Page 5

SOBPRESSÃO

5

SETEMBRO / OUTUBRO DE 2009

Mudanças nos editais de fotografia são necessárias De maneira geral, a produção cultural de Fortaleza move-se em grande parte por editais de arte. É o “efeito edital”, que impulsiona a cena cultural da cidade, com incentivos do Município, do Estado e do Governo Federal, na maioria dos projetos realizados. Para ilustrar o que foi dito, basta lembrar que logo no início do segundo semestre de 2009, no dia 19 de agosto, tivemos o lançamento do livro e da exposição de fotos “José Albano – 40 anos de fotografia”, que é o primeiro da coleção “Obra em Revista”, contemplada pelos editais de cultura e que pretende reunir o trabalho de outros fotógrafos cearenses.  Logo depois, no dia 20, veio “Santa Teresinha: O morro de uma cidade”, livro fotodocumentário, de Fernanda Oliveira, patrocinado pelo edital das Artes da Fundação da Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet, hoje Secultfor), em 2006, e recebeu Prêmio de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), em 2007. Agora em setembro, no dia 3, foi o lançamento de mais um projeto que recebeu o patrocínio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, através da Secultfor: “O Livro das Horas da Praça do Ferreira”, por Jarbas Oliveira e José Mapuranga, que reúne fotos e textos sobre a praça mais conhecida da cidade. A fotógrafa  Fernanda Oliveira destaca a importância dos editais: “Com os editais foi possível viabilizar a publicação de duas obras, fato que me permitiu concretizar projetos

que contribuem com a produção cultural no Estado, e também com a formação do público”. Fernanda diz que uma parte das obras publicadas será destinadas a bibliotecas públicas, como um incentivo para a juventude redescobrir a cultura local.   Críticas Sérgio Carvalho, ex-presidente do Instituto de Fotografia (IFOTO), entidade privada que tem como objetivo o fomento da atividade fotográfica em Fortaleza, e contemplado pelo Edital das Artes 2006 de fotografia da Funcet com a exposição “Docas do Mucuripe”, apresenta uma série de problemas na política cultural do estado e município. Na opinião dele, “os editais públicos vem apresentando graves deficiências, tais como: montante de recursos insuficientes, valor destinado para cada projeto aprovado muito baixo e atrasos frequentes no pagamento dos contemplados”.   No edital estadual, segundo Sérgio, o valor destinado à  fotografia não passa de R$150.000,00, sendo obrigatoriamente 50% aplicado no interior e 50% na capital. Tal medida às vezes gera impasses, pois, no último edital do Estado, não houve projetos de fotografia selecionados no interior do Ceará. Infelizmente, segundo a Secult, o dinheiro não usado no interior não pode ser utilizado no edital da capital. A verba vai para o Fundo Estadual de Cultura e é utilizado no decorrer do ano em outras atividades culturais. Essa falha, admitida pela Secult, está sendo corrigida.

Contemplados: os fotógrafos Sérgio Carvalho e Fernanda Oliveira e os cartazes de suas exposições ao lado. Fotos: Otávio Nogueira (acima e esquerda) e Arquivo Fernanda Oliveira (Abaixo à direita)

Sérgio Carvalho

Os editais públicos vêm apresentando graves deficiências, tais como: montante de recursos insuficientes, valor destinado para cada projeto aprovado muito baixo e atrasos frequentes no pagamento dos contemplados Fotógrafo, ex-presidente do IFOTO

O atraso no repasse das verbas já virou história dentro do IFOTO, que aguarda há seis meses o pagamento do Estado do Ceará para iniciar o projeto “Fotobiografia”, selecionado no último edital. Mas Carolina Duram, técnica do Sistema Estadual de Cultura da Secult, falou por telefone que o dinheiro do projeto Fotobiografia do Ifoto já foi repassado desde 25 de agosto deste ano. A demora no repasse acontece devido à limitação de funcionários dentro do setor de finanças. Falta agora ao Ifoto apenas a prestação de contas, afirma Carolina.

Visões de quem já julgou projetos Dificilmente Fernanda Oliveira teria publicado seu trabalho sem o incentivo dos editais, pois além do objetivo de fomentar cultura, eles abrem espaço para novos artistas e trabalhos mais experimentais, como afirma Tiago Santana, fotógrafo que já participou como jurado de editais e publicou livros como “Benditos” (2000) e “O Chão de Graciliano” (2006). Considerado um dos grandes fotodocumentaristas brasileiros, Tiago foi escolhido pela curadoria do famoso Calendário Pirelli para indicar nomes de novos fotógrafos das regiões Norte e Nordeste para participar do acervo da coleção. Foi

Tiago Santana participou da comissão julgadora dos editais Foto: Celso Oliveira

também presidente do IFOTO, onde teve contato de perto com a nova produção cearense de fotografia. Para ele, “o fundamental é que não nos detemos somente a trabalhos de fotógrafos já conhecidos e renomados, mas com ênfase a novos fotógrafos, a trabalhos mais experimentais, que são na maioria das vezes mais difíceis de serem viabilizados”. O incentivo para os novos fotógrafos dispostos a viabilizar seus projetos vem crescendo. Ainda segundo Tiago, há editais específicos para o primeiro projeto, como no caso da Secult, com o edital “Revela Ceará Jovem”. Quanto à questão dos te-

mas regionais terem privilégio na contemplação, o fotógrafo avisa: “existe possibilidade de propor projetos que, mesmo dentro da realidade local, sejam mais universais e que discutam a questão de uma visualidade contemporânea e global. Acho que tudo é possível no edital, se for proposto com coerência, com profundidade, com uma pesquisa séria”. Contudo, Tiago destaca o fundamental na produção dos artistas: “o importante é que se está produzindo. Que se está possibilitando a fotógrafos desenvolverem seus trabalhos, com independência, sem interferências e com liberdade de expressão”

Fomento

BNB e BNDES firmam nova parceria Para os anos de 2010 e 2011, um convênio no valor de R$12 milhões firmado entre o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará os editais culturais no Nordeste, Norte de Minas Gerais e Espírito Santo (área de abrangência do BNB). Serão investidos, a cada ano, R$6 milhões no “Programa BNB de Cultura – Em parceria com o BNDES”. O principal motivo da parceria vem do interesse do BNDES em descentralizar territorialmente os bens culturais, além de promover o desenvolvimento sustentável nas partes mais necessitadas de investimento cultural do Nordeste. Estratégia Para isso, pretendem levar recursos às cidades nordestinas com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo da média do Nordeste e/ou o Índice de Exclusão Social (IES) acima da média do Nordeste. Os bancos garantem que 50% dos recursos serão destinados a estas cidades. Outra parte do valor, calculada em 25%, será encarregada de atender projetos cujas ações sejam realizadas em municípios incluídos no Programa Território da Cidadania, do Governo Federal, que tem o intuito de levar desenvolvimento econômico e universalizar os programas básicos de cidadania. Na área de atuação do BNB, existem 34 Territórios da Cidadania, englobando 586 municípios. Escolha Para a seleção dos projetos culturais, são considerados os seguintes critérios: qualidade técnica e/ou artística; atendimento de interesse da comunidade; formação ou aperfeiçoamento profissional; viabilidade físico-financeira; condições de sustentabilidade; ineditismo da proposta; e potencialidade de consolidação da imagem do BNB e do BNDES junto à sociedade. O resultado da seleção dos que serão contemplados pelo edital 2010 está previsto para 30 de outubro deste ano. Estima-se 225 projetos contemplados, sendo, no mínimo, 49 de música, 30 de literatura, 46 de artes cênicas, 33 de artes visuais, 18 de audiovisual e 49 de artes integradas ou não especificadas. O Programa BNB de Cultura, existente desde 2005, já patrocinou 873 projetos nas cinco edições anuais anteriores, beneficiando 437 municípios, no valor total de R$13,5 milhões.

Sobpressão # 20  

Jornal laboratório do cruso de jornalismo da Unifor

Advertisement