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JoãoSousalogroudarosalto dosFuturesparaChallengers

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FERNANDO FERREIRA

RolandGarros:portugueses eluso-descendenteemParis

Após a conquista de um sexto troféu no escalão Future este ano, o jovem vimaranense que treina em Barcelona ganhou o seu primeiro título Challenger no passado fim-de-semana em Furth – e estreou-se no top 200 aos 22 anos.. Razões para o seu salto qualitativo.

Nenhum tenista nacional ultrapassou a ronda inaugural em Roland Garros, mas houve um luso-descendente que chegou à segunda eliminatória e até partilhou o campo central com Roger Federer. Relatos da prestação portuguesa na Catedral da terra Batida.

Roger Federer

Com o triunfo em Roland Garros Nadal chega aos dez títulos do Grand Slam – e Federer já está “apenas” a seis troféus de distância. PRÓXIMA EDIÇÃO 8 de julho EPA

Este número do Jornal do Ténis/Record faz parte integrante do n.º 11.746 de 10 de junho 2011 e não pode ser vendido separadamente

Rafael Nadal

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02

Sexta-feira, 10 de junho de 2011

Match-point

TENDÊNCIAS

JOÃO LAGOS

ÀS João Sousa – Após seis títulos Future, o vimaranense deu o salto com a conquista do seu primeiro troféu no escalão Challenger e estreou-se no top 200. Magali de Lattre – Ganhou o 10 mil dólares de Cantanhede. Já não é uma esperança do ténis nacional, mas ainda consegue bons resultados internacionais no seu nível e merece que o sabor da vitória a ajude a exorcizar algumas cicatrizes na sua carreira. SEGUNDO SERVIÇO Líderes – Frederico Gil e Rui Machado são os líderes do ténis nacional, mas não conseguiram transcender-se em Roland Garros. Pelo contrário, após um primeiro set razoável, tanto um como outro esmoreceram nitidamente. Valeu ao algarvio a conquista de um Challenger logo na semana seguinte. DUPLA FALTA Lesões – Uma entorse no joelho tirou Michelle Brito da minitemporada de relva que beneficia o seu estilo de jogo e os problemas dorsais voltaram a afetar Gastão Elias.

Ténisdeoutragaláxia D

os milhares de encontros de ténis a que assisti ao longo da vida, pela televisão ou ao vivo, não tenho memória de alguma vez ter testemunhado nível tão elevado como o que recentemente presenciei em Roland Garros, na meia-final entre Novak Djokovic e Roger Federer, os “nossos” campeões de 2007 e 2008 no Jamor. Simplesmente sublime! Houve mesmo momentos do encontro em que é difícil imaginar poder haver melhor. Federer apresentou um nível de ténis de arrepiar, e não conseguimos imaginar quem mais poderia elevar a fasquia a um ponto que fizesse tombar o imparável sérvio. Agora, não passará de mera conjetura, mas o Novak Djokovic que evoluiu em Paris e até mesmo na derrota frente ao suíço iria muito provavelmente destronar Rafael Nadal no seu palco favorito, numa hipotética quinta vitória consecutiva sobre o espanhol em 2010 e consolidando trauma semelhante ao que Federer tem vivido com Nadal. É, contudo, a rivalidade entre Federer e Nadal que tem marcado esta primeira década do século XXI, fazendo lembrar duelos lendários de outros tempos, com gran-

LIVRE ARBÍTRIO

MIGUEL SEABRA

de parte da crítica já a considerar tratarem-se mesmo dos dois melhores tenistas de todos os tempos. Depende, naturalmente, do prisma que cada um escolher para fazer tal comparação mas, em nossa opinião, Roger leva clara vantagem – não só em títulos mas, sobretudo, em qualidade de jogo, apesar de na terra batida a balança pender claramente para o lado do maiorquino. Nadal possui uma capacidade física e mental impressionante, é inigualável na capacidade de devolver bolas, devendo assemelhar-se a verdadeira parede de betão para os seus adversários, que em vão procuram encontrar algum ponto mais débil do outro lado do court. Tem um ténis profundamente eficaz, quase insuperável no pó de tijolo. Já Federer personaliza a arte de bem jogar ténis; todo ele é elegância e perfeição na execução das pancadas, é inigualável na criatividade e diversidade de soluções, elevando o ténis a níveis que mais ninguém atinge. Uma coisa é certa: vivemos numa época privilegiada. Dois executantes “sobrenaturais”, corporizando estilos de jogo tão distintos e movendo, por isso, paixões e falanges tão distintas. E quando parecia que Fe-

CHARTERS. A conferência de imprensa que comemorou o triunfo de Li Na em Roland Garros teve um momento particularmente tenso. O meu colega italiano Ubaldo Scanagatta relembrou que, exatamente naquele dia, se comemoravam 22 anos sobre o assassínio de protestantes pela brutalidade militar na praça de Tiananmen, e pediu um comentário à

derer e Nadal negociavam entre si os grandes troféus, tal “Tratado de Tordesilhas” do ténis atual, eis que surge um muito digno candidato sérvio ao trono, atualmente até com uma consistência de jogo superior aos seus rivais. Mas não é só Djokovic. Se Murraynos parece ainda a alguma distância desse triunvirato, já Juan Martin del Potro revela potencial para conseguir transformar o trio numa luta a quatro. Entretanto, o ténis nacional vai continuando a subir degrau a degrau, novamente com dois representantes no clube dos 100 (Gil e Machado) e um terceiro que se estreia no clube dos 200 (João Sousa), enquanto o Estoril Open, através da minha pessoa, recebe o mais elevado galardão do município de Oeiras. Uma consagração que ganha ainda maior realce porque conseguida num município campeão em inúmeras frentes e que apresenta índices de qualidade muito acima da média, mas que nos atrevemos a considerar justa e à medida da qualidade de ténis que o Estoril Open tem trazido a terras lusas – sobressaindo, só nos últimos cinco anos, campeões como Djokovic (2007), Federer (2008) e Del Potro (2011). n

melhor tenista asiática de todos os tempos; pairou na sala um silêncio ensurdecedor até que, desconfortavelmente, Li Na descartou o tema que continua a ser tabu na China. O curioso é que ela envergava uma tshirt com inscrição “O Desporto Muda Tudo” e, indiretamente, acabou por beneficiar dessa tragédia cujas repercussões tiveram o con-

dão de aligeirar o jugo do regime. Quando jogou as finais do Estoril Open em 2005 e 2006, Li Na foi obrigada a responder através do intérprete oficial da comitiva chinesa mesmo que já falasse inglês. Agora é uma cidadã livre e uma heroína nacional que atrai charters aonde quer que jogue. Afinal, o chinês de Paulo Futre era uma chinesa. n

O “Jornal do Ténis” de há 30 anos (junho de 1981) tem como tema de capa a sexta vitória de Bjorn Borg em Roland Garros – após uma final em cinco sets diante do então jovem Ivan Lendl. Foi uma quinzena cheia de surpresas na terra batida parisiense e apenas o lendário sueco correspondeu às expectativas. “O Rei Não Quis Abdicar”, intitulava a reportagem; mal se sabia então que o sueco falharia o sexto título consecutivo em Wimbledon e que desapareceria de cena após mais um desaire na final do Open dos Estados Unidos. No plano nacional, a análise à passagem de Armando Rocha para a presidência da Federação Portuguesa de Ténis em substituição de Cordeiro dos Santos.

TÉNISNAREDE facebook.com/jornaldotenis twitter.com/jornaldotenis ARQUIVO DIGITAL: lagossports.com » ténis » Jornal do Ténis

TÉNISNATV INTERNATIONAL 2 Até 12 de junho: ATP World Tour 250 do Queen’s Club, em Londres Até 12 de junho: WTA de Birmingham De 13 a 18 de junho: WTA de Eastbourne Até 12 de junho: ATP World Tour 250 Gerry Weber Open De 13 a 18 de junho: ATP World Tour 250 Unicef Open De 20 de junho a 3 de julho: Wimbledon

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HÁ30ANOS

NOTA: a programação é fornecida pelos respetivos canais, pelo que quaisquer alterações de última hora são da inteira responsabilidade dos emissores. Mais informações em http://tv.eurosport.pt e www.sporttv.pt

Director: João Lagos. Editores Record: Miguel Seabra e Norberto Santos. Redacção: Manuel Perez, Pedro Carvalho e Carlos Figueiredo (Jornal do Ténis). Fotografia: Paulo César (editor Record), Arquivo Record e Arquivo Jornal do Ténis. Departamento Gráfico Record: Eduardo de Sousa (director de arte), João Henrique, José Fonseca e Pedro Almeida (editores gráficos), Cristiano Aguilar (editor Infografia) e Nuno Ferreira (coordenador digitalização). Redacção e Publicidade: Rua da Barruncheira, 6, 2790-034 Carnaxide Telefone: +351 21 303 49 00. Fax: +351 21 303 49 30. E-mail: jornaldotenis@lagossports.com


Roland Garros: portugueses 03

Sexta-feira, 10 de junho de 2011

JUNTOU TÉCNICOSEFAMÍLIA

PRESTAÇÕESLUSASNACATEDRALDATERRABATIDACONDICIONADASPELA“GRANDEZADOEVENTO”

Promessa cumprida

Emoçõestraiçoeiras

n Rui Machado havia prometido

ao preparador físico Paulo Figueiredo a viagem a Paris caso entrasse diretamente no quadro de Roland Garros. Confirmado o acesso direto à melhor grelha, a promessa foi cumprida. Fazendo uso da sua veia gestora, logo em março o algarvio tratou de tornar a deslocação o mais rentável possível: “Encontrei um apartamento simpático, com três quartos, bem no centro da cidade, custando para uma semana 2 mil euros. Para lá da poupança, permitiu desfrutar de um ambiente mais familiar”, no caso com a companhia dos pais – e avós babados com o pequeno David, sobrinho de Rui – e namorada. Outro aspeto marcante da participação de Machado em Paris foi a exibição de parte do seu encontro no canal pan-europeu Eurosport; a sua pancada de direita suscitou a admiração dos vários comentadores internacionais, que depois salientaram o seu evidente desgaste. n

PEDRO CARVALHO, EM PARIS n Com exceção do lucro monetário,

sempre generoso em provas do Grand Slam, o saldo tenístico da participação portuguesa em Roland Garros ficou um pouco aquém das expectativas – não só pela eliminação logo na ronda inaugural como pelo modo como as derrotas se processaram. Atendendo às provas já dadas, é justo dizer-se que era esperado mais de Frederico Gil e Rui Machado naquele que foi apenas o segundo torneio grande (depois do Open da Austrália, em janeiro) a contar com o apuramento direto de dois portugueses para o quadro principal.

Desgaste. Após jogar a se-

RESULTADOSLUSOS EM ROLANDGARROS QUADRO PRINCIPAL MASCULINO

Venceu o primeiro set no Court Suzanne Lenglen, é certo, demonstrando uma clarividência tática que deixou o adversário sem soluções, como reconheceria o francês, mas já o estado emocional acabou por se desmoronar. “Não é que não esteja habituado a jogarem grandes torneios, mas nos maiores courts do Mundo, como este, surge uma quantidade enorme de emo-

Em court foi um Frederico de ataque deliberado que colocou em sentido Marcos Baghdatis. Gil varreu as linhas do court com uma velocidade estonteante na sua pancada de direita. Um ponto apenas o separou do 5-3 na partida inaugural, na qual ainda anulou dois pontos de set. Mas garantida a vantagem de Baghdatis, Gil acabou “atacado” pelo mesmo mal de Machado. “Faltou aquela consistência nos momentos mais importantes, em especial no primeiro set quando tive oportunidades para dilatar a vantagem. É um trabalho que tem de continuar a ser feito no capítulo da consistência e da forma de estar para que, quando me encontrar novamente neste tipo de situações, possa ter outro tipo de resposta”. Vamos ver em Wimbledon. n

Inconsistência. Feitas as despedidas com Machado, seguiu-se Frederico Gil. E tal como o antigo parceiro de treino, também o número 1 português mostrou o cada vez maior à vontade nos grandes cenários da modalidade. Nos corredores sente-se de forma bem vincada a destreza com que se move o lisboeta. Trata a maioria dos jogadores por tu e aproveita, tal como todos os colegas de profissão, a presença nas quatro maiores provas do Mundo para agilizar assuntos relacionados com patrocinadores.

QUALIFYING FEMININO

Elena Bogdan (Rom) v. Michelle Brito, 4-6, 6-2, 6-4 QUALIFYING DE JUNIORES MASCULINOS

Filip Veger(Cro) v. Frederico Silva, 6-2, 6-3

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TantoGilcomo Machadoperderam faceaadversários melhorclassificados

ções que é preciso saber ultrapassar. Consegui fazer isso no primeiro set, com muito mérito, mas o preço pagueio bem caro a partir do segundo", explicou, quando confrontado com o desabafo em court: “Já estou todo roto.”

Julien Benneteau (Fra) v. Rui Machado, 4-6, 6-1, 6-2, 6-0 Marcos Baghdatis (Cip) v. Frederico Gil, 7-6(4), 6-2, 6-2

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À PRIMEIRA. Tanto Frederico Gil (à esquerda) como Rui Machado (em cima) perderam na eliminatória inaugural

ANTÓNIO BORGA

gunda ronda de 2009, vindo do qualifying, Rui Machado foi o primeiro a entrar em cena. Num enquadramento técnico diferente de então, fez-se acompanhar este ano em Paris pelo treinador André Lopes e pelo preparador físico Paulo Figueiredo – para além de elementos da sua família. A parte menos boa foi o desaire frente a Julien Benneteau. Apesar da maior experiência do opositor, Rui voltou a entrar num embate em grandes palcos do ténis mostrando armas mais do que suficientes para se impor na alta-roda do circuito. Acabou, todavia, por ser traído pela “solenidade” do palco pisado.

LUSO-DESCENDENTE. Maxime Teixeira (166º ATP) colocou um apelido português na segunda ronda de Roland Garros, mas sob nacionalidade francesa. Teve o privilégio de partilhar o Court Central com Roger Federer… mas o encontro não durou muito!

ELIMINADANOQUALIFYING EM ROLANDGARROSCONTRAIU ENTORSEESTASEMANA

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Michelleponderafuturo?

BERRO. Em 2009 Michelle andou nas bocas e nos ouvidos do mundo

n Não é que tenha sido assim há tanto tempo, mas parece cada vez mais distante o ano de 2009 quando uma portuguesa, então com apenas 16 anos, chegou à terceira ronda de Roland Garros. E essa recordação remota surge pelo simples facto de Michelle Larcher de Brito parecer atualmente uma sombra da jovem prodígio de quem alguns ainda continuam a depositar grandes esperanças. Em Paris, este ano, jogou a primeira ronda da fase de qualificação e não passou daí. Aí sim, já

mais à sua imagem, abandonou o court 12 da Porte d’Auteuil lavada em lágrimas, sem sequer dignar-se a falar aos jornalistas. Ben Crandell, ainda o agente IMG de Michelle, não viu o encontro e quando questionado sobre que rumo iria tomar a temporada da atleta a partir da eliminação em Paris, limitou-se a encolher os ombros, confessando alguma impotência sentida nos últimos tempos para conseguir gerir a agenda da “sua” cliente. Ao fim e ao cabo, mais um episódio na car-

reira de uma jogadora que continua com o futuro envolto numa grande nuvem de incerteza – mais ainda com a recente entorse no joelho contraída em Birmingham que a afasta de Wimbledon – e que, segundo o JT conseguiu apurar, estará seriamente a ponderar ingressar na universidade para seguir a vida académica, através de uma bolsa de estudo que lhe permita manter a sua atividade tenística no competitivo escalão universitário de ténis norte-americano. n


04 Roland Garros: reportagem RAFAELNADALENTROU NACORRIDAPARASER OMELHORJOGADOR DETODOSOSTEMPOS MIGUEL SEABRA, EM PARIS n Não há exercício mais subjetivo – e

fascinante! – do que comparar tenistas de eras diferentes na tentativa de se determinar quem é o melhor jogador de sempre. Há parâmetros objetivos e a principal medida de grandeza comummente aceite é o total de títulos do Grand Slam, embora haja vários outros registos estatísticos a ter em conta e, sobretudo, é preciso levar em consideração um enquadramento histórico específico. Mas não há dúvida de que o tema volta a estar em dia. Incrivelmente, logo na geração seguinte à de Pete Sampras surgiu Roger Federer a pulverizar um recorde de troféus do Grand Slam que parecia inalcançável tendo em conta a crescente competitividade do circuito profissional masculino. Quase em simultâneo aparece Rafael Nadal a acumular títulos. Ele, que já era considerado

Sexta-fei

Exercício de excelência

Noespaçodeumano omaiorquinopassou deseisparadez títulosdoGrandSlam

Troika. Antes mesmo de Rafael Nadal chegar aos dois dígitos, já Novak Djokovic declarava publicamente que o maiorquino era, para ele, “o melhor tenista de sempre”. Entretanto, o sérvio – que “só” ganhou dois títulos do Grand Slam, um Masters e uma Taça Davis até ao momento… – conseguiu este ano uma série de encontros ganhos consecutivamente no circuito que nem o suíço nem o espanhol conseguiram nas respetivas carreiras. Estamos perante uma era excecional, mesmo que tenha havido fases dos anos 90 de grande nível (sobretudo com Pete Sampras e Andre Agassi), sem esquecer os fabulosos anos 80 de grandes campeões com fortes personalidades (de Bjorn Borg a John McEnroe, passando por Ivan Lendl, Jimmy Connors, Mats Wilander, Boris Becker e Stefan Edberg). As comparações tornam-se ainda mais complicadas de fazer porque o ténis é um jogo de encaixe de estilos. Como é que Roger Federer pode ser considerado o melhor de sempre se é dominado por um seu contemporâneo como Rafael Nadal (embora a maior parte dos encontros entre os dois se tenha realizado no piso preferido do es-

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como o melhor desportista espanhol de sempre, entra definitivamente na corrida para melhor tenista de todos os tempos ao arrecadar o 10.º troféu do Grand Slam no passado fim-de-semana, em Roland Garros. Tem 25 anos acabados de fazer.

RESPEITO. Existe enorme admiração mútua entre os arquirrivais Roger Federer e Rafael Nadal, tão distintos no estilo como na personalidade panhol)? Basta atender à pescadinha de rabo na boca que envolve a troika que atualmente domina o ténis: o jogo de Nadal incomoda Federer, o jogo de Federer incomoda Djokovic, o jogo de Djokovic incomoda Nadal!

Nãosouomelhorde sempre.Achoquesou umdosmelhores. Eissobasta-me(Nadal)

História. E, no estabelecimento da lista de melhores jogadores de todos os tempos, há também muitos “ses” a ter em consideração. E se Rod Laver não tivesse sido impedido de jogar torneios do Grand Slam durante

MAIORAISDOGRANDSLAM: AMEDIDADOSULTRACAMPEÕES 16 – ROGER FEDERER (6 Wimbledon, 5 US Open, 4 Austrália, 1 Roland Garros) 14 – PETE SAMPRAS (7 Wimbledon, 5 US Open, 2 Austrália) 12 – ROY EMERSON (6 Austrália, 2 Wimbledon, 2 US Open, 2 Roland Garros) 11 – ROD LAVER (4 Wimbledon, 3 Austrália, 2 US Open, 2 Roland Garros) 11 – BJORN BORG (6 Roland Garros, 5 Wimbledon) 10 – RAFAEL NADAL (6 Roland Garros, 2 Wimbledon, 1 US Open, 1 Austrália) 10 – BILL TILDEN (7 US Open, 3 Wimbledon)

cinco anos, numa altura em que os ideais do falso amadorismo (denominado “amerdorismo”, porque os melhores amadores recebiam por baixo da mesa) impediam os profissionais de competir nas maiores competições? E se Bjorn Borg não tivesse abandonado precocemente a competição ou jogado mais vezes o Open da Austrália para tentar bater um recorde de títulos do Grand Slam ao qual ninguém dava grande importância na altura? E se antigamente os torneios do Grand Slam se jogassem em pisos distintos em vez de se realizarem ape-

nas em relva (três) e terra batida (um)? E se houvesse registos vídeo na altura de Bill Tilden nos anos 20? Se Lew Hoad não optasse pelo profissionalismo na década de 50? O americano Don Budge foi, em 1938, o primeiro jogador a conseguir o Grand Slam propriamente dito – ganhou os “Quatro Grandes” num mesmo ano. Só Rod Laver conseguiu repetir tal façanha nos homens, enquanto nas senhoras houve três (Maureen Connolly, Margareth Court e Steffi Graf). Federer e Nadal conseguiram já ambos o chamado “Career Slam”, mas perante a extrema competitividade e níveis de exigência atuais seria um milagre se conseguissem os quatro na mesma época . O certo é que o próximo episódio da saga dos melhores de todos os tempos está agendado para daqui a três semanas, em Wimbledon! n

MELHOR QUE O ORIGINAL. Em Outubro de 2004 e logo após a conquista do quarto título do Grand Slam por parte de Roger Federer, o “Jornal do Ténis” comparou-o a Pete Sampras e intitulou: “Quem é Melhor?” O suíço dava já mostras de grandeza e – numa comparação entre ambos que englobou parâmetros técnicos, táticos, físicos e mentais – o comparativo declarou-o como sendo intrinsecamente melhor do que o americano. Na altura poderia parecer um sacrilégio comparar alguém com quatro títulos do Grand Slam a um campeão com 14; o tempo (cinco anitos) encarregou-se de dar razão à arrojada análise.


Roland Garros: reportagem 05

ra, 10 de junho de 2011

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DR RECORD

[QUINTETO DE LUXO]

RODNEY GEORGE LAVER Nasceu a 9/08/1938 Rockhampton (Austrália) 1,73 m 73 kg Esquerdino Esquerda a uma mão 47 títulos de singulares 11 títulos do Grand Slam 5 Taças Davis 0 Masters

BJORN RUNE BORG Nasceu a 6/06/1956 Soedertalje (Suécia) 1,80 m, 75 kg Destro Esquerda a duas mãos 62 títulos de singulares 11 títulos do Grand Slam 1 Taça Davis 2 Masters

PETER SAMPRAS Nasceu a 12/08/1971 Washington (EUA) 1,85 m, 77 kg Destro Esquerda a uma mão 64 títulos de singulares 14 títulos do Grand Slam 2 Taças Davis 5 Masters

ROGER FEDERER Nasceu a 8/08/1981 Basileia (Suíça) 1,85 m, 84 kg Destro Esquerda a uma mão 67 títulos de singulares 16 títulos do Grand Slam 0 Taça Davis 5 Masters

RAFAEL NADAL PARERA Nasceu a 3/06/1986 Manacor (Espanha) 1,85 m, 85 kg Esquerdino Esquerda a duas mãos 46 títulos de singulares 10 títulos do Grand Slam 2 Taças Davis 0 Masters

n É ainda considerado por muitos como o melhor de todos os tempos. O esquerdino australiano dominou por completo a década de 60, primeiro, como amador até 1962 – ano em que completou o Grand Slam propriamente dito (ganhou todos os quatro diferentes torneios do Grand Slam numa mesma época). Depois, abraçou o profissionalismo e só pôde voltar a competir nos maiores torneios com o advento da era open, em 1968. Em 1969 voltou a completar o Grand Slam. Ou seja: não só fez algo que mais ninguém conseguiu (o Grand Slam em duas ocasiões) como esteve quase seis anos sem poder jogar – se pudesse competir nesses 20 torneios do Grand Slam realizados entre 1963 a 1967, seguramente que o seu total de 11 títulos do Grand Slam (e o total de troféus oficiais) seria muito inflacionado! Rod Laver foi um adolescente pequeno e enfermo, sarcasticamente apelidado de “Rocket”; mas ganhou robustez e tornou-se num grande atacante, conseguindo concluir os pontos em qualquer lado do court. n

n Foi, talvez, a primeira supervedeta do ténis à escala global, beneficiando do início regular das transmissões televisivas dos grandes torneios e tornando-se multimilionário graças ao prize-money crescente e aos múltiplos contratos publicitários. O seu visual de viking impávido e sereno, a esquerda a duas mãos que se tornaria depois norma no ténis moderno, os nervos de aço e o físico inquebrável deram-lhe uma aura que a sua precoce retirada do circuito (aos 25/26 anos) transformou em lenda. A (quase) invencibilidade em terra batida com seis títulos em Roland Garros e os cinco troféus consecutivos em Wimbledon colocaram-no num patamar mítico. Bjorn Borg forjou a lendária consistência ao jogar horas a fio contra a porta da garagem em criança; na juventude partiu uma raqueta e foi suspenso. As repreensões fizeram com que se emendasse: nunca mais mostrou emoções. Mas debaixo da expressão esfíngica de “Ice Borg” os sacrifícios e as pressões foram-no consumindo… n

n Foi modelado à imagem de Rod Laver pelo seu mentor Pete Fischer; abandonou a sua esquerda a duas mãos na juventude para potenciar o seu ténis atacante e foi graças ao seu fabuloso serviço, à sua excelente direita e ao seu acutilante jogo de rede que bateu o recorde de 12 títulos do Grand Slam que pertencia anteriormente a Roy Emerson – acabando a sua carreira com 14. Era uma autêntica máquina de ganhar, concentrando-se sobretudo nos torneios do Grand Slam e especialmente em Wimbledon e no Open dos Estados Unidos: impôs-se por sete vezes na catedral do ténis e em cinco ocasiões em Flushing Meadows; ganhou ainda duas vezes o Open da Austrália, mas nunca passou das meias-finais na terra batida de Roland Garros (o rival Andre Agassi conseguiu os quatro diferentes). Logrou fechar a época como número 1 mundial por seis vezes e ainda detém o recorde de semanas de permanência no topo. Reformou-se após ganhar inesperadamente o US Open em 2002. n

n Teve por ídolos Stefan Edberg,

n Elevou o ténis a patamares atlé-

Boris Becker e Pete Sampras – mas ninguém poderia imaginar que viesse a ultrapassar todos eles, mesmo que tenha sido número 1 mundial de juniores e que tenha derrotado o próprio Sampras na edição de 2001 do torneio de Wimbledon que logo na altura pareceu ser uma espécie de render da guarda. A partir de 2003 abriu a torneira e no espaço de oito anos acumulou múltiplos recordes, sendo o mais relevante o de títulos do Grand Slam: 16. Em 2009 igualou os 14 de Sampras ao ganhar precisamente na terra maldita do americano, em Roland Garros, quebrando a sua própria malapata parisiense (no passado domingo perdeu a quarta final com Rafael Nadal!). É também recordista de finais (23) e meias-finais consecutivas (23) de torneios do Grand Slam. O estilo elegante, fluido e completo faz dele possivelmente o tenista tecnicamente mais evoluído de sempre, embora seja dominado por um seu contemporâneo (Rafael Nadal). Não ganhou a Taça Davis nem o título olímpico de singulares (“só” em pares). n

ticos e competitivos nunca antes conhecidos, parecendo atuar em transe. Apesar de ter como sonho de infância a vitória em Wimbledon, começou por se revelar um enorme especialista em terra batida mas soube fazer evoluir o seu jogo de tração atrás baseado na sua direita com topspin extremo para o tornar eficaz em todas as superfícies – já conseguiu mesmo ganhar todos os quatro diferentes títulos do Grand Slam tal como o seu amigo e arquirrival Roger Federer, que ele tem dominado no mano a mano (17 vitórias a 8) apesar de o considerar o melhor tenista de sempre. Só perdeu duas (para Federer, em Wimbledon) das 12 finais de torneios do Grand Slam que jogou, foi o primeiro a fazer a dobradinha Roland Garros/Wimbledon desde Bjorn Borg e já igualou o lendário sueco na terra batida parisiense. Tem o recorde de encontros ganhos consecutivamente na terra batida (81) e de títulos Masters 1000; leva vantagem sobre Federer ao ter ganho a Taça Davis e o título olímpico de singulares, mas (ainda) não ganhou o Masters. n

FANTASMADEDJOKOVICAFETOU NADALMASFEDERERTIROU-LHODAFRENTE

n Com exceção da edição de 2009, perturbada por problemas físicos e o divórcio dos pais, Rafael Nadal viveu a sua mais atribulada passagem por Roland Garros. Não pelo desfecho em si, esse já usual, refletido na conquista do sexto título de campeão (tornandose o melhor de sempre em terra batida), mas pelo caminho que o levou à glória. Se desde 2005 tomou conta do subconsciente de Roger Federer (até hoje!), nesta temporada

tem sido o espanhol a provar do próprio “veneno”. E com isso não tem tido outro remédio se não o de viver com Novak Djokovic na sua mente. “Não tem sido fácil lidar com as quatro derrotas diante dele”, desabafou. O maiorquino esteve ansioso, mas esforçou-se por viver um dia de cada vez. Consciente de que o próximo encontro poderia ser o último. Partilhou a estranha sensação de parecer andar “há 100 anos no circuito” na vés-

pera de cumprir um quarto de século de vida, mas nem assim abdicou de continuar a lutar. E foi isso que fez. Depois de um arranque muito tremido reencontrou-se. E após derrotar Robin Soderling teve o que os campeões costumam ter. Uma estrelinha protetora. Neste caso, encarnada em Roger Federer que retirou do caminho de Rafa a pedra mais incómoda rumo a uma final que, antes de começar, já se sabia como iria terminar. P.C. n

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Atalestrelinha SÍ! Título exorcizou desaires com Djokovic


06 Ténis nacional

Sexta-feira, 10 de junho de 2011

APÓSSEISTÍTULOSFUTURE,JOÃOSOUSAESTREIA-SENACATEGORIACHALLENGEREACEDEATOP200

Saltocurricular

DRAMANOESTORILOPEN

Marcanteduelo fratricida... n Pedro Cordeiro atribui ao Esto-

ril Open em geral e ao encontro com Gastão Elias em particular especial importância para o salto que João Sousa deu logo a seguir à presença no Jamor – com o triunfo em dois Futures e, posteriormente, no Challenger de Fürth. “Ganhou ao Gastão Elias na primeira ronda do Estoril Open ajudado pela desistência do amigo, é certo, mas na altura liderava por 5-2 no terceiro set. Já não jogavam entre eles há muito, mas o Gastão costumava sempre ganhar-lhe quando eram mais jovens e até estava a jogar bem, pelo que foi moralizador.” O vimaranense perdeu depois com a grande esperança canadiana Milos Raonic por 6-3 e 6-3 (que o impediu de, com o seu grande serviço, ganhar ritmo de jogo), mas entretanto também os treinos efetuados no Jamor com alguns dos melhores tenistas do Mundo, incluindo o sueco Robin Soderling, lhe deram alento para produzir o seu melhor ténis nas semanas seguintes. n

MIGUEL SEABRA

n O apelido Sousa pode ser comum numa qualquer lista telefónica, mas está a ser um nome de grande destaque ao longo das últimas semanas no panorama do ténis nacional. No Estoril Open, tanto Pedro (passou o qualifying, roubou um set ao futuro campeão Juan Martin del Potro) como João (ultrapassou a primeira ronda do quadro principal) deram que falar – e o segundo, em especial, aproveitou o élan do Jamor para forrar o seu currículo e ultrapassar algumas fasquias na sua carreira. Logo nas semanas a seguir ao Estoril Open, João Sousa somou o quinto e o sexto títulos Future no seu palmarés; mais importante ainda foi o

Fundamentalpara osucessoemFürth: aclaramelhoriado jogodemeiocampo

PAULO CALADO

seu primeiro troféu na categoria Challenger, alcançado no último domingo em Fürth: permitiu-lhe estrearse no top 200 da hierarquia mundial.

Progressão. O antigo campeão na-

tão uma etapa decisiva, não só pela importância do título como também pelo país: todos os troféus Challenger haviam sido conquistados na Espanha onde treina (um em 2009, três em

[

PORTUGUESES NO TOP 200

]

CATAPULTA. A segunda ronda no Estoril Open lançou-o para dois títulos Future e o primeiro Challenger

Eisosoito portuguesesque lograram acederao top 200 da hierarquia mundialao longo dassuascarreirase o respetivo melhorranking –sendo que apenastrêsatingiram o top 100. • Frederico Gil–62.º(a 25/04/2011) • Rui Machado –84.º(a 21/02/2011) • Nuno Marques–86.º(a 25/09/1995) • João Cunha e Silva –108.º(a 15/04/1991) • EmanuelCouto –174.º(a 26/02/1996) • Leonardo Tavares–186.º(a 16/08/2010) • João Sousa –190.º(a 06/06/2011) • Bernardo Mota –194.º(a 31/03/1997)

2010 e os dois do passado mês de Maio). “Era uma questão de tempo até que conseguisse dar o salto e soube agarrar a oportunidade”, analisa Pedro Cordeiro, precisando um aspeto importante: “O João perdia-se muito no jogo de meio campo e a opção por competir em vários Future em piso rápido fê-lo ganhar confiança nessa área; tornou-se mais completo e tem mais a noção de quando aproveitar as bolas curtas para fazer a diferença. Antes perdia pontos que estava a dominar de maneira inglória e isso afetava-o.”

Leonardo: penúltimo a entrar

O caminho para o título na terra batida de Fürth (30 mil euros) teve algumas fases importantes: “Na segunda ronda, frente ao ex-número um mundial de juniores Uladzimir Ignatik, o João fez talvez o melhor jogo do torneio e salvou matchpoints no segundo e terceiro sets da sua vitória por 3-6, 7-5 e 7-5. Com o Tobias Kamke, que é top 70 e estava a jogar perante o seu público, sentiu-se que tinha o moral em alta e cumpriu bem o plano de o forçar a jogar bolas longe do corpo porque

ele, não tendo grande envergadura, sente algumas dificuldades nesse aspeto. E depois ultrapassou dois gigantes: o sérvio Nikola Ciric, de 2,04m, nas meias-finais por 7-6 e 64, e o alemão Jan-Lennard Struff, a outra sensação do torneio, na final conquistada por 6-2, 0-6 e 6-2.” Para a semana uma nova etapa e um novo desafio numa nova superfície: João Sousa vai estrear-se em torneios do Grand Slam, jogando o qualifying de Wimbledon na relva de Roehampton. n

FERNANDO FERREIRA

Transições. Em Fürth cumpriu-se en-

Jamor: João, Gastão e cãibras

FERNANDO FERREIRA

cional e atual capitão da Seleção portuguesa na Taça Davis, Pedro Cordeiro, tem assumido a responsabilidade técnica do jovem vimaranense – que continua radicado na Catalunha e a treinar-se na Academia BTT (Barcelona Total Ténis). Já acompanhou João em cinco semanas de competição na presente temporada e esteve na Alemanha para ver o pupilo dar o salto curricular que o poderá aproximar dos 150 primeiros. Depois, o objetivo será chegar-se mais perto do top 100. “O João passou por aquilo que todos passam. Iniciou a época com um ranking que lhe permitiu tentar os Challengers e os qualifyings de torneios ATP, mas a certa altura – e apesar de eu entender que o seu nível de jogo lhe permitia jogar provas de maior importância – optouse pelos Futures para que ele sentisse que de facto tinha nível para Challengers. Venceu dois e ao mesmo tempo ganhou tranquilidade e confiança”, revela Pedro Cordeiro.

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Jornal do Ténis 10 Junho 2011  

Jornal do Ténis 10 Junho 2011

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