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O Twitter, rede social que é sucesso entre os internautas, tem adquirido novas formas de uso. Extrapolando o objetivo inicial proposto pelo site, os usuários encontraram nele uma importante ferramenta de mobilização social. Páginas 8 e 9

Em Fortaleza, o mercado de fantasias cresceu nos últimos dois anos. Já são nove lojas especializadas na fabricação para venda e aluguel dessas peças, com preços que variam de R$30 a R$1.500 e agradam a todos os gostos. Página 12

JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA

SETEMBRO/OUTUBRO DE 2009

Foto: Divulgação

SOBPRESSÃO ANO 6 N° 20

Lei afroétnica ainda é descumprida A maioria das escolas públicas no Ceará ainda não cumpriu a Lei Federal Nº 10.639, efetivada em 2003, que regulamenta o ensino da história e da cultura afroétnica em todos os currículos escolares. Esta regra jurídica, no ano de 2008, foi alterada pela Lei Federal 11.645,

acrescentando também o ensino da história e cultura indígena. O Ministério da Educação (MEC) lançou, em maio deste ano, um plano de implementação do ensino afro-brasileiro em todo o país. A Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza e a Coordenadoria Especial de

Políticas para a Promoção da Igualdade Racial explicam que todo o país está atrasado em relação à aplicação da lei. Espera-se que a sua implementação conscientize as futuras gerações e evite preconceitos e discriminações sobre essa parcela da população. Página 6 e 7

Olimpíadas Universitárias

Fomento

Editais incentivam cultura no Ceará

Foto: Camila Marcelo

Foto: Otávio Nogueira

Atletas da Unifor se superam nos JUBs 2009 A Unifor foi uma das sedes dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs) e seus atletas obtiveram o melhor desempenho geral da Universidade no histórico da competição. Ao conquistar duas pratas e um ouro, três equipes subiram para a divisão de elite dos jogos. Fôlego P. 01

O principal patrocínio cultural em Fortaleza e no Ceará vem dos editais lançados pela Secult, Secultfor e BNB. A maioria deles tem como objetivo democratizar a produção de bens culturais, atingindo músicos, fotógrafos, cineastas, entre outros. Porém, o atraso no repasse das verbas e a burocracia dos editais dificultam a produção dos artistas. Páginas 3, 4 e 5

Intercâmbio

Experiências e trabalho na Disney Foto: Arquivo Pessoal

Cicloturismo Foto: Arquivo pessoal

Turismo de aventura e consciência social Rafael Limaverde viveu uma experiência inesquecível. Em 2002, o artista plástico decidiu vender todos os seus bens e sair em uma viagem de bicicleta. Mesmo sem experiência como ciclista e sem falar espanhol, viajou durante dois anos pela América Latina. Ele revelou, em entrevista ao Fôlego, as impressões da viagem e o impacto dela na sua vida. Fôlego P. 4 e 5

Alunos decidem participar de intercâmbio de trabalho na Disney como oportunidade de praticar o inglês e fazer novas amizades. Todo ano, cerca de 130 universitários de Fortaleza viajam para os Estados Unidos em busca de superar desafios e vivenciar novas experiências na maior empresa de entretenimento do mundo. Página 11


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Opinião

SOBPRESSÃO SETEMBRO / OUTUBRO DE 2009

Editorial

Artigo

Sobpressão inova mais uma vez Desde sua criação, em abril de 2004, o Sobpressão passou por diversos formatos e abordou diferentes perspectivas da nossa sociedade. Agora, em sua 20ª edição, não poderíamos deixar de enfatizar o crescimento e fortalecimento d0 periódico no curso de Jornalismo da Unifor. Um diferencial do Sobpressão é a possibilidade de trabalhar com cadernos. Se a princípio o jornal era distribuído isoladamente, a partir de 2008 ocorreu uma fusão com o Fôlego (de caráter esportivo), o Classificado dá Notícia (reportagens produzidas a partir dos anúncios dos classificados) e o Jornal das Organizações (que apresentava notícias de caráter institucional). Esse processo de sinergia, no qual as quatro publicações se unem para formar um jornal mais forte, variado e informativo, despertou um maior interesse por parte dos leitores, além de abranger públicos variados. Ao acompanhar a convergência midiática, outra novidade que surgiu ao longo dos cinco anos de história do Sobpressão foi a criação do Blog do Laboratório de Jornalismo (Labjor). Esse fato permitiu a divulgação

de material extra, bastidores e outras matérias produzidas pelos alunos da disciplina Projeto Experimental em Jornalismo Impresso, além daquelas vinculadas às produções e pelos estagiários do Labjor. O Blog é uma ferramenta indispensável e significante para essa proposta da convergência, pois alia imagem, texto e vídeo e se transforma em um espaço amplo para incentivar a criatividade dos alunos. Nos projetos gráficos iniciais, o Sobpressão aparentava esteticamente uma revista. Por uma necessidade de atualização, mudou para o formato berliner, o que permitiu uma melhor disposição das reportagens, matérias coordenadas, quadros explicativos e opinativos, tornando-se mais moderno e de fácil manuseio. Por ser um jornal-laboratório, a palavra-chave do Sobpressão é experimentar. A marca dessa inovação é visualizada nas reportagens originais e com angulações diferenciadas, produzidas em um ritmo de trabalho intenso, rotina esta que dá nome ao jornal. Por isso, a cada nova edição, o periódico acompanha o estilo daqueles que o

faz. Sem um padrão específico, sem ser estático. Novidade marcante está permeando esta edição 20: o Caderno Fôlego, antes semestral, agora acompanhará o Sobpressão em sua publicação bimestral. A sugestão foi do professor Alejandro Sepúlveda, responsável pela produção do Fôlego. Por enquanto, é uma experiência, sua manutenção dependerá da aprovação do leitor. Ao longo de todas essas edições, por aqui passaram alunos, professores, diagramadores, estagiários de redação, funcionários da gráfica. Eles sempre se dedicaram para manter o padrão de qualidade do Sobpressão, que foi referendado por prêmios como o de melhor publicação laboratorial do Ceará em 2006, dado pela Associação Cearense de Imprensa (ACI), além da melhor reportagem na categoria Produção em jornalismo interpretativo, “Onde a História é oca”, na Expocom 2009, de autoria de Caio Castelo. Toda essa excelência é a característica que o mantem há 20 edições como parte da trajetória acadêmica de tantos jovens jornalistas.

Mirtila Facó Nogueira

Amor maduro Acho que todo mundo, em algum momento, já idealizou o amor de forma extremamente romântica. Isso é absolutamente normal. Entretanto, com o passar do tempo, percebemos que, como tudo nessa vida, até mesmo a ideia de amor pode amadurecer. Não quero dizer com isso que ficaremos com o coração embrutecido ou coisa assim, quero apenas dizer que amar pode ser a coisa mais saudável desse mundo, desde que feita da maneira correta, ou seja, sem extremismos. Para você provar que ama alguém não é necessário espalhar outdoors por toda a cidade, comprar o presente mais caro do shopping ou ainda - em casos mais “graves” - contratar um carro para fazer a tão temida loucura de amor. É possível demonstrar esse sentimento nas coisas mais simples e pequenas. O estar ao lado nas horas em que o outro mais precisa, mesmo que a situação seja bastante triste ou complicada, é uma das maiores provas de que esse sentimento é verdadeiro. Acredito que o tempo é um aliado, afinal, é com o passar dos dias que descobrimos, de verdade, quem merece ou não a maior parcela do nosso coração. Você, com certeza, já deve ter visto um casal de velhinhos andando de mãos dadas pelas ruas ou sentados em um banquinho de praça. Que outra frase viria à cabeça além de: “ai que coisa mais linda, espero que comigo também seja assim”. Se conversarmos com esse mesmo casal e indagarmos sobre a relação, certamente, ouviremos palavras como tolerância, respeito, amadurecimento, confiança e, é claro, amor verdadeiro. Eu conheço casais assim e, a partir de algumas conversas, consegui entender a razão para tudo isso. O segredo está na maneira de viver essa história; cada um tem seu espaço - mesmo que esses espaços sejam próximos um do outro - cada um tem seu modo de pensar e agir. E é, justamente, esse respeito às diferenças que fortalece os laços. Para que duas pessoas sejam feitas uma para a outra não é necessário que elas andem agarradas 24 horas por dia, afinal, um período para respirar um arzinho próprio é sempre bom. Estudante do 7º semestre de Jornalismo

Crônica

Raphael Barros

Difícil acesso às autoridades

Praça do Ferreira, início da noite do dia 3/9: a foto foi feita durante o lançamento de “O Livro das Horas da Praça do Ferreira” , fruto da parceria entre o fotógrafo Jarbas Oliveira e o escritor José Mapuranga, que reúne fotos e textos sobre a praça mais conhecida da cidade, e que recebeu o patrocínio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, através da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor). Devido a baixa luminosidade a captura da imagem foi feita com sensibilidade ISO 800. A lente escolhida foi uma grande angular 16-50mm com 2.8 de luminosidade, na intenção de registrar a amplitude da cena e contemplar a diversidade de pessoas,sentidos e movimentos,característicos do evento e da própria praça. O tratamento da imagem foi realizado no Photoshop para realçar a sensação de abrangência bem como de semelhança com o visor de um relógio, existente na praça, criando um intertexto com o título do livro. Foto e texto: Otávio Nogueira

Falar com uma autoridade de qualquer instituição é difícil. O jornalista tenta, mas a entrevista não engrena. Aí o assessor fala: “desculpa, ele ainda está em reunião, que tal amanhã?”. Ele esquece que a matéria fecha naquele dia, não dá para adiar. Daria para antecipar, porém, no dia anterior, o chefe estava em outra importante reunião. Resumo da história: 1) a matéria sai sem a declaração do sujeito (com a velha frase: “até o fechamento da matéria não conseguimos falar com…”); 2) o jornalista é tachado de preguiçoso pelos leitores, por não ter apurado bem a matéria. Mas chega o dia para quem persiste! Pauta sensacional: entrevistar o espírito de um médico que faz curas espirituais. O jornalista vai. Entra na sala, todos a postos. Concentração. Nada. A comunicação está difícil, diz o médium, deixemos para amanhã. De novo não, pensa o jornalista. Tente de novo, por favor, tenho que fechar essa matéria hoje. Não deu, o espírito não leu seus pensamentos, nem o médium. A matéria não saiu, o editor não quis arriscar:“até o fechamento…”. Os leitores andam deveras céticos. As coisas estão ruins para o lado do nosso jornalista. Recebeu um telefonema: “suba, o chefe quer falar com você”, disse a secretária. Sempre as secretárias, secretários, assessores…, pensou. Subiu. Chá de cadeira. Depois da tarde perdida, a secretária comunica que a reunião foi adiada para o outro dia, pois um dos mais importantes anunciantes chegou e precisou ser atendido. Que seria do jornal sem eles? Desceu. Estava fechando uma matéria recomendada (aquela que a empresa “sugere”), e faltava justamente o depoimento do chefe. Ia aproveitar aquela oportunidade para entrevistá-lo. Não deu certo. Terminou a matéria com a nossa já conhecida:“até o fechamento…”. Estudante do 6º semestre de Jornalismo

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) Fundação Edson Queiroz - Diretora do Centro de Ciências Humanas: Profª Erotilde Honório - Coordenador do Curso de Jornalismo: Prof. Eduardo Freire - Disciplina: Projeto Experimental em Jornalismo Impresso (semestre 2009.2) - Reportagem: Amanda Nogueira, Ana Carla Calvet, Carolina Barretto, Cleidinaldia Maia, Flaviana Farias, Kelly Freitas, Lucas Benedecti, Mariana Fontenele, Maurício Ponte, Mirtila Facó, Monique Linhares, Otávio Nogueira, Raphael Barros - Projeto gráfico: Prof. Eduardo Freire Diagramação: Aldeci Tomaz - Professores orientadores: Antonio Simões e Eduardo Freire - Coordenação de Fotografia - Júlio Alcântara - Supervisão gráfica: Francisco Roberto - Impressão: Gráfica Unifor - Tiragem: 500 exemplares - Estagiários de Produção Gráfica: Katryne Rabelo - Estagiários de Redação: Camila Marcelo, Viviane Sobral, Wolney Batista - Revisão: Solange Maria Morais Teles

Sugestões, comentários e críticas: jornalsobpressao@gmail.com


SOBPRESSÃO

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Em busca de uma política para os editais culturais A maioria dos artistas contemplados pelos editais de cultura em Fortaleza questiona o modelo adotado e os atrasos na liberação dos recursos Lucas Benedecti, Otávio Nogueira e Raphael Barros

Pergunte a quem foi contemplado, em algum edital de cultura, sua opinião sobre o assunto. Num primeiro momento, fará elogios à iniciativa, mas logo em seguida criticará o montante de recursos destinados à cultura, ou o atraso no repasse das verbas para a realização dos projetos. Esses temas e mais alguns outros, como o uso de editais para incentivar a produção de novos artistas, a contemplação de projetos que tratam de assuntos regionais em detrimento de temas mais globais, são recorrentes nas conversas dos realizadores culturais em Fortaleza. O fenômeno dos editais no Ceará é recente. O primeiro foi lançado em 2003 pela Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará (Secult), e está na sétima edição. Em 2005, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) lançou o seu e, em 2006, a Secretaria de Cultura da Prefeitura de Fortaleza (Secultfor) apresentou o I Edital de Cultura, que em 2009 vai para sua terceira edição. Em todos os casos, o total de recursos destinados ao fomento cultural tem aumentado consideravelmente. A Secultfor, que no começo investiu dois milhões, no último edital disponibilizou o dobro do valor. O BNB, que vinha destinando três milhões, passa após a parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), firmada em 2009, a seis milhões. A Secult salta de um para oito milhões de reais em investimentos na área. Mesmo com o aumento dos valores destinados aos editais de cultura, muito há  de ser feito, tanto pelos órgãos governamentais, como pelos próprios artistas e realizadores. O fotógrafo Tiago Santana explica: “quanto ao montante de recursos, claro que desejamos que sejam cada vez mais ampliados. Mas para cobrar isso precisamos mostrar trabalhos, mostrar demanda e uma quantidade expressiva de bons projetos. Acho que o modelo de Edital onde o proponente tem um acompanhamento, um orientador, alguém que possa acompanhar o projeto em cada passo e que isso garanta

Danças, canções e oralidades foram conservadas entre as tribos, apesar do mito do desaparecimento Foto: Raphael Villar

Foto-montagem: Assembleia Geral, no Instituto de Fotografia (IFOTO), discute medidas a serem tomadas na III Conferência Municipal de Cultura

Márcio Caetano

Tenho consciência de que o número de pessoas responsáveis pela fiscalização dos projetos é insuficiente, por isso pedimos a colaboração dos contemplados Secretário Executivo da Secultfor

uma qualidade cada vez maior, é um bom caminho. Um processo educativo, coletivo e que pode trazer grandes resultados”. Acompanhamento O monitoramento dos projetos é um outro problema. Márcio Caetano, secretário executivo da Secultfor, afirma: “tenho consciência de que o número de pessoas responsáveis pela fiscalização dos projetos é insuficiente, por isso pedimos a colaboração dos contemplados”. Ressalta também que esta colaboração é fundamental para a liberação das verbas. “Fala-se muito sobre a Prefeitura, que ainda deve o repasse dos recursos referentes ao edital de 2006, mas não sobre o fato de não terem prestado contas com a Secretaria de Finanças do Município (Sefin).

E, infelizmente, desconfiamos que não o farão”, revela. Geralmente, os selecionados nos editais de cultura recebem 80% dos recursos no início da execução dos projetos, e os 20% restantes quando entregam o trabalho concluído. No período de elaboração da obra, o artista, dependendo do edital, terá de enviar aos coordenadores de cada área (audiovisual, música e fotografia, por exemplo) relatórios mensais ou bimestrais, comprovando o andamento da obra, juntamente com a prestação de contas. Igor Câmara, coordenador da área de fotografia da Secultfor, confirma a dificuldade de acompanhar os projetos. “Fico no pé dos fotógrafos, mas não posso obrigar ninguém a enviar os documentos”, conta. Mas o que pode ser feito no sentido de coibir esse tipo de conduta? “A Secultfor não pode fazer nada, mas a Secretaria de Finanças (Sefin) pode entrar com processo administrativo contra os artistas que não cumprirem o acordado, mas não queremos prejudicar os artistas, sabemos que muitos não são familiarizados com relatórios e prestações de contas.  Queremos resolver da melhor maneira possível, por isso eles ainda não sofreram esse processo. Isso acaba com a vida artística deles perante órgãos públicos”, diz o secretário executivo da Secultfor. 

Foto: Otávio Nogueira

Primeiro passo: Conferência Municipal de Cultura Em busca de mudanças que aperfeiçoem as políticas públicas para o setor cultural, a Secultfor realizará, de 27 a 29 de outubro, a III Conferência Municipal de Cultura. Será discutida a implantação do Sistema Municipal de Fomento à Cultura, cuja proposta é a elaboração do Plano Municipal de Cultura, nos moldes do que acontece com a saúde e a educação. O plano de metas, normas e critérios, determina fontes e montante de recursos, transformando a política para o setor cultural em Lei. Implantado o sistema, teremos o Fundo Municipal de Cultura, verba destinada especificamente para esse fim. “Por exemplo: o dinheiro investido em cultura hoje, como no caso dos editais, é uma escolha da Secultfor em repassar uma parte do seu orçamento, através da Sefin, para os artistas. Mas não é lei, não somos obrigados a fazer isso. Em 2008, não houve edital por questões eleitorais e políticas. Se já houvesse o Sistema de Fomento, isso não aconteceria, pois um percentual dos impostos arrecadados pela prefeitura, como o IPTU e o

ISS, seriam obrigatoriamente destinados à cultura”, explica Márcio Caetano. Uma retrospectiva das conferências anteriores sinaliza mudanças importantes no âmbito cultural. Na primeira delas, foi decidida a criação da Secultfor, já que os assuntos relacionados à cultura eram tratados de forma difusa pela Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet). Da segunda, surgiu o Conselho Municipal de Cultura, votado e regulamentado pela Câmara dos Vereadores, que conta com a participação da sociedade civil, e possui poder consultivo, deliberativo e fiscalizador junto à Prefeitura. Para a próxima, espera-se a implantação do Sistema Municipal de Fomento à Cultura, juntamente com o Plano Municipal de Cultura. Nesse sentido, o secretário executivo acredita que é fundamental uma maior participação da sociedade civil, por meio do Conselho Municipal de Cultura, para pressionar e referendar a tomada de decisão, além de uma maior articulação por parte dos artistas e realizadores.


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O cinema debatido em família A maioria dos editais de cultura tem como objetivo democratizar a produção de bens culturais. Mas será que as verbas são suficientes na área cinematográfica para o Ceará? A descentralização dos editais culturais veio com a criação dos editais regionais. No Ceará, existem incentivos tanto por parte do Município (Secultfor), como do Estado (Secult) e do Governo Federal (BNB e MinC). A iniciativa é vista com bons olhos por Bárbara Cariry, que critica a situação anterior, em que ocorria a centralização das produções culturais no eixo Rio - São Paulo. Bárbara, aluna do curso de Audiovisual na Universidade de Fortaleza (Unifor), contemplada duas vezes pelos editais do Ministério da Cultura (MinC), nas categorias “Roteiro” e “Filme Infantil”, afirma: “jovens realizadores precisam dos editais principalmente para exercitar seu olhar e criar seu cinema”. Rosemberg Cariry e Petrus Cariry, cineastas e parentes de Bárbara, também acreditam nos editais como uma alternativa necessária para se realizar cinema no Ceará. “Sem os recursos dos editais é quase impossível ao pequeno produtor, ou realizador independente, fazer uma obra tecnicamente

bem acabada e com possibilidade de circulação no Brasil e mesmo no exterior”, avalia Rosemberg. A sétima arte exige bons equipamentos e profissionais. Envolve produção, fotografia, técnicos, enfim, “é uma arte cara”, como afirma Bárbara. Conseguir patrocínio para um filme, principalmente para quem está começando, não é tarefa fácil. Desde 2003, no Estado, os editais surgem como oportunidade para novos artistas. Há espaço nos editais reservados para os que estão começando. Mas como chegar até lá?  Rosemberg, cineasta contemplado em vários editais, e ganhador do Prêmio BNB de melhor produção com temática nordestina, pelo filme “Patativa do Assaré – Ave Poesia”, avisa aos novatos que é preciso um bom projeto para conseguir recursos dos editais. A originalidade do tema e a qualidade da proposta estética contam bastante para o cineasta, além de um projeto bem escrito e apresentado. Da mesma forma pensa Petrus, que explica: “temas regionais e religiosos não influenciam na escolha dos projetos, já que existem vários editais para diferentes propostas de cinema e é essa pluralidade que forma

a identidade brasileira”. Petrus possui em seu currículo o premiado longa-metragem “O Grão” e o curtametragem exibido no 19° Cine Ceará, realizado neste ano de 2009, chamado “A Montanha Mágica”, entre outros. Já foi contemplado em cinco editais, dois federais, dois estaduais e um municipal. Segundo ele, “o atraso na liberação da verba, quando ocorre, atrapalha o processo de realização dos filmes, mas não impede a realização. Não impede porque o esforço surge por parte dos cineastas, que procuram parcerias privadas e até ajuda de amigos na parte de equipamentos e produção”. Contudo, sem os editais, Petrus acredita que a realização de sua filmografia seria muito difícil, pois no Brasil quem investe em cinema são os órgãos públicos e a parceria entre o cinema e a iniciativa privada ainda está “engatinhando”. Para ele, “a maioria dos bons filmes produzidos no país foram feitos com editais de cinema ou financiamento público, desde os tempos da Embrafilme. Hoje é difícil para um realizador com um projeto mais autoral conseguir verba de alguma empresa privada, porque eles entendem que este tipo de projeto não traz retorno comercial”.

Clã: o cineasta Rosemberg Cariry acima, e seus filhos Petrus e Bárbara, que seguem o mesmo caminho F : A B C ( ) otos

e

rquivo

árbara

ariry acima e direita

Kelly Freitas (esquerda)

Vários gêneros musicais ganham espaço O flautista Marcelo Leite, que desde 2004 participa de vários editais culturais, acredita que os projetos com temas regionais são mais valorizados, tendo melhor aceitação nos editais culturais, principalmente nos da Secult. Ele, que tem 18 anos de carreira e já tocou em países europeus acompanhado da banda do Colégio Piamarta há alguns anos, nunca deixou de lado a terra natal, Fortaleza. Seguindo carreira solo, Marcelo relembra os editais que já participou, gravação e lançamento de CD pela Secult e Funcet, e o Projeto Música Instrumental do BNB, que lhe cedeu espaço para apresentações em Fortaleza (CE), Crato (CE) e Souza (PB), desde 2005. Apesar de ter sua música geralmente “aceita” nos editais pelo gênero que toca, afirma que “(os editais) deixam um pouco de lado os (temas) contemporâneos e até mesmo os que eles não acreditam serem nordestinos, como o choro e o samba”.

Da mesma opinião compartilha o saxofonista Bob Mesquita, reconhecido como um dos mais talentosos instrumentistas cearenses da nova geração. Bob já participou do grupo “7+ Quarteto”, contemplado por um edital de música instrumental da Secult. Ele acredita que não há espaço para alguns ritmos estrangeiros, como o jazz norte-americano tradicional. Para o músico, o jazz só ganha espaço se vier misturado à música brasileira. Mas isso não é o que fala Marcia Araújo, do Sistema Estadual de Cultura da Secult. Ela confirma que todo projeto tem vez nos editais, basta ter qualidade. Todavia, Bob admite que a política dos editais é o meio mais eficaz de mostrar os novos valores musicais da cidade, pela possibilidade de divulgação rápida por todo o país, pois esta política é algo que vem se

espalhando por várias regiões do Brasil. Os editais, para ele, também são uma forma de combater a produção musical que objetiva somente o lucro, preservando uma identidade de nossa música. Para os músicos, o atraso no repasse de verbas dos editais também não é novidade. Lucas Gurgel teve sua banda contemplada no edital da Secultfor de 2008. Sua banda, a Clamus, que toca heavy-metal, esti-

Na música: Marcelo Leite e Bob Mesquita, músicos contemplados por editais, à esquerda. E a banda de Heavy-metal, Clamus Fotos: Otávio Nogueira (Esquerda) e Kátia Sampaio (Direita)

lo raramente visto em editais culturais, conseguiu algo surpreendente, e foi contemplada com um projeto para produção de seu CD. Mas a prensagem dos CDs atrasou por falta da segunda parcela dos recursos, de responsabilidade da Prefeitura. Lucas, que é membro da ONG Associação Cultural Cearense de Rock (ACR), observa que bandas de rock também possuem espaço nos editais, principalmente nos da Prefeitura. Ficou surpreso com a contemplação de sua banda, mas desanima quando o assunto é o repasse de verbas. Marcelo Leite enxerga os editais como “algo a mais” para os músicos que estão começando. E diz que muitos esbarram na complexidade de certos editais, pois “alguns são cheios de normas e burocracias, que somente músicos com um suporte de uma produtora, ou algo parecido, é que encaram”, afirma.  


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Mudanças nos editais de fotografia são necessárias De maneira geral, a produção cultural de Fortaleza move-se em grande parte por editais de arte. É o “efeito edital”, que impulsiona a cena cultural da cidade, com incentivos do Município, do Estado e do Governo Federal, na maioria dos projetos realizados. Para ilustrar o que foi dito, basta lembrar que logo no início do segundo semestre de 2009, no dia 19 de agosto, tivemos o lançamento do livro e da exposição de fotos “José Albano – 40 anos de fotografia”, que é o primeiro da coleção “Obra em Revista”, contemplada pelos editais de cultura e que pretende reunir o trabalho de outros fotógrafos cearenses.  Logo depois, no dia 20, veio “Santa Teresinha: O morro de uma cidade”, livro fotodocumentário, de Fernanda Oliveira, patrocinado pelo edital das Artes da Fundação da Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet, hoje Secultfor), em 2006, e recebeu Prêmio de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), em 2007. Agora em setembro, no dia 3, foi o lançamento de mais um projeto que recebeu o patrocínio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, através da Secultfor: “O Livro das Horas da Praça do Ferreira”, por Jarbas Oliveira e José Mapuranga, que reúne fotos e textos sobre a praça mais conhecida da cidade. A fotógrafa  Fernanda Oliveira destaca a importância dos editais: “Com os editais foi possível viabilizar a publicação de duas obras, fato que me permitiu concretizar projetos

que contribuem com a produção cultural no Estado, e também com a formação do público”. Fernanda diz que uma parte das obras publicadas será destinadas a bibliotecas públicas, como um incentivo para a juventude redescobrir a cultura local.   Críticas Sérgio Carvalho, ex-presidente do Instituto de Fotografia (IFOTO), entidade privada que tem como objetivo o fomento da atividade fotográfica em Fortaleza, e contemplado pelo Edital das Artes 2006 de fotografia da Funcet com a exposição “Docas do Mucuripe”, apresenta uma série de problemas na política cultural do estado e município. Na opinião dele, “os editais públicos vem apresentando graves deficiências, tais como: montante de recursos insuficientes, valor destinado para cada projeto aprovado muito baixo e atrasos frequentes no pagamento dos contemplados”.   No edital estadual, segundo Sérgio, o valor destinado à  fotografia não passa de R$150.000,00, sendo obrigatoriamente 50% aplicado no interior e 50% na capital. Tal medida às vezes gera impasses, pois, no último edital do Estado, não houve projetos de fotografia selecionados no interior do Ceará. Infelizmente, segundo a Secult, o dinheiro não usado no interior não pode ser utilizado no edital da capital. A verba vai para o Fundo Estadual de Cultura e é utilizado no decorrer do ano em outras atividades culturais. Essa falha, admitida pela Secult, está sendo corrigida.

Contemplados: os fotógrafos Sérgio Carvalho e Fernanda Oliveira e os cartazes de suas exposições ao lado. Fotos: Otávio Nogueira (acima e esquerda) e Arquivo Fernanda Oliveira (Abaixo à direita)

Sérgio Carvalho

Os editais públicos vêm apresentando graves deficiências, tais como: montante de recursos insuficientes, valor destinado para cada projeto aprovado muito baixo e atrasos frequentes no pagamento dos contemplados Fotógrafo, ex-presidente do IFOTO

O atraso no repasse das verbas já virou história dentro do IFOTO, que aguarda há seis meses o pagamento do Estado do Ceará para iniciar o projeto “Fotobiografia”, selecionado no último edital. Mas Carolina Duram, técnica do Sistema Estadual de Cultura da Secult, falou por telefone que o dinheiro do projeto Fotobiografia do Ifoto já foi repassado desde 25 de agosto deste ano. A demora no repasse acontece devido à limitação de funcionários dentro do setor de finanças. Falta agora ao Ifoto apenas a prestação de contas, afirma Carolina.

Visões de quem já julgou projetos Dificilmente Fernanda Oliveira teria publicado seu trabalho sem o incentivo dos editais, pois além do objetivo de fomentar cultura, eles abrem espaço para novos artistas e trabalhos mais experimentais, como afirma Tiago Santana, fotógrafo que já participou como jurado de editais e publicou livros como “Benditos” (2000) e “O Chão de Graciliano” (2006). Considerado um dos grandes fotodocumentaristas brasileiros, Tiago foi escolhido pela curadoria do famoso Calendário Pirelli para indicar nomes de novos fotógrafos das regiões Norte e Nordeste para participar do acervo da coleção. Foi

Tiago Santana participou da comissão julgadora dos editais Foto: Celso Oliveira

também presidente do IFOTO, onde teve contato de perto com a nova produção cearense de fotografia. Para ele, “o fundamental é que não nos detemos somente a trabalhos de fotógrafos já conhecidos e renomados, mas com ênfase a novos fotógrafos, a trabalhos mais experimentais, que são na maioria das vezes mais difíceis de serem viabilizados”. O incentivo para os novos fotógrafos dispostos a viabilizar seus projetos vem crescendo. Ainda segundo Tiago, há editais específicos para o primeiro projeto, como no caso da Secult, com o edital “Revela Ceará Jovem”. Quanto à questão dos te-

mas regionais terem privilégio na contemplação, o fotógrafo avisa: “existe possibilidade de propor projetos que, mesmo dentro da realidade local, sejam mais universais e que discutam a questão de uma visualidade contemporânea e global. Acho que tudo é possível no edital, se for proposto com coerência, com profundidade, com uma pesquisa séria”. Contudo, Tiago destaca o fundamental na produção dos artistas: “o importante é que se está produzindo. Que se está possibilitando a fotógrafos desenvolverem seus trabalhos, com independência, sem interferências e com liberdade de expressão”

Fomento

BNB e BNDES firmam nova parceria Para os anos de 2010 e 2011, um convênio no valor de R$12 milhões firmado entre o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará os editais culturais no Nordeste, Norte de Minas Gerais e Espírito Santo (área de abrangência do BNB). Serão investidos, a cada ano, R$6 milhões no “Programa BNB de Cultura – Em parceria com o BNDES”. O principal motivo da parceria vem do interesse do BNDES em descentralizar territorialmente os bens culturais, além de promover o desenvolvimento sustentável nas partes mais necessitadas de investimento cultural do Nordeste. Estratégia Para isso, pretendem levar recursos às cidades nordestinas com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo da média do Nordeste e/ou o Índice de Exclusão Social (IES) acima da média do Nordeste. Os bancos garantem que 50% dos recursos serão destinados a estas cidades. Outra parte do valor, calculada em 25%, será encarregada de atender projetos cujas ações sejam realizadas em municípios incluídos no Programa Território da Cidadania, do Governo Federal, que tem o intuito de levar desenvolvimento econômico e universalizar os programas básicos de cidadania. Na área de atuação do BNB, existem 34 Territórios da Cidadania, englobando 586 municípios. Escolha Para a seleção dos projetos culturais, são considerados os seguintes critérios: qualidade técnica e/ou artística; atendimento de interesse da comunidade; formação ou aperfeiçoamento profissional; viabilidade físico-financeira; condições de sustentabilidade; ineditismo da proposta; e potencialidade de consolidação da imagem do BNB e do BNDES junto à sociedade. O resultado da seleção dos que serão contemplados pelo edital 2010 está previsto para 30 de outubro deste ano. Estima-se 225 projetos contemplados, sendo, no mínimo, 49 de música, 30 de literatura, 46 de artes cênicas, 33 de artes visuais, 18 de audiovisual e 49 de artes integradas ou não especificadas. O Programa BNB de Cultura, existente desde 2005, já patrocinou 873 projetos nas cinco edições anuais anteriores, beneficiando 437 municípios, no valor total de R$13,5 milhões.


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SETEMBRO / OUTUBRO DE 2009

Lei que obriga ensino afroétnico d Lei Nº 10.639/03 torna o ensino da história e cultura afro-brasileira obrigatório nas escolas, porém são muitas as dificuldades para o seu cumprimento Amanda Nogueira e Kelly Freitas

No ano de 2003, o povo brasileiro ganhou uma batalha: a efetivação da Lei Federal Nº 10.639, que garante a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira em escolas públicas e privadas do Brasil. Em seis anos de vigor, pouco se fez para que a lei Nº 10.639/03 realmente fosse efetivada. Isto gerou a necessidade de, em maio de 2009, o Ministério da Educação (MEC) lançar um plano de implementação do ensino afro-brasileiro em todos os municípios e estados do país. O Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana foi lançado neste ano como resultado de uma parceria entre o MEC e a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR). Um balanço nacional da implementação da lei Nº 10.639/03, realizado pelo MEC no ano de 2007 revelou boas experiências desenvolvidas para a implementação

da lei, porém a maioria delas isoladas e não abrangendo todas as redes de ensino. No final de 2008 foi criado então um Grupo de Trabalho Interministerial, instituído por iniciativa do MEC e uma série de organizações ligadas aos movimentos afroétnicos do Brasil, com o objetivo de desenvolver uma proposta de plano nacional que estabelecesse metas para a implementação efetiva da lei em todo o território nacional. “Quando queremos conquistar e assegurar a concretização de direitos, não basta aprovarmos uma lei. A norma legal é sempre importante porque positiva o direito e estabelece condutas obrigatórias para todas as pessoas. Porém, é necessário lutarmos para que a lei, quando justa e legítima, seja efetivada e tenha ampla aplicação nas relações sociais, pois qualquer legislação pode cair no vazio”. Pelo menos é o que explica o advogado e presidente da Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará (OAB-CE), André Costa, acerca da necessidade do plano de efetivação lançado este ano. Tempo de mudança No ano de 2008, a lei Nº 10.639/03 foi alterada pela Lei Federal 11.645, acrescentando também o ensino da história e cultura indígena. Depois de anos de luta de

As aulas sobre a história e a cultura afroétnica auxiliam a diminuição de preconceitos e discriminações Foto: Kelly Freitas

movimentos afroétnicos em todo o país, vê-se necessário o reconhecimento da história e da cultura afro-brasileira e indígena como parte integrante e essencial na construção da cultura brasileira. De acordo com o coordenador da Coordenadoria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial

(COPPIR), da Prefeitura de Fortaleza, Luiz Antônio Bernardo, a mudança deve acontecer principalmente na educação do país, buscando-se também desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira. Em Fortaleza, a COPPIR tem agido em parceria com a Secretaria Municipal de

Educação (SME) para discutir e efetivar políticas de promoção da igualdade racial na cidade, além de auxiliar à efetivação da lei Nº 11.645/08. Pelo que afirma o coordenador da COPPIR, o Brasil inteiro está atrasado em relação à aplicação da lei. “A princípio, a lei parece simples mas muda todo

OAB acompanha implementação da legislação no Ceará No estado do Ceará, a não efetivação da Lei Federal Nº 10.639/03 gerou, no ano de 2007, a necessidade de a Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Seccional Ceará (OAB-CE), ingressar com uma representação no Ministério Público Estadual (MPE) para investigar os governos estadual, municipais e as instituições particulares de ensino. Segundo o advogado e presidente da Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da OAB-CE, André Costa, a representação da Ordem gerou uma série de ações. Dentre elas, a recomendação enviada pela Procuradora Geral de Justiça do Ceará, Socorro França, para que todos os Promotores de Justiça investigassem nos respectivos municípios de atuação como estava a implementação da referida Lei; as audiências dos Promotores de Justiça da Educação e dos membros da

Comissão da OAB-CE com as Secretárias de Educação do Ceará e do Município de Fortaleza e o incentivo para criação do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico Racial do Ceará. E ainda a justificação de diversas escolas particulares perante a Promotoria de Justiça da Educação sobre as medidas que estavam sendo efetivadas por elas para concretizar a Lei e o debate realizado na sociedade cearense envolvendo diversos segmentos sociais, inclusive os meios de comunicação em geral. Transformação De acordo com o técnico da área de Ciências Humanas da Célula de Aperfeiçoamento Pedagógico (CEAP) da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), Paulo Venício Braga, desde o ano de 2006 o órgão vem abrindo diálogos nas escolas, através de seminários, ciclos de palestras, para implementar os ensinamentos e discutir com os

Saiba mais... Pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) traçam o perfil econômico e educacional das populações negra, branca e indígena do país. Veja os dados a seguir:

191 milhões é o número de brasileiros.

94 milhões é a quantidade estimada de negros no país. Existem 734 mil indígenas em todo o território nacional. Atualmente, os negros ganham, em média, 53% da renda dos brancos. Os negros têm, em média, pouco mais de sete anos de estudo. Para os brancos, essa média sobe para quase nove anos. A média de estudo entre os indígenas é de 3,9 anos.

professores as metodologias de emprego da lei. “A Seduc observa que a OAB tem o papel de alertar a Secretaria para o compromisso de implementação da lei. A Seduc tem agido de forma muito mais efetiva a partir da representação”, destaca. A Secretaria Municipal de Educação também tem estabelecido práticas afirmativas de aplicação da lei. Segundo o Coordenador de Ensino Fundamental e Médio da SME, Arlindo Araújo, a secretaria tem executado iniciativas estruturantes, como oficinas sobre o tema nas escolas municipais, formação com os professores, principalmente de história, e medidas de incentivo para que os professores da rede municipal de ensino participem do Movimento Negro que existe no Ceará. Além disso, a SME está reformulando a grade curricular de ensino, com data prevista para término em abril de 2010. Ela contemplará na íntegra o que a lei determina sobre o tema. A equipe do Jornal Sobpres-

são entrou em contato três vezes com o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe - CE). A entidade ficou de retornar as nossas ligações. Mas até o fechamento desta edição, o sindicato não se manifestou a respeito da Lei afroétnica. “Quando todas as escolas públicas e particulares tiverem professores aptos a ministrarem aulas sobre o tema, eventos e campanhas permanentes contra o racismo, o preconceito e a discriminação raciais, poderemos dizer que realmente aconteceu uma mudança”, assegura o advogado André Matos.

Serviço Coordenadoria Especial de Politicas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (Coppir): tel: (85) 3452.2355 Comissão de Combate à Discriminação Racial e de Defesa das Minorias da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Ceará (OAB-CE): tel: (85) 3224-8612


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demora a ser aplicada

o currículo escolar. Se não fosse a criação de vários organismos [secretarias, conselhos, grupos organizados, movimentos negros e de educação étnico-racial, dentre outros] que estabelecessem uma série de critérios e normas para aplicação da lei, ela não se aplicaria mesmo não”, destacou Luiz Bernardo.

Ensino transversal O ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena deve ser realizado e planejado nas escolas pelos próprios professores. A lei estabelece que o ensino da matriz africana e indígena seja transversal, ou seja, que deve perpassar o conteúdo de todas as disciplinas. Porém, na prática, segundo a diretora do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) Prof. Moreira Campos, e representante do Fórum Estadual Permanente de Educação para as Relações Étnico-raciais, Márcia Albuquerque, a responsabilidade do ensino acaba recaindo sobre os professores de história, literatura e artes. De acordo com a doutoranda em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em Cosmovisão de Matriz Africana, Rebeca de Alcântara e Silva, outro problema está na própria construção de uma cultura de preconceitos, que nos atinge principalmente na escola. “Como o Brasil é um dos países mais racistas do mundo e não tem na cultura brasileira, a educação étnico-racial, os professores, os gestores educacionais ainda não entendem que além de ser uma lei, ela é fundamental para a formação das mentalidades brasileiras”, destaca. Espera-se que a lei seja algo que auxilie as futuras gerações a compreender as diferenças étnico-raciais e a não suscitar preconceitos

nem discriminações. “Se nós negros, brancos, indígenas, todas as etnias que compõem a sociedade brasileira, tivermos uma adequada educação para que a gente tenha relações étnico-raciais positivas, será um bônus que nós teremos futuramente. É entender que existe diferença não só social, de classe, mas que existem diferenças étnicas. Que nós não somos iguais, mas que todos temos direitos iguais”, ressaltou Rebeca. Dívida Passaram-se 120 anos desde que a Lei Áurea concedeu liberdade a todos os escravos do país, e fora ela, outras conquistas já haviam sido implementadas como a lei do Ventre Livre, dos Sexagenários, e a Eusébio de Queirós. A professora Márcia de Albuquerque lembra que todas não foram algo dado, foram direitos conseguidos por várias parcelas da sociedade que lutavam por sua promulgação. Porém, a alforria gerou o começo de uma outra era de desigualdades sociais, onde os negros, libertos e expulsos das áreas cafeeiras e dos engenhos, passaram a não servir mais para o trabalho no qual antes eram exploradas. Para a professora Márcia de Albuquerque, a lei que obriga o ensino afroétnico nas escolas públicas e particulares do país foi uma dívida que a história tinha com a construção da nossa identidade brasileira.

Opinião

Márcia de Albuquerque

Lei 10.639/09: desafios e possibilidades O ano de 2008 marcou um tempo de conquistas históricas que o homem empreendeu durante os últimos dois séculos. Comemoramos os 120 anos da Abolição da Escravatura, 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos e 20 anos da Constituição Brasileira de 1988. No entanto, os documentos garantidores da tão sonhada liberdade e igualdade ainda estão distantes de serem efetivados na prática, principalmente para as camadas mais excluídas da sociedade, em especial os afro-descendentes que ainda são vítimas de preconceito, discriminação e racismo. O movimento pela libertação dos(as) escravos(as) aconteceu bem antes do 13 de Maio e representou a luta dos(as) negros(as) pela liberdade. Porém, tão sonhada liberdade não veio em conjunto com condições de vida mais dignas para essa população que desde sua entrada no Brasil, após ter sido arrancada de seu continente de origem, sofreu as mais variadas espécies de humilhações e castigos, ferindo seus direitos e sua dignidade. Os negros(as) libertaram-se das correntes, mas outros meios de opressão lhes foram impostos pela classe dominante: dificuldades de acesso aos sistemas de saúde e de educação, dentre outras privações não menos significativas. No aspecto educacional, ainda hoje são alarmantes os números ligados à evasão, abandono e repetência e os índices educacionais são baixíssimos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Uma iniciativa empreendida pelo Movimento Negro significou a possibilidade de reparação para essa população ainda vítima do processo histórico: a publicação da lei nº 10.639/03 que obriga o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas da rede oficial é uma possibilidade de empoderamento dos negros(as) brasileiros(as). A lei 10.639, embora publicada em 2003, tem dificuldades de efetivação, pois faltam uma série de condições que passam por falta de material didático pedagógico, capacitação de profissionais da educação, financiamento, dentre outros motivos que impossibilitam uma prática positiva do conteúdo da lei nas escolas, sendo necessária uma sensibilização e mobilização de todos os atores envolvidos e, principalmente, políticas públicas garantidoras dos direitos conquistados. Márcia de Albuquerque é formada em Letras pela UECE, em Direito pela UNIFOR, faz parte do Fórum Estadual Permanente de Educação para as Relações Étnico-Raciais, e é diretora do Centro de Educação de Jovens e Adultos Prof. Moreira Campos.

História afro-brasileira na escola Uma escola pública no bairro Bonsucesso, em Fortaleza, pode ser considerada um exemplo para outras instituições de ensino. A Escola São José do Pici das Pedreiras instituiu uma disciplina dedicada ao ensino da história e cultura afro-brasileira. A coordenadora pedagógica, Fátima Helena da Silva, explica que a disciplina diversificada de história afro-brasileira já faz parte do mapa curricular do 5º ao 9º ano do Ensino Fundamental. “Acho boa a ideia de ensinar esta disciplina porque os alunos conhecem melhor a cultura afro. E, [com] ela sendo trabalhada no dia-a-dia, o aluno fica muito mais consciente”, afirma Fátima Helena. Compreender as origens, bem como a formação do povo brasileiro são os objetivos da disciplina. A metodologia é desenvolvida a partir de livretos distribuídos nas escolas, pelo Ministério da Educação (MEC), de pesquisas na internet, e de realização de seminários feitos

Escola São José do Pici das Pedreiras é exemplo em Fortaleza Foto: Kelly Freitas

pelos próprios estudantes. Para o 5º ano, a disciplina é oferecida uma vez por semana, sempre às sextas-feiras. Já para os estudantes do 6º ao 9º ano, o conteúdo é passado junto com a disciplina de história, sendo uma semana sobre a história tradicional, e outra sema-

na trazendo o conteúdo afroétnico. “Eu gosto da disciplina, e acho muito importante”, afirma Andriele de Paiva, estudante do 6º ano da escola. A disciplina “História afrobrasileira” é estudada de acordo com o nível de cada série. Nela são abordados temas como hábitos, costumes, comidas e tradições culturais afroétnicas. A Escola Estadual de Ensino Fundamental São José do Pici das Pedreiras mantém cerca de 500 estudantes matriculados, do 5º ao 9º ano, vindos de bairros como Genibaú, João XXIII, Granja Portugal, e do próprio Bonsucesso.

Cultura africana: cores e tons enraizados na história brasileira

Foto: SXC.HU


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O que é possível fazer em 140 caracteres Com criatividade e apenas 140 caracteres, os usuários de uma rede social virtual descobriram uma nova maneira de se manifestar e exercer a cidadania Mariana Fontenele e Monique Linhares

Não tem volta. Já está na boca do povo, virou pauta e fonte para a imprensa, caso de estudo científico e, não menos importante que isso tudo, já foi acessado por 15 % dos internautas brasileiros, segundo pesquisa do Ibope, realizada em julho deste ano. Sem mais dicas ou especulações, estamos falando do Twitter, rede social em que os usuários podem, a todo instante, enviar mensagens em poucos caracteres, para seus seguidores e que tem se destacado entre as redes sociais mundo afora. O modo fácil, simples e rápido de se comunicar está cada vez mais conquistando os usuários da internet nos ciberespaços das redes sociais. Atualmente, são mais de 62 milhões de pessoas conectadas à internet no Brasil, que faz do País o sexto em número de usuários no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgados em 2007. Indo mais longe, um estudo da IBM (International Business Machines) prevê que em 2012 existirão 800 milhões de usuários em redes sociais em todo o mundo. Diante desse cenário, não se pode ignorar o crescimento desenfreado dessas novas ferramentas de interação. As pessoas compartilham interesses, experiências culturais, colaboram com a disseminação de bens simbólicos e encontram afinidades umas com as outras, nesse mundo globalizado. Histórico A partir de meados da década de 1990, foram surgindo os primeiros blogs e, desde então, uma profusão de outros sites de redes sociais aconteceu. Assim, em 2006, chegou o Twitter, criado por Jack Dorsey, com a ideia de divulgar pensamentos de forma instantânea e em poucas palavras. “O que você está fazendo agora?” é o que nos pergunta o Twitter. No entanto, há muito o meio extrapolou o objetivo inicial e segue ganhando novas maneiras de ser utilizado. “Geralmente, essas ferramentas são pensadas para determinados objetivos, mas possuem ‘brechas’ que fazem com que os atores se

apropriem desses sites de tal forma que moldam o seu uso de acordo com os seus interesses”, afirma César Silva, publicitário, twitteiro e mestrando em Comunicação na Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisador de sites de redes sociais. É comum encontrarmos usuários que, por exemplo, aderiram o costume de ler jornais por meio do Twitter ou até mesmo de empresas que se valem da ferramenta para criar um vínculo direto com os clientes. “Para se ter ideia, o Twitter é a segunda fonte de acessos do nosso portal, só perde para os buscadores do Google”, afirma a equipe do site para estudantes de Jornalismo Manual dos Focas (www.manualdosfocas. com). As possibilidades, portanto, parecem infinitas. Mapa de buracos O grande espaço e repercussão que o Twitter tem ganhado em toda a mídia contribui para que a rede seja uma importante ferramenta de mobilização social. Em Fortaleza, o caso expoente foi a campanha chamada #buracosfortaleza, tag (palavra chave) utilizada pelos usuários da rede social, blogs e demais curiosos para mapear todos os buracos da cidade, que à época encontrava-se com ruas e avenidas em situação crítica devido às fortes chuvas no período de abril e maio deste ano. A iniciativa partiu da indignação de um grupo de “twitteiros” inconformados com a situação da malha viária da cidade e do descaso das autoridades ante a situação. Foi então que Emílio Moreno (@emiliomoreno, seu nome de usuário do Twitter) e outros twitteiros criaram um mapa no Google Maps e a divulgação começou a ser feita a partir dos blogs e microblogs. “Com o Twitter e as demais redes sociais, é fácil ajustar isso. A tecnologia pode e deve ser usada em favor disso”, comenta Moreno. A mobilização foi geral e o #buracosfortaleza foi um importante exemplo de como essa ferramenta pode ser apropriada para outras finalidades. As pessoas, por onde passavam, podiam registrar em imagens os buracos nas ruas. Depois era só pontuar no mapa e compartilhar fotos ou vídeos com a informação do local. De acordo com Moreno, foram mais de 400 contribuições no mapeamento e até meados de setembro deste ano mais de 165 mil visualizações. A repercussão foi tamanha que até rádios, jornais

Buracos de Fortaleza podem ser marcados no mapa virtual, além do registro de fotos e vídeos para denúncias

Enquete

Que uso você faz do Twitter? @manualdosfocas - Blog Manual dos Focas

Usamos para divulgar links e conversar com o nosso público. O número de respostas no twitter é bem maior que o de comentários no site. @elisiannecampos - Estudante de Jornalismo

Uso o Twitter pra transmitir e receber notícias curtas, e como treinamento na hora de escrever títulos (já que ser sucinta é uma meta!). @jujubadelimao - Estudante de Jornalismo

Twitter serve para divulgar ideias, pensamentos e até estado de espírito! Compartilhar achados na internet e bater aquele papo! @flaminio10 - Jornalista

O acesso à informação e interação. Inclusive com as fontes e emissores de informação. Tudo num ambiente descontraído, ágil e objetivo. @yurileonardo - Estudante de Jornalismo e blogueiro

Me comunico, acompanho quem acho interessante (de desconhecidos a ídolos) e pesquiso MUITOS links através das hashtags. @georgemacedo - Estudante de jornalismo

Uso para compartilhar conteúdo e insights de forma ágil, tentando acompanhar o fluxo de informações na web. Não leve a sério o que escrevo. @antoniofilhoa - Educador e fotógrafo

Uso o twitter para divulgar eventos, notícias, falar de coisas do meu cotidiano e para mandar recados para meus conhecidos. @Heitor_Ferrer - Deputado Estadual (PDT -CE)

Mantenho contato com o público, presto contas de minhas atividades, recebo informações. @gabsramalho - Designer gráfico, músico e publicitário

Uso pra me informar, compartilhar conteúdos, me relacionar com amigos e divulgar posts do blog. :]

Foto: Waleska Santiago

impressos e telejornais locais divulgaram a ação dos internautas. “Foi importante demais a participação de todos. Aquilo pressionou as autoridades e até a Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará) usou o material para arrumar alguns buracos que estavam sob responsabilidade dela”, conta o jornalista e twitteiro Marcelo Bloc (@marcelobloc). Retorno oficial A manifestação política, além da indignação geral da população fortalezense, chamou atenção do poder público da capital, mas não foi suficiente para mobilizar e auxiliar as ações da Prefeitura Municipal de Fortaleza (@prefeiturapmf). Para a Coordenação de Comunicação da Prefeitura, o movimento foi insignificante diante do problema enfrentado por mais de 2 milhões de habitantes da cidade. A Operação Tapa-Buracos, iniciada em maio e com previsão de término para novembro deste ano, não tinha um mapeamento exato dos buracos, em decorrência do tempo inconstante e da precariedade das pistas, segundo informações do jornal O Povo. A operação ainda previa atender a reivindicações diretas da população nas últimas etapas da ação, mas a inciativa abarcada pela internet foi menosprezada. Diante disso, o mapeamento, construído coletivamente pelos próprios cidadãos, ou o uso de um mapa virtual oficial, não seriam uma importante ferramenta para a atuação eficaz das entidades públicas? A Prefeitura não se posicionou a respeito dessa questão.


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Wikicrimes: o mapeamento da cidadania O mapa virtual Wikicrimes (www.wikicrimes.org) é mais um forte exemplo do potencial colaborativo da rede mundial de computadores. O mapa utiliza a interface do Google Mapas bastando apenas clicar no ponto exato do local onde sofreu ou presenciou um delito em sua cidade. Surge aí uma nova maneira de fazer denúncias, que permite tanto a participação interativa do cidadão quanto o registro de ocorrências, o desenvolvimento de estatísticas e a consulta aos dados armazenados acessível a todos. A forma tradicional de denunciar um crime é necessária, pois é o exercício de cidadania que obriga as entidades públicas a monitorar a segurança e articular ações de prevenção e punição do crime, mas ainda tem suas limitações. A transmissão de informações sobre as estatísticas do crime são monopolizadas pelas instituições policiais, e nem sempre são coerentes com a realidade. A subnotificação é o problema que reforça essa incoerência e muitas das falhas do sistema de segurança pública. Apenas um terço dos crimes

Opinião

Notificar e acompanhar ocorrências criminais em um mapa digitalizado são as propostas da ferramenta Foto: Divulgação

ocorridos no Brasil são registrados nas polícias, dado discutido no seminário de Gestão da Segurança Pública Municipal de 2006, no Rio de Janeiro. “WikiCrimes pretende mudar a lógica tradicional do manuseio da informação sobre crimes já ocorridos e considera que esta mudança está a mercê do próprio cidadão”, explica o criador do mapa, Vasco Furtado, professor universitário e PhD em Inteligência Artificial. Aliando seu conhecimenCésar Silva

Online e offline: os agrupamentos sociais O agrupamento de atores sociais em rede na internet vem ganhando expressividade nos estudos que tratam da cibercultura. Nos últimos anos, tem sido possível acompanhar a profusão de sites de relacionamento que ocupam boa parte do nosso cotidiano. Assim, sites como Twitter, Orkut, Facebook, MySpace, Flickr, Fotolog e outros são vistos quase como lugares obrigatórios para demarcação de territórios. Não estar lá é andar na contramão. Porém, alguns pequenos detalhes que nos passam despercebidos podem nos ajudar a entender mais sobre o funcionamento dessas plataformas e dos usos que delas fazemos. A primeira observação é que esses sites não podem ser chamados de “redes sociais”, porque na verdade, eles não as são de fato. São apenas sites, mas que tornam publicamente disponíveis esses agrupamentos que fazemos tanto no offline quanto no online, neste último caso quando já utilizamos essas plataformas. O termo correto para essas ferramentas é “sites de redes sociais”, como bem explica a professora Raquel Recuero em sua obra lançada ainda este ano, Redes Sociais na Internet (O livro pode ser baixado no endereço wwww.redessociais.net). Nos sites de redes sociais, ainda segundo Recuero, o foco de atenção não está na formação de novas redes - embora é possível prever que elas irão acontecer - mas sim, nos modos como permitem a visibilidade das redes sociais, a manutenção dos laços estabelecidos no espaço off-line. Portanto, uma reflexão que fazemos é que uma das motivações para a apropriação dos sites de redes sociais reside na manutenção de agrupamentos pré-existentes. Isso nos faz entender outro ponto, este também levantado pela professora Recuero. Os atores utilizam sites de redes sociais diferentes para redes sociais diferentes e para construir valores diferentes. Isso nos ajuda a entender porque, de repente, a rede social expressa em um perfil de um usuário em determinado site não é a mesma quando acessamos o mesmo perfil em outra plataforma. Cocluindo, esses sites e os usos que os atores deles fazem podem nos ajudar a entender como esses atores estão vislumbrando e realizando novos agrupamentos sociais, novas formas de sociabilidade em rede. Essas apropriações não apenas nos permite entender como os usuários se relacionam com essas plataformas, mas podem nos fornecer pistas valiosas sobre o quê eles estão buscando. Informações? Conexões? Qual o seu palpite? César Silva é publicitário e mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.

to científico em computação à preocupação com a segurança pública do País, Vasco investiu na colaboração direta do cidadão, através da tecnologia, na tentativa de mapear a realidade vivida nas cidades brasileiras e no mundo. Os mais de cinco mil colaboradores do mapa estão espalhados em vários outros países, também. Demonstra que a ferramenta é bem aceita e a ideia é apropriada até por órgãos públicos, como nos Estados

Unidos. Cerca de 500 departamentos de polícia usam algum software de mapeamento para registrar os boletins de ocorrência, diariamente, e o acesso aos mapas, principalmente da população contemplada pelo projeto, é significativa. Em seu blog (http://vasco. blogueisso.com), Vasco faz atualizações sobre seu projeto e avalia os resultados. Conta que até fez propostas para Secretarias de Segurança Pública do País, buscando

parceria, mas só recebeu respostas negativas. Foi uma sugestão da maioria dos usuários do mapa, em pesquisa que fez. O Sobpressão contatou a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Governo do Ceará (SSPDS) e, no entanto, a assessoria de imprensa afirmou que não tinha conhecimento da proposta, mas disse que uma reunião com Vasco será muito bem aceita. “Se for algo bom para a população e o Governo, podemos acatar”, explica a assessoria. “O Wikicrimes continua crescendo com a participação popular e de instituições que não são as oficiais de Segurança”, garante Vasco. Assim como o mapa #buracosfortaleza, a interação com a nova ferramenta e a participação do cidadão é uma proposta revolucionária para a intervenção social na realidade. Contudo ainda deve evoluir. “Percebemos que a idéia de colaboração possui apelo, mas isso não é suficiente para que as pessoas participem. Elas precisam ter algo que lhes atinja diretamente”, afirma Vasco.

Web Social: o papel colaborativo A Internet apresenta-se como uma inesgotável fonte de informações que podem e devem ser compartilhadas. Sim, porque atualmente a grande vantagem das redes sociais está justo no fato de elas possibilitarem o compartilhamento da informação. Essa vocação colaborativa que a mídia social revela, deixa claro que não estamos apenas conectando conhecimento, mas pessoas. O que faz com que surjam algumas adversidades, mas também muitas inovações. No infográfico ao lado, são apresentadas cinco dicas de Chris Brogan - referência quando o assunto são mídias sociais - para manter as redes sociais ativas, uma vez que não basta criá-las, é preciso estar presente, utilizá-las, atualizá-las. Atualmente, muitas são as redes disponível na web. Veja um breve resumo de algumas das mais acessadas:

presença brasileira e atualmente tem cobrado pelo serviço. (www.lastfm.com) Facebook: similar ao orkut, o intuito do Facebook é conectar pessoas, compartilhar informa-

ções. (www.facebook.com) Youtube: um dos maiores sucessos da web, o youtube possibilita que os usuários compartilhem vídeos em formato digital. (www.youtube.com).

Infografia

Orkut: site de relacionamentos que possibilita a criação de um perfil virtual. Os brasileiros são os que mais participam da rede. (www.orkut.com) Flickr: Possibilita que os usuários compartilhem fotos, dentro de uma política de direitos autorais. (www.flickr. com) Last FM: rede social voltada para a música, possui forte

Fonte: Cultivate an Active Network (Chris Brogan)


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Movimento voluntário combate a AIDS Saiba mais...

Criado em 2005, o Movimento Novo Sol atua com o intuito de orientar e capacitar jovens da Serra da Ibiapaba na prevenção de DST e Aids

Candelight e o Novo Sol

Ana Carla Calvet, Cleidinaldia Maia e Mirtila Facó

O número de pessoas contaminadas com Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS na Serra de Ibiapaba é 212, segundo dados da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual da Saúde (SESA) divulgados em junho deste ano. Esses números despertaram a preocupação de Cristina do Nascimento, técnica em DST-HIV, e José Helder Diniz, pedagogo e especialista em depedência química, presidentes do Movimento Novo Sol - trabalho voluntário de prevenção às DST, Aids, drogas e gravidez na adolescência, criado em junho de 2005, e com marcante atuação na serra. Conforme Helder Diniz, o movimento tira jovens da ociosidade e melhora sua autoestima. Além disso, as temáticas trabalhadas ajudam a diminuir a vulnerabilidade, já que transformam o jovem ocioso em ativista na luta contra AIDS e outras doenças. Ainda segundo ele, vez ou outra, os jovens são abordados com informações sobre a AIDS, na sua maioria, de forma superficial. Por conta disso, acabam relaxando, já que falta, geralmente, uma intervenção com uma metodologia mais aprofundada. Cristina conta que há tempo desejava trabalhar com a prevenção na região de Ibiapaba, mas tinha preocupação se o movimento seria bem compreendido, principalmente por se tratar de um trabalho voluntário, em um lugar onde, até 2006, ano anterior ao início do trabalho, haviam sido notificados 177 casos de DST e Aids. Porém, Cristina foi surpreendida, pois a população do local adotou e apoiou a ideia do movimento. O poder público dos muni-

Os jovens que participam das capacitações são responsáveis por difundir ideias de prevenção de DST e AIDS

Enquete

O que é necessário para reduzir o número de casos? “Acho que se investe muito em campanhas publicitárias, mas ainda se carece de campanhas in loco. Deviam ser distribuídos mais preservativos em comunidades carentes”. Edson Costa, 27 anos Jornalista e historiador

cípios localizados na Serra da Ibiapaba convidou o Novo Sol, em 2007, para realizar as atividades. São cedidos o espaço e a alimentação para o grupo. “A partir disso, começamos a articular com os jovens, divulgar o movimento, fazer palestras, rodas de conversas em algumas escolas municipais e estaduais”, diz Cristina. Mobilização A juventude da Serra ficou

“Implantando planos de desenvolvimento social entre as comunidades de menor conhecimento e incentivar o uso de preservativos entre a população menos favorecida”. Maurício Ramos, 23 anos Estudante de Eletrotécnica

espantada quando o movimento apresentou as estatísticas que indicavam o número de pessoas infectadas com AIDS e DST na comunidade. Por isso, sentiram a necessidade de obter mais informações sobre prevenção. Os encontros acontecem uma vez por mês. Os contatos iniciais com os jovens acontecem por meio dos grêmios estudantis, que, caso apóiem a proposta, fazem uma promoção da atividade e

Fotos: Divulgação

convidam outros adolescentes a participar. Mas os ativistas do Novo Sol deixam bem claro que “o movimento não é da escola, mas sim da serra”. O movimento acredita que simplesmente distribuir preservativos não promove a prevenção. Conforme Cristina, não é filosofia da iniciativa pensar que somente palestra ou campanha resolva alguma coisa. A intenção é realizar um trabalho continuado. “A gente sabe que pegar um grupo de 20 jovens, trabalhar as temáticas e eles mesmos conversarem nos municípios deles e a gente fazer um acompanhamento, isso sim vai dar resultado!”, explica a presidente. Para realizar o trabalho em Ibiapaba, o Novo Sol conta com o apoio da Secretaria de Saúde Estadual e Municipal de Fortaleza – que colaboram com o fornecimento dos preservativos e folders explicativos – assim como de uma empresa de ônibus, que cede passagens para que os representantes possam reunir-se com os jovens da comunidade.

Outra ação que também está ligada ao movimento Novo Sol é o Candelight, ritual ecumênico em que são usadas velas, cruzes e mensagens com o objetivo de buscar a atenção dos governantes e da sociedade para a luta contra a AIDS. O Candelight relembra o número de vítimas do vírus e incentiva o apoio aos portadores e a prevenção da doença. No ano de 2008, aconteceu o primeiro ritual na Serra da Ibiapaba. Em Fortaleza, o evento já está em sua 27ª edição.

Casos de AIDS na Serra da Ibiapaba: Guaraciaba do Norte São Benedito Tianguá Ubajara Croatá Carnaubal Ibiapina Viçosa Total

52 42 35 24 19 18 13 09 212

Outros municípios: Fortaleza Caucaia Maracanaú Sobral Iguatu Aracati Juazeiro do Norte Total

5.421 345 282 199 81 72 67 9.660

Fonte: Informe Epidemiológico de Junho de 2009 - Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA)

HIV está interiorizado no Estado do Ceará Segundo Telma Martins, supervisora do Núcleo de Prevenção da SESA, a região de Sobral e Ibiapaba composta por 32 muncípios é uma área de grande extensão territorial e populacional. “Este é um dos motivos pelos quais têm muitos casos de AIDS. Dos 184 municípios, 94% têm pelo menos um caso notificado, ou seja, a infecção pelo HIV/AIDS já está bastante interiorizada”. Nos projetos do Movimen-

to, a equipe investe no diálogo e no esclarecimento. São realizadas dinâmicas, capacitações, rodas de conversa e cirandas, atividades estas que são direcionadas para um entendimento profundo do que são essas doenças e como preveni-las. As capacitações na Serra, que fazem parte do Projeto Tá na Mão, formam os chamados “Agentes de Prevenção”, quatro pessoas com cerca de 25

Telma Martins

Dos 184 municípios, 94% têm pelo menos um caso notificado, ou seja, a infecção pelo HIV/AIDS já está bastante interiorizada Supervisora do Núcleo de Prevenção da Secretaria de Saúde do Ceará

anos que circulam pela comunidade com preservativos e informações sobre as temáticas. Em cada comunidade é escolhido um local de acesso livre, como lanchonetes ou pizzarias, para os jovens pegarem as camisinhas. “A nossa intenção é formar uma rede de prevenção pela Serra”, diz Cristina. Até agora, o Movimento possui atuação em Guaraciaba do Norte, Croatá, Tianguá e Carnaubal.

Várias são as iniciativas desenvolvidas pela organização objetivando melhorar a vida dos adolescentes. No Projeto Contracepção e HIV, criado em 2008, são capacitados 20 jovens que realizam rodas de conversas mensais envolvendo a comunidade. O mesmo ocorre no projeto Metamorfose, que capacita 22 educadores sobre prevenção ao uso de álcool e outras drogas em Carnaubal.


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Universitários optam por intercâmbio na Disney Estudantes que participam de intercâmbio acadêmico na Disney vivenciam novas culturas, fazem amizades e ainda praticam a língua inglesa

Bartolomeu Neto, 25, estudante de enfermagem da Unifor, já participou de programas de intercâmbio na Disney e da última vez foi como guest relations (relações públicas), representando o Brasil.

Participantes em atividades culturais durante o programa e Murillo em serviço em um parque da Disney Fotos: Arquivo Pessoal

devem ter pelo menos 18 anos de idade, fluência na língua inglesa e estar regularmente matriculado em um curso de nível superior. Primeiramente, a equipe da agência STB faz uma pré-seleção com os participantes seis meses antes. “Em seguida, um time de recrutadores internacionais da Disney escolhe os novos estudantes que participarão do International College Program (Programa Internacional da Faculdade) com início em novembro e término em meados de fevereiro” (durante as férias de verão do Brasil). Nova oportunidade Existe também um outro programa universitário de trabalho na Disney conveniado com a Universidade de Fortaleza (Unifor) e a Universidade da Carolina do Norte. Neste, os alunos cursam um semestre acadêmico na Flórida, fazem um estágio remunerado no complexo Disney e podem aproveitar os créditos ao retornar à Universidade no semestre seguinte. O programa apresenta duas disciplinas

#

Números

130 2004 30% 32

Universitários, aproximadamente, participam por ano do International College Program em Fortaleza. Ano de embarque do primeiro grupo de Fortaleza a participar do programa. Número de participantes que voltam à Disney em outro tipo de intercâmbio acadêmico.

Média de horas de trabalho que a Disney disponibiliza para cada participante, podendo trabalhar horas extras.

obrigatórias (Introdução aos conceitos de Negócios e Conceitos de Negócios Aplicados) e várias disciplinas opcionais. O trabalho é conciliado com o estudo. Sempre que há aulas na universidade, o participante não precisa trabalhar. “Esse é um programa novo aqui em Fortaleza em que somente alunos da Unifor poderão participar”, diz Neiara Serra. Felipe Teixeira, aluno de Direito da Unifor, comenta sua participação nos dois programas à Disney como sendo excelentes oportunidades de fazer intercâmbio. Para ele, o aprendizado é superior ao ga-

nho salarial, cerca de nove dólares por hora de trabalho. Sem a pretensão de trazer dinheiro ao retornar ao Brasil, Felipe afirma que dá para se manter e fazer compras de caráter pessoal, além da alimentação. “O que trouxe foi um grande diferencial no meu currículo que será lembrado para sempre como experiência na vida acadêmica”, conclui.

Serviço STB Student Travel Bureau tel: (85) 3266-2900 UNIFOR Vice-reitoria de extensão tel: (85) 3477-3253

Estudantes comprovam aprendizado da língua Intercâmbio acadêmico é uma excelente opção para melhorar a pronúncia e aprender novas palavras na prática. Ao fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, além de trazer na bagagem experiência, vivência de cultura ou novas amizades, o estudante cresce bastante na fluência do idioma. Falar inglês, hoje em dia, é de extrema importância para qualquer área profissional. Durante a viagem, Onnara Custódio pode praticar a língua inglesa no trabalho, ao conversar com americanos e pessoas de todo o mundo, uma vez que

Aluno compartilha sua experiência de trabalho

Neto: “senti-me orgulhoso em representar meu país” Foto: Arquivo pessoal

Maurício Ponte

Experiências trazidas de um intercâmbio acadêmico são lembradas durante toda a vida. Estudantes, que deixam sua família, amigos, cultura e seu país para vencer desafios, voltam com novos aprendizados e realizações em sua vida pessoal e profissional. Centenas de universitários participam de um programa de intercâmbio ao Walt Disney World Resort, localizado em Orlando, estado americano da Flórida, durante dois, seis meses ou até mesmo um ano. Os estudantes trabalham em diversas áreas como vendas, recreação, serviço fast food ou em operações das atrações dos parques temáticos. Além da oportunidade e experiência do trabalho, os participantes têm entrada liberada em todos os parques da Disney e uma série de benefícios e descontos em compras dentro do complexo. Trabalhar na Disney não significa alguns meses no exterior exercendo funções repetitivas durante o período do programa. Para o estudante de administração Murillo Chaves, essa foi uma grande oportunidade para fazer novas amizades, obter independência, praticar a língua inglesa, além de conhecer todas as tradições e os bastidores do maior complexo de entretenimento do mundo. “Você aprende a conviver com pessoas de todo o mundo compartilhando diferentes culturas”, ressalta. Segundo a representante da Disney em Fortaleza, Neiara Serra, todos os interessados

Entrevista

Falar inglês: Onnara Custódio coloca em prática seus conhecimentos da língua inglesa no trabalho Foto: Arquivo Pessoal

esse é o idioma oficial do país. Para a psicopedagoga Lívia Lisboa, que também é coordenadora de um curso de inglês da Capital, a vivência com o idioma é válida para a fluência da oralidade e aquisição de vocabulário. “Já a estruturação das sentenças e o uso correto dos tempos verbais é necessário o estudo”, afirma. Segundo a coordenadora, uma experiência no exterior faz com que o estudante coloque em prática o que já aprendeu em cursos de inglês. Para ela, em intercâmbio de trabalho, o participante utiliza ape-

nas o inglês convencional do cotidiano. Tendo conhecimento sobre o programa de trabalho da Disney, Lívia Lisboa ressalta que um dos pré-requisitos de participação é já ter boa fluência do inglês. Então, para a coordenadora, o aluno não vai estudar o idioma e sim usar o que já possui. “Dois ou três meses de vivência no exterior sem estudo formal do inglês não substitui a semestralidade, caso o participante ainda seja um estudante em curso regular de inglês”, conclui a psicopedagoga.

Sobpressão: O que fez você participar de vários programas de intercâmbio à Disney? Bartolomeu Neto: Desde criança, eu tinha a curiosidade de saber como era a vida fora do Brasil e experienciar uma nova cultura. Então fui trabalhar na Disney em 2004. Tive uma experiência maravilhosa, tanto é que retornei mais três vezes. SP: Que realizações pessoais e profissionais você trouxe dessas viagens? BN: Além de realizar um sonho de infância, tive a oportunidade de crescer como pessoa, morando em um país estrangeiro, e a chance de estudar na Universidade da Flórida. Os amigos que fiz me influenciaram bastante para procurar o meu aperfeiçoamento profissional. SP: Que momentos difíceis você enfrentou? BN: A primeira vez que fui ao exterior foi bastante desafiador. Tive dificuldade no inglês. O meu trabalho exigia contato intenso com clientes de todas nacionalidades e os diferentes sotaques eram de difícil compreensão. SP: Como é a divisão dos apartamentos e transporte? BN: A Disney nos fornecia moradia, na qual pagávamos um aluguel de 89 dólares semanais e transporte ao trabalho, supermercado, shopping center e banco. Os apartamentos eram divididos com estudantes de diversos lugares. SP: Quantas horas você trabalhava, em média, por semana? BN: A Disney nos garante 32 horas de trabalho por semana. Dependendo da época, essas horas passavam para 45 ou mais, podendo trabalhar horas extras. O máximo que eu cheguei a trabalhar foram 78 horas, na semana do Natal.


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A realidade do mercado de fantasias A procura e o interesse por fantasias têm aumentado nos dois últimos anos, segundo comerciantes. Fortaleza já tem nove lojas especializadas nesse segmento Carolina Barretto e Flaviana Farias

Acabou o tempo em que fantasias eram usadas apenas no carnaval. Há quinze anos, esse tipo de vestimenta passou a ser usada também em festas de formatura, aulas da saudade, aniversários e até casamentos em Fortaleza. Antes disso, a maioria das fantasias eram bem simples com roupas adaptadas ou tingidas. Hoje está mais acessível encontrar uma loja especializada em venda ou aluguel dessas peças, com fantasias criativas, engraçadas e bem produzidas. Em Fortaleza, existem nove lojas especializadas em aluguéis, vendas e fabricação de fantasias. Há dez anos, eram apenas duas lojas. Não se sabe quanto esse segmento movimenta, os lojistas não souberam informar o seu faturamento ao certo. E os preços são bem variados, o aluguel da mais simples custa R$ 30,00 e a mais sofisticada pode chegar a custar até R$ 150,00. Segundo a proprietária da Phantasias da Ópera, Adah Magalhães, a loja aluga, em média, por mês, 200 fantasias. Já as vendas são feitas por encomenda e os preços variam de R$30,00 podendo chegar até R$ 1.500,00. Variedades Com oito anos no mercado, o Ateliê de Fantasias conta com mais de 2.000 fantasias de fabricação própria. Somente acessórios como perucas e alguns chapéus são comprados em São Paulo. A proprietária Maria Amazonina da Garcês cuida pessoalmente das peças. Tendo as ideias criativas e com duas costureiras, elas fazem as fantasias virarem realidade. “Criamos as fantasias que os

clientes querem, as mais procuradas são de super-heróis e personagens de filmes e quadrinhos”, diz ela. A Phantasias da Ópera está há apenas dois anos no mercado e já fabricou 90% das 850 fantasias do seu acervo. Adah Magalhães diz que bom gosto e criatividade são essenciais para a escolha do aluguel da fantasia. “O importante na escolha é ser original e sentir-se bem com a fantasia. Ela tem que estar confortável no corpo também, para que (a cliente)possa curtir a festa despreocupada”, aconselha. Os estudantes Camila da Silva e Leonardo dos Santos estavam escolhendo suas fantasias para a festa de formatura da turma do 3º ano do colégio em que estudam. “A escolha da festa foi feita por meio de votação em sala. Estou em dúvida sobre qual fantasia alugar, mas estou adorando a ideia da festa ser à fantasia”, explica Camila. “O perfil dos clientes é bem variado, mas é composto principalmente por jovens e adultos”, informa Maria Garcês. Apesar do sucesso das fantasias, existem meses que quase não se aluga. São eles: março, maio e setembro. A época do ano em que há mais procura é em agosto, mês em que ocorrem as semanas culturais dos colégios, e no final do ano, quando acontecem as festas de formatura e aulas da saudade. Em datas comemorativas, as fantasias também são procuradas, mas durante o carnaval as lojas não alugam. “Quando vão para a folia, as pessoas esquecem que estão com fantasias alugadas e não tomam cuidado, acabam rasgando, sujando. Por isso optamos por não alugar nessa época para evitar tantos prejuízos”, explica Amazonina.

Serviço Ateliê de Fantasias: Rua Conselheiro Tristão, 333 – Centro Fone: 3235.3705 Phantasias da Ópera: Av. Heráclito Graça, 1105 – Aldeota Fone: 3251.1176 – 8808.1091

Conservação E não é para menos, todas as peças de uma loja devem ser muito bem cuidadas e conservadas e ficar num local arejado, para que o mofo não venha a surgir. Segundo Adah Magalhães, toda loja desse segmento tem o procedimento igual com o aluguel das roupas. Primeiramente, elas são pagas antes de serem levadas pelos clientes, vão limpas e cheirosas. E quando a fantasia é devolvida, é toda lavada com maior zelo com sabão líquido e, dependendo do tecido, até lavagem a seco é feita. De acordo com Amazonina, uma peça pode durar como nova até três anos em média, se for bem conservada. “Quando elas estão envelhecendo, você tem que trocar os enfeites, botar outros, trocar mangas, descer a perna, mudar tecidos para que ela possa durar mais”, ensina. Muitas pessoas incorporam os personagens que vestem, não só com fantasias engraçadas, mas também com originalidade, representação de temas regionais ou críticas bem humoradas aos fatos que ocorrem no mundo.

Saiba mais...

O começo da tradição Foto: Divulgação

A fantasia teve início na Europa há cerca de dez mil anos. Naquela época, os europeus ofereciam festas aos deuses para agradecer a fartura na colheita e para homenagear a natureza. Eles começaram enfeitando o corpo, depois usando máscaras, imitando os animais. No século XV, a Igreja proibiu essas indumentárias devido à falta de limites das festas. No Brasil, as festas à fantasia tem uma influência norte-americana, da famosa festa do “Halloween” - tradicional comemoração, quando eles comemoram o Dia das bruxas, festejado em 31 de outubro, vestindo-se de bruxas e usando máscaras. As festas à fantasia são uma tradição antiga que vai se modificando ao longo do tempo, à medida que os povos, as culturas e as civilizações vão encontrando formas peculiares de fantasiarem-se e vivenciarem o que não é permitido quando as verdadeiras máscaras estão impostas.

À carater: criatividade nos trajes garante a descontração das festas temáticas Fotos: Divulgação

Enquete

Uma fantasia tem o poder de mudar o comportamento? “Nunca fui a uma festa à fantasia, mas é meu sonho. Já pensei até na minha fantasia. Quero ir de tomate. Porque acho a fantasia muito linda. Acredito sim que a festa à fantasia é muito diferente de uma tradicional, e quanto mais extravagante a fantasia que a pessoa for, ela vai se comportar como tal. Um amigo me disse que foi fantasiado de gorila a uma festa. E ele incorporou o personagem, agindo como um gorila a festa inteira. Acredito, sim, que você possa mudar seu comportamento, e a fantasia diz muito do que você quer passar, mudando seu modo de agir.” Dayse Mesquita, 18 anos Estudante de Publicidade

“Com certeza. As pessoas modificam seu comportamento nas festas à fantasia. Principalmente as pessoas que são tímidas, e esse tipo de festa dá oportunidade de você ser quem gostaria de ser sem ficar forçado. Aí você pode fazer coisas que geralmente não fariam num evento mais comum. Como estão “mascaradas” e sentem como se não pudessem ser reconhecidas, elas agem de acordo com o personagem. Enfim, a fantasia é uma forma de disfarçar a timidez, e acho que tem gente que modifica o comportamento sim para se soltar mais.” Joana Ponte Frota, 22 anos Estudante de Psicologia

“Acho que não. O uso das fantasias não influi no comportamento das pessoas, quando elas já tem uma personalidade bem definida e formada, ou seja, depende de cada personalidade. Pessoas que não tem estilo experimentam de tudo e a festa à fantasia é uma boa forma de vestir vários personagens. Já fui a uma festa à fantasia, vestida de gatinha e isso não influiu no meu comportamento. Agi normalmente como eu sou, não mudando nem um pouco a forma de me comportar. Acho que isso acontece com quem realmente não tem personalidade.” Raissa de Oliveira, 19 anos Estudante de Direito

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Jornal laboratório do cruso de jornalismo da Unifor