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Comissão Nacional de Moçambique Director: Nelson Lineu | Editor: Eduardo Quive | Maputo, 22 de Junho de 2012 | Ano II | N°35 | E-mail: r.literatas@gmail.com

EU NÃO SOU NENHUM MANEQUIM, SOU UM SER PENSANTE... Por Alexandre Chaúque Pág. 4

“Ser escritor é isso não é ter um livro” Duas Históricas Aulas Literárias Na FLUL. Por J.A.S. Lopito Feijóo K. Pág. 3

De qual abolição estamos falando? Assomada Noturna de José Luís Hopffer Almada Por Inocência Mata. Pág. 13 e 14

Por Rosária Diogo Pág. 6


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Editori@l FICHA TÉCNICA

Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Direcção e Redacção Centro Cultural Brasil - Moçambique

Av. 25 de Setembro, N°1728, C. Postal: 1167, Maputo Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 57 78 117 117 Fax: +258 21 02 05 84 Fax: +258 21 02 05 84 E-mail: r.literatas@gmail.com E-mail: r.literatas@gmail.comz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu (nelsonlineu@gmail.com) Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane (jarijuane@gmail.com) Cel: +258 82 35 63 201 EDITOR Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Cel: +258 82 27 17 645 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 REPRESENTANTES PROVINCIAIS Dany Wambire - Sofala Lino Sousa Mucuruza - Niassa COLABORADORES FIXOS Pedro Do Bois (Brasil), João Tala - Angola Mauro Brito (Maputo) Izidro Dimande COLABORAM NESTA EDIÇÃO Willian Delarte- Brasil Filipa Vera Jardim - Portugal Décio Bettencourt Mateus - Angola Lopito Feijoó K.-Angola Dhiogo Caetano-Brasil Rosária Diogo-Brasil COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) Nelson Lineu - Maputo Victor Eustaquio– Portugal FOTOGRAFIA Arquivo — Kuphaluxa Eduardo Quive ARTE E DESIGN Japone Arijuane PARCEIRO Centro Cultural Brasil—Moçambique

Escritores Moçambicanos abandonados no altar…

A

ntes mesmo que me perca naquilo que é o conteúdo ébrio desta lúcida trigésima quinta edição. Permitam-me exprimir minha total decepção no que tange ao que sucedeu aqui nesta cidade das acácias. Como havíamos adiantado na edição passada que seriam lançadas, no dia 19 do corrente mês, no Átrio do Conselho Municipal da Cidade de Maputo; duas obras: Ndekeni, de Alexandre Chaúque, e Nau Nyau e Outras Sinas, de Domi Chirongo. Obras estas que, “entre aspas”, venceram o Prémio Municipal 10 de Novembro, em 2010 e 2011 respectivamente, o mesmo que foi instituído pelo Conselho Municípal em parceria com Associação dos escritores Moçambicanos (AEMO). O que foi de total desagrado ou mesmo de um coercivo desapontamento a camada literária deste vasto Moçambique, foi e continua a ser o não-lançamento sem pré-aviso e sem nenhuma alegação; e isto a ser encarado de maneira simples e cobarde por parte dos homens de casaco e gravata do conselho municipal; que na mesma altura lançavam, como disseram, o inicio das comemorações dos 125 anos de uma cidade; uma cidade cada vez mais descaracterizada; como diz Ungulane Ba Ka Khosa; uma cidade enfeitada a urinol e embelezada a lixeira; lixeira esta, podre que dorme na mente desses, mentes estas que dizem ser o epicentro da pobreza absoluta. A questão que levanto é: Como é que querem vencer a pobreza, desvalorizando a cultura? Ou, o que de mais importante estava sendo feito naquele espaço, onde era restrito aos citadinos? Dirão que ouve falta de coordenação? Ou desorganização avançada que caracteriza, como conduta primeira, estes senhorios, a mesma desorganização que hoje fazem questão de organiza-la; e que de forma barata, sempre cantam que a “cultura é o sol que nunca desce”, e naquela fatídica tarde vimos a cultura descer de muletas enferrujadas. Esta falta de respeito com os escritores e amantes das artes e letras tem, de outro lado, haver com a descredibilização da instituição e da fantasmagórica casa que outrora foi a casa dos escritores moçambicanos, aliás, há tempo que tenho me questionado, questionado como exercício primeiro de, antes de mais nada, entender os reais objectivos, se é que existem; que movem a tal Associação do Escritores Moçambicanos (AEMO). Esta preocupação eleva-se e flui me na flor da pele quando vergonhices, baixarias, como as de lançamento de livros sem qualidade e atribuição de prémios de qualidade duvidosa e de forma amigável, que põe em perigo a identidade literária deste país; as únicas actividades que esta AEMO de hoje faz; bem que se diga, AEMO de hoje; por que em tempos, aliás como dizem os que por lá estiveram e não querem por nada voltar, “nos tempos da AEMO”. Hoje ruína por excelência própria, afirmo e reafirmo categoricamente que não existe uma casa em Moçambique que associa os escritores, antes pelo contrário, esta desagrega, aliás, repele esta camada de pensadores. Quem alimenta esta fictícia casa, de enrugadas paredes pintadas a cor do nada? Pelo que me consta AEMO ficou só e só uma pilhagem de burlescos, será que não é por essa ridicularidade que a nossa literatura é o que não deveria ser? Será que esta AEMO é de âmbito nacional, onde e como se faz sentir, dentro e fora do país? Japone Arijuane jarijuane@gmail.com


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Crónicas

DUAS HISTÓRICAS AULAS LITERÁRIAS NA FLUL.

Zoo-ilógico Xitala Mati-Maputo J.A.S. LOPITO FEIJÓO K.- Angola Duas memoráveis e muito concorridas aulas abertas aconteceram na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa- FLUL, promovidas por Ana Mafalda Leite, Professora Associada com Agregação do Departamento de Literaturas Românicas da supra-citada Universidade. Na primeira, para estudantes – licenciandos e mestrandos-, professores, bibliotecários da Universidade e público interressado nas falas e escritas das literaturas africanas e angolana em particular, estivemos em companhia de Zetho Cunha Gonçalves e de Nok Nogueira com Ana Paula Tavares e Alberto de Oliveira Pinto prestigiando-nos na assistência. Abordamos questões em torno da História, dos movimentos, correntes e publicações geracionais desde os ídos do «Vamos Descobrir Angola» até as Brigadas de Literatura ao que o Nok contribuiu, com uma panorâmica sobre os novíssimos do seu tempo em busca de afirmação, tendo citado os nomes de Décio Mateus, Gociante Patissa, David Capelenguela e Nguimba Ngola, Kiokamba Kassua, Moisés Sandombe, Carlos Pedro e Avó Ngola Avó como sendo alguns dos seus correligionários dentre os quais, em seu entender, alguns prometem «algo algúm» para o futuro das belas letras angolanas. Temos a certeza de que Nok citou-os consciênte de que não deve ser juíz de uma partida onde ele mesmo ainda actua como jogador. Zetho Gonçalves, falou da sua experiência de autor com cerca de vinte livros (de poesia, infanto-jovenis, traduções, antologias e outros...) publicados e, desconhecidos em Angola e portugal pois, maioritariamente foram editados no Brazil em função das políticas editoriais e da marginalização editorial de alguns autores, principalmente nas terras de Camões. Na segunda aula, quinze dias depois, no mesmo local, espaço e com a mesma assistência, fizemos a apresentação, por junto e atacado, dos três mais recentes livros de poesia do poeta David Capelenguela que para o efeito deslocou-se a Portugal. O VÉU DO VENTO, editado pela União dos Escritores Angolanos e acabadinho de chegar aos escaparates das nossas livrarias. TIPO-GRAFIA LAVRADA e GRAVURAS D’OUTRO SENTIDO, edições da Chá de Caxinde, que neste espaçamos tiveram já a oportunidade de referenciar. Depois da nossa intervenção em jeito de apadrinhamento, Capelenguela falou de si e da sua poética. Da sua infância e juventude, das suas vivências e convivências na região sul de Angola deixando boquiaberta a assistência que, secundando a nossa voz, não hesitou em considerá-lo mais um legítimo herdeiro da dicção antropológico-poética de Rui Duarte de Carvalho. Aconteceu assim o baptismo do poeta Capelenguela, tal como já haviamos feito com o Nok, no mesmo local. De ilustres desconhecidos passam agora a ser jovens poetas conhecidos, queridos, admirados e prontos para os fornos dos estudos das literaturas africanas nos círculos académicos lisboetas. Remato finalmente, considerando históricas estas duas aulas na FLUL. Ponto final! ODIVELAS, MAIO/2012

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completamente injusto afirmar-se que temos um jardim zoológico na cidade de Maputo e no país, que se diga jardim zoo-ilógico, pois o que se apresenta por lá é totalmente insano e sem lógica humana nem animal. Os quem de direito nem se atrevem a pôr os comentários nem as mãos aquela pocilga, deveriam envergonhar-se do discurso tranquilizante que lançam nos meios de comunicação, sujando mais do que já estão as suas línguas e seus discursos mortíferos, envenenados por mentiras. Maputo, cidade limpa próspera e organizada, haja que belo discurso, quem vos viu quem vos vê. Nada disso, se enquanto na objectiva que o dia-a-dia nos oferece, lixo no lixo, lixo no luxo, luxo no lixo, tudo que o povinho merece, desrespeito. Mesmo assim, há alguns dias, celebrava-se o dia internacional do habitat, quem os celebrou foram os senhores que mandam em tudo, as individualidades municipalís, tiveram a cara sem vergonha, mostrando o quanto amam a pátria amada, que ainda não existe como nação, plantaram meia dúzia de plantas ao longo da avenida Eduardo Mondlane, sim apenas ao longo desta avenida, acertaram pois e por aqui que sempre vossa Excia Presidente da República passa com frequência como se faz as suas visitas e deslocações. Foi dito por alguns meios de comunicação nas vésperas da realização da edição X dos Jogos Africanos, que Maputo lavou a cara, e só isto, lavar a cara e sair por aí, e os dentes, e o corpo, as axilas e demais, e assim que vivemos de improvisos, país de improvisadores que somos, até improvisamos os ditos jogos africanos e o cojito. Apresento-vos o local, que já perdeu o nome, o nome desencantou-se, e um local inóspito, quase inabitável, quase que atinge o estatuto de imundice e insanidade física. É um local assombrado, os animais que lá viviam, deixaram de existir, foram arruinados e postos em vias de extinção com demasiadas autoridades, como eram tratados mal, as suas almas ainda lá estão presas, assombrando o local, os que lá vivem agora, já não tem corpo, estão em total trânsito para o desaparecimento físico, o que se vê, é um monte de palha, ervas daninhas, capim quase se fazendo a entrada do local, arvores de monstruosa espécie, pequenas matas cerradas. Uma meia família de macacos da espécie cão, dois crocodilos, acrocodilados um ao outro, um hipopótamo, que se derruba a cada dia porque se alimenta das suas feridas e do deu sofrimento, duas ou quase nada de cobras, que estas não tem cor, quase que se confundem que estão mortas, ou são cobras nascidas naquele ambiente nojento. Onde esta a humanidade, que tanto evolui? Que cuida do habitat e do mundo, sem o levar a extinção? Onde estão as sociedades ditas evoluídas, enquanto continuamos nas nossas desenvolvidas gaiolas, arranhando os seus, todos em vidros fumados para que não seja a pouca vergonha, e que dirão os animais quando nos virem nas nossas gaiolas evoluídas enquanto desenvolvemos as nossas ignorâncias? O verdadeiro perigo mora quando o ex jardim zoo lógico, passa a ser um cortamato para as populações ribeirinhas, que forçosamente coabitam junto com os ex animais, e ainda mais roubando as redes que faziam a cerca dos animais fazendo assim um meio de protecção, por qualquer eventualidade, sem rede, todos ficam expostos a ataques. Para tal uso, fabrico de carrinhos de arame, quanto aos mais novos, para os pais, arranjos aqui ou acolá do velho quintal. Não bastando, vão fazendo uso da lei de Uso e Aproveitamento de Terra, alguns hectares e mais outros e tudo já as pertence. O jardim agora tem novos inquilinos, que nem sequer pagam pela renda e alimentam a cadeia alimentar.


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Destaque

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EU NÃO SOU NENHUM MANEQUIM, SOU UM SER PENSANTE

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há dois indivíduos que me quiseram fazer passar por isso: um deles é vereador do Conselho Municipal da cidade de Maputo e chama-se Dabula, e o outro indivíduo é a secretária do presidente do edil de Maputo, e o seu nome é Suzana. Estive em Maputo há dias e, no passado dia 19 do corrente mês de Junho, devia ter sido lançado o meu terceiro livro, premiado pelo próprio Município em 2011 – e que tem como Alexandre Chaúque-Inhambane título genérico Ndekeni – no Paços do MunicíFONTE::www.verdade.co.mz pio, acto que não aconteceu por culpa de pessoas, no mínimo, com mentes tacanhas. Saí de Inhambane com esse propósito, contente por poder voltar a estar com os meus confrades, com os meus amigos, com a minha família, e ter a oportunidade de falar em público, através da Televisão e Rádio e Jornais, da minha obra, amanhada com muito sofrimento e carinho. E dois indivíduos, vestidos com o poder do Conselho Municipal de Maputo, impediram-me desse orgasmo. Eu, e o meu confrade Domi Chirongo, laureado em 2010, fomos convocados, um dia antes do lançamento, que estaria integrado no lançamento – desculpem-me a redundância – das festividades da cidade de Maputo, ao Conselho Municipal para sermos informados sobre o programa que ia acontecer. Aonde é que já se viu uma coisa destas?Ora, a primeira machadada que esse indivíduo chamado Dabula nos atirou ao peito foi de que teríamos direito apenas a uma palavra, ou seja, chegada a hora de sermos apresentados aos ilustres, apenas iríamos levantar-nos e dizer “obrigado” e voltarmos a sentar-nos como meros figurantes.

Richard Russo regressa com «Um Verão Mágico em Cape Cod»

Mas o outro indivíduo – como já o disse – que leva o nome de Suzana, acrescentou: “têm direito a duas palavras”, digam ´muito obrigado`”, apenas. Fiquei com vontade de cuspir na cara deles! Ainda nos disseram mais: a nossa família não teria direito à entrada na sala onde se ia dar o acto. Apeteceu-me vociferar, mas contive-me. E disseram mais: os apresentadores das nossas obras não teriam direito, nem a convite, muito menos à palavra. Ora bolas! Acaso esses dois indivíduos – o Dabula e a Suzana – sabem o que é escrever um livro? Sabem o que é um intelectual? Porventura sabem o que é que significa lançamento de um livro? Ainda por cima um livro premiado entre muitos que concorreram? Acaso sabem quantas pestanas e neurónios queima um escritor para burilar um livro? Será que sabem de tudo isto? Que tamanha pobreza de espírito! Que incultura! Ora bem! Lançamento de um livro é uma festa. É uma celebração, onde o escritor tem a oportunidade de estar com os seus confrades, com seus amigos, com sua família. É um momento de convívio onde o autor vai falar sobre o que pensa não só sobre o livro, mas sobre muitas outras coisas que o circundam. E aparecem estes dois indivíduos a querem fazer-nos de manequins, de espantalhos. Bolas! Esse indivíduo chamado Dabula e a sua companheira nesta comédia de baixíssimo nível quiseram formatar-nos. Pretenderam colocar-nos por debaixo da ponte, à margem daqueles ilustres empresários da alta finança e políticos que lá estiveram. Mas nós recusámo-nos a fazer o papel de marionetes, porque temos a nossa dignidade. Ficámos de fora, nem entrámos para as iguarias muito propaladas por esse indivíduo chamado Dabula. O que nós queríamos era dar alimento espiritual aos nossos leitores e não vamos cair por causa de pessoas incultas. Vamos programar um lançamento que nos dignifique e, quem sabe, provavelmente convidaremos estes indivíduos para celebrar a nossa vitória!

POEGRAFIA AO ARQUITECTO SÓCRATES NATIVIDADE (O Homem que esta a fazer a planta da minha casa de caniço e palha)

Fonte: Porta-livros Um Verão Mágico em Cape Cod é mais um romance do norte-americano Richard Russo publicado entre nós pela Porto Editora, que anteriormente já nos apresentara Na Sombra do Pai. Russo conquistou em 2002 o Pulitzer Prize com O Declínio do Império Whiting.

Sinopse: «Trinta anos antes, durante a lua de mel em Cape Cod, Griffin e Joy tinham traçado um plano de vida conjunta que, em grande parte, se cumpriu – Griffin trocou a profissão de argumentista pela de ―respeitável‖ professor universitário, tiveram uma filha, Laura, e mudaram-se para a Costa Leste. A vida perfeita. Porém, quando o destino os traz de novo a Cape Cod, para assistirem ao casamento da melhor amiga da filha, os pilares do que acreditavam ser uma união sólida ameaçam ruir. O passado oprime o presente, o futuro é posto em causa… Que influência tiveram as famílias nas suas escolhas e nestes trinta anos de casamento? Griffin esforça-se por enterrar – literalmente – os fantasmas do passado, mas, um ano depois, a caminho do casamento da filha, e separado de Joy, ainda transporta as cinzas dos pais na bagageira e as suas frustrações no banco de trás. Às vezes a busca da perfeição leva-nos a lugares inimagináveis… Um verão mágico em Cape Cod é um magnífico retrato das vicissitudes da vida familiar, combinando momentos absolutamente hilariantes com outros de uma profunda tristeza, que conduzirão o leitor a um final apoteótico.»

Amosse Mucavele-Maputo Sempre que me dirijo pelo asfalto de Maputo, vejo um homem que há muito deixou de sonhar quimeras pelas infinitas fronteiras da sua visão. Este, surpreende-me pela forma de como pega no lápis, na régua e dai contrai o noivado com a realidade partindo da nudez da folha em branco para procriar (re)construções, edifícios que Pancho Guedes e José Forjaz a tempos murmuram nas ondas desta cidade cujo o seu muralhar é rápido e lento ao mesmo tempo. O homem persegue o tempo pelos passos do seu imaginário que até agora continua inalcançável, encostado na janela das nuvens? Este homem não sabe sonhar, sonha saber arranhar os céus com gigantescos edifícios que as suas mãos detêm. Na outra margem o engenheiro acompanha a materialização dos traços do futuro, da esquadria da vida que vive em nós. E o Pedreiro no lugar da borracha põe o arame com as suas farpas e harpas e com o cimento fecha e toca os pontos de fuga que virão a ser os compartimentos do edifícios, o homem tem a luz da esfera lunar no seu estojo, que acende na métrica vista nocturna da cidade de Maputo.


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Reflexão De qual abolição estamos falando? Só tambor ecoando como a canção da força e da vida Só tambor noite e dia Dia e noite e dia Dia e noite só tambor Até à consumação da grande festa do batuque! Oh velho Deus dos homens Deixa-me ser tambor Só tambor José Craveirinha A iniciativa de escrever sobre o tema abolição para os leitores desta revista, espalhada por Moçambique e pelo mundo, inclusive aqui no Brasil, se faz mais evidente a partir das várias trocas de informações sobre o assunto com os moçambicanos. Essa troca começou no período em que vivi nesse país, em 2011, e causei estranhamento ao dizer que o nosso país é fortemente racista em relação aos afro-brasileiros. Recentemente, por meio desse instrumento de comunicação, o editor da revista, Eduardo Quive, e eu trocamos diálogos acerca de como é possível que muitas pessoas no Brasil ainda privilegiem a cor da pele em detrimento de determinado talento da pessoa. O mês de maio foi marcado por atividades bastante significativas no que se refere a manifestações culturais que têm como instrumento costumes e hábitos trazidos e traduzidos das diversas partes do continente africano, por meio dos que outrora foram escravizados em nosso país. Resistência de afro-brasileiros é a palavra que traduz o rol de iniciativas que aqui foram realizadas. Entre iniciativas governamentais e particulares, de artistas e ativistas negros e negras e demais interessados, a cidade teve a oportunidade de conhecer e desfrutar de um pouco das mais variadas expressões culturais que expressam a herança e tradição do segmento populacional que contribuiu de maneira robusta para o enriquecimento cultural do país. Considerem que o dia 13 de maio de 1888 é emblemático, na medida em que, historicamente, se registra a libertação dos africanos e seus descendentes escravizados no país por mais de três séculos. Considerem, ainda, que o ano de 2012 marca 122 anos que foi abolida oficialmente a escravidão desse segmento populacional. O grande desafio que está posto é de se levantar dados sobre a real situação que possa, de fato, legitimar a condição libertária da população afro-brasileira nos dias atuais. É sobre uma atividade específica, ocorrida no mês de maio, dentre tantas outras, que discorrerei neste texto. O terreiro de Sá Isabel e a comunidade do bairro Concórdia realizaram, durante treze dias, ou seja, desde o dia 01 de maio ao dia 13, uma festa para dar visibilidade à Congada, ou Reinado, conforme leituras

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Rosaria Diogo-Brasil Sobre os festejos realizados no Terreiro de Sá Isabel, uma das encenações que remetem ao passado escravocrata formal, e que me causou emoção, foi o cortejo que se fez do Terreiro até a igreja de Nossa Senhora das Graças e, nela, a realização do lamento negro e em seguida, a Missa Conga. O ritual do padre católico abrindo as portas da igreja para receber os descendentes de africanos escravizados em tempos passados foi emblemático para que possamos fazer a leitura de promissores tempos no que ser refere ao acolhimento das diferenças culturais. Na fala do lamento negro, até que as portas se abrissem, foi possível compreender o que se passava durante a escravidão e a relação dos africanos com a igreja no Brasil. O pedido do festeiro para que o padre abrisse aquela porta recupera a situação em que os escravizados levavam os seus donos até a igreja dos brancos e não podiam entrar. Voltavam para a senzala ou para as tarefas escravas. Diferentemente daquele momento que motivou o lamento, as portas se abrem, na tentativa de celebrar um novo tempo, tempo esse que deve se pautar por busca de relações equânimes na sociedade brasileira. Essa iniciativa de recuperar um passado, reatualizá-lo, colocando em evidência as agruras passadas pela população negra no Brasil, é de fundamental importância para que possamos conhecer a história desse país. A realidade de afro-brasileiros, passados esses 122 anos, não se mostra confortável. Entre a posição de alguns cidadãos solidários e anti-racistas e o posicionamento ideológico de manutenção do status quo da elite por parte de outros sujeitos, esse segmento populacional permanece fortemente marcado pela condição de desigualdade. Nesse embate de ideias, assistimos o primeiro grupo posicionando-se veementemente, por exemplo, contrário à política de cotas para afro-brasileiros na universidade (Política de Ação Afirmativa), pela compreensão de que a Constituição Federal garante o direito de acesso para todos, cabendo que estudantes demonstrem mérito suficiente para tal. Já o segundo grupo, em uma ação deliberada, insiste em manter o processo de exclusão ao acesso universitário para negros e negras ao negar essa política. Esse grupo sabe que as políticas universalistas não resolveram e não resolverão esse dilema. São pesquisas governamentais e acadêmicas que constatam que a população negra é o segmento mais pobre da sociedade brasileira, a menos escolarizada e a que ocupa postos inferiores no mercado de trabalho, o que induz a criação de políticas governamentais. Dessa forma, em uma sociedade que não assume o racismo em relação à população afro-brasileira, a situação de desvantagem social/educacional para esse segmento não permite que ela comemore o dia 13 de Maio de maneira confortável. A referência tem sido, e será, por um tempo ainda longevo, considerando o fosso das desigualdades, denunciar a “falsa abolição”, que retira negros e negras das senzalas e os confina em espaços destinados a cidadãos designados como escória. Sendo assim, salve, salve, que os tambores celebrados por Craveirinha ecoem em Belo Horizonte ainda hoje e que dezenas de pessoas estejam em torno das manifestações de resistência organizada pela nossa rainha, Sá Isabel. Salve! Disse a rainha, ao ser homenageada em 2010 pela Prefeitura da cidade. Complemento a sua fala: Salve Nossa Senhora do Rosário e os nossos ancestrais que nos ajudam a zumbizar nessa cidade, mantendo viva a chama da resistência das culturas de expressão africana, herança e tradição dos nossos mais velhos.


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Poesia MEU POEMA ACORDA DORIDO!

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ENCARNAÇÃO

Filipa Vera Jardim– Portugal Willian Delarte—Brasil Meu Avatar é correto, discreto e pontual;

Décio Bettencourt Mateus – Angola

corta as ruas no sinal verde, sorriso eterno estudado na cara, nunca fora da faixa, camuflando-se entre os transeuntes.

À memória de Luzia Bettencourt M., minha mãe.

Meu Avatar poderia ser elefante, pomba ou panda, um pokémon criado na garrafa,

Manhã virgem manhã cedo meu poema acorda dorido manhãs frias vai à igreja vai à missa em pernas de pressa: ó Senhor pão às minhas crias.

mas acostumou-se ser o simulacro em preto-e-branco da sombra que o Sol me forja a cada todo dia-de-preto computado no banco e no ponto branco das horas...

Meu poema sofre a madrugada a espreitar a aurora acarreta água ensonada enche bidão enche tamborão de olho na torneira música sofrida no coração.

Há um instante crepuscular em que o Nada absoluto se esvai no soluço e na fumaça do dia e um farol se ascende em algum ponto invisível do calejado intestino grosso,

Dorme insónias na noite escura acorda constrangido a praça a vender gelados compra esperança recebe troco ternura bem diz os kwanzas bem diz trocados. Caminha um sol abrasador preocupação no rosto meu poema tem dor a rusga a falar serviço militar a rusga: kwata-kwata miúdos a passear kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

forçando meu Avatar explodir-se em gás a compor o tenaz fio das estrelas,

Meu poema desperta alvorecer lava roupa amontoada no tanque rebenta mãos de sofrer vende gelo no Roque e sofre filho fugidio emigrado filho mwangolé exilado.

Meu Avatar só engole comida rápida, inala metano e bebe milk-shake desde o dia que, por mágica, deixei de ser para ser meu Fake.

Meu poema dorme cansado é pai mãe marido mulher... cuida os miúdos atende o marido dorme dorido prazer dorme dorido sonho de trocados.

* poema publicado no livro “Sentimento do Fim do Mundo‖ (Editora Patuá, 2011)

Meu poema dobra joelhos em manhãs frias: ó Senhor pão às minhas crias!

mas tão logo caem os anjos com buzinas a gritar no nadir a canção ordinária que meu Avatar assovia para não coincidir com aquela que um dia eu compus para você dormir, lembra? Eu também não...

A casa era ampla. Divisões serenas que se entre-cruzavam num emaranhado de portas. Abertas por coisa nenhuma que não fossem os seus próprios passos. Breves e objectivos, esses passos. De um lado, o lugar de ficar. Do outro, o de permanecer... Não havia nenhuma exiguidade. Nem sequer de noite, quando o ritual se fazia deambular pelos corredores imensos. Foi assim até, exactamente três terços da sua vida. Os passos registados num contador de passos, que servia ao mesmo tempo de guardador de histórias. Pelo menos, daquelas que se movem. 2300 passos para a direita e o dia seria de ficar. Mais do que isso, e o dia, seria de permanecer. Nunca gostou de esquinas desgrenhadas. Travavam-lhe o andar e possibilitavam-lhe um quase horizonte. Não muito largo, mas ainda assim, um horizonte... Nesse dia em que completou três terços da sua existência, sentou-se na beira da cama e não conseguiu andar...os pés imóveis, no chão frio de pedra. O contador de passos: inerte. Ainda teve tempo de chamar o seu único amigo: -Corre Jorge. Vem depressa. Rasgar-me uma janela. Do peito, ao infinito.E, com a altura do meu assombro.


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Entrevista

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| Por Eduardo Quive

…e eis que se moldou o contista Francelin Wilson, autor de Ninkokwe a reforma da prostituta, apesar de ter chegado ao mundo em terras maputenses, viu-se a crescer e a moldar-se leitor, jornalista, locutor e escritor no Niassa, província que se pode considerar primeira ou a última do país, ao norte. Teve quando adolescente um acidente que lhe custa a vida até hoje. Foi domado pelo monstro da escrita e agora, temendo-o, chega a cobrir-se das suas exigências. Escreve e lê como um exercício de dar vida. Aliás, Mukwarura, como orgulhosamente se identifica na sua obra é uma vítima de Paulina Chiziane, das várias que acreditamos existirem. Envolvido nas obras femininistas dessa escritora, também pautou por retratar-se das mulheres, mas desta vez, fazendo, no seu entender, o contrário da Paulina, falar da mulher trabalhadora de sexo, a prostituta. E o que essa mulher li diz como homem? Lá para adiante, fomos nos debruçando desses temas sem tabus o que prova ser, este jovem, uma verdadeira revelação de lavrador da palavra e até, escultor das letras. Mukwarura é escritor como não pretendia ser e é homem como se admira ser, sem saber que é. Fale-nos do seu percurso antes de se tornar escritor Antes de escrever sempre me achei incapaz de escrever, primeiro porque aprendi a ler muito tarde, na altura fazia 4 classe, mas fui um susto, na altura que começo a ler, surpreendi-me pela positiva com a leitura e passei a ter uma afinidade muito grande com a leitura, dai que na 8ª classe admirei também a forma de se dizer a poesia. Tive um professor que declamava para lá de melhor. Passe a ler muita poesia. Escolhia nos manuais e noutras obras, só poesia e comecei a ter essa aproximação com a poesia, sempre com aquela ideia de que nunca podia escrever obras tão bonitas como a de Noémia de Sousa quando fala de ser negro. Chegou uma altura que decidi expressar algo que me vinha na alma, sei lá por uma ninfa musa, deusa inspiradora e, enquanto meus amigos faziam esse exercício de expressar-se na música, como já era um simpatizante adepto da poesia, preferi expressar-me da forma poética. No dia em que escrevi o primeiro poema não parei mais até então. Passei por algumas colectâneas depois de ter um bom número de poemas, é difícil publicar, mas publiquei nos jornais, nas revistas, depois muito recentemente comecei a publicar em colectâneas nacionais como esperança e certeza. Fizemos uma colectânea só da província do Niassa, Jóia Niassa Metáforas do Ventre, até chegar a altura de publicar um livro.

Vamos falar sobre esse acidente com a leitura. Diz-se geralmente que os jovens não lêem e que há dificuldades de se ter livros, ainda mais para pessoas que se encontram fora da cidade de Maputo, como é o teu caso. Como é que se dá o seu encontro com o livro?

- Penso que a partir daí acabei me pondo a par da literatura e facilitou-me a aquisição de obras. É preciso dizer que muitas obras que circulavam entre nós nessa altura eram de autores portugueses porque a literatura moçambicana pouco circula no nosso próprio país. Lemos muita coisa de Portugal mas tínhamos muita sede de ler o que é nosso. Lembro-me que das poucas viagens que fiz para Maputo na altura, o que mais procurei comprar foram livros de autores moçambicanos e foi assim que ia lendo autores nacionais.

Falando na leitura de livros moçambicanos, quais os tem como aqueles que te marcam como escritor? Eu escrevi meu livro pela provocação da Paulina Chiziane, depois de ler grande parte da sua colecção de livros, achei que há uma parte que ela não abordava com profundidade, apesar de falar muito das mulheres nas suas obras mas tinha um receio em abordar na perspectiva, por exemplo da prostituição a promiscuidade. Ela sempre fala da mulher como um exemplo e como a vítima da violência doméstica, mas não ia para a outra face da moeda.

Então escrevi meu livro em reacção da maneira de escrever da Paulino Chiziane. Isto para dizer que É uma das escritoras que admiro e que a li bastante. Mas antes li José Craverinha, Suleiman Cassamo, Ungulani Ba Ka Khosa, sobre tudo quando se trata de Orgia dos Loucos, ele tem uma maneira de escrever com uma descrição muito penetrante, aqueles exageros que bem faz em Ualalapi ao dizer Primeiramente, tínhamos um currículo muito rico em termos de materiais de leitura e de que “ o barco ficou inundado de vómitos” . li também autores africanos como acesso à língua portuguesa. Os nossos livros de língua portuguesa de oitava nona e Pepetela, que tem uma maneira de escrever muito fascinante, ao escrever Luajo o décima, tinham excertos de obras de escritores moçambicanos que introduziram-nos Nascimento de um Império, ele conta duas estórias em paralelo numa única obra. nesta coisa de leitura. Então durante muito tempo fui lendo os textos que apareciam em Acho que isso trouxe-me desafios como aspirante a escritor, na altura. Noémia de manuais escolares. O Xicandarinha na Lenha do Mundo (de Calane da Silva) é um texto Sousa é uma fabulosa escritora, infelizmente muito pouco falada e só com uma que aparece estampado num volume desses manuais os textos de Suleiman Cassamo, obra publicada. Noémia de Sousa dentre vários escritores, apareciam nesses livros. Mais tarde nesta ventura de ler, devo referir que primeiro lia excertos, pequenos extractos de romances, Acha que este conjunto de autores é que caracterizam a sua escricontos, aliás, Moçambique é um país de Contistas, só depois é que tive a curiosidade de ta? ler obras na sua integra. Para isso contribuiu muito a biblioteca. Tínhamos na altura duas bibliotecas na cidade de Lichinga, uma biblioteca municipal e Eu sou suspeito de responder essa pergunta, é preciso que haja um trabalho outra privada dos Leigos para o Desenvolvimento, um grupo de portugueses independente, uma pessoa a ler a minha obra e fazer essa comparação. Mas de que apareceu em Lichinga num projecto comunitário ligado a religião. Uma alguma maneira sim, para quem poder ler meu livro, verá que introduzo os capítudas tarefas desse projecto era mesmo voltado a biblioteca. Dentro dessa los ou subcapítulos do livro com um excerto citando um autor penso que de uma biblioteca fiziamos uma espécie de rotação de livros, tínhamos um grupo de outra forma são esses escritores que fizeram o escritor que hoje sou. Mas há toda uma carga de frustração, felicidade, de contexto de vida que é so meu. Isso acaamantes de leitura e que rodávamos os livros emprestando-nos. Um dia era bou influenciando para o ser escritor meu.

eu com um livro e emprestava o mesmo ao outro, depois de ter o lido, assim sucessivamente. Sentávamos e debatíamos sobre o que lemos, produzimos artigos, onde publicávamos num jornal que tínhamos de parede, afixado na


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LITERATAS

Já agora, de um modo geral o que é que ti diz uma prostituta? Uma prostituta para mim é lição de vida. Porque é alguém que procura ganhar a vida através dos meios que possui. Não há melhor coisa que fazer seu próprio caminho. Agora se é digno ou indigno, se é ético ou não, se é moral ou imoral, esse é um outro debate. Mas eu encaro a prostituição como uma profissão que alguém optou por ela e faz a sua vida através desse ofício.

E como homem e como quem encara a prostituta como quem desenvolve uma profissão, como é que contribui para o seu desenvolvimento?

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Mas chega uma altura em que ela ve que podia ganhar um pouco mais e chega a alcançar uma mala de dienheiro e quando assim faz, vai se refugiar numa cidade, a cidade do Nango que é a prometida por presidente Samora Machel que até ontem não foi construída, na realidade, e vai torna-la numa realidade, a custa do seu trabalho e do seu ofício. Entao acabamos vendo que a personagem não est’a só associada a pobreza, ela passa pela faze da pobreza para a riqueza e essa riquesa, é construida na base da actividade sexual. É uma imagem de esperança. Para quem lê a obra numa situação de desespero, por exemplo, poderá notar que nem tudo está perdido e que pode superar desenvolvendo o seu trabalho.

Escrevendo. Deixando a ignorância, levando este tema ao debate, falando abertamente sobre este assunto. Penso que para a emancipação da mulher, para que se chegue ao gosto pela leitura para que os políticos ganhem votos é preciso que alguém fale deles, é preciso que se fale dessas coisas. Então temos que falar da prostituição se queremos que ela se legalize, por exemplo. Eu ouvi a dias uma associação de prostitutas na televisão que diziam conseguir ganhos deste ofício, mas é algo que somos tímidos e não temos coragem de falar isso no dia-a-dia. De dia camuflamo-nos, mas de noite passamos todos pela 24 de Julho ou pela Rua de Bagamoyo ou Rua de Araújo. Então vamos falar, amos institucionalizar, vamos passar a usufruir deste recurso que até certo ponto é Eu bom de maneira aberta.

Você escreveu um livro como contributo para o seu desenvolvi- faculmento, mas sabemos que as prostitutas desenvolvem essa profis- tantos outros. são por dinheiro. Quanto é que você já deu? Risos… Não percebi a pergunta…

O que quero saber é se já foste às prostitutas e quanto é que já gastaste… as prostitutas precisam de dinheiro, pois não? Recordo-me de ter lido uma revista e diz que nós que trabalhamos em certas matérias, as vezes somos tocados pelo dedo, na ferida. A Rosa Langa, a 4X4, fez um trabalho ligado às prostitutas para a rádio e em algum momento ela teve que se fazer passar por uma prostituta para poder ter acesso a alguma informação que pretendia. E eu em algum momento tive que ir a rua, em alguma balada. Mas o que aconteceu lá não vou dizer nesta entrevista. Mas tive que passar por essa situação para poder escrever com propriedade, mas quanto é que paguei também não vou detalhar.

O Garcia Marquez, escreveu ―100 nos de Solidão‖ e ―Memorial das Minhas Putas Tristes‖ e você partilha alguns excertos desse autor na sua obra. Vi alguma semelhança na vossa escrita, não de conteúdos, mas de forma como escrevem. Estará a escrever um memorial das suas putas também?

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Pelo que sei é que esse livro enquanto sonho/projecto deu muitas voltas até a sua concretização, pode explicar-nos esses processos? escrevi o livro numa altura em que estava a fazer primeiro ano da dade e deixei-o como

Tenho o primeiro livro que é de poesia que não publiquei até ontem e se um dia sair será bom, mas não estou preocupado com isso. Fiz o mesmo processo com este livro, escrevi-o e dexei. Fiz o segundo ano e depois quis mudar de faculdade, viagei para fora do País voltei também frustrado, abandonei a faculdade, voltei para minha antiga escola e nesse processo o livro foi ficando. Mas os membros do Clube de Escritores do Niassa estavam integrados no prémio FUNDAC e pediram-me o livro para submeter ao concurso. Esse foi um trabalho colectivo, todos membros do clube contribuíram para que eu submetesse a obra ao concurso. O júri apreciou a obra e um tempo depois recebi um telefonema a dizer que a obra foi destinguida para o segundo lugar para o Prémio Rui de Noronha, em 2009, e penso que a partir daquela distinção a obra não parou mais. Vim a Maputo recebi o prémio e volvidos dois meses, já regressado para Lichinga, liguei para o Jorge de Oliveira e infomei-o sobre o prémio que venci e ele disse que podia mandarlhe o livro para a análise da AEMO e que se fosse bom, seria publicado. Analisaram, acharam que era bom, procuraram patrocínio e tiveram, voltaram a informar-me que estava tudo já apostos. Em 2010 acabei conseguindo publicar a obra.

Risos… Gabriel Garcia Marquez foi um pouco contundente na sua escrita ao dizer “Memorial das Minhas Putas Tristes”… mas não quis fazer uma reflexão sobre as minhas putas, tristes ou alegres, como queira. Mas quis narrar sobre a vida de um personagem que acho que andou comigo durante muito tempo. E eu quis me livrar desse personagens oferecendo-o aos moçambicanos e não só. Lançado que foi o livro, depois de uma longa jornada, qual é a opinião que Aliás este livro está a ser consumido um pouco pelo mundo. tem sobre ele? Então não são as minhas, podem ser as nossas putas.

Achjo que superou a minha espectativa. Lembro-me que dizia entre amigos que era um best

O título da sua obra é ―Ninkokwe a Reforma da Prostituta‖. Pode celebry, e eu dizia isso ao Jorge e ele até ria-se disso. Mas superou as minhas espectativas dizer-me o que significa Ninkowe? pela aceitação que teve nas pessoas. Faço essa avaliação pelo número de vendas que Ninkokwe é um animal de espécie ratazana, digamos que é um rato, mas com alcancei, sendo que todos exemplares que haviam em Lichinga esgotaram. uma particularidade: o macho após sua primeira relação sexual, morre, quer Levei alguns exemplares para Luanda e consegui vender todos. Então penso que está a ser dizer, ele vive, mas no dia em que faz sexo com uma fêmea, perde a vida. Essa positivo. O que posso me queixar é em termos de crítica literária, o livro est’a a ser pouco comentado. Sei que há pessoas que estão a estudar o livro em monografias, trabalhos escoé a história que tive desse animal, tendo sido por isso que decidi levar lares, mas acho que falta a crítica sobre o livro.

isso como exemplo para que possamos reflectir sobre a nossa activi- “O escritor tem uma contribuição a mais a dar para a sociedade. Se dade sexual. consegue fazer isso, sem necessariamente puiblicar algum livro já Se você, eu, ou qualquer uma pessoa, fosse sujeito a esta realidade, em que após o acto sexual pudesse desaparecer deste mundo bonito que tem vários fascínios, coisas boas, acho que nunca podíamos nos relacionar sexualmente com uma mulher. É essa reflexão que procure trazer. Podíamos ver o HIV e outras doenças de transmissão sexual para podermos controlar a nossa actividade sexual. Esses impulsos muitas vezes são uma simples vontade. Quando falamos da poligamia por exemplo, muitas vezes não é vontade de satisfação sexual, é aquela arrogância de querer mostrar aquela maneira de ser de querer moldar-se a custa de dogmas sociais em que se costuma dizer que ter muitas mulheres é sinónimo de prestígio. Então se tivéssemos a frieza de olhar para este animal e ter uma compaixão por ele, podíamos moderar a nossa prática sexual. Por isso levei isso para o meu livro, porque ele gira em volta da sexualidade, do sexo e a sua prática. E penso que trazer essas vertentes e o exercício da actividade de prostituição é para lá de fazer parar a sociedade sobre aonde vamos.

A personagem que nos traz como a principal na sua obra é sinónimo de escombros da existência. Que mulher você buscava enquanto construía essa história, olhando para o cenário que gira em torno da sua vida? O Ugulani Ba Ka Khosa é o escritor do caos. Ele gosta dessa imagem, da pobreza, mieria. Mas muitas prostitutas dizem que enveredam por essa profissão por causa da probreza, a procura do sustento, fazem como um trabalho, tal como outros. Isto é, assemelha-se a quem passa 30 dias a fazer um trabalho e depois ganha por isso, para por comida na mesa. Essa personagem, como pode-se ler, come,ca a vida aqui na cidade de Maputo, vivendo nesses becos e desenvolvendo essa actividade para sobreviver e ganhar a vida.

está a desempenhar o seu papel. Ser escritor é isso não é ter um livro”. Muitas vezes se tem o conceito de ser escritor é ter livro publicado. Uma vez ter passado pelo ser escritor sem livro e agora, com livro, saberá dizer o que é ser escritor? Antes de publicar o meu livro, a semelhança de muitos, tinha receio de me chamar escritor , mas acho que escritor vai para além do livro. Acho que escritor é uma maneira de estar. O livro no fim do dia traz uma opinião, então essa opinião pode ser partilhada não só por meio de livro. O escritor tem uma contribuição a mais a dar para a sociedade. Se consegue fazer isso, sem necessariamente puiblicar algum livro já está a desempenhar o seu papel. Ser escritor é isso não é ter um livro. É preciso estar presente, contribuir com ideias na própria dinâmica da sociedade, desafios do próprio país. É preciso aproveitar a massa pensante dos escritores e dos fazedores da cultura no geral, porque são criadores. Eles podem criar mais do que um livro.

Falando mesmo do país e os seus problemas, em que situação se encontram os literatos da província do Niassa? Uma vez entrevistava o Guita Júnior em Inhambane e ele disse-me uma coisa interessante que é, o Sul pode ser o Norte e o Norte o Sul, é uma inversão ou mudança de paradigmas. O resto se os pontos cardiais mudassem, se calhar aqui onde estamos podia ser Norte e outro lado ser o Sul, digamos que é uma questão de conceituação. Oportunidades são de facto escassas em Lichinga, mas chegam algumas. É preciso maximizar essas poucas que chegam, temos por exemplo, os Massucos, a banda que batalhou com os próprios meios e chegou longe, agora o estágio de literatura no Niassa é o mesmo de Maputo. O país é o mesmo, os problemas são os mesmos, claro, podemos um pouco mais de dificuldades lá porque não temos muitas bibliotecas, editoras não há, livrarias também não temos. O pouco que aparece é por meio de pequenas bibliotecas ou projectos. O estágio da literatura é o mesmo. Os escritores são poucos em toda sociedade. FIM


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Conto contigo ZAMWAMWA¹

A

manhã era fria e calma, tão fria e cinzenta, tão cinzenta e fumaceira; ao ponto de, quando se abrisse a boca, suspender-se uma impressão de quem estar a fumar; efeito este provocado pela cacimba. O Joaquim Mbogo ia fazendo das suas o desafio a natureza e a moral, fazendo o que localmente é apelidado ao género oposto; os vizinhos só olhavam por possuírem o órgão de visão; estes afastaram-se há tempos desde a primeira vez que descobrirão que este usava vestes masculinas só para os afrontar. Os que o conheciam há tempos, mostravam -se super logrados, mas bem desapontados, como um pai que investe num filho e por fim revela-se gay. Joaquim Mbogo foi em tempos lá idos um mosodja², um respeitado bazuqueiro³ da rebeldia, pela sua natureza e a natureza do momento; momento de pólJapone Arijuane-Maputo vora ao ar, forte, baixo e escuro; tinha tudo de bom para brilhar na guerrilha; comandara um exército como bazuqueiro de reconhecida matança. Seu estatuto de mão era tão e quão acompanhado pelas suas acções; um dia um dos seus subordinados quis por a prova a sua chefia; o dia foi um dos mais tristes lembrados até hoje; todos esperavam uma rotineira punição, fazer cova correspondente a altura do punido ou, mesmo encher um tambor de água usando o capacete, mas nem uma nem outra tarefa foi convocada para educar o exército; o desobediente foi massacrado, torturado, e por fim cortado, dedo pois dedo ate a pila, aquilo foi o que se deve chamar de morte desgraçada, no verdadeiro sentido, aquele todo exercício, sem margem de erros, sérvio para o exército todo; a partir daquele dia suas cuecas podiam até serem lavadas, sem nenhum não e nem nho, muito menos um remorso facial. A partir daquele dia foi o mais temido rebelde, do exército rebelde mais temido, estupra até as mulheres de seus colegas livremente; pois para si ser chefe de rebeldes deve-se mostrar todos dias e noites. O respeito foi tão imenso que hoje o difícil e acreditar que se trata da mesma pessoa, os tempos eram outros, a guerrilha, as punições, o estupro, a rebeldia, a guerra em si havia acabado, como havia acabado a sua o machismo tradicional do Joaquim Mbogo, os dezasseis anos de desestabilizada serviram para desestabilizar seu comportamento. Hoje é especialista em escamar peixe, acender lume, lavar loiça, coisas não do género; casado com uma só mulher. Quem lhe viu é quem não acredita, a incredulidade desonra os que outrora era mais próximos dele, é tão exuberante o vexame que por conta disso perdera o mérito e a amizade. É nestes manhã frígida de meter zumbido e tremer ossos que acordara o Mbogozinho, como a sua esposa o chamava, sem que de que sentimento se soubesse, inferioridade ou carinho? Mas uma coisa era clara, o homem fazia tudo direitinho que merecia um carinho, aqueles afazeres de ónus tremendo para a ideal masculinidade na vertente popular, era para Mbogozinho uma rotina. Nesta altura encontrava-se de mãos à obra, escovando com a palma da mão a panela que serviu na noite passada, tão escurecida a tamanha do escuro da noite. Nesta mesma hora a sua imperativa mulher estava bem na cama, espreguiçando-se das últimas sonecas; eram por ai quarto horas, nos quintais alheios, vizinhas e crianças, cães e galinhas e patos; talvez fossem fêmeas também. Joaquim Mbogo vivia um desonro paternal, seus mwanamwnas* de tal forma eram zumbados, tratados como futuros cumpridores de ordens femininas; herdeiros de um legado desonesto a masculinidade propriamente dita. Como outros dias, Joaquim Mbogo fez o que não deveria ter feito, inclusive nesse dia caprichou, arrumou bem aquilo que era a sala de janta e estar, podou a espinhosa. Quando o pêndulo rodopiou o curto e grosso ponteiro no número oito da máquina de números que estava pendurada na mesma sala recém-arrumada ouviram-se espreguices no quarto. O lume bem acesso, a chaleira na sua nobre função, pães o Paito filho mais velho já os havia adquirido. Eva espreguiçou-se até a sala, pasta dentífrica na mão dois, três passos, voltou sentando-se, Joaquim Mbogo espreitou-a do fundo do corredor, ela a fitou. - Pai de Piaito, peço chávena? -Já tomaste banho? Pergunta feita enquanto trazia uma xícara de chá nas mãos. -Claro, não me viste? Pousou xícara, trouxe açucareiro, o termo, a faca, a manteiga, o pão; tudo numa bandeja. A Eva reagiu os produtos com um colher de sopa, pão na manteiga, seguiu o mesmo trajecto o marido, contemplaram-se tímido o Mbogozinho, na sala só o som dos maxilares; ecoo no quarto o som de chamada do Nokia N70, único telefone da casa que a Eva ostentava. Correu e atendeu. De lá do quarto só ouvia-se hum… hum? Hum! Votou com o móvel na mão. O marido o inqueriu: -Era quem? -Meu colega! -Queria saber se ontem tivemos último tempo. Eva falara enquanto já ia para fora. O inquerido ficou pensativo, “essa coisa do último tempo…”. A ideia da sua mulher estudar nunca foi dele, foi absolutamente dela, para ela o marido não deveria a interferir, pois estava a cumprir os objectivos do milénio, como ouvira numa reunião do bairro, ouvira também que agora vivia se a democracia cada um é livre e responsável de si. Mas desde que esta escola surgiu, ela só si fazia tarde em casa, argumentos: último tempo. Último tempo era para Joaquim Mbogo um adversários a altura; sempre pensava nesse último tempo com ganância de o esganar dente por dente, como uma vez fez ao tropa na guerrilha. Nessa mesma manhã, no dia anterior, ela viera a mando do último tempo; Joaquim Mbogo tentará sem sucesso vigia-la, um dos obstáculos era mesmo a sua posição de caraça ignorância; em tempos aprendera o vertiginoso segredo das armas e nunca a dos livros, mas sempre dizia aos seus filhos, estudem, nós lutamos para vocês estudarem, aproveitem, os filhos na sua ingénua forma de ver, pensava então só lutou para nós, e a mamã não…?

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O Joaquim Mbogo nunca quis ver Eva estudar, pensava que, se Eva estuda-se transformaria numa dessas doutoras que depois se acham homem, como essas outras e ele seria ninharia; mas engoliu este sapo; mas o do último tempo, em todas as refeições entalava-se na garganta, o vómito era mesmo secreto. O mês era Novembro, mês em que ele exercia a paternidade de forma mais nobre, acompanhado seus filhos a reuniões de chumbou-e-passou na escola, encarregava-se em colher os frutos que ele mesmo nunca, uma vez plantou, o que ele estranhava era o simples facto da Eva nunca o pedir para a tal companhia naquelas épocas, mas estranho ainda era não saber como fazer para tal coisa. Neste mesmo dia depois da chamada do último tempo, enchera a boca de viva voz e perguntara: - Sua turma é que letra? A, B ou C? Pois isto de que as turmas levam letras sabia dos filhos. -Turma C, porque? Quer estudar? Estás atrasado, é fim do ano agora… -Não só queria saber, 9ª Classe turma C? -Não me incomoda, pá! Isso é democracia, se queres é só ir se matricular! O clima fúnebre voltou a habitar o lugar. Saiu. Pensativo. Democracia. Democracia… último tempo… Todos dias era assim o Joaquim Mbogo levava desaforos para a cama. O Dia foi passando na pressa dum documento na função pública e na disciplina militar, camuflado de mau e pior. O Joaquim Mbogo ia pensando, os tempos são outros, outros mesmo… pensava tanto, que chegou a pensar nos seus dias na guerrilha; os estupros, as brigas, os ataques, as matanças; e agora o último tempo, a democracia, as falas da mulher, e recordava-se da última noticia que ouviu no seu xírico, único aparelho que pendurado na varanda narrava os factos actuais; quando falava um antigo rebelde: “Nós lutamos para democracia…democracia é isso que nós trouxemos!”. Realmente ele não entendia nada, menos nada. Quando a Eva disse tornou-se mais equivocado e pensativo. Fiquei dezasseis anos no mato a lutar para último tempo, democracia…, será que lutamos para isso, onde a Eva ouviu isso? O dia foi-se com os pensamentos, amanhã é sempre um novo dia, mas para os que querem fazer algo de novo. Nesse dia o Joaquim Mbogo cumpriu a rotina e fez-se a rua na medida que ultrapassava um grupo de mamanas** ouviu de raspão um punhado de palavras nada boas, e as senhoras punham se a rir e espreitando no seu rosto; algo que o deixou atónito e mais pensativo ainda. Quando voltou à casa a Eva já havia se ausentando, os petizes garantiram lhe que foi a escola. Seguiu o atalho que dava a escola, pelo caminho um turbilhão de palavras: o último tempo, democracia, as que colheu da fofoca das mamanas, as que a Eva sempre diz. Na escola encontrou ninguém, pensou, talvez já se foi esse último tempo, sentou num murro algures, atitude que mereceu de chegada do guarda; minutos depois já estavam embalados num papo, puxaram um dedo, outro dedo, uma mão de conversa, pelo papo identificaram-se que ambos eram ex-militares e rebeldes em bases diferentes. Ali ficaram, ficaram lamentando da pouca sorte que a vida os deu e as indemnizações que nunca vieram. De seguida o Joaquim Mbogo, num tom de curto-circuito, quis por seu desabafo na mesa. Fez uma pergunta, o outro respondeu que sim; era casado, e pai de dois filhos. Tentou contar uma estória na segunda pessoa. o guarda descobriu que o protagonista era ele mesmo; e disse: -Amigo diz lá se é você, para eu te ajudar…. -Sim, mano, esta acontecer comigo, minha esposa, esta sempre a chegar a essa hora do último tempo… -Assim vinhas procura ela? -Sim mano! -Na escola? Se todos alunos agora estão de ferias. Fez-se como como quem soubera, para não merecer risos. -Mano agora você que é guarda; é um dia sim outro dia não, lá em casa como é que é; não desconfia sua mulher? -Olha eu não posso desconfiar, estou proibido, eu devo confiar si não, não trabalho, oh… o que tenho feito e o que tu deverias fazer, é assim que eu faço, mano. -Aye? -Oh… sim, esta é a lógica da vida, guerra e paz, pobre e rico, traído e traidor, agora tens que saber de que lado estás… só isso, mano! Joaquim Mbogo olhou para si e dentro de si, viu nada de traidor, só fidelidade. De repente o guarda atendeu uma chamada. Pela conversa, Mbogozinho percebeu, com propriedade, de que lado estava o guarda. -Estas a ver? Estão a ligar-me como uma casada. Só que hoje eu não quero nada como ela; esta sempre comigo, até ontem estava aqui, bem ali no meu escritório; sala de operação. Joaquim Mbogo olhou para a tal sala; era a casa de guarda, que estava num lugar bem estratégico para tamanha safadeza. Joaquim Mbogo saltou do muro sem dizer nada, muito menos adeus. Quando chegou à casa pegou no telefone, entrou na guarda-fato, bisbilhotou as últimas chamadas efectuadas, identificou o número com o nome de colega, ligou, na medida que ia chamando, a Eva pressentiu e levantou procurou pelo telefone; ouviu rumores no guarda-facto, abriu assustou-se e viu o Mbogozinho com o telefone na mão, bateu na mão o telefone no chão, um lugar que não podia ver, procurava a mulher bem irritada, falava tanto, que acordou os miúdos, insultou; que o Joaquim Mbogo chorou, ralhou que os vizinhos ouviram; e decidiu: hoje você dorme na sala! Antes mesmo de ver o telefone, proclamava: -Ah… hoje vais dormir na sala, bem! E na esteira. Na mente do Joaquim Mbogo ideias de subversão ia misturando-se, as da guerrilha a subirem-lhe a cabeça e a descerem na ideia de pernoitar na esteira, que a Eva mal já a tinha atirado para à sala. A moral do guarda a ferver. O último tempo. Democracia. A fofoca das mamanas da rua, agora os insultos da Eva e a esteira a roer-lhe a fúria de ser homem. Tentou discutir mas descobriu que a Eva levava melhor. Eva continuou falando e procurando o telemóvel, que só ouvia-se o som de estar a chamar algures . Em seguida ouviu-se: eu já disse hoje não”, ela corre e desligou.

_________________________________________________________________ ¹ Pateta, que sendo homem casado cumpri tudo que a mulher ordena. ² Soldado, provem da palavra inglesa: soldier, militar ³ Provem de bazuca, arma pesada. *Crianças **Senhoras, ânsias.


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LITERATAS

O passo certo no caminho errado

O Dilema das cores

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Nelson Lineu - Maputo convite veio a uma semana, na mesma duração o Lourenço pôs-se a pensar no

traje, não no seu, mas o da sua companheira. Conheceram-se quando ele fazia a escola comercial, ela trabalhava na secretaria da escola. Ela vendo-lhe muitas vezes no seu canto, chamava-lhe para conversarem, e lhe dava dinheiro para lanche, já que ele nem para apanhar chapa tinha, percorria vários quilómetros até chegar na escola, cansado e muitas vezes faminto, era de uma família pobre e vivia nos arredores da cidade. Fernanda era motivo de risadas dos alunos por causa da não combinação das cores da sua roupa, motivo esse que ela soube depois. Lourenço era o único que não procedia assim, pelo contrário elogiava-lhe Feito o ensino básico na Escola Comercial, enquanto ele procurava emprego decidiu concorrer para o instituto comercial, onde faria o nível médio, foi admitido brilhantemente. Menino como chamava a funcionária da escola era o canto onde ela ouvia a sua voz, com a possibilidade de não se verem mais, decidiu unir o urgente e o importante. Lourenço passou a viver em casa dela, tendo melhorado algumas das suas más

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Africanidades A arte de saber (d)escrever África pela pena de um Ocidental

Victor Eustáquio– Portugal

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arece incontornável o facto de que, para um autor ocidental, escrever sobre África é uma tarefa difícil. Cito apenas três exemplos, curiosamente todos eles “baseados” em factos reais: (1) «O Sonho do Celta», de Mario Vargas Llosa. Exaustiva reconstituição histórica, mas com sérios erros de percepção epistemológica que resultam no pecado da colonização da própria narrativa. Veja-se os recursos semânticos usados pelo autor quando tenta recriar o antigo Congo belga. Tão desastroso que nem parece vir um escritor peruano. Não admira que o acusem de mercenário de causas políticas; (2) «O Cemitério de Praga», de Umberto Eco. Alguns críticos portugueses, que devem ter lido apenas as primeiras páginas do livro, falam em terrorismo intelectual. Talvez sim… precisamente nas primeiras páginas. Mas Eco foi muito mais longe. O problema é que, ao longo da extensa justificação histórica feita pelo autor sobre um suposto plano diabólico posto em marcha com vista à hegemonia hebraica à escala global, fica a misteriosa sensação, na narrativa, de que a Ocidente os ecos do Islão não passaram disso mesmo, de meros ecos inconsequentes. Estranho e redutor; (3) «Rio de Sangue», de Tim Butcher. Escrita empolgante, simples, em registo de crónica de viagem, com um evidente e forte background de conhecimentos adquiridos no terreno através de experiências pessoais. Interessante. Contudo, funesto na percepção de África, em particular da complexidade de olhares que coabitam, e se digladiam, na República Democrática do Congo. É que pôr o assunto nas mãos de um jornalista, habituado a relatar acontecimentos apenas perceptíveis na linguagem ocidental, mais não é do que fazer a apologia da já estafada supremacia imperialista.

condições, ainda por cima era perto do Instituto escola. Ela vivia sozinha, nunca permitiu homem entrar na sua vida, temia que acontecesse o mesmo que aconteceu com a mãe, depois de ela nascer, primeiro o pai não assumiu, quando finalmente assume, disse-lhe que viajaria em busca de emprego e o melhor para a filha. A mãe morreu esperando porque ele fez com que ela prometesse não se envolver com alguém até ele voltar. Enquanto ele fazia o curso, a troca de carinho, afecto e amor de mãe e filho, passou para de homem e mulher, quando ambos perceberam procuram fugir, era nessa fuga onde mais crescia a vontade e desejo de estarem perto um do outro. Numa noite como ambos dizem, sonambulamente viram-se sobre a mesma cama, ambos afirmam não saber de quem era a cama porque naquele momento, era eles e o mundo ou seja partilhavam-no. Lourenço fez o curso em tempo recorde que lhe trouxe compensação um emprego na empresa onde fez o estágio, funcionário exemplar e inteligente, foi subindo de posto em posto, ganhou confiança do chefe até ao ponto de contarem-lhe como é que o dinheiro entrava na empresa, que eles trabalhavam era só para inglês ver, a empresa tinha outros negócios e a embalagem eram contentores. Hoje tem o seu primeiro encontro onde vai ser apresentado aos outros da cúpula, quanto ao traje para ele não há muita dor de cabeça é só um simples fato, e a esposa? Voltava-lhe na cabeça a questão de ela não saber combinar as cores, embora ela já tinha ultrapassado esse obstáculo porque ele soube dizer-lhe. O que fez com que ela percebesse que ele gostava dela de verdade e não seria como o pai. Agora a coisa era diferente, ele questionava-se se a mulher saberia combinar as cores da corrupção.

Moral da história e já Saramago o dizia: não basta olhar. É preciso saber ver, com esse olhar. O olhar de fora e o olhar de dentro. Essa é a missão. E o grande desafio.

Oração em tempo de angústia*

Q

Ao pai do meu amigo do meio: Eduardo Quive

ueria poder rezar a alma do meu velho de Patrice Lumumba, bairro onde Angélica contornou a mente de Xiguiana da Luz, deixando-o sem prazeres para outras Angelazinhas. Queria rezar em tempo de angústia o Salmo 8, porque a dor turva-me e enlouquece os meus adversários. Queria rezar todas as noites que choro quando ouço a voz ronca e pesado do meu velho, chamando-me ´´Xiguiana os teus amigos de Nando, Pedrito, Ntone, Vitorino e Handzul estão a chamar e olha aqui, só vais lá depois de terminares o dever de casa e o trabalho que te mandei fazer ontem!`` Izidro Dimande-Maputo E sempre perguntei-me: porquê o velho quer que eu seja doutor se eu adoro a escrita. Choro hoje, mas não devo, sou escritor, o escritor não chora, devo chorar amanhã ou devia ter chorado ontem, quando a notícia chegou-me aos ouvidos graças a este aparelho que o homem inventou. Choro não porque o velho foi-se, porque estará sempre comigo, choro porque não sei quem vai nas noites de insónia acalmar a minha mãe na fúria da noite. Choro porque não sei quem vai decidir o lobolo da minha irmã, choro porque não sei quem vai comandar o Patrice, o quarteirão 14, a célula H, a rua sem nome, que ostenta um número, como se os números fizessem recordar aqueles que levávamos às costas quando o colono atribuía-nos. Choro porque o conselho local perdeu um membro e todos olham para mim chorando. Toda às noites encho de lágrimas a minha almofada, rezando em tempo de angústias perguntando ao velho o que fazer com a notícia que o noticista trouxe. O velho está lá com o mahembana, já diziam estes em conversas na bodega da Martane que um deles seria o primeiro e o outro seria o segundo, este último seria o mais novo nos céus independentemente da idade que levava em vida, quando se é último a chegar é mais novo. E nos na inocência das toranjas que comíamos achávamos que o álcool que bebiam os fazia falar da vida com tanta seriedade, ao ponto do velho dizer de cara cheia de razão que a vida é bela nos céus. Numa noite sem luz, ou numa luz sem noite, o velho vira! *Título emprestado da obra poética de Sangari Okape


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Yao Jingming – Macau Trazes Tanta Chuva Trazes tanta chuva que vibra o moinho dormente na noite seca O rio interior transborda os lábios onde passam barcos tão leves como folhas Sentado no tempo indefinido faço das minhas mãos uma casa em que habitam as tuas

Canto do Mar

Viajar pela Noite

Na ruína de espelhos restam só os teus olhos onde o meu reflexo é resistente e sólido.

Viajar pela noite é medir a imensidão do desejo em insónia é recuperar efemeramente as sementes retardadas é remoer os fios do mistério no balanço da sombra é partir em busca de si próprio no espelho da orvalhada.

Bibliografia

Yao Jingming n. em 1958, em Pequim. No Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim obteve a Licenciatura em Língua e Cultura Portuguesas e, na Universidade de À janela, com insónia Macau, concluiu o Mestrado em das noites Literatura Portuguesa. Trabalhou, nada a fazer senão entre 1988 e 1991, na Embaixada aguardar o eco acordada República Popular da China, em do nos lábios Portugal. A partir de 1992 passou a imaginar como uma bri- Do limiar nunca chegam notícias nem o bico da gaivota traz o canto residir em Macau, sendo, actualsa traz teus seios esperado mente, professor na Universidade – pombos frescos da e o pensamento ainda debruçado à jane- de Macau. Tem vários títulos de madrugada. la poesia publicados em chinês e porinsiste em repetir o ciclo da clepsidra tuguês, entre os quais Confluências Perdida a chave verme(1997), de parceria com Jorge Arrilha Enfim, viajar pela noite mar. Com este organizou a Antolofiquei, há séculos, pre- é prolongar uma espera. gia de Poetas de Macau (1999). so em tua cadeia Tem traduzido para chinês, vários minha alegria na soliescritores portugueses, nomeadadão da lua. mente os poetas Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andersen. Participou, entre outros, no I Encontro de Poetas de Macau (1994).


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Inocência Mata - São Tomé e Príncipe

Assomada Noturna de José Luís Hopffer Almada* FONTE:zehopfer.blogspot.com [

criança ainda galguei as exaustas margens das ribeiras a húmida orografia da Assomada e fiz-me árvore do planalto (...)

"A linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo." Roland Barthes de costas para o mar insinuei-me - para além da ilha Disse um dia o escritor queniano Ngugi Wa Thiong’o, romancista e ensaísta e um dos maio- na lenta e transparente res intelectuais africanos vivos (infelizmente a viver nos Esatdos Unidos), que só falava do caminhada das nuvens passado principalmente porque estava preocupado com o futuro. Afirmação polémica, pode- para de Leipzig beijar ria pensar-se, se a História, isto é, o discurso de reflexão sobre o passado, não visasse pre- a neve com odor cisamente a construção do futuro. a carvão e melancolia É o que acontece neste livro de José Luís Hopffer Almada, Assomada Nocturna, a que o para da Europa autor quis regressar – metaforica e geograficamente – numa atitude de inusitada convoca- longamente acariciar ção simultaneamente lírica, de dominante elegíaca, e épica, de dominante conativa. Isto é, o níveo e silente frio no processo de rememoração do passado da infância e juventude, o sujeito faz a celebração É tão importante este “manifesto de vida” que a partir deste momento o longo poema vai ler-se como a rememoração de um ritual de iniciação de de um grupo, não propriamente através do que realmente tenha acontecido, mas sim atracujo aprendizado os iniciados se serviriam para resistir às “noites em marvés de uma vivência fictícia, isto é, através da significação da lembrança do vivido. Bem cha”, “noites várias/ estilhaçadas/ no alvorecer/ das esporas guerreiras/ lembra Roland Barthes , que “a linguagem do escritor não tem por incumbência representar no amanhecer/ das esporas diurnas/ no estremecer/ do canto exacto o real, mas significá-lo” (Barthes, 1978: 205). Isto é, ainda que o longo drama narrativo) de amotinado/ dos galos da Assomada”. Neste processo mais não foi, perceoitenta e nove segmentos que é Assomada Nocturna (quando o primeiro Assomada Noctur- berá mais tarde o sujeito, de aprendizagem da vida juntamente com os na tinha apenas trinta e dois) pareça referir eventos acontecidos nas mil e uma noites sola- inúmeros amigos de infância, seus interlocutores, de entre os quais se rangas da então vila de Assomada, com actores que conhecemos e com os quais privamos, destaca Digho, como o paradigma desse processo de presentificação do passado, pois que é interpelado no início e no final da narração rememocom uma disposição eventualmente em progressão factual (vêm-se disseminados sinais do rativa: e não é despiciendo facto de, no final, o enunciador se dirigir a acontecido), a sua ligação com a história (realidade sujeita ao desenrolar cronológico) ganha Digho com uma fina amargura, num tom subtimente elegíaco: “Lembrasum carácter que ultrapassa a simples função de comunicar ou exprimir para – de novo Bar- te ainda, Digho?” (meu sublinhado). thes – “impor um além da linguagem que é ao mesmo tempo a História e o partido que nela Na verdade, esta oração (no sentido da oratória, da arte de discursar, da se toma” (Barthes, 1997: 11). Este tempo pode considerar-se a fase de “conhecimento do eloquência, ou seja, no sentido de fala eloquente em ocasião solene) tem mundo” – que se fez tanto nas noites de leitura do Padre António Vieira à História das ilhas uma dinâmica que se projecta no futuro, em nostalgia de um tempo cujo significado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o feita de grilhetas e engenhos, do yé–yé, rock n roll, twist, rumba, merengue, cúmbia, coladesujeito quer recuperar na sua significação histórica, discorrendo, neste ra à imaginação do maravilhoso e fabulosa:Io ioi Irondina balanço, pelos trilhos de uma linguagem testamentária, no final dessa viagem rememorativa. N ba ta pasa na Matu Njenhu Nesse processo de vazamento rememorativo, a poesia, embora muito intimista (daí o intenso lirismo deste poema), resulta pungente e corrosiva N atxa kuatu boi na gera não raro, feita de linguagem de transbordante ludismo retórico, em que o equilíbrio entre o sobredito e o entredito é, por vezes, desigual, acabando, dos ta da de certa maneira, por desorientar a imaginação crítica. A significação tece -se de muitos subentendidos que se reportam à História, como nos cinco dos ta npara trechos (p. 96-100) que se referem a Gustavo e Homero (de cuja memória se faz a história de Assomada): kel ki npara 1. Ai noites de Assomada noites de Homero e Gustavo sob as vestes da noite más balenti ê Nhônhô Rita proclamando o sagrado do chão trilhado do chão beijado Nhônhô Rita di bongolon por Nho Naxo e pelas suas palavras ricocheteando másculas como provérbios sabola berdi ádju madur percutindo prematuras e ascéticas como profecias ali ben tenpu io ioi Irondina ki orina di bránku Tempo de aprendizagem após o qual todos se disseminaram pelas quatro partidas do Mun- nen pa ramédi do e pelos vários trilhos da Vida: estas figuras não funcionam mais do que metonímias da ka ta atxadu História da Assomada, microcosmos, por sua vez, da nação cabo-verdiana. Este poema é, (…) assim, um hino a uma Assomada original em que a “comunidade” era, de facto, o produto de 2. Noites de Homero e Gustavo um desideratum que existia performativamente... inclinando-se ki ê más balenti

reverentes em veneração dos cadáveres imaginários de Gervásio Francisco e Narciso arcabuzados traídos na sua exangue na sua alucinada visão de um Santo Domingo badio de um Haiti verdiano irrompendo da noite de monte agarro e das grilhetas da ilha Existe, de facto, nesta Assomada Nocturna a exponenciação de uma dinâmica temporal em de Santiago de Cabo Verde dois movimentos (o passado e o presente em actividade rememorativa): logo o primeiro poe- (...) ma, “Autobiografia ortónima” (poema que antes, na Assomada Nocturna de 1993, se intitulava apenas “Autobiografia”), é um poema em que se torna evidente o transcrescimento do 3. Noites de Homero e Gustavoperfilando-se sujeito enunciador e, simultaneamente, se anuncia a expansão espacial (isto é, geográfica) solenes e espiritual e cultural da criança que um dia cresceu e se aventurou por outros horizontes, em rememoração da lucidez de Nho Nhonhô Landim exteriores à “comunidade imaginada”: ladino chefe dos rabelados Se é verdade que a narrativa é a modalidade discurso que melhor permite representar o passado, uma vez que é uma arte essencialmente temporal, a poesia é a modalidade privilegiada para a expressão de sentimentos, mesmo se no caso estamos perante recordações que advêm das vivências afectivas e históricas, humanas e espácio-temporais, sonhos e aspirações geradas na mátria santacatarinense, cujo núcleo uterino é a Assomada. Sobretudo se essa poesia se faz presentificação de eventos, acontecidos ou imaginados, através de estratégias verbais próprias do discurs framático – pois sabemos que as categorias “real” e “imaginável” podem ser fundamentos da veridicidade e da verosimilhança, mas não da história e da literatura.


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Ensaio

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Inocência Mata - Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

(...)

4.Noites de Homero e Gustavo deslumbrando-se com a parcimónia sem mácula despida de pânico das courelas de terra (...) 5. Noites de Gustavo e Homero proclamando na primeira das esquinas o advento de Amílcar vivo (...) É significativo o facto de esta citação da História terminar em e com Amílcar. Amílcar Cabral que se quer e se mantém vivo: os tempos de vivência, reportando-se aos anos de juventude, ganham significado da consciência histórica do enunciador (anos depois, ainda jovem, em espaço-tempo de formação, então Leipzig) e na representação do cerzir do espaço caboverdiano, agora em espaço-tempo de reflexão: não é possível ignorar o facto de o poeta ser, hoje, uma voz pertinente na actividade pensativa da nação. Ganha, por isso, signifcação extratextual um dos últimos trechos da peroração (p. 80): Todos nós éramos artefactos de barro por mãos rudes rigorosas por mãos negras neolíticas torneados por mãos divinas moldados e inoculados com o sopro da alegria Existe nesta enunciação uma dimensão nitidamente adâmica, primordial. Quer dizer, o sujeito enunciador apresenta-se e apresenta a sua geração como entidades moldadas por mãos contaminadas pelo poder criador da divinidade até, porém por mãos que funcionam como sinédoques do Homo Faber, pensado na sua materialidade, na sua espiritualidade e na sua culturalidade, e animadas por um sopro mágico: da nação por vir. Isto reforça a dimensão iniciática desse tempo, da Assomada nocturna que se representa através de uma geografia identitária, a nível sócio-político, ideológico e afectivo, identidades que se expandem em cartografias outras e solapam o tempo da vila, hoje cidade, insular e nacional. Em texto que serviu prefácio a este livro de José Luís Hopffer Almada, a que dei o título de “Corografias da memória” (2005: 7), afirmei que a convocação dos vários actores do tempo de infância e juventude, “nos seus diversos e diferentes meandros espácio-temporais, gera uma sinergia centrípeta que culmina na mais eufórica solaridade, antecedida da evocação dos tempos de convivência e comunhão (que na edição de 1992 era reforçada pela convocação dos lugares de memória infanto-juvenil, numa original apoteose toponímica)”. Noites solarengas Noites claras explodindo evidentes no cântico ridente estridente de repente em manhãs verdes às portas abertas de chão bom às portas libertas despertas das ilhas na alvorada da Assomada Lembram-se, mocinhos? Esta convocação intenta, no entanto, uma revitalização do seu próprio ser, da sua condição de agente da história. É como se o sujeito, nesse processo de expressão apelativa (“Lembras-te?), quisesse, ele próprio, não esquecer e reenergizar-se com o fio das suas palavras. É, por isso, significativo que logo no início, no primeiro poema, “Autobiografia ortónima”, o enunciador nos informe que: hoje sei que sou um simples signo de adão e eva e do seu éden pétreo no pico de antónio – reforçando, com a citação explícita aos míticos primeiros homens, Adão e Eva, a dimensão demiúrgica, formativa do rapaz que viveu a voragem das mil e uma noites da Assomada matricial. Esta Assomada Nocturna acaba, por ser, afinal, um convite ao conhecimento da geração daqueles meninos que mais não são metonímia da caminhada do país, Cabo Verde. Queluz, 25 de Novembro de 2005

________________________________________ * Título da nossa autoria

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Além dos “Tchutchatchás” de Hoje

A

mídia passa imagem de um Brasil branco. Para inúmeros países a imagem do Brasil é de um país branco ou, no máximo, mestiço. Os índios, os negros são "inexistentes" em terras brasileiras. Os índios são vistos como “animais, sem cultura”, os negros são os “traficantes, os elementos que perturbam a ordem e progresso”, não se enquadrando como cidadão da “pátria amada Brasil”. Quando ligaremos a TV e veremos filmes, novelas que representem à realidade do quotidiano na íntegra, sem censura, visando detalhar a verdade nua e Dhiogo Caetano-Brasil crua. Queremos ver aquilo que a sociedade esconde debaixo dos tapetes. Estamos longe de nos tornar um país de primeiro mundo. Para concretizar este objetivo é preciso eliminar a visão etnocêntrica que está engendrada no seio da nossa sociedade. Precisamos extinguir o racismo, o etnocentrismo, a corrupção, a homofobia, a camuflada censura... O “povo brasileiro” necessita de governantes que apostem na educação como ferramenta que salvará a nação. Não foi mole fazer o Brasil como está. A sociedade se viu obrigada a pegar em armas, sequestrar pessoas e aviões. Assaltar residências, estudar guerrilha em Cuba; morrer pela nação, por uma ideal de liberdade. Os mesmos tornaram heróis do “brado retumbante” venceram a ditadura e hoje com a educação podemos extinguir a corrupção. Temos potencial, vamos a luta! Vamos viver a “ordem e progresso” estampado na nossa bandeira. O Brasil é um país grandioso em todos os sentidos, é amado por nós brasileiros e por muitas outras etnias; no entanto o mesmo sofre as consequências da ignorância, um verdadeiro círculo vicioso. Precisamos estar "educados" para eleger os nossos representantes políticos. Independentemente dos méritos de quem quer que seja, pessoas ou organizações; é visível que atual conjuntura governamental é composta por uma comissão que constitucionalmente prega a arte de enganar os seus eleitores, ou seja, o “povo brasileiro”. A corrupção é um dos males que os cidadãos brasileiros precisam enfrentar no cotidiano. Gente, como "Carlos Cachoeira”, “Demóstenes Torres”, “Fernando Collor” e inúmeros outros que com sua organização infiltrada no poder tornou-se uma legenda cultuada por muitos. Esse é o pior dos males: tentar suportar e entender que a corrupção é uma “coisa natural, é vivacidade, é sabedoria, é enfim, política”. O Poder, em todos os níveis, conivente ou associado a corruptores e corruptos fez e faz do nosso país o "último mundo" para o qual o desenvolvimento psíquico, econômico e social é apenas um sonho, cujas nuanças vislumbradas são inexistentes. Precisamos da democracia plena em todos os níveis de governo, sem voto obrigatório (mas incentivado pela participação em política e cidadania), educação, cultura e aqueles princípios esculpidos nos artigos 37 da Constituição Federal: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, e eficiência. A resistência dos nossos políticos em praticar a arte da coerência legal, bloqueia o bom funcionamento da nação Brasil, os mesmos trabalham sob uma ótica, meramente pessoal, esquecendo que os principais prejudicados são os cidadãos. Portanto, precisamos lutar para fazer valer a frase dita em inúmeros discursos: “o povo é o bem maior da nação”. É de suma importância a criação de projetos de lei que tem como finalidade corroer a corrupção que por anos corroeu as bases políticas do nosso país. Entretanto, “não adianta existir um país que arrecada milhões em impostos se o povo continua vivendo de forma miserável, onde a riqueza de poucos ocasiona a miséria de muitos, tudo isso porque existem muitos Ministérios e pouco trabalho prático! E a caixinha registradora dos impostos e da corrupção continua contando!”. Portanto venho através deste, convocar a nação Brasil para refletir a nossa realidade. Podemos ver que realidade brasileira não é a melhor do mundo. Não estou aqui para dizer que é errado ou certo dar audiência para determinada mídia. Mas as flores não nascem no jardim, sem que elas sejam plantadas. É lamentável quando nos deparamos com vídeos, textos, áudios que conseguem chegar à marca de cinco milhões de visualizações em uma semana; tornando-se um conteúdo "viral", algo sem contexto ou objetivo. Lamentavelmente no Brasil ocorre a degradação dos valores mais básicos como: moral, ética, honestidade, educação e família. As nossas crianças e jovens deixam de querer ser: “professores, médicos, soldados”, pois os mesmos desejam quando crescer ser “BBB's e posar nus para revistas”, está tudo errado. Fazer renascerem estes valores é uma virtude é nosso maior desafio. Precisamos nos unir em um só clamor de justiça social, cultural e nos indicativos de uma visão com objetividade para um crescimento de inclusão comunitária. Esta é nossa “cruzada” da era moderna.


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S

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LITERATAS

Croniconto Croniconto

A-traidora os filhos maiores

e há debate, comAque, ultimamente, não que desperdiço inteligência nem pobre cega sustentava palavras, é o debate sobre a escassez de mulheres e homens para

Dany Wambire casamento. Digo, mulheres-eBeira homens sérios, pois os contrários existem

Dany - Beiranos factos? Apesar de copiosamente. ParaWambire quê depositar argumentos

mudos, os factos explicam melhor que os argumentos.

E

Entretanto, serão os próprios jovens a pagar a factura, as consequências das suas nefandas caçoadas, da falta de seriedade. E a primeira consequência, eu mesmo o

mais um diaode muito calor, Esse conheço e reconheço,ra tem a ver com tempo. Ele será húmido escasso,eàquente. medida que esticalor, que oculta o sol, os menos vermos a correr atrás do prejuízo. Aliás, já opara meuenganar avô sabiamente meatentos, ensinava: quemcom faz uma muito passá-la limpo. E a devida quede o rascunho, calor quelevará se exala saioudainfinito terra tempo e nãoado próprioa Sol. para isso tenho dia, convincentes Orafresco, vejamos. estória que vou cronicontar. Nesse eu saí aprovas. procurar naAcompanhia duma namorada, Injustino Mafilhoso era um jovem de muita beleza, livre da feiura comum nos homens

Generute Mafilhoso. Namorada! Melhor é dizer amiga, sob pena de engen-

de Fim-de-Mundo, mas suprida pelo dinheiro. Era bastante mulherengo, cumprindo

drar um pequeno mal-estar nos pais dela. Pois, de tanto assistirem aos

as hodiernas e tortas ordens. Diz-se em Fim-de-Mundo que homem que é homem

namoros, que chegaram a lugar nenhum, suspeitam, a cada novo caso, que

deve ser infiel, ter tanta mulher e nunca ficar com nenhuma delas.

surge. Das filhas, sobretudo. Afinal, vital e actual é o dito: o gato escaldado

Entretanto, na senda dessas nefandas brincadeiras, o meu Injustino conheceu uma

até de águaapenas fria tem medo. à maçã. Mas a miúda tinha a cabeça abarrotada de moça bonita, comparável Na praia, moldura humana gigante, se deslocando, para malcriadez, produtoa da má educação queera recebeu em gente impropícios cantos, distantes de casa. Porque a malvada jamais apreciara a educação casa. tudo quanto era canto fresco. E nós evitámos, a de meu pedido, estar entraDe resto, na Injustino Mafilhoso meteu-se com a moça, corpos encostando-se nhados multidão. Silêncio é o candidato mais votado, com vitóriafrequenretumtemente, nu-a-nu. Faziam amor? Sei lá,quando essa é pergunta escassa resposta. Sei, bante, esmagadora e convincente, concorredecom o barulho. Então, contudo, dizer que fazer sexo distingue-se de fazer amor. O acto de fazer sexo é

de imediato, nos arrastámos pelo pesado areal , até acharmos um solitário

egoísta, virado só para nós. Enquanto o acto de fazer amor é sempre para o outro, o

lugar, e, sob a sombra de um pinheiro, sentámo-nos a contemplar o ondear,

nosso parceiro. Preocupamo-nos com a sua plena satisfação. Então posso dizer, de

encapelado, das águas marinhas.

resto, que Injustino só fazia sexo, ao trocar mulheres frequentemente. Nunca amou a

Foi, então, que vimos duas pessoas de idades e sexos opostos, de ninguém. Eram um jovem e uma senhora. O jovem é que vinha Enós comaproximando-se. a supracitada moça, de nome Amarida Sofrimento, Injustino assistiu a contrariedades, antesaquela jamais mulher vistas. Ade moça nunca aceitou relações sexuais com conduzindo segunda idade, praticar ao mesmo tempo apoiada protecção ou uso de preservativos. Depois, lá ela estava a justificar-se, penosamennum desses bastões, que ajudam os cegos, na indicação de sentidos e de te: obstáculos. ― O preservativo aleija-me.

Diante de nós, a mulher agachou-se, a pedir trocados. De instantâ-

Verdade ou não, ela acabou admitindo feto a crescer no seu ventre. Aliás, esta era a

neo, concentrei-me, estupefacto, a inspeccionar a composição física dos

forma fácil de ela se casar com Injustino. Mas gravidez seria pretexto para convencer

dois. E o resultado: a mulher tinha olhos deficientes, impedidos de cumprir a

Injustino Mafilhoso? Não. Esse pretexto, quase a chegar a motivo, não o convencia a

natural moço, engravidar já adulto, era exercer trabaele. Pois,função. nos diasMas que ocorriam, não capaz impediade divórcio ou qualquer rotura de namolhoaliás, rentável. todavia, a carteira despejei na casamento mão todasnem as moedas ro, muitasAbri, gravidezes surgiam onde enão havia nem namoro. que parece-me ali jaziam. que E entreguei-as cega. Depois,imitavam não deixei de exprimir o que, Sim, os homens deà Fim-de-Mundo o canino comportamento: nenhummomento, cão tem a me sua martirizava cadela certa a para sempre, e vice-versa. naquele alma, o meu contributo moral. Não tivesse a família da Amarida da feitiçaria, única prática deaorde― Mamã, esse seu filhoremanescente não pode fazer qualquer coisa para ajunamento social outrora válida em Fim-de-Mundo, e Injustino abandonaria aquela ges-

dar?

tante. Pois da polícia não tinha ele medo. E acabou casando com a moça, para o

― Pode, sim. Tem me acompanhado a todos locais por onde esmo-

brotar de infortúnios.

lo. ― Retorquiu a mulher.

Injustino passou a receber da esposa pesados insultos. Como quando um médico

― Uma outra coisa melhor! Trabalhar, por exemplo, e ganhar dinhei-

prescreve fármacos a um doente: uma dose, de manhã; uma à tarde; e outra à noite.

ro limpo. Sim, às vezes, Amarida pendurava-se no cimo da casa de aluguer para o insultar: Ele vaiFaz aofilho centro deEsse formação professores, no próximo ano, ― Quem―é você?! você?! filho nãode é seu, seu ngómua. Certa quando o maridodinheiro começou, a traí-la com já Marieva, igual-o aindavez, estou ajuntando defrustrado, esmolas. O irmão está amulher terminar mente casada, chegou a irecontar o sucedido ao amarido da rival: mesmo curso,ela neste ano, no próximo, será vez dele. ― Estás relaxado, não vês que a tua mulher anda com o meu marido?! Incrível! A vítima , que recebia tal informação, mais do que estupefacto, ficou estúpidofacto, pronto para alimentar com o prevaricador violências. Virilências, poder-se-ia dizer, pois aquela violência seria de dois protagonistas com viris características. Sim, eram ambos do sexo forte. Mais do que do sexo masculino, eram do sexo maiusculino.

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Madala Pire Eduardo Quive-Maputo

E

nquanto andavam os tempos, cresciamos entregues aos mistérios da idade. Como é uma pessoa com barba branca? Velho e monco? Como é que se forma aquela voz quase trémula? Que juízo compõe gente daquela espécie? Todos debatíamos sobre a velhice e os velhos. Madala Pire era um desses que nos roubava o sossego, ao mesmo tempo que era motivo de discontração e felicidade para nós, crianças. Vivendo mesmo na casa que encosta a parte traseira da minha casa, Pire, mais velho que outros velhos, partilhava os tempos da sua terceira idade pastando cabras e xiphóngos lá para as bandas de Singathela, bairro vizinho onde até morra o David e a minha recente antiga namorada, Rosinha. Lembro-me, e como me lembro! Dos dias que corriam os nossos desejos ensegados pelo medo da idade, eu e Elzínia, na zona chamada por Rosinha, mordiamo-nos os corações cobiçando-se mutuamente. Conheci-a enquanto caminhava para a escola secundária, lá no bairro São Dâmaso, eu fazia a minha oitava e ela a nona. Elzínia é inteligente, isso que não se negue. Elzínia é linda e elegante, isso que não se negue. Elizínia era também tímida e inocente, isso que também se aceite. Foram esses encantos que me levaram para seu canto. Foi o seu falar silencioso e andar desapegado às pegadas que me levaram para junto de si. Eu queria de verdade a Rosinha. Eu a desejava de verdade. Elzínia era motivo da minha vaidade. Crescia aos seus olhos e ao seu andar lá por onde os cabritos do velho Pire comiam o capim verde e fresquinho. Quando passasse da rua, lá para o anoitecer, com os seus dois cabritos, toda criançada reunia-se a sua volta, gritando seu nome: vovó Pire, vovó Pire!!!. Cantávamos e dançava-mos o seu nome que agora já a caminho de ser velho também, faz-me achá-lo semelhante à palavra Primo. Os velhos do meu suburbano bairro também tratavam primos de pirima. Ah, ainda a bocado tive um colega na Escola de Jornalismo que de apelido era Phiri, ele é natural de Quelimane. Mas o verdadeiro Pire, o madala da rua “P” de trás da minha casa, era mesmo um mistério. Uma velhice à semelhança do nwa massaia, madala Sitoi e Balimone, este último avó de Tucha, minha primeira dama, que nos conhecemos enquanto eu fingia-me saber e gostar de jogar a bola. Tucha era a fonte de inspiração de muitos miúdos da rua, incluindo, principalmente, os mais crescidos e já conhecedores do sexo, como os Sanito, Paíto e Xandito. Mas Tucha já me tinha escolhido. Queria eu, Dodoca menino que tão pouco se importava com missivas sexuais. Apenas o ser criança me cabia. Queria jogar sem saber, cantar as canções da pequenada e fazer o teatro no 1 de Junho como era de costume na escola primária que frequentava na altura. E Pire, enquanto atravessasse a nossa rua, rua “O”, todos corríamos ao seu encontro cantando o seu nome. Ele correspondendo nalgumas vezes e noutras não. Mas era um madala, muitas vezes até metido a espertalhão. As grandes bocas, contam que Pire era um velho que não se deixava dominar pela idade. Diziam que Pire, quando passasse por um grupo de senhoras todas elas ficavam molhadas ! Isso é verdade e ainda vos digo, vocês, as senhoras contam que sentiam uma exitação exacerbada. Como se algo les acarenciasse. De seguida, já se sentiam penetradas, o seu orifício gotejava a respectiva saliva da satisfação. Gemiam. Berravam e ficavam assoladas por um prazer invisível. Era Pire - contavam elas - o madala Pire, tinha massónica. Comia mulheres de dono através de remédios. Dizem que isso é que lhe tornava um pouco jovem e que se não tivesse acesso a tais hábitos, saía escamas por todas as partes do corpo, incluindo nos órgãos genitais. Isso de escamas, confirmo. Pire tinha makhwakhwarimba. Escamas. Parecia peixe de tanto subcarneamento. Parecia Mingas, a filha do tio Luís que quando comesse peixe da água doce saía também escamas. Conta’se que os Ngunis também são assim. São irmãos de peixe e não se podem comer. Mas para vovó Pire, isso acontecia quando não usasse as suas massónicas. Mas logo a seguir escolhia uma vítima e a penetrava invisivelmente. Satisfazia-se do sexo alheio. Muitas foram as mulheres que terão tido filhos de Pire. Mas vá que descoberto, todas começaram a distanciar-se do velho! Já percebiam que os gemidos vinham da aproximação com o velho. As grandes bocas, contam ainda que abandonado pelas mulheres que já não ficavam próximas de si, o velho pautou por fazer sexo com as cabras! É verdade. Pire mantinha as cabras como fonte de satisfação sexual. Penetrava-as. Tudo isso, criança que éramos, nos assustava! Começamos também, nós os homens, a temer madala Pire. E lá foram os dias. Pire ia envelhecendo até que Deus o queria por perto. Primeiro morreu numa tarde em que a notícia se espalhou logo-logo. Todos tomamos conhecimento e foi mesmo uma notícia na boca do estômago. Um choque. Madala Pire morreu! De noite, já criadas as condições de se decidir o seu velório e com toda sua família reunida acompanhada pelos populares residentes do patrice, com o corpo a ser preparado para que na manhã seguinte fosse a enterrar, eis que o insólito acontece… o morto levantou0-se e pediu comida. É verdade. Madala Pire terá recusado ou inventado a sua morte? Verdade ou mentira, ficou espalhado pela zona que o velho terá inventado a morte por sentir fome. Num outro dia, passado algum tempo, o velho voltou a bater as botas, dessa vez ninguém se importou. A notícia rodou por toda a parte, mas todos achavam motivo de graça. Mas dessa vez, o velho foi até a tumba. Morreu. O seu enterro vou afluído pelas massas, conhecidos e desconhecidos curiosos em saber se Pire morreu de verdade ou é mais uma daquelas suas invenções. Eu próprio, na minha pequeneza, terei perguntado se dessa vez terá morrido de verdade ou não. Mas na verdade madala Pire morreu. Inclusive, os seus cabritos, terão desaparecido com o sucedido. As grandes bocas falam que usava-os para os seus feitiços e que na verdade não existiam.

Revista Literatas  

Revista de Literatura Mocambicana e Lusofona

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