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Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos Karine Vasem Klein e Jacqueline Silva dos Santos

Gepetos da vida real Quem são aqueles que encantam multidões com uma das mais antigas formas de arte e entretenimento: o teatro de bonecos JACQUELINE SANTOS E KARINE KLEIN Produzir as engrenagens que movimentam o país, que constroem ônibus e aviões. Ou viver indo e vindo nesses aviões para vender esses mesmos ônibus pelo Brasil. Ambos podem ser bons empregos. Mas, quando o trabalho começa a desgastar sua vida, a ponto de você não conseguir acompanhar o crescimento do filho, ou o ambiente profissional é desmotivante e pouco amigável, o que fazer? A maioria das pessoas, apegadas – ou acomodadas – à estabilidade financeira, se manteria no emprego, acumulando frustrações e estresse. Mas um homem decidiu largar tudo para se sentir livre, mesmo se arriscando a ficar sem dinheiro. E anos depois, convenceu uma mulher a se aventurar pelo mesmo caminho. A rua íngreme de chão batido nem parece Gramado. Fica a muitas curvas do Centro e de suas lojas de chocolate. Ao lado de uma floresta por onde o vento assovia entre eucaliptos, há uma casa de madeira simples, com um Opala verde, de R$ 8 mil, na frente. As cadelas Preta e Titânia fazem as vezes de campainha, latindo e também pedindo carinho. Nos fundos, estão espalhadas armações de ferro e bolas gigantes de isopor. A cabeça bege e desbotada de um cavalo de gesso recepciona quem chega. Não fosse tudo colorido e impregnado de histórias, aquelas sobras dariam um ar de filme de terror ao pátio do casal que vive ali. Lá funciona a oficina de bonecos. Atrás, um depósito guarda tudo que um dia já foi usado em cena. Personagens que conquistaram a aposentadoria, mas dos quais seria impossível se desfazer. Eles têm alma. O espaço é pequeno e entulhado de cenários, cartazes de espetáculos e títeres, criando uma mistura pouco provável. Ali, abraçadinhos, estão o Pinóquio e o Coelhinho da Páscoa. Um enorme gato da Alice no País das Maravilhas, com olhar sarcástico e enormes dentes, está de frente, ameaçador, para uma rena do Papai Noel. Convivem – ao que parece – em perfeita harmonia. Sobre a porta da oficina, a placa indica: Teatro de Bonecos do Grupo Só Rindo. É onde trabalham os bonequeiros Nelson Haas, 42 anos, e sua mulher, Elisabeth Bado, 41 anos. A aparência despojada – cabelos castanhos longos e cacheados, abrigo de tactel respingado de tinta branca e surradas alpargatas – diz muito sobre a personalidade de Nelson, e também sobre quem o cerca atualmente, sejam amigos, familiares ou


visitantes desconhecidos. Não são pessoas superficiais e materialistas a ponto de julgar alguém pelas roupas. Ele é um sujeito tranquilo e dinâmico ao mesmo tempo, que deixa todo mundo à vontade. Ao seu lado, a acolhedora Beth oferece chimarrão com uma voz mansa, de quem adquiriu calma depois que teve muita pressa nessa vida. No ateliê, o casal tem a ajuda dos aprendizes Igor Foss, 17 anos, e Barbhara Brando, 19 anos. Igor é um adolescente de cabelos azuis, e também manipula as marionetes. “O Igor diz que o teatro de bonecos mudou a vida dele”, entrega Nelson. “É verdade. Eu era muito tímido, quase não falava, em público então... mas agora não sou mais”, confirma o rapaz. As paredes da oficina são forradas com cartazes de espetáculos que promoveram ou participaram. Dezenas de bonecos estão espalhados. Nas paredes, nas janelas, dentro de malas, caixas, baús. Ao fundo, bem de frente para a porta de entrada ficam “Os Gigantes”, bonecos que são utilizados no desfile do Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que percorre as ruas da cidade. No teto, há uma cobra maior do que um carro e com muitos, muitos quilos. O bonequeiro explica que ela é muito pesada porque sua armação não pode ser feita de alumínio, pois este é maleável e na primeira manipulação deixaria o animal com outro formato, então, toda a estrutura é confeccionada com ferro. Além dos títeres, os alunos são outra paixão do artista. Assim como o Igor e a Barbhara, muitos outros procuram o casal para aprender esta arte. De 2005 a 2008, Nelson ministrou aulas no projeto que criou “Bonequeiros Mirins”, na Fundação Cultural de Canela - FCC. Chegaram a atender mais de 300 crianças em 6 escolas do município. Porém, com o passar do tempo e o pouco investimento na área, ele decidiu que seu trabalho de criação não poderia estar vinculado somente ao local e resolveu montar seu próprio ateliê em casa. Sempre atualizado sobre este meio, entre um cigarro de palha e outro, Haas conta que já esteve reunido com o Ministro da Cultura há uns quatro anos, discutindo ações que melhorem a vida dos artistas brasileiros de teatro de bonecos. Constantemente em busca de firmar novas parcerias, ele afirma: “Vivemos numa ditadura cultural, a burocracia é o câncer do país”. Nelson fala com o conhecimento de uma pessoa que viajou o mundo com seus bonecos, conheceu a cultura e o processo de criação de vários lugares e ainda assim se surpreende que os editais de cultura de grandes patrocinadores só beneficiem uma pequena parcela dos que vivem de arte. Ele fala ainda sobre a má aplicação dos recursos nesta área no nosso país. “Cerca de 80% do dinheiro da cultura no Brasil vai para manutenção da estrutura, como cortinas, cadeiras, mesas, iluminação. É um absurdo.” Enquanto a conversa se desenrola, Beth resolve fazer uma surpresa. Ela e os dois alunos encenam improvisadamente um trecho do espetáculo que estão produzindo para o Natal Luz de Gramado: Cadê o Papai Noel?.


Dentro do castelo do vilão: Homem Malvado (Beth):―Então você vai lá, entra e conta 1, 2 e dobra a direita. Sabe contar até 2? Criado (Igor): Sim, sim. 1,2. Homem Malvado (Beth):―Tá, tudo bem. Vai, vai, vai! O criado sai correndo. Homem Malvado (Beth):―Ai meu Deus, perdeu a peça! (sem querer Igor deixa cair no chão a cabeça do boneco). Não tem problema. (Nesse momento, os dois fazem uma pausa para recuperar a peça que caiu no chão). Homem Malvado (Beth): Mas então Papai Noel (olhando para o lado, imaginando que o Papai Noel está trancado num canto), voltando à vaca fria, porque isso é um ensaio aberto, né? Uma obra livre. Você não vai atender as crianças este ano. Porque, nunca ninguém me ha convidado para uma ceia de natal... (...) Na peça, o Papai Noel é sequestrado por um homem triste que nunca participou de uma festa de Natal, nem ganhou um abraço, muito menos presentes. O homem malvado vive em um castelo, é uma espécie de Conde Drácula com sotaque castelhano. Nesse trecho, ele contracena com o seu criado, um jovem de voz lânguida e pouco esperto, manipulado e interpretado por Igor. Bharbara acompanha no violão fazendo a trilha sonora da cena. O espetáculo está previsto para estrear no dia 03 de novembro. Da precisão à arte Nelson está nesse ofício a mais de 20 anos. Nasceu em Porto alegre e com 5 anos mudou-se para Caxias do Sul. Aos 18 anos, para pagar as contas trabalhava como Torneiro Mecânico, mas não gostava do ambiente cheio de fofocas e intrigas. Ele diz que em todos os lugares têm fofoca, “mas no nosso meio, o Teatro de Bonecos, temos também bastante colaboração e amizade, isso é bem mais relevante, somos uma confraria mundial”. Depois, passou para o Controle de Qualidade, gostava de precisão e foi essa característica que transferiu aos bonecos quando deixou o emprego. Haas sempre gostou de teatro, música e literatura, e tem muitos amigos nesse meio. Seu pai era músico e também contribuiu para que ele crescesse inserido neste contexto. Sua primeira experiência com teatro de bonecos foi em Caxias, com o grupo “Animando Bonecos”. Em 1989 mudou-se para Florianópolis. Lá, em 1991, criou com dois amigos a Produtora “Guernica Arte e Cultura”. Realizaram diversos espetáculos bem sucedidos no estado, porém, faliram com a chegada do Plano Collor. Em 1992, retornou para Gramado, fundou o grupo Só Rindo e, a partir daí, dedicou-se


exclusivamente para o teatro, levando a arte dos bonecos por todo o Brasil e fora do país. Um reencontro, um amor e o teatro Beth, curitibana, criada em Caxias do Sul, se apaixonou pela arte dos bonecos ao mesmo tempo em que se encantou por Nelson Haas, em 2004. Os dois se conheciam há algum tempo e se reencontraram na fila da 3ª Semana de Teatro de Bonecos, em Canela. Ela era executiva da Marcopolo e viajava pelo país vendendo os produtos da marca, com um ótimo salário e grandes possibilidades de promoção. Porém, sua vida corrida não lhe permitia ter tempo para viver. Então, Nelson lhe apresentou o teatro de bonecos e Beth decidiu largar tudo para ficar mais perto da filha Diana, na época pouco mais que um bebê, e se aventurar nessa história de amor e arte. Canela: uma fábrica de fantasia A tradição bonequeira em Canela é bastante desenvolvida. Por isso ganhou um Festival dedicado a essa arte. O Festival Internacional de Teatro de Bonecos é um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina, com companhias do mundo todo participando. Neste ano, chegou a sua 25ª edição, após quase ter sido cancelado por falta de recursos. Tiago Melo, 35, curador do Festival, compara o problema financeiro a uma bola de neve e explica que o revés começou entre 2007 e 2008, quando uma empresa de telefonia desistiu de patrocinar o evento na última hora, gerando uma grande dívida para o Festival. A conta levou cinco anos para ser quitada. “Peguei a bomba no final”, Melo ri aliviado. Para voltar à grandiosa forma anterior à crise, a expansão do Festival depende dos projetos de captação de recursos e patrocínios. O curador pondera que não há um planejamento em longo prazo e que o trabalho é feito ano a ano de acordo com as verbas que recebem. Pulando dos bastidores para a primeira fila do teatro, Tiago revela seu lado espectador. Sobre a experiência de assistir um espetáculo do Grupo Só Rindo, ele cita a parte que mais lhe chama a atenção: os anjos feitos de sacolinhas plásticas. “Eles são encantadores pela simplicidade”. A admiração destinada aos anjos também se estende ao seu criador. “Para mim, o Nelson Haas é a maior figura do teatro de bonecos na Serra gaúcha. Ele é um entusiasta, acredita no que faz”, exalta Melo. Quem faz o Festival de Bonecos é a Fundação Cultural de Canela, com recursos das leis de incentivo e da prefeitura. Em 2013, o evento atraiu 9 mil pessoas, menos da metade do seu recorde de público – 25 mil, em 2008. O festival reúne artistas de diversos países, mobiliza toda a comunidade, com apresentações em teatros e nas ruas, e é um dos maiores orgulhos de Canela. Tendo esse conhecimento, a prefeitura e a FCC pretendem realizar em 2014 diversas oficinas nas escolas e uma mostra de bonecos paralela ao Festival. Também se tem intenção de trabalhar com os artesãos do município.


Como nascem os bonecos Muitas são as técnicas e materiais para confecção de bonecos. Nelson e Beth fazem fantoches, marionetes, silhuetas de sombras, bonecos de manipulação direta e bonecos gigantes. Atualmente, os dois desenham os bonecos antes da criação com os materiais – que vão de sacolas plásticas a madeira –, mas o titeriteiro também trabalha com criação livre, pois, “é muito bom de brincar de Gepeto”. Os bonecos de Haas levam cerca de 50 dias para serem feitos, e podem custar de R$ 150 a R$ 5 mil. Um gigante, com mais de três metros, pode chegar a R$ 12 mil. Sem dúvida, o mais importante deles foi “Zico”, um boneco com mais de 20 anos, que veste um macacão vermelho, representa uma pessoa de pele negra e tem dentes. Para Nelson, ele foi a porta de entrada para o mundo dos títeres. “Quando mostrava outro boneco, os bonequeiros me olhavam de canto. Só me aceitaram na sua ‘máfia’ quando apresentei o Zico. Nunca tinha se visto um boneco com dentes! A partir de então, passaram a me olhar com respeito e a me ensinar técnicas mais avançadas.” Dentro de malas na sala do casal ficam guardados, cuidadosamente, envoltos em panos, diversos títeres que eles utilizam em cena. Dois gaúchos muito distintos um do outro chamam a atenção, um deles é “Osvaldir Carlos Serjão”, que mede em torno de um metro e tem, pelo menos, uns 30 anos. O outro é “Mario Netes”, que possui tanta sutileza de detalhes quanto Osvaldir, mas com menos da metade do seu tamanho e uma particularidade: ele calça um pequeno par de botas, com esporas menores ainda. Seus bonecos de cena, Haas não vende de jeito nenhum, mas já confeccionou vários por encomenda. Assim como os bonecos, que necessitam das mãos de seus manipuladores para ganhar vida, Nelson e Beth também precisam da ajuda de outras mãos para realizar seus trabalhos. Entre elas, estão as de Maria Salete Herrmann, 48 anos, Mari para os íntimos. A costureira confecciona roupas desde sua adolescência, porém costura para bonecos há cinco anos, quando começou a criar para o Grupo Só Rindo. O trabalho com os bonequeiros é colaborativo. “Eles dão umas ideias, eu dou outras. Depois de pronto, se acho que falta alguma coisa, eu acrescento.” Em certa ocasião, ela assistiu o resultado de seu trabalho em cena, nas ruas do centro de Canela, sua cidade natal. “Assisti pouco, mas adorei! Agradeço pelo trabalho que tenho. É simples, mas muito gratificante”. A maioria dos bonecos de apresentação precisa de um “mundo” ao redor para atuar e contextualizar a história, eis então que surge a artesã Karin Schenck, 41. Ela realiza alguns trabalhos cenográficos para o Só Rindo. Há 15 anos nesta profissão, Karin acredita que para se manter é necessário bastante criatividade e muito amor pelo que faz. No momento do espetáculo, o trabalho modifica bastante e deixa a artesã surpresa. “Nós fazemos cada peça individualmente e com todas juntas harmonizadas no palco dá uma sensação de ‘Fui eu que fiz isto? ’. É muito bom!”, exclama.


A Origem do Teatro de Bonecos Teatro de Bonecos, Marionetes, Títeres ou Fantoches é uma forma muito antiga de expressão artística. Alguns historiadores dizem que surgiu há mais de três mil anos e que seu uso antecipou o teatro com atores. Afirma-se também que os bonecos eram utilizados no Egito antigo, em 2.000 a. C. Os registros escritos mais remotos datam de 422 a. C. e são atribuídos a Xenofonte. Porém, segundo Charles Nodier, escritor francês do século XIX e fervoroso admirador dos títeres, é impossível saber ao certo a origem desta arte. “Pode-se dizer que o títere mais antigo é a primeira boneca posta nas mãos de uma criança, e que o primeiro drama nasce do monólogo, melhor dizendo, do diálogo que sustenta a criança e seu boneco”. O que se sabe ao certo é que o Teatro de Bonecos exerceu desde seu início um papel significativo na história das civilizações, para comunicar ideias e animar a sociedade na qual estivesse inserido. Haas explica a facilidade da comunicação através de bonecos: “Quando você assiste a uma peça com atores de carne e osso, por exemplo, com o Tiago Lacerda, já tem uma ideia de como ele é. Assim que ele entrar no palco, a primeira reação do espectador será comparar o que imagina dele com o que está vendo. Se ele é mais alto ou se a voz é diferente do que assistiu na TV. Com o teatro de bonecos isso não acontece. O ator dá vida ao boneco sem aparecer, é o boneco que está ali, então ninguém fará essas comparações. O boneco é para todos, da criança ao velhinho. É impossível não se identificar”. Assim como não hesitaram em largar seus empregos estáveis para seguir em busca da felicidade, o casal não hesita em acolher e ensinar quem quer que esteja interessado em aprender e perpetuar a arte bonequeira pelo mundo. Ou quem está a fim apenas de uma boa conversa. Sabe aquele pensamento, “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”? É assim que Nelson Haas e Elisabeth Bado vivem. Rindo, cantando, dançando nos palcos da vida. Eles e seus bonecos cheios de histórias que nunca acabam.


Gepetos da vida real