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sumário

abertura - coordenador geral do festival de inverno - curador geral do festival de inverno quatro povoados, onze vilas e uma cidade coordenação e curadoria oficinas - artes audiovisuais - artes cênicas - artes literárias - artes musicais - artes plásticas - artes transdisciplinares - híbridas projeto aulas abertas - registro fotográfico do projeto aulas abertas registro fotográfico dos eventos do festival - semana da saúde resumo dos eventos entrevistas - itiberê zwarg - joão gilberto noll - ricardo puccetti - rosângela rennó - rufo herrera haikais patrocínio e apoio expediente bastidores errata

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quatro povoados, onze vilas e uma cidade fotografias: fabrĂ­cio fernandino

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quatro povoados, onze vilas e uma cidade

Este projeto nasceu do desejo do olhar. Um olhar que é diferente do ver. Um olhar que é o ver com sentimento. Penso ter sido a única e possível maneira de sentir a verdadeira presença daquela gente, de perceber aquela cultura que floresce do alto do Espinhaço e que, nas vastas altitudes, se preserva e persevera. 8-9 - Sino da Capela Sta. Rita de Cássia - Sopa 10 - Capela do Povoado de Biribiri 11 - Sino da Igreja N. Sra. das Dores - Conselheiro Mata 12 - Igreja N. Sra. do Rosário - Curralinho 13 - Igreja de Sto. Antônio – Desembargador Otoni 14 - Cruzeiro - Guinda 15 - Igreja São Francisco de Assis - Diamantina 16 - Capela Sagrado Coração de Maria - Boa Vista 17 - Igreja de Santana - Inhaí 18 - Igreja N. Sra. das Mercês - Mendanha 19 - Capela de São Sebastião - Pinheiros 20 - Igreja de São Sebastião - Planalto de Minas 21 - Capela N. Sra. das Mercês - Quartéis do Indaiá 22 - Igreja N. Sra. do Bom Fim - São João da Chapada 23 - Matriz de São Sebastião - Senador Mourão 24 - Capela Sta. Rita de Cássia - Sopa

Fui movido pela vontade de ser parte desse povo e, não podendo, participo com o meu olhar. Aquele olhar que penetra silencioso, atento e perspicaz. Olhar que no desvelar dos detalhes torna perceptível o imaterial e revela o afeto. Há anos nesse exercitar, pelos caminhos das montanhas, buscando nos vales, encontrei raridades. Pessoas felizes. E, como um marco inicial, pedra fundamental de algo maior, registro aqui as imagens de suas capelas. Singelas edificações, mais que um símbolo de fé e orgulho, passam a ser a assinatura de um povo, de sua memória e de sua pretensa vitória sobre o tempo. Fabrício Fernandino Curador do Festival de Inverno da UFMG

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oficinas

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Cênicas

Oficinas de Atualização - Núcleo Arte Poética DANÇA: CORPO E CONSCIÊNCIA O objetivo do curso é atender aos que acreditam que, para dançar e se conhecer melhor nas relações com seu próprio corpo, não existe idade. O curso procura estimular, por meio do movimento, os processos de autoconhecimento e redescoberta das potencialidades internas. Não se pretende formalizar o corpo para uma dança específica, mas adequar a dança ao corpo que cada um possui neste momento. O curso prevê abordagens práticas e teóricas, além da mostra de vídeos comentados Corpo na dança.

“A lei do mundo é o movimento, a lei do centro é a quietude. Viver no mundo é movimento, atividade, dança.”

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Professor Arnaldo Leite de Alvarenga (UFMG)


Cênicas

Oficinas de Atualização - Núcleo Arte Ciência

DRAMATURGIAS DO CORPO Apresentar experimentos teórico-práticos do corpo que vêm sendo testados por artistas e filósofos de diferentes procedências, a partir da II Guerra Mundial, por meio de vídeos, DVDs e textos. Discutir a forma como esses artistas lidam com a memória, entre ficção e realidade, como testemunham sua história e constroem sua dramaturgia, trabalhando diferentes estratégias de resistência. Analisar o butô japonês, o teatro angura, a dança contemporânea brasileira e as performances autobiográficas de Sophie Calle e Carolee Schneemann.

Professora Christine Greiner (SP)

“O que interessa discutir não é só que existem essas trocas, mas como elas acontecem.”

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Plásticas Oficinas de Inicição

O DESENHO DE SUPERFÍCIE – TÉCNICAS DE ESTAMPARIA TÊXTIL Utilizar técnicas aplicáveis ao desenho e à pintura para estamparia (desenho de superfície), utilizando vestuário e substratos têxteis como suporte, para ações artísticas ou de produção comercial. Refletir sobre o substrato têxtil como suporte para manifestações plásticas, aliado à cultura do vestuário e a valores artísticos. Ensinar a aplicação técnica têxtil em aquarela para tecido, serigrafia alternativa (pouchoir, gabarito), carimbos (tjaps, linóleo), reagentes químicos e corantes para substrato de fibras naturais e sintéticas, dentre outros.

“Arte estampada na superfície de Diamantina.”

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Professores Mateus Gomes Pedrosa (BH) (frase), Paulo André Ferreira de Souza (BH)


Plásticas

Oficinas de Atualização - Núcleo Arte Ciência

TURISTA APRENDIZ NA CIDADE INVISÍVEL A partir das obras de Mário de Andrade e Ítalo Calvino, propor a exploração da cidade de Diamantina, como campo de observação do viajante do século XXI. Do bloco de anotações à câmara digital, da aquarela naturalista ao gravador de mão, a oficina fará uso de variadas formas de registro da cidade e de seu entorno, na ordenação de seus diversos aspectos — políticos, históricos, culturais — para a constituição de trabalhos individuais ou multiautorais.

Professor Paulo Schmidt (BH)

“Evidenciar a estreita convivência das matérias que compõem a experiência estética, na percepção e recriação do mundo.”

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Transdisciplinares Oficinas de Iniciação

ARTES E OFÍCIO - INSTRUMENTOS MUSICAIS PARA CONGADA E FOLIA Resgatar tradições culturais, por meio da confecção artesanal de tambores e caixas para Congada e Folia, estimulando a criatividade tradicional e preservando a cultura do povo mineiro. Além de aprender um ofício, os alunos poderão, por meio dos instrumentos confeccionados, estruturar os grupos folclóricos já existentes ou criar novos grupos.

“É uma coisa de pai para filho e hoje eu estou passando isso para quem tem boa vontade para poder aprender.”

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Professor Antônio Luiz de Morais (Minas Novas),


Transdisciplinares Oficinas de Atualização

CIRCO Acrescentar à formação de alunos já experientes na técnica circense, novos materiais e técnicas como mini-trampolim, lira, tecido marinho, malabares com fogo, acrobacia de grandes deslocamentos e aula de teatro para técnica circense.

Professores Clerinha Rocha (BH)(frase), Marcelo Castillo (Córdoba, Argentina), Jailton Persan (BH), Olívia Lima (BH), Rafael Pereira (BH)

“Havia um grupo de pessoas de Diamantina que buscava complementar sua formação circense durante o Festival. Então foi proposto este novo espaço na oficina, para que eles pudessem avançar.”

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projeto aulas abertas Em 2004, fui honrado com o convite do professor Fabrício Fernandino, então responsável pela Coordenação Geral do Festival de Inverno da UFMG, para auxiliá-lo na organização e produção desse festival que, inegavelmente, é um dos mais importantes eventos artísticos e culturais do país. Uma das razões desse convite foi, sem dúvida, a paixão explícita que sempre demonstrei pelo Festival, do qual já participava continuamente desde 1993, como professor e Coordenador de Área. Assim, apesar de preocupado com a complexidade da tarefa que me estava sendo proposta, a partir de 2005 passei a envolver-me intensamente com a criação de cada edição do Festival, com a principal função de contribuir no enfrentamento das dificuldades inerentes a um acontecimento de tão grande proporção e envergadura, em especial em um momento em que os indispensáveis patrocínios e apoios passaram a dividir-se entre os diversos eventos semelhantes que foram criados em Minas Gerais nos últimos anos. O trabalho como Subcoordenador Geral ofereceu-me uma visão geral do Festival e um contato diário com os problemas enfrentados pelas diversas áreas, merecedores da nossa especial atenção no sentido de evitá-los nas edições futuras. Nas reuniões dedicadas à avaliação do evento, promovidas tanto durante como após a sua realização, evidenciou-se um fato que chamounos bastante a atenção: de um modo geral, o envolvimento da comunidade de Diamantina com o Festival era bem menor que a nossa expectativa, principalmente no que se referia ao interesse em participar das oficinas. No contato com os diversos moradores,inclusive com aqueles que sempre trabalharam no Festival, percebi que, além de comentarem sobre a necessidade de se incrementar a divulgação do evento – principalmente por intermédio dos formadores de opinião da própria cidade –, havia um fator significativo que dificultava a aproximação entre o cidadão diamantinense e as oficinas: a crença de que o Festival tinha um caráter exclusivamente acadêmico e intelectualizado, o que exigiria do participante certa formação artística e cultural previamente adquirida. A oferta de oficinas de iniciação não parecia representar uma efetiva solução para o problema, tendo em vista que elas não eram significativamente procuradas pelos moradores de Diamantina. Assim, instigado pela questão, uma das minhas principais preocupações passou a ser o envolvimento da cidade com o Festival. Naturalmente, as minhas experiências anteriores, especialmente como professor no Festival, foram determinantes na busca de soluções para essa questão. Em todas as oficinas que ofereci, tanto na área de Artes Musicais quanto na de Artes Cênicas, sempre busquei um envolvimento com a cidade, uma vez que, desde o primeiro dia de aula, metade da carga horária era oferecida na rua por meio de intervenções em espaços públicos – e sempre tive como alunos muitos moradores da cidade, que diziam ter assistido, no ano anterior, as intervenções realizadas e

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que isso os havia estimulado a procurar a oficina. Durante a 38ª Edição do Festival, em 2006, Márcia Rocha e Rossilene Diana, da Coordenação Administrativa, se lembraram dessas intervenções, particularmente porque um dos locais sempre “invadidos” era a sala da Coordenação – o que permitia levar música e teatro à equipe que trabalhava o dia inteiro a serviço do Festival e, por isso, não podia visitar as oficinas. Assim, nesse ano, entusiasmado por essa lembrança, tive o primeiro impulso de propor a alguns poucos professores que, improvisadamente, saíssem da sala de aula por um momento e oferecessem “aulas públicas” pela cidade – que, sem dúvida, foram recebidas com muita satisfação pelas pessoas atingidas. Finalmente, outra constatação foi determinante para que essas aulas públicas fossem oficialmente incluídas na programação do Festival: diversas pessoas comentaram que faltava coragem para se matricular nas oficinas porque não tinham a menor idéia do que acontecia nelas. Ou seja, as oficinas, para elas, possuíam um caráter misterioso que mais os afastava do que atraía. Tudo isso me incentivou, então, desde as primeiras reuniões voltadas à organização do 39º Festival de Inverno da UFMG a propor para a equipe de criação o Projeto Aulas Abertas, com o principal objetivo de, no decorrer de todo o evento, oferecer ao público em geral – e em especial à população de Diamantina – a oportunidade de conhecer de perto, por meio da realização de aulas em espaços públicos, as atividades que as oficinas das diversas áreas promovem, de modo que as pessoas da cidade também fossem estimuladas a se inscrever nas oficinas em outras oportunidades. Para tanto, a seguinte condução foi adotada: os coordenadores de cada uma das seis áreas do Festival – então denominadas Artes Audiovisuais, Artes Cênicas, Artes Literárias, Artes Musicais, Artes Plásticas e Artes Transdisciplinares / Oficinas Híbridas – indicaram professores, dentre aqueles convidados para ministrar as oficinas, cujas propostas de trabalho mais se adequassem ao projeto. Esses professores foram contatados, informados dos objetivos do projeto e, imediatamente, prontificaramse em atendê-los, programando suas aulas de forma que uma delas fosse realizada em um espaço público. Para isso, foram selecionados diversos locais – praças, ruas, largos, adros e interiores de igrejas – que pudessem servir como cenários para as aulas abertas e que, preferencialmente, já contassem com a presença constante de pessoas – moradores, trabalhadores ou passantes. Mais ainda: foram estudadas as condições físicas de cada espaço, além de serem observados os horários do dia em que havia mais ou menos sombra, de modo que fosse escolhido, para cada professor, o espaço que mais se adequasse à atividade que seria realizada. Cabe destacar que não medimos esforços para recriar, no espaço público, o cenário da sala de aula, levando para as ruas, praças e igrejas cadeiras, mesas, quadros negros, cavaletes, pranchetas, telas de projeção e diversos equipamentos

de som, luz e multimídia – como se estivéssemos “tirando as paredes” da sala e revelando o seu interior. Nesse sentido foi fundamental a participação intensa e competente de Enedson Gomes, aluno do Curso de Teatro da UFMG, que trabalhou como monitor do Festival, cuidando especialmente da produção executiva das aulas abertas. Tendo em vista o caráter de novidade do projeto, buscamos diversas estratégias de divulgação, como a criação de banners, folders e cartazes que foram espalhados pela cidade. Entretanto, sentíamos a falta de uma ação mais direta e explícita, de modo que, a princípio, pensamos na contratação de um carro de som – o que se mostrou inviável, uma vez que a verba para tal não foi prevista. Assim, o poder que os movimentos artísticos têm de trazer à flor da pele a nossa capacidade criativa ajudounos a encontrar uma solução que, por sinal, foi a mais poética possível: com a inestimável contribuição da nossa querida Maria Bernadeth Gomes, que nos emprestou o seu megafone, foi incorporada ao Festival uma nova personagem – um arauto –, que passei a representar na abertura de cada aula, percorrendo os arredores do local onde a aula seria realizada, anunciando esse acontecimento e convidando todos a participar e a divulgar o projeto. Ao final do Festival, embora as aulas abertas tenham sido um projeto piloto, sujeito a todos os imprevistos e às dificuldades comuns a qualquer estréia, a nossa avaliação não poderia ter sido mais positiva. Além da certeza de termos alcançado os principais objetivos, as aulas abertas, ao desorganizarem o espaço cotidiano, propõem a re-significação desse espaço e contribuem para evidenciar a essência do Festival de Inverno da UFMG, que sempre buscou fazer com que a sua cidade-sede, em vez de apenas recebê-lo, transforme-se nele. Professor Ernani Maletta – Subcoordenador Geral e Coordenador de Eventos do 39ª Festival de Inverno da UFMG

Ficha Técnica Concepção e Coordenação Geral: Prof. Ernani Maletta (UFMG) Produção Executiva: Enedson Gomes Apoio Técnico: Ivanildo Lúcio dos Santos, José Oswaldo Álvares Andrade, Geraldo Henrique da Costa Agradecimentos: a todos os diamantinenses que cederam espaços, pontos de luz e contribuíram com empréstimos de materiais diversos. Em especial: Equipe de Produção de Eventos do 39º Festival de Inverno da UFMG; Ricardo Luís Santos e Rita Porto da Secretaria de Cultura de Diamantina; Boutique Cyrillo; Café A Baiúca; Locadora Mac Vídeo; IPHAN; Dona Ângela Miranda e Regina Maria Coelho, da Igreja do Amparo.


Artes Audiovisuais Inventário Imaginário - Profª Juliana Gouthier 17/07 – 10 horas – Adro da Matriz Criação Audiovisual – Prof. Jorge Haro 24/07 – 10 horas – Pátio Leopoldo Miranda Artes Cênicas Dança: Copo e Consciência – Arnaldo Alvarenga 16 a 20/07 – 18 horas – Auditório do Colégio Diamantinense Dança – Teatro – O Corpo Tecendo Ações – Tarcísio Ramos Homem 18/07 – 9 horas – Adro da Igreja São Francisco O Palhaço e a Utilização Cômica do Corpo – Ricardo Puccetti 26/07 – 11 horas – Adro da Matriz Match de Improvisação – Mariana Muniz 27/07 – 16 horas – Adro da Matriz

Artes Literárias Criação Literária: Grafias e Fotografias Urbanas – Gustavo Cerqueira Guimarães -18/07 – 17 horas – Rua da Quitanda O Jogo Ideal como Experimento Lítero-Performático – Michel Mingote 20/07 – 18 horas – Rua da Quitanda Escrever sem Doer e com Arte – Ronald Claver 24/07 – 16 horas – Praça Bom Fim

Artes Plásticas Turista Aprendiz na Cidade Invisível – Paulo Schmidt 20/07 – 16 horas – Adro da Igreja São Francisco Técnicas de Estamparia Têxtil – Paulo André 26/07 – 14 horas – Adro da Igreja São Francisco Impressões Corpóreas/Oficina de Serigrafia – Tânia Araújo 27/07 – 9 horas – Pátio do Colégio Leopoldo Miranda

Artes Musicais Paisagem Sonora, Gravação, Composição – Rafael Martini 17/07 – 16 horas – Praça Bom Fim Sou todo Ouvido – Heloisa Feichas 19/07 – 14 horas - Adro da Matriz Música Universal de Itiberê Zwarg – Itiberê Zwarg 25/07 – 15 horas – Igreja do Rosário

Artes Transdisciplinares/Híbridas Alegorias,Vícios e Virtudes na Arte da Memória – Maria do Céu Diel de Oliveira

19/07 – 9 horas – Igreja Amparo Circo – Clerinha Rocha 23/07 – 15 horas – Pão de Santo Antônio Tópicos em Preservação de Patrimônio – Luiz Souza 25/07 – 14 horas – Igreja do Amparo

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ESPETÁCULO - MATCH DE IMPROVISAÇÃO LPI-BH

SHOW - SOUL BRASILEIRO BANDA IUKERÊ

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MOSTRA FINAL - IMPRESSÕES CORPÓREAS

SHOW - SUÍTE PARA OS ORIXÁS ESDRAS NENÉM E MAURO ARAÚJO E QUARTETO

SHOW - JUAREZ MOREIRA TRIO

MOSTRA FINAL - O VIOLÃO E A HARMONIA JUAREZ MOREIRA


CUMA BANDA SOMBA

SHOW “Piano e Voz“ NÁ OZZETTI E ANDRÉ MEHMARI

CONCERTO - PALESTRA A SAGA DO BANDONEON RUFO HERRERA

SHOW - SCARCÉUS

UM HOMEM É UM HOMEM GRUPO GALPÃO

SARAU ARTE MIÚDA

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adiante. O (Astor) Piazzolla, por exemplo, foi o músico que levou o bandoneón ao Cardigan Hall, à Ópera de Paris, ao Scala de Milão, ao Teatro Colón. E eu sou um descendente de Piazzolla, tenho que continuar contribuindo para isso. Sou um compositor com uma obra madura e grande, tenho óperas, cantata, sinfonia, música de câmara, para cinema, para teatro, tudo isso. Então eu tenho experiência suficiente para assumir a responsabilidade de contribuir com mais alguma coisa e deixar um caminho para outros que virão. E eu estou entusiasmado com isso porque parecia que o bandoneón ia entrar em extinção de novo depois que Piazzolla morreu e eu estou vendo que está se abrindo. Eu tenho um aluno de 25 anos que está chegando hoje da França porque estava fazendo um curso de aperfeiçoamento de bandoneón lá. Hoje tem esse aperfeiçoamento no Conservatório em Paris. E ele me disse que não era só ele, que tinha vários alunos de vários países estudando com esse professor, que é um dos únicos lá. Outro colega meu, de Buenos Aires, passa quase um semestre por ano no Japão, ensinando bandoneón. Na última vez que Piazzolla esteve aqui, estávamos conversando e ele me disse assim: “e aí? Eu acompanhei você como compositor, realmente você foi longe, mas... e o bandoneón?” Isso foi quando? Em 88.

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Sim, porque você o abandonou por um tempo voltou a ter contato com o bandoneón depois de uma apresentação de Piazzolla em Belo Horizonte. Foi isso, então? Foi essa conversa entre vocês que te reaproximou do instrumento? Sim. Claro, eu fiquei com isso na cabeça, sabe? Pensei: “será que é justo? Ele ralou muito para chegar aonde chegou com o bandoneón. E ele morre e isso fica por aí?” Eu pensei: “pôxa, ele tem razão!” Ele não falou, mas do jeito que ele olhou... E você tomou essa decisão antes ou depois de ele falacer? Antes, antes. E por esse tempo eu comprei um livro de um jornalista de Porto Alegre que fez uma entrevista com o Piazzolla. No final, ele faz essa pergunta: “E quando você se for? Quem você vê continuando o seu trabalho?” E ele disse: “Eu não sei. Os que estudaram composição e são bons compositores, e isso seria essencial para continuar o meu trabalho, não estão tocando. E os que estão tocando, são bons bandoneonistas, mas não são bons compositores, não estudaram o suficiente para serem bons compositores. Então, eu não sei quem vai continuar

isso”. Ele falou! E eu vi a mensagem clara, porque ele comentou isso: “acompanho você como compositor”. Ele sabia que eu já tinha vários prêmios, tinha notícias minhas, me acompanhava. Quando eu retomei o instrumento, já sendo um compositor experiente, eu já via o instrumento de outra forma, já comecei a buscar onde estavam os problemas. Eu estudei aperfeiçoamento com um mestre que me mostrava os problemas e o jeito de resolvê-los. E isso eu passei para o meu aluno. Eu conversei com Juarez Moreira na semana passada e, como você, ele é autodidata. E ele pensa que a relação professor / aluno é muito engessada e tenta conversar com seus alunos de igual para igual para desenvolver melhor o aprendizado. O que você pensa sobre isso? Eu também acho. Pense no Leonardo da Vinci. O próprio Cervantes. Quem era Cervantes? Era um doutor em literatura? E Bach? Com quem estudou Bach? Bach é o mais autodidata. Os outros tiveram algum professor. Bach não teve nenhum! Claro que é uma coisa de família, mas professor, assim, de renome? Nada. A essência, o espírito do autodidata é assim. O que fazia Bach? Ele ia assistir a um grande compositor, ouvia e não fazia igual, não. Ele não copiava e fazia igual. Ele pensava:“como será que


eu faço diferente?” E achava! Eu tenho essa coisa também, posso estar fascinado por Ravel, por Debussy, mesmo por Piazzolla, mas quando eu vou compor é totalmente diferente deles. Eu penso como eu vou fazer. “Adios Nonino”, de Astor Piazzolla, eu gravei. Eu não ia gravar, era aquela coisa: “todo mundo já gravou, vamos gravar também”, e eu não queria, mas a produtora dizia: “Rufo, deixa...” Todo mundo gravou e ninguém acrescentou uma vírgula, todo mundo transcreveu os arranjos de Piazzolla. Mas em qualquer show que você vai fazer, tem que tocar essa música, todo mundo pede. E eu fiz um arranjo dela, mas sem nenhuma intenção de gravar, fiz para a Orquestra Experimental da UFOP, para o repertório deles, tinha que ter a música. E esse arranjo tem essa força porque é o único que é diferente dos outros. É um “Adios Nonino” que não é o que Piazzolla tocava, é outro. Então, são essas coisas que o autodidata tem, ele desenvolve esse senso. Eu não quero que meus alunos percam isso. Porque todo mundo tem, todo mundo é um autodidata. Agora, se você começa a perceber as coisas de fora e passa a acreditar que o ser humano cresce de fora para dentro e não de dentro para fora, é muito sério. Se a educação está baseada nisso, estão estragando geração por geração. Se ela está baseada na idéia de que ele cresce de fora para dentro?

É. Eu quero dizer, “você só sabe quando você vê”. E dentro, você não tem nada? É como se alguém colocasse dentro de você? Não é! Há alguma coisa que está em você! E cresce, cresce! Claro, o que está fora estimula o crescimento, essa é que tem que ser a pedagogia. Estimular o cara a criar. É isso que eu faço. Olha, não me peçam bibliografia que não dou! Não me peçam que eu faça exercício pronto que eu não faço! Eu vou explicar como é que é quantas vezes você precisar. E eu não vou dar aula coletiva. Nesse tipo de coisa, você não pode padronizar. Eu tenho dez cabeças, dez corações, dez mentes diferentes, não vai valer o mesmo método para os dez. Eu trato cada aluno, atendo cada aluno individualmente. Mas você acha que existem pessoas que têm talento e outras que não têm ou todo mundo tem capacidade de desenvolver? Todo mundo tem capacidade. Um cara que não tem um determinado dom vai se inclinar para outra coisa. Deve ter outro dom, outra inclinação. As pessoas que têm essa inclinação para música têm esse dom. Têm um bom ouvido, têm um gosto pela música, se fascinam desde criança por isso, a música mexe com elas. Essa pessoa vai ser um músico, ela já tem o músico

dentro dela. Um amigo meu recebeu a partitura de um aluno que estava se formando, leu, olhou para ele e disse: “cadê você? Não tem nada seu aqui”. Tem que ter cuidado com isso. Isso é sério. É como os músculos, se você fica sem fazer nenhum esforço por um ano, você perde sua habilidade. É a mesma coisa com a criatividade, com a mente. Você tem que continuamente mexer com isso. Quando você se contenta em fazer igual, você está ocupando seu tempo fazendo igual. E você deixa de ocupar esse tempo pensando em como você faria. E se eu não te dou a chance, você sai daqui com um título, mas não vai descobrir como você mesmo compõe, só como eu componho, como eu te ensinei a compor. Essa é a diferença entre compor e criar. E criar, ninguém pode ensinar. Pode se propiciar porque você estimula isso. E é o que eu faço, eu falo: “não tenha medo! Se saiu horrível, não importa, é seu!” Pode ser horrível para mim, mas para outro não.Você tem que arriscar! Qual é o padrão do que seria genial? E daí? Uma coisa genial para uma pessoa pode ser ridícula para outra. Esse negócio de bibliografia, análise... No que dá? O cara começa estudando com uma capacidade crítica muito maior do que a de produção. Essa será a pior inimiga dele. Essa autocensura. Essa autocrítica. Primeiro, desenvolva sua capacidade de produzir. Depois critique. Você vai ver que já vai ter um domínio tal da coisa, que o crítico mais rigoroso vai ser você mesmo.

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