro beijo. A mão dele percorrendo lenta e sedutoramente o corpo nu dela. Mesmo com o cheiro dos desinfetantes hospitalares, ela sentiu o perfume da pele dele. Inspirou-o avidamente. Sentira falta dele, um cheiro totalmente singular a Orsino. O polegar dele passou pela parte interna do punho dela, onde a pulsação estava em disparada. Foi como uma carícia. Poppy puxou a mão, mas os dedos dele se fecharam firmemente. Apesar dos ferimentos, ele continuava fisicamente mais forte. No passado, ela se deleitara com aquela força, que a fizera se sentir frágil e feminina, apesar de sua altura de quase 1,80m. Orsino a fizera se sentir delicada, em vez de desajeitada. Seu abraço sempre despertara fantasias infantis nela. Nos braços dele, ela acreditara que “felizes para sempre” poderia ser real. – Solte, Orsino. Durante mais um segundo, ele a segurou, quase como se não quisesse soltá-la. Então, ela estava livre. Poppy recuou um passo, a outra mão envolvendo o punho, cobrindo o ponto onde o calor dele permanecia. – O que você estava fazendo na montanha, Orsino? Todos argumentaram que era uma escalada perigosa. – Perigo faz parte da atração. – Isso não é resposta. – Ela nunca entendera a necessidade que ele tinha de se lançar em uma aventura atrás da outra. – Até mesmo pelos seus padrões, isso foi exagero. – Foi um risco calculado. – Então, você não calculou muito bem. Mesmo depois de tudo que acontecera entre eles, ela detestava que ele arriscasse a vida. – Ninguém podia ter previsto aquela avalanche. Não onisciente, sabe, Poppy? Ela observou a boca dele formar seu nome, e um profundo latejar começou dentro dela, despertando algo esquecido. Poppy recuou mais um passo. – Ninguém nunca fez essa escalada justamente porque é tão perigosa. Os especialistas dizem que é impossível. – Só até alguém fazer. Além do mais, se tivéssemos conseguido, o dinheiro que teríamos angariado teria financiado uma nova clínica oftalmológica e ajudado várias famílias locais. – Você arriscou sua vida por uma clínica oftalmológica? – Poppy sabia que ele conseguia financiamento para caridade com suas ousadas aventuras, mas aquilo... – Por que não? Melhor do que alguma jogada de marketing para uma empresa de luxo. – Como assim, Orsino?


– Nada. O que faço com meu tempo só diz respeito a mim. E que verdade! Quando ela precisara dele, quando estivera desesperada por aqueles fortes braços, ele partira numa de suas aventuras. Não se importara o suficiente para lhe dar apoio, estivera ocupado demais enfrentando o próximo desafio. – Não diz só respeito a você quando põe outros em risco. E o seu parceiro de alpinismo e os homens que resgataram vocês? Você foi egoísta por tê-los posto em perigo. – Michael está se recuperando muito bem. Ele sabia dos riscos. – Mas o tom rouco na voz de Orsino fez Poppy se perguntar se ele não estava mesmo se sentindo culpado. – Quanto à equipe de resgate... – Ele contraiu os lábios. – Tínhamos deixado instruções dizendo que ninguém devia tentar nos resgatar se algo desse errado. Sabemos quantos guias locais morrem e se ferem ajudando alpinistas estrangeiros. – Sorte a sua que ignoraram seu pedido. – Poppy estremeceu ao pensar em Orsino na implacável montanha, enterrado na neve. Subitamente, ele sorriu. Poppy assegurou a si mesma que não era uma pontada de atração que ela estava sentindo. Isso já não era mais possível. – Não estou reclamando. – O sorriso dele desapareceu. – Nós os conhecíamos dos anos anteriores aqui. Foi por isso que ignoraram nosso pedido. Burros. Se algo tivesse acontecido com um deles... Ele era mesmo o homem mais complexo, irracional e irritante do mundo. Ela queria desprezá-lo por sua vida de luxo ocioso, mas ele a arriscava para conseguir dinheiro para outras pessoas. Poppy afundou numa cadeira. Orsino Chatsfield a enlouquecia. Mas, só porque ele era socialmente consciente, isso não significava que seria um bom marido. Bom marido?! Se a ideia não doesse tanto, talvez tivesse sido engraçada. Fazia séculos que ela não pensava nele como marido. Entretanto, ainda havia algo naquele homem que desafiava a lógica e a razão. Algo que fazia o coração dela se apertar. Algo que doera loucamente quando ele a acusara de desejar sua morte. Ele tinha um inigualável poder de irritá-la e magoá-la. Por que isso não morrera quando ele matara o amor dela? Poppy sentiu medo novamente. Medo de que, apesar de tudo, as coisas não tivessem terminado entre eles. Ao menos para ela. Ela balançou a cabeça. Não podia ser. Ela era forte. Cinco anos antes, ela rastejara, deixando suplicantes mensagens pedindo para que Orsino a procurasse. Nenhuma fora respondida. Uma prova de quanto ela significava para ele. Desde então, ela se recuperara, enfrentando a imprensa, a curiosidade das massas, loucas por detalhes do fim do relacionamento, sondando seus sentimentos, observando tudo que ela fazia. Ao contrário de Orsino, Poppy não tinha a barreira da riqueza para protegê-la. Precisara voltar a trabalhar, agindo como se seu coração não tivesse sido dilacerado. Ela precisara de todas as suas forças para se reconstruir. Ela observou Orsino. Tudo que ela precisava fazer era lembrar que ele não tinha mais nenhum direito sobre ela e ignorar a traidora reação de seu corpo a ele. Devia ser um legado do passado, uma memória sensorial que logo desapareceria.


– Ainda está aí? – A profunda voz dele interrompeu os devaneios dela. Seria um toque de vulnerabilidade o que ela ouvira? Natural, dados aqueles ferimentos, mas a expressão determinada da boca de Orsino não indicava medo. Por que ele se preocuparia com a possibilidade de ela ir embora? Ele acabara de encarar a morte. – Por que pediu ao hospital para me procurar? E não me venha com essa de familiar mais próximo. – Já mencionei. Preciso de alguém comigo enquanto me recupero. Preciso, não quero. – Por que, Orsino? – Por que não? Você não me deve isso? – Devo?! – A indignação duelou com a culpa dentro dela com a lembrança do que ela fizera para merecer aquele desgosto. Ao mesmo tempo, a raiva explodiu. Ele nunca admitira sua parte no que acontecera, nunca tentara entender. Se não tivesse sido a arrogância, o egoísmo, o orgulho dele... – Não devo nada a você, Orsino. – Seus milhões de fãs concordariam, se soubessem os detalhes da nossa separação? – Está tentando me chantagear? – Chantagem? Esperar que uma esposa cuide do marido quando ele precisa dela? – Não tenho tempo e nem vontade de continuar esta discussão. – Ela se levantou e pegou a bolsa. – Pode espalhar as histórias que quiser, Orsino. Não faz diferença para mim. Uma mentira. Boatos negativos tornariam a vida dela novamente um inferno. Com fotos de Orsino como o herói ferido, ela seria considerada a vilã. Isso afetaria sua carreira. Mas isso não podia importar. Perder o respeito próprio era demais. – Espere! O tom enfático dele a fez parar. – Tenho uma proposta. Relutantemente, ela se virou. Ele parecia mais pálido do que antes. Poppy pensou se não deveria chamar a enfermeira. Como ela podia se preocupar com um chantagista? Não fazia sentido. Mas não havia nenhuma lógica nas reações dela àquele homem. – Poppy? – Estou ouvindo. – Eu me recuso a ficar num centro de recuperação. Quero privacidade. – E? – Ela evitou ressaltar que, com o dinheiro dele, ele poderia contratar os melhores cuidados médicos em casa. – Por que não pede a uma das suas mulheres para cuidar de você? Orsino era visto regularmente com uma linda mulher a seu lado, uma diferente a cada semana. – Por que não a tal Amindra, que você estava esperando? Tenho certeza de que ela adoraria uma oportunidade de ficar a sós com você. A risada dele percorreu a pele dela, e Poppy ficou perplexa quando seus joelhos bambearam. – Ah, isso explica seu mau humor. Está com ciúme? A ira endireitou a coluna dela. – De jeito nenhum. Agora, preciso arrumar um voo de volta. – Amindra é uma enfermeira. Tenho certeza de que ela adoraria ganhar um dinheiro extra, mas não se isso significasse ficar longe dos filhos e netos dela durante várias semanas. – Ela é enfermeira?


– Quem mais eu conheceria nesta condição? – Pela primeira vez, a voz de Orsino revelou amargura, uma frustração quase incontida, e imediatamente ocorreu a Poppy como devia ser difícil para um homem ativo como Orsino se flagrar em confinamento forçado. Mesmo seriamente ferido, Orsino tinha mais presença do que a maioria dos homens que ela conhecia. Se ao menos ele não a afetasse tanto... – Cuide de mim durante algumas semanas, e eu liberto você. – Como assim vai me libertar? A boca dele se ergueu num dos cantos. – Óbvio. Vou aceitar o divórcio. Os dedos de Poppy apertaram a alça da bolsa. – Por que agora? Depois de tanto tempo? Ele deu de ombros, e ela pensou em como aqueles gestos mediterrâneos dele, o uso das mãos enquanto falava, o movimento daqueles largos ombros costumavam fasciná-la. Assim como a intrigante combinação da bela aparência italiana com o comedimento inglês, cortesia da mãe italiana e do pai britânico. – É o que você quer, não é? Poppy o olhou fixamente. Ele estava lhe oferecendo um divórcio fácil porque ele queria isso ou porque achava que ela queria? Ele teria encontrado outra pessoa para ocupar o cobiçado cargo de esposa dele? Durante anos, ela se esforçara para não pensar em Orsino com outra mulher. Mesmo que ele usasse mulheres deslumbrantes como acessórios toda vez que aparecia em público. Um vazio começou a latejar dentro dela. Ela convenceu a si mesma que era estresse da longa viagem e de encontrar Orsino novamente. – Por que eu devia ter esse trabalho se posso simplesmente procurar um advogado e dar entrada no divórcio? Ele não gostou daquilo. Poppy viu isso na contração de sua boca. – Porque posso facilitar o divórcio... ou dificultar. Você pode escolher se vai ser tranquilo e rápido, ou demorado e muito, muito público. Poppy quase indagou por que ele não se divorciara dela. Mas ela não lhe daria aquela desculpa para investigar os motivos dela para também não ter feito isso. Ela própria ainda não os entendera. – A menos... – a voz dele baixou para um murmúrio – ... que você não queira mesmo um divórcio. O silêncio latejou entre eles, trazendo de volta vulnerabilidades que ela pensara ter superado anos antes e um desafio que Poppy não ousou recusar. O divórcio significaria o fim do relacionamento deles. Nada mais de arrependimentos, nada de pensar em possibilidades durante madrugadas insones. Um divórcio a libertaria. Ela se considerara livre de Orsino, mas sua reação lhe mostrara o oposto. Apesar de ele ter destruído seus sonhos, ainda restava emoção. Um resquício que ela estava determinada a aniquilar. Algumas semanas com aquele homem arrogante e egoísta a curariam dessas últimas dúvidas. Seria um inferno, mas valeria a pena para conquistar a liberdade. – Então, temos um acordo, Orsino. Vou dar a você algumas semanas, pelos velhos tempos. Depois, nunca mais quero ver você.


Capítulo 3

ORSINO FEZ uma expressão de dor quando o médico o examinou delicadamente. – Quanto tempo vou levar para me recuperar? – exigiu saber ele, a voz rouca de tanto resistir à dor e à inesperada emoção de reencontrar Poppy algumas horas antes. Apesar dos ferimentos, a morte por exposição ao frio fora uma ideia relativamente pacífica. O torpor levaria à perda de consciência e, depois, ao nada. Sem dor, sem luta. Seu cérebro, contudo, não permitira que ele se entregasse. Ele ouvira uma voz, a voz de Poppy, toda vez que pensara em desistir. Soubera que não poderia se entregar antes de resolver o que havia entre eles. – Para o braço, cerca de um mês. O médico fez uma anotação no prontuário, e Orsino se considerou sortudo por ao menos conseguir enxergar o movimento, mesmo que mal. A ideia da cegueira o aterrorizara. – Eu preferiria que você passasse mais tempo aqui. Sim, eu sei. Isso não vai acontecer. Já que você insiste em ir embora, vou encaminhar o prontuário para que o seu médico possa ficar de olho em você. Enquanto isso, você precisa de muito repouso. A seriedade do médico foi uma mudança bem-vinda. Orsino estava farto do tom animado com o qual as enfermeiras respondiam às perguntas dele sobre a recuperação. – Vai precisar tomar cuidado com as costelas durante um tempo. Quanto às lacerações e aos hematomas, está tudo se recuperando bem. – E meus olhos? – Ah, sua visão. Isso é mais difícil. Como já discutimos, a cegueira da neve não costuma durar muito. Mas, em alguns casos, como o seu, pode haver danos de longo prazo. O ferimento na cabeça também não ajudou. – Mas vou me recuperar? Orsino inspirou fundo, resistindo ao pânico pela pausa do médico. Aqueles dias de escuridão tinham sido os mais difíceis de sua vida. Como ele reagiria se uma visão prejudicada o impedisse de fazer as coisas que davam valor à sua vida? Ele enlouqueceria. – Estou otimista. – Mas...?


– Mas não sei o tempo que isso levará e nem a plenitude da recuperação. Você vai precisar de monitoramento constante. Indiquei um excelente especialista na França para você. Orsino agradeceu antes de o médico sair. Que ironia ele ter danificado a própria visão tentando angariar fundos para uma clínica oftalmológica! Não, não era verdade. A clínica não fora a fonte do ímpeto pela perigosa escalada. Fora o pai dele e sua fúria. Cinco anos antes, Orsino se lançara em aventuras ainda mais inconsequentes, tentando fugir da dor da perda e da traição de Poppy. A mídia adorava as peripécias perigosas dele, dando-lhe a oportunidade de fazer algo do qual ele sentia orgulho de fato; fazer a diferença nas vidas dos necessitados. Suas aventuras atraíam doadores para diversas causas, e, pela primeira vez, Orsino tivera um propósito verdadeiro, não apenas uma vida de privilégios. Até o pai dele, Gene Chatsfield, ter se interessado. Orsino apertou o lençol, frustrado. Se o pai dele queria se reconciliar, Orsino precisaria aceitar um meio-termo. Gene, porém, não estava interessado em famílias felizes. Seu interesse era puramente comercial. Para Gene Chatsfield, seu ousado filho não passava de um possível ativo empresarial. Ele queria Orsino como a imagem de sua rede de hotéis de luxo, que fora reformada, usando a filantropia dele como trunfo. Orsino se enfureceu. Seu pai tirara o valor de tudo que Orsino construíra. O que lhe dera tanta satisfação fora reduzido a um circo para atrair o público. E, quando Orsino recusara, ele recebera a ameaça de que perderia sua renda do fundo fiduciário da família. Como se ele fosse uma criança imatura, sendo manipulada e deixada de joelhos! Seu pai não o conhecia. Em 28 anos, ele aprendera o suficiente sobre investimentos para construir sua própria fortuna à parte do fundo da família. Orsino vivia dos próprios rendimentos, e o dinheiro do fundo era direcionado para programas beneficentes. Sim, ele tivera uma juventude selvagem, o que não era nenhuma surpresa, dado o histórico de sua família. Mas seu pai cometera o erro de achar que ele ainda tinha 18 anos. Quem ele estava querendo enganar? A decisão de fazer aquela última escalada fora por pura petulância, enfrentando a manipulação de seu pai. Orsino se sentou, farto de ficar confinado. Passou as pernas pelo lado da cama, jurando deixar de lado a emoção. O que ele conseguira com isso? Decepção e mágoa pela atitude de seu pai, que quase o levara ao suicídio. Quanto a Poppy... Orsino inspirou fundo, a dor atingindo suas costelas. Poppy o deixava descontrolado, à mercê de seu próprio destino. Ela o ameaçava de maneira que seu pai jamais conseguiria. Aquela vulnerabilidade precisava ser enfrentada, derrotada, destruída. Assim, ele poderia prosseguir com sua vida.


QUANDO POPPY retornou, o grupo de repórteres do lado de fora do hospital crescera. Anos de prática a mantiveram avançando, mas as perguntas sobre a reconciliação com Orsino a atingiam como golpes físicos. Reconciliação com Orsino? De jeito nenhum! Ele ainda é seu marido, censurou uma pequenina voz. Ela garantiu a si mesma que aquela Poppy não existia mais. A que era afetada pelo toque dele. A que ficara arrasada quando ele a deixara. Ela se reconstruíra, transformara-se em alguém mais forte. Na mulher que ela sempre quisera ser; independente e bem-sucedida. Nenhum homem assumiria o comando de sua vida novamente. Ela vira esse lado da moeda com sua mãe. Durante um terrível tempo, ela própria estivera nessa situação. Seu relacionamento com Orsino fora uma aberração; a prova de que ela tivera razão a não querer um amor romântico. O amor enfraquecia as pessoas. A confiança de Poppy cresceu. Ela seria capaz de lidar com Orsino. Além do mais, apesar dos defeitos dele, ela estava com pena dele pelos ferimentos. Ela bateu à porta e entrou no quarto de Orsino. Ele não estava lá, e, por um aterrorizante momento, Poppy se questionou se ele teria tido uma recaída. – Está atrasada. Com a mão no peito, ela se virou, seu coração em disparada. Orsino estava sentado numa cadeira de rodas, observando-a. As faixas em torno de seus olhos não estavam mais lá, substituídas por óculos escuros. – Seus olhos. – Foi mais uma pergunta do que uma afirmação. Estaria cego? Irritantemente, ele não respondeu, deixando-a alheia a tudo. Ele era especialista nisso. A maior parte dos curativos da cabeça dele fora retirada, a não ser por uma inclinada que o deixava como um desconhecido. Todavia, ela reconheceria aquele rosto até mesmo dormindo. Poppy declarou a si mesma que era natural se recordar de tantas coisas. Afinal, ele fora seu primeiro homem. Embora o plano fosse partir para a França naquele dia, foi um choque vê-lo com roupas normais. A imagem de Orsino envolto por bandagens a atormentara durante toda a noite insone. Agora, uma jaqueta casual estava pendurada num dos ombros, cobrindo parcialmente a tipoia, e ele estava com uma camisa de cambraia clara. A calça jeans abraçava suas longas e fortes coxas. Botas de caminhada envolviam seus pés. – Devem ter cortado a manga para colocar essa camisa. – Típico de uma modelo pensar primeiro nas roupas. A indignação explodiu dentro dela. Ela aceitaria mesmo aguentar a atitude condescendente de Orsino? Ficar com ele era uma ideia ridiculamente ruim. Todos os instintos berravam para que ela fosse embora. Ele poderia dizer o que quisesse para a imprensa; ela sobreviveria. Ele poderia dificultar o divórcio, mas não poderia evitá-lo. Não era tarde demais para desistir. No entanto, ela estava determinada a nunca mais demonstrar vulnerabilidade perto dele.


Ela precisava enfrentá-lo e provar que aqueles sentimentos eram meros fantasmas da memória. – Preferiria que eu paparicasse você? – Ela se aproximou, procurando alguma indicação de que ele conseguia enxergá-la, mas a expressão dele permaneceu impassível. Ela pigarreou. – Se quer alguém para ficar sorrindo como boba e bajular você, escolheu a mulher errada. – Estou vendo que você já está mostrando suas garras. – Nada de garras. Isso indicaria que tenho algum interesse emocional. Só estou aceitando isso porque pode me dar um futuro gloriosamente isento de você. – Poppy abriu um falso sorriso. – Pode pensar o que quiser de mim, mas não sou do tipo que pisa em alguém que está na pior. Por mais que ele mereça isso. – O que os médicos informaram, Orsino? Preciso saber se vou poder ajudar. Ver aquela cadeira de rodas não ajudou a acabar com a preocupação dela. A coluna dele teria sido danificada? Pensar nisso a deixou gelada. Os lábios dele se contorceram, e Poppy percebeu a impaciência. – Eles recomendaram paciência. Não era de se admirar que ele estivesse de mau humor. A dor já seria ruim o suficiente, mas, para Orsino, esperar pela recuperação seria ainda pior. – Entendo. – Fico feliz por alguém entender. Poppy se aproximou. – Você não consegue enxergar nada? Ele suspirou. – Digamos que não vou dirigir tão cedo. Poppy inspirou fundo. Palavras de solidariedade surgiram em sua língua, mas ela as repeliu, sabendo que Orsino as rejeitaria. – Se você está cego, Orsino, preciso saber. Vamos voltar para uma sessão de fotos. Vou trabalhar durante um bom tempo. Então, vou estar por perto, mas nem sempre disponível. Se você não consegue enxergar, vai precisar de alguém para cuidar de você em tempo integral. – Deus me livre de interferir na sua importantíssima carreira. Poppy esperou até sua raiva se reduzir antes de responder. – Eu me recuso a ser intimidada, Orsino. Entendo que você esteja com dor e medo, mas, se acha que pode descontar isso em mim, está enganado. Ela cruzou os braços. – Já atrapalhei uma sessão de fotos muito cara para vir aqui. Então, não me venha com essa sua atitude superior. Não espero gratidão. – Ela riu amarguradamente. – Mas espero cortesia e educação. – Você está mudada. – Poppy não sabia se era aprovação ou rejeição na voz dele. – Espero que sim! – Ela era insuportavelmente ingênua quando eles haviam se conhecido e fora dominada por uma fantasia de amor que nem mesmo o bom senso fora capaz de destruir. Até ser tarde demais. – Cortesia? Acho que consigo fazer isso. Se você conseguir. Ele deu de ombros, e a atenção de Poppy se voltou novamente para aqueles largos ombros. Mesmo na cadeira de rodas, Orsino emanava uma masculinidade concentrada. Sorte a dela ser imune a ele...


– ÓTIMO. TALVEZ agora você possa me responder. Você consegue enxergar? Orsino olhou para a esbelta mulher parada diante dele. Uma coisa estava clara. Se ele não conseguira deixar o passado totalmente de lado, ela também não deixara. Mesmo com sua visão prejudicada, ele via que Poppy estava tensa. Ele ainda a afetava. Mas havia mais. Ela também estava deslumbrante: sensual e atraente. O estômago dele se contraiu quando as partes adormecidas de seu corpo despertaram. O olhar dele se fixou na exuberante boca que ela sempre reclamara de não ser larga o suficiente e que ele sempre considerara perfeita. Os lindos olhos nos quais ele se perdera várias vezes quando eles atingiam o clímax juntos. Algo parecido com vergonha o dominou por ele ainda se lembrar daquilo depois de tanto tempo. – Enxergo, mas mal – admitiu ele por fim. Quanto de Poppy ele realmente enxergava e quanto era fruto de sua memória? Ao olhar para a janela, ele conseguia discernir escuridão e claridade, formas e sombras, mas nada com a clareza com a qual ele a visualizava. – O que enxergo fica distorcido, e estou sensível à luz. Então, como eu contei, vou ficar um tempo sem dirigir. Orsino deixou de lado o medo de que ele talvez nunca mais dirigisse, ou escalasse, ou saltasse de paraquedas. Ele precisaria de ajuda até para se barbear! – Tenho certeza de que consigo me virar enquanto você estiver trabalhando. A boca dele se contorceu num sorriso sem humor. Pouco tempo antes, ele enfrentara a morte. Seria por isso que cada momento agora era tão vívido, que a emoção ficava tão à flor da pele? – E a cadeira de rodas? Vai precisar dela para entrar no avião? – As perguntas de Poppy abalaram o orgulho dele. Orsino detestava não conseguir fazer as coisas sozinho. Se ele esperara preocupação, devia ter pensado melhor. Ela não estava perguntando por ser importar, mas para poder entender o mínimo de assistência a dar. Orsino repetiu a si mesmo que isso não o magoava. Ele não se virara sozinho durante toda a vida? Quando crianças, ele e Lucca tinham sido praticamente abandonados pelos pais; recebendo tudo que o dinheiro poderia comprar, mas deixados para que se virassem sozinhos. Sorte a dele nunca ter aprendido a esperar solidariedade. As chances de recebê-la de sua esposa eram ínfimas. Ela já se importara com ele em algum momento? Ou fora tudo um inteligente golpe para conquistar dinheiro e fama? Ele pretendia descobrir. – Você já estava imaginando as fotos, não? A corajosa esposa empurrando a cadeira de rodas de seu herói incapacitado? Poppy não mordeu a isca. Apenas ficou em silêncio, e, subitamente, a vontade de fisgá-la morreu. A exaustão atingiu o corpo dele. Orsino suspirou. – Consigo andar, mas, com a minha visão... – e os cortes e hematomas – ... não tenho tanta mobilidade. A cadeira de rodas foi insistência dos funcionários. Vou usar até a entrada, mas, depois, passo a andar. Com a tipoia, é difícil andar. Pode me empurrar? – Claro. – Ela correu até atrás dele, e Orsino sentiu um leve perfume silvestre no ar. Ele o ignorou.


Eles precisavam passar por toda a fila de funcionários que haviam se reunido para se despedir. Na entrada, Orsino se levantou cautelosamente. – Tem certeza de que está bem para andar? – Era Amindra, a enfermeira preferida dele. A preocupação dela contrastava com sua animação de costume, e ele se flagrou tateando em busca da mão dela. – Claro que estou, Amindra. Obrigado pelos cuidados. Quando eu ficar bom, vou voltar para agradecer direito a todos. Ele pensou ter vislumbrado um sorriso antes de ela colocar as mãos dele em torno da ponta de uma bengala. – Ótimo. Assim, você pode trazer isto de volta para mim. – Ela apertou a mão dele e se fundiu ao borrão que era a visão periférica dele. – Por aqui. – Era Poppy, novamente ao lado dele. Ela fez um gesto com o braço, e Orsino localizou a porta. Lentamente, ele andou ao lado dela, a mão boa segurando a bengala, seu corpo tenso com o esforço. O alívio o atingiu quando ele saiu pela porta, ouvindo os sons da rua. Ele não admitira nem para si mesmo o medo de que nunca mais fosse sair do hospital. Entretanto, ele sentiu um peso ser retirado de seus ombros. – Orsino! Orsino! Aqui! Ele piscou, tentando e não conseguindo focar a visão nos rostos que o cercavam. Seu coração martelou dentro do peito, e um suor frio surgiu em sua testa. Algo estranhamente parecido com pânico contorceu suas entranhas. Ele sentiu alguém segurando sua manga. Poppy. Ela estava ali, ao lado dele. Orsino inspirou fundo, detestando o fato de a tensão ter se aliviado por ele não estar sozinho. Detestando o fato de ela estar sentindo o tremor em seu braço. Justamente ela. Uma coisa era imaginá-la satisfazendo todos os caprichos dele enquanto ele recuperava suas forças. Outra, completamente diferente, era permitir que ela soubesse o quanto aquilo estava lhe custando. Que soubesse que ele precisava dela no momento. O orgulho dele ardeu. Cerrando os dentes, Orsino avançou, ciente do calor da mão dela. Ciente da curiosa empolgação que sentia por estar novamente perto dela. As vozes foram ficando estridentes, os rostos borrados se aproximavam. – Consegue enxergar, Orsino? – Você chegou muito perto de morrer? – Você e Poppy estão se reconciliando? Estão apaixonados depois de tanto tempo? Que tal um beijo para a câmera? Poppy falou. – O carro está bem à frente. – Não havia nada no tom dela; nem tensão e nem solidariedade. Era como se estivesse falando com um desconhecido. Ele não esperara que ela sentisse nada. Sabia o que ela era de verdade desde aquela noite, cinco anos antes, quando finalmente descobrira. De que importava o fato de ele ter se enganado no hospital, achando que a afetara? De que importava o fato de que ele não significava nada para ela? Mas importava.


Pois, depois de quase morrer na montanha, ele enfrentara a terrível verdade de que uma parte dele continuava ligada a ela. Isso fora como sal numa ferida. Uma ferida que ele imaginara já estar fechada. Alguém esbarrou neles, e a bengala dele caiu no chão. Orsino estendeu a mão e se flagrou segurando uma suave caxemira e um cabelo ainda mais suave. Seus dedos se contraíram. – Isso, Orsino. Só um beijo! – Os paparazzi se aproximaram. – Você consegue ficar em pé enquanto pego a bengala? – As palavras de Poppy foram inocentes, mas seu tom gelado o atingiu novamente. Para ela, ele era um fardo até o divórcio, uma responsabilidade. Apenas isso. Cinco anos atrás, ela o fizera de bobo. Mesmo agora, depois de ele tê-la chantageado para que fizesse seu jogo, Orsino não abalara a confiança dela, muito menos suas emoções. Uma impotente fúria explodiu. Ele arrancaria uma reação de Poppy. Plantando os pés mais firmemente, ele a soltou, ouvindo-a suspirar. Contudo, antes que ela pudesse se afastar, Orsino levou a mão à nuca de Poppy. – Orsino? – A voz dela estava trêmula. Aquilo, sim, era reação. Ele olhou naqueles arregalados olhos. As chamas dentro dele se alastraram quando ele a abraçou e colou sua boca na de Poppy.


Capítulo 4

POPPY PODIA ter se afastado. Devia ter se afastado. Ele a segurava apenas com um braço, o gesso do outro pressionando o tronco dela. Sendo assim, por que ela hesitou quando a boca de Orsino capturou a sua? Talvez fosse a surpresa do toque dos lábios dele nos dela. Aquilo a fez lembrar o primeiro beijo deles. Ele a puxara para si, seus ombros bloqueando o mundo, encasulando-a na paixão que girava entre eles. Porém, ele tomara a boca de Poppy com uma delicadeza que fora mais arrasadora do que qualquer carícia ávida. Ela não se sentira apenas desejada, mas valorizada. Agora, a boca de Orsino se movia junto à dela, pressionando levemente. Um calafrio a percorreu. A língua de Orsino percorreu a junção dos lábios dela, desencadeando uma reação que a cobriu por completo. A mão dele penetrou o cabelo dela, os dedos longos fortes, absurdamente eróticos. O coração de Poppy disparou, seus olhos se fecharam quando seus lábios se movimentaram hesitantemente contra os dele. A sensação a inundou, aquele maravilhoso sabor de chocolate amargo e especiarias, o gosto estranhamente familiar de Orsino. Finalmente, a razão despontou dos pensamentos incoerentes dela. Poppy recuou, os olhos arregalados pela traição de seu corpo. Impenetráveis óculos escuros retribuíram o olhar dela. Ela baixou seus olhos para aquela boca que enfeitiçava tão facilmente a dela. Desvencilhando-se da pegada dele, Poppy cambaleou para trás, o coração a mil. Orsino permaneceu parado enquanto as câmeras eram clicadas e os repórteres subiam uns em cima dos outros para obter um ângulo melhor. Uma infernal voz surgiu dentro da mente de Poppy. Imagine o que teria acontecido se ele pudesse usar as duas mãos. Poppy quis tapar os ouvidos, mas não havia como fugir da verdade. Orsino pusera sua boca na de Poppy, e ela não apenas permitira, mas retribuíra o beijo. Como se estivesse pronta, esperando que ele lhe oferecesse uma prova do prazer físico que sempre fora sua


especialidade. Como se o que ele fizera não tivesse significado nada. Como se ela fosse apenas outra mulher ávida pela atenção do sexy e carismático Orsino Chatsfield. Ela não aprendera nada? Poppy sentiu vergonha de si mesma. Rapidamente, ela pegou a bengala de Orsino, ignorando os repórteres. Ela não conseguia interpretar a expressão de Orsino. Ele estava tão impassível quanto parecia? E a maneira convulsiva como a mão dele a segurara? – Tome. – Ela colocou a bengala na mão dele e enfiou as próprias mãos nos bolsos. Ele conseguiria andar sem ela. Poppy deixou de lado a lembrança da tensão dele. Ele estivera trêmulo, os músculos contraídos e rígidos. Ela fora tola o suficiente para sentir pena dele, interpretando a tensão no rosto dele. Chega! Ela não era sua mãe para ser tão facilmente dominada por sua solidariedade em relação a um homem que a desprezava. ELES FICARAM em silêncio no caminho até o aeroporto. Por duas vezes, Poppy abriu a boca para explodir com Orsino, indignada. Nas duas vezes, ela viu o motorista a espiá-los pelo retrovisor. Aquele beijo seria estampado por toda a imprensa. A última coisa de que ela precisava era uma testemunha de uma discussão entre ela e Orsino. O que passara por sua cabeça quando ela permitira que Orsino a beijasse? Ela sentiu uma sensação dentro de seu estômago. Horror, garantiu a si mesma, não excitação. Finalmente, eles chegaram ao aeroporto. Todavia, em vez de pararem no terminal, o carro foi para uma entrada particular. Eles passaram pelos seguranças e entraram na pista, onde um jatinho os esperava. – Um jato particular? É assim que você viaja agora? – Normalmente, não. Mas, nessas circunstâncias, pareceu o mais conveniente. – Ele parecia perfeitamente tranquilo. Nada de empolgação para Orsino depois do ocorrido diante dos paparazzi. Nenhum arrependimento ou preocupação. Poppy cerrou os punhos. Como ela queria ser tão indiferente! – Os hotéis devem estar dando muito lucro. – Ela abriu a porta e pôs as pernas para fora. – Não participo do ramo hoteleiro. Algo na voz dele a fez virar a tempo de vê-lo contraindo os lábios de desgosto. – Sei que você não precisa trabalhar para se sustentar, Orsino. – Cuidadosamente, ela manteve a voz neutra. A atitude dele com relação à carreira dela nunca fora de apoio, como se ele não conseguisse entender a necessidade que Poppy tinha de pagar por suas próprias coisas. – Mas a fortuna da sua família vem dos hotéis. Dá no mesmo. Ele abriu a boca como se fosse dizer algo, mas parou. – O jato é de um amigo – respondeu por fim. Poppy hesitou, quase ressaltando aquela descarada mudança de assunto, mas deu de ombros. Não estava interessada na vida de Orsino.


Vinte minutos depois, eles finalmente estavam a sós, sentados um diante do outro dentro do avião, que já decolara. – O que diabos passou pela sua cabeça, Orsino? – A revolta dela não se aliviara. – Quando? – Ah, não se faça de inocente. – Ela cerrou os dentes. – Do lado de fora do hospital. – O beijo? – Claro que estou falando do beijo. Por que achou que tinha direito de fazer aquilo? Acima dos óculos escuros, uma das sobrancelhas dele se arqueou. – O fato de ser seu marido? – interrogou ele com uma voz profunda. – Meu marido!? – Atabalhoadamente, ela soltou o cinto de segurança e se levantou, parando diante dele. Tremia de indignação. – Quantas vezes precisamos deixar isso claro, Orsino? Você não é mais meu marido. Lentamente, ele levantou a cabeça na direção da voz dela. A pele de Poppy formigou quando o olhar dele percorreu seu corpo, começando pelos quadris, passando pela cintura, indo até os seios e, finalmente, ao rosto. O calor explodiu nas faces dela. Ele estava enxergando ou apenas fingindo? De qualquer forma, a preguiçosa análise dele a deixou tensa. Poppy cruzou os braços, em vez de esganá-lo. Ela nunca fora violenta, mas Orsino desencadeava nela uma reação mais potente do que tudo. Sem falar na tristeza e na mágoa que ele deixara pelo caminho. Lembrar disso a ajudou a conter sua raiva. – Não gostou de me beijar? – Uma sombra de um sorriso surgiu no canto da boca de Orsino. – Acho que me enganei. Poppy se virou de costas, andando de um lado para o outro. – Exatamente. Ser beijada por você não é uma experiência que quero repetir. Jamais. Prefiro guardar meus beijos para alguém de quem eu goste. Silêncio. – Esse homem tem nome? Posso tentar adivinhar? – A voz de Orsino continha um perigoso tom que a fez estremecer. – Não é da sua conta. Os lábios de Orsino formaram um sorriso que ela só conseguiu descrever como predatório. – Se tentar desfilar com ele na minha frente enquanto estivermos juntos, vai descobrir que é muito da minha conta. Poppy se virou para ele. – Pode parar. Nós não estamos juntos. Vou deixar você ficar comigo durante algumas semanas. O que eu faço e com quem eu saio não tem nada a ver com você, Orsino. – Talvez não. Mas acho que você vai descobrir, querida Poppy, que a imprensa vai se ocupar de arrancar os suculentos detalhes desse homem de quem você tanto gosta. Imagine só as consequências quando surgirem as notícias de que você está tendo um caso enquanto cuida do seu pobre e machucado marido. – Seu... Seu...! – Só estou dizendo a verdade. Você sabe como são os paparazzi. – Ele parou. – Vou conhecê-lo? Ele está nessa sessão de fotos para onde você está me levando?


Poppy lançou um olhar incrédulo para Orsino. – Você parece estranhamente interessado na minha vida amorosa. Ele não contestou, mas seus lábios se contraíram. Poppy franziu o cenho. Por que ele se interessaria? Passara cinco longos anos sem se interessar. A lembrança dos telefonemas não atendidos e dos e-mails não respondidos fez a espinha dela se endireitar. Ela não confiava naquela repentina fascinação dele com sua vida pessoal. – O que você está tramando, Orsino? Está tentando fazer parecer que estamos nos reconciliando? Foi por isso que me beijou? – Você dá peso demais a um beijo inocente. Estava na ponta da língua de Poppy dizer que não houvera nada de inocente naquele beijo. Que fora pura tentação, feito para deixar uma mulher derretida. – Você não me respondeu. O que estava querendo? – Ela se postou diante dele. – Quem revelou que tenho interesses escusos? – Ele inclinou a cabeça, e Poppy teve certeza de que os olhos dele se fixaram nos dela por trás daqueles óculos. Ela sentiu o calor do olhar dele até os pés. – Foi impulsivo, o calor do momento. – Impulsivo?! Com a imprensa ali? Está brincando. – Não vejo nenhum problema. Foi só um beijo amistoso. Ninguém foi prejudicado. Além do mais, a atenção da imprensa é boa para você. – Os lábios dele se curvaram num sorriso no qual ela não confiava. – Considere um presente meu. Publicidade gratuita. – Como se eu precisasse disso. Poppy descobrira como a imprensa podia ser intrusiva. O ano após a separação deles fora puro tormento, com a imprensa a perseguindo, registrando suas reações ao fim do relacionamento, e também acompanhando as mais recentes aventuras de Orsino, a fila de namoradas voluptuosas e glamorosas. Quando não encontravam nada para falar sobre Poppy, simplesmente inventavam. – Mas é tão bom para a sua carreira, Poppy. – Orsino adotou um inconfundível sotaque, uma imitação cruel, mas precisa, que ela não teve dificuldade de reconhecer. Poppy precisou de todo o seu autocontrole. Graças a Deus, Mischa não estava no chateau. Ela nem queria pensar no que aconteceria se os dois se cruzassem novamente. Por que ela aceitara aquela ideia absurda? O que estava querendo provar a si mesma? Que você se libertou dele. Que não há mais nenhuma parte sua pensando em como as coisas poderiam ter sido. – Talvez não tenha percebido, mas sou uma modelo altamente requisitada. Uma das melhores. Não preciso lutar por atenção. Meu sucesso é por méritos próprios. Orsino permaneceu em silêncio, um silêncio que dizia mais do que ela precisava saber sobre a opinião dele com relação ao sucesso dela. Poppy trabalhara arduamente para chegar aonde estava. Merecia respeito. Mas Orsino nunca respeitara sua carreira. Era uma das muitas coisas que os haviam separado. Poppy olhou por uma das janelas. Abaixo deles, havia uma massa de nuvens brancas. A claustrofobia a sufocou. Ela se sentia presa, exposta, e não havia como fugir. – Não me diga que você não tem ideia do furor que causou. Já seria ruim o suficiente se eles tivessem nos visto saindo juntos, mas isso... Ela se virou e o viu curvado em sua direção.


– O que espera ganhar com isso, Orsino? Ou estava só querendo bagunçar tudo? – Talvez eu estivesse simplesmente curioso. Já faz muito tempo. O choque a deixou paralisada. O ar esquentou. Então, Orsino levantou a mão e tirou os óculos. Os seus olhos escuros fixaram-se nos dela, a intensidade do olhar como um toque no rosto dela. Poppy tentou dizer a si mesma que era o olhar de um homem se esforçando para focar a visão com seus olhos danificados. No entanto, seu coração disparou. O calor a dominou por dentro. Devia ser o choque por ver a feroz cicatriz que chegava tão perto do olho dele. – Bem, agora que você já satisfez sua curiosidade, pode parar de me tocar. Lentamente, ele sorriu. Um sorriso genuíno. Poppy inspirou fundo, assustada. Mesmo com os curativos e a cicatriz, o sorriso o transformou no homem pelo qual ela se apaixonara no passado. – Só existe uma complicação. – Ele parou, como se estivesse lhe dando tempo de absorver as palavras. – Não foi um beijo. Não de verdade. Foi mais uma prova. – Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de malícia. – Preciso de um beijo de verdade para satisfazer minha curiosidade. – Que inconveniente para você. Porque aquele foi o último beijo, de verdade ou não, que você receberia de mim. ORSINO SUPERESTIMARA sua força ao ir embora do hospital. Seu orgulho quase resultara numa queda quando ele perdera a bengala. Por sorte, Poppy o salvara. Poppy. Ele se virou para ela, acomodada na imensa poltrona, dormindo. Seu ondulado cabelo escuro descia de forma tentadora por cima do ombro. Aquele foi o último beijo, de verdade ou não, que você receberia de mim. Ela sequer o olhara quando declarara aquilo, como se a presença dele não a incomodasse nem um pouco. Isso era ruim. E ficava ainda pior com o fato de que tudo em que ele conseguia pensar era roubar um beijo dela. Um beijo que levaria a um sexo ardente e sedento. Droga! Uma semana atrás, ele achara que morreria. Alguns dias atrás, sentira-se exposto, esgotado, mortal. Uma pessoa só dava o devido valor à vida depois de encarar a morte. Agora, ele estava cansado, lutando para manter o controle de um corpo que queria hibernar até a dor passar, mas sua libido o mantinha alerta. Uma prova de que Poppy fizera isso com ele. Orsino fechou os olhos. Como ele podia ser tão carente? Como podia querê-la novamente, sabendo o que ela era? Ele planejara uma pequena vingança, também com o intuito de mostrar a si mesmo que ele a superara de vez. Em vez disso, descobrira que a desejava mais do que quando o casamento deles significara algo. Orsino tentou dizer a si mesmo que aquele era um resultado previsível da abstinência sexual, mas não deu certo. Ele mal tocara os lábios de Poppy, e ela o fizera desmoronar.


Como seria beijá-la de verdade? Perder-se no calor daquela boca, permitir que suas mãos vagassem por aquele esbelto e sexy corpo? Um corpo que despertava como uma chama ao toque dele. Ainda despertaria? Ele perdeu o fôlego ao imaginar Poppy excitada e carente, implorando-lhe pela liberação. Suas mãos o acariciando ousadamente, a boca convidativa. Orsino passou a mão na própria nuca, como se fosse capaz de afastar o calor que crescia ali. Sentia desgosto por si mesmo. Devia ser capaz de dar facilmente as costas a Poppy. Mas dar as costas a Poppy nunca fora fácil, nem mesmo quando fora uma questão de sobrevivência. Quanto tempo fazia desde que ele ficara excitado com o simples toque de uma mulher? Quanto tempo desde a última vez em que ele quisera esse toque? Durante tempo demais, ele ignorou o desejo, pois isso lembrava sua fraqueza por Poppy Graham. Pois, inevitavelmente, eram os olhos violeta dela que flutuavam em sua mente quando a excitação surgia, eram seus roucos gemidos de prazer que ele ouvia quando despertava de um sonho erótico. Ele dissera a si mesmo que a deixara para trás na noite em que fora embora do apartamento deles em Londres, mas se enganara. Enterrado no gelo, enfrentando a própria extinção, ele se dera conta de que ainda havia algo entre eles. Agora, ele sabia o que era. Sexo. Atração primitiva. Desejo. A lógica lhe dizia que aquilo era uma ilusão. Que a realidade da intimidade com a mulher que esmagara sua vida não podia corresponder à sua imaginação. E ele já não gostava mais dela. Ela se certificara de que isso acontecesse. Entretanto, não havia como negar que ela fazia o sangue dele ferver. Ele queria tirá-la por completo de sua vida, esmagar aquele senso de que havia algo a ser resolvido entre eles. Mas também a desejava com uma urgência que não devia ser possível para um corpo tão machucado. Orsino sorriu. Ele sempre fora durão. “Indestrutível” era como a imprensa o chamava. O sorriso desapareceu quando ele observou sua acompanhante. Havia uma opção óbvia. Dormir com Poppy e permitir que a decepcionante realidade destruísse a fantasia que ele ainda tinha. Ele sabia que ela era como veneno. Mas a parte dele que conhecia um bom sexo o estava deixando louco por uma mulher que ele não devia tocar nem de longe. Dormir com ela e destruir aquele resquício de desejo. Exatamente o que ele queria. Algumas semanas enfurnado naquele chateau onde ela estava trabalhando. Bastante tempo para seduzi-la e se libertar antes de ir embora de vez. Como ele poderia resistir?


Capítulo 5

ERA DE manhã quando a limusine entrou na pitoresca cidade francesa. Ao lado dela, Orsino finalmente se mexeu, esticando as pernas. Ele parecia mais revigorado do que ela se sentia. Claramente, dormira muito melhor durante o voo do que ela, com seus inquietantes sonhos. Ele saíra do banheiro do avião barbeado e com uma camisa limpa, graças ao comissário de bordo. Orsino estava casualmente sexy, mas com aquele toque de perigo pelo qual publicitários do mundo inteiro pagariam uma fortuna. Ele teria sido um brilhante modelo com suas lindas feições e masculinidade crua. Não era justo. Até enfaixado ele ficava maravilhoso, enquanto ela se sentia amarrotada e desarrumada. – Quem providenciou tudo isso? Eu tinha planejado alugar um carro no aeroporto. – Minha secretária. – Você tem uma secretária? – Poppy não escondeu sua surpresa. – Você costumava administrar seu calendário social sem ajuda. Não deve ser tão difícil assim... – Ela faz mais do que organizar meu calendário social. – Ah, é? O que mais? Ele nunca contara a Poppy a respeito de suas expedições, nem mesmo sobre o planejamento para elas. Ela se sentira excluída. Seria possível que ele finalmente tivesse permitido que alguém entrasse nessa parte de seu mundo? Pensar nisso a fez sentir uma pontada. Ela não podia sentir ciúme da secretária dele! Contudo, Poppy não conseguiu conter a curiosidade. Como seria a aparência da tal secretária? – Imagino que essas suas expedições exijam bastante organização agora. – Elas haviam ficado mais perigosas e mais públicas, mas Poppy não mencionou isso. Não queria que ele pensasse que ela o vinha acompanhando na mídia. – Ela trabalha em meio expediente? – Tempo integral. Mas não para de me dizer que já devia ter tirado férias. – Sério? – Sem dúvida, nem mesmo organizar as expedições de alto nível de Orsino seria um emprego de tempo integral durante 12 meses por ano. Ela se virou para ele, vendo que sua boca


indicava que havia algo mais que ele não estava lhe contando. – Mas, certamente... – Imagino que este seja nosso destino. – Orsino indicou a janela, e Poppy reconheceu os altos portões que bloqueavam o chateau do público. Um segurança avançou, e ela baixou a janela para cumprimentá-lo. Instantaneamente, ele sorriu. Momentos depois, os portões se abriram. – Outro dos seus vários admiradores? – A voz de Orsino estava soturna. Poppy cerrou os dentes e lembrou a si mesma que não adiantava de nada morder a isca. – Preciso trabalhar hoje. Mas vou acomodar você primeiro. – Ótimo. Estou ansioso para você me colocar na cama. Ela olhou fixamente para Orsino. O tom dele insinuava algo muito mais íntimo. Poppy abriu a boca, mas a fechou em seguida. Deliberadamente, desviou o olhar. O carro percorreu a longa pista, saindo para a clareira, passando entre gramados, pelos estábulos convertidos e as construções da fazenda à direita, indo diretamente para o chateau. Ele despontava em meio a névoa do rio como algo saído de um conto de fadas. Pedras claras, torres cilíndricas e janelas surpreendentemente grandes. Mais um palácio do que uma fortaleza. Era emoldurado pela avermelhado da floresta no fim do outono, como uma pérola diante de um veludo escarlate. A construção se estendia até acima do rio sobre uma série de pilares em arco. Poppy não conseguiu conter o sorriso. Ela adorava aquele lugar, seu romance, a delicadeza e a beleza. Sua tranquilidade era um bálsamo depois de sua caótica agenda. O carro parou diante de uma torre independente a algumas centenas de metros do chateau. – Preciso admitir. Seja lá quem tenha escolhido o cenário do seu comercial sabia o que estava fazendo. O sorriso de Poppy desapareceu, seu coração murchando. A reação de Orsino seria totalmente diferente se ele soubesse quem organizara aquela série de comerciais. Até mesmo Poppy tinha dúvidas com relação ao trabalho. Não por motivos profissionais, pois prometia ser um imenso sucesso, mas pessoais. Desde aquela noite em Londres, Poppy não conseguira trabalhar com Mischa. Mas ela finalmente se convencera de que era hora de esquecer o passado. Além do mais, aquele contrato lhe daria a segurança financeira que fora sua meta durante tanto tempo. – Poppy? – A voz de Orsino a trouxe de volta ao presente. – Estou feliz por você aprovar. – Ela abriu a porta, sem esperar o motorista. A bagagem deles logo foi levada para dentro, e o motorista partiu. Era ridículo se sentir nervosa, mas Poppy estava tensa demais. Pela primeira vez em cinco anos, ela e Orsino estavam completamente a sós. No hospital e no avião, sempre houvera a possibilidade de algum funcionário aparecer. Ali, porém, na torre luxuosamente equipada, uma construção totalmente independente do chateau, havia apenas eles dois. – Um lugar e tanto. Orsino foi até uma porta aberta que levava para uma bela sala de estar com vista para o jardim de rosas e o rio. – Se isso não fosse tão grosseiro, eu perguntaria com quem você dormiu para conseguir estar lugar só para você. Instantaneamente, o calafrio na espinha de Poppy se transformou numa lança de gelo que perfurou seu peito. Ela ficou abalada com a casual crueldade do comentário, mas, quando se virou, já estava


recomposta, fingindo que aquele dardo envenenado não a atingira. Todavia, ela se sentia fraca, como se um toque fosse capaz de estilhaçá-la. – Por acaso, com ninguém. – A voz dela estava ríspida com o frio do outono. – É uma das vantagens de ser o novo rosto da joalheria mais antiga e prestigiada da Europa. – Poppy forçou um sorriso. – A House of Baudin cuida muito bem do que é valioso para ela. – Eu não quis dizer... – Não! – Ela o interrompeu com um único gesto. – Claro que quis dizer. Você tem uma língua afiada, Orsino, e sua velocidade para pensar o pior é uma das suas características mais óbvias e menos cativantes. Ela parou e inspirou fundo quando a adrenalina explodiu, fazendo-a estremecer com o esforço de encará-lo. Com aquele único comentário, ele a atingira profundamente, abrindo uma ferida do passado. – Eu não cheguei ao topo da minha profissão dormindo com ninguém. Cheguei aonde estou com trabalho e dedicação. Só isso. E, se está pensando em manchar minha reputação... Orsino levantou a mão. – Falei sem pensar. Como se ela fosse acreditar nisso. Por que aceitara levá-lo até ali? Ela já estava farta. – Não achei que você fosse ser tão sensível. Afinal, é uma expressão comum. Sensível! Que audácia! – Acha que sou tão submissa a ponto de não reagir ao que você diz? – Ela pôs as mãos na cintura e se aproximou dele. Instantaneamente, Orsino avançou na direção dela. O ar entre eles ferveu de tensão. O calor e o másculo cheiro dele a envolveram. Eles estavam tão perto que a tipoia dele roçava na jaqueta dela, mas Poppy se manteve firme. Uma sensação surgiu em seu estômago. Ela convenceu a si mesma que era desgosto. – Foi você quem saiu por aí dormindo com outros, Poppy. Não eu – disparou ele, e a cabeça de Poppy deu tranco para trás, como se tivesse sido estapeada. A trégua terminara. – Ou vai tentar me convencer de que foi para a cama com ele e nada aconteceu? Que é inocente? Uma conhecida náusea a dominou. Era como reviver aqueles pesadelos que a haviam atormentado desde aquela noite em Londres. Neles, independentemente do que ela argumentasse ou fizesse, tudo dava errado sem parar. Assim como dera errado tantos anos antes, quando Orsino se recusara a ouvi-la. Ela se recordou da dor e da incredulidade, de sua angústia quando Orsino não permitira que ela falasse. Dos telefonemas e e-mails sem resposta. Das tentativas frustradas de localizá-lo pessoalmente. E, durante todo o tempo, a imprensa, intrusiva e inquisidora, importunara-a querendo mais, tirando fotos, revelando sua dor ao mundo. Poppy achara que jamais se recuperaria. Ela fixou os olhos naqueles óculos escuros a menos de um metro dela. Não era culpa dela se ele não sabia da verdade. Ele não quisera saber. E ela já não se importava mais. – Convencer você de que eu era inocente? Eu não desperdiçaria meu fôlego. Ela já passara tempo demais tentando fazer exatamente aquilo.


Além do mais, seria impossível convencê-lo da verdade agora. Ele a julgara culpada naquela época. Sua atitude agora confirmava que nada mudara. Ele franziu o cenho, e Poppy teve um momento de triunfo por tê-lo surpreendido. – Por que devia fazer isso? Não tenho nenhum interesse no seu perdão, Orsino, nem em tentar consertar tudo. Pense o que quiser. Mas guarde seus pensamentos para você. Se eu ouvir qualquer comentário seu sobre minha vida amorosa, vou expulsar você daqui, com ou sem acordo. ORSINO OBSERVOU a desdenhosa mulher que o encarava como se ele não fosse mais de 15 cm mais alto que ela. Mesmo com a visão dele danificada, ela era incrível. Sua pele clara estava corada, acentuando a elegância de suas feições. Seus olhos violeta fulguravam, e seus lábios estavam exuberantemente escuros onde ela os mordera de fúria. Ela era como uma petulante rainha à frente de um exército. Ele nunca a vira tão sexy. Apesar de seu estado prejudicado, Orsino sentiu seus músculos se contraírem, o surto de testosterona. Queria puxá-la para si, conquistar aquela arrogante mulher e torná-la sua. Ele inspirou fundo. Só podia estar louco. Ela praticamente jogara a infidelidade na cara dele, e ele estava excitado!? Orsino se arrependera de suas desmedidas palavras assim que as pronunciara. Não seria lembrando Poppy da infidelidade dela que ele a levaria para a cama. E seu plano de seduzi-la? Talvez a sedução não fosse o caminho. Talvez ele pudesse deixá-la tão enfurecida, despertando seus instintos primitivos, a ponto de ela descontar isso fisicamente nele. Ele aguentaria de bom grado as unhas dela em sua pele pelo prazer de fazer sexo com Poppy com ela naquele estado. Um sexo urgente, raivoso, seria incrível com aquela mulher. Ele balançou a cabeça. Não acreditava no que estava pensando. – Peço desculpas. Não foi minha intenção ofender. Também não é minha intenção discutir sua vida sexual com ninguém. – Aquilo era algo que Orsino pretendia manter entre eles dois. Ele observou a fúria dela desaparecer. E apontou para o foyer e a escadaria de pedra. – Talvez agora você possa me mostrar meu quarto, para eu me acomodar. Poppy não disse nada, mas, depois de olhá-lo fixamente durante um longo tempo, virou-se e pegou uma das malas. Ela subiu a escadaria sem olhar para trás. Orsino ficou lá embaixo, observando a calça clara dela se esticar sobre o traseiro a cada passo. Mesmo esbelta e tonificada, sua esposa era arredondada nos lugares certos. Sua esposa. Ele queria mesmo continuar com aquilo? Depois de toda a dor que ela lhe causara? Claro que sim. Orsino vivia pelos desafios, pela adrenalina da próxima aventura perigosa. Como podia rejeitar a ideia de levar para a cama e vencer a única mulher que conseguira magoá-lo? Ele se sentia mais vivo com ela do que quando escalava o pico mais impossível. Perceber isso o deixou sem fôlego. Um calafrio percorreu o corpo de Orsino enquanto ele digeria aquela revelação. Aquele jogo era mais perigoso do que ele previra. Mas desde quando ele rejeitava o perigo?


Segurando o corrimão curvado, ele começou a subir os antigos degraus de pedra. Seu lado ferido latejava com o esforço. Quando ele chegou à metade, estava suando. – Vou ajudar. Era Poppy, descendo para lhe dar apoio. Apesar da tensa expressão em seus lábios, seria preocupação o motivo do cenho franzido dela? – Tem certeza de que não prefere me empurrar escada abaixo? – Não me dê ideias, Orsino. Você não sabe como isso é tentador. – A boca de Poppy se repuxou, e ele se interrogou se ela estaria contendo um sorriso ou a vontade de bater nele. – Você precisa ficar na cama. Não sei por que o hospital liberou você nesse estado. – Eu insisti. Aquelas quatro paredes estavam me enlouquecendo. – Por que isso não me surpreende? – Ela estava com o braço em torno dele, o macio seio tocando a lateral do corpo de Orsino. Ele inspirou fundo e tentou se concentrar. Finalmente, eles chegaram ao segundo andar. Eles entraram num cômodo grande e quase circular, dominado por uma larga cama e uma série de janelas que mostravam diferentes aspectos dos jardins e do rio. Poppy se afastou. – Espero que você não tenha uma recaída. Vai ficar sozinho aqui enquanto trabalho. – Não totalmente. Vou receber uma inspeção de saúde mais tarde. – Vai? Achei que o hospital não tivesse como providenciar isso em outro país. Orsino se sentou numa poltrona. – Não é do hospital, é minha secretária. A que você duvidou que existisse. Ela também providenciou uma consulta com outro oftalmologista aqui na França. Muito eficiente. – Claramente. – Poppy puxou a colcha da cama e pegou um lençol dobrado em cima de uma cadeira, estendendo-o sobre a cama. – Imagino que ela tenha sido a responsável pela bagagem nova que estava esperando por você quando descemos do avião. – Um homem tem suas necessidades, e ela é ótima em prevê-las. – Ela parece perfeita. Imagino que ela faça milagres em qualquer lugar do mundo. – Naturalmente. – Deve ser uma mulher e tanto. – A voz de Poppy estava entrecortada, quase censuradora. Ela achava que a secretária dele cuidava de suas necessidades mais pessoais? A ideia o intrigou. – Ah, é, sim. Poppy ficou rígida, lançando para ele um ríspido olhar, e Orsino conteve um sorriso. Apesar da raiva, não havia dúvidas de que a esposa dele estava bastante interessada no relacionamento dele com sua secretária. Orsino não tinha a menor intenção de revelar que Bettina era uma avó de 60 anos de idade e presa a uma cadeira de rodas. Ele se recostou na poltrona, observando Poppy se esticar e se curvar ao arrumar a cama. Flexível como nunca, o corpo dela era esbelto, mas forte. A constante dor no corpo dele recuou quando Orsino se permitiu imaginá-la nua em cima daqueles lençóis. – Essa cama é sua? Ela ficou rígida, indo até o outro lado em seguida. – Não. Durmo no andar de cima. Então, estava decidido. Quanto antes ele conseguisse subir aquela escadaria, melhor. – Falou alguma coisa? – Ela o olhou, desconfiada.


Ele balançou a cabeça e sorriu. Instantaneamente, Poppy ficou paralisada. – Antes de você ir, agradeceria se me ajudasse a tirar a camisa. – Quer se trocar? – Quero tirar a roupa. Ela estava corando? – Você sabe que sempre durmo assim. POPPY OBSERVOU o tranquilo sorriso de Orsino, a suspeita percorrendo sua pele. O que ele estava tramando? Seu mordaz comentário de antes abrira feridas do passado. Agora, ele estava tentando ser charmoso. Ele achava que ela era uma idiota suscetível àquilo? Mas ele precisava de ajuda. Fora por isso que ela o encontrara na escadaria. Não podia deixá-lo cambaleando ali, correndo o risco de cair. – Do que você precisa? – Só uma ajuda com as roupas. – Ele se levantou, e Poppy se deu conta de como estava silencioso ali, os dois a sós no luxuoso quarto da torre. Ela assentiu. Não queria tocar em Orsino, mas também não queria que ele soubesse como ela estava desconfortável. Desde que ela o reencontrara, suas reações estavam intensas, imprevisíveis. – Claro. Ele já estava mexendo no botão da camisa. – Eu faço isso. A mão dele baixou, e Poppy estendeu as dela, tomando cuidado com a tipoia e abrindo os botões. Inspirou fundo e desejou não ter feito isso quando sentiu o cheiro que era unicamente de Orsino. Nenhum homem cheirava tão bem quanto ele. Poppy desceu mais, tentando ignorar o intenso calor dele, os músculos logo atrás da camisa. Ele afastou o braço machucado para dar um melhor acesso a ela, e Poppy passou seus braços entre a tipoia e o corpo dele. O calor gotejou entre seus seios. Ela lançou um olhar para ele, mas era impossível decifrar sua expressão. – Você precisa dos óculos dentro de casa? – Meus olhos estão sensíveis à luz. Hesitantemente, ela puxou a camisa para fora da calça, detestando o tremor de suas mãos e deixando de lado as lembranças dos momentos em que ela arrancara a camisa de Orsino ao fazerem um frenético e apaixonado amor. – Pronto. – Então, seu coração murchou quando ela percebeu que ainda não terminara. Ele não conseguiria tirar a camisa sem ela. Tocar Orsino não devia ser tão difícil. Ela já dera abraços falsos o suficiente em modelos lindos para saber que um toque entre um homem e uma mulher podia ser totalmente desprovido de intimidade. Ela afastou a gola do ombro de Orsino, sentindo a ardente e lisa pele dele em seus dedos. Poppy tirou rapidamente a camisa pelo braço dele. Tudo que ela precisava fazer agora era descobrir como tirá-la do outro lado. No entanto, quando seu olhar se voltou para a tipoia dela, ela finalmente viu o que a camisa ocultara. Sua garganta secou quando ela viu os hematomas que cobriam toda a pele acima das ataduras em torno das costelas dele. Poppy sentiu um aperto no peito.


– Parece pior do que é. – Orsino girou seu ombro nu, como se estivesse tentando relaxar, e Poppy se deu conta de que o olhava fixamente. – Se você diz... – Ela foi soltar o nó que prendia a tipoia no pescoço dele. Sentia vontade de chorar. Por quê? Ela o vira no hospital. Sabia que ele estava ferido. Entretanto, não era o mesmo que ver o corpo dele tão surrado. Poppy assegurou a si mesma que sentiria a mesma solidariedade por qualquer pessoa que tivesse se ferido. Contudo, aquilo era mais profundo do que solidariedade. A verdade estava escancarada demais para ser ignorada. Ela estava trêmula, chocada, horrorizada porque era Orsino quem estava ferido. Apesar de sua mágoa e sua raiva, quando o homem em questão era Orsino, ela ainda não conseguia não sentir. Indesejada, a lembrança de sua mãe surgiu. Ela se prendera a um homem que não se importava com ela. Ainda pior, tentara destruí-la. Não tivera forças para deixá-lo, por piores que fossem os abusos. Poppy estremeceu. Ela não era como sua mãe. Não se apegaria ao homem errado. – Já que cortaram sua manga, vou só tirar a tipoia e passar a camisa pelo braço machucado. Consegue segurá-la até eu amarrar novamente? – Claro. As mãos de Poppy estavam firmes, seus movimentos rápidos quando ela tirou a camisa e amarrou novamente a tipoia. Ela mostrou o banheiro da suíte a Orsino, colocou um copo de água na mesa de cabeceira, mas não ofereceu ajuda para tirar a calça dele. Ao sair, ela parabenizou a si mesma. Sua fraqueza fora apenas momentânea. Sem dúvida, fruto do choque de vê-lo machucado. Ela seria capaz de lidar com Orsino e deixar o passado para trás. Já estava mais do que na hora de fazer isso.


Capítulo 6

ORSINO SAIU durante o frio da manhã. Já estava farto de ficar enclausurado naquele isolamento de luxo. Seu plano saíra pela culatra. Em vez de ter Poppy a seu dispor, ele passava a maior parte dos dias sozinho. Ela saía antes do amanhecer e voltava tarde. Ela não podia estar trabalhando durante todo esse tempo. Ela o estava evitando. Para sua decepção, ele não fora capaz de segui-la. Não estivera tão recuperado quanto esperara. Surpreendentemente, ela não o abandonara por completo. Telefonava todos os dias para saber se ele não tinha caído na escada ou se machucado de outra forma e providenciava a entrega de refeições a ele. Tudo muito eficiente. Muito civilizado. Muito irritante. Ele não queria uma cozinha de olhos arregalados, nem mesmo a curvilínea enfermeira que retirara recentemente a tipoia, deixando o gesso no antebraço dele e novos curativos em sua mão. Ele queria Poppy. Com sua força retornando, seu corpo deixava vergonhosamente claro como ele a desejava. Sem nenhum esporte radical ao qual se dedicar para descontar sua crescente frustração, Orsino passara a semana num excitado parcialmente excitado. Ouvi-la andando no quarto de cima, sentir o cheiro dela na escada, ouvir o som da água quando ela tomava banho, imaginá-la nua e linda... Era suficiente para levar um homem ao alcoolismo. Orsino não tinha nenhuma intenção de recorrer à bebida para curar seus problemas. Havia uma solução muito mais agradável. Ele percebeu que havia atividade no fim do jardim de rosas. Pegando sua bengala, ele não se apressou. Conseguia andar sem ela, mas aprendera que sua visão falha significava que ele nem sempre enxergava os obstáculos. A última coisa de que ele precisava era cair de cara na frente de Poppy. Fora um erro pedir para que ela tirasse a roupa dele. O que ele pensara? Que vê-lo seminu a deixaria louca por seu corpo? Ele grunhiu e entrou no caminho que acompanhava o rio. Ela o olhara e ficara enojada. Os hematomas tinham lhe causado repulsa.


Porém, ele tinha experiência suficiente com mulheres, com Poppy, para saber que ela não era imune. Mesmo depois de tanto tempo. Depois de quantos amantes? O estômago dele se contraiu. Quanto tempo ela passara com Mischa? Quantos outros tivera desde então? Orsino cerrou os dentes. Ele não se importava. Não mais. Felizmente, seu interesse agora era puramente sexual. Ele se aproximou de um grupo de pessoas e equipamentos. Todos pareciam ocupados com seus trabalhos. Na margem do rio, um barco a remo foi puxado, e duas pessoas entraram. Uma era um homem de cabelo louro, usando roupas arrumadas. A outra era Poppy. Mesmo dali, ele a reconheceu envolta por aquele imenso casaco que ia do pescoço ao tornozelo. O cabelo dela estava preso, mas ele via seu brilho vermelho-escuro. Houve um murmúrio de vozes, e Poppy tirou o casaco, fazendo Orsino perder o fôlego. O vestido dela, o pouco que havia, dançava e reluzia. Indo até o joelho com um profundo decote na frente e atrás, ele refletia a luz em prata e verde-azulado. A saia era uma série de fios que balançavam provocantemente em torno das coxas dela. Ela estava friamente elegante, mas desesperadoramente sexy, como uma deusa intocável. Orsino, todavia, conhecia a ardente mulher que estava por baixo daquela sofisticação. O calor atingiu sua virilha. Durante uma hora, ele observou, sentado em um banco, enquanto a equipe fotografava por diversas vezes uma cena do casal no barco. – Veja só quanto espumante eles estão desperdiçando – grunhiu uma voz ali perto. Orsino se virou e viu dois homens assistindo à cena no rio. – Precisa ficar perfeito. Você sabe como o diretor é. E é melhor eles acertarem logo. Ele quer a luz da manhã. – Isso não é motivo para desperdiçar um bom vinho. – Pare de reclamar e fique grato por não estar usando figurino durante horas, congelando. Veja só Poppy Graham ali, quase sem roupa. Quantas vezes ela acertou a fala, e ele errou? – Não desperdice sua solidariedade com ela, amigo. A rainha virgem é gelada demais para sentir frio. – Rainha virgem? – Orsino avançou, e os homens se viraram. O mais velho ficou paralisado, claramente reconhecendo Orsino. O mais jovem, que fizera o comentário, apenas concordou e sorriu. Era bonito, de um jeito um tanto artificial. Orsino se perguntou se não seria um modelo. – A imaculada srta. Graham. Mais fria do que uma nevasca. Nunca permite que nenhum homem se aproxime o suficiente para derretê-la. – Ah. – Agora, Orsino já entendia tudo. – Ela rejeitou você. – Não só eu. Ela é lendária por isso, a ponto de ser um desafio. Nunca fiquei sabendo de ninguém que tenha dado sorte com ela. Deve ter gelo nas veias. Então, nem perca seu tempo tentando. Orsino sorriu e não ficou surpreso quando o homem recuou. Ele estava com vontade de quebrar algo. De preferência, o nariz daquele cara. Sem dúvida, isso estava visível. Isso o fez parar. Desde quando ele se importava com o que os outros diziam de sua futura ex? No entanto, o primitivo ímpeto de marcar seu território venceu. – Ah, não vou perder meu tempo. Sou marido dela.


Ele mal ouviu o gaguejado pedido de desculpas do homem, que se afastou. Orsino estava ocupado demais tentando entender por que a fúria latejava dentro dele ao saber que os homens estavam tentando conquistar Poppy. E por que ela tinha aquela reputação de castidade? Certamente, depois de trair o marido, devia ficar mais fácil a cada novo amante. A menos que ela fosse do tipo que só queria um homem, e o encontrara em Mischa. Orsino cerrou os punhos. – Ignore-o, sr. Chatsfield. É um idiota. Daria tudo para estar lá com a sua esposa, no papel de protagonista. – Achei que fosse só uma sessão de fotos. Não sabia que também estavam filmando. – Estão tirando algumas fotos, mas estamos fazendo um comercial longo, que vai passar em cinemas e outros lugares. A Baudin vem fazendo joias há mais de trezentos anos. Então, é uma história de amor que atravessa os séculos. O mesmo casal em diferentes períodos históricos. Orsino indicou outro barco, perto do principal. – Bom ver que eles levam a segurança tão a sério. – O barco continha um remador e um mergulhador. – Na realidade, ele não está ali para resgatar ninguém. É para recuperar as joias, se elas caírem na água. São todas diretamente do cofre da Baudin. – Então, as pedras valem mais do que os modelos. – Eu não chegaria a dizer isso, mas... – Mas negócios são negócios. – Orsino se sentiu feliz por seus negócios valorizarem as pessoas, não o lucro. QUANDO POPPY chegou à terra firme, seus pés já tinham se transformado em blocos de gelo. Seus quadris e suas coxas doíam de tanto fazer pose sentada sobre a madeira surrada, e seu rosto estava rígido de tanto sorrir. Finalmente, o barco tocou na margem, e mãos foram estendidas para ela, dando-lhe equilíbrio enquanto ela pulava para fora. Um suave calor a envolveu quando alguém pendurou um imenso casaco em torno dos ombros dela. – Obrigada. As palavras dela foram abafadas por uma gargalhada. Ela ergueu o olhar e piscou os olhos. Algumas das outras modelos estavam estendidas em algumas mantas e pareciam estar tomando um café da manhã improvisado. No meio delas, como um sultão relaxando em seu harém, estava Orsino, mais sexy do que qualquer modelo masculino do set. Ele disse algo, e a gargalha foi redobrada. Uma das garotas deu um tapa de brincadeira no ombro dele, mas Poppy viu que a mão dela permaneceu ali, acariciando. Ele não recuou. Seu sorriso se alargou, aquele encantador sorriso capaz de seduzir qualquer mulher. A dor atingiu Poppy por dentro. Ela garantiu a si mesma que ver Orsino encantando sensualmente suas colegas não a afetava. Ela piscou. Ele já encantara alguma delas sexualmente? O calor a dominou quando ela pensou em Orsino com Gretel, ou Sasha, ou Amy, ou... qualquer outra. Era por isso que ele estava sendo tão pouco exigente com ela? Poppy esperara que ele transformasse sua vida num inferno. Em vez disso, ele ficara até quieto demais. Talvez ele estivesse interessado em


outras coisas. – Poppy? – Era um dos integrantes da equipe técnica. – Você está bem? Deve estar congelando. – Estou bem. Já me aqueci, obrigada. Ela estava mais do que aquecida. Estava fumegando. E desprezava a si mesma por estar se sentindo assim. Como podia se importar se Orsino ficasse com outra mulher bem debaixo de seu nariz? Como se estivesse sentindo o olhar dela, Orsino a olhou, seu sorriso desaparecendo. O impacto daquele olhar reverberou dentro dela. Poppy lhe deu as costas. – TOME ISSO. – Orsino viu Poppy ficar rígida ao ouvir a voz dele. Ele não estava gostando da leve sensação de culpa que surgia dentro dele. Soubera que ela estava ali e, deliberadamente, agira daquele jeito com as modelos. Sendo assim, por que aquele olhar fizera com que ele se arrependesse de seus atos? Ele nem fora capaz de interpretar a expressão dela de tão longe. E ela não tinha nenhum direito de julgá-lo. Mesmo assim... Ele se postou diante dela. – É café com conhaque. Vai aquecer você. Os olhos cor de violeta encontraram os dele. A maquiagem acentuava os olhos dela, deixando seus lábios reluzentes. Ela estava uma luxuriante sedutora, mas sua expressão estava apática. – Não vou beber antes de terminar. Enquanto eles falavam, a mulher ao lado dela retirava os grampos do cabelo de Poppy e a reluzente tiara. O cabelo profundamente vermelho caiu sobre os ombros de Poppy. Algo atingiu o peito de Orsino. Ele nunca a vira com aquele cabelo comprido solto. Parecia uma princesa medieval de personalidade forte. Então, alguém o tirou do caminho para retirar os braceletes, os brincos e o colar dela. Durante todo o tempo, Poppy se manteve passiva, observando-o desinteressadamente. O calor despertou na virilha de Orsino. Ele abominava o fato de ela ter se desligado por completo, ficando imune a ele enquanto ele ainda... precisava dela. Uma necessidade crua, latejante. Ele bebeu um grande gole do café. Antes do final do dia, ele arrancaria aquela expressão condescendente do rosto de Poppy. POPPY ABRIU a porta da torre, suspirando de alívio. O trabalho estava encerrado pelo resto da tarde. – Enfim, em casa. Ela parou imediatamente. Por que ele não estava com seu fã-clube de mulheres atenciosas? Ela endireitou o corpo, tentando conter o tremor em seu ventre. Orsino desceu pela escadaria e parou. – Você parece esgotada. Em outras palavras, ela estava um caco. Ao contrário das outras modelos, que vinham lutando pela atenção dele. O calor a atingiu novamente. – Obrigada, Orsino – disparou Poppy. – Exatamente o que eu precisava ouvir. – Preferia elogios?


– A vida é curta demais para esperar o impossível. Ele abriu um meio-sorriso. – Sabe, eu quase senti falta das suas respostas mordazes. Poppy se recusou a reagir àquele sorriso. O trabalho se tornara um teste de nervos quando ela tomara ciência da presença dele. – Quer alguma coisa, Orsino? Ele bloqueou o caminho dela. – Boa pergunta. – O sorriso dele ficou malicioso, e o ar carregado entre eles ferveu, reacendendo a chama de ressentimento que ela sentira no rio. Sentir aquela pontada de atração depois de ele ter passado a manhã com todas as outras mulheres do local foi a gota d’água. – Esqueça, Orsino. Não estou no clima. Ele anuiu. – Você teve um dia difícil. Os olhos de Poppy se arregalaram. Ele estava zombando dela? Não podia ser uma solidariedade genuína. – Exato. Então, se puder me dar licença... – Ela fez menção de subir a escadaria, mas ele permaneceu solidamente diante dela. Um tentador perfume de cedro e homem a fazendo estremecer. – Você parece meio abalada. Poppy respirou lentamente, tentando ignorar aquele cheiro. – Estou bem. – Não parece. Ela suspirou, sentindo o controle se esvair. A tensão se alastrou dos ombros para a nuca de Poppy. – Não sei o que você quer, Orsino, mas este não é o momento. Pode me deixar passar? – Só estou oferecendo um pouco de solidariedade. – Solidariedade? Pelo meu trabalho? Essa é boa! Você sempre se ressentiu dele. – Talvez porque você sempre o tenha usado como desculpa para me excluir. – A voz dele estava suave, ainda mais irritante por estar tão totalmente controlada. – Excluir você? – Ela ficou boquiaberta. – Era você quem não queria compartilhar as coisas, que partia nas suas preciosas expedições. Meu trabalho é minha carreira, meu sustento. Mas você nunca entendeu a importância disso. – Ah, eu entendi. Eventualmente. Quando percebi que você tinha se casado comigo pelo que eu poderia dar: dinheiro, posição, celebridade. Um atalho no seu caminho para o topo. As mãos de Poppy foram firmemente para seus quadris quando ela ouviu aquela injustiça. A fúria tentou dominá-la, mas ela não cederia. Ela se aproximou, parando quando ele não saiu da frente. Sem a bengala e a tipoia, ele parecia forte como nunca. Grande e másculo. Inegavelmente lindo, apesar da cicatriz que ia do alto da testa até os óculos escuros. – Você já parece bem, Orsino. Talvez esteja na hora de ir embora. – Infelizmente, minha visão ainda vai ser um problema durante um tempo. – Ele deu de ombros. – Além do mais, vai levar tempo para eu recuperar minhas forças. – Você parece estar conseguindo subir e descer muito bem essa escadaria. Não parece nada fraco. – Fico feliz por você achar isso. Ele inclinou a cabeça, como se a estivesse analisando. Seu cabelo estava comprido o suficiente para cair sobre a testa, acentuando a rígida perfeição de suas feições.


Poppy odiou ter reparado nisso. – Por que está tão ansiosa pela minha partida, Poppy? Não me diga que está com medo. Poppy já estava farta. Ela tentou contorná-lo para subir a escada. O braço bom de Orsino se estendeu, a palma se fixando na parede, bloqueando o caminho dela. O braço dele se estendendo diante dos seios dela parecia uma barra de aço, mas Poppy se recusou a recuar. Ele mudou de posição, encurralando-a contra a parede, fazendo Poppy se sentir indefesa em relação ao tamanho dele. A vista dela ficou vermelha quando lembranças de sua infância giraram em torno dela. – Você não pode me intimidar só porque é maior e mais forte, Orsino Chatsfield. Ela puxou o braço dele, mas Orsino não cedeu. Os músculos a envolveram, e, por um frenético instante, o medo cresceu. Poppy perdeu o fôlego ao tentar, e não conseguir, reprimir a sensação de ameaça que a acometia. Antes que ela pudesse vencê-la, Orsino baixou o braço. – Poppy? Ela engoliu em seco ao se recordar do pânico. – O que houve? O que há de errado? – Nada. Só a sua presença aqui. – Acho que você está com medo. As palavras dele a penetraram profundamente, indo ao lugar que Poppy mantivera oculto durante anos. O lugar que apenas sua mãe conhecia. Ela empinou o queixo. Por que ele tinha de pressioná-la? Por que precisara voltar para sua vida, perturbando a paz pela qual ela tanto lutara depois de tanto tempo? Ela não conseguia suportá-lo, e, mesmo assim, ele a fazia sentir coisas que ela não devia sentir. – Medo? De você? – Ela cravou o dedo no peito dele. – Está enganado, Orsino. Você não pode mais fazer nada comigo. Nada pior do que abandoná-la quando ela mais precisara dele. – Se não está com medo de mim, do que está? – A voz dele se aprofundou, e Poppy a sentiu como uma carícia em sua pele. Ele levou a mão aos óculos, e, subitamente, ela estava olhando diretamente para olhos de ébano que pareciam enxergar dentro dela. Os óculos caíram no chão. – Disto? A cabeça dele baixou lentamente, como se ele esperasse o recuo dela. Mas as pernas de Poppy pareciam ter se firmado, seu coração latejava na expectativa. Ela implorava a si mesma para sair dali, mas nada aconteceu. Até a boca de Orsino encontrar a dela e aquele tremor de expectativa se transformar num de prazer. Os lábios dele estavam quentes, firmes e insistentes. A língua dele dançou em torno da dela, convidando-a a acompanhá-lo, tentando-a. As mãos de Poppy subiram pelo largo peito dele até os ombros. A de Orsino segurou a cabeça dela, exigindo mais. A boca de Orsino na dela era avassaladoramente familiar, mas a urgência era nova, inebriante e acentuada. O desejo explodiu com uma intensidade que não podia ser negada. Ele a inundou, fazendo o corpo dela se grudar no de Orsino, implorando-lhe por mais.


Mãos puxaram tecidos. Coxas se movimentaram. Seios macios juntos a um torso rígido. A mão de Orsino foi para o seio dela, o polegar passando pelo mamilo enrijecido, enviando ondas de êxtase pelo corpo dela. As mãos de Poppy desceram, agarram o duro traseiro de Orsino através do jeans. Ela o puxou para si, pressionando seu corpo naquela protuberância deliciosamente pesada da ereção. – Sim – sussurrou ele dentro da boca de Poppy. E novamente quando roçou sua pélvis nela. Um escaldante calor a envolveu. Fazia tanto tempo! Ela se esquecera. Pensara que as lembranças haviam melhorado o excruciante deleite do corpo de Orsino se fundindo ao dela. Uma minúscula voz dentro da cabeça dela gritou, falando de fraqueza e perigo. Mas aquilo não era fraqueza. Ela estava se sentindo gloriosamente poderosa. Força e prazer fluíam em suas veias. Poppy apertou ainda mais o traseiro de Orsino. – Preciso de ajuda. – A voz de Orsino saiu arfante. A mão dele estava mexendo na cintura dela, os dedos lutando para abrir o botão da calça dela. Ondas de sensação se alastraram do abdômen até os seios dela. Os dedos dela encontraram o cinto dele, tirando-o, puxando o botão do jeans dele. A arfante respiração dele estava quente nas orelhas de Poppy quando a calça dela caiu ao chão. Um turbilhão de movimentos urgentes depois, ela já estava nua da cintura para baixo. No lugar de suas roupas estava Orsino, a mão dele fazendo coisas que a obrigaram a fechar os olhos. – Sim! – A voz dela estava aguda e arfante quando Poppy baixou o jeans e tomou Orsino na mão. Tão quente, sedoso e forte! Orsino puxou a coxa dela para seu quadril, e Poppy sentiu a parede em suas costas. Com as mãos nos ombros dele, ela se ergueu, os olhos se abrindo para encontrar o fulgor dos dele quando ele a encheu intimamente com seu calor e força. Durante uma fração de segundo, ela ficou paralisada, chocada com o agudo prazer. Então, Orsino rugiu algo em italiano. Os corpos dele se arquearam freneticamente quando ele investiu novamente para dentro dela, e Poppy sentiu a urgente pulsão de plenitude dele. A ardente semente explodiu dentro dela, mas Orsino continuou a penetrá-la, levando-a à beira do êxtase até o mundo entrar em chamas e ela explodir em mil pedaços.


Capítulo 7

A CABEÇA de Poppy desabou no ombro de Orsino, o prazer ainda a percorrê-la em pequenas ondas. A larga mão dele segurava a perna nua dela. As coxas de Orsino estavam presas debaixo dela, apoiando o peso de Poppy, e sua pesada respiração estava quente no cabelo dela. Ele mudou levemente de posição, e um último espasmo a atingiu. Poppy mordeu o lábio para conter o gemido de deleite que chegou a seus lábios. Mas ele soube. Sua mão a apertou possessivamente. Ela fechou firmemente os olhos. Que bobagem! Como se Orsino se importasse... – Poppy? – A voz dele fez a pele dela formigar em lugares que haviam acabado de ser revividos pela primeira vez em cinco anos. Cinco anos. Ela não ficara com nenhum homem antes ou depois de Orsino. Agora, como uma fruta madura, ela caía nas mãos dele. Como pudera fazer isso? O horror e a vergonha a dominaram. Como ela estava sendo autodestrutiva, entregando-se a um homem que a desprezava. O homem que quase a destruíra. Empurrando o peito dele, Poppy se contorceu até Orsino recuar e ela deslizar parcialmente até o chão, ignorando o forte sentimento de perda vindo de seu corpo. Seus joelhos estavam tão fracos que ela teria desabado se não tivesse sido por Orsino, que a segurava firmemente. O calor escaldou as faces dela quando ela baixou o olhar. – Não acredito que fiz isso. – Acredite, Poppy. – Algo na voz dele a fez erguer imediatamente a cabeça. Ela esperara uma arrogante satisfação, até mesmo triunfo na expressão dele, mas encontrou algo diferente. Algo não identificável. Um pulso de conexão passou entre eles, como nos velhos dias, quando ela sentira uma união com ele, algo que Poppy considerara totalmente precioso. A antiga culpa embargou sua garganta. Por mais que Orsino fosse o culpado da destruição do casamento dele, fora ela quem dera aquele primeiro e irrevogável passo, recorrendo ao conforto de Mischa em sua tristeza e solidão. Apesar de ela ter se contido antes de quebrar o juramento matrimonial. – Poppy? Não é o fim do mundo.


Ela riu. Orsino a reconfortando? Impossível. – Claro que não é. – Ela se obrigou a olhar novamente nos olhos dele. – Ainda assim, é inacreditável. – Ela se vestiu rapidamente, não querendo ficar seminua diante dele. Quando Poppy terminou, o jeans dele também já estava fechado. Outra onda de calor a atingiu quando ela se deu conta de que ele sequer precisara tirar a calça para possuí-la. E ela permitira. Mais do que isso; incentivara-o, subindo pelo corpo dele em sua sede. Tudo dentro dela se contraiu quando ela se recordou, e Poppy estremeceu. Ela empinou o queixo, projetando uma petulante confiança para acobertar seus tremores. – Por mais que tenha sido agradável, Orsino, preciso... – Vai fugir, Poppy? – Já terminamos. – Ela precisava sair dali antes que o que restava de sua compostura desmoronasse por completo. – Se eu não soubesse da verdade, diria que essa afirmação é ingênua. Os olhos dela se arregalaram. Orsino a chamando de ingênua? Ele a considerava a mulher mais maliciosa do mundo. – Olhe, Orsino. Você já teve sua... gratificação. – Como ele devia estar se gabando silenciosamente por ela ter sucumbido tão facilmente a ele! – Mas já acabou, e não vai acontecer de novo. Agora, quero tomar um banho. – Claro que vai acontecer de novo. – Lentamente, ele balançou a cabeça, a expressão em seus olhos fazendo loucuras com tudo dentro de Poppy. – Mas, da próxima vez, é melhor que seja num lugar mais confortável. Já disse que ainda não recuperei minhas forças. Poppy olhou fixamente para o gesso no braço dele, dividida entre perguntar se ele se machucara e a lembrança da força dele quando ele a segurara, penetrando-a fortemente até o êxtase dominá-los. O toque dos dedos dele no rosto dela a fazer parar quando Poppy tentou passar por ele. Uma carícia tão delicada, mas que a fez perder o fôlego, recomeçando aquele sedento latejar em seu ventre. – Você não tem como fugir disso, Poppy. Não vai desaparecer. – Os dedos dele desceram para tocar os lábios inchados dela. – Se preferir, posso provocar outra briga entre nós, para você ter uma desculpa para liberar toda essa tensão e se soltar. Mas seria muito mais divertido se você aceitasse. – Divertido? Não estou interessada em me divertir com você, Orsino. – Não está tentando dizer que aquele sexo ardente e selvagem que acabamos de fazer teve a ver com amor, está? – Ele proferiu a palavra amor como se sentisse um gosto amargo na língua. – Claro que não. Foi só... – Ela gesticulou vagamente. – Puro desejo primitivo. – A voz dele ficou mais grave. – Sexo ardente que enlouquece e deixa você acabada e trêmula. Ele não parecia nada acabado e trêmulo. Estava incrivelmente lindo e confiante. – O tipo de sexo que... – Chega, chega! – Ela levantou a mão. – Do jeito como você fala, alguém poderia até pensar que faz anos que você não fica com uma mulher. O rosto dele ficou tenso. – Estou encarando a realidade, Poppy. – Ele segurou o punho dela. – Isso não vai desaparecer. Não entende? – Precisa desaparecer. – Ela soava tão desesperada quanto se sentia? Ela puxou a mão e cruzou os braços.


– Não temos nada em comum, a não ser um relacionamento que foi um desastre. – Você ainda não entende. Não estou falando de um relacionamento. – Novamente, aquela ênfase amargurada. – É desejo, puro e simples. – Mas não gostamos um do outro. Você me detesta. – Ela engoliu em seco, dizendo a si mesma que isso já não importava mais. Orsino inclinou a cabeça, e aquela mecha de cabelo pendeu à frente. Poppy morreu de vontade de colocá-la de volta, sentir sua maciez. – Vou propor um acordo, Poppy. Não falo do passado se você não falar. Ele não tem nada com isso. – O gesto dele englobou eles dois e a parede onde Orsino acabara de fazê-la ter o orgasmo mais empolgante de sua vida. – O passado é passado. Mas a atração física não é. Por que não desfrutamos dela? Por que não permitimos que ela se esgote para que, quando nos separarmos desta vez, ela tenha terminado por completo? Assim, não restará nenhuma... conexão. – Você não está falando sério! – Nunca falei tão sério. Essa é a diferença entre homens e mulheres. Homens são pragmáticos. Sabemos distinguir entre desejo e afeto. O que nós temos é um desejo físico ardente. Enquanto ele falava, uma pulsação começou entre as pernas dela. – Você sente, não sente? Ela balançou a cabeça. – Uma vez foi mais do que suficiente. – Mentirosa. Mal começamos, e você sabe bem disso. Tudo que fiz foi expor tudo. Agora, vai ser ainda mais difícil ignorar. – Ele parou, como se estivesse esperando a resposta, mas a língua de Poppy estava colada no céu da boca. – Ao menos pense nisso. Orsino esperou até ela finalmente assentir com relutância; valia tudo para encerrar aquela conversa. Então, para o alívio de Poppy, ele recuou, dando-lhe acesso à escadaria. O pé dela estava no primeiro degrau quando Orsino falou novamente. – Uma última coisa. Não usei proteção. Você tem algo com que se preocupar? Poppy demorou demais para entender do que ele estava falando. Quando isso aconteceu, ela sentiu seu estômago se revirar. Ele não usara proteção. Ela sequer pensara nisso. Como pudera ficar tão dominada pelo desejo? Estava na ponta da língua de Poppy anunciar que não ficara com ninguém desde o fim do relacionamento deles, mas ela pensou melhor. Ele não acreditaria. Ou, se acreditasse, enxergaria nisso um sinal de que ela ainda estava apaixonada por ele. – Não. Você não tem nada com que se preocupar nesse aspecto. Mas e eu? Você é seguro? – Poppy se recordou da quantidade de parceiras em todas aquelas fotos e sentiu algo se contrair dentro dela. – Não se preocupe. Estou totalmente sadio. – Entretanto, a tensão em torno da boca dele lhe advertia que Orsino estava pensando em algo. Ela esperou, mas ele não mencionou nada sobre o risco de gravidez. Claro. Ele presumia que ela tivesse cuidado daquilo. Sem dúvida, imaginava que ela ficava com vários homens. Freneticamente, Poppy fez os cálculos na cabeça, garantindo a si mesma que as chances de gravidez eram mínimas. Outro motivo para vetar a proposta dele. Engravidar de seu ex seria um erro ainda pior do que ter se casado com ele.


Lentamente, ela subiu a escadaria, ciente dos olhos de Orsino a observá-la. A vergonha preencheu Poppy quando ela sentiu o latejar entre suas pernas, a fraqueza que ele despertara novamente nela. Contudo, mesmo na privacidade de seu quarto, ela não conseguiu tirar da cabeça a revoltante proposta dele. Havia uma terrível e sedutora lógica ali, e isso só mostrava como ela estava desequilibrada. No passado, ela cometera um catastrófico erro, acreditando que o amor superaria tudo. Ela amara Orsino com uma paixão que sobrepujara o bom senso. Afirmara a si mesma que o amor deles solucionaria tudo. Mas o amor não fora deles. Fora apenas dela. Orsino sempre se contivera, mantendo-se reservado e mascarando isso com seu charme e sua potente sexualidade. A história se repetira. Primeiro, os pais dela. Depois, ela e Orsino. Amar e perder quase a destruíra. Ela não conseguia suportar a ideia de se entregar novamente ao amor. Se não por amor, talvez desejo? Havia sentido nas palavras de Orsino? Poppy demorou tanto no banho que seus dedos começaram a ficar enrugados, mas não conseguiu pensar numa resposta. O bom senso e a voz da tentação rodopiavam em torno de sua cabeça. Ela desligou o chuveiro e apoiou as palmas na parede de azulejos do banheiro. Quisera lavar o toque, o cheiro de Orsino, mas a água quente apenas energizara o corpo dela, ainda excitado, fazendo Poppy se arrepender da velocidade com que as coisas haviam acontecido lá embaixo. Ela não sentira o toque dele em sua pele nua. E, na privacidade do banheiro, ela admitiu a verdade: que ela queria isso, queria Orsino, mais do que tudo. Poppy fechou os olhos com força, censurando a si mesma. Estendendo a mão para a porta do boxe, ela encontrou a carne quente. Uma carne quente e nua, com uma deliciosa e leve cobertura de pelos. Os olhos dela se abriram de súbito. – Orsino! COM UM olhar para ela, Orsino soube que acertara ao ir até ali. Sem tempo para se proteger atrás da fachada de “não me toque”, a expressão de Poppy a traiu. O sonhador desejo em seus olhos, o convite de seus lábios entreabertos, a maneira como ela pendeu na direção dele, em vez de recuar. Ah, sim, ela o desejava tanto quanto ele. – Quem mais? – O olhar dele baixou para o delicioso corpo dela. Seios altos e empinados que faziam as palmas dele latejarem de vontade de segurá-los. O longo e esbelto torso que descia até uma cintura que ele sabia que se adequava perfeitamente às suas mãos. A curva puramente feminina dos quadris dela, que aninhavam aquele triângulo vermelho-escuro de macios pelos. Ele engoliu em seco, lembrando-se do sabor dela. – Venha. – Ele a segurou pelo cotovelo, guiando-a para fora do boxe. – Eu faço isso. – Orsino levantou a enorme toalha de banho e a pendurou nos ombros dela, puxando-a para perto. – Você não devia estar aqui. Não convidei você. – Onde mais eu estaria? – Lentamente, ele massageou os ombros dela através da toalha. – Eu quero você. E você me quer. Não é, Poppy?


Poppy inspirou fundo, seus olhos ficaram pesados quando as mãos dele encontraram seus seios através da grossa toalha. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu. Orsino teria sorrido triunfante, mas ele estava tão absorto quanto ela. – A questão não é você. – Ela segurou as mãos dele e as afastou de seu corpo. – Como você já explicou, é só sexo. Ele viu as faces dela corarem, e algo se contraiu dentro dele. Aquele rubor de Poppy o fascinara desde o início. Ele imaginara que uma mulher que exibia seu corpo em roupas de banho e minúsculos vestidos tivesse perdido a capacidade de corar. Mas não Poppy. Na primeira vez em que ele a despira, aquele rosado calor em suas bochechas fora adorável, e ele se perguntara se seria o primeiro amante dela. Porém, ela reagira com tamanho entusiasmo que ele se dera conta de como isso era impossível. – Tinha algum tempo que eu não fazia nada. Foi por isso que... – Quer dizer que não sou eu quem você quer? Qualquer um serviria? É isso que está dizendo? – Orsino recuou, viu a testa dela se franzir. – Tinha um cara hoje de manhã, um dos modelos, que adoraria estar aqui, ajudando você a resolver esse problema. Talvez você devesse chamá-lo para o meu lugar. Orsino não soube de onde haviam surgido aquelas venenosas palavras. Talvez um último e desesperado esforço para cortar a ligação entre eles. Todavia, quando ele falou, foi atingido por uma adaga de dor ao pensar em Poppy com outro homem. Orsino se forçou a recuar até a porta. Quando ele fez isso, o olhar dela desceu pelo corpo dele, os olhos se arregalando ao vê-lo nu e, apesar de sua fúria, totalmente excitado. Ele precisava dela, mas se recusava a implorar. Poppy observou a ereção dele como nunca tivesse visto nada parecido antes, e Orsino se sentiu pulsar, rígido e ávido. Meia hora antes, ele quase fizera papel de idiota. Teria atingido o orgasmo na mão dela com mais alguns segundos. Conseguira apenas esperar até estar dentro dela antes de explodir como um garoto com sua primeira mulher. Ele jurara a si mesmo que a abstinência fora a causa, que, da próxima vez, ele estaria no controle. No entanto, ele já estava imaginando se não teria um orgasmo só de ver os exuberantes olhos dela devorá-lo. Ele se recordou da boca de Poppy como um quente veludo em seu corpo excitado. Queria aquilo novamente. Queria... Os olhos dela capturaram os dele, e uma onda de algo o atingiu. Não apenas desejo, mas algo mais profundo. Algo que ele pensara ter banido. – É isso que você quer? Outra pessoa para aliviar sua... tensão? – Quando ela não respondeu, ele continuou, recusando-se a sentir a dor da rejeição. – Talvez você possa aproveitar e ver se alguma das mulheres de hoje de manhã gostaria de fazer algo a respeito disto... – indicou ele sua ereção – ... já que você não está interessada. Poppy desviou o olhar. Orsino não podia confiar em sua visão prejudicada, mas ele podia jurar que vira lágrimas nos cílios dela. – Poppy?


Ela se virou novamente. – Certo. Você venceu, Orsino. Eu admito. É você quem eu quero, não um homem qualquer. – Ela pôs novamente a mão no peito dele, fazendo o coração de Orsino disparar. – Satisfeito? O queixo dela se empinou, como sempre acontecia quando ela estava com medo. Poppy estava com medo? Saber disso acabou com a raiva dele, deixando-o vazio. Orsino cobriu a mão dela com a dele. – Ainda não. Porque preciso tanto de você que não consigo pensar. Não apenas uma mulher qualquer, mas você, Poppy. Só você. Um último vestígio de orgulho berrou que ele estava revelando demais. Mas a honestidade o calou. – Não chore. Não é só você quem está sentindo desta vez. Eu também estou. – Sério? Ele passara tanto tempo querendo que ela sofresse pelo que fizera. Entretanto, ao vê-la mal, Orsino se deu conta de que não aguentaria. – Também não é assim que eu quero que seja – admitiu ele. – Mas é assim que as coisas são. Por ora. Preciso de você, Poppy. Só você. – E eu preciso de você, Orsino. Só você. Orsino se forçou a ignorar como aquilo parecia um juramento. Era apenas atração física. Ele a deitou com cuidado na cama. – Adorei seu cabelo – confessou ele ao espalhar as mechas. – Eu adorei o seu. – Ela afastou a mecha que ameaçava cair sobre a testa dele. O toque dela foi leve, mas Orsino o sentiu com uma força que fez algo cantar dentro dele. Poppy sempre fazia isso com ele. – Repita. – Quero você, Orsino. Preciso de você. – Ótimo. – Ele deu um beijo na palma da mão dela. – Então, nisso, somos iguais. Ela assentiu, e ele se afastou. Quando ela arfou de tristeza, ele sorriu. – Só vim pegar isto. – Ele levantou a caixa de preservativos que pusera no criado-mudo enquanto ela tomava banho. Um senso de posse o preencheu. Ela admitira que sua sede era apenas por ele, mas Orsino sentiu uma avassaladora vontade de expulsar os amantes anteriores de Poppy da mente dela. Ele deu pequeninos beijos no abdômen dela, sentindo-a estremecer. Em seguida, tocou com o rosto a fragrante e macia pele do pescoço dela, descendo para o quadril, onde uma pequenina cicatriz sempre o fascinara. Com lábios, língua e mãos, ele explorou as pernas dela, o ponto atrás do joelho, tão sensível. Orsino adorava vê-la se contorcendo por causa dele, um prelúdio do que viria. Sorrindo, ele subiu pelas coxas dela com os dedos. Poppy arfou quando ele chegou à junção das coxas, as pernas se abrindo para ele. – Tão ávida – declarou ele, maravilhado como sempre pela sexualidade nada comedida de Poppy. Ela se entregava a ele completamente. Ele não se permitia lembrar isso fazia cinco anos. Agora, ele estava louco para penetrá-la com força e velozmente até que ambos se dissolvessem no êxtase. Contudo, ele se certificaria de que só ele pudesse lhe dar aquilo de que ela precisava.


Poppy estava com um gosto puramente feminino na língua e nos lábios dele. Ele se aproximou, adorando as roucas arfadas dela, a maneira como ela segurava firmemente a cabeça dele. Com uma última, longa e luxuriosa lambida, ela se contorceu fortemente debaixo dele. Orsino viu o forte rubor do êxtase na pele dela. Porém, foi a maneira como ela gemeu o nome dele, como uma bênção e uma súplica ao mesmo tempo, que despertou algo que ele não conseguiu identificar. Finalmente, quando ela ficou paralisada debaixo dele, ele se deitou a seu lado na cama. Os olhos dela se abriram, aquecendo-o em lugares cuja existência ele esquecera. – Agora, Orsino. – Os lábios dela se curvaram num sedutor sorriso. – Mas mal comecei. – A mão dele deslizou para aquele úmido triângulo de cachos escuros quando sua cabeça baixou para o seio dela. Um bom tempo depois, quando Orsino finalmente se apoiou nos cotovelos sobre ela, seu corpo latejava com a tensão de ter negado sua própria gratificação durante tanto tempo. Poppy era dele, marcada pelo toque e por clímax após clímax, não deixando dúvida de a quem pertencia seu coração. Orsino franziu o cenho. Aquilo não tinha nada a ver com corações. Lentamente, ele a penetrou. As pálpebras dela se ergueram, a expressão mais doce que ele já vira. Os braços quentes envolveram as costas dele, pernas suaves circundando sua cintura. E, subitamente, antes de Orsino ter oportunidade de sentir o triunfo, seu corpo planou alto. Com um grande rugido de prazer, a cabeça dele pendeu para trás, seu clímax explodindo. Quando ele finalmente voltou a si, estava sobre ela, a cabeça aninhada no úmido e perfumado pescoço dela. Relutantemente, ele se apoiou nos cotovelos, apesar de Poppy continuar a abraçá-lo. Suas costelas doíam, mas ele não se importava. Orsino baixou a cabeça, não querendo olhar nos olhos dela. Uma coisa era certa. Se o ato de amor a marcara como propriedade dele, esse processo funcionava em mão dupla. Ele se sentia mais ligado a Poppy do que se sentira em cinco anos. Como isso se encaixava em seu plano de levá-la para a cama e ir embora?


Capítulo 8

– NÃO, EU não posso, Bettina. Esse é o problema. Poppy parou ao entrar na torre, fechando a porta. A frustração na voz de Orsino chamou sua atenção. Quem era Bettina? O que ela fizera para deixá-lo tão tenso? O ciúme a atingiu, e ela ficou com medo disso. Por quatro noites, ela compartilhara a cama de Orsino. Noites de frenética paixão e inigualável felicidade e manhãs de preguiçoso amor. Ela devia estar horrorizada, envergonhada por ter se entregado novamente a Orsino. Todavia, de alguma forma, ela conseguira bloquear a voz do apocalipse em sua mente. Vivia cada momento, não se permitindo pensar além. – Já tentei isso, mas... – Um forte barulho a assustou. Orsino soltou um palavrão. – Não. Estou bem, Bettina. Desculpe. São esses malditos olhos. Já quase consigo enxergar, mas, de vez em quando, calculo mal as distâncias e esbarro em coisas. Poppy se aproximou até ver a silhueta de Orsino contra o cinzento céu através da janela. Uma gota de suor surgiu nas costas dela, seu ventre se contraindo simplesmente com o prazer de observá-lo. Aquilo não devia ser bom. Só de olhá-lo, seu corpo já reagia. Não, não havia nada de errado em desfrutar da atração física, disse a nova Poppy a si mesma, contanto que não fosse nada... complicado por emoções. Eles haviam terminado as filmagens cedo, quando a chuva caíra, e Poppy voltara às pressas, recusando um convite de se juntar aos outros. Ao ver a grande silhueta de Orsino, ocorreu-lhe que ela nunca pensara em como ele ocupava seu tempo enquanto ela trabalhava. Agora, ela sentiu uma avassaladora curiosidade. Com relação ao que havia no laptop dele. E com relação a Bettina. Ela se aproximou, e a cabeça dele se virou. Poppy quase cambaleou quando os olhares se fixaram e o desejo a atingiu com força.


Imagens maliciosas preencheram sua mente. Ela e Orsino enroscados no largo sofá. Orsino nu no tapete diante da lareira acesa, chamando-a. As chamas escuras em seus olhos enquanto ele a levava ao clímax e a abraçava quando o mundo se transformava num borrão. – Não se preocupe, Bettina. Vou tentar de novo depois. Tchau. – Não parecia nem um pouco o jeito de se falar com uma amante. Poppy repetiu a si mesma que os relacionamentos dele não lhe importavam. Mas era mentira. – Voltou cedo. – Fizemos cenas externas, mas a chuva nos venceu. Vamos gravar cenas internas amanhã. Ele guardou o telefone e pôs as mãos nos bolsos. Não a tocou, e Poppy se indagou se ela teria interrompido algo. Deliberadamente, ela se aproximou, olhando casualmente para a enorme lareira, observando o laptop aberto sobre uma almofada e uma pilha de papéis no braço de uma poltrona. Poppy manteve a expressão neutra ao olhar nos olhos dele. Ele não estava com os óculos escuros. Ela tirou o casaco o pendurou no encosto de uma poltrona. – Você não parece feliz por me ver, Orsino. Estou interrompendo algo? – Ela já estava perto o suficiente para ver que ele não estava inabalado como tentava fingir. Seu olhar estava fixo nos lábios ainda. Ótimo. Ela detestaria ser a única a se sentir carente. – Orsino? – Poppy parou, permitindo que seu lábio inferior protuberasse ligeiramente e sentindo a satisfação ao perceber o olhar dele. Ela se aproximou. Hesitantemente, Poppy passou a ponta da língua no lábio. O maxilar dele se contraiu. Aquilo deu a ela uma deliciosa sensação de poder. – Orsino? Meus dentes estão sujos de batom? – Não. – A voz dele estava gravíssima e fez a pele dela formigar, os mamilos se contraírem. – Você tem a boca mais sexy que já vi. Não consigo enjoar dela. Poppy ficou perplexa com a confissão. Por mais que ele fosse um amante generoso, Orsino raramente deixava transparecer a profundidade de sua paixão. – Nesse caso, vou garantir que você receba tudo que quiser. – Poppy deu um leve beijo nos lábios dele e recuou, os olhos percorrendo deliberadamente o tenso corpo dele. – Sua bruxa. – A voz dele estava rouca. – Você está gostando. Sei que está. Um dos cantos da boca dele se ergueu. Foi a vez de Poppy olhar fixamente, hipnotizada pela potência máscula daquele sorriso. – Seu laptop quebrou? Ouvi um barulho. – Não. Esbarrei numa mesa. Minha visão ainda não está boa. – Espere um pouco. Você sempre foi impaciente. – É o que todos dizem. – Inclusive Bettina? – Você ouviu? – Por um momento, Poppy achou que ele fosse franzir o cenho por ela ter ouvido a conversa dele, mas Orsino deu de ombros. – Aquela mulher tem uma paciência de Jó. Precisa ter para trabalhar comigo. – Ela é sua secretária? – Bolhas de algo... alívio?... surgiram dentro de Poppy. Ele consentiu.


– Mas não sei se vai continuar sendo durante muito tempo se eu não me recuperar logo. Sem poder ler documentos vitais e tomar decisões, as coisas ficam difíceis. – Posso ajudar? As palavras o surpreenderam. – Ajudar? – Com o laptop. Se estiver com dificuldades de abrir o documento... Ele balançou a cabeça. – O problema é a minha visão. Orsino sempre odiara admitir fraqueza. O fato de ele estar contando aquilo a ela agora parecia absurdamente importante. – Quer que eu leia para você? – Seria... – Ele balançou a cabeça. – Obrigado. Mas não. É um documento grande, uma planilha. Ela estava cada vez mais curiosa. De que tipo de planilha Orsino precisaria? Então, o motivo da hesitação dele a atingiu. Provavelmente, a planilha detalhava sua impressionante renda e sua carteira de investimentos. Quem iria querer mostrar isso a sua futura ex-esposa logo antes do divórcio? Poppy gesticulou, descartando a ideia. – Foi só uma ideia. Ele avançou. – Você faria mesmo isso? É entediante. – Terminei cedo. Tenho tempo livre. Mas ela estava se oferecendo para passá-lo com Orsino. Não para se entregar ao sexo ardente e frenético, mas para ler uma planilha para ele. – Não pode ser pior do que usar um corselete durante horas, esperando que meu parceiro de cena acerte as falas. – Foi ruim assim, é? – Um brilho iluminou os olhos de Orsino. – Você não faz ideia. – Ela inspirou fundo e se alongou, deleitando-se com a liberdade conferida pela pequenina roupa íntima depois das restrições do figurino do dia. O olhar de Orsino baixou para os seios dela. Instantaneamente, os mamilos de Poppy ficaram rígidos. Ela se virou para a lareira. – Quer que eu leia o documento? – Ajudaria muito, obrigado. – Claro. – Ávida por uma distração, ela se sentou de pernas cruzadas diante do laptop. Orsino ficou na poltrona logo atrás dela. Se Poppy se curvasse para trás, as pernas dele lhe dariam apoio. Poppy esmagou um pensamento em como aquela cena era aconchegante; o som da chuva nas janelas, a lareira os esquentando. Só ela e Orsino... Inspirando fundo, ela pegou o computador dele. Sonhar com noites relaxadas diante da lareira com seu marido não era saudável. No passado, ela confundira com amor a paixão dele. Ela precisava se manter concentrada e se lembrar das regras. Ignorar o passado, já que dói demais. Ignorar o futuro, já que não temos um. Viver o momento. – Que documento você quer que eu leia?


Orsino pegou o laptop e navegou pelos arquivos. Tentando não reagir ao convidativo calor dele, Poppy olhou para a tela. Todos os documentos estavam ampliados para facilitar a leitura. – Você não consegue ler isso? – Ela achara que a visão dele estivesse melhorando. Ele já parecia tão capaz. No entanto, ocorreu-lhe que ela raramente o via em outro lugar que não fosse o quarto ou o banheiro. – Consigo ler estes. Mas acompanhar as linhas e notas de rodapé desta planilha, não. Pode começar do alto? Não demorou para que ela percebesse que o relatório nada tinha a ver com investimentos ou imóveis. Também não era sobre escaladas ou ralis. – Pode voltar uma linha? – Ela ouviu a caneta escrevendo no papel. Orsino conseguia enxergar o suficiente para escrever. O aperto no peito dela se aliviou um pouco. Ela ditou as datas e números. – O que é isto, Orsino? – Despesas. Tratamento médico. Alimentação. Manutenção. – Já percebi isso. Mas de quem? – De um estabelecimento com o qual faço negócios. Agora, se puder... – Que tipo de estabelecimento? A relutância de Orsino a intrigava. O que ele estava escondendo? E, ainda mais intrigante, o que acontecera com o homem que mal ficava parado por tempo suficiente para tirar uma foto de casamento? – Orsino? Ele se remexeu atrás dela, como se não estivesse mais confortável na poltrona. – É um centro de reabilitação. – Para...? – Pessoas que foram feridas por minas explosivas. Poppy baixou o laptop e se virou. Ele a ignorou enquanto fazia outra anotação em grandes letras de forma. – E? Finalmente, ele ergueu o olhar, a expressão indecifrável. – Por que você está analisando esses relatórios? – Você sabe que minhas expedições angariam fundos para caridade. – Sei. – O coração dela subira até a boca mais de uma vez enquanto ela assistira ao sucesso dele em alguma loucura ousada, filmada a distância e transmitida pela televisão. – Mas o que tem a ver com essa... administração? Ele não era um homem que gostava de burocracia. Era um homem de ação, sempre em movimento, sempre com novas conquistas a fazer. – Uma administração cuidadosa é o que mantém esses estabelecimentos funcionando. Sem supervisão, eles poderiam ser um desastre. Assim, nós podemos saber que o dinheiro está indo para onde é necessário. – Nós? Ele se recostou e esfregou os olhos. O peito de Poppy se apertou de solidariedade. Talvez ela devesse dar um descanso a ele, mas Poppy sentia que, se ela não pressionasse agora, jamais ficaria sabendo.


– A diretoria que os administra. – Você faz parte de uma diretoria? – De várias. – Ele fez uma expressão de dor. – Inacreditável, não? Poppy olhou fixamente para o homem que ela pensara conhecer. Forte, determinado, enérgico, extremamente focado; um homem que fazia as coisas acontecerem. – Nem um pouco. Entendo que você seria valiosíssimo a uma diretoria. Os olhos de Orsino se arregalaram. – Como você se envolveu? Ele olhou para a escuridão lá fora. Claramente, ele não costumava falar muito daquilo. O fato de ele estar contando a ela gerou um quente formigamento dentro de Poppy. – Fiz um favor a um amigo. Ele queria um companheiro para atravessar o Mar de Timor a remo. – A remo? Em canoas? Que ideia maluca! – Na época, pareceu uma boa ideia. Foi minha primeira visita ao Timor-Leste, um dos países mais pobres do mundo. Mas o povo de lá foi extremamente amistoso. Fiquei lá e me envolvi no apoio a um pequeno hospital que está com falta de funcionários e dinheiro, mas faz um trabalho fantástico. – Prometi a mim mesmo que, em vez de simplesmente caçar emoções, cada uma das minhas viagens angariaria fundos para povos necessitados. A imprensa já estava me acompanhando, e eu já tinha feito algumas loucuras para caridades maiores, mas o envolvimento pessoal acabou me atraindo. Como se eu pudesse fazer a diferença. Ele olhou nos olhos dela, e Poppy sentiu a importância das palavras dele. Todas aquelas arriscadíssimas aventuras de Orsino tinham sido planejadas especificamente para angariar fundos? Ela imaginara que Orsino fazia simplesmente o que sempre fizera; encontrava novos desafios por diversão. Que o lado da caridade fosse apenas uma feliz coincidência. Quantas vezes ele arriscara a vida pelos outros? – Mas tem um abismo entre fazer isso e participar de uma diretoria. – Alguns lugares tinham a necessidade, mas não a ajuda local. Então, fui descobrir como dar início a isso. – Você fundou suas próprias empresas beneficentes? – Prefiro chamar de empreendimentos. A ênfase é ajudar as pessoas a encontrarem soluções de longo prazo para elas. Mas não fiz isso sozinho. Procurei pessoas que sabiam o que estavam fazendo. Fui só uma engrenagem da máquina. – E que máquina! Deve ter vários empreendimentos aqui. – Não era de se admirar que ele tivesse uma secretária em tempo integral. Orsino sempre fora encantador, tranquilo em qualquer situação social. Entretanto, houvera também um senso de distância. Uma sensação de que ele se enclausurava dentro de si mesmo às vezes, mesmo diante de um público que o venerava. Ou de sua jovem esposa. O coração dela palpitou. Ele sempre fora autossuficiente e egoísta. Quisera-a com ele quando lhe convinha, mas dava as costas à Poppy sem pensar duas vezes quando a oportunidade de uma aventura se apresentava. Contudo, ali estava a prova de que ele tinha sentimentos pelos outros. Orsino mudara.


Poppy olhou para a lista de empreendimentos. Ao ver um deles, ela parou. – Eu conheço esse. O abrigo para mulheres. – Não ficava em nenhum lugar distante, mas a menos de cinquenta quilômetros de onde ela fora criada. Saber daquilo evocou um turbilhão de emoções misturadas; a principal delas, o arrependimento por um passado que não podia ser alterado. – Organizei um evento de moda beneficente lá há duas semanas. POPPY SE virou para ele. Instantemente, Orsino se distraiu com a curva dos lábios dela. Poppy era tão linda. Como ele conseguiria se satisfazer dela? Então, ele viu a curiosidade na expressão dela e amaldiçoou a si mesmo por ter permitido que ela conhecesse aquela parte da vida dele. Havia coisas que ela não precisava saber. Como o fato de que ele se lançara em desafios cada vez mais perigosos para preencher um vazio que se abrira na noite em que ela o traíra. Durante um tempo, ele quase acreditara ter encontrado algo diferente e precioso com Poppy. Até descobrir que o “amor” dela era falso. Uma antiga dor o dilacerou. – Você organizou um evento beneficente? A mulher com quem ele se casara fora tão focada em sua carreira, seguindo à risca o conselho de seu amado Mischa de como melhorar sua posição, que Orsino jamais a imaginara trabalhando por algo. – Você não é o único que tem uma consciência social, Orsino. – A cabeça dela se ergueu, o lábio inferior se ressaltando de forma beligerante. O calor rugiu, consumindo Orsino. Durante quatro noites, ele tivera tudo que quisera dela. Possuíraa urgentemente, sedentamente, lentamente, ternamente. Da maneira como quisera. E ela também quisera. Durante uma fração de segundo, o medo o atingiu. Medo por ter se equivocado ao levá-la para a cama. De que fosse difícil demais romper a ligação entre eles agora que eram amantes novamente. Então, a lógica se reafirmou. Aquela sede sexual era o resultado da abstinência prolongada. Quando ele se saciasse, seguiria com sua vida sem olhar para trás. Orsino afastou o cabelo do rosto dela. – Desculpe, Poppy. Não devia ter falado daquele jeito. Vou compensar isso. – A mão dele foi até o ombro dela, descendo até o rígido ponto do mamilo. Ele conteve um suspiro de satisfação quando ela estremeceu. – E como vai fazer isso? – Como você quiser. – Qualquer coisa? – Qualquer coisa. – Nesse caso... – Poppy se ajoelhou entre as pernas dele. Ela abriu a calça dele com os olhos reluzindo, a expressão de uma mulher ciente do próprio poder. Aquela sensual boca se curvou num sorriso quando Orsino sentiu o zíper sendo baixado.


Capítulo 9

O LONGO salão de festas despontava do chateau, formando uma ponte sobre o rio. O piso preto e branco era um contraponto perfeito aos rodopiantes vestidos de baile de outro século enquanto as pessoas que dançavam planavam de uma ponta à outra do salão. A cena era exótica e glamorosa, uma prova do luxo de tempos passados. No centro de tudo, vibrante com um vestido da cor de granada, estava Poppy. Ela se destacava do resto como a lua rodeada de estrelas desbotadas. Quando ela passou girando por ele nos braços de seu parceiro loiro, Orsino perdeu o fôlego. A pele dela continha o lustro de pérolas. Avidamente, ele acompanhou o movimento dos seios dela, quase incontido pelo decote do vestido, a perfeita inclinação de seus ombros nus e a deliciosa curva da cintura. Uma fortuna em ouro e rubis cintilava no pescoço e nos punhos dela, mas Poppy superava facilmente o brilho dela. Todo homem ali a desejava. Orsino sabia disso. Porém, ela estivera ainda mais sexy na noite anterior, quando o seduzira diante da lareira. O calor o dominou, e ele levou um instante para se dar conta de que a dança parara e que o diretor estava dando instruções na outra ponta do salão. Ele não devia estar ali. Devia estar duelando com aqueles números no computador. Todavia, depois da noite anterior, Orsino não conseguia se concentrar no trabalho. Na noite anterior, algo acontecera. Ele não sabia exatamente o que, mas estava se sentindo diferente. Por que Poppy não zombara do trabalho dele? Por que ela ficara interessada e o ajudara? Não, a diferença tinha mais a ver com elusiva sensação de que eles, os dois, haviam mudado. Devia ser sua imaginação. – Você voltou. – Ele se virou para ver um homem emergir da multidão de figurantes e se juntar a ele à margem do grupo. Era o homem com quem ele conversara perto do rio. – Você é cabeleireiro? – Orsino indicou a bolsa de suprimentos na mão dele. – Prefiro ser chamado de estilista. – Ele sorriu. – Essa cena está me dando muito trabalho. A maioria das modelos não tem cabelo comprido o suficiente para um penteado como o de alguns séculos atrás. Então, precisamos improvisar. Sua Poppy é a exceção. Orsino ignorou o calor que surgiu em seu peito ao ouvir “sua Poppy”.


– Mas o cabelo dela está solto. – Em tese, para se adequar à época, ela também devia usar preso, mas seria um desperdício tão grande! Além do mais, Mischa insistiu para que, nessa cena, ela ficasse luxuriosa. Como se tivesse acabado de sair da cama com o amante. – Mischa? Seu companheiro o olhou de forma curiosa. – O homem que descobriu Poppy quando ela tinha 15 anos. Claro, naquela época, ele era fotógrafo, não o diretor de criação da Baudin, mas eles trabalham juntos há anos. Orsino conteve sua fúria. Mischa e Poppy. Ah, sim, ele sabia exatamente como eles eram íntimos. – Conheço Mischa. Só não sabia que ele estava envolvido nesse projeto. – Envolvido? Foi ele quem montou tudo. Foi assim que a Baudin conseguiu Poppy Graham, através de Mischa. Essa série de anúncios é criação dele. Através de uma crescente névoa vermelha, Orsino viu Poppy sorrir para seu parceiro de dança. Ele observou a constituição alta e esbelta do homem. Suas faces altas, eslávicas, e seu cabelo loiro-claro. Subitamente, muita coisa fez sentido. O projeto particular de Mischa. A modelo de Mischa. Finalmente, Orsino fez a conexão. O homem com Poppy tinha uma notável semelhança com aquele que roubara a sua esposa: Mischa. Mischa, o velho “amigo” dela, quem sempre sentira ciúme de Orsino e o detestava por ter desviado a atenção dela do trabalho deles juntos. O desgraçado estaria revivendo seu caso com Poppy por intermédio do modelo? Transformando aquilo em alguma deturpada fantasia em filme para que ele pudesse revisitá-la por diversas vezes? Orsino perdeu o fôlego quando uma imagem surgiu em sua mente, algo que ele expulsara fazia muito tempo. A rua do lado de fora do prédio deles em Londres. As luzes de um táxi iluminavam carros estacionados e a neve. Orsino ouvira o gelo ser esmagado debaixo de suas botas quando ele saíra da calçada para atravessar a rua. Diante dele, uma silhueta saíra pelas portas de vidro da portaria, vindo em sua direção. Um homem alto, seu cabelo claro bagunçado. Ele vestira o casaco e, ao passar sob um poste de luz, Orsino o reconhecera. Mischa, o guia e guru de Poppy em sua carreira de modelo. A luz revelara duas outras coisas. Primeiro, que a camisa dele estava para fora da calça, os botões tortos, como se ele tivesse estado distraído demais para se vestir da forma adequada. Justamente o homem cuja visão de mundo era guiada pela necessidade de passar a imagem perfeita! Segundo, o que parecia ser batom borrado na gola dele. E outra mancha em seu rosto. – Desculpe. Você disse algo? Orsino conteve seu rosnado e lutou para voltar ao presente. O salão de festas. O homem a seu lado. Poppy inacreditavelmente sexy nos braços de um estranho que se parecia com o único homem na face da Terra que ele detestava de verdade. – Nada. Nada mesmo.


ORSINO PRECISAVA de espaço, ação, movimento. Algo para fazer. Algo em que se concentrar que não fosse a emoção que ondulava debaixo de sua pele como formigas. Mas ele não podia simplesmente entrar num carro veloz e dirigir noite adentro. Sua maldita visão o mantinha prisioneiro ali. Assistir às filmagens era a única distração possível. Se ele se concentrasse bastante, talvez se recordasse de que não devia sentir nada além de desejo por Poppy. Depois de horas, tudo finalmente terminou, os equipamentos sendo desligados e levados embora. Cabos sendo enrolados, instruções sendo berradas, modelos de ombros cansados passando por ele. Orsino esperou. O loiro alto que passara a noite inteira ao lado de Poppy passou por ele, usando um uniforme militar de outra época. Orsino mal o olhou. A responsável pelas joias de Poppy se aproximou rapidamente com uma pilha de caixas de couro. O imenso recinto se esvaziou, mas ela não foi até ele quando as luzes foram apagadas. Estava escuro do outro lado do vasto salão, mas Orsino identificou um movimento, o som de vozes. Ele foi na direção delas. – Não fiz nada disso, estou dizendo! Você não sabe do que está falando. Está bêbado. – Ele ouviu a urgente voz da mulher de longe. – Não minta para mim! Você estava se esfregando nele. – As palavras do homem continham uma fúria arrastada. Orsino acelerou o passo. – É só o papel que estou fazendo. Você sabe que eu jamais... – Claro que faria isso! Vocês são todas iguais, provocando e atraindo os homens para depois largá-los. – Ai! Você está me machucando. Solte. As sombras à frente se discerniram em silhuetas. Um homem diante de uma mulher de vestido reluzente, a mão dele em torno do punho dela, ela resistindo. E, ao lado dela, outra mulher, com um vestido que Orsino sabia ser da cor de escuros rubis, seus ombros nus e seus seios reluzindo ao luar que entrava por uma janela próxima. – Pode soltá-la. – Foi Poppy quem falou, a voz rígida e grave, vibrando com uma feroz energia. – Fique fora disso! – O homem soltou a outra mulher e se virou violentamente na direção de Poppy. Ela recuou um passo, agachou-se e, num piscar de olhos, derrubou seu agressor no chão. Orsino correu, o sabor do medo marcando sua boca. Tropeçou em algo, mas endireitou o corpo e avançou com tudo, movido pela fúria e pela adrenalina. Poppy recuou, abrindo os braços como se para proteger a outra mulher. O homem se levantou, cambaleante, soltando uma série de violentas ameaças. Ele foi na direção dela. Orsino se atirou à frente, derrubando-o no chão e sentindo seus ferimentos voltarem a latejar de dor. O sangue rugia nos ouvidos dele enquanto eles se engalfinhavam. Ele sentiu o cheiro de álcool, suor e sangue. Uma excruciante dor o atingiu quando um violento chute acertou seu joelho. Mas ele continuava movido por pura ira. Aquele... desgraçado atacara Poppy. Seu punho atingiu a macia barriga e, em seguida, um maxilar duro, o que causou uma agoniante dor em sua mão até então não ferida. Então, ele ouviu apenas uma respiração entrecortada e o sangue como uma britadeira dentro de sua cabeça.


Orsino se levantou, o joelho mal aguentando seu peso. Mãos suaves se estenderam para ele, percorrendo seu corpo como se para garantir que ele estivesse inteiro. – Minha mandíbula. Você quebrou minha mandíbula. Orsino olhou para o homem estendido a seus pés. Ele o reconheceu; o homem que falara mal de Poppy perto do rio. Uma sede de sangue o percorreu, e ele avançou com tudo, mas parou imediatamente quando Poppy apertou o braço dele. Ela o puxou com todo o seu peso. Orsino se forçou a recuar. – Se estivesse quebrada, você não conseguiria falar. – Era a voz de Poppy, ríspida e nada solidária. Orsino se virou para ela. Sua mão tremia ao tocar o rosto dela, deslizando pela acetinada perfeição da face, roçando na macia fartura do cabelo dela. Ela parecia ilesa. O alívio embargou a garganta dele. Orsino abriu a boca para falar, mas não conseguiu. Algo crescia dentro dele, como uma quente maré, enchendo-o e transbordando. – Orsino. Você está bem? – Ele sentiu o calor dela junto a si, as mãos o segurando com tanta força que ele fez uma expressão de dor. O farfalhar do vestido dela quase abafado pelo choro quando ela ergueu a mão recém-ferida dele até seus lábios. – VOCÊ PRECISA mesmo de um médico. – Poppy lutou para manter sua voz firme ao mergulhar o pano em água quente e torcê-lo. Suas mãos estavam trêmulas. Seus ossos haviam se diluído quando ela vira Orsino naquela violenta briga, e ela ainda não se recuperara. Também não fazia a menor ideia de como encontrara forças para levá-lo de volta aos aposentos deles. Quando ele se lançara no ar para derrubar o agressor dela, o medo a mantivera paralisada, incrédula. Orsino brigara por ela. Mesmo debilitado, ele se arriscara. Para protegê-la. Ninguém nunca a protegera assim. Ninguém além de sua mãe, cujos esforços tinham sido ineficazes contra um enfurecido e embriagado troglodita. Poppy fechou os olhos com força, revivendo aqueles tensos momentos nos quais Orsino se pusera entre ela e o perigo. Quando ele absorvera os golpes de um homem fortalecido pela bebida e pelo ciúme. Ela sabia exatamente a força que a bebida dava a um homem raivoso. – Poppy? O que foi? Os olhos dela se abriram de súbito, e ela viu as próprias mãos entrelaçadas fortemente. – Por que fez aquilo? – Ela se virou, a saia esvoaçando. Orsino se sentou na beira da cama, apenas de jeans e botas, o cabelo bagunçado, a expressão soturna. O sangue escorria de um corte em seu torso, seu lábio estava inchado. Marcas vermelhas, que logo se tornariam mais hematomas, manchavam seu corpo, e a mão que segurava o gesso estava ensanguentada. Ela nunca o vira tão arrasadoramente carismático, tão másculo.


– Como assim? – Por que você o derrubou? – A voz de Poppy tremia descontroladamente, assim como seus joelhos. Orsino recuou, arregalando os olhos. – Você não está falando sério. – Olhe só para você! Ainda está se recuperando de ter sido esmagado por uma avalanche! Ninguém achou que você fosse sobreviver. Agora, você... você... Poppy balançou a cabeça. Não conseguia encontrar palavras, pois não entendia o que estava sentindo. Medo por ele, sim. Preocupação de ele ter machucado novamente o braço, ou as costelas, ou, ainda pior, os olhos. No entanto, havia mais. Algo tão imenso e inexplicável que ela não conseguia analisar. Aquilo criava um aperto em seu peito, embargando sua garganta. – Você não precisava me salvar. Não sou sua responsabilidade, lembra? – Ela estremeceu. – Você nem é... – Seu marido? Os olhos dela se fixaram nos dele. Escuríssimos, eles despiram por completo. Apesar do vestido, Poppy se sentiu nua diante dele. – É exatamente o que sou. Seu marido. – Só no papel. Ela viu Orsino contrair o maxilar. – Acha que eu deixaria qualquer mulher à mercê daquele desgraçado? Algo se revirou dentro dela. – Então, você teria feito aquilo por qualquer mulher. – Sim. – Ele parou. – Mas, quando vi que era você... – O olhar dele a perfurou, gerando um calor que contra-atacou o frio que a mantinha paralisada. As chamas lamberam sua barriga, seus seios, seu coração. – Sim? Ela não queria saber. Não queria mesmo. Eles tinham combinado que aquilo não era um relacionamento, que não haveria futuro para eles. Apenas prazer sexual. – Quando vi que era você, tive vontade de matá-lo.


Capítulo 10

AS PALAVRAS dele pairaram no ar. Orsino sequer conseguia se forçar a se arrepender por ter revelado tanto. Não com os olhos dela parecendo janelas para uma alma atormentada. – Poppy? Ele a deixara perplexa. Orsino via isso no queixo caído de Poppy, em seus olhos vidrados. Ele se recordou de como ela fora criada de forma protegida, seus anos enfurnada num internato para meninas que atendia à aristocracia britânica. Provavelmente, ela nunca vira alguém dar um soco em toda a sua vida. Ou talvez ela não estivesse chocada apenas com a violência, mas com a necessidade dele de protegêla. Mas Poppy não era a única que estava chocada. A reação visceral dele ao vê-la em perigo apagara tudo que ele achara que sabia sobre eles dois. Orsino garantiu a si mesmo que reagiria da mesma maneira se qualquer outra mulher tivesse estado naquela situação. Era verdade, mas ele teve uma avassaladora certeza de que não teria se sentido da mesma maneira. Como se alguém o tivesse esfaqueado. Como ele podia sentir isso por uma mulher que logo sairia de sua vida? Ele não a queria como sua esposa. Não depois da traição. Entretanto, algo ainda os unia. Algo mais profundo do que sexo. Subitamente, Orsino se sentiu mais cansado do que quando arrastara Michael para fora do gelo. Ele desabou, a adrenalina finalmente se esgotando para permitir que seu corpo sentisse a dor por completo. – Orsino! Ela estava ao lado dele, as mãos quentes e macias na pele dele. Ele grunhiu. Como podia sentir dor e excitação ao mesmo tempo? – Você precisa de um médico. Vou chamar um imediatamente. – Não! – Ele segurou o punho dela. – Hoje, não. Amanhã. Por ora, só quero descansar. – Mas e se...? – Por favor, Poppy. Não se preocupe. Estou machucado e dolorido, mas é só isso. – Ele entrelaçou os dedos aos dela. – Se quer fazer algo, pode me ajudar a ir para a cama. – Subitamente, ele se sentiu


como se tivesse 100 anos, cada movimento sendo uma incrível agonia. – Até deixo você dividi-la comigo. Ele mexeu as sobrancelhas e foi recompensado com uma gargalhada. A melhor coisa que ele ouvira durante todo o dia. – Nem você conseguiria pensar em sexo neste momento. Orsino permitiu que seu olhar baixasse para o decote do vestido dela, que passava logo acima dos mamilos. A boca dele se contorceu num sorriso que estendeu seu lábio machucado. Ele grunhiu novamente, mas recebeu uma leve carícia no pescoço e no ombro. – Gostei do vestido. Pode tirá-lo. – Daqui a pouco. – Ele ergueu o olhar, surpreso. – Mas só porque o estilista ia arrancar meu couro se eu o estragasse. Dez minutos depois, Orsino estava nu na cama. Poppy estava deitada a seu lado, coberta por uma camiseta dele que ia até suas coxas. Ele não sabia se sentia incomodado ou agradecido por ela ter se recusado a deixá-lo sozinho para ir buscar suas próprias roupas. Mas ele não trocaria aquela imagem dela com sua camiseta por nada. Contudo, mesmo com os analgésicos, não lhe restavam forças para nada além de abraçá-la, deleitando-se com a brisa da respiração dela em seu peito, o peso da cabeça de Poppy em seu ombro, uma das pernas enroscada na dele. Deviam ser os remédios, mas ele achou que poderia ficar eternamente daquele jeito e eternamente feliz. – Obrigada – balbuciou ela na escuridão. – Pelo que você fez. Por tê-lo impedido. – Você também não se saiu nada mal. – Orsino se recusou a pensar no que poderia ter acontecido. – Foi um golpe e tanto. Onde aprendeu? – Aulas de autodefesa. – Fico feliz por você nunca ter precisado usar o que aprendeu até hoje. A mão dele foi até a curva da cintura dela, e Orsino sentiu a rigidez de Poppy. O estômago dele se revirou. – Você nunca tinha precisado de nenhum golpe de autodefesa, tinha? O silêncio se transformou num abismo. Orsino sentiu Poppy estremecer. – Poppy? – Ela apoiou a cabeça no ombro dele, respirando de forma entrecortada. – Não teria adiantado muito. Eu era só uma menina. Acho que não teria sido páreo para ele. – Ele? – Tudo dentro de Orsino começou a se revirar freneticamente. Um calafrio a atingiu. – Meu pai. O estômago de Orsino se transformou numa placa de metal gelado. – Ele batia em você? – Geralmente, na minha mãe. Mas, se eu me metesse... Foi por isso que ela me mandou para um internato, para me manter em segurança. Ela vendeu as joias e o que tinha restado da herança dos pais dela para pagar o internato. – Eu... – Orsino engoliu em seco, buscando palavras que não vinham. Ele a puxou para si. As rápidas batidas do coração dela revelavam o custo daquela lembrança. – Mas por quê?


– Por que ele era violento e mandão? – Tremulamente, ela riu, o terrível som dilacerando o coração dele. – Minha mãe sempre inventava desculpas, dizendo: “Se ao menos você o tivesse conhecido antigamente.” Aparentemente, as coisas mudaram quando ele perdeu o dinheiro da família com maus investimentos. Ele ficou com a casa, mas não com o dinheiro. Foi quando começou a beber. E, quando ele bebia, ficava irritado e descontava nela. – E em você. – O corpo dele vibrou com um surto de fúria. Pensar em Poppy indefesa e surrada o perfurou como uma lâmina afiada. – Só algumas vezes. – Algumas vezes já são demais. – Ah, Orsino. – Ele sentiu a umidade das lágrimas dela como um ferro em brasa em sua pele. Ele não lidava bem com lágrimas. Nunca soubera como reagir a sentimentos ou oferecer conforto. Tentara quando sua mãe morrera, mas Poppy lhe dera as costas, concentrando-se em si mesma, rejeitando-o. Ele sentiu algo frio apertando seu coração ao lembrar. Desajeitadamente, Orsino acariciou a cabeça dela, desejando poder aliviar a dor que ele sentia no tenso corpo dela. – Foi por isso que você se tornou modelo tão nova? – Com a inteligência dela, ele ficara surpresa por ela não ter terminado os estudos. Ela concordou. – Eu queria ser independente assim que pudesse. Ganhar dinheiro para criar um novo lar para mim e minha mãe. Longe dele. – Mas ela ficou com ele. – Ela o amava. Apesar de tudo, ainda se importava. Mas me prometeu... – O quê? – Ela me jurou que, um dia, ela o largaria. Quando eu ficasse famosa e tivesse dinheiro suficiente para sustentá-la. Tínhamos tantos planos... – A voz dela tremia de dor. – Nós íamos nos divertir tanto juntas. Só coisas simples, sabe? Mas especiais para nós. Esses sonhos me fizeram ir em frente. Eu sempre prometi a mim mesma que compensaria tudo que ela tinha sofrido. O coração de Orsino murchou quando ele ouviu a angústia na voz dela. – Mas ela não o largou – retrucou ele. Quando ele a conhecera, Poppy já era uma estrela em ascensão, mas morava sozinha. – Não. Ele foi diagnosticado com uma doença terminal justamente quando eu pensei que a tinha convencido a vir comigo. Ela ficou; disse que ele precisava dela. – A dor e a incredulidade na voz de Poppy diziam tudo. Orsino sabia do resto. O pai dela morrera pouco antes do apressado casamento deles. Então, num brutal golpe, a mãe de Poppy vivera apenas por poucos meses após a morte do marido. Ele soubera que ela ficara arrasada com a morte da mãe. Isso fora óbvio até mesmo para um homem que nunca conhecera o amor de um pai ou de uma mãe, um homem cuja mãe era uma vaga lembrança, cujo pai estava ocupado demais com os negócios e com o próprio prazer para conviver com os filhos. A dor de Poppy estivera além da compreensão dele, mas Orsino tentara. Agora, descobrir aquele vínculo entre mãe e filha tornava a angústia dela mais compreensível. Orsino desejou ter se esforçado ainda mais.


Ele alisou as costas de Poppy. Se ele tivesse sido capaz de reconfortá-la melhor quando ela perdera a mãe, ela o teria desprezado como fizera? Teria buscado consolo nos braços de outro homem? Uma dor que não tinha explicação física perfurou o coração dele. A inaptidão dele a afastara? Ele estava acostumado a se considerar invencível. Porém, aquelas horas enfrentando a morte no gelo tinham lhe arrancado essa confortável mentira. Ele era tão humano quanto qualquer outro. Também teria defeitos fatais? Desde os 7 anos, Orsino ocultara seus sentimentos por trás de uma fachada de charme e sorrisos. Não, desde antes disso. Alguma vez ele se sentira seguro o suficiente, amado o suficiente, para ser honesto com relação a suas emoções? – Você não tinha me contado isso. Estávamos casados, mas você nunca mencionou nada. – Ficamos só quatro meses casados! Além do mais, não falávamos das nossas famílias. Nunca conheci a maior parte da sua. Só Lucca. – Não somos uma família unida. – Meu pai já tinha morrido mesmo. Não fazia sentido falar disso. As palavras dela não lhe pareceram verdadeiras. No passado, Orsino talvez tivesse se convencido, mas passara os últimos cinco anos aprendendo a trabalhar com pessoas. Ele aprendera um pouco a interpretar emoções. – Não fazia sentido contar a seu marido como você estava triste? – Parecia que nunca havia um momento certo para desenterrar o passado. E de que teria adiantado? Orsino pensou naquilo, lembrando-se do rápido namoro deles. Nenhum dos dois estivera procurando um parceiro para a vida. Todavia, eles haviam sido dominados numa onda de paixão que os deixara, de forma alternada, insaciáveis um nos braços do outro e ariscos, com medo da intensidade do que sentiam. Ao menos no caso dele fora assim. Até ele ter se dado conta de que queria Poppy não apenas em sua cama, mas em sua vida, indo procurá-la, determinado a não se permitir perdê-la. Um rápido casamento fora sua maneira de garantir que ela fosse sua. Ele precisara tanto dela que até mesmo seu cinismo com relação ao casamento e a famílias desmoronara. E de nada isso servira quando ela resolvera traí-lo com Mischa. Mischa. Orsino cerrou os dentes. Não. Agora, não. O envolvimento de Mischa naquele projeto publicitário ficaria para depois. O “simples” acordo de Orsino com Poppy, sexo sem compromisso e sem arrependimento, estava se tornando muito mais complexo do que ele imaginara. – Ou talvez você não tivesse nenhuma intenção de me deixar fazer parte desse lado da sua vida. – Ele não aceitaria toda a culpa pelo que dera errado. Ele tentara estar presente para Poppy quando a mãe dela morrera, mas Poppy lhe dera as costas. Que culpa ele tinha por ter partido em sua viagem de alpinismo se ela praticamente o expulsara? Poppy tentou rolar para longe, mas Orsino firmou sua pegada. – Por que, Poppy? Eu não merecia sua confiança? A mão de Poppy se abriu no peito dele, e Orsino fechou os olhos, deleitando-se com a magia do toque dela, mesmo naquele momento, quando ele se sentia parcialmente morto. – Você iria querer saber disso? – questionou ela por fim.


– Claro! – Como ela podia perguntar aquilo? – Não tem nada de claro nisso. Você nunca falava de sentimentos, Orsino. Dizia que precisava de mim. Que me queria. Que a vida seria muito boa para nós juntos. Mas eu nunca tive certeza de que... – Do quê? – Não importa. Vá dormir. Você precisa descansar. Orsino cerrou os dentes. Que mulher irritante! A sensação do corpo dela junto ao dele era como um vislumbre do paraíso, e a hesitante trégua que eles haviam declarado devia ter facilitado a vida, mas ela continuava insistindo em ser difícil. Seria proposital? – Acha que vou conseguir dormir agora que você me deixou sem saber? Pode dizer. Do que você não tinha certeza? – Como se você não soubesse. – A respiração dela estremeceu contra a pele dele. – Nunca soube se você me amava. – A voz dela estava petulante. No entanto, por trás da bravata, Orsino ouvia o tremor. Ele buscou loucamente uma resposta, mas seu cérebro estava ocupado demais tentando, e não conseguindo, processar o que ela revelara. Poppy achara que ele não a amava? Por que ele teria se casado com ela se não a amasse? Desde sua adolescência, as mulheres o perseguiam. Mulheres que queriam um pedaço da fortuna da família Chatsfield, ou um marido famoso que pudesse lhes dar, de quebra, uma vida de luxo. Certamente o fato de ele ter escolhido Poppy, em vez de qualquer uma das outras, devia ser prova suficiente! – O sexo era fantástico, claro, mas sempre existiu uma parte de você que ficava escondida de todos. Atrás do carisma e do charme, havia um homem que eu sabia que era inalcançável para mim. Como as suas viagens para longe... – Como assim? – A impaciência marcou o tom dele. Aquelas viagens de alpinismo tinham feito parte da vida dele desde a adolescência. Elas mantinham sua sanidade mental em uma família disfuncional, numa sociedade em que todos queriam algo e nada parecia ter valor ou profundidade real. – Elas eram importantes para você. E, sempre que eu perguntava a respeito delas, você se fechava. Não queria que eu me envolvesse. Ótimo! Segundo ela, ele estragara o casamento por ter continuado gostando de aventuras das quais ela não teria fôlego para participar. E porque ele não afirmara seu amor o suficiente. Era típico de Poppy culpá-lo quando o motivo do desastre do casamento deles fora o desejo dela por outro homem. Orsino abriu a boca para lhe dizer poucas e boas, mas seu cérebro não parecia ter controle sobre a língua. – Sinto muito por você tem pensado isso, Poppy. Era verdade. Apesar da angústia que ela causara, ele estava arrependido. Orsino precisara ser flexível e autossuficiente desde pequeno, e sua predileção por esportes radicais haviam aprimorado sua capacidade de se concentrar intensamente em si mesmo. Ele teria mesmo se fechado para Poppy ao se pegar ao que salvara sua vida: suas fugas para a natureza? Parecia impossível. Entretanto, nos últimos anos, ele aprendera que as pessoas e suas necessidades não eram nada simples. Ela assentiu junto ao ombro dele. – Acabou, Orsino. Não importa. Nem sei por que estamos discutindo isso. Não tem mais volta.


Ela tirara as palavras da boca dele. Orsino tentava convencer a si mesmo que aquilo era bom. Que ela n達o estava esperando que o caso deles prosseguisse depois de sua conclus達o natural. Apenas muito depois, quando o som da lenta respira巽達o de Poppy lhe informava que ela finalmente adormecera, Orsino se flagrou pensando. Nos dias em que isso ainda era verdade, ele chegara a dizer a Poppy que a amava? Ou ele, o homem renomado por sua inconsequente coragem, tivera medo demais?


Capítulo 11

O RUGIDO dos bicos de gás tornava uma conversa impossível, mas Poppy não se importava. Ali, suspensa muito acima dos campos e florestas, ela observava a alvorada dourada tingir a paisagem. A névoa ainda estava sobre o rio, que serpenteava em torno de um penhasco que, em seu topo, abrigava um castelo digno de contos de fadas. Lá embaixo, havia uma antiga cidade com telhados inclinados e ruas estreitas. Poppy esticou o pescoço além da borda do cesto, fascinada. O piloto desligou a rajada de calor que fazia o balão de ar quente subir, e, no abençoado silêncio, ela ouviu um pássaro. – Não é nada parecido com voar de avião. – Ela sorriu. – Isto é tão... real. Olhando pela janela de um avião, tudo parece tão longe. Mas isso... quase dá para sentir o cheiro da terra e dos bosques. Orsino se postou atrás dela. Poppy se recostou nele, deleitando-se com aquela proximidade. Um secreto sorriso curvou seus lábios quando a mão dele acariciou seu braço. Mesmo através do pesado casaco, o toque dele era mágico. – Totalmente diferente – murmurou ele. – Estou feliz por você ter gostado. – Como podia não gostar? – Ela se virou. – É maravilhoso. Ele não espelhou o sorriso, mas algo que parecia prazer estava no canto de sua boca, na comprida covinha que marcava sua face. Com o rosto escuro da barba por fazer e o cabelo bagunçado pelo vento, ele parecia exatamente o que era: um aventureiro. Como os bandoleiros e piratas com os quais ela fantasiara em seus sonhos de menina. O coração de Poppy palpitou quando seus olhos encontraram os dele e ela viu um brilho de ternura. – Nem todos apreciam o esplendor solitário disso. Alguns preferem luzes fortes, glamour e movimento. – É isso que você pensa de mim? – O foco deles sempre fora no presente, não no que acontecera antes. Ele deu de ombros. – Nós nos conhecemos na cidade. Você viveu e trabalhou lá desde que conheci você. Sempre íamos a boates ou inaugurações.


Poppy anuiu. O casamento deles fora um turbilhão de atividade. Até desmoronar. Quem teria imaginado que eles seriam capazes de conversar tão amistosamente agora? Ela manteve a voz baixa, ciente de que não estavam a sós. – Fui criada no campo. Adorava acordar com o nascer do sol para uma longa cavalgada. – Até seu pai vender seu velho pônei, tentando quitar dívidas. – Do que mais você gostava? – Acreditaria se eu contasse que era pescar? Nosso vizinho era especialista. Eu costumava ir com ele. – Haviam sido dias nos quais ela usava qualquer desculpa para sair de casa, ficar longe do pai. – Não consigo imaginar você de galochas. Ela sorriu. – Na primeira vez em que fisguei de verdade um peixe, fiquei tão perplexa que tropecei e acabei encharcada. Orsino riu. – Eu nunca teria imaginado que você amava lugares ao ar livre. – Ele parou. Quando falou novamente, sua voz estava séria. – Talvez eu devesse ter levado você a um lugar assim há cinco anos. Adoro a paz aqui em cima. É como escalar. Só você e a natureza. É... catártico enfrentar a natureza. Tem algo de limpo e real nela. Sem espaço para falsidade ou palavras vazias. Sem fingimento. Poppy o olhou, mas era difícil interpretar a expressão dele. Ele pusera os óculos escuros quando o sol nascera. Todos os instintos lhe diziam que havia algo de puramente vital em Orsino. Que aquelas aventuras não eram apenas diversão para ele. Que eram necessárias. – Eu teria gostado. – Poppy engoliu em seco, imaginando como as coisas teriam sido se ele tivesse compartilhado algo assim com ela anos antes. – Eu não sabia que você era balonista. Orsino se virou e indicou o esguio francês que guiava o balão. – Thierry é balonista. Eu só aproveito a carona. – Fico feliz por você finalmente admitir isso, Orsino – disse Thierry com um forte sotaque, abrindo um sorriso. Thierry serviu canecas de chocolate quente para eles. Poppy olhou de um homem para o outro, observando a camaradagem e o genuíno respeito entre eles enquanto eles reviviam viagens passadas. – Vocês dividiram um balão durante semanas? – Foi uma aventura beneficente, sabe? E Orsino chamou a atenção da mídia. – Thierry deu uma piscadela. – Acho que ele foi útil à própria maneira, mas, se eu fizer algo assim novamente, talvez queira vir comigo no lugar dele, mademoiselle Graham. – Nem pense nisso – falou Orsino. – Vá usar seu famoso charme em outro lugar, Thierry. Ela é comprometida. Os olhos de Poppy se arregalaram. Comprometida? Orsino tinha noção de que aquilo insinuava longevidade num relacionamento que logo terminaria? Ou seria apenas uma brincadeira com seu amigo? O rugido dos bicos de gás impediu novas conversas, e Poppy se debruçou no cesto para apreciar a vista. Ela estava feliz por ter aceitado passear com Orsino em seu dia de folga. Talvez fosse a emoção de estar ali em cima, ou talvez o fato de eles terem chegado a algum tipo de acordo, mas ela sabia o que ele queria dizer ao falar de uma sensação de paz. Parecia que todos os


problemas dela haviam ficado no chão. Desde que ela aceitara a exigência de Orsino de que ele ficasse com ela, Poppy vinha sendo atingida por dúvidas, pensando se era mesmo uma boa ideia se aproximar demais. Ali, contudo, ela sentia empolgação e prazer. Aventura e paz. Subitamente, algo incrível lhe ocorreu. Orsino não estava simplesmente a levando para um passeio agradável. Ele estava compartilhando seu mundo particular. O mundo que ele fechara para ela tantos anos antes. Poppy se virou e o viu debruçado do outro lado do cesto, seu olhar fixo nela. Um frisson de excitação subiu por sua nuca, descendo pelas costas. Ele não apenas estava compartilhando uma experiência que fazia parte de seu mundo, mas também a apresentara a um de seus amigos. O que mudara? Poppy percebeu a tensão nos ombros dele e, com uma louca palpitação, interrogou-se por que ele optara por fazer isso agora. E por que isso importava tanto para ela. UMA HORA depois, após se despedirem de Thierry, o motorista que Orsino providenciara os deixara em uma pequena casa aninhada num parque natural particular. Era de amigos que estavam viajando, explicara Orsino. Agora, ele e Poppy desfrutavam de um brunch com champanhe num conservatório iluminado pelo sol. A amistosa governanta, que servira tudo para eles, dera-lhes privacidade. Poppy se flagrou gargalhando até chorar de mais uma das improváveis histórias de Orsino, uma que envolvia Thierry, um balão de ar quente que não funcionava e um enorme píton em algum lugar da Amazônia. Ela se deu conta de que não se divertia tanto fazia semanas. Não. Meses. O sorriso dela desapareceu. Anos? Impossível. Ela estivera feliz buscando seus objetivos profissionais. O trabalho duro trazia suas recompensas, como a segurança financeira. O sucesso significava que ela jamais precisaria depender de ninguém, especialmente de um homem, como sua mãe dependera. Porém, ao pensar nos anos depois de Orsino, Poppy percebeu que passara tanto tempo ocupada desenvolvendo sua carreira que não fizera praticamente mais nada. Quando fora a última vez que ela reservara um tempo para rir com um amigo? E desde quando Orsino podia ser considerado amigo dela? Ela tomou um gole do champanhe. Um maravilhoso deleite em sua vida de perpétua dieta. – Poppy? O que foi? Ela ergueu o olhar, chocada ao perceber que o toque de preocupação na voz de Orsino evocava sentimentos que ela devia ter enterrado séculos antes. – Nada. – Ela plantou um sorriso no rosto. Desde aquela noite em que Orsino se pusera entre ela e o perigo, Poppy vinha encucada com a sensação de que ele se importava. Isso a deixaria louca de tanto tentar entender o que estava acontecendo entre eles. O relacionamento de curto prazo, de entrega sexual total e sem futuro deles se transformara em algo delicado e novo. Poppy se recusava a analisar isso.


Tudo que ela sabia era que, com Orsino, ela se sentia mais viva, mais autêntica do que nunca. E, agora, com ele compartilhando aqueles vislumbres de sua vida com ela... – Você já me perguntou sobre a minha infância – respondeu ela impulsivamente. – E a sua? Qual era sua coisa preferida quando criança? – Competições esportivas – retorquiu ele prontamente. – Eu gostava de vencer. Poppy sorriu. Por que aquilo não a surpreendia? A combinação de atletismo e desafio era perfeita para Orsino. – E antes? Do que você se lembra de quando era pequeno? Ele deu de ombros. – Bebidas quentes e histórias de aventura antes de dormir. No internato, eles nos davam chocolate quente antes de apagarem as luzes. – Você devia ser bem jovem. – Não parecia em nada com a escola dela. – Lucca e eu estudamos num internato desde os 7 anos. Tão novos! – Não faça essa cara de horror. O internato era tudo de que eu precisava naquela época. – Tudo? – Acha que senti falta de casa? – A boca dele se contorceu amarguradamente, e a tristeza a percorreu. Poppy não conseguia se lembrar de ter sequer gostado de seu pai, mas amara sua mãe e sentira falta do calor dela quando fora para o internato. Orsino não sentira o mesmo? – Meu pai nos mandou para o internato na semana depois de nossa mãe ter nos abandonado. Dávamos trabalho demais para ficarmos em casa. – Todos vocês? – Ela sabia que ele tinha irmãos mais velhos. – Talvez ele tenha culpado a nós, os gêmeos. – Orsino deu de ombros. – Aparentemente, nossa mãe era uma mulher vivaz e graciosa, cheia de alegria e vida. Mas, depois que teve Lucca e eu, ela entrou em depressão pós-parto severa. Ela se afastou de todos e nunca se recuperou. Naquelas circunstâncias, qualquer um acharia uma ideia idiota ter outro filho depois de nós, mas eles acabaram tendo. – Quando Cara nasceu, a depressão da nossa mãe piorou. Ela simplesmente foi embora um dia, e nunca mais tivemos notícias dela. Poppy ficou de queixo caído. Ela ficara sabendo que a mãe de Orsino não estava por perto, mas nunca imaginara aquilo. – Mas ela não...? – Não houve mais nenhum contato. Claramente, ela não queria ser encontrada. Eu mesmo tentei algum tempo atrás, mas o rastro dela já tinha desaparecido anos antes. Onde quer que ela esteja, viva ou morta, jamais saberemos. Poppy se curvou à frente e pôs a mão em cima da dele, seu coração se apertando com a amargura e a dor que ela sentia por trás da expressão séria dele. – Eu sinto muito, Orsino. Como teria sido acreditar que seu pai culpava você pela perda de sua mãe? Era isso que Orsino estava insinuando, e pensar nisso a horrorizava. Eles eram crianças pequenas e inocentes! – Seu pai deve ter ficado muito mal. – Deve? – A mão de Orsino apertou a mesa. Poppy sentiu a tensão em cada tendão. – Imagino que tenha se ocupado com outras... distrações. De qualquer forma, ele não estava interessado em nós. Não era do tipo de pai que soltava pipa ou jogava futebol com os filhos.


A mão de Orsino se virou, seus longos dedos se entrelaçando aos dela. – Nossa mãe nos rejeitou desde o dia em que nascemos. Raramente passava tempo conosco. Por isso, tenho poucas lembranças dela. Ao menos ela teve um motivo com a depressão. Mas nosso pai? Ele deixou nossa criação por conta dos funcionários e dos nossos irmãos mais velhos. Antonio e Lucilla fizeram o melhor que podiam, mas também não passavam de adolescentes. Assim que nossa mãe foi embora, ele nos mandou para o internato. – Sinto muito. Como ela não ficara sabendo daquilo? O que revelava a respeito do curto casamento dele o fato de aquilo ser uma novidade para ela? Pensar naqueles dois garotinhos, sozinhos e sem amor, causou uma profunda dor nela. – Não sinta. – Orsino deu um beijo nos dedos dela. Ele virou a mão de Poppy e acariciou a sensível pele do punho até que ela estremecesse deliciosamente. – A escola foi um alívio. Tinha regras, estrutura e rotina. Nunca tínhamos tido isso. Por mais que alguns dos professores fossem severos, eu sempre sabia que eles perceberiam minha ausência. Orsino achava que o pai dele não sentira sua ausência? Que tipo de homem era Gene Chatsfield? – Você e seu pai são mais próximos agora? – Ele não fora ao casamento deles. Todavia, como eles haviam casado às escondidas, isso não significava nada. A risada de Orsino foi ríspida. – Está brincando? Ele está ocupado demais com a nova e preciosa mulher dele e a importantíssima empresa para dar atenção a algo tão mundano. Mas tive notícias dele no mês passado. Não pessoalmente, claro, mas por intermédio do novo diretor executivo dele. Ele quer que eu seja o rosto das Empresas Chatsfield. Acha que meu trabalho filantrópico vai fazer bem às relações públicas da empresa. Poppy acariciou o rosto dele, desejando poder afastar com seu toque a mágoa que Orsino ainda carregava. – Nenhum de nós deu sorte com o pai. – Mas aquilo que não nos destrói nos fortalece – lembrou ela. Orsino tirou os óculos de sol. Seus olhos a observaram com uma intensidade que devia tê-la assustado. Em vez disso, Poppy olhou fixamente nos olhos dele, maravilhada com o homem que ela descobrira. O homem que superara o abandono e a rejeição e se tornara forte e decente, um exemplo para os outros, um homem que, apesar da fachada de bravata, importava-se com os outros. Orsino Chatsfield, seu marido, era um homem muito mais complexo do que Poppy imaginara. E ela ficou aterrorizada ao se dar conta de como isso era importante. – Tem toda a razão. – Ele deu novamente um beijo na mão dela, um com um demorado erotismo que fez o ventre de Poppy estremecer. Se eles não estivessem na casa de outra pessoa, num cômodo com três paredes de vidro... Orsino pressionou a palma da mão dela em sua rígida coxa, e Poppy soube que ele não era o único que estava sentindo desejo. – Em breve, Poppy. Eu prometo. – O sorriso dele estava apenas parcialmente domado. Ele suspirou. – Mas, primeiro, é melhor tentarmos fazer jus aos esforços de Heloise. Sei que ela passou horas preparando isto. – Ele gesticulou para a comida diante deles, quase intocada. As chamas escaldaram Poppy. Ela se sentiu confusa. Como podia ser? O desejo dela por ele não devia diminuir, não aumentar, depois do tempo passado juntos?


A mão de Orsino acariciou delicadamente o rosto dela. Então, finalmente ela se deu conta do calor vidrado nos olhos de Orsino. Ele duelava com as sérias linhas em torno de sua boca, que indicavam um feroz controle. Algo passou entre eles. Poppy se recostou na cadeira. Talvez ele entendesse a confusão e o medo dela afinal. POPPY ESTAVA deitada junto dele, nua, seu cabelo em exuberantes ondas pelo peito dele. O fato de eles terem acabado nus era um milagre. Era de admirar que tivessem conseguido até mesmo chegar até a cama de tão frenéticos que tinham ficado um pelo outro. Havia roupas espalhadas desde a porta de entrada da torre até o quarto no segundo andar. E ele ainda a desejava. Mais. Cada vez mais. Já era ruim o suficiente o fato de ele estar desejando o luxuriante corpo dela como desejara na noite em que a conhecera. Ainda mais assustadora era a maneira como ele desejava os sorrisos dela, a aprovação e até mesmo, que Deus o ajudasse, a solidariedade dela. Quando ele lhe contara a respeito de sua infância, ela parecera ter vontade de ir atrás do pai dele com uma espingarda. E, em vez de ficar furioso consigo mesmo por ter exposto segredos que ele nunca contara, Orsino sentira um absurdo prazer com a reação dela. Ele não queria que ela se sentisse mal por ele, mas a maneira como ela compreendera curara parte da antiga dor que ele carregava fazia tanto tempo. Como era possível? O que não nos destrói nos fortalece. Poppy dissera aquilo, mas esse sempre fora o lema da vida de Orsino. Como ela soubera? Porque, percebeu ele subitamente, fora exatamente o que ela fizera também. Afastara a dor, lançarase no próximo desafio, ignorando a dor e seguindo com a vida. Eles dois funcionavam da mesma maneira. Outra coisa que eles tinham em comum. Orsino ficou horrorizado com a direção tomada por seus pensamentos. No passado, ele fora enganado, levado a pensar que ele e Poppy compartilhavam algo mais forte que sexo. Ele se abrira para ela, e ela arrancara seu coração, deixando um buraco em seu lugar. Ele precisava se lembrar disso, não se permitir ser seduzido pela necessidade de ter novamente uma conexão com ela. Era isso que ele vinha fazendo, não? Naquele dia, ele a levara para longe do mundo dela, um mundo de perfeição, imagem e glamour, permitindo que ela entrasse no dele. Compartilhara seu passado, apresentara um de seus melhores amigos a ela. Por quê? Ele achava mesmo que ela se importava com algo além das próprias prioridades? O problema era que ele achava mesmo. Começara a suspeitar de que Poppy era mais do que a desgraçada de coração gelado da qual ele se recordava. Orsino fechou os olhos quando se deu conta de como se desviara de seu plano de prazer e vingança, indo parar na areia movediça do envolvimento emocional. – Orsino? O que foi? – A voz dela estava suave e deliciosa com aquele toque de preocupação. O desgosto o atingiu quando ele se deu conta de como ele desejava ouvir isso na voz dela, ouvir que ela se


importava. Uma escaldante raiva o borbulhou. Era hora de parar de ver tudo cor-de-rosa e enfrentar a realidade. A que ele vinha sendo orgulhoso e covarde demais para encarar. – Então... fale de Mischa. Você não me contou que ele estava envolvido no projeto. – Orsino parou, sentindo a tensão que a percorreu. – Ele sabe que estamos dividindo uma cama outra vez, ou não tem direitos exclusivos? POPPY SE sentiu como se Orsino tivesse cravado uma faca em sua barriga e girado. Ela recuou, precisando de distância, precisando ver o rosto dele, mas seus braços de aço a seguraram junto a ele. O coração dela disparou. Como ele podia perguntar aquilo? Especialmente depois daquela manhã... depois de terem compartilhado tanto. Teria sido tudo uma ilusão? Um complexo truque da parte dele para deixá-la ainda mais vulnerável? Desesperadamente, Poppy lutou para se desvencilhar. A pele quente e suada de Orsino deslizou junto à dela quando ela se contorceu, e um lampejo de excitação surgiu, fazendo Poppy ficar imediatamente paralisada. Engolindo em seco, ela suspirou de frustração. Nunca se sentira tão presa. Não apenas pela implacável força de Orsino, mas por seu corpo, sua mente. – Não faço ideia do que Mischa sabe. – Mesmo a seus próprios ouvidos, ela soava derrotada. – Acho difícil acreditar nisso. – Francamente, Orsino, não me importo se você acredita. Era uma mentira. Ela se importava demais. Aquele interlúdio no chateau despertara novamente todos aqueles sentimentos por ele que ela pensara ter banido. E mais. Como ela podia sentir mais?! – Você não me contou que ele estava envolvido nesse projeto. Que ele organizou tudo. – Que importância isso tem? Não me lembro de você ter perguntado os detalhes quando me convocou ao seu leito no hospital. Nem quando me chantageou para que trouxesse você para cá. – Ela inspirou fundo, tentando acalmar sua pulsação. – Não me lembro de você ter sido tão exigente. – Então, está dizendo que ele não se importa de dividir você com outro homem? Poppy assegurou a si mesma que não era mágoa o que ela ouvia na voz de Orsino. – Estou dizendo que Mischa não tem nada com quem eu durmo ou não. – Quer dizer que vocês não estão mais juntos? Que você conseguiu esse trabalho sem a influência dele? Poppy tentou conter sua crescente histeria. Se ao menos Orsino soubesse... Mas ele jamais acreditaria na verdade. Ela e Mischa nunca haviam ficado juntos do jeito que Orsino estava dizendo. Mas uma familiar e dilaceradora culpa a atingiu quando Poppy pensou em como eles haviam chegado perto de fazer isso. Em como ela quase permitira que Mischa tomasse essa liberdade. Ela se recordou das mãos dele em seus seios, de sua boca na dela e daquele repentino surto de sanidade numa mente enevoada pela tristeza e pelo álcool. A certeza instantânea de que não era de


Mischa que ela precisava, mas de seu marido, Orsino, que a abandonara horas antes, para partir numa de suas preciosas viagens de alpinismo. A náusea cresceu dentro dela. Poppy empurrou Orsino, e, milagrosamente, ele a soltou. Ela saiu da cama diretamente para o banheiro. Com as mãos apoiadas uma de cada lado da pia, ela baixou a cabeça. Seu corpo tremia enquanto ela resistia à vontade de deixar sair seu café da manhã. Com poucas e cruéis palavras, Orsino a fizera se sentir uma mulher vulgar. Ignorara tudo de bom que eles haviam compartilhado naquelas últimas semanas; a compreensão, a empatia e o que ela pensara ser um início de respeito. Fortes soluços estremeceram o peito dela, deixando-a sem ar. Grandes mãos afastaram o cabelo dela do rosto. Em seguida, um forte braço envolveu seu corpo, puxando-a para o calor de Orsino, equilibrando-a quando suas pernas teriam cedido. Perplexa, Poppy olhou no espelho. Orsino parecia tão mal quanto ela se sentia. Seu rosto estava tenso, a boca era uma fina linha de dor, como se ele estivesse tão magoado quanto ela. – Por quê? – A voz dela falhou. – Por que você tinha que...? – Porque não consigo esquecer. Uma doce dor a penetrou com as palavras dele. Ela devia querer que ele esquecesse o passado, para que eles pudessem seguir em frente. Mas, assim como Orsino, Poppy não conseguia se desapegar. – Mischa e eu nunca... – Não vai tentar reescrever o passado, vai? A verdade morreu dentro da garganta dela. O homem que acabara de acusá-la de ter dois amantes não estava pronto para ouvi-la, mesmo que a dor em seu rosto desse esperança de que, de certa forma, ele se importava. A desesperança e o pesar cresceram dentro dela. Não havia saída. – Mischa e eu não trabalhávamos juntos desde aquela noite em Londres. Não existe nenhum relacionamento. – Poppy quase engasgou com as palavras, lembrando-se de como ela se sentira mal de culpa e pesar naquela noite. Mal o suficiente para dar as costas a seu amigo e mentor, o homem que a defendera durante os primeiros anos da carreira. O homem que estivera presente para ela quando Orsino se ausentara. No entanto, trabalhar com ele fora algo que ela não conseguira fazer. A dor de Orsino e o casamento em ruínas se colocavam entre eles. E também a culpa dela. – E agora? – As mãos de Orsino deslizaram para a cintura dela. No espelho, a pegada dele parecia possessiva. Poppy tentava iludir a si mesma que era apenas sua imaginação. – Esse trabalho para a Baudin era uma oportunidade boa demais para recusar. Quando o contrato for pago, vou ter segurança financeira pelo resto da vida. – Fora para isso que ela trabalhara desde os 15 anos. – Além do mais, Mischa não está trabalhando pessoalmente nisso. – Poppy não acrescentou que ela levara um ano para aceitar. Ela empinou o queixo e viu um lampejo de algo nos olhos de Orsino, algo que a fez estremecer. – Ótimo. – Ele inclinou a cabeça à frente até que seus lábios tocassem na orelha dela. – Porque, se eu pegá-lo trabalhando pessoalmente em você outra vez, arranco a cabeça dele. A violência quase incontida de Orsino a deixou quase tão perplexa quanto o ciúme dele. Entretanto, num nível muito profundo, o primitivo comportamento possessivo dele a atraía de uma maneira que Poppy jamais imaginara ser possível. Ela não pertencia a nenhum homem. Isso ia contra


tudo em que ela acreditava, contra tudo que queria. Era o que tornava fracas mulheres como a mãe dela. Contudo, as palavras de Orsino, sua pegada possessiva e o feroz brilho em seus olhos eram chocantemente excitantes. Se ao menos ele tivesse se importado tanto cinco anos antes... – As coisas ainda não terminaram entre nós, Poppy. – Uma calejada mão segurou o seio dela. Ela observou, hipnotizada, quando a carne bronzeada se fechou sobre a pele clara, e o corpo dela estremeceu, sexualmente sobrecarregado. – Até que terminem... – ele brincou com um dos mamilos, e o desejo a percorreu – ... eu me recuso a dividir. A outra mão dele deslizou para baixo, indo entre as coxas dela, e um choque de prazer deixou o corpo de Poppy rígido. Os dedos dele se moveram, e ela já estava se derretendo. Nunca precisara dele de forma tão inconsequente, tão desesperada. A outra mão de Orsino abandonou o seio dela. Ele levantou o queixo de Poppy até que os olhos deles se encontrassem no espelho. – Vou fazer amor com você – rosnou ele. – E você vai ficar olhando. Ele afastou as trêmulas pernas de Poppy e dobrou os joelhos até que a ponta de sua ereção a sondasse. Então, seus olhos se fixaram nos dela, e Orsino investiu fortemente para dentro dela com uma força tão confiante que pareceu tocar o coração de Poppy. O mundo começou a se dissolver. – Quero que você se lembre com... cada... movimento – arfou ele – que sou eu quem está fazendo amor com você. Entendeu? O prazer explodiu, junto de algo mais, algo tão profundo que Poppy não tinha um nome para o sentimento. Segundos depois, as ferozes investidas dele levaram ambos a um clímax impossivelmente perfeito.


Capítulo 12

– ORSINO! – GRITOU um ministro governamental com quem ele certa vez dividira um palanque. – Você parece muito melhor do que eu esperava. – Como pode ver, as notícias foram exageradas. – Ele olhou para os célebres parisienses que haviam chegado ao chateau para a exuberante festa de lançamento dos mais recentes designs da Baudin. – Mas seu olho! – Uma das mulheres se curvou à frente, como se fosse tocar a cicatriz que descia pela testa dele. Orsino sorriu. Ela era uma das mais recentes patrocinadoras de um programa que unia o resgate de animais em perigo à geração de empregos e ao fornecimento de educação aos habitantes de Bornéu. – Não gostou da cicatriz? E eu achando que ela me dava um ar atraentemente intrigante. Um dos homens zombou da ideia. – Como se você precisasse disso. Orsino observou o ávido interesse feminino do círculo à sua volta. Ele desejou sentir qualquer atração por uma daquelas mulheres. Eram lindas; algumas, talentosas e bem-sucedidas. Todas elegantes e encantadoras. Porém, nenhum delas despertava sua alma. Porque elas não são Poppy. O que ele sentia por Poppy, o fato de que ele sentia algo além de uma luxúria animalesca pela mulher que o traíra, estava enlouquecendo Orsino. Ele já sentia falta dela, e Poppy apenas fora se vestir com as outras modelos para as fotos. – Conte – pediu um dos homens. – Qual será a próxima grande expedição? Orsino se esquivou da pergunta, não querendo se comprometer. Seus hematomas e suas costelas haviam se curado, e seu braço fraturado estava melhorando. Ele deixara de lado a bengala, e sua visão já estava mais clara. Todavia, ele ainda precisava descobrir se conseguiria voltar a escalar. Ele esperou que a frustração o consumisse, temendo que sua maior alegria pudesse lhe ser negada. Em vez disso, o que lhe ocorreu foi que, com o final das filmagens, ele não tinha motivo para ficar com Poppy. E, do fundo de sua alma, veio o perturbador pensamento de que não havia nenhum desafio no mundo que se igualasse à emoção de estar com Poppy, de observar o deleite dela com novas


experiências. Ou de ver a testa dela se enrugar enquanto ela decifrava o que ele escrevia, registrando anotações numa planilha enquanto lhe perguntava como um determinado empreendimento era administrado. Ou de vê-la se derreter em seus braços, o som de seu nome nos lábios dela. Como ele podia sentir tanto por uma mulher na qual não podia confiar? – Orsino? – Ele baixou o olhar ao sentir a mão tocar seu braço, a decepção surgindo quando ele reconheceu uma linda morena com a qual ele falara antes. – Hora de entrar. Ele concordou e se juntou à multidão que rumava para o tapete vermelho que levava da ponte até o chateau. Tochas dispostas de ambos os lados da ponte relembravam uma época passada, mas as mulheres que posavam para as fotos da imprensa no tapete vermelho eram absolutamente contemporâneas. Uma, de cabelo loiro e vestido verde, ele reconheceu como sendo a modelo cujo namorado bêbado causara tamanha confusão. A outra... Os pés de Orsino ficaram paralisados quando ela se virou, seu farto cabelo vermelho-escuro cascateando em torno de um rosto claro como o luar. Algo embargou a garganta dele quando Poppy sorriu para a mídia. Vê-la ali desfez algo em seu peito, como um longo carretel se desenrolando. O vestido dela era da cor de violetas selvagens. Ele se ajustava a cada soberbo centímetro dela. Ela longo, com mangas compridas e justas, um profundo decote em V nas costas e na frente, descendo bem baixo entre os seios dela. Ele perdeu o fôlego. Em torno do pescoço dela estava uma gargantilha de ametistas e diamantes rosa. Um simples cordão incrustado de pedras preciosas pendia entre os seios dela. Mais pedras reluziam em seus punhos e orelhas. Ela riu, e algo mergulhou dentro dele, descendo velozmente para o centro de seu ser. Como ele conseguiria partir no dia seguinte, agora que as filmagens e o acordo deles tinham terminado? Ele quase morrera na primeira vez em que a deixara. Como conseguiria fazer isso novamente? Atrás das câmeras, a luz atingiu um cabelo loiro-claro. O homem estava de smoking, como o restante dos convidados, mas caminhava de uma forma lânguida que despertou uma amarga memória. Ele foi diretamente até Poppy. Mischa. Orsino sentiu a fúria rugir quando o velho amigo de Poppy se aproximou das modelos de braços abertos, dando beijos em seus rostos. Ele cerrou os punhos quando Mischa tocou o ombro de Poppy, curvando-se para perto. Poppy retribuiu o sorriso, virando a cabeça para as câmeras, e um imenso e gelado peso caiu como uma pedra dentro do estômago de Orsino. Ele avançou, mas parou imediatamente, seus olhos se semicerrando quando ele viu Poppy urgir as outras mulheres a se aproximarem de Mischa, virando-se para chamar o restante das modelos. Momentos depois, as câmeras tiravam fotos de um grupo de uma dúzia de deslumbrantes modelos com Mischa no centro e Poppy afastada, na ponta. A boca de Orsino se esticou num sorriso de satisfação quando Mischa virou a cabeça para a sereia ruiva na ponta do grupo, mas não conseguiu fazer contato visual.


Uma onda de alívio e prazer preencheu Orsino quando o grupo se desfez. Poppy ergueu o olhar. Seus olhos encontraram os dele, e o coração de Orsino disparou com o que ele pensou ter interpretado neles. DETERMINADO, ORSINO foi na direção dela, e o coração de Poppy palpitou. Ver Mischa trouxera todas as lembranças de volta. Aquela terrível noite quando, confusa e sozinha, ela recorrera a ele pois Orsino não estivera presente. As coisas que Mischa sussurrara em seu ouvido, dizendo que sempre a desejara, que queria um futuro com ela, que seu marido nunca fora o homem certo para ela. A horrível vergonha que ela sentira ao sair do chuveiro mais tarde, depois de tentar limpar o toque de Mischa de sua pele, para encontrar o homem que ela amava a olhá-la fixamente, arrasado. O pior de tudo fora que Orsino lhe dera as costas quando ela começara a explicar. Deixara-a abandonada e envergonhada. Agora, ele se aproximava com longas passadas. Seu rosto não dizia nada, e os pelos da nuca de Poppy se eriçaram. Certamente, ele a vira com Mischa. Poppy se preparou para um comentário sarcástico. Ou até mesmo para vê-lo passar por ela e derrubar o outro homem com um soco. Mas ele parou diante dela; potentemente lindo. Lentamente, ele estendeu a mão e pegou a dela. O coração dela estrondou dentro do peito quando ele levou sua mão aos lábios. Os mamilos de Poppy se contraíram, e a tensão se estilhaçou. Ela suspirou e balançou para perto dele, incapaz de resistir. Orsino envolveu a cintura dela com o braço e a puxou para si. Sua outra mão foi para o cabelo dela. Sua boca desceu sobre a de Poppy numa flagrante demonstração de poder de macho alfa. Uma voz dentro dela sussurrou que ele estava bancando o machão para que Mischa visse. Então, a boca de Orsino se moveu sobre a dela, e Poppy não conseguiu mais pensar. Todas as dúvidas foram encobertas quando ela finalmente desistiu de resistir a seus sentimentos. Ela parou de fingir. Ali, nos braços de Orsino, era exatamente onde ela queria estar. Nada mais importava, nem mesmo o orgulho. ERA UMA noite de elegância e glamour. O lindo e antigo chateau ganhara vida sob a luz de imensas velas, chamas crepitantes e flashes das câmeras. Um banquete digno da realeza estava servido, e havia um baile no salão de festas. Luzes tremeluziam no rio escuro, e tochas iluminavam os maravilhosos jardins. O tempo todo, Poppy só teve olhos para Orsino, deleitando-se com o calor dele a seu lado, o sorriso, o toque do braço dele em suas costas. Era como se os anos desde a separação não tivessem acontecido. Não, mais do que isso. Poppy se sentia mais próxima dele, mais em sintonia do que jamais estivera durante o curto casamento deles. Aquilo fora tempestuoso, apaixonado e empolgante. O que ela sentia agora não era


menos passional, mas era mais maduro. Eram os sentimentos de uma mulher por seu parceiro, seu amor, não os de uma menina imatura deslumbrada com seu primeiro caso de amor. Ela tentara durante tanto tempo negar seus sentimentos por Orsino. E acabara se apaixonando novamente por ele. Não apenas pelo belo e carismático homem, mas pela pessoa cheia de consideração e caridosa que trabalhava nos bastidores para melhorar as vidas de pessoas que ele sequer conhecia. O homem que enfrentara um agressivo chauvinista sem pensar em seu próprio estado debilitado. O homem que mostrara sua ternura e seu carinho, em vez do cinismo e do ódio. Isso seria perdão? Finalmente, Orsino permitira que ela enxergasse além da fachada de casual indiferença e privilégio dele, revelando o homem intensamente reservado que ela nunca entendera de verdade. A traição dela devia ter arrasado um homem que nunca pudera contar com o amor. A sensação de culpa a atingiu. Ele pensara que ela mentira quando falara de seu amor por ele? Claro que sim. Agora, Poppy até imaginava o que haviam significado as viagens dele. Talvez ele não estivesse rejeitando mesmo. Elas eram uma parte essencial de Orsino. Apesar de seu charme, a glamorosa cena social não era seu lugar natural. Ele era um homem que retirava forças da solidão, do desafio físico. Apesar de sua grande família, ele passara a maior parte de sua vida essencialmente sozinho. Aquelas semanas haviam revelado o que Orsino significava para ela. Ela não podia adiar o inevitável. As filmagens tinham terminado. Aquela noite era a comemoração final, o lançamento para a mídia. No dia seguinte, cada um seguiria sua vida. No entanto, ela não discutira o futuro com Orsino. Estivera com medo demais de ele estar simplesmente planejando partir. Como ela pudera ser tão covarde? Ela já o afastara uma vez quando ela precisara dele, quando sua mãe morrera. Não aprendera com isso? Os dois haviam cometido erros. Nenhum deles estivera pronto para o casamento. Agora, ela estava cansada de fugir, cansada de fingir. O coração de Poppy disparou quando ela o olhou. Ele lhe daria ouvidos desta vez? Algo mudara para ele? Poppy precisava descobrir. Fora covarde anos antes, magoando ambos por isso. Era hora de ser corajosa. – Podem nos dar licença? – Poppy deu o braço a Orsino e o afastou do grupo de executivos da Baudin com seu famoso sorriso. – Aonde vamos? – A profunda voz de Orsino percorreu a pele dela, fazendo Poppy estremecer. – Um lugar reservado. Felizmente, ele não a questionou, simplesmente permitiu que ela o levasse passando pelos grupos de modelos e executivos, socialites e membros da pequena realeza, até que o barulho se reduzisse. Eles pararam em um reservado cômodo hexagonal que ficava acima do rio. O local tinha uma escrivaninha e uma cadeira, além de um largo banco na janela. Não havia nenhuma luz a não ser a da lua e a das tochas lá fora. Poppy fechou a porta. Imediatamente, a mão de Orsino cobriu o seio dela, a outra mão envolvendo a cintura de Poppy quando sua cabeça baixou.


– Gosto de mulheres que têm iniciativa – rosnou ele junto ao pescoço dela quando a puxou para si. Instantaneamente, o corpo dela se derreteu. Um toque era tudo que era necessário. Entretanto, em meio ao feroz surto de excitação sexual surgiu a ciência de que o que ela precisava de Orsino era mais do que aquilo. A garganta dela ficou embargada. Quando ele soubesse o que ela tinha a lhe dizer, seria o fim? Poppy não sabia como sobreviveria se ele a abandonasse novamente. Mas ela não podia continuar assim, vivendo hora a hora, esperando que ele declarasse que tudo estava terminado. Ela precisava tentar. – Poppy? O que foi? Por um instante, ela se agarrou aos ombros dele, desejando que eles pudessem permanecer daquele jeito. Então, endireitou o corpo, afastando-o de si. – Precisamos conversar. – Conversar? – Ele parecia confuso. Mas Poppy não podia culpá-lo. Seu próprio corpo estava em chamas. O ímpeto de se perder no abraço dele, no êxtase que ela sabia que ele podia lhe dar era forte. Mas não duraria. – Preciso dizer algo importante a você. Pode me ouvir? Com o luar atrás dele, Poppy não conseguia interpretar sua expressão. – Sim. Não parecia um grande incentivo. – Quero que você prometa. – O quê? – Que vai me ouvir. Que não vai embora até eu terminar. O silêncio reinou. Ele também estaria se recordando daquela noite, cinco anos atrás, quando ele fora embora, recusando-se a deixar que ela terminasse o que tinha a dizer? Poppy uniu as mãos, a tensão a percorrê-la. – Se isso significa tanto para você. – Significa, sim. – Pois bem. – Ela suspirou de alívio. – Eu fico. – Quer se sentar? – Estou bem. – Ele parou, esperando. – O que foi, Poppy? – Ela estaria imaginando a ternura no tom dele? – Quero falar do passado para você. – Não é meu assunto preferido. Já não dissemos tudo? Ela balançou a cabeça. – Não. Não tudo. Poppy inspirou fundo e se deu conta de que não sabia por onde começar. A mão de Orsino tocou a dela, e Poppy se assustou. Engolindo em seco, ela foi até a janela. Seria mais fácil se ela não olhasse para ele. – Quando conheci você, eu não estava procurando um amante, muito menos um marido. Estava focada no meu emprego. Em conquistar o sucesso. – Eu me lembro. – Havia um tom amargurado na voz de Orsino. Ele aceitara o trabalho dela, mas nunca se esforçara para apoiá-la.


Poppy se virou, precisando que ele entendesse. – Já contei como meu pai era. Você consegue me culpar por querer fugir? Por querer construir uma vida para mim e para a minha mãe livre dele? – Claro que não. – Sei que você trabalha duro, Orsino. Vi os programas com os quais você está envolvido. Mas você nunca precisou se erguer do nada. Você tinha o dinheiro da família para ajudar. – Na verdade, eu vivo dos meus investimentos. Não dependo do fundo fiduciário da família. – Mas ele estaria lá se você precisasse dele; uma rede de segurança. Eu comecei sem dinheiro nenhum, só sorte e muito trabalho duro. Você mesmo afirmou que eu procurava a atenção da mídia. – Ela empinou o queixo. – Talvez eu fizesse isso mesmo. Que mal há nisso se ninguém foi prejudicado e isso ainda beneficiou bastante a minha carreira? Ela se obrigou a voltar ao assunto. – Estou tentando explicar por que minha carreira é tão importante. – Para que você nunca tivesse de depender do seu pai. – Mais do que isso. Para que eu nunca tivesse que depender de ninguém, nunca. Ela se virou novamente para o rio. – Crescer vendo meus pais me deixou determinada a não apenas fugir, mas também a nunca ser fraca como minha mãe. Nunca me permitir depender de ninguém, inventar desculpas para essa pessoa, nunca me apegar a ela mesmo sabendo que era um erro. Eu queria... sempre quis ser independente. Não era só com a independência financeira que eu sonhava. Era uma independência completa. Assim... eu jamais me magoaria. Entende? Ela se virou para ele. À fraca luz, ele balançou a cabeça. Poppy nunca contara aquilo a ninguém. Conseguiria fazê-lo entender? – Eu não queria amor. Não confiava nele. O amor era algo que deixava uma mulher fraca, que a transformava em capacho de um homem que quisesse pisar nela. – Nunca fiz isso com você! Ele se aproximou dela, mas Poppy estendeu a mão para impedi-lo. – Ouça. – Não sou como seu pai, Poppy. Não finja que sou. – A voz dele perdera a raiva que ela se recordava de discussões passadas. Parecia sofrida. – Não estou dizendo que você foi. Ao menos não abusou fisicamente de mim. – Mas isso é... – Por favor! O que estou tentando dizer é que o problema não era você, ao menos não do jeito que você imaginava. Era comigo. – Agora que era a hora de revelar seus demônios mais internos, a garganta de Poppy ficou paralisada, as palavras saindo como um sussurro. – Achei que me apaixonar significaria o desastre. Que isso me faria me expor ao pior tipo de mágoa e traição. Então, quando me apaixonei por você... Ela baixou a cabeça. – Quando me apaixonei por você, foi o paraíso e o inferno ao mesmo tempo. Eu nunca tinha me sentindo tão empolgada e tão assustada. – Eu jamais machucaria você, Poppy. Você deve saber disso. Jamais levantaria a mão para uma mulher.


– Eu sei. – Ela percebeu o brilho do penetrante olhar dele. – Sei que você nunca me machucaria fisicamente. Mas existem outras maneiras. Ela foi para a janela mais distante. – Amei você apesar do meu medo, apesar de toda a cautela. Amei tanto! – Ela engoliu em seco. – Mas não era uma parceria equilibrada. Você nunca dizia que me amava, só que precisava de mim. Poppy piscou para conter as lágrimas. – Parecia que era só eu quem precisava mudar para me encaixar na sua vida, porque você não aprovava meu horário de trabalho extenso, nem as vezes em que um trabalho me levava para longe de você. Você também não aceitava Mischa, mas ele era meu amigo e mentor, o homem que tinha me ajudado desde que eu tinha 15 anos. Atrás dela, Orsino permaneceu em silêncio. – Você não mudou sua vida por mim. Você me deixou de fora da única coisa que era importante para você, suas aventuras. Então, eu percebi que estava inventando desculpas para você, como minha mãe fazia com meu pai. Que estava dizendo a mim mesma que não importava se você me deixava para trás sem pensar duas vezes, apesar de você sempre me querer à disposição quando voltava a Londres. Eu dizia a mim mesma que não importava se você não fazia nenhum esforço para encaixar minhas necessidades e minha carreira na sua vida. Poppy estremeceu. – Mesmo naquele momento, quando eu me vi virando algo parecido com ela, eu não quis abrir mão de você. Ela se virou e olhou para o grande e tenso homem parado como uma estátua ao luar. – Tem ideia de como foi aterrorizante amar você, sabendo que você não se importava comigo como eu me importava com você? Sabendo que eu estava me transformando no tipo de mulher que eu tinha jurado nunca ser? – Poppy. – Orsino se aproximou, mas parou, baixando os braços quando ela continuou falando. Se ela não soltasse tudo de uma vez, jamais teria coragem de contar a verdade. – Eu me fechei para o mundo quando minha mãe morreu. Você tentou me reconfortar, mas tudo que eu conseguia pensar era como ela tinha se desdobrado para tentar explicar o comportamento do meu pai. Eu me vi fazendo a mesma coisa e soube que precisava me distanciar, manter alguma independência emocional se quisesse sobreviver. – Foi por isso que você me mandou ir a Kathmandu, para a escalada que eu tinha planejado? – Você queria ir. Não precisei me esforçar muito para convencê-lo. Quando eu falei, você foi embora imediatamente. – Ela olhou fixamente nos olhos dele. – Você não me amava. – Foi isso que você argumentou a si mesma quando foi para a cama com seu precioso Mischa? – Um toque de raiva transformou as palavras de Orsino num profundo trovejar. – Isso não é desculpa. Assim como tristeza e vinho num estômago vazio também não eram. Mas sim, pensei nisso. Poppy envolveu o próprio corpo com os braços enquanto forçava para conter lágrimas que ela se recusava a deixar cair. – Eu estava esgotada e desesperada. Amava tanto você que isso me deixava aterrorizada. Eu tinha acabado de enterrar a única outra pessoa que eu amava. E disse a mim mesma que precisava aprender com os erros dela. – Está dizendo que fui um deles?


– Não foi? Se me amasse de verdade, teria ficado tão ansioso para ir embora com seus amigos escalar uma montanha do outro lado do mundo? Sobrou para Mischa juntar meus cacos. Poppy balançou a cabeça, seu curto lampejo de raiva desaparecendo. – Fui burra. Estava triste, furiosa e bêbada. Permiti que ele me abraçasse, e me reconfortasse, e... – Você já disse o suficiente! – vociferou Orsino por entre os dentes. – Não, Orsino, não falei. Naquela época, você não me deixou explicar. Simplesmente deu meia-volta e me deixou sozinha. Passei meses tentando falar com você. Cartas devolvidas, telefonemas não atendidos, e-mails que não foram abertos. Você se saiu muito bem em me tirar da sua vida. – A dor a atingiu. – Tentei novamente no outro dia, mas você deixou claro que não queria saber. – O que você se recusou a ouvir foi que, apesar de Mischa e eu termos nos beijado... Ela não acreditava que estava corando. Apesar de termos ido parar na cama juntos, nós não fizemos sexo. As palavras dela morreram num completo silêncio. Nada se movia, nem mesmo Orsino. – Quando ele me tocou, percebi que não era Mischa que eu queria. – As lágrimas começaram a escorrer silenciosamente pelas faces dela. – Era você. Eu queria que você me abraçasse. Precisava da sua voz dizendo que ia cuidar de mim e que tudo ficaria bem. Orsino continuava parado, como se tivesse sido petrificado. – Foi quando me dei conta de como eu estava usando meu único amigo de verdade porque não podia ter você. Porque o homem que eu amava não se importava o suficiente para ficar comigo. E porque eu tinha afastado você. Poppy enxugou as lágrimas. – Quando você me encontrou no chuveiro, eu tinha tirado a roupa e estava tentando lavar o toque dele. Eu me sentia tão... suja, tão culpada por ter deixado o que tinha começado como uma verdadeira solidariedade fugir do controle... – Mas você admitiu que tinha estado com ele! – Você já tinha entrado com raiva, falando que tinha visto Mischa sair malvestido. Eu contei a você que tínhamos nos beijado no quarto e que me arrependia do que tinha feito. Antes que eu pudesse dizer mais, você se virou e, sem dizer nada, foi embora da minha vida. A lembrança despejou fúria no sangue dela. Como ele pudera ir embora sem ouvi-la? – Por que está me contando isso agora? – Porque ainda importa para mim. Eu tentei enganar a mim mesma que não importava... que você, nós éramos coisa do passado. – Ela o olhou fixamente, apesar de seu medo. – Eu me enganei. Importa, porque nunca deixei de amar você. – As palavras dela estavam petulantes. – Era por isso que eu precisava contar toda a verdade para você. Porque ela achara que havia uma chance de construir algo melhor a partir das cinzas do passado. Poppy achou que o silêncio de Orsino a destruiria. Ele se prolongou durante tanto tempo que a deixou completamente tensa. Mas não foi o silêncio que a arrasou. Foram as palavras dele. – Não! Você está mentindo. Não é possível. Não pode ser.


Capítulo 13

ORSINO VAGAVA pelos cômodos como um bêbado. Mais de uma vez, o chão subira para encontrá-lo, e ele precisara se apoiar numa parede ou num batente de porta para se equilibrar. O som da música e das vozes vinha em ondas, crescendo para um rugido dentro de seus ouvidos e, em seguida, reduzindo-se apenas às palavras de Poppy. Nós não fizemos sexo. Porque nunca deixei de amar você. Ela estava brincando com a cabeça dele. Aquela seria sua vingança pela maneira como ele a abandonara anos antes? Poppy seria mesmo tão calculista e cruel? E onde diabos ela estava? Ele precisava encontrá-la. Orsino não fazia ideia de quanto tempo se passara desde que ela virara as costas e o deixara. Minutos? Horas? Ele procurou a escura chama do comprido cabelo dela, o sinuoso corpo vestido de roxo até os pés, o brilho das pedras preciosas, o queixo empinado. Ela parecera uma rainha, superior e intocável. Mesmo com lágrimas em suas faces, Poppy tinha uma aura de poder, uma força que o contivera, perplexo não apenas com as palavras dela, mas com ela, a mulher que o virara do avesso. Como ela podia esperar que ele acreditasse no que ela revelara? Se aquilo fosse verdade, isso significava que, durante cinco longos anos... Orsino se recostou numa parede. Não. Ele se recusava a pensar nisso. Não podia. Ele apertou os olhos, observando a multidão do cômodo ao lado através das portas duplas abertas. Nada de Poppy. Todo o seu corpo tremia. Ele precisava encontrá-la. Precisava... – Ora, ora. Se não é o célebre herói. Preciso dizer que você parece que devia estar numa cama de hospital, não apoiado numa parede. Ou bebeu champanhe demais? – Mischa. Orsino sequer conseguia forças para despertar o ódio pelo homem que o observava.


– Não posso dizer que é um prazer ver você novamente – respondeu o outro homem. – Não dou a mínima para o seu prazer. – Orsino balançou a cabeça, tentando clareá-la. – Onde ela está? Mischa ergueu um copo à própria boca. Com suas roupas perfeitas e seus lentos movimentos, ele parecia tão composto que Orsino resistiu à vontade de arrancar dele a informação de que precisava. – Perdeu alguém? Quanto descuido. – Os olhos claros de Mischa reluziram com algo que parecia ódio. Orsino contraiu os bíceps. A adrenalina percorria seu corpo, preparando-o para a ação. Mas ele se conteve. – Não estou brincando. Onde está Poppy? – Dê um bom motivo para eu contar a você. – Porque... – Orsino adentrou o espaço do outro homem – ... ela é minha esposa. – A esposa que você abandonou e ignorou durante os últimos cinco anos? Se Mischa achava que alguma de suas palavras tinha poder para atingi-lo, estava muito enganado. Era impossível ele sentir mais dor do que já estava sentindo. – Essa mesma. Onde ela está? Mischa recuou um passo, vendo algo de primitivo nos olhos de Orsino. – Foi embora. – Embora? – Exatamente. Sozinha. Os joelhos de Orsino cederam, e ele se recostou novamente na parede. – Ela não pode ter ido. – Está dizendo que ela não pode ter abandonado você? Por que não? Claramente, ela deve ter aprendido como fazer isso com um especialista. – Ele lhe deu as costas. – Espere! – Orsino endireitou o corpo. – É verdade? No passado, ele tivera orgulho demais para falar com aquele homem. Agora, seu orgulho fora pulverizado. Ele precisava saber. – O quê? – Poppy confessou que você e ela... Que vocês nunca... Mischa se virou, seu rosto tenso de emoção. – Que nunca fizemos sexo? É isso que está tentando dizer? – Ele mostrou os dentes. – Está perguntando depois de todo esse tempo? Orsino assentiu. – Sim. – Foi um som rascante, arrancado das profundezas da torturada alma dele. Mischa não se apressou a responder. – Por que perguntar a mim? A resposta é óbvia. Você já sabe o que aconteceu naquela noite. Ele deu meia-volta e saiu do cômodo, fechando as portas e deixando Orsino sozinho no escuro.


Capítulo 14

POPPY SE acomodou no saguão do hotel, abrindo uma revista. Seu olhar encontrou familiares olhos violeta, e ela analisou criticamente sua foto. Eles tinham acertado ao escolher o vermelho-rubi para ela naquele vestido. Ele complementava sua pele clara e a fortuna que ela usava em pedras preciosas. Poppy se recordou daquele dia, poucas semanas antes, quando a foto fora tirada. Não era de se admirar que os olhos dela estivessem sonolentos. Sua boca também parecia mais farta. Uma hora antes, ela estivera na cama de Orsino. Ainda conseguia se lembrar do sabor da exigente boca dele na dela, o ardente frenesi do desejo antes de ele recompensá-la com um clímax avassalador. Ela se sentira amada. Física e emocionalmente. Mas isso fora antes. Ela não podia mais se enganar, dizendo a si mesma que ele se importava. Valera a pena se entregar a ele novamente? O êxtase naqueles momentos e, agora, o inferno. Às vezes, apenas a dor parecia real. Ela ainda o amava. Talvez perceber isso fosse o primeiro passo para acabar com seus sentimentos por ele. Apenas uma masoquista amaria um homem que se recusava a acreditar. Agora, a total tristeza de sua vida era uma muralha cinzenta que a afastava de tudo, mesmo que ela se obrigasse a continuar vivendo normalmente. Como naquele momento, com ela esperando para seu encontro às cegas. Ela teria evitado isso se pudesse, mas o leilão de um almoço com Poppy Graham num luxuoso hotel fora um ótimo jeito de angariar fundos para o abrigo para mulheres. Ela não poderia dar para trás agora, especialmente depois de o sr. Rossi ter pagado uma quantia tão alta pelo privilégio. Um calafrio a percorreu. Contanto que ele soubesse que era apenas um almoço... Do outro lado do saguão, firmes passos soaram. Por um instante, Poppy pensou reconhecer aquelas decididas passadas. Os pelos de seu braço e sua nuca se eriçaram, mas ela manteve a cabeça baixa, olhando para a revista. Onde estaria Orsino? Visitando uma de suas organizações beneficentes num canto remoto do mundo? Numa nova aventura? – Poppy.


Ela ergueu imediatamente a cabeça. Uma doce e penetrante dor atravessou seu peito quando ela encontrou conhecidos olhos escuros. Todo o seu corpo ficou paralisado. Ele parecia diferente. As feições orgulhosas e decididas de Orsino pareciam esgotadas, suas faces estavam magras, seus olhos estavam fundos. Porém, ele estava maravilhoso. O coração idiota dela surrou as costelas como se quisesse se atirar aos pés dele. – Orsino! – Dentre todos os hotéis de Londres, por que ele fora escolher justo aquele? Que cruel ironia do destino! – O que está fazendo aqui? – Procurando você. Ela balançou a cabeça, incapaz de acreditar em seus ouvidos. – Estou esperando uma pessoa. – Ela lançou um ansioso olhar para a entrada. Onde estaria o homem? Ela preferiria encarar mil encontros às cegas a ficar ali conversando com seu marido. – Sim, eu. – Não. Estou esperando o sr... – Rossi. Poppy ficou tensa. – Como soube? Ela o observou. Ele estava com as pernas afastadas, as mãos dentro dos bolsos da calça, e Poppy sentiu uma estranha aura emanar dele. Lentamente, ela se levantou. – Rossi era o sobrenome de solteira da minha mãe. Poppy piscou os olhos quando o significado daquilo entrou lentamente em seu cérebro entorpecido. O horror a atingiu. Ele não podia querer dizer que... – Você deu o lance por mim no leilão beneficente? – Achei que você não fosse querer me encontrar se eu telefonasse. – Exatamente. – O que ele achava que estava fazendo, encontrando-a daquele jeito falso? Ela se virou de costas. – Preciso ir. O braço dele se estendeu como se ele fosse segurá-la, mas baixou em seguida. – Por favor. Aquela palavra penetrou o pânico de Poppy. Ela parou, sua pulsação em disparada. – Levei dias para encontrar você. Você foi embora sem deixar nenhum rastro. Ninguém sabia onde você estava. – Por que queria me ver? Ele passou a mão por seu bagunçado cabelo. – Preciso conversar com você. Poppy estremeceu. – Não posso. – Ela não aguentaria aquela tortura novamente. – Por favor, Poppy. – A voz dele estava urgente, continha um tom que Poppy nunca ouvira antes. – Eu ouvi o que você tinha a dizer. Não pode me ouvir? Poppy viu cabeças se virando na direção deles. – Aqui, não. – As palavras escaparam antes que ela pudesse contê-las. – Não. – A mão dele se fechou no cotovelo dela, e um escaldante calor a preencheu. – Meu carro está lá fora.


– Não vou a lugar nenhum com você. O triste sorriso dele disse que ele já previra aquilo. – Quer ouvir o que tenho a dizer aqui no saguão? – Você venceu, Orsino. – Ela pegou a bolsa. – Vamos. – ESTE É o seu apartamento? – O senso de espaço e luz, além da magnífica foto do sol raiando sobre um deserto a fez reconhecer imediatamente. – É. Ela se virou, mas não havia nada para interpretar na expressão de Orsino, a não ser a tensão em torno de sua boca. Uma tensão ecoada pelo próprio corpo dela. Por que ela estava fazendo aquilo? Por que permitira que ele a levasse até ali, em vez de exigir respostas no carro? Porque compartilhar a intimidade do carro esportivo dele fora muito parecido com compartilhar a intimidade de sua cama. Nada importara além deles. Poppy foi até a porta que levava ao terraço. Ela não conseguia aguentar ficar enclausurada com ele, mesmo naquele espaçoso cômodo. Orsino chegou primeiro, abrindo a porta. Poppy deu as costas à deslumbrante vista da cidade e se recostou no parapeito, olhando para ele. – Estou esperando. Ele estava diante dela, suas grandes mãos se fechando e se abrindo. – Orsino? Uma daquelas bronzeadas mãos penetrou o cabelo dele. Ele estava tão perto que ela viu as novas cicatrizes nela, até a imaginou tremendo. Subitamente, o pânico a dominou. Não podia ter havido nenhuma complicação dos ferimentos dele, podia? Isso explicaria a aparência tão abatida dele? Poppy deu um passo na direção de Orsino, mas parou quando ele falou. – Você afirmou que eu nunca tinha amado você. Que não me importei o suficiente para ficar. Tem razão quando diz que eu nunca falei isso, que nunca... – A voz dele falhou. O coração de Poppy se apertou. Então, ele não negaria mesmo. Ela sentiu o último fio de esperança murchar. – Eu não estava preparado para você, para o que sentiria por você. – Os lábios dele se curvaram em algo parecido com um sorriso. – Mulheres sempre foram fáceis para mim, sabe? Nunca precisei me esforçar. Mas, com você, desde a primeira vez, foi diferente. Poppy percebeu que parara de respirar e inspirou rapidamente. – Como? – Como? Eu não podia deixar de dar valor a você. Não queria deixar de dar. Eu... precisei de você, desde o início. Você era... importante para mim. – Orsino riu. – Não estou explicando direito. – Apenas diga. – Eu não podia não ter você. Não só na minha cama, mas na minha vida. – Ele parou para suspirar fortemente. – Eu teria feito qualquer coisa para ficar com você, até mesmo me casar com você. – Do jeito como você fala, parece uma sentença de morte. Ele ergueu as sobrancelhas.


– Acha que eu queria uma esposa? Depois de ver o relacionamento dos meus pais se reduzir a pó? Você não era a única que estava determinada a ser independente. Para mim, o prazer máximo sempre tinha sido simplesmente eu contra a natureza. Sempre fui um solitário. Os relacionamentos eram de curto prazo e fúteis, baseados em muito sexo. – Então, conheci você. As palavras dele eram ríspidas. Ele a culpava por tê-lo feito desejá-la? Por ter desequilibrado sua vida? Poppy quis choramingar, mas ficou de boca calada. Já expusera sua alma. O fluxo de palavras terminou. Ele passou por ela e segurou o parapeito firmemente, uma expressão de dor no rosto. Era aquilo que ela o fazia sentir. Por que ele a levara até ali apenas para lhe dizer como ela o deixava infeliz? Poppy se virou para a porta. Os fortes dedos dele envolveram o punho dela. Instantaneamente, o calor se espalhou por dentro dela. Um conhecido calor. Um desejo. Não! Não podia ser. Ele devia ter percebido o mesmo, pois sua mão baixou. – Não consigo fazer isso, Orsino. – Ele a estava dilacerando. – Espere, Poppy. Preciso de mais alguns minutos. – Por quê? – Porque preciso pedir desculpas. Desculpas? Subitamente, Poppy estava afundando num assento acolchoado, as pernas bambas como espaguete cozido. – Não fique tão chocada. Sei que mereço isso, mas... – Ele levou a mão à própria nuca, olhando fixamente para ela, como se conseguisse enxergar os recônditos mais escuros da alma dela. O PÂNICO surgiu. Depois de tudo que ele fizera, e tudo que não fizera, já devia ser tarde demais para eles. – O casamento foi um imenso erro. Entendo isso agora. Ele viu o rosto dela empalidecer e amaldiçoou a si mesmo por ter lhe causado mais dor. – Porque magoei você. Porque... não fazia a menor ideia de como ser um marido decente. Só sabia que precisava de você. Quanto mais eu tinha, mais precisava. – Fui egoísta. Não consegui entender por que eu não era suficiente para você. Por que você precisava passar seu tempo trabalhando quando eu tinha dinheiro suficiente para nos sustentar. Poppy franziu o cenho. – Mas era minha carreira. Orsino anuiu. – Eu sei. Eu a elogiava, mas não entendia de verdade. Ao menos não até você ter me contado a respeito dos seus pais, do que sua carreira significava. Eu achava que você estava brincando de ser modelo.


– Brincando? – O fogo surgiu nos olhos dela. Orsino se sentiu melhor por vê-la daquele jeito, pronta para lutar. Vê-la desabada na cadeira com uma expressão de derrota o dilacerara. – Eu mencionei que era egocêntrico. Acho que estava acostumado a me misturar com mulheres para quem empregos eram meros passatempos até encontrarem um marido rico, mas isso não é desculpa. Quando vi que sua carreira era séria, comecei a ficar com ciúme. Ela enrijeceu. – De Mischa. Orsino abriu os braços. – Vocês tinham um relacionamento que me excluía. Você recorria tanto a ele. Eu não conseguia entender por que eu não era suficiente para você. Você tem razão. Eu tinha passado tempo demais levando uma vida privilegiada. Precisei do choque da nossa separação, de me enterrar no trabalho, descobrindo que eu podia fazer algo pelos outros, para amadurecer. Ver o fardo que as outras pessoas carregavam diariamente sem reclamar pôs meus problemas em perspectiva. Naquela época, eu tinha ciúme do seu trabalho porque ele levava você para longe de mim. Aqueles inícios às quatro da manhã, quando eu queria puxá-la de volta para a cama... – Você achou que eu quisesse deixar você sozinho? – Eu estava inseguro. Achava que você estava inventando desculpas. – Para não ficar com você? Eu estava loucamente apaixonada por você. Eu disse. Orsino nunca sentira tão envergonhado. – Você não acreditou em mim? – Eu achei que fosse só... – Ele gesticulou vagamente. – Achei que fosse paixão, não amor. E me enganei. Agora, sei que magoei você. Mas ninguém nunca tinha me amado antes. – Orsino ouviu como aquilo soava patético e se apressou a continuar. – Nem mesmo meus pais. A exceção era Lucca, mas é diferente. – Eu era tão feliz com você, Poppy. Mas, durante todo o tempo, uma parte de mim que funcionava por instinto já esperava que tudo terminasse. – Ah, Orsino... A expressão dela arrancou outro pedaço do coração dele. Como ele a magoara! – Desculpe, Poppy. Você não faz ideia de como estou arrependido. Devia ter apoiado sua carreira, não reclamado dela. Devia ter estado mais presente para você. Ele engoliu em seco, relembrando aquela última e terrível semana. – Quando sua mãe morreu, tentei confortar você, ser um bom marido. Não aguentava ver você triste daquele jeito, mas era impossível. Tudo que eu fazia dava errado. – Porque eu afastei você. Estava morrendo de medo de depender de você, Orsino. – Ela o olhou fixamente. – Não por sua causa, foi por minha. Ele balançou a cabeça, sabendo que a culpa era dele. – Isso não devia ter feito diferença. Eu devia ter imaginado que você se comportaria de um jeito diferente. Mas, quando você me afastou, tudo veio à tona; minha mãe rejeitando Lucca e a mim, meu pai nos ignorando o máximo possível. Ele permitira que seus medos de infância assumissem o comando quando ele devia ter se mantido firme, sido o homem de que ela precisava. – Eu me senti rejeitado. E foi como se o golpe que eu vinha esperando tivesse finalmente sido dado. O fato de que você não precisava nem um pouco de mim.


Poppy balançou a cabeça, e ele quis pegar a mão dela. Mas Orsino se obrigou a não se mexer. – Cheguei ao aeroporto, e chamaram o voo. De repente, eu soube que não conseguiria ir. – Ele sorriu. – Eu até gostaria de dizer que fiz isso porque você precisava de mim, e, em parte, foi por isso. Mas, acima de tudo, foi pela minha necessidade avassaladora de ficar com você. Dei meia-volta e voltei ao apartamento. – E viu Mischa indo embora. Orsino consentiu. – Entrei esperando o pior, querendo desesperadamente ouvir que estava enganado, mas sem dar atenção de verdade a você. E, quando pensei que você tinha me traído, isso foi mais uma rejeição. Ele piscou os olhos, que ardiam, turvando sua visão. – Com você, eu tinha conhecido a felicidade. Começado a ter esperança de que talvez fosse verdade quando você dizia que me amava. – Eu devia ter ficado e ouvido você. Droga! Devia ter estado presente para reconfortar você desde o início, não deixado isso para Mischa. Mas eu estava convencido de que sabia o que iria ouvir e não ia aguentar. Foi por isso que fugi, que me certifiquei de que você não conseguiria falar comigo durante meses depois. Porque fui covarde. Dedos quentes envolveram os dele, e o choque o atingiu. – Você não foi o único, Orsino. Eu devia ter contado sobre os meus pais. Sobre os meus traumas. Não devia ter me afastado. – Mas por que você iria me querer por perto? Eu não conseguia nem dizer que amava você. O rosto de Poppy se contraiu, a dor a atingindo profundamente. Orsino não aguentou. Ajoelhou-se diante dela na poltrona. – Eu não conseguia dizer porque tinha medo. Os olhos dela se arregalaram. – Você não tem medo de nada. Ele riu. – Você não faz ideia. – Naquele exato instante, seu estômago estava se contorcendo como um píton subindo em uma árvore. – Encaro penhascos, desertos, tundras... Mas dizer à minha esposa o que sinto de verdade me deixava morto de medo. Ainda deixa. – O que você sente, Orsino? – Ela soava tão arfante quanto ele se sentia. Ele engoliu em seco. – Amei você desde o primeiro instante. No começo, achei que fosse desejo, mas era muito mais. Você me completa. Quando percebi que estava apaixonado, fiquei morto de medo de dizer a você, achando que isso me deixaria fraco. Foi por isso que nunca falei. Um pedaço de mim estava faltando antes de encontrar você. Então, quando fui embora... – Você me amava? Orsino sentiu as mãos dela tremerem. Os olhos dela cintilaram, e o peito dele pareceu implodir. – Sempre amei. Foi por isso que, nesses cinco anos, não estive com nenhuma outra mulher. Ela o olhou fixamente, perplexa. Não restava mais orgulho a Orsino. Orgulho, dúvida e medo o haviam separado de Poppy por tempo demais. – Por que acha que minha agenda tem estado tão frenética? Como acha que consegui conciliar tantos esportes radicais e caminhadas com meu trabalho administrando investimentos beneficentes? Eu


precisava descontar minha frustração de algum jeito. Precisava canalizar todas as minhas energias em coisas que não fossem sexo e amar você. – Mas aquelas mulheres... Vi fotos suas em todos os lugares. – Acompanhantes em bailes e jantares. Não levei nenhuma delas para a cama. Como poderia, se a única mulher que eu queria era você? A boca de Poppy se abriu, mas nenhum som saiu. – Quando nos encontramos novamente, eu estava louco por você. Quase explodi na primeira vez em que você me tocou. Passei cinco anos sonhando com você. Ele ousou tocar o rosto dela. – Para mim, só existe você, Poppy. Os olhos dela se fecharam com força. – O que fez você mudar de ideia? Você falou com Mischa quando fui embora? Ele contou a você que não tínhamos dormido juntos? Você deixou claro que não acreditava em mim. Orsino se levantou. A culpa de Poppy achar que ele não tinha fé nas palavras dela era toda dele. Ele se virou e apoiou os braços no parapeito, baixando a cabeça. Ele a perdera. Jamais o perdoaria. – Mischa não me contou. Aquele homem me odeia. Sabe que ele ama você? – Como ela podia não saber? Estava óbvio. – Ele se recusou a me dizer qualquer coisa, especialmente onde você estava. Quando perguntei a ele o que tinha acontecido há cinco anos, ele me respondeu que eu já sabia. – Eu podia acreditar ou não no que você tinha me dito. Foi quando eu soube. A resposta tinha estado lá o tempo todo. Eu só precisava pensar em você, na mulher que você é. – Eu me enganei a seu respeito. Acusei você por medo. – Mas você não acreditou em mim quando eu contei a você no chateau! – Eu não queria acreditar, pois aquilo significaria que eu tinha nos sentenciado a anos de inferno por nada. Como eu aguentaria isso? Como podia ter feito isso com a mulher que eu amava? Você vai ficar melhor sem mim. Mesmo ao dizer aquilo, uma voz dentro de Orsino uivou de desespero. Como ele conseguiria seguir em frente sem Poppy? – Por isso, você me afastou. – A dor marcava a voz dela, e algo morreu dentro dele. Ela não soava como uma mulher que reencontrara o homem que ela amava. Soava como uma mulher que já se magoara o suficiente. Por causa dele. Leves dedos tocaram o rosto dele, espalhando a umidade. – Orsino! Você está... – Não choro desde os 7 anos. Achei que tinha me esquecido de como fazer isso. Os olhos dela encontraram os dele, tão lindos que Orsino não quis desviar o olhar. – Ah, Orsino... – Poppy se curvou na direção dele, seus braços se erguendo como se para abraçá-lo, mas Orsino se moveu rapidamente, segurando os punhos dela, contendo-a. – Não! Não sinta pena de mim. Não quero isso. – De forma egoísta, ele queria muito mais. – Cometi erros que custaram a nós dois. Não mereço sua solidariedade. Por vários instantes, eles se entreolharam. Orsino soube que ela estava vendo seu arrependimento, sua determinação. Finalmente, Poppy se desvencilhou. Aquele simples movimento destruiu algo dentro dele.


– Agora, você sabe. – Orsino se afastou. – Você merecia a verdade antes de cada um seguir com sua vida. – É isso que você quer? – A voz dela era um sofrido sussurro. Ele buscou qualquer sinal de que ela sentisse algo além de pena e pesar pela burrice dele. Não viu nada além de choque. Poppy não pronunciou que ainda o amava. A esperança morreu. Ele soltou o fôlego que prendera na espera de ouvir aquelas três palavras mágicas que, no passado, ela declarara com tanta vontade. Ele finalmente conseguira matar os sentimentos dela quando rejeitara sua confissão no chateau. – Quer ir embora? – indagou ele abruptamente, precisando encerrar aquilo. – Eu levo você. Poppy recuou, e um imenso peso esmagou o coração dele. – Não. Eu pego um táxi.


Capítulo 15

ORSINO SEGUIU as orientações da recepcionista e foi até a sala de conferência. Sua pele formigava só por estar no hotel Chatsfield de Londres depois de tantos anos. Aquilo o fazia se recordar da arrogante presunção de seu pai, achando que ele largaria tudo para se tornar o rosto público da empresa. Ele não estava com humor para os negócios, mas Bettina insistira, dizendo que ele não podia perder aquela oportunidade. Ele teria ido escalar naquela manhã. Precisava encontrar uma distração. Algo para afastar a lembrança de Poppy se despedindo. Até então, nada funcionara. A dor o atingiu. Ele a veria novamente, a não ser em peças publicitárias? Orsino não sabia o que seria pior: vê-la e não estar com ela ou nunca mais pôr os olhos em Poppy. Quanto antes ele partisse para sua nova aventura, melhor. Ao menos assim ele ficaria a sós com sua tristeza. Orsino fez cara feia. A tal srta. Beaufort precisaria ter uma proposta muito vantajosa, ou ele iria embora imediatamente. Ele chegou à porta, bateu e entrou na sala de conferência... parando imediatamente quando o chão foi retirado de baixo de seus pés. Uma mulher alta se levantou de uma das cadeiras giratórias em torno da mesa. De costas para a janela, a luz do dia detalhava seu justo terninho escuro. Seu cabelo era da cor da paixão, preso no alto da cabeça. – Poppy? – inquiriu ele com a voz rouca. Orsino esfregou os olhos. Estaria vendo coisas? Ela contornou a mesa, e ele viu perfeitas pernas, pés lindos envoltos por sapatos pretos com saltos tão altos que ela parecia uma fantasia erótica encarnada. Pérolas envolviam seu claro pescoço, chamando atenção para o decote do terno e para o fato de que ela não estava usando uma blusa por baixo. Era ela. Instintivamente, ele inspirou fundo quando ela se aproximou, permitindo que aquele delicado e revigorante perfume invadisse seus sentidos. Os olhos dele baixaram para os cintilantes lábios da cor de framboesas, e Orsino conteve um grunhido de desejo.


– O que você...? – As palavras dele morreram quando ela passou por ele e trancou a porta. – Só para garantir que ninguém vá nos incomodar – murmurou ela ao retornar à mesa. – Poppy? O que é isto? Onde está a srta. Beaufort? – Você está olhando para ela. – Não entendi. – Ele vinha dormindo tão pouco. Estaria sonhando? – Aprendi com você e usei o sobrenome de solteira da minha mãe. – Por quê? Ela cruzou os braços. – Porque, da última vez, você deixou dolorosamente claro que estava se sentindo tão culpado que não aguentaria ficar comigo. Ser sorrateira foi minha única opção. O CORAÇÃO de Poppy desabou. Os olhos escuros de Orsino fulguraram, e seu olhar baixou para o profundo do decote dela. O calor nos olhos dele negava sua expressão séria. Uma fagulha de esperança surgiu. Poppy não sentia orgulho de usar seus dotes naturais para conseguir o que queria. Havia muito em jogo para que ela arriscasse fracassar. Ela se curvou à frente. – Tenho uma proposta de negócios para seu trabalho beneficente. – Ela passou a língua pelo lábio inferior, mais nervosa do que ficara em sua primeira sessão de fotos, e foi recompensava com o brilho nos olhos de Orsino. – Você quer falar de filantropia? – Por que não? Você não é o único que se interessa por isso. Minha proposta vai beneficiar seus investimentos de caridade. – Sério? – Absolutamente. – Ela indicou uma cadeira próxima. – Por que não se senta? – Estou bem aqui. – Ele cruzou os braços, reforçando o poder de seu largo peito debaixo do paletó e da camisa. – Então, não vai se importar se eu me acomodar. – Ela entrou atrás da mesa, ciente do olhar de Orsino se fixando em suas pernas quando a saia subiu logo acima do joelho. Poppy não se apressou para fechar as pernas, sentindo o deslizar das meias-calças de seda em suas coxas. Ela conteve um sorriso ao ver o movimento convulsivo na garganta de Orsino. – Você tem uma proposta? – A voz dele estava rouca, mas seus olhos brilhavam como se ele tivesse decifrado a óbvia tática de Poppy. – Como vai sua visão? Ainda melhorando? – Quase normal. Mas só o tempo dirá. O que você estava dizendo? Poppy engoliu em seco. O que, em tese, parecera fácil se transformara num desafio. O grande homem diante dela tinha pouca semelhança com o emocionalmente ferido que expusera seu remorso e a afastara quando ela tentara confortá-lo. Mas o fracasso não era uma opção. – Você faz um excelente trabalho angariando fundos para suas ações beneficentes. – Obrigado. – Mas eles são uma série de eventos únicos que prendem a atenção do público durante um curto tempo.


– E...? – O que acha de uma abordagem mais sustentada? Uma conscientização que continua mesmo quando você não está arriscando a vida escalando uma cachoeira congelada ou atravessando um deserto? – Continue. Ela conquistara a atenção dele. Perversamente, Poppy se sentiu levemente incomodada por ele não tê-la puxado para um louco beijo. Ela cruzou novamente as pernas, e a satisfação a preencheu quando o olhar dele voltou para o movimento, permanecendo fixo ali. Ele não estava tão apático assim. – Tenho contatos interessados em contribuir com uma campanha na mídia. Eles fariam esses serviços de graça. O olhar de Orsino subiu. – Modelos? – Não os despreze – ordenou ela antes que ele pudesse soltar algum disparate. – As pessoas são atraídas pela beleza. Ela pode vender muitas ideias, não apenas itens de luxo. – Eu não estava sendo negativo. Aceitamos toda a ajuda que pudermos ter. Poppy olhou fixamente, mas não conseguiu decifrar nada na expressão dele. – Não apenas modelos. Fotógrafos e cinegrafistas. – Ela mencionou alguns nomes que fizeram as sobrancelhas de Orsino se erguer. – Pensamos em algumas peças publicitárias e talvez um documentário curto. Além de uma série de eventos beneficentes com um pouco de glamour. – Parece bom demais para ser verdade. – Há algumas condições. – É mesmo? – Em primeiro lugar, você precisaria trabalhar comigo. Quero fazer parte disso. – Por quê? – Não vou ser modelo minha vida inteira. Quero desenvolver habilidades em outras áreas. É uma oportunidade perfeita, e ainda vou fazer algo digno. Ele passou tanto tempo em silêncio que uma nervosa tensão zumbiu em torno de Poppy como um enxame de abelhas. Ela teria julgado mal a situação? Ele não a afastara de si pelo bem dela, mas pelo próprio bem? – O que mais? – Ele se aproximou, assomando diante dela, e a sala encolheu. Poppy levantou a cabeça, lembrando a si mesma de que ela era capaz de fazer aquilo. – Não quero simplesmente trabalhar com você. –O que mais você quer? A mão de Poppy foi até seu blazer. Ela abriu um botão, e mais outro, e as laterais se abriram, revelando a pele clara e um sutiã de renda. O peito de Orsino se ergueu fortemente quando ele inspirou fundo. – Você quer sexo? – Ele parecia sufocado. Poppy tirou o blazer, sentindo o ar frio tocar sua pele. Seus mamilos se contraíram. Ela nunca se sentira tão exposta. Por que ele estava parado? – Sim – sussurrou ela, a garganta se fechando. Ela não sabia o que fazer com as mãos e acabou por plantá-las na mesa. – Mas também quero mais.


– Mais? – Quero ser sua esposa. – Os olhos dele se ergueram imediatamente para capturar os dela, e Poppy sentiu a conexão entre eles. – Quero que moremos juntos, como marido e mulher. – Isso é alguma piada? Vingança? O coração dela murchou. – Acha que eu faria algo assim? – Não! Mas não consigo acreditar... – Ele engoliu em seco. Durante longos segundos, Orsino a olhou fixamente. – Isso seria possível? – Claro que seria! Você estava tão ocupando se torturando pela maneira como tinha me tratado que esqueceu que amo você. – Você me ama? Ainda? – Os olhos dele brilharam. – Eu já disse, não lembra? Não preciso que você decida por mim o que eu quero ou não quero. Lentamente, Orsino sorriu, e o coração de Poppy se encheu de ternura. – Lembro. Com um passo, ele ficou tão perto que Poppy precisou inclinar a cabeça para trás para olhar em seus olhos. Os joelhos dela se afastaram para que ele se posicionasse entre eles. – Não entendo como você ainda pode me amar... – Ele levantou a mão para impedi-la de falar. – Não acredito que você possa me perdoar por ter sido tão cego. Mas estou agradecido. – Ela prendeu uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Estava tão trêmulo quanto ela. – Eu amo você demais, Poppy. Durante um longo e glorioso momento, o mundo ficou imóvel, os olhares deles se fundindo. Então, ele segurou o seio dela, e os olhos de Poppy se reviraram de prazer e alívio. Já fazia tanto tempo! – Sexo, casamento e trabalharmos juntos. Consigo fazer isso. – Orsino baixou a cabeça e acariciou com o rosto o sensível ponto entre o pescoço e o ombro dela. Poppy arfou de prazer. Quando ele falou novamente, ela já estava tirando o cinto dele. – Só isso? – Não. – Ela abriu os olhos ao se afastar da boca dele. – Quero que você ligue para o seu pai. Ele ficou rígido, olhando-a fixamente. – Apenas ligue para ele e descubra por que ele queria que você trabalhasse para a empresa da família. – Por quê? – Porque a família é importante. – Poppy pensou em sua mãe e no vínculo que elas haviam compartilhado, e isso fortaleceu sua voz. – Não estou dizendo que ele é perfeito, nem admirável. Mas talvez a proposta dele seja um sinal de que ele quer reatar os laços. Talvez tenha percebido o que deixou de ter durante todos esses anos, afastado dos filhos. – Orsino merecia essa chance, algo que lhe fora negado durante tanto tempo. – Um telefonema – estipulou ele. Ela concordou, seu coração se inflando porque Orsino aceitara aquilo por ela. – Sim. Abruptamente, Orsino a empurrou, fazendo Poppy se deitar na mesa. A excitação a percorreu quando ele se posicionou sobre ela. – Só isso? – Mais uma coisa. – Ela arfou quando ele mordeu sua orelha e o calor invadiu seu ventre.


– É difícil fazer negócios com você, sra. Chatsfield. O coração de Poppy disparou. Senhora Chatsfield. Ela gostou daquilo. A mão dele deslizou por baixo da saia dela, parando ao tocar a pele nua logo acima da meia-calça. – Sua bruxa! A boca de Orsino atacou a dela, e o mundo girou. A felicidade a preencheu. – Qual é a última coisa? – Ele levantou a cabeça, e Poppy viu veneração nos olhos dele. Ela piscou os olhos com força. – Poppy? Meu amor, está tudo bem. Vou fazer tudo ficar bem. O que você quer? Vamos, não pode ser tão ruim assim. – Não é nada ruim. – Ela tomou nas mãos o amado rosto dele. – Quero que você passe um pouco mais de tempo comigo na Inglaterra, para que possamos começar a tentar criar uma família. O lento sorriso que se espalhou pelo rosto dele foi a coisa mais maravilhosa que ela já vira. – Adoro mulheres que sabem o que querem. – Ele flexionou os dedos no seio dela, e Poppy conteve um gemido. – Sabe? Andei pensando em reduzir um pouco as expedições mais perigosas, agora que tenho tanto trabalho administrativo. Construir uma família com você seria uma aventura totalmente nova. A garganta dela estava embargada; nenhuma palavra saía. Por isso, Poppy o puxou para si e o beijou com todo o seu amor e felicidade. A esperança e o perdão passaram entre eles, unindo-os. A mão de Orsino subiu ainda mais por baixo da saia dela, parando ao encontrar apenas a pele nua e aquela macia feminilidade. – Você é uma mulher perigosa, Poppy. Mais perigosa do que qualquer montanha que eu pudesse escalar. Posso acabar morrendo por sua causa. Mas havia satisfação no rosto dele enquanto sua mão explorava. Poppy se curvou quando o toque dele encontrou seu ponto mais sensível. Ela levou a mão ao zíper de Orsino. – Mas minha intenção é de que tenhamos uma vida muito, muito longa juntos. – Nosso “felizes para sempre”? – A expressão nos olhos dele teria sido capaz de derreter o gelo ártico. – Amo você, Poppy, mais do que amo minha própria vida. Se é isso que você quer, vou me esforçar ao máximo para dar a você. Então, ele selou a promessa com um beijo que acabou com toda a dor do passado, um presságio de tudo que ela queria para o futuro.


– Não somos amigos, Lucilla. Não faz sentido ficarmos de conversa fiada. Você não liga para a minha infância, e eu não ligo para a sua. Você liga para o que estou fazendo com a sua preciosa empresa, e eu ligo para devolver a glória ao nome Chatsfield. Não estamos em lados opostos, por mais que você queira enxergar desse jeito. E não precisamos nos envolver numa conversa educada para fingir que gostamos um do outro. Os olhos dela haviam se semicerrado. Sua cor estava forte. O rubor acima dos seios dela era intrigante. Christos quis tirar o vestido dela e colocar sua boca logo acima do coração de Lucilla. – Com uma atitude assim, não é nenhuma surpresa que você não tenha amigos. Você se recusa a permitir que as pessoas se aproximem. – E você quer mesmo ser minha amiga, Lucilla? Ou existe algo mais nessas perguntas? Ela empinou o queixo. – Não. Não quero ser sua amiga. Mas eu estava tentando ser educada. Achei que a vida fosse ficar mais fácil se ao menos fingíssemos gostar um do outro. Christos se aproximou dela, observou a pulsação no pescoço de Lucilla, admirando o fato de ela não ter recuado. – Estou bastante disposto a fingir, Lucilla mou. Estou totalmente intrigado com o corte desse vestido e o mistério que há por baixo. Se quiser, podemos ir embora juntos e fingir que gostamos um do outro na minha cama.


Lynn Raye Harris

HERDEIRA DESAFIADORA

Tradução Leandro Santos


Sobre a autora Lynn Raye Harris Autora bestseller do USA TODAY, Lynn Raye Harris começou a fazer sucesso quando venceu um concurso de escrita promovido pela Harlequin. O prêmio era um editor por um ano, porém, Lynn só vendeu seu primeiro livro seis meses depois. Atualmente, ela vive no Alabama com o marido e dois gatos doidos. Os romances de Lynn são classificados como “emocionantes e excepcionais”, “intensos” e “escaldantes”.

Agradeço à todas as minhas leitoras por sempre estarem do meu lado. Espero que gostem do meu primeiro herói grego. À Donna Braswell que me ajudou com as palavras e com a cultura grega, e que me convidou para o chá das Philoptochos. Qualquer erro que apareça será meu, e não da adorável Donna. Divirtam-se!


Capítulo 1

– RESOLVA ISSO já – disse Christos Giatrakos ao telefone, sua voz estava severa e muito mais sexy do que Lucilla teria gostado. Ah, como ela odiava Christos! Mesmo assim, sentada ali no escritório dele, esperando que ele terminasse de ditar suas ordens, o ventre dela se aquecia só de ouvir aquela voz. Não ajudava em nada o fato de ele parecer mais um modelo de roupa íntima do que um diretor executivo, sentado no que devia ser a cadeira dela, dificultando a vida de todos. Especialmente a dela. Ela trabalhara tanto, sacrificara tanto para ver aquele deus grego usurpando seu cargo na empresa de sua própria família. Lucilla bufou de raiva. Queria ir embora, mas não podia deixar Christos ver que tinha o poder de irritá-la. Ele a convocara por e-mail, como de costume. Então, obrigara-a a esperar enquanto dava telefonemas. Com o tablet no colo, ela olhava e-mails, fingindo não se importar. – Se não conseguir resolver, não ligue de volta. O Chatsfield tem outros fornecedores, Ron. Não hesitarei em usá-los. Christos desligou firmemente o telefone. Em seguida, ergueu o olhar, atingindo Lucilla com toda a força daqueles gélidos olhos azuis. Ela conteve seu calafrio de reação e retribuiu o olhar. – Qual é o problema com a festa de casamento dos Frost nesse fim de semana? Tudo dentro de Lucilla ferveu com o tom dele. Nenhum cumprimento educado, nenhuma pergunta razoável. Apenas uma exigência. E que a ofendera. – Não tem nenhum problema, Christos. – Ela se recusava a chamá-lo de sr. Giatrakos, embora ele insistisse que todos os funcionários o chamassem assim. Mas ela não era uma funcionária qualquer. Por direito, seria a diretora executiva daquela empresa e se recusava a agir de forma subserviente só porque seu pai escolhera aquele homem, não ela. – Fiquei sabendo que há um problema. – Então, ouviu errado. A única coisa que poderia ter sido considerada um pequeno contratempo, e não para nós, é a distribuição das cadeiras para os pais da noiva. Já cuidei disso. – E por que teria sido um problema? – Porque eles estão se divorciando, e não amistosamente. O sr. Frost vai vir com a nova namorada, muito mais jovem. Algo que ele devia ter o tato de não fazer, mas, aparentemente, não tem.


– Lucca pode ter dado o golpe do século e tornado o casamento real em Preitalle um sucesso, mas isso significa que, agora, mais do que nunca, o mundo está olhando para nós. E o casamento dos Frost tem potencial para explodir na nossa cara, Lucilla. Certifique-se de que isso não aconteça. Lucilla se levantou e tentou não parecer aturdida. Droga. Toda vez que ele dizia seu nome, um calor a percorria. E ele não a chamava de srta. Chatsfield porque ela não o chamava de sr. Giatrakos. – Venho me certificando de que as coisas não explodam já faz muito tempo. Vou continuar fazendo isso, mesmo depois de você já ter ido embora. E ele iria, no que dependesse dela. Se Antonio obtivesse sucesso na agressiva compra do Grupo Kennedy, eles poderiam provar ao pai deles que não precisavam de Christos Giatrakos. Contudo, como Antonio não fora à última reunião deles, na semana anterior, ela estava começando a se preocupar. A única coisa que a estava incomodando naquela situação era o próprio Antonio. Embora ele estivesse morando naquele hotel, ela quase não o via. E, da última vez que o vira, ele parecera... Diferente. Mais agitado. A preocupação a atingiu quando ela pensou em seu irmão mais velho, mas Lucilla a deixou de lado e se concentrou no homem diante dela. Se eles conseguissem se livrar de Christos, a vida voltaria a ser boa, com ela e Antonio no controle do império da família. – No momento, ainda estou aqui, Lucilla mou, e você cumprirá suas ordens ou enfrentará as consequências. – Você não tem controle sobre mim, Christos. Sim, você controla o império dos Chatsfield e o acesso ao meu fundo fiduciário. Mas não vai me intimidar como intimidou minha família. Ela se aproximou e pôs as palmas na mesa dele, curvando-se até que seus olhos ficassem na mesma altura dos de Christos. – Você precisa de mim aqui, fazendo o que faço todo dia, ou vai fracassar. Venho administrando este hotel há anos. Se me demitir, vai ver o que acontece. Meu pai vai mandar você embora sem um pingo de remorso quando você não conseguir fazer seja lá o que ele ache que você vá fazer. Os olhos de Christos reluziram. Ele se levantou bem devagar, e Lucilla endireitou o corpo. Mesmo de salto, ela não era tão alta quanto ele. Christos a olhou como se ela fosse um inseto. – Você já vinha querendo dizer isso há um tempo, não é? – A voz dele estava tranquila, entretida. O coração de Lucilla disparou. Sim, ela vinha se contendo, e sim, fora bom finalmente dizer o que pensava. Porém, ela já estava achando que cometera um erro. Admitira para o inimigo que se importava muito com a posição dele acima dela quando o que ela devia fazer era ficar quieta e derrubálo de dentro. Ela não podia permitir que ele ficasse sabendo do que ela convencera Antonio a fazer. O reinado de Christos Giatrakos seria curto, uma nota de rodapé na história da rede de hotéis. Sim, ela devia ter ficado de boca fechada. Mas não ficara. Agora, não restava nada a fazer a não ser prosseguir. – Vinha querendo, sim. Você pode estar feliz por ter conseguido dispersar meus irmãos em suas missões, mas não pense que vai me manipular tão facilmente. Os olhos dele a percorreram, e o ventre de Lucilla se contraiu. – Eu nem sonharia em manipular você, Lucilla. Mas, se eu fizesse isso, tenha certeza de que eu faria da maneira como quisesse. E você adoraria cada momento. O coração dela subiu para a garganta. Eles ainda estavam falando do hotel? – Você se ilude, Christos. Eu jamais adoraria nenhum momento com você.


A expressão dele mudou, tornando-se severa, fria e... Ressentida? Lucilla teve a impressão de que o magoara, mas isso não era possível. Christos Giatrakos não tinha um coração para ser ferido. – Não me importa o que você pensa de mim, Lucilla mou. Você é tão mimada e inútil quanto o resto da sua laia. Ah, sim, você brinca de trabalhar e faz até um trabalho razoável como diretora de serviços ao hóspede. Tem razão, preciso de você. Mas não se engane. Se eu precisar demitir você, demitirei. Ninguém é indispensável à administração desta empresa, Lucilla. Nem mesmo você. – Ou você. – Ou eu. E é assim que deve ser. Nenhuma companhia tão dependente dos talentos de uma única pessoa seria capaz de se recuperar se essa pessoa morresse ou fosse embora. Meu objetivo é tornar os hotéis Chatsfield os melhores do ramo de luxo novamente. Mas não espero que esta empresa não seja capaz de funcionar sem mim, nem quero isso. Essa é a diferença entre nós. Você preferiria vê-la fracassar por vingança. Eu gostaria de vê-la prosperar. – Não quero que fracassemos de forma alguma. E fico ressentida por você achar isso. – Então, cresça e aja de acordo com o que pensa. Agora, se puder sair do meu escritório, tenho trabalhos importantes a fazer. Lucilla apertou seu tablet para evitar jogá-lo na cabeça dele. – Como quiser, ó, Senhor de Tudo. – Ela deu dois passos e se virou. Ele ainda a observava. – Você não vai ficar aqui para sempre, Christos. Aproveite este escritório enquanto pode. Sorrindo, ele se sentou. E ainda teve a audácia de colocar os pés na mesa. – Estou aproveitando bastante, obrigado. Agora, seja uma boa menina e vá trabalhar. Lucilla saiu de cabeça erguida. Mas ela queria gritar. E, perversamente, queria beijar aquele desgraçado. Ela passou por Jessie, sua capaz assistente, entrando em seu escritório, muito menor, e batendo a porta antes de se atirar na cadeira e fechar os olhos, buscando calma. Por que diabos ela não conseguia encarar aquele maldito sem pensar em como seria o sabor dos lábios dele, a sensação daqueles músculos em suas mãos? Essa sempre fora sua natureza; ir para a esquerda quando queria ir para a direita. Quando diziam que ela não podia fazer alguma coisa, ela ficava determinada a provar que podia. Como administrar uma rede de hotéis. Ela passara anos provando que era a herdeira de direito ao cargo de diretor executivo, e o que seu pai fizera? Contratara um ardente grego para fazer o trabalho que ela passara a vida inteira treinando para fazer. Aos 14 anos, ela deixara de lado seus sonhos quando sua mãe fora embora e deixara Antonio e ela para serem os pais improvisados dos próprios irmãos. O pai dela fora um inútil depois da partida de Liliana. Mas ela fora uma boa menina e seguira as regras que lhe tinham sido impostas. Cumprira sua sentença e queria sua recompensa, o controle do império Chatsfield. Os hotéis estavam em seu sangue. Não estavam no de Christos. Lucilla mordeu o lábio. Ela pesquisara Christos minuciosamente quando ele chegara, mas houvera algo que ela não conseguira descobrir. Ele parecia ter surgido do nada. Não tinha família. Era grego, dizia que Atenas era sua cidade natal e só. Não havia nenhum registro da vida dele antes dos 25 anos, quando aparecera para o mundo como o homem que salvara uma antiga e venerada empresa de navegação. Ele pulara de empresa em empresa. Era bom no que fazia... E incrivelmente implacável. Mas ela não confiava nele. E, definitivamente, não gostava dele. Não conseguia acreditar que seu pai entregara o controle àquele homem a respeito do qual eles sabiam tão pouco. Gene Chatsfield entregara


as chaves do reino e voltara aos Estados Unidos para ficar com sua nova noiva, virando de cabeça para baixo o mundo de Lucilla e dos irmãos dela. Lucilla queria saber quem era Christos Giatrakos de verdade, de onde ele vinha, por que achava que podia ser tão frio e implacável. E queria que ele fosse embora. Esse era o fator decisivo. Lucilla queria que ele fosse embora, independentemente de ele ser sexy e ardente. E estava disposta a fazer quase tudo para isso. Ela pegou o telefone. Estava na hora de cobrar todos os favores que lhe deviam para conseguir informações. O CHATSFIELD estava realizando um baile de gala naquela noite no salão de festas principal. Um leilão de arte beneficente que reuniria os mais ricos da sociedade londrina. Como diretor executivo, era responsabilidade de Christos estar presente como o novo rosto da empresa. E ele estava determinado a apagar da memória do público tudo que os irmãos Chatsfield haviam feito para manchar aquele venerável nome. Sim, demoraria, mas ele mudaria o rumo da empresa. Ele franziu o cenho ao pensar em Lucilla Chatsfield em seu escritório, olhando-o fixamente, irritada. Ela não gostava dele, isso estava claro. Ele também não gostava dela. Ela era totalmente mimada, embora talvez não tão inútil quanto a maioria de seus irmãos. Contudo, ele a achava estranhamente atraente e não estava gostando disso. Por exemplo, os olhos castanhos dela tinham pequeninos pontos dourados. Por que ele sabia desse detalhe? Ele não fazia ideia. E, sempre que ela entrava no escritório dele, Christos se flagrava observando aqueles pontos dourados, imaginando se eles mudariam com a paixão. Como a ajustada Lucilla ficaria de cabelo bagunçado? Mas ele não devia reparar nela. Ela não era uma mulher classicamente bonita. Suas bochechas eram um tanto rechonchudas, e seus quadris, um tanto curvilíneos demais. Ela era séria e estava sempre de cara amarrada. Contudo, ele se flagrava imaginando como ela ficaria nua, estendida na cama dele. Um claro sinal de que ele vinha trabalhando demais e não fazendo sexo suficiente. Naquela noite, isso mudaria. Ele tinha uma acompanhante para o baile, e, mais de uma vez, ela dera a entender que estaria disponível durante toda a noite. Depois de ir à sua casa tomar banho e vestir seu smoking, Christos foi buscar Victoria em seu carro esportivo. Ela estava à espera dentro do edifício, seu cabelo loiro cacheado, o corpo envolto por algo brilhante que quase parecia de borracha. Ela saiu do prédio, e dois homens na calçada quase tropeçaram nas próprias línguas. Christos devia ter ficado extático ao vê-la, mas, por algum motivo, ele se sentiu decepcionado ao abrir a porta para ela. Ela é linda, disse a si mesmo. – Estava ansiosa por esta noite – disse Victoria, passando a mão na coxa de Christos depois que entrou novamente no carro. Ela lhe deu um beijo no rosto. A não ser pelo choque de ser tocado de forma tão franca, ele não sentiu nenhuma excitação. – Chega disso, Victoria – disparou ele. – Temos uma longa noite pela frente antes. Ela riu. – Mal posso esperar, querido. Eles logo chegaram ao hotel, e Christos percorreu o tapete vermelho com Victoria enquanto o manobrista levava seu carro. Fotógrafos estavam posicionados de ambos os lados da entrada, os flashes piscando infindáveis vezes enquanto ele avançava de braços dados com Victoria.


Eles entraram. Os funcionários estavam ocupados cuidando dos convidados, mas Christos não teve dúvida de que eles o tinham visto. Entretanto, ninguém fez nenhum movimento de cabeça pra cumprimentá-lo. Ele não esperava isso. Não era seu trabalho fazer os outros gostarem dele. Gene Chatsfield o contratara porque ele era o melhor. Não por ser o mais amistoso. O baile estava a pleno vapor quando eles entraram no salão. As paredes e teto de art déco eram uma obra de arte por si só, e era por isso que o salão era tão bom para exibições de arte. Homens de smoking e mulheres de vestidos cintilantes se socializavam, bebidas nas mãos, passando pelas vitrines e fazendo as marcações em seus catálogos. Christos circulou, apertando as mãos e falando com os convidados, sorrindo com satisfação ao receber elogios pela decoração e o atendimento. Victoria ficou grudada nele até Christos se cansar da presença dela, deixando-a com um grupo de mulheres luxuosamente vestidas, com as quais ela ficou conversando sobre estilistas. Ele continuou conversando com convidados, esperando o início do leilão. Num determinado momento, quando ele começou a ficar entediado e sua mente começou a vagar, a multidão se abriu, e um lampejo de vermelho chamou a atenção dele. Era uma mulher de cabelo escuro, de costas para ele, seu corpo envolto por um justo vestido vermelho-rubi com cintilantes cristais. Ela estava sozinha diante de uma pintura, e Christos sentiu uma repentina vontade de descobrir o que a estava cativando tanto. Ele não a conhecia, mas ela parecia solitária e isolada sob um único facho de luz. Sua cabeça estava baixa, seus ombros, curvados à frente, como o peso de algo terrivelmente triste a esmagasse. Ele se identificou com o isolamento e a solidão dela, pois sentia frequentemente as mesmas coisas. Por opção, sim, mas sentia mesmo assim. Ele precisara se isolar para sobreviver ao inferno de sua infância. Uma habilidade que ele aperfeiçoara antes dos 14 anos. Uma habilidade necessária para não enlouquecer na instituição de detenção juvenil para a qual ele fora enviado. Christos pediu licença e foi em direção à mulher. Queria saber quem ela era e o que estava na imagem que tanto a afetava. Então, ela se virou, e Christos parou, perplexo. O rosto de Lucilla Chatsfield estava marcado pela tristeza e pela dor. E ela estava completamente linda. A luz destacava a qualidade luminosa da pele dela, transformando a escuridão de seu cabelo numa nuvem castanho-avermelhada que descia por suas costas. Ela continuava sendo Lucilla, mas de um jeito como ele nunca a vira antes. A beleza dela o atingiu como um relâmpago, fazendo sua virilha se contrair. Ele queria possuí-la, apagar aquela tristeza de seus olhos, tirar aquele vestido vermelho do corpo dela e expor a clara pele que havia por baixo. Esse sentimento o irritou. Ele não tinha tempo para isso. Lucilla era um obstáculo. Ela o detestava. Desprezava-o por ter mandado seus irmãos para longe, em missões, e por ter frustrado a ambição dela. Christos pegou duas taças de champanhe na bandeja de um garçom e foi na direção dela. Ela se virara novamente para a pintura, e ele se flagrou olhando fixamente para a fartura dos quadris dela, a exuberante beleza de seu cabelo. Ela nunca o deixava solto. – Viu algo interessante? Ela se virou para ele, pondo a mão no peito. – Deus do céu, você me assustou. Ele ofereceu o champanhe. – Peço desculpas. Ela pegou a taça. Em seguida, virou-se novamente para a pintura.


– Não é linda? Christos olhou fixamente para o pequeno retrato de uma mulher. Não era uma pintura antiga, embora também não fosse recente. A mulher estava com um longo vestido, pérolas e uma estola de pele, e estava gargalhando. Ela lhe parecia familiar. Ele se virou para observar Lucilla de perfil, viu as mesmas linhas da pintura, e uma nova sensação se assentou em sua alma: raiva e até mesmo um toque de pena. Gene Chatsfield pusera um retrato de sua desaparecida ex-esposa no leilão, e Lucilla parecia triste com isso. Ninguém sabia aonde Liliana Chatsfield fora, mas, um dia, ela abandonara a família e nunca mais retornara. Como tantas pessoas, ele conhecia a história, mas, pela primeira vez, pôde ver como aquilo devia ter afetado ao menos um dos irmãos Chatsfield. Aquilo quase gerou uma ternura por ela. Uma complicação da qual ele não precisava. – É mesmo. Sua mãe, imagino. Lucilla bebeu um gole do champanhe, e Christos viu que os dedos dela tremiam. – Sim. – Está incomodada por esta pintura estar no leilão? Ela fungou. Não olhou para ele. – Claro que não. É por uma boa causa, e meu pai tem razão por querer se livrar dela. Graham Laurent a pintou antes de ser famoso. Então, vai conseguir um alto preço só por isso. Obviamente, meu pai sabe. E Gene Chatsfield se casaria novamente. Por isso, sua futura noiva não devia querer que ele tivesse um retrato da antiga esposa. Entretanto, Christos não entendia por que ele não o dera de presente para um dos filhos. – Você pode comprar. Ela se virou para olhá-lo novamente, e Christos sentiu o poder daquele olhar. Os pontos dourados dentro dos olhos dela reluziram com a luz que vinha de cima. – Ah, não. Não seria de bom-tom. Ele não entendia aquela lógica, mas não era da sua conta. Se ela não queria comprá-lo, o que ele tinha com isso? – Como quiser, Lucilla mou. – Ele não sabia por que a chamava de minha Lucilla, mas, na primeira vez em que o fizera, ela parecera incomodada. Então, ele continuara, pois gostava de irritá-la. Não fora sua intenção irritá-la agora, mas, claro, ela não tinha como saber disso. Ela semicerrou os olhos. – Você não tem de coletar almas em outro lugar? Christos não conseguiu deixar de gargalhar. Lucilla tentou franzir o cenho, mas acabou sorrindo, embora mordesse o lábio para se conter. Ele desejou que ela se soltasse, pois tinha certeza de que um sorriso transformaria o rosto dela. – Já atingi minha cota de almas por hoje, infelizmente. – Amanhã é um novo dia. Tenho certeza de que você vai encontrar vidas para destruir já pela manhã. Ele estava estranhamente entretido. Ela era ácida e afiada, e ele não estava nem um pouco acostumado com isso numa mulher. Era uma novidade, e ele estava gostando mais do que deveria. Christos nunca se importava se gostavam dele ou não. Empresas o contratavam para trabalhos difíceis, tomar decisões que ninguém mais queria tomar.


Ele também não se importava se aquela mulher gostava dele... Mas se flagrou torcendo para que ela ainda não se afastasse. – Está na minha agenda – disse ele. – Claro. – Lucilla inspirou fundo e deu as costas à pintura. – Fale de você, Christos. Onde você foi criado? O que gostava de fazer quando criança? As perguntas dela o atingiram como um soco no estômago. Ele nunca falava de sua infância. Era doloroso demais. Sombrio e nauseante. Em comparação com a dela, mesmo com uma mãe ausente, a dele fora o inferno na Terra. – Cresci na Grécia. Tive uma vida feliz, estudei e fui trabalhar. O que mais tem para saber? – As mentiras fluíam facilmente de sua língua ultimamente. Afinal, ele tivera anos para treinar. – Em que lugar da Grécia? Perto do mar? No interior? O gelo se formou dentro dele. Christos não gostava de pessoas enxeridas. – Todos os lugares da Grécia ficam perto do mar. – É uma resposta vaga. Ele deu de ombros. – Não somos amigos, Lucilla. Não faz sentido ficarmos de conversa fiada. Você não liga para a minha infância, e eu não ligo para a sua. Você liga para o que estou fazendo com a sua preciosa empresa, e eu ligo para devolver a glória ao nome Chatsfield. Não estamos em lados opostos, por mais que você queira enxergar desse jeito. E não precisamos nos envolver numa conversa educada para fingir que gostamos um do outro. Os olhos dela haviam se semicerrado. Sua cor estava forte. O rubor acima dos seios dela era intrigante. Christos quis baixar o vestido dela e colocar sua boca logo acima do coração de Lucilla. – Com uma atitude assim, não é nenhuma surpresa que você não tenha amigos. Você se recusa a permitir que as pessoas se aproximem. – E você quer mesmo ser minha amiga, Lucilla? Ou existe algo mais nessas perguntas? Ela empinou o queixo. – Não. Não quero ser sua amiga. Mas eu estava tentando ser educada. Achei que a vida fosse ficar mais fácil se ao menos fingíssemos gostar um do outro. Ele se aproximou dela, observou a pulsação no pescoço dela, admirando o fato de ela não ter recuado. – Estou bastante disposto a fingir, Lucilla mou. Estou totalmente intrigado com o corte desse vestido e o mistério do que há por baixo. Se quiser, podemos ir embora juntos e fingir que gostamos um do outro na minha cama. Os olhos dela se arregalaram. Suas faces se avermelharam mais do que nunca. Então, ela pareceu completamente furiosa, como se ele a tivesse enganado de alguma forma. Christos não teve tempo de entender, pois ela pôs o dedo no peito dele. – Isso não tem graça, Christos. – Não estou tentando ser engraçado. Ela o cutucou novamente, com mais força. – Vi você chegar e sei com quem você está. Não me ofenda fingindo que me acha mais atraente do que a sua namorada supermodelo. – Ela endireitou os ombros. – Não estou tão desesperada e nem sou tão burra assim. E estou ofendida por você achar isso.


Capítulo 2

O CORAÇÃO de Lucilla estava em disparada enquanto ela olhava para os gélidos olhos azuis de Christos. Ela sabia que estava corada e que o tom de seu vestido não melhorava em nada as coisas. Por que ela fora escolher vermelho? Porque sabia que ele estaria ali. Não, não fora só isso. Ela escolhera o vestido mais sexy e ousado que tinha, pois gostava de se sentir bonita, não porque Christos Giatrakos estaria presente com mais outra modelo. Desde que ele chegara à empresa, fora visto nos diversos eventos deles com lindas mulheres; na realidade, uma diferente a cada vez. Agora, ele estava zombando dela. Provocando-a com a ideia de eles ficarem juntos, os membros entrelaçados, a pele ardente, quando Lucilla sabia que aquela era a última coisa em que ele pensaria. O objetivo dele era deixá-la perplexa... Malditos fossem aqueles hormônios dela... Mas ela se recusou a permitir que ele visse que estava dando certo. Ela empinou o queixo e olhou com irritação. Christos sorriu arrogantemente. Então, seu olhar desceu pelo pescoço dela, pelo peito... A pele de Lucilla ardia em todos os lugares tocados pelos olhos dele, como se fossem as mãos de Christos deslizando por seu corpo. – Garanto que estou falando muito sério, Lucilla mou. Se quiser me testar, pegue minha mão e venha comigo. Ela fechou sua mão livre para impedir a si mesma de fazer aquilo. Não que ela quisesse ficar nua com Christos, mas ela estava muito tentada a expor o blefe dele. Porque ele a estava provocando. Não estava falando sério, e os dois sabiam disso. E Lucilla adoraria obrigá-lo a admitir isso. – Essa é a sua famosa técnica de sedução? Deixa muito a desejar em sutileza. É bastante amadora. – Você só prova que tenho razão com a sua recusa. Você é covarde, Lucilla. É por isso que não pode administrar os hotéis Chatsfield. Não está disposta a arriscar. Uma nova onda de raiva a atingiu. – Isso não vai adiantar. Conheço sua estratégia, Christos. Você quer me induzir a fazer algo idiota. Seu maior prazer seria me fazer parecer uma idiota. – Você já faz isso muito bem por conta própria.


– Como ousa?! – Ouso porque você não ousa. Porque tem medo, Lucilla. Uma menininha mimada que não consegue fazer escolhas difíceis na vida. Sempre vou superar você. – Odeio você – sussurrou ela, o coração em disparada. – Estou ciente disso. E tenho certeza de que posso fazer essa chama entre nós arder ainda mais. – Não existe chama nenhuma. Você está delirando. – Contudo, o corpo dela estava sendo devorado pela empolgação, pela raiva e por uma potentíssima vontade de beijar aquele homem, para ver se ela se incineraria com aquele toque. Como essa fraqueza surgira? Num minuto, ela estava olhando o retrato de sua mãe. No seguinte, ele estava ali, e ela estava em chamas por dentro. Lucilla disse a si mesma que isso se devia à sua tristeza, sua vulnerabilidade. Somente assim Christos conseguiria afetá-la. Ele acabou com a distância entre eles. – Está na hora de parar de mentir para si mesma. Você sente o mesmo que eu. Sentiu desde o primeiro momento, como eu. Vamos arder juntos, Lucilla, e acabar logo com essa inconveniente atração. Vamos trabalhar muito melhor juntos quando isso for resolvido. Ela não conseguia respirar, latejava com a proximidade dele. Foi a gota d’água para Lucilla. Ela recuou e inspirou fundo. – Sinto muito, Christos, mas acho que você entendeu tudo errado. Não existe nenhuma atração, ao menos não da minha parte. Não suporto você e, sem dúvida, não quero você. Agora, se me der licença, tenho um evento para supervisionar. – Nós dois sabemos que não é verdade. – Você não sabe nada sobre mim. – Fuja, Lucilla. Mas isso ainda não terminou. Ela inspirou fundo, irritada. – Tenho certeza de que terminou. Boa noite, Christos. Lucilla deu meia-volta e foi embora, fundindo-se à multidão. Estava tremendo por dentro, e isso a enfurecia. Por que ela permitia que ele a abalasse? Fazia semanas que ela vinha sendo fria e profissional, conseguindo ignorá-lo, desprezá-lo. Agora, porém, ela perdera sua frieza. Finalmente explodira, e todas as emoções fervilhantes que ela vinha tentando tanto esconder haviam transbordado sobre a represa que ela construíra para contê-las. Mas ela conseguiria se controlar. Tinha um plano, e esse plano exigia que ela continuasse agindo como sempre. Christos iria embora antes do fim do verão, quando ela concluísse seu plano. Ela só precisava se manter forte e focada. Lucilla entrou no banheiro feminino para alisar seu cabelo e retocar a maquiagem. Ela recuou e se analisou no espelho. Não era feia. Mas também não era alta e nem tinha pernas longas, nem magra a ponto de ficar bem com qualquer tipo de roupa. Tinha curvas e suas faces eram rechonchudas demais. Também era baixinha, apesar de parecer alta com seus saltos. Seus olhos eram castanhos, assim como seu cabelo, e seu sorriso era largo demais. No entanto, tinha seios fabulosos. Lucilla os admirou no espelho. Sim, sem dúvida, os homens os desejavam. Talvez Christos também os desejasse, embora parecesse muito mais provável que ele estivesse brincando com ela. Querendo que ela admitisse que o desejava, para que ele pudesse rejeitá-la e provar sua superioridade. Isso não aconteceria.


Lucilla retornou ao salão de festas. No transcorrer, ela sorriu e conversou com os convidados, tentando tirar Christos de seus pensamentos. Não foi fácil, já que ela conseguia sentir a presença dele. Sabia que ele estava observando, talvez esperando um erro dela. De tempos em tempos, ela o vislumbrava, entretendo a todos, no centro de um grupo, a alta loira com o justíssimo vestido grudada a seu lado. Numa das vezes, ele a flagrou olhando, e Lucilla se forçou a não desviar o olhar. Eles se entreolharam durante vários momentos antes de a mulher ao lado dele perceber que a atenção de Christos não estava mais fixa nela. Ela sussurrou algo no ouvido dele, e Christos voltou seu perfeito sorriso para ela. Lucilla se sentiu quase abandonada sem o olhar dele, como se ele a tivesse rejeitado. Totalmente ridículo. Ela não levara nenhum acompanhante. Ela não saía com ninguém já fazia meses, pois estivera tão focada no império hoteleiro e não tivera tempo, mas Lucilla decidiu que a primeira coisa que faria no dia seguinte seria se expor novamente ao mundo dos encontros. Era ridículo se dedicar tanto ao trabalho a ponto de deixar de ter uma vida pessoal. Se ela não estivesse tão solitária e necessitada de uma companhia, Christos não teria conseguido abalá-la. E ele a abalara. Lucilla admitia isso. Ele era alto, pecaminosamente sexy e fazia o sangue dela vibrar. Ela detestava o fato de se sentir atraída por um idiota como ele, mas seu corpo não parecia saber que ele era venenoso. Quando o leilão começou, Lucilla ficou por perto no início, para ter certeza de que tudo transcorreria sem problemas. Em seguida, ela se recolheu a seu escritório, dando instruções a Jessie para procurá-la se algo desse errado. Ela não queria ficar lá para ver o leilão do retrato de sua mãe. Lucilla não sabia por que isso a incomodava; Liliana Chatsfield não vira problema em abandonar seus filhos e seu marido, deixando a criação da família por conta de seus dois filhos mais velhos. Sendo assim, por que diabos Lucilla devia se importar com o retrato dela? Era apenas nostalgia. Ela se sentou à mesa e analisou as reservas e relatórios da semana seguinte. Quando a porta se abriu, ela ergueu o olhar, esperando ver Jessie. Em vez disso, o estômago de Lucilla desabou para os pés, sua pulsação disparando quando viu Christos, friamente lindo de smoking. – Sim? – disse ela da forma mais inexpressiva possível. Ele entrou e fechou a porta, fazendo o coração de Lucilla acelerar ainda mais. – Você foi embora de um jeito bem abrupto. Está tudo bem? – Por que não estaria? – Quem sabe é você. Ela suspirou. – Foi um longo dia, Christos. Estou cansada e tenho muito trabalho a fazer. Não fico até o fim de todos os eventos. Jessie sabe onde me encontrar se precisar. – Você está chateada comigo. Ela revirou os olhos. – Por mais difícil que seja acreditar, nem tudo tem a ver com você. Não gosto de você e não passo o tempo todo pensando em você. – Bem, ela pensava, mas a maior parte era em como se livrar dele. – Esqueci tudo assim que comecei a conversar com o diretor do leilão. Não era verdade, mas ele não precisava saber disso.


Ele se acomodou na cadeira diante da mesa dela. – Ótimo, Lucilla mou. Porque temos coisas sobre as quais conversar. Ela tentou não sentir um calafrio com a maneira como ele dissera o nome dela, mas era impossível. Maldito fosse aquele homem por fazê-la pensar em sexo! – Queria que você não me chamasse assim. Não faço ideia do que significa, mas me irrita. O sorriso dele foi sexy demais para ela. – Eu sei. É por isso que chamo. Significa “minha Lucilla”. O estômago dela se contraiu. – Definitivamente, não sou sua Lucilla. Não sou a Lucilla de ninguém. Ela quase mordeu a língua por ter admitido aquela última parte. – Uma pena. Você devia ser a Lucilla de alguém. Devia ser levada para a cama com frequência, gritar o nome do seu amante muitas vezes por noite. A garganta dela ficou apertada. – Você não devia falar assim comigo. Não é adequado. – Não? Mais de uma vez, você já me informou que não trabalha para mim, que você é uma Chatsfield e que esses hotéis são seus por direito de nascença. Por que não é adequado eu agir assim? Ela cerrou os dentes e tentou ignorar a pulsação dentro de si. – Meu pai contratou você e lhe deu o controle do fundo fiduciário da família Chatsfield. Eu diria que isso é incentivo suficiente para que eu precise fazer o que você manda. E isso torna esta conversa inadequada. – E eu achando que estávamos finalmente sendo verdadeiros um com o outro. – Sobre o que queria conversar comigo, Christos? Se não forem negócios, por favor, vá embora. Ele riu. – Sem dúvida, são negócios, Lucilla mou. Mas não consigo evitar provocar você agora que sei que não é imune ao meu charme. – Ah, pelo amor de Deus... Você não tem charme nenhum! Isso não tem nada a ver com você ou com seu charme inexistente. Tem a ver com negócios e com o que é melhor para os hotéis. Então, pare de me irritar e ande logo. Ele se curvou à frente, apoiando os cotovelos na mesa dela. – Depois da reunião dos acionistas em agosto, planejo percorrer diversas localidades dos Chatsfield. Você irá me acompanhar. Lucilla piscou. – Eu? Por quê? Você não tem uma assistente para isso? – Se quiser administrar essa empresa um dia, sugiro que faça o que mando. Ela rosnou. – Às vezes, é mais fácil atrair moscas com mel, sabia? – Ela apertou uma tecla no computador, ignorando-o deliberadamente. – E talvez eu tenha decidido que não quero a empresa afinal. Talvez eu abra minha própria empresa. – Você pode tentar. Ou pode vir comigo e ajudar a corrigir o que há de errado. Ela piscou os olhos. O tom dele não mudara, mas, agora, Christos a olhava com expectativa. Como se soubesse exatamente qual seria a resposta dela. E, maldito fosse, ele sabia mesmo. Mas ela não facilitaria para ele. – Você não pode estar querendo que eu ajude você de verdade. Sou mimada e inútil, lembra?


– É mesmo. Mesmo assim, estou satisfeito com o evento desta noite e com a maneira como as coisas têm acontecido no seu escritório. É hora de provar seu valor ou sair do meu caminho, Lucilla. – Aguento tudo que você inventar para mim, meu amor. – Meu amor? – Irritante, não é? – Ela deu de ombros. – Decidi começar a revidar. Se eu sou sua Lucilla, você pode ser meu amor. Ele arqueou uma sobrancelha, e Lucilla teve a impressão de que despertara um tigre adormecido. Talvez ela não devesse provocá-lo, mas, Deus do céu, como ele merecia! – Estou ansioso pelo inevitável embate, Lucilla. Você não faz ideia de quanto. – Porque gosta de discórdia em seu ambiente de trabalho? Bom, eu não gosto. Mas também não vou ser intimidada. Então, prepare-se, meu amor, porque não vou recuar. Christos se levantou e a olhou bem do alto. Como Lucilla não gostava quando ele assomava acima dela, ela também ficou de pé. Eles se encararam por cima da mesa. Ela sentiu seu corpo como se fosse de borracha. Não havia como negar que Christos Giatrakos era poderoso e pecaminosamente atraente. Se ao menos não fosse um idiota arrogante... – Sinto que precisamos selar esse acordo de alguma forma – murmurou ele, e Lucilla sentiu um frio na barriga. Ela contornou a mesa e estendeu a mão. Não se acovardaria. – Creio que isso seja feito normalmente com um aperto de mãos. – De fato. – A mão dele envolveu a dela, e Lucilla tentou não arfar, não estremecer, não ter nenhuma reação que mostrasse como o que ela estava sentindo era intenso. Mas ele puxou levemente a mão dela, e Lucilla avançou até os corpos deles se tocarem. O braço dele a envolveu. A outra mão levantou o queixo dela. Seus olhos observaram os dela. Ela não tinha ideia do que poderia dizer. – Acho que isso exige algo mais pessoal – murmurou ele. Então, sua boca desceu sobre a dela, suave, doce, os lábios deslizando sobre os dela, provocando, tentando. O coração de Lucilla disparou. Ela se agarrou nas lapelas dele, fechando os olhos enquanto ele a atormentava com aquela gloriosa boca. A língua deslizou pelos lábios dela, e Lucilla arfou. As línguas se entrelaçaram, e o corpo dela se derreteu. Ah, ela não sentia aquilo fazia tanto tempo... Talvez nunca tivesse sentido. Beijar Christos era como uma revelação. E, apesar do desgosto que ela sentia por ele, isso só parecia tornar o beijo ainda mais excitante. Ele levantou o queixo dela, atacando sua boca de forma um pouco mais urgente do que antes. Sua língua era habilidosíssima. Como ela queria mais daquela fusão de bocas! Mas era Christos. Christos! O homem que o pai dela escolhera para fazer o trabalho que ela deveria fazer. O homem que se considerava acima dela, que não demonstrava nenhum remorso ou misericórdia ao tratar os outros. Ele enviara Lucca ao Mediterrâneo, Cara a Vegas, Franco à Austrália. Contratara Antonio como diretor de estratégia, mas Antonio aceitara o cargo apenas porque Lucilla lhe implorara, para que eles pudessem trabalhar juntos e derrubar Christos. Com Orsino fora de ação na França e Nicolo enfurnado na Mansão Chatsfield com a assistente de Christos, que ele enviara até lá para garantir a presença de


Nicolo na próxima reunião dos acionistas, Christos era como uma grande aranha, parada no centro de sua teia, laçando tudo que almejava. Os dedos de Lucilla apertaram as lapelas dele. Ela tinha uma escolha. Podia dar um fim àquela loucura ou podia usar aquele momento entre eles. Ela nunca fora uma sedutora... Mas poderia ser. Poderia usar aquela chama, aquele desejo, e venceria Christos no próprio jogo dele. Ela pressionou seu corpo ao dele, embora, de certa forma, ficasse aterrorizada por fazer isso. A pegada dele ficou mais forte, as mãos envolvendo os quadris dela, puxando-a para ele e... Uau! Ele estava excitado. Não havia como se confundir. De certa forma, ela pensara que ele estivesse fingindo aquele desejo. Um calor líquido inundou o sexo dela quando Christos moveu seu corpo contra o dela, desencadeando deliciosas sensações. Ela permitiu que suas mãos deslizassem pelo peito dele, entrando pelo paletó... Houve uma batida à porta, e ela se abriu antes de Lucilla se dar conta do que uma intrusão como aquela significaria. – Ah! Desculpem! A porta se fechou novamente, e Lucilla se desvencilhou da pegada de Christos. As faces dela coraram. Ela fora flagrada nos braços do chefe. Por Jessie. Porque era assim que todos enxergavam Christos ali, mesmo que ela não enxergasse. Fúria e vergonha ferveram dentro dela. Ela tivera tanta certeza de que sabia o que estava fazendo. O que estivera pensando?! Ela não era nenhuma sedutora e não tinha a menor ideia do que faria com Christos se dormisse com ele. Como isso a ajudaria? Claramente, ela enlouquecera no instante em que ele a beijara. Agora, Jessie sabia. Quem mais ficaria sabendo até o final da semana? Christos parecia totalmente recomposto, enquanto Lucilla achava que jamais recuperaria a compostura. – Parece que fomos interrompidos. E bem na hora. – Não sei o que quer dizer com isso. – Ela contornou a mesa, deixando-a entre eles, como se pudesse protegê-la. – Nada aconteceria. – Não minta para si mesma. Queríamos a mesma coisa, Lucilla. E teria acontecido em cima da sua mesa com mais cinco minutos. – Você está totalmente delirante. Deixei você me beijar. Isso não significou nada. – Diga isso a si mesma se isso ajudar você a dormir mais tranquila. Mas você sabe muito bem aonde aquele beijo levaria. – Se me der licença, creio que Jessie precisa falar algo comigo. – Claro. – Ele já estava quase na porta quando se virou e a olhou ardentemente. – Como eu disse, isso ainda não terminou. Aliás, diria que apenas começou. Christos saiu pela porta. Uma perplexa e ruborizada Jessie entrou às pressas no escritório, de olhos arregalados. Prudentemente, ela não disse nada sobre Christos. Lucilla se sentou e tentou parecer fria. – Algum desastre? – A não ser o de permitir que Christos a beijasse, claro. – Nada disso. Você me pediu para avisar quem comprasse o retrato da sua mãe. Ela quase esquecera. – Sim, claro.


– Infelizmente, o lance foi dado anonimamente, pelo telefone. Mas foi vendido por cem mil libras. Lucilla tentou ignorar a pontada em seu coração. Ela jamais poderia pagar tanto. – Obrigada, Jessie. Vou ficar um tempo aqui. Avise se precisar de mim. – Sim, srta. Chatsfield – disse Jessie antes de sair. Lucilla fechou os olhos e se recostou na cadeira. Ainda sentia o toque de Christos em sua pele, o desejo bem dentro de si. Ela estremeceu. Em seguida, abriu o e-mail e se pôs a trabalhar. Christos precisava ir embora. E logo.


Capítulo 3

CHRISTOS ESTAVA de mau humor. Ele estava sentado à sua mesa, olhando seriamente para os relatórios mais recentes. Ah, os relatórios estavam ótimos. Havia progresso em todas as frentes. Lucca não estava chamando a atenção, Cara estava conseguindo escapar do caos midiático criado em Las Vegas com o notório Aidan Kelly, e Franco estava avançando com os Vinhos Purman. Não apenas isso, mas Sophie progredira com Nicolo, e ele estaria na reunião dos acionistas na semana seguinte. Orsino ainda não estava atendendo os telefonemas de Christos, mas Christos achava que era apenas questão de tempo. Os irmãos Chatsfield estavam entrando na linha. O maior problema dele, porém, era Lucilla. Ele não conseguia esquecer aquele beijo na noite do leilão, duas semanas antes. A maneira como ela se derretera nos braços dele, seu corpo se curvando para o dele numa promessa de doçura... Ele a desejara desesperadamente. E ela também o desejara, ele tinha certeza disso. Então, Jessie aparecera. Durante duas semanas, Lucilla o evitara. Eles se viam nas reuniões matinais dos funcionários. Ela lhe entregava relatórios. Mas não ia ao escritório dele... E Christos não mandava chamá-la. Fazia isso para provar tanto a si mesmo quanto a Lucilla que ele não ficara abalado com o que acontecera. Sim, ela o excitara, ele a desejara. Mas não precisava dela. Mulheres eram intercambiáveis para ele. Só precisava de um corpo quente em sua cama para algumas horas de paixão, nada mais. Mas, droga, ele não conseguia parar de pensar na boca de Lucilla, na língua dela deslizando junto à dele, aquele corpo tão flexível e quente... O formigamento na espinha dele não era um bom sinal. Christos foi até a janela. Precisava de uma mulher. Qualquer mulher. Isso aliviaria sua tensão e o faria voltar a pensar com clareza. Ele podia ligar para Victoria. Ela era uma empolgada amante, mesmo que não o deixasse excitado. Sim, ele a levara de volta ao apartamento dela na noite após o beijo interrompido com Lucilla e permitira que ela o despisse. Esgotara sua paixão dentro do corpo dela, mas se sentira vagamente enojado consigo mesmo ao fim de tudo. Tudo que ele sabia era que Lucilla avivava o sangue dele por desprezá-lo tão claramente. Ele estava intrigado. Ninguém o enfrentava como Lucilla. Ninguém o desafiava em tantos aspectos. Ele descobriu que gostava daquilo.


Ele era um homem que conseguia tudo que queria. E, naquele momento, queria Lucilla Chatsfield. Ele a queria debaixo dele, dizendo seu nome com prazer, não desprezo. Era perigoso querer algo assim. Contudo, ele era impelido por uma necessidade que remontava à sua deplorável infância. Não fora ninguém, nada, uma mancha indesejada na vida suja da qual ele viera. Ele saíra da lama com muito esforço e jurara ter tudo que sempre lhe fora negado. Não fora criado com ouro, diamantes e muita comida. Precisara lutar para sobreviver, atacar para evitar ser morto. Lucilla Chatsfield, por sua vez, crescera dentro da Mansão Chatsfield, onde tivera criados, dinheiro, toda a comida do mundo e os melhores estudos. Lucilla jamais seria deselegante. Jamais seria uma criança com um terrível passado. Jamais se sentiria excluída. Ele sabia o que significava ser todas aquelas coisa, embora as tivesse deixado para trás. Conquistara fama, fortuna e todas as mulheres que queria. Mas havia algo em Lucilla Chatsfield... Ah, sim, ela o fazia se recordar de suas raízes, e Christos não gostava disso. Ela o fazia se sentir indigno, e ele trabalhara duro para banir essa sensação. Passara muito tempo sem sentir assim, até Lucilla o olhar com superioridade, dizendo-lhe para voltar para o buraco de onde saíra. Ele só não entendia por que ela o fazia sentir aquilo, pois, sem dúvida, ela não fora a primeira a lhe dizer algo assim. E não seria a última. Christos suspirou. Só havia uma solução, uma maneira de relegá-la a seu devido lugar no universo dele. LUCILLA ESTAVA de pé na cozinha, provando as seleções que o chef sugerira quando Christos entrou. O coração dela palpitou, mas ela continuou a levar a colher aos lábios, mordiscando os aperitivos de queijo de cabra e azeite de trufa que Henri criara. – Excelente – disse ela depois de engolir. – Senhor? – falou Henri, virando-se para Christos com uma colher para prova. – Certamente. – Ele pegou a colher e pôs a comida na boca, e Lucilla se flagrou fascinada com sua maneira de mastigar. Lentamente, como se percebesse cada sabor. Quando ele finalmente engoliu, ela quis se abanar. – Excelente de fato – disse ele ao chef, que ficou radiante. Henri pediu licença depois de passar mais alguns momentos discutindo comida, e Lucilla se flagrou a sós com Christos... Ou ao menos o mais a sós possível dentro de uma caótica cozinha. Ela não passara nenhum tempo com ele desde aquela noite, quase duas semanas antes, quando quase perdera todo o bom senso por causa de um beijo ilícito. Frustrantemente, ela ainda não tinha nenhuma informação que pudesse usar para ejetá-lo dos hotéis Chatsfield. Mas ainda faltava receber contatos de algumas pessoas. E também havia o último e-mail que ela recebera de Sara Norrington, a detetive particular que Lucilla contratara para investigar Christos. Sara dissera que encontrara algo, mas se recusara a dizer o que era até conseguir algo concreto. Um pequeno tentáculo de culpa envolveu o coração de Lucilla, mas ela o ignorou. Culpa por quê? Ela não o mutilaria, pelo amor de Deus! Só queria que ele pedisse demissão e seguisse para a próxima empresa. Lucilla o olhou friamente. Ele fazia tudo dentro dela borbulhar. Maldito. – Precisa de algo de mim? Uma das sobrancelhas dele se ergueu, e o calor a percorreu.


Lucilla esperou que Christos comentasse a pergunta de duplo sentido, mas ele não o fez. Em vez disso, falou de forma imperiosa, como se sua língua nunca tivesse estado dentro da boca de Lucilla, as mãos, em seu corpo. – Só para lembrar você da reunião dos acionistas na semana que vem. E de que vamos partir imediatamente depois. Era como se o beijo nunca tivesse acontecido. Por algum motivo, isso a irritou. Naquela noite, ele fora embora como chegara: com a supermodelo agarrada em seu braço. Rindo dela, sem dúvida, por ter ficado tão desesperada quando Jessie os flagrara. – Sei disso. – Mas não se deu ao trabalho de responder meu e-mail. – O que havia para responder? Você enviou um itinerário detalhado. Não achei que eu tivesse de bater continência. – Mesmo assim, uma resposta afirmativa é esperada. Se eu partisse do princípio de que todos os meus memorandos são recebidos e aceitasse sem confirmação, eu não seria um bom executivo, seria? – Sendo assim, vou pedir para Jessie responder imediatamente. – Por favor. – Você poderia ter simplesmente telefonado – disse ela quando ele se virou de costas. Como ele ousava aparecer, colocá-la naquela situação e ir embora como se nada o perturbasse? Ele se virou novamente. – Você não atendeu. Não achei que atenderia se eu ligasse de novo. – Ando ocupada. – Eu também. O que torna este encontro muito inconveniente, eu lhe garanto. – Então, por que não pegou o telefone para ligar para o meu escritório? Ou, melhor ainda, por que não pediu para sua assistente ligar para a minha? Você não precisava incomodar seu dia excruciantemente ocupado para vir me procurar. Ele olhou por cima do ombro dela. – Parece que estamos chamando atenção, srta. Chatsfield. Poderíamos continuar essa discussão no meu escritório? Ela engoliu em seco. Se ela recusasse, passaria a impressão de ser fraca para todos que estivessem observando. Se aceitasse, ficaria a sós com Christos. Lucilla não queria ficar a sós com ele. Não por não confiar em si mesma, mas por ser humilhante. Ela passara as últimas duas semanas pensando no corpo dele junto ao dela, os braços a envolvendo. Claramente, ele não fora atormentado por pensamentos assim. Mesmo assim, só havia uma opção. Aquele era o hotel dela, droga! Seu direito por nascença! – Claro – respondeu Lucilla, passando por ele para que ele precisasse segui-la para fora da cozinha. Ela desceu às pressas pelos corredores, ciente dos olhos que os acompanhavam. Ela não fazia ideia se Jessie contara o que vira naquela noite do baile, mas Lucilla estava sempre ciente da possibilidade. Jessie era uma boa assistente, mas era necessário apenas um comentário para que tudo explodisse. Lucilla passou pela assistente de Christos, Sophie, que acabara de voltar de sua ida à Mansão Chatsfield, e entrou no escritório dele, virando-se quando ouviu a porta se fechar. Sua pulsação disparou. – Gostaria que você não me desafiasse na frente dos funcionários – disparou ele antes que ela pudesse falar. – É um mau precedente.


– Então, não entre no meu território para me censurar na frente dos meus funcionários. Não vou tolerar isso. – Já esqueceu quem está no comando aqui, srta. Chatsfield? Senhorita Chatsfield. Ele já a chamara duas vezes assim, mesmo que nunca tivesse feito isso antes. Por algum motivo, aquilo a incomodava. Não que ela sentisse falta de ser chamada de Lucilla, mas... Argh! O que havia de errado com ela? – Você não está no meu comando, Christos. Respeito o fato de que meu pai contratou você e até o de você acreditar que está fazendo um bom trabalho, mas não vou ser censurada na frente dos funcionários e não vou ficar quieta quando você me irritar. Você não é um deus, e este não é seu domínio pessoal. Ele riu. – Você me diverte, Lucilla. Tanto. Se fosse qualquer outra pessoa, eu teria mandado você embora no primeiro dia. O prazer a dominou quando ele usou o nome dela. Em seguida, a raiva, pois ela não ficaria lisonjeada por ele ter dito que ela o divertia. A arrogância dele era insuportável. – Podia ter tentado. Não teria conseguido. – Ah, não sei. Eu podia pedir que trocassem as fechaduras. Como você entraria no seu escritório assim? – Eu daria um jeito. O olhar dele a percorreu. Lucilla estava com um vestido abotoado de mangas compridas e gola alta, mas Christos a fez se sentir como se estivesse de camisola. – Sim, talvez desse. – Algo mais que queira discutir? Tenho trabalho a fazer. Ele enfiou as mãos nos bolsos e se aproximou. O coração dela acelerou. Ele estava de terno cinza, com uma camisa branca que estava com alguns botões abertos. Christos raramente usava gravata. E isso era irritante, pois Lucilla se flagrava frequentemente se concentrando naquela estreita faixa de pele revelada pela abertura na camisa. – Fico me perguntando se você já pensou nisso tudo. A garganta dela secou. – Tudo? – Você. Eu. Uma cama. Ou uma mesa. Não me importa. Lucilla sentia que devia soltar um grito chocado. Porém, tudo que parecia estar acontecendo era uma enchente de umidade em seu centro. Seus mamilos se contraíram. Instintivamente, ela abraçou seu tablet. – Não pensei nada disso. Uma mentira, claro. Ela pensara em poucas coisas além disso, especialmente à noite, quando ia para a cama sozinha. – Não acredito em você, Lucilla mou. E lá estava ele novamente, aquele irritante rubor de prazer que vinha quando ele a chamava pelo nome. Droga. – Acredite no que quiser, Christos. Tem algo importante a dizer, ou posso voltar ao trabalho? – Ah, mas isso é muito importante. – Ele se aproximou ainda mais, até que seu perfume envolvesse os sentidos dela. Lucilla estremeceu com a proximidade dele, mas não recuou.


– Isso é assédio. Posso dar queixa de você. Levemente, ele pegou o tablet e o deixou de lado, revelando os mamilos eretos sob o tecido de seda. Então, seu olhar se fixou no dela. – E o que você diria? Que deixo você excitada? Que quer sentir meu corpo dentro do seu? – Isso pode até ser verdade. Mas é impossível. Foi a vez de Christos engolir em seco. Sua voz estava rouca quando ele falou. – Não precisa ser impossível. É sexo, Lucilla. Sexo incrível e ardente. Ela acreditava nele. Deus, como acreditava! E queria tanto aquilo, mesmo sabendo que não deveria! – Não gosto de você. – Ela fechou os olhos e balançou a cabeça. – Eu não devia querer isso. Não devia querer você. – Mas quer. – Não importa. Não vai acontecer. – Por quê? Somos adultos, não? – Você sabe o motivo. – Infelizmente, não. Ela abriu os braços. – Porque seria como se eu estivesse desistindo! – Do que, Lucilla? Da solidão? De uma cama vazia? – Quem disse que minha cama está vazia? Faço muito sexo, fique sabendo. O tempo todo. Igual a você e aquela... Aquele gravetinho de mulher. Ele pareceu confuso. Então, a compreensão finalmente chegou. – Ah, está falando de Victoria. Está com ciúme, doce Lucilla? Ela bufou. – Claro que não. Que motivo tenho para ter ciúme? Só porque uma pessoa pode usar um vestido de látex, isso não quer dizer que ela deva usar. Ele riu. – Gosto do seu ciúme. Significa que se importa. Ela teve vontade de dar um cascudo nele. E envolvê-lo com os braços e beijá-lo. – Eu não me importo! Desprezo você! Você é um homem vil, podre e maligno, que tem um sorriso sexy e um corpo gostoso, e não tem a menor importância o fato de eu querer fazer sexo várias vezes com você e... Ela parou quando se deu conta do que estava dizendo. – Várias vezes. Gostei disso. – Falei demais. Ele a puxou para seus braços, e Lucilla fechou os punhos nas lapelas dele... Sem saber se devia puxálo para perto ou empurrá-lo. – Lucilla – murmurou ele, os lábios junto à orelha dela. – Você me deixa louco. – Ah – disse ela quando a boca dele percorreu seu pescoço. – Ah, não faça isso. – Por que não? Porque era bom demais. – Christos... Não podemos... – Podemos, sim.


Ele a colocou sentada na mesa, e o coração de Lucilla começou a galopar. Ela se sentia tonta, inebriada, e sabia que estava prestes a tomar uma decisão que mudaria tudo. Ele se posicionou entre as pernas dela, tomando o rosto de Lucilla nas mãos. Ela queria o beijo dele. Mas não podia permitir isso, não podia se render a ele assim. Christos inclinou a cabeça dela para trás, e os olhos de Lucilla se fecharam na expectativa dos lábios dele tocando os dela. Ela invocou uma imagem de Jessie os flagrando, e um balde de água fria se derramou sobre ela, dando-lhe forças. Ela o afastou, descendo da mesa. A decepção a corroía como ácido. Mas ela fizera a coisa certa! – Não vou ser alvo de fofocas no trabalho. Não quero que saibam... Ele pareceu enrijecer, como se ela o tivesse ofendido. – Claro que não. Isso não seria adequado. A princesa Chatsfield e o grego. Ele fazia aquilo parecer algo sujo, como se ela se considerasse boa demais para ele. – Não é isso que quero dizer, e você sabe. – Sei? – Você não fica, Christos. Chega, resolve o que precisa ser resolvido e segue para o próximo emprego. Mas este é meu direito por nascença, e vou ficar. Quando eu finalmente conseguir, não quero que ninguém pense que cheguei ao cargo de diretora executiva dormindo com alguém. – Está tão confiante assim de que ele vai ser seu? Ela empinou o queixo. – Sim. – E ficaria ainda mais quando Sara lhe entregasse as informações sobre ele. – É disso que gosto em você, Lucilla. Você não foge de um desafio. – Não fujo mesmo. – Ela pegou seu tablet e o agarrou novamente como um escudo. – Mas, às vezes, foge. Quando é pessoal demais. Ela estremeceu. Detestava o fato de ele conseguir enxergar dentro dela. Ela seria tão previsível assim? Tão óbvia? Ela abrira mão de tantas coisas durante tanto tempo, até mesmo de uma vida pessoal, trabalhando loucamente para fazer aquela empresa prosperar, mas, no momento, era pouco mais do que uma funcionária comum. Ainda lutando para provar seu valor. E não podia parar de lutar. Ainda não. Muito menos por algo tão simples como hormônios. Ela o queria, mas não podia tê-lo. Era perigoso demais. – Não estou fugindo. Nem todas as batalhas valem a luta. – Claro que não. – Christos recuou um passo, e mais outro. – Mas pergunte a si mesma, Lucilla mou, quando se tocar à noite, como seria melhor se fosse eu acariciando você. O coração dela disparou. Um desejo selvagem a penetrou. – Por favor, vá embora. – Mas este escritório é meu – disse ele tranquilamente, provocando. Um relâmpago de vergonha e ódio a atingiu. Ela tivera razão ao repeli-lo. Muita razão. Lucilla foi até a porta e parou, lançando um olhar por cima do ombro para ele. – Não vai ser eternamente. Isso eu juro.


Capítulo 4

CHRISTOS TRABALHOU até tarde antes de voltar para casa. Mas estava inquieto demais para descansar. Então, foi até um restaurante grego e comprou comida para viagem para dois. Seu plano era telefonar para uma das mulheres de sua lista de contatos. Um jantar agradável, vinho, um pouco de sexo... Justamente o necessário para desviar sua mente de Lucilla Chatsfield. A irritante e sexy Lucilla. Ele se sentira atraído por ela praticamente desde o início; mas seu desejo crescera ao longo das últimas semanas, especialmente ao vê-la com aquele vestido vermelho no leilão. Ela não o bajulava, não piscava os cílios para ele. Não se importava com o tamanho da conta bancária de Christos. Ela o mandaria para o inferno animadamente... E, mesmo assim, ela o desejava. Admitira isso naquele dia. Quando ele pensava nos mamilos rígidos dela contra a seda do vestido, ficava excitado. Ele a teria possuído na mesa se ela tivesse lhe dado essa oportunidade. Assim como duas semanas antes, quando a assistente dela os flagrara. Ele ficara estranhamente magoado quando ela o repelira, embora achasse ridículo se sentir assim. Ela não conhecia o passado dele, não sabia que o estava manipulando fortemente. Tudo que Lucilla sabia era que morria de medo do que podia acontecer se ela cedesse. Ele pretendera voltar para casa, mas se flagrou caminhando na direção oposta. De repente, Christos se viu diante do edifício dela. Mal conseguia acreditar que aquele fora seu destino. Ele foi até a porta e apertou o interfone do apartamento dela. – Sim? – disse a voz dela pelo fone alguns instantes depois. – Já comeu? Ele a ouviu inspirar fundo. – Christos? São 21h! O que está fazendo aqui? – Perguntando se você já comeu ou se trabalhou até tarde e esqueceu o jantar. Ela parou. – Comi uma maçã. – Não serve, Lucilla. Você precisa de comida de verdade. Hoje, sou seu entregador. – Você trouxe o jantar?!


– Sim. – Que confiante, não? – Nem um pouco – disse ele verdadeiramente. – Mas estou aqui e trouxe comida. Pode me deixar entrar, bela Lucilla, ou me expulsar. A escolha é sua. – Estou com raiva de você. – Eu sei. Trouxe uma oferenda de paz. Ela não respondeu. Mas a porta se abriu e Christos entrou. O CORAÇÃO de Lucilla se revirou. Ela olhou para o espelho perto da porta de seu apartamento e fez cara feia. Voltara para casa e vestira uma calça de ginástica e uma camiseta confortável para poder se aninhar no sofá e ler os relatórios de seus funcionários. Não esperara companhia. Definitivamente, não a de Christos. Ela ouviu os passos na escada e abriu a porta. Ele ainda estava de terno, seu cabelo estava lindamente bagunçado pela brisa. Ele subiu o último degrau e parou, oferecendo uma sacola. – Souvlaki, pita, arroz, dolmades e baklava. – Não me diga que você cozinha. – Na verdade, cozinho. Mas não cozinhei isto. Mesmo assim, prometo que está bom. Ela abriu mais a porta, e ele entrou. Lucilla fechou a porta e foi para a cozinha, pois não sabia o que dizer. Ao chegar lá, começou a pegar pratos e talheres. Christos colocou as embalagens sobre a bancada. Foi um silêncio quase agradável, levando-se em consideração que eles eram inimigos. Inimigos que sentiam uma poderosa atração um pelo outro. Ela observou a garrafa de vinho que planejara abrir mais cedo. Ficara enviando mensagens de texto para Antonio e se esquecera completamente dela. Um toque de culpa ameaçou a atingi-la quando ela se recordou do conteúdo das mensagens. Christos. Especialmente, como se livrar dele. – Vinho? – perguntou Lucilla, pegando a garrafa. Sem dúvida, ela precisava de um pouco. Christos abriu um sorriso que fez tudo dentro dela estremecer. – Parece uma boa ideia. Ela pegou um saca-rolha, mas suas mãos estavam tremendo demais, e Lucilla soltou um leve palavrão quando não conseguiu tirar a rolha na segunda tentativa. – Deixe comigo. – Christos estava ao lado dela, seu grande corpo invadindo o espaço dela. Ele pegou o saca-rolha e a garrafa, e Lucilla observou enquanto ele retirava com perícia a rolha. – Você já deve ter sido garçom. – Sim. Mas não por muito tempo. – Não gostou? A expressão ficou entretida. – Não. Comprei o restaurante. Ela devia ter imaginado. – Você passou de garçom a proprietário? Quanto tempo isso levou? – Seis meses. – Você tem mesmo uma reputação e tanto, Christos.


Tudo que ela ficara sabendo a respeito dele desde que começara sua pesquisa só o fazia parecer ainda mais formidável. Christos não fracassava. Sempre melhorava tudo que recebia. Ela sabia disso... Mas também sabia que era capaz de fazer o mesmo, ao menos em relação ao império Chatsfield. Ela conhecia a empresa de trás para a frente, pois trabalhara em basicamente todos os cargos nos hotéis, desde camareira, passando por recepcionista e muito mais. Passara toda a sua vida adulta se preparando, mas seu pai não pusera fé em sua capacidade. Isso ainda doía, mesmo depois de todas aquelas semanas, e Lucilla conteve sua amargurada reação. Pensar em seu pai apenas a deixaria irritada e chateada, e ela queria se manter com a mente clara. Havia um homem muito lindo e perigoso em sua cozinha. E ela ainda não fazia ideia de por que ele estava ali. Ou por que ela o deixara entrar. Christos estava tão perto, seu perfume a envolvia. Ele lhe entregou uma taça de vinho, tocando a mão dele na dela. – Porque cumpro minhas promessas – disse ele, tomando um gole. – Todas elas. E lá estava novamente aquele calor que a dominava. Que a enfraquecia de desejo. Aquilo a deixou mal-humorada. – Como você consegue fazer tudo que diz ter duplo sentido? Ele riu. – Por que você veio, Christos? Os olhos dele brilharam ardentemente. – Pelo mesmo motivo que fez você me deixar entrar, Lucilla mou. O calor se intensificou. – Deixei você entrar porque você tinha trazido comida. – Claro. – Ele baixou a taça e tirou o paletó. O coração de Lucilla quase parou quando ela se perguntou o que ele poderia fazer em seguida... Mas ele apenas arregaçou as mangas, revelando poderosos antebraços. Em seguida, pegou um prato e serviu um pouco de comida. – Prove estes dolmades. Vai achar que está no paraíso. Lucilla piscou os olhos. Como ele pensava em comida quando tudo em que ela conseguia pensar era calor, pele e sexo? Fora ele quem pusera esses pensamentos na cabeça dela, droga! Ela não o deixara entrar por nenhum motivo além do jantar. Claaaaro... Lucilla se juntou a ele na bancada. Ela se sentou numa banqueta e espetou uma folha de parreira recheada com hortelã, arroz e cordeiro. Estava delicioso. – É fabuloso – disse ela, surpresa com a própria fome. Normalmente, ela comia pouco à noite, mas até mesmo ela precisava admitir que uma maçã não era suficiente. – É, sim. Já experimentou o souvlaki? Ela espetou um pedaço de cordeiro temperado. – Uau. Derrete na boca. Os olhos dele se semicerraram enquanto ele a observava mastigar, e Lucilla sentiu novamente aquele calor. Lá fora, um relâmpago iluminou o céu. – Derrete mesmo. Eles comeram em silêncio durante alguns momentos, enquanto o céu lá fora trovejava e se iluminava. Lucilla olhava fixamente para a comida em seu prato, não para Christos.


Droga, como aquilo era patético! Ela era adulta, não uma adolescente apaixonada. Bastava levantar a cabeça e... Ele a estava observando, seus olhos azuis cálidos e profundos como um oceano. O calor aumentou. – Não me encare – disse ela. Ele bebeu tranquilamente o vinho. – Por que não? Você é bonita. Gosto de olhar para você. – Não sou uma das suas conquistas, Christos. Pode guardar seus elogios. – Diga por que você é tão diferente dos seus irmãos. O coração dela acelerou. – Não sei do que está falando. – Você é muito séria, muito estudiosa. Seu nome nunca foi vinculado a nenhum escândalo, e você não parece querer atenção. Na verdade, parece fugir dela. Elogio você, e você fica irritada. Lucilla não sabia o que dizer. Uma bola de emoção rolava dentro de seu estômago. Ela não devia ficar surpresa por ele saber coisas sobre ela, mas estava. Pior ainda, ele observara coisas que nenhuma pesquisa poderia ter lhe dito. Como a incapacidade dela de aceitar elogios. Para Lucilla, eles sempre pareciam falsas promessas. E ela não precisava de elogios se tinha realizações. Ela inspirou fundo. Havia coisas das quais não gostava de falar, mágoas profundas demais. Por dentro, ela sempre seria a menininha que não era adorável o suficiente. Sua mãe abandonara todos eles, e o pai deixara que ela e Antonio assumissem a tarefa de cuidar dos irmãos enquanto ele se divertia em Londres. E nunca lhes agradecera por isso. O mecanismo de defesa dela sempre fora ser uma boa menina. Pois como seus pais conseguiriam não amar a boa menina? Talvez sua mãe até retornasse. Ela bebeu um gole do vinho. Ah, agora, ela já sabia como esse pensamento era ingênuo. Porém, toda a sua vida girara em torno dele durante tanto tempo que já era algo inerente a ela. – Nem todo Chatsfield precisa de atenção. E aceito elogios. Só prefiro que eles tenham um significado, não uma finalidade. – E quem disse que meu elogio não tem finalidade? Garanto que você é muito bonita de fato. Quero você, Lucilla. Acho que você sabe disso. – Como posso saber que você não está falando por falar? – Pois ele era uma aranha em sua teia, manipulava suas marionetes. E se ele também a estivesse manipulando, usando as coisas das quais ela mais precisava: companheirismo e valor? – Achei que eu já tivesse provado isso para você. – Uma ereção? Você só precisa fechar os olhos e pensar na garota do vestido de látex. Não sou burra a ponto de não entender isso. Ele pareceu incrédulo. Então, pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos aos dela e beijando a parte interna do pulso dela. Um calafrio a percorreu. – Acredite quando digo que o único motivo para eu pensar nela quando estou com você é acalmar uma ereção feroz. Não o contrário. – Você é tão mentiroso – arfou ela. Os olhos dele estavam intensos. – Desafio você a me testar, Lucilla. A me levar para o seu quarto e me testar. O coração dela palpitou loucamente.


– Diga que você não dormiu com ela. Aposto que não pode dizer. – Não, não posso. – Eu sabia. – E o que isso tem a ver comigo e você neste momento? Ela recolheu a mão quando outro relâmpago fez as luzes piscarem. – Não vou ser uma conquista. Não vejo sentido nisso. – Sério? Isso vindo da mulher que anda fazendo muito, muito sexo? Ela corou. – Não preciso de você se estiver me satisfazendo com outros homens, preciso? – Sou melhor do que eles, Lucilla. – Você é tão arrogante. – Não, apenas sincero. Se eu fosse seu amante, você não ficaria excitada com outro homem como você fica comigo. – Ele sorriu. – Esses amantes são inadequados. O vinho estava fazendo sua mágica, deixando-a lânguida e relaxada pela primeira vez em vários dias. Lá fora, a chuva caiu com tudo. – Talvez eu seja simplesmente insaciável. – Não ponha esse pensamento na minha cabeça. Vai fazer minha imaginação enlouquecer. Ela queria perguntar o que ele estava imaginando. Mas seria uma péssima ideia. Lucilla tomou outro gole do vinho. – Se você fosse outra pessoa... – Quem está mentindo agora, Lucilla? – Não sei do que está falando. – Acho que sabe. – Ele se curvou à frente e acariciou o rosto dela. – Você fala muito, mas é viciada em trabalho. Trabalha até tarde, volta para casa sozinha toda noite e chega cedo todo dia. Você não anda fazendo sexo com ninguém. – Não é educado chamar uma mulher de mentirosa. – Não considero a educação um dos meus pontos fortes. – Porque não é mesmo. Além do mais, se você soubesse que eu não ando fazendo sexo com ninguém, por que se deu ao trabalho de me dizer como seria melhor do que meus amantes imaginários? Ele riu, e o calor do som deslizou pela espinha dela. – Acha que eu deixaria passar uma oportunidade de dizer o que eu poderia fazer você sentir? – Você é muito convencido. – Há um jeito de descobrir a verdade, não há? Ela cruzou os braços. – Você não para de tentar me provocar, não é? – Sou homem. É o que fazemos quando queremos uma mulher. Ah, como ela queria largar tudo e ver aonde aquilo a levaria. Fazia tanto tempo desde a última vez em que um homem a tocara... – Talvez devêssemos falar um pouco de algo diferente – disse ela, desesperada para mudar de assunto antes que subisse no colo dele ou fizesse algo igualmente escandaloso. – O que quer discutir? – Não sei. Fale da sua vida. Por que veio a Londres se podia estar relaxando numa praia na Grécia.


– Se eu estivesse relaxando numa praia na Grécia, não seria muito bem-sucedido, seria? – Você pode se dar ao luxo de relaxar um pouco. Já não tem sucesso suficiente? – De acordo com as fontes dela, ele construíra uma incrível fortuna. Contudo, continuava trabalhando para o pai dela. Mas Christos era como um astro do mundo corporativo. Ele exigia um preço muito alto e o que fazia não podia ser chamado de “trabalhar para alguém”. Ele trabalhava para si mesmo. Quando achava que fizera tudo que podia, seguia em frente e enfrentava o próximo desafio. – Tenho. Mas não preciso de férias, Lucilla mou. Preciso trabalhar. – Parece muito cansativo. – E quando foi a última vez que você tirou férias? – Ano passado. Passei um final de semana prolongado na Espanha. – No Chatsfield Preitalle, não? Ela passou um longo tempo em silêncio. – Sim. Ele balançou a cabeça. – Você é tão ruim quanto eu. Gosto disso em você. Ao contrário dos seus irmãos, você sabe trabalhar. – Achei que eu fosse mimada. – E é. Mas isso não significa que não tenha aprendido o valor do trabalho duro. – Às vezes, o que você diz não faz sentido, Christos. – Faz todo o sentido. Você trabalha porque o Chatsfield significa algo para você. Mas você nunca precisou trabalhar. Ela não contaria a ele sobre quando cuidara de Nicolo, em agonia após o acidente. Houvera uma época em que ela fora a única pessoa que Nicolo permitia que se aproximasse dele, e isso significara muitas noites insones, além dos dias atarefados com os cuidados. Infelizmente, Nicolo não se permitia interagir com ninguém ultimamente. Isso a preocupava, mas ele já era adulto e faria as coisas em seu próprio ritmo. E também havia Cara, que era um bebê quando a mãe deles partira. Lucilla sabia como era o trabalho de cuidar de uma criança, mesmo que não fosse filha dela. Sim, ela sabia tudo sobre trabalho, mas não contaria essas coisas a Christos. Não eram da conta dele. – Saiba que já passei um tempo trabalhando como camareira. – Sim, mas sempre sabendo que poderia parar quando quisesse. Que não passaria fome se fizesse isso. Você nunca precisou fazer coisas para sobreviver, Lucilla. Essa é a diferença. Ela só conseguiu olhar fixamente para ele. Para aquele lindo rosto, os olhos que fulguravam. E entendeu algo a respeito dele que ela nunca entendera antes. Isso fez seu coração se contorcer de solidariedade. – Você precisou, não foi? – Sim. Impulsivamente, ela pegou a mão dele. – Sinto muito por essas coisas terem acontecido com você. Ela o sentiu ficar tenso. – Nada de terrível aconteceu comigo, glykia mou. Precisei trabalhar duro, ou não teria dinheiro para comer. Isso não é ruim. É algo muito normal para qualquer um que não tenha nascido em berço de ouro.


Ela engoliu em seco. Sentira-se próxima dele por apenas um segundo, como se compreendesse algo nele, mas Christos lhe provara que ela não entendia nada. Não, ela nunca precisara se preocupar com sua próxima refeição, nem com o teto acima de sua cabeça. Mas vivera sem afeto, e isso lhe parecia ser uma existência ruim de fato. Christos não concordaria, ela sabia disso. Lucilla recolheu a mão, sentindo uma repentina vergonha. Ele levantou o queixo dela com o dedo, e Lucilla se flagrou olhando naqueles profundos olhos azuis. – Cuidado, Lucilla. Posso achar que você se importa. Ela inspirou fundo. – Mas não me importo. Só estava sendo educada. Ele riu. – Parece que você faz muito isso. – Ser educada? Fui criada assim. – E eu fui criado para dizer o que penso e tomar para mim o que quero. O coração dela disparou. – Nem sempre podemos ter o que queremos, Christos. Ele passou o dedo pelo rosto dela, descendo pelo pescoço. – Por que não? Lucilla umedeceu os lábios quando o desejo e o medo se entrelaçaram dentro dela. – Porque, às vezes, é uma má ideia. Os olhos de Christos reluziam de calor e promessa. As luzes piscaram, e, loucamente, Lucilla se perguntou se ele também não estaria no comando delas. – Às vezes. Mas, em outras, é uma ideia muito boa. E se esta for uma dessas vezes?


Capítulo 5

CHRISTOS OBSERVOU Lucilla engolir em seco. Ele queria tanto pôr a boca no pescoço dela, sentir as batidas de seu coração. Sentia essa compulsão feroz como a tempestade lá fora, mas não faria isso sem o convite dela. – Não sei como você pode dizer isso – falou ela. Mas pegou o vinho com dedos trêmulos, e ele conteve um sorriso de satisfação. – Paixão, glykia mou. É tudo ligado à paixão. Nossa paixão pode surgir de uma intensa... Discórdia, mas continua sendo paixão. – Não consigo imaginar como você imaginaria que seria um caso entre nós. Seu estilo não seria prejudicado quando eu não desaparecesse convenientemente da sua vida na manhã seguinte? Você vai precisar me encarar do outro lado de uma mesa de conferência regularmente. Vai ser constrangedor. – Você está inventando desculpas, Lucilla. Só vamos saber como será depois de percorrermos esse caminho, não é? – Ainda assim, não estou convencida. – Ela inspirou fundo e se levantou, juntando os pratos e talheres. – Nem acredito que você me fez pensar nisso. Se eu pudesse ter desintegrado você com um olhar hoje mais cedo, teria feito isso com prazer. Aquilo o fez rir. Não era a reação que ele costumava receber das mulheres. Christos se levantou e foi ajudá-la. Eles trabalharam em silêncio. Quando ela se afastou da pia, ele se aproximou e abriu a torneira. – O que vai fazer? – Lavar os pratos. Ela ficou de queixo caído. – Você não está falando sério. – Por quê? Eles estão sujos, não estão? – Eu ia lavar de manhã. Além do mais, está chovendo forte. E se acabar a energia? – Então, os pratos já vão estar lavados pela metade. Ao menos podemos tentar. Lucilla retornou e pegou uma toalha de prato, enquanto ele começava a lavar. Não havia muita coisa, e, portanto, eles não demoraram. – Não acredito que você lavou meus pratos. Eu devia ter gravado para colocar na internet.


Ele se recostou na pia e cruzou os braços. – Para provar que lavo pratos às vezes? Que informação escandalosa. A expressão dela ficou maliciosa. – Ah, mas, se eu ressaltasse que eram meus pratos e que você era secretamente meu escrevo sexual, isso podia prejudicar sua reputação. As mulheres se descabelariam. Os homens não respeitariam mais você nas reuniões. Ele gargalhou. – O que você não entende, doce Lucilla, é que não me importo com o que pensam de mim. Contanto que o trabalho seja feito, podem achar que uso calcinha em casa e pinto minhas unhas no fim de semana. Ela ficou boquiaberta. – Você faz isso? Ele quase se sentiu ofendido. Depois de ele ter acabado de dizer que não se importava, Christos se importava quando era Lucilla quem pensava essas coisas. Segurando os antebraços dela, ele a puxou para si. Ela era macia e quente, o corpo exuberantemente curvilíneo. Ela não recuou. Suas mãos se apoiaram levemente na camisa dele. Ele sabia que tudo podia mudar, que ela podia empurrá-lo para longe um instante depois, mas ele se aproveitaria da cooperação dela imediatamente. – A única calcinha em que estou interessado é a sua. E não quero vesti-la; quero arrancá-la do seu corpo. Ela suspirou. – Ainda acho uma má ideia. – É só o seu cérebro que pensa isso, Lucilla. Seu corpo tem uma ideia muito diferente. Ela baixou o olhar para suas mãos, apoiadas no peito dele. Então, inspirou fundo. – Eu sei. ELA DEVIA ser a boa menina. Devia fazer tudo certo, ser forte e sair por cima no final de tudo. Mas ali estava ela com Christos Giatrakos, o homem que ela estava se esforçando para derrubar, e tudo em que ela conseguia pensar era na ótima sensação de estar com ele, seu corpo se derretendo junto ao dele. Ele era espetacular. O cérebro dela podia resistir, mas seu corpo sabia disso e queria mais. Ela apoiou a testa no peito dele e se concentrou em respirar. Ele passou os dedos pelas costas dela, o toque reconfortante e excitante ao mesmo tempo. Ela sentia a tensão crescendo dentro de si enquanto ele continuava a acariciá-la. Mas ele não fazia nenhuma menção de aprofundar o momento. Ela queria que ele fizesse algo. Queria que fosse ele a tomar a iniciativa para que ela pudesse dizer a si mesma depois que fora uma vítima dos próprios hormônios. – Não entendo – disse ela. – Eu preferiria ver você indo embora a passar mais um momento sequer vendo-o sentado na minha mesa, dando ordens como um ditador. A voz dele vibrou no ouvido dela. – Isso deixa você louca, não? Eu estar no comando... Ela inclinou a cabeça para olhá-lo. – Você sabe que sim. – E o que você vai fazer quando eu assumir o comando na cama, Lucilla?


Um calafrio a percorreu. – Talvez eu não permita isso. Os olhos dele brilharam. – Ah, outro campo de batalha, então. Tenho a sensação de que será uma batalha muito prazerosa e explosiva. – Por que tudo com você é uma batalha? – Quem disse? – Você tem uma incrível necessidade de conquistar, Christos. Já vi você fazer isso cem vezes em cem reuniões diferentes. Você transforma tudo numa guerra. Ele pareceu pensativo. – Talvez seja verdade. Mesmo assim, não quero guerrear com você esta noite. Sim, desejo conquistar. Mas de um jeito bom. Do jeito mais excitante possível. – Por que não podemos conquistar um ao outro? – Talvez possamos. – Ele se curvou na direção dela, levando a boca à base do pescoço dela. Lucilla fechou os olhos e inspirou fortemente quando os lábios e a língua dele percorreram sua pele. Ah, ela era louca de permitir aquilo. Até por pensar em ir para a cama com Christos. – Queria entender o que é isso – disse ela, suspirando. Ele a olhou. – Sexo, Lucilla. – Eu sei. O que quero saber é por quê. Por que você? – Você não para de perguntar isso, e não existe resposta. Simplesmente é. – Isso quer dizer que não estamos no comando de nossas escolhas. Ele pareceu confuso. – Isto é uma escolha. Estou aqui. Você está aqui. Ela o afastou quando ele foi beijá-la novamente. – E se eu quisesse que você fosse embora? Ele não hesitou. – Eu iria. Por algum motivo, ela também não queria isso. Como era inconveniente desejar o homem que ela queria tão desesperadamente destruir! – Você não ficaria mais feliz se eu pedisse demissão e partisse numa peregrinação pelo Tibete ou algo assim? – Isso poderia facilitar minha tarefa no Chatsfield, mas a verdade é que não quero você em nenhum outro lugar. – Às vezes, você diz as coisas mais loucas, Christos. Ele a puxou para mais junto de si, até que Lucilla conseguisse sentir os contornos do corpo dele contra o dela. Contornos rígidos. Ela passara semanas admirando o corpo dele, lançando olhares sorrateiros quando ele não estava olhando... Ela e todas as outras mulheres do hotel... E invejando as mulheres com quem ele andava. Lucilla ficava muito incomodada por invejá-las, mas dissera a si mesma que era simplesmente porque ele parecia mesmo um deus grego, e não havia problema em apreciar isso de longe. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, passando pelos quadris. Lucilla achou que ele fosse beijála, mas ele não o fez. Olhou-a com muita seriedade enquanto o coração dela disparava e o úmido calor


se acumulava entre seus seios. – É agora que você me diz para ir embora – disse ele. – Eu sei. – Ela inspirou fundo. Não queria que ele fosse. Mas que escolha havia? Ela estava tão acostumada a negar tudo a si mesma que isso era mais natural do que a alternativa. Ela baixou as mãos e recuou. – Eu... Acho que é melhor você ir. – Acha mesmo? Ou simplesmente acha que devia dizer isso? – Você precisa entender. Não posso dormir com você, Christos. Mesmo querendo. Ele a penetrou com um olhar. – Pois bem. – Ele pegou seu paletó e o pendurou no braço. Lucilla se sentiu quase desesperada de decepção. – Quer o que sobrou da comida? – Pode ficar com você. Ele pegou o celular enquanto rumava para a porta. E foi esse o momento em que Lucilla se sentiu como se nunca mais fosse ficar íntima de ninguém, como se tudo que ela já sacrificara tivesse sido por nada. Ela era solitária, isolada em sua torre de marfim do dever e da dedicação à família e à carreira. Quando não haveria problema em fazer algo por si mesma? Quando esse algo não for justamente a pessoa que está entre você e o sucesso. Droga. Lucilla inspirou fundo quando ele chegou à porta. Ele parou e vestiu o paletó. Então, olhou-a novamente. Christos esticou a mão e a passou pelo rosto dela. – Foi divertido, para variar, Lucilla mou. Sem discussões, sem raiva. Talvez possamos nos dar bem afinal, não? Impulsivamente, ela pôs a mão sobre a dele. – Duvido. Você vai me deixar irritada amanhã antes mesmo de eu tomar minha primeira caneca de café. Mas agradável, sim. Ele sorriu, e o coração dela se revirou. Por que ele precisava ser tão incrivelmente lindo? – Fico feliz por você admitir. As luzes piscaram novamente. – Uma tempestade e tanto – sussurrou ela. – Sim. – Você nem tem um guarda-chuva. – Você se importa se eu me molho ou não? Ela deu de ombros. – Na verdade, não. E, se você puder ser atingido por um raio, isso me ajudaria bastante. Ele gargalhou. – Você é sanguinária, não? Ela segurou o antebraço dele. – Estou brincando, Christos. Quero que você vá, mas vivo e bem. – Ora, obrigado. Eu acho. – Sem dúvida, é um elogio. Um mês atrás, eu não teria me importado com como você iria embora, contanto que fosse. – Então, vou me sentir agradecido. – Ele deu um beijo no rosto dela, e o coração de Lucilla saltou. Um gesto meigo, nada sexual, mas ela descobriu que sentia falta da sexualidade. Ele abriu a porta, e as luzes se apagaram. Tudo ficou em completo silêncio.


– Você não pode ir – disse ela depois de um longo momento. Uma luz se acendeu. O celular dele. – Tenho luz. E vou chamar um táxi. – Você não veio de carro? – Não. – Os semáforos também devem estar desligados. Vai ficar um caos até a energia voltar. – Está me pedindo para ficar, Lucilla? – Até a luz voltar, sim. – Tem medo do escuro? – Nem um pouco. Não era a primeira vez que faltava energia ali, mas era verdade; ela não gostava de ficar sozinha quando tudo parava. Christos fechou novamente a porta. Seu telefone ainda emitia um fraco brilho, e Lucilla conseguia sentir o calor dele. Era reconfortante, de certa forma. – Bem, eu tenho medo do escuro – disse ele casualmente. – Não tem nada. Ele a envolveu com o braço e levou de volta à cozinha. – Na verdade, não. Só achei que você ficaria mais feliz se achasse que eu tinha. Ela revirou os olhos. – Você não se importa com a minha felicidade. – Talvez eu me importe. Ou talvez eu simplesmente goste de ver você sorrir. – Eu sorrio. Muito. – Não para mim. – Você não faz nada para merecer, Christos. Agora, levante o celular enquanto procuro velas nas gavetas. Lucilla encontrou velas e um isqueiro. Ela as acendeu e as colocou sobre a bancada, e os dois retornaram às banquetas que eles haviam ocupado pouco antes. – Gosto de quando você sorri – disse ele, e o coração dela deu um salto. – Você é mesmo um conquistador. Não é nenhuma surpresa que já tenha levado para cama metade de Londres. – Metade de Londres? Eu não sabia que você andava reparando. O calor a atingiu. – É impossível não reparar. Quando você não aparece nos eventos do Chatsfield com uma nova mulher, aparece nas páginas de fofocas. – Não tenho controle sobre o que eles imprimem. – Nenhum de nós tem. – Está tentando me dizer alguma coisa? – Só que sei que os Chatsfield não têm sido mostrados de um jeito favorável ultimamente, mas os jornais costumam exagerar só para vender. – Sei disso. – Cara tem problemas, Christos. Mas não é má. Não é uma vergonha. – Eu nunca disse que era. Só a enviei para um lugar no qual as loucuras dela não vão causar muito estrago.


– Vegas. Sim. – Ela imaginou Cara na Cidade do Pecado e se perguntou o que a criança que ela criara estaria aprontando lá. Isso a preocupava, mas Cara já era adulta e não ficava muito feliz quando Lucilla interferia em sua vida. – Está preocupada com ela. Ela ficou surpresa por ele ter percebido. – Sim. Ela é tão jovem. E impulsiva. – Os jovens costumam ser. Ele disse aquilo de uma forma que a fez observá-lo, imaginando que experiências havia por trás daqueles olhos. – Eu não era. – Sem dúvida, acredito nisso. – Por quê? – Lucilla mou, se você fosse minimamente impulsiva, já teríamos ficado nus juntos há semanas. O calor cresceu no ventre dela. – Você está me provocando. – Estou. Um pouco. Mas é verdade. Você não é impulsiva. Pensa muito bem em tudo, até demais às vezes. – Não sei se gosto de ser analisada por você. – Você não pode me impedir de analisar. Só de dizer o que eu descobrir. E o que estou descobrindo é que você pensa demais nas coisas. Tome decisões, Lucilla. Ponha em prática. Aprenda com seus erros e não cometa os mesmos novamente. Ela ficou rígida. – Está insinuando que sou uma administradora pior que você, e não estou gostando disso. – Não foi o que eu disse. Mas, se é isso que você entende... – Ele deu de ombros. – Estou achando que devia ter deixado você ficar ensopado lá fora. Ah, e mudei de ideia com relação ao raio. Christos riu. – Se eu fosse qualquer outra pessoa, você não se sentiria tão ofendida. Você é boa no que faz. Tudo que eu disse foi que você não segue seu instinto com a frequência que devia. – Você me irrita de verdade, Christos. Ele deslizou dois dedos pela parte interna do braço dela. – Mas também excito você. Maldito, era verdade. A pele dela já estava formigando. – Isso não importa. Você não pode me ofender e esperar que eu me atire nos seus braços. – Então, diga o que preciso fazer. – O especialista é você. Descubra. Os olhos dele reluziram de calor e humor. – Já que você não me mandou para o inferno, isso está me incentivando. Ele serviu mais vinho em sua taça de antes e tomou. As luzes já estavam desligadas fazia ao menos 15 minutos. Lá fora, ainda chovia e trovejava. – Lucilla. – A voz dele estava suave, e ela se virou para olhá-lo, seu coração palpitando com a intensidade do olhar de Christos. – Não entenda tudo como ofensa. Sou franco porque você é forte o suficiente para ouvir. Se não fosse, eu não desperdiçaria meu tempo com você.


– Estudei em Oxford, Christos. Não sou uma idiota. – Não. Mas eu tenho mais experiência. Você pode aprender comigo. É tudo que precisa fazer. Aprender. Vai conseguir o que quer no final de tudo. – Já parou para pensar que talvez você possa aprender algo comigo? – E por que ela estava dizendo aquilo? Ela o queria fora dos hotéis, não se aliando a ela para administrá-los. – Claro. Mas, primeiro, você precisa estar disposta a trabalhar comigo. – Eu já trabalho com você. O sorriso dele fez o coração dela acelerar. – Não, você briga comigo. Por tudo. – Nem tudo. – Sim, tudo. Se eu quero decorações azuis para um evento, você prefere vermelho. Se peço um cardápio, você muda para outro. Se digo que quero receber um determinado grupo, você escolhe justamente aquele grupo. Ela fazia mesmo aquilo. Lucilla nunca pensara que talvez fosse de propósito. – Não é de raiva. Faço o que é melhor para o hotel no momento. Ele arqueou uma das sobrancelhas. – Faz mesmo? Ou simplesmente gosta de me frustrar? – Não acho que muita gente consiga frustrar você, Christos. – Você consegue. Sem parar. – Obediência cega pode ser entediante. – Você, definitivamente, não é entediante, glykia mou. – Bajulação não vai levar você a lugar nenhum, Christos. Ele se levantou. – Tenho ciência disso. E acho que é hora de ir. – Ele baixou a própria taça e pegou seu celular. – Kalispera, glykia mou. Ela ficou de pé, sentindo-se subitamente abandonada ao pensar nele a deixando ali sozinha. – Ainda está chovendo, Christos. E estamos sem luz. Você não pode ir assim. Vai levar horas para voltar para casa. – Mesmo assim, acho que já não sou mais bem-vindo. Ela cerrou os punhos. Ele fora perfeitamente agradável durante a maior parte do tempo. Fora ela quem tivera dificuldade de esquecer sua animosidade... E seu medo. – Desculpe por ter estar sendo sensível. É que você me irrita tanto. Mas, por favor, fique. Tenho um quarto de hóspedes, e você pode ficar quanto tempo quiser nele. Christos demorou tanto para responder que Lucilla achou que ele recusaria. Seus olhos brilharam à luz das velas, e ela sentiu uma repentina vontade de se enroscar nele. – Pois bem – disse ele por fim. – Aceito sua generosa proposta.


Capítulo 6

LUCILLA ESTAVA deitada em sua cama, tentando dormir. Não estava dando certo. A casa estava tão silenciosa. O problema, porém, não era esse. Era Christos no quarto ao lado. Eles haviam conversado um pouco mais, sobre coisas comuns. Então, ele dissera que iria encerrar o dia. Ela lhe dera algumas velas e se recolhera a seu próprio quarto. Isso fora duas horas antes. Lucilla não parava de pensar em Christos deitado tão perto dela. Ele devia estar só de cueca. Talvez estivesse deitado em cima dos lençóis, o corpo exposto à noite. Uma lança de calor a perfurou quando ela pensou nele quase nu. Fazia tanto tempo... Talvez ela precisasse ir a uma loja de brinquedos para adultos. Lucilla grunhiu. Aquilo era ridículo. Suas faces coravam só de pensar em entrar numa loja para adultos. Não que houvesse algo de errado nisso, mas ela não conseguiria entrar e olhar os produtos. Talvez na internet. Sim. Ela poderia fazer isso... Um ruído interrompeu os luxuriosos pensamentos dela. Alguém dissera algo? Ela se sentou na cama e tentou ouvir. Então, ouviu novamente, um grito masculino vindo do quarto ao lado. Ela ficou alarmada. Lucilla se levantou, vestiu um robe, pegou seu celular e ligou o aplicativo da lanterna antes de sair. Christos gritou novamente, e ela correu para bater à porta. O som parou abruptamente. – Christos? Está tudo bem? Christos! A porta se abriu alguns segundos depois. Ele estava exatamente como ela imaginara; com uma cueca escura e nada mais. Lucilla engoliu em seco. O peito dele estava reluzente, como se ele tivesse se exercitado. Seu cabelo estava bagunçado, seus olhos estavam enlouquecidos. Ele engoliu em seco, como se estivesse tentando se controlar. – Estou bem. – Desculpe por me meter. Eu ouvi... Achei que... – O que ela achara? Que ele estivesse tendo um pesadelo? Claramente. Ele passou a mão pelo cabelo. – Acontece às vezes. Não é nada. – Quer conversar? As sobrancelhas dele se ergueram.


– Conversar? Não. Se tiver outra proposta, posso pensar. Mas conversar? De jeito nenhum. – Eu... Sinto muito por ter incomodado. – Ela recuou um passo, pretendendo voltar a seu quarto. Christos disse algo em grego. Então, puxou-a para seus braços. Lucilla foi de bom grado, o que foi um certo choque... E também não foi. – Desculpe – disse ele roucamente. – Só me deixe abraçar você. É disso que preciso agora. Ela o envolveu com os braços. Eles ficaram ali durante alguns minutos, a cabeça dela apoiada no peito dele, o queixo de Christos no cabelo dela. O coração dele estava a mil por hora, e ela se flagrou passando as mãos nas costas dele, tentando acalmá-lo. Ela cuidara de crianças e sabia que elas às vezes só precisavam ser abraçadas depois de um pesadelo. Lucilla não fazia ideia do que poderia fazer um homem como Christos berrar enquanto dormia, mas devia ser assustador. Droga, ela não queria gostar dele. Porém, saber que ele era humano, que tinha medos e fragilidades abalou a muralha do coração dela. – É melhor você voltar para a cama – disse ele. – Eu não estava dormindo. Ele a afastou apenas um pouco, e ela o olhou. O que Lucilla viu no olhar dele fez seu coração se revirar. Os olhos dele reluziam de calor e desejo. – Vá, glykia mou, antes que eu beije você. Porque, se eu beijar, não vou parar por aí. Ela sabia que devia ir, mas não conseguia fazer seus pés funcionarem. Não com seu corpo se derretendo junto ao dele, uma ardente chama em seu ventre. Não com ele parecendo tão perdido e sozinho quanto ela costumava se sentir. – Então, pode me beijar – falou ela, a voz rouca. Ele murmurou algo em grego antes de baixar sua boca para a dela... E a chama que vinha ardendo entre eles explodiu. Estava tarde e escuro, a hora em que segredos vinham à tona e desejos não podiam mais ser contidos. Lucilla o agarrou com força. A boca dele sobre a dela era uma revelação. Seus lábios eram lisos, firmes. A língua mergulhou entre os lábios dela, exigindo uma reação. Ela reagiu de bom grado, e Christos grunhiu, segurando-a com mais força enquanto o beijo fugia do controle. Eles haviam se beijado outras duas vezes, e os dois beijos a haviam incendiado. Mas aquele beijo. Ah, aquele tinha dez vezes o poder dos outros. Cem vezes. Pois Lucilla nunca sentira aquele nível de desejo por um homem antes. Era como se, agora que ela se rendera mentalmente ao momento, seu corpo estivesse compensando todas as semanas de atração que ela reprimira. Ela queria tocá-lo em todos os lugares, queria fazer parte dele. As mãos dele a percorreram, e Lucilla se encaixou no corpo dele, os quadris fazendo contato com as rígidas coxas dele. Mas havia mais. A ereção dele fervia junto à barriga dela. Lucilla curvou as mãos no traseiro dele e puxou com mais força para si. Christos fez um som que enviou um calor líquido por todo o corpo dela. O robe a confinava demais, esquentava demais, e ela queria tirá-lo. Mas não conseguia tirar as mãos do corpo dele por tempo suficiente para isso. Pois tocá-lo era incrível, empolgante. Agora que ela finalmente se soltara, estava dominada. Seu corpo latejava, e fervia, e doía, e ela queria ainda mais, independentemente das consequências. Ela o queria em todos os lugares. Imediatamente.


Christos passou o braço por trás dos joelhos dela e a ergueu. Lucilla não questionou quando ele começou a andar na direção do quarto dela. Ele a colocou de pé ao lado da cama. Lucilla continuava agarrada a ele, os braços envolvendo aqueles poderosos ombros. Ela estava arriscando tanto ao se expor ao turbilhão de sensuais sentimentos por aquele homem com o qual ela estava em guerra. No momento, porém, ela não se importava. – Você sempre fica de cabelo preso – disse ele, a voz rouca ao soltar o cabelo de Lucilla. O elástico caiu ao chão enquanto o cabelo dela cascateava sobre os ombros, e Christos enfiou os dedos nele. – Gosto dele solto. – Sendo assim, vou continuar prendendo. – Ela queria que ele a beijasse novamente, imediatamente, antes que ela pudesse pensar demais, mas ele parecia contente em passar as mãos pelo cabelo dela. – Porque gosta de fazer exatamente o oposto do que eu quero? Se eu disse que prefiro que você fique vestida, você vai tirar a roupa? Uma emoção a transpassou. – Talvez. As mãos dele desceram para a cintura dela, e Christos a puxou para si. – Então, por favor, continue vestida, glykia mou. Não me beije. Não me toque. De forma alguma ponha sua boca em qualquer lugar do meu corpo. A boca dele dominou a dela num ardente, molhado e profundo beijo que a fez se derreter nos braços dele. Mas Lucilla reagiu ao beijo. E envolveu o pescoço dele com os braços, arqueando seu corpo na direção dele. Ele afastou o robe do corpo dela, deslizou as mãos por baixo da camiseta que ela estava usando. As mãos dele na pele dela eram uma tortura tão doce! Seus dedos deslizaram pela carne de Lucilla, os polegares roçando sobre os mamilos. Ela arfou. Então, Christos tirou a camiseta dela. O ar frio tocou a pele nua de Lucilla. Seus mamilos se contraíram, latejando pelo toque dele... E ele os tocou novamente, os polegares passando pelos pontos rígidos. Lucilla reagiu baixando a cueca dele. Quando ela fechou a mão em torno dele, Christos grunhiu. – Glykia mou, não faça tanto isso. Ela ficou empolgadíssima ao ouvir o desejo na voz dele, o desespero, o controle quase perdido. Um calafrio a percorreu quando ela o segurou com mais força, subindo e descendo com a mão. – Lucilla... – A boca dele desceu pelo pescoço dela, e ele logo estava com um rígido mamilo dentro dela, sugando fortemente enquanto Lucilla se arqueava, gemendo. Se ele continuasse daquele jeito... – Você tem os seios mais lindos. – Christos, por favor... Não consigo... – Cada puxão da boca dele no seio dela lançava uma doce farpa de prazer na direção do sexo dela. O clitóris de Lucilla latejava de desejo. Ele baixou a calcinha dela e a empurrou para a cama, posicionando-se acima dela, arfando. Ela adorou o fato de ele estar tão abalado quanto ela. Os olhos de Christos se fixaram nela, despindoa até a alma. Não havia nenhum segredo ali, nenhum plano, nenhum esquema, nenhum inimigo. Havia apenas carne, sangue e calor. Duas pessoas que queriam desesperadamente algo uma da outra. Ou não? Ela seria apenas mais uma das conquistas dele? Ele a estava manipulando, como manipulara seus irmãos? Ela não podia pensar assim. Lucilla o empurrou até que Christos ficasse deitado de costas, ela montada nele. No escuro, ela conseguia enxergar os contornos do corpo dele. E, claro, ele estava lindo.


Seu pênis estava alto, e ela o tomou novamente na mão. Em seguida, curvou-se e o lambeu, e Christos ficou rígido com o toque dela. – Definitivamente, não faça isso – rosnou ele. – Ah, não, não vou fazer... Então, ela o tomou na boca, desfrutando do grunhido dele, de seu próprio nome arfado por Christos. Ela nunca o tivera à sua mercê. Agora, o controle dele era dela, contanto que ela o mantivesse em sua boca. A satisfação surgiu dentro dela enquanto sua língua deslizava sobre ele. Lucilla queria mais. Queria provar sua dominância sobre ele, queria fazê-lo ter um orgasmo, deixando o corpo dele descontrolado, contorcendo-se, arfando de prazer. Mas Christos ainda tinha forças para puxá-la para seus braços. Ele a beijou, virando-a até ficar entre as pernas dela. – Por favor, diga que você está preparada, glykia mou. Não vim aqui para fazer sexo. – Na gaveta – disse ela, agradecida por ter preservativos guardados apesar de fazer muito tempo que não tinha uma vida amorosa. Christos os encontrou. Ela pegou a embalagem dele, rasgando-a, segurando-o e colocando o preservativo. Ele grunhiu enquanto ela o alisava. Então, Lucilla o sentiu, grande, rígido, bem no lugar... – Oh, Deus – arfou ela quando ele e a penetrou, alargando-a. Christos parou. – Está pensando melhor, Lucilla? Porque não é uma boa hora para isso. – Ele inspirou fundo. – Mesmo assim, vou parar se você quiser. Ela o envolveu firmemente com os braços. – Não, não pare. É que... Já faz um tempo. Ela detestava admitir isso. Christos a beijou levemente. – Então, prometo que vai ser bom para você. – A mão dele deslizou entre os corpos deles, encontrou a oculta pérola do sexo dela. A sensação a percorreu quando ele movimentou o polegar sobre o pequenino ponto. Lucilla logo estava arqueando os quadris na direção dele, buscando o próximo nível de prazer. Ele a levou até o ápice... E permitiu que ela desabasse. O corpo de Lucilla se estilhaçou enquanto ela gritava. Mesmo assim, ele continuava dentro dela, rígido e imóvel. Esperando. Quando os tremores desapareceram, um fio de pânico começou a se desenrolar dentro dela. O que ela estava fazendo? O que estava pensando, fazendo sexo com Christos?! – Lucilla. Volte para mim. Preciso de você comigo. Ela engoliu em seco. – Estou aqui. – Está? Ou está considerando isto um erro? – Não sei... Ele movimentou os quadris, e o fogo a percorreu, silenciando-a. – Como isto pode não estar certo? – sussurrou ele. – Como pode não ser exatamente o que estava fadado a acontecer desde o instante em que nos conhecemos? – Não sei – disse ela num engasgado sussurro. Porque, com aquele pequeno movimento do corpo dele, ela o desejou mais do que nunca. – Prepare-se, glykia mou, porque pretendo provar isso a você.


A boca de Christos capturou a dela de forma quase selvagem. Então começou a se mover, penetrando-a fortemente, levando-a para o fundo daquele oceano de prazer. Christos baixou a cabeça para os seios dela, sugando os latejantes mamilos. O corpo de Lucilla se avivou novamente, e ela achou que explodiria se não atingisse o ápice em breve. O prazer a carregou em ondas de fogo, seu centro se contraindo enquanto Christos se movimentava. Então, aconteceu. O momento em que todas as sensações convergiram dentro dela, implodindo, borrando sua visão, fazendo-a sentir apenas o prazer que a fez dizer o nome dele. – Sim – disse ele, a voz ríspida no ouvido dela. – Assim. Então, ele a acompanhou para o abismo, o nome dela escapando de seus lábios num grunhido.


Capítulo 7

LUCILLA ACORDOU sozinha. A luz da alvorada entrava pelas cortinas. Ela ficou deitada ali, tentando ouvir Christos. Como não conseguia ouvir nenhum movimento, ela se levantou e vestiu o robe antes de ir até a sala. As luzes estavam ligadas novamente, mas o apartamento estava vazio. Ela verificou o quarto de hóspedes, seu coração acelerando a cada passo. Vazio. Ele fora embora. Ela ficou ali parada, perplexa, enquanto processava tudo. Seu corpo ainda estava dolorido, a evidência da possessão dele, e fora embora enquanto ela dormia. Sem se despedir. Você escolheu isso, disse ela a si mesma. É o que acontece quando você se solta. Os dois haviam desabado juntos, esgotados, um nos braços do outro, e dormido. Ela pensara que ele estaria ali naquela manhã, mas talvez fosse bom que não estivesse. Lucilla fungou. Sim. Era bom que ele não estivesse. Eles não eram amantes, aquele não era um caso amoroso, e era melhor assim. Eles haviam tido uma noite de prazer. Porque ele era sexy, ela estava solitária, e o momento fora certo. Não significava que haveria mais. Nem que ela quisesse que houvesse. Ela não queria mais de Christos. Já se saciara. Ele era um amante dinâmico, mas ela já se satisfizera. Lucilla tomou banho e se vestiu cuidadosamente; saltos altíssimos, uma saia preta e uma blusa branca de botão. Acrescentou um largo cinto e se olhou no espelho. Ela se recordou de quando ele dissera que gostava do cabelo dela solto, aquela rouca voz a fazendo se sentir linda e desejável. Por isso, Lucilla prendeu implacavelmente seu cabelo num coque. Não queria que Christos pensasse que ela o deixara solto por ele. Ela chegou ao hotel às 8h, sorrindo e conversando com todos enquanto rumava para seu escritório. Seu coração bateu forte quando ela passou pelo escritório de Christos. Ele estaria ali? Estaria pensando nela? Ou já teria deixado a noite passada totalmente para trás? O estômago dela se contorceu. Isso era o pior de tudo, pensar que ela não fora nada além de uma oportunidade. Que ele usara seu corpo para o prazer e fora embora quando terminara. E ela precisava admitir que era a situação mais provável. Não que isso importasse. Ela também o usara. Estivera pensando em comprar um vibrador momentos antes de ir bater na porta dele!


Lucilla se sentou à sua mesa e abriu seu e-mail. Havia uma festa de casamento no fim de semana, um evento corporativo na segunda e, claro, a reunião dos acionistas... E a viagem depois. Uma mensagem chegou em sua caixa de entrada. Sara@Norringtons.co.uk Para: Lucilla.Chatsfield@Chatsfield.com Assunto: PARTICULAR Eu o encontrei. S.N. O coração dela disparou. Ela ficou ali olhando para a mensagem, sentindo tanto uma avassaladora curiosidade quanto uma forte culpa. Pensou em Christos na noite anterior, quando ele abrira a porta do quarto; bagunçado, enlouquecido e completamente vulnerável de uma forma que ela não esperara. Então, pensou na maneira como ele virara seu mundo de cabeça para baixo durante algumas horas de alegria. Lucilla fechou os olhos. Só de pensar neles dois juntos na cama, sua temperatura já subia. O telefone do escritório tocou. – Sim? – O sr. Giatrakos deseja vê-la no escritório dele – falou Jessie. Um fio de pânico se desenrolou dentro dela. Ele a estava convocando depois de tudo que acontecera? Como ela entraria no escritório dele e fingiria que estava tudo normal? – Diga que estou ocupada. – Sim, srta. Chatsfield. Ela se virou para seu computador, determinada a ler suas mensagens. A de Sara estava marcada em sua mente, mas, subitamente, Lucilla não quis saber o que a mulher descobrira. O que era completamente ridículo e a tornava exatamente o tipo de pessoa que Christos a considerava: não decidida, não disposta a fazer escolhas difíceis. Finalmente, ela pegou seu telefone para ligar para Sara. A porta se abriu com tudo, e ela largou o telefone na mesa. Christos estava ali, frio e lindo de terno preto. Sua camisa era azul-anil, como seus olhos, e o efeito era espetacular. O coração dela disparou. A umidade se acumulou entre suas pernas. – Posso ajudar, sr. Giatrakos? – Ela se esforçou para ser fria e impessoal, mas conseguiu sentir o minúsculo tremor em sua voz. Os olhos de Christos se semicerraram. Ele fechou a porta e foi na direção dela. – Você não foi quando mandei chamar. Ela se recostou na cadeira. – Claramente, não havia necessidade. Você veio até mim. – Está me evitando, srta. Chatsfield? – De forma alguma. Estou ocupada, como pode ver. Não posso largar tudo que estou fazendo só para ir me curvar à sua presença. – Você trabalha aqui. Quando preciso falar com você, preciso falar com você. Chegou a pensar que podia ser importante? – Sua convocação não mencionava nenhuma importância.


Ele parou diante da mesa dela, olhando-a tão intensamente que Lucilla quis desviar o olhar. Mas ela não fez isso. Aquele era seu escritório, seu espaço. – Está com raiva de mim. O estômago dela se revirou. Ele tocaria naquele assunto. – Por que estaria? – Porque eu não estava lá quando você acordou. Ela deu de ombros. – Fizemos sexo, Christos. Não preciso de carinhos ternos depois. Você foi embora. Grande coisa. – Você é bastante razoável para uma mulher – disse ele tranquilamente, e a irritação a atingiu. Como se ele fosse um grande prêmio do qual as mulheres não se saciavam. – O que esperava? Queria que eu implorasse por mais uma noite nos seus braços? Achou que iria me encontrar chorando e carente porque você foi embora enquanto eu dormia? – Ela balançou a cabeça. – Fiquei aliviada por você ter ido embora. Isso me poupou do problema de pedir para você ir. Os olhos dele se semicerraram novamente. Lucilla não sabia ao certo o que estava acontecendo naquele cérebro dele, mas apostaria que, ao menos em parte, era choque. A satisfação a preencheu. Tome essa, sr. Grego Sexy. – Então, é um alívio para nós dois – disse ele. Ela tentou não permitir que as palavras dele a atingissem, mas elas atingiram. Ela sabia que tipo de homem ele era. E, mesmo assim, dormira com ele. – Claro que é – mentiu ela. – Agora, o que você quer? Tenho muito a fazer antes da semana que vem se vou acompanhar você nessa viagem. Ou veio me dizer que não precisa mais de mim? Uma parte dela torcia para que ele dissesse isso, a outra achava que gritaria se isso acontecesse. Lucilla queria percorrer os outros hotéis e, de forma muito estranha, queria que Christos a tratasse como se ela fosse valiosa para o império Chatsfield. – Você irá me acompanhar. E o que eu queria de você, srta. Chatsfield, era um relatório do desempenho do seu departamento no mês passado. Você se lembra da existência desses relatórios, não? Ela corou. – Claro. Você só enviou uns cem memorandos falando deles. – Mesmo assim, o seu está atrasado. O único que está, diga-se de passagem. A raiva fervilhou. – Sendo assim, talvez você deva sair do meu escritório para eu poder terminar o relatório. – Ela sorriu educadamente, mas havia fúria por trás do sorriso. – Na minha mesa até o meio-dia, srta. Chatsfield – disse ele ao rumar para a porta. – Como quiser, ó, Comandante Supremo – respondeu ela, ainda sorrindo. Com um último olhar que ela não conseguiu decifrar, ele saiu e fechou a porta. Lucilla pegou seu celular e ligou para Sara Norrington. CHRISTOS VOLTOU a seu escritório e bateu a porta com mais força do que pretendia. Sem dúvida, estaria assustada em sua mesa, mas ele não teve vontade de ir reconfortá-la. Ele foi até a janela, tudo dentro dele se revirando de raiva e frustração. E desejo não realizado. Isso era o mais estranho. Ele tivera Lucilla Chatsfield na noite anterior, mas queria mais. Isso era incomum. E alarmante.


Ele não se conectava emocionalmente a ninguém. Aprendera havia muito que se importar com outra pessoa deixava você vulnerável do jeito mais horrível possível. Ele amara uma pessoa em sua vida, quase sacrificara todo o seu futuro por ela. Quando ele pensava no rosto de sua mãe, no lindo e surrado rosto dela, brilhando com as lágrimas, e na pura ira que crescera dentro dele naquela noite, quando seu pai chegara bêbado, irritado e determinado a bater em algo, ele se lembrava do motivo pelo qual não se permitia sentir nada por ninguém. Não que uma única noite na cama de Lucilla significasse que ele sentia algo. Ele acordara por volta das 4h. Levara alguns momentos para recordar onde e com quem estava. Ela estivera aninhada ao lado dele, um braço passado de forma possessiva sobre a cintura, e Christos ficara deitado ali, relembrando tudo que acontecera entre eles. Ele era um homem que gostava de sexo e de muitas parceiras. Naquele momento, porém, tudo que ele quisera fora acordá-la e fazer tudo novamente. Era uma sensação nova. Ele não gostava disso. Por isso, saíra da cama e voltara ao quarto de hóspedes, vestindo-se e pretendendo ir embora antes de ela acordar. Contudo, Christos não fora capaz de sair sem voltar ao quarto e olhá-la uma última vez. O corpo dela estava exuberante debaixo do lençol, e ele se flagrara alisando o cabelo dela. Por quê? Ele não sabia, mas se levantara e partira sem olhar para trás. Lucilla Chatsfield não era diferente das outras mulheres. Sua fascinação por ela vinha do fato de ela não querer sucumbir ao charme dele, como as outras mulheres faziam. Ele dissera a si mesmo que ela seria uma mulher diferente no dia seguinte, que, quando ele a convocasse, ela iria de bom grado, arfante, e ele poderia fechar a porta e tomá-la nos braços se quisesse. Então, concluíra que precisaria fazer amor com ela novamente, apenas para mantê-la flexível e cooperando, enquanto ele moldava os investimentos dos Chatsfield e reabilitava a reputação deles. Fora o plano perfeito. Até ela recusar sua convocação, olhando-o de forma fria e profissional, dizendo-lhe que estava agradecida por ele ter ido embora. Christos passou a mão pelo cabelo e se jogou na cadeira. Lucilla não significava nada para ele. Se ela queria fingir que eles nunca tinham sido amantes, por ele, sem problema. Contanto que ela fizesse seu trabalho, ele não se importaria com o que ela fizesse em seu tempo livre... Ou com quem fizesse. Contudo, ele se recordou de quando ela lhe dissera que já fazia muito tempo desde a última vez em que ela fizera sexo. Ele sentira a tensão no corpo dela, os tremores, e vivenciara uma onda de ternura por Lucilla naquele momento. Ele era o primeiro dela em muito tempo. Um crime, dada a beleza dela. Porém, depois de trabalhar com ela nos últimos meses, ele sabia por que não tinha amantes. Ela era focada demais no trabalho. Bem, ele também era. Tinha um trabalho a fazer ali, e isso era o mais importante. No centro de detenção juvenil, ele jurara que nunca mais se permitiria reagir de forma emotiva. No início, ele precisara brigar quase diariamente para estabelecer sua dominância. Entretanto, depois de fazer isso, ele recorrera à biblioteca e lera todos os livros disponíveis. Quanto mais livros chegavam, mais ele os lia. Quando fora liberado, aos 18 anos, mudara tudo a respeito de si: seu nome, seu sotaque, suas maneiras, sua qualificação. Tornara-se uma pessoa nova. Não havia motivo para continuar sendo quem era. Sua mãe morrera, e seu pai era um desgraçado que nunca mais se meteria com o filho que ele surrara mais de uma vez. Christos nunca mais olhara para trás.


Ele massageou a têmpora enquanto lia os relatórios no computador. Sim, ele sonhava às vezes. Ainda sentia o gosto do medo e da fúria daquela noite na casa de seus pais, e de todas as outras noites em que seu bruto pai retornara do bar. A vida que eles haviam levado fora boa durante longos períodos de tempo, pontilhada por momentos infernais. Fora o inferno que moldara o homem que ele se tornara. E ele não conseguia esquecer esse inferno, pois por mais bem-sucedido que se tornasse, por mais que deixasse para trás o menino raivoso e espancado que fora... Aquele menino ainda retornava em seus sonhos, assustado, irritado, fazendo coisas que não devia. O telefone tocou, e ele apertou o botão impacientemente. – O que foi? A voz de Sophie estava profissionalmente distante, mas ele sabia que ela não era exatamente uma fã dele. Não depois de ele tê-la enviado para garantir a presença de Nicolo Chatsfield na reunião dos acionistas. Ela retornara diferente. Entretanto, conseguira o impossível, e isso era tudo que importava para Christos. – É a srta. Chatsfield. Veio vê-lo. Christos não gostou da ponta de empolgação que sentiu. – Peça para ela entrar. – Sim, senhor. A porta se abriu, e Lucilla estava ali, distante e linda. Ele precisou se conter, pois não vira o que ela estava usando sentada atrás da mesa. A saia preta e a blusa branca já eram esperadas, mas os sapatos de salto com estampa de leopardo, não. As pernas dela ficavam com um quilômetro de comprimento com aqueles saltos... E Christos se recordou de quando elas haviam envolvido sua cintura enquanto ele a penetrava. – O que é, srta. Chatsfield? – disse ele, fingindo tédio. Contudo, ele não podia se levantar, ou ela veria a verdade. Lucilla fechou a porta e foi até a mesa dele. – Quero que você vá embora – disse ela tranquilamente. – Isso não é nenhum segredo, Lucilla mou. – Estou falando sério, Christos. Desta vez, você vai embora. Ligue para o meu pai e peça demissão. Depois, dê o fora da minha empresa e da minha vida. Um calafrio de alarme percorreu a nuca dele. Christos se levantou. Eles se entreolharam por cima da mesa, e ele percebeu que o queixo dela tremeu. Apenas uma vez. Levemente. Uma mulher tão forte! Tão reprimida! – Infelizmente, não posso fazer isso, querida. Não vou embora até que o trabalho esteja feito. E ele não está. Sinto muito se você resolveu ter um ataque de consciência pela noite passada, mas isso não muda nada. Vim para ficar. – Você precisa repensar suas repostas. Ou vai ter de dizer aos acionistas daqui a alguns dias exatamente quem é Nikos Stavrou. O gelo se formou dentro do estômago dele. Mas Christos não reagiria. – E quem você acha que ele é? – perguntou ele levemente. Perigosamente. Ela engoliu em seco. – Sei quem ele é. É um criminoso. E é você.


Capítulo 8

LUCILLA NÃO conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Seu estômago se revirava de fúria e dor. O triunfo que ela esperara sentir estava estranhamente ausente. Ela quisera descobrir algo a respeito de Christos, algo que o fizesse ir embora... Mas não esperava aquilo. Ele estava ali, tão alto, distante e irritado. Não estava nem um pouco intimidado. Ela esperara isso? – Não sei o que você acha que sabe sobre mim, Lucilla mou, mas não há nada que você possa dizer que vá me fazer pedir demissão. Ela inspirou fundo. Ele estivera em sua cama na noite anterior. Fora um amante terno e incrível. Despertara nela reações que a haviam deixado perplexa. Reações que ela queria vivenciar muito mais vezes. Mas ele não era quem ela imaginara. Não era o homem misterioso, frio e sofisticado, que fingia ser. Era um violento criminoso. Ou fora. – Você quase matou um homem – disse ela, a garganta embargada. – Seu próprio pai. O rosto dele se transformou numa fria máscara. Se ele tivesse desmoronado e dito que cometera um erro na juventude, que se arrependia de seus atos, que se transformara num homem melhor porque sabia que precisava fazer isso, talvez ela tivesse sentido uma onda de solidariedade por ele. Daquele jeito, porém, ela se sentiu irritada, traída... E triste. Muito triste. Quem era aquele homem ao qual ela se entregara na noite anterior? Ela não conseguia esquecer a aparência dele quando abrira a porta do quarto de hóspedes; perdido, sozinho e quase aterrorizado. – Fiz isso de fato. E paguei por isso. – Mesmo assim, você continua escondendo isso. E mudou de nome. Um lampejo de raiva surgiu no rosto dele. – Claro que mudei. Eu era uma criança, Lucilla, e cometi um erro. Isso tem de me acompanhar pelo resto da vida? – Mas seu pai... – Ela sentia muitas coisas por seu próprio pai, mas não o tipo de ódio que poderia fazê-la querer matá-lo. Jamais. Decepção, amor e irritação, sim. – Só porque um homem faz um bebê com uma mulher, isso não significa que ele seja um pai. – Também não significa que ele mereça o que você fez com o seu. – A voz dela era pouco mais que um sussurro. Ela não conseguia entender como ele pudera fazer o que a detetive lhe contara.


Nikos Stavrou passara quatro anos em uma instalação de detenção juvenil por ter atacado seu pai, quase o matando. Não, o lar dos Stavrou não fora feliz. O pai era um bêbado, e a polícia era chamada frequentemente para resolver problemas domésticos. Entretanto, atacar o próprio pai com um porrete, surrando-o tanto a ponto de fazê-lo passar dois meses no hospital? Ela estremeceu ao pensar que aquele mesmo homem a tocara de forma tão terna na noite passada. – Não vou discutir isso com você, Lucilla. Não é da sua conta. Parecia que ela ultrapassara algum limite trazendo aquele assunto à tona. Mas que escolha ela tinha? Ele não podia ficar. Ela não podia permitir que um homem como ele administrasse aquela empresa e a julgasse, julgasse sua família. – Não, não é. Mas o Chatsfield é. E quero que você vá embora. Peça demissão, Christos. Os olhos dele brilharam perigosamente. – Não tenho medo de você, Lucilla. – Você tem até a reunião dos acionistas. Se não tiver ido embora até lá, vou ter muito a dizer quando chegar minha vez de falar. – Você é uma megera fria – disse ele tranquilamente, e ela sentiu o golpe daquelas palavras como se ele tivesse esfaqueado seu coração. – Tão superior e moralista. Mas, quando for me olhar com desprezo, não esqueça que conheço os sons que você faz quando chega ao orgasmo. Ouvi você implorar, Lucilla. Por mim. Pelo meu toque. – Isso foi antes de... – Você me imploraria novamente, agora, aqui mesmo, se eu beijasse você. Ela recuou instintivamente, seu coração martelando dentro do peito. Pois, se ele contornasse aquela mesa e a tomasse nos braços, Lucilla tinha medo de acabar provando que ele tinha razão. Sem querer, ela transformara aquela noite em algo mais. Ela começara a gostar dele de verdade, apenas um pouquinho. Mas isso era falso. Ele nem era quem dizia ser. Sendo assim, ele também não poderia ter fingido tudo facilmente na noite anterior? Fingido que o que eles haviam compartilhado fora importante? – A reunião Christos – disse ela ao chegar à porta. – Peça demissão, e você vai poder ir à reunião como se tudo estivesse normal. Diga que recebeu uma proposta. Não me importa. Mas faça isso, senão... Ela não conseguiu mais olhar para o rosto dele, não conseguiu mais olhar para a fúria, a frustração... O arrependimento?... Haviam surgido no rosto dele sem ter vontade de correr para abraçá-lo. Lucilla abriu rapidamente a porta. Ela voltou a seu escritório, tremendo, e se deu conta de que lágrimas escorriam por suas faces. Fazia tanto tempo desde que ela chorara pela última vez... Entretanto, ela não conseguiu mais se conter. Afundou numa cadeira e apoiou o rosto nas mãos. Em seguida, chorou. O TELEFONE de Lucilla tocou naquela noite, despertando-a de seu sono parcial. Ela ainda estava no sofá, vários papéis espalhados diante de si. Tivera muita dificuldade de se concentrar neles, pois a culpa e a raiva haviam duelado pela dominância. Ela encontrou o telefone debaixo de uma pilha de papéis. Era Christos, e o coração dela murchou antes de se inflar inexplicavelmente. – Sim? – Ela fechou os olhos e lutou para recuperar a compostura.


– Quero falar com você. – Você está falando comigo. – Pessoalmente, Lucilla. – Chego às 20h. – Agora. – Então, fale pelo telefone. Ele suspirou. – Pois bem. Quero saber como você obteve essas informações. O coração dela latejou. – Contratei uma pessoa. – Claramente. – Ele soava frio, e Lucilla detestou aquilo. – Deve ter custado muito caro. – Tenho dinheiro. Você sabe disso, já que meu pai colocou você no controle do fundo. – Sim. Não entendi por que você não comprou o retrato da sua mãe, mas você gastou uma fortuna para desvendar meu passado. Você me odeia tanto assim, Lucilla? O coração dela doeu quando ela se lembrou do retrato de sua mãe. Fora um sacrifício necessário não dar um lance por ele. Mas por que ela estava se sentindo como se tivesse feito algo errado? Por que se sentia mal por Christos? – Não odeio você – disse ela, falando a verdade para variar. – Só quero o lugar que é meu por direito na minha própria empresa. – Não é sua. É do seu pai. E dos seus irmãos. Pertence a todos vocês. E sou a pessoa certa para devolver a glória a ela. – Sou capaz, Christos. – É, sim. Mas não tem experiência. Já recuperei mais empresas do que você conseguiria imaginar. Mas vá em frente, Lucilla mou, faça as coisas à sua própria maneira. Ela perdeu o fôlego. – Vai pedir demissão? – Isso deixa você feliz? Sim. E não. Droga! – Claro que deixa. – Ela inspirou fundo. – Não vou contar a ninguém, Christos. Dou minha palavra. Peça demissão, e eu rasgo o relatório da detetive. Ela pensou tê-lo ouvido soltar uma leve risada. – Você é dura na queda. O Chatsfield é seu. Pode destruí-lo. Já não me importa mais. – Não estou tentando magoar você. – Magoar? – Ele parecia surpreso. – Você não conseguiria, Lucilla. Eu precisaria me importar antes. Então, ele desligou, e Lucilla simplesmente ficou parada ali com o telefone na orelha, pensando no vazio que sentia por não ouvir a respiração dele. LUCILLA NÃO se sentiu tão triunfante assim ao longo dos dias que se seguiram. Christos passou a maior parte do tempo a ignorando. Quando ele a olhava, não havia um pingo de sentimento em seus gélidos olhos. Ela não contara a ninguém a respeito das descobertas da detetive. Até mesmo deixara de contar a Antonio. Ela não sabia ao certo o motivo, mas não queria compartilhar aquelas informações ainda.


Além do mais, Antonio ainda estava trabalhando para assumir o comando dos hotéis Kennedy, e ela não queria distraí-lo. Ter aqueles hotéis entre os investimentos dos Chatsfield concretizaria a posição dela como diretora executiva quando Christos fosse embora. Quando Christos fosse embora. Pensar nisso não a deixava tão feliz quanto deixara no passado, o que deixava Lucilla furiosa consigo mesma. Só porque eles haviam dormido juntos uma vez? Porque ela o vira vulnerável e humano? Se ela se permitisse ter pena dele, estaria provando que era exatamente como ele dissera que ela era algumas semanas antes. Fora durona, implacável, como ele dissera que ela precisava ser. Ela trabalhou até tarde na noite antes da reunião dos acionistas, repassando seu plano de negócios e suas planilhas. Quando Christos fosse embora, o pai dela podia tentar trazer uma pessoa nova, mas ela não lhe daria essa oportunidade. Provaria que era a sucessora lógica e faria tudo de maneira tão perfeita que Gene Chatsfield não conseguiria pensar em ninguém melhor. Quando ela viu que estava tudo perfeito, Lucilla desligou o computador e olhou a hora. Já passava das 20h. Ela se levantou, colocando todos os papéis na pasta. Então, desligou a luz e saiu. A porta de Christos estava aberta, uma luz estava acesa na mesa dele. Ela pensou em passar direto, mas endireitou os ombros e foi até lá. Christos ergueu o olhar, seu rosto assustadoramente lindo à fraca luz. Ela beijara aquele rosto, pusera a língua entre seus sensuais lábios. Sentira-os em seu corpo... – Ah, Lucilla, entre. – Ele se levantou e foi até o armário de bebidas. – Tome um drinque comigo. – Eu não devia – disse Lucilla quando uma onda de culpa cresceu dentro dela. – Só um. Um brinde ao futuro. Seu futuro. Ela entrou no escritório dele quase relutantemente. – Talvez um só. – Como ela poderia recusar se estava conseguindo exatamente o que queria? Ela vencera. Ele serviu vodca num copo e acrescentou água tônica e um toque de limão. Entregou-o a ela. – Seu preferido, certo? Ela ficou chocada por ele saber. – Sim. Os dedos deles se tocaram quando ela pegou o copo. A pele de Lucilla ardeu com o contato, mas ela não afastou a mão. – Eu observo, Lucilla mou. Você bebe vodca e água tônica, pinot grigio e cabernet sauvignon, variando com malbec às vezes. Essas são suas bebidas. Ela pôs a pasta numa cadeira. – São, sim. Ele serviu uísque e ergueu o copo. – A você, Lucilla. Você venceu a batalha. – Desculpe, Christos. – Lucilla se flagrou dizendo. Ele deu de ombros e bebeu um gole. – Não vai beber ao seu triunfo? Naquele instante, Lucilla não estava com vontade de beber. Seu estômago se revirava como se ela fosse uma menina novamente. Uma menina cheia de medo e preocupação pela família, que não sabia como resolver as coisas. Tentara, mas isso lhe custara demais. Seus sonhos, sua independência durante


um longo tempo, até mesmo sua saúde, quando ela fora diagnosticada com uma úlcera com apenas 17 anos de idade. Mas isso fora muito tempo atrás, e ela não tinha mais úlceras. Ela ergueu o copo e bebeu um gole. Em seguida, pôs o copo na mesa e pegou a pasta. O escritório parecia um tanto trêmulo quando ela se levantou novamente, e ela censurou a si mesma. Precisava mesmo se alimentar melhor. – Sinto muito pelas coisas terem precisado acontecer desse jeito – disse ela. Estava com a fala arrastada? Lucilla piscou quando o mundo pareceu girar um pouco mais. Em seguida, pôs a mão na cabeça. Christos apareceu ao lado dela. – Por que não se senta um instante? Você parece mal. Ela se sentia mal. Ele a colocou numa cadeira, e ela ficou sentada ali por um instante, sonolenta. Christos estava de cenho franzido enquanto a olhava, as mãos nos bolsos. – Desculpe – disse ela. – É que estou muito cansada. – Então, feche os olhos e descanse. Ela se obrigou a abrir os olhos e tentou ficar de pé. – Não, é melhor eu ir para casa. Tenho de me preparar. A mão de Christos já estava no ombro dela, empurrando-a delicadamente de volta para a cadeira. – Durma, glykia mou. Tudo vai estar bem quando você acordar.


Capítulo 9

QUANDO LUCILLA acordou, ela estava numa cama. Ficou deitada ali por um instante, a cabeça girando, e tentou se recordar de como chegara até ali. Ela tomara um drinque com Christos. Depois disso, ela não se lembrava de mais nada. Devia ter estado tão cansada que pegara um táxi para casa e desabara na cama. Ela se apoiou num dos cotovelos, franzindo o cenho. Podia jurar que estava ouvindo o oceano... O que era loucura. Não havia oceano em Londres. Ela bocejou e esfregou o rosto. Então, seu coração disparou quando ela recordou que dia era. A reunião dos acionistas! Ela precisava se vestir e chegar ao escritório antes que ela começasse. Christos anunciaria sua partida, e ela estaria presente para assumir a responsabilidade pelo futuro da empresa. Lucilla saiu da cama e ficou parada ali, cambaleando por um momento. O quarto não parecia familiar, nem o cheiro. Havia um toque de sal no ar. Ela enrugou o nariz. Limão? As persianas estavam fechadas, mas a luz entrava enviesada por entre as tiras e... Persianas? Ela não tinha persianas. Lucilla foi até a janela e separou duas tiras da persiana. A luz a cegou, e ela precisou de alguns segundos piscando para ajustar o foco. Ela balançou a cabeça. Estaria tendo alucinações? Tudo que ela via era azul. Um grande terraço com uma piscina e, além dela, apenas o oceano. O pânico a dominou. Lucilla se virou e correu até a porta do quarto. Entretanto, quando tentou abri-la, não conseguiu. O medo subiu por sua espinha. Mas não durou muito, pois a fúria veio logo em seguida. Ela não estava na Inglaterra. Não sabia onde estava, mas alguém a sequestrara e a levara para longe antes da reunião dos acionistas. Só podia ter sido Christos, claro. Ninguém faria algo assim. Mas para onde ele a mandara? E como diabos ela fugiria e voltaria para destruí-lo? Lucilla foi para as grandes janelas que davam para o terraço. Contudo, elas também estavam trancadas. Ela pensou em pegar uma cadeira e quebrar o vidro, mas de que adiantaria se ela se cortasse ao fazer isso? Ela viu um telefone na mesa de cabeceira e pegou o fone. Estava mudo. Naquele exato instante, a maçaneta se virou, e ela ficou parada ali com o coração na garganta enquanto a porta se abria. Ela não sabia o que estava esperando, mas, definitivamente, não era o


homem parado ali com uma bandeja nas mãos. – Christos! Ele entrou. O cheiro de comida fez o estômago dela roncar, mas Lucilla estava irritada demais para comer. – Bom dia, Lucilla. Imagino que tenha dormido bem. Ela cerrou os punhos. – Onde estou? O que você fez? Ele colocou a bandeja sobre a mesa ao pé da cama, e ela resolveu não esperar uma resposta. Correu porta afora, descendo por uma escadaria escura até sair numa espaçosa e iluminada sala de estar que também dava vista para o mar. Naquele lado da casa, porém, ela conseguiu ver um vilarejo e uma marina lá embaixo. As construções eram branquíssimas à luz do sol, o oceano, tão azul-cristalino. O terreno nos arredores era claramente vulcânico, com penhascos e ilhas menores mais distantes no mar. Ela se virou e encontrou Christos atrás dela, as mãos nos bolsos, observando-a com aqueles olhos que espelhavam o mar. – Grécia? Você me trouxe para a Grécia?! Ele deu de ombros. – Você não me deu escolha. Ela passou a mão pelo cabelo. Então, viu o próprio reflexo num espelho do outro lado do recinto. Seu cabelo era uma desgrenhada massa castanho-avermelhada, a pele, clara como creme, e ela estava usando uma calcinha e uma camiseta que dizia “Eu amo Cefalônia”. – Eu não dei escolha? Christos, você me sequestrou! Então, ela se deu conta de como ele devia ter feito aquilo. – Meu Deus, você me dopou! – Como eu disse, você não me deu escolha. Ela balançou a cabeça violentamente. Lágrimas surgiram em seus olhos. Ela quisera acreditar nele. Acreditara nele. Embora ele tivesse feito algo terrível quando criança, ela dissera a si mesma que já fazia muito tempo. Que ele não era mais uma criança, que não era violento. Mas era desonesto. E talvez ainda fosse violento. Como ela poderia saber? Imediatamente, o coração dela disse Não. Ele não era do tipo de homem que a machucaria. Fora tão maravilhoso, tão terno na noite em que eles haviam feito amor. E não precisara ser. Poderia tê-la possuído com força, violentamente, e ido embora sem olhar para trás. Contudo, ele fora delicado quando ela lhe dissera que fazia muito tempo. E estivera perdido quando ela batera à porta do quarto de hóspedes. Ela não conseguia esquecer isso. Mas aquilo... estava além da compreensão. – Quero ir embora. Agora. – Pode ir quando quiser, Lucilla. Mas peço para que fique. Ela cruzou os braços, sentindo-se exposta, sozinha e confusa. – Por que eu faria isso? Está claro que não posso confiar em você. Você me abduziu! Ele não pareceu arrependido. – Você ameaçou toda a minha carreira. Sem falar na vida que construí cuidadosamente depois de tudo que quase me destruiu. – Mas não fiz nada. Eu disse que não contaria a ninguém. Prometi destruir o relatório! Foi a vez de Christos parecer irritado.


– E eu devia acreditar em você? Você estava disposta a me expor aos acionistas do Chatsfield se eu não fizesse o que você queria. Como posso saber se você não vai querer me derrubar depois, quando achar que ofendi você novamente? – Eu jamais faria algo assim. – Claro que não. Quando eu for trabalhar para alguma outra empresa, quando essa empresa acabar ameaçando a sua, você não vai usar o que sabe para me fazer, mais uma vez, recuar, vai? – Ele se aproximou dela, seu grande corpo vibrando de raiva e indignação, e Lucilla se sentiu censurada quando devia se sentir furiosa. – Como eu podia deixar você ter uma informação dessas sem obrigá-la a confrontar as circunstâncias do meu passado? Se ainda quiser me destruir depois disso, fique à vontade. Mas você não vai fazer isso sem saber o que você escolheu destruir. Você me deve isso. – Não devo nada. – A voz dela era um sussurro. Por que ela lhe devia algo? Ele não fizera nada por ela. E ainda a dopara. – Não? Você não viu o tamanho da minha multa por rescisão de contrato, Lucilla mou? Se eu for embora, como você tanto quer que eu faça, a empresa vai me dever muito. Não tanto quanto se vocês me demitissem diretamente, mas o suficiente para abalar vocês. Fique aqui comigo, faça o que eu pedir, e não vou levar nem um centavo. Essa será sua dívida comigo, e ela terá sido quitada por completo. Ela engoliu em seco. Não pensara na multa rescisória. Um erro da sua parte, mas o pai dela não teria prometido a Christos mais do que eles poderiam pagar. No entanto, isso significaria que eles precisariam fazer sacrifícios em outras áreas dos negócios durante um tempo. Porém, se ela ficasse, se fizesse o que ele pedisse, ela iria embora sem lhe dever nada. Era um preço pequeno a pagar. Contudo, ele a abduzira. Ela não podia esquecer isso. – Por que não me pediu isso em Londres? Por que achou que precisava me trazer aqui contra a minha vontade? Ele a olhou como se ela fosse burra demais para entender a situação. E Lucilla quase sentiu que isso era verdade. Seu cérebro não funcionava como o dele. Ela não era capaz de tanta... Falsidade. Em seu mundo, as pessoas agiam com honra. – Se eu tivesse proposto isso a você em Londres, você teria rido. Você acreditava ter um trunfo e não teria aceitado. – Eu tinha o trunfo de fato. Claramente. Do contrário, você não teria feito isso. O sorriso dele foi soturno. – Touché, Lucilla. Você está começando a entender como o jogo é jogado. Sim, você tinha o trunfo e não estava disposta a ouvir nada do que eu tinha a dizer. Quando o olhar dele baixou para o corpo dela, Lucilla ficou ciente de que estava apenas de camiseta e calcinha, sem sutiã. Seus traidores mamilos pressionavam o fino algodão. – Você me dopou. – Sim. Apenas para fazer você dormir. – Você tirou minha roupa. Podia ter feito qualquer coisa comigo. Ele pareceu enojado, e ela sentiu uma pontada no coração. – Em primeiro lugar, não sou desesperado a ponto de me aproveitar de mulheres dopadas... Especialmente mulheres que eu já tive, e com a permissão delas, diga-se de passagem. Em segundo, não tirei sua roupa. Foi a governanta quem tirou, com a ajuda da filha. Lucilla olhou pelo recinto, esperando que pessoas aparecessem a qualquer momento. – Elas já encerraram por hoje. Só vieram abrir a casa e me ajudar com você.


Ela relaxou apenas levemente. – Há quanto tempo estou aqui? – Chegamos no início da manhã. Já é meio-dia. – Você perdeu a reunião dos acionistas. Ele deu de ombros. – Foi remarcada no último instante, infelizmente. Inconveniente para todos, mas inevitável. – E onde você disse que estávamos? – No nosso tour, obviamente. Estamos visitando possíveis propriedades para novos investimentos. Ela olhou novamente para a marina lá embaixo. – Que ilha é esta? – Creio que esteja escrito na sua camiseta. – Pensei que você fosse de Atenas. – Isso foi depois. Antes disso, eu morava na Cefalônia. O que eu imaginava que você soubesse, já que gastou tanto dinheiro para descobrir meu passado. Ela engoliu em seco. – O relatório só dizia o que você tinha feito e que tinha sido mandado para uma instalação de detenção juvenil por isso. – Entendo. O estômago dela roncou, e uma onda de tontura a atingiu. Lucilla se apoiou no encosto de uma cadeira. Christos a olhava com olhos semicerrados. – Você precisa comer. – Ele avançou e pegou o braço dela. Ela tentou se desvencilhar, mas ele simplesmente a segurou com mais firmeza. – Seja sensata e não resista, Lucilla. Ele a levou novamente para o quarto, colocando-a diante da mesa. Lucilla não queria fazer nada do que ele dizia, mas estava com muita fome. Ela levantou a tampa para revelar ovos, torrada e presunto. Christos serviu uma xícara de café e acrescentou creme. Ela devia ter ficado surpresa por ele saber como ela gostava de seu café, mas Lucilla não ficou. Ele era mesmo muito observador. – Vou dormir de novo se beber isto? – disparou ela. – Não. – Tenho motivo para não acreditar em você. Afinal de contas, é meu primeiro sequestro. – Também é o meu – disse ele, e ela quase riu. – Por que a porta estava trancada? – Porque eu não queria que você saísse antes de eu falar com você. Ela não vai mais ficar trancada. – O telefone não funciona. – Não. – Onde está meu celular? – Comigo. – Quero de volta. – Coma, Lucilla. Pense na minha proposta. Você pode ter seu celular de volta depois de me dar uma resposta. – E se a resposta for não? Ele arqueou uma das sobrancelhas. – Então, prepare-se para abrir os cofres, glykia mou. Porque vou exigir toda a multa rescisória. – Eu podia simplesmente ameaçar divulgar todas as informações que tenho.


– Podia. Mas isso não evitaria que vocês me devessem toda a multa. Se me destruir, vou retribuir na mesma moeda. – Ele indicou a vista. – Coma. Aproveite. Venha me procurar depois de pensar nas suas opções. Ele se virou e saiu, e Lucilla ficou sentada ali, olhando para a porta que ele deixara aberta. Então, atacou a comida como uma esfomeada. CHRISTOS NÃO estava especialmente feliz consigo mesmo. Ele estava no terraço, olhando para o mar lá embaixo, sentindo-se como se alguém o tivesse virado do avesso. Ele não retornava à Cefalônia com frequência, embora tivesse comprado aquela casa como lembrete de todas as suas conquistas. O filho de pescador se tornara rico o suficiente para comprar sua própria ilha se assim quisesse, mas ele se recordava dos dias felizes ali, quando ele fora criança. Antes de seu pai tê-lo levado, juntamente com a mãe, para Atenas, tentando encontrar um emprego diferente. Ele passara anos sem dar importância ao que pensavam dele, anos mantendo sua alma muito bem guardada de qualquer um que procurasse se aproximar. Não que Lucilla tivesse tentado isso, mas algo acontecera naquela noite no apartamento dela. Algo muito fora do comum. Ele não estava apaixonado, certamente não, mas sentia por ela uma atração que nunca sentira por outra pessoa. E isso o fazia agir de maneiras que não eram nada características. Ele podia ser implacável, mas só reagira emotivamente, em vez de sensatamente, uma vez na vida. Isso lhe custara quatro anos de sua vida, durante os quais ele jurara nunca mais permitir que a emoção o vencesse. – Aceito sua proposta. Ele se virou e encontrou Lucilla na entrada do terraço, seu comprido cabelo úmido, caindo pelas costas, o rosto sem maquiagem... E tão incrivelmente inocente por causa disso. Ela estava de jeans e uma blusa de seda da coleção de roupas que ele encomendara de Atenas. Eles se ajustavam perfeitamente a ela. – Fico feliz por saber. Ela deu de ombros ao se aproximar. – Acho que não tenho muita escolha. Não me custa nada deixar você me mostrar o que quer mostrar. Mas você vai embora do Chatsfield, Christos. – Como quiser. Antes que Christos pudesse determinar a intenção dela ao se aproximar, ela lhe deu um tapa no rosto. Forte. A face dele ardeu. Ele cerrou os punhos. A única coisa que ele jamais faria seria bater numa mulher, independentemente da provocação. Contudo, já fazia tantos anos que ninguém batia nele. Era chocante sentir o peso de um golpe em sua carne novamente. – Isso foi por ter me dopado. – Os olhos dela faiscavam. Ele reagiu às emoções que ferviam dentro dela... E dentro dele... E a puxou para seus braços. Então, esmagou a boca de Lucilla sob a dele, castigando-a com seu beijo. Mas quem ele estava castigando de verdade?, pensou ele ao sentir um relâmpago de desejo em seu membro. Ele a abraçou firmemente, beijando-a com força. Surpreendentemente, ela não estava tentando se desvencilhar; ela segurara a camisa dele e o estava puxando para si, como se ela também não conseguisse se saciar daquela fusão de bocas.


De alguma forma, ele encontrou forças para encerrar o beijo antes de perder o controle. Antes de empurrá-la para ao chão e possuí-la com força. Ele a afastou de si, e Lucilla o soltou como se ele estivesse em chamas. Ela estava corada, os lábios avermelhados e úmidos. Seus olhos faiscavam de desejo e confusão. – Isso – disse ele, a voz séria e grave – foi por ter me dado um tapa. Ela ficou parada ali, arfando. Então, afastou-se dele como se nada tivesse acontecido. – Bem, agora que já resolvemos isso... – A voz dela estava leve, tranquila, mas também havia um tremor nela, e um ardente relâmpago de possessão o atingiu por saber que ela não ficara inabalada. Lucilla foi até a borda da piscina e olhou além, para o mar. – Obrigada pelas roupas – disse ela por cima do ombro. – Não me surpreendo mais por você conhecer minhas preferências em nada. Nem meu tamanho. – Presto atenção aos detalhes, Lucilla. Só isso. Ela se virou para olhá-lo, os olhos faiscando com algo além de raiva desta vez. Mágoa, talvez? Confusão? – Você é muito bom mesmo. Não sei dizer o que você gosta de comer ou beber, nem quanto você calça. – Sendo assim, você não presta muita atenção aos detalhes. Você já jantou comigo. Deve saber o que comi naquela noite. As faces dela arderam, e Christos soube que Lucilla estava se recordando de mais do que a comida. – Sim. Ao menos um prato. – Esta noite, você conhecerá outro. E, se quiser saber quanto calço, basta perguntar. – Não vejo motivo para isso. – Foi você quem falou, não eu. – Eu estava tentando demonstrar algo. – Você sabe coisas a meu respeito, sim, Lucilla. Coisas muito mais pessoais que o tamanho dos meus sapatos. – Como você tanto gosta de dizer, não tive escolha. Vou fazer o que for necessário para proteger meu legado, Christos. Ele quase riu. – Eu não estava falando do relatório.


Capítulo 10

ELA ESTAVA totalmente ciente de seu coração martelando dentro do peito, da reação latejante em seu sexo quando a voz dele a acariciou. Sim, ela conhecia coisas pessoais a respeito dele que não tinham nada a ver com o relatório. O sabor dele. O toque. Os sons que ele fazia quando ela o tomava na boca e lhe dava prazer. A forma como ele arfava o nome dela em seu ouvido, a respiração quente e úmida enquanto ele despejava sua semente dentro dela. Ela conhecia os cheiros dele, a textura... – Aquilo foi um erro – disse ela, a garganta apertada. Ela não podia esquecer que ele quase matara um homem. E que a dopara e a levara para a Grécia. Ele lhe tirara sua escolha, e ela estava furiosa com ele. – Talvez, mas, ainda assim, foi um erro que você não viu nenhum problema em repetir várias vezes naquela noite. – O olhar de Christos a despiu de uma maneira que só ele era capaz. – Você sabe como é me ter dentro de você, gritar meu nome, implorar por mais. Você gostou, glykia mou. Não finja que não gostou. – Foi só sexo. Não significa nada. – Tenho ciência disso. Mas não vou deixar você mentir para si mesma sobre o que aconteceu. Sexo, sim. Mas várias vezes, e com todo o calor e êxtase que prometi naquela primeira noite no escritório. Ela engoliu em seco. Ah, sim, houvera bastante calor e êxtase. E, droga, ela mataria para repetir tudo. Naquele exato instante, seu corpo estava lânguido pelo beijo dele. Latejante, desejoso. Entretanto, Lucilla sabia que o dele também estava. Seria impossível não estar. Ela nunca beijara alguém com tamanha raiva e violência. Aquilo quase a assustava. Sem dúvida, intrigava-a. Ela queria mais. Não. Ele entrou na casa. Ela o observou ir até a mesa, abrir a gaveta e retirar algo. Então, Christos retornou e ofereceu a ela. – Seu telefone. Ela o pegou, sentindo um choque quando os dedos dele tocaram os dela. Ela não pensara que ele fosse devolvê-lo com tanta facilidade. – Estou surpresa por você confiar em mim o suficiente para devolver isto. – Não confio em ninguém, Lucilla. Mas você cumprirá sua palavra.


– E se eu tiver mentido só para recuperar meu telefone? Posso ligar e pedir ajuda. – Pode. Mas acho que você é mais inteligente que isso. Você se importa demais com seu império para arriscar uma parte tão grande do capital dele se tem uma saída muito mais fácil. Apesar de você não querer ficar, você ficará. Ela não queria respeitar aquela mente dele, nem concordar com sua avaliação. Mas isso sempre acontecia. Maldito! – Sim – respondeu ela. – E o que vou fazer aqui? O olhar dele foi enigmático. – Esta noite, jantaremos no vilarejo. – Você não me trouxe até a Grécia para jantar, Christos. Ele estendeu a mão, quase como se não conseguisse evitar, e passou um dos dedos pelo rosto dela. Lucilla não recuou, embora parte dela soubesse que devia fazer isso. Foi um triunfo simplesmente ficar parada ali e não se curvar na direção do toque dele, mesmo querendo tão desesperadamente fazê-lo. – Paciência, Lucillitsa. Você precisa aprender a ter paciência. Mais do que isso, percebeu ela, ela precisava aprender a conter aquela chama que se contorcia dentro de sua alma com o mais simples dos toques dele. LUCILLA FOI para seu quarto, um quarto muito espaçoso e bem localizado, e trabalhou em seu computador, que Christos também lhe devolvera. Os e-mails sobre a reunião adiada eram ríspidos, mas, em geral, todos haviam aceitado o adiamento. Ela recebera alguns e-mails de Antonio, perguntando se ela descobrira algo de útil, e alguns relatórios de eventos da semana seguinte. Talvez o mais surpreendente fosse o anúncio de que Sophie, assistente de Christos, precisaria se ausentar por um tempo por motivos pessoais. Num e-mail com cópia para Christos, Jessie dissera que ficaria feliz em cobrir a ausência de Sophie. Lucilla organizara tudo para que não houvesse nenhum problema sem ela, embora a ausência fosse inesperada. Ela estava incomodada por estar ali inesperadamente... Porém, a beleza do lugar também a atraía. Fazia tanto tempo que ela não tirava férias! Ela encontrou um biquíni entre as coisas que Christos comprara para ela e pensou em vesti-lo e sair para a piscina. Antes que Lucilla pudesse fazer isso, ela ouviu sons de respingos de água e saiu para a sacada, olhando para a piscina lá embaixo. Christos atravessava a água com tamanha elegância que ela se flagrou hipnotizada. Ele chegou a uma das bordas, girou e empurrou seu corpo novamente na direção do outro lado. Ele continuou nadando, indo e voltando, fazendo-a se perguntar até quando ele aguentaria. Eventualmente, ele foi até a borda que ficava de frente para o mar e apoiou os cotovelos nela, olhando a paisagem, o mar além. Não pareceu se dar conta de que ela o observava, e Lucilla se permitiu olhar à vontade. Ele estava de costas para ela. Sua pele era morena, seus músculos, bem definidos. Seu cabelo preto estava alisado para trás. Quando ele se virou de lado, seu perfil estava ainda mais deslumbrante do que de costume. Ele nadou até a outra borda e saiu. Estava arfando, a água escorrendo por seu corpo, e Lucilla sentiu aquele frio na barriga que sempre a atingia quando ele estava perto. Ela voltou para dentro, o coração em disparada. Então, ouviu-o quase abaixo de sua janela, falando com alguém em grego. Ela saiu sorrateiramente outra vez para olhar lá para baixo. Ele se secara e estava de costas para ela, o telefone na orelha.


Eles haviam dormido juntos, mas estivera tão escuro que ela não o vira de verdade. Olhar para o corpo dele agora foi quase mais do que ela aguentava. Ele era lindo, mas ela não esperara nada menos que isso. Seus olhos desceram pelas costas dele, por seu traseiro firme, suas pernas. Ele saiu novamente para o sol, e ela quase engasgou. A pele das costas dele era marcada por finas cicatrizes. Não eram perceptíveis à primeira vista; apenas quando a luz as atingia da maneira certa. O coração dela se apertou. Por que ela não as sentira naquela noite? Como pudera ter tido tanta intimidade com ele e não percebido as marcas que seu corpo tinha? Ela estivera tão alheia à realidade assim? Ele se virou, e Lucilla entrou novamente. Tudo dentro dela doía enquanto ela tentava processar o que acabara de ver. Como alguém podia ter aquelas marcas e não sofrer com uma incrível dor? E ela lhe dera um tapa antes. Agora, ela já não se sentia mais tão bem com isso. Seu estômago se revirava por ela tê-lo atacado, independentemente do motivo. Lucilla voltou a seu computador e tentou trabalhar. Contudo, não conseguia parar de pensar em Christos, na maneira como ele ganhara aquelas cicatrizes. Quando a hora do jantar chegou, ela pôs um vibrante vestido de chiffon laranja e o arrematou com sandálias de saltos baixos. Estava mais baixa do que gostava de ficar quando saiu para o foyer para encontrar Christos, alto, orgulhoso e distante. Ela já se sentia pequena perto dele, mas os saltos baixos aumentavam a sensação. Christos estava com uma calça cáqui e uma camisa preta, e a boca de Lucilla salivou ao ver a pele bronzeada exibida pela gola aberta. Seus olhos observaram os dele, mas Christos não disse nada que indicasse que ele sabia que ela vira suas costas. Ele já tivera muitas amantes. Provavelmente, não costumava esconder mesmo suas cicatrizes. Entretanto, ela queria conhecer a origem delas. Eram muitas. Havia outras? – Você está linda, Lucillitsa. As orelhas dela esquentaram. Ela não queria desejar os elogios dele. – Obrigada. E o que quer dizer esse novo apelido, Christos? Era a segunda vez que ele a chamava assim. Secretamente, ela adorava a maneira como ele dizia aquela palavra, como se estivesse acariciando a pele dela. – Significa “pequena Lucilla”. Por algum motivo, aquilo fez as mãos dela suarem. – Certo, meu amor – disse ela levemente, embora sua pulsação estivesse a mil por hora. Ele apenas sorriu para ela. Então, levou-a para fora, para um sofisticado carro esportivo. Ele fechou o teto conversível, e eles partiram por uma estreita estrada entre penhascos antes de saírem para um longo trecho onde ela conseguiu ver o oceano de um lado e a ilha do outro. Eles levaram cerca de 15 minutos para chegar ao vilarejo. Christos estacionou e foi ajudá-la a sair. O sol ainda estava no céu, mas estava se pondo. O vilarejo não era tão pequeno quanto ela imaginara, parecia mais uma pequena cidade. As construções eram um misto de brancas com coloridas, em tons de salmão e ocre-claro. Christos percorreu lentamente as ruas, para que ela pudesse admirar o lugar. Eles passaram por uma rua onde crianças brincavam, e Christos parou, seus ombros rígidos quando ele olhou para o beco. As construções eram um pouco mais humildes ali, havia mulheres sentadas nas entradas das casas, descascando legumes e conversando. As crianças eram pequenas e sujas, mas isso não era nenhum choque, já que eram crianças. Com frequência, Lucilla precisara ameaçar seus irmãos mais novos para que aceitassem tomar banho para jantar.


Ela se aproximou de Christos. Não sabia por que, mas sentiu uma forte vontade de dar a mão a ele e puxá-lo para longe. Contudo, ela não fez isso. – Eu tinha me esquecido – disse ele. – Do quê? Ele a olhou. Sua expressão estava tensa. – Não é nada. Vamos. Ele pegou o braço dela e desceu novamente pela rua. Lucilla não tentou se desvencilhar. Conseguia sentir a tensão nele, mas não sabia o que dizer. Eles chegaram a uma taverna ao lado da pitoresca praça, e Christos escolheu uma mesa perto da ponta. Havia uma banda na praça, tocando bouzoukis, tamborins e bandolins, entre outros instrumentos. Uma música linda, diferente do que ela costumava ouvir, e Lucilla sentiu uma leveza que não deveria sentir, dadas as circunstâncias de sua presença na Grécia. O garçom chegou, e Christos fez o pedido em grego, sem perguntar o que ela queria. Lucilla ficou incomodada, mas deixou isso de lado, pois a noite estava bonita demais, a música, adorável, e ela se sentia relaxada de verdade, o que era loucura. O vinho chegou. – Está gostando da música? – Sim. – Estava mesmo. Uma leve brisa a atingiu, vinda da marina próxima. Ela tomou um gole de vinho e franziu o cenho. Precisava lembrar que não estava de férias. Que fora levada até ali para ver algo que ele considerava importante o suficiente a ponto de trocar sua multa rescisória por aquilo. – Não entendo por que estou aqui, Christos. Estou esperando você me dizer. E se perguntando se teria algo a ver com aquelas cicatrizes. Ela estremeceu, querendo pegar a mão dele. – Fui criado aqui – disse ele depois de um longo tempo, seus olhos distantes. – E não na casa onde estamos, como você deve ter imaginado. – Ele voltou todo o poder de seu olhar para ela, e Lucilla tentou não levar as mãos a ele. Não obteve muito sucesso. Seus dedos tocaram os dele. Então, ela afastou a mão. Ele inspirou fundo. – Aquela rua... Nós morávamos naquela rua. Meu pai era pescador, e minha mãe, dona de casa. Eu era o único filho deles. Ela lera o relatório sobre problemas domésticos na casa dele, mas nunca pensara de fato no que aquilo significava. Sim, imaginara discussões violentas e talvez alguns tapas. Isso não era certo, mas o que ele fizera... – Sei que seu pai era violento. A risada dele foi amargurada. – Todos sabiam disso, glykia mou. Mesmo assim, isso não salvou minha mãe. Nem a mim. Lágrimas surgiram nos olhos dela. Ela as conteve. Então, a comida chegou, e Lucilla conseguiu se concentrar nisso. Christos não disse mais nada sobre sua família. Até pareceu relaxar um pouco. Porém, embora ela não tivesse chorado, estava tensa de uma forma inesperada. Queria saber o que ele tinha a lhe dizer e também se sentia como se estivesse invadindo a privacidade dele. Ela sabia coisas que desejava não saber. E aquelas cicatrizes... – Você perdeu sua mãe quando era jovem, não foi? Ela ergueu o olhar de seu prato, sentindo um repentino frio na barriga.


– Sim. – O que aconteceu? Ela quis dizer que aquilo não era da conta dele, dizer que não falava daquilo... Mas como podia dizer algo assim se já sabia tanto a respeito dele, e não por ele ter lhe dito? Eram apenas negócios, disse ela a si mesma. Negócios. Contudo, ela se sentia cada vez mais como se tivesse violado a privacidade dele com sua investigação. Lucilla engoliu para vencer o repentino embargo em sua garganta. – Ela saiu um dia e nunca mais voltou. Já faz vinte anos que não temos notícias dela. – Sinto muito. – Ela sofreu de depressão pós-parto. E, depois de ter Cara, acho que ela nunca mais se recuperou. Foi demais para ela. Então, foi embora. – Quantos anos você tinha? – Catorze. – Ela brincou com o garfo, empurrando a comida sem comer. – Eu criei Cara, sabe? Mas não sabia ser mãe. Por isso, fiz muita coisa errada. Se ela é impulsiva, a culpa é minha. – A culpa não é sua, Lucilla. Seus pais são os maiores culpados. Sua mãe, por ter abandonado os filhos; seu pai, por ter permitido que você, que também era uma criança, cuidasse de um bebê. Ela largou o garfo, a boca subitamente seca. – Por que estamos falando de mim? Achei que o assunto fosse você. – Somos nós dois. Você perdeu sua mãe aos 14 anos, e foi difícil para você. Também perdi a minha. Mas por um motivo muito diferente. Ele não disse mais nada, e Lucilla teve vontade de gritar. – Eu já disse o que aconteceu com a minha. Não vai retribuir o favor? – Já terminou de comer? Ela baixou o olhar para seu prato e se deu conta de que não conseguiria comer mais nada. – Sim. – Então, vou retribuir o favor, mas não aqui. Christos pagou a conta e levou Lucilla para a marina, onde ficavam os barcos de pesca. Ele prosseguiu pelo caminho até chegarem a uma construção. Apenas quando eles entraram foi que Lucilla se deu conta de que era uma igreja. Ele parou e fez o sinal da cruz, o que a surpreendeu. Então, levou-a mais para dentro. A igreja era pequena, mas as janelas eram de vitrais. A abóbada ficava muito acima das cabeças deles, pintada com afrescos que haviam desbotado com os anos. No entanto, eles não pararam. Christos a levou para o cemitério e, em seguida, para o que ela viu que era um ossuário. Os crânios e ossos de centenas de pessoas estavam empilhados em organizadas fileiras uma em cima das outras. O ossuário ficava protegido por barras, para evitar que pessoas entrassem. Era estranhamente bonito ficar ali vendo os ossos amarelados de pessoas que já tinham estado tão vivas quanto ela. – Minha mãe está aqui – disse Christos, com a voz leve e triste. O choque a deixou paralisada. Não porque a mãe dele estava morta, o que a entristecia, mas por fazer parte do que Lucilla imaginara que fosse uma coleção de ossos anônimos. Christos a olhou. – Na Grécia, não fazemos cremações. Enterramos os mortos em túmulos, mas só por um tempo. Não tem espaço suficiente. Quando o tempo de uma pessoa termina, ela é colocada aqui, a menos que a família seja muito rica e possa pagar por um túmulo permanente. E, naquela época, eu não era.


– Sinto muito. – Lucilla não sabia o que mais dizer. Ela disse a si mesma que era terrível o fato de a mãe dele estar morta, mas o que isso tinha a ver com a administração da empresa dela, com a partida dele? Entretanto, ela não conseguiu evitar se sentir péssima por ele. Ela não fazia ideia de onde sua própria mãe estava. Estaria viva? Christos sabia onde a mãe dele estava... E, ao mesmo tempo, não sabia. Esse pensamento a derrubou. Ele podia apontar para o ossuário, sabendo que ela estava ali... Mas não sabia onde, quem. A voz dele estava angustiada. – Acho que eu a matei. Eu e o meu pai. Ele fez o trabalho de destruí-la fisicamente. E eu fiz o resto quando o destruí. Lucilla apertou a mão dele. Ele era tão terno, vibrante... Mas parecia tão longe dela naquele momento. Perdido em seu próprio inferno. – Sinto muito. Não sei as palavras certas para dizer, mas sinto muito. Ele levou a mão dela à boca e deu um beijo no dorso. O calor surgiu dentro de Lucilla. – Acredito que sinta, Lucilla. Ele inspirou fundo. – Meu pai a estuprou. Eu não era o que ela queria, e, mesmo assim, ela me amou. Ela se casou com ele para me dar uma vida. E eu não consegui impedir que ele a machucasse, que a espancasse e destruísse sua vontade de viver. Até que um dia eu me tornei capaz. Eu tinha 14 anos, e ele tinha acabado de surrá-la até deixá-la ensanguentada. A mandíbula dela estava quebrada, o braço. Cheguei tarde demais. Mas peguei a primeira coisa que encontrei... O porrete que ele tinha acabado de usar para espancá-la... E o usei nele. – Christos... – Lucilla não conseguiu conter as lágrimas. Ela sentia os tremores que o atingiam e só queria abraçá-lo. Mas não sabia se ele permitiria. – Ele nunca mais a espancou. Você tem razão quando diz que eu quase o matei. Queria matar, acredite. Mas parei porque ela me implorou. – Ele suspirou. – Há mais coisas que eu poderia mostrar a você. Que eu poderia dizer. Mas vejo que não vou aguentar.


Capítulo 11

ELE NUNCA falava daquelas coisas com ninguém. Entretanto, estava contando tudo a ela. Quando ele criou aquele plano de trazê-la à Grécia, ele dissera a si mesmo que estava fazendo isso para proteger tudo que construíra. Pretendera começar pela Cefalônia e, em seguida, partir para Atenas, para mostrar a ela a sujeira, a miséria de sua adolescência. Contudo, ele já não se importava mais em proteger nada. Importava-se apenas com o fato de ela estar chorando, de ele ter sido o culpado. Ela perdera a mãe com a mesma idade com a qual ele fora preso e também perdera a dele na prática. Quando fora liberado, aos 18 anos, sua mãe retornara à Cefalônia e morrera de coração partido. – Lucillitsa – murmurou ele, abraçando-a. Ela cerrou os punhos na camisa dele e chorou. Ele olhou por cima da cabeça dela, para o ossuário, e seus próprios olhos ficaram enevoados. Vlakas. O que ele pensara quando a levara até ali? Fora um idiota por ter feito isso. Tudo que ele conseguira fora chateá-la e arrancar a fina fachada que protegia suas emoções. Em todos os outros aspectos, ele era invulnerável. Porém, quando retornava à Cefalônia, quando entrava naquela igreja... O que não acontecia fazia vários anos... A dor retornava com tudo. Eles ficaram daquele jeito durante um longo tempo. Finalmente, ela falou. – Sinto muito. Não sei por que estou tão abalada. Ele massageou as costas dela. – Porque seu coração é terno, mesmo que você seja durona por fora. Lucilla ergueu a cabeça para olhá-lo. Seus olhos estavam cheios de dor e tristeza, e Christos quis afastar aqueles sentimentos com um beijo. Estava irritado com ela por tê-lo ameaçado, por ter ameaçado sua carreira, seu futuro. Porém, abraçado ali com ela, ele mal conseguia se recordar disso. – Não foi minha intenção magoar você, Christos. Eu só queria que você me devolvesse minha empresa. Ele acariciou o rosto dela com os polegares. Desejava-a, embora soubesse que não devia. – Não fui eu quem a tirou de você, glykia mou. Os dedos dela apertaram a camisa dele, e Christos soube que atingira um ponto fraco. – Eu sei. Mas eu a queria mesmo assim. Preciso provar a ele... Lucilla baixou a cabeça. De certa forma, ela estava tão perdida quanto ele. Christos recuou e pegou a mão dela, sentindo algo se contorcer dentro dele.


– Vamos embora daqui. Ela olhou de relance para o ossuário, para as fileiras de crânios que os olhavam. – Claro. Eles retornaram pelo cemitério, passando pela igreja e saindo para a rua. Christos inspirou fundo. A mão de Lucilla apertou a dele. – Você está bem? – No geral, sim – disse ele, a voz embargada. Ele não esperava que ela envolvesse sua cintura com os braços e o abraçasse com força, mas foi exatamente o que Lucilla fez. Ele se permitiu abraçá-la novamente, permitiu-se baixar a cabeça para o cabelo dela, inspirar aquele doce perfume. Seu corpo começou a despertar. Ele sentiu a respiração de Lucilla mudar, sentiu quando o calor que sempre ardia entre eles começou a crescer dentro dela. Ele precisava beijá-la. Christos inclinou a cabeça dela para trás e pressionou sua boca na de Lucilla. Ela arfou, mas se abriu para ele, encontrando a língua de Christos com a sua. Ele poderia se afogar naquela mulher. Afundar-se e nunca mais voltar à tona. No momento, ele não se importava. Eles se beijaram profundamente, apaixonadamente, os corpos lutando pelo toque ao se enroscarem um no outro. Ele tocou sua latejante ereção na junção das coxas dela, ficando excitado ao ouvi-la arfar. Então, Christos se forçou a recuar antes que acabasse levantando a saia dela e a possuísse ali na rua escura. Ela fez um pequeno som; de frustração, alívio, recriminação própria? Tudo que ele sabia era que a desejava. – Vou levar você de volta à villa. E, Lucilla, vou levar você para a cama. Se não for o que você quer, você precisa dizer isso agora. Ela estava arfante. – E o que você faria se eu dissesse não? Ia me deixar aqui? – Claro que não. Mas deixaria você na porta e continuaria dirigindo. Os olhos dela faiscaram. – E faria o quê? Encontraria uma companheira para a noite? Ele mal conteve um grunhido. – Lucillitsa, sou adulto, consigo lidar com uma ereção sem precisar usá-la cegamente com a mulher mais próxima. Se você disser não, vou sobreviver. Mas não vou ficar feliz. Ela adentrou o espaço dele novamente, inclinou a cabeça para cima e passou os dedos no maxilar dele. – Eu devia dizer não. Mas não consigo. Quero estar com você, Christos. O mais rápido possível. Ele pegou a mão dela e voltou às pressas para o carro. Deu a partida no carro e disparou pelas ruas. Mais alguns minutos, e ela seria dele novamente. Ele a possuiria em sua grande e solitária cama, com os sons do mar arrebentando nas rochas lá embaixo. Ele a possuiria com tanta minúcia que ela jamais esqueceria aquela noite. Christos fez uma curva... E freou com tudo. Um rebanho de cabras estava atravessando a estrada sem a menor pressa. Christos engatou a ré e entrou em outra estrada, uma que levava a um reservado mirante. Ele parou o carro e saiu. Então, abriu a porta de Lucilla e a puxou para seus braços antes de imprensá-la contra a lateral do carro. Sua boca baixou para o ombro dela, e ela arfou. – O que estamos fazendo aqui, Christos?


– Não quero esperar – disse ele, os dedos indo para o zíper nas costas dela. Ele o baixou até abrir totalmente o corpete do vestido dela. Acima deles, as estrelas enchiam o céu. Uma fina tira da Lua estava baixa, pintando o mar com um pincel perolado. Os seios de Lucilla estavam apertados pelo sutiã, convidando-o a lambê-los. Christos baixou a língua para o vale entre eles, passando por cima de um dos montes em seguida. Ela arfou e se agarrou nos ombros dele. Ele levou as mãos às costas dela e abriu o sutiã, jogando-o dentro do carro. Os seios dela se libertaram, as pontas ficando enrijecidas, chamando a boca dele. Ele os tomou nas palmas, baixou a cabeça para sugar um dos perfeitos mamilos. – Christos... Não consigo pensar quando você faz isso... – Não pense. Apenas sinta. Ele terminou de abrir o zíper do vestido dela e o deixou cair. Lucilla arfou quando isso aconteceu, e Christos jogou o vestido dentro do carro. Não que ele quisesse perder tempo com isso, mas ela não gostaria se ele pisoteasse as roupas dela. – Você também – disse ela. – Quero tocar em você. Christos permitiu que ela abrisse os botões de sua roupa enquanto ele continuava fazendo amor com os seios dela. Ela era tão sensível, tão adorável. Então, ela tirou a camisa dos ombros dele, e Christos deixou a peça cair no chão. As mãos de Lucilla deslizaram sobre a pele dele, tocando, sondando, e o prazer vibrou dentro de Christos. Seu corpo precisava tanto do dela, mas ele não podia possuí-la rudemente. Ela merecia algo melhor, mas ele não seria capaz de esperar até que eles chegassem à casa dele. Christos se ajoelhou diante dela, segurando os quadris de Lucilla com as mãos. A calcinha dela era uma minúscula tira de seda, que ele baixou pelas pernas dela. – Christos, você não vai... – Vou – disse ele firmemente, dando um beijo na junção das coxas dela. Ele sentiu o calafrio estremecer o corpo dela e soube que Lucilla precisava tanto dele quanto ele precisava dela. Christos deslizou as mãos pela parte interna das coxas dela, abrindo-a com os dedos e lambendo o pequenino ponto do sexo dela, fazendo Lucilla gemer. Ela segurou o cabelo dele com uma das mãos. A outra foi escorada no carro, provavelmente, porque os joelhos dela estavam fracos. Ele torcia para que estivessem a sós. Christos apoiou uma das pernas dela em cima de seu ombro. Então, passou a língua por todo o corpo de Lucilla, provando-a por completo. Ela começou a gemer enquanto ele a provava implacavelmente, penetrando-a com a língua, circundando o clitóris até ela começar a movimentar os quadris para trazê-lo até onde ela o desejava. Christos fixou sua atenção no pequenino e sensível ponto enquanto ela se movia junto a ele, a mão já em sua nuca, direcionando-o. Ele segurou firmemente o traseiro dela enquanto a levava à beira de seu próprio penhasco pessoal. Queria fazê-la ter um orgasmo, queria que ela explodisse e gritasse seu nome para a noite. Ele sentiu Lucilla ficar rígida. Então, ela fez exatamente aquilo; seu corpo se contorcendo, o nome dele escapando dos lábios dela. Aquilo o encheu de satisfação e de uma avassaladora vontade de estar dentro dela na próxima vez em que ela explodisse em torno dele. O corpo de Lucilla ainda estava tremendo quando ele encontrou a entrada dela e a penetrou. Tudo dentro dela se contraiu em torno dele, e Christos se esforçou para não se perder logo no primeiro movimento. Ele encontrou seu controle, recuou e investiu novamente para dentro dela.


Lucilla gemeu enquanto ele repetia o movimento. Ela buscou a boca dele, envolvendo-o com os braços. Ele a beijou fortemente. Em seguida, abrandou o beijo, mas não a leve possessão do corpo dela. Ela estava tão quente e úmida, a pele dele estava ardendo com a necessidade de fazê-la chamar novamente seu nome. Porém, em algum momento, ele perdeu o controle, seu corpo cedendo às sensações que o percorriam. Christos a penetrou com mais força, mais fundo do que antes. Segurou os quadris dela, pressionou-a contra seu carro e usou o corpo de Lucilla para seu prazer. E para o dela, percebeu ele quando ela se contraiu e gemeu mais uma vez o nome dele, enchendo seu coração de desejo de valorizá-la, de venerá-la. Ele faz mais várias investidas para dentro dela... Então, retirou-se no último instante, derramando sua semente na coxa dela. LUCILLA NUNCA fizera sexo daquele jeito em sua vida. Fora tão cru, tão frenético... Tão necessário à vida... Que pensar nisso durante o longo caminho de volta à villa de Christos já a tinha deixado tensa quando eles chegaram. Eles não haviam conversado depois. Ele lhe entregara o vestido, ajudara-a a vesti-lo. Christos vestira a calça e jogara a camisa no banco de trás do carro. Beijara-a uma vez, rapidamente. Em seguida, dera-lhe um leve tapa no traseiro e a ajudara a entrar no carro antes de ir para seu lado. Eles entraram na escura casa. A mente dela estava a mil por hora. O que passara pela cabeça dela para fazer sexo com ele novamente? Seria louca? E, uma loucura ainda maior, quando aquilo poderia acontecer de novo? Ela teve vontade de grunhir. Tudo que ela desejara em sua carreira e sua família estava a seu alcance, se ela ao menos conseguisse dar as costas a ele. Mas ela não conseguia. Desde o instante em que ela ficara ao lado dele diante daquele ossuário, Lucilla perdera a vontade de deixá-lo para trás. Ele parou na sala, sob o luar, e se virou para ela. Lucilla estava com o sutiã e a bolsa nas mãos. – Peço desculpas por ter sido rude – disse ele, e Lucilla pôs os dedos na boca de Christos para calá-lo. Ela adorara cada momento do que ele fizera. Ele lhe ensinara coisas novas a respeito de si mesma, de seu próprio corpo, seu próprio prazer. – Por favor, não estrague a noite pedindo desculpas. Acho que o que aconteceu entre nós deve ter sido a coisa mais honesta que já tivemos. Eu gostei. Muito. Christos a puxou para si e capturou sua boca, delicadamente desta vez. Aquele simples e leve beijo fez Lucilla sentir um frio na barriga ao reviver a linda força do ato de amor dele. Ela jamais esqueceria a noite grega sobre eles, protegendo-os, nem o som da voz de Christos sussurrando o nome dela. – Quero mais, Lucillitsa. Tudo que você puder me dar durante o resto da noite. Ela tentou não se concentrar naquela expressão, o resto da noite. Seu coração acelerou e latejou ao mesmo tempo. Aquele homem a confundia, mas, ao mesmo tempo, ela precisava dele. – Também quero mais. Christos a ergueu nos braços e a carregou para o grande quarto principal. Colocou-a de pé e a despiu rapidamente. Então, tirou a própria roupa, e os dois caíram na cama em um emaranhado de braços, pernas e ardentes beijos. Desta vez, ele usou proteção para penetrá-la de forma tão perfeita quanto antes. Desta vez, porém, ela sentiu a doçura da união deles bem dentro de seu coração.


Capítulo 12

DESTA VEZ, quando Lucilla acordou, não estava sozinha. Christos estava deitado a seu lado, aquele grande corpo estendido, um braço acima da cabeça, deitado de barriga para baixo. Em algum momento durante a noite, um deles jogara as cobertas para longe. Lucilla se apoiou num dos cotovelos e observou as fortes linhas dos ombros dele, a perfeição total das feições dele. Ela sentiu um aperto no coração. Também em algum momento durante a noite, o mundo dela mudara; tudo se tornara mais nítido e claro do que antes. Ela não queria analisar os sentimentos ternos e possessivos que a inundavam quando ela o olhava, nem a onda de solidariedade ao pensar nele no cemitério. Ela se sentou e olhou atentamente para as costas dele, para a teia de cicatrizes, uma tapeçaria de dor. – O que está fazendo, agapi mou? Ela se assustou, a pele formigando de calor por ele tê-la flagrado. Não havia o que fazer a não ser admitir. – Olhando suas costas, Christos. Ele rolou e pôs as duas mãos atrás da cabeça. Estava gloriosa e lindamente nu, e aquela era a primeira vez que ela o via assim à luz do dia. Seu grosso membro estava apoiado na perna... E estava começando a despertar. Lucilla sentiu um frio na barriga. – Tem uma coisa que você pode olhar aqui – disse ele, e os olhos de Lucilla se voltaram imediatamente para os dele, encontrando Christos sorrindo. – Gosto de olhar para você inteiro. Ele a segurou e a puxou para cima de si. Ah, o calor da pele dele junto à dela era maravilhoso. Em algum momento, ela já ficara tão relaxada com um amante? – E eu gosto de sentir você inteira – disse ele, sua voz fazendo Lucilla formigar em todos os lugares certos. Ela afastou o cabelo da testa dele. Os olhos de Christos estavam velados, e ele a observava. Lucilla não conseguiu discernir o que ele estava sentindo. Além de desejo, o que estava totalmente claro pela maneira como seu pênis não parava de crescer junto ao abdômen dela. – Quero saber o que aconteceu com você – sussurrou ela. Imediatamente, todo o calor desapareceu dos olhos de Christos, e Lucilla soube que fora longe demais. Mas fora ele quem a levara até ali para lhe


contar coisas, e ela queria saber. Precisava saber para poder entendê-lo. – Não consegue imaginar? Ela passou o dedo pelos lábios dele. – Seu pai? Os olhos dele passaram a fulgurar de calor. Um raivoso calor. – Claro. Ele era um homem cruel. Gostava de causar dor. Em geral, o pai dela a ignorara, e também ignorara os irmãos de Lucilla, depois da partida da mãe deles. Ela sempre considerara isso cruel de certa forma. Como ela fora ingênua! Seu pai não fora exatamente cruel; fora egocêntrico e indiferente às necessidades dos filhos. Ele não era um monstro; era apenas um homem imperfeito. – Desculpe por ter batido em você – disse ela, sentindo um embargo na garganta. – Já sofri coisas piores. – Christos a virou de costas para baixo, seu corpo rígido e insistente contra o dela. – Já contei o suficiente, agapi mou? Algo mais que eu possa fazer por você, alguma outra forma de expor minha alma para a sua curiosidade? A voz dele tinha um toque de tensão que devia tê-la deixado preocupada. Durante os poucos meses desde a chegada dele ao Chatsfield, Lucilla percebera que Christos não se permitia ser dominado pelas emoções. Contudo, aquele homem lhe mostrara lados de si mesmo que ela não soubera que existiam. – Não estou tentando machucar você. Eu só me importo... – Especialmente por ter sido ela quem o obrigara a confrontar aquela parte de sua vida novamente. Ele baixou o olhar para os seios nus dela. – Prefiro não falar disso no momento. Ela podia culpá-lo? Seu coração latejava por Christos, sua alma queria reconfortar a dele. Lucilla só conhecia um jeito de fazer isso. Naquele instante, Christos precisava da conexão física entre eles. Não aceitaria a pena dela, mas aceitaria o conforto de seu corpo. – Sendo assim, não vamos conversar. Faça amor comigo, Christos. Isso é o que você pode fazer por mim. Ele adentrou o corpo de Lucilla com um único movimento, e os olhos dela se fecharam com a intensidade da sensação. Ele a preenchia, fazia com que ela não desejasse nada além daquilo. Naquele momento, ela pensou que daria tudo para sentir aquilo pelo resto de sua vida. Foi tão inesperado que lágrimas surgiram no fundos dos olhos dela. Ela se dispusera a destruí-lo, mas talvez tivesse destruído a si mesma. O rosto dele junto ao dela era tudo de que Lucilla precisava neste mundo. Ela virou a cabeça e o beijou quando as lágrimas escaparam. A voz dele ficou subitamente embargada quando ele se ergueu sobre ela. – Lucilla mou, não. Você me destrói quando chora. – Não é a minha intenção. Ele segurou o rosto dela e beijou suas lágrimas, e o coração de Lucilla se abriu com tudo que ela sentia, tudo que ela vinha tentando conter. De alguma forma, ela se apaixonara por ele. Por aquele homem que a enfurecia, que a desafiava, que a fazia se sentir incrivelmente sexy e viva. Todos consideravam Christos frio, inexpressivo, mas ela sabia da verdade. Ele se isolara do mundo pois fora machucado, e continuava isolado por não saber confiar em ninguém. Ela queria que ele confiasse nela. Que a amasse. Lucilla estremeceu ao sentir a força de suas emoções... E o medo de perder tudo se ele não fosse capaz de retribuir esses sentimentos.


Ela entrelaçou os dedos no cabelo dele, puxando sua boca para a dela. Beijou-o brutalmente, desesperadamente. Não aguentaria se ele fosse terno naquele momento; seu coração estava frágil demais. Ela precisava da força, da paixão, da avassaladora virilidade dele. Ele a abraçou, seu beijo reagindo ao dela. Lucilla sentia o coração dele martelando dentro do peito, mas não ousava ter esperanças de que fosse pelo mesmo motivo do dela. – Lucillitsa – grunhiu ele quando ela movimentou os quadris. – Quero voar, Christos – sussurrou ela. – Quero que você me faça voar. ELES PASSARAM os dois dias seguintes enroscados um no outro, mas Christos sabia que eles logo precisariam retornar. Os e-mails e telefonemas do escritório estavam aumentando, embora nenhum deles gostasse de falar disso. Eles deviam estar num tour pelos hotéis Chatsfield, não relaxando juntos na cama em plena tarde. Tantas coisas permaneciam por dizer entre eles. Aquilo não podia continuar daquele jeito, mas Christos estava relutante em trazer a realidade de volta ao relacionamento deles. Ele não tinha relacionamentos de longo prazo, mas conseguia se enxergar abrindo uma exceção para Lucilla. Só por um tempo, claro. Não para sempre. Definitivamente, ele não aceitaria nada eterno. Só de pensar nisso, ele já ficava gelado de pavor. Contudo, a ideia de abrir mão dela também o deixava gelado. Ele não gostava de ter aquelas emoções contraditórias. Fora o estado caótico de seus pensamentos que o levara a começar a conversa no jantar naquela noite. Eles haviam retornado à taverna para comer e, desta vez, talvez desfrutar um pouco mais da experiência. Contudo, ele se deu conta de que não estava aproveitando como devia. Não conseguia tirar seus olhos de Lucilla, que estava sentada, assistindo à banda na praça. O rosto dela era tão expressivo, especialmente quando achava que ninguém a estava observando. Ela era linda e quase despreocupada, o que o incomodava, já que ele se sentia dominado pelas preocupações naquele momento. Os acordes do Zeibekiko começaram, e os olhos de Lucilla se arregalaram em seguida. – O que está acontecendo? – perguntou ela. Christos se virou para olhar. Um homem começara a dançar, sozinho, como mandava a tradição, e estava claro que sua dança era para uma mulher sentada perto dele. Ela sorriu e bateu palmas, e o homem dançou em seu próprio ritmo. Ele estalava os dedos, avançava e recuava, lançando ardentes olhares para sua dama. A mulher parecia feliz, e o homem, intenso e determinado. E mais do que um pouco apaixonado. – É um Zeibekiko. Ele dança para ela. – Que romântico! Era mesmo... Ou podia ser. Christos não olhou novamente. Em vez disso, pegou algumas notas em sua carteira e as deixou em cima da mesa. – Vamos – disse ele, e o olhar dela se virou imediatamente para ele. A testa de Lucilla se enrugou de confusão e, em seguida, de preocupação. Ele se sentiu um idiota, mas se levantou e pegou a mão dela, levando-a para longe dali. – Estava lindo – disse ela. – É tradicional que um homem dance para a amada dele?


– Pode ser. – Ele não sabia ao certo por que não queria discutir aquilo com ela; simplesmente não queria. Aquele casal parecera feliz, apaixonado, e Christos não fazia ideia de como era essa sensação. Nem do motivo pelo qual alguém desejaria isso. Eles voltaram ao carro em silêncio. Lucilla se virou para Christos quando ele foi abrir a porta para ela, colocando a mão em seu peito. – O que há de errado, Christos? Ele detestava o fato de ela conseguir decifrá-lo tão facilmente. – Nada. – Não acredito. – A voz dela estava suave e meiga, e ele desprezou a si mesmo por desejá-la. Ele não era daquele jeito. Não fazia as coisas assim. Ele a levara até ali para salvar a si mesmo, até para puni-la por ter investigado sua vida, mas não pretendera precisar tanto dela. Desde aquele momento no cemitério, ele vinha se sentindo menos sozinho no mundo com ela a seu lado. Contudo, era perigoso sentir isso, pois ele sabia como as coisas podiam mudar rápido. Num instante, ele tivera sua mãe. No seguinte, não mais. Ele fora uma criança. Logo em seguida, um prisioneiro. Ele conhecia apenas extremos. E era hora de voltar a viver do jeito que ele sabia. Ele precisava dar um fim àquilo, rápido e implacável. Da maneira como ele fazia tudo. – Já estamos aqui há alguns dias, Lucilla. É hora de seguirmos em frente. Tenho uma empresa para administrar, e você também tem um trabalho a fazer. Pronto, ele dissera de uma vez. Partira do princípio de que ainda era o diretor executivo do império Chatsfield. Ele lançara aquilo como um desafio a ela, e estava esperando para ver o que ela faria. Se ela o ameaçasse, ele saberia, não saberia? Ele poderia esquecer aquela inconveniente atração e seguir com a mente clara. – Sim, sei disso. Devíamos estar fazendo um tour pelas outras localidades. – Exatamente. Mas acho que devíamos voltar a Londres. Vou precisar que você administre as coisas lá enquanto prossigo com o tour conforme planejado. Ele não deixou de perceber a mágoa nos olhos dela. Não fora seu plano dizer aquilo, mas, subitamente, ocorrera-lhe que ele precisava de tempo longe dela para renovar sua concentração. O olhar de Lucilla baixou, ela engoliu em seco. Christos sentiu uma súbita vontade de se ajoelhar e implorar pelo perdão dela. Ele endireitou o corpo e esperou a reação dela. – Certo. Repentinamente, as emoções que se reviravam dentro dela atingiram o ponto de ebulição. Ela violara sua privacidade, violara sua solidão. Agora, simplesmente aceitaria tudo que ele impusesse, como se não tivesse feito um enorme esforço para derrubá-lo? Era culpa dela ele estar se sentindo virado do avesso. Culpa dela ele não conseguir encontrar seu equilíbrio emocional. – Só isso, Lucilla? Está disposta a aceitar minha liderança agora? Nada mais de ameaças, de ataques de raiva? Ela pareceu perplexa. Em seguida, irritada. – Ataques de raiva? Está brincando? Como já discordei de você, isso quer dizer que dei ataques de raiva? Ele quase comemorou ao ver a fogosa Lucilla ressurgir. Contudo, ele precisava ser forte e firme com ela se quisesse pôr o Chatsfield, e sua própria vida, de volta nos eixos. – Não me importa como você os chame, mas prefiro que não discordemos na frente dos funcionários.


Os olhos dela faiscaram. – Vou discordar de você sempre que eu tiver vontade. E não, não vou ameaçar você. Ela inspirou fundo, e Christos achou que ela podia estar perigosamente à beira de chorar. Ele quis puxá-la para seus braços e pedir desculpas, mas estava paralisado pelos sentimentos conflitantes. Por que era tão difícil fazer o que ele sabia que precisava ser feito? Seria melhor para eles dois se ele abrisse mão dela agora. Se não a prendesse a si com falsas esperanças para o futuro. O queixo dela se empinou de um jeito que Christos já sabia que significava determinação. – Você é o diretor executivo do Chatsfield, Christos. Porque meu pai escolheu você. E, apesar de eu não concordar, preciso aceitar a decisão dele. Mas não vou seguir cegamente suas ordens só porque você me fez sentir vergonha de mim mesma por usar seu passado contra você. Não vou. Jamais. Mas vou dizer quando você estiver sendo um completo idiota. Ela abriu a porta do carro, entrou e lançou um olhar para ele. – Ah, sim. No momento, você está sendo um completo idiota. E bateu a porta. QUANDO ELES chegaram à casa no alto do solitário penhasco, Lucilla foi para o quarto no qual ela acordara no primeiro dia. Ela não dormira naquela cama desde então, tendo passado as últimas noites com Christos, mas estava irritada demais para ir para a cama com ele naquele momento. Ele não a impediu, e isso apenas a entristeceu mais. Seu coração doía, seus olhos ardiam com lágrimas contidas. Ela vinha se divertindo tanto naquela noite, desfrutando da comida, da música, da companhia dele. Ela adorara quando ele sorrira, o que não acontecera com frequência naquela noite, quando ele pedira comida para ela em grego e até mesmo quando ele abrira a porta do carro para colocá-la lá dentro com um beijo na mão antes de eles terem saído da casa. Ela foi até as portas duplas que davam para a sacada, abriu-as e saiu para a quente noite grega. Deus, o que ela estivera pensando? Por que lhe dissera que o queria naquela noite em que ele a levara ao cemitério? Se tivesse contido suas emoções, poderia ter ido embora da Grécia com seu coração intacto. Não, não poderia. Ela afastou aquela maligna voz e inspirou fundo várias vezes, tentando não chorar. Maldito fosse ele, e maldita fosse ela por ter ficado tão carente. Ele a fizera sentir coisas que ela nunca sentira com outro homem, e Lucilla permitira que seu coração tomasse as rédeas. E como ela estava agora? Christos só se importava com garantir que ela não usasse as informações que ela descobrira a respeito dele, enquanto ela se importava com ele. Com a felicidade dele. Lucilla segurou o parapeito. Ah, como doía amar! Ela nunca se apaixonara por ninguém antes. Amara sua família, mas sacrificara tanto por ela! Sacrificara todos os seus sonhos de juventude, suas esperanças, até mesmo suas ideias de amor, felicidade e filhos com um homem. Ela nunca se permitira se apaixonar antes... Ou talvez não tivesse sido capaz disso. Agora, porém, ela era, e se apaixonara. Pelo pior homem possível. Christos não a amava. Se amasse, não teria sido tão frio pouco antes. Ele se importava apenas com o trabalho, e ela tinha orgulho demais para implorar uma migalha de atenção a ele. Ela não faria isso. Jamais. Claramente, ele queria que tudo terminasse. Queria que ela voltasse a Londres e administrasse a empresa enquanto ele percorria as localidades sozinho. Ela não esperara isso.


Lucilla levou as mãos ao rosto e jurou não chorar. Droga, o que ela esperara? Que tudo voltasse ao normal, exceto o relacionamento deles? Que eles precisariam apenas de um quarto durante o tour, não de dois? Como ela fora idiota! Christos era um mestre em manipulação; ele a levara até ali e a obrigara a confrontar as circunstâncias da juventude dele. Soubera como ela reagiria, sem dúvida. Pois era isso que ela fazia. Observava, e registrava, e calculava. E se transformara num espetacular executivo por conta disso. Não, ela não o exporia agora. Não poderia. O que havia para expor? Que ele fora outra pessoa? Que seu pai o surrava tanto que ele ainda tinha cicatrizes? Que ele fora mandado para uma instalação de detenção juvenil por ter quase matado um homem que teria acabado por matar o próprio Christos e sua mãe? Só uma pessoa cruel faria isso. E ela não era cruel. Talvez essa fosse sua ruína. Talvez ela não estivesse disposta a fazer o que fosse preciso para atingir o sucesso. Ela não poderia ficar ali. Nem mais um instante. Lucilla voltou para dentro e vestiu jeans e uma confortável blusa de seda. Em seguida, pegou um suéter, a bolsa e a mala e desceu a escadaria. As portas estavam abertas para o terraço, e ela saiu, encontrando Christos de pé ao lado da piscina com um copo numa das mãos. Ele parecia perdido e solitário, mas Lucilla endureceu seu coração e jurou que não tentaria reconfortá-lo. Ele não queria seu conforto. Não a queria. Ele se virou ao ouvir os pés dela na pedra. Lucilla não lhe deu chance de falar. – Quero ir embora agora. – O coração dela estava em disparada. Ela achou que talvez pudesse parecer um tanto desesperada, um tanto louca, mas não poderia passar outra noite na casa dele, não com ele em outro quarto e ela sabendo que jamais passaria outra noite nos braços dele. Que tudo estava terminado e que ela fora uma idiota por ter se apaixonado. – Agora? São 23h. – E daí? Você disse que eu podia ir quando estivesse pronta. Estou pronta. Chame um helicóptero, Christos. Chame uma droga de uma lancha. Não me importa. Só quero ir embora. – Lucillitsa... – Não ouse – disparou ela. Seu peito estava cheio de emoção. – Nunca mais ouse me chamar de nada a não ser Lucilla ou srta. Chatsfield. Você já deixou muito claro que está tudo terminado. Sendo assim, chega de apelidos carinhosos. Chega de intimidade. Acabou, Christos, e quero ir embora. – Você está exagerando. – Ele soava frio, inexpressivo. Mecânico. – Estou? – Ela se sentia louca de emoção por dentro. Queria lhe dar outro tapa, e essa era uma terrível sensação. Também queria envolvê-lo com os braços e implorar para que ele a amasse. Talvez isso fosse ainda pior. Ela já tivera pontos baixos em sua vida, momentos nos quais ela se sentira que ninguém se importava, que ninguém entendia, mas nenhum deles se comparava àquele. A ficar parada ali diante do homem que ela amava, sabendo que ele não a amava. A tentar manter a compostura, mesmo sabendo que precisava ir embora daquela ilha antes que ela explodisse. – A manhã já vai chegar – começou ele. – Não. Agora, Christos. Você me trouxe aqui contra minha vontade. Agora, quero ir. Agora. Ele a olhou durante um longo tempo. Por um louco instante, Lucilla torceu para que ele aliviasse as coisas, para que sua fachada de pedra desmoronasse e ele a puxasse para seus braços, beijando-a. Para que ele lhe dissesse que fora um tolo e implorasse por seu perdão. Nada disso aconteceu.


– Pois bem – disse ele, pegando o celular no bolso. – Vou resolver isso.


Capítulo 13

LUCILLA MAL conseguia acreditar que estava de volta a Londres. Ela já estava em casa fazia uma semana e vinha duelando com uma sensação de desprendimento da realidade desde então. Era como se sua vida pudesse ser dividida em duas partes: antes da Grécia e depois da Grécia. Como se um único momento tivesse mudado tudo quando, na realidade, fora um vórtice de mudanças que a desconstruíra e a montara novamente. Mas não como antes. O mundo estava mais ríspido agora, mais cruel, e ela estava surrada. Entretanto, continuava ali e sobreviveria. Ninguém sabia como sua vida fora despedaçada, e ela não tinha nenhuma intenção de contar. Como sempre, ela era Lucilla Chatsfield, a rocha com a qual toda a sua família poderia contar. Ela se encontrara com Cara recentemente no evento da Demarche, mas ver Cara não a deixou de pés no chão como costumava acontecer. O fato de seus irmãos já não precisarem tanto dela quanto no passado não era um problema para Lucilla. Como sempre, ela estaria disponível. Durante um curto tempo, Christos a fizera pensar em si mesma... Seus desejos e necessidades... Mas ela já superara isso. Doía demais se colocar em primeiro lugar. Por isso, ela se enterraria novamente no trabalho e torceria para que a força de sua agonia se abrandasse para um mero latejar. Lucilla estava olhando os relatórios matinais. Como Christos estava percorrendo o mundo, ela assumira o comando do escritório dele. Era um bom escritório. Quase fora dela, antes de ela ter sido tola o suficiente para aceitar a proposta dele. Droga. Ela ainda conseguia vê-lo diante do ossuário, ainda conseguia ouvir o trauma na voz dele quando ele lhe contara a respeito de sua mãe. Se ao menos ela fosse tão desalmada quanto ele. Se ao menos ela tivesse sido capaz de ir embora da casa dele naquela manhã e o mandado para o inferno, dizendo que ficaria feliz por pagar a multa rescisória dele. No entanto, ela não fizera isso. Ficara e ouvira o que ele tinha a dizer. Estranhamente, ela estava feliz por ter feito isso, pois não era do tipo de pessoa que conseguia ignorar a dor de outra. Talvez isso significasse que ela não era tão rígida ou fria quanto precisava ser, mas Lucilla já aceitara isso. Se ser implacável significava que ela não seria capaz de dormir de consciência limpa, ela não queria ser.


Ela prosseguiu com os relatórios, enviou algumas ordens aos chefes de departamento e se virou para olhar para o parque do outro lado da rua. Um sorridente casal brincava com uma criança, e o estômago de Lucilla latejou com o nó de dor que se alojara ali dentro. Por que doía tanto ver outras pessoas sendo felizes? Ela estava acostumada a isso, não estava? A porta se abriu, e ela se virou, pronta para perguntar a Jessie por que ela estava entrando sem bater... Lucilla já aprendera essa lição... Mas não era Jessie quem estava na porta. O coração de Lucilla se apertou dentro do peito. Christos estava lindo e distante como sempre, vestido com uma calça escura e uma camisa branca com riscas de giz cinza. Seu cabelo estava bagunçado, seus olhos estavam avermelhados. O primeiro instinto dela foi o de ir até ela, mas Lucilla se obrigou a permanecer sentada enquanto permitia que seu olhar o percorresse. – Não esperávamos que você voltasse tão cedo – disse ela friamente, seu coração disparado num impossível ritmo. – Na verdade, pensei que você fosse estar em Moscou hoje. Ele passou a mão pelo cabelo. – Eu estive. – Christos jogou sua pasta sobre uma cadeira e foi na direção da mesa. Lucilla engoliu em seco. Ele parou diante dela, que se deu conta de que ele não fizera a barba naquela manhã. Aparentemente, também não dormira. Lucilla se levantou, o coração pulando para a garganta. – O que houve, Christos? Aconteceu alguma coisa? Não houvera nenhum problema do qual tivesse tomado ciência. – Não sei – disse ele. Ele passou a mão pelo rosto, e seus olhos se fixaram ardentemente nos dela. – Sinto sua falta, Lucilla. Isso não deveria acontecer. Mil emoções a atingiram naquele instante. Esperança. Amor. Raiva. Medo. Impotência. – Não sei o que isso significa, Christos. Foi você quem decidiu que estava tudo terminado entre nós. – Talvez eu tenha cometido um erro. A pulsação dela disparou. Minúsculas gotas de suor surgiram em sua pele. Aquilo era o que ela queria, mas, mesmo assim... Não era suficiente. A semana anterior fora uma tortura para ela, sabendo que fora burra a ponto de se apaixonar por ele, que, provavelmente, jamais retribuiria o sentimento. Ela sabia o que ele era, o que ele fazia. Christos era um amante de mulheres... Muitas mulheres. E ela não podia simplesmente aceitar um pedaço dele se queria tudo. Ela merecia tudo, droga! – O que você sugere? Que continuemos de onde paramos? Que eu me atire nos seus braços e me sinta agradecida pelas migalhas de afeto que você resolva me dar? As sobrancelhas dele se uniram. – Eu não disse isso. – Então, o que está dizendo? – Ela soava estridente e não estava gostando nem um pouco disso. Lucilla modulou seu tom. – Porque, infelizmente, não entendo o que você quer. Ele parecia estar sentindo dor. Então, com grande simplicidade, ele apagou de seu rosto aquela expressão de incerteza e se tornou novamente o frio e eficiente magnata grego. – Não é óbvio? Quero você na minha cama, Lucilla. Quero mais do que tivemos juntos na Grécia. – E o que tivemos? Porque não sei ao certo. Ele pareceu confuso. – Sexo. Calor. Companheirismo.


Ela estava trêmula. – Acho que você pode conseguir isso em qualquer lugar. Não precisa de mim para fazer sexo se tem uma legião de mulheres dispostas a dar isso a você. O maxilar dele se contraiu. – Mas eu não as quero. Quero você. O estômago de Lucilla entrou em queda livre. Era o que ela queria ouvir. No entanto... Não era. Ela engoliu em seco. – Você me ama, Christos? Ele pareceu confuso. Em seguida, perplexo, e o coração dela desabou no penhasco de sua alma, estilhaçando-se em um milhão de pedaços. O que você esperava? – Eu... Gosto de você. – As palavras pareceram ser arrancadas dele, e Lucilla não sabia se devia se sentir lisonjeada ou irritada. Ela contornou a mesa e parou diante dele. Conseguia sentir seu calor, o cheiro de sua pele. Ela queria se derreter nele como fizera incontáveis vezes na Grécia. Contudo, ela precisava ser forte. – Gosta de mim? Infelizmente, isso não é suficiente. – Ela tentou não lacrimejar, mas já conseguia sentir as lágrimas se acumulando atrás de seus olhos. Lucilla levou a mão ao rosto dele, alisando a pele com a barba por fazer. Ele virou o rosto na direção da palma dela, e o coração de Lucilla latejou dolorosamente. – Preciso de mais de você. – Ela precisou forçar para vencer o embargo de sua garganta. Ele pareceu preocupado. – Mais? Lucilla pôs a outra palma no rosto dele, segurando-o. – Sim, mais. Não posso ser sua amante temporária. Não posso ser um romance ardente no escritório que é conveniente por ora. Não posso ficar com você e me perguntar quando vai acabar da próxima vez, quando você vai se fechar para mim e me dizer que precisa viajar para algum lugar enquanto me deixa aqui. Não posso ver você chegar a um evento do Chatsfield com outra mulher. Não quero nada disso, Christos. Então, a menos que você possa me dar mais, acho que é melhor deixarmos as coisas como estão. Ele contraiu o maxilar. Seus olhos reluziram. Então, ele a puxou para si, esmagando a boca de Lucilla com a dele. O corpo dela se dissolveu quando os adorados lábios dele se movimentaram sobre os dela. A língua de Christos deslizou para dentro da boca de Lucilla, que gemeu, agarrando-se a ele. Entretanto, aquela pequena voz não lhe permitia desfrutar o momento. Não parava de dizer que ela precisava defender seus interesses, que ele estava tentando fazê-la aceitar tudo com um beijo, sem lhe dar nada de verdade. Que ele estava impondo sua vontade a ela. Lucilla empurrou fortemente o peito dele, e Christos a soltou. – Lucillitsa... Não posso ser o que você quer. Não posso prometer nada. Só posso ser quem sou, e só posso dar o que há no meu coração neste momento. Quero você. Tentei não querer, mas quero. E isso é mais do que já dei a qualquer mulher. Ela cruzou os braços. – Não é suficiente. – Ela já não passara tantas vezes por aquilo? De muitas maneiras diferentes, aceitara menos do que merecia, pois os outros diziam que eram tudo que podiam fazer. – Estou cansada de dar o melhor de mim e isso não ser bom o suficiente, cansada de dar tudo de mim e receber apenas uma parte em troca. Não, não aceito. É tudo ou nada, Christos.


Ele ficou parado olhando para ela durante um longo tempo, seus olhos ardentes. Então, pegou a pasta. – Não tenho nada para dar a você, Lucilla. Nada. CHRISTOS ESTAVA amarguradamente irritado. Sua vida sempre fizera sentido para ele. Agora, porém, ele não conseguia encontrar seu equilíbrio. Ele permitira que Lucilla o deixasse na Grécia. Observara enquanto ela entrara no helicóptero, dizendo a si mesmo que deixá-la ir era o certo. Ela parecera chateada. Houvera sombras debaixo de seus olhos, vazios que Christos sabia que fora ele quem pusera ali, e ele dissera a si mesmo que seria melhor se ele aceitasse o pedido dela de ir embora. Ele pretendera voltar a Londres com Lucilla e, depois, começar seu tour pelos hotéis. Entretanto, ele não conseguira se obrigar a entrar naquele helicóptero, não aguentaria um longo voo sem o direito de tocá-la, beijá-la ou se perder no calor de Lucilla. No dia seguinte, em vez de voltar a Londres, ele começara seu tour. E funcionara durante os primeiros dias. Ele se entregara ao trabalho, avaliando os negócios e realizando mudanças necessárias em Nova York e São Francisco. As noites, porém, tinham sido um inferno. Ele não parava de pensar em Lucilla, de imaginá-la ali com ele, seu lindo sorriso, seu exuberante corpo, os sons que ela fazia quando atingia o ápice, a maneira como seu corpo pulsava em torno dele. Ele a desejara e sentira falta dela, e isso o deixava tanto perplexo quanto irritado. Christos não precisava de ninguém. Passara a vida sem precisar de ninguém. No inferno de sua juventude, aprendera que precisar de alguém o deixava vulnerável. Era perigoso, assustador demais. Era muito mais fácil não amar as pessoas. Elas não seriam capazes de decepcioná-lo se ele não esperasse nada delas. Não poderiam magoá-lo se ele não se importasse. Ele massageou o próprio peito, perguntando a si mesmo por que sentia aquela dor. Lucilla não era nada especial. Era uma mulher, como todas as outras. Sim, ele se sentia intrigado por ela. Sim, ainda a desejava. Queria tê-la debaixo de si, queria a voz dela em seu ouvido, seu nome nos lábios dela. Mas como ele poderia ter essas coisas se ela não aceitava? Se ela exigia que ele lhe desse coisas que ele não daria a ninguém? Coisas que ele já não tinha mais? Ele não tinha um coração, droga! Arrancara-o durante sua detenção na adolescência e mantivera aquele espaço vazio durante todo o resto de sua vida, destruindo implacavelmente tudo em seu caminho. Ele era exatamente o que quisera ser. Bem-sucedido, rico, um homem sem emoções, sem vínculos com ninguém, com nada. Isso era seguro. Christos entrou em seu apartamento e largou a pasta no chão. O lugar estava silencioso, vazio, e, pela primeira vez, ele não gostou daquele vazio. Talvez ele adotasse um gato. Não um cachorro, pois cachorros precisavam ser levados para passear, mas um gato, uma criatura arisca e distante, como ele. Christos soltou um palavrão enquanto ia ao armário de bebidas servir para si um dedo de uísque. Ele estava pensando em gatos agora? A que ponto ele chegara? Ele atravessou o apartamento na direção da biblioteca onde um cavalete estava coberto por um pano. Ele olhou fixamente para o pano, perguntando a si mesmo por que comprara a maldita coisa que havia por baixo, perguntando se ousaria olhá-la.


Furioso consigo mesmo, ele arrancou o pano de cima da pintura. Na tela, uma mulher ria dele. Uma mulher que se parecia muito com a que ele deixara em seu escritório no Chatsfield. Era linda, mas não tão linda quanto Lucilla. Ele observou a inclinação da cabeça dela, a maneira como o artista pintara sua risada. Ela parecia feliz, mas abrigava tamanha infelicidade que abandonara sua família vinte anos antes e nunca retornara. Ele entendia esse tipo de infelicidade. Christos bebeu o uísque. Virou-se de costas para o retrato e saiu da biblioteca. Muito tempo atrás, ele aprendera que o único jeito de lidar com a dor era confrontá-la diretamente. E destruí-la. DURANTE OS dias que se seguiram, Lucilla não viu Christos. Ele voltou ao escritório, mas ela o evitou por completo. Nem mesmo ia às reuniões dos funcionários. E Christos não a convocava. Enviava e-mails. Ela respondia àqueles que precisava responder e deixava Jessie responder o resto. Christos remarcara a reunião dos acionistas, e Lucilla aceitara a data em seu calendário, já pensando em possíveis desculpas para não ir. Mas ela sabia que não podia fazer isso. Era a reunião na qual ela precisaria enfrentá-lo, e ela faria isso com aço dentro de si. Mas como ela sentia falta dele... Estava tão furiosa consigo mesma e com Christos. Ele lhe dissera que sentia sua falta, mas claramente não sentia o suficiente. Ela era substituível na vida dele e não conseguia parar de esperar o momento em que ele apareceria nos tabloides com outra mulher. Era inevitável, e Lucilla disse a si mesma que sobreviveria. Entretanto, ela já estava procurando pacotes de férias, só por precaução, para um momento de crise. Ela folheou novamente o panfleto que falava do Havaí, acariciou a foto de uma palmeira ao pôr do sol. Paraíso. Paz. Se ao menos fosse tão fácil... A manhã no dia da reunião dos acionistas raiou, e Lucilla se vestiu com cuidado, colocando um terninho cor de ameixa. Ela calçou um par de sapatos de salto, passou batom e começou a prender seu cabelo num coque. Porém, ao se olhar no espelho, ela tomou a decisão de deixá-lo solto. Christos gostava dele assim. Não que ela estivesse fazendo isso para agradá-lo. Não, estava fazendo porque queria. Porque gostava da maneira como a cor ficava em relação a seu blazer e porque ela se sentia bonita assim. Ela reforçou sua determinação, pegou a bolsa e a pasta e foi para o escritório. A reunião seria realizada num dos salões de festas principais do hotel e já havia muitos presentes. Lucilla entrou de cabeça erguida e assumiu seu lugar na primeira fileira. Christos estava sobre a plataforma que fora montada para a ocasião, a cabeça baixa enquanto ele repassava suas anotações. O coração de Lucilla palpitou quando ela o observou. A luz brilhava sobre seu reluzente cabelo preto, destacando as linhas de seu lindo rosto. Ele estava de gravata. Lucilla se imaginou a afrouxando, tirando-a, e fechou os olhos quando a dor a atingiu. Ela nunca mais teria aquela intimidade com ele. Não aguentava pensar nisso, mas que escolha havia? Ela não aceitaria viver uma vida incompleta com ele, sempre esperando que o relacionamento terminasse. – Bom dia para todos – disse Christos finalmente, quando o salão ficou lotado. – Bem-vindos à reunião anual geral do Grupo Chatsfield. Temos os relatórios de sempre para repassarmos, naturalmente. Depois, todos precisarão votar nos diretores, como todos os anos. As informações sobre os candidatos já estão com os senhores. – As pessoas folhearam os papéis que haviam recebido dentro


de pastas. – Como bem sabem, é a diretoria quem indica o diretor executivo. Portanto, preciso fazer um anúncio antes de continuarmos. O coração de Lucilla disparou. Então, Christos levantou a cabeça, seus olhos encontraram os dela em meio ao mar de pessoas. Era como se eles estivessem sozinhos no recinto, e, mais do que tudo, ela quis pedir para que ele não dissesse mais nada, que não fizesse o que estava prestes a fazer. Ela não sabia o que ele diria, mas se levantou imediatamente, como se isso pudesse impedi-lo de falar. – Hoje, entregarei meu cargo – disse Christos, seu olhar ainda fixo no dela. – E recomendo Lucilla Chatsfield como nova diretora executiva.


Capítulo 14

O SALÃO de festas explodiu. Não foi um murmúrio que percorreu a multidão. Foi uma onda de som, como um incêndio na floresta, alastrando-se para todos os cantos do recinto simultaneamente. Tudo que Christos via era Lucilla. Ela estava naquele mar de pessoas que puxavam suas mangas e a bombardeavam com perguntas, mas não tirou o olhar dele. Os olhos dela, aqueles adoráveis olhos castanhos com os pontos dourados, estavam arregalados e magoados. Ele não desviou os seus. Havia repórteres no salão... Sempre havia repórteres nas reuniões anuais... E eles estavam escrevendo freneticamente em seus blocos de notas e tablets. Alguns tentaram chegar até Lucilla, que não estava nem um pouco preparada para aquele massacre, e foi então que Christos soube que precisava pôr aquela reunião de volta nos eixos. Ao final de tudo, ela já teria se acostumado com a ideia e saberia o que dizer aos repórteres. Primeiro, contudo, eles precisavam realizar a reunião. Christos levantou a voz, trovejando no microfone, pedindo a todos para que sentassem. Demorou alguns minutos, mas o salão ficou em silêncio novamente. Lucilla afundara em sua cadeira, mas seus olhos não haviam abandonado o rosto dele. Por mais que Christos quisesse olhar apenas para ela, ele tinha um trabalho a fazer. – Há muitas coisas a serem resolvidas esta manhã – disse ele tensamente. – Haverá tempo para perguntas depois. Ele começou a conduzir a reunião, mas sua mente estava parcialmente voltada para aquilo. A outra parte estava fixa em Lucilla. Na semana anterior, ele se dera conta de que não poderia mais permanecer em Londres. Seria impossível trabalhar no mesmo edifício sem desejá-la ou viver na mesma cidade e ignorar seu apetite por ela. Não sabia o que diabos era aquilo, mas precisava se libertar. E precisava devolver a Lucilla a herança que era dela por direito. Ela era capaz de administrar o império Chatsfield, de supervisionar os vastos investimentos e tomar as decisões certas para a empresa. Ela era a única Chatsfield na qual ele acreditava. A única na qual confiava. E ele não seria mais um obstáculo para ela. Ela o queria fora dali. Se Christos não pudesse dar mais nada a ela, ele lhe daria isso. Era o mínimo que ele podia fazer.


Quando a reunião terminou, ele saiu do salão pela porta dos fundos e passou pelos escritórios até sair na rua, entrando na limusine que o esperava. O motorista o levou embora no instante em que uma multidão saiu pelas portas do QG dos Chatsfield. O telefone dele começou a tocar, e Christos olhou para a tela. Ele reconheceu o nome da empresa, mas, em vez de atender, desligou o telefone. Ele conhecia aquele jogo. Alguém já ficara sabendo que ele pedira demissão e queria fisgá-lo antes que outra empresa o fizesse. O telefone dele tocaria incessantemente com propostas. Ele não queria recusá-las naquele momento. A limusine o deixou em seu loft, e ele entrou, ponderando se devia passar mais alguns dias em Londres ou se devia pegar seu avião naquela noite. Ele poderia ir para onde quisesse, mas não estava acostumado a não ter nada para fazer. Vinha trabalhando desde o dia em que saíra da instituição de detenção juvenil. Sempre que ele largara um emprego, fora para aceitar um melhor. Christos nunca pedira demissão por causa de uma mulher. Ele parou no centro de sua sala de estar e piscou os olhos quando a importância do que ele fizera o atingiu. Ele tomara aquela decisão no início daquela semana. Bebera até ficar entorpecido... Algo nada característico dele. Então, em plena madrugada, quando ele estivera ao menos parcialmente sóbrio, chamara um táxi e fora até o apartamento dela. Ficara parado na rua diante do edifício, olhando para a janela dela, perguntando a si mesmo o que diabos ele estava fazendo. Ela criava um caos dentro dele. Fazia com que ele sentisse coisas que não deveria sentir. Fazia com que ele quisesse mais do que sabia ser seguro. Desesperadamente, ele quisera subir para o apartamento dela e tomá-la nos braços. E, por ter desejado isso tão desesperadamente, Christos voltara para dentro do táxi e fora para casa. Ele entrou no quarto e pegou uma mala no closet. Estava acostumado a deixar tudo para trás e seguir com sua vida. Aquele dia não seria diferente. Ele não se apressaria, escolheria uma nova empresa para salvar e pediria para que suas coisas fossem enviadas quando estivesse pronto para recebê-las. Ele terminou de fazer a mala, chamou um carro e, em seguida, entrou na biblioteca, parando diante da pintura. Ele não a cobrira novamente. Obrigara a si mesmo a conviver com ela, dia após dia, como se pudesse se inocular contra a dor assim. Entretanto, ele já terminara com aquilo, assim como terminara com tudo ali. Ele pediria para que embalassem o quadro e o enviassem a Lucilla. Anonimamente, claro. Ela jamais saberia que fora ele quem o comprara naquela noite. O próprio Christos ainda não sabia por que fizera isso, nem o que pensara em fazer com a pintura depois de obtê-la, mas Lucilla ficara tão triste e abalada que ele não fora capaz de deixar que o quadro fosse parar nas mãos de outra pessoa. Ele não chegara a planejar além do momento. Contudo, também não planejara ficar com ele. Ele ouviu a porta do elevador se abrir e se virou, irritado porque o porteiro deixara o motorista subir. Ele não precisava de ajuda para carregar as malas. Porém, quando Christos retornou à área de estar, não foi um chofer uniformizado que ele encontrou ali. Lucilla parecia furiosa. E tão linda que fez seu coração se apertar dentro do peito. – Seu covarde – disparou ela. – Seu idiota, burro! O que estava pensando? LUCILLA TREMIA de fúria, medo e mágoa. Christos estava do outro lado do recinto, seu corpo alto e ereto, seu lindo rosto mais distante do que nunca. Ela queria se atirar nele e arrancar seus olhos com as


unhas. E queria desabar no chão, perguntar por quê. Por que ele não podia amá-la? Por que estava determinado a estragar tudo que ele começara fazendo o que fizera na reunião? – Estava dando a você o que você sempre afirmou querer. Minha ausência. Ela foi em direção a ele. Então, parou antes que se aproximasse demais, que perdesse o controle de suas emoções pela simples proximidade dele. – Você podia ter me perguntado o que eu queria. – Perguntar a você? Você deixou claro desde o início o que queria. Não imaginei que tivesse mudado simplesmente porque obriguei você a ir à Grécia comigo. Durante as duas últimas horas, ela vinha se perguntando por que estava tão chateada com ele por ter feito aquilo. Pois ela quisera ser diretora executiva, acreditava ser a pessoa certa para o cargo. Ela quisera tanto que chegara a sentir o sabor. Então, quando ele o entregara de mão beijada, Lucilla descobrira que não gostava tanto assim daquele sabor. – Pensei que tivéssemos tido algo juntos na Grécia – disse ela. Ele engoliu em seco, e o coração de Lucilla palpitou quando ela viu aquela pequena rachadura na armadura dele. Talvez ela tivesse esperança demais, mas não conseguia evitar. – E tivemos. Lucilla foi atingida por uma onda de calor e desesperança. – Então, por que você me afastou, Christos? Por que está indo embora? Ele passou as duas mãos pelo cabelo. – Não sei fazer isso, Lucillitsa. Ela deu um hesitante passo na direção dele. – O quê? O olhar dele penetrou o dela, aqueles gélidos olhos azuis ardendo com emoções que Lucilla nunca vira neles antes. – Não sei como ficar com você. Como... Amar você. O embargo na garganta dela cresceu. Sua visão se enevoou. – Acredito que saiba. – Será melhor se eu for embora. Melhor para nós dois. Lucilla endireitou o corpo e o olhou fixamente em meio às lágrimas. – Até hoje, eu nunca tinha considerado você um covarde, Christos. Mas você é. Não consegue encarar as tarefas verdadeiramente difíceis. Você me disse que eu não conseguia tomar decisões difíceis, mas é você quem não consegue tomá-las. É você quem foge quando devia ficar, quem desiste... Lucilla perdeu a voz. Christos não disse nada. Ela recuou, virou-se para ir embora. Era inútil. Ele estava determinado a não sentir nada por ninguém, e ela não podia obrigá-lo. Fortes braços a envolveram, puxando-a para trás até que ela estivesse firmemente encaixada no corpo dele. Lucilla não ouvira Christos se mexer, mas desabou na direção dele, cedendo ao prazer do abraço dele. Mesmo que fosse a última vez. Mesmo que não fosse nada além daquele simples toque. – Lucilla. – A respiração dele levantou o cabelo dela. Então, sua boca tocou a orelha dela. – Eu não sirvo, Lucilla mou. Sou um homem imperfeito. Não sei dar a você o que você quer. Queria ser capaz de fazer isso, mas só acabaria magoando você. Ela estremeceu nos braços dele quando a quente respiração atingiu sua pele. Queria fugir, queria beijá-lo, queria fazê-lo enxergar a verdade do que havia entre eles. Mas ele não permitiria. Por isso, ela


se contentou com a única arma da qual dispunha. – Eu amo você, Christos. Amo você. Ele a segurou com mais força. Então, soltou-a. Lucilla aproveitou a oportunidade para se virar e segurar o rosto dele. – Deixe que eu faça minhas próprias escolhas, Christos. Você me disse que eu não estava disposta a tomar decisões difíceis, mas estou. E, se amar você é uma decisão difícil, quero tomá-la. – Uma lágrima escorreu pelo rosto dela. – Você não pode me impedir de amar você. Pode ir embora e pode fingir que isso nunca aconteceu, mas não pode me impedir. Vou amar você, independentemente de onde você for. Ele estremeceu sob o toque dela, seus longos cílios baixando. Lucilla não fazia ideia do que ele estava pensando, do que aconteceria em seguida. Contudo, ela não podia permitir que ele fosse embora sem que ela lhe dissesse o que sentia. Ela sempre escolhera o caminho seguro, sempre tentara cuidar de todos, menos dela mesma. Talvez aquilo não fosse exatamente cuidar de si mesma, mas ao menos ela saberia que fizera tudo que podia. Não se arrependeria de nada depois que ele partisse. – Não sei se consigo amar você – disse ele levemente. – Não sei se consigo amar alguém. Ela precisou conter o gemido angustiado que implorava para fugir. – Consegue, Christos – disse ela com firmeza. – Ouvi isso na sua voz no cemitério. Vi nos seus olhos. Você amou alguém e perdeu essa pessoa, mas isso não matou você por dentro. – Eu me sinto morto por dentro, agapi mou. Sempre me senti. Ela inspirou fundo. – Sempre? Todos os momentos de todos os dias? Cada minuto que passamos juntos? Ele engoliu em seco. – Não. Nem todos os momentos. Lucilla abriu um choroso sorriso. – Viu? Progresso. Christos segurou os punhos dela e afastou as palmas de seu rosto. Então, beijou ambas e a soltou. – Não é bom o suficiente. Não para você. Você é uma boa mulher, Lucilla. Merece um bom homem. – Lá vem você de novo – disse ela delicadamente, vencendo o embargo em sua garganta. – Quem decide o que é bom o suficiente para mim sou eu. Ele olhou a hora. – O carro já deve estar chegando. – Christos pegou sua mala, e o coração de Lucilla latejou, quente e veloz. Ele parou diante do elevador e se virou novamente para ela. – Tem uma coisa para você na biblioteca. Eu ia pedir para enviarem para você, mas, agora, você mesma pode cuidar disso. As pernas dela estavam trêmulas enquanto ela o observou entrar no elevador. – Se você for embora, não vou esperar para sempre – falou ela, a voz cheia de dor. – Vou seguir com a vida, encontrar outra pessoa para amar e esquecer você. Ela jamais o esqueceria, mas estava irritada e magoada e precisava descontar aquilo para não explodir. Christos apenas sorriu com tristeza. – Espero que sim, Lucilla mou. Rezo para que isso aconteça. A LIMUSINE já estava quase no aeroporto quando Christos sentiu que não conseguia respirar. Ele levou a mão ao peito e se concentrou em inspirar e expirar metodicamente, enquanto uma sensação muito


parecida com pânico descia por sua espinha, subindo novamente. Ele se sentira assim muito tempo antes, uma criança tentando fugir da ira de seu pai, e depois, quando se flagrara na instituição de detenção juvenil, responsável por sua própria sobrevivência naquele horrível lugar. Se ele não tivesse conhecimento do que era um ataque de pânico, teria pedido para que o motorista o levasse diretamente ao hospital ao sentir a forte pressão no peito, o suor surgindo em sua pele. Ele fechou os olhos e recostou novamente a cabeça. Era pânico, nada mais. Passaria. No entanto, tudo que ele conseguiu ver ao fechar os olhos foi Lucilla. A expressão dela estivera tão magoada quando ele entrara naquele elevador. Ela lhe dissera que não esperaria, que encontraria outra pessoa para amar... O peito dele se apertou ainda mais do que antes, e Christos se perguntou se não estaria tendo um ataque cardíaco na realidade. Então, a dor se abrandou quando ele pensou nas mãos de Lucilla em seu rosto, na doce voz dela lhe dizendo que o amava. Ela o amava. Pensar nisso fez um calor se espalhar pelo peito dele, e sua respiração ficou mais fácil. Então, o motorista pegou a saída para o aeroporto de Heathrow, e a pressão cresceu novamente. Christos olhou pela janela para o trânsito, para os aviões que lotavam o céu, e, subitamente, quis gritar. Ele se imaginou embarcando no jatinho, apertando o cinto de segurança e se recostando na poltrona depois de mandar o piloto levá-lo a... Onde? Ele não fazia ideia para onde iria, não fazia ideia de onde queria estar. Mentira. Ele sabia onde queria estar. Nos braços de Lucilla. Na cama dela. Já fazia semanas que ele queria isso, e chegara a ter durante pouquíssimo tempo. Porém, ele precisara fazer a coisa certa, abrindo mão dela. Precisara sair da vida dela, permitir que ela administrasse a empresa, que era dela, permitir que ela encontrasse um homem que a amaria como ela merecia. Pensar em Lucilla com outro homem fez aumentar novamente a pressão no peito dele. Christos tentou imaginar aquilo, tentou se obrigar a suportar a dor, para conseguir sobreviver. Mas tudo dentro dele se rebelou. Uma palavra ecoava em sua mente: minha. Ele queria Lucilla. Ele a queria em sua vida e queria tentar ser o homem do qual ela precisava. Christos piscou os olhos quando outra sensação começou a crescer dentro dele. Era como se ele tivesse passado um longo tempo lutando arduamente e, depois, baixado a guarda, apenas por um momento, e o inimigo conseguira derrubar os portões. Entretanto, não era nenhum inimigo. Era a salvação. Medo e esperança o atingiram de uma só vez. A voz de Christos saiu num rugido que veio das profundezas da alma dele. – Temos de voltar! LUCILLA AINDA não tinha forças para ir embora do apartamento de Christos. Ela encontrou a biblioteca e ficou boquiaberta ao ver a pintura. Sua mãe estava tão feliz e bonita no retrato. Apenas por um instante, Lucilla desejou que sua mãe estivesse ali, que ela pudesse lhe pedir conselhos. Que pudesse se sentar perto dos pés dela, apoiar a cabeça em seu colo e chorar. Apenas uma vez, ela não podia deixar passar para outra pessoa o fardo de seus sentimentos? Ela afundou no carpete, ficando sentada ali, olhando para a pintura, sentindo-se amargurada e irritada com o mundo. Ela nunca tivera ninguém com quem contar, nunca fora capaz de depender de


outra alma, a não ser de si mesma. Passara sua vida garantindo que todas as outras pessoas ficassem bem, tentando fazer seu pai se orgulhar dela... E sim, tentando ser boa assim na esperança de que sua mãe voltasse para casa... E o que ela ganhara com isso? Nada. Ah, tinha o que achara que sempre quisera, a liderança da empresa, mas era uma vitória vazia. Como ela fora burra! Lucilla passou os dedos debaixo dos olhos, pois as lágrimas continuavam chegando, e os secou na saia. Deus, como ela era deplorável! Queria alguém de quem depender, mesmo que apenas uma vez na vida, mas sempre acabava descobrindo que essa pessoa não existia. Ela só podia contar consigo mesma. Christos não a queria. Sua própria mãe não a queria. Seu pai estava na América com a nova noiva, e todos os seus irmãos tinham suas próprias vidas. Ela estava mais sozinha do que nunca. E estava irritada, droga. Lucilla cerrou os punhos e ficou sentada ali no chão até as comportas se abrirem. Então, chorou e socou o carpete, gritando, resmungando, sentindo a dor. Vagamente, ela teve noção de que estava um caco, uma vergonha. Mas não conseguiu parar. Soluçou até não restarem mais lágrimas. Então, levantou-se do chão e derrubou o retrato do cavalete. Ele quicou no carpete com um grande ruído e caiu voltado para baixo. Lucilla cerrou os dentes e inspirou fundo várias vezes. Queria pisar e abrir um buraco naquela maldita coisa, e também queria segurá-la e abraçá-la, dizer a sua mãe que sentia muito. – Lucillitsa. Ela se virou e encontrou Christos parado à porta. – Maldito – rosnou ela, seu coração se partindo novamente ao vê-lo. Sem dúvida, ele esquecera o passaporte ou algo igualmente trivial e voltara para buscá-lo, encontrando-a ainda ali, bagunçando a impecável morada dele. – Desculpe. – Desculpar? – Ela cerrou os punhos. Sabia que estava acabada, mas de que isso importava agora? – Não é bom o suficiente para compensar o que você fez comigo. Quem me dera você nunca ter aparecido no Chatsfield. Quem me dera não ter aceitado ficar na Grécia com você. – Agapi mou. Ela fechou os olhos com força. Precisava se apegar à sua raiva para manter a sanidade. – O que eu disse sobre você me chamar por apelidos, Christos? E o que esse significa, afinal? Meu floquinho de neve ou algo assim? – Significa “meu amor”. Lucilla achara que seu coração não tinha como doer mais. Enganara-se. Novas lágrimas surgiram atrás de seus olhos. – Não tem graça. – A intenção não é ter. Ela abriu novamente os olhos, encontrando o brilhante olhar azul dele. – Eu já estava de saída. Pegue seu passaporte, ou seja lá o que você tenha esquecido, e não se preocupe comigo. – Lucillitsa. – Ele se aproximou e pegou a mão dela. Lucilla tentou puxá-la, mas ele era forte demais. Christos pôs a mão dela em seu peito, puxou-a para perto. – Sinta isto. Sinta o que você faz comigo. Ela balançou a cabeça, temendo demais permitir que até mesmo uma semente de esperança se enraizasse novamente.


– Não sei aonde você quer chegar. Estou cansada e irritada, só quero ir para casa. Não consigo fazer isso de novo. Não consigo. Ele deslizou a outra mão pelo rosto dela, adentrou o cabelo de Lucilla com os dedos. – Meu coração, Lucilla. Sinta meu coração. – Ele pressionou a mão dela com mais força em seu peito, e Lucilla sentiu o rugido da pulsação dele. – Está acelerado porque estou aterrorizado. – Não enten... – Diga que não é tarde de mais. Diga que não perdi você. Ela ficou completamente entorpecida. Então, um minúsculo broto de felicidade começou a crescer dentro de seu corpo, espalhando-se e a aquecendo por inteiro. Talvez ela devesse ser mais cautelosa, mas estava esgotada demais para se importar. – Você não me perdeu, Christos. Nem em uma hora, e nem em semanas, quando eu devia ter parado de amar você por completo se tivesse sido capaz. Ele a puxou para seus braços e a abraçou com força. A orelha de Lucilla estava apoiada no peito dele, e ela ficou maravilhada com as implacáveis batidas do coração dele. Por um instante, Lucilla achou que devia estar sonhando. Que adormecera no carpete da biblioteca e estava sonhando que ele retornara, que ele a queria. Era a única explicação lógica. Então, ela cravou as unhas nas próprias palmas e sentiu a ardência, dando-se conta de que não estava dormindo. Mesmo assim, ela recuou até poder olhar nos olhos de Christos. Estava acordada, mas isso não explicava nada. – Ainda não entendo o que aconteceu. Você foi embora. Disse que não conseguia me amar. Então, por que voltou? Ele inspirou fundo. – Porque você tinha razão, agapi mou. Porque sou um covarde, um idiota, um burro, e foi mais fácil ir embora do que ficar. Sempre fui embora quando as coisas ficavam difíceis demais. Passei uma vida inteira não me apegando a ninguém, levantando o acampamento e seguindo para o próximo desafio. Achei que essa fosse a parte difícil, ir embora e começar novamente, mas não é. Ficar é a parte difícil. Ela estava segurando a camisa dele nas mãos. – Acredito que você seja capaz de fazer qualquer coisa se estiver determinado, Christos. Você se reconstruiu, um homem brilhante, honrado e bem-sucedido. Sua mãe teria orgulho de você. O sorriso dele foi tanto triste quanto terno. – Acho que teria, sim, mas também acho que ela teria ficado irritada comigo por ter deixado você aqui antes. Ela teria sabido o que eu não soube. A pulsação dela disparou. Aquilo estava mesmo acontecendo? – E o que você não soube? – Que você faz parte de mim. Que quis você desde o primeiro instante. Que você é a única mulher que fui feito para amar. – Você vai me fazer chorar. Ele a beijou levemente. – Não quero fazer você chorar. Quero fazer você feliz. – Estou feliz. E assustada. Preciso demais de você, Christos, e isso me preocupa. – Entendo isso mais do que você imagina. Achei que eu estava tendo um ataque do coração quando cheguei ao aeroporto. Mas era só meu coração se partindo porque eu tinha deixado você aqui.


Ela não queria perguntar, mas precisava saber a resposta. Era tudo ou nada, por melhor que fosse estar nos braços dele novamente. – Isso significa que você me ama? Christos fechou os olhos por um momento, como se estivesse juntando coragem. – Sim. Amo tanto que isso me deixa aterrorizado. Você é a mulher mais forte, corajosa e linda que conheço. E eu sou o homem que você merece, porque ninguém mais irá amar você como eu amo. Os joelhos de Lucilla ficaram fracos. Então, ela gargalhou. – Esse é o Christos que eu conheço e amo. Tão confiante em si mesmo. Tão arrogante e mandão. Ele passou os dedos pelo cabelo dela, deixando as mechas deslizarem entre eles. – Você fica excitada quando sou mandão. Sempre ficou. – Sim, já posso admitir isso. Gosto quando você me diz o que tenho de fazer. Tenho um grande prazer em fazer o contrário. Ele riu. – Então, não me beije, Lucilla. Não me toque nem diga que me ama. Jamais faça isso. – Fechado – disse ela, abrindo as mãos nos contornos do peito dele. – Eu amo você, Christos. Amo tanto! Então, ela o beijou.


Epílogo

Vários meses depois...

O CASAMENTO de Gene Chatsfield com Helena Morgan foi o assunto das páginas sociais. A festa foi realizada no principal hotel Chatsfield, o de Londres, para onde todos os filhos de Gene retornaram para comemorar com o pai e a mulher que ele venerava. Já era quase Natal, e o hotel estava decorado para celebrar a estação. Mesmo com árvores de Natal, luzes e guirlandas, não havia dúvida de que era festa de casamento naquele dia, não de Natal. A noiva estava adorável de vestido cor de creme, e o pai de Lucilla usava um lindo smoking. Claramente, ele adorava sua nova noiva, e Lucilla estava feliz por ele. Eles haviam conversado mais cedo, e ele lhe dissera como estava orgulhoso dela, do trabalho que ela vinha fazendo. Lucilla ficara perplexa. Em seguida, satisfeita. Ela não precisava mais da aprovação de seu pai, mas, mesmo assim, fora bom ouvi-lo dizer aquilo. Lucilla parou no bar para falar com a cerimonialista da festa. O brinde logo seria feito, e ela queria garantir que houvesse bastante Rubida, um ótimo espumante que vinha do novo e exclusivo fornecedor deles, os Vinhos Purman, da Austrália. Franco fizera um excelente trabalho convencendo os Vinhos Purman a assinarem um contrato com eles. Não apenas isso, mas ele também convencera a srta. Holly Purman a ser noiva dele. Ele parecia incrivelmente feliz com ela, e Lucilla sorriu para si mesma. Do outro lado do salão, ela encontrou o olhar de Antonio. Ele estava com sua nova esposa, Orla, e finalmente parecia assentado, como ela nunca imaginara que ele ficaria. O coração dela se encheu de felicidade com a expressão nos olhos dele quando ele se virou para sorrir novamente para sua esposa. Lucilla continuou atravessando o salão, permitindo que seu olhar passasse pelos convidados enquanto ela encontrava o resto de seus irmãos mais novos. Nicolo estava sentado a uma mesa com Sophie, sua noiva, grávida, a ex-assistente de Christos. Lucilla riu para si mesma ao pensar no completo choque com que Christos recebera o pedido de demissão de sua assistente e o motivo dele. Contudo, ele aceitara sem problemas, e contratara outro assistente; desta vez, um homem, o que Lucilla achou curioso. Ela garantira a ele que não se importaria se ele


contratasse a rainha da beleza, contanto que a mulher trabalhasse bem. Ela acreditava no amor e no compromisso de Christos com ela. Na mesma mesa estavam Orsino e Poppy, de mãos dadas, parecendo totalmente apaixonados enquanto conversavam com Lucca e Charlotte. E também havia Aaliyah, a mais nova, uma meia-irmã que o pai deles lhes apresentara recentemente. Ela era morena e linda, e estava sentada junto do marido, o sheik Sayed, herdeiro do trono de Zeena Sahra. Ela parecera tímida quando fora apresentada a todos, mas Lucilla descobrira que ela era uma mulher muito forte na realidade. Fora um certo choque descobrir que eles tinham uma meia-irmã da qual nada sabiam. Entretanto, Lucilla fez algo que lhe era natural: acolheu mais uma irmã mais nova e a acrescentou à lista de pessoas com as quais ela se importava. E, por fim, havia Cara, que estava com o pai deles e a esposa dele. E com seu novo marido, Aiden. Lucilla amava todos os seus irmãos, mas Cara era quem tinha o lugar mais especial em seu coração. Ver sua querida menina assentada e feliz deixava a mente de Lucilla em paz. Talvez ela tivesse feito um bom trabalho afinal de contas. – Você está pensando demais – disse Christos, surgindo ao lado dela quando ela parou numa porta e se virou para olhar todos. As mãos dele envolveram a cintura dela, e a puxou firmemente para si. A respiração dele tocou a pele dela, e Lucilla estremeceu. – Estou pensando em como este dia acabou sendo maravilhoso. E na felicidade de todos. Christos acariciou a orelha dela com o rosto. Ela pensou que talvez fosse melhor dizer para que ele fosse discreto, mas acabou percebendo que não se importava. – Eu estou feliz – disse ele. – Abençoadamente feliz. – Também estou. Especialmente depois daquilo que você fez hoje de manhã. Christos riu. – Eu adoraria fazer novamente. O que acha de desaparecermos no seu escritório por um tempo? – Que homem safado. Eu estava falando de mais tarde. – Se você aguentar esperar tanto... – Pare de me provocar. Ele a puxou com mais força para si desta vez, até Lucilla sentir a evidência da excitação dele em seu traseiro. Ela arfou. – Quem está provocando? – rosnou ele no ouvido dela. O corpo de Lucilla se dissolveu. – Christos, você me faz querer fazer as coisas mais chocantes do mundo. – Espero que sim. Ela engoliu em seco. – Não sei como vou conseguir esperar. Mas preciso conseguir. Temos o brinde, a dança e sabe-se lá o que mais... Ele a virou para si nos braços. – Tem outra coisa que precisamos discutir, Lucilla. Ela passou as mãos no paletó do smoking dele. Deus do céu, como ele era lindo! E era dela. – O quê, querido? Seus honorários de consultoria aumentaram novamente? Você sabe que vou pagar. Os hotéis Chatsfield precisam do seu conhecimento... Ele pôs o dedo nos lábios dela.


– Não. Sou exclusivamente seu, meu amor. Nenhum outro hotel terá minha assessoria enquanto você estiver no comando do Chatsfield. – Ele afastou o dedo, e Lucilla estremeceu ao ver a expressão nos olhos dele. Ah, ele a fazia querer tirar o vestido imediatamente. O olhar de Christos se ergueu, analisando a multidão atrás dela. – Toda essa febre de casamento. É contagiosa, Lucilla. O coração dela disparou. – Eu ia esperar até mais tarde para dizer isso, mas não consigo. Quero que você se case comigo. Acordar nos seus braços já não é mais suficiente para mim. Quero saber que você não vai me deixar, que nenhum outro homem jamais colocará as mãos em você. Quero ver você crescer esperando nosso filho e segurar sua mão na praia na Grécia quando estivermos tão velhos que nossos filhos vão ter de nos levar até lá de cadeira de rodas. Os olhos de Lucilla se encheram de lágrimas. Droga, era cedo demais para os hormônios agirem com tanta ferocidade. Ou talvez não. – É a coisa mais linda que você já me disse. Ele engoliu em seco, e, por um instante, Lucilla viu o menininho assustado por trás dos olhos daquele enigmático homem. – Quero sempre dizer coisas lindas para você. Ela se esticou e o beijou, seu coração tão inflado que ela achou que estouraria. – Sim, Christos. Quero me casar com você. – Ela pegou a mão dele e a colocou em sua barriga. – E foi bom você ter feito esse pedido. Vou começar a crescer mais cedo do que você imagina. Ele pareceu perplexo enquanto processava aquela informação. Então, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. As palavras que ele disse foram em grego, mas Lucilla não precisou saber o que elas queriam dizer para saber que ele estava satisfeito. Ela descobrira poucos dias atrás e vinha planejando contar a ele assim que o caos do casamento e da festa terminasse. Eles iam passar o Natal na Cefalônia dali a poucos dias, e ela quisera lhe contar lá. Aquilo, porém, fora muito melhor. Até o fim de sua vida, ela jamais esqueceria a expressão no rosto dele. A plena alegria, o amor por ela... E pelo bebê deles... Que brilhavam ali. – Amo você, Lucilla. Não sei como aguentei a vida sem você. Antes de você aparecer, eu achava que tinha uma boa vida. Não fazia ideia de como estava enganado. A felicidade cresceu dentro dela. – Acho que as coisas só vão melhorar daqui em diante. Christos levou a mão de Lucilla à boca e a beijou com reverência. – Eu sei que vão.


Últimos lançamentos: PAIXÃO SAGAS 18 – HOTEL CHATSFIELD 1/4 O escândalo do sheik – Lucy Monroe O Sheik Sayed vive cercado de belas mulheres. E ao hospedar-se no suntuoso Hotel Chatsfield, ficara hipnotizado pela camareira Liyah Amari. Inebriados pela paixão, entregam-se a uma noite de prazer… que trará consequências irreparáveis. A lição de um playboy – Melanie Milburne Lucca Chatsfield sempre teve a mulher que desejou… até conhecer a princesa Charlotte. Ela está determinada a resistir ao charme de Lucca, porém, seu sangue ferve de desejo por este playboy conquistador. PAIXÃO SAGAS 19 – HOTEL CHATSFIELD 2/4 Aposta na paixão – Michelle Conder Cara Chatsfield era a anfitriã do prestigiado torneio de pôquer da família. Contudo, quando vira o objeto da aposta, precisa contar com a habilidade do poderoso Aidan Kelly… e encontrar uma maneira de pagar a dívida. Sombras de um segredo – Chantelle Shaw Com a alma atormentada, Nicolo Chatsfield vivia em reclusão. Até Sophie Ashdown bater à sua porta. Ela fora até lá para resolver assuntos de negócios, mas não estava preparada para ser enfeitiçada pelo charme de Nicolo… PAIXÃO SAGAS 20 – HOTEL CHATSFIELD 3/4


O preço da tentação – Trish Morey Franco estava disposto a tudo para fechar um contrato com a obstinada Holly Purman. Porém, nenhum dos dois sabia que o desejo seria o fator principal desta negociação. Sedução entre rivais – Abby Green Antes de fechar um importante acordo, Orla Kennedy entregou-se a uma noite atípica de espontaneidade e prazer. E só depois descobriria que o amante era Antonio Chatsfield, seu rival nos negócios.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ W537h West, Annie Hotel Chatsfield 4 de 4 [recurso eletrônico] / Annie West, Lynn Raye Harris; tradução Leandro Santos. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Rebel's bargain; Heiress's defiance Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-1924-9 (recurso eletrônico) 1. Romance australiano. I. Harris, Lynn Raye. II. Santos, Leandro. III. Título. 15-23079

CDD: 828.99343 CDU: 821.111(436)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: REBEL’S BARGAIN Copyright © 2014 by Harlequin Books S.A. Originalmente publicado em 2014 por MB Modern Hotel Continuity Título original: HEIRESS’S DEFIANCE Copyright © 2014 by Harlequin Books S.A. Originalmente publicado em 2014 por MB Modern Hotel Continuity Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380


Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Apresentação Rosto Sumário

Teaser ACORDO COM UM REBELDE Sobre a autora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15

Teaser HERDEIRA DESAFIADORA Sobre a autora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8


Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Epílogo

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Annie west, lynn raye harris hotel chatsfield 4 de 4 paixão sagas 21  

Romance

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