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Diminuem os casos de AIDS em adultos, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), mas ainda persiste o estigma social contra os portadores do vírus HIV. Página 9

Pe. Lino: defensorr das causas justas, luta para dar visibilidade às populações lações carentes por meio daa Anote. Caderno das Organizações P. 2

JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DE FORTALEZA

NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2008

FOOTO: DIIVULGAÇÃO VULG VUL VU V ULG U LGAÇ LG AÇÃO AÇÃ A ÇÃO ÇÃ Ç ÃO Ã O

SOBPRESSÃO ANO 5 N° 17

FOTO: GABRIELA CARVALHO

Os anúncios de jornal ganham a internet. Ela é um complemento que facilita a procura do consumidor. Classificado da Notícia P. 1

Metas do milênio: conseguiremos alcançá-las? Mesmo com alguns avanços, Fortaleza ainda tem grandes desafios pela frente se quiser ajudar o Brasil a atingir as Metas do Milênio. Estabelecidas a partir da Declaração do Milênio, são oito compromissos firmados pelos países membros das Nações Unidas para serem concretizados até 2015. O Sobpressão foi em busca das ações realizadas na Capital para cumprimento dessas metas.

Covardia FOTO: RONALDO PINTO

Incentivo

Combate pela divulgação FOTO: CLARA MAGALHÃES

Ginástica rítmica cresce no Ceará Presente no estado há 25 anos, a ginástica rítmica ainda tem pouca visibilidade no Ceará. A criação da Federação Cearense de Ginástica, em 2007, e projetos sociais como o “Mão Amiga”, porém, começam a mudar esta realidade e democratizam o esporte, considerado nobre devido aos seus altos custos. Fôlego P. 01

A violência contra a mulher é o problema feminino que mais preocupa a população brasileira. O Sobpressão mostra como a Agência de Notícias Esperança promove o debate sobre o tema e conta a história de Sílvia Helena, que já sofreu agressão e hoje é ativista de movimentos feministas. Caderno das Organizações Páginas 4 e 5

Editorial

Repaginado O Sobpressão passa a ter uma edição especial a cada semestre. Ela é composta por três cadernos: Fôlego, Jornal das Organizações e Classificado dá Notícia. O jornal torna-se mais informativo e diversificado. Página 2

Sem crise

Solidariedade

A expectativa de vida aumentou para os idosos no Ceará. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a quantidade de pessoas com mais de 60 anos aumentou de 618 mil para 815 mil em uma década. A Pastoral da Pessoa Idosa contribuiu para a melhora da qualidade de vida dessa geração, pela qual atua no acompanhamento educacional e humano, principalmente da parcela mais carente. Caderno das Organizações P. 3

FOTO: WALESKA SANTIAGO

Ação voluntária ampara idosos

Adrenalina

Cresce a venda A prática de carros do Paintball A crise financeira global tem abalado vários setores industriais. Mesmo com o corte de custos, desligamento de funcionários, dívidas e empréstimos milionários, a venda de automóveis continua a mil. No Ceará, o consumidor não se intimidou com a deficiência de crédito, o que resultou, de janeiro a setembro de 2008, na compra de quase 11,5 mil carros por mês no estado, segundo a Fenabrave. Classificado P. 2

Criado em meados dos anos 1960 nos Estados Unidos, o paintball ganha cada vez mais adeptos no Brasil e em Fortaleza, apesar de ser uma diversão cara. Não há contato físico entre os jogadores e o equipamento de segurança é ítem fundamental. Atualmente no município, são cinquenta jogadores com equipamento próprio, entre os quais dez são profissionais. O Sob-pressão explica mais sobre essa prática, cujo cresci-

mento se deve, principalmente, à criação do campo próprio da Associação Cearense de Paintball que agregou aqueles que tinham vontade de jogar. Fôlego P.5


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Opinião

SOBPRESSÃO NOVEMBRO / DEZEMBRO DE 2008

Editorial

Crônica

Kelvia Alves

Sobpressão de cara nova

Rotina insustentável

O Sobpressão, a partir de agora, leva mais informação para você. Uma vez por semestre, irá circular uma edição especial do jornal. Ela será distribuída com os cadernos Fôlego (matérias de caráter esportivo), Jornal das Organizações (publicação que destaca trabalhos desenvolvidos por entidades públicas, privadas e do terceiro setor), Classificado dá Notícia (reportagens produzidas a partir de classificados de jornais). É necessário lembrar que Fôlego, Jornal das Organizações e Classificado dá Notícia eram publicações distintas. Essa fusão, além de facilitar a distribuição desse material, otimiza os recursos investidos na impressão. Embora o novo formato integre projetos de temas diferentes, as características e especificidades editoriais de cada um deles mantêm-se inalteradas, como também, a autonomia de cada um. Trata-se na verdade de um processo de sinergia, no qual as quatro publicações se unem para formar um novo jornal: mais forte, variado e informativo. A idéia surgiu da articulação entre a diretoria do Centro de Ciências Humanas, a coordenação do curso de Jornalismo

Meu cotidiano vem se tornando uma correria. O que seria de mim sem meus rituais? Uma escovada aqui, umas bochechadas ali e se vão três minutos de torneira aberta. Ligo o chuveiro. Água quente, por favor. Dez, quinze, vinte minutos. Ótimo! Lavo os cabelos, agora falta o resto do corpo. Acho que só mais trinta minutinhos. Água desperdiçada? Que nada. De onde veio aquela tem muito mais. Tomando café, a santa tela de todas as manhãs sempre tenta me manter informada. Mais uma matéria sobre os desocupados militantes ambientalistas lutando contra causas impossíveis. Dessa vez, apropriação inadequada por parte de imobiliárias em locais de preservação ambiental. Vê se faz sentido perder tempo com isso! Tomo um gole de café. Mudo o canal. Ao trocar as pilhas do controle remoto, fico na terrível dúvida se devo jogá-las no lixo da cozinha, junto com o resto do sanduíche, ou guardá-las para dar outro destino, talvez o mais correto. Já ouvi falar naquela tal de separação de resíduos. Muito detalhista, por sinal. Separar cada tipo de lixo? Coisa de gente que tem tempo de sobra. Claro que joguei no lixo da cozinha. Bem mais perto, mais prático. Junto com todo outro lixo. Afinal, lixo é lixo.. O telefone toca. É minha cunhada. Ela só me liga em duas ocasiões: dizer que pegou uma roupa minha emprestada ou perguntar por onde anda meu irmão. Dessa vez, a notícia era outra, bem diferente, por sinal. “Você vai ser titia!”. Maria Júlia, minha primeira sobrinha. Planos e mais planos. Roupas, berço, mamadeira. Mas o principal parecia ainda nem passar por meus pensamentos. Em que mundo eu quero que Maria Júlia viva? Em um lixo a céu aberto, sem ambientes naturais preservados? Um mundo onde os homens brigarão por água? Sustentabilidade. A palavra – muitas vezes ignorada até mesmo pelo corretor ortográfico do word – está tentando fazer parte do meu vocabulário. Aos pouquinhos, como quem bate à porta com um leve toque, só para avisar que chegou, que não vai desistir de entrar tão cedo e que veio para ficar, seu significado está tentando fazer sentido para mim. Obrigada Maria Júlia. O mundo agradece.

e os professores orientadores do Laboratório de Jornalismo da Unifor (Labjor) com o intuito de fortalecer ainda mais as produções vinculadas às disciplinas do Curso. Com temas mais diversificados, como esporte, cidadania, comportamento, meio ambiente, entre outros, o Sobpressão torna-se mais rico em informações. Dessa forma, desperta um maior interesse nos leitores, atingindo diferentes públicos. A mudança só foi viabilizada por conta da reforma efetuada neste semestre no Labjor. Além de uma melhor divisão de seu espaço físico, o laboratório recebeu novos computadores e softwares imprescindíveis para agilizar a produção dos cadernos. Os novos equipamentos possibilitaram a consolidação da convergência midiática nesse espaço do curso de Jornalismo. Por isso, as edições também passarão a ser disponibilizadas em formato PDF, via internet e, a partir do próximo semestre, os alunos da disciplina de Projeto Experimental em Jornalismo Impresso terão a oportunidade de produzir vídeos, textos, fotos e áudio para

o blog do Labjor. Continuando a participar de todo o processo de produção de material jornalístico, independente do suporte a ser divulgado, numa estrutura bem próxima da apresentada pelos jornais impressos da grande mídia. Além de poder ser acessado de qualquer lugar do planeta pela rede mundial de computadores, o conteúdo impresso produzido por esses futuros jornalistas não ficará intramuros desta Universidade. Ele chegará nas redações dos principais veículos de comunicação do Ceará e nas principais instituições de ensino superior do País. O Sobpressão e sua equipe de repórteres, fotógrafos e editores seguem a tendência mundial dos grandes jornais de convergência midiática sem, obviamente, esquecer de experimentar diuturnamente novas linguagens, concepções editoriais e soluções gráficas. Características que esse jornallaboratório tornaram referência na região Nordeste, sendo inclusive agraciado, pela Associação Cearense de Imprensa (ACI), com o prêmio de melhor publicação laboratorial do Ceará em 2006.

Estudante do 7º semestre de Jornalismo

Artigo

Livino Neto

Realmente precisamos dessas metas?

Desrespeito: as desigualdades sociais, econômicas e culturais; a falta da responsabilidade e respeito pelas diversas formas de vida; e, principalmente, o esquecimento dos valores humanos geram problemas de proporções gigantescas e de reversão difícil, mas não impossível. Com o objetivo de tentar acabar com as mazelas do mundo em alguns anos, as Metas do Milênio têm sido diretrizes das mudanças mais urgentes e um memorando de conscientização global, tanto para os 191 países comprometidos a cumpri-las quanto para toda a humanidade FOTO: WALESKA SANT

O que significa estabelecer metas para o desenvolvimento social? Antes de começar a leitura de reportagens sobre As Metas do Milênio, é preciso fazer uma análise crítica do que elas representam. A lógica é a do desenvolvimento sustentável, que se tornou chavão no capitalismo. Acreditar nesta perspectiva é crer que pode-se amenizar as diferenças sociais em um sistema que depende da exploração do trabalho, da pobreza e do meio ambiente para a sua própria manutenção. As metas de desenvolvimento do milênio foram estabelecidas nos anos dois mil a partir da Declaração do Milênio, da ONU. Esta ocupou um espaço social quando tínhamos uma polarização política real, com a clara divisão do bloco socialista e capitalista. A metas traçadas na ONU nada representam quando órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a cúpula dos sete países mais ricos do mundo estabelecem metas diferentes para a manutenção da ordem econômica. Basta ver em que base se dão os acordos de empréstimo do FMI com os países subdesenvolvidos, ou a perseguição dessa instituição a qualquer governo mais progressista que venha beneficiar os povos explorados. A real função das metas é alimentar um grande número de ONGs que se propõem a substituir o estado em suas obrigações sociais e traçar um acordo de coalizão de classe. Não, as metas não propõem uma real emancipação humana, no máximo uma crítica social na própria lógica do capital. Estudante do 7º semestre de Jornalismo

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) Fundação Edson Queiroz - Diretora do Centro de Ciências Humanas: Profª Erotilde Honório - Coordenador do Curso de Jornalismo: Professor Eduardo Freire - Disciplina: Projeto Experimental em Jornalismo Impresso (semestre 2008.2) - Projeto gráfico: Prof. Eduardo Freire - Diagramação: Aldeci Tomaz - Orientação: Professores Antônio Simões e Eduardo Freire - Revisão: Prof. Carlos Normando - Supervisão gráfica: Francisco Roberto - Impressão: Gráfica Unifor - Tiragem: 500 exemplares - Editores adjuntos: Bruno Anderson, Camila Marcelo, Ivana Moreira, Lucas Abreu, Monique Linhares e Viviane Sobral - Colaboração: Professor Júlio Alcântara

Sugestões, comentários e críticas: jornalsobpressao@gmail.com


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Mortalidade infantil diminui Embora Fortaleza registre uma redução na taxa de mortalidade infantil, os últimos dados ainda preocupam as autoridades de Saúde do Município

Entrevista

A meta será cumprida?

Dely Sátiro

Capacitação dos agentes de saúde, aumento da cobertura vacinal e acompanhamento multidisciplinar da Estratégia Saúde da Família (ESF) são ações implementadas pela Prefeitura de Fortaleza, em parceria com o Governo do Estado, que contribuem para a redução da taxa de mortalidade infantil. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), os dados de 2007 indicam que o número de óbitos em menores de um ano diminuiu para 14,5 mortes por mil nascidos vivos, quando comparado ao do ano de 2004, em que foram registradas 18,5 mortes para cada mil nascidos vivos. Um dos pilares desse resultado é o investimento feito no trabalho domiciliar junto às mães que acabam de ter filho, além do serviço voltado ao controle de doenças infecciosas e respiratórias. De acordo com a assessora técnica da Célula de Atenção Básica (CAB) da SMS, Andressa Aguiar, o atendimento realizado nas residências evita que a população se desloque para unidades secundárias, reduz os quadros de internação e as situações de emergência. Estratégia A fim de assistir aos mais carentes, principalmente às crianças que vivem em condições precárias, Fortaleza conta com o auxílio de 1.320 agentes comunitários de saúde, distribuídos pelas 318 equipes da EFS. Esses profissionais atuam no desenvolvimento de programas educativos para a promoção da saúde e a prevenção das enfermidades. “Eles atendem aos pacientes que não podem se locomover até os hospitais e visitam seus lares, repassando orientações sobre hidratação, nutrição, amamentação e vacinação”, esclarece Andressa. Desde que aumentou a cobertura da ESF, Fortaleza registrou um crescimento considerável da realização do pré-natal. Em 1994, quando havia somente 81 grupos, 68% das mulheres grávidas faziam o acompanhamento. Em 2007, esse percentual subiu para 96%. A agente de saúde Sandra Ferreira conta que sua função, desempenhada diariamente no bairro Cidade 2000, tem ajudado na descoberta de doenças até então despercebidas pelas comunidades. “Por falta de tra-

Dr. Luiz Neto atende recém-nascidos no César Cals FOTO: CLARA MAGALHÃES

O acompanhamento antes e após o nascimento do bebê é uma medida importante para salvar vidas

tamento adequado e esclarecimento, muita gente morria. Hoje, através de nossas visitas, fazemos a informação chegar até essas pessoas”, conta. Como se não bastasse alertar sobre cuidados básicos, a jovem orienta mulheres grávidas a realizar todos os testes para analisar a situação do bebê. “Muitas vezes, elas não têm a quem recorrer. Me sinto útil em poder ajudá-las”, orgulha-se. Desafio Há dez anos, os bebês morriam por doenças evitáveis, como a pneumonia e a diarréia. Atualmente, estas não chegam a representar 6% das causas da mortalidade infantil na cidade. O desafio, agora, segundo as autoridades da Saúde do Município, é combater a mortalidade neonatal, que ocorre quando o pré-natal é mal feito, sem qualidade. Conforme Ana Paula Brilhante, representante do Comitê de Mortalidade Infantil de Fortaleza, 55% da taxa de mortalidade infantil são relativas a

mortes ocorridas nesse período. “Apesar de ter aumentado a procura de gestantes para realizar o pré-natal, há uma série de fatores que devem ser melhorados”, explica. Outra agravante apontada por ela é a falta de leitos nas principais maternidades, que sofrem constantemente com a superlotação. “Embora o acesso já tenha sido facilitado, verifica-se ainda uma deficiência no número de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Desse modo, cresce o risco de infecções”, alerta. Mas, nem tudo é motivo de desespero. Recentemente, a Secretaria da Saúde inaugurou a primeira UTI Neonatal da rede municipal. O local escolhido foi o Gonzaguinha de Messejana. De acordo com Ana Paula, medidas como essa favorecem o bem-estar do neném e da mãe, além de desafogar outras maternidades. Meta Reduzir em dois terços as

FOTO: CLARA MAGALHÃES

mortes de crianças até 2015 é a quarta meta do milênio, acordo estabelecido, em 2000, pela Organização das Nações Unidas (ONU). Odorico Monteiro, secretário municipal de saúde, acredita que o aprimoramento do trabalho dos profissionais, sejam eles médicos ou agentes de saúde, bem como o investimento nas unidades, são primordiais para que Fortaleza alcance tal objetivo. O secretário faz questão de ressaltar a importância da construção do Hospital da Mulher, que vai aumentar a oferta de serviços especializados e articular as redes assistenciais. “Continuaremos o processo de humanização da ambiência e da atenção ao parto e ao nascimento, que são entendidos como dois fenômenos importantes. Neste sentido, estamos capacitando os profissionais e estruturando os hospitais para qualificar a assistência”, conclui, sem disfarçar o otimismo.

Taxa de óbitos em menores de um ano decresce em Fortaleza, segundo Secretaria Municipal de Saúde

* Atualizado até 03/07/2008

Luiz Neto, pediatra que acompanha de perto a luta de bebês pela vida no Hospital César Cals, acredita no alcance da meta do milênio Sobpressão: Hoje, a maior taxa de óbitos em menores de um ano acontece no período neonatal. A que se deve isso? Luiz Neto: A progressiva melhoria do atendimento permite a sobrevivência de recém-nascidos (RNs) com idade gestacional cada vez menor, mas sua imaturidade imunológica faz com que adquiram quadros infecciosos mais facilmente e com maior gravidade, fazendo com que as Unidades de Tratamento Intensivo Neonatais tenham as taxas mais elevadas de infecção hospitalar em relação a outras faixas etárias. SP: Quais as doenças que mais atingem as crianças, atualmente, em Fortaleza? LN: As doenças respiratórias e infecciosas, como as diarréias, pneumonias e dengue, continuam sendo o grande problema. SP: Quais os investimentos ainda devem ser feitos na área da saúde para diminuir o índice de mortalidade infantil? LN: Precisamos colocar em prática ações simples de prevenção, como a realização de exames pré-natais, de vacinação em massa, de programas de atendimento à saúde da gestante e do bebê. SP: Você vive diariamente em prol da assistência às crianças. Os hospitais estão melhores equipados para atendê-las? LN: Sem dúvida houve melhoras em alguns setores, mas o Brasil está atrasado no que diz respeito ao tratamento de doenças congênitas, por exemplo, se compararmos a países desenvolvidos. Faltam serviços de saúde preparados. SP: Acredita que a meta será alcançada? LN: Até 2015 é um longo percurso a ser seguido, mas temos que ser positivos. Então, sim!


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FOTO: RACHEL LORRAYNE

Fortaleza melhora saúde materna Dados do Comitê de Mortalidade Materna de Fortaleza (CMMF) apontam redução de 66,59% no número da razão de mortalidade materna no município Rachel Lorrayne

Melhorar a saúde da mãe, reduzindo em 75% as taxas de mortalidade materna até 2015 é uma das oito metas acordadas por 198 países em setembro de 2000 durante a Cúpula do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque. Em Fortaleza, de acordo com dados do CMMF, de 2004 a 2007, houve uma redução de 66,59% no número da razão de mortalidade materna (resultado do número de mulheres que morrem por causa materna dividido pelo número de 100 mil crianças que nascerem vivas). Segundo Sílvio Rocha, presidente do Comitê, o bom desempenho se deve principalmente “a implantação do CMMF, a ampliação da Estratégia da Saúde da Família, a melhoria da assistência ao parto, a criação da central de internamento”.

O CMMF é fruto de articulação entre a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), movimentos feministas e profissionais de saúde. Foi implantado em 2005 e o objetivo é “cobrar a investigação dos óbitos de mulheres em idade reprodutiva pelo setor encarregado, estudar os óbitos maternos e definir os fatores de evitabilidade, fazer semestralmente relatório da razão da mortalidade materna com dados epidemiológicos e todo o perfil sócioeconômico das mulheres que foram a óbito, além das sugestões e proposições

sobre as estratégias de redução dos óbitos”, afirma Rocha. De acordo com ele, assim como as gestantes são acompanhadas através do pré-natal (seis consultas, no mínimo), fazendo exames, tendo assistência ao parto humanizado, revisão puerperal e se necessário encaminhamento para serviço de risco, os profissionais da área são supervisionados por um grupo gestor em cada unidade de saúde, para evitar erros médicos. Outro ponto forte que contribuiu para a melhoria da saúde

Enquete

A importância das Doulas Na hora do parto, uma figura muito importante entra em ação em algumas maternidades e nos Hospitais Distritais Gonzaga Mota (Gonzaguinhas): a Doula. A palavra vem do grego e significa “mulher que serve”. Elas não substituem os profissionais que farão o parto. Sua função é apoiar física e psicologicamente a gestante e os acompanhantes, antes, durante e depois do parto. Keila Alves, 27 anos, é técnica em enfermagem e atua como doula há três anos. Ela considera que a prática é tão boa para as parturientes quanto para quem aderiu a atividade. “Ser doula mudou a minha vida. Eu pus pra fora o meu lado humano”, enfatiza. Para ser doula é necessária a realização de um curso englo-

Doula: Keila faz carinho na gestante antes do parto

bando teoria e prática sobre o parto, e ser mãe, já que somente outra mãe consegue entender a gestante nesse momento. Elas não são remuneradas, recebem somente uma ajuda de custo para a passagem e alimentação.

das parturientes é a mudança de atitude das mulheres. Fátima de Castro, vice-presidenta da Associação de Mulheres em Movimento (AMM), acredita que elas estão mais ativas. Diferente de antigamente, hoje “as mulheres já fazem uma prevenção de seis em seis meses”, enfatiza ela. A entidade vem contribuindo para este avanço através de cursos de capacitação, valorização da mulher, da participação de reuniões e fiscalização do que acontece com as gestantes do município, junto ao Comitê. Uma das principais causas

de óbito materno no Brasil e em Fortaleza é a Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG). Não se conhece exatamente a sua causa. “Existem teorias que responsabilizam as questões imunológicas, alimentação inadequada, baixo nível sócioeconômico, associações com outras patologias e questões genéticas”, esclarece Rocha. Se diagnosticada precocemente, a doença pode ser controlada através de um pré-natal adequado e cuidados com a saúde. A qualidade da saúde da gestante não depende somente de órgãos ligados a área da saúde, mas de uma série de fatores que vão desde uma boa alimentação, de moradia adequada e bom nível de esclarecimento a elevação da sua autoestima, englobando todas as instâncias governamentais. De acordo com Rocha, os bairros mais problemáticos em relação a mortalidade materna se encontram nas regionais V e VI, onde os índices de pobreza são mais elevados. Elinalda da Silva teve seu 3º filho em novembro deste ano. Ela credita que os cuidados com as gestantes estão bem maiores em Fortaleza.“Estava correndo o risco de ter um eclampsia (DHEG) e fui acompanhada desde o início. É aí onde vejo a grande mudança”, conclui.

A saúde materna avançou em Fortaleza?

FOTO: RACHEL LORRAYNE

Na visão de Keila, a implantação de doulas em todos os hospitais e maternidades de Fortaleza ajudaria a aumentar o número de partos normais, diminuindo ainda mais o índice de mortalidade materna no município.

“Não. Existem muitas dificuldades no atendimento. Falta remédio, os recursos são poucos, por isso não melhorou. Além de serem poucos médicos, o atendimento que eles dão é muito rápido. A gente era para passar pelo menos vinte minutos na sala com o médico e só passamos três ou quatro. Está faltando muita coisa ainda para melhorar.”

“Na minha primeira gestação não era ruim, e nessa também não. O pré-natal está ótimo e as doutoras me atendem super bem. Não estou tendo nenhum problema. Uma pessoa, quando vai se consultar, tem que dizer tudo que está sentindo, que é para o médico avaliar e dizer o que é preciso fazer. Do contrário é complicado (o atendimento), então depende muito da gente.”

Elialda Cabral, 23 anos 5º mês da 2ª gestação

Ana Lucia Freitas , 29 anos 8º mês da 2ª gestação


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Assistência integral a gestantes no Nami O Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami) atende cerca de 220 mães por mês e ajuda a melhorar a saúde materna com um atendimento gratuito e de qualidade Ivana Moreira e Lucas Abreu

O trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Atenção Médica Integrada vem contribuindo com o cumprimento de uma das oito metas para o milênio, que propõe a assistência completa às mães e seus bebês. O Nami dispõe de ambiente e equipe médica capacitados para atender a essas mulheres e lhes dar todas as orientações a respeito da gravidez. O médico ginecologista e obstetra do Nami, Herlânio Costa, afirma que em países subdesenvolvidos como o Brasil, as ocorrências de morte de mães são maiores no período do pré-natal e nos primeiros dias após o parto. “Os problemas mais recorrentes que afligem as mães e que nos preocupam são: a anemia; a hipertensão, que pode gerar bebês prematuros; as hemorragias, uma delas causada pelo deslocamento da placenta; e as infecções, que podem ser causadas por aborto clandestino, pelo parto normal

No Nami as gestantes têm atendimento gratuito e de qualidade, geralmente elas são encaminhadas de postos de saúde

ou pela cesariana”, afirma. Para se conseguir diminuir as mortes maternas devido a esses fatores, é aconselhável que cada mãe tenha um acompanhamento de 6 consultas por médicos capacitados no pré-natal, nas quais teriam informações importantes para se cuidarem e fazer todos os exames necessários. Em relação ao acompanhamento pós-parto, a estratégia principal diz respeito às consultas, tanto para a mãe como para o bebê. As mães devem ter

a primeira consulta por volta de sete dias após o parto, enquanto que a consulta principal é por volta dos 42 dias, período em que acabam as alterações fisiológicas causadas pela gravidez. Vale ressaltar que no pós-parto há maior probabilidade de as mães apresentarem os mesmos riscos existentes durante os nove meses de gravidez. “Essas pacientes que costumam negligenciar as consultas apresentam um risco maior de desenvolver trombose, como também desenvolver eclâmp-

FOTO: WALESKA SANTIAGO

sia, mesmo no período pósparto”, enfatiza o médico. A gestante de quatro meses, Jardenes de Alencar, de 23 anos, é uma das várias pacientes que vêm ao Nami. Sua situação era delicada, pois já tinha tido duas ameaças de aborto, motivo pelo qual foi transferida do seu posto de saúde. Sobre as instalações e o atendimento, Jardenes não tem dúvidas de que o serviço é muito bom. Pacientes que correm riscos de apresentar aborto espon-

Pacientes apreciam bom atendimento Para muitas das pacientes grávidas que vêm ao Nami se consultar, o ambiente e a infraestrutura, bem como o atendimento, são de ótima qualidade, se comparados aos serviços públicos. Por ser um serviço gratuito, torna-se de grande benefício para essas mulheres, já que muitas são dependentes dos hospitais e postos de saúde públicos, carentes de um atendimento de qualidade Adriana Góes Pereira, de 32 anos, está na sua terceira gravidez, desta vez, esperando gêmeos, “é muito importante que uma gestante seja acompanhada durante todo o período”, afirma. Ela, que já teve pressão alta, foi encaminhada ao Núcleo pelo posto no qual era atendida, por precisar de cuidados especiais. “Já estou com 32 anos e na espera de gêmeos, dois de uma vez só. Minha barriga está muito pesada. Pela delicadeza e pelos riscos da situação, sugeriram que eu viesse para cá. Esperei mais de uma hora, mas o atendimento é muito bom. Agora, estou aguardando ser atendida pela assistente social, para ver o que ela pode fazer por mim”, diz Adriana. Ana Carla de Sousa, 21

tâneo também são comuns. “Aqui nós procuramos diagnosticar os riscos com base em abortamentos já ocorridos, de forma a prevenir os riscos de um novo aborto e diagnosticar o anterior”, destaca Dr. Costa. É um centro de atenção secundária, que recebe casos leves que podem vir a ser graves. Lá são realizados todos os exames para evitar maiores complicações, mas no caso de o problema ser diagnosticado, dependendo da gravidade da situação, as mães são encaminhadas para locais como o Hospital Geral de Fortaleza, Maternidade Escola Assis Chateaubriand e Hospital César Calls, unidades consideradas de atenção terciária. O Nami foi criado em 1978, sete anos após a criação da Universidade de Fortaleza e desde então presta atendimento gratuito e de alta qualidade para as populações carentes, sobretudo para a comunidade do Dendê.Outros serviços que são disponibilizados são correspondentes à enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, além da ginecologia e obstetrícia. O Núcleo já foi premiado em julho de 2007 com a certificação de Empresa Ouro em Esterilização, pela empresa 3M do Brasil, demonstrando excelência no processo de limpeza e esterilização do ambiente.

Saiba mais...

Como e quando ser atendida no Nami

Grávida pela terceira vez, Adriana Góes espera atendimento acompanhada de sua família

anos, grávida de 9 meses, destaca a qualidade do atendimento em relação aos postos de saúde e hospitais públicos. “O Nami é diferente porque aqui espero menos, o médico é mais capacitado e recebo meus exames mais rapidamente, como esse, que fiz na terça-feira e já recebi hoje, quinta”, afirma. Ana

Carla foi se consultar para refazer alguns exames feitos anteriormente em um posto de saúde. “Lá, meus exames acusaram hepatite. Me mandaram para cá para que eu refizesse esses exames e para que recebesse o tratamento correto”, diz. A paciente Francisca Eugênia Monteiro, 31 anos,

FOTO: WALESKA SANTIAGO

grávida de 7 meses, sentiu dores na barriga, azia e ardores ao urinar. Por essas razões foi encaminhada ao Nami para a realização de exames. “Quando sou atendida aqui, fico mais tranquila, pois as consultas são excelentes”, disse, ao apresentar seus exames ao ginecologista Heuvécio Neves.

Na área de ginecologia e obstetrícia, o Nami recebe jovens e mulheres gestantes nas segundas e sextas-feiras pela manhã, nos horários de 8h às 12h. À tarde, nas terças, quartas e quintas-feiras, o atendimento acontece das 14h às 18h. As consultas são efetuadas por ordem de chegada e exigem da paciente a apresentação de documentos de indentificação e do número de transição do seu posto de saúde. Para maais informações acesse o site www.unifor.br ou ligue para 3477 - 32 47


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759 mil mulheres são che A dupla jornada feminina é exemplo de força e dedicação. Porém, as desigualdades entre os gêneros ainda permeiam o campo social e no mercado de trabalho. Jéssica Petrucci e Vicky Nóbrega

A igualdade entre os sexos e a valorização da mulher é uma das Metas do Milênio, desenvolvida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Até 2015, todos os 191 estadosmembros assumiram, entre outros compromissos, promover a autonomia das mulheres. Atualmente, elas têm assumido papéis variados na sociadede. Isso é o que apresenta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2007, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a qual mostrou que no Brasil, há cerca de dezenove milhões de brasileiras chefes de família. Número que somente no Ceará é de 759 mil, ou seja, mais de 10% das cearenses assumem o comando de casa. A Pnad mostrou, ao analisar o rendimento dos chefes de família por gênero, que do total de mulheres que são chefes de família no Ceará, cerca de 46,2% possuem rendimento mensal per capita de até meio salário mínimo (valor considerado linha de pobreza), contra 48,5% das comandadas por homens. Portanto, o dado revela que há um maior número de famílias chefiadas por homens vivendo em piores condições. Mas, dados sobre o cuidado com os afazeres domésticos mostram, de acordo com a Pnad, que o tempo que as mulheres dedicam ao trabalho doméstico é maior do que o dos homens. Chefes de família As mulheres que trabalham fora de casa, quando comparadas a homens cônjuges desocupados (não possuem trabalho nem ocupação), dedicam nove horas a mais por semana ao trabalho doméstico. Isso demonstra que a mulher ainda é a maior responsável por tarefas que tradicionalmente só seriam feitas por ela, como cuidar da casa, dos filhos, da família em geral e de tudo relacionado ao âmbito doméstico, ou seja, a mulher, hoje, está assumindo novos papéis sociais, mas ainda mantém os tradicionais. Eliene Ferreira Vieira, 34 anos, enquadra-se no grupo de mulheres citado. Empregada doméstica, viúva e mãe, conta que, depois da morte do

marido, as coisas ficaram mais complicadas, pois teve que procurar trabalho para conseguir sustentar os dois filhos. Eliene trabalha de segunda a sábado, das sete horas da manhã às cinco horas da tarde. Ganha um salário mínimo (R$415) que, somado à pensão recebida pela morte do marido, gera uma renda de R$500. Ela afirma que, apesar de ser difícil, gosta de comandar a casa sozinha, assim como educar os seus filhos. “Eu preciso dar conta de tudo: colégio, saúde, alimentação, roupa, diversão... É tanta coisa! Mas acho até melhor, porque eu tenho as minhas coisas do jeito que eu quero”, destaca. Para outras mulheres, conciliar casa e trabalho não é só necessidade, mas realização pessoal. É o caso de Odeth Menescal, 44 anos, formada em Administração e empresária há mais de dez anos. Casada e com três filhas adolescen-

Cristiane Faustino

É importante destacar que as políticas afirmativas não são suficientes para a consolidação da igualdade de gênero e da valorização da mulher Representante do Fórum Cearense de Mulheres Mãe, empresária e esposa. Odeth Menescal se desdobra para dar conta do trabalho, da casa e da família

tes, diz que cuidar de tudo “é um pouco trabalhoso, porém muito prazeroso. É muito bom ver os filhos crescendo e poder acompanhar cada passo que eles alcançam. Ao mesmo tempo que crescer profissionalmente me deixa cada vez mais realizada”. No entanto, segundo Cristiane Faustino, representante do Fórum Cearense de Mulheres, é sobretudo as mulheres pobres que enfrentam de forma mais perversa as dificuldades, e elas estão em todos os segmentos. Ela afirma que as desigualdades e os problemas femininos no trabalho, no meio familiar, por exemplo, não serão resolvidos somente com a criação de projetos, pois é preciso que se interfira na própria lógica de se fazer política, não sendo possível promover a inclusão das mulheres sem políticas de qualidade voltadas para a saúde, moradia, segurança pública, sem preocupação sócioambiental, sem interferência nos processos de educação que levem em conta as desigualdades de gênero e as

múltiplas outras formas de discriminação presentes em nossa sociedade, como o racismo, o machismo e a homofobia. “É importante destacar ainda que as políticas afirmativas colaboram, mas não são suficientes para a consolidação da igualdade de gênero e da valorização da mulher, como propõe a meta do milênio”, afirma. Faustino defende que para a meta do milênio ser alcançada é preciso inicialmente que a política seja renovada, garantindo a participação democrática de todos os segmentos da sociedade em decisões referentes à nossa cidade e país. No caso das mulheres, isso é ainda mais importante, pois o gênero foi historicamente negado nos espaços de poder que definem os rumos da sociedade. Além disso, segundo Faustino, é preciso que ocorram mudanças nas estruturas da sociedade, que atualmente são tão desiguais. Mulher no campo Nazaré da Silva, 48 anos, faz parte das muitas mulhe-

res que trabalham na zona rural do Ceará. A atividade tradicionalmente masculina é, cada vez mais, exercida pelas mulheres. Ela explica que desde pequena é agricultora e que não sabe e nem quer fazer outra coisa na vida. Diz trabalhar de sol a sol e que não deixa de ir plantar nem um dia sequer, pois a sua família depende do seu trabalho para sobreviver. Segundo Nazaré, em Pacajus, município onde mora, ela não sofre nenhum preconceito por trabalhar, pois “aqui a gente não é mal vista não, porque aqui toda mulher é agricultora”. Nazaré diz saber dividir bem o seu tempo entre trabalhar, cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos. Além de não esquecer da beleza, como qualquer outra mulher. “Sempre que eu vou plantar ou colher, não esqueço do meu chapéu e de colocar uma calça e uma blusa de mangas compridas, porque a gente tem que se cuidar, né? O sol acaba com a nossa pele”, explica sorrindo.

FOTO: MILLENE HAEER

Vera Tomé

Exemplo de mulher contemporânea Vera Tomé, 47 anos, é uma das muitas mulheres que conquistaram o seu espaço e a sua independência financeira através do seu trabalho. Graduada em Medicina Veterinária, funcionária pública, mãe de três filhos e divorciada, Vera declara que se considera uma supermulher por conseguir cumprir todas as suas tarefas, como trabalhar oito horas por dia, educar os filhos, cuidar da casa, ir ao supermercado e ainda arranjar tempo para ir à academia. Ela afirma que suas maiores conquistas como mulher foram ter conseguido educar bem os seus filhos e ter conquistado a sua liberdade financeira.


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efes de família no Ceará Entrevista com Rosa da Fonseca

“Em que nós, mulheres, queremos nos igualar aos homens?”

Pedreiras: construção civil é um dos cursos oferecidos para elas

FOTO: ARQUIVO DA PREFEITURA

Prefeitura realiza ações para valorizar mulheres

Rosa da Fonseca defende uma sociedade humanamente diversa, mas socialmente igual

A socióloga Rosa da Fonseca, integrante do movimento social Crítica Radical, discorda da meta referente à igualdade entre os sexos e não acredita que será alcançada. Sobpressão: O que a senhora pensa sobre a mulher contemporânea? Rosa da Fonseca: Para avaliar a situação da mulher hoje em dia é preciso entender a que situação o sistema produtor de mercadoria [Capitalismo] relegou as mulheres. O que esse sistema fez foi submeter todas as relações humanas, sociais e com a natureza à lógica da valorização do valor [monetário]. Ou seja, se colocou as pessoas para trabalhar para produzir mercadoria para vender com o objetivo de valorizar o valor de reproduzir o dinheiro. A produção deixa de ser voltada para a realização de necessidades humanas e passa a ser a valorização da produção de dinheiro. Essa atividade foi delegada no primeiro momento, principalmente, aos homens. Às mulheres foi dada a condição de cuidar de todas as outras atividades que não se colocam no âmbito do trabalho, atividades tidas como subalternas e exclusivas das mulheres. Isso passou a estabelecer separação entre os sexos: o homem traz dinheiro para casa e a mulher cuida do resto. E nós, mulheres, buscamos a emancipação nos incorporando ao mercado de trabalho numa situação extremamente degradante até hoje.

SP: Isso é positivo ou negativo? RF: É extremamente contraditório, porque se por um lado representou uma total emancipação da mulher no âmbito privado, significou a total submissão da mulher no âmbito público. E, como todas essas atividades permaneceram determinadas para cada sexo, aconteceu o que chamamos de tripla jornada de trabalho. Como não tinha como dá conta do trabalho e da família ao mesmo tempo, todos os problemas que surgiram no âmbito privado passaram a ser de responsabilidade das mulheres. SP: O que a senhora acha dessa meta sobre a valorização da mulher e igualdade entre os sexos prevista para 2015? RF: Não existe a menor possibilidade de isso acontecer dentro da lógica do sistema capitalista. SP: E como poderia acontecer? RF: A tecnologia já possibilita a redução da jornada de trabalho, permitindo que homens e mulheres se articulem para cuidar dos filhos em períodos determinados. Na pré-modernidade, as mulheres não eram discriminadas por desenvolver atividades de cuidado com a vida, pelo contrário, eram prestigiadas por isso. Essa coisa de ser subalterna porque não produz dinheiro, é coisa da modernidade. Hoje, todas as nossas relações são baseadas

FOTO: VICKY NÓBREGA

pelo dinheiro. Por isso, as relações entre pessoas aparecem como relações entre as coisas, e as relações entre as coisas aparecem como relações sociais. Só é possível melhorar construindo uma relação social em que a produção vise atender às necessidades humanas, sem buscar o lucro, porque não tem como superar a dissociação entre os sexos nos marcos desse sistema. SP: Assim haveria igualdade entre os sexos? RF: Igualdade? Em que nós queremos nos igualar aos homens? Para sermos, também, totalmente submetidas a essa lógica? Temos que pensar numa igualdade entre seres humanos, numa relação solidária. Temos que pensar numa sociedade humanamente diversa, mas socialmente igual, totalmente desfetichizada, sem nenhum fetiche de consumo e ecologicamente equilibrada. SP: Na sua opinião essa meta não vai resolver nada? RF: Não. Temos que eleger uma nova meta: Construir uma sociedade desfetichizada. A sociedade da emancipação humana. Uma sociedade em que homens e mulheres possam, juntos, assumir o próprio destino, o que produzir, como ter acesso aos bens produzidos... Temos que ter a capacidade de nos organizar autonomamente, conscientemente e coletivamente.

A Prefeitura de Fortaleza, por meio de sua Coordenadoria de Políticas para as Mulheres, tem como estratégia fortalecer as mulheres e reconhecêlas como sujeitos políticos que possuem direitos, para assim alterar as relações de desigualdade entre mulheres e homens. De acordo com a representante da coordenadoria, Raquel Viana, esta pode ser tida como a função real da entidade cujas ações desenvolvidas focam cinco áreas principais: Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos; Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres; Educação e Cultura não discriminatória; Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres; e Participação e Controle Social. Uma dessas ações é o Projeto de Inclusão Produtiva para Mulheres do Bolsa Família, fundado em dezembro de 2007 e pioneiro em Fortaleza, que, em parceria entre a Prefeitura e o Governo Federal, busca capacitar 1.500 mulheres até o fim do projeto, em dezembro de 2008. A fim de inserí-las no mercado de trabalho e torná-las financeiramente indepentes, a capacitação se direciona nas áreas de construção civil, tecnologia da informação, bombeira hidráulica, eletricista, alimentação e confecção. A doméstica Lucivanda Pereira, de 20 anos, afirma ter aprendido bastante no curso de eletricista e busca a profissionalização para exercer a profissão. Segundo Lucivanda, a sua vida mudou por ter aprendido mais sobre o assunto e o que antes lhe causava medo já não o faz mais. “Antes do curso morria de medo de mexer em qualquer coisa elétrica e ficar grudada com o choque que eu podia levar”, revela. A doméstica reconhece

a importância do curso para sua vida e aconselha: “todo mundo tem que passar por uma experiência assim”. A coordenadora do Inclusão Produtiva, Cleudes Pessoa, explica que esse projeto é uma ação complementar ao programa Bolsa Família, já que “visa dar possibilidades para uma autonomia financeira e inclusão no mercado de trabalho através de cursos de qualificação profissional e técnica”. Assim as mulheres deixarão a condição de apenas receber a gratificação do Bolsa Família. Para a representante do Fórum Cearense de Mulheres, Cristiana Faustino, não fica claro que a prefeitura busca cumprir a meta especificamente, apesar das ações mudarem a vida das mulheres. Faustino ressalta a importância de algumas iniciativas municipais como a Coordenadoria de Mulheres, a criação do Centro de Referência Francisca Clotilde e a Casa Abrigo de Proteção para Mulheres, o ainda futuro Hospital da Mulher, as conferências de políticas para as mulheres e, por fim, o Orçamento Participativo. Apesar de todas as ressalvas, Faustino defende que as ações não solucionam o problema e se tornam, com o tempo, “letras mortas” já que “a maioria delas não têm garantia de sustentabilidade, uma vez que se tratam de políticas de governo e não de Estado”. Já Viana é otimista ao falar sobre a concretização da valorização da mulher e defende que existem duas atitudes necessárias para que isso seja alcançado: “o reconhecimento da desigualdade entre mulheres e homens e o compromisso com a superação dessas desigualdades para, a partir daí, pensar estratégias e alternativas”.


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Ensino universalizado na Capital A meta é até 2015 universalizar o acesso ao Ensino Fundamental de qualidade. Na Capital, a universalização do ensino fundamental é reconhecida, mas a qualidade... Livino Neto

Definir metas nunca é simples, ainda mais quando estas são relativas à educação. Primeiro porque os dados estatísticos – e são estes que representam se a meta foi cumprida ou não – raramente conseguem expressar de fato uma realidade social; segundo, a dificuldade de se estabelecer o que é um ensino básico de qualidade . A principal crítica do Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sindiute) ao ensino público fundamental é, segundo Gardênia Baima, da direção colegiada do Sindiute, que o governo municipal está mais preocupado em expor dados estatísticos do que garantir a permanência do estudante na escola e com a qualidade de ensino. Para a sindicalista, Fortaleza, neste último mandato municipal, apresentou algumas boas modificações na rede de ensino, como a construção de novas escolas e o fornecimento de material didático e fardamento. No entanto a condição do trabalhador da educação ainda é precária. Segundo o sindicato, em vez do investimento na sua capacitação, garantindo assim um maior rendimento do professor em sala de aula, o que se tem é uma grande cobrança por dados estatísticos. Não à toa o sindicato vem realizando uma série de atos, os quais, segundo Gardênia, vem

Melhorias: o fornecimento de material didático e fardamento para alunos do ensino público foi uma das boas modificações da prefeitura no último mandato

contando com amplo apoio da base docente. A principal pauta levantada pelo Sindiute é o piso salarial em R$ 950,00 e a disponibilidade de 1/3 das horas aulas disponíveis para atividades extraclasses. Números oficiais Segundo dados disponibilizados pela assessoria de comunicação da Secretaria de Educação do Município, “Fortaleza é a terceira maior rede de ensino do país com mais de 240 mil alunos matriculados em turmas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos”. Referente à estrutura, o município

tem 423 unidades escolares, sendo que 262 são escolas patrimoniais, 61 anexos escolares, oito escolas especiais e 92 creches, tendo a última gestão garantido 561 novas salas de aula, em escolas reformadas ou construídas. A Prefeitura de Fortaleza também exalta outros feitos, como a qualidade da merenda escolar e a disponibilidade de transporte escolar para a rede pública. Afirma ainda ter melhorado a condição de trabalho do profissional da educação no município, garantindo melhores salários, a promoção por titulação e a contratação de novos profissionais, sem

contar que os mais de duzentos mil estudantes da rede, hoje, possuem fardamento e material escolar. A existência de apenas 61 anexos escolares é, ao mesmo tempo, uma vitória e uma derrota para o sistema escolar de Fortaleza. Uma vitória, por que até pouco tempo esse tipo precário de patrimônio educacional era maioria na rede. Uma derrota porque esse tipo de “escola” ainda existe. Segundo Ivo Braga, vicepresidente da regional CearáRio Grande do Norte da UBES, o fechamento da maioria dos anexos e sua substituição por escolas patrimoniais é de fato

investimento financeiro. Investimento este que o sistema produtor de mercadoria não está interessado em fazer Ele explica que, com os avanços da tecnologia, aumentou a especialização do trabalho e diminuiu o número de trabalhadores. O mercado já possui trabalhadores especializados o suficiente e com contingente de reserva, portanto o sistema produtor não tem interesse em investir na qualidade de educação. Mas e o Ensino Fundamental universalizado? Segundo Bodião, o mercado não tem interesse em investir em qualidade, mas tem a necessidade de

uma grande conquista. Mas para ele “o problema atual é mais de pessoal do que estrutural”, portanto Ivo também reivindica conquistas para a classe docente como o piso salarial nacional. Em sua opnião “hoje já universalizamos o acesso ao Ensino Fundamental”. Se dividirmos a meta do milênio em duas, teremos o seguinte resultado: conseguiu-se universalizar o acesso ao Ensino Fundamental, mas para atingir um estágio de qualidade na educação ainda levaríamos, segundo especialistas no assunto, vinte anos no mínimo (veja matéria abaixo).

Saiba mais...

Todos na escola, mas não escola para todos Segundo Idevaldo da Silva Bodião, professor da Faculdade de Educação da UFC, hoje atingimos a universalização do Ensino Fundamental. No entanto, a qualidade de ensino está aquém do que deveria ser. Segundo o professor, existem duas lógicas de qualidade de educação: uma que respalda o mercado produtor outra que propõe transformações sociais. Bodião é incisivo ao afirmar: “até 2015 não se atingirá a qualidade em educação em nenhuma das lógicas, nem mesmo na de mercado”. Ele avalia que o entrave para uma educação de qualidade, seja ela em que lógica for, é a necessidade de um alto

FOTO: RAFAEL TRIANDÓPOLIS

Especialista em Educação

Ex-Secretário Municipal de Educação Idevaldo da Silva Bodião

manter o jovem ocupado, por uma questão de ordem pública, portanto “o que existe não é um programa escola para todos, mas sim todos na escola”. A solução que Bodião sugere

FOTO: DIVULGAÇÃO

para qualidade do ensino é investimento, principalmente no profissional da educação: triplicar o piso da classe e criar programa de carreira. O resultado seria notado em 20 anos.

Idevaldo da Silva Bodião é ex-secretário Municipal de Educação, entre 2005 e 2006. Sai por divergência à política tocada pelo governo da petista Luiziane Lins na gestão da Prefeitura, questionando, principalmente, o desvio do programa inicial de governo. Formado na USP em Engenharia Civil, tem doutorado em educação pela mesma universidade e é professor da Faculdade de Educação da UFC desde 1992. Milita na Comissão de Defesa do Direito à Educação e na Campanha Nacional pelo Direito à Educação.


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Casos de AIDS caem mais de 30% Pouco mais de 25 anos depois do primeiro caso registrado na Capital, o número de adultos diagnosticados com AIDS está em declínio desde 2005 Thiago Barros

Uma doença coberta de preconceitos, com muito pouca certeza no que diz respeito a seu tratamento e com o estigma da morte certa. Essa era a realidade da Síndrome de Imunodeficiência Adquirda (AIDS) nos anos 1980, quando os casos de contaminação por HIV surgiram e, logo depois, dispararam drasticamente no mundo todo. De lá para cá, no entanto, muito mudou. A evolução da ciência trouxe novos medicamentos, cada vez mais eficazes no controle da doença e com menos efeitos colaterais. Além disso, as campanhas de esclarecimento sobre as formas de contaminação e prevenção são hoje bem mais difundidas. Não por acaso, já desde 1996, segundo uma pesquisa de 2007 realizada pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), a mortalidade pela doença está em declínio no país. Em Fortaleza, 5.161 adultos foram diagnosticados com AIDS desde 1983, segundo dados da Coordenação Municipal de DST/AIDS. Con-

tudo, de acordo com a mesma pesquisa, a quantidade de casos de AIDS na capital em 2007 diminuiu em 31,5% em relação ao ano de 2004, quando houve o maior número de diagnósticos num único ano. A queda é devida em muito ao esforço governamental e de organizações da sociedade civil para prevenir e tratar desde cedo o portador do vírus HIV, já que a AIDS só é caracterizada quando o indivíduo está com suas defesas imunológicas já bem fragilizadas pelo vírus. A conscientização da própria população para a seriedade do problema, amplamente abordado nos meios de comunicação, também precisa ser ressaltada, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Em Fortaleza, a SMS está procurando tratar a AIDS através de medidas combinadas. Segundo o órgão, fatores como prevenção, combate ao diagnóstico tardio e à transmissão vertical (da gestante para o filho), acesso a medicamentos e assistência adequados devem andar lado a lado para que o combate à AIDS seja bem-sucedido. Hoje, Fortaleza conta com o Serviço de Atendimento Especializado em HIV/AIDS (SAE), que consiste em unidades de tratamento ao portador do vírus HIV. Existem hoje dois SAEs funcionando dentro de unidades públicas de saúde. Um está localizado no Centro de Especialidades Médicas José de Alencar (CEMJA), locali-

Declínio da AIDS Conforme os números abaixo, verifica-se uma diminuição nos casos de AIDS em adultos na Capital nos últimos três anos, de 2005 a 2007. Antes disso, a tendência era crescente.

*Dados referentes até 22/07/2008 Fonte: SMS/CEVEPI/SINANNET E SINANW

zado no centro da cidade, e o outro, especializado na atenção materno-infantil, fica no Hospital Distrital Gonzaga Mota (HDGM) de Messejana. Mais duas unidades devem ser inauguradas até o fim de 2008, no Hospital Nossa Senhora Conceição, no Conjunto Ceará, e no HDGM do bairro José Walter. A assistência da prefeitura ainda passa pela distribuição de cestas básicas e vales-transporte aos portadores do HIV.

Entrevista com Guilherme Henn

Drogas estão mais eficazes O infectologista Guilherme Henn, membro da Sociedade Cearense de Infectologia, esclarece como o organismo responde ao HIV e aos novos medicamentos Thiago Barreira

Sobpressão: Como a AIDS age no organismo da pessoa? Guilherme Henn: AIDS é a doença causada pela infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). O vírus infecta um tipo de célula de defesa denominada Linfócito T CD4, que tem o papel de organizar toda a resposta imunológica. Com a destruição dessas células, o organismo perde a capacidade de combater microorganismos invasores, tornando-se vulnerável a uma gama de infecções e ao surgimento de tumores.

SP: Em que consiste o tratamento de pessoas com HIV? GH: O tratamento da infecção pelo HIV consiste basicamente na utilização de drogas (denominadas antiretrovirais ou “coquetel”) que inibem a replicação do vírus, de forma a permitir a sobrevivência dos linfócitos T CD4 e recuperação, ao menos parcial, da organização do sistema imunológico. SP: O que mudou com a evolução do tratamento? GH: A melhora substancial da sobrevida dos pacientes infectados pelo HIV tem vários motivos. O principal deles é que hoje temos drogas mais potentes, menos tóxicas e que são mais facilmente administradas, com quantidades menores de comprimidos, de forma a facilitar a adesão ao tratamento. Dispomos tam-

Guilherme Henn acredita no enfoque multidisciplinar contra o HIV FOTO: DIVULGAÇÃO

bém de todo um suporte multidisciplinar, com a participação de médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais cujo trabalho torna possível essa adesão, aumenta a autoconfiança dos pacientes e garante suporte clínico, laboratorial e social quando necessário.

A prevenção ainda é o melhor negócio Apesar dos avanços científicos, a AIDS continua sem cura. Ter a doença, apesar de não ser uma sentença de morte, ainda continua sendo um grande problema. Apesar de os remédios atuais estarem cada vez mais eficientes, alguns efeitos colaterais como náuseas, dor abdominal, diarréia, dificuldade de concentração e distúrbios do sono ainda são observados nos pacientes que fazem uso deles. Com o uso prolongado, as drogas também podem causar o aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos e glicemia, além de eventuais casos de reações alérgicas. Por essa razão, a prefeitura continua intensificando suas campanhas preventivas. Em 2006, 5.328.848 preservativos masculinos foram distribuídos nas unidades de saúde das seis Secretarias Executivas Regionais de Fortaleza. Entre as ações de ampliação do acesso à camisinha também constam a regularização e a ampliação do banco de preservativos para atividades desenvolvidas por organizações não governamentais, além da distribuição do preservativo em eventos como o Fortal e festas de carnaval. A prefeitura também repassa regularmente preservativos para serem distribuídos no Hospital São José, da rede estadual, que é referência em todo o estado no tratamento de HIV/AIDS.

O uso da camisinha é um ato simples que ajuda a conter o HIV FOTO: THIAGO BARROS

A conscientização desde a escola também é um dos focos das medidas governamentais, através do Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas, que, entre outas ações, disponibiliza preservativos para os alunos da rede pública. Ainda assim, apesar das campanhas educativas, muitos jovens continuam indo na contramão e dispensando o uso do preservativo, impulsionados pelo declínio da mortalidade pela AIDS. “Eu sei que não é o certo, mas estaria mentido se dissesse que nunca aconteceu”, confirma o estudante H.M., 22. Paradoxalmente, ele considera essencial o uso do preservativo. “Todas as vezes que fiz sem camisinha foi com gente conhecida. Com alguém que eu acabei de conhecer, nunca vou me arriscar desse jeito”, conclui.

Desinformação e preconceito resistem Os portadores do vírus HIV sofrem, além de tudo, com o estigma social. Numa situação já delicada, a discriminação e o preconceito podem levar o paciente ao desânimo e à depressão, de modo a fragilizálo no processo de tratamento. Por essa razão, embora nem todos os pacientes necessitem obrigatoriamente de acompanhamento psicológico, o infectologista Guilherme Henn argumenta que ele pode revestir-se de grande importância para o paciente. Segundo o especialista, “o apoio psicológico é essencial no momento do diagnóstico, quando o paciente encontra-se fragilizado, além de ter grande impacto na aquisição de autoconfiança por parte do indivíduo, o que por sua vez influencia positivamente na adesão ao tratamento”. O médico também atenta para a necessidade de se trabalhar o preconceito do próprio paciente em relação a ele mesmo, que é um reflexo daquele sofrido diante da marginalização social.

Guilherme Henn

“O apoio psicológico é essencial no momento do diagnóstico” Infectologista, sobre a necessidade de acompanhamento ao portador do HIV

No âmbito da sociedade civil, uma ONG que luta contra o preconceito e pela conscientização para a importância da prevenção é o Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS (GAPA). O grupo atua em Fortaleza há 19 anos através de palestras, stands de informações, treinamentos, orientação jurídica para portadores e outras ações e já concorreu até ao prêmio Laço Vermelho, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer iniciativas pioneiras no combate ao HIV e à AIDS em todo o mundo.


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Pobreza diminui 5% em Fortaleza Erradicar a pobreza e a fome é o primeiro desafio proposto pelas Metas do Milênio, que visam extinguir vários problemas sociais até o ano de 2015 Íkara Rodrigues

No Brasil, cerca de 65 milhões de pessoas se alimentam, diariamente, de maneira precária. São brasileiros que vivem na contramão do desenvolvimento agrícola do país, que está entre os maiores produtores mundiais de alimentos. No Ceará, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 55% da população está enquadrada como vítima de algum tipo de insegurança alimentar. Com o objetivo de erradicar estes e outros problemas que afligem nossa sociedade e outros países, a Organização das Nações Unidas (ONU) e representantes de 191 nações estabeleceram que uma das prioriades do milênio é acabar com a fome e a miséria até 2015. Na tentativa de atingir tais metas, Governo e entidades não-governamentais criaram programas que objetivam possibilitar, a milhares de brasileiros, o acesso à alimentação e ao aumento da renda. É o caso

Mesa Brasil: o projeto atende a 993 entidades em todo o estado do Ceará

do Bolsa Família, que assiste a 893,2 mil pessoas no Ceará, sendo 145,4 mil beneficiados só em Fortaleza. Segundo dados do Governo Federal, uma das principais contribuições do programa à Capital cearense foi a redução da pobreza, que baixou de 23% para 18%, de 2003 a 2007. Mesmo diante de críticas que o acusam de ser um programa assistencialista, o Bolsa Família atinge de maneira significativa o seu principal objetivo, que é o de garantir o

FOTO: WALESKA SANTIAGO

alimento à população carente. De acordo com pesquisas realizadas pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), no Nordeste, 91% dos beneficiados pelo programa gastam o dinheiro recebido com alimentação e material escolar. É o caso de Anita da Costa, assistida pelo Bolsa Família há cinco anos. Segundo ela, o dinheiro recebido é todo voltado para as despesas do seu filho Eduardo, de 13 anos. “É uma ajuda essencial para a gente. Um dinheiro certo, que eu posso

investir só na educação dele”, conta. Mesa Brasil Paralelo às ações do Governo, entidades de classe realizam ações que têm como objetivo combater a insegurança alimentar entre a população carente. É o caso do programa Mesa Brasil do Serviço Social do Comércio (Sesc), presente em todos os estados brasileiros. Atuando em Fortaleza desde 2001, o programa atende a 474 entidades, na Capital e Região

Saiba mais...

Sociedade engajada no combate à fome A solidariedade dos brasileiros ameniza o sofrimento dos mais pobres. São inúmeros os movimentos em prol do combate à fome e à miséria no país. O Ação Social é um dos projetos pioneiros que, desde 1993, estimula a participação cidadã na luta pela construção e melhoria da sociedade brasileira. Criado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, o movimento atua em todo o território nacional. Dentre as atividades pontuais realizadas pelo movimento, a Campanha Natal sem Fome é uma das que possuem maior destaque. Desde o seu lançamento, a campanha já arrecadou mais de 30 mil toneladas de alimentos, que foram doados para mais de 15 milhões de brasileiros. No ano de 2006, a campanha mudou de nome, passando a chamar-se Natal sem Fome dos Sonhos. A arrecada-

Reaproveitamento

Ação social: Vanilo realizando trabalho em comunidades carentes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Voluntários na luta contra a miséria

Programa Natal sem Fome: programa assiste a milhares de brasileiros

ção de alimentos foi somada a outros tipos de doações, como livros e brinquedos. Só no Ceará, a campanha de 2007 arrecadou 6.386 brinquedos, 13.931 livros e 4.239,28 kg de alimentos não perecíveis, que foram destinados à população carente.

metropolitana. “Nós temos como lema: recolher de onde está sobrando e repassar para onde está faltando”, afirma a assistente social do programa, Talita Cavalcante. Em média, o Mesa Brasil possui 350 doadores dos mais diversos segmentos. De acordo com a nutricionista do programa, Ana Luísa Bastos, as doações recebidas são, geralmente, alimentos machucados ou riscados, que perderam o valor comercial, mas que preservam 100% do seu valor nutricional. Além de dar assistência, o Mesa Brasil também faz um trabalho educativo junto às instituições atendidas, que têm como obrigação participar das ações que o programa desenvolve, como as oficinas. “Nós não somos apenas um banco de alimentos, somos também um banco de oportunidades e de informação. Nós temos exemplos de entidades que com o trabalho educativo, já estão conquistando seu espaço (perante a sociedade)”, conta Talita. Uma das entidades assistidas pelo programa, em Fortaleza, é a Toca de Assis, que atende moradores de rua. De acordo com um dos responsáveis pela entidade, Irmão Kenossis, as doações recebidas do Mesa Brasil, além de ajudar na alimentação dos pobres, ainda contribui na sobrevivência da casa, que é mantida somente por doações.

Abdicar de momentos de lazer com a família e com os amigos para fazer o bem ao próximo. Assim vive o advogado e professor Vanilo Costa, que há 11 anos realiza, por meio da Sociedade Beneficente São Vicente de Paulo, trabalho voluntário em comunidades carentes. Tendo como principal objetivo o atendimento às maiores necessidades das famílias assistidas, como o combate à fome e à miséria, Vanilo e seu grupo realizam um trabalho que requer dedicação e esforços dos engajados. “O trabalho voluntário deve ser fruto de uma

vontade pessoal. Ele deve estar dentro de prioridades como família, trabalho e amigos”, conta o professor. A relação entre os voluntários da Sociedade São Vicente de Paulo e as famílias assistidas não se esgota na assistência. “Nós nos envolvemos com cada família. Nós procuramos crescer junto com elas”, conta. Para Vanilo, o combate aos problemas sociais não é apenas papel do governo, mas também de toda a sociedade. “Os problemas sociais não atingem só aos desfavorecidos, mas sim a todas as classes sociais”, garante.

Veja como o reaproveitamento de alimentos, além de útil pode ser bem saboroso.Confira uma receita de bolo de cascas de banana: Ingredientes: Cascas de 4 bananas 2 ovos 2 xícaras (chá) de leite 2 colheres (sopa) de margarina 3 xíc (chá) de açúcar 3 xíc (chá) farinha de rosca 1 colher (sopa) fermento em pó Modo de Preparar: Descasque as bananas . Bata as claras em neve e reserve, na geladeira. Bata no liquidificador as gemas, o leite, a margarina, o açúcar e as cascas de banana. Depois acrescente a farinha de rosca e mexa bem. Por último, as claras em neve e o fermento. Despeje em uma assadeira untada e leve ao forno médio, preaquecido, por aproximadamente 40 minutos. Fonte: site do Sesi link: www.sesipr.org.br/responsabilidade/

News5332content32956.shtml


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Meio ambiente: sobram as ideias, mas faltam atitudes Após três anos de discussões, apenas um bairro de Fortaleza foi contemplado com ações da Agenda 21, que visa resolver problemas sócioambientais Evellyne Matos e Kelvia Alves

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Controle Urbano de Fortaleza (Semam), reconhece que nas últimas décadas, observa-se em Fortaleza um crescimento desordenado, que não respeita o meio ambiente. Para que essa realidade mude, existem projetos em fase de elaboração, mas apenas um, o programa de educação ambiental Onda Verde, da Prefeitura de Fortaleza, foi concluido e lançado em junho de 2008. O Fórum Agenda 21 Fortaleza visa conscientizar o governo, empresas, organizações não-governamentais e setores da sociedade a cooperar na resolução dos problemas socioambientais. As 65 instituições participantes da Agenda 21, após três anos de discussões, escolheram o bairro de Sabiaguaba para ser a primeira região da capital a receber as ações. A escolha foi baseada em fatores como a existência de dunas, bacia hidrográfica e a crescente especulação imobiliária no local. Muito do que será desenvolvido na região está em processo de elaboração. Apenas uma ação já começa a dar os primeiros passos, o projeto de permacultura. “Nossa intenção é cultivar as hortaliças para

Permacultura: Rossimar Maurício participa do programa ambiental realizado em Fortaleza

serem consumidas na merenda escolar”, diz Rossimar Maurício, morador de Sabiaguaba e participante da Agenda 21. Apesar do apoio da comunidade, o geógrafo Edmilson Pinheiro Neto, diretor técnico do Centro de Estudos, Articulação e Referência sobre Assentamentos Humanos (Cearah Periferia), acredita que as atitudes tomadas no Fórum só surtirão efeito em médio prazo, mas é um plano de ação que realmente visa a sustentabilidade do planeta. Na capital, essa iniciativa é uma das poucas em execução que contribui para que o Brasil atinja, até 2015, a meta da Organização das Nações Unidas (ONU). A meta diz que não devemos poupar esforços para libertar a humanidade da ameaça de viver num planeta destruído pelas atividades do homem.

FOTO: RAFAEL TRIANDÓPOLIS

Prefeitura lança Onda Verde A ação educativa sócio-ambiental da Prefeitura, lançada em junho de 2008, surgiu a partir da discussão entre vários setores. Segundo a Seman, o Onda Verde pretende conscientizar a sociedade para a preservação dos recursos naturais da cidade. O Onda Verde tem diversos projetos, todos em fase inicial. Entre eles estão o Projeto Sabiá; Centro de Referência em Educação Ambiental; Educação, cidadania e as árvores de Fortaleza; Brisas do mar; Lagoas do município de Fortaleza e Educação ambiental nas praias de Iracema e Meireles. Com eles, a Prefeitura pretende conscientizar jovens e adultos.

Saiba mais...

O que é permacultura? O conceito de permacultura ainda é desconhecido. De forma geral, é um sistema de agricultura permanente. Seus criadores, os australianos Bill Mollison e David Holmgren, o definem como “um sistema evolutivo integrado de espécies vegetais e animais perenes úteis ao homem”. Em outras palavras, a permacultura é uma forma de planejar e implantar métodos a fim de manter um ambiente humano sustentável.

Opinião Marcelo de Oliveira Soares

Agenda 21 em Fortaleza Há 16 anos, um evento marcou o início da “revolução ambiental”: A “Eco-92”, realizada no Rio de Janeiro. Este encontro internacional promoveu discussões sobre o impacto da atividade humana em relação aos recursos naturais, metas para melhoria da qualidade ambiental e a necessidade da implementação de um novo modelo econômico conhecido por desenvolvimento sustentável. Um dos resultados desse encontro é a “Agenda 21”, que tem como ponto principal o planejamento de sistemas de produção e consumo sustentáveis contra o desperdício dos recursos naturais. E para implementar essas ações, é necessário uma reestruturação do planejamento urbano, dos métodos produtivos e da cadeia de consumo da cidade. A conservação e gestão dos recursos naturais em Fortaleza precisa envolver aspectos como: preservação da biodiversidade, zona costeira, corpos de água doce e gestão de resíduos sólidos e líquidos. Nossa cidade possui um histórico de degradação de recursos naturais e para mudar isso é preciso o fortalecimento dos diversos setores da sociedade, no contexto ambiental, para que a Agenda 21 “saia do papel”. É necessário a disseminação de práticas ambientais corretas. A compreensão de que a questão ambiental não é uma “moda passageira”, e sim uma necessidade do mundo em que vivemos, é algo urgente. Professor de Biologia

http://www.permacultura.org.br/rbp/sobre.html

Entrevista com Josael Lima

“Existem problemas em todos os bairros da cidade” Josael Lima, integrante da ONG Viramundo, que trabalha em defesa do meio ambiente, critica atuação dos órgão públicos em Fortaleza. Sobpressão: Você acredita que os programas educativos de Fortaleza são suficientes para que a população tome conhecimento da atual situação ambiental? Josael Lima: Não, porque esses projetos educativos sequer mudaram a visão dos gestores e servidores públiços e da população para uma consciência ambiental verdadeira, para que os mesmos

pudessem estar cientes da situação ambiental de Fortaleza.

to ambiental e de consulta ao Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam), desobediência à legislação ambiental brasileira em áreas de lagoas, rios e dunas e ocupação irregular da Lagoa da Itaperoaba. Além de outros projetos, como a avenida paisagística do Cocó, que beneficiará loteamento do Grupo Dias Branco, e a construção da ponte sobre o rio Cocó.

SP: Quais os principais problemas ambientais que deveriam ser combatidos pelos órgãos públicos responsáveis? JL: Existem problemas em praticamente todos os bairros e ecossistemas da cidade, dentre eles: desmatamento de dunas fixas, descaracterização da paisagem por edificações em áreas de preservação permanente, especulação imobiliária nas dunas fixas da Praia do Futuro, desmatamento de vegetação de mangue para construção de edifícios, ausência de relatórios de impac-

SP: As ações que a Semam está tomando com a Agenda 21 surtirão efeito na conservação do meio ambiente?

Josael Lima, militante ambiental critica negligência do governo ARQUIVO PESSOAL

JL: Considero um grave erro da coordenação do Fórum da Agenda 21 escolher apenas

uma área da cidade para ser construído o diagnóstico participativo e plano de desenvolvimento sustentável. Não concordo com a escolha de uma área piloto num bairro distante e isolado como a Sabiaguaba. Não penso que ações desenvolvidas somente naquela região possam influenciar outras áreas da cidade. SP: Você acha que três anos de discussão do Fórum da Agenda 21 é muito tempo para poucas ações desenvolvidas? JL: Sim. Falta vontade política da gestão da atual Prefeitura para dar prioridade a Agenda 21, afim de estabelecer um compromisso com a cidade.


SOBPRESSÃO

12

NOVEMBRO / DEZEMBRO DE 2008

Entrevista

União gera desenvolvimento global Henrique Marinho

“Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento” é a oitava Meta do Milênio que tem como objetivo favorecer a união entre diferentes países e impulsionar um progresso mundial. Na opinião do economista Henrique Marinho, o governo brasileiro tem tratado o assunto com seriedade. Contudo, ele garante que falar da oitava meta só tem sentido se as demais forem cumpridas. Entenda um pouco mais da atual condição do Brasil na realização desta meta e como ela pode afetar a vida dos brasileiros

Luziane Freire

Sobpressão Em meio a essa crise, como é possível o Brasil estabelecer parcerias mundiais que visem o desenvolvimento, já que nestas horas cada país pensa somente em si próprio? Henrique Marinho - Realmente a atual crise é um obstáculo às parcerias, tendo em vista que a mesma atingiu o sistema financeiro e que, provavelmente, poderá dificultar a continuidade dos projetos já definidos e principalmente “fechar as torneiras” para novos projetos. Cada país está vivendo seu próprio dilema e, portanto, procurará, primeiro, resolver seus problemas, prejudicando as políticas de desenvolvimento. SP - Como o Brasil vai conseguir estabelecer parcerias mundiais mais seguras até 2015 (ano determinado para o cumprimento da meta) e assim se desenvolver? HM - O governo brasileiro tem tratado com muita seriedade as Metas do Milênio, e, no que concerne a sua responsabilidade, tem buscado parcerias com países na América Latina e África. Estas são tanto na área de financiamento a projetos industriais, como de petróleo, de tecnologia com Angola, Índia, África do Sul etc. Atualmente, o Brasil, até reescalonou (renegociou novas datas de pagamentos) alguns contratos de dívida externa de países pobres da África. SP - Há alguma maneira do Brasil trabalhar isoladamente e conseguir se auto desenvolver? Caso haja, como é que o Ceará poderá ajudar neste contexto? HM - O Brasil continuará a manter seus interesses nesses países (da América Latina e da África), principalmente na tecnologia do etanol e no petróleo. Agora, não vejo como o Ceará poderá ajudar neste contexto.

“A dívida externa brasileira não é problema atualmente.” “Quanto maior o fluxo do comércio internacional, melhor para a sociedade brasileira.”

SP- Primeiramente, o que é necessário o Brasil fazer para alcançar o desenvolvimento e se tornar um país modelo? HM - É fundamental que o país melhore sua competitividade (com outros países), principalmente, no que diz respeito a educação e a inclusão social, atos muito falhos na nossa realidade. Só tem sentido falar dessa meta (oitava) se as demais forem cumpridas, em primeiro lugar a redução de pobreza.

“A qualificação da mão de obra é um problema muito sério a ser resolvido” economista e professor

ciações com a União Européia no sentido de aumentar nosso comércio. Não vejo o crescimento das importações como um ponto negativo, ao contrário, devemos nos concentrar nas exportações do que temos maior competitividade e importarmos aquilo que não somos tão concorrentes. Quanto maior o fluxo do comércio internacional, melhor para a sociedade brasileira.

SP - Com a ajuda de outros países, ficará mais fácil para o Brasil diminuir ou até quitar sua dívida externa? HM - A dívida externa brasileira não é problema atualmente. Os últimos dados indicam que existe uma dívida externa, da qual apenas US$ 90 bilhões é do Governo, o restante é dívida privada. Sendo assim, com um nível de reserva em U$ 200 bilhões, torna, na verdade, o Brasil, um credor internacional. SP - O que melhorará especificamente para o Ceará com o desenvolvimento dessas alianças internacionais? HM - Para o Ceará, já existem diversos projetos na área da economia, como a siderurgia, refinaria, obras no Porto do Pecém e do Mucuripe, ampliação do aeroporto Pinto Martins para cargas e passageiros e, ainda, o Metrofor. Com o cumprimento das parcerias tudo isso irá prosperar ainda mais. SP - O comércio internacional muitas vezes impede o desenvolvimento do Brasil por causa das altas taxas de importações. Quais são as parcerias que ajudarão o Brasil a solucionar este problema de uma maneira rápida, eficaz e barata? HM - Na área de comércio internacional, o Brasil vem fazendo diversos acordos com seus parceiros, como a China, Rússia, Índia e países da África e também na ampliação do Mercosul, assim como nego-

Perfil

Um economista nato Henrique Jorge Medeiros Marinho é mestre em Negócios Internacionais pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e leciona, desde 1977, as disciplinas de Economia Monetária, Economia Internacional e Relações Internacionais, para os cursos de Graduação e Pós-Graduação. É servidor do Departamento Econômico de Fortaleza do Banco Central do Brasil e já escreveu quatro livros: O Estudo das Relações Internacionais: Teorias e Realidade; Economia Monetária: Teorias e a Experiência Brasileira; Política Cambial Brasileira e Teorias Monetárias e Evidências Empíricas: Caso do Brasil-1964/1995.

SP - O mercado de trabalho brasileiro tem melhorado em relação ao número de ofertas, em compensação tem exigido uma maior qualificação do trabalhador. Isto tem deixado muitos possíveis trabalhadores desempregados. Você acredita que isto já seja resultado de alguma união (interna ou externa) do país? Você acha justa essa abordagem para os cidadãos brasileiros, já que nossa educação deixa a desejar? HM – Realmente a qualificação de mão de obra é um problema muito sério a ser resolvido e o governo tem praticado uma política proativa, ampliando e interiorizando as Universidades Federais, os Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet) e aumentado as bolsas do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) nas áreas de mestrado e doutorado, tudo isto com o objetivo de incentivar a qualificação. Esse, no entanto, não é um problema que se resolva em curto prazo e, portanto, ainda será um gargalo no desenvolvimento do país e nas parcerias internacionais.

Sobpressão#17  

Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da Unifor.

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