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Bloody Mary Uma noite chuvosa, uma casa de dois andares com três quartos e um homem no banheiro. Em seus vinte anos, Abel Tadeu nunca apostou nada, mas seus amigos do curso de design de games o fizeram mudar de ideia. Depois de muito o provocarem, ele resolveu desmentir um mito. O mito da loira do banheiro americana, a Bloody Mary. A aposta era simples, gravar a si mesmo no banheiro com as luzes acesas e repetir o nome da entidade três vezes, que é o modo dela ser invocada. Ele se pôs a frente do espelho do banheiro e apoiou as mãos na pia de marfim. Colocou a câmera ligada e gravando na tampa da privada e inclinada para cima, de modo que pegava o rosto do adulto. Abel:

Isso é bobagem! Pra que estou fazendo isso? Vou ganhar cem reais por cabeça depois na escola, mas e se for verdade? Cala a boca Abel, você cria personagens de games! Nenhum daqueles malditos é verdadeiro e muitos oferecem mais ameaça do que essa Mary. Bem, vamos logo acabar com isso, preciso terminar meu último projeto. Bloddy Mary.

Não longe dali, em um lugar onde só havia escuridão, uma moça morena acorda de um sono pouco profundo e começa a procurar o som da voz. Ela se ergue e começa a correr pela escuridão vazia e plana. Abel chacoalhava a cabeça inquieto e passou água no rosto bronzeado para se acalmar. Abel:

Preciso checar se a porta está trancada, só para ter certeza. Não da certo se não estiver... Droga, está trancada. Ok, Bloody Mary.

A magra moça dos cabelos negros e vestido vermelho sangue ouviu de novo, e começou a seguir na direção da provável terceira proclamação de seu nome. Ela começava a sorrir e depois, gargalhar. Abel:

Só mais uma vez. Bloody...

Então, Abel ouviu sua mãe lhe chamar para a janta. Ele pegou a câmera e desligou. Jogou-a para dentro do quarto, fechou a porta e lavou as mãos no banheiro antes de ir comer. Abel:

Obrigado mamãe. Não sabe do que me tirou!

A moça se perdeu. Não tinha mais noção de local. Olhava para todos os lados em busca da direção dos chamados. Mary:

Droga! Pela primeira vez perdi uma vítima!

Ela começou a checar os arredores, em busca de fendas que seriam sua chave de entrada para o mundo humano. Abel voltou depois de jantar. Ligou o computador e plugou nele a câmera. Editou o vídeo e o salvou na câmera novamente. Sentiu-se sendo observado e olhou na direção do espelho que usava para se pentear. Uma moça de cabelos negros e olhos vermelho sangue estava a lhe observar.


Abel:

Isso é coisa da sua cabeça! Mas, por via das dúvidas...

Virou o espelho para a mesa, assim não via a garota. Mary frustrou-se, sendo a única fenda que havia próxima ao chamado que estava ouvindo. Irritada, deitou para pensar ali mesmo. Mary:

A voz daquele homem, era a mesma que eu ouvi antes, só que com menos medo e menos tensa. Será que era ele? Bem, se for eu não posso sair até que ele me convoque por completo. Mas nada me impede de assombrá-lo. Como adoro ser um fantasma!

Uma risada maléfica ecoava na dimensão fantasmagórica, acordando qualquer espírito que nela descansava. Ela começou a coçar o queixo pensando. Mary:

Bem, nessa hora não devem ter humanos olhando nos espelhos, a menos que acabaram de tomar banho para ir dormir. Nesse caso não adianta, até posso ver o que há do outro lado, mas está tudo embaçado e não saberei se conhecem aquele rapaz ou não. A única coisa que sei é que tem olhos verdes, cabelo preto arrumado em topete, pele bronzeada e dentes branquíssimos, alem da voz grossa. Nunca tive dificuldade em matar alguém, mas pelo visto esse será um prazer e tanto. Danem-se as regras! Se for um adolescente ou criança eu vou matar, e o resto da casa também!

Nesse momento, enquanto outra risada de Mary ecoava, um espírito iluminado com grandes cabelos grisalhos, roupão branco e asas aparecia atrás da maníaca, batendo com o pé no chão esperando ser notado. Mary se virou, ainda com o sorriso psicopata no rosto e se levantou. Mary:

O espírito da proteção dos inocentes. Eu sei que não posso matar crianças nem adolescentes, mas nem sei que idades vivem naquela casa. E você não estará lá para protegê-los, anjo.

Anjo:

Não estarei? Quem pode garantir isso? Eu já salvei varias inocentes almas de seus ataques furiosos, porque não salvarei essa?

Mary:

Vou garantir que não vá.

Anjo:

E posso saber como?

Conforme conversavam, Mary avançava lentamente e o espírito benigno recuava assustado, mas sem perder a pose durona. Mary:

Fantasmas não morrem. Anjos podem morrer.

Seus lindos olhos negros se tornaram vermelho sangue. Suas unhas cresceram rapidamente e seus cabelos ficaram revoltos, alem de dentes crescerem também. Ela avançou acima do anjo, que apenas ergueu as mãos tentando se defender. A moça antes bela arrancou de maneira selvagem suas asas com as mãos e vendo que o anjo ainda tentava fugir, o pegou pelo cabelo e jogou sua cabeça no chão, deixando-o tonto. Pisou no seu estomago de forma que o fez cuspir sangue celestial, e depois de todo o sofrimento, com as garras gigantes arrancou seus


olhos, da forma mais agressiva possível, cortando-os até não sobrar nada. Se ergueu e voltou a bela forma de antes, como se nada tivesse ocorrido. Mary:

Também te amo mamãe, mas já sou crescidinha e não preciso que você me proteja. Nada pode me deter, nem o poder divino.

Começou a ouvir roncos, como se almas ainda vivas estivessem repousando. Mary sorriu ainda mais maleficamente com todo o sangue no rosto. Mary:

Estão dormindo é? Ótimo, preciso ouvir o ronco similar ao daquela voz.

Com a audição seletiva, começava a ouvir ronco por ronco, como se os outros emudecessem apenas para que ela identificasse o certo. Mary:

Não... Não... Também não... Onde está? Acho que por aqui... Também não... Ninguém me impedirá de me vingar, nem mesmo vários roncos! Ah, achei aqui!

Ela viu uma alma bronzeada e de cabelo negro. O topete estava lá também, o que confirmou sua tese. Ela sorriu e abriu os olhos da alma com as unhas curtas. Ela não se mexia. Mary:

Você tentou me convocar. Não é porque estamos em dimensões diferentes que não vou conseguir te pegar, estou agora mesmo vendo sua alma humano podre. Irei te atormentar eternamente, e a única coisa que pode fazer para me deter é me convocar por completo, ou você e sua família sofrerão, simples assim. Agora, você tem dois dias para fazer isso, se não nenhum de vocês terá uma morte muito pacífica.

Terminou o discurso abrindo a boca gigante pronta para devorar a alma de Abel. Ele acordou bruscamente, acidentalmente salvando a alma. Mary começou a rir de novo, sabendo que seria uma caçada muito divertida. A dimensão era totalmente escura, um negror total, com exceção das almas vivas que dormiam e tinham luz própria. Não existia paisagem naquele limbo, apenas escuridão total. Mary ficou sentada, apenas esperando naquele local que um reflexo daquele homem aparecesse. Abel estava com os batimentos muito acelerados. Ele desceu para a cozinha e viu no microondas que eram quatro da manhã. As aulas começariam em duas horas. Resolveu arrumar as suas coisas, apenas para não voltar a dormir. Abel:

Senhor Abel Tadeu, o que era aquela abominação que falava contigo!? E esse costume imbecil de falar sozinho que herdou do pai? Calma, não era nada, você teve um pesadelo porque está tenso, só isso! E evitar reflexos como você está fazendo no momento é algo sensato para quem tem medo! Só não deixe ninguém perceber, se não irão caçoar de você. Bem, materiais para amanhã. Pen-drive com bases de personagens famosos no meu bolso. Dinheiro para comprar algo para comer, na carteira. É, não preciso de mais nada. Vou fazer um bilhete explicando que já fui para a escola. Ah, a câmera! Estava me esquecendo.


Pegou a câmera e a colocou na pequena mochila em que levava também o pen-drive, a carteira e o notebook de ponta. Abriu a porta e viu que estava chovendo. Voltou e colocou uma blusa vermelha e pegou o guarda-chuva. Saiu definitivamente, colocando o bilhete na porta do lado de dentro. Foi até o ponto de ônibus do outro lado da rua e separou o dinheiro para pagar o transporte. Mary viu que a espera deu resultados positivos. Ela viu o garoto e sorriu maliciosamente quando percebeu o rosto palidamente bronzeado de medo, terror. Quando ele olhou para uma poça de água, viu a garota ao lado de uma replica dele boca e sem olhos. A garota cortou uma boca sorrindo e olhos para o boneco. Cortou os olhos de forma demoníaca e apagou o sorriso que havia feito, trocando por uma boca triste, como se sofresse. Abel viu a poça encher-se de sangue e começou a se assustar mais ainda. Quando viu que o ônibus estava chegando, deu sinal para o motorista. Pagou-o e girou a catraca, sentando ao lado de uma moça ruiva que dormia. Olhou pela janela vendo a chuva, e de repente a mesma moça da poça apareceu, dessa vez apenas rindo e chorando lagrimas de sangue. Então a risada discreta se tornou uma risada histérica e foi transformando sua pequena e linda boca em maxilar de piranha, com dentes longos, tortos e boca grande. Quando a ruiva acordou, Mary sumiu. Abel:

Jéssica!?

Jéssica:

Abel? Pegando ônibus por quê? Você nunca pega!

Abel:

Não conseguia dormir e estava ansioso pra ir para a faculdade.

Jéssica:

Mentiroso, você não olhou pros meus olhos e não falou com o animo de alguém que está ansioso. Olhe para mim e me diga o que aconteceu.

Ao olhar, Abel se perdeu naqueles olhos azuis maravilhosos e começou a gaguejar ao falar. Jéssica:

Ok, você não consegue falar uma sílaba sequer. Vamos lentamente, ok? Aconteceu algo?

Abel:

Pesadelo.

Jéssica:

Está começando a ficar vermelho, então tudo bem.

Abel:

Por que você me conhece e eu não posso conhecer seus sinais corporais?

Jéssica:

Coisa de mulher, mas continue. Como foi o pesadelo?

Abel:

Uma garota de cabelos pretos. Simplesmente apareceu, e disse que se eu não convocar ela em dois dias, eu e minha família inteira seremos mortos. Ela só quer a mim, mas por que a minha família? Eles não fizeram nada!

Jéssica:

Está te provocando. Como era essa garota?

Abel:

À primeira vista, rosto delicado e olhos igualmente delicados com vestido vermelho, mas ela esconde uma faceta muito pior. Não quero falar disso.

Jéssica:

Entendo, e você só viu ela nesse pesadelo? O pessoal que estuda no nosso curso é muito criativo, e você pode estar sofrendo da própria criatividade.


Abel:

Não é minha criatividade! Antes de o ônibus chegar, ela estava numa poça de água. Ela estava com uma replica de mim ao lado, e mostrou o que faria comigo. Quando subi e sentei ao seu lado, ela estava no vidro do ônibus também, só que apenas gargalhando. De forma muda, como um filme antigo de terror.

Jéssica:

Ok, acho que está ficando paranoico. Relaxe um pouco, tire um cochilo aqui comigo.

Ao abraçar a amiga, a boca dela se tornou uma boca de piranha e se dirigia para sua cabeça. Ele acordou assustado. Já estava cochilando com Jéssica e aquele pesadelo era obra da garota, e não de sua imaginação. Ele deitou e tentou dormir novamente, mas foi acordado pela Jéssica verdadeira. Ela o estava puxando para que descessem do ônibus e fossem para a faculdade, que convenientemente é em frente ao ponto de ônibus. O grande prédio fazia todas as casas em volta parecerem simples formigas. Eles entraram e secaram os pés no capacho preto com o nome do estabelecimento: Faculdade de criação. Jéssica levava livros teóricos enquanto o amigo só levava o notebook e a acompanhava. Mais ninguém estava na sala de design de games, então eles se prepararam para a aula que teriam e a prova. Ligando o aparelho, Abel começou a modelar novos personagens a partir das bases do pen-drive. O professor pediu como lição de casa cinco modelos de personagens baseados em outros, de jogos famosos. Abel já havia feito um lutador de kung fu, com roupa branca, faixa preta na cintura e faixa vermelha na cabeça. Já havia feito um boxeador negro careca com luvas azuis, um capoeirista com calça com a bandeira do Brasil e faltavam outros dois personagens. Abel:

Que personagens faço Jé?

Jéssica:

Já fiz os meus e não vou emprestar. Se quiser, faça de outro jogo.

Abel:

O professor deixou claro, todos os cinco do mesmo jogo.

Jéssica:

Deixa eu ver quais você já fez.

Enquanto a amiga observava, Abel via suavemente seu reflexo na tela do computador portátil. Ele estava queimando e correndo, desesperado, como se nada pudesse salválo. Quando Jéssica falou, ele voltou a atenção a bela voz da amiga. Jéssica:

Uma policial e um lutador de muay thai?

Abel:

Ótimo! E o bom é que faltam noventa minutos para as aulas começarem, fora que o professor costuma se atrasar um pouco. Policial militar?

Jéssica:

Do FBI.

Abel:

Policia montada?

Jéssica:

Poxa, verdade. Tem que ser o menos parecido possível, mas ainda assim lembrar o original. Policia militar.


Abel começou a modelas no computador cada um dos novos personagens. Uma mulher com roupa de policial e um homem musculoso com um shorts azul de muay thai e tapa olho em cada olho. Quando começou a programar cada golpe dos dois, os amigos de Abel começaram a chegar. Eles o cercaram enquanto fazia uma luta teste entre Reik, o lutador de kung-fu, e Mika, a policial. Abel:

Eu vejo o reflexo de vocês. Victor está gostando dos gráficos, Reimond da jogabilidade e Lucius do fato de eu estar apanhando?

Os três concordaram. Lucius era o estrangeiro, vindo dos estados unidos para estudar design no Brasil. Magro e com cabelos loiros. Reimond também era estrangeiro, vindo dos países do norte europeu, ruivo e com olhos verdes e porte físico amedrontador. Victor, junto de Jéssica e Abel, era um dos únicos brasileiros do curso. Cabelos pretos e pálido, era o maior amigo de Abel. Abel:

Sei o que querem, a câmera está aqui. A única coisa que tem nela é a gravação.

Eles ligaram e viram o filme. Curiosa, Jéssica também foi ver enquanto Abel perdia para Reik a segunda rodada. Eles viram que Abel disse as três vezes o nome do espírito e continuava na frente deles, vivo. Ninguém notou a edição para que parecesse que ele falasse a terceira, mostrando a habilidade do garoto em ganhar dinheiro fácil. Reimond:

Cem reais na sua mão.

Victor:

Nunca duvidei de você.

Lucius:

Eu sim, admito.

Todos deram gargalhadas gostosas enquanto Abel pausava a derrota iminente apenas para receber o dinheiro. Ele o guardou na carteira e voltou a jogar, perdendo no momento em que voltou. Abel:

Olha o que vocês fazem! Perdi por culpa de vocês!

Jéssica:

Eles chegaram no final da segunda rodada, e você perdeu a primeira sem dar um golpe sequer no oponente.

Abel:

Isso é só um teste! Pra que ser ignorante com um personagem que eu mesmo fiz?

Victor:

Conversa fiada!

Abel:

Fizeram personagens de que tipo de jogo?

Abel terminava de programar Herbert, o lutador de muay-thai, enquanto conversava. Lucius:

Jogo de tiro.

Victor:

Nossa cara, que básico. Eu fiz de corrida, mais básico ainda.

Reimond:

Fiz de estratégia em tempo real. Deu muito trabalho...

Abel:

Imagino, principalmente porque você adora jogos de criar reinos e destruir dos inimigos. Foi divertido?


Reimond:

O teste foi, venci em menos de cinco minutos. Programei o computador pra ficar na dificuldade fácil.

Abel:

Palhaço, faz como eu! O oponente está na dificuldade máxima! Agora vou testar o último, venham ver.

Todos voltaram as atenções para a tela. Herbert e Reik se olharam feio, Herbert com nojo do oponente e Reik calmo, esperando o golpe do adversário. O aviso de que a rodada começou foi um gatilho para que Abel começasse ganhando a luta. Ele estava feliz, fazendo o que gostava e esqueceu todo o medo que sentiu antes, principalmente depois de vencer a luta. Victor:

Acho que estava no fácil.

Abel:

Te mostro aqui que está na maior dificuldade. Cara, tem uma coisa verde no seu dente.

Victor:

Ah, tem? Jéssica, me empresta seu espelhinho, por favor?

Ela deu o pequeno espelho que usava para se maquiar e Abel foi ao lado do amigo, mostrando onde estava a coisa verde. Abel:

Bem aqui, está vendo?

Victor:

Ah, valeu cara!

O dedo de Abel estava sendo refletido no espelho, e o reflexo começou a apodrecer e em seguida virar pó. Abel rapidamente tirou o dedo da frente do espelho, assustado e com o coração em disparada. Reimond:

Está bem Abel? Parece um tanto “quando” agitado.

Abel:

Quis dizer um tanto “quanto”? Preciso te ensinar gírias e maneiras de falar, urgentemente. E não estou, só senti frio e quis aquecer minha mão.

Victor:

O professor pediu algo alem dos cinco personagens?

Jéssica:

Só eles. E falou que daria uma prova, mas não falou sobre o que.

Lucius:

Adoro as provas dele, são sempre tão diversas!

Abel:

E tão inesperadas. Acho que ele quer que causemos um bug propositalmente.

Reimond:

Vindo dele, isso é esperado.

Os outros alunos começaram a chegar também, os olhos inchados de todo o sono que tinham. Depois de todos chegarem e o sinal tocar, o professor entrou na sala rapidamente, assustando a todos. Uma toca roxa cobria sua cabeça e um bigode grisalho cobria sua boca. Ninguém conseguia ver suas expressões e só sabiam se falava pelo mexer do bigode. Abel:

Senhor Michael, e a prova?

Michael:

Daqui a pouco Abel, que vontade de fazer logo! Bem, tragam para mim seus notebooks, trouxe o meu e o cabo de transferência. Tragam ligados de preferência. Eu apenas copiarei a pasta e colocarei presença no meu caderno. Quando todos tiverem vindo aqui, explicarei a prova prática.


Todos os quarenta alunos que chegaram depois dos cinco primeiros começaram a ligar os computadores. Os primeiros foram até a mesa do professor levando os aparelhos, com exceção se Jéssica que levava os livros. Michael:

Deixe-me adivinhar Abel, jogos de luta?

Abel:

Sou tão previsível?

Michael:

Colocando o nome da pasta de “Lição – personagens de luta” se torna um pouco previsível. Pronto, próximo!

Abel voltou para a mesa e estava inquieto. Olhou para o computador do colega da frente e viu que ele havia feito personagens de luta também. Ele começou a observar o teste dos personagens, mas viu o próprio reflexo. A garota começou a socar ele, como se fosse um jogo de luta. Depois de arrancar a cabeça do reflexo, ela começou a se virar para Abel, com o rosto cheio de sangue. Jéssica:

Aqui está professor querido.

Michael:

Livros? Ah, esqueci que o computador está dentro. Então, o que achou dessa proteção?

Jéssica:

Excelente! Eu recarrego a bateria jogando ele ao chão, com energia cinética e ele não sofre nenhum arranhão!

Michael:

Eu falei que você gostaria. E permite que você leve pra todos os lugares! Mas voltando aqui... Jogos de música? Inusitado vindo de você.

Jéssica:

Suas rugas não são inusitadas para a idade...

Michael:

Touche... Copiei, agora suma daqui antes que eu abaixe sua nota.

Jéssica:

Também adoro você professor.

Abel estava começando a enlouquecer. Em qualquer reflexo que olhava, via a mesma garota destruindo seu corpo, das mais diversas formas. Ele estava empalidecendo novamente e Jéssica percebeu. Jéssica:

Abel Tadeu, aproveite que os outros estão longe e me conte agora por que está assim...

Abel:

Jéssica Colt, você iria rir de mim, como nos velhos tempos.

Jéssica:

Desculpe se você tinha medo de um cavalo por ele achar que você era uma cenoura e estava tentando te morder, e me desculpa se eu estava ocupada rindo, mas foi hilário! Dessa vez eu não rio.

Reimond:

Porque essa cara de ódio professor?

Michael:

Você fez o mais trabalhoso de programar e modelar e eu não posso ficar com raiva de você?

Reimond:

Não, já que consegui.

Michael:

A data aqui no seu computador é dia vinte e oito de outubro. Dei essa lição na semana passada, para hoje. Você demorou sete dias para fazer tudo isso e eu vejo suas pálpebras, não dormiu direito nesses sete dias.


Reimond:

Fins justificam os meios.

Michael:

Amanhã, amanhã, oh amanhã! Copiei já, suma da minha frente.

Abel:

Bem, é isso...

Jéssica:

Abel isso é coisa da sua cabeça. Sabe como perdi meu medo do bicho-papão?

Abel:

Nem sei que tinha medo dele...

Jéssica:

Fiz um desenho dele, pequeno, contra um cavaleiro negro. Mostrei pra mim mesma que eu estava no comando e poderia fazer de tudo contra ele.

Abel:

Quer que eu desenhe ela? Minha habilidade para modelar é uma coisa, pra desenhar é outra!

Jéssica:

Faça como preferir, assim perderá o medo.

Abel:

Outra coisa que eu queria saber. Desde quando veio seu amor por jogos de RPG?

Jéssica:

Meu irmão queria companhia para jogar. Acabei gostando e ficando melhor do que ele. Mago é para os fracos, arqueiro pros covardes e cavaleiros pros realmente corajosos, pois eles vão na linha de frente!

Abel:

Concordo plenamente.

Victor:

E então professor, de bom humor?

Michael:

Não me provoca. Você sempre pergunta isso quando fez algo de errado. Espera, você fez uma sátira de um jogo que virou filme de corrida?

Victor:

Sim, mas já que fiz coisa errada...

Michael:

Tire esse sorriso sarcástico do rosto! Sempre que eu erro, você sorri dessa forma. Ok, já copiei a pasta, pode ir sentar.

Lucius:

Desculpa ser o fracote, mas como mago eu detono todos!

Jéssica:

Quando formos fazer um RPG, vamos ver quem é o melhor. Certo Abel?

Abel:

RPG de duplas? Interessante!

Reimond:

Eu serei o juiz, já que sou péssimo nesses jogos.

Victor:

E eu não sei do que vocês estão falando. Do que se trata o papo?

Abel:

Disputa de duplas de RPG, e parece que você é a dupla de Lucius.

Victor:

Me ferrei, não consigo lutar com ele, sempre quero azarar ele.

Lucius:

É, bem lembrado. Abel, troque de lugar com ele!

Abel:

Oras, já que insiste. Relaxe Jéssica, não vou encostar em você.

Jéssica:

Como um bom cavaleiro.

Michael:

Bem, enquanto os computadores à carvão dos outros alunos estão ligando ainda, colocarei a prova na lousa. Sigam as instruções e até o fim do dia de hoje me tragam um resultado.


O sarcasmo do professor ao se referir aos computadores dos outros alunos os deixou irritados, não que ele se importasse. Com o giz de cera, começou a escrever no quadro negro. Quando terminou, mais dois alunos esperavam o reconhecimento por terem feito a lição. Abel leu as instruções e a atividade que deveriam fazer com entusiasmo. Abel:

Victor você esqueceu seus óculos, permita-me. Tarefa individual temática. Como o dia das bruxas está chegando, muito medo está se espalhando pela cidade. Quero que ele se espalhe por essa sala igualmente, e vocês espalharam ele. Façam um Easter egg no jogo satirizado que fizeram com a lição de casa. Lembrando, quanto maior o terror o easter egg causar, maior a nota. E lembrem-se novamente, joguei os piores jogos de terror existentes criados por homens, então boa sorte em me assutar.

Victor:

E como farei isso num jogo de corrida? A morte vai correr em uma motoca?

Lucius:

O único que se deu bem é Abel, por isso que ele ficou animado.

Abel:

Cara, um jogo de luta! Posso fazer de tudo!

Jéssica:

Tudo mesmo Abel?

Abel:

Tudo.

Abel piscou para a amiga, indicando que iria por em pratica o plano dela. Todos mantiveram silencio enquanto pensavam em algo assustador para colocar nos jogos. Jéssica sabia o que faria, uma música tema de jogos de terror, e conforme o jogador tocava errado, ia morrendo e não perdendo publico. Se ele ganhasse, também morreria. Reimond teve um pouco de dificuldade, pois tinha que criar hordas de monstros horripilantes do começo, já que não tinha uma base que pudesse ajudá-lo. Cada vez que modelava o soldado, já o programava para ter as habilidades mais horrendas, fazendo com que o jogador desista pelo que está vendo ou perca, por ser impossível vencer. Victor fez o que ele brincou em fazer. No jogo que ele fez, não tem como bater os automóveis e destruí-los. Não importa o quão feroz era o impacto, o carro permanecia intacto, porem ele faria a morte perseguir o carro que bateu. Todos os jogadores viriam a perseguição, e o corredor não poderia fazer nada contra ela. Se o carro que estivesse sendo perseguido fosse o jogador, ele veria que o cenário virou o inferno, cheio de labaredas e demônios vendo ele sendo subjulgado. Lucius não tinha muito o que fazer. Ele apenas fez o jogo, como se fosse uma guerra comum. Se o jogador vencesse sem ser atingido por uma bala sequer, ele seria chamado por um general que o levaria ao inferno, e lutaria contra demônios grotescos e amedrontadores. Abel via seu reflexo e viu quando a garota apareceu, mas ela não fez nada dessa vez. Apenas ficou observando o que ele fazia, com curiosidade maior a vontade de matar o


homem. Ela viu no reflexo dos olhos dele que ele estava modelando uma personagem igualzinha a ela em qualquer aspecto, roupa, cabelo, rosto, tudo. Quando a programou, ela assistiu atenciosa a luta de teste, quando Abel hesitou e voltou à tela de programação. Abel:

Sendo esse um easter egg de terror, tenho que pensar em algo inusitado.

Abel inseriu diversos códigos na programação do jogo e Mary não entendia nada daquilo, então lhe restou esperar a luta de teste. Quando começou, ela ficou até contente. O garoto não a menosprezou, deu habilidades e movimentos bons para a garota, mas mesmo assim estava ganhando, o que enfurecia o espírito. Quando Mary atacava no jogo, ele travava ligeiramente e aconteciam diversos efeitos. As cores poderiam se inverter, ficar em tons de cinza, mostrar tudo com sangue jorrando, mas o pior era quando Mary vencia a luta. Mostrava com todos os detalhes o personagem usado morrendo, com os olhos sendo arrancados. Pra piorar e deixar o jogador ainda mais assustado, ele desabilitou a opção de pausar o jogo e de fechar o jogo. Ao tentar pausar, Mary tornava tudo escuro e o jogador morria instantaneamente, com um grito com a voz dele e mostrava Mary contente e toda ensanguentada. Ao tentar fechar, o jogo fechava e logo depois abria com apenas o rosto de Mary, todo ensanguentado e cinza, com o sorriso de piranha. A imagem gigante era de arrepiar a qualquer um. Ao vencer Mary, o personagem é mostrado indo ao hospital, onde morre. Abel se sentiu contente no controle da situação, sabendo de todas as capacidades de Mary e ela gargalhava na outra dimensão. Mary:

Ele acha mesmo que esse truquezinho pode me deter? “Olha só, eu coloquei ela no meu joguinho bobo, agora não tenho medo!” Que loucura humanidade! Não sabia que seu desespero podia chegar a níveis tão grandes!

Abel mostrou o jogo ao professor, que ficou realmente assustado depois de executar o comando de fechar o programa. Michael:

Olha Abel, só não tenho um ataque por causa do meu marca-passo. Parabéns, nota máxima. Não mostre isso pra mais ninguém, quero ver a surpresa no rosto deles, se é que me entende.

Abel:

Rosto, sim entendi.

Abel voltou contente ao lugar e Jéssica se ergueu para mostrar ao professor o trabalho. Ele tocou a música com eximia perfeição e viu o personagem usado morrer bruscamente, numa explosão de órgãos. Ela pediu para jogar de novo, só que sem tocar nada. Ele fez como pedido, e viu cada pedaço de carne do personagem caindo conforme errava as notas. Ao errar tudo, ele caiu ao chão, e sua alma saiu. A alma se aproximou da tela e ameaçou o jogador por ter jogado fora sua vida. Jéssica:

Nota máxima?

Michael:

Achei interessante, mas não me assustou. Abel me assustou, por isso dei nota máxima. Pra você, nota nove, ok?


Ela voltou ao lugar. Isso se sucedeu o resto do dia, e eles voltaram cada qual para sua casa. Abel foi de ônibus com Jéssica. Jéssica:

Se sente melhor?

Abel:

Muito. Obrigado Jé!

Mary:

Mortal. Pena que não me ouve, se não eu iria xingar tanto ele! Mais dois dias Mary, acalme-se. No dia das bruxas, como sempre, seu potencial será máximo.

Voltaram conversando sobre tudo o que já fizeram juntos, sobre as festas de aniversário constrangedoras em que cantavam que os dois iriam se casar, sobre suas famílias sempre acharem que ambos estudavam muito para crianças. Jéssica se encostou no ombro de Abel e suspirou. O rosto de Abel corou muito e ele a abraçou de forma carinhosa. Ele sentia o cheiro de seu perfume e se perdia em pensamentos. Mary assistia tudo e ria ainda mais. Mary:

Sei o que fazer. E ele vai me convocar para que tudo pare. Ah, como sou maldosa! Nem eu me aguento.

A gargalhada dela era o barulho mais comum na dimensão, então ninguém deu atenção. Abel jantou com a família. Os pais já haviam jantado, então ele ficou sozinho com a irmã. Abel:

Faz tempo que não te vejo jantando. Porque não come tanto Nataly?

Nataly:

Pelo mesmo motivo que você saiu mais cedo hoje, produtividade.

Abel:

É uma indireta?

Nataly:

Não, quero ser tão produtiva quanto você, só que em química.

Abel:

Um brinde para nós, estudantes que desejam mais tempo para trabalhar e que queremos que cada hora tivesse noventa minutos.

Nataly:

E que o dia fosse feito por quarenta e oito horas.

Brindaram com seus copos em que tomavam cerveja. Foram dormir depois de jantar, e Abel teve outro pesadelo. Ele estava passeando pelo parque com Jéssica, indo para um piquenique. Eles sentaram na grama e tudo começou. A grama começou a pegar fogo, as árvores se tornaram demônios enfurecidos e Abel se virou para Jéssica, que tinha virado Mary. Mary:

E quanto àquele beijo que me daria?

Abel:

Você fala?

Mary:

Falei com você ontem, porque não falaria?

Abel:

O que você quer?

Mary:

Já lhe falei.

Abel:

Se o que falou é verdade, como consegue interagir comigo? Não lhe convoquei!


Mary:

Não percebeu que está perdendo a sua cor? O espelho reflete a alma, mesmo que mostre apenas a aparência física. Eu estou lentamente destruindo sua alma mortal patético!

Abel:

Porque faz isso?

Mary:

Bem, ninguém brinca comigo, e você o fez. Não me convocou por completo, me deixando perdida. Agora, vai sofrer, simples certo?

Abel:

Não! Eu não sabia que você é de verdade!

Mary:

Agora sabe. Mais um dia para você me convocar por completo, se não sua família também vai sofrer muito.

Abel:

Meia noite conta como o outro dia?

Mary:

Por quê? Tem medinho do dia das bruxas?

Abel acordou como na noite passada. O coração acelerado e respiração igualmente acelerada. Ele tomou rapidamente o café e fez como no dia anterior, se arrumou e foi para a escola. Ao ir para o ponto de ônibus, olhou para a casa. Toda amarela, com uma grande janela na direção da sala de estar, e outras pequenas nos quartos. Uma grande garagem para dois carros e uma porta branca delicada. Logo, aquilo seria pintado com o sangue de todos. Abel:

E tudo começou graças a uma aposta besta! Eu mereço... Como vou me livrar dela?

O ônibus chegou e ele entrou, sentando ao lado de Jéssica, que dormia. Ele pensava em como poderia se livrar dela, até que Jéssica acordou. Ela viu a palidez no rosto do amigo e lhe abraçou carinhosamente. Jéssica:

Me diga o que lhe aflige.

Abel:

Não adiantou nada... Ela continua me assustando.

Jéssica:

Pela sua palidez, acho que é verdade. Outro pesadelo?

Abel:

Sim. No dia das bruxas ela estará mais forte ainda. Ela poderá sair do espelho e me pegar sem que eu a convoque!

Jéssica:

Impossível, ela requer que seja convocada! Ela deve ficar poderosa mesmo! Mas nada que sal grosso não resolva.

Abel:

Sal grosso? Seu pai não pode ajudar? Ela é uma alma, e ele é padre. Ele pode enviar a alma para longe!

Jéssica:

É, pode dar certo.

Eles discutiam o caminho todo maneiras de atrasar ou vencer Mary, toda e qualquer maneira possível. Quando desceram e foram para a sala, os amigos já estavam lá. Eles começaram a discutir com eles sobre o que fazer e como proceder, quando todos entraram e o professor também. Ele pediu os notebooks para Victor, Reimond e Lucius. Eles levaram e abriram os jogos customizados. O professor começou pelo de Victor. Ele jogou normalmente, até que deu uma batida


violenta que fez o primeiro colocado dar um cavalo de pau e bater no terceiro. A morte veio e levou ambos. Quando o professor bateu, a tela começou a tremer e o cenário mudou, se tornando o inferno e o professor tentava inutilmente fugir da morte. Michael:

Muito inteligente, gostei da sacada. Não me assustou, mas foi inteligente. Nota nove.

Reimond chegou e colocou o note na frente do professor. Ele inicializou o jogo e Reimond começou a ficar se balançando, inquieto e ansioso. Michael:

Pode me falar porque está fazendo isso? Seria um rito de procriação nerd?

Reimond:

Nein, coloque algum código professor!

Michael:

Não sei nenhum e abomino quem usa. Me abomino, sabia?

Reimond:

Aperte enter e digite abandoned mine, com o caps lock ligado. É o código para ganhar dez mil de ouro.

O professor inseriu o comando no computador e apertou novamente enter. Ele ganhou a recompensa e todos os inimigos no mapa se tornaram demônios. Eles rapidamente destruíram o castelo e os exércitos do jogador e uma mensagem apareceu. Dizia “Sem códigos!” com letras vermelho sangue intenso. Michael:

Parece mais uma tentativa de deter trapaças. Nota sete pelo esforço.

Victor:

E então Abel, porque esse medo de espelhos? Você gosta tanto de parar na frente de um e se ver!

Abel:

Caramba, tá tão na cara assim?

Jéssica:

Eu não queria falar nada, mas...

Victor:

Vai abri o jogo ou eu tenho que chutar?

Abel:

Cara, primeiro promete que não vai rir nem nada.

Victor:

Nesse caso, farei o possível.

Abel:

Lembra da aposta que eu ganhei?

Victor:

O que tem ela?

Abel:

Bloody Mary realmente existe, e está me perseguindo!

Victor:

Faz sentido...

Abel:

Pode dar risada, sei que quer.

Victor:

É verdade cara! E relaxe, vou rir quando estivermos longe assim você não se magoa.

Abel:

E não sabemos como nos livrar dela... Aliás, sabemos, mas é arriscado demais...

Victor:

Tem um prazo?

Jéssica:

Até o dia das bruxas.


Victor:

Na boa, procura não fazer nesse dia. Assombrações sempre ficam mais fortes em dias simbólicos ou eclipses.

Abel:

Sei disso, mas não tem jeito... nós só conseguiremos por em pratica o plano amanhã, que é o dia das bruxas!

Lucius:

E então professor, pronto para seu espanto?

Michael:

Não comece a me irritar Lucius, você tem o dom de me incomodar.

O professor jogou como o aluno disse, se esquivando de tudo e todos, e depois, o general semimorto o convocou e o professor foi a guerra. Ele foi e lutou contra todo o tipo de abominação, e perdeu. Michael:

Adorei. Esse me fez prender o fôlego. Nota dez, e apenas Abel tinha tirado essa nota. Parabéns rapaz.

Victor:

Cara, faz de tudo pra se manter longe e não se assustar. Esses caras se alimentam do medo. A ficção deveria ter alguma inspiração com a realidade, certo?

Abel:

Faz sentido... Mas e unicórnios?

Jéssica:

Às vezes tem exageros...

No fim da aula, Abel foi pegar o ônibus com Jéssica e notou algo na cidade. Os postes de luz estavam com abóboras enfeitadas sobre eles, transmitindo uma horrenda e agourenta luz laranja. Abel:

Acha que consegue ainda hoje?

Jéssica:

Gostaria de ter mais tempo, mas consigo. Acho. Farei o possível.

Eles subiram no ônibus e pacientemente esperaram que chegassem ao ponto em que Abel descia. Ele desceu e dois pontos depois Jéssica desceu. Ela rapidamente entrou e foi falar com a mãe. Jéssica:

Mamãe! Onde você está?

Uma mulher jovem e ruiva saiu do banheiro erguendo as calças. Mãe:

Não posso nem fazer minhas necessidades biológicas em paz? O que foi querida?

Jéssica:

Você me disse que um doador de esperma havia ligado pra você e queria saber se estava passando bem na gravidez, lembra?

Mãe:

Faz tempo... Mas lembro sim, porque?

Jéssica:

Gostaria de falar com o papai, se não se importa.

A jovem mãe entregou o telefone para a filha e um papel anotado um número. Beijando-lhe a testa, afirmou que faria a janta. Jéssica rapidamente digitou os números e ansiosamente aguardou o telefone ser atendido. Depois da quarta chamada, ele foi atendido. Jéssica:

Alô, senhor Fredo?


Fredo:

Sim, o que deseja?

Jéssica:

Gostaria de conversar. Sou sua filha!

Fredo:

Eu reconheci o número, achei que era sua mãe. Me diga, filha, no que posso ser útil depois de tanto tempo?

Jéssica:

Bem, não sei como te explicar isso por telefone, mas meu querido amigo está sofrendo com um espírito.

Fredo:

Alucinações?

Jéssica:

Não, está sofrendo de verdade. Ele geralmente é bronzeado e de um dia para o outro o rosto dele ficou muito pálido. Como se a alma dele estivesse morrendo.

Fredo:

Ah, com certeza não é uma alucinação. Estou indo aí de imediato. Chego amanhã, tudo bem?

Jéssica:

Tudo perfeito, precisamos de você no máximo até para amanhã mesmo.

Fredo:

Quando eu chegar me explique os detalhes.

Jéssica desligou agradecendo. Ela foi até a cozinha e beijou o rosto da mãe agradecendo também. Ela ligou para a casa de Abel em seguida. Jéssica:

Olá, Abel está? É a amiga dele Jéssica, gostaria de conversar.

Nataly:

Ah, minha cunhada! Já vou passar para ele.

Jéssica se enervou ao receber a resposta, mas quando Abel falou, se acalmou e se sentiu bem. Abel:

Diga minha cara, o que foi?

Jéssica:

Consegui falar com meu pai. Amanhã ele estará aqui. Tem tudo o que precisa na sua casa?

Abel:

Sim, tudo na cozinha. Vai fazer sua segunda parte?

Jéssica:

Eu liguei pra confirmar se fazia ou não, sei lá, acho meio estranho... Será que ela é tão trouxa assim?

Abel:

Se fizermos como planejado, e tudo correr como planejado, vai dar certo e ela vai se cansar. Momento perfeito pro seu pai agir.

Jéssica:

Então eu faço? Ainda acho estranho.

Abel:

Mesmo sendo estranho, funciona. Faça e eu serei eternamente grato.

Jéssica:

E como pretende demonstrar a gratidão?

Abel:

Minha irmã falou contigo. O que ela disse?

Jéssica:

Ah, o de sempre. Me chamou de cunhada, só isso.

Abel:

Bobinha. Preciso desligar, vou jantar. Obrigado mais uma vez, e até amanhã.

Jéssica:

Durma bem, lembre-se das dicas do Victor. Beijos e boa noite querido.


Jéssica desligou e foi tomar banho. Mal sabia ela que Abel estava fazendo o mesmo. O amaldiçoado jantou e foi se deitar cedo. Ele conseguiu rapidamente pegar no sono. Ele se viu em frente ao espelho no sonho, e Mary refletida no espelho. Mary:

O tempo está acabando...

Abel:

Se eu não te convoquei, como está aqui?

Mary:

Durante os sonhos, nossas almas viajam, por isso não sentimos o corpo. Consigo interagir com sua alma assim. É bom me convocar amanhã, se não toda a sua família e sua “querida” vão junto.

Abel:

Ei, nada de meter a Jéssica no meio disso tudo. Ela não tem culpa de nada!

Mary:

Tem sim, ela te acalma. Ela fez com que você evitasse todos os reflexos hoje, por isso não te ataquei. E sua família também não tem culpa, mas gosto de espalhar sangue extra. Vou deixar que durma em paz, já foi perturbado de mais.

A risada maligna dela ecoava por toda a cabeça de Abel. Ele se viu fora do banheiro e vagando em um local vazio, a única coisa que via era o cinza do chão e o preto da paisagem, nada mais. Ele vagou pelo local, sem saber para onde ir. Uma luz azul começou a brilhar intensamente e decidiu segui-la. Chegando mais perto, viu que se tratava de uma pessoa. Um homem velho, de óculos e calvo. Uma barba branca e charuto em sua boca indicavam experiência de um famoso psicólogo. Abel:

Freud?

Freud:

Exato. Por estarmos em teu sonho garoto, falo em uma língua que compreendes, e não em minha língua natal. O que o traz aqui?

Abel:

Tenho sonhado com um espírito, que quer me matar...

Freud:

Há apenas um significado para isso garoto. Fuja. Ela já me pegou.

Abel viu ectoplasma azul saindo do espírito e ele se tornando cada vez mais transparente. Correu sem olhar para trás, e acordou suando. Se arrumou e foi para o ponto de ônibus. Jéssica estava dessa vez acordada ao seu lado. Ela parecia sorridente, mesmo com o clima tenso de tempestade se aproximando. Jéssica:

Bom dia raio de sol! Como dormiu?

Abel:

Na cama oras, de que outra forma iria dormir?

Jéssica:

Engraçadinho. Minha mãe vai nos buscar hoje. Ela tem no porta-malas o que queremos.

Abel:

Uma boa noticia depois de tanto tempo. Ah, queria te contar uma coisa.

Jéssica:

Diga, somos amigos há tanto tempo, não precisa ter vergonha.


Abel:

Bem, só tive coragem para dizer isso depois de ser ameaçado de morte. Você é tudo o que me torna feliz Jéssica, a razão de eu existir e lutar, e principalmente querer destruir Mary. Com você do meu lado me sinto invencível.

Jéssica:

Fala logo que me ama. Também te amo.

Abel:

Desde quando?

Jéssica:

Há um tempo. Não vamos ter tempo para festejar muito, precisamos arrumar a armadilha para Mary, mas uma coisa posso te garantir.

Jéssica agarrou o pescoço de Abel e lhe beijou com intensidade e paixão pura. Ele se sentiu verdadeiramente bem em todo esse tempo. Desceram e de mãos dadas foram para a sala. Não houve nada de mais, Michael havia pegado os notebooks de todos os alunos e separado em gêneros. Os alunos que estivessem a fim jogariam, e havia uma plaquinha ao lado de cada monitor indicando como ativar o segredo. Abel se divertiu ao lado da nova namorada e dos amigos, mas o sorriso sumiu quando teve de voltar para casa. A mãe de Jéssica os esperava do lado de fora, Abel entrou e rapidamente pôs o cinto. A mãe de Jéssica disse para os dois pombinhos não tentarem nada no banco de trás. Depois que riu suavemente Abel notou ser uma brincadeira. Abel foi deixado em sua casa e pegou o embrulho de seu tamanho no porta-malas. Jéssica prometeu que voltaria o quanto antes, e enquanto isso Abel estava se preparando. Em um local onde não havia reflexos em sua casa, a garagem vazia, ele gravou a própria voz. Abel:

Bloody Mary, Bloody Mary, Bloody Mary. Isso deve bastar.

Depois de falar o terceiro nome, desligou o gravador. Levou o embrulho ao banheiro e abriu ele. Pegou algo na cozinha e fez um circulo em volta do conteúdo do embrulho e ligou o chuveiro na temperatura máxima. Fechou as janelas e depois de um tempinho, desligou o chuveiro. A fumaça era muito densa. Ele colocou o gravador na pia e o ligou. Rapidamente pegou a chave do banheiro e o trancou do lado de fora. Mary estava em êxtase. Ela ouviu o nome ser chamado pela terceira vez e uma grande fenda embaçada aparecer. Ela adentrou a fenda e pulou no pescoço do que assumia ser Abel. Ela unhou o pescoço daquilo e arrancou a cabeça. Quando esmagou, notou algo. Mary:

A cabeça de um humano não é assim tão dura, e esse líquido tem um cheiro estranho, parece cera.

Ela assoprou e abanou o ambiente. Quando conseguiu ver tudo, enfureceu-se mais ainda. Jéssica havia feito uma impressão 3d de Abel em escala real, e com o ambiente cheio de fumaça ela não conseguia ver, principalmente cega de raiva. Ela tentou voltar para o espelho, mas ao estender a mão, foi barrada por uma energia invisível que fez a mão do espírito queimar de leve. Mary:

Esse mortalzinho irritante fez um circulo de sal grosso para me prender? Muito astuto, principalmente discutir o plano com a amiguinha onde não haja


reflexos, mais astuto ainda. Mas ainda assim, burrice. Estamos no Halloween. Se não posso ir para os lados, posso subir. Subir está fora de questão, o teto está muito longe. Então, para baixo. Ela começou a socar o chão com violência. Quebrou o chão e continuou socando até quebrar totalmente e cair na sala. No momento em que caiu, viu que o circulo se desfez durante a escapada. Quando se virou para trás, viu um casal idoso perplexo na sala com duas poltronas e uma mesa de centro onde apoiavam os pés. Descendo da escada viu Nataly, que era como Mary só que bronzeada. Mary:

Bela garota. Conhece Abel?

Nataly:

E se conhecer? Ele é meu irmão, o que deseja com ele?

Mary:

Conhecê-lo melhor.

Nataly:

Que bom, ele acabou de voltar.

Mary se virou para a porta e viu um padre sendo empurrado por Abel e Jéssica. Padre:

Esse é o espírito querida?

Jéssica:

Sim papai, faça o que deve ser feito.

Fredo:

Pelos poderes a mim investidos e pela cruz que carrego em minhas mãos, vá embora espírito! Não atormente essa família e tire seu descanso eterno nos braços divinos!

Mary:

Achei que eram mais espertos do que isso. Patético.

Mary simplesmente alongou as garras e perfurou o estômago do religioso. Arrancou suas vísceras e passou as unhas pelo próprio rosto, espalhando o sangue puro e aumentando o pavor que o casal sentia. Eles correram desesperadamente pelas ruas cheias de crianças vestidas dos mais diversos monstros, esqueletos, fantasmas, até piratas. A mulher do casal se levantou e foi falar com Mary, dizendo que achou a fantasia incrível. Mary:

Agradeço dona, porem, me viu. Deve sofrer. Se alguém souber que perambulo no terreno dos vivos, me matam.

Mary com as garras ainda estendidas arrancou ambos os olhos da senhora. Fez o mesmo com o senhor, espalhando sangue pelo cômodo todo. Quando se virou para a versão mais bronzeada de si, viu que empunhava um revolver em sua direção. Mary:

Não acredito que uma moça da ciência vai atirar em um espectro com isso! Quer ver se sou de verdade? Tudo o que houve não é prova o suficiente?

Ela disparou, que fez Mary cambalear para trás. Olhando para o chão, viu que era uma bala de sal grosso e que Nataly mantinha-se firme. Mary:

Perdão por ter subestimado você, mas ainda é burra. Deveria ter atirado e corrido.

Mary a pegou pela cabeça e pelo estômago, separando a cabeça e coluna cervical do resto do corpo. Ela foi para a porta e viu o casal longe. Ela começou a gargalhar e como


um espírito demoníaco, gargalhou enquanto os caçava. Nenhum humano a tocava, mas ela podia tocá-los e matá-los traçando seu caminho. Quando chegou perto o suficiente, deu um chute que torceu os joelhos de Abel para trás. Desesperada, Jéssica tentou socá-la. O soco atravessou o fantasma, mas ela a pegou pelos cabelos e tirou ela do chão. Mary:

Vê? Isso que acontece quando alguém brinca com alguém da minha estirpe. Geralmente, não posso atacar crianças nem adolescentes, mas matei o espírito que os protegem, então nada pode me deter de me divertir hoje, e talvez chamar alguns amigos.

Mary cortou a jugular de Jéssica e com seus poderes sobrenaturais a deixou de ponta cabeça no ar, com o sangue escorrendo na cabeça do amado, que chorava de dor e medo. Mary:

Então, aprendeu Abel?

Abel:

E daí se eu aprendi? Não adianta! Não tem como te deter!

Mary:

Modéstia a parte, concordo plenamente.

Mary arrancou os olhos de Jéssica e os devorou com mordidas diabólicas para colocar mais terror no coração do jovem. Jéssica parou de se sacudir depois de devorado o segundo olho. Mary começou a se transmutar, com a boca de piranha, garras gigantes, rosto cheio de sangue e olhos escorrendo lágrimas de sangue. Mary:

Mais uma coisa, mortal tolo. Feliz Halloween.

Sem piedade, arrancou os olhos, nariz, rosto, cérebro, cada órgão e músculo do corpo do rapaz em retaliação por ter feito ela se perder devido a uma aposta boba. Ela se sentia bem, se sentia viva. Pronta para o banquete do dia das bruxas. Sua gargalhada marcou a noite como inesquecível. Uma carnificina se instalou e ela não chamou amigos, tampouco inimigos. Bloody Mary estava solta, devido ao ato imprudente de um adulto com uma aposta infantil.

Bloody Mary  

Em comemoração ao Halloween!

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