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SOBPRESSÃO

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NOVEMBRO / DEZEMBRO DE 2008

Mortalidade infantil diminui Embora Fortaleza registre uma redução na taxa de mortalidade infantil, os últimos dados ainda preocupam as autoridades de Saúde do Município

Entrevista

A meta será cumprida?

Dely Sátiro

Capacitação dos agentes de saúde, aumento da cobertura vacinal e acompanhamento multidisciplinar da Estratégia Saúde da Família (ESF) são ações implementadas pela Prefeitura de Fortaleza, em parceria com o Governo do Estado, que contribuem para a redução da taxa de mortalidade infantil. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), os dados de 2007 indicam que o número de óbitos em menores de um ano diminuiu para 14,5 mortes por mil nascidos vivos, quando comparado ao do ano de 2004, em que foram registradas 18,5 mortes para cada mil nascidos vivos. Um dos pilares desse resultado é o investimento feito no trabalho domiciliar junto às mães que acabam de ter filho, além do serviço voltado ao controle de doenças infecciosas e respiratórias. De acordo com a assessora técnica da Célula de Atenção Básica (CAB) da SMS, Andressa Aguiar, o atendimento realizado nas residências evita que a população se desloque para unidades secundárias, reduz os quadros de internação e as situações de emergência. Estratégia A fim de assistir aos mais carentes, principalmente às crianças que vivem em condições precárias, Fortaleza conta com o auxílio de 1.320 agentes comunitários de saúde, distribuídos pelas 318 equipes da EFS. Esses profissionais atuam no desenvolvimento de programas educativos para a promoção da saúde e a prevenção das enfermidades. “Eles atendem aos pacientes que não podem se locomover até os hospitais e visitam seus lares, repassando orientações sobre hidratação, nutrição, amamentação e vacinação”, esclarece Andressa. Desde que aumentou a cobertura da ESF, Fortaleza registrou um crescimento considerável da realização do pré-natal. Em 1994, quando havia somente 81 grupos, 68% das mulheres grávidas faziam o acompanhamento. Em 2007, esse percentual subiu para 96%. A agente de saúde Sandra Ferreira conta que sua função, desempenhada diariamente no bairro Cidade 2000, tem ajudado na descoberta de doenças até então despercebidas pelas comunidades. “Por falta de tra-

Dr. Luiz Neto atende recém-nascidos no César Cals FOTO: CLARA MAGALHÃES

O acompanhamento antes e após o nascimento do bebê é uma medida importante para salvar vidas

tamento adequado e esclarecimento, muita gente morria. Hoje, através de nossas visitas, fazemos a informação chegar até essas pessoas”, conta. Como se não bastasse alertar sobre cuidados básicos, a jovem orienta mulheres grávidas a realizar todos os testes para analisar a situação do bebê. “Muitas vezes, elas não têm a quem recorrer. Me sinto útil em poder ajudá-las”, orgulha-se. Desafio Há dez anos, os bebês morriam por doenças evitáveis, como a pneumonia e a diarréia. Atualmente, estas não chegam a representar 6% das causas da mortalidade infantil na cidade. O desafio, agora, segundo as autoridades da Saúde do Município, é combater a mortalidade neonatal, que ocorre quando o pré-natal é mal feito, sem qualidade. Conforme Ana Paula Brilhante, representante do Comitê de Mortalidade Infantil de Fortaleza, 55% da taxa de mortalidade infantil são relativas a

mortes ocorridas nesse período. “Apesar de ter aumentado a procura de gestantes para realizar o pré-natal, há uma série de fatores que devem ser melhorados”, explica. Outra agravante apontada por ela é a falta de leitos nas principais maternidades, que sofrem constantemente com a superlotação. “Embora o acesso já tenha sido facilitado, verifica-se ainda uma deficiência no número de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Desse modo, cresce o risco de infecções”, alerta. Mas, nem tudo é motivo de desespero. Recentemente, a Secretaria da Saúde inaugurou a primeira UTI Neonatal da rede municipal. O local escolhido foi o Gonzaguinha de Messejana. De acordo com Ana Paula, medidas como essa favorecem o bem-estar do neném e da mãe, além de desafogar outras maternidades. Meta Reduzir em dois terços as

FOTO: CLARA MAGALHÃES

mortes de crianças até 2015 é a quarta meta do milênio, acordo estabelecido, em 2000, pela Organização das Nações Unidas (ONU). Odorico Monteiro, secretário municipal de saúde, acredita que o aprimoramento do trabalho dos profissionais, sejam eles médicos ou agentes de saúde, bem como o investimento nas unidades, são primordiais para que Fortaleza alcance tal objetivo. O secretário faz questão de ressaltar a importância da construção do Hospital da Mulher, que vai aumentar a oferta de serviços especializados e articular as redes assistenciais. “Continuaremos o processo de humanização da ambiência e da atenção ao parto e ao nascimento, que são entendidos como dois fenômenos importantes. Neste sentido, estamos capacitando os profissionais e estruturando os hospitais para qualificar a assistência”, conclui, sem disfarçar o otimismo.

Taxa de óbitos em menores de um ano decresce em Fortaleza, segundo Secretaria Municipal de Saúde

* Atualizado até 03/07/2008

Luiz Neto, pediatra que acompanha de perto a luta de bebês pela vida no Hospital César Cals, acredita no alcance da meta do milênio Sobpressão: Hoje, a maior taxa de óbitos em menores de um ano acontece no período neonatal. A que se deve isso? Luiz Neto: A progressiva melhoria do atendimento permite a sobrevivência de recém-nascidos (RNs) com idade gestacional cada vez menor, mas sua imaturidade imunológica faz com que adquiram quadros infecciosos mais facilmente e com maior gravidade, fazendo com que as Unidades de Tratamento Intensivo Neonatais tenham as taxas mais elevadas de infecção hospitalar em relação a outras faixas etárias. SP: Quais as doenças que mais atingem as crianças, atualmente, em Fortaleza? LN: As doenças respiratórias e infecciosas, como as diarréias, pneumonias e dengue, continuam sendo o grande problema. SP: Quais os investimentos ainda devem ser feitos na área da saúde para diminuir o índice de mortalidade infantil? LN: Precisamos colocar em prática ações simples de prevenção, como a realização de exames pré-natais, de vacinação em massa, de programas de atendimento à saúde da gestante e do bebê. SP: Você vive diariamente em prol da assistência às crianças. Os hospitais estão melhores equipados para atendê-las? LN: Sem dúvida houve melhoras em alguns setores, mas o Brasil está atrasado no que diz respeito ao tratamento de doenças congênitas, por exemplo, se compararmos a países desenvolvidos. Faltam serviços de saúde preparados. SP: Acredita que a meta será alcançada? LN: Até 2015 é um longo percurso a ser seguido, mas temos que ser positivos. Então, sim!

Sobpressão#17  

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da Unifor.

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