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Escola Nacional de Ciências Estatísticas Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais

ENCE

LARISSA DE SOUZA OLIVEIRA VICTORIO

CARNAVAL E TRABALHO: estudos de caso.

Dissertação de Mestrado

Rio de Janeiro/RJ Setembro de 2010


Escola Nacional de Ciências Estatísticas Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais

ENCE

LARISSA DE SOUZA OLIVEIRA VICTORIO

CARNAVAL E TRABALHO: estudos de caso.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da ENCE/IBGE como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais.

Orientador: Profa. Dra. Moema De Poli Teixeira

Rio de Janeiro/RJ Setembro de 2010 2


LARISSA DE SOUZA OLIVEIRA VICTORIO

CARNAVAL E TRABALHO: estudos de caso.

Esta dissertação foi julgada e aprovada para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais no Programa de PósGraduação em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro e Geografia e Estatística (ENCE/IBGE).

Rio de Janeiro, 03 de Setembro de 2010.

BANCA EXAMINADORA

Profa. Dra. Moema De Poli Teixeira (Orientador) ENCE/IBGE

Prof. Dr. Cesar Ajara ENCE/IBGE

Profa. Dra. Leila Maria da Silva Blass

PUC/SP

Rio de Janeiro/RJ Setembro de 2010

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Agradecimentos Agradeço sinceramente a todos aqueles que nessa caminhada contribuíram para que eu pudesse estar hoje concretizando mais esse sonho em minha vida. Primeiramente, gostaria de agradecer aos meus pais e ao meu irmão por todo apoio dado durante essa jornada, tanto no sentido material como no carinho e incentivo para que eu seguisse sempre em frente. Agradeço aos meus avôs Cecília e Djalma Victorio (in memorian) por deixarem como herança, além do exemplo de vida a ser seguido, o amor ao carnaval, motivação principal para a realização deste trabalho. Um agradecimento especial para minha “dinda” Ângela Victorio, pelo incentivo e pelo material bibliográfico cedido. Sem vocês jamais conseguiria chegar até aqui. Meus sinceros agradecimentos à professora Moema que desde o início acreditou no meu trabalho, obrigada pela orientação, paciência e apoio. Aos companheiros de ENCE, Maria Cristina, Angelita, Rafael, Rafaela, Herleif e todos outros que fizeram parte dessa caminhada Aos meus queridos amigos que sempre estiveram presentes ao longo da vida, em especial ao meu grande amigo Edmar, que vem compartilhando comigo desde a graduação as dores e as delícias da vida acadêmica; à amiga que a ENCE trouxe e que já faz parte da vida, Bárbara, muito agradecida pela assessoria técnica e suporte emocional. À Renata Santos por toda força e ajuda fundamentais nessa reta final. Meus sinceros agradecimentos a José Ronald Noronha Lemos, Ari Élcio Abreu, Elisa Fernandes e Aline Lima, por terem aberto as portas dos barracões para mim. Um agradecimento especial à família São Clemente, representadas nas figuras de Roberto e Renato Almeida Gomes, que desde o primeiro contato se mostraram abertos e dispostos a contribuir com a pesquisa, muito obrigada tudo. Ao pessoal da Amebras, em especial Célia Domingues e Rose por possibilitarem a realização dessa pesquisa. Agradeço especialmente a todas as pessoas entrevistadas pela disposição e boa vontade em participarem dessa pesquisa, vocês foram fundamentais para a concretização deste trabalho. Aos professores e funcionários da ENCE por nos guiar durante essa jornada. E ao IBGE pelo suporte financeiro e institucional de suma importância para a realização dessa pesquisa. 4


“Glória a quem trabalha o ano inteiro Em mutirão São escultores, são pintores, bordadeiras São carpinteiros, vidraceiros, costureiras Figurinista, desenhista e artesão Gente empenhada em construir a ilusão E que tem sonhos.” (Martinho da Vila - Pra tudo se acabar na quarta-feira)

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RESUMO

Esta dissertação tem como objetivo buscar uma maior compreensão acerca do processo de produção de um desfile de escola de samba, em especial o trabalho realizado nos barracões. Para isso apresento dois estudos. O primeiro consiste em um estudo de caso sobre o Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente, utilizando como base de dados o cronograma financeiro para o carnaval de 2010 cedido pela direção da escola. O segundo estudo se refere aos alunos do Plano Setorial de Qualificação (PlanSeQ) dos Trabalhadores para a Indústria do Carnaval - Segmento Escola de Samba na cidade do Rio de Janeiro. Esta pesquisa teve por objetivo levantar um diagnóstico inicial das características dos indivíduos inscritos no PlanSeQ, através da aplicação de questionários in loco, onde foram levantadas informações referentes a variáveis econômicas e demográficas, sendo auferidas questões sobre cor ou raça, família, escolaridade, trabalho e rendimento.

Palavras-chave: Carnaval, Escola de Samba, Trabalho, Qualificação profissional, PlanSeQ.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 11 CAPÍTULO 1: HISTÓRIA DO CARNAVAL .......................................................... 15 1.1 – Origens do Carnaval ................................................................................ 15 1.2 – O Entrudo Português ............................................................................... 16 1.3 – O Entrudo no Brasil ................................................................................. 19 1.4 – Os Bailes .................................................................................................... 21 1.5 – O Corso ..................................................................................................... 23 1.6 – O Zé-Pereira ............................................................................................. 25 1.7 – As Grandes Sociedades Carnavalescas .................................................. 26 1.8 - Os Cordões Carnavalescos ....................................................................... 30 1.9 – Os Blocos Carnavalescos ......................................................................... 32 1.10 – Os Ranchos Carnavalescos ..................................................................... 34

CAPÍTULO 2: HISTÓRIA DAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO...................................................................................................................... 37 2.1 - A Gênese das Escolas de Samba do Rio de Janeiro .................................37 2.2 – Transformação e consolidação do desfile das Escolas de Samba como um espetáculo de massa ..................................................................................... 40 2.3 – Estrutura Institucional Formal ................................................................ 49 2.4 - Escolas de samba: composição estrutural ............................................... 50 2.5 – A Organização dos Desfiles ...................................................................... 52 7


2.5.1 – Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial – Carnaval 2010.................................................................................................................. 53 CAPÍTULO 3: O TRABALHO NA ESCOLA DE SAMBA .................................... 59 3.1 – Barracão: A unidade produtiva ............................................................... 59 3.2 – Carnaval e trabalho: significados ............................................................ 61

CAPÍTULO 4: ESTUDO DE CASO: G.R.E.S. SÃO CLEMENTE ....................... 65 4.1- G.R.E.S. São Clemente a escola do bairro de Botafogo .......................... 65 4.2 – A estrutura organizacional ....................................................................... 73 4.3 – Estrutura Produtiva do G.R.E.S. São Clemente – Carnaval 2010 ....... 75

CAPÍTULO 5: O PLANO SETORIAL DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL PARA A INDÚSTRIA DO CARNAVAL – SEGMENTO ESCOLA DE SAMBA.......................................................................................................................... 90 5.1 - Perfil Socioeconômico dos Beneficiários do PlanSeQ- Indústria do Carnaval .............................................................................................................. 94

CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 101

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 105

ANEXO A ................................................................................................................... 108

ANEXO B ................................................................................................................... 116 8


LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Distribuição dos Gastos Setoriais e Intra-setoriais (2010) ...................... 78

Tabela 2: Pessoal Ocupado por setor (2010) ............................................................. 81

Tabela 3: Remuneração por hora segundo ocupação para o Estado do Rio de Janeiro e para o G.R.E.S. São Clemente (2010) ........................................................ 88

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Distribuição dos gastos da escola por setor (2010) ................................. 76

Gráfico 2: Participação dos gastos com pessoal no total dos gastos da escola (2010).............................................................................................................................. 80

Gráfico 3: Gastos com pessoal por setor (2010) ........................................................ 80

Gráfico 4: Distribuição do pessoal ocupado por setor, exceto Despesas da Avenida (2010) ............................................................................................................................. 82

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INTRODUÇÃO

Há muito que o carnaval brasileiro desperta o interesse acadêmico1. A forma como esse rito se desenvolve e se transforma está diretamente relacionada às origens da formação do Brasil enquanto nação. O carnaval é por si só fruto e expressão da brasilidade e do jeito de ser brasileiro. Para Roberto Da Matta (1997), a ambiguidade presente na sociedade brasileira é refletida no ritual do desfile carnavalesco, onde hierarquia e princípios igualitários se embaralham na passarela do samba, homogeneizando indivíduos que se tornam um todo no momento da apresentação da escola de samba. Ao longo dos anos, a maior festa popular brasileira e suas distintas formas de manifestação passaram por uma série de transformações, sobretudo, no que se refere ao fenômeno “escola de samba”. Surgidas em 19282 na cidade do Rio de Janeiro, rapidamente se espalharam pelo Brasil. A princípio em São Paulo, onde se estabeleceram com força e onde as escolas crescem vigorosamente3. Hoje são também encontradas em outros estados como Santa Catarina, Espírito Santo e Maranhão4. Em 82 anos de existência, as escolas de samba formaram uma identidade própria e consolidaram um padrão estético que se desenvolveu acompanhando as mudanças do seu tempo. Elas não só sobreviveram durante o forte processo de modernização e industrialização, como também se adaptaram ao crescimento urbano e ampliaram suas bases de influência. O samba e as escolas de samba, antes marginalizados, caíram no gosto da classe média e se tornaram mais do que 1

Cf. Araújo; Jório (1969); Cabral (1974); Goldwasser (1975); Leopoldi (1978); Rodrigues (1984); DaMatta (1997). 2

Cf. Valença, 1994.

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Vale lembrar que as escolas de samba possuem suas singularidades e diferentes configurações de acordo com a região ou estado do Brasil. Com relação às escolas de samba de São Paulo, as diferenças estão basicamente na marcação da bateria e no próprio samba que tem origem rural e influências do samba de umbigada, trazido do interior do estado de São Paulo e de Minas Gerais para a cidade de São Paulo, diferente do caso carioca que é fortemente marcado pela tradição urbana. 4

<http://www.mte.gov.br/editais/chamada_publica_029_2009_carnaval_escol. pdp>. Acesso em 13 mar. 2010.

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manifestações populares, ultrapassaram as barreiras da cultura de classe e são, no caso do Rio de Janeiro, principais componentes do programa de promoção ao turismo da cidade. Os desfiles das escolas de samba alcançaram reconhecimento oficial e visibilidade internacional, se tornando um produto extremamente rentável que movimenta milhões de reais por ano. A trama de complexas relações sociais e de atores que interagem em torno da produção do espetáculo do carnaval revela, ao longo da sua evolução histórica, uma série de transformações no padrão cultural dos desfiles de escola samba e nas interações sociais presentes em seu interior. Além das mudanças no lado visual dos desfiles também podem ser percebidas alterações no padrão administrativo, operacional e comercial das grandes escolas de samba. Nesse sentido, as escolas geram diretamente milhares de postos de trabalho e movimentam uma extensa cadeia produtiva que atinge desde os fornecedores de insumo até a indústria do turismo, televisiva e fonográfica, sem contar com o comércio informal urbano que, na cidade do Rio, aumenta significativamente nos dias de carnaval. O interesse pela temática mercado de trabalho, que me acompanha desde o curso de graduação em Economia, aliado ao amor pelo carnaval, herança de família, serviram de motivação para a realização deste estudo. Assim, o presente trabalho, sob a luz da evolução histórica dos desfiles carnavalescos, tem como objetivo buscar uma maior compreensão do processo de produção de um desfile, em especial aquele que envolve o trabalho realizado nos barracões das escolas de samba. Nesta dissertação apresento dois estudos. O primeiro consiste em um estudo de caso sobre o Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente no carnaval de 2010. O segundo estudo se refere aos alunos do Plano Setorial de Qualificação (PlanSeQ) dos Trabalhadores para a Indústria do Carnaval - Segmento Escola de Samba na cidade do Rio de Janeiro. Além desta introdução e da conclusão, cinco capítulos compõem esta dissertação.

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O Capítulo 1 apresenta o Carnaval sob uma perspectiva histórica, da sua origem como parte dos festejos dos ciclos anuais agrícolas há 10 mil A.C., passando pelas manifestações sob a forma do Entrudo em Portugal e no Brasil. Mais especificamente, o capítulo versa sobre as formas que as manifestações carnavalescas assumiram no país. Foram registrados ao longo do século XIX e XX, no que tange à cidade do Rio, o batuque do Zé-Pereira; os Bailes de carnaval ao estilo europeu; a beleza e a ousadia das Grandes Sociedades; os Cordões ricamente representados pelos seus estandartes; o Corso com seu desfile de automóveis decorados; os populares Ranchos e os Blocos que se mantêm vivos e fortes resistindo e se adaptando ao tempo e à cidade. O Capítulo 2 trata da história das escolas de samba no Rio de Janeiro, desde seu surgimento até o seu desenvolvimento e consolidação do desfile como um espetáculo de massa. Este capítulo também traz uma breve apresentação da estrutura institucional e composição estrutural das escolas de samba de um modo geral. O terceiro capítulo aborda o trabalho existente por trás de um desfile de carnaval. Na primeira parte é desenvolvida uma análise do barracão de escola de samba enquanto unidade central de produção do desfile e na segunda, uma discussão acerca da noção do trabalho e suas práticas no âmbito das escolas de samba. O Capítulo 4 é constituído pelo estudo de caso sobre o G.R.E.S. São Clemente. A pesquisa foi realizada mediante visitas à escola, durante o período de agosto de 2009 a maio de 2010, onde foram feitas entrevistas com trabalhadores e dirigentes. A pesquisa utilizou também, como base de dados, o cronograma financeiro para o carnaval de 2010 cedido pela direção da escola. O cronograma contém informações relacionadas ao planejamento financeiro e produtivo, discriminando alguns indicadores referentes a gastos com mão-de-obra e com material, bem como o número de profissionais necessários em cada etapa da produção e o número de dias previsto para execução do planejamento. Esse estudo de caso teve como objetivo principal buscar um maior entendimento das características que compõe a estrutura de produção de uma escola de samba. O Capítulo 5 aponta para as novas tendências que cercam o universo das escolas de samba, sob a ótica da qualificação profissional, reconhecida pelo Governo 13


Federal mediante a criação de uma Política Pública de Trabalho específica para este setor (PlanSeQ – Segmento Escola de Samba). É apresentado o perfil socioeconômico dos alunos do PlanSeQ na Cidade do Rio de Janeiro. Esta pesquisa objetivou fazer um diagnóstico inicial das características dos indivíduos atendidos pelo plano, através da aplicação de questionários in loco, onde foram levantadas informações referentes a variáveis econômicas e demográficas, sendo auferidas questões sobre cor ou raça, família, escolaridade, trabalho e rendimento, em uma amostra de alunos das duas primeiras turmas.

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CAPÍTULO 1: HISTÓRIA DO CARNAVAL

1.1 – ORIGENS DO CARNAVAL car.na.val: sm (ital carnevale) 1 Folc Período de três dias de folia que precede a quarta-feira de cinzas, durante o qual, com o afrouxamento das normas morais, se dá o irromper de recalques, por meio de danças, cantos, trejeitos, indumentária diversa da habitual etc. No Brasil aparecem após a guerra do Paraguai, como forma nova do entrudo. 2 Folguedo, orgia. 3 Mascarada. (dicionário Michaelis).

A origem do carnaval é bastante discutida. Para uns a festividade momesca tem seu início há 10 mil anos A.C., como parte das atividades agrícolas, onde homens, mulheres e crianças pintavam os corpos e rostos e promoviam danças a fim de espantar os maus espíritos e garantir boas colheitas ou festejar o retorno ao trabalho. Para outros, a inspiração para o surgimento do carnaval se deu entre os egípcios em homenagem à Deusa Ísis e ao touro Ápis. Há quem diga também que as Bacanais, Saturnais e Lupercais, celebrações dos gregos e romanos, serviram de motivação para os festejos momescos (Moraes, 1987; RIOTUR, 1991). “As festas de celebrações ligadas aos ciclos naturais do tempo existem desde a antiguidade, vinculadas à agricultura e ao pastoreio, porém, à medida que as sociedades se organizavam sob normas rígidas, licenciosidades e libertinagens foram se incorporando aos festejos, funcionando como válvula de escape, nos momentos em que se afrouxavam as convenções sociais.” (RIOTUR,1991, p.19).,

Na Idade Média, a tradição pagã se manteve, atravessando culturas e séculos. Segundo a pesquisadora Eneida de Moraes (1987), a Igreja Católica, se não a adotou, tolerou e regularizou as comemorações pagãs. Máscaras, danças, sensualidade, fantasias e outros excessos eram tolerados, sempre como uma justificativa de despedida dos prazeres carnais para entrar na Quaresma. Originário do paganismo, a Igreja introduziu as comemorações no seu calendário litúrgico. Durante os séculos XV e XVI o carnaval se difundiu por toda Europa, havendo registros de festejos na Espanha, com suas batalhas de flores, na França (cidade de Nice) com seus bailes de máscaras, na Itália (Roma, Napóles Veneza e Florença) com 15


suas mascaradas públicas e na Alemanha, principalmente nas cidades de Colônia e Munique. Durante o período, os bailes de máscaras tiveram grande importância política e econômica. Quanto à origem da palavra carnaval, Eneida de Moraes apresenta uma série de possibilidades. Para uns a palavra viria de carrum novalis, grandes alegorias com as quais os romanos abriam os cortejos das festas destinadas ao Deus Saturno. Para outros a palavra é derivada de caro-vale que significa “adeus à carne”, pois marca o início da quaresma cristã. A autora cita o verbete que Adolfo Coelho escreveu no dicionário de frei Domingos Vieira: Carnaval: s.m. do italiano carno e vale. O dialeto milanês tem carnelevale, do baixo latim carnelevamen; de caro, carne, e levamen, ação de tirar, assim, pois, tempo em que se tira o uso da carne, pois o carnaval é propriamente a noite antes da quarta-feira de cinzas. Esta etimologia – que é dada por Littré – põe de lado a mais antiga, segundo a qual a palavra viria de carne e vale, adeus à carne, pois em italiano não há a palavra vale, e o milanês carnelevale tira as dúvidas quanto ao som. Tempo de divertimento que varia de extensão segundo os países, mas que começa sempre depois do primeiro dia do ano e acaba na véspera da quarta-feira de cinzas.. (Moraes, 1987, p.16).

Desse modo, seja qual for a origem etimológica da palavra, as comemoração carnavalescas estiveram sempre associadas à diversão e atos libertinosos, onde todo e qualquer tipo de “loucura” é permitida nos dias que antecedem o início da quaresma.

1.2 – O ENTRUDO PORTUGUÊS O carnaval português não foi marcado pelo refinamento dos bailes franceses e italianos. Um tipo próprio de comemoração foi registrado nas terras lusitanas desde o início do século XVII. Chamado de Entrudo – palavra originada do latim Introitus, que significa começo, abertura da quaresma – o antigo carnaval português era celebrado a princípio 16


para festejar a entrada da primavera. A comemoração teve seu calendário modificado com a introdução do cristianismo, passando a ser realizado do sábado gordo à quartafeira de cinzas (RIOTUR, 1991). As festividades portuguesas se diferenciavam das demais comemorações européias, pois os festejos marcados pela desordem, água suja e outros dejetos eram elementos básicos do carnaval português. No princípio as práticas festivas ocorriam apenas em algumas aldeias e regiões de Portugal. Segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz, havia variações quanto à forma de festejo, mas alguns elementos eram recorrentes: 1) um boneco chamado Entrudo, ou João, às vezes acompanhado por um segundo personagem – Dona Quaresma -, passeava pelas ruas, seguido por um cortejo que entoava cantigas burlescas; o desfile terminava com seu “enterro”, após a leitura do testamento; 2) um ou vários festins em que se ,consumiam chouriços, salpicões, presuntos, paios salsichas, lingüiças, isto é, iguarias à base de carne de porco, acompanhados de filhoses ou coscorão, fritos e passados em calda de açúcar; os repastos eram muitas vezes precedidos por um peditório a cargo de rapazes; 3) troças entre os jovens de ambos os sexos, ou entre famílias: aspersão de água ou mesmo de líquidos repugnantes, arremesso de farinha, de cinzas, de lama; 4) grupos de mascarados que perambulavam pela aldeia ou iam de uma aldeia para a outra, cantando e fazendo o maior barulho possível com tamborins, sinetas, cornetas, ou até mesmo panelas e outros utensílios de metal; 5) danças e bailes tradicionais fechavam em geral, as festividades.” (Queiroz, 1992, p.30).

A participação nas festividades era nitidamente estratificada por sexo e idade. Conforme os indivíduos envelheciam, as atividades por eles exercidas se alteravam. Os homens jovens eram os atores principais dos cortejos, mascaradas e lutas, os demais eram responsáveis pelas atividades preparatórias e formavam o público dos folguedos (Queiroz, 1992). As comemorações do Entrudo por cerca de um século se mantiveram sem muitas modificações, apenas no fim do século XVIII os festejos das aldeias e o das cidades maiores começam a se diferenciar. Nas aldeias as comemorações dos folguedos carnavalescos se davam prioritariamente no ambiente familiar, sendo a casa o espaço da 17


festa, que era apoiada nas relações familiares e nos laços de vizinhança. Já nas cidades, o Entrudo começava a se voltar para a rua, onde o espaço público passava a ser o lócus dos jogos carnavalescos – baldes com água eram atiradas das janelas e batalhas de lama, ovos e farinha eram freqüentes nas ruas. Segundo Queiroz (1992), a diferença básica entre os folguedos das aldeias e das cidades estava no fato de não haver barreiras socioeconômicas durante a realização da festa nas aldeias, onde somente idade e sexo determinavam os limites nas comemorações. Já nas cidades, apesar da voracidade com que era comemorado o Entrudo, as distâncias sociais permaneciam intactas, a luta entre os sexos se dava no interior das categorias socioeconômicas e não entre uma categoria e outra. Os festejos se davam no quadro das camadas sociais do modo como elas se apresentavam no cotidiano, e não eram alteradas durante os dias da folia. Para isso a força policial era invocada para a manutenção da ordem vigente, colocando cada qual em seu lugar, assegurando assim a paz dos Dias Gordos. No século XIX, nas principais cidades portuguesas, Porto e Lisboa, novas atividades festivas foram introduzidas. Estas eram destinadas principalmente às camadas urbanas superiores, atividades como Bailes de máscaras requintados e dispendiosos, desfiles de carruagens ornamentadas, e grupos de rapazes mascarados vestidos com fantasias luxuosas, entoando cantos com seus instrumentos e representando comédias e dramas pelas ruas das cidades. As transformações econômicas e demográficas bem como as transformações urbanas tiveram papel fundamental na introdução do Carnaval nas prósperas cidades portuguesas. Para Queiroz, além da existência de um modelo de carnaval mais urbano (modelo Francês), Lisboa e Porto possuíam as condições necessárias para o desenvolvimento das atividades carnavalescas ligadas às camadas urbanas superiores: a expansão demográfica e econômica produzira uma separação dos grupos urbanos por camadas e não mais uma separação por conjuntos de parentes ou de vizinhos; ficava fácil, assim, promover a introdução de folguedos que agradavam a uma importante faixa econômica urbana, o comércio. Uma vez efetuado o transplante do modelo, a atração que o grande Carnaval produzia em habitantes do interior, fazendo-os vir a gastar seu dinheiro às mãos cheias,

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constituíram elementos importantes para uma rápida adoção dos novos folguedos. (Queiroz, 1992, p.41).

Por um longo período o Entrudo coexistiu com essas manifestações mais “civilizadas”, a repressão policial e a invasão do Carnaval nos moldes franceses fizeram que as manifestações tradicionais fossem pouco a pouco desaparecendo das grandes cidades, ficando restritas às aldeias e aos vilarejos portugueses. As novas atividades carnavalescas, uma vez introduzidas, pouco variaram. Os altos custos desse carnaval “civilizado” restringiram o acesso das camadas mais pobres da sociedade. Apenas as classes mais abastadas podiam fazer frente às despesas que a participação na festa exigia: o valor elevado dos bailes, a carruagem para o corso, e as contribuições para o financiamento dos desfiles das sociedades carnavalescas. Tudo isso deixava de fora as classes médias e pobres que assistiam de longe os festejos carnavalescos ou constituíam mão-de-obra indispensável para a realização dos festejos. A coexistência do Entrudo e do Carnaval em Portugal se deu da seguinte forma, o primeiro nas aldeias e burgos e o segundo nas aglomerações urbanas com relevância econômica. No século XX as comemorações carnavalescas foram paulatinamente desaparecendo de Portugal, e, em meados do século passado o carnaval se limitava basicamente à apresentação de crianças mascaradas e aos festejos em cinemas e teatros. Segundo Queiroz (1992), o Entrudo foi mais resistente e ainda podia ser encontrado em 1954, mas o Carnaval havia desaparecido por completo nas grandes cidades portuguesas. 1.3 – O ENTRUDO NO BRASIL No Brasil a primeira forma de festejo carnavalesco foi o Entrudo, trazido pelos colonizadores portugueses no século XVII a brincadeira logo se popularizou no país. As atividades carnavalescas eram específicas das aglomerações urbanas, os habitantes do meio rural que desejavam participar dos festejos se deslocavam para as cidades em busca de diversão. Realizados a princípio no interior das casas, o Entrudo se deslocava para a rua na medida em que as cidades cresciam. A forma como este se

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desenrolava era a mesma em todo o país, diferentemente da versão lusitana que variava de região para região. Os folguedos do Entrudo não faziam uso nem de canto nem de dança. Água suja, farinha, ovos, cascas, detritos em geral, pedaços de pau, pedras, limão-de-cheiro5, bisnagas e seringas eram elementos da diversão da massa, que consistia em atingir uns aos outros e a quem mais respingasse com essas misturas "insalubres" e perigosas. As atividades ocorriam dentro de cada grupo socioeconômico. Os escravos, fundamentais na realização da festa, responsáveis pela fabricação dos limões-de-cheiro e outros elementos necessários, brincavam o Entrudo entre eles – “a luta tinha lugar entre os escravos da família, ou de famílias amigas; a mesma divisão que existia entre as famílias persistia entre os escravos” (Queiroz, 1992, p.47). Assim, as atividades carnavalescas mantinham as divisões étnicas e socioeconômicas vigentes na sociedade, que não eram de forma alguma alteradas durante os festejos. Era inconcebível um escravo atirar água ou limões em um homem livre, mesmo que este fosse negro.

Entrudo no Rio de Janeiro – Jean-Baptiste Debret, 1823. (Aquarela sobre papel).

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Limão de cheiro era o nome dado a pequenas bolas de cera recheadas com água perfumada. A

manufatura dos limões de cheiro era feita principalmente por escravos que os vendia em bancas espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro no período carnavalesco.

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No início do século XIX, a chegada da Família Real ao Brasil deu início a uma série de transformações estruturais na então capital do Reino. A antiga configuração urbana da cidade do Rio de Janeiro baseada nas relações entre famílias e de vizinhança deu lugar a uma estrutura formada por relações de classes. As práticas festivas também foram influenciadas, permitindo a ascensão de novas atividades, como a introdução do Carnaval nos moldes franco-italiano, chamado aqui de Grande Carnaval. De tal modo, na metade do século XIX o Carnaval foi se instalando no país, primeiramente nas cidades de maior importância, depois pelos vilarejos. A forma violenta como era brincado levou as autoridades a intervirem e a coibirem a manifestação sob a forma de entrudo, “apesar do combate sistemático da polícia o entrudo durou cerca de três séculos. Desapareceu, aos poucos, na vigência de novos costumes" (RIOTUR, 1991., p.34). No início do século XX, as transformações urbanas implantadas pelo Prefeito Francisco Pereira Passos também tiveram importância fundamental para o declínio das práticas do Entrudo. Os ideais modernizantes e o desejo de civilizar a cidade do Rio de Janeiro afetaram o modo de se brincar o carnaval. O limão de cheiro, as seringas e as bisnagas foram substituídas por confetes, serpentinas e lança-perfumes. A novíssima Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, passou a ser o grande palco do carnaval carioca. Queiroz (1992) afirma que enquanto no Brasil o Entrudo foi completamente anulado pelo Carnaval, em Portugal ele se manteve nas aldeias. No início do século XX o Entrudo havia desaparecido quase por completo nas grandes cidades brasileiras, novas práticas carnavalescas ganham força no país. 1.4 – OS BAILES Até o início do século XIX o Entrudo reinou soberano no país, o carnaval brasileiro, mais especificamente o carnaval do Rio de Janeiro, começa a tomar novas feições com o início dos bailes carnavalescos e a introdução de novos “brinquedos” como máscaras, confetes, serpentinas e lança-perfumes. Essas transformações começam a aparecer já no ano de 1835, com a chegada das primeiras máscaras e fantasias ao Brasil. Sob a influência dos bailes de máscaras 21


que eram celebrados na Europa, no ano de 1840 foi registrado o primeiro baile de carnaval. Como relatado pela pesquisadora Eneida de Moraes, o evento promovido por uma italiana casada com um hoteleiro teve sua realização anunciada como “Baile de máscaras como se usa na Europa por ocasião do carnaval” (Moraes, 1987, p.29). O baile realizado no Hotel de Itália fez um enorme sucesso entre os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, e os bailes carnavalescos rapidamente foram incorporados ao calendário carnavalesco da cidade. Com o passar dos anos os bailes mascarados se tornaram parte integrante da cultura carnavalesca do Rio de Janeiro, grandes bailes foram realizados em importantes teatros da cidade, cada vez mais luxuosos e com grande adesão do público fluminense. Moraes (1987) chama atenção para o fato de que naquela época tanto os bailes do famoso Hotel de Itália quanto os realizados nos teatros não contavam com a participação ativa das famílias. Naquele tempo elas não se misturavam com a “plebe”, mas assistiam curiosas do alto dos camarotes o espetáculo do povo que cantava, dançava e pulava nos salões. Somente em 1888 seriam realizados bailes essencialmente familiares, que passaram a ocupar um importante espaço ao lado dos grandes bailes públicos. Tamanho era o sucesso dos bailes de máscaras que, seguindo o ritmo de crescimento da cidade, eles aumentavam em número a cada ano e aconteciam mesmo fora do período de carnaval. Em 1900, os bailes públicos atingem o auge da sua popularidade. O requinte da decoração e a beleza das fantasias fizeram deles um marco do carnaval. Atualmente, embora com menor expressão e glamour do que no passado, os bailes continuam presentes no cenário carnavalesco carioca.

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1.5 – O CORSO O corso, popular por mais de vinte anos no Rio de Janeiro, consistia no desfile de carros motorizados nos dias do carnaval. A prática dos desfiles em carros abertos como foi registrado por Moraes, teve início no ano de 1907. A história do corso começa quando as filhas do então presidente Afonso Pena entraram na Avenida Central (atual Rio Branco) em carro do palácio presidencial. O automóvel cruzou a recém inaugurada Avenida de ponta a ponta, parando em frente ao prédio da Comissão Fiscal das Obras do Porto, de onde as filhas do presidente assistiriam aos festejos de carnaval das janelas. (Moraes, 1987). Esse ato serviu de motivação para os poucos que possuíam carros na ocasião, que em seguida começaram a desfilar seus automóveis pela Avenida Central, indo e voltando, enquanto seus ocupantes promoviam batalhas de flores, confetes e serpentinas e esguichavam lança-perfumes nos integrantes dos outros carros. A novidade caiu rapidamente no gosto da população e o corso passou a fazer parte do carnaval carioca. A cada ano que passava o corso ia se aperfeiçoando, os ocupantes dos carros passaram a elaborar fantasias em grupo, para dar maior unidade visual e os automóveis começaram a ser decorados.

Corso na Avenida Central, Rio de Janeiro, 19206.

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Disponível em <http://www.rioquepassou.com.br>. Acesso em 20 mar. de 2009.

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Tamanho foi o sucesso dos desfiles de carros motorizados no carnaval, que até os anos de 1930, eram raros os proprietários de automóveis que não participavam do corso. Além das pessoas fantasiadas dos carros, os pedestres faziam filas e saudavam o desfile jogando confetes e serpentinas nas moças, que retribuíam aos galanteios.

Cinelândia, 1929. Fotógrafo: Augusto Malta 7

Para Moraes (1987), o desaparecimento do corso está ligado principalmente ao processo de modernização e ao crescimento da cidade. O crescimento do número de automóveis, os engarrafamentos e o alto custo de vida advindos do processo de urbanização tornaram o corso inviável. Dessa forma, ele só foi possível enquanto a população e o número de automóveis eram reduzidos, revelando que corso e cidade grande são incompatíveis. O corso e todo seu charme ficaram no passado e marcaram uma época romântica do carnaval e da cidade do Rio de Janeiro, que ainda era um embrião da metrópole que viria a ser.

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ibidem

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1.6 – O Zé-Pereira José Nogueira de Azevedo Paredes transformou o carnaval brasileiro ao introduzir no carnaval instrumentos de percussão. Segundo Moraes (1987), no ano de 1846, numa segunda-feira de carnaval, esse sapateiro português junto a alguns compatriotas alugou tambores e zabumbas e, numa espécie de procissão, levaram batidas de bumbo pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro. O conjunto de instrumentos de percussão passou, então, a ser chamado de Zépereira, provavelmente numa alusão ao nome do seu idealizador. A pesquisadora Rachel Valença aponta o zé-pereira como a primeira forma de carnaval popular organizado. Segundo a autora, “o entrudo, diversão do povo à qual as classes dominantes aderiam, se contrapunha ao baile de máscaras a que só a elite tinha acesso. Os zé-pereiras se tornaram uma alternativa para quem cansado da brutalidade do entrudo, desejava divertir-se nas ruas sem precisar fazer gastos.” (Valença, 1996, p.16).

O zé-pereira era essencialmente democrático na medida em que permitia a participação das camadas mais pobres da população, qualquer frigideira ou panela servia de instrumento musical e era o passaporte de acesso para a folia. Como descreve Eneida: Tão fácil, no meio da miséria reinante, nessa crise que parece acompanhar e perseguir o brasileiro através dos anos, sair à rua com bombos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros, andar por aí ao som de ruídos, rindo e divertindo os outros enquanto se divertem a si mesmos, com o tumulto de um ruído que nem sequer é música, mas proclama alegria, que conclama os foliões para os devaneios e as loucuras carnavalescas. (Moraes, 1987, p. 43).

O zé-pereira fez grande sucesso na cidade e o seu prestígio cresceu rapidamente entre o povo, sendo rapidamente incorporado à tradição do carnaval popular. Já no ano seguinte, diversos grupos seguiram a iniciativa do português que com o tempo tornou-se imprescindível ao carnaval. 25


O zé-pereira desapareceu no início do século XX, mas a aventura iniciada por José Nogueira deixou como legado os bumbos, pandeiros, tamborins, cuícas e tantans que ditaram o ritmo dos blocos de rua, que permanecem mais fortes do que nunca na cidade do Rio de Janeiro do século XXI. 1.7 – Grandes Sociedades Importante símbolo da transformação do carnaval brasileiro, os Clubes Carnavalescos, também conhecidos pela alcunha de Grandes Sociedades, tiveram grande importância na história do carnaval carioca e extrapolaram os limites dos Dias Gordos, desempenhando papel relevante também no cenário político. Reduto de intelectuais e jovens escritores, a primeira grande sociedade surgiu no ano de 1855 e teve entre seus foliões o escritor José de Alencar. O Congresso das Sumidades Carnavalescas na ocasião do seu primeiro préstito contava com 86 sócios e teve como espectadores a família Real. O luxo e o preciosismo da passeata que contou com carros alegóricos e com uma banda encantou a multidão que assistia entusiasmada. Logo em seu primeiro desfile as Sumidades Carnavalescas revelavam a influência progressista da intelectualidade que formava o conjunto de foliões que ao som da banda entoavam a seguinte marcha: “Tempos novos surgiram. Usanças Carunchosas quem busca seguir? Do progresso os mandados ouvir Sabe quem quer avante marchar” (Moraes, 1987, p.47)

O sucesso do desfile contagiou também a imprensa que noticiava o fato como a grande transformação do carnaval carioca e o comparava em beleza e elegância ao carnaval europeu. O ano de 1855 representa um novo patamar da história do carnaval, segundo Moraes (1987), nascia com o Congresso das Sumidades Carnavalescas um novo carnaval, que se fortaleceu posteriormente nas sociedades carnavalescas e que foi a base e a força motriz dos primitivos carnavais cariocas. 26


Apesar da aceitação do público e dos jornais da época o Congresso das Sumidades Carnavalescas seria desintegrado no mesmo ano de 1855. Devido a divergências internas a sociedade foi rompida e do rompimento duas novas associações foram organizadas: Euterpe Comercial e os Zuavos Carnavalescos. As brigas e dissidências eram comuns no interior das associações, o que originou a formação de novos grupos, dentre eles, os Tenentes do Diabo (1855), os Democráticos (1867) e os Fenianos (1869). No início os préstitos dos grandes clubes carnavalescos eram financiados por contribuições de sócios, comerciantes, banqueiros e proprietários de terras, no Livro de Ouro de sua sociedade carnavalesca preferida. Para Queiroz (1992), a contribuição no Livro de Ouro, que ajudaria a subvencionar o desfile do clube, servia de campo de demonstração do poderio econômico para a população e arena de disputa pelo poder local. A atuação dos clubes carnavalescos ia além das atividades carnavalescas e de entretenimento para fazendeiros, comerciantes, profissionais liberais e banqueiros. Os grandes clubes foram atuantes no âmbito social e político do país, tendo participação importante no movimento abolicionista, lutando pela defesa da democracia, imbuídos de ideais republicanos. De acordo com a pesquisa de Moraes (1987), os três clubes de maior expressão do período carnavalesco anterior à abolição usaram o produto das contribuições dos seus sócios na compra de escravos. Tanto os Tenentes do Diabo, quanto o Clube dos Democráticos e os Fenianos compraram escravos para depois alforriá-los e mostrarem em seus desfiles os negros já libertos, como uma espécie de lição moral para o público que assistia ao espetáculo. A defesa dos ideais abolicionistas e republicanos começou a ser revelada no ano de 1864, quando os Tenentes do Diabo deixaram de fazer o carnaval de rua e reverteram o montante a ser gasto no préstito na compra de 12 escravos. Para se ter dimensão do fértil campo de debate que se configurava no interior dos clubes, “Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio, João Clapp, Ferreira de Araújo e outros faziam parte do quadro social dos Tenentes e muitas vezes ali se reuniam para traçar planos abolicionistas” (Moraes, 1987, p.55). 27


A voz das grandes sociedades eram sem dúvida os “pufes 8”, que eram publicados nos jornais dias antes do desfile carnavalesco. A importância dos pufes na sociedade brasileira pode ser percebida pelo conteúdo político contido nos versos das grandes sociedades. Moraes (1987) apresenta alguns pufes que revelam a importância desses clubes na busca pela liberdade e pelo progresso do país. Em 1877, o clube dos Fenianos, influenciados pelos ideais da Revolução Francesa distribui os seguintes versos: “Seu sol é a luz celeste Simboliza a liberdade Os Fenianos são livres Amam todos a igualdade” (Moraes, 1987, p.57).

No carnaval de 1889 os Tenentes do Diabo exaltavam a vitória alcançada com a Lei Áurea: Venceu-se finalmente a tremenda campanha Maio, o divino mês, deu-nos a abolição! A luz de um novo sol destrói a nódoa estranha Que há três séculos manchava o nosso pavilhão!

A pátria ressurgiu de um morno desalento Na Vitória final que honrou a Humanidade Somos um povo livre! Olhai! Neste momento Cobre esta grande terra o Sol da Liberdade! (Moraes, 1987, p.55).

As grandes sociedades se anteciparam e também voltaram seus esforços para a defesa do voto feminino e dos direitos da mulher, em 1891 o Clube dos Democráticos trouxeram em um dos carros dos préstitos a seguinte inscrição: 8

Pufes: “Os pufes eram descrições literárias em versos, com os quais as grandes sociedades procuravam exaltar seus méritos, criticar os adversários e descrever os carros alegóricos” (RIOTUR, 1991, p.165).

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Que o voto se lhe permita Mas (exceção esquisita De quem tal reforma quer) Que não seja recrutada Nem pra o júri sorteada A mulher. (Moraes, 1987, p.47).

As grandes sociedades durante quase cem anos tiveram papel ativo na vida política e social brasileira, seus desfiles e versos repletos de críticas e ironias marcaram a história do carnaval. A ousadia das grandes sociedades foi algumas vezes reprimida e censurada pelas autoridades policiais, mas ao longo de sua existência manteve sua posição e suas alegorias repletas de crítica social. Contudo, os grandes clubes permaneceram fortes e combativos, tendo atingido o ápice de sua grandiosidade a partir da criação da Avenida Central. A terça-feira de carnaval era o dia destinado aos préstitos dos clubes. A partir dos anos de 1940 as grandes sociedades começam a perder sua força, o crescimento de outras formas de entretenimento, a falta de apoio da mídia, o desinteresse da população, o afastamento dos artistas responsáveis pela criação dos carros, o encarecimento dos materiais, o processo de urbanização e a modernização fizeram com que as grandes sociedades de outrora deixassem para trás as glórias e a exuberância de outros tempos. Contudo, os grandes clubes carnavalescos, reduto de intelectuais e idealistas, deixariam como herança para o carnaval popular a tradição dos carros alegóricos, presente nas escolas de samba, ainda que estas últimas não apresentem o mesmo caráter revolucionário nem o mesmo compromisso com a crítica política e social do país.

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1.8 – Os Cordões Grande símbolo do carnaval popular, os cordões carnavalescos aparecem por volta da década de 1870 no cenário carnavalesco como uma evolução do zé-pereira. A palavra cordão, inicialmente utilizada para designar qualquer grupo de foliões, passa com o tempo a ser utilizado para referir-se a grupos de foliões específicos. Dizia respeito, pois, a grupos de foliões mascarados, vestidos de velhos, índios, palhaços, baianas, diabos etc., estes obedeciam a um mestre que conduzia o grupo através de um apito de comando. A música vinha dos instrumentos de percussão que ditavam o ritmo da diversão nas ruas do Rio nos dias e noites do carnaval. Cada grupo possuía um estandarte, que levava o símbolo do agrupamento carnavalesco. Moraes cita a fala de Agenor Lopes de Oliveira, na ocasião do I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em 1951, na qual ele aponta o cordão como uma representação do cotidiano, para ele o cordão: “nada mais é do que uma sátira mordaz de nossa gente, surgida do anonimato coletivo, um desabafo, uma espécie de desafogo da alma popular contra aquela série de vexames a que foi submetida a população da „mui heróica e leal cidade de Sam Sebastiam do Rio de Janeiro‟ após a chegada dos burocratas do Vice-Rei, da máquina estatal lusitana então montada no país, dos fidalgos ridículos e devassos, enfim, da nova organização social transplantada para nossa terra e agravada subitamente com a chegada de D. João VI e sua numerosa corte...”(Moraes, 1987, p. 101).

O auge dos cordões se deu no início do século XX, em 1902, mais de 200 grupos foram licenciados pela polícia. O estandarte era o símbolo máximo dos cordões carnavalescos, altas quantias eram consumidas anualmente para a fabricação de luxuosos estandartes. A popularidade dos cordões era tanta, que importantes jornais da época, como o Jornal do Brasil e a Gazeta de Notícias, eram grandes colaboradores do carnaval carioca. O Jornal do Brasil cedia anualmente seu saguão térreo para a exposição dos estandartes, concedendo-lhes prêmios. O primeiro concurso de cordões carnavalescos data do ano de 1906 e foi promovido pelo jornal Gazeta de Notícias, onde o cordão mais luxuosamente trajado 30


ganharia o prêmio principal, um estandarte caprichosamente elaborado; o segundo lugar, o mais original receberia uma menção honrosa. Segundo Moraes (1987), o sucesso do concurso foi enorme, tanto que o grande número de competidores levou os organizadores do evento a aumentar o número de prêmios, tendo sido concedido na ocasião da premiação dois estandartes e várias menções honrosas. Segundo a pesquisadora Rachel Valença, os cordões chegaram a participar de concursos espontâneos, onde o júri era composto por ricos donos de funerárias que demonstravam sua aprovação ao fincar no estandarte da agremiação uma pequena coroa de flores. O cordão vencedor era o que ao final do desfile apresentasse maior número de coroas (Valença, 1996, p.16). As competições que se seguiram deram origem a disputas e a rivalidades entre os cordões, que serviam de estímulo para o capricho e a beleza de cada um. Em outras ocasiões a rivalidade entre os grupos chegavam a situações extremas com brigas violentas entre grupos rivais, o que muitas vezes acabava em morte. Com o passar do tempo e o acirramento da disputa, os cordões passaram a absorver elementos mais interessados em confusão do que em diversão, os “capoeiras” como ficaram conhecidos os “brigões”, assustaram a cidade no início do século XX. Aos poucos os cordões tão populares na cidade do Rio de Janeiro foram desaparecendo e cedendo lugar para os Ranchos.

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Cordão da Bola Preta – Rio de Janeiro, 19249.

Em 1918 foi fundado o último remanescente dos antigos cordões, o Cordão da Bola Preta, que se tornou um dos mais tradicionais clubes carnavalescos do Rio de Janeiro, ao longo dos anos virou bloco e ainda hoje mantém vivo o fôlego de antigos carnavais. O Bola Preta, como é chamado pelos foliões, arrastou no carnaval de 2010 cerca de 1,5 milhão10 de pessoas pela Avenida Rio Branco e demais ruas do centro. O que endossa a retomada da força do carnaval de rua e a necessidade de maiores investimentos em segurança e infra-estrutura para a realização dos desfiles.

1.9 - Os Blocos Carnavalescos Os blocos carnavalescos também são herdeiros do Zé-pereira, eles representam conjuntos simples de foliões, “não dramatizados, sem fantasias elaboradas e sem alegorias, que existiam paralelos aos cordões” (RIOTUR, 1991, p.98). Inicialmente houve uma confusão quanto à denominação das organizações carnavalescas, cada um escolhia a que mais lhe convinha, com o passar do tempo os jornais começaram a distingui-los entre cordões, ranchos e blocos. 9

Disponível em <http://www.rioquepassou.com.br>. Acesso em 20 mar. de 2009 Fonte: Jornal O Globo, 13/02/2010.

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O que a princípio eram apenas simples grupos gerados de forma espontânea começou a tomar corpo. Já no ano de 1889, cerca de dezoito grupos foram licenciados para sair no carnaval. Existia uma distinção entre os tipos de blocos. Os blocos de sujo ou de rua surgiam de forma improvisada, com estruturas mais livres e populares. Outros, chamados blocos de baianas, eram provenientes de comunidades específicas e apresentavam uma estrutura mais fechada. Os blocos de baianas foram fortemente influenciados pela cultura negra, enquanto os blocos de sujo não. Os blocos de baianas saíam organizados com uma linha de frente composta por mestre de cantos, pastoras e baianas de linha, que eram homens que exerciam a função de defesa do bloco. Essa linha de frente era acompanhada por uma bateria formada exclusivamente por instrumentos de percussão que executava o ritmo do samba. As brigas entre os blocos de baianas eram constantes, a rivalidade dos grupos levou à perseguição e repressão policial. Esses blocos dariam, na década de 1920, origem às escolas de samba. Os blocos de sujo ou de rua eram blocos populares, não necessitavam de registros e surgiam e desapareciam espontaneamente no carnaval de rua. Bastava um conjunto musical, composto por instrumentos de sopro e percussão, para que as pessoas, desconhecidas entre si, fossem, com ou sem fantasia, aderindo e seguindo os blocos pelas ruas da cidade, dançando e cantando conhecidas músicas de carnaval. Ao longo da década de 1940 e 1950 os blocos quase desapareceram, mas em 1960 tomam novo fôlego. O rápido crescimento das escolas de samba levou os blocos a se reestruturarem. No ano de 1965 foi fundada a Federação dos Blocos Carnavalescos, os blocos passaram a ser divididos em blocos de enredo e de empolgação. Os blocos de enredo seguem uma estrutura semelhante às escolas de samba, possuem alegorias e seguem um enredo, se forem bem estruturadas acabam virando escolas de samba. Já os blocos de empolgação lembram os blocos de rua espontâneos, porém com exigência de uma fantasia padronizada. Seguindo o rastro das escolas de samba, os blocos entraram para o calendário oficial do carnaval carioca, seus desfiles 33


aconteciam na Avenida Presidente Vargas e na Cinelândia, e recebiam subvenção do governo para participarem de concursos. Alguns desses blocos se mantém vivo até hoje, como é o caso dos tradicionais blocos de empolgação como o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos, que continuam levando alegria a milhares de foliões pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro. Apesar dos anos, das transformações ocorridas na cidade, e dos altos e baixos por que tem passado o carnaval de rua, este permanece vivo. A morte anunciada do carnaval de rua com a ascensão das escolas de samba perde o sentido, uma vez que a cada ano vem crescendo o número de blocos e a quantidade de foliões que tomam as ruas da cidade nos dias de carnaval, mantendo viva a tradição dos blocos de rua. Segundo a Riotur (Empresa de Turismo do Município Rio de Janeiro S.A.), aproximadamente 500 blocos pediram autorização para desfilarem pelas ruas da cidade no carnaval de 2010. O sucesso dos blocos no carnaval é tanto que desde o início de janeiro se instala na cidade o clima de carnaval, que começa com os ensaios de blocos bastantes populares em diversas partes da cidade. Monobloco, Banda de Ipanema, Simpatia é Quase Amor, e o Cordão da Bola Preta arrastam multidões pelas praias e ruas da cidade, segundo dados da Prefeitura do Rio cerca de 3 milhões de foliões participaram do carnaval de rua no ano de 2010. É o carnaval popular vivo, que tem se transformado e se adaptado aos novos tempos, atraindo um público cada vez maior, o que traz uma série de exigências e possibilidades de atração de recursos e geração de renda para a cidade e os seus habitantes. 1.10 – Os Ranchos Os Ranchos Carnavalescos surgiram no final do século XIX e rapidamente se transformaram em uma das grandes atrações do carnaval. O primeiro rancho carnavalesco data do ano de 1872, quando o baiano Hilário Jovino Ferreira, ao migrar para a cidade do Rio, fixou moradia na Pedra da Prainha (local conhecido hoje como Pedra do Sal, próximo a zona portuária), onde encontrou

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estabelecido o rancho de reis Dois de Ouro. Mais tarde, Hilário fundou o rancho Rei de Ouros, que sairia não no Dia de Reis, mas sim no carnaval. (Valença, 1996). Hilário introduziu assim uma estrutura característica que marca as manifestações de rua. De origem nitidamente popular, os ranchos carnavalescos tiveram influência da cultura nordestina e introduziram no carnaval elementos processionais religiosos típicos da tradição negra. De acordo com Rachel Valença, “os primitivos ranchos iniciavam o desfile em seu reduto, na Pedra do Sal, e dali se dirigiam lentamente, ao som de instrumentos populares, como violões, violas, pandeiros, ganzás e pratos, para o local de apresentação, o Largo de São Domingos, em frente a atual, Avenida Passos.” (Valença, 1996, p.32).

Nas últimas décadas do século XIX, dado seu caráter popular e despretensioso, os ranchos eram instáveis e muitos mal se formavam para o carnaval, se extinguiam juntamente com a quarta-feira de cinzas. Segundo Queiroz (1992), no século XX surgiram alguns ranchos que se tornaram estáveis e alcançaram enorme popularidade. Estes eram constituídos por operários, pequenos funcionários e pequenos comerciantes, ou seja, eram formados basicamente por assalariados que podiam todo mês destinar parte dos seus recursos para confeccionar suas fantasias. Criado em 1908, o rancho Ameno Resedá introduziu importantes alterações na estrutura dos desfiles dos ranchos. Segundo Valença (1996), ele deixou para traz a estrutura processional de caráter religioso e folclórico, e introduziu um tema no desfile, o qual é seguido por uma concepção alegórica musical. O Ameno Resedá se autodenominava como rancho-escola e alçou os ranchos a um patamar até então ocupado pelos cordões no carnaval de rua, com atitudes mais civilizadas, dança e música própria, introduziram no carnaval a participação feminina. Como descreve Queiroz (1992), à frente do agrupamento ia o estandarte da agremiação carregado por uma mulher, ao seu lado, o mestre-sala. Os demais foliões dançavam livremente no interior de uma corda que evitava invasões dos espectadores. 35


Com o crescimento da sua popularidade, os ranchos obtiveram em 1910 o direito de realizar seus desfiles na Avenida Central, a segunda-feira de carnaval era o dia destinado aos seus desfiles. O sucesso dos ranchos representava a integração de camadas sociais inferiores nas comemorações carnavalescas, “trazendo com elas seus complexos culturais específicos; os ranchos não somente percorriam a avenida Rio Branco, mas o faziam ao som da „sua‟ música, executando a „sua‟ dança” (Queiroz, 1992, p.57). Embora os ranchos tenham sido na sua origem formados por proletários, ao longo dos anos conseguiu a adesão de intelectuais e políticos. Nos anos 20 e 30 do século XX, os ranchos atingiram seu auge e ao lado das grandes sociedades carnavalescas passaram a ser a maior atração do carnaval de rua carioca. Os ranchos duraram cerca de um século e deixaram como herança as nascentes escolas de samba, que herdaram principalmente a estrutura do desfile cadenciado não mais pela “marcha-rancho”, mas sim pelo efervescente ritmo do samba que entrava de vez para a tradição do carnaval carioca.

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CAPÍTULO 2 – HISTÓRIA DAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO

2.1 – A GENÊSE DAS ESCOLAS DE SAMBA “Escolas de Samba: é uma manifestação do folclore urbano, onde um agrupamento de pessoas expressam canto e dança, descrevendo um enredo”(Araujo e Jório, 1969, p.19.)

As Escolas de Samba tem em sua origem influência direta dos cordões, blocos e ranchos. No final da década de 1920, os participantes de blocos, descontentes com as freqüentes confusões e brigas que ocorriam quando saíam às ruas, sentiram a necessidade de modificar sua estrutura de forma a acabar com a violência e com a repressão policial. Um grupo de carnavalescos do morro do Estácio, visando alcançar espaços de livre manifestação da cultura negra, introduz nos blocos elementos dos ranchos carnavalescos. Os ranchos, compostos em sua maioria por negros das camadas urbanas inferiores, afirmavam sua identidade cultural de forma pacífica e tinham o reconhecimento oficial do Estado tendo espaço reservado no carnaval da cidade do Rio de Janeiro. A reunião desse grupo de sambistas na busca de um maior reconhecimento formou uma agremiação que passou a ser chamada de Escola de Samba. A origem do nome tem várias versões, a mais popular faz referência ao local onde o grupo se reunia. Os encontros do grupo eram realizados próximos a uma Escola Normal localizada no bairro do Estácio, vinha daí a palavra escola, os sambistas seriam, portanto, doutores, professores do samba, cunhando assim a expressão Escola de Samba, representando num sentido mais amplo o local onde se ensina samba. Nascia, então, em 12 de agosto de 1928 a Escola de Samba Deixa Falar. A Deixa Falar teve vida curta como escola de samba resistiu até o ano de 1932 quando passou a rancho, e se posicionou como um bloco carnavalesco semelhante a outros já existentes. A Deixa Falar encontrou o nome, o ritmo, mas na

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hora de transformar-se realmente em Escola, virou rancho carnavalesco (RIOTUR, 1991). A Estação Primeira de Mangueira, apesar de não ter sido a primeira a utilizar a denominação escola de samba, foi “a primeira agremiação que adotou o samba como elemento diferencial para o seu folguedo carnavalesco.” (Valença, 1996, p.55). O bloco dos Arengueiros, grupo composto por sambistas do morro da Mangueira do qual faziam parte Cartola, Zé Espinguela, Carlos Cachaça e outros, no intuito de mudar a imagem negativa associada à agremiação, devido às constantes cenas de violência que cercavam seu folguedo, fundaram a Estação Primeira de Mangueira em 28 de abril de 1928.(RIOTUR, 1991). A expressão cunhada pelo grupo de sambistas do Estácio generalizou-se rapidamente nos anos de 1930, quando os blocos recém-formados ou já existentes passaram a adotá-lo. As escolas de samba ganham força e o primeiro desfile extra-oficial é realizado na Praça Onze no ano de 1932, e teve como campeã a Estação Primeira de Mangueira. No ano de 1935 é realizado o primeiro concurso oficial das escolas de samba, o que representa o reconhecimento oficial das escolas, que passam a ter vida legal a partir desse ano. Assim, “as escolas de samba entram no calendário oficial do carnaval carioca, ganham a sigla GRES11 e o direito do recebimento de uma verba de ajuda para a confecção de seus carnavais, chamada subvenção”. (RIOTUR, 1991, p.186). A oficialização dos desfiles das escolas de samba representou um grande avanço na direção do reconhecimento do samba enquanto manifestação da cultura negra, marcando o fim de uma época de repressão policial às rodas de samba e da marginalização dos seus integrantes.

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Grêmio Recreativo Escola de Samba.

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Porém, a oficialização das escolas de samba traz consigo uma série de jogos de interesse e deixa sob o controle do Estado uma manifestação até então espontânea e genuinamente popular, por trás do reconhecimento da cultura popular estava o interesse em controlar possíveis agitações e garantir a manutenção da ordem estabelecida. A subvenção e a existência de um regulamento a ser cumprido levam a implicações no modo como estavam estruturados os desfiles e as escolas de samba, como aponta Valença (1996), a oficialização dos desfiles marca o início de um processo de concessões e de transformações no fenômeno escola de samba. A década de 1930 expressa a busca das escolas de samba pela formação de sua identidade e tem como modelo os ranchos carnavalescos e as grandes sociedades carnavalescas. Elementos que iriam definitivamente moldar o que chamamos de escola de samba foram criados, “nesta década as escolas de samba começam a distinguir-se dos blocos carnavalescos, esboçando o enredo, o samba-de-enredo, as alegorias. Introduz a comissão de frente, o mestre-sala e a porta-bandeira”. (RIOTUR, 1991, p.186). Nos anos de 1940 e 1950 as escolas de samba consolidam sua estrutura e completam seu ciclo de formação, constituindo uma identidade própria que as distinguiria dos blocos, dos ranchos e das sociedades carnavalescas. As escolas de samba, nesse primeiro momento, estavam assentadas em laços estritamente comunitários e sua estrutura ritualista marcada pelo ritmo e dança do samba revelava suas raízes e tradição. As atividades das escolas extrapolavam - o que se mantém até hoje - o período carnavalesco, além da vida social as escolas possuem uma agitada vida política, interna às agremiações. Na sua origem, a vida social e política das escolas era composta quase que exclusivamente por membros de uma mesma comunidade, o local de moradia constituía o elemento aglutinador. (Valença, 1996). Uma vez constituída a identidade das escolas e consolidado um padrão de desfile, elas entram definitivamente para a cultura popular carioca e tornam-se símbolos do carnaval brasileiro. 39


2.2 – Transformações e Consolidação do Desfile das Escolas de Samba como um espetáculo de massa A década de 1960 traz importantes transformações que marcariam uma nova etapa do ciclo evolutivo das escolas de samba. A expansão das bases sociais das escolas toma força e ocorre um aumento significativo da participação da classe média. A “invasão” da classe média foi muitas vezes vista como um elemento desagregador e uma ameaça à pureza das escolas de samba. Alguns

autores

definem

essa

década

como

um

período

de

“embranquecimento do samba”, outros de “sincretismo cultural” (RIOTUR, 1991, p.186). Para ele a participação da classe média representa uma adaptação das escolas de samba frente às transformações pelas quais passavam a cidade do Rio de Janeiro, que apresentava um crescente processo de urbanização e modernização que aliados ao crescimento dos fluxos migratórios transformavam a cidade numa metrópole. A adaptação das escolas aos novos tempos iria garantir sua permanência e continuidade numa cidade cada vez mais cosmopolita. As primeiras transformações tem sua origem na Acadêmicos do Salgueiro, que no ano de 1959 introduz novos elementos na produção do desfile de carnaval. A agremiação da Tijuca dá início ao processo de modificação do padrão estético dos desfiles, a escola inova ao delegar aos artistas plásticos Dirceu e Marie Louise Nery a responsabilidade pela realização do carnaval deste ano, o Salgueiro alcançou, assim, a segunda colocação no concurso (RIOTUR, 1991). O sucesso da empreitada do casal Nery fez com que o então julgador Fernando Pamplona se encantasse com o desfile do Salgueiro. O presidente da escola, Nelson de Andrade, convidou-o a desenvolver um trabalho artístico, trazendo para dentro do mundo do samba artistas plásticos renomados oriundos da Escola de Belas Artes e do Teatro Municipal. Fernando Pamplona compõe uma equipe com Arlindo Rodrigues, Nilton Sá, Dirceu e Marie Louise Nery, que daria início a revolução na temática e no tratamento plástico visual das escolas de samba (RIOTUR, 1991).

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Esse seria o começo de um novo padrão estético que se imporia às escolas de samba, sendo fonte de infindáveis debates a respeito da perda da autenticidade das escolas. Estaria iniciada a era dos carnavalescos e dos grandes desfiles. O ingresso de artistas com formação acadêmica aos barracões das escolas de samba trouxe alterações no que se refere à temática dos enredos, à utilização de novos materiais e às mudanças estilísticas das fantasias, alegorias e adereços. Na década de 1970 a alteração do padrão estético introduzidos por carnavalescos profissionais afasta as escolas da estética “suburbana12” anteriormente existente. Assim, as transformações implantadas e a realização de desfiles cada vez mais sofisticados passam a atrair de forma massiva a classe média, que adere com força à manifestação cultural anteriormente marginalizada. Apesar do aumento da popularidade das escolas, alcançada ao longo dos anos, a entrada da classe média contribuiu para o enfraquecimento da identidade cultural das escolas e para o afastamento do caráter comunitário e artesanal dos primeiros desfiles. Os artesãos das comunidades anteriormente responsáveis pela confecção dos desfiles perdem espaço para artistas e trabalhadores especializados. Começa a ganhar força o trabalho remunerado nas escolas. Os carnavais cada vez mais luxuosos tomam contornos de superprodução. Os ingressos, pagos, para assistir aos desfiles se tornam itens disputadíssimos. Com o crescimento da popularidade dos desfiles, verifica-se um aumento do número de componentes nas escolas, o que levou a necessidade de estabelecer um tempo limite para o desfile. A limitação do tempo teve como conseqüência a aceleração da cadência da bateria a fim de possibilitar uma evolução mais rápida. As alas também foram reduzidas, os destaques sobem aos carros e os sambas-enredo são encurtados. Surgem alas inteiras compostas por indivíduos externos à comunidade, cujo vínculo com a agremiação se resume exclusivamente ao desfile. (RIOTUR, 1991).

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Representa a tensão existente entre a conciliação do samba/tradição e luxo. Caso da Mangueira e da Portela que buscam preservar as tradições e a autenticidade da escola.

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O carnaval das escolas de samba torna-se alvo de poderosos interesses comerciais. Além da cobrança dos ingressos e vendas de fantasias, a comercialização dos desfiles alcançou a indústria fonográfica, a gravação dos sambas-enredo em discos de vinil caiu rapidamente no gosto popular e se tornou importante fonte de recursos. Em meados da década de 1970, a ascensão da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis ao grupo principal das escolas de samba do Rio, é responsável pela aceleração da revolução estética iniciada nos anos de 1960. O carnavalesco da escola, Joãozinho Trinta, transforma o modo de se fazer e pensar carnaval, dando aos desfiles da escola de Nilópolis ares de megaespetáculo. O sucesso da Beija-Flor estava associado ao talento do carnavalesco e ao dinheiro que a escola possuía, proveniente do seu patrono, o banqueiro do jogo do bicho Aniz Abraão Davi, que patrocinava os altos custos dos luxuosos desfiles. Com essa combinação de talento e dinheiro a Beija-Flor foi tricampeã nos anos de 1976, 1977 e 1978, modificou o modo de se pensar carnaval e tornou a escola referência de luxo e riqueza, modelo que passou a ser seguido pelas suas co-irmãs, todas desejavam ter um patrono que lhes proporcionassem grandiosos desfiles. A BeijaFlor foi a escola responsável por transformar a década de 1970 na década do “visual” (Valença, 1996). Para Queiroz (1992), a associação do jogo do bicho com as escolas de samba está diretamente ligada à proibição dos jogos de azar em 1946 e à expansão dos subúrbios cariocas. Os banqueiros do jogo do bicho expandiram suas bases de influência juntamente com o crescimento das favelas e as zonas suburbanas da cidade. A autora descreve bem os interesses existentes por trás da relação entre jogo do bicho e escola de samba: o banqueiro necessitava de um grupo de confiança no qual apoiar sua organização e a escola o fornecia; ela lhe assegurava a massa eleitoral graças à qual poderá negociar com a polícia, os políticos e o próprio governo, o que lhe permitia basear sua rede de jogo em fundamentos sólidos; quanto à escola, o dinheiro fornecido pelo bicheiro auxiliava-a a financiar seu desfile suntuoso e a desenvolver as estruturas administrativas indispensáveis ao seu crescimento. (Queiroz, 1992, p.98).

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Queiroz (1992) atenta para o fato da vinculação de banqueiros do bicho com escolas de samba constituir um fenômeno específico da cidade do Rio, em outras cidades brasileiras os gastos das escolas são financiados por grandes comerciantes, indústrias, empresas. Desse modo, como aponta Cavalcanti (1994) a relação entre jogo do bicho e escola de samba é histórica, mas não é necessária, podendo ser superada a qualquer tempo. A década de 1980 representa a revolução econômica na vida administrativa das escolas de samba (RIOTUR, 1991). Dada a magnitude que vinham alcançando os desfiles, surgiu a necessidade de criar um espaço reservado para as apresentações das escolas. Sob a alegação dos altos custos de montagem e desmontagem de arquibancadas, foi construída em 1984 a Passarela do Samba13, popularmente conhecida como Sambódromo. A comercialização do desfile principal das escolas de samba vinha acontecendo desde o ano de 1962, mas somente com a construção do Sambódromo que se tornou possível auferir lucros com a venda de ingressos.

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O projeto da Passarela do Samba é de autoria de Oscar Niemeyer e foi construída durante o governo de Leonel Brizola. Inaugurada em 1984, o projeto visava dotar a cidade de uma estrutura permanente para o tradicional desfile de escolas de samba. A Passarela Professor Darcy Ribeiro está localizada na Rua Marquês de Sapucaí, na Cidade Nova. O início da Passarela faz confluência com a Avenida Presidente Vargas, na altura da Praça Onze e o seu final é na Rua Frei Caneca. O popular sambódromo possui cerca de 700 metros de comprimento e tem capacidade para aproximadamente 60 mil pessoas. Fonte: Riotur. Disponível em: <http://www.riodejaneiro-turismo.com.br/pt/>. Acesso em 08 jul. de 2010.

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Fonte: <http://www.lesga.org/image/Cliente/image/MAPA_SAMBODROMO.jpg>.acessado em 20 jan. 2010.

A criação da Passarela do Samba teve como conseqüências imediatas, a divisão do desfile em dois dias, a distribuição da renda do desfile entre as escolas e o aperfeiçoamento do espetáculo (RIOTUR, 1991, p.187). A divisão das escolas mais populares de forma equilibrada ao longo dos dois dias garantia a presença do público e a receita da venda dos ingressos. Já a existência de uma estrutura fixa para os desfiles, permitiu que os recursos gastos com a montagem e desmontagem das arquibancadas fossem revertidos em benefícios para as escolas. A grandiosidade do Sambódromo aperfeiçoou o espetáculo na medida em que seu tamanho exigia novas escalas e proporções dos desfiles. Houve assim a necessidade de se realizar desfiles cada vez mais suntuosos com carros alegóricos gigantescos.

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Fonte: <http://www.brasilazul.com.br/carnaval.asp. Acessado em: 01 jun. 2010.

A construção da Passarela do Samba representou o reconhecimento oficial do potencial turístico e econômico das escolas de samba, contribuindo para legitimar a importância do desfile para a cidade do Rio de Janeiro, vendido como espetáculo, na atração de recursos, através da comercialização em larga escala. Frente à nova realidade econômica dos desfiles, as grandes escolas sentem a necessidade de se organizarem de forma administrativamente profissional a fim de dar conta do enorme volume de recursos movimentado. Surge então, em 1984, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA), contando com a participação da alta cúpula do jogo do bicho, a Liga se tornou representante legal das escolas do Grupo Especial. Segundo Valença, “os interesses dessas agremiações quase que se limitavam a questões pecuniárias: como a participação nos lucros decorrentes da venda dos ingressos, participação nos direitos da transmissão do desfile e criação do selo fonográfico LIESA para gravação e comercialização dos discos com os sambas-de-enredo.”(Valença, 1996, p.66).

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As escolas de samba nascidas como uma manifestação cultural de caráter espontâneo e popular se transforma ao longo dos anos em um negócio extremamente rentável, fonte inesgotável de lucros, os desfiles das escolas do grupo especial assumem um caráter elitista na medida em que o preço dos ingressos é altíssimo e se destinam em grande parte aos turistas e classes médias e altas. Aos pobres, os criadores do espetáculo, estão reservados os setores populares, mais recuados do plano principal que possuem uma visão ruim dos desfiles, contudo são nesses espaços que existe a maior vibração de torcidas que cantam o samba e declaram o amor à sua escola. A comercialização, as participações do jogo do bicho e das camadas médias alteraram definitivamente o padrão cultural do desfile, as escolas se modernizaram, novas técnicas são introduzidas para darem luz e cor ao espetáculo, o "luxo" tornou-se requisito essencial e é massiva e imprescindível a presença do carnavalesco na criação artística do espetáculo. Nesse sentido, o desfile das escolas de samba é reinventado ao longo do tempo, principalmente no que se refere ao produto final do trabalho no barracão 14 e às formas de interação social entre indivíduos-indivíduos e entre indivíduos e a cidade. O desenvolvimento e a consolidação das escolas e dos desfiles das escolas estão diretamente ligados à formação sócio-espacial da cidade do Rio de Janeiro. As escolas cresceram acompanhando a expansão dos subúrbios da cidade e os locais de desfiles que começaram pelas ruas da Praça Onze, com o crescimento da cidade e da popularidade das escolas, foram deslocados para um território bem demarcado que é o Sambódromo. A inauguração da Cidade do Samba15 em 2005 marca uma nova fase do que se consagrou o maior espetáculo da terra.

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O barracão de escola de samba é o local onde nasce o desfile, uma espécie de galpão onde são fabricados os carros alegóricos, as fantasias e os adereços. 15 Inaugurada no ano de 2005, a Cidade do Samba, encontra-se localizada na Gamboa (região portuária do Rio de Janeiro) e ocupa uma área de 114.000 m2 no formato de uma grande roda de samba. No interior da Cidade existem 14 barracões dispostos em volta de uma praça central onde acontecem shows e espetáculos. Cada barracão conta com portões de 10 m de altura por 7,5 m de altura que possibilitam a passagem dos carros alegóricos completamente montados. Cada prédio tem 4 pavimentos e um elevador de carga, no último piso, de 2700m2 funcionam os ateliês de costura, chapelaria, adereçaria, além das oficinas de isopor e modelagem em fibra de vidro. De uma passarela externa é possível o visitante percorrer todas as fábricas, assistindo a montagem das alegorias através de vidraças e de uma varanda de

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Como parte de um projeto de renovação das áreas portuárias da cidade do Rio de Janeiro, a construção da Cidade do Samba veio reafirmar o potencial turístico e conseqüentemente econômico do carnaval das grandes escolas de samba e tirou de cena os antigos barracões sem infra-estrutura da zona portuária.

Fonte: <http://diariodorio.com/wp-content/uploads/2010/02/CidadedoSamba.jpg>. Acessado em: 01 jun. 2010.

O complexo Cidade do Samba viabilizou o atendimento às antigas e recorrentes demandas das agremiações por barracões mais estruturados, com mais espaço e segurança. Sua construção representa um divisor de águas na história do carnaval carioca, e deixa definitivamente para trás, o caráter amador e espontâneo dos primeiros desfiles de carnaval. A Cidade do Samba centralizou as grandes escolas e funciona como um grande centro administrativo e oficina de produção. Ela revela a tensão existente entre a preservação de um modo tradicional de se fazer carnaval e a adoção de práticas e soluções ditas modernas (Blass, 2008). O carnaval cada vez mais competitivo traz consigo novas exigências, o elemento visual dos desfiles assume um papel central, o “luxo” aparece muitas vezes

8m de altura. Fonte: <http://www0.rio.rj.gov.br/riotur/pt/pagina/?Canal=343>. Acessado em: 01 jun. 2010..

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como uma oposição ao samba e à tradição, há uma busca constante pela conciliação entre luxo e tradição.

Fonte: < http://cidadedosambarj.globo.com>. Acessado em: 01 jun. 2010.

A concentração das principais escolas em um só lugar introduz um elemento novo na competição anual, pois agora além de competir por títulos e reconhecimento as escolas lutam para garantir a permanência de seus barracões na Cidade do Samba e usufruir a infra-estrutura disponível no local, pois a escola rebaixada ao Grupo de Acesso perde o direito de ocupar as instalações desse grande condomínio da folia. Importante ressaltar que a construção Cidade do Samba aprofundou as diferenças entre as grandes e pequenas escolas e fortaleceu a hierarquia entre elas. Os critérios para a ocupação dos barracões favorecem sem dúvida as escolas maiores em detrimento das pequenas. As escolas de samba tiveram o rito transmutado em espetáculo de massa, que movimenta milhões de reais, aquece a economia da cidade e gera milhares de empregos formais e informais, o que compõe uma extensa cadeia produtiva que vai desde os materiais utilizados na confecção das fantasias e alegorias até a indústria fonográfica e televisiva. As transformações no “jeito” de se fazer carnaval e a visibilidade que os desfiles das escolas de samba alcançaram dentro e fora do Brasil, marcam a passagem 48


de um carnaval romântico, onde o que valia era o amor à escola e a dedicação dos seus componentes no momento do desfile, para um carnaval de cifras milionárias voltado para resultados.

2.3 - ESTRUTURA INSTITUCIONAL FORMAL

As escolas de samba são do ponto de vista legal, entidades sem fins lucrativos, devendo obedecer a regras definidas de organização institucional. Uma escola de samba no Rio de Janeiro passa a ter vida legal a partir do momento em que se filia a uma das entidades representativas existentes no Estado. Para isso é preciso ter um Estatuto Social registrado em cartório, uma sede administrativa e uma quadra para ensaios e uma Diretoria constituída. Para Hamilton Moss de Souza em seu livro “Engrenagens da Fantasia: engenharia, arte e convivência”, o sistema formal de administração de uma escola de samba além de fruto das necessidades administrativas internas, provenientes do tipo de trabalho que é desenvolvido, reflete a necessidade de interação das escolas com os agentes governamentais a ela afeitos. A estrutura dos estatutos das escolas é muito parecida. O que irá determinar o grau de respeitabilidade de cada um deles são as condições políticas da base de cada escola. Lideranças fortes podem e muitas vezes se sobrepõe, de fato, aos estatutos. As escolas são constituídas por uma Assembléia Geral de Sócios que elege o Conselho Deliberativo que, por sua vez, elege os Conselhos Diretor e Fiscal. O Conselho Deliberativo controla o sistema econômico-financeiro da escola com base em relatórios do Conselho Fiscal, que atua como o órgão fiscalizador da escola. Já o Conselho Diretor exerce funções executivas que viabilizam a produção do carnaval. Ele detém o controle sobre a criação e extinção de alas, tendo poder de veto na escolha dos respectivos chefes. Cabe também ao Conselho Diretor a decisão final sobre o enredo e samba-enredo, a escolha do carnavalesco da escola e o acompanhamento e controle do processo de produção do desfile, bem como a responsabilidade pela liberação de verbas para compra de materiais e pagamento de terceiros. A Diretoria é, em geral, composta pelo Presidente, Vice-Presidente, Secretário, Tesoureiro, Diretor de Patrimônio, Diretor Cultural, Diretor de Esporte, Diretor de 49


Harmonia, Diretor de Carnaval, Diretores Sociais e Diretora do Departamento Feminino. O presidente da escola ocupa posição central na estrutura, ele representa a agremiação frente à sociedade e à sua entidade representativa, acumula uma série de poderes que requerem uma forte liderança frente aos membros da escola. Muitas vezes, especialmente em momentos críticos, o presidente é escolhido entre os sóciosfundadores, que utilizam o peso de sua tradição em beneficio da escola. Em algumas escolas, o posto é ocupado por banqueiros do jogo do bicho que têm forte influência sobre as comunidades onde estão estabelecidas as escolas. Eles possuem além de capacidade econômica, liderança consolidada para fazer frente às demandas dos espetaculares desfiles.

2.4 - ESCOLAS DE SAMBA: COMPOSIÇÃO ESTRUTURAL A unidade funcional de uma escola de samba são os sambistas. Os pesquisadores Amaury Jório e Hiram Araujo, em seu livro “Escolas de Samba em Desfile: Vida, Paixão e Sorte” (1969), definem o sambista como todo aquele que diz no pé, canta, compõe ou toca instrumento de percussão. Os sambistas dividem-se entre sambistas-componentes e sambistas-dirigente. Segundo os autores, o sambistacomponente é aquele que desfila na escola seguindo o ritual e a tradição, dirigindo toda a dinâmica funcional da escola (Araujo, H.; Jório, A. 1969, p.33). É o sambistacomponente quem dá corpo e vida à escola no momento do desfile sambando e cantando, fazendo com que o conjunto evolua de forma harmônica através da avenida. Os componentes estão organizados em alas, que são grupos de sambistas, homens e mulheres, fantasiados de maneira uniforme de acordo com o enredo. Cada ala tem entre 10 e 200 integrantes, são independentes e possuem diretoria própria, porém estão subordinadas à direção geral da escola. Os presidentes das alas recebem da direção da escola os protótipos das fantasias e são os responsáveis pela confecção e venda das fantasias entre os seus integrantes. Os desfilantes se dividem em sambistas: não-especializados e especializados. Os sambistas não-especializados são aqueles que apenas desfilam não exercendo nenhuma função específica. Ou seja, sua função é sambar, cantar e se divertir, compondo a massa homogênea da escola.

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Já os sambistas especializados16 são classificados em: - Passistas; - Ritmistas; - Instrumentistas; - Compositores; - Compositores; - Puxadores de Samba; - Mestre-sala e Porta-bandeira; - Destaques; - Baianas; - Velha Guarda; - Comissão de Frente. Os sambistas-dirigentes integram a diretoria da escola, cuidam da parte administrativa e executiva da agremiação, são responsáveis pelo planejamento e execução dos desfiles e de tudo que se relaciona à escola e ao carnaval (Araujo, H.; Jório, A., 1969). As atividades desenvolvidas pela escola se dão ou na quadra ou no barracão. A quadra da escola de samba é a expressão física da escola, geralmente está localizada nas proximidades da comunidade em que teve origem. A quadra é o local onde acontecem festas, reuniões e eleições de diretoria, os ensaios, a escolha do enredo e do sambaenredo. É o ponto de encontro dos componentes da escola ao longo do ano e representa uma fonte de renda para escola que cobra a entrada nos eventos realizados pela escola. Ela é também uma área de lazer para a comunidade base que forma a escola, muitas delas abrigam projetos sociais que beneficiam a comunidade como um todo. A quadra é, portanto, um lugar de interação social além de constituir uma arena de disputa política, onde lideranças tentam se afirmar e consolidar sua influência frente aos membros da escola. No que se refere à produção do desfile propriamente dito, essas atividades são desenvolvidas no barracão da escola.

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Cf. RIOTUR, 1991, p. 189.

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2.5 – A Organização dos Desfiles Os desfiles das escolas de samba ultrapassam os limites do Sambódromo e das escolas do Grupo Especial. Além das renomadas escolas, existem outras mais modestas em termos de glamour e recursos financeiros. Atualmente desfilam na cidade do Rio de Janeiro aproximadamente 70 escolas de samba, que estão divididas em grupos. O desfile das escolas está dividido da seguinte forma: - Escolas de Samba do Grupo de Especial:

O desfile desse grupo é o

ponto alto do carnaval carioca e está dividido em duas noites: seis escolas desfilam no domingo e seis na segunda-feira de carnaval. Neste grupo, filiado à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro - LIESA, as agremiações destacam-se pela exuberância e luxo, e contam com a participação de “celebridades” e personalidades da alta sociedade brasileira, que se misturam à aproximadamente quatro mil participantes por escola. - Escolas de Samba do Grupo A (Grupo de Acesso): As escolas desse grupo são filiadas à Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso – LESGA e compõem o chamado Grupo de Acesso. São 12 agremiações de médio e grande porte que desfilam no Sambódromo no sábado de carnaval. É um grupo importante e bastante disputado, uma vez que a escola campeã ascenderá no ano seguinte ao Grupo Especial. - Escolas do Grupo Rio de Janeiro I (Antigo Grupo B): O grupo é composto por doze agremiações que estão filiadas à Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro – AESCRJ. As escolas desse grupo são de pequeno e médio porte, levam para a avenida cerca de mil e quinhentos componentes e contam quase que exclusivamente com as subvenções oficiais para a realização do carnaval. Os seus desfiles são realizados no Sambódromo na terça-feira de carnaval. - Escolas do Grupo Rio de Janeiro II: O grupo é composto por quatorze agremiações que estão associadas à AESCRJ. São escolas pequenas que apresentam um carnaval humilde e cheio de garra, seus componentes são movidos pelo amor à escola e ao carnaval. Desfilam no domingo de carnaval na Estrada Intendente Magalhães localizada no bairro de Campinho. 52


- Escolas do Grupo Rio de Janeiro III: Filiadas à AESCRJ, o grupo é formado por quinze agremiações. Seus desfiles acontecem na segunda de carnaval na Estrada Intendente Magalhães. - Escolas do Grupo Rio de Janeiro IV: O grupo conta com oito agremiações e também é representado pela AESCRJ. São escolas bem pequenas e pobres, seus desfiles lembram os primórdios das escolas de samba. Desfilam terça-feira de carnaval na Intendente Magalhães. Assim, é possível perceber a existência de assimetrias entre as escolas de samba e os grupos onde se encontram. Enquanto no extremo superior está o Grupo Especial que realiza mega-desfiles que custam às escolas milhões de reais, na ponta de baixo estão localizadas escolas pequenas que contam apenas com a reduzida subvenção oficial e, desta forma, realizam desfiles sem luxo nem riqueza, baseados apenas na motivação em levar a sua escola pra avenida e guardando no seu interior lembranças de um carnaval antigo, comunitário e artesanal. A pouca visibilidade social dessas agremiações também se reflete sobre os quase inexistentes estudos acadêmicos sobre estes grupos. Essas escolas de samba não ajustadas ao consumo e ao padrão comercial das grandes escolas almejam através da participação no sistema de concursos à ascensão de grupo, buscando constantemente aperfeiçoar-se a fim de um dia chegar ao nível das grandes estrelas do carnaval carioca.

2.5.1 – Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial O Grupo Especial no ano de 2010 foi formado por doze Escolas de Samba, divididas em dois grupos, cada um com seis agremiações, e obedeceu à seguinte Ordem de Desfile para domingo e segunda-feira de Carnaval: I - dia 14 de fevereiro de 2010 (Domingo) 1 - G.R.E.S. União da Ilha do Governador 2 - G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense 3 - G.R.E.S. Unidos da Tijuca 4 - G.R.E.S. Unidos do Viradouro 53


5 - G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro 6 - G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis

II - dia 15 de fevereiro de 2010 (Segunda-feira) 1 - G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel 2 - G.R.E.S. Unidos do Porto da Pedra 3 - G.R.E.S. Portela 4 - G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio 5 - G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel 6 - G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira Os desfiles das escolas devem conter elementos estruturais previamente especificados no Regulamento Específico dos Desfiles das Escolas De Samba do Grupo Especial, elaborado pela LIESA. À instituição cabe a responsabilidade por tudo que se relacione com a direção artística dos desfiles (LIESA, Regulamento para o carnaval – 2010). A direção artística dos desfiles é composta pelo Presidente, pelo VicePresidente e pelo Diretor de Carnaval da LIESA, e a ela estarão subordinadas as seguintes Comissões: I - Comissão de Concentração; II - Comissão de Cronometragem; III - Comissão de Dispersão; IV - Comissão de Verificação das Obrigatoriedades Regulamentares. As respectivas comissões funcionam como órgãos fiscalizadores e têm competência para aplicar penalidades conforme o regulamento. O desfile de cada escola de samba deverá respeitar o tempo limite de no mínimo 65 minutos e no máximo 82 minutos. A infração desses limites acarretam sanções que podem ser desde a perda de pontos até o pagamento de multas pecuniárias no caso de atrasos na dispersão da escola, que deve ser realizada no tempo máximo de duas horas e trinta minutos (02:30), contados a partir do início efetivo do desfile.

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Além disso, cada escola tem a obrigatoriedade de desfilar com: no mínimo duzentos ritmistas agrupados na bateria, no mínimo cem baianas17 agrupadas, o limite mínimo de cinco e até o máximo de oito Alegorias18, o limite mínimo de dez até o máximo de quinze componentes na Comissão de Frente. É vedado às escolas utilizar, distribuir ou se apresentar com qualquer tipo de merchandising (implícito ou explícito) em Enredo, Alegorias, Adereços, Alas, Destaques, Samba-Enredo ou quaisquer outros meios. Cada escola de samba em desfile é composta por um contingente humano de 2500 a 4000 pessoas fantasiadas, dançando e cantando, evoluindo de forma processional, entre alegorias e adereços, desenvolvendo a história contada no sambaenredo. Para garantir a perfeita evolução e harmonia da escola em desfile, é permitido a cada agremiação desfilar com no máximo 250 componentes subordinados à Diretoria da escola que coordenam e ditam o ritmo do desfile. São muitos os elementos presentes no desfile das escolas de samba. Cumprida as regras estabelecidas no regulamento oficial e realizado o desfile, a decisão da escola campeã compete a um corpo de julgadores, composto por 50 membros, sendo cinco jurados para cada quesito. A indicação do corpo de julgadores é atribuição exclusiva do Presidente da LIESA, os quesitos em julgamento são os seguintes: Bateria, Sambaenredo, Harmonia, Evolução, Enredo, Conjunto, Alegorias e Adereços, Fantasias, Comissão de Frente, Mestre-sala e Porta-bandeira. Os critérios de julgamento relativos a cada quesito estão expressos no “Manual do Julgador”, estabelecido pela LIESA, das cinco notas recebidas em cada quesito, a menor e a maior nota são descartadas. A Escola de Samba do Grupo Especial que, obtiver a 12ª colocação passará, automaticamente, a integrar o Grupo de Acesso A, nos desfiles do carnaval do ano seguinte. Já a primeira colocada dos desfiles do Grupo de Acesso, ascenderá ao Grupo Especial. A apuração das notas dos jurados acontece sempre na quarta-feira de cinzas e é sempre cercada por grande entusiasmo e emoção. As torcidas comparecem ao

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A ala das baianas – formada exclusivamente por mulheres, assim como a comissão de frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira são elementos estruturais que devem obrigatoriamente estar presentes no desfile de cada escola. 18 Entende-se, como tal, qualquer estrutura que contenha rodas em contato direto com o solo da Pista de Desfiles, com exceção dos elementos cenográficos que vierem na Comissão de Frente.

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Sambódromo levando faixas e bandeiras e entoam o samba de sua escola. Muitas vezes uma escola que é aclamada pelos espectadores na avenida não é a eleita dos jurados. No carnaval de 2010, a escola de samba Unidos da Tijuca, fundada em 1931 e que na década de 2000 veio sendo sistematicamente aclamada pelo público, que vibrava com as inovações trazidas pelo carnavalesco Paulo Barros, mas que ainda não havia conquistado os jurados, consagra-se finalmente campeã das Escolas de Samba do Grupo Especial, alcançando seu primeiro título. O resultado final dos Desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial do Carnaval de 2010 ficou da seguinte forma: 1ª – G.R.E.S. Unidos da Tijuca 2ª - G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio 3ª - G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis 4ª - G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel 5ª - G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro 6ª - G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira 7ª - G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel 8ª - G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense 9ª - G.R.E.S. Portela 10ª - G.R.E.S. Unidos do Porto da Pedra 11ª - G.R.E.S. União da Ilha do Governador 12ª - G.R.E.S. Unidos do Viradouro

As seis escolas mais bem colocadas do Grupo Especial, mais a campeã do Grupo de Acesso, que no ano de 2010 foi a G.R.E.S. São Clemente, se apresentam novamente no Desfile das Campeãs, realizado no sábado subseqüente a apuração. Já a Unidos do Viradouro, escola da Cidade de Niterói, amargou o rebaixamento e no ano de 2011 desfilará entre as escolas do Grupo de Acesso. A receita auferida com a venda de ingressos para o Desfile das Campeãs, após ser descontado 5% referente à taxa de administração da LIESA, é dividida da seguinte forma: o equivalente a 60% desse total é dividido em partes iguais e repassado para as seis escolas de samba primeiras colocadas no Grupo Especial, a título de ajuda de custo. Os 40% restantes são divididos em 40 cotas a serem rateadas entre as seis primeiras colocadas, a título de prêmio, da seguinte forma: 11 cotas para a Campeã, 8 cotas para a 56


Vice-Campeã, 7 cotas para a 3ª colocada, 6 cotas para a 4ª colocada, 5 cotas para a 5ª colocada e 3 cotas para a agremiação 6ª colocada. Tal organização dos desfiles, que segue normas rígidas e é julgado por um júri formado por especialistas, expressa o grau de desenvolvimento que alcançou o carnaval carioca, fenômeno popular que transformou-se em atração turística internacional e integra o programa de Promoção e Divulgação do Turismo da Cidade do Rio de Janeiro. De acordo com dados obtidos no site da Controladoria Geral do Município do Rio de Janeiro, no ano de 2009, dos R$50.878.281,98 transferidos da Prefeitura para a Riotur - Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro, R$20.615.433,70 milhões de Reais foram destinados às Escolas de Samba do Grupo Especial e do Grupo de Acesso através dos seus respectivos representantes legais. À LIESA foram pagos R$14.566.600,00, já à LESGA, entidade representativa das Escolas do Grupo de Acesso, foram destinados recursos no valor de R$ 6.048.833,70 milhões de Reais. Porém, o volume de recursos destinados pela Prefeitura do Rio aos principais Grupos de Escolas de Samba do Rio de Janeiro representa apenas uma parte do que é gasto na produção de um desfile de escola de samba. Em se tratando das Escolas do Grupo Especial esse valor representa em média 25% do custo total de um desfile, que muitas vezes ultrapassam o valor estimado de R$ 6 milhões de Reais. Dessa forma, as escolas contam com outras fontes de financiamento, provenientes de parcerias com empresas, realização de eventos, participação nos direitos de utilização de imagem, venda dos ingressos e venda dos CDs com os sambas-enredo. Sem deixar de mencionar os recursos provenientes da patronagem do jogo do bicho, cujo montante real é muito difícil de ser mensurado. As grandes escolas de samba do Rio de Janeiro cada vez mais incorporam elementos da sociedade mundial globalizada. Além do lugar de lazer, elas também comportam um ambiente de vultosos negócios, articuladas à indústria da cultura e do entretenimento. A cadeia produtiva da economia do carnaval envolve atividades diretas e indiretas, como a produção de matéria-prima para a confecção dos carros alegóricos e fantasias, passando pelo trabalho dos carnavalescos e artistas plásticos, serralheiros e costureiras, atingindo o comércio ambulante, a mídia, a indústria fonográfica e a rede hoteleira (PRETES FILHO et al., 2008). Segundo Prestes Filho, estima-se que o carnaval carioca envolve gastos da ordem de R$ 685 milhões e gera 264,5 mil postos de 57


trabalho por mês com a mobilização de 470,3 mil trabalhadores, no que tange apenas os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial. Tendo em vista o que hoje representam as escolas de samba em termos de movimentação financeira e de toda a cadeia produtiva que a festa envolve, torna-se imperioso, abordar mais diretamente a questão do trabalho dentro das escolas de samba. O tema será abordado no Capítulo 3. A primeira seção traz uma descrição do barracão como o centro de produção da escola. A segunda apresenta uma discussão conceitual acerca da noção de trabalho.

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CAPÍTULO 3: O TRABALHO NA ESCOLA DE SAMBA Ao contrário do que pensa o senso comum, o carnaval não é um evento datado sob a ótica de quem produz o espetáculo. As escolas funcionam o ano inteiro, tanto sua parte administrativa quanto a parte de eventos e o próprio barracão. Seu produto final é a escola em desfile.

3.1 – BARRACÃO: A UNIDADE PRODUTIVA O barracão é o centro de produção da escola, onde são construídos os carros alegóricos, as alegorias de mão e as fantasias das alas financiadas pela escola. É no barracão que as idéias do carnavalesco viram realidade em um processo de trabalho muito peculiar, de produção coletiva, onde o produto do trabalho de meses é consumido em um único dia de desfile. Os barracões das escolas do Grupo Especial, como dito anteriormente, estão reunidos na Cidade do Samba, que dotou as escolas com a infra-estrutura necessária para a confecção dos desfiles. Já as escolas de outros grupos escolhem o barracão conforme a proximidade com o local do desfile, visando facilitar o transporte das alegorias. Essas escolas ocupam galpões em geral alugados, improvisados e com pouca infra-estrutura, onde fazem continuamente adaptações no espaço, de acordo com as fases do processo de produção. É comum a falta de espaço físico para comportar todos os carros que serão produzidos, os quais, quando muito grandes, são construídos em partes que serão acopladas fora do barracão, no momento que antecede o transporte para o local do desfile. Cavalcanti (1999) aponta para a existência de dois tipos de barracão, o barracão de ala e o barracão de escola, os quais mantém entre si uma relação complementar. O barracão de ala, também chamado de ala particular, é onde se realiza toda parte da costura e de bordado. Em geral está localizado na casa dos chefes de ala, responsável pela confecção e comercialização das fantasias, elaboradas a partir do protótipo criado pelo carnavalesco. O barracão de ala e o seu modo de produção estão intimamente voltados para o ambiente doméstico, estrutura-se a partir de relações familiares e conta com a 59


participação muitas mulheres. Forma-se uma equipe composta, total ou parcialmente, de “parentes e amigos”, que varia aproximadamente de 5 a 8 pessoas (Cavalcanti, 1999, p.17). Do outro lado estão os barracões de escola, localizados em imensos galpões onde são feitos os protótipos das fantasias, os carros e as alegorias da escola. Esse universo é predominantemente masculino e localizado num lugar público (Cavalcanti, 1999, p.23). No barracão da escola, além de uma equipe administrativa composta por secretaria, tesouraria, almoxarifado e cozinha, trabalham profissionais especializados que atuam na fabricação das alegorias e fantasias. Encontramos nos barracões trabalhos de ferragem, carpintaria, escultura, moldagem, adereços e costura. As equipes são formadas através da experiência adquirida em outros carnavais. Alguns chefes de equipe são “funcionários” fixos, porque há o interesse em manter na escola os melhores profissionais, que são muitas vezes pessoas de confiança do carnavalesco e peças fundamentais que garantem que o trabalho seja bem executado dentro do prazo necessário. Os chefes dessas atividades centrais contam com mão-de-obra de ajudantes, que aumenta gradativamente conforme se aproxima o carnaval, de acordo com o porte da escola. O principal responsável pelo funcionamento do barracão é o carnavalesco. A eficiência da produção desta estrutura está relacionada com o seu estilo pessoal de trabalho – o modo como ele interage com as equipes de trabalho e com os demais setores da escola. Cabe, portanto, ao carnavalesco, além da concepção do enredo, das alegorias e das fantasias, a coordenação das equipes de trabalho. A idéia que nasce na cabeça de um indivíduo, no momento da sua execução assume um caráter coletivo. O processo de produção das alegorias no barracão segue etapas sucessivas, obedecendo a uma lógica seqüencial-temporal. Todos os carros alegóricos seguem as mesmas etapas de produção: ferragem; marcenaria; escultura e moldagem; decoração; movimento; vidraçaria; e mecânica. Durante boa parte do ano, o ritmo de produção é lento, mas nos dois meses que antecedem ao carnaval o ritmo se torna frenético, os profissionais se deparam com uma verdadeira corrida contra o tempo. Na fase final do

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processo, conforme vai aumentando o número de carros em construção é possível encontrar no barracão a presença simultânea das atividades acima relacionadas. Embalados pelo calor da cidade do Rio de Janeiro, o barracão ferve. Tensão, emoção e muito trabalho se misturam. Nesse período as equipes chegam a trabalhar em mais de um turno, não é raro ver operários dormindo no próprio barracão. Um trabalho exaustivo, cuja motivação maior é levar a escola para a avenida. Apesar dos sacrifícios durante esse processo, os indivíduos envolvidos apontam o trabalho na escola como um vício incurável. O corre-corre e o improviso fazem parte do processo de produção de um barracão e funcionam como um tempero pra emoção.

3.2 - CARNAVAL E TRABALHO: SIGNIFICADOS O trabalho dos profissionais envolvidos na produção de um desfile de escola de samba é muitas vezes invisível aos olhos do folião comum, alheio ao universo das escolas e interessado apenas em diversão. Isso porque o carnaval é visto como uma oposição ao trabalho, representando a suspensão temporária da rotina diária de um trabalhador padrão: casa-trabalho-casa. Como descrito por Da Mata (1997), é no carnaval que permitimos a confusão das regras de hierarquia vigentes no cotidiano. Durante os dias de folia a vida social diária fica suspensa e é invertida, havendo um deslocamento dos papéis e valores sociais. Diversos autores vêm discutindo as relações entre trabalho, emprego e lazer nas sociedades capitalistas contemporâneas, dentre eles se destaca o trabalho desenvolvido por Leila Blass sobre os significados e as práticas de trabalho e emprego no âmbito das festas, especialmente no universo das escolas de samba. Em seu livro “Desfile na avenida, trabalho no barracão: a dupla face do carnaval” (2007), a autora trata da produção dos desfiles sob a ótica de quem produz o espetáculo, visando à construção de uma noção alargada de trabalho. Desse modo, ao contrário da idéia dominante no imaginário popular, o Carnaval é feito de trabalho, que recobre uma série de possibilidades e atividades: 61


“as fronteiras entre trabalho e Carnaval, do ponto de vista de quem faz acontecer os desfiles anuais das grandes escolas de samba, se diluem, pois esses desfiles se produzem através de um conjunto de processos de trabalho que supõe trabalho e/ou emprego. Os festejos carnavalescos e outras festas se fazem através de trabalho. Dessa perspectiva, Carnaval rima com trabalho” (Blass, 2007, p.19).

A dificuldade em reconhecer o processo de trabalho existente por trás da festa carnavalesca e de outras festividades deve-se, como frisou Blass (2007), à noção de trabalho concebida na modernidade européia ocidental, onde este se confunde com emprego industrial, opondo-se ao não trabalho, às festas e às atividades de lazer. Sob esse ponto de vista, as festas e o lazer são muitas vezes entendidos como ócio. E as práticas necessárias para a sua realização, por não se enquadrarem no modelo fabril e serem desenvolvidas fora dos locais tradicionalmente designados como locais de trabalho fazem com que as atividades envolvidas nesse processo, muitas vezes, não sejam percebidas como sendo, de fato, trabalho. Segundo Blass, “a vida cotidiana na escola de samba está marcada, apesar das disputas instituídas, mas ritualizadas, dos conflitos e confrontos internos, por relações de afetividade e de convivência que são os pilares da produção de um desfile e do seu próprio desenrolar, nos dias de carnaval” (Blass, 2007, p.129).

Para a autora, a análise da produção do desfile de carnaval requer uma reflexão teórica que permita o alargamento da noção de trabalho, no sentido em que esta comporte as peculiaridades desse processo, construindo uma noção de trabalho que não se reduza à noção de emprego, forma histórica que o trabalho assume nas sociedades capitalistas. As práticas de trabalho no barracão estão ancoradas no saber fazer e são marcadas pelo caráter coletivo que assume a produção e pela rede de sociabilidade que movimenta a vida da escola e a produção de um desfile, “Todos são protagonistas, produtores e consumidores dessa festa e, enquanto tais, são responsáveis pelo resultado alcançado. Dessa perspectiva, as práticas de trabalho são re-significadas devido aos sentimentos mobilizados por essas

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práticas que expressam o contexto social no qual se inserem” (Blass, 2007, p.133).

A autora afirma que as práticas de trabalho, ou emprego no carnaval, frente às transformações no mundo do trabalho e a tão falada perda da centralidade do trabalho, representaria em si mesmo um contra-senso. Assim, "as práticas de trabalho e/ou emprego parecem deslocadas porque se desenrolam no chamado mundo do nãotrabalho, lugar social do ócio, lazer e tempo livre" (BLASS, 2007, p.28). A análise da produção dos desfiles de carnaval, na ótica de quem faz o desfile, indica que o trabalho "recobre um campo amplo de práticas e atividades no qual o emprego e o trabalho extrapolam a fronteira de escritórios, bancos e indústrias" (BLASS, 2007, p.123). A produção do desfile é trabalho-intensivo e, em se comparando a uma indústria tradicional, o barracão da escola de samba estaria mais para uma manufatura que segue um modelo de produção flexível do que para o tradicional modelo da indústria fordista, respeitando claro, as devidas proporções e as especificidades do modo de produção do Carnaval. Pois apesar das atividades complexas e encadeadas desenvolvidas no barracão, não há linearidade na linha de produção nem padronização do produto final. A produção do desfile varia ano a ano, o produto final se modifica conforme o enredo. Para Blass o termo “indústria da folia” não se aplica a essa produção, pois “a produção dos desfiles carnavalescos persegue a lógica do consumo, não da acumulação e não se configura na separação entre produtores diretos e produto final” (Blass, 2007, p.136). O processo de produção de um desfile de escola de samba é extremamente heterogêneo e diversificado, produtor e consumidor se misturam em uma mesma pessoa e o produto final elaborado ao longo do ano é consumido em um único dia de desfile. O trabalho presente nas escolas está cada vez mais inserido no atual modo de produção capitalista. Informalidade, trabalho baseado em domicílio, ocupações por tempo parcial e contratos de trabalho temporários são elementos presentes nos bastidores do espetáculo, que se reforçam e se expandem nos intramuros da Cidade do Samba. Além disso, o trabalho no barracão cumpre uma função social na medida em 63


que gera trabalho e renda para os estratos mais pobres da sociedade e insere no mercado de trabalho jovens e mulheres. Tanto isso é verdade que o trabalho voltado para as escolas de samba se tornou objeto de política pública do Ministério do Trabalho e Emprego, através da criação do PlanSeQ- Segmento Escola de Samba que será analisado no Capítulo 5. O capítulo seguinte apresenta um estudo de caso sobre o Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente. A escolha da escola deve-se, após diversas tentativas frustradas em outras escolas, principalmente à abertura e à facilidade de diálogo com a direção, que se mostrou transparente ao abrir às portas da instituição, fornecendo informações sobre os controles internos à administração da escola.

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CAPÍTULO 4: ESTUDO DE CASO: GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA SÃO CLEMENTE O presente estudo de caso foi realizado através de visitas ao barracão da escola, de entrevistas com o vice-presidente Roberto Almeida Gomes e com trabalhadores. A pesquisa teve como foco principal a busca de uma maior compreensão acerca da dinâmica produtiva de um barracão, levantando informações referentes ao processo de trabalho e às ocupações envolvidas. A primeira seção traz um histórico da agremiação contextualizando sua participação no carnaval carioca, o tópico seguinte apresenta a estrutura-organizacional da escola, por fim, na última seção desenvolvo uma análise descritiva da estrutura produtiva, com base no cronograma de planejamento disponibilizado pela direção da escola. 4.1- G.R.E.S. São Clemente: a escola do bairro de Botafogo Fundado em 25 de outubro de 1961 por Ivo da Rocha Gomes, o Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente será no carnaval de 2011 a única escola de samba a representar a Zona Sul do Rio de Janeiro no desfile do Grupo Especial. Com uma história bastante peculiar, a São Clemente nasceu no bairro de Botafogo e tem nas suas origens um time de futebol com o mesmo nome. A história da escola começou no ano de 1953 em uma das viagens do time, enquanto os integrantes São Clemente Futebol Clube aguardavam para o embarque, um grupo liderado por Ivo da Rocha Gomes deu início a uma animada batucada. A partir daí, tamanha a empolgação causada, os integrantes do time formaram um bloco de sujo que desfilaria pelas ruas do bairro durante o carnaval e levaria em seu estandarte as cores do time, azul e branco. No ano de 1955, em homenagem ao time uruguaio Peñarol, as cores do bloco carnavalesco São Clemente foram alteradas, que passa a ser representado pelas cores amarelo e o preto. O bloco São Clemente estava estruturado de maneira simples, sem variações de fantasias, alegorias ou enredo. Desfilava durante três dias pelas ruas de Botafogo, no domingo pela Rua Arnaldo Quintela, na segunda-feira pela Rua Lopes Quintas e na terça-feira pela Rua São Clemente. 65


Ano a ano aumentava o número de participantes nos desfiles, na década de 1960 o bloco tinha alcançado um alto nível de popularidade e de organização, passava, então, a reunir as condições necessárias para transformar-se em uma escola de samba. Motivados por outros blocos que haviam se tornado escolas de samba, Ivo Gomes, Carlos Correa Lopes e Jorge de Andrade, componentes do bloco, deram início ao processo de transformação do bloco em escola. A primeira ação tomada foi buscar apoio dentro da

Associação

das

Escolas de Samba do Brasil (AESB)19. Carlos Lopes era amigo de Eurico Moreira, diretor da AESB e membro da comissão julgadora da respectiva associação, sua influência política entre os membros da Associação seria fundamental na transformação do Bloco São Clemente em escola de samba. Para tal, o bloco foi submetido a um processo de avaliação no qual o grupo teve que apresentar um samba diante da comissão julgadora da AESB. A apresentação foi muito bem recebida e aprovada por unanimidade, nascia assim o G.R.E.S. São Clemente, que passou a integrar o Grupo 3 das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. O primeiro desfile oficial da São Clemente aconteceu no carnaval de 1962, sob o enredo “Riquezas do Brasil”, a escola alcançou o quarto lugar em sua estréia como escola de samba. Por não contar com nenhum rico patrono e sendo pequena a subvenção oficial, a São Clemente sempre viveu às voltas com problemas financeiros. No principio, componentes e admiradores contribuíam como podiam, fosse com ajuda financeira, financiando alas, ou com trabalho, ajudando na confecção de fantasias e na construção de alegorias. No ano de 1964, a escola consegue obter a sua sede, esta seria o novo local dos ensaios, que vinham sendo realizados nos pátios de uma concessionária de automóveis em Botafogo. A concessão de um terreno na Rua São Clemente nº 61, dá à escola mais 19

Associação das Escolas de Samba do Brasil, foi fundada em 1952, resulta da fusão da Federação Brasileira das Escolas de Samba (FBES) com a União Geral das Escolas de Samba (UESB). Mais tarde passou a se chamar Associação das Escolas de Samba da Guanabara e, quando houve a fusão no Estado do Rio de Janeiro, ganhou a denominação que é a atual de Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ). (RIOTUR, 1991.). A AESCRJ é atualmente a entidade representativa das Escolas do Grupo de Acesso.

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do que um local pra ensaiar, dá à agremiação um berço, o local onde os laços de amizade e vizinhança seriam reforçados. Neste ano, com apenas três anos de existência, a São Clemente ganha o concurso das escolas e sobe para o Grupo 2, com o enredo “Rio dos Vice-Reis”. Em 1966, com o enredo “Apoteose ao folclore brasileiro”, a São Clemente saiu vencedora do Desfile e ascendeu ao Grupo 1 (correspondente ao grupo Especial da época). Neste ano a escola se apresentou com quatro carros alegóricos que curiosamente foram confeccionados dentro da quadra da escola. No ano seguinte, em 1967, para fazer frente aos gastos do Grupo 1, foi preciso unir forças para conseguir os recursos financeiros necessários à realização de um grande carnaval. Assim, o então presidente Ivo Rocha recorreu a George Avelino, administrador regional responsável pelo bairro de Botafogo. Com o apoio de Avelino, a escola conseguiu que os comerciantes locais colaborassem com o “livro de ouro”, desse modo a escola sanou seus problemas financeiros e conseguiu preparar um carnaval de alto nível. Apesar dos ensaios na quadra e do apoio dos comerciantes, o desfile não obteve o êxito esperado, pois no momento de entrar na avenida um forte temporal caiu e prejudicou todo o trabalho realizado. Como resultado a escola obteve o décimo lugar e amargou o rebaixamento, voltando para o Grupo 2. A década de 1970 representou para a escola momentos difíceis no que se refere à situação econômica da escola. Com um orçamento modesto, os desfiles da escola foram realizados contando apenas com a pequena subvenção oficial e com o apoio de amigos, comerciantes e moradores da Zona Sul, a escola não conseguiu acompanhar financeiramente a evolução do carnaval carioca. Desse modo, a ausência de um mecenas ligado ao jogo do bicho, que pudesse arcar com os altos custos do carnaval impostos pelo novo padrão estético introduzido nas escolas de samba, fez com que a São Clemente, que em sua primeira década de vida chegou ao Grupo 1, passasse os anos de 1970 nos grupos de Acesso.

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A ausência de bicheiros na escola é até hoje uma das características da agremiação, que contorna as dificuldades econômicas com alternativas criativas buscando reduzir o custo dos desfiles. A década de 1980 começa para a G.R.E.S. São Clemente com um grande revés, o falecimento do presidente da escola Ivo da Rocha Gomes. Idealizador do bloco e fundador da escola, Ivo Gomes foi o primeiro presidente da escola e se manteve da presidência por 19 anos, de 25 de outubro de 1961 até 24 de julho de 1980. Ele foi o principal responsável pela evolução da escola, apaixonado pela agremiação, Ivo fez de tudo um pouco, foi carnavalesco, diretor de bateria e compositor, fez da escola a sua vida e passou o amor ao carnaval aos seus filhos e netos. O falecimento de Ivo inaugura um período de sérias dificuldades para a agremiação. O presidente interino, o influente comerciante Ivan da Silva Vasconcelos enfrentou uma série de desafios para manter a escola viva, pois se não fosse a ajuda dos componentes e colaboradores a São Clemente teria inevitavelmente acabado. Os anos de 1980 também foram marcados por transformações no padrão estético da escola e pela introdução de sambas enredos irreverentes e repletos de críticas sociais, características que formam a identidade da escola. Os carnavalescos Carlos de Andrade e Roberto Costa foram os responsáveis pelas mudanças, em 1984, com o enredo “Não corra, não mate, não morra – O diabo está solto no asfalto”, que fazia uma dura crítica à violência do trânsito nas grandes cidades. Neste ano a escola fica em quarto lugar no Grupo 1B (equivalente ao atual grupo de Acesso) e ascende ao Grupo 1A (atual Grupo Especial). Ao introduzir um samba com uma forte crítica social, os carnavalescos consagraram uma linha de enredo que foi definitivamente adotada pela escola, revelando a São Clemente como uma escola de samba inquieta com as questões sociais do povo brasileiro. Dando continuidade à proposta, em 1985, no Grupo 1A, a escola desfilou com o enredo “Quem casa, quer casa” que fazia uma forte crítica ao problema habitacional brasileiro. A escola ganhou o Estandarte de Ouro de melhor enredo, apesar disso ficaram na 15ª colocação e mais uma vez a escola retornou ao grupo de Acesso. 68


Em 1986, apresentou o enredo “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil, que tratava do sistema público de saúde e da qualidade dos serviços ofertados à população. Com uma temática ainda hoje importante, a escola alcançou o vicecampeonato e retornou à elite do carnaval. Já no ano de 1987, a São Clemente leva pra avenida “Capitães de Asfalto”, o enredo, uma alusão à obra de Jorge Amado “Capitães de Areia”. A escola traz para o Sambódromo o tema da infância abandonada, chocando os espectadores ao levar para a avenida um grupo de meninos de rua. Com o polêmico desfile a agremiação ficou em 7º lugar e se manteve na elite das escolas. O tema trazido para a avenida em 1988, “Quem avisa amigo é”, era um grito de alerta contra a violência das grandes cidades. Em 1989, com o enredo “Made in Brazil – Yes, nós temos banana”, a escola apresentou um samba que falava do amor ao Brasil e à esperança de um país melhor. Em 1990, com o enredo “E o samba sambou” a escola fez uma crítica feroz ao mega-espetáculo em que havia se transformado o desfile das escolas de samba, nesse ano a São Clemente alcançou a 6ª colocação. Os enredos acima citados foram realizados pelos carnavalescos Carlos de Andrade e Roberto Costa, com a exceção o do ano de 1990, que foi desenvolvido apenas pelo primeiro. O trabalho da dupla na São Clemente foi importante para formar a identidade da agremiação e para dar visibilidade entre as grandes escolas. Após cinco anos desfilando no grupo especial, no carnaval de 1991, a escola retorna ao grupo de Acesso, teria início novamente o sobe e desce da escola. A São Clemente volta novamente ao Grupo 1 em 1994 com o enredo assinado por Roberto Costa “Uma andorinha só não faz verão ou Aonde vai a corda vai a caçamba”, uma celebração à derrubada do Presidente Fernando Collor de Mello e expectativas de mudanças no cenário político e econômico brasileiro. A assimetria existentes entre a São Clemente e as escolas do Grupo 1, no que diz respeito à disponibilidade de recursos financeiros para investir nos desfiles, fez com que no carnaval de 1996, mais uma vez a escola de Botafogo fosse rebaixada ao grupo de Acesso. 69


Ela retorna ao Grupo Especial em 1998, com o enredo do carnavalesco Jaime Cesário, “Maiores são os poderes do povo. Se liga na São Clemente”. Em 1999, mais uma vez no Grupo Especial, a escola mantém o carnavalesco vencedor do grupo de Acesso e apresenta o tema “A São Clemente comemora e trás Rui Barbosa para os braços do povo”. O desfile não teve o sucesso esperado, a escola obteve o 14º lugar e retornou para o grupo de Acesso. Apesar do sobe e desce da escola entre o grupo Especial e o Grupo de Acesso na década de 1990, foi nesse período que se consolidou a identidade da escola, cuja principal marca são os enredos contestadores com alto teor de crítica e sambas que abordam temas importantes com irreverência e alegria. A seqüência de sambas críticos iniciados em meados da década de 1980 se mantém até hoje. O século XXI começa com a São Clemente adotando pela primeira vez um enredo patrocinado, prática que já era uma realidade entre as grandes escolas desde a década anterior e que ao longo dos anos 2000 só fez se fortalecer. Porém, apesar do patrocínio do Governo de Sergipe o desfile realizado sob o enredo “A São Clemente é Tupi com Sergipe na Sapucaí” alcançou apenas o quarto lugar entre as escolas do Grupo de Acesso. No carnaval de 2001 a escola volta às suas origens e ataca novamente com crítica e irreverência, com o enredo “A São Clemente falou e nada mudou nesse Brasil” a escola alcança o vice-campeonato do Grupo de Acesso e mais uma vez retorna ao Grupo Especial. A fim de evitar novamente uma descida para o Grupo de Acesso no carnaval de 2001 a escola adota mais uma vez um enredo patrocinado, “Guapimirim: Paraíso ecológico abençoado pelo Dedo de Deus”. O carnaval produzido pela primeira vez por uma comissão de carnaval abre os desfiles do Grupo Especial de domingo e decepcionou, as falhas na evolução da escola renderam a São Clemente a 14ª colocação e o retorno ao Grupo de Acesso. Em 2003, depois de idas e vindas ao Grupo Especial e de 37 anos sem nenhum título do carnaval o G.R.E.S. São Clemente alcança seu terceiro título de campeã. Com o enredo “Mangaratiba – Uma história de lutas para todos que amam a terra e a liberdade”, de Lane Santana, a São Clemente sagra-se campeã do Grupo de Acesso, 70


deixando para trás escolas tradicionais, como G.R.E.S. União da Ilha do Governador, G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel e o G.R.E.S. Estácio de Sá. Novamente no Grupo Especial o desafio da São Clemente no carnaval de 2004 era manter-se entre as grandes escolas. Fazer frente aos gastos exigidos nos megaespetáculo do desfiles do Grupo Especial não é tarefa fácil. Apesar de um aumento significativo da subvenção recebida no Grupo Especial, as dificuldades financeiras se mantiveram presentes, uma vez que a verba aumenta, os gastos aumentam em proporção muito maior. O número de carros alegóricos no Grupo Especial aumenta de 6 para 8 carros, assim com o tempo de desfile, que muda de 60 minutos pra 80 minutos, o que passa a exigir um aumento no número de componentes, tanto nas alas obrigatórias como alas das baianas e bateria (que têm tradicionalmente as fantasias dadas pela escola), como na escola como um todo. Dessa forma, é extremamente difícil concorrer de igual para igual com as escolas grandes contando apenas com os recursos da subvenção oficial, isso sem falar no peso da tradição das escolas que há décadas se mantém no Grupo Especial. E mais uma vez, com o enredo assinado pelo carnavalesco Milton Cunha “Boi Voador sobre o Recife: O cordel da galhofa nacional apesar do bonito desfile e da disputa ponto a ponto com o G.R.E.S Caprichosos de Pilares pela permanência no Grupo Especial, a escola cai para o Grupo de Acesso novamente. O G.R.E.S. São Clemente permanece dois anos no Grupo de Acesso, retornando ao Grupo Especial no carnaval do ano de 2007. O enredo desenvolvido por uma comissão de carnaval, “Barrados no Baile”, tinha a cara da São Clemente, o enredo crítico e atual abordava temas polêmicos, como homossexualidade, desigualdade racial e de gênero e inclusão social. O enredo fazia uma crítica pesada ao preconceito e à discriminação, o samba-enredo funcionou como uma espécie de grito por igualdade e justiça social. Questionador e com forte apelo popular o desfile da São Clemente conquistou o público e os jurados, alcançou, assim, o 1º lugar no campeonato do Grupo de Acesso levando a escola de volta para o Grupo Especial. No carnaval de 2008 e 2009, a escola permanece lutando para subir para o Grupo Especial, o só vem se realizar no carnaval de 2010. Com o enredo atualíssimo, “Choque de Ordem na folia”, uma sátira ao polêmico Choque de Ordem Urbana 71


implantado pelo Prefeito Eduardo Paes, a São Clemente ganha o campeonato do Grupo de Acesso e ganha o direito de desfilar o carnaval de 2011 entre as escolas do Grupo Especial. O sobe e desce da São Clemente ao longo dos anos entre os grupos revela a enorme assimetria de poder econômico e político entre as escolas de samba do Rio de Janeiro. Os desfiles das escolas do Grupo Especial, onde cifras milionárias são despendidas para um único dia de desfile, mostra a enorme dificuldade de uma escola de porte médio como a São Clemente de vencer o disputadíssimo campeonato do Grupo de Acesso e vencendo essa barreira o desafio de permanecer na elite das escolas de samba com um orçamento reduzido e sem contar com o auxílio luxuoso de um rico mecenas do jogo do bicho. A escola de Botafogo, que como muitas outras agremiações contam com um orçamento reduzido, apresenta também peculiaridades que vão além da ausência de um patrono. Os laços formados ainda com o time de futebol que deu origem à escola permanecessem vivos, graças, em grande parte ao Estatuto da Escola, que impede a presença de indivíduos alheios ao dia-a-dia da agremiação na Direção. O estatuto prevê que para fazer parte da diretoria e poder concorrer à presidência é preciso comprovar vínculo mínimo de 20 anos de participação ativa na escola. Desse modo, o G.R.E.S. São Clemente vem conseguindo manter ao longo dos anos sua tradição e está amparado por uma forte estrutura familiar, o legado deixado por Ivo Gomes tem se perpetuado através dos seus filhos. O caráter familiar da escola se faz claro ao se observar a lista de presidentes da escola: 

Ivo da Rocha Gomes - Gestão: 25 de outubro de 1961 a 24 de

julho de 1980; 

Ivan da Silva Vasconcellos – 1ª Gestão: 24 de julho de 1980 a 12

de junho de 1981; 2ª Gestão: 12 de junho de 1984 a 11 de junho de 1987; 

George Avelino – Gestão: 12 de julho de 1981 a 12 de junho de

1984; 72


Ricardo Almeida Gomes – Gestão: 11 de julho de 1987 a 11 de

junho de 2002; 

Renato Almeida Gomes – Gestão: 11de junho de 2002 até o

presente momento. Ao longo de 48 anos de existência a São Clemente teve apenas cinco presidentes, destes, três são da família Gomes, junto seus mandatos somam 41 anos, o que mostra a importância e a hegemonia da família frente à escola. Assim, a G.R.E.S. São Clemente, escola da Zona Sul, reduto da classe média inicia mais uma década com um desafio. A vitória no carnaval de 2010 a coloca mais uma vez no Grupo Especial, agora além do aumento da subvenção repassada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, a escola vai poder desfrutar da infraestrutura presente nos barracões da Cidade do Samba, na expectativa de realizar um campeonato grandioso e manter-se no Grupo Especial, na busca do sonho de um dia sagrar-se campeã entre as poderosas escolas da cidade.

4.2 – A estrutura organizacional O G.R.E.S. São Clemente é regido por um rígido Estatuto, que garante a preservação da unidade e mantém aventureiros afastados dos cargos de direção da escola. O Estatuto prevê as seguintes funções executivas: 

Presidente

Vice-Presidente Geral

Diretoria de Carnaval

Diretoria Financeira

Diretoria Patrimonial

Diretoria Jurídica 73


Diretoria de Eventos

Diretoria de Esportes

Vale ressaltar, que para ocupar alguma dessas funções é preciso ser associado à São Clemente, para isso, é preciso comprovar um vínculo de no mínimo vinte anos na escola. Segundo Roberto Almeida Gomes, vice-presidente geral, tal medida visa dar à escola um sentido de participação e continuidade e não um sentido de passagem, como acontece em muitas agremiações, onde a invasão de pessoas cujo interesse pessoal sobrepõe os interesses coletivos e que se aproveitam das brechas dos estatutos para utilizar à máquina administrativa da escola em benefício próprio. Desse modo, a partir de uma Assembléia Geral composta por todos os associados da escola, hoje em número de 140 sócios, é eleito o Conselho Deliberativo e o Conselho Fiscal. É através do Conselho Deliberativo que é eleito a Presidência e a Diretoria da escola. Quanto à sua estrutura física a São Clemente conta com uma quadra, localizada na Avenida Presidente Vargas nº 3102, onde são realizados os ensaios, cursos de percussão e outros eventos para angariar fundos para a escola. Além disso, a escola também conta com um Centro Cultural, instalado em um casarão centenário localizado na Rua Moncorvo Filho nº56. Fundado em 2008, o Centro Cultural São Clemente funciona como um centro de preservação da memória e da história do carnaval é um espaço dinâmico e interativo de comunicação, documentação e informação sobre a São Clemente e o carnaval carioca. Lá vem sendo realizados trabalhos de pesquisas, documentários, digitalização de fotos e jornais buscando preservar a história. O Centro Cultural também é utilizado como um espaço de aprendizagem, onde são realizados cursos de cavaquinho, aulas de samba no pé e oficinas de adereços e fantasias. No espaço do Centro Cultural também funciona um ateliê de fantasias, onde são confeccionadas grande parte dos figurinos da escola, os alunos do curso de adereços

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têm assim a chance de aperfeiçoar as técnicas aprendidas e muitos deles são aproveitados pela escola. O barracão da escola para o carnaval de 2010 estava localizado no Bairro de São Cristovão, lá foram desenvolvidas as alegorias que foram levadas para a avenida. As atividades da São Clemente não se resumem apenas às atividades carnavalescas, a escola desenvolve também projetos esportivos, sendo o foco principal o futebol. O tradicional time de Futebol São Clemente se mantém vivo desde os primórdios da escola e hoje é um conceituado time de futebol de areia.

4.3 – Estrutura Produtiva do G.R.E.S. São Clemente para o Carnaval 2010 Esse estudo de caso tem como objetivo principal buscar uma maior compreensão das características que compõe a estrutura de produção de uma escola de samba. O estudo tem como base de dados o cronograma financeiro para o carnaval de 2010 cedido pela Direção da G.R.E.S. São Clemente, que, como dito anteriormente, é uma escola de porte médio, com recursos financeiros escassos e que acaba de subir para o Grupo Especial. O referido cronograma traz informações relacionadas ao planejamento financeiro e produtivo da escola, apresentando alguns indicadores referentes a gastos com mão-de-obra e com material utilizado na confecção das fantasias e das alegorias, bem como o número de profissionais necessários em cada etapa da produção e o número de dias previsto para execução do planejamento. No carnaval de 2010, a escola de Botafogo levou para o Sambódromo cinco carros alegóricos e 2100 componentes, divididos em 17 alas. Dessas alas, cinco eram alas particulares, cujas fantasias foram confeccionadas fora do ambiente da escola e comercializadas pelo presidente das respectivas alas. A escola foi responsável pela confecção de 1600 fantasias destinadas às alas da comunidade, baianas e bateria. Foram identificadas 27 ocupações distribuídas em sete setores distintos: Alegorias, Ateliê de Fantasias, Despesas de Avenida, Manutenção Patrimonial, Músicos e Coreógrafos (Sambistas Especializados), Planejamento e Protótipo de Fantasias. 75


O cronograma da São Clemente indicou um orçamento total de R$ 1.435.000,00 para o Carnaval 2010. Os recursos foram provenientes das seguintes fontes: repasse da prefeitura e repasse da venda dos ingressos do desfile, aproximadamente R$ 550.000; arrecadação da quadra (ensaios e eventos da escola), patrocínios individuais (amigos e sócios) e direitos de imagem, aproximadamente R$ 885.000. Vale lembrar que esses são valores referentes aos custos de um desfile do Grupo de Acesso. De acordo com o vice-presidente da escola, a previsão de gastos para o carnaval de 2011, no Grupo Especial, será de pelo menos três vezes o total dispendido em 2010. Os recursos acima citados se distribuíram de forma assimétrica entre os setores da escola, sendo que dos sete setores existentes, dois deles concentraram aproximadamente 75% dos gastos totais – Alegorias (42,23%) e Fantasias (32,06%). Percentuais significativamente menores foram verificados para os outros setores: Músicos e Coreógrafos (8,71%); Planejamento (7,32%); Despesas de Avenida (3,97%); Manutenção Patrimonial (2,93%); e Protótipo de Fantasias (2,79%) (Gráfico 1). Gráfico 1 – Distribuição dos Gastos da Escola por Setor (2010)

Fonte: São Clemente – Cronograma Financeiro (Carnaval 2010)

A análise seguinte se refere à distribuição dos gastos por setor da escola, bem como à distribuição dos gastos no interior de cada setor, conforme apresentado na Tabela 1. 76


Na análise do setor de Alegorias, responsável pela execução de aproximadamente 40% da despesa total da escola, verifica-se que os gastos são subdivididos em gastos com pessoal e gastos com material para confecção das alegorias. Dos R$606 mil destinados para esse setor, 53,63% (R$325 mil) foram gastos com material e 46,37% (R$281 mil) com pessoal. Dentre as despesas com material, destacam-se as referentes ao material de decoração, os quais correspondiam sozinhos a 36,92%. Esse resultado é esperado, uma vez que a característica inerente ao setor é a confecção de carros alegóricos, que demandam grande volume de material de acabamento. No setor Ateliê de Fantasias, a aquisição de material representou quase metade (48,91%) dos gastos. O dispêndio com mão-de-obra foi bastante significativo, principalmente com os aderecistas, que representaram 17,39% do total. Aos sapateiros e às costureiras foram destinados, respectivamente, 9,78% e 8,70%. O setor de Planejamento destinou 97,14% para a remuneração de pessoal. Parcela significativa foi destinada ao Carnavalesco (40,00%), principal responsável pelo funcionamento do barracão, e também significativo foi o valor destinado ao Arquiteto Projetista (28,57%). No setor de Protótipo de Fantasias, verifica-se uma alta participação dos gastos com material, que representou 62,50%. Por se tratar de uma fase preliminar e envolver um número menor de profissionais no processo, esse setor requereu um volume menor de recursos, 2,79% do total. Antes do exame da composição dos gastos do setor Despesas da Avenida, é preciso mencionar que este setor se diferencia essencialmente dos demais por ser realizado em apenas um dia, ou seja, sua participação se resume ao dia do desfile. A composição desses gastos é constituída basicamente de pessoal (empurradores de carros alegóricos), e aluguel de equipamentos (geradores de energia e caminhão frete). Os aluguéis de equipamentos totalizaram R$34 mil, 59,65% dos gastos, enquanto o percentual destinado ao pagamento dos empurradores constituiu 31,58% (R$18 mil). Os 8,77% restantes foram destinados à compra dos fogos de artifícios, utilizados na abertura do desfile da escola. Vale destacar que os gastos com fogos de artifícios equivalem ao pagamento de 1/3 do pessoal contratado como empurradores. 77


Na Manutenção Patrimonial estão incluídos os gastos relacionados ao pagamento de aluguéis, serviços de vigilância e auxiliares de serviços gerais. De maneira uniforme, o Barracão, a Quadra e o Centro Cultural, cada um, representou 33,33% dos gastos do setor. Por último temos o setor composto pelos Sambistas Especializados. Os gastos do setor são destinados exclusivamente ao pagamento dos profissionais da dança e da música que atuam tanto no período pré-desfile, participando ativamente dos ensaios e apresentações da escola, quanto no dia do desfile. Os gastos com a mão-de-obra especializada em samba foram distribuídos da seguinte forma: 48% foram destinados aos intérpretes do samba-enredo; 24% aos coreógrafos da comissão de frente; 8% ao Mestre-Sala; 8% à Porta-Bandeira; 8% ao Cavaquinistas; e 4% ao violonista.

Tabela 1 – Distribuição dos Gastos Setoriais e Intra-Setoriais (2010)

Discriminação Planejamento Carnavalesco Assistente Secretaria Arquiteto projetista Arte visual Material de desenho Protótipos de fantasias Costureiras Aderecistas Arames Material Sapateiro Alegorias Desmonte Ferreiro Material ferreiro Carpinteiro Material carpinteiro Escultor Material escultor Mecânica Material mecânica Laminador de fibra

Valor

Part. Part. Gastos Gastos setoriais totais (%) (%)

105.000,00 42.000,00 14.000,00 7.000,00 30.000,00 9.000,00 3.000,00

7,32% 2,93% 0,98% 0,49% 2,09% 0,63% 0,21%

100,00% 40,00% 13,33% 6,67% 28,57% 8,57% 2,86%

40.000,00 3.000,00 8.000,00 3.000,00 25.000,00 1.000,00

2,79% 0,21% 0,56% 0,21% 1,74% 0,07%

100,00% 7,50% 20,00% 7,50% 62,50% 2,50%

606.000,00 8.000,00 42.000,00 60.000,00 42.000,00 30.000,00 30.000,00 20.000,00 12.000,00 10.000,00 20.000,00

42,23% 0,56% 2,93% 4,18% 2,93% 2,09% 2,09% 1,39% 0,84% 0,70% 1,39%

100,00% 1,32% 6,93% 9,90% 6,93% 4,95% 4,95% 3,30% 1,98% 1,65% 3,30%

78


Material de fibra Pintura de arte Material de pintura Iluminação Material de iluminação Artesão em espuma Material de espuma Decoração Material de decoração Vidraceiro Material vidraceiro Costureiras Serviços gerais

20.000,00 18.000,00 20.000,00 30.000,00 15.000,00 5.000,00 10.000,00 36.000,00 120.000,00 12.000,00 20.000,00 6.000,00 20.000,00

1,39% 1,25% 1,39% 2,09% 1,05% 0,35% 0,70% 2,51% 8,36% 0,84% 1,39% 0,42% 1,39%

3,30% 2,97% 3,30% 4,95% 2,48% 0,83% 1,65% 5,94% 19,80% 1,98% 3,30% 0,99% 3,30%

Ateliê de fantasias Gerente de produção Costureiras Modelista Aderecistas Arame Sapateiro Material de fantasias

460.000,00 10.000,00 40.000,00 15.000,00 80.000,00 45.000,00 45.000,00 225.000,00

32,06% 0,70% 2,79% 1,05% 5,57% 3,14% 3,14% 15,68%

100,00% 2,17% 8,70% 3,26% 17,39% 9,78% 9,78% 48,91%

Despesas da avenida Empurradores Geradores aluguel Caminhão frete Fogos

57.000,00 18.000,00 30.000,00 4.000,00 5.000,00

3,97% 1,25% 2,09% 0,28% 0,35%

100,00% 31,58% 52,63% 7,02% 8,77%

Manutenção patrimonial Quadra Barracão Centro cultural

42.000,00 14.000,00 14.000,00 14.000,00

2,93% 0,98% 0,98% 0,98%

100,00% 33,33% 33,33% 33,33%

125.000,00 60.000,00 10.000,00 10.000,00 10.000,00 5.000,00

8,71% 4,18% 0,70% 0,70% 0,70% 0,35%

100,00% 48,00% 8,00% 8,00% 8,00% 4,00%

30.000,00

2,09%

24,00%

1.435.000,00

100,00%

Músicos e coreógrafos Interpretes Mestre-sala Porta-bandeira Cavaquinho Violão Coreográfo comissão de frente Total despesa 2010

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010)

A partir dos dados acima, verifica-se que as escolas de samba são um importante pólo de geração de trabalho e renda, e reúnem, no mesmo espaço, uma série de ocupações distintas. Na análise da composição dos gastos, observa-se que metade deles correspondem ao pagamento de pessoal (Gráfico 2). 79


Gráfico 2 – Participação dos Gastos com Pessoal no Total dos Gastos da Escola (2010)

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010)

A análise da distribuição desses gastos por setores demonstra que o setor de Alegorias deteve o maior gasto com pessoal, 38,65%, o que era de se esperar, uma vez que é o setor que mais contrata, como pode ser visualizado na Tabela 2. O setor de Despesas da Avenida, com seus 120 empurradores, ainda que constitua quase a mesma quantidade de pessoas envolvidas no carnaval da São Clemente (45,6%), representa 2,48% dos gastos com pessoal da escola. Chama atenção o setor de Planejamento, que apesar de ocupar poucos profissionais, responde por 14,03% do total de gastos com mão-de-obra, o que pode ser explicado pela presença de profissionais especializados, que recebem remuneração mais elevada que os demais trabalhadores da escola (Gráfico 3). Gráfico 3 – Gastos com Pessoal por Setor (2010)

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010) 80


A Tabela 2 apresenta em números absolutos a quantidade de pessoas ocupadas em cada setor. Foram identificados 263 trabalhadores ao longo do processo de produção, sendo que apenas 143 são diretamente envolvidos neste processo. De tal modo, na análise referente à distribuição quantitativa de pessoal, foram excluídos os empurradores (120 pessoas) por se tratar de um serviço realizado apenas no dia do desfile. Tabela 2 – Pessoal Ocupado por Setor (2010) Setor

Pessoas ocupadas

Planejamento

5

Protótipo Fantasias

6

Sambistas Especializados

14

Ateliê de Fantasias

31

Alegorias Despesa da Avenida Total de pessoas ocupadas

87 120 263

Pessoas ocupadas excluindo Despesas da Avenida

143

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010)

Ao analisar a distribuição percentual do pessoal ocupado segundo setor (exceto Despesas da Avenida), observa-se que o setor de Alegorias é intensivo em mão-de-obra, absorvendo 60,84% da mão-de-obra total ocupada na produção da escola. O setor ateliê de fantasias da São Clemente ocupou 21,68% do pessoal, seguido pelo setor Sambistas especializados (9,79%) Protótipo de Fantasias (4,20%) e Planejamento (3,50%) (Gráfico 4).

81


Gráfico 4 – Distribuição do Pessoal Ocupado por Setor, exceto Despesas da Avenida (2010)

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010)

Quanto à contratação dos trabalhadores, em geral, trabalham sob o regime de empreitada: é combinado o serviço, o prazo de execução do trabalho e o preço entre os trabalhadores e a escola. Vale lembrar que em atividades como ferragem, pintura de arte, carpintaria, vidraceiro, etc. existe um chefe de equipe. Por exemplo, no caso da ferragem, a escola conta com um ferreiro de confiança, que trabalha há alguns anos para a escola e é responsável por recrutar o pessoal e comandar a equipe que irá trabalhar com ele. A mensuração do rendimento auferido com o trabalho na escola de samba apresenta uma série de entraves, um deles reside no fato de cada profissional entrar em cena em momentos distintos do processo de produção, passando pela instabilidade dos contratos de trabalho, bem como o desconforto em responder questões referentes à renda. O cronograma financeiro apresenta o número de dias trabalhados de cada profissional. O tempo de participação no processo produtivo varia desde profissionais que trabalham por apenas um dia, como os empurradores dos carros alegóricos, até indivíduos que participam de todo o processo, como, por exemplo, o carnavalesco que disponibiliza seus serviços durante 210 dias (7 meses), trabalhando desde a concepção do desfile até sua concretização na Apoteose.

82


Cada escola tem uma forma particular de planejamento e execução dos projetos. No caso da São Clemente, os trabalhadores do barracão tem carga horária diária de oito horas de trabalho, de segunda a sexta-feira. Segundo o Vice-presidente da escola, quando há a necessidade de acelerar a produção, é combinado com os trabalhadores o valor da hora-extra, e, havendo a necessidade de trabalhadores extras, estes são contratados a fim de fazer frente aos prazos, ou seja o dia do desfile. A seguir apresenta-se uma análise comparativa da remuneração por hora segundo ocupação do Estado do Rio de Janeiro (ERJ) e do G.R.E.S. São Clemente (Tabela 3). Os dados referentes ao ERJ foram obtidos da base Salariômetro, da Secretaria do Emprego e Relações de Trabalho do Governo do Estado de São Paulo. O Salariômetro é alimentado mensalmente com informações extraídas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – CAGED. A partir das informações sobre contratações e desligamentos fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), calcula-se a média dos salários dos indivíduos admitidos nos últimos seis meses em diversas ocupações, correspondendo, portanto, ao mercado formal de trabalho. As buscas no Salariômetro são feitas com base no nome ou no código da ocupação segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Para isso, com base na listagem da CBO, procurei enquadrar as ocupações identificadas no barracão segundo a descrição das atividades exercidas em cada ocupação listada. Em se tratando dos dados da São Clemente, vale lembrar que os valores presentes nesse trabalho correspondem aos gastos da escola enquanto participante do Grupo de Acesso, onde os recursos são mais escassos e a informalidade nas relações de trabalho são a realidade. Feitas as ressalvas necessárias, uma rápida visualização da Tabela 3 nos revela que o mercado de trabalho em uma escola de samba é bastante heterogêneo. Ao todo foram encontradas 27 categorias de trabalho, que vão desde ocupações que exigem formação técnica especializada, como no caso do Arquiteto Projetista, passando pelo trabalho guiado pelo saber fazer e pela experiência, encontrada entre as costureiras, ferreiros e carpinteiros. Tão diverso quanto às ocupações presentes em um barracão de escola de samba, são as variações de rendimentos entre cada categoria. Também se faz presente a 83


diferenciação de rendimentos dentro de uma mesma categoria, variando conforme o setor de produção da escola, como é o caso dos aderecistas e costureiras. O Arquiteto Projetista, responsável por projetar e desenhar tecnicamente os carros alegóricos, é o profissional que tem a hora de trabalho mais bem remunerada dentro da São Clemente, recebendo R$ 41,67 por hora de trabalho, sendo cerca de 3,6 vezes maior do que o valor da hora-média paga no Estado do Rio de Janeiro. Na São Clemente, a segunda ocupação mais bem remunerada é a de Iluminador ou Eletricista de instalações (cenários), cuja hora de trabalho equivale a cerca de R$ 37,50. Enquanto isso, o valor médio pago aos Iluminadores do Estado do Rio de Janeiro é de R$ 9,98 a hora, ou seja, valor 3,76 vezes menor do que é pago na escola de samba. Curiosamente, no caso aqui analisado, o valor da hora de trabalho paga ao Arquiteto Projetista e ao Eletricista, superou o valor da remuneração-hora paga ao Carnavalesco da São Clemente para elaborar o carnaval de 2010, fato inesperado no badalado mercado dos carnavalescos. A remuneração-hora do Carnavalesco da escola para o carnaval de 2010 girou em torno de R$ 25,00 a hora, enquanto o Assistente do Carnavalesco recebeu cerca de R$ 8,33 por hora de trabalho. A comparação entre o valor da hora de trabalho do Carnavalesco da São Clemente e a remuneração paga no Estado do Rio de Janeiro não foi possível para este tipo de profissional, pois não foram encontrados no CAGED/MTE registros de contratações com o perfil informado. A ausência de registros de profissionais contratados formalmente como Carnavalecos ou, conforme a CBO, Cenógrafo Carnavalesco e de festas populares, revela o nível de instabilidade e volatilidade deste tipo de trabalho, muitas vezes por opção do profissional que valoriza a independêcia e autonomia. O trabalho do carnavalesco baseado em criatividade e idéias, vive e sobrevive de resultados. A responsabilidade pelo mau desempenho da escola de samba quase sempre recai sobre a figura do carnavalesco, implicando invariavelmente na dispensa dos seus serviços. Não obstante, as escolas comumente mudam de carnavalescos, que numa analogia aos jogadores de futebol, tem seus passes valorizados quanto mais apresentam 84


bons resultados, sobretudo quando vencem. O mercado do Grupo de Acesso segue as tendências do Grupo Especial, muitas vezes contratando carnavalescos com experiências bem sucedidas nas grandes escolas. Por outro lado, no Grupo de Acesso são lançados novos talentos que disputam seu espaço buscando experiência e renome para, quem sabe um dia, serem responsáveis pela criação do carnaval de uma escola no Grupo Especial Dessa forma, o Arquiteto Projetista, o Eletricista e o Carnavalesco são os profissionais que tem as horas de trabalho mais bem remuneradas dentro do G.R.E.S. São Clemente, o que pode ser explicado pelo fato de serem ocupações relacionadas a atividades intelectuais, técnicas e artísticas que exigem experiência, perícia e o domínio de técnicas específicas. Sendo assim, quanto maior o grau de especialização do profissional ocupado, maior a remuneração obtida dentro de um barracão de escola de samba. Ainda na Tabela 3, com relação às categorias ocupacionais ligadas às artes manuais, observa-se uma grande variação entre os valores da remuneração-hora. A hora de trabalho do Artista Visual, profissional que põe no papel as imagens surgidas na cabeça do carnavalesco, custa cerca de R$ 12,50, o dobro do que é observado para o Estado do Rio de Janeiro. Já o Artesão em espuma, recebe R$ 3,13 por hora trabalhada, metade do que é auferido pelos trabalhadores do mercado de trabalho formal. Também com remuneração-hora inferior a média observada para o Estado do Rio, encontra-se o Laminador de fibra que obtém R$ 3,91 contra R$ 6,06 a hora pagos no setor formal. Em se tratando do Escultor de Isopor e gesso, este recebe na São Clemente remuneraçãohora superior a média estadual, cerca R$ 7,81 contra R$ 6,06. Quanto aos profissionais envolvidos com a parte da carpintaria, responsáveis pela construção das estruturas e bases dos carros, estes obtém na São Clemente remuneração-hora de R$ 4,10, cerca de R$2,34 a menos do que é pago fora da escola. Na parte da ferragem, o valor da hora de trabalho é bem próxima ao valor médio de mercado, a escola paga R$ 4,10 a hora contra os R$ 4,26 observados para o Estado. Os trabalhadores ocupados com o desmonte dos carros alegóricos recebiam na São Clemente em média R$ 4,17 por hora de trabalho, não foi possível estabelecer uma

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comparação com o Estado, pois não foram encontrados no CAGED/MTE registros de contratações com o perfil informado. Com relação à Pintura de Arte, verifica-se que o valor da hora paga aos pintores da agremiação supera levemente o valor pago aos trabalhadores formais do Rio, respectivamente, R$ 5,63 e R$ 5,38. Já os vidreiros da escola recebem cerca de R$ 2,90 a mais que os vidreiros de carteira assinada, o equivalente a R$ 7,50 por hora trabalhada. No que diz respeito aos profissionais envolvidos com a parte mecânica dos carros alegóricos, que são montados sobre chassis de caminhão, eles fazem periodicamente a revisão e a manutenção da estrutura mêcanica das alegorias. Os mecânicos da São Clemente recebem R$ 4,17 por hora trabalhada, valor levemente abaixo do que é verificado para a média estadual, equivalente a R$4,80. Quanto a análise da remuneração dos trabalhadores ocupados com a atividade de costura, observa-se que eles se dividem em 3 grupos, de acordo com o setor da escola em que estão alocadas: Protótipos de Fantasias; Alegorias; e Ateliê de Fantasias. Observa-se que é bem discreta a variação da remuneração-hora de trabalho paga pela escola de samba em comparação aos dados referentes ao Estado – o pessoal da costura recebia em média R$ 3,23 a hora no setor de Protótipos; R$ 3,13 no de Alegorias; e R$ 3,75 no Ateliê de Fantasias. Já a remuneração-hora estadual correspondia a R$ 4,17. Ao analisar a remuneração do Gerente de produção, profissional responsável pelo controle e gerenciamento da produção das fantasias, constata-se que as funções de gerência e coordenação dentro da escola recebem remuneção superior ao do mercado formal, R$ 8,33 versus R$ 4,44 a remuneração-hora. No caso das Modelistas, estas recebem R$ 1,55 a menos por hora trabalhada que as profissionais ocupadas formalmente, exatamente R$ 6,25 por hora de trabalho. A remuneração-hora dos Aderecistas também varia conforme o setor de produção da escola. Tanto os Aderecistas do ateliê de fantasias quanto os Aderecistas do setor de Protótipos tem remuneração-hora menor que o verificado na média estadual, respectivamente R$ 3,33, R$ 4,17 contra R$ 6,06.

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Na análise da remuneração dos sambistas especializados da São Clemente, observa-se que os Músicos e intérpretes apresentam remuneração-hora inferior ao observado para os profissionais ocupados no setor formal da economia do estado do Rio. Desse modo, a hora de trabalho dos cavaquinistas e violonistas, classificados na CBO, como Músico intérprete instrumentista popular, custa em média R$ 6,54, e na escola de samba esses profissionais recebem R$ 2,98 por hora de trabalho. Em se tratando dos Intérpretes, classificados como “Músico intérprete cantor”, a remuneraçãohora paga pelo estado do Rio de Janeiro (R$ 25,98) é cerca de 3 vezes maior que a paga na agremiação (R$ 8,33). Tal discrepância entre as remunerações dos músicos pode ser explicado pelo cálculo da remuneração-hora, pois no presente trabalho foi considerado uma carga horária de 8 horas/dia e cinco dias de trabalho por semana. Tendo em vista que o processo de trabalho de profissionais ligados à música apresenta peculiaridades e este não segue de maneira alguma o modo de produção fabril nem segue uma carga horária rígida e estática, os valores aqui apresentados podem estar subestimados, sendo apresentado apenas para fins comparativos. Dando continuidade ao estudo da remuneração dos sambistas especializados, particularmente, os Coreográfos e Dançarinos, observamos que o Coreógrafo da São Clemente recebeu R$ 8,33 por hora trabalhada cerca de R$ 3,00 a menos que um coreógrafo de carteira assinada. Quanto aos dançarinos, representados pelo Mestre-Sala e pela Porta-bandeira, estes receberam remuneração-hora de R$ 5,95, enquanto os profissionais classificados como Dançarinos étnicos reberam R$ 3,14. Com relação à parte administrativa do G.R.E.S. São Clemente, foi possível observar que a remuneração paga ao cargo de Secretária é ligeiramente superior ao observado para a média estadual, respectivamente, R$ 4,17 e R$ 3,51 por hora de trabalhada. Por fim, de acordo com a Tabela 3, observa-se que duas ocupações aparecem praticamente empatadas no quesito ocupação pior remunerada na escola. Os ocupados com a Decoração das alegorias e os Auxiliares de Serviços Gerais recebem cerca R$ 1,50 por hora trabalhada, aproximadamente metade do observado no mercado formal.

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Tabela 3 - Remuneração por hora segundo ocupação para o Estado do Rio de Janeiro e para o G.R.E.S. São Clemente. G.R.E.S. São Clemente Remuneração/ Remuneração/ hora hora 6,06 4,17 RJ

Ocupação

CBO

Aderecista

Aderecista (CBO: 2624-05)

Aderecista

Aderecista (CBO: 2624-05) Desenhista projetista de arquitetura (CBO: 3185-05) Artista (artes visuais) (CBO: 2624-05)

Arquiteto projetista Arte visual Artesão em espuma

6,06

3,33

11,49

41,67

6,06

12,50

6,06

3,13

-

8,33

-

25,00

6,44

4,10

6,54

2,98

Coreógrafo comissão de frente

Escultor em espuma (CBO: 2624-05) Cenógrafo carnavalesco e festas populares (CBO: 2623-05) Cenógrafo carnavalesco e festas populares (CBO: 2623-05) Carpinteiro (cenários) (CBO: 7155-15) Músico intérprete instrumentista popular (CBO: 2627-10) Coreógrafo (CBO: 2628-15)

11,13

8,33

Costureira

Costureira (CBO: 7632-10)

3,23

3,13

Costureira

Costureira (CBO: 7632-10)

3,23

3,75

Costureira

Costureira (CBO: 7632-10)

3,23

4,17

Decoração

Decorador (CBO: 7524-05)

3,23

1,50

Desmonte

Escultor em isopor, gesso (CBO: 262405) Forjador (CBO: 7221-05) Coordenador de costura do vestuário (CBO: 7603-10) Eletricista de instalações (cenários) (CBO:7156-05) Músico intérprete cantor (CBO: 262705) Escultor em fibra (CBO: 2624-05) Mecânico de veículos automotores a diesel (CBO: 9144-25) Dançarinos étnicos (CBO: 3761-10)

-

4,17

6,06

7,81

4,26

4,10

4,44

8,33

9,98

37,50

25,98

8,33

6,06

3,91

4,80

4,17

3,14

5,95

Modelista de roupas (CBO: 3188-10) Pintor de construções cênicas (CBO: 7166-10) Dançarinos étnicos (CBO: 3761-10)

7,80

6,25

5,38

5,63

3,14

5,95

Recepcionista secretária (CBO: 4221-05) Auxiliar de serviços gerais (CBO: 514325) Vidreiros e ceramistas (arte e decoração) - (CBO: 7524-10) Músico intérprete instrumentista popular (CBO: 2627-10)

3,51

4,17

3,07

1,49

4,61

7,50

6,54

2,98

Assistente Carnavalesco Carnavalesco Carpinteiro Cavaquinho

Escultor Ferreiro Gerente de produção Iluminação Interpretes Laminador de fibra Mecânica Mestre-sala Modelista Pintura de arte Porta-bandeira Secretária Serviços gerais Vidraceiro Violão

Fonte: São Clemente, Cronograma Financeiro (2010).

88


A análise da remuneração dos trabalhos envolvidos no processo de produção de um desfile de carnaval permite-nos observar a grande heterogeneidade de inserções em uma escola de samba. Essa diversidade presente no barracão é encontrada na grande variedade de ocupações e em suas remunerações. Observa-se portanto, que qualificação profissional e experiência têm papel importante na obtenção de remunerações mais altas, ou seja, quanto mais especializado o serviço, maior é a remuneração auferida. Assim, mantendo o binômio educação-remuneração, o trabalho na escola de samba segue as tendências do mercado de trabalho contemporâneo, onde o nível de escolaridade e a qualificação profissional têm influência direta no alcance de rendimentos mais elevados e consequentemente no maior acesso à mobilidade social. Neste sentido, uma política pública voltada para o segmento escola de samba é de extrema importância para o desenvolvimento do setor, tanto no que se refere à formação de mão-de-obra qualificada quanto na abertura de novos postos de trabalho. Assim, o capítulo 5 apresenta o Plano Setorial de Qualificação Profissional Para a Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba, política do Ministério do Trabalho e Emprego voltado para a qualificação profissional de trabalhadores. No capítulo foi elaborado o perfil socioeconômico dos alunos das primeiras turmas do programa.

89


CAPÍTULO 5: O Plano Setorial de Qualificação Profissional Para a Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba. A postura racional-administrativa, o alto nível dos desfiles e o discurso de profissionalismo adotado pelas médias e grandes escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro apontam para novas tendências no que tange ao mercado de trabalho no carnaval, trazendo consigo novas demandas, como a exigência de profissionais mais capacitados. Em entrevistas com dirigentes de algumas escolas de samba da cidade, pude perceber que a queixa da falta de profissionais qualificados para trabalhar na produção do carnaval é recorrente. Reclama-se da dificuldade de se encontrar boas costureiras, aderecistas, marceneiros, etc., profissionais competentes que dêem conta do intenso ritmo de produção da escola. Diante disso, no ano de 2010, foi implementado o Plano Setorial de Qualificação Profissional Para a Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba. Pioneiro para o setor, o Plano veio reforçar a importância das escolas de samba como um pólo de geração de trabalho e renda em franca expansão. Os Planos Setoriais de Qualificação (PlanSeQ) fazem parte do Plano Nacional de Qualificação (PNQ), que é gerenciado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) por meio da Secretaria de Políticas Públicas de Emprego (SPPE). O PNQ integra o Sistema Nacional de Emprego (SINE) e é financiado com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). As transferências aos Estados, Municípios, Distrito Federal, organizações governamentais, intergovernamentais e não governamentais sem fins lucrativos ocorrem por meio de convênios plurianuais e outros instrumentos firmados com o MTE. (Edital de Chamada Pública, MTE, 2010). Implementado por meio de Planos Territoriais de Qualificação (Planteqs), Planos Setoriais de Qualificação (PlanSeQs) e Projetos Especiais de Qualificação e Certificação Profissional (Proesqs), o PNQ tem a qualificação social e profissional como um direito do trabalhador e instrumento para sua inclusão e permanência no mundo do trabalho. De tal modo, este plano tem como finalidade estabelecer uma articulação entre Trabalho, Educação e Desenvolvimento. (Edital de Chamada Pública, MTE, 2010).

90


Os PlanSeQs têm sido implementados desde 2004 através de convênios com entidades sem fins lucrativos, selecionadas por meio de Chamada Pública de Parcerias. A demanda por qualificação é identificada em setores econômicos, buscando a geração de trabalho e renda em populações vulneráveis. O PlanSeQ da Indústria do Carnaval tem R$ 7,46 milhões de recursos. Com cobertura nacional, o Plano visa à capacitação social e profissional de mais de 9.450 trabalhadores dos estados do Rio de Janeiro (5.000), São Paulo (3.000), Santa Catarina (350), Espírito Santo (600) e Maranhão (500). A meta é de que, ao final do curso, 2.835 beneficiados sejam incluídos no mercado de trabalho, correspondente a 30% dos trabalhadores beneficiados com a qualificação social e profissional oferecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O PlanSeQ Indústria do Carnaval, por meio de cursos profissionalizantes, tem como finalidade preparar o trabalhador para atividades voltadas para o carnaval compreendidas como geradoras de renda para a população. Podem participar jovens a partir de 18 anos e adultos moradores de comunidades e adjacências das escolas de samba, que estejam ou não envolvidos com a produção do carnaval em suas comunidades, mas que necessitam de uma oportunidade de qualificação para a inserção neste mercado de trabalho. Assim, o PlanSeQ dos trabalhadores para a Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba, se propõe a qualificar trabalhadores sem ocupação, incluindo trabalhadores, desempregados e as populações socialmente vulneráveis. A capacitação ocorre no espaço de 12 meses através de um conjunto de cursos gratuitos. Os cursos têm carga horária de 200 horas e estão divididos em módulos: I - Módulo básico – Possui carga horária total de 40 horas divididas nas seguintes disciplinas: Valores humanos, ética e cidadania; Educação ambiental e qualidade de vida, saúde; Promoção da igualdade racial e equidade de gêneros ; Estímulo e apoio a elevação da escolaridade; Empreendedorismo e economia solidária e História do Carnaval. II - Módulo profissional - Possui carga horária total de 160 horas, com conteúdo voltado à formação profissional específica de acordo o arco ocupacional 91


escolhido. Neste módulo estão sendo oferecidos cursos profissionalizantes nos seguintes arcos ocupacionais:

1 - Confecção de Instrumentos de Percussão (CBO: 7421-20) Maquinários, processos de produção, acabamento.

2 - Costureira (CBO: 7632-10) Confecção de moldes e protótipos de roupas; Operação de máquinas na montagem em série de peças do vestuário. 3 – Chapeleiro (CBO: 7681-25) Moldes, confecção, decoração e acabamento de chapéus. 4 – Cenógrafo (CBO: 2623-05) Conceito artístico da cenografia através de pesquisa; Elaboração e reelaboração de projeto cenográfico; Viabilidade na utilização de materiais; Coordenação e supervisão de equipes. 5 – Decorador (CBO: 7524-05) Pesquisa de temas, desenvolvimento de projetos e realização de trabalhos de decoração e acabamento. 6 – Estampador (CBO: 7614-10) Tingimento e estamparia de tecidos; Acabamento de fibras soltas, fios, tecidos e peças; Operação de máquinas de tingimento, acabamento e estamparia de tecidos. 7 – Escultor em resina, isopor, gesso e espuma e Aderecista (CBO: 2624-05) Modelagem e os recursos próprios da escultura; Fôrma perdida; Fôrma tacel, Fundições frias, fundições químicas (resinas), fundições quentes (bronzes); Estruturas e ampliações; Conceitos, equilíbrio, dinâmica, movimento, estática, peso e forma. Aderecista/Joalheiro na confecção de bijuterias e jóias de fantasia Arte e técnica na criação e montagem de bijuterias; Técnicas de

92


colagem; Entrelaçamento, uso de argolas, nylon e alfinetes; Composição de visual. 8 – Marceneiro (CBO: 7711-05) Técnicas básicas de marcenaria; Leitura e interpretação de desenhos, lista e planos de corte; Operação de máquinas para corte, aparelhamento, esquadrejamento e furação, junções e acoplamentos, moldes e gabaritos; Colagem e montagem; Revestimento de lâminas de madeira, masseamento e acabamento; Instalação de dobradiças, corrediças e puxadores; Afiação e ajustes de ferramentas e ajustes de máquinas. 9 – Serralheiro (CBO: 7244-40) Confecção, reparação e instalação de peças e elementos diversos em chapas de metal. 10 – Percussionista (2627-10) Instrumentos de couro e corda; Afinação e ritmo. Dito isto, o PlanSeQ Nacional dos Trabalhadores para a Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba é o reconhecimento oficial não só do potencial turístico, mas também do potencial econômico-produtivo do carnaval. Um segmento que tem ao longo dos anos alcançado crescimento significativo nas diversas regiões do país. A implantação de uma política pública de emprego voltada às escolas de samba permitirá, além da capacitação técnica, a inclusão no mercado de trabalho de uma parcela da população exposta a um alto risco de vulnerabilidade social. O Plano marca uma nova etapa do desenvolvimento do carnaval brasileiro, sobretudo no que diz respeito ao crescimento do trabalho assalariado. Alcançando um segmento em expansão, que demanda cada vez mais recursos financeiros e mão-de-obra qualificada, o Planseq constitui parte das novas tendências que cercam o processo evolutivo das escolas de samba. Nesse sentido, buscou-se estudar a experiência das primeiras turmas do PlanSeQ, com o objetivo de fazer um diagnóstico inicial das características dos indivíduos inscritos. Foram aplicados questionários in loco, onde foram levantadas 93


informações referentes à cor ou raça, família, escolaridade, trabalho e rendimento, em uma amostra de alunos das duas primeiras turmas iniciadas no município do Rio de Janeiro. 5.1 - Perfil Socioeconômico dos Beneficiários do PlanSeQ - Indústria do Carnaval – Rio de Janeiro. Como dito anteriormente, as ações do PlanSeQ são executadas por meio de parcerias com entidades sem fins lucrativos. As entidades são selecionadas através de uma Chamada Pública de Parcerias, onde são avaliados os projetos das candidatas a executoras. No Estado do Rio de Janeiro, a Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil (Amebras) em parceria com a Associação dos Artesãos e Produtores Rudimentares do Estado do RJ (AART) foram as instituições selecionadas para a implantação e execução do projeto de qualificação dos trabalhadores voltada para a produção do carnaval. As duas instituições têm experiência na formulação e execução de projetos de qualificação profissional e de geração de trabalho e renda. No que se refere à formação de profissionais para atuarem no mercado de trabalho das escolas de samba, o trabalho da Amebras é referência e sua experiência bem sucedida teve peso na hora em que foi concebido o PlanSeQ. A entidade representada por Célia Domingues, idealizadora e presidente da Amebras, foi fundada em 1998 e desde então vem atuando na qualificação profissional de trabalhadores excluídos do mercado de trabalho. Com foco inicial na qualificação e inserção profissional de mulheres de meia-idade, o público-alvo se expandiu e hoje os projetos abrangem desde jovens procurando o primeiro emprego até homens e idosos que buscam uma reinserção no mercado de trabalho. A Amebras20 funciona em um barracão na Cidade do Samba e capta recursos através de parcerias com o Ministério do Trabalho, Ministério do Turismo, LIESA,

20

Importante destacar que as escolas de samba do Rio de Janeiro vêm a algum tempo atuando na qualificação profissional, através de projetos sociais, muitos deles executados nas quadras das escolas,

94


SEBRAE e outras instituições. Em entrevista realizada com Célia Domingues 21 ela revela que, “as verbas do governo sempre foram muito pequenas (...) tudo que conseguimos foi com muito trabalho e insistência”. Os alunos capacitados são muitas vezes aproveitados em trabalhos dentro da entidade ou em escolas de samba. Os artesãos da Amebras produzem roupas, bijuterias, artigos de carnaval e souvenires, tudo muito bem elaborado. Os produtos são vendidos em lojas localizadas na Cidade do Samba e no Sambódromo, outros são exportados, havendo também parceria com lojas que os revendem. Em relação à produção para o carnaval propriamente dita, os trabalhadores da Amebras fazem todo o figurino utilizado no desfile temático da Cidade do Samba, fantasias de alas de escolas de samba do Rio, Espírito Santo e São Paulo. Segundo Célia “os nossos projetos já renderam muitos frutos, já colocou muita gente no mercado. O PlanSeQ é fruto da experiência bem sucedida da Amebras”. O produto das vendas e dos serviços prestados às escolas de samba é utilizado no pagamento dos trabalhadores. Célia conta que desde 2007 vinha através do Ministro do Trabalho, Carlos Lupi, buscando financiamento do governo para uma ampliação do projeto Carnaval e Cidadania22. Em 2009, o Ministério do Trabalho ampliou o projeto da Amebras, aportaram recursos e tornaram o projeto nacional. O PlanSeQ - Carnaval pretende abranger quinze municípios no Estado do Rio. Está previsto para cada município um núcleo de capacitação, onde serão oferecidos em média três cursos entre as dez modalidades disponibilizadas pelo plano. Tal distribuição ocorre apenas nos municípios do interior do Estado, na Capital estão previstos a formação de cerca de sessenta núcleos. De acordo com Célia Domingues, a cidade do Rio tem mais núcleos por concentrar o maior número de escolas de samba, ela afirma que a “idéia é que o projeto funcione nas quadras, que cada escola funcione como um núcleo”. A demanda pelos cursos tem sido alta, segundo Célia “no primeiro dia de inscrição, quando abriram o portão tinham cerca de 600 pessoas na porta do barracão”.

voltados a formação de pessoal nas áreas de costura e adereços. Grandes e médias escolas vêm oferecendo oficinas e aproveitando a mão-de-obra na produção da escola. 21

Entrevista realizada em 24/02/2010. Principal projeto da Amebras o “Carnaval e Cidadania” visa à capacitação e inserção profissional de trabalhadores no segmento escola de samba. É o embrião do PlanSeQ-Indústria do Carnaval. 22

95


A seleção dos alunos segue o critério socioeconômico, no caso de haver uma procura maior do que o número de vagas disponíveis será selecionado o aluno com menor rendimento familiar. Os cursos têm em média 30 alunos por turma e duração de quatro meses. Assim, para a elaboração deste trabalho foi realizada uma pesquisa de campo no período de fevereiro a início de junho, no barracão onde está localizada a Amebras e onde funciona o núcleo administrativo do PlanSeQ no Rio. Foram realizadas entrevistas com a utilização de um questionário-base composto por questões abertas, como autodeclaração de cor ou raça e as expectativas com relação ao curso, que procuraram em alguns momentos registrar a “fala” do entrevistado. O questionário também continha algumas questões fechadas, como escolaridade e condição na família, as quais foram preenchidas mediante entrevista pessoal. Durante o trabalho de campo, encontrei dificuldades comuns a um pesquisador, como o reduzido tempo disponível para realizar as entrevistas. As aulas acontecem no turno da manhã e a aplicação dos questionários se dava nos vinte minutos reservados ao intervalo e ao término das aulas, ao meio-dia, onde muitos (majoritariamente mulheres) saíam apressados com compromissos domésticos. Foram entrevistados alunos das duas primeiras turmas do PlanSeQ no Rio, eles freqüentavam os cursos de Costura e de Adereços, ao todo as duas turmas somavam 60 alunos, dentre os quais foram entrevistados 21. Uma primeira análise dos dados revelou que o perfil socioeconômico dos entrevistados não variava conforme o arco temático do curso (costura e adereço), de tal modo, os alunos não foram diferenciados por curso nas análises seguintes. Assim,

foram

levantadas

informações

acerca

das

características

socioeconômicas dos alunos referentes às variáveis cor ou raça, sexo, família, escolaridade, trabalho e rendimento, bem como às expectativas desses alunos com a realização do curso e os motivos que os levaram a se inscrever.

96


Características Gerais Foram entrevistados um terço do total de alunos, onde foi possível perceber que a grande maioria deles eram mulheres, dos vinte e um entrevistados, apenas um era do sexo masculino. Tal supremacia do sexo feminino pode em parte ser explicada pelo tipo de curso oferecido até o momento – Costura e Adereço – que estão associados a ocupações tradicionalmente femininas. Cerca de metade delas declararam-se casadas, tinham em torno de 39 anos de idade e em média 1,19 filhos. No que se refere à auto-declaração de cor ou raça, quase metade se declarou como negro (10 entrevistados); 7 como brancos; 2 se declararam pardos; 1 morena clara e uma 1 morena parda. A maior declaração de não brancos reflete a predominância dessa população entre as populações de baixa renda das favelas, dos bairros periféricos da cidade do Rio de Janeiro e dos municípios da Região Metropolitana, locais onde estão localizadas comunidades envolvidas e identificadas com as escolas de samba, público alvo do Plano. Os entrevistados também eram, em sua maioria, naturais do Estado do Rio de Janeiro, grande parte nascida na cidade do Rio, outros em municípios da Baixada Fluminense (Duque de Caxias, Belford Roxo e Nilópolis) e em São Gonçalo. Foi verificada também a presença de migrantes oriundos dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, que viviam na cidade há no mínimo 10 anos. Os entrevistados moravam em sua maioria na região central e zona portuária da cidade do Rio, nos bairros da Gamboa, Santo Cristo, Saúde, São Cristovão, Cidade Nova, Catumbi, Estácio, bairros localizados no entorno da Cidade do Samba. Havia também moradores das zonas norte e oeste, dos bairros da Tijuca, Vila da Penha, Rocha Miranda, Benfica, Bangu e Realengo e dos municípios de São Gonçalo e Nilópolis.

Educação Quanto às informações relacionadas ao nível de instrução dos alunos, quando perguntados sobre o último ano de estudo concluído a maior parte dos entrevistados declarou ter concluído o Ensino Fundamental. Dois dos alunos entrevistados, ambos brancos, possuíam nível Superior completo, o que demonstra que o setor pode surgir 97


como alternativa para pessoas com grau de instrução elevado que se encontram fora do mercado de trabalho. Sobre a realização de algum curso profissionalizante anterior ao PlanSeQ, parte significativa dos entrevistados revelou que havia feito anteriormente algum curso de qualicação profissional. Destes, mais da metade respondeu que o curso estava ligado ao segmento do carnaval, o que mostra que as pessoas que já tiveram contato com essa área reconhecem o mercado das escolas de samba como promissor e têm procurado dentro dele obter mais qualificação, visando alcançar maiores chances de inserção profissional. O discurso da necessidade de uma maior qualificação profissional e da busca por uma melhor inserção no mercado de trabalho foi recorrente quando indagados sobre as suas expectativas futuras quanto à conclusão do curso. Todos os entrevistados identificavam o PlanSeQ como um meio de driblar o desemprego trabalhando com carnaval. Como dito por uma aluna, de 38 anos, “eu quero me qualificar, aprender a costurar e me inserir nesse mercado”. Durante a realização das entrevistas, os alunos mostraram ter intimidade com o carnaval, seja na experiência de folião e torcedor de uma escola de samba ou trabalhando na produção. Quando questionados sobre as suas expectativas, percebi que, além da oportunidade de ter uma profissão e trabalho, o universo das escolas de samba exerce grande fascínio e o trabalho nas escolas, mesmo que muitas vezes duro, está associado a um sentimento de realização e orgulho de poder fazer parte da construção de “sonhos”.

Trabalho e Rendimento No que se refere à inserção no mercado de trabalho, a maior parte dos entrevistados encontrava-se, de fato, desempregado. Apenas quatro alunos declararam exercer algum tipo de trabalho remunerado, em geral atividades informais, como pequenos serviços de costura e comércio ambulante. Com isso podemos perceber que o curso do PlanSeQ era entendido como uma plataforma para o ingresso no disputado mercado de trabalho.

98


Quanto à experiência profissional dos alunos, foi perguntado se trabalhavam ou se já haviam trabalhado com carnaval. Mais da metade dos alunos entrevistados (12) possuía algum tipo de experiência no trabalho em escola de samba. Destes, oito trabalharam no carnaval de 2010. Todos ocupados em atividades de adereço e costura. A maioria trabalhou em barracão de escola de samba, temporariamente, sem contrato, em média 6 dias na semana e oito horas por dia, com remuneração semanal. Apenas um entrevistado produziu peças por encomenda para ala particular. Ainda em relação aos indivíduos que trabalharam no carnaval de 2010, foi inquerido

sobre

os

meses

trabalhados

na

produção

do

carnaval

2010.

Pude observar que o período de maior intensidade de trabalho e contratação nas escolas acontece entre os meses de Janeiro e Fevereiro. Foram observadas também ocorrências nos meses de Outubro e Novembro. Essas informações revelam que a produção e o trabalho no barracão se aceleram e intensificam na medida em que entram mais recursos e se aproxima o carnaval. Com relação ao rendimento auferido, cada trabalhador recebeu em 2010, em média, R$ 191,25 por semana de trabalho, excluído do cálculo da média a observação referente à remuneração do trabalho por encomenda. Nesse caso específico, foi encomendado a esta entrevistada, pelo presidente de uma ala particular de uma escola de samba, 30 calças a R$ 5,00 cada uma. Nenhum dos entrevistados exerceu no período outra atividade remunerada. Família O rendimento médio mensal familiar dos entrevistados girava em torno de R$ 23

857,00 . A renda média familiar per capita equivalia a R$ 311,38. Em relação à participação em algum programa de transferência de renda, quatro alunos declararam receber recursos do Bolsa-Família. Essas famílias foram as que apresentaram os menores rendimentos mensais, cerca de R$ 500,00 por mês, o que correspondia a uma renda mensal de R$ 168,54 por morador.

23

Afim de não superestimar o valor desses rendimentos, foi excluído dos cálculos das médias uma observação cujo rendimento mensal familiar correspondia a 3 vezes o valor do maior rendimento mensal familiar observado.

99


A respeito da condição das pessoas na família, mais da metade dos entrevistados, quase todos mulheres, declararam que a chefia da família pertencia ao marido ou a outra pessoa. Esse dado demonstra que essas mulheres, além de possuírem pouca escolaridade e idade avançada (em torno de 39 anos) para entrar no mercado formal de trabalho, estão também numa condição de dependência socioeconômica ou do cônjuge ou de outro membro da família. A busca pela qualificação profissional através do PlanSeQ, nesse sentido, pode significar num futuro próximo mais autonomia e independência para essas mulheres.

100


Considerações Finais Esta dissertação teve como objetivo entender o processo de produção dos desfiles de escolas de samba, a partir da ótica do trabalho realizado nos barracões das escolas. Para isso foram realizados dois estudos de caso: um sobre o Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente no carnaval de 2010 e o outro sobre os alunos do Plano Setorial de Qualificação (PlanSeQ) dos Trabalhadores para a Indústria do Carnaval Segmento Escola de Samba na cidade do Rio de Janeiro. Nos dois primeiros capítulos, a partir da revisão da literatura sobre o tema, foi traçado um panorama histórico da evolução do carnaval e das escolas de samba no Brasil e no Rio de Janeiro. O terceiro capítulo descreveu o barracão como unidade central de produção do desfile, com base numa noção mais abrangente de trabalho que ultrapassa à noção de emprego, onde as fronteiras entre trabalho e lazer se misturam. No estudo de caso sobre a São Clemente, apresentado no Capítulo 4, a partir do cronograma financeiro da escola para o carnaval 2010, foi visto que a escola teve um orçamento total de R$ 1.435.000 e que este orçamento estava concentrado principalmente nos setores de Alegorias e Ateliê de Fantasias, que juntos correspondiam aproximadamente a 75% dos gastos totais da escola. Os gastos destes setores eram compostos basicamente por gastos com pessoal e gastos com material. Observou-se que a produção do desfile da escola é intensiva em contratação de mão-de-obra, pois mais da metade dos gastos totais foram destinados ao pagamento de pessoal, e ao todo 143 pessoas estiveram envolvidas no processo de produção do desfile. Os setores de Alegorias e o Ateliê de Fantasias foram os principais responsáveis por esses gastos, e ocuparam mais da metade dos trabalhadores da escola. Chamo a atenção para o setor de Planejamento, que apesar de ter ocupado poucos profissionais, consumiu parcela significativa dos recursos gastos com pessoal. O que pode ser explicado pelo fato do setor concentrar profissionais especializados (Arquiteto Projetista e Carnavalesco), que recebem remuneração mais elevada que os demais trabalhadores da escola. A pesquisa na São Clemente revelou que o trabalho na escola de samba é extremamente diversificado em termos de categorias ocupacionais, o que implica em grandes diferenciais de rendimentos. A análise comparativa da remuneração por hora 101


segundo ocupação no Estado do Rio de Janeiro e na escola deixou claro essas disparidades. O Arquiteto Projetista, o Iluminador e o Carnavalesco foram, nessa ordem, os profissionais que tiveram as horas de trabalho mais bem remuneradas dentro da agremiação, o que pode ser explicado pelo fato de serem ocupações relacionadas a atividades intelectuais, técnicas e artísticas, que exigem profissionais mais especializados. Do outro lado, com remunerações bem mais baixas, estão as categorias decoração de alegorias e auxiliar de serviços gerais, ocupações que fazem poucas exigências de escolarização, experiência e habilidade. Portanto, o trabalho na escola de samba segue as tendências do mercado de trabalho contemporâneo, onde o nível de escolaridade e a qualificação profissional têm influência direta no alcance de rendimentos mais elevados, permitindo um maior acesso à mobilidade social. Neste sentido, o lançamento de uma política pública de trabalho voltada para o segmento escola de samba tem se mostrado de suma importância para o desenvolvimento do setor. A implantação do PlanSeQ representa o reconhecimento oficial, por parte do Governo Federal, do potencial econômico apresentado pelas escolas de samba. Ele pode contribuir não só na formação de mão-de-obra qualificada para a produção de grandes espetáculos, como na abertura de novos postos de trabalho. A realização do estudo qualitativo com alunos das primeiras turmas do PlanSeQ no Rio de Janeiro, apresentado no Capítulo 5, teve como objetivo conhecer um pouco mais sobre as características das pessoas que buscam esse mercado de trabalho. Verificou-se que as turmas estudadas eram compostas basicamente por mulheres negras, na faixa dos quarenta anos de idade, casadas e com um filho em média. Apresentavam baixa escolaridade e a grande maioria se encontrava desempregada, quando realizavam algum tipo de atividade remunerada, exerciam atividades informais, como pequenos reparos em roupas e comércio ambulante. Mais da metade dos entrevistados possuía experiência com trabalho no carnaval, destes, parcela significativa havia trabalhado no carnaval de 2010. Todos, sem contrato e sem carteira assinada, receberam em média R$ 191,00 por semana e não realizaram durante o período nenhuma outra atividade remunerada. Verificou-se que os alunos são em sua maioria pessoas pobres, com baixo rendimento familiar mensal. Foi constatado 102


que algumas famílias encontravam-se em condições bastante desfavoráveis, recebiam transferências do Bolsa Família e cada indivíduo sobrevivia com R$ 168,54 por mês. A partir das análises das informações obtidas com a pesquisa, conclui-se que o PlanSeQ atinge pessoas excluídas do mercado de trabalho, que compreendem o curso como uma oportunidade de se qualificar e uma plataforma de acesso ao mercado das escolas de samba. O PlanSeQ, portanto, se bem executado, pode proporcionar através da qualificação profissional, ganhos de rendimento para famílias que se encontram em situação social extremamente vulnerável, podendo tirar da pobreza uma população historicamente exposta a condições de vida e trabalho precários. Nesse sentido, entende-se que a continuidade do programa garantiria a entrada de mais pessoas nesse mercado. Novas possibilidades e oportunidades relacionadas, não só às escolas de samba, irão surgir com a realização dos grandes eventos esportivos que serão sediados no Brasil e no Rio de Janeiro: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Eventos que irão criar postos de trabalho não só na produção das cerimônias de abertura e encerramento como também em eventos paralelos às competições. Uma questão importante se refere à vinculação recorrente de grandes escolas de samba do Rio aos contraventores do jogo do bicho, milícias e outros grupos de poder paralelo, que muitas vezes financiam, administram e gerem os recursos das agremiações. Sabe-se que existem alternativas legais como parcerias com empresas, isso já é uma realidade, mas ainda acontece em proporções pequenas, pois elas participam apenas pontualmente quando patrocinam um enredo específico. Leis de incentivo poderiam atrair de forma continuada os recursos de empresas, respeitando a autonomia, a identidade e os valores de cada escola, de forma a gerar e distribuir benefícios econômicos e sociais entre os trabalhadores que fazem o espetáculo. Assim, novas tendências e muitas possibilidades cercam o universo das escolas de samba neste século XXI e elas certamente seguirão se adaptando ao seu tempo. Um ponto importante, sem dúvida nenhuma, para o desenvolvimento do setor passa pela regulamentação do trabalho realizado nas escolas de samba, de forma a assegurar os direitos dos trabalhadores envolvidos nesse processo, objeto da análise deste.

103


Podemos dizer que o desfile de carnaval e o trabalho no barracão incorporam características do mercado de trabalho contemporâneo, como informalidade, ocupações precárias, baixa remuneração, contratos de trabalho por tempo determinado, trabalho baseado em domicílio, etc.. Frente à magnitude dos valores envolvidos na produção do desfile e os postos de trabalho gerados diretamente nos barracões, torna-se importante investigar as relações e as condições de trabalho existentes nesse processo produtivo extremamente heterogêneo e diversificado, onde produtor e consumidor se misturam em uma mesma pessoa. Quanto ao PlanSeQ Indústria do Carnaval – Segmento Escola de Samba, seria interessante levantar um perfil mais abrangente dos alunos atendidos pelo programa nas diversas partes do país, realizando avaliações contínuas dessa política em termos da sua eficácia e dos resultados alcançados.

104


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CGM:

<http://riotransparente.rio.rj.gov.br/>. Acesso em de 2010.

106


Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso – LESGA: <http://www.lesga.org>. Acesso em de 2010. Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – LIESA: <http://www.liesa.globo.com>. Acesso em de 2010. Ministério

do

Trabalho

e

Emprego

-

Disponível

em

<http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/downloads.jsf >. Acesso em 26. Jun. de 2010. Ministério do Trabalho e Emprego - Edital de Chamada Pública – Disponível em: <http://www.mte.gov.br/editais/chamada_publica_029_2009_carnaval_escolas_samba. pdp>. Acesso em 13 mar. 2010. RIOTUR

(Empresa

de

Turismo

do

Rio

de

Janeiro)

Disponível

em:

<http://www.riodejaneiro-turismo.com.br/pt/>. Acesso em 08 jul. de 2010. Rio que passou – Disponível em <http://www.rioquepassou.com.br>. Acesso em 20 mar. de 2009. Secretaria do Emprego e Relações de trabalho – Governo do Estado de São Paulo <http://www.salariometro.sp.gov.br>. Acesso em de 2010.

107


ANEXO A As imagens a seguir foram cedidas por Roberto Almeida e correspondem ao carnaval da São Clemente de 2008. A imagem dos carros e fantasias nascidas na imaginação do seu criador, o Carnavalesco, toma contornos de realidade quando é passado pro papel, seja pelas mãos do próprio carnavalesco, quando este tem habilidades pra desenho, ou através das mãos de algum desenhista de sua confiança, que irá desenhar conforme as orientações do idealizador. A imagem 1 apresenta o desenho de um dos carros da São Clemente elaborada pelo então carnavalesco da escola Mauro Quintães. A imagem 2 corresponde ao trabalho do Artista Visual, que passa o desenho entregue pelo carnavalesco para o meio digital, ele transforma o desenho em uma série de projeções em 3D utilizando um software de Design específico. Já as imagens 3, 4, 5 e 6 correspondem à planta baixa e aos desenhos técnicos do carro em diversas perspectivas, elaborado pelo Arquiteto Projetista e também apresenta os cálculos estruturais dos carros. Vale lembras que o arquiteto projetista foi o profissional que apresentou o maior rendimento por hora na São Clemente em 2010. Por fim, a imagem 7 traz a imagem do carro pronto, no dia do desfile, o fim do ciclo de produção que surgiu na cabeça do carnavalesco e se materializou na avenida.

108


Imagem 1: Desenho do Carnavalesco

m2

109


Imagem 2: Carro em 3D

110


Imagem 3: Planta baixa do carro

111


Imagem 4: Planta baixa do carro

112


Imagem 5: Planta baixa do carro

113


Imagem 6: Planta baixa do carro

114


Imagem 7: Carro pronto no dia do desfile

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ANEXO B

Questionário Planseq Carnaval PARTE I. IDENTIFICAÇÃO E CONTROLE DO QUESTIONÁRIO Data entrevista: __/___/____

Nº Questionário:

PARTE II. DADOS PESSOAIS 1. Entrevistado:

2. Telefone: 4. Data de Nascimento ___/___/___

3. Endereço:

5. Sexo: 5.1. Masculino ( ) 5.2. Feminino ( )

7. Tem filhos (as)? 6. Qual é seu estado civil? 1. Casado/vive junto ( )

Sim ( )

Não ( )

Quantos e quais moram com você (informar sexo e idade)? 3. Viúvo, Viúva ( )

2. Solteiro ( )

4. Separ./Divorc. ( )

8. Quantas pessoas moram com você? _______ 8.1. Quais: 1. Cônjuge ( )

2. pais ( )

6. enteado(a) ( )

3. filho(s) ( )

7. Outros parentes ( )

4. neto (s)

5. sogra, sogro ( )

8. Agregados ( ) 10. Local de Nascimento (Cidade / Estado):

9. Qual é sua cor ou raça?

________________________________

______________________________

10.1. Há quantos anos vive no Rio de Janeiro? ______________

PARTE III. ESCOLARIDADE 11. Qual o seu grau de escolaridade (séries completas)? 1. Ensino Fundamental ( )

___Série

2. Ensino Médio ( )

___Série

12. Atualmente você: 1. Só trabalha ( )

2. Estuda e trabalha ( )

13. Fez algum curso profissionalizante? Qual (is) ?

3. Ensino Médio Técnico ( ) Curso: _____________________ 4. Superior ( ) Curso: ___________________________ 5. Nunca estudei ( )

116


PARTE IV. QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

14. Em qual curso de especialização você está inscrito? 14.1 14.2 14.3 14.4 14.5

- Confecção de Instrumentos de Percussão ( ) – Costureira ( ) – Chapeleiro ( ) - Cenógrafo ( ) - Decorador ( )

14.6 – Estampador ( ) 14.7 - Escultor em resina, isopor, gesso e espuma e Aderecista ( ) 14.8 – Marceneiro ( ) 14.9 – Serralheiro ( ) 14.10 – Percussionista ( )E III. ESC PARTE III. ESCOLARIDARIDADE

15. Recebe ajuda de custo?

16. Como ficou sabendo do programa?

17. O que te levou a procurar o curso? Quais são suas expectativas?

18. Algum membro da família também está inscrito? Quem? Em qual curso?

19. Trabalha ou já trabalhou na produção do Carnaval? Trabalhou no ano de 2009? (se sim ir para Parte V. Trabalho)

PARTE V. TRABALHO (ano de referência – 2009)

20. Atividade desenvolvida no carnaval:

21. Tipo de vínculo profissional:

22. Quantas horas por dia você costuma trabalhar?

23. Quantos dias na semana?

24. Quantos meses no ano?

26. Como começou? Levado por quem?

25. Há quanto tempo trabalha com carnaval? Nessa Escola?

27. Qual sua remuneração semanal /mensal obtida na escola?

28. Exerce outra atividade remunerada fora da Escola de Samba ou em outra Escola? Qual?

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PARTE VI. FAMÍLIA

29. Quantos membros da família trabalham com carnaval? Quais?

30. Quem é a pessoa responsável, o chefe da família?

30.1. O(A) próprio(a) ( ) 30.2. Marido ( ) 30.3. Esposa ( ) 30.4. Compartilhada ( ) 30.5. Outros ( )

31. A renda mensal da sua família está entre: _________________________

32. É beneficiário de algum programa de transferência de renda? Qual?

33. Quantas pessoas trabalham /recebem remuneração?

OBSERVAÇÕES

118


Larissa de souza oliveira victorio tc