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A tanatopraxia com a conservação e a melhoria estética de uma pessoa falecida. É um mercado que ainda tem poucos profissionais, apesar da grande importância desse serviço. De 1000 óbitos por mês, registrados em Fortaleza, apenas metade passam por esse processo. Página 3

Melhorar a autoestima e a vida sexual é um dos motivos que levam as mulheres a frequentarem cursos de sedução em Fortaleza. Profissionais em sensualidade ajudam neste processo, dando aulas e dicas de como conquistar (ou reconquistar) o parceiro. Página 8

SOBPRESSÃO JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA

MARÇO/ABRIL DE 2009

ANO 5 N° 18

Informalidade bate recorde Perante as dificuldades enfrentadas para conseguir um emprego com carteira assinada, mais da metade da População Economicamente Ativa (PEA) de Fortaleza está vivendo na informalidade Atualmente 488.503 fortalezenses estão nessa situação, número que corresponde a 57% da PEA da Capital, conforme pesquisa realizada pelo Instituto do Desenvolvimento do Trabalho (IDT). Ainda de acordo com o estudo, nunca houve tanta gente no mercado informal e a maioria desses trabalhadores é composta por mulheres (51,15%). Elas, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/2006) do IBGE, já chefiam 40,1% dos lares em Fortaleza. Página 6

Educação

Como reatar vínculos sociais

Ludicidade: uma das estratégias para enfrentar a situação de rua

A rotina do educador social é caracterizada pelo cuidado com aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade e pelo perigo que ronda a falsa liberdade das ruas. Além de atenção e apoio, os profissionais levam atividades recreativas a crianças, adolescentes

Foto: Waleska santiaGo

e jovens, a fim de buscar reatar os vínculos que eles, muitas vezes, já perderam com o próprio sentido da vida. Apesar de todo esforço, a categoria não dispõe de regulamentação e sálarios compatíveis com o trabalho que desenvolvem. Página 4 e 5

Evolução

Feirantes da Sé: transferência para novo ponto de vendas ainda está em debate com a Prefeitura

Foto: Waleska santiaGo

As inovações nesse o ramo revolucionam o trabalho dos bartenders. Eles já não servem apenas bebidas. Agora animam a festa e interagem com os convidados. As novas técnicas, como o flair (malabares com garrafas), fazem parte dessa renovação e garantem a admiração do público. O ofício se tornou mais reconhecido. Por isso, atraiu a atenção dos jovens de Fortaleza, que sonham em ingressar na profissão e receber um salário médio de R$ 1500. Página 7

Foto: Waleska santiaGo

Novas tendências no mundo do bar


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Opinião

SOBPRESSÃO MARÇO/ABRIL DE 2009

Editorial

Artigo

O potencial do pequeno negócio É fato que o mercado de trabalho informal tem ganhado adeptos no Brasil nos últimos anos. São milhares de pessoas que, geralmente, veem no mercado informal uma oportunidade de se sustententarem finaceiramente, trabalhando sem nenhum tipo de regulamentação ou controle. Segundo um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2005, cerca de 50% dos postos de trabalho gerados pelo setor produtivo nacional são oriundos de empreendimentos informais. Ainda segundo o levantamento feito pelo Ipea, a agricultura é a área que mais abriga trabalhadores informais, seguida pelos setores de serviços (54%), comércio (52%) e indústria (50,4%). Os dados expostos aqui refletem as consequências da dificuldade de acesso à abertura de um pequeno negócio. São cerca de 13 milhões de trabalhadores que se encontram na informalidade atualmente devido a fatores como a burocracia para o registro

e as altas taxas de carga tributária, que desencorajam o desenvolvimento no setor produtivo do Brasil. Porém, algumas medidas foram tomadas para estimular a legalização dos mirco e pequenos negócios. A Lei Geral de Incentivo às Micro e Pequenas Empresas (MPEs), criada em 2006, teve como proposta o tratamento diferenciado e favorecido para as MPEs: a carga tributária para abrir um pequeno negócio diminuiu, assim como o processo de abertura foi simplificado, desburocratizando o registro da empresa. Segundo dados obtidos pelo Banco Mundial, em 2004, o prazo de abertura de um empreendimento simples passou de 154 para 39 dias, uma redução notável que acaba impulsionando a criação de novas empresas e o crescimento do setor produtivo. Desde então, essa medida tem recebido elogios pelos resultados alcançados, mesmo quando a economia foi afetada pela crise internacional do ano passado. Ainda na

época em que a lei começou a mobilizar os pequenos empreendedores, foram registradas cerca de 5 milhões de MPEs, de acordo com a pesquisa mais recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de São Paulo, realizada em 2006. Elas representam um total de 98% das empresas estabelecidas regularmente no País, responsáveis pela arrecadação de 20% do PIB nacional. São indicadores que revelam um crescente, mas lento desenvolvimento do mercado brasileiro. Para dar impulso ao crescimento e promover uma possível estabilidade na economia nacional, seria imprescindível que todos, principalmente os comerciantes informais, tivessem conhecimento das possibilidades dessa lei, ou melhor, que houvesse mais informação e incentivos fiscais direcionados a eles. Afinal, são os micro e pequenos empreendimentos que empregam muitos brasileiros e movem o setor produtivo.

Viviane Sobral

Mercado de trabalho: entre o medo e a criatividade Até pouco tempo, era comum se pensar em uma carreira profissional partindo da sequência de estudar e adquirir um diploma, conseguir um emprego, trabalhar até a aposentadoria e depois aproveitar a vida tranquilamente. Um momento breve de reflexão é suficiente para perceber que a situação atual é diferente. Ter um diploma de curso superior, que outrora era garantia de emprego na área de atuação, hoje já não é mais. Um contexto diferente exige novas medidas. Então, o que fazer? Sabemos da existência de muitos livros de autoajuda que prometem indicar uma fórmula para ser bem-sucedido profissionalmente. Os títulos podem até ser sugestivos, intrigantes, mas um pouco de bom senso aponta que não existe um caminho perfeito – tanto que, se o houvesse, todos poderiam segui-lo com retorno de sucesso garantido. Outra ideia bastante difundida é a de que o mercado de trabalho se assemelharia a uma selva, competitivamente acirrado e desumano. Os índices de desemprego são realmente desanimadores, mas isso não é razão para desistir – pelo contrário. Podemos considerar, nesse contexto, a importância de se ter um diferencial, capacitarse sempre em busca de melhorar. Sobre isso, não podemos deixar de citar uma característica essencial: a criatividade. Se no passado somente médicos ou advogados eram reconhecidos, pelo caráter tradicional dessas carreiras, hoje não dá para pensar da mesma forma. Querer ter uma carreira, mas só considerar o que os outros costumeiramente fazem, pode não ser a melhor solução. Em um mercado competitivo, a ousadia em fazer diferente pode salvar muita gente do desemprego. Nesse sentido, tanatopraxistas e bartenders vão ousando em suas profissões não-convencionais, conseguindo seu espaço graças à percepção em arriscar, mesmo com todas as dificuldades do mercado de trabalho.

Estudante do 3º semestre de Jornalismo

Artigo

Camila Marcelo

Formação continuada

Pesca artesanal no Ceará luta pela sua sobrevivência. Apesar de ser considerado um símbolo do nosso estado, o pescador tradicional corre o risco de desaparecer. Ele resiste ao tempo e trabalha em condições perigosas, com pouco retorno financeiro e em frágeis embarcações. O esforço dos pescadores ainda é redobrado por causa das consequências do extrativismo predatório e da falta de consciência ambiental, tanto da população quanto dos próprios pescadores, o que acaba prejudicando a fauna e a flora do mar. Foto: Valentino Cabanillas

O universitário, ao formar-se no seu curso, depara-se com uma questão: ingressar no mercado de trabalho ou fazer uma pósgraduação de imediato. O que, de início, parece simples responder, provoca dúvidas e indecisões quando analisado por diversas perspectivas. A escolha deve partir dos planos de carreira de cada um. O ideal seria conciliar o emprego com a continuação dos estudos. Afinal, o mercado exige uma qualificação e um aprimoramento constante. Existem dois tipos de pós-graduação: stricto e lato sensu. O primeiro compreende mestrado e doutorado, sendo opções mais voltadas para quem deseja atuar na área acadêmica. O segundo envolve as especializações, o MBA (Master in Business Administration ou, em português, Mestre em Administração de Negócios) e o mestrado profissionalizante, para quem é mais focado no mercado de trabalho. O mais coerente seria haver desde o período estudantil um planejamento de carreira e um envolvimento em projetos ofertados pela universidade, como estágios, cursos de extensão e projetos de pesquisa, pois, assim, seria mais fácil ser admitido em um bom emprego e, uma vez estando financeiramente estabilizado, haveria uma maior tranquilidade para investir na formação continuada. Os cursos de pós-graduação reconhecidos em todo o território nacional, além de atualizar e favorecer a profissão, permitem trocas de experiências e um caráter diferencial na área em que se atua. Dessa forma, reforça-se que conciliar ambos é o mais adequado, visto que prática e teoria devem caminhar juntas. Estudante do 3º semestre de Jornalismo

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) Fundação Edson Queiroz - Diretora do Centro de Ciências Humanas: Profª Erotilde Honório - Coordenador do Curso de Jornalismo: Professor Eduardo Freire - Disciplina: Projeto Experimental em Jornalismo Impresso (semestre 2008.2) - Projeto gráfico: Prof. Eduardo Freire - Diagramação: Eduardo Freire e Felipe Goes - Orientação: Professores Antônio Simões e Eduardo Freire - Revisão: Profa. Solange Teles - Supervisão gráfica: Francisco Roberto - Impressão: Gráfica Unifor - Tiragem: 500 exemplares - Editores adjuntos: Camila Marcelo, Ivana Moreira, Lucas Abreu, Monique Linhares e Viviane Sobral - Colaboração: Professor Júlio Alcântara

Sugestões, comentários e críticas: jornalsobpressao@gmail.com


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Eles amenizam os efeitos da morte Os tanatopraxistas têm a tarefa de amenizar a dor de seus “clientes” fazendo um trabalho pouco conhecido, mas de fundamental importância para a sociedade Roberto Ranulfo e Igor Medeiros

José Arlindo com certeza não é uma pessoa qualquer. Ele é um daqueles indivíduos que nasceram com um dom. Dentre aqueles muitos homens que trabalham e convivem com a morte, Arlindo consegue mostrar beleza nesse ambiente tão mórbido. Uma palavra poderia caracterizar o seu trabalho: “arte”. Muitos dos falecidos que chegam na funerária não estão aptos a serem velados com “dignidade”. Por terem sofrido acidentes graves, os corpos apresentam deformações, em alguns casos difíceis de serem identificáveis até mesmo por seus familiares. É aí que entra o trabalho do tanatopraxista. Esse profissional é responsável por recuperar o corpo de maneira que ele fique esteticamente bem próximo do que era antes da morte. “O meu trabalho é fazer com que aquele corpo seja lembrado pelos seus familiares e amigos como ele era antes. Às vezes, têm corpos que chegam a chocar pela aparência e eu faço com que eles sejam velados de forma respeitável”, diz Arlindo. Em janeiro de 2005, Hermano Gonçalves foi atropelado e faleceu. Seu corpo sofreu sérios danos, principalmente na área da face, e o reconhecimento foi difícil pela família. Antes do funeral, o falecido passou pelo processo de tanatopraxia. Sua irmã Diana Gonçalves disse que foi graças ao tratamento que seu irmão foi velado com o caixão aberto. “Nossa mãe não aguenta-

ria vê-lo naquele estado, seria muito forte para qualquer um, principalmente para alguém daquela idade (83 anos)”, comentou Diana. Francisco das Chagas, agente funerário, explica como este contato com a família do falecido é delicado: “a gente começa a controlar os sentimentos, (mas) não que a gente fique frio”. O tanatopraxista tem grande ligação com as funerárias. O serviço pode ser terceirizado ou feito por um profissional da própria empresa. Segue sempre uma rotina: a família entra em contato com a funerária, passa as informações sobre o falecido e com o corpo na funerária começa o processo de tanatopraxia (esse processo pode ser feito também fora da funerária). Passo a passo O processo começa com a desinfetação. O corpo é banhado com uma substância bactericida que permanece nele por algum tempo. Posteriormente, é removida para que ele seja lavado com um sabonete antisséptico. Assim, o corpo pode ser trabalhado com segurança. Com o falecido limpo, o especialista em tanatopraxia irá introduzir fluido arterial, por meio da artéria carótida, em quantidade proporcional à necessidade do falecido, tendo sempre a preocupação para que o líquido atinja todo o corpo. Na próxima etapa, é feita a aspiração do tórax e do abdomen por meio de uma bomba aspiradora. No final desse processo, são injetados fluidos conservantes especiais para essa região. Ao fim desses procedimentos, são necessárias apenas as suturas das incisões e uma revisão completa do procedimento. Em alguns casos, como forma de precaução é feito também o tamponamento, procedimento pelo qual os orifícios

do corpo são tampados para evitar a saída de alguns dos líquidos inseridos. Porém, a forma como é feita a aspiração do tórax e do abdomen normalmente evita esse tipo de problema. No processo de tanatopraxia, dependendo de cada corpo, são inseridos cerca de 16 litros de substâncias. Depois desse processo, o corpo, totalmente livre de bactérias, está pronto para ser arrumado e ser velado.

Concentraçâo: José Arlindo trata cerca de 200 corpos por mês

Saiba mais

Tanatopraxia

Embalsamento

Necromaquiagem

Embalsamar é o ato de preservar o corpo pelo maior tempo possível, protegendo-o da decomposição. Essa técnica, de origem egípcia, baseia-se na retirada dos órgãos do defunto, substituindo-os por fluidos. “Thánatos” vem do grego e significa morte, e “práxis” significa ação, rotina. A tanatopraxia faz possível uma maior demora no processo de decomposição do corpo e possibilita uma melhor higienização, evitando possíveis infecções.

A necromaquiagem objetiva dar ao cadáver uma aparência saudável. A partir dela é possível restaurar o falecido de forma semelhante que ele tinha em vida. Uma regra que deve ser seguida é não mudar as características físicas do morto.

Foto: Natália Guerra

Casos especiais Porém, há casos complicados em que os traumas foram mais acentuados e as sequelas são mais visíveis. Então, começa a parte mais minuciosa e delicada do trabalho, quando é preciso fazer uma reconstituição da face ou de partes do corpo. Como um caso descrito por José Arlindo: um homem estava bêbado e ficou deitado no meio da estrada, quando um caminhão passou por cima da sua cabeça, deixando-a bastante danificada. José Arlindo conseguiu deixar o rosto da vítima de atropelamento praticamente igual ao que era antes do acidente, sem ter nem mesmo uma foto da pessoa para se basear. Este tanatopraxista também já fez uma reconstituição perfeita de um corpo que se encontrava com mais de setenta por cento do rosto sequelado. Qual é a diferença dos tanatopraxistas para os artistas? Os dois fazem um trabalho que necessita sensibilidade e perícia. Tanto um, quanto o outro conseguem ir além dos preconceitos e das visões que uma pessoa qualquer poderia ter. Os dois conseguem transformar o que muitos considerariam ser nada em algo que para outros pode significar tudo. Eles transformam a morte em arte.

Profissionais despreparados? A tanatopraxia surgiu na França, por volta da década de 60, e rapidamente se espalhou pela Europa. Em meados de 1994, os diretores funerários do estado de São Paulo, em visita a Europa, buscando acompanhar a evolução do setor funerário, descobriram esta técnica e resolveram trazê-la para o Brasil. Em nosso país, esse trabalho ainda é recente, por isso ainda existem muitas pessoas desqualificadas para essa área. Nos Estados Unidos, por exemplo, para um cidadão estar apto a praticar a tanatopraxia, ele precisa fazer um curso de dois anos e ser aprovado em um exame prático. Já no Bra-

sil, só é preciso fazer um curso de 48h. Com isso, você passa a ser considerado “preparado” para exercer a profissão que tem profunda importância social. De acordo com o tanatopraxista José Arlindo, a prática deveria ser obrigatória em todos os óbitos de uma cidade. “Com o processo, elimina-se todas as bactérias desse corpo, todas as doenças, você evita que as doenças se propaguem”, comentou Arlindo. Em Fortaleza, apenas metade dos óbitos da cidade passa pelo processo de tanatopraxia. Já nos Estados Unidos, essa porcentagem sobe para 90% de todos os mortos do país.


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Educadores de rua e de coração Risco de morte, assaltos constantes, insalubridade e falta de reconhecimento. São alguns dos obstáculos encontrados pelos educadores sociais Felipe Goes e Sara Rebeca Aguiar

“Já passei cerca de vinte minutos com uma arma na boca. A todo instante sendo ameaçado de morte”, Alexandre Marques, 29 anos, educador social há três anos e sete meses, da ONG Pequeno Nazareno. “A gente tem medo do tráfico, das ameaças e muitos colegas já foram assaltados”, Gleydson Silveira, 38 anos, educador social há 12 anos do Programa Estadual Criança Fora da Rua, Dentro da Escola. “Quem nos vê conversando com as crianças, acha que nós passamos a mão na cabeça delas e somos coniventes com os erros que elas cometem, mas não é verdade”, Anna Karoline Honório, 20 anos, educadora social há seis meses da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci). Risco de morte, insalubridade e falta de reconhecimento. Características que permeiam a difícil rotina de cerca de 350 educadores sociais em Fortaleza. Eles não medem esforços para tornar melhor a realidade de indivíduos que se enquadram em pesarosos perfis de vulnerabilidade. É comum se deparar com figuras portando bolsas a tiracolo, pranchetas e canetas, em locais como sinais, praças e terminais de ônibus. Eles trabalham conversando, principalmente, com crianças e adolescentes que se encontram em situação de mendicância ou moradia de rua. Além das abordagens diretas nos espaços públicos, os educadores realizam visitas domiciliares, encaminhamentos a serviços médicos e hospitalares, e atividades internas em abrigos, ONGs e projetos específicos. Essas iniciativas fazem parte da rede estabelecida em torno do Sistema de Garantia de Direitos para a defesa, a promoção e o controle do que é determinado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Tal Lei, em vigor desde 1990, ainda não tem o devido cumprimento em muitos lares e em diversas prioridades governamentais. Hoje, em Fortaleza, dois projetos empregam 80% dos profissionais: o Projeto Criança Fora da Rua, Dentro da Escola vinculado à Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social, do Governo do Estado, os conhecidos “amarelinhos”; e a Fundação da Criança e da

Família Cidadã (Funci), ligada à Prefeitura Municipal. Além destas, o Espaço Viva Gente, estadual, e ONGs, como Associação Pequeno Nazareno, Barraca da Amizade, Associação Curumins e a Casa do Menor São Miguel Arcanjo, também desenvolvem atividades com a presença dos educadores. Dificuldades O coordenador do projeto Ponte de Encontro, da Funci, José Nei Robson Façanha de Morais, é enfático ao falar acerca das muitas dificuldades com que se deparam todos os dias: “não é fácil ficar diariamente cara a cara com a miséria, com a degradação tão precoce de pessoas que não têm mais a família para contar, crianças que são abandonadas pelos pais à própria sorte e acabam se envolvendo com drogas, prostituição, roubos, violências. Muitas vezes, nós somos o único apoio delas”. Para Nei, apesar de estarem desempenhando um serviço indispensável à verdadeira paz na sociedade, a insensibilidade do poder público à melhoria das condições de trabalho dos educadores é o maior obstáculo para resultados mais concretos: “o orçamento reservado para nós é muito pequeno para executar ações que precisam de retaguarda e isso recai sobre as políticas públicas; também a falta de reconhecimento da profissão de educador social e a falta de desenvolvimento de ações preventivas nos bairros que apresentam situações mais sérias, interferem nos resultados que queremos alcançar. Acho que são essas dificuldades que acabam trazendo a complexidade que a gente vê hoje”. A Associação Pequeno Nazareno, um dos principais abrigos de Fortaleza, conta hoje com cerca de 76 crianças abrigadas. Muitas jamais voltarão para suas famílias. O coordenador da instituição, Adriano Ribeiro, reconhece que o grande problema em se chegar a maiores sucessos, a partir dos trabalhos que realizam, está mesmo na ausência do Estado brasileiro frente ao quadro: “não há incentivo. Por exemplo, hoje, se for contar só com as crianças e os adolescentes que vivem nas ruas, são cerca de 500 famílias desestruturadas em Fortaleza, que precisam da gente. É um número pequeno, mas quem fica responsável por ele na hora de fazer o orçamento público? Às vezes são gerações e gerações que têm seus direitos desrespeitados. Só os nossos esforços e a nossa boa vontade não resolvem o problema”.

Orientadores, como Antônio Carlos (blusa branca), levam um pouco mais de dignidade às pessoas na rua Foto: Waleska Santiago

Saiba mais...

Sem regulamentação Pelo Ministério do Trabalho e Emprego, instituída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), a função de Educador Social é oficializada pelo código 5153-05, porém ainda não existem normas que fundamentem a prática da atividade. Para o presidente da Associação dos Educadores Sociais do Ceará (Aesc), fundada há 12 anos, Luis Carlos Favaron, o salário de um educador social gira em torno de R$ 600 reais, referente a uma carga normalmente de 44 horas semanais. Para Favaron, a grande luta hoje é pela regulamentação da profissão: “queremos melhorar nossas condições de trabalho, queremos conquistar um piso e faixas salariais condignas e estabelecer concursos públicos e uma isonomia salarial e equiparação à carreira de professor, no Estado e nos municípios”. Os educadores sociais, atualmente, são treinados pelas instituições contratadas, que, em parceria com a Aesc e as Universidades Federal e Estadual do Ceará, realizam cursos e oficinas práticas e teóricas. Não existem seleções abertas ao público.

Favaron: luta por reconhecimento e por um plano de carreira para a profissão Foto: Felipe Goes

As vagas são quase sempre preenchidas por indicações de profissionais já atuantes. Os prérequisitos incluem alguma experiência na área social e o curso superior em setores que lidam com estudos relacionados, como pedagogia, serviço social, psicologia, sociologia ou filosofia, já concluído ou ainda em curso. Favoron, presidente da Aesc, explica que está previsto para o segundo semestre deste ano um curso de nível médio de Educação Social. Uma das metas para 2010 é a criação de um curso superior na área.


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Trabalhar pela paz rende bons exemplos Regis Barbosa de Abreu, 17 anos, é um exemplo, entre tantos, de que a atividade do Educador Social é uma profissão indispensável para se alcançar a paz tão buscada. Aos seis anos de idade, o garoto foi obrigado a ir para as ruas. O pai foi assassinado e a falta de condições da mãe para criar a família o obrigou a pedir esmolas: “primeiro tinha aquele vai-e-vem, eu ia para rua, voltava com pouco dinheiro, apanhava da minha mãe. Nisso de levar peia todo dia, não aguentei e vim para o Centro. De tanto apanhar pensei em não voltar mais para casa. E acabei ficando de vez na Praça da Estação”. Regis lembra as inúmeras dificuldades e apuros que passou na luta diária por um prato de comida e até por um lugar seguro para dormir. Depois de ver um colega de rua ser queimado, ele decidiu tomar certos

cuidados: “quando ia dormir me escondia. Todo dia ia para um canto diferente”. Além da violência, o perigo constante das drogas. Cedo ou tarde a criança tem seu primeiro contato. Com Régis foi assim também. Não demorou muito para que ele aceitasse a droga oferecida por outras crianças. Com apenas seis anos, ele já experimentava um pouco de tudo. Entre elas estava a cola, o solvente e o mesclado (mistura da maconha com o crack). Para Regis, a fome é um dos grandes motivos que induz ao vício e ao roubo: “fumar um cigarro de maconha é como comer uma panela de comida. Já cheguei a passar de semana sem comer. Nunca roubei, nunca tive sede de roubar. Uma vez, eu vi um senhor que estava contando muito dinheiro, mas quando eu cheguei perto meu coração disparou. Resolvi. Não, não vou fazer isso não”.

Aos oito anos de idade, ele recebeu a visita dos educadores sociais do Pequeno Nazareno. Depois de alguns encontros e de muitos convites, aceitou sair das ruas. Durante os nove anos seguintes viveu no abrigo da ONG, localizado no município de Maranguape, onde teve acesso à educação, ao atendimento psicológico, à alimentação, à profissionalização, ao esporte e ao lazer. Com o passar do tempo, Regis começou a ter novamente contato com a sua família. Aos 13 anos de idade, já ia para a casa da mãe durante as férias. Lentamente, o convívio com a família foi se restabelecendo e os laços afetivos foram reconstruídos: “foi uma batalha. A minha mãe não me aceitava de volta”, conta. Em 2008, ele finalmente voltou para sua casa. Hoje, Régis trabalha na própria ONG Pequeno Nazareno como au-

Movidos pela solidariedade Quando perguntado por que algumas pessoas sonham em serem educadoras sociais mesmo diante de tantas dificuldades, o presidente da Aesc, Favaron, formado em Serviço Social e educador há cerca de quarenta anos, sorri, silencia, baixa a cabeça, tenta engolir o choro, seca as lágrimas oportunistas e confessa: “eu acho que por trás de um educador social existe um compromisso pessoal dele com a mudança, com a transformação de vida de outras pessoas. Quem não tem sensibilidade não é educador social, porque as condições não são nada fáceis, o que move a gente é o desejo de mudar, de ter um mundo melhor, um mundo de paz”. Antônio Carlos da Silva, educador social há cinco anos da ONG Pequeno Nazareno, destaca as dificuldades da função, mas ratifica as recompensas, as maiores incentivadoras da ininterrupção de um ofício exercido com paixão e esperança: “um grande empecilho é a droga, cada vez mais presente. A gente trava uma luta desleal contra as drogas, contra os traficantes, porque a influência deles sobre os meninos é muito maior que a nossa. Por outro lado, sabemos que eles precisam de nós. Mesmo que eles não nos digam nada. Mesmo que eles só reconheçam isso muito tempo depois. O que motiva é a esperança de que você vai fazer a diferença na vida deles, de que os danos neles vão ser reduzidos se nós estivermos por perto”.

A resposta por tanta dedicação nem sempre é satisfatória. A reportagem conversou com cerca de 25 educadores. Para todos eles, a frustração acompanha boa parte do processo: “a gente leva às vezes três meses para conquistar a confiança de um menino, para convencê-lo de que a rua não é o melhor local para ficar. Ele, então, aceita conversar com a família ou ir para um abrigo. A pior coisa é saber, depois, que eles fugi-

ram e voltaram para as mesmas práticas de antes, como as drogas, os roubos. Depois de um tempo, eles se acostumam com a falta de horários, com a falsa liberdade das ruas, e com o vício. Sentem falta disso quando vão para os abrigos, para casa. É frustrante! Por isso, muitos educadores não aguentam e desistem”, emociona-se Sílvia Cristina Pimentel, 24 anos, educadora social há três anos da Funci.

Nas atividades recreativas, desenvolvidas pelos instrutores, os adolescentes vivem um pouco da infância perdida nas ruas Foto: Waleska Santiago

Regis: depois da superação, o desejo de ajudar outras crianças Foto: Felipe Goes

Opinião

xiliar administrativo. Ele estuda administração em um dos melhores cursos técnicos da cidade e já pensa em fazer uma faculdade. Está afastado das drogas há seis meses e já sonha em poder ajudar crianças e adolescentes que hoje vivenciam uma realidade que ele conhece bem: “eu conheço os dois lados da moeda. Já fui um menino de rua e sei como é o trabalho do educador social”. Assim como Regis, muitas crianças acabam nas ruas das grandes cidades por não encontrarem em suas casas uma estrutura familiar capaz de suprir as necessidades mais básicas. Para o educador social, Alexandre Marques de Souza, da ONG Pequeno Nazareno, a situação de miséria, a falta de estrutura familiar e a violência física e sexual ainda estão entre os fatores mais comuns que levam uma criança a ir para fora de casa. Regis é um exemplo real de mudança. Prova da importância do trabalho realizado pelos educadores sociais: “se não fossem os educadores sociais, eu hoje, ou estaria preso ou morto”, agradece com um sorriso o rapaz.

Pedro Pereira

Educador social: um construtor de sonhos Na sociedade brasileira, parece que uma grande parte da população ainda concebe os sujeitos menos privilegiados, ora como vítimas da sociedade, ora como agressores ou em vias de ser. Nessa direção, as crianças e os adolescentes pobres e principalmente aqueles que vivem em situação de rua foram tidos como menores, porque eram considerados como feixe de carências em relação aos filhos das classes mais privilegiadas, concebidos como maiores, potentes e competentes. Esta idéia estereotipada englobou também o Educador Social que trabalha geralmente com os segmentos sociais desprovidos dos direitos básicos, sendo ele visto por muitos sujeitos sociais como um profissional menor em relação às outras categorias, um tipo de cidadão de tamanho reduzido que desenvolve um trabalho educativo pouco significativo com os educandos. Conforme o exposto, compreende-se então que o termo menor antes destinado às crianças e adolescentes, parece que abarcou os adultos educadores, causando-lhes problemas em relação ao reconhecimento profissional. Diante de tal desafio, torna-se necessária a luta dos profissionais da Educação Social, porque não querem ser menores e nem maiores, mas cidadãos críticos e participativos que constroem em parceria com a sociedade sonhos possíveis capazes de promover e garantir a sua cidadania e a de outros sujeitos, prioritariamente dos aprendentes que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Com esta intenção, entende-se que algumas ações são basilares na consolidação da profissão, como a participação ativa na Associação de Educadores Sociais do Estado do Ceará (Aesc) e nos Encontros Nacionais de Educação Social, a construção de parcerias com as universidades a fim de o Educador Social obter uma consistente formação teórico-técnico-científica, a articulação em nível nacional e internacional com outros educadores atuantes tanto nos espaços extra-escolares quanto no locus escolar, o registro das práticas educativas do educador e a divulgação delas nos eventos acadêmicos o torna presença marcante nos meios de comunicação. Por fim, o Educador Social pode obter um maior reconhecimento social, mas exige dele a capacidade de construir uma fraternidade profissional entre si e com outros profissionais sensíveis e comprometidos com a luta pela sua valorização. Educador social, professor, filósofo, especialista em Psicopedagogia e Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)


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57% trabalham na informalidade Trabalhar por conta própria é a alternativa para mais da metade da população economicamente ativa de Fortaleza. Estima-se que 488.503 estão na informalidade Ivna Girão e Nina Giordana

Em dados mais recentes publicados pelo Sistema Nacional de Empregos (Sine), a taxa de desemprego atingiu 13,43% em 2007. “A economia local está gerando trabalho para diminuir o número de desempregados, embora que a maior parte seja gerada na informalidade”, explica Erle Mesquita, coordenador de estatística e análise de mercado do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT). O Ceará é o único estado a pesquisar sobre a informalidade, segundo o assessor técnico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do município de Fortaleza, Inácio

Bessa. Conforme o último estudo do IDT, realizado em julho de 2008, 57% da População Economicamente Ativa (PEA) da Capital estão na informalidade. Em uma volta pelo Centro da cidade, é comum encontrarmos vendedores ambulantes por todos os lados. Cadernos, perfumes, capas para celular, brinquedos, plantas medicinais, sandálias, roupas, o mercado paralelo se confronta com a aparente estabilidade das grandes lojas. O vendedor de coco, Osvaldo Veiga, 50, é um desses trabalhadores. Faça chuva ou faça sol, ele vai trabalhar. “É daqui que eu tiro todo o meu sustento. Não posso me dar o luxo de ficar em casa esperando a chuva parar”, disse o ambulante que trabalha na Praça do Carmo, em Fortaleza, há quatro anos. Com as roupas e mercadorias molhadas, Osvaldo Veiga se protege debaixo de uma pro-

teção improvisada enquanto um cliente se aproxima, pede um copo de água de coco e faz companhia embaixo do pequeno guarda-chuva. Segundo ele, a renda mensal fica prejudicada com a chegada da quadra chuvosa no estado: “nos dias normais, eu chego a vender 60 cocos pequenos. Já com o tempo nublado, eu só vendo uns 10 por dia”. Sem Carteira de Trabalho, direitos trabalhistas e férias remuneradas, Osvaldo Veiga trabalha de domingo a domingo. “Eu chego no ponto às 7h30min e fico até o fim da tarde. A nossa vida de ambulante hoje em dia é difícil, pois toda esquina tem gente vendendo alguma coisa”, afirmou. Em meio a tantas reclamações, o vendedor abre um sorriso e brinca: “tem uma vantagem que faz tudo isso valer a pena: não ter patrão para encher o saco. Eu faço meus horários e não tenho que dividir os lucros com ninguém”, riu.

Mulheres dominam subemprego

Seu Osvaldo trabalha de domingo a domingo num carrinho de cocos no Centro da Capital Foto: iVna GirÃo

Pelo menos até meados do século XX, a maioria das mulheres trabalhava no ambiente doméstico. Agora elas estão nas grandes empresas e são maioria no mercado informal – 51,15%, de acordo com o Sine/IDT. Necessitadas a trabalhar para sustentar a casa, a mulher, que segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/2006) do IBGE chefia 40,1% dos lares em Fortaleza, apostou na informalidade, que vem cada vez mais atingindo

os mais diversos segmentos da força de trabalho local Ainda caminhando pelo centro da cidade, encontramos uma dessas mulheres. A vendedora ambulante Eliane Pereira da Silva, 30, aproveita o tempo ‘fechado’ para ganhar dinheiro com as vendas de guarda-chuvas. A “negona das tatuagens”, como é conhecida nas ruas do Centro, fatura mais na quadra chuvosa: “tem dias que eu tiro R$ 200 vendendo ‘sombrinha”. A ambulante trabalha no mercado informal desde os

Prefeitura financia pequenos negócios para autônomos A Prefeitura de Fortaleza vem realizando iniciativas de financiamento para autônomos. Segundo o assessor técnico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), Inácio Bessa, há atualmente 42 programas. Um deles é o Programa Agência Cidadã de Crédito (PAC), que financia pequenos negócios. “Outro projeto que vem dando certo é a Cozinha Popular. Surgido em 2005, ele concede uma ajuda de custo para as cozinheiras que trabalham em casa na venda de quentinhas. Assim, elas vendem diariamente para 50 famílias cadastradas a refeição a preço de 1 real”, comentou Bessa. Uma das beneficiadas do Projeto Cozinha Popular é Maria Eleni Sousa, 52. Lucrando R$ 0,50 em cada marmita ven-

três anos de idade. “Minha vida foi vendendo de tudo um pouco. Eu nunca soube o que era ser criança”, comentou. Com a pele maltratada de quem passa os dias em contato com o sol e a poeira das ruas, a “negona das tatuagens” afirmou que outros integrantes da sua família sobrevivem graças ao mercado informal. “Os meus nove irmãos trabalham como ambulantes também”, disse.

‘Negona’ vende produtos nas ruas de Fortaleza desde os três anos de idade Foto: nina GiorDana

Enquete

O que acham dos ambulantes? “O fato deles estarem nas ruas não atrapalha em nada. Já nos acostumamos com a presença deles e não incomoda muito não. Quando preciso eu até compro uns brinquedos nos ‘camelôs’”. Graziela Ribeiro Dona de casa

“Eu não acho ruim ter ambulantes nas ruas. Eles têm umas mercadorias com o preço mais ‘em conta’. Mesmo alguns produtos sendo falsificados ou de baixa qualidade, a gente sempre acaba comprando”.

Empreendedores desejam independência financeira

dida, ela sustenta a casa e faz sucesso na vizinhança. “Aqui em casa não falta comprador da minha refeição. Modéstia à parte, todos são fãs do meu tempero”, disse a moradora do Antônio Bezerra que é presidente da Cooperativa ‘Arte e Culinária’.

Foto: Waleska santiaGo

Segundo Inácio Bessa, alguns trabalhadores que não estão na formalidade acabam podendo ganhar mais do que outros que têm carteira assinada. Mas isso é relativo. “Não se pode afirmar se as pessoas estão preferindo ou não trabalhar dessa forma”, afirmou ele.

Príncipe Leno de Oliveira Vendedor

“Tem tanto ambulante no meio da rua que a gente não consegue nem andar. A cidade fica feia e desorganizada. A prefeitura precisa arranjar um local para eles ficarem. Eu não compro deles, pois não acho certo”. Dalva de Moreira Dona de casa


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Artistas do bar usam novas técnicas A profissão de bartender inova e busca novos nichos de mercado. Estes profissionais já não são mais apenas servidores de bebidas, mas verdadeiros artistas Liana Sampaio e Tatiana Rosas

O trabalho dos bartenders, profissionais do bar, não se restringe apenas à atuação atrás do balcão. Hoje, com performances, animação e muita energia, eles são encontrados em aniversários, casamentos e até mesmo em festas infantis, uma diversificação que ajuda a tornar esse ofício reconhecido. A evolução da profissão se deu, em parte, pelo crescimento de algumas tendências, como o flair e a pirofagia. Estas são técnicas muito utilizadas pela atual geração de bartenders e que consistem, respectivamente, em malabarismos com copos ou garrafas e na preparação de coquetéis com fogo. Outra tendência é o uso de bebida sem álcool voltada para o público mais novo. Além de se adequarem ao paladar infanto-juvenil, os coquetéis não-etílicos são feitos com espumas e fumaças para chamarem a atenção da garotada. Junto a tudo isso, é importante que esse profissional interaja com o cliente e se adapte às diferentes situações. É o que ressalta André Espínola, um dos três administradores dos Cobras, equipe consolidada no mercado de bartenders de Fortaleza. “O bom bartender é aquele que faz todo tipo de coquetéis, é educado, tem higiene e, principalmente, sabe se comportar, se adequando ao tipo de cada pessoa”, afirma. Na atualidade, o jovem tem o perfil ideal para desempenhar essa função. Por isso, é comum estudantes, mesmo

contra a vontade de alguns pais, ingressarem nesse mercado. Muitos deles conciliam a noite com os estudos. Fernanda Dantas, fundadora das Cocktelitas, foi uma das que lutou para seguir a carreira. “Só meu irmão me dizia para eu correr atrás dos meus sonhos. Hoje, minha mãe é uma das pessoas que mais me apoia e não me deixa largar tudo nos momentos de desespero. Quem me viu começando, hoje em dia se surpreende com a proporção que a Cocktelitas tomou.” Fernanda estudou sobre o assunto e decidiu seguir esse ramo. A ideia de fazer coquetéis começou em 2002, numa brincadeira de primas e amigas, e agora o grupo conta com 40 bartenders e faz até 50 eventos por mês. Para Aline Maia, cliente assídua dos bares do Dragão do Mar, os bartenders são a atração principal quando a banda não está no palco. “Eles divertem as pessoas, dançando e interagindo com todo mundo. Acho que, sem eles, seria bem mais desanimado”, afirma. Anderson Almeida, empresário de um bar em Fortaleza, ressalta que “se o bartender for bom, o cliente que pretende beber um coquetel, bebe cinco ou seis. E, se for ruim, quem vai pra beber cinco doses, bebe uma e vai embora”. Mas o trabalho destes profissionais não se resume à hora da festa. A preparação do bar exige uma organização minuciosa de todos os itens e quantidades de bebidas. “Normalmente, a gente chega duas horas antes de começar a festa e sai uma hora e meia depois que acaba”, conta Kleiton Kovatch, outro integrante do grupo Os Cobras. Quando questionados se é possível viver da coquetelaria, a maioria dos bartenders afirma que sim. O piso salarial

Glossário Bartender clássico: Conhece as origens das bebidas, composição, características e efeitos no organismo. Usa traje social e atua geralmente em hotéis, piano bar’s e navios de cruzeiro. Bartender moderno: Utiliza técnicas como flair, pirofagia e mágicas para balcão. Veste-se de forma que agrada e impressiona o público alvo da casa (boinas, bandanas, faixas, pulseiras, piercigns e penteados modernos). Geralmente trabalha em boates, shows e eventos em geral. Flair: Movimentos e malabarismos feitos com materiais diversos de bares. Existem dois tipos: Exhibition Flair, praticado com utensílios vazios, e o Working Flair, malabarismo com frutas, copos, gelo, coqueteleiras e garrafas parcial ou totalmente cheias. Pirofagia: Preparação de coquetéis com a utilização de fogo. Mixologia molecular: Tendência da gastronomia que recentemente tem se aplicado à coquetelaria. Consiste em técnicas que permitem potencializar o sabor dos ingredientes mudando sua textura. São exemplos: espuma de uva, pirulito de caipirinha, espuma de Martini, spray de mojito.

Habilidade: o malabarismo com garrafas (flair) chama a atenção e impressiona aqueles que estão em volta Foto: Waleska santiaGo

Saiba mais

Os drinks mais famosos O coquetel Sex On The Beach é o mais conhecido no mundo, porém o mais vendido é o Long Island Ice Tea (foto). “A cada cinco minutos um drink de Long Island Ice Tea é vendido em algum lugar do mundo”, afirma Kleiton Kovatch, do grupo Os Cobras. O preço médio de cada um desses coquetéis é R$ 6, 00. Receita do Sex On The Beach Ingredientes: 1 colher (sobremesa) de grenadine ou groselha; 10 ml de licor de pêssego; 1 rodela de laranja; 30 ml de vodca; suco de laranja; cereja; gelo; canudos. Modo de preparo: em um copo longo colocar 4 pedras de gelo. Em seguida, juntar a vodca, o licor, completar com suco de laranja e misturar bem os ingredientes. Decorar com a laranja, a cereja, os canudos e colocar, por último, a groselha ou o grenadine sobre o drink pronto.

da categoria é de R$ 465,00. Porém, existem aqueles que atuam como autônomos e recebem por noite de trabalho. Estes podem receber até R$ 1500 mensais. Fernando Molina, da empresa Brasil Bartender, de São Paulo, é um dos profissionais que vive desse ofício. “Com força de vontade, conseguimos viver da maneira que gostamos. Tiro meu sustento atuando como barman, dando aulas nessa área, consultoria em bares e muito mais”, frisa. Como forma de melhor desenvolver a profissão, foi criada em 1950 a International Bartenders Association (IBA), uma entidade mundial que estabelece as normas de conduta da categoria. No Brasil, desde 1970, existe a Associação Brasileira de Bartenders (ABB), que tem como objetivo formar e qualificar o profissional em questão.

Cursos para formação de bartender O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) promove capacitação para a formação de bartenders como uma extensão do curso para garçon. As aulas totalizam 160 horas e ocorrem todos os dias, das 10h às 12h. O cursos garante a aptidão para exercer a profissão, incentivando os alunos a abrirem uma empresa pessoal. O investimento é de R$ 500 e os pré-requisitos são: ser maior de 18 anos e ter completado o ensino fundamental. A formação se divide em diversos módulos entre Relações Interpessoais, Ética e Trabalho, Tipologias de Bebidas e Harmonização com Alimentos. Existe ainda um módulo op-

Senac: curso oferece módulos de coquetelaria e flair Foto: tatiana rosas

cional de flair e pirofagia, que dura 40h e custa R$150. Segundo Wagner Sena, professor do curso, “os jovens são os que mais interessados, pois

os bares pedem profissionais mais descolados”. Pelo menos uma vez no mês, o grupo Os Cobras oferta um curso com duração de 15 a 20 dias e tem um custo médio de R$ 300. As aulas acontecem no Bar dos Cobras de 19h às 21h. O aprendizado de coquetelaria fina (profissional) é dado pelo professor Kleiton Kovatch, e as técnicas de flair e working flair é ministrado por Henrique Tapias, ambos integrantes do grupo.

Serviço Senac - Av. Tristão Gonçalves, 1245. Centro. Tel.: 3452.7005 Bar dos Cobras - Rua Dragão do Mar, 350. Tel.: 8712. 2287


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Diplomadas em sensualidade Para muitos, seduzir é uma arte. Entretanto, quando a inibição domina a criatividade, a solução pode ser procurar cursos de sedução na nossa capital Elisiany Leite e Richell Martins

Desde os tempos de Cleópatra, no Antigo Egito, a sedução é uma arma poderosa que pode, inclusive, mudar o curso da história. Hoje, com a maior liberdade sexual dada pela modernidade, as mulheres têm tudo para exercitar a libido e desenvolver habilidades corporais para se tornarem sensuais. Para as que querem aprender o passo-a-passo da sedução, há cursos especializados em Fortaleza, com uma vantagem: são gratuitos. Na loja Maison Rouge, que existe há dois anos no bairro Aldeota, além dos lingeries e outros acessórios sensuais, a loja

oferece cursos de sedução, num evento mensal chamado “Sexta-Fire”, que – não por coincidência – acontece às sextas-feiras. Por mês, vinte clientes são escolhidas para participar do evento. No fim de tarde, a loja recebe suas convidadas com coquetéis afrodisíacos para esquentar o ambiente que, mais tarde, serve de espaço para o curso de sedução ministrado pela sexóloga Fabiana Lucas. Durante a palestra, Fabiana dá dicas de como conquistar (ou reconquistar) o parceiro e expõe alguns produtos eróticos (como acessórios, cremes e óleos), ensinando como utilizá-los da maneira correta. Tudo pode ser comprado ao fim do dia. Há quatro anos, a sexóloga desenvolve um trabalho de conscientização de como o sexo pode modificar a vida das pessoas. O sucesso das palestras é notório: “como o curso é gratuito, as vagas são preenchidas com um mês de antecedência”,

Dicas Quentes - Autoestima: pois sem amor próprio não podemos dar mais nada a ninguém; - Olhar sedutor: os olhos podem dizer o que o outro quer ouvir; - Use lingeries sensuais: os homens são muito visuais; - Faça um book de fotos sensuais para se surpreender; - Coloque uma pimenta no seu relacionamento com artigos eróticos; - Rapte-o depois do trabalho e leve-o ao motel: fugir da rotina é maravilhoso e - Ousadia sem vulgaridade. diz Fabiana. Para participar, as clientes se inscrevem numa lista, na própria loja. Os vinte primeiros nomes recebem um convite por e-mail. Suzana*, 28, já participou da “Sexta-Fire” e conta a experiên-

Especialista ensina a arte de seduzir Autora de três livros que tratam da sedução e do site Arte de Seduzir, a escritora gaúcha Janaína Persch Barsazcz é considerada, hoje, uma professora de artes sensuais. Sua coluna no portal jornalístico Novo Hamburgo, intitulada “Sem-Vergonha”, é uma ótima fonte de dicas do gênero para leitores dos dois sexos. Dentre as receitas frequentes que dá a suas leitoras estão: cuide do visual, unhas, mude o corte de cabelo, perfume (sem exageros); não use roupas muito curtas ou decotadas - a maioria dos homens acha vulgar; e se quiser compromisso, nunca vá para a cama no primeiro encontro. Seus três livros da série “Seduzir é...” são verdadeiros guias que norteiam os leitores mais curiosos. O primeiro, “Um

Sem-vergonha: Janaína Persch, professora de sensualidade Foto: DiVulGaÇÃo

guia prático para torná-la uma mulher irresistível” (Ed. Sulina – 1999) oferece dicas para tornar as mulheres mais ousadas, sensuais e felizes. Tem capítulos como, por exemplo, 43 maneiras de levar seu homem à loucura. O segundo, “Um

guia prático para torná-lo um homem irresistível” (2001), é voltado especificamente para o público masculino, e traz noções de criatividade, técnicas de kama sutra e massagens eróticas. No terceiro volume, “Como atrair um homem apaixonado para sua vida” (2003), o livro compila uma série de artifícios de sedução, como receitas de drinques afrodisíacos e dicas de como usar cores mais atraentes nos lingeries. Há onze anos orientando pessoas a buscarem o autoconhecimento sexual, Janaína explica como ingressou nessa área. “Eu tinha uma clínica de estética. Depois, trabalhei com sexólogos, psicólogos e fui vendo o que as mulheres mais buscavam. Após tudo isso, surgiu o convite para os livros, e as coisas foram acontecendo”.

cia. “Tudo mudou na minha rotina, depois do que aprendi lá. Eu me visto diferente; compro umas coisinhas para usar na hora H e invisto mesmo”. A verdade é que muitas mulheres ainda não arriscaram fazer cursos de sedução. Os motivos são vergonha, baixa autoestima e até machismo de seus parceiros. Contudo, a improvisação e o amadorismo, a depender da desinibição, conseguem apimentar a relação dos casais. Patrícia*, por exemplo, é estudante e tem 23 anos. Diz que ainda não frequentou aulas de sensualidade, mas que procura inovar para melhorar sua vida íntima com o namorado: “compro lingeries de renda, normalmente lilás – que é a cor que ele mais gosta de me ver vestida. Já cheguei até a fazer um strip para ele. É porque eu confio muito no meu taco!”, explica. Já Lúcia*, 44, acredita que a sedução está, principalmente, na roupa e no olhar. Desde que

se divorciou, há alguns anos, frequenta casas de forró para se divertir e paquerar outros homens. “Hoje, namoro um homem seis anos mais novo que eu. O segredo está no charme, na hora da festa, mas sem ser vulgar”, ensina. Fabiana, a sexóloga, explica que, nos cursos, essas mulheres que tentam inovar por conta própria acabam aprendendo a se conhecer melhor. Se há quem creia que alcançar um bom nível de sedução é uma tarefa difícil, ou ainda de anulação pessoal, ela garante que ser sedutora é uma simples questão de amor próprio. * Pseudônimos

Serviço Mistery Club – Rua Leonardo Mota, 1090. Por trás do Shopping Del Paseo. Fone: 3224-0794. Sites de Janaína Persch: http://artedeseduzir.com http:// novohamburgo.org/colunistas/semvergonha/jana

Saiba mais...

Conheça as danças mais famosas Dança do Ventre – A dança do ventre já era usada há sete mil anos, como forma de sedução. Provavelmente, originada de cerimônias religiosas do Antigo Egito, como forma de homenagear as deusas da fertilidade, sempre foi instrumento de ataque ao sexo masculino. Já na Idade Média, as cortesãs também ensaiavam passos para agradar seus amos. Pole Dance – A “dança do poste” entrou na moda, recentemente, com a divulgação da novela Duas Caras (TV GLOBO). Nela, a personagem “Alzira”, interpretada pela atriz Flávia Alessandra, era adepta à pole dance. A dança é composta por movimentos de ginástica, balé e dança moderna. Por conta de “Alzira”, muitas academias passaram a oferecer aulas de pole dance. Strip–Tease – Nos anos 90, o filme “Strip-Tease” mostrou cenas de total sedução com a performance da atriz Demi Moore, como stripper. Estas cenas entraram para a história do cinema ocidental.A intenção direta do strip-tease é causar excitação visual através da nudez completa. A mágica está no jogo de sedução e no tempo que cada peça de roupa demora para ser retirada.

Top Sexy ONTEM Clark Gable - conhecido como o “Rei de Hollywood”, foi o galã de “E o vento levou...” (1939)

HOJE George Clooney - o cabelo grisalho e a boa pose são os ingredientes da fama de mocinho.

Sophia Loren - a atriz, hoje com 75 anos, foi um dos maiores símbo- los sexuais do século passado.

Angelina Jolie - já foi eleita várias vezes a mulher mais sexy e bem sucedida do cinema mundial.

SEMPRE Marlon Brando - o imortal “Poderoso Chefão” é um dos grandes símbolos de sensualidade masculina do século XX. Marilyn Monroe - apesar da curta vida, sua beleza se tornou um padrão de sensualidade ocidental.

Sobpressão#18  

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da Unifor.

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