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CRÔNICAS DO CPTURBO A Raposa, o Lobo, o Ornitorrinco, e o roubo do botão de Alerta Uma fábula em um prelúdio, quatro capítulos e um epílogo -----------------------------------------------

Autor

Marcel Costa


:::: PRELÚDIO

Era uma vez, numa terra muito, muito distante, um reino digital chamado Cepetelândia. Oculto numa dimensão intermediária entre o reino dos homens e o caos cósmico, sempre foi assunto de canções e lendas, inundando a mente daqueles obcecados por desvendar seus mistérios, enchendo de cobiça os que ambicionam conhecer e desfrutar do seu conteúdo warez. Jovens mortais, embaladas pelas fantásticas histórias contadas por suas mães, sonhavam conhecer os príncipes de Cepetelândia, despertando a ira dos seus pares humanos, impotentes diante do deslumbramento causado pela cidade perdida. Diferente das paragens terrenas, Cepetelândia era composta não só por terra, água e vegetação, mas por torrentes de energia pura que brotavam do solo e enchiam os rios. Há cachoeiras de bytes luminosos que serpenteiam entre as penhas das altas montanhas, a luz decomposta reflete nas brancas nuvens as cores metálicas da informação. Tateando entre a grama, é fácil encontrar entradas USB e firewire que fazem conexão direta com os servidores da cidade. Nas árvores que margeiam as avenidas pode-se colher os downloads no formato de pequenas frutas azuis cujas sementes podem ser jogadas na fértil terra para logo se transformarem em novos seeds. A informação e o conteúdo warez emanam por todos os lados no formato de pequenos raios que, vez por outra, atingem um notebook, enchendo-o rapidamente com filmes, jogos e e-books. Muitos se perderam na busca pelo portal de Cepetelândia e jamais foram encontrados, vagando para sempre no labirinto digital que protege a entrada da cidade. Outros foram enganados pelos arautos da concorrência – demônios disfarçados que habitam cidades adjacentes, sedentos por atrair aqueles que não alcançaram Cepetelândia, para se juntar aos seus infelizes e invejosos habitantes. Esses incautos viajantes estão condenados a viver nesses vilarejos medíocres de conteúdo incompleto, para sempre vendo, à distância, as fabulosas luzes de Cepetelândia, inalcançável. Escrituras antiquíssimas encontradas num arquivo TXT em um velho disquete de 5¼” revelam que apenas os habitantes nativos de Cepetelândia podem convidar forasteiros e guiá-los até o Portal, apresentando-lhes as maravilhas daquela terra mítica. Os Cepetelenses, contudo, são seres desconfiados, reservados, pouco se aventuram além dos limites de sua amada pátria. Eles sabem que é preciso ter muito cuidado com os humanos que, essencialmente, só querem beber da fonte do conteúdo warez que brota em abundância até mesmo das rochas. É um privilégio grandioso ser convidado para a cidade perdida, pois até mesmo um ordinário humano que rasteja pelas confusas vias da informação que perpassam o mundo mortal será recebido com calorosa pompa, tornando-se um membro da seleta comunidade cepetelense. O reino é dividido em dez condados, que interagem harmoniosamente entre si. O conteúdo warez que flui em cada região é o que as diferencia e caracteriza, sendo compartilhado fraternalmente através de dutos de cobre e fibra ótica que cortam Cepetelândia em todas as direções, de cima a baixo. Cada um dos condados é protegido por criaturas mágicas chamadas supervisores e coordenadores. Além deles, há seis seres superiores, raramente vistos, que zelam por toda a cidade. São os moderadores, fúrias aladas que emanam luz verde-esmeralda e que podem fulminar, com um simples gesto, todo aquele que ameaçar a paz em Cepetelândia. Ao sul da cidade está a Grande Floresta, o fabuloso condado da Seção 8. Lá o conteúdo jorra furiosamente em gêiseres espalhados pela floresta, subindo mais de trezentos metros e caindo sobre as árvores em chuvas cristalinas de pastas e arquivos, um espetáculo que deixa espantados até mesmo os habitantes dos condados próximos. A Seção 8 é tão admirável que basta quebrar um


graveto para que saltem pop-ups de notícias e artigos, levanta-se uma pedra e lá estará uma revista para download. Mergulhe um tablet nos córregos luminosos e ele voltará com centenas de e-books e mangás. Toma entre as mãos a seiva que escore das árvores e beba um gole, terás aprendido PHP, ASP e Java nos cursos ocultos na mítica beberagem. Todos os dias, os cidadãos se reúnem nas clareiras da floresta para debater os mais diversos temas, como no parlamento grego, só que todos falam ao mesmo tempo. São cinco os guardiões da sagrada Seção 8. A Raposa, capaz de ver na mais completa escuridão e até mesmo através das árvores e pedras, é quase um ser onisciente; o Lobo, de garras afiadas e sotaque mineiro, sempre pronto para deter qualquer ameaça; O Vampiro que treme, foi encontrado pelo Lobo ainda bebê e adotado pelo lupino, pode tetanizar seu corpo e destruir grandes objetos através da vibração; o Homem de Costas, ser misterioso e introspectivo, dotado de poderes reprodutivos arcanos, garante a perpetuação da espécie na floresta; e o Ornitorrinco, que vive tranquilamente no seu charco de lama no meio da mata, dono de um senso de humor duvidoso e detentor da caneta do supervisor, artefato mágico capaz de disciplinar até o mais resistente dos usuários. Dotados de poderes especiais, eles conhecem cada centímetro da Grande Floresta, correm pela mata e saltam pelas copas das árvores, observando, cuidando para que o conteúdo flua e a informação se espalhe. Sua colaboradora, a ninfa de cachinhos dourados, voa pela escura vegetação em seu áureo mini biquíni, valendo-se do encanto que causa nos membros para detectar algum distúrbio que possa ameaçar a paz no condado. O que vem a seguir, porém, colocará à prova toda a habilidade dos cruzados que defendem a Seção 8. Uma ameaça tão terrível que abalará o sensível equilíbrio que mantém a paz em Cepetelândia, capaz de levar à anarquia e completa destruição o utópico reino do compartilhamento digital.


:::: CAPÍTULO I: A cor cinza

O Ornitorrinco jazia no lodo, os olhos diminutos semicerrados fitavam o céu por entre as copas das árvores. Era fim de tarde na Grande Floresta. No céu, no espaço, ainda brilhava o colossal processador com incontáveis núcleos i7, um astro flamejante que iluminava e aquecia Cepetelândia desde o princípio dos tempos. A gigantesca estrela imergia no horizonte, o ornitorrinco a seguia contemplativo. Somente os nativos da floresta poderiam descrever o espetáculo do ocaso visto do meio da mata, os raios digitais atravessando as nuvens à meia-luz, o céu rajado em todas as cores, como se um enorme DVD-R pairasse no firmamento, a superfície gravável voltada para baixo. Circunspecto, em silêncio, ele aguardava a chegada da noite, quando a Seção 8 ganhava vida e a floresta era visitada por cepetelenses de todos os condados. A alguns metros do charco, numa pequena elevação do terreno, o Vampiro que Treme esperava ansioso diante de uma poça de água cristalina. Vestido com seu casaco vermelho-sangue de gola alta, ele olhava para a água procurando inutilmente por seu reflexo. Quase nenhuma luz no céu. O Lobo surgiu dentre as árvores, caminhando lentamente pela vegetação rasteira. Acomodou-se diante da água, em esfinge, as orelhas levantadas, as patas estendidas para frente. - Vem jogar com a gente hoje? O ornitorrinco não se moveu, as costas deliciosamente mergulhadas na lama. - Não, Lobo, logo a Ninfa enviará os alertas, muito trabalho para essa noite. O Vampiro sentou-se na relva diante da pequena poça. O Lobo tocou a superfície com a pata, criando pequenas ondas circulares. Imediatamente, fez-se a conexão com a rede e, no espelho d’água, surgiu a tela do Firefox já com o pôquer online como página principal. Na mesa virtual logo surgiram os coordenadores dos outros condados, ansiosos para o jogo. A poça d’água – na verdade cristal líquido de alta definição – iluminava suavemente as árvores ao redor e as faces do Vampiro e do Lobo. A noite chegara à Grande Floresta. De cima, viam-se as torrentes de informação serpenteando entre as árvores, em raios luminosos. Os gêiseres de conteúdo refletiam brandamente essas luzes, enquanto flashes de novas conexões eram deflagrados por toda a mata densa, os membros conectando-se à grande rede de Cepetelândia. Era noite. O condado da Seção 8 recebia os cidadãos de toda a cidade, ávidos por compartilhar o conteúdo que emanava da mata e regozijar-se com seus irmãos e irmãs. Era noite, e a vida fervilhava no sul da cidade perdida. O ornitorrinco virou-se e saiu do charco, subindo pela pequena encosta. Sentou-se diante de uma pedra e levantou seu tampo, revelando uma tela led 3D conectada à grande rede. Com a nadadeira começou a mover os elementos na tela touchscreen, abriu o Messenger, conferiu seus e-mails e navegou até o painel de alertas. Zero. A Ninfa de Cachinhos Dourados não alertara tópico algum. - Nenhum alerta, orni, tudo muito tranquilo, não? Era a Raposa, que chegara silenciosamente e havia se sentado ao lado do ornitorrinco. Na verdade, a Raposa nem precisava acessar a Central de Alertas, um de seus poderes mágicos era enxergar os dados de toda a rede apenas olhando para os cabos e dutos de fibra ótica. A Raposa sabia de tudo, e


tudo ao mesmo tempo, o que era uma bênção e uma maldição, já que precisava controlar a neurastenia com Lexotan, Prozac e Gardenal em altas doses. - Algo está errado, Raposa – disse o Ornitorrinco, enquanto passava as páginas agilmente com a nadadeira. – Veja, só hoje foram criados 70 tópicos! Como não há alertas? Nenhum tópico incompleto, nada postado no lugar errado, nem sequer uma troca de ofensas? - Onde está Cachinhos Dourados? – Disse a Raposa, conectando seu smartphone. - De acordo com o GPS sobrevoando o distrito 8.1. Espere! Chegou uma MP. O Ornitorrinco tocou o ícone correspondente e saltou, em 3D, uma pequena caixa de texto onde se lia: “Não é possível alertar, o ícone não está disponível! O que está acontecendo, há algum erro na interface? Preciso de ajuda urgentemente!” - O que pode ser isso, Raposa? Raposa? Era tarde. A Raposa já estava vidrada em seu smartphone, vendo as novas fotos de sua musa, a Mulher Código de Barras, uma humana que roubou o coração do jovem coordenador há muitos anos, uma longa história. Nada o tiraria dali; era até mesmo perigoso tentar. - Lobo, Vampiro, vamos! – Disse o Ornitorrinco, movendo-se até a cacimba. – Cachinhos está em apuros. Onde está o Homem de Costas? - Vagando pela mata – disse o Lobo, tocando a água e encerrado o jogo de pôquer. – Procriando, eu acho. - Muito bem, estou enviando MP para ele nos encontrar no distrito 8.1 – ele fechou o tampo da rocha colocando-a em standby. – Rápido! Alguma coisa não está certa. As criaturas mágicas dispararam pelo meio da mata, em direção ao distrito 8.1, uma área livre onde todo assunto podia ser discutido, o que sempre gerava problemas com aqueles que não sabiam lidar com a liberdade de expressão. O Vampiro pulava pelas copas das árvores, em pequenos voos, o lobo corria velozmente saltando sobre pedras e arbustos. O Ornitorrinco disparava pela mata baixa, alternando freneticamente as nadadeiras em velocidade supersônica. Em pouco tempo, chegaram à zona livre. Na grande clareira, centenas de membros trocavam informações ruidosamente. Alguns se sentavam ao redor de fogueiras e interpretavam piadas de gosto duvidoso, outros discutiam temas sem importância, deitados na relva, passando o tempo. Logo avistaram a Ninfa, que vinha voando furiosa vestida com seu micro-biquíni dourado, atraindo olhares por onde passava. Ela pousou diante dos coordenadores irritadíssima. - Eu não posso alertar! Vejam! – Ela mostrou sua varinha de condão, que não tinha uma estrela na posta, mas um pequeno ponto de exclamação. O ponto, que deveria brilhar em áurea luz, estava cinza-claro, desativado. – Tem um tópico de discussão de futebol logo ali, mais adiante uma piada pornográfica. Aquele idiota perto do arbusto de framboesas abriu um tópico com fotos minhas em poses sensuais sem minha permissão! – A Ninfa segurou o rosto com as mãos e começou a soluçar num choro humilhado. Tomado pela cólera, o Lobo olhou para o Ornitorrinco, que disse: - Ao trabalho. Hora de limpar a seção. Dorga! Onde está o Homem de Costas? – Gritou, olhando para o Vampiro, que puxou um headset do casaco e tentou uma conexão via Skype.


- Hã? Certo... entendo. Senhor! Ele está terrivelmente envergonhado por suas ações dessa tarde, não quer vir ajudar. Está preocupado com as pensões alimentícias e... - Ok, esqueça – disse o Ornitorrinco balançando a cabeça. – Vamos dar um jeito no meliante. 30% de alerta mais uma semana de suspensão. Lobo, vá na frente e faça as honras. O Lobo sorriu sadicamente, os olhos luziam em vermelho-brasa. Entre seus poderes místicos estava o feixe escarlate, um poderoso raio disparado pelos olhos que aumentava dramaticamente o nível de alerta dos usuários. Se mal aplicado, poderia marcar imediatamente o membro para o banimento. Louco para vingar a ofensa sofrida por Cachinhos, sua paixão platônica desde que era um pequenino filhote, o Lobo avançou firme em direção ao delinquente, seguido pelos outros dois guardiões. Sem saída, o usuário problemático fechou os olhos, esperando ser atingido em cheio pelo lendário feixe escarlate. Entretanto, algo inesperado aconteceu. O Lobo firmou as partas dianteiras, o pêlo ouriçado, o rabo em riste. Num rosnado, disparou dos olhos o raio mágico que, para o espanto de todos, não tinha a viva cor vermelha do rubi, mas cinza-claro, como a varinha da Ninfa. O outrora poderoso feixe escarlate atingiu o meliante num impotente raio acinzentado, sem efeito algum. Surpreso, o membro riu e zombou: - Quem diria! O temido Lobo não pôde aumentar meu nível de alerta! – O usuário subiu numa pedra e gritou: – Ouçam! Os guardiões não podem alertar! Podemos publicar qualquer coisa! – Muitos se aproximaram e fizeram um círculo em torno do agitador e dos coordenadores. – Vejam! Eu postei fotos da Ninfa, nada aconteceu e... - Eu pararia por aí! – Interrompeu bruscamente o Ornitorrinco. – Você está a um passo de ser banido. - O que vai fazer, pato? Disparar raios cinzas em mim? Ou vai... Ouviu-se um sibilo, como o desembainhar rápido de uma espada, um arco de luz se desenhou no ar. Silêncio. Riscada em diagonal, do abdômen à testa do incauto usuário, estava a luminosa marca da caneta do supervisor, que o Ornitorrinco segurava estendida no ar. 60% de alerta, de uma só vez, a marca do banimento. O pobre diabo começou a correr pela clareira, todos se afastavam dele. Tropeçava nas fogueiras, rolava pela relva, levantava e caia de novo. De repente, ouviu-se no céu o som da criatura alada, atraída pela marca do banimento. O usuário gritava, chorava, mas era tarde, ele já fora visto: um moderador sobrevoava a floresta, iluminando a noite em terríveis luzes esverdeadas. Era o Carioca Marrento, um dos seis seres arcanos que protegiam Cepetelândia. Todos os usuários se afastaram do membro amaldiçoado, deixando-o só no meio da clareira. O ente verde-esmeralda apontou-lhe a mão espalmada, a energia ban concentrou-se numa esfera luminosa, pronta para ser disparada. - Ih! Já era, perdeu prayboy! – crocitou o Carioca Marrento, tentando evitar palavras com a letra “s”. O disparo do raio esmeralda iluminou a escura floresta, desintegrando o membro numa explosão de bytes incandescentes, enviando sua alma para o limbo dos banidos. O poderoso moderador se afastou, devolvendo à noite a escuridão. Os membros, como sempre acontecia quando alguém era banido, ficariam mais cuidados para o resto da noite. Os autores de tópicos impróprios rapidamente mudaram seu conteúdo e os mais exaltados correram para editar seus posts. - O que está acontecendo? – Disse o Lobo, ainda incrédulo – Nossos poderes de alerta estão desativados!


- Fale mais baixo – disse o Vampiro, trêmulo, colocando a mão nas costas do Lobo – ninguém pode saber disso, ou teremos sérios problemas. A Ninfa, ainda agitada com toda a ação, voou até o Ornitorrinco, que observava os restos do corpo digital do membro espalhados pelo chão. Ela pousou e caminhou até seu lado, dizendo: - Se nossos poderes de Alerta estão desativados, como você conseguiu marcá-lo para o banimento? – O ornitorrinco olhou para a Ninfa, mas não foi ele quem respondeu. Uma voz grave e segura, a alguns metros, disse: - A caneta do supervisor não está conectada ao Sistema Central de Alerta. É um artefato místico, autônomo, que não foi afetado pelo roubo. Todos se voltaram e avistaram o grande símio. O gorila branco, que um dia já fora guardião da Grande Floresta, estava de pé, próximo a eles, fumando seu inconfundível cachimbo curvo. - Sherlock! – Gritou o Ornitorrinco, guardando a poderosa caneta em meio aos pêlos abdominais. - Roubo? Do que você está falando? – Arguiu o Lobo, ainda irritado. - Elementar, meu caro lupino. – Sherlock ajeitou seu pequeno chapéu com a ponta dos dedos – O Botão de Alerta foi roubado. Atônitos, chocados, os guardiões se entreolharam, em silêncio. Em seguida, olharam ao redor, para sua amada floresta. Os usuários tinham voltado a sua rotina, alheios ao que se passava. Se o que Sherlock dissera fosse verdade, aquilo poderia significar o fim de tudo.


:::: CAPÍTULO II: Manutenção código 665H

O processador-sol surgia no horizonte, em seus núcleos de infinitos terahertz processavam-se todas as informações do cosmos, as equações eram resolvidas à potência de todos os algarismos do PI, números complexos eram criados e destruídos em fenômenos tão rápidos que mal se poderia dizer que existiram. A colossal estrela despejava sua energia sobre a Grande Floresta nos primeiros momentos da manhã, os raios, penetrando através da mata, desenhavam os contornos das folhas das árvores no chão, na ampla clareira do distrito 8.1. Restavam poucos usuários ali, a maioria já dormia em suas ocas digitais, construídas com barro e pastas vazias do Explorer, que serviam como telhado. Algumas taperas tinham belos adornos de barras de tarefa e ícones de atalho, que espelhavam aqueles primeiros raios da aurora. Um ou outro membro ainda encontrava tempo para postar uma última piada ou imagem cômica antes de dormir, na esperança de encontrar outros insones para comentar no tópico. Num canto da clareira, em torno de Sherlock, os Guardiões e a Ninfa ainda tentavam assimilar a trágica notícia trazida pelo antigo coordenador. Sentado sobre a grande cauda achatada, o Ornitorrinco fitou o gorila branco com seus pequeninos olhos: - Sherlock, isso é um mal-entendido. – Com a Caneta do supervisor, o Ornitorrinco desenhou um retângulo luminoso no chão. Com um toque da Caneta, a grama se dissipou, liquidificando-se em um cristal de cor esverdeada, que logo se conectou aos servidores de segurança de Cepetelândia, na tela, imagens das câmeras de segurança. O Ornitorrinco passou as imagens com a nadadeira até chegar na câmera que supervisionava o Santuário no alto da Montanha Proibida. - Veja, velho amigo, o Botão de Alerta continua no mesmo lugar, intocado. A desativação do alerta deve ser uma falha do IPB3, algo do gênero. - Vamos até o Santuário, você precisa ver com seus próprios olhos. Sherlock se levantou, apagou o cachimbo e começou a se mover para a mata. O Ornitorrinco olhou em volta e deu por falta do Vampiro. O sol o espantara. Disse, então, para o Lupino: - Lobo, vá à floresta, encontre o Homem de Costas e façam uma varredura nos tópicos abertos desde ontem. Deixem mensagens de advertência nos tópicos impróprios e mantenham sigilo absoluto sobre a desativação do alerta. Enquanto o Lobo corria para a floresta, 0 Ornitorrinco virou-se para a Ninfa e disse: - Cachinhos, precisamos da Raposa. Você conhece o procedimento. A Ninfa acenou positivamente com a cabeça e deu dois passos para trás. Cruzou suas vultosas penas e inclinou-se para frente, apontando as delicadas mãos para os pés. Disse algumas palavras mágicas em voz baixa e, na altura de seus tornozelos, surgiu um círculo de energia que girava em fagulhas douradas. Conforme ela levantava as mãos e os braços, o círculo mágico subia por seu corpo esguio, mudando seu avatar enquanto passava. Ao fim, havia se metamorfoseado na Mulher Código de Barras. Não foi preciso mais de dois segundos para que a Raposa caísse do céu como um foguete, abrindo um buraco no chão e causando grande estrondo com o impacto, os olhos arregalados, a língua caída de lado, a expressão parva:


- É ela! É ela! – gritava. Cachinhos quebrou o encanto e voou alguns metros acima, apavorada. O vulpino, magoado, choramingou: - Ah, Orni, por que fazes isso comigo? - Você atende mais rápido assim do que te enviando MP. – ele voltou-se para a mata. - Vamos para a Montanha Proibida, preciso de você e de seus olhos que tudo veem. Os animais encantados embrenharam-se na floresta, a Ninfa os seguia pelo ar. O Ornitorrinco e a Raposa disparavam velozmente por entre pedras, arbustos e troncos caídos, o gorila branco ia mais devagar, dependurando-se nos galhos das árvores. No caminho, passaram pela grandiosa floresta várzea do Setor 8.5, que estava em seu período de cheia. As águas que inundavam o igapó traziam o conteúdo dinâmico das notícias e artigos, que eram absorvidos pelas árvores e colhidos em forma de fruto e seiva. Inúmeros usuários repousavam em seus galhos, recostados, cipós com terminais USB ligados aos seus tablets carregavam-nos com o conteúdo jornalístico mais recente. O som das águas digitais que passavam lentamente entre as árvores era um convite à leitura e reflexão. O Ornitorrinco mergulhou e nadou velozmente em meio à torrente de conteúdo. Numa parte mais rasa, onde a água ficara represada em meio às raízes retorcidas das árvores, ele avistou um tópico de notícia duvidosa, sem a fonte e mal formatado. Deveria haver dezenas daqueles, e nenhum fora alertado. Não demoraria até que os usuários notassem que a desordem se espalhava. Logo após saírem da área inundada, os Guardiões alcançaram a trilha para a Montanha Proibida, a Ninfa os acompanhava no céu. Subiram velozmente pelo estreito caminho de pedras que serpenteava monte acima, margeado por vários arbustos de pequenos aplicativos. Era fim de tarde quando alcançaram o Santuário no alto da montanha, uma plataforma de pedra circular com símbolos místicos talhados em baixo relevo por toda superfície, contornada em semicírculo por pilastras de rochas cilíndricas sobrepostas, parcialmente cobertas por musgo e trepadeiras. Sobre a plataforma, flutuava um enorme porto de exclamação de mais de quatro metros de altura, que emanava tênue luz dourada. O gigantesco totem planava tranquilamente, girando devagar ao redor do próprio eixo. - Ei-lo no lugar, Sherlock! – Disse o Ornitorrinco, apontando o grande ídolo. A Raposa se adiantou, sentou-se sobre as patas traseiras e fitou atentamente o gigantesco ponto de exclamação. Seus poderosos olhos adquiriram a cor branca e emitiam luz como lâmpada fluorescente. Após alguns segundos, ficou sobre as quatro patas e virou-se para o Ornitorrinco, dizendo: - Ele tem razão, Orni. O Botão de Alerta não está aqui. - Veja por si mesmo – disse Sherlock, oferecendo ao Ornitorrinco a velha Lupa do Coordenador, artefato mágico da época em que era guardião da Grande Floresta. – Veja a verdade através da lente. O Ornitorrinco tomou a lupa em sua nadadeira e olhou para o totem. Através do cristal mágico, que dá ao seu portador poderes semelhantes aos da Raposa, ele pôde ver o código-fonte do monumento. O Grande Botão de Alerta deveria conter as complexas instruções programadas pelos Moderadores e Conselheiros de Cepetelândia, mas através da lente ele viu que se tratava de um fake: no totem falso havia apenas a versão beta do Windows 98SE. - Como alguém pôde roubar o Botão de Alerta? Ele tem quase dois andares de altura e pesa toneladas! – Disse a Raposa, olhando ao redor. Sherlock acendeu seu cachimbo curvo e deu algumas baforadas, respondendo:


- Elementar, minha cara Raposa. O ladrão usou o WinRAR para compactar o botão. Não é serviço de amador, quem fez isso conhece a Grande Floresta e as brechas no sistema de segurança. - Um banido! – Disse o Ornitorrinco em tom grave enquanto olhava para o falso totem flutuante. Os usuários banidos de Cepetelândia tinham suas almas enviadas ao Limbo, uma dimensão paralela de onde não poderiam se conectar aos servidores de conteúdo. Entretanto, muitos banidos mantinham contas falsas, vestes que podiam usar para se esgueirar em segredo pelas paragens da Grande Cidade. Como ratos, andavam pelos cantos, sempre cautelosos, sem poder desfrutar plenamente do conteúdo ou compartilhar informação livremente sob o risco de serem identificados e novamente enviados ao Limbo. Seres infelizes, que não souberam conviver harmonicamente quando tiveram oportunidade e agora moram nas sombras, vivendo apenas pela metade. - Um banido numa conta fake não seria tão ousado. – disse a Raposa. A Ninfa, que voava ao redor da grande exclamação, pousou ao lado do vulpino e disse: - A menos que não tenha nada a perder. Alguém que esteja tão cheio de ódio que se arriscou a esse ponto para promover uma vingança contra nós. Sem o Botão de Alerta a anarquia se estabelecerá em Cepetelândia, tudo poderá ruir! – A Ninfa falava em voz alta, os olhos lacrimejantes, as faces rubras. - Precisamos ganhar tempo – disse o Ornitorrinco, sacando seu smartphone. Com a unha curva que saída da nadadeira foi passando os contatos até aparecer a foto de Geroge Michael. – Vou solicitar a instauração da Manutenção Código 665H. - 665H? - Perguntou a Ninfa, sem entender. O Ornitorrinco pôs o smartphone no viva-voz e, quando a contraparte atendeu, pode-se ouvir em alto e bom som a versão dance de Freedom. - Conselheiro Michaels, o senhor já deve estar a par da situação. Peço que seja anunciada no Portal a Manutenção Código 665H, justificando o não-funcionamento da função de Alerta. - Ok, Ornitorrinco. É bom que você e sua equipe resolvam essa bagunça. - O que é a Manutenção Código 665H? Insistiu Cachinhos, ansiosa para entender o que estava acontecendo. - Um engodo – respondeu Sherlock. – Uma estratégia usada para manter os usuários sob controle e evitar o pânico. - Não existe nenhuma Manutenção Código 665H – continuou a Raposa. – Mas isso nos dará tempo antes que os membros problemáticos descubram que perdemos o controle. O Ornitorrinco deu as últimas instruções ao Conselheiro Michaels e encerrou, dizendo-lhe o quanto gostava de Careless Whispers. Digitou uma MP para os outros guardiões e ocultou o smartphone em meio aos pêlos. - Você vai aos moderadores? – Disse o grande símio, fumando seu cachimbo. - Sim. Vou consultar os Oráculos e descobrir a identidade do invasor. Vamos ao Templo da Convergência. - Você sabe que não posso acompanhá-lo. Não mais – disse o gorila, sem mudar sua expressão. –


Somente os Guardiões podem entrar no templo. - Eu sei. Preciso de você aqui, caro amigo. Zele, mais uma vez, pela Grande Floresta em nossa ausência. Os membros o conhecem e o respeitam, você não precisará do Alerta para que o ouçam. - Muito bem, farei o possível – o gorila branco pôs a mão no ombro do Ornitorrinco. – Tome cuidado, você sabe que os Moderadores são imprevisíveis. Uma frase mal-colocada e te mandarão varrer as salas de cinema da Seção 2. O Ornitorrinco tocou a pata de Sherlock em sinal de amizade e acenou com a cabeça. Então, ele, a Raposa e a Ninfa dos Cachinhos Dourados desceram a montanha, deixando pra trás o corajoso companheiro. A noite voltava a cair sobre a Seção 8 e os seres encantados percorriam a floresta velozes como raios. Seguiam para o norte, para o limite de seu condado. De repente, um gigantesco e largo facho de luz violeta cruzou os céus de uma ponta a outra da grande cidade, como um enorme banner estendido no firmamento. Surgiram, então, as palavras: MANUTENÇÃO CÓDIGO 665H O sistema de alerta está temporariamente desativado para manutenção. Agradecemos sua compreensão e nos desculpamos pelo transtorno. Era o anúncio do Portal. A esperança era que conseguissem solucionar o caso antes que os membros percebessem que o Botão de Alerta, na verdade, fora roubado. Os guardiões e a Ninfa atravessaram toda a floresta até chegar à extensa savana ao norte, que delimitava o território da Seção 8. Lá os estavam esperando o Lobo, o Homem de Costas e o Vampiro que Treme. Corria uma brisa suave que balançava levemente a vegetação gramínea. O anúncio do Portal iluminava os seis seres mágicos que se reuniam naquela planície erma, apenas o som do vento na relva interferindo no silêncio que reinava. O Ornitorrinco então narrou tudo o que sucedera na Montanha Proibida e seu plano de ir até o Templo da Convergência para descobrir o autor do furto. Porém, mal o Ornitorrinco terminou de falar, o Lobo saltou para trás e uivou, os olhos fixos no Vampiro. Todos perceberam que algo estava errado e se afastaram um pouco. - O que foi? – Disse o Vampiro, sem entender o porquê do espanto nos rostos dos companheiros. - Seu... seu pulso! – Gritou a Ninfa, horrorizada. O Vampiro levantou a mão e um calafrio percorreu sua espinha. A tremedeira tomou conta do seu corpo. No seu antebraço surgiu uma argola de energia vermelha, que era a marca do alerta negativo. A Raposa deu dois passos firmes na direção do amigo e o fitou com seus olhos mágicos: - Você recebeu 30% de alerta... Estão usando o Botão de Alerta contra nós! Um silêncio de tensão dominou os heróis. Não havia dúvida: aquele que roubou o botão de alerta buscava vingança contra os Guardiões e, quiçá, contra toda Cepetelândia. Não se tratava apenas de semear a desordem, mas de destruir a cidade e seus protetores.


:::: CAPÍTULO III: O Caçador dos Céus

O Templo da Convergência era um dos lugares mais importantes de Cepetelândia. Localizado no coração da cidade perdida, era também o lar dos seres abissais, os titãs, os poderosos moderadores e conselheiros do reino. Somente os guardiões dos condados tinham acesso ao suntuoso templo, que era o centro da mítica rede neural da cidade. Lá, os destemidos guardiões da Grande Floresta esperavam encontrar a resposta para o terrível mistério: quem poderia ter roubado o Botão de Alerta? Quem teria a audácia de usá-lo para alertar os próprios Guardiões? Um banido, com certeza! Era preciso identificar o ladrão através dos rastros deixados pelo servidor, vestígios de seu IP, marcas de sua incursão silenciosa e covarde na sagrada floresta da Seção 8. Somente o Oráculo poderia depurar os dados e chegar ao criminoso. Os guardiões continuaram seu caminho para o norte, correndo com ainda mais urgência pela grande savana; afinal, se o criminoso usara o Botão de Alerta contra o Vampiro que Treme, não tardaria a atacar os demais. Deslocando-se com sua velocidade mágica pela vegetação baixa da planície escura, logo chegaram ao grandioso Rio Warez, que margeava a Seção 8 e se estendia até a outra extremidade de Cepetelândia. Havia um velho cais, cuja entrada era uma pequena cancela de madeira velha. Na trave superior da cancela dependurava-se um lampião que iluminava debilmente as desgastadas tábuas que se entendiam rio adentro em um velho atracadouro. O anúncio no portal pairava nos céus, fazendo refletir nas águas do rio sua luz violeta numa mistura de refrações e cores que se deslocava pelas águas calmas. A partir dali, os heróis perdiam seus poderes, não estavam mais protegidos pelas forças místicas oriundas de sua amada floresta. Deveriam prosseguir como membros comuns na longa viagem até o templo sagrado. - Precisamos de um barco – disse o Ornitorrinco. - Eu sei quem pode nos ajudar – disse o Homem de Costas, sempre tímido e receoso de fitar os companheiros nos olhos. Ele usava um grande sobretudo preto, amarrado por uma fita de couro na altura da cintura. Suas canelas nuas revelavam que ele usava, na verdade, somente aquele sobretudo. – Deveríamos pedir ajuda ao velho pirata! - Sim! – Disse o Lobo – assim chegaremos no templo ao amanhecer. O Ornitorrinco digitou rapidamente em seu smartphone uma MP para o sisudo coordenador da gigantesca Seção 2, o Vale de Cristal, localizado na região oeste da cidade perdida. A Ninfa consolava o Vampiro segurando sua mão. A argola vermelha brilhava no pulso do ser noturno, marcando-o com a qualificação negativa. O Lobo e a Raposa adiantaram-se sobre o atracadouro, o vento frio da noite balançava seus pêlos dorsais. - Lá vem ele! – Gritaram. Na curva do rio podia-se ver a embarcação surgindo, aproximando-se em grande velocidade. A gigantesca nau, a Caravela de Ailton, era uma das maravilhas de Cepetelândia, um grandioso vaso de guerra que defendia as fronteiras da cidade perdida. Das aberturas no costado projetavam-se ameaçadores canhões, capazes de rechaçar qualquer ameaça. As velas estendidas nos mastros eram feitas de pura energia e brilhavam na penumbra em nuances azuladas; por toda a extensão do casco


e do convés estouravam descargas elétricas, algumas atingindo a água, outras lampejando entre os mastros e a amurada, uma visão infernal capaz de intimidar o mais intrépido inimigo. A imensa nau aproximou-se ladeando o cais, algumas centelhas atingiam as tábuas da ponte, fazendo com que os guardiões recuassem alguns passos. Pôde-se ouvir o estrépito da grande âncora caindo no mar no lado oposto do navio. Na amurada, logo surgiu o velho pirata, um dos poderosos coordenadores do Vale de Cristal. Ele olhou para os seres encantados e soltou uma longa gargalhada, que terminou em uma tosse seca. Tomou um bom gole de rum e gritou: - Rá! Então os bichinhos da floresta querem uma carona para o Templo da Convergência! E o que significa aquilo? – Gritou, apontando a garrafa de rum para o banner no céu. - Você sabe o que significa, Ailton! – Respondeu o Ornitorrinco, impaciente – não há tempo a perder! Veja! – Ele apontou a nadadeira para o Vampiro, que mostrou a pulseira vermelha. - Então os rumores são verdade! – Disse o velho capitão, baixando o tom de voz – como isso aconteceu? - Conversaremos a bordo – respondeu o Ornitorrinco, ainda mais impaciente. – Precisamos chegar ao Templo da Convergência antes que mais alguém seja alertado! Temos que... - Rá! – Interrompeu o pirata – agora o pato está com pressa! Então venham, camarões, subam a bordo da poderosa Caravela de Ailton, o Impiedoso! – Ele abriu uma portinhola na amurada e chutou uma escada de cordas, que desenrolou até o cais. O Homem de Costas e o Vampiro que Treme subiram rapidamente pela escada, o Lobo e a Raposa, sem poder usar seu salto mágico, foram levados pelo ar por Cachinhos, que ainda podia voar mesmo fora da floresta. O Ornitorrinco segurou firmemente a escada com seu bico e foi içado até o convés. A âncora foi recolhida e a nau afastou-se do cais, movendo-se para o meio do vasto rio de conteúdo. As descargas elétricas intensificaram-se, explosões luminosas espelhavam nas águas e revelavam em flashes a escultura da proa, uma musa em madeira de seios nus conhecida em Cepetelândia como A Garota do Muro. A toda força a caravela partiu, a sotavento, para o coração da grande cidade. No convés da gigantesca embarcação havia notebooks por todos os lados, todos conectados via wifi na grande rede. O Lobo deitou-se diante de um e destilou seu ódio pelos tópicos incompletos que encontrava em toda a Seção 8. No lado esquerdo da tela, o botão de alerta continuava na cor cinza, desativado. O jeito era dizer aos membros problemáticos que, após o fim da “Manutenção Código 665H”, seus tópicos seriam revisados e as punições aplicadas, o Vampiro o auxiliava na tarefa. Era certo, porém, que aquele embuste não duraria muito tempo. Alheia a tudo, a Raposa metera-se dentro de um barril com seu iPad. Pelo trepidar do tonel, era certo que estava conferindo as novas fotos e vídeos da Mulher Código de Barras, era prudente, portanto, manter distância. Encostado no mastro, sempre de costas para todos, o Homem de Costas acessava no laptop sua conta bancária, fazendo transferências para cobrir as inúmeras dívidas com pensões alimentícias. A Ninfa, por sua vez, estava trancada em sua cabine, puxando os cabelos com uma prancha elétrica na vã tentativa de esticar os cachos mágicos. O Ornitorrinco estava ao lado do capitão, que operava a roda do leme com tranquilidade, comandando a nau em velocidade máxima. Ele perguntou ao pirata: - No Vale de Cristal, já sentiram os efeitos do roubo? - Rá! – Gritou o pirata, sem tirar os olhos do horizonte – um sujeito já postou Calígula três vezes, estamos excluindo os tópicos manualmente. Os membros já estão questionando por que o meliante ainda não foi negativado.


O Ornitorrinco também voltou seu olhar para o horizonte, em silêncio. A sagrada missão de guardar o Botão de Alerta foi dada aos seres encantados da Seção 8, era de sua responsabilidade recuperá-lo. De repente, ouviu-se um grito. Grito de mulher. A Ninfa! Todos correram para o convés inferior, menos o pirata, que não podia largar o timão, e a Raposa: entretida que estava, não ouviu o grito e continuou dentro do barril. O Vampiro chutou a porta e puderam ver a Ninfa em lágrimas, sentada na beira da cama, os áureos cabelos ainda cacheados: - Vejam – choramingou ela, exibindo a delicada perna. – Eu vou ser banida! Em seu belo tornozelo, luzia uma argola de energia vermelha. Recebera, assim como o Vampiro, 30% de alerta. Compadecido, o enorme Lobo saltou sobre a cama e achegou-se a sua paixão proibida. A fada abraçou-o, vertendo lágrimas douradas que caiam sobre os pêlos do animal místico. - Você não será banida, Cachinhos – Acudiu o Homem de Costas, sempre com o olhar baixo e expressão tímida – O patife não fará mais do que isso. Ninguém pode aplicar mais de 30% de alerta, nem mesmo os Supervisores! - A menos que decifre o código-fonte do Botão de Alerta – murmurou o Ornitorrinco, do lado de fora da cabine, num tom em que só o Vampiro pôde ouvir. – Precisamos nos apressar. Eram as últimas horas da madrugada, a nau singrava velozmente pelo volumoso Rio Warez, na urgência de chegar o quanto antes à capital de Cepetelândia. Aquele fora o segundo ataque à equipe da Seção 8, o gatuno certamente foi banido por atividades ilícitas na Grande Floresta e agora buscava vingança. Era preciso detê-lo antes que dominasse as complexas instruções da poderosa exclamação, pois então seus poderes não teriam limite. Os céus da cidade perdida anunciavam o alvorecer quando a Caravela de Ailton ancorou no porto da Seção 0, a capital de Cepetelândia. Na iminência dos primeiros raios de sol, meteram o Vampiro dentro do barril, para que pudesse ser transportado em segurança até o sagrado templo sem virar cinzas. Ao perceber que era o mesmo barril usado como ninho de amor pela Raposa, o Vampiro protestou bastante, mas não havia remédio: o processador-sol já lançava seus primeiros raios sobre a cidade, aprisionando-o no asqueroso tonel. Cachinhos permaneceu na caravela, pois somente os guardiões dos condados podiam adentrar a Seção 0, além dos poderosos Moderadores e Conselheiros. O velho pirata apertou a nadadeira do Ornitorrinco e disse: - Boa sorte, pato! Eu cuidarei da fadinha maluca – ele balançou a garrafa de rum – com uma bela festa ao estilo dos piratas! – Ele gargalhou e, mais uma vez, acabou numa tosse seca, amenizada com um novo gole da bebida. O Ornitorrinco agradeceu, meio temeroso pela segurança da Ninfa, e tomou o caminho para o grande templo junto de seus companheiros. Ele ia à frente com o Homem de Costas enquanto o Lobo e a Raposa vinham logo atrás, equilibrando em seus dorsos o barril com o Vampiro, que não parava de reclamar. O caminho do porto até o Templo da Convergência era curto, uma estrada calçada com blocos de pedra que subia até o alto de uma colina, ladeada por vegetação rasteira e nenhuma outra construção. O grande rio, os extensos prados e o imponente santuário sobre o outeiro compunham uma vista fantástica que era usada como wallpaper por vários cepetelenses apaixonados por sua pátria. Logo, os heróis estavam diante do Templo da Convergência, uma construção ancestral composta


por uma grande abóbada e oito torres altíssimas ao redor, tudo construído em blocos de informação que remetiam às primeiras instruções de DOS. Nas fissuras entre os blocos, pequenas linhas luminosas de dados corriam ininterruptamente, fazendo o papel de argamassa da grandiosa construção. A entrada principal, um grande portal em ogiva, estava sempre aberta àqueles que desejassem se arriscar a perturbar o repouso dos seres arcanos. Resolutos, os guardiões da Grande Floresta adentraram o templo. O salão principal era um grande espaço circular de uns vinte metros de diâmetro. Nas paredes, próximos ao início da abóbada, dezenas de vitrais retratavam cenas épicas das guerras que formaram a grande cidade perdida de Cepetelândia, séculos atrás. Ao redor da nave, oito portas, cada qual dando acesso a uma das torres que rodeavam aquela enorme construção circular. Naquele salão havia uma grande pedra ritual no formato de uma mesa, cunhada com inscrições indecifráveis, que ficava em frente à entrada. Sentado a essa mesa, num grande trono, um ser misterioso, oculto por um manto com capuz escrevia com uma pena sobre uma tela LED touchscreen, que ficava embutida na pedra ritual. A luz verde-esmeralda que emanava de dentro do capuz e das mangas do manto não deixavam dúvida: tratava-se de um Moderador, o arcano Oráculo do Templo da Convergência. - Aproximem-se – disse o ancião, sem desviar os olhos ou parar de escrever. Os guardiões se aproximaram, o Lobo rolou o barril até eles. - Ornitorrinco, você deseja saber a identidade de um invasor. - Sim, senhor – disse o Ornitorrinco, pondo a nadadeira sobre o peito felpudo, em sinal de respeito. – daquele que roubou o sagrado Botão de Alerta. - O totem que deveria estar seguro na Grande Floresta! – grasnou a antiga entidade, fazendo ressoar sua voz por todo o salão. – Como pôde permitir tal atrocidade? O Ornitorrinco sabia que aquele era Danner, um antigo Moderador que já voara pelos céus de Cepetelândia caçando os banidos, mas que hoje vive no Templo da Convergência conectado diretamente aos servidores centrais da cidade. Ele se tornara o Oráculo, uma entidade capaz de identificar qualquer membro e sua localização exata no espaço e no tempo. - Suspeitamos que o ladrão seja um banido que outrora foi frequentador da Grande Floresta e profundo conhecedor do condado da Seção 8 – continuou o Ornitorrinco, procurando não demonstrar seu terror diante da cólera da criatura – daí sua facilidade em concretizar o delito. De alguma forma, ele está enviando um sinal para a grande rede e usando o Botão de Alerta para nos atacar. - O senhor pode reverter esse alerta negativo? – Gritou o Vampiro, de dentro do barril. - Não sem que o totem esteja em seu santuário na Grande Floresta – respondeu o Moderador, em tom mais ameno – os algorítimos que reduzem o nível de alerta estão em processos encapsulados dentro do código-fonte, que precisa estar conectado à rede. - Então nos ajude a localizar o ladrão e colocaremos o totem em seu lugar! – Disse o Lobo levemente exacerbado, tomado pela angústia de ver sua musa com a nefasta tornozeleira vermelha. O ancião, finalmente, parou de escrever com a pena. Colocou-a de lado e, com um toque, fez surgir na tela um teclado virtual que era composto não de letras, mas de símbolos místicos relacionados a comandos de programação. Seus dedos começaram a digitar nas teclas virtuais numa velocidade


indescritível, era quase impossível acompanhar os movimentos com os olhos. A cada toque, as inscrições cunhados na pedra brilhavam em linhas de energia esverdeadas, que serpenteavam pelos sulcos dos símbolos em baixo relevo. Na grande nave, todos estavam em silêncio, o único som que se ouvia era o dos toques rápidos dos velhos dedos na tela cristalina. Vários minutos se passaram, até que, finalmente, o ancião parou. - Encontrei – disse ele, tomando novamente a pena e voltando a escrever calmamente na tela, sem nunca levantar os olhos. – De fato, o responsável é um banido. Ele usou múltiplas camadas de IP para disfarçar sua entrada, além de contas fake sobrepostas. - Um fake convidado por outro fake – disse a Raposa, compreendendo o ardil. - Enfim, quem é o meliante? – Perguntou o Lobo, indócil. – Onde ele está? - Ele está onde sempre esteve: no Limbo – respondeu o Moderador – de lá ele está enviando o sinal para nossa rede utilizando os códigos de acesso inerentes ao Botão de Alerta. Ele está depurando o algoritmo, logo será capaz de modificá-lo e aplicar qualquer quantidade de alerta em qualquer membro. - Quem é ele? – Perguntou com firmeza o Ornitorrinco. - Ora, vocês o conhecem bem. – Disse o Moderador, impassível. – O senhor da prolixidade. O Falso Profeta. O Caçador dos Céus. Uma expressão de espanto tomou o rosto de todos os guardiões. O barril no chão começou a tremer freneticamente. Mesmo a Raposa, a criatura mais otimista do reino, não pôde esconder seu espanto e preocupação. O Ornitorrinco disse em voz alta, sem se dirigir a ninguém especificamente: - Skyhunter! - Exatamente – disse o Moderador, enquanto escrevia códigos ininteligíveis com sua pena. – Vocês devem detê-lo antes que ele domine o código-fonte do Botão de Alerta. Deverão descer ao Limbo, derrotá-lo e trazer o totem de volta. - Como chegaremos ao Limbo? - Perguntou o Homem de Costas, muito avexado e retraído. O Moderador riscou algumas instruções na tela e, de repente, pôde-se ouvir o som de grandes engrenagens funcionando sob o chão do templo. Logo o centro do salão se abriu, revelando uma escada em espiral que descia para as profundezas. - Vocês devem ir aos Senhores do Abismo. – Disse o ancião – eles guardam a entrada para o Limbo. - Nós derrotaremos Skyhunter e voltaremos com o Botão de Alerta – disse o Ornitorrinco, dirigindo-se com seus companheiros para a entrada do reino subterrâneo. - Se vocês não o fizerem, não voltarão – disse o velho Moderador, sem se virar. O Ornitorrinco olhou em silêncio para o ancião antes de começar a descida. Certamente, o Oráculo sabia que se Skyhunter dominasse o algoritmo do Botão de Alerta, até mesmo o prestigioso círculo da moderação estaria em apuros. Seria o fim da cidade. Os heróis iniciaram a descida para o escuro fosso a fim de encontrarem os Senhores do Abismo, os mais temidos Moderadores de toda


Cepetelândia, e rezar para que lhes fosse concedida a passagem para a terrível dimensão do Limbo.

:::: CAPÍTULO IV – O Advento do Reprodutor Atômico

Assim que a luz do processador-sol não mais alcançava os guardiões, o Lobo deu duas pancadinhas no barril. O Vampiro entendeu o sinal e arrebentou o tonel com seus poderes vibratórios, livrandose finalmente da nauseante cela. Retirou com repulsa algumas lascas viscosas do pescoço e juntouse ao grupo, evitando a Raposa. A descida levou algum tempo, a única iluminação do fosso era a tênue luz de algumas tochas que ardiam eternamente num fogo mágico, imersas no negrume da antiga passagem. Quando finalmente chegaram ao término da escadaria, o Ornitorrinco olhou para cima: do fundo daquela cova infernal a entrada era apenas um pequeno ponto de luz, distante muitos metros acima na superfície da terra. O ar estagnado, pesado, era difícil de respirar, o forte odor de enxofre queimava as narinas. Uma pequena passagem lateral dava para um corredor estreito, uma escavação na rocha que se estendia ainda mais para baixo. Determinados, os heróis seguiram pelo caminho escuro, no peito apenas o desejo de salvar sua floresta e seus companheiros. Eles caminhavam em fila – o corredor era estreito demais para irem lado a lado –, a Raposa ia à frente iluminando a passagem com seus olhos fluorescentes. Algum tempo depois, avistaram alguma luz: era o fim do extenso percurso. Aceleraram o passo e logo estavam fora da claustrofóbica passagem. Os heróis viram-se num grande salão subterrâneo cujo teto era sustentado por enormes pilares de rocha. Nessas colunas, inúmeras inscrições de tempos ancestrais, indecifráveis. Nas paredes rochosas, desenhos rústicos retratavam os primeiros moderadores, que lutavam nas guerras seculares antes da formação da Grande Cidade. No fundo da câmara, uma gigantesca pira de bronze na qual ardia um fogo intenso que luzia em tons fortes de vermelho e verde. Ladeavam aquela formidável fogueira dois tronos, nos quais se acomodavam os Senhores do Abismo, as criaturas abissais que eram tema de histórias horrendas, contadas aos pequenos desde cedo para meter-lhes medo. De um lado Hades, o Príncipe das Trevas, vestido com sua armadura de placas negras, o elmo fechado adornado por chifres retorcidos e um grande tridente em punho; de outro, a criatura mais medonha que já caminhou sobre Cepetelândia: Castal, o Moderador-demônio, uma entidade de pele avermelhada e um eterno sorriso diabólico. Ele não falava: diziam as lendas que o simples som de sua voz era suficiente para banir um membro até as duas gerações seguintes. Respeitosamente, os guardiões se aproximaram, um fedor horrendo de carbono e enxofre emanava da pira. O ornitorrinco se adiantou: - Senhores do Abismo, pedimos permissão para adentrar o Limbo ! O Moderador-demônio deu uma risada infernal, que ecoou até o fundo do cérebro dos heróis. Uma gota de sangue caiu das narinas da Raposa. O Príncipe das Trevas, fazendo apenas um pequeno movimento com a cabeça, disse: - Sem os poderes da Grande Floresta, vocês não poderão derrotar Skyhunter. Ele já é poderoso demais. - Não importa! – Gritou o Lobo, apaixonadamente. – Precisamos salvar nossos amigos! O Vampiro e... Cachinhos... – concluiu olhando de soslaio. Subitamente, Castal olhou para o irmão moderador, o sorriso levemente abalado. Hades disse:


- Um momento! É hora de alimentar o Belzebu das Profundezas. Deixar Castal faminto representa perigo para toda a cidade. Escravo! De uma passagem lateral por detrás dos tronos surgiu um homem carregando sobre o dorso, com grande dificuldade, uma enorme bandeja de prata. Ele vestia apenas trapos, a barba e o cabelo desgrenhados. Na bandeja, lindamente forrada de palha e folhas de salgueiro, uma macabra mistura de membros amputados dos corpos digitais de membros banidos e frutas da estação. O pobre homem, mesmo com seu porte atlético, usava toda sua força para carregar o pesado banquete sobre os ombros, como Atlas sustentando a Terra. Ao ver a comezaina, Castal atacou-a com as garras, dilacerando e engolindo sofregamente nacos das almas condenadas, pedaços caindo pelo chão. Logo só restou a bandeja vazia, fazendo com que o homem desse um suspiro de alívio. Hades meteu-lhe o tridente nas costelas, fazendo-o ganir de dor. - Para fora, escravo! Antes de sair, o homem olhou de través para os heróis que, com grande horror, puderam identificálo: era Chuck Norris. À saída do serviçal, o Príncipe das Trevas continuou: - O Paladino da Verborréia, Skyhunter, construiu uma espécie de catedral no círculo mais profundo do Limbo, e lá pretende reunir um exército de banidos com suas palavras vazias e promessas de salvação. Com o controle do Botão de Alerta, ele poderá insurgir-se contra nós numa guerra santa que devastará os condados. - Precisamos impedi-lo – disse o Homem de Costas por trás de uma coluna, com muita vergonha e remorso católico. - Então – disse o Príncipe das Trevas – vocês terão de ser ungidos com a Substância Ban. Os heróis se entreolharam. A Substância Ban era a força mais poderosa de Cepetelândia, um fluido prodigioso capaz de desintegrar qualquer membro problemático. Tratava-se de um elixir cuja manipulação era dominada somente pelos Moderadores. Hades levantou-se, apontou seu tridente para o Ornitorrinco e gritou: - Pato! Pegue aquela cabaça e encha-a com a pura Substância Ban destilada por Castal. O Ornitorrinco, meio vacilante, pegou a cabaça que estava num canto e subiu os degraus que levavam até o Moderador-demônio. O ser infernal irradiava calor violento, fazendo com que o místico mamífero suasse intensamente. O Ornitorrinco posicionou a cabaça trêmula sob as presas de Castal. De seus afiados dentes começou a gotejar a Substância Ban, um fluido esverdeado e brilhante que pouco a pouco foi enchendo o recipiente. Com seu eterno sorriso diabólico, a criatura arcana fitou o Ornitorrinco, que desviou o olhar, sabiamente. Momentos depois, a cabaça estava cheia e o apavorado Supervisor afastou-se rapidamente, unindo-se a seus companheiros. Sentandose novamente em seu trono, Hades ordenou: - Toma a cabaça e unge a ti e aos teus companheiros. No Limbo, vocês terão o poder da moderação, para fazer em pedaços seus inimigos. Prontamente, o Ornitorrinco recarregou a Caneta do Supervisor com o primoroso líquido. Em seguida, ungiu os dentes pontiagudos do Vampiro, as garras do Lobo e os olhos da Raposa, concedendo-lhes o supremo poder do banimento. Ao Homem de Costas ele entregou o restante do fluido na própria cabaça, por negar-se a tocar em suas partes encantadas. Ele que ungisse a si


próprio. O Príncipe das Trevas disse: - O Limbo é uma dimensão desolada e hostil, por onde vagam as almas dos banidos. Naturalmente vocês não serão bem recebidos, já que há grande ressentimento contra todos os guardiões de Cepetelândia. Vamos abrir uma passagem para mandá-los o mais próximo possível da nefasta catedral de Skyhunter. Hades fez um sinal para Castal que, prontamente, deu uma cusparada no chão em frente aos heróis. O esputo derreteu o piso rochoso, formando uma poça viscosa. Hades apontou seu tridente e disparou um raio contendo centenas de instruções de programação que continham as chaves de segurança da rede, conectando a poça com a dimensão do Limbo. - Vão! – Gritou Hades. O Ornitorrinco se adiantou, lançando-se ao viscoso portal, seguido pelo Lobo, a Raposa e o Vampiro que Treme. Quando o Homem de Costas estava para atravessar a poça, Hades disse, em tom grave: - Livra-te da culpa! Do remorso! Não te esqueças de quem és, ou tu e todos os teus amigos pagarão pelo peso de tua consciência. Não há pecado em tua natureza, Homem de Costas, nasceste para perpetuar a gloriosa confraria de Cepetelândia! O Homem de Costas baixou a cabeça sem nada dizer, muito tímido. Amarrou bem o cinto do sobretudo e pulou no portal para o Limbo. Os heróis caíram de uma altura de uns três metros no árido chão do Limbo. Sobre eles, o portal circular se fechou, selando-os na dimensão dos banidos. Tudo era desolador. No solo, ressequido e rachado, não se via um único sinal de informação ou conteúdo. O céu era tomado por nuvens cinzas, não se via um pedaço de azul. Um vento constante, seco e empoeirado sibilava desoladamente. Não havia nada ali. Um destino vazio e miserável àqueles que desperdiçaram a oportunidade de viver na gloriosa Cidade Perdida. O Lobo levantou a cabeça, olhou em volta e gritou: - Lá! No horizonte, a leste, era possível ver a única construção daquela planície erma, uma espécie de igreja medieval erguida pelo infausto ladrão. Os heróis correram naquela direção em grande velocidade: a Substância Ban devolvera-lhes os poderes e dotou-os temporariamente com a força da moderação. Somente o Homem de Costas ia mais atrás, envergonhado de ungir-se com o licor mágico. A poucos metros da entrada, uma grande porta dupla de madeira com detalhes em ferro, o chão se abriu em vários lugares. Dos buracos surgiram dezenas de criaturas grotescas, retorcidas, vestidas em trapos imundos, mal se podiam reconhecer nelas traços humanos. Sua pele era cinza, assim como os grandes olhos sem pálpebras ou pupilas. Os guardiões reconheciam as terríveis entidades: eram a manifestação física dos banidos na dimensão do Limbo. Eles berravam em vozes misturadas: - Os guardiões, os guardiões! Vingança! Os mórbidos seres lançaram-se contra os heróis, sedentos por sangue. Seguiu-se uma luta feroz. A Raposa, dotada de grande velocidade, esquivava-se de todas as investidas, desintegrando seus


inimigos com raios da Energia Ban, disparados de seus olhos. O Lobo, possuído por sua fúria habitual, enfrentava as criaturas em luta franca, frete a frente, rasgando-as com suas garras encantadas. O Vampiro pulava em pequenos voos, mergulhando nos inimigos com seus dentes e garras, cravando-lhes os caninos e tremendo até desmembrá-los. Com a Caneta do Supervisor, o Ornitorrinco lutava como um espadachim, desenhando no ar linhas de Energia Ban que cortavam em postas as criaturas malditas. O Homem de Costas apenas se defendia: as palavras de Hades ecoavam em sua cabeça, mas o seu medo de pecar era imenso. Ele não podia usar a Substância Ban em suas partes, seria perigoso demais. Em pouco tempo, o exército de banidos reduziu-se a um amontoado cinzento de corpos digitais. Os heróis já iam adentrar a igreja quando a porta foi arrebentada com um golpe de grande violência. Os heróis esperaram, em meio aos corpos, pelo inimigo que surgiria. Ouviram-se sons de cascos contra o chão, em galope. Logo, de dentro da catedral, apontou uma criatura medonha, que lembrava um centauro, mas no lugar da metade humana havia um corpo felino. O Ornitorrinco deu um passo firme à frente e disse: - Pocotómiau. Por que não estou surpreso? - Pato! – urrou a criatura, numa voz afinada que lembrava um miado. – Enfim... - Você, com suas inúmeras contas fake, trouxe o Caçador dos Céus de volta a Cepetelândia – gritou o Ornitorrinco, os pequenos olhos em brasa. – Por quê? - Skyhunter, meu irmão de exílio, prometeu-me apenas uma coisa. – Disse ele, trotando lentamente na direção do Supervisor – a chance de um acerto de contas. - Por vingança – disse o Ornitorrinco, a caneta do Supervisor na nadadeira – você colocou em risco toda Cepetelândia. Essa luta é minha! A abominável criatura acinzentada, metade equina metade felina, saltou sobre o Supervisor com suas garras afiadas e cascos brutos. O Ornitorrinco rolou sobre a cauda achatada, evitando o golpe. Ele riscou no ar um traço com a caneta mística, que também não atingiu o inimigo. Os dois ficaram de pé, deslocando-se de lado e olhando-se nos olhos, em círculo. O Ornitorrinco tomou a iniciativa e brandiu a caneta no ar, em diagonal, formando um arco de energia que disparou em direção ao oponente. Este se esquivou e, num movimento rápido e impressionante, girou o corpo e golpeou o Ornitorrinco com um coice, fazendo com que ele caísse no chão e a caneta do Supervisor voasse longe. Rapidamente, Pocotómiau saltou sobre o guardião, imobilizando-o com os cascos das patas dianteiras. Ele preparou as garras felinas e disse: - Hoje você vai pagar por aqueles trinta por cento. Suas últimas palavras, pato? – Grasnou, o ódio nos olhos cinzas, as afiadas unhas prontas para atacar. - Só uma coisa de que você se esqueceu, meu velho – disse o Ornitorrinco, com um sorriso que raramente demonstrava. - E do que foi? – Disse Pocotómiau, a garra levantada para o golpe. - De que eu não sou um pato, sou um ornitorrinco! O guardião, lançando mão de sua arma secreta, cravou nas ancas do centauro os esporões peçonhentos das patas traseiras, injetando-lhe grande quantidade de poderoso veneno. Imediatamente, a toxina desencadeou na criatura a dor mais insuportável que se pode imaginar,


fazendo com que ela caísse no chão em convulsões violentas. O Ornitorrinco levantou-se e buscou a Caneta do Supervisor. Com um golpe de misericórdia, separou do corpo a cabeça felina, pondo fim à miséria do banido. Ele tirou a sujeita dos pêlos e limpou com a nadadeira um pequeno filete de sangue que escorria do bico, dizendo em seguida: - Skyhunter é o próximo. Adiante! Os heróis passaram pela entrada e chegaram à nave do templo. Lá dentro, ainda derrotaram mais uma dúzia de banidos antes de chegar, finalmente, diante do altar. A catedral fora construída com pedra e barro do próprio Limbo, nas paredes não havia vitrais, apenas as aberturas ogivais onde deveriam estar as janelas. Os bancos para os fiéis foram improvisados com troncos e galhos retorcidos, dando um ar tétrico e miserável à catedral. Na abside, à frente do altar-mor, estava um homem vestido com calça social, camisa branca e gravata azul-marinho, o cabelo penteado todo para trás com muito gel. Atrás dele, sobre o altar-mor, flutuava o Sagrado Botão de Alerta. Ele gritou: - Infiéis! – A voz grasnada ecoou pela nave. – Vocês me silenciaram em Cepetelândia, mas não o farão aqui! - Você quase destruiu a Grande Floresta com seus sermões vazios, Skyhunter! – Disse o Ornitorrinco. – Você merece estar aqui! Não pode usar o nome de Deus para promover seus debates verborrágicos! - Deus? Rá! – Disse Skyhunter, a face enrubescida de ódio. – Esse foi meu erro, adorar a um deus! Depois de muita reflexão na solidão do Limbo, finalmente compreendi que, na verdade, eu sou Deus! - Ele enlouqueceu. – Disse o Vampiro, em voz baixa. - Com o poder do Botão de Alerta – continuou o lunático – reunirei meu próprio rebanho, as almas que vocês mesmos despejam no abismo. Em breve, sua Grande Floresta virará um mural de debates religiosos, serão banidos todos os outros assuntos! Marcharemos sobre Cepetelândia, queimaremos suas ninfas bruxas e seus Moderadores hereges, vocês, aberrações, serão postos a ferros até reconhecer o único e poderoso Deus, eu! O Caçador dos Céus! - Basta dessa ladainha – rosnou ferozmente o Lobo – você está acabado! Quando os guardiões se preparavam para avançar sobre o falso profeta, ele fez um sinal com a mão direita e quatro raios esverdeados foram disparados do Botão de Alerta, atingindo em cheio o Ornitorrinco, o Lobo, a Raposa e o Homem de Costas, projetando-os vários metros para trás e fazendo-os cair sobre os troncos e galhos. Todos receberam 30% de alerta, de uma só vez. Skyhunter riu e disse: - Veem? A cada momento tenho mais controle sobre o totem! Logo conseguirei decifrar o restante do código-fonte e poderei alertar o quanto e quem eu quiser! – Ele começou a rir freneticamente. - Não! – Gritou o Vampiro, enquanto acudia seus companheiros. – Vamos detê-lo antes disso! - Ninguém pode me deter – gritou, ensandecido. – Irmãs! Protejam seu líder! Falta pouco para que eu consiga compreender todo o algorítimo! Do oratório que ficava por detrás do altar, saíram dezenas de obreiras, todas de saia longa azul-


marinho, camisa barata de abotoar e cabelos em coque. Elas berravam “- Skyhunter é o senhor, Skyhunter é o senhor!” e avançaram sobre os heróis. Diferente dos banidos, elas eram inimigos formidáveis, atacavam velozmente com suas unhas mal-feitas e gritos de culto ensurdecedores. O Vampiro e a Raposa moviam-se tentando se esquivar das investidas, mas as obreiras infernais foram concebidas com as poderosas instruções do totem, elas eram capazes até mesmo de subir o nível de alerta da vítima conforme golpeavam. O Ornitorrinco e o Lobo tentavam abrir caminho por entre elas, inutilmente. No altar, os algoritmos do Botão de Alerta flutuavam em letras e números verdes ao redor do Caçador dos Céus, que os manipulava com a ponta dos dedos. Era questão de tempo até que todo o código fosse interpretado. O Homem de Costas estava encolhido num canto, três obreiras chutavam suas canelas nuas enquanto ele chorava. O Ornitorrinco sabia muito bem do potencial destrutivo do Homem de Costas, ele precisava apenas se libertar do remorso e da repressão católica. Ele gritou: - Homem de Costas! Use a Substância Ban! Só você pode enfrentá-las. - Não, eu tenho vergonha, não posso pecar – choramingou ele. - Diga!... – Gritou o Ornitorrinco, com as unhas de uma obreira cravadas no pescoço. – Diga agora! Quem você é? Diga! - Eu sou... - murmurou o Homem de Costas, lemrando-se das palavras de Hades. - Diga! – Berrou o Ornitorrinco, já com quase 50% de alerta. - Eu sou... um reprodutor! – Gritou, finalmente, o Homem de Costas. Ele sacou a cabaça contendo a Substância Ban e derramou-a toda sobre suas partes místicas, abaixo da cintura e pouco acima da virilha. – Um reprodutor! Eu preciso... procriar! Uma explosão de raios e luzes, que lembrava os primeiros efeitos especiais da década de 70, rechaçou as obreiras que atacavam o Coordenador. Uma nuvem de fumaça branca cobriu-o, chamando a atenção de todos e interrompendo a luta. Quando a fumaça se dissipou, o Homem de Costas já não usava seu sobretudo, seu corpo estava coberto em parte por circuitos eletrônicos, uma lente cibernética vermelha cobria seu olho esquerdo, uma forte luz emanava de suas partes encantadas. A Substância Ban livrou-o de toda a culpa e remorso, metamorfoseando-o no macho alfa, o reprodutor atômico, o poderoso Ciborgue Erótico, cujo único instinto era preencher qualquer buraco vazio e reproduzir freneticamente. Diante do perigo iminente, o Ornitorrinco gritou: - Rápido! Sentem no chão! Os guardiões protegeram suas propriedades quando o Ciborgue Erótico estalou os dedos. Ao seu comando, luzes coloridas de discoteca tomaram o interior da catedral e começou a tocar “Hot Stuff” de Donna Summer. Com um uivo de furor, o amante cibernético começou a perseguir as obreiras, que fugiam desesperadas, tropeçando umas nas outras tentando fugir da inevitável fertilização. Diante da confusão, Skyhunter gritou: - Blasfêmia! Blasfêmia! Todos vão para o inferno! O Ornitorrinco, aproveitando-se do momento de distração, usou suas últimas forças para ficar em pé e, num movimento preciso, lançar a Caneta do Supervisor contra o Caçador dos Céus, atingindo-o na testa e injetando-lhe no crânio toda a Substância Ban do artefato mágico. Ele virou os olhos, os dedos curvos tremiam enquanto as mãos tentavam alcançar a poderosa caneta, inutilmente. Ele


ajoelhou-se e caiu de lado, fulminado. Os guardiões, muito feridos, aproximaram-se do corpo do falso profeta. Olharam-se num sorriso mútuo, ao som de Donna Summer e sob as mágicas luzes coloridas conjuradas pelo Ciborgue Erótico, que continuava em sua incumbência de procriação. A cidade estava salva.


:::: EPÍLOGO

Com o inimigo derrotado, o Sagrado Botão de Alerta recuperado, os heróis tomaram o caminho de volta à Cepetelândia através de um novo portal aberto pelos Senhores DO Abismo. Para retribuir a imensa generosidade dos seres abissais, trouxeram DO Limbo os restos DO Caçador dos Céus, Pocotómiau e outros banidos, para que fossem triturados e digeridos novamente por Castal, o coisaruim da moderação. Subiram as longas escadarias de volta à superfície, deixando para trás os Senhores DO Abismo e seu reino de fogo e enxofre. - Está feito – disse o velho ancião ao ver os heróis apontarem na abertura DO profundo poço. - Sim – disse o Lobo – o Caçador dos Céus jaz entre as mandíbulas venenosas de Castal. - O Sagrado Botão de Alerta? – Perguntou o Ancião. - Aqui está – disse o Ornitorrinco estendendo seu Smartphone, na nadadeira estavam ainda as pulseiras vermelhas DO alerta negativo. – Está compactado em partes de 100mb. - Muito bem – disse o ancião, conectando um cabo USB que saia da mesa de pedra – vou hospedar o Sagrado Botão de Alerta no Santuário da Grande Floresta. Digitando rapidamente na tela LED, o velho Danner hospedou o botão em seu santuário na Montanha Proibida. Imediatamente as instruções e algoritmos se conectaram ao servidor de Cepetelândia e a função de alerta ficou disponível para toda a cidade. O ancião olhou para os heróis, numa breve pausa, e riscou alguma coisa na tela embutida na mesa. As nefastas pulseiras de alerta negativo se quebraram e se dissolveram em um pó vermelho brilhante que se espalhou pelo ar, dissipando-se em seguida. O Vampiro que Treme segurou o pulso com a outra mão, aliviado ao se ver livre de tantos alertas. Com as orelhas em riste, o Lobo perguntou: - E Cachinhos? - Também está livre dos ataques de Skyhunter – disse o velho, voltando os olhos para a tela e retomando o ar meditativo – mas não espere encontrar a mesma ninfa que deixaste para trás. - O que quer dizer? – Disse o Lobo, audaciosamente. - Vamos, Lobo! – Disse a Raposa, temerosa de despertar a fúria DO velho moderador. – Logo estaremos todos juntos! Já era quase noite quando os guardiões saíram DO Templo da Convergência e voltaram ao porto, onde estava atracada a grandiosa Caravela de Ailton. Chegando ao cais, os guardiões ouviram uma tremenda algazarra a bordo, junto com uma ruidosa música de batida eletrônica que dizia assim: Treze piratas sobre um caixão! Ho, ho, ho, ho, ho! E uma garrafa de rum! Deu briga, bebida, saiu confusão Ho, ho, ho, ho, ho! E não sobrou nenhum! Temendo pela segurança de sua musa, o Lobo disparou pelo cais, subindo a rampa de madeira que dava para o convés. Os outros guardiões o seguiram e o encontraram atônito, junto à amurada. No coberto superior estava toda a equipe DO Vale de Cristal, sórdidos piratas conhecidos por seu


atrevimento e maneiras rudes. Conduzindo a festa estava Ailton, o Impiedoso, com sua inseparável garrafa de rum, regendo a cantoria. No meio deles estava a Ninfa, também segurando uma garrafa de bebida, com um chapéu de pirata e completamente embriagada. Os cachos foram tingidos de preto, em seu biquíni havia um coldre com uma pequena faca. Imediatamente, o Lobo arrancou o sobretudo DO Homem de Costas e cobriu Cachinhos, levando-a para sua cabine, sob protestos. Ailton gritou: - Rá! O husky está com ciúmes! E então, pato, deu ao maldito o que ele merecia? - Tudo e algo mais – respondeu o Ornitorrinco, de volta a sua costumeira feição ranzinza –, para a Grande Floresta, velho pirata! A cidade está salva! - Rá! – Gritou, Ailton, brandindo sua garrafa, fazendo com que um pouco da bebida voasse para os lados. Os outros tripulantes acompanharam o berro e o gesto, regozijando-se com a vitória dos guardiões sobre a terrível ameaça. A caravela derramou pelo rio e pelo cais suas poderosas descargas elétricas, as velas de energia luminosa vergaram com o vento e a nau partiu para o sul, de volta à Seção 8. Com o Sagrado Botão de Alerta em seu devido lugar, os guardiões recuperaram seus poderes e começaram a limpeza no conteúdo da Grande Floresta. Com seu Feixe Escarlate, o Lobo avançou confiante em meio à mata, rosnando num riso sádico enquanto distribuía alertas a todos os que se aproveitaram DO período de trevas. Não sobrou muito para os outros guardiões: o lupino estava furioso, a alma em cólera por sua amada ninfa, corrompida pelos encantos DO Vale de Cristal. Esta, por sua vez, adotou definitivamente o novo visual e passou a ser conhecida na floresta como a Ninfa dos Cachinhos de Ébano. O Homem de Costas, reconhecido por seu papel crucial na salvação da cidade, recebeu como recompensa um mês de férias e uma bolsa-pensão-alimentícia, para auxiliá-lo na quitação de dívidas com duas dúzias de obreiras que terminaram grávidas, quatro delas de gêmeos. O Ornitorrinco jazia no lodo, os olhos diminutos semicerrados fitavam o céu por entre as copas das árvores. Era fim de tarde na Grande Floresta. No pequeno monte, o Vampiro esperava a Raposa e o Lobo para mais uma partida de pôquer online na poça mágica. O Ornitorrinco olhava para o céu, mas algo estava diferente. A paz fora ameaçada, malfeitores se esgueiraram pelo bosque sagrado espalhando o caos, a pureza havia sido corrompida. Nada podia garantir que não acontecesse de novo. Ele respirou fundo, a cauda larga e achatada bateu na lama. As estrelas, em tênue luz, já apontavam no firmamento. Subitamente, ele ouviu uma gargalhada: era o Lobo, que se gabava de ter ganhado mais uma rodada dos companheiros dos condados vizinhos, o Vampiro, a Raposa e o Homem de Costas comemoravam junto com ele, a Ninfa de Cachinhos de Ébano voava ao redor, com seu pequeno cantil de Rum. O Ornitorrinco respirou fundo novamente, mas dessa vez o alívio e a confiança inundavam seu peito. As ameaças viriam, certamente, mas seus irmãos sempre estariam ali, unidos, atados e firmes, para defender com suas vidas a Grande Floresta, o glorioso condado da Seção 8. FIM ***


Mensagem aos leitores: Queridos amigos, quando comecei a escrever as “Crônicas DO CPTurbo”, sinceramente, o fiz de maneira totalmente despretensiosa. Fiquei muito surpreso com a repercussão que a história teve no fórum, mais ainda com a surpreendente quantidade de respostas aos tópicos e mensagens pessoais que recebi. Desta forma, é preciso conferir aos leitores o mérito que descrevo a seguir: Eu sempre quis escrever um livro, mas depois que quase todas as histórias já foram contadas por meio de filmes e seriados, fiquei muito desanimado e receoso de escrever algo com ar de já vi isso em algum lugar. É muito difícil ter ideias originais numa época em que a ficção científica já foi explorada à exaustão. Entretanto, o que começou como uma modesta paródia, acabou se tornando minha primeira obra completa, totalmente inédita. Enfim, tenho orgulho de dizer que, se algum dia eu me tornar um autor mais conhecido, minha primeira história, uma fábula, foi publicada aqui no CPTurbo, que serviu de inspiração. Agradeço, de coração, a todos os amigos que teceram elogios e me incentivaram a escrever até o fim. Eu apenas redigi a fábula, mas ela pertence a todos vocês. Forte abraço, muito obrigado por isso.


CRÔNICAS DO CPTURBO A Raposa, o Lobo, o Ornitorrinco, e o roubo do botão de Alerta