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Estagiornal Fortaleza, 27 de abril de 2012 - Ed. 15

FOTO: EVELYN ONOFRE

Aborto é tema do XXX Fóruns Universitários do Laboratório de Inclusào da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS).

Nesta edição

>>Fiz a diferença...

Fiz a diferença: Horácio Neto PÁG. 2 e 3

Abandono e tempo de espera por adoção PÁG. 3

>>Opinião

O aborto e o direito à vida PÁG. 4 O consentimento do aborto causado pelo estupro PÁG. 5 e 6 O ato da entrega e do abandono PÁG. 6

Expediente: Laboratório de Inclusão | Grupo de Informação e Consciência Humana | Coordenador: João Monteiro

Vasconcelos | Assistentes técnicos: Evelyn Onofre (Comunicação Social), Paula Castelana (Direito), Sérgio Rotschild (Assessor de arte e cultura inclusiva) | Estagiária: Rebecca Silveira (Jornalismo).


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Fiz a diferença... FOTO: EVELYN ONOFRE

por Evelyn Onofre

Formado em administração pela Estácio Fic, Horácio Neto, 23, fez parte da equipe do Laboratório de Inclusão de 2009 a 2011, como estagiário universitário. Além das suas atividades de estágio, Horácio foi membro do Grupo de Informação e Consciência Humana e o Grupo dos Fóruns Universitários, ambos desenvolvidos pelos estagiários da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS). Atualmente, é técnico administrativo na Coordenação de Empreendedorismo da STDS. O “Fiz a diferença...” é um espaço dedicado àqueles que colaboraram com o trabalho desenvolvido no Laboratório de Inclusão. Vamos resgatar amigos distantes, que não vemos há um bom tempo. Outros mais próximos, que, mesmo não trabalhando oficialmente no Laboratório ainda apoiam o nosso trabalho, como é o caso de Horácio que você acompanha nesta entrevista ao Estagiornal. Estagiornal - Como você conheceu o Laboratório de Inclusão? Horácio Neto - Eu conheci o Laboratório quando eu ainda era estudante universitário. Abriu uma vaga, para o meu curso de admi-

nistração aqui [na STDS], e eu me inscrevi. Passei um mês como voluntário no setor de Apoio a Micro e Pequenas Empresas. Quando vim trabalhar aqui, eu participei do Fóruns Universitários, que aconteceu em dezembro de 2009, no momento em que o grupo estava precisando de novos integrantes e João Monteiro [coordenador do Laboratório de Inclusão] me convidou para participar. Uma semana depois desse convite, João mudou de ideia e disse que achava melhor que eu participasse do Grupo de Informação e Consciência Humana. Eu entrei no grupo ainda em dezembro de 2009. Passei a vir ao Laboratório uma vez por semana, conhecer mais o trabalho daqui, as atividades desenvolvidas e participando do grupo. Estagiornal - Você fez parte da criação e produção do vídeo “Bater a ideia desse jogo doido”, desenvolvido para o XXVIII Fóruns Universitários. A intenção é que o vídeo fosse apresentado apenas neste evento, mas acabou caindo no conhecimento de pesquisadores e a equipe foi convidada para apresentar o vídeo no “Pelo direito de viver com dignidade”, evento realizado pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced) e pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal. Como é ver a continuidade e reconhecimento desse trabalho? Horácio Neto - É muito bom ter o reconhecimento de um trabalho que nós fizemos. No dia da reunião - acho que umas duas semanas antes de acontecer o Fóruns Universitários - a equipe estava reunida e eu dei a ideia de fazer um vídeo com os adolescentes em conflito com a lei pra mostrar a situação deles nos centros educacionais. A equipe gostou e a gente fez o vídeo “Bater a ideia desse jogo doido”. De acordo com as gírias desses adolescentes, “bater a ideia” é dizer o que pensa e “jogo doido” é uma situação séria, tensa. Depois da repercussão, nós fomos chamados para

exibir o vídeo nesse evento [“Pelo direito de viver com dignidade”] na UFC. No início, a gente do grupo teve receio de apresentar publicamente o vídeo porque ele tinha caráter de denúncia. E, além disso, mostrava a realidade aqui das próprias unidades [centros educacionais] da STDS. Mas, quando surgiu esse convite na UFC, nós pedimos autorização à Coordenação de Proteção Social Especial, responsável pelos centros educacionais, e à STDS, pra poder exibir o vídeo no evento com mais segurança. Estagiornal - Há alguma coisa que você não fez, mas gostaria de ter feito no seu período de estágio no Laboratório de Inclusão? Horácio Neto - Sim, o “Gestores da Informação”, projeto que estava no planejamento do Grupo de Informação e Consciência Humana. O projeto tinha o objetivo de tentar fazer com que as informações de eventos e trabalhos desenvolvidos pelo Laboratório chegassem a todos os estagiários. No caso, selecionaríamos um estagiário, em cada unidade da STDS, para ficar responsável de repassar as informações aos demais. Na época, isso diminuiria de 150 a pouco mais de 30 estagiários, o que facilitaria nosso trabalho através dos multiplicadores da informação. Estagiornal - Como foi receber a premiação de Estagiário Nota 10? Horácio Neto - Eu comecei meu estágio no setor de Apoio a Micro e Pequenas Empresas, onde passei um ano e quatro meses, e depois fui transferido para o Laboratório. Esse prémio Estagiário Nota 10 ajudou bastante na minha contratação em dezembro de 2011. No meu currículo, esse prêmio teve um peso maior do que outras atividades. Eu não sabia disso. Quando eu fui chamado para trabalhar na Coordenação de Empreendedorismo, que ficou no lugar da extinta célula de Apoio a Micro e Pequenas Empresas. E minha chefe [Janemary Nascimento, coordenadora de empreendedorismo da STDS] me apresentou: “Olha, esse aqui é o Horácio, ele agora está trabalhando com a gente, foi estagiário aqui. Inclusive, ele recebeu uma premiação de Estagiário Nota


10 - que contou muito, viu, Horácio?”. Ela disse pra mim. E, até então, eu não sabia que essa minha premiação tinha sido tão importante pra minha contratação no setor. Estagiornal - Antes do Laboratório, você já havia trabalhado com pessoas com deficiência? Horácio Neto - Não, e isso foi uma experiência muito grande pra mim. Um crescimento enorme, não só profissional, mas pessoal, no sentido de respeitar os limites do próximo, ser mais humano, conviver com as diferenças. No primeiro Fóruns Universitários que eu participei, o Thiago de Sandes tocou. Quando eu vi, fiquei impressionado com a capacidade que ele tinha tanto de tocar, quanto de cantar. Foi o primeiro contato que eu tive com pessoas com deficiência. Estagiornal - Que tipo de dificuldades você enfrentou ao trabalhar com pessoas com deficiência? Alguma situação engraçada? Horácio Neto - Que eu me lembre, só uma vez que eu tentei falar com o Geraldo [Geraldo Venceslau, o instrutor de letras/libras da Oficina de Cultura Surda do Laboratório de Inclusão. É deficiente auditivo e não oralizado] e ele não poder ouvir. Estagiornal - Você já presenciou alguma situação de alguém sendo vítima de preconceito? Horácio Neto - Escutei um comentário de um motorista da STDS, quando ele parou numa vaga para pessoas com deficiência. Ele perguntou se as pessoas não tinham mais o que fazer do que ficar fiscalizando as vagas e tentando prejudicá-lo. Fiquei na minha, escutando porque, até então, eu não sabia que naquele episódio ele se referia ao pessoal do Laboratório de Inclusão. Porque existe o Laboratório e a Célula da Diversidade. Mas eu fiquei sentido com aquele comentário. Também já ouvi comentários preconceituosos contra gays do tipo “Ah, ele é gay, não vou ficar perto, cumprimentálo”, enfim. Até situação da pessoa se retirar da mesa ao chegar um homossexual, porque não quer estar no mesmo ambiente que ele. Estagiornal - O que você acha do trabalho desenvolvido pelo La-

boratório em prol da inclusão social? Horácio Neto - É um trabalho que tem uma importância enorme, porque o preconceito acaba inferiorizando essas pessoas e o Laboratório de Inclusão combate isso.

Abandono e tempo de espera por adoção: uma balança desfavorável por Rebecca Silveira

Para que ocorra a adoção é necessário a separação da criança do seio familiar, ou seja, romper os “laços”, que muitas vezes se iniciam a partir da vida intrauterina. Segundo o psicólogo José Eduardo Geremias, em seu artigo Adoção: Facilidades e dificuldades é importante salientar que os chamados “laços afetivos” embora possam se manifestar antes do parto, em muitos dos casos surgem após o nascimento com o progressivo estabelecimento de vínculo. Este fenômeno é mais comum nos pais, pois não participa da fase intrauterina. Assim, quando ocorre esta ruptura entre a criança e a família biológica, isto pode significar uma experiência complexa para a criança, pois os laços intrauterinos não podem ser deixados de lado. Ao nascer, o bebê necessita geralmente de um adulto para suprir suas necessidades básicas, como alimentação e higiene. O primeiro contato afetivo deveria acontecer com sua mãe. No entanto, quando a criança é privada desse tipo de relação, acarreta efeitos prejudiciais que variam de acordo com o grau desta ruptura. Segundo Eduardo Geremias, quando a privação é parcial, tende a gerar angústia, exagerada necessidade de amor, forte sentimento de vingança, culpa e depressão. A privação quase total - muitas vezes observada em instituições de abrigos, creches e hospitais - aumenta a severidade dos danos psicoafetivos e é denominada “hospitalismo”. Por último, a privação total, que pode aniquilar completamente a capacidade da criança estabelecer relações

futuras com outras pessoas. 3 Para os bebês abandonados, o nascimento representa um corte radical em relação a tudo o que eles conhecem: a voz da mãe, os ruídos de seu corpo, a voz do pai, o ambiente familiar. Tudo aquilo, que permite a um recém-nascido se situar nos primeiros momentos de vida, desaparece (BÖING e CREPALDI, 2004, p.216). É certo que existem inúmeros outros efeitos prejudiciais desta ruptura de laços, mas, apesar de não ter uma complexa compreensão do que está acontecendo, o bebê sente o efeito, e estes efeitos terão consequências a longo prazo. A adoção pode ser considerada uma maneira de reconstrução familiar. Todavia, este processo necessita de amparo e acompanhamento jurídico e psicológico. Nesse processo, podemos vislumbrar três situações: 1) A primeira, uma família prestes a perder seu filho devido à incapacidade de gerir de maneira saudável sua família; 2) Em seguida, uma criança que necessita ser inserida em um modelo que mais se assemelhe à família original; 3) E, por fim, uma família que não pôde de ter uma criança natural e que se coloca à disposição de suprir as necessidades desta criança. Este processo de adoção precisa de acompanhamento, para que os efeitos negativos da quebra dos vínculos da família natural sejam os menores possíveis. Dessa forma, o processo é bem sucedido. A adoção pode ser considerada uma prática comum em nossa sociedade. No entanto, a adoção legal ainda não é o meio mais utilizado. Assim, o número de crianças abandonadas e o tempo de espera para a efetivação do processo de adoção, leva ao aumento do número de crianças adotadas sem acompanhamento jurídico e psicossocial, podendo ocasionar problemas ainda maiores para a criança. Adotadas sem acompanhamento, estas crianças ficam vulneráveis a outros tipos de problemas como violência doméstica, abuso e trabalho infantil, que somados ao fato de já ter sido abandonada, pode levá-la a traumas irreparáveis.


Opinião

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O aborto e o direito à vida por João Monteiro coordenador do Laboratório de Inclusão

Tudo que existe ou existiu teve um princípio intencional ou casual. A vida, como sequência evolutiva, assume com naturalidade sua maior essência: passar a existir. Falam sobre a sustentabilidade da vida no planeta, da preservação da biodiversidade, da recuperação de áreas degradadas, do salvamento das espécies em extinção. Falam do aborto do corpo hídrico, da retirada de vegetação nas áreas naturais de nascentes, das zonas de produtividade, afetando a procriação da água que a cada período fértil não encontra acolhida. Falam também da violência contra a mulher, contra a criança. Falam da necessidade de um novo modelo social. Como podemos entender esta vida que estamos usufruindo e sobrevivendo, sem questioná-la, sem buscar respostas e encarar a realidade sem medo, sem dogmas e incoerências? Devemos ser contra ou a favor do aborto? Quantos conflitos devemos enfrentar para descobrir o significado de nascer ou morrer, de interromper ou preservar uma vida? Se combatemos o aborto do

A vida, como sequência evolutiva, assume com naturalidade sua maior essência: passar a existir. corpo híbrido, podemos promover o aborto do corpo humano? Afinal, que vida estamos defendendo? Que vida estamos condenando? A legislação atual no Brasil, sobre aborto do corpo humano, considera o aborto uma conduta penalizada

ou despenalizada, dependendo da circunstâncias. O aborto é considerado um crime contra a vida pelo Código Penal Brasileiro. Porém, não é considerado crime quando praticado pelo médico, com consentimento da gestante, quando há risco de vida da mãe causado pela gravidez e quando a gravidez é resultado de estupro. Escolher entre duas vidas é uma tarefa de alta complexidade, diante de quem vai nascer ou morrer, mesmo que estas vidas estejam expostas ao destino de uma mãe que vai escolher entre a própria vida e a vida que gerou e está carregando, ou abortar para continuar viva. Escolher entre as consequências da violência do estupro, mesmo que o feto seja tão vítima quanto à mãe, faz também do destino um vilão que a vida tem que enfrentar para poder sobreviver. Refletindo sobre gravidez in-

Escolher entre duas vidas é uma tarefa de alta complexidade, diante de quem vai nascer ou morrer... desejada, lembro-me de um caso marcante, que acompanhamos no Laboratório de Inclusão, de um pai que afirmou ser a favor do aborto para mulheres que comprovassem, na gestação, um feto com suspeita de síndrome de down, ou qualquer deficiência, alegando que ninguém poderia desejar um filho anormal. Do outro lado da vida, uma mãe, cujo filho nasceu com amiotrofia espinhal, verbaliza o seu sentimento pela dedicação e afetividade: “Hoje eu vivi um momento inesquecível em minha vida. Andar de carrossel com o Lucas. Ele dava gargalhadas que me contagiaram. Meu filho como você me faz feliz”. A interrupção ou destruição da vida humana, porque ela é indesejada, promove a ideia de uma sociedade decadente pela simples razão de não conseguir ser justa e generosa para preservar a vida. A gravidez indesejada não reflete somente no

nascimento de bebês com deficiência, mas na incapacidade humana de ser pai ou mãe por afinidade natural. Nascer e morrer são condições naturais do homem, são interdependentes. Nascemos porque morremos. O direito de nascer, como princípio, retrata a condição da dependência acentuada, indefesa, de uma maior vulnerabilidade. Um feto não tem como se defender da ação de um aborto. Um não tem escolha, o outro está definindo todas as escolhas. Falar sobre aborto e sustentabilidade, sobre morrer e nascer, sobre significados, interpretações, é exercício da própria mente. A mente que consegue controlar os preconceitos, a violência. A mente que não evoluiu o suficiente para entender que nascer é o princípio de toda vida e viver é um direito natural de qualquer ser.

Últimas INCLUSÃO SEM CENSURA O IV Inclusão sem Censura, que acontece em 18 de junho, terá como tema “Patrimônios históricos: Acessibilidade x Tombamento”. Gostou? Em breve, mais informações. GRUPOS DE ESTUDOS Os grupos de estudos Casas de Luz e Poetas Urbanos estão com vagas abertas para novos estagiários. Acessem o link “Grupos de Estudos” no nosso blog: laboratoriodeinclusao. wordpress.com para conhecer as atividades desenvolvidas em cada um dos grupos e entre em contato com o Laboratório de Inclusão. FORTANGO SEM LIMITES Fortango sem Limites, grupo de tango e dança de salão para deficientes físicos e visuais, está com inscrições abertas para novos alunos. Interessados, entrar em contato com o professor de tango Gagá Azevedo através do e-mail gaga@fortango. com.br ou dos números (85) 9982 2123 e (85) 8899 2123.


O consentimento do aborto causado pelo estupro por Paula Castelana

No Brasil, o aborto é tipificado como crime contra a vida humana pelo Código Penal Brasileiro (CPB), em vigor desde 1984, prevendo detenção de um a três anos, em caso de aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento (art. 124) ou de três a 10 anos de reclusão, a aborto provocado por terceiros, sem o consentimento da gestante (art.125). Porém, não é qualificado como crime, quando praticado por médico (art.128), nas seguintes situações: 1) Aborto necessário: se não há outro meio de salvar a vida da gestante; e 2) Aborto no caso de gravidez resultante de estupro. Nesses casos, o governo brasileiro fornece gratuitamente o aborto legal pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa permissão para abortar não significa uma exceção ao ato criminoso, mas sim uma escusa absolutória. Também não é considerado crime o aborto realizado fora do Brasil, sendo possível realizá-lo em países que permitem a prática. Existe grande esforço, por parte da população considerada pró-escolha, em tornar legal o aborto no Brasil como escolha da gestante. Sendo um dos argumentos utilizados o de que manter a prática ilegal, não evita que o aborto seja realizado, mas faz com que as mulheres recorram a meios alternativos e inseguros de fazê-lo. Em outubro de 2011, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a Semana da Vida, de 1 a 7 de outubro, e o dia do Nascituro, 8 de outubro, resultado da Campanha da Fraternidade de 2011, com o tema “Vida, ecologia humana e meio ambiente”. A Igreja Católica disse que a Semana da Vida e o dia do Nascituro não apenas serviram para “defender a vida”, mas também para “promovê-la”.

Em 9 de março, a CNBB lançou oficialmente a Campanha da Fraternidade de 2012, que tem como tema a saúde pública. O aborto, como questão de saúde pública, logo veio à discussão e a Igreja Católica reafirmou sua posição quanto ao tema. Apesar de existirem rivalidades, católicos e evangélicos costumam fazer alianças políticas quando se trata de aborto. Todavia, a maior parte da população do país é contra a prática, concorda com a situação atual ou ainda quer sua proibição em todos os casos. Um plebiscito para consultar a população já foi algumas vezes proposto com a intenção de decidir o que se deve fazer na legislação sobre o aborto. Existe também a opinião de que o aborto não é matéria para plebiscito, mas sim, uma questão de saúde pública e que, como tal, deve ser decidida pelo Estado e não julgada pela maioria. Segundo a antropóloga Débora Diniz, em algumas cidades do Brasil, o aborto clandestino é a segunda maior causa de morte materna. Relata a história, que a Colônia do Brasil era, pela influência de Portugal, uma nação essencialmente católica. Sendo assim, o aborto e outras práticas condenadas pela Igreja, em Portugal, também eram tratadas assim no Brasil. O aborto, porém, só foi citado explicitamente na legislação em 1830, no Código Penal do Império. A interrupção voluntária da gravidez, na constituição de 1824, era considerada um crime grave contra a vida humana. Na época, havia certo cuidado com a punição de mulheres, e, quando estas praticavam o aborto autoinduzido, estavam livres de pena. Durante o Brasil República, vigorou o Código Penal da República (1890), em que o aborto novamente foi tratado como crime grave. Ainda com ressalvas para o aborto auto-induzido, a prática da interrupção da gravidez é punida quando feita por terceiros e a pena é agravada em um terço, quando o procedimento resulta em lesão corporal de natureza grave. A pena é duplicada, quando, por qualquer dessas causas, lhe so-

brevém à morte (art.127 do CPB). 5 A legislação sobre o tema, a partir do Código Penal de 1940, tornouse mais clara e específica e seu conteúdo permanece em vigor até hoje. Ele instituiu que o aborto é um dos “crimes contra a vida” e que apenas pode ser feito em casos de estupro e risco de vida da mulher. O Código Penal de 1969, que não entrou de fato em vigor, mantinha as características do código anterior, mas enrijecia as penas para mulheres que provocassem em si mesmas o aborto. Em 2012, um grupo de juristas elaborou um anteprojeto para o novo CPB, onde o aborto se torna legal em outras situações, além dos dois casos já permitidos: estupro e risco de vida à mulher. Com isso, o Supremo Tribunal Federal (STF), composto por 11 ministros, decidiu, no último 12 de abril, por oito votos a dois, com apenas uma abstenção, que o aborto de fetos com má formação do cérebro (anencefalia) não pode ser mais considerado crime. Os ministros finalizaram o julgamento de um processo da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS). O ministro Marco Aurélio Mello, relator do caso julgado pela Corte, defendeu, em seu voto, que “o Estado não pode impor a continuidade de uma gravidez inviável, sob pena de violar o princípio da dignidade da mulher e de aplicar à gestante uma tortura psicológica”. Ele afirmou que o próprio Conselho Federal de Medicina, na Resolução nº. 1.752, de 2004, classifica os anencéfalos como “natimortos cerebrais” e disse que a gravidez, em casos de anencefalia, tem índice de mortalidade de 100% para o feto. Por isso, a interrupção da gestação não pode, segundo Mello, ser criminalizada. “Cabe à mulher, e não ao Estado, sopesar valores e sentimentos de ordem estritamente privada, para deliberar pela interrupção, ou não, da gravidez de anencéfalos”, disse o ministro. Assim, as gestantes que quiserem interromper a gravidez de fetos diagnosticados com a anomalia não precisarão mais de autorização judi-


6 cial. Os profissionais de saúde que realizarem o procedimento também não poderão ser responsabilizados criminalmente. Apesar do aumento dos casos em que a mulher poderá abortar, os juristas, ao longo do julgamento que durou dois dias, não discutiram situações diferentes da anencefalia, em que o aborto poderia futuramente ser permitido. Os casos em que o aborto seria permitido são, além dos casos já previstos hoje em lei: 1) Quando a mulher sofrer inseminação artificial sem o seu consentimento; 2) Por escolha da gestante, mas com a confirmação do médico de que a mulher não tem condições mentais de arcar com a gravidez. O caso é polêmico e ainda se tem muito o que regulamentar. Ocorreram, ao longo dos anos, várias tentativas para se modificar a legislação brasileira em referência ao aborto. Desde quando a Constituição Brasileira de 1988 entrou em vigor, poucas mudanças de fato ocorreram, estendendo-se até hoje o debate sobre o aborto e as tentativas de descriminalizá-lo.

O ato da entrega e do abandono por Sérgio Rotschild

No Brasil, existem aproximadamente oito milhões de crianças abandonadas, segundo a Pastoral do Menor. Destas, cerca de dois milhões vivem permanentemente nas ruas, envolvidas com prostituição, drogas e pequenos furtos. Uma das estatísticas mais tristes revela que no estado de São Paulo, a cada dia, duas crianças são abandonadas na cidade, em abrigos ou nas ruas. Uma das causas disto é o abandono desumano de crianças, que são lançadas nas ruas à própria sorte e, com isso, acabam tendo que

encontrar uma maneira de sobreviver a esta realidade. De acordo com o Estatuto da Criança o do Adolescente (ECA), “toda criança tem direito à vida, saúde, liberdade, educação, cultura e dignidade”. Mas até que ponto esta lei está sendo cumprida? Aqueles, que deveriam cumpri-la, abandonam seus filhos, muitas vezes nas ruas, nem mesmo em abrigos. Quando são abrigadas, as crianças ficam nas mãos de pessoas que não desenvolvem estratégias para que o período de permanência em um abrigo seja reduzido. Crianças que vivem nas ruas, que deveriam estar sob os cuidados do Estado, acabam crescendo, sem saber o que é viver em um círculo familiar, e se envolvendo com a criminalidade. Passam a seguir regras que já deveriam não mais existir. Uma realidade de animalização. A lei dos mais fortes acaba sendo, infelizmente, necessária. De acordo com dados da ONG Cidade Viva, no ano de 2011, 52 bebês foram abandonados em lugares como lixeiras e caixas de sapatos em todo Brasil. O abandono, de acordo com a nova lei que altera 55 artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, deve ser substituído pela doação às famílias que desejam adotar. Estas alterações acabam reduzindo o número de abandonos desumanos e dá liberdade para que o ato de entrega de pais, que não podem ou não desejam criar seus filhos, torne-se uma manifestação de amor e carinho. Com isso, percebe-se a necessidade de serem desenvolvidos meios que facilitem o processo de adoção. A cada dia, mais e mais crianças estão sendo colocadas em abrigos e o tempo, que estas esperam por uma adoção, acaba sendo negativo ao desenvolvimento psicossocial das mesmas. Será que é justo existir tanta burocracia para encarar o processo de adoção? Para uma criança conseguir um novo lar?

Inclusão em Verso, Prosa e Melodia FOTO: EVELYN ONOFRE

O músico Ítalo Gutyerrez.

Desenvolvido pelo Grupo de Arte e Cultura Inclusiva (Gaci), o Inclusão em Verso, Prosa e Melodia é um projeto que tem como objetivo realizar oficinas, rodas de discussões e palestras, com temáticas ligadas à inclusão social, sempre contando com a participação de acadêmicos e pesquisadores que atuam nas áreas da inclusão e acessibilidade humana. O projeto, coordenado por Sérgio Rotschild, assessor de arte e cultura inclusiva do Laboratório de Inclusão, desenvolve, junto ao estagiário Ítalo Gutyerrez, a oficina Ponto de Vista, que realiza a formação de críticos sociais, abordando assuntos como relações humanas, ética e sexualidade. A oficina tem como público-alvo os adolescentes do projeto Primeiro Passo da STDS.

Espaço do Estagiário É estagiário de alguma das unidades da STDS, gosta de escrever ou tem algum artigo ou denúncia que gostaria de publicar? O Estagiornal também é de vocês. Seja um colaborador e envie sua notícia, artigo, fotografia, comentário, sugestão para labdeinclusao@gmail. com. Interessados em participar de algum dos grupos do Laboratório de Inclusão também podem ligar para (85) 3101-2123 ou (85) 3101-4583.

@labdeinclusao


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