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Literatas

PROPRIEDADE DO

Director: Nelson Lineu | Maputo, 17 de Fevereiro de 2012 | Ano II | N°18 | E-mail: kuphaluxa@gmail.com

José Craveirinha (2003-2012)

9 anos de silêncio profundo «Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato… A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão. E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta. Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso. Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação. Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»


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Editorial E porquê parar um projecto elogiado!?

N

os finais de Dezembro de 2010, iniciamos o projecto da revista Literatas, antes difundindo a mesma através de um blogue. A princípio a meta era divulgar entusiastas da literatura moçambicana, principalmente, os membros do Movimento Literário Kuphaluxa, agremiação a que pertence esta revista.

No entanto, verificado o vazio a que se vivia no País, sob ponto de vista de divulgação da Literatura Moçambicana (com os medias se cingindo apenas no anunciar lançamentos de livros vida ou morte de escritores) decidimos ser mais abrangentes. Sermos mais abrangentes, significa manter a linha que já tínhamos definido e acrescentar, a componente divulgação do já existente na nossa literatura e, porque o blogue era também visitado por pessoas doutros países, principalmente os falantes do português, decidimos que também publicaríamos algo sobre esses países. Assim, edificamos a Literatas que hoje somos. De um simples blogue de jovens que ―brincavam‖ informando, passamos a ser uma fonte segura de difusão de acontecimentos literários moçambicanos para além fronteira, e os de além fronteira para dentro do País. Somos finalmente uma revista literária. Contudo, essa concepção ―revista‖ é reflectido principalmente no produto final, os conteúdos já prontos e distribuídos para os leitores. Mas por dentro, institucionalmente, ainda estamos distantes, em termos de recursos para que se efective esse anseio. Isso é que propicia as paragens que vamos tendo, porque, sendo o Movimento Literário Kuphaluxa, uma agremiação sem fins lucrativos e que, os seus trabalhos, consequentemente, não gerem lucros, o mal de falta de condições financeiras e materiais para a execução de alguns projectos, tal é o caso da revista Literatas, ainda nos perseguem. Dentre vários, o caos maior, é a falta de equipamento informático para a efectivação dos trabalhos editoriais. Assim, sem o computador, que é o principal meio que nos possibilita editar a revista, não é possível que a mesma funcione. Decidimos acabar com silêncio e ―denunciar‖ este embaraço que passamos para trazer a informação sobre as literaturas que envo lvem esse mosaico que é a Língua Portuguesa disperso entre os continentes, a fim que os leitores não só compreendam as nossas ausências, em algum momento, até em situações em que se obriga a nossa presença, mas que, principalmente, seja possível, o envolvimento de todos na solução desses problemas. Entretanto, hoje dia 17 de Fevereiro de 2012, de onde paramos, queremos voltar a contar os passos para o horizonte e voltarmos a trazer semanalmente (agora às sextas-feiras), aos amantes da literatura, estudantes, professores e as respectivas instituições de ensino, em fim, público em geral, os assuntos que vão marcando o mundo das letras em Moçambique e em outras partes. E começamos com esta edição com a Homenagem ao Mestre Zé. José Craveirinha. O considerado maior poeta de Moçambique de dimensão mundial. Uma lenda na história da Literatura Moçambicana. Nesta e nas próximas páginas, queremos dizer Bayete (invocação) ao Madala (velho) Zé. Assim mandam as normas tradicionais do nosso áfrico país. Em África, quando o Homem morre, torna-se um deus - Com direito a que se santifique o seu dia de nascimento, dia de morte e suas obras. E assim procede com o Poeta-mor que não só os políticos o nomearam herói nacional. Mas os seus leitores assim também o nomeiam mestre entre os artistas. Monstro Sagrado. Que a sua obra se imortalize e se propague em todas gerações. Este é o contributo do Movimento Literário Kuphaluxa e da revista Literatas, em particular. Óptima leitura.

Eduardo Quive eduardoquive@gmail.com


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Rita Chaves — Brasil

José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade

O texto reconhece a relação entre poesia e experiência como um elemento central na produção de José Craveirinha e partindo desse ponto examina o percurso dessa escrita que, ao colocar-se ao lado dos excluídos da ordem, empenha-se numa luta contra a exclusão enquanto principio. Processo utilizados pelo poeta moçambicano para fazer de sua poesia um exercício de resistência ao canto da dominação (do tempo colonial às trapaças do presente) constituem o objecto do artigo. Fonte: União dos Escritores Angolanos

A

poiadas na convicção de que a vida do autor e a obra não se confundem, muitas das teorias da literatura defendem que a análise literária não se pode fundar sobre a biografia do autor. No entanto, mesmo condenando o biografismo, alguns estudos literários de grande qualidade vêm recuperando a noção de experiência como eixo de certas escritas. Sem se fazer uma leitura directa da projecção das circunstâncias históricas sobre a criação literária, é possível buscar a relação entre as vivências e a invenção que se examina. E, se a força da História não deve ser minimizada na abordagem da literatura, em se tratando da produção dos países africanos de língua portuguesa a compreensão desse peso merece atenção especial. Em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o contacto com os dilemas que a História arma é tão vivo que a sua dimensão surge visivelmente concreta no quotidiano das pessoas que escrevem e sobre as quais se escreve. Ao reflectir sobre o processo de sistematização de nossa literatura, o Prof. António Cândido refere-se a sua inserção na vida nacional como uma característica cultural de países novos, em contraste com o que apresentam os do Velho Mundo (1). No caso dessas terras acima citadas, a questão dos símbolos nacionais, da bandeira, do hino, a eleição e/ou demissão dos heróis nacionais permanecem na ordem do dia, indicando que a nacionalidade é ainda uma fonte de discussão na qual intervêm elementos de ordem vária. A cor da pele, a participação na luta, a permanência ou não em cada um desses países durante os largos e complicados anos de carência são frequentemente evocados para distinguir as pessoas. As conversas sobre os que ficaram e os que partiram, motivados pela discordância política, pela incapacidade de suportar as dificuldades, ou mesmo por circunstâncias da vida pessoal, traduzem a inesgotabilidade de um tema que se reacende agora com a volta dos que partiram ou chegada dos descendentes em busca de um lugar no panorama que se abre. Em Moçambique, por exemplo, a expressão ―os que fizeram a travessia do deserto’’ é frequentemente utilizada para designar aqueles que permaneceram no país, resistindo a tantas pressões, apostando de algum modo no projecto da independência. Desse debate não se excluem as remissões ao repertório literário e surgem, com alta frequência, os termos angolanidade, cobaverdianidade e moçambicanidade, revelando a preocupação quanto à ligação com aquilo que seria considerado uma prática literária voltada para dentro dos países. A dialéctica entre o que é próprio e o que vem, ou veio de fora ocupa ainda um importante terreno. Mesmo se nos depoimentos dos escritores ou nos estudos críticos esses conceitos vêm ganhando ou perdendo sentido em função da própria discussão sobre os processos históricos seguidos por esses sociedades, com reflexos nas construções culturais que se vão formando, a questão permanece acesa. Vale ressaltar que no presente já não se proteja, com tanta ansiedade, no reconhecimento da ligação com a terra o critério de valor literário. Em outras palavras, a identificação de referentes nacionais não é por si garantia de qualidade. Há obras boas e obras más às quais o epíteto de genuína caberia. Em tom de blague, poderíamos até dizer que já se pode falar em textos angolanamente, caboverdianamente ou moçambicanamente ruins. Ou seja, com razão, ou não, o fato é que o debate existe, demonstrando que a construção nacional é, em verdade, um corpo em manifesto movimento. Tentando simplificar, eu diria que entre a sociedade moçambicana persiste a crença de que a nacionalidade é uma espécie de atestado que se conquista, no plano colectivo e no individual. Como uma espécie de rito de passagem, cujos passos variam em função de muitos dados. Indicados alguns pontos centrais na discussão que envolve a literatura em Moçambique, volto-me, então, para a obra de José Craveirinha. Diante do quadro histórico - cultural em que está inserida sua produção, para percorrer um pouco de sua poesia- aceitei a orientação da sua própria histó-

Sem qualquer dúvida, pelo nascimento e pelo itinerário trilhado, estamos diante de um cidadão e de um escritor cuja moçambicanidade não foi jamais contestada por nenhum sector. José Craveirinha é filho de pai português e mãe africana, um fato mais comum na cena colonial brasileira do que no quadro moçambicano. Não sendo trivial, a situação também não está nos limites do insólito, considerando os traços associados ao colonialismo lusitano. Mas o fundamental é que o fato não foi por ele banalizado: merecendo um grande espaço em sua produção poética, é, tratado como uma questão vital na montagem do olhar com que fita a sociedade em que nasceu e que ajudou a transformar.

Com um ―pé em cada lado’’ ele, não é difícil deduzir, poderia ter escolhido o lado do privilégio, até porque, após alguns poucos anos com a mãe, ainda muito menino foi levado para a cidade de cimento, onde viveria com o pai e sua nova mulher, uma senhora portuguesa branca que, sem filhos, resolve criar os filhos do marido. Com a mudança, abre-se um outro universo, povoado de referências interditadas aos moradores dos subúrbios: outra língua, outros hábitos, outros valores, outra forma de estar no mundo. Nos moldes da construção colonial, o dilema deveria ser fatal: ou uma coisa ou outra. E ele escolheria a África. Como cidadão e como escritor. Porém o que mais surpreende é que a decisão, se faz numa atmosfera de serenidade, pautada pela consciência de quem se sabe resultado de um par que pode ou não ser inconciliável. Ao ler o mundo

que lhe é dado conhecer, reconhece que é provável mas não imperiosa a ruptura total. Remexendo terrenos que apenas pareciam assentados, o poeta procura refazer o rumo das coisas. Num poema bastante famoso ele oferece uma das chaves para a compreensão de sua trajectória: ― E na minha rude e grata sinceridade filial não esqueço meu antigo português puro que me geraste no ventre de uma tombasana eu mais um novo moçambicano semiclaro para não ser igual a um branco qualquer e seminegro para jamais renegar um glóbulo que seja dos Zambezes de meu sangue’’.(2)


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Rita Chaves — Brasil Continuação — José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade

Nos versos exprime-se sua versão ao colonialismo, sentimento combinado, entretanto, com a sensibilidade de quem compreende a complexidade das situações engendradas pelo sistema. Recusando os colonialistas, o poeta revela a compreensão, às vezes até a sua solidariedade para com os portugueses pobres que vinham de longe e ali viviam e morriam como tal. O lugar de origem não bastava, portanto, para definir a imagem acabada do homem que para a África se deslocava em busca, certamente, de melhores condições. Nesse compasso, o ―outro ’’ganhava dimensões, liberto daquela visão reificadora que acaba por empobrecer não só o objecto mas também o sujeito que olha. No diálogo que seus poemas estabelece com o pai, representante dessa estirpe de homens trabalhadores, embora portador de outras marcas culturais, projecta-se a capacidade de ler para além da superfície, alcançando sentidos novos e maiores. Na disponibilidade para reconhecer o outro, todavia, não se nota qualquer indício de adesão, visto que a opção se faz clara: ― Ah, Mãe África no meu rosto escuro de diamante de belas e largas narinas másculas frementes haurindo o odor florestal e as tatuadas bailarinas macondes nuas na bárbara maravilha eurítmica das sensuais ancas puras e no bater uníssono dos mil pés descalços‖. (3) Abrigadas pela Terra que fez ―moçambicano o sangue do Pai, ―as ibéricas heranças de fados e broas’’ (4) barram a incompreensão e o ressentimento que a divisão entre esses dois mundos que a obra registra (e a vida comprova) poderia ter gerado. Principalmente se considerarmos que, talvez mais do que qualquer outra cidade colonial portuguesa, a capital de Moçambique estava assentada sobre a segregação. As expressões ―cidade de cimento’’ e ―cidade do caniço’’ frequentemente utilizadas na literatura traduziam uma sepação de espaços sócioculturais ainda muito mais rígida que o par ―musseque / cidade do asfalto’’ tantas e tantas vezes presente na literatura angolana. Ao optar pelo universo dos excluídos, Craveirinha recusou ao mesmo tempo a exclusão como procedimento. Sem diluir a força da contradição que é, seguramente, o princípio ordenador do mundo colonial, a sua poesia reflecte a coexistência de contrários que não precisam se agredir. Na relação com as línguas que habitam o seu universo cultural podemos localizar um exemplo. Em inúmeras entrevistas, aí incluindo a que me foi concedida em fevereiro de 1998, ele afirma que gostaria que as sociedades moçambicanas fossem bilingues. Apaixonado pela Língua Portuguesa, Craveirinha, desde o tempo colonial, insurgia-se contra a penetração do inglês no dia a dia de Moçambique. Em crónicas publicadas nos anos 60, ele já reclamava do uso da língua dos territórios vizinhos na denominação de casas comerciais e tabuletas indicativas na capital moçambicana. A esse apreço o escritor mesclava o amor pelas línguas africanas. Por isso, não se cansa de reiterar a sensação de mutilação experimentada quando, na fase da mudança para a cidade de cimente, foi proibido de falar o ronga, a língua primeira, língua da mãe, língua da afectividade. E é a ela que recorre em muitos poemas. Não para ―enfeitar’’ o texto, mas porque acredita que dela depende a expressão de certos sentidos. Para falar da natureza, de práticas culturais, das marcas que lhe chegam da ligação com a terra, são os nomes das línguas bantu que lhe vêm em socorro: ― E outros nomes da minha terra Afluem doces e altivos na memória filial E na exacta pronúncia desnudo-lhe a beleza Chulamáti! Manhoca! Chinhambanine! Morrumbala! Namaponda e Namarroi E o vento a agitar sensualmente as folhas dos canhoneiros Eu grito Angoche, Marrupa, Michafutene e Zôbuê E apanho as sementes do cutiho e a raiz de Zitundo. Oh, as belas pernas do meu áfrico País (6) Evitando o perigo da folclorização a poesia parece mergulhada de modo intenso nesse universo cultural de onde vêm as palavras e os objectos que os poemas resgatam. Nesse movimento intervem o próprio ritmo, como a confirma sua integração no lugar de origem. Os tambores, as marimbas, o xigubo não são peças de adorno, são elementos que sugerindo a cadência dos versos integram a estrutura textual. Recorrendo uma vez mais a António Cândido, pode-se dizer que, assim incorporados, elementos externos convertem-se em traços estruturais dos textos literários, transformando-se desse modo em matrizes de significado a requerer interpretações mais atentas. (7) Dessa imersão na terra resulta a elaboração das imagens que se multiplicam pelas páginas de seus livros. E, a tornar distante o risco da exotização, ergue-se o apego às gentes que habitam essa terra.

A obra poética de José Craveirinha é povoada por homens e mulheres que, guardando a dimensão existencial que os humaniza, apresentam-se numa relação concreta com a vida: têm corpo, tem doenças, têm tradições têm definidas as marcas sociais que os particularizam no conjunto um tanto amorfo a que se poderia chamar de moçambicano, africano ou mesmo negro. Sendo importantes, essas denominações não se mostram suficientes. O peso da História é sentido e estabelece delimitações que permitem identificar os seres apanhados pelos olhos atentos de quem cruza as ruas da cidade e nelas capta a ordem do mundo. Ao recolher a Historia, Craveirinha também definiria a geografia de sua poética: são os bairros periféricos, os subúrbios de caniço, que cresciam à volta da senhorial Lourenço Marques. O Xipamanine, as Lagoas, a Mafalala, onde viveu muito tempo e da qual não se afastou muito, mantendo sua casa a poucas centenas de metros, serão privilegiados em sua travessia poética. Por esses espaços, onde faltam condições básicas de saneamento e sobram doses de humanidade, o poeta circula e dali parece extrair a energia para sua indignação. Na comovida comunhão do poeta com esses deserdados enraíza-se uma poesia de ―partisan’’. Vista na clave da injustiça, a pobreza não é cultivada ou justificada segundo os modelos do conformismo cristão. Os pobres não são os humildes, são os humilhados, os excluídos, os penalizados pela desigualdade – o grande signo da dominação colonial. Ao tematizar a vida difícil da prostituta, o poema não procura idealiza-la. Com cores firmes, busca enquadrá-la na moldura das iniquidade que a sociedade alimenta: ―Eu tenho uma lírica poesia nos cinquenta escudos, do meu ordenado que me dão quinze minutos de sinceridade na cama da mulata que abortou e pagou à parteira com o relógio suíço do marinheiro inglês. (...) E eu sei poesia Quando levo comigo a pureza Da mulata Margarida Na sua décima quinta blenorragia.’’ (8) No mesmo processo, a terra que então aparece é mais do que uma entidade mítica. Ela é concreta na presença mediada também pelos produtos nela cultivados. O algodão, o sisal, o chá, o tabaco, elementos de revelo na economia da então colónia, participam na economia textual, gerando as imagens, constituindo as metáforas, compondo as metonímias que vão surgerir a idéia de nação que a obra prenuncia. Desse mundo rural, onde não por acaso iniciou-se a luta de libertação, provinham os grandes contingentes de moradores dos subúrbios crescendo à volta das cidades construídas sobre os pilares do colonialismo. Não seria arriscado afirmar que alguns dos elementos fundadores da poética de Craveirinha são extraídos desse universo rural directamente associado ao trabalho. E entre eles destaca-se o carvão, cuja força se manifesta num de seus poemas mais conhecidos: ― Eu sou carvão! E tu arrancas-me brutalmente do chão E fazes-me tua mina Patrão! Eu sou carvão E tu acendes-me, patrão Para te servir eternamente como força motriz Mas eternamente não Patrão! Eu sou carvão Tenho que arder E queimar tudo com o fogo da minha combustão Sim Eu serei o teu carvão Patrão!’’ (9)

O próprio título do poema ―Grito negro’’ dirige nossa atenção ao problema racial, não há dúvida. No entanto, a questão racial é desnaturalizada e deve ser encarada igualmente como uma das faces da exploração. E foi por essa via que Craveirinha, como o angolano Agostinho Neto e a também moçambicana Noémia de Sousa, se relacionou com a Negritude. Ultrapassando as fronteiras de uma proposta centrada na valorização estética, os escritores de Angola e Moçambique preferiram dar ao problema contornos que permitissem considerálo na sua dinâmica social. Ou seja, o essencial para o negro seria investir na conquista de um lugar nas sociedades de que ele era parte: tornar-se sujeito de sua História e fazer-se protagonista de seu espaço seriam modos de efectivamente libertar-se do processo de reificação a que parecia condenado. Nesse sentido, Craveirinha, como Neto e Noémia, afasta-se do matiz estetizante das teorias de Leopoldo Senghor e aproxima-se da postura de Aimé Césaire e Frantz Fanon, encarando o racismo no centro da engrenagem colonial. À proposta de recuperação das manifestações culturais estava vinculada a necessidade de alterar a correlação de forças que balizava a ordem social. Por isso, não se mantinha alheio ao sofrimento efectivo dos explorados, como demonstra o poema que tematiza o massacre de trabalhadores sulafricanos em Sharpevilhe. Para Craveirinha à questão racial articulava-se o sentido de classe, deixando clara a ligação com as camadas populares.


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Invocação

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Eduardo Quive

Velho Zé Oh! Velho Zé, Cá estamos nós A mendigar o nada Nada que é seu espólio Nada que és tu entre os homens e outros homo Nada de poeta que te exaltas ser Nada no além que favorece estes dias.

Zé, Velho homem que seria de 90 Tão 9 é o seu desaparecimento, rapaz. Mergulhado no silêncio que o além apadrinha Cúmplices do nada que te exaltas ser.

Velho Zé, E mesmo nada não és E mesmo nada tens E mesmo nem poeta és E mesmo, apenas de Mafalala és.

Ah! Golpe baixo velhote, Tão autodidata tu és. E tão autodidáctico é o seu Nkaringana wa Nkaringana Tchaiaste a todos e encheste de Babalaze, as Hienas desta farta savana Foste ao encontro dos tigres e deste-os as Saborosas Tangerinas de Inhambane. Tão boa é gente dessa cidade E tão bom foi o gostinho de ver às tsotsonhas a língua desses felinos

Zé E nem para medo és nada Mesmo ai onde a 9 anos te encontras Se em versos e crónicas o desconsegues Dá-lhos um soco igual a do Joe Lous Dá-lhos com ntsilana da Mafalala Se esses crespos fios de cabelos seus minguarem por culpa deles …

Ntsilana Varinha de porrada a moda Joe Louis Na boina preta em que teus versos militam. E disse tu Porque tu és tu Um tu e um nada Apenas descendente do não Irmãos Rubi E esses tu não conheces Tu Zé, és do Zilhalha, Ao estilo das línguas do seu áfrico país.

Poeta? Oh! Zé, Nem se quer te acuses Tão dura missão entre doutores Tu, Zé, deste um K.O a todos eles

Tchaia-os Zé Tchaia-os Tchaia-os com os seus versos que será o melhor K.O

Esse sou eu velho Zé Desconhecido amigo seu. Reconheces-me?


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Rita Chaves — Brasil Continuação — José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade

Do ponto de vista da construção poética, essa ligação se adensa na evocação da tradição oral. Sem hesitação, muitos dos poemas de Craveirinha assumem uma tonalidade narrativa que parece reflectir o quadro da interlocução que é própria da comunicação oral. É verdade que no mundo já tocado pela fragmentação não há lugar para a sabedoria épica do narrador tradicional, como nos ensina Walter Benjamim em seus brilhantes ensaios sobre o romance (10), mas o poeta não se quer desligar de suas matrizes e cultiva a cumplicidade da conversa, como a deixar que se perceba a origem de sua experiência. Em «Maria», cujo móvel é a morte de sua mulher, a situação de um hipotético diálogo se reproduz em quase todas as páginas. Numa espécie de ―vida passada a limpo,’’ os poemas vão recolhendo, recompondo, avaliando e reavaliando, no penoso contacto com a solidão, as experiências abertas pela vida. Mas o que é enfatizado em «Maria», já surgia noutros livros. Em «Karingana ua Karingana», um dos primeiros, essa atmosfera aparece expressivamente em ―Dó sustenido para Daico’’(11), poema alusivo à morte de um famoso músico e companheiro do poeta. Como o escritor, Daíco integra um grupo de mestiços e negros que, graças a um talento particular, conseguia romper a barreira e projectar o seu nome para além das fronteiras do asfalto que dividiam a cidade. Entre esses vamos encontrar alguns que tiveram projecção internacional como Eusébio e Hilário (jogadores de futebol) e outros que, embora famosos, não ascenderam socialmente como o próprio músico. De qualquer modo, seu sucesso conferia uma mística ao bairro onde viveram todos: a Mafalala, que graças ainda a outras particularidades, ocupa um lugar especial no mapa cultural da capital da país e no repertório literário de José Craveirinha. Movido pelo silenciamento do músico, o poeta escreve:

Nós, na escola, éramos obrigados a passar por um João de Deus, um Dinis, os clássicos de lá. Mas, chegados a uma certa altura, nós libertávamos. E, então, enveredávamos por uma literatura errada: Graciliano Ramos... Então vinha a nossa escolha, pendíamos desde o Alencar. Toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura Brasileira. Então, quando chegou o Jorge Amado, estávamos em casa. Jorge Amado marcou-nos muito por causa daquela maneira de expôr as histórias. E muitas situações existiam aqui. Ele tinha aqui um publico. Havia aqui a policia política, a PIDE. Quando eles fizeram uma invasão à casa, puseram-se a revistar tudo e levaram o que quiseram levar. Ainda me lembro: levaram uma mala e carregaram os livros, meus livros. Levaram os livros e as malas até hoje como reféns políticos. Depois de eles irem embora, é que minha mulher disse: - E o Jorge Amado? Onde estava o Jorge Amado? Nessa altura, já estavam atrás do Jorge Amado...’’ (13) Pela pista do escritor, evidencia-se que o tratamento das situações, em certa medida comuns às duas realidades, estava no centro da aproximação. Isso significa que a denúncia das desigualdades sociais – essa injustiça quase estrutural na sociedade brasileira – tornou-se uma espécie de senha para a comunhão. Mas não estaria aí a única ponte entre os dois espaços. Como se pode notar na passagem transcrita, ao mesmo tempo vigorava uma vontade de pertencer a esse espaço, ou melhor dizendo, a um espaço como esse. O universo cultural fortemente preenchido por manifestações da chamada cultura popular como a música e o futebol fazia com que aos olhos dos afri―Carol: canos predominasse a imagem da ex-colónia que havia dado certo. A acredita que lá fomos todos lenda da convivência racial e da cordialidade entre as classes era o sentimento aumentado à branco nas gravatas pretas consumida como real e dinamizava-se um modelo que, mesmo sem aborrecidos levar à derradeira casa um poeta corresponder à verdade, alimentava o desejo de transformação do que excedia o universo inferno em que se constituía a vida no interior da sociedade colonial. certo à música do seu mundo O que é surpreendente, e para mim fascinante, é que sendo um país é que até os fatos largos que vestia, vê lá tu marcado pela crueldade das relações sociais, pela prática terrível do coincidiam sempre com a pequenez das pessoas racismo, pela manutenção de estruturas coloniais em nossa forma de que lhos davam em segundos mão. estar no mundo, o Brasil acabaria por ofercer uma imagem modulada estas a ver Carol pelas da utopia. O fato ganha ainda maior interesse se nos lembramos o Daíco chateado foi-se embora que a imagem do brasil como um espaço harmónico era usada pelo mas ficou no ―long-plaing’’ da Mafalala discurso metropolitano para propagandear a sua vocação colonizadomulato cafuzo a vibrar as cordas para sempre ra. Não é demais recordar a viagem de Gilberto Freyre às colónias e agora ele já não pensa mais em repetir o clássico gesto indicador na minuta suburbana de explicar portuguesas na África, nos anos 50 e a utilização feita pelo salazarisas consequências dermotrágicas da vida mo de sua declaração sobre a especificidade da colonização portuna contrapalma das próprias mãos.‖ (12) guesa. Para azar da metrópole, o Brasil foi apanhado numa outra chaAlém da ligação com a matriz oral que está na base da tradição cultural ve, catalisando a indignação progressista dos africanos. A poesia de moçambicana, em poemas como esse podemos perceber outra fonte de inspira- Craveirinha não se limita aos contactos com a literatura brasileira. ção, também confirmada pelo próprio poeta em diversas ocasiões. Trata-se da Seu olhar salta sobre as fronteiras e procura o encontro com outras formas presença da literatura brasileira na formação da literatura nacionalista dos paí- de cantar a desagregação vivenciada pelos excluídos. Daí resulta a aproxises africanos de língua portuguesa. A cultura brasileira constitui para gerações mação com a música negra norte-americana. O jazz e o blue assomam com de angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos um terreno fértil de leituras e frequência como a estabelecerem o diálogo que a História tentou cortar. reflexões. A distensão linguística, o desejo de aproximação com os sectores Um diálogo que se torna mais forte e fecundo após a independência do país populares, os movimentos de procura do referente nacional foram pontos apa- em 1975, a despeito das frustrações que também se fazem sentir no quotinhados pelos escritores africanos empenhados na constituição de sua identidade diano do cidadão e estão sinalizadas no trabalho do poeta. Do jazz e do blue, Craveirinha incorpora o legado do ritmo apoiado no vircultural. A valorização da coloquialidade como instrumento de resgate do universo à tuosismo poderoso dos contrastes expressos na força das imagens inesperamargem dos padrões lusitanos revelava-se como um dado positivo a ser incorporado das, das antíteses espelhando a riqueza desgovernada do canto que procura pelo projecto literário em formação. Valorizar a língua falada dessa maneira era uma reinventar a vida onde ela parece interditada . Os volteios, as repetições, os forma de valorizar as pessoas que assim falavam, tal como defendiam os protagonistas jogos sonoros são trazidos para o texto, confirmando a adesão a um univerdo Modernismo no Brasil. so de valores que, localizado num solo definido, não se exime de buscar É bom esclarecer que embora tivessem adotado algumas das propostas veiculas correspondência com outros sistemas culturais. Dessa maneira, ao lado

pelos nossos modernistas de primeira hora, não foram esses os autores mais lidos e Moçambique, excepção aberta para Manuel Bandeira. De Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, um outro poeta bastante prestigiado entre os moçambicanos, a produção mais acolhida seria a de livros como Sentimento do mundo e A rosa do povo, publicados muitos anos após a famosa semana de Arte Moderna. O encantamento maior viria com o romance dos anos 30, ou seja, com os chamados regionalistas da prosa de ficção. Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós e, principalmente, Jorge Amado são referências obrigatórias na memória desses escritores. E é bom ouvir aqui as palavras do próprio Craveirinha sobre o tema:

de Daíco e Fani Fumo, dois dos grandes nomes da música popular moçambicana, aparecerão Dizzie Gizlepie e Bessie Smith, numa indicação de que a noção de pureza cultural é nota sem sentido na dinâmica que as trocas culturais podem instaurar desde que impulsionadas pela força das identidades. Desse modo, o fenómeno da apropriação ganha legitimidade, porque abre espaço para a revitalização de formas e sentidos. A ampliação do universo de José Craveirinha, esse escritor tão identificado

com sua terra e suas gentes, se revela ainda mais intensamente em Maria, quando os textos traduzem a densidade de um exercício poético no qual ―Eu devia ter nascido no Brasil, porque o Brasil teve uma influência muito grande na interfere o processo fino da maturação de tantas vivências. No construído população suburbana daqui, uma influência desde o futebol. Eu joguei a bola com os diálogo com a mulher recordada em cada poema montam-se as cenas que o jogadores brasileiros, como, por exemplo, o Fausto, o Leônidas da Silva, inventor da passado é também resgatado para dar conta da explicação do presente, frabicicleta. Nós recebíamos aqui as revistas (...) E também na área da literatura. gilização pelo vazio que a solidão multiplica.


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Poesia FICHA TÉCNICA

Outras Margens A Cesariana dos Três Continentes Corsino Fortes- Cabo Verde

Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Direcção e Redacção Centro Cultural Brasil - Mocambique

Av. 25 de Setembro, N°1728, C. Postal: 1167, Maputo Tel: +258 82 27 17 645 / +258 84 07 46 603 Fax: +258 21 02 05 84 E-mail: kuphaluxa@sapo.mz Blogue: literatas.blogs.sapo.mz

DIRECTOR GERAL Nelson Lineu (nelsonlineu@gmail.com) Cel: +258 82 27 61 184 DIRECTOR COMERCIAL Japone Arijuane (jarijuane@gmail.com) Cel: +258 82 35 63 201 EDITOR Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Cel: +258 82 27 17 645 CHEFE DA REDACÇÃO Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br) Cel: +258 82 57 03 750 REPRESENTANTES PROVINCIAIS Dany Wambire—Sofala () Lino Sousa Mucuruza—Niassa () Mauro Brito—Zambézia () COLABORADORES FIXOS Izidine Jaime, Pedro Do Bois (Saranta Catarina-Brasil) , Victor Eustáquio (Lisboa) COLUNISTA Marcelo Soriano (Brasil) FOTOGRAFIA Arquivo — Kuphaluxa PARCEIROS Centro Cultural Brasil—Mocambique Portal Cronopios www.cronopios.com.br Revista Blecaute Revista Culturas & Afectos Lusofonos culturaseafectoslusofonos.blogspot.com

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Antes da moeda do corpo Ao capital da alma Antes da luz no mar da memória E da pedra & vento na erosão do rosto Éramos no verão da terra A semente sem primavera Éramos a exclamação Do lon na lonjura Dando Pernas aos montes E braços às montanhas Dando face & sentido Às dunas do mar alto Que respiram as coxas os seios o sexo de Sahel

Bruta Pedro Du Bois -Brasil

A pedra brutamente cortada brutamente transportada brutamente transformada brutamente assentada brutamente cinzelada brutamente esculpida brutalmente polida na pedra bruta remanesce. (Inédito) José Craveirinha-Moçambique

“ Mesmo exibindo artes de calemburismo lexical ou hábeis enxertias de sintaxe, não rejeitamos ser herdeiros por direito de usufruto da língua portuguesa. Politica de politicastros à parte, a verdade é que nos custou maningue caro e está bem caro o direito de falarmos e escrevermos em português, mas… com uma expressão moçambicana, ou angolana, ou guineense, ou cabo-verdiana, ou são-tomense, ou timorense”.

O Eco do Pranto

Música Sanguínea

Agnelo Regalla -Guiné-Bissau

Ana de Santana- Angola No cimo do tambor continuar brincando, queria, mas não, Cantar o belo, mas as mãos, os olhos, a carne? (quanto sofre a carne inconformada) ter olhos passando tempo pelo imediato, eu passo por aqui, sempre (como não encontro o infinito) a angústia no caso que não há. Como romper, rasgar para essa lua entrar, que luz? Aonde o sol e o tempo para soltar a voz, a fórmula do amar à força de estar, quem entende? Oh, discreto riso, suave tristeza, olho molhado, olhando-se, amor fardado (falhado?) o que será dessa música sanguínea?

Não me digas Que essa é a voz de uma criança Não... A voz da criança É suave e mansa É uma voz que dança... Não me digas Que essa é a voz de uma criança Parece mais Um grito sem esperança Um eco Partindo de fundo de um beco Não me digas Que essa é a voz de uma criança, Essa é doce e mansa É uma voz que dança... Esta parece mais Um grito sufocado sob um manto - O Eco do Pranto.

Poeta Mia Couto - Moçambique (ao José Craveirinha) Escreveste e toda a tua vida se tornou um livro. As páginas das nossas mãos são o rio de tuas palavras. Choveu, tu não pediste protecção. A tua boca encheu-se de raízes e nós fomos camponeses lavrando entre sonhos e parágrafos. Sangraste mas escondeste a ferida, recolheste a dor e cantaste. Agora ninguém mais encerra os poços onde bebeste. Eterna e a água. Breves são os lábios que nela humedecem. 22.10.1983


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Invocação

Poemas dedicados a Maria José Craveirinha e sua esposa, Maria

Calane da Silva vai palestrar na Universidade de Dar-es-Salam

A nossa casa Ambição Minha e da Maria foi termos uma casa nossa onde nos contarmos os cabelos brancos. Sonho realizado Casa definitiva já temos. Lote 42. Talhão 71 883. Fachada pintada a cal. Clássica arquitectura rectangular. Uma via asfaltada com um único sentido. Tudo sito no derradeiro bairrismo que é morar no bairro de Lhanguene. Pelo menos envelhecer já não é problema. O resto na altura mais propícia Surgirá por si. Parece que está por pouco. Na lista onde eu consto É justo que tarde Estarmos juntos.

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Ausência Mais feliz do que eu nossa mútua ausência a ti minha esposa já não te dói. Enquanto é meu quotidiano mentir a mim próprio …

De Profundis Extenso dia taciturno de nuvens. nas ramadas passarinhos de mágoa lacrimejando chilros. Um abraço policromo de flores perfumando de profundis de coroas. Tão duro assim lacónico nosso adeus de rosas, Maria.

Que me faço artefacto vivo ainda.

Memória dos dois Ambos juntos na mesma memória Eu o Zé que não te esquece Tu a Maria sempre lembrada.

Posfácio Nostalgias de Maria são já o posfácio de um Zé Póstumo em única edição. Capa: Anónimo. Tiragem: Este exemplar.


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Japone Arijuane


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Amosse Mucavele

QUEIXA TÓRIO INFALÍVEL A UMA ALMA VISÍVEL

M

Ao Madala José Craveirinha

adala Craveirinha (As luzes dos ditos heróis nacionais murcham na cripta das lágrimas do teu povo (O espelho que reflecte os percursos e as cores da cidade pulu-

lam nas mãos de um suburbano (Madala) (As acácias já não florescem na alegre torcida dos karingana ua karingana dos tsongas. mas morrem num infalível tiroteio a seu aberto da urina destes estrangeiros de nós mesmo. de vozes nauseabundas que transportam o lixo doméstico para a banda sonora das avenidas que não nos conhecem (o lixo virou luxo nacional) Madalouuuuuuuuuuuu Quem escuta e quem entende a música do Kim Il Sung, Ahmed Sekou Touré, e Karl Marx? E o Maguiguana, o Ngungunhane, o Zilhalha quando é que irão passar a sua classe que ainda anda desclassificada nas avenidas desta cidade? (Chora o povo a cada rufar do batuque musicado no vazio dos discursos vazios, nas margens da cidade. ONDE (O rio de lágrimas flameja nos telhados de madeira e zinco dos nossos Lhamankulo,Tlhavane e Mafalala bêbedos do alcatrão que derrete nos partos á cesariana das universidades isentas de universalidade em constante crescimento no atraso, sentido

-

para baixo e para trás

(onde chupa-se livros como caixas de ressonância e não se amamenta do leite da vida) quantos pensadores formados? Apenas licenciados! Que continuam a pastar o seu mestrado na rua, a espera da boleia, chegará? O desemprego é o primeiro autocarro que segue a frente da carroça cheia de maçaroca. Madala Aqui nada mudou desde o ano em que a mudança foi feita a força. Tudo piorou para o pior. Agora o povo já não tira partido na neocolonialização hasteada nas ideias (não no ideal) do partido. A estrada que separa o norte do sul continua a mesma a N1.a única. Assim que choveu a água uniu o fio que nos separava a catanada E agora o País ficou amputado pela força da água das chuvas, sem moletas, tal como o arrozal do Chokwé, o ananazal do Muchungué condenados a morte lenta, atenta ao olhar nú da epopeia 50 vezes menor as suas promessas. Madala Em Quelimane eles foram lá todos, invadiram a cidade, mas não conseguiram engravidar o povo, pois o povo já não dorme completamente, e esqueceram-se que toda a mulher atinge a menopausa aos 50 anos. Madala Agora tudo mudou, tudo é cantado até Auto estima, a polícia já não exige o B.I a pergunta que se faz a seguinte: Você faz parte de que geração?


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Publicidade Maputo é capital política e económica de Moçambique

Em Agosto de 2012 Homenageando a mãe dos poetas moçambicanos, Noémia de Sousa

Será a capital da Literatura

Festival Literário de Maputo Saiba como participar em: http://festivalliterariodemaputo.blogspot.com festivalliterario.maputo@gmail.com

Para ser parceiro ligue: +258 82 57 03 750 +258 82 35 63 201


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Rita Chaves — Brasil Continuação — José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade Nas coisas triviais, nos actos repetitivos do dia-a-dia, o trabalho poético insiste em recolher os pedaços para refazer os mundos que a poesia quer espelhar: ―Em meus livros cinzentos buços denunciam desditoso abandono. (...) Paciência, Zé, me insinua este sudário de poalha nos livros.’’(18) Nessa espécie de roteiro retrospectivo que os poemas compõem, vive algo que vai além da dor individual. A experiência do sofrimento, captada pela capacidade criativa da linguagem lírica, supera as margens da pena pessoal e incursiona pelo terreno dos limites do homem diante da morte. Na enumeração dos objectos desorganizados pela falta de quem lhes assegurava ordem e sentido, na montagem das imagens recortadas pelo moldes do desânimo e da angústia, na descrente procura de um significado para os dias que, implacáveis, se sucedem, espelha-se, mais que o sofrimento pessoal, o drama da condição humana, a pena do homem em confronto com o irreversível, com inexorável da finitude da vida. O poeta sente-se só com a consciência de que nem mesmo a capacidade fabuladora da linguagem pode remediar o absurdo da situação que tem que enfrentar. Desconfortável na perdida intimidade com as coisas, o corpo transfere para a memória a faculdade de recompor o mundo. E ela vai buscar a companhia de seres que povoando o imaginário do poeta enriqueceram o seu universo tão seguramente calcado nas matrizes africanas. Convicto de que ―o poeta é sempre os outros’’, como afirmou numa entrevista ao escritor e jornalista Nelson Saúte, Craveirinha aceita a companhia de representação da música, do cinema, da literatura, de todas aquelas formas de vida que respondem à necessidade de fantasia do homem. E, nesse momento, as muitas possibilidades de encontro seduzem-no como um movimento compensatório, a driblar o isolamento imposto pelas circunstancias do presente. Se a escrita converteu-se

em forma de resistência, nesse momento de tormento pessoal, também a leitura transforma-se em fonte de energia e saltam nas páginas as referências aos que vêm acompanhá-lo na duríssima lida do quotidiano: ―No verão ou no inverno fiel espera-me um jantar A dor da perda pessoal compõe com as notas do descanto colectivo uma melodia irrefutavelmente frio. dilacerada, totalizada pela insolubilidade da ausência da parceira. Quando, anos Vou ter com Dostoiewski antes, o adversário ameaçador era o regime colonial que o manteve preso, impondo e janto quente.’’ (19)

o risco da desagregação à vida familiar, os versos deixavam transparecer, com a Ao escritor russo, virão juntar-se muitos e muitos nomes, emerrevolta, a convicção de que era possível e preciso resistir: gindo de matrizes variadíssimas ratificando a certeza de que o ―Havia uma formiga mundo da arte se pode abrir a fecundos contactos. Com Jorge compartilhando comigo o isolamento Amado, Soeiro Gomes, Hemingway, Steinbeck, convive no palco e comendo juntos. que sua memória recupera a luminosidade dos astros do cinema, Estávamos iguais essa imbatível usina de fantasia. E ele convoca Ava Gardner, Liz Com duas diferenças; Taylor, Buster Keaton, Richard Burton, todos intervindo nas hisNão era interrogada tórias de que se alimenta a sua própria. O fundamental, no entane por descuido podiam pisá-la. to, é que tal evocação nem de longe se confunde com qualquer Mas aos dois intencionalmente cedência à alienação. Rejeitando com altivez o lixo que o mercaPodiam pôr-nos de rastos do globalizado insiste em servir, a poesia revitaliza-se no contacMas não podiam ajoelhar-nos.’’ (14) to com os valores que se tornaram património dos que apostam Agora o inimigo maior é a ―Grande Maldita’’(15) que levou Maria, condenando-o na beleza como forma de superar o desânimo e o conformismo. a um canário caracterizado pelo pó cobrindo as coisas e pela ausência de qualquer Mesmo que os tempos também no plano colectivo sejam de muihipótese de luz. Diante do inevitável, todas as noções se desfazem: o ser perde-se ta aspereza, como traduzem os poemas reunidos em «Babalaze na incapacidade de lidar com o tempo e o espaço por onde se movia. das hienas», publicados em 1997. Na linguagem crua que a hora No confronto com esse inimigo odiado, essa ―fera sem forma’’, o poeta encerra-se exige, o poeta mergulha no mundo instituído pela guerra que na solidão e o distanciamento que permitiria ver melhor também lhe sequestra a arrasou seu país. intimidade com o familiar. A banalidade do quotidiano fabrica o estranhamento: Nesse novo tempo de ―homens partidos’’, para criar citar o belo ―Fio de linha branca. verso de Carlos Drummond de Andrade, Craveirinha empenha Na mesinha-de-cabeceira seu talento e sua sensibilidade no desvendamento de um mundo Teu compassivo olhar. de horror, não hesitando em descrever a crueldade dos sinais que Vou passajando abstracto. evidenciam a pungente desagregação. Segundo Fernando MartiPica-me o dedo a agulha. nho, o poeta retoma o caminho do jornalista, assumindo-se como Nas minhas pretas peúgas rotas um narrador a quem cabe o ofício de noticiar a desgraça reinante. São reais as sarcásticas (20) Gargalhadas de linhas brancas‖.(17)


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Rita Chaves — Brasil Continuação — José Craveirinha: A Poesia Em Liberdade

―Uivam

Pela diversidade dos signos culturais pode-se reconhecer a disponibilidade

as suas maldições

para a comunhão que caracteriza a visão de um homem que os apertados

as insidiosas hienas

limites da sociedade colonial não conseguiram turvar. Revigorado na sua

própria sanha

incansável batalha contra as hienas que se embebedam ―na pândega das

Rituais

metralhadoras’’(24) José Craveirinha no extraordinário exercício da escrita

de tão escabrosa gulodice

capta com vigor a intensa multiplicidade dos matizes de que a vida se

que até nos esfomeados

reveste, a despeito de tanta ―renúncia de homens quase vivos’’(25). No

aldeões da tragédia

pacto estabelecido, contra a ―afiada gramática das facas’’(26) o escritor

a gula das quizumbas

impõe a graça do seu verbo, sempre alimentado no diálogo com outros

se baba nas beiças

verbos, com outros formas de vida. A cada passo. A cada página. E a mun-

das catanas

dividência adquirida na força da experiência invulgar vai abrindo ao poeta

dos machados.’’ (21)

a possibilidade de transitar por incontáveis caminhos sem que se perca a

Incansável na luta contra o colonialismo, Craveirinha ergue seu canto direcção do país que ajudou a fundar e do universo que sua poesia veio agora contra a nova escuridão que insiste em vitimar os que não podem enriquecer. escolher os caminhos. As catanas, os machados, as balas, as rajadas, as explosões, as minas compõem o menu dessa orgia de destruição que

Notas

segue asfixiando a vida. Secos e ásperos, seus versos guardam, contudo, o frescor do compromisso que nem mesmo o cansaço e uma boa dose do desencanto fizeram desbotar. Ao abraçar o mundo dos mitos e símbolos, como vimos nos muitos poemas de Maria, Craveirinha não foge ao universo do concreto, mantendose atento ao que se passa ao lado das paredes de sua biblioteca, transformada em sala de convívio com os nomes que a memória retém. A vitória contra o colonialismo parece lhe conferir serenidade para recuperar alguns dos signos utilizados sem cerimónia pelo sistema que discriminava e excluía. Assim é que o mitificado Camões se dissocia da ―estátua do Sr António Enes’’ e do tal dia da raça, a que o poeta alude em ―Incladestinidade’’(22), para se tornar ―o dos Lusíadas‖, inserido então na linhagem dos que merecem a sua imensa admiração. Ainda que a ―próspera colónia, ’’onde nasceu o poeta, tenha passado a ser vista como o ―país pobre’’ onde ele agora vive, a libertação, pela qual empenhou-se, libertou-o também para escolher os heróis a quem deseja saudar, permitindo-lhe ainda libertar paixões às vezes esmagadas pela força da opressão externa. Nesse contexto, a própria lembrança de Maria se mistura ao elenco dos nomes sacralizados por outras formas de amor: É quando se me incrustaram nirvana E a evocação dos sagrados nomes Em nossas almas inesquecem Como por exemplo quando digo: Olá, mestre Cervantes o do Quixote de la Mancha Olá, Miguel Angelo, o da Pietá. Olá, Luís de Camões o dos Lusíadas Olá, Drummond, olá, Manuel Bandeira e ola, Graciliano Ramos o trio avançado no time do tiradentes E Olá, Pablos: o do Chile, outro da Guernica e outro do violoncelo. Olá, ilustre Charles Gounod O da Ave-Maria. Ou ... Olá, insigne Duke Ellington o de uma Cabana no Céu. E também Olá, mano Gabriel García Marques O dos Cem Anos de Solidão. E neste meu desabafo Ergo minha mais justa confissão: - Olá, querida Maria Imerecida esposa toda a vida De um tal Zé Craveirinha.’’(23)

1-Cf. Formação da literatura brasileira. 2-“Ao meu belo pai ex-imigrante’’, In. Karingana ua Karingana,p.107-10 3-―Manifesto. In: Xigubo. p. p 2931. 4-“Ao meu belo pai ex. - imigrante’’ 5-“Barber’ s shop, boarding house, ice cream today e outras barbaridades’’, In: Contacto e outras Crónicas. 6-“Hino à minha terra’’, In: Xigudo, pp. 16-9) 7-Cf. Literatura de dois gumes’’, In: A educação pela noite & outros ensaios. 8-―Mulata Margarida’’, In: Xigubo, p.37. 9-―Grito negro’’, In: Xigudo, p.9. 10- Cf. Obras escolhidas. 11- In: Karingana ua Karingana, p.111-3 12- ―Do sustenido para Daíco’’, In: Karingana ua Karingana, PP.111-3 13-Passagem extraída da entrevista por mim realizada em Fevereiro de 98 na casa do poeta em Maputo. 14-―Aforismo’’ In: Cela1, pp 16.. 15-―A Grande Maldita’’, In Maria, p. 103. 16-―Tempo‖, In: Maria,p.236 17-―A linha’’, In: Maria, p.151. 18-―A poalha’’, In: Maria, p. 190. 19-―Dostoiewski’’, In: Maria (1988).p.62 20-“Prefácio’’, In: Babalaze das hienas, pp. I- V. 21-“Gula’’, Idem.p.22. 22-In: Cela 1,p.85. 23-―Olá, Maria’’, In: Maria.p.115-6 24―Babalaze na linha de caminho de ferro’’, In Babalaze das hienas. p 39. 25 -―Porta’’, In: Babalaze das hienas. P. 41. 26-―Abecedário’’, In: Babalaze das hienas. P.41. Referências Bibliográficas: 1-Benjamin, Walter.Obras escolhidas.3ed. São Paulo, Brasiliense, 1987. 2Cándido, António. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo, Ática,1987. 3-Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6 ed. Belo Horizonte, Itatiaia,1981. 4-Craveirinha José. Babalaze das hienas. Maputo, Associação dos escritores Moçambicanos,1997. 5-Cela1. Lisboa / Maputo, Edições 70 / Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980. 6Contacto e outros crónicas . Maputo, Centro Cultural Português, 1999. 7Karingana ua Karingana. Lisboa / Maputo, Edições70 / Instituto do livro e do Disco,1982. 8- Maria. Maputo, Ndjira,1998 9-Xigubo. Maputo, Associação dos escritores Moçambicanos, 1995.


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Voz Activa

AIDGLOBAL aumenta níveis de literacia em Chibuto e Chókwè

Aumento Exponencial de Utentes nas Bibliotecas de Chibuto e Chókwè entre 2009 e 2011, o número de requisições nestas bibliotecas aumentou mais do dobro, indica a AIDGLOBAL.

O

número de utentes das bibliotecas municipais de Chibuto e Chókwè, em Moçambique, aumentou mais do dobro, entre os anos 2009 e 2011, período ao longo do qual a AIDGLOBAL tem vindo a colaborar com os respectivos municípios e outros parceiros locais, no que se refere ao equipamento e reforço dos fundos das bibliotecas. No âmbito do programa ―Passaporte para a Leitura‖, a AIDGLOBAL renovou, em 2011, a sua determinação em trabalhar na área das bibliotecas, de forma a reduzir os níveis de iliteracia e aumentar o acesso ao livro. Paralelamente, a 2ª edição do projecto ―Infoinclusão na Província de Gaza‖ permi- De acordo com os dados disponibilizados pelo responsável tiu, ao longo de 2011, a oferta de material do projecto em Moçambique, Hugo Jorge, o número de requisições de livros em ambas as bibliotecas tem duplicado, informático às bibliotecas escolares.

Conto

Q

nos últimos dois anos, conseguindo-se, assim, cumprir com o seu objectivo primordial. Agosto e Novembro de 2011 foram os meses, nos quais mais utentes solicitaram livros emprestados à biblioteca do Chibuto, num total de 379 títulos. Nos mesmos meses de 2010, o número de requisições era de 208 e 256, respectivamente, e, em 2009, de 142 e 117. O aumento foi ainda maior na biblioteca municipal de Chókwè, onde o número de empréstimos passou de 32, em Novembro de 2010, para 1422, no mesmo mês de 2011. A AIDGLOBAL congratula-se por estar a contribuir para o incremento do acesso à informação e cultura, por parte das populações de Chókwè e Chibuto.

Dany Wambire — Beira

A insatisfação dos antepassados uando o dirigente máximo visitou a comunidade do Regulado, para se

No segundo dia, voltaram ao local e ficaram assombrados, com o cenário: as

inteirar dos seus inúmeros problemas, também foi informado de um estacas, que tinham fixado nas covas, estavam fora delas, e as covas estavam tapadas, quase secular. O assunto já se tinha discorrido nos pensamentos de como se não tivessem sido feitas. E nem sequer havia indícios de vandalização. Achaquase todos os administradores do Regulado.

Ao administrador o assunto soou-lhe como um exclusivo segredo proferido com uma voz ardente, carimbada de mágoa, por causa do cenário sistemático, o velho e crónico problema do conflito homem-boi e boi-machamba. O dirigente máximo, que quase ficou assarapantado com a preocupação, prometeu estudar e responder, a breve espaço temporal, à apoquentação da população. Mas, enquanto muitos partilhavam e assopravam a revelação do assunto ao senhor administrador, alguns replicavam, em voz baixa, com palavras nefandas para os molestados. ― Mas de que estão a falar estes pobres! O mambo é que tem bois! Na verdade, o senhor administrador não precisou de adiar a solução, pois também se informou com os populares de que os animais se desforravam dos homens e das machambas, porque os seus proprietários se mantinham renitentes à construção de currais para bois. Então, o representante do Presidente da República no distrito ordenou, no dia seguinte, o corte de estacas, a compra do arame farpado e a construção dum curral

ram por bem abrir novas covas, e logo depositar nelas todas as estacas. Assim fizeram, esperançados no fim do problema. Ao terceiro dia, regressaram os obreiros, para levar por diante os trabalhos do majestoso curral separatista. Mas, também desta vez, encontraram as estacas fora, e as covas novamente encerradas. Presumiu-se que algo de anormal ali sucedia. Mesmo assim, teimosamente, insistiram, mais uma vez: abriram as covas, recolocaram nelas as estacas e, por meio de pregos, entrelaçaram os arames. Labutaram, azafamados, para acabarem o trabalho, no mesmo dia, e evitarem a precoce vandalização. Terminada a espinhosa construção, os pastores foram evacuando os bois e as vacas, para o recém-edificado curral. E foram levando os animais a pastar, sem qualquer pormenor negativo. Mas, dias depois, os pequenos pastores voltavam, atabalhoados, com o medo a subir-lhes pelos cabelos. Fugiam das assustadoras pegadas dos mbondoros, que já tinham devorado dois bois.

O susto instalou-se nos pastores e nos proprietários dos animais. E

comum, tão longe das machambas como das casas. O dinheiro, para tudo isso, disseram- logo se recordaram do crasso erro, que se tinha cometido: ninguém devia, em me que se ia arrancar dos famigerados sete milhões. O dinheiro que se tinha confiado aos qualquer mata, edificar qualquer empreendimento, sem a devida anuência dos distritos, para produção de comida, criação de emprego e incremento da renda. Nos dias seguintes, portanto, o administrador, através dos seus subalternos servidores, mandou fazer o curral.

antepassados. Então, para atenuar a situação, prepararam dhoro, vinho e utchema, e dirigiram-se, para a mata, para o local das súplicas de remissão dos pecados.

No primeiro dia, os muleques do mambo, armados de catanas, machados e ala- Finda a cerimónia, os pastores voltaram ao curral, e nunca mais houve nenhuvancas, abriram covas, para espetarem algumas estacas, para suporte dos arames. Esperavam espetar as outras estacas, nos dias seguintes.

ma outra ameaça.


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Concursos PRÉMIO LITERÁRIO KARINGANA WA KARINGANA UNIVERSIDADE DO MINHO O "Prémio Literário Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho" tem por objectivo incentivar a escrita criativa em língua portuguesa em Moçambique e destinase a galardoar uma obra inédita sob a forma de conto, de novela ou de um conjunto de contos. Podem candidatar-se ao Prémio os estudantes nacionais finalistas da 12ª Classe do Ensino Pré Universitário nos anos 2010 e 2011, e que comprovadamente tenham frequentado este ciclo de estudos em Moçambique. Regulamento: Artigo 1º (Promotores) A KARINGANA WA KARINGANA Associação, com sede em Lisboa, e a UNIVERSIDADE DO MINHO, com sede em Braga, com o apoio do Ministério da Educação de Moçambique e da Fundação Carlos Lloyd Braga, promovem o ―Prémio Literário Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho‖. Artigo 2º (Objectivo) O ―Prémio Literário Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho‖, tem por objectivo incentivar a escrita criativa em língua portuguesa em Moçambique e destina-se a galardoar uma obra inédita sob a forma de conto, de novela ou de um conjunto de contos. Artigo 3º (Candidatos) Podem candidatar-se ao Prémio os estudantes nacionais finalistas da 12ª Classe do Ensino Pré Universitário nos anos 2010 e 2011, e que comprovadamente tenham frequentado este ciclo de estudos em Moçambique. Artigo 4º (Publicitação) O Prémio será publicitado e divulgado pelo Ministério da Educação de Moçambique, junto de todas as Escolas Secundárias de Moçambique, pelos meios que tiver por convenientes, até final de Novembro de 2011. Artigo 5º (Valor do prémio) O prémio a atribuir será constituído por: a) Uma bolsa de estudos para a realização de estudos de licenciatura em Portugal, na Universidade do Minho, por um período de 3 (três) anos; b) A edição conjunta das 3 (três) melhores obras a concurso e de um conto escrito por Mia Couto. Artigo 6º (Objecto) 1) Cada concorrente elaborará o seu texto tendo como linhas iniciais as escritas por Mia Couto tal como transcrito no ponto 3) deste artigo; 2) A obra terá de ser individual, original e redigida em português, podendo conter expressões em outras línguas (devidamente explicadas em glossário); 3) Texto de Mia Couto em itálico e entre aspas: ―O livro que fechou a menina Marília fechou o livro escolar como quem encerra as duas partes do mundo. As mãos pequenas alisaram a capa com tristeza de despedida. A menina sabia que, junto com o livro, se cerravam as portas do tempo. - Mas, pai, não dá para prosseguir mais um ano? - Está a ver o que dá a escola? Agora, já pensa que tem escolha… - Mas o professor pediu… O pai ergueu a mão como se as palavras não bastassem para exprimir a sua indignação. O que mão dele dizia era simples: Marília que ficasse calada, no lugar de silêncio que lhe competia. Depois, ainda azedou: - Esse professor pediu para falar comigo? Que abusos são esses, o que quer este homem da minha filha? - Ele não quer de mim, ele quer de si, pai. O professor acha que eu devia continuar os estudos. Quer pedir que o senhor não me mande interromper a escola. - Pois esse professor vai ver. Vou denunciá-lo na administração. E você é muito burra, não vê as intenções que este homem tem consigo? Marília contemplou o livro pousada na mesa. E de repente, lhe pareceu que as mãos do livro é que a tinham fechado a ela. Para sempre.‖ Artigo 7º (Características da obra) a) Os textos deverão ser apresentados por escrito, sob pseudónimo, deverão ter um mínimo de 30 folhas e um máximo de 60 folhas formato A4 (210 x 297mm), apenas frente, espaço 1 ½ entrelinhas e letra Times New Roman, tamanho 12; b) Deverão ser enviados 6 (seis) exemplares em papel, assim como uma cópia em suporte electrónico (que poderá ser enviada via correio electrónico, protegida contra alteração.

Artigo 8º (Processo de envio) Forma de apresentação: a) As obras a concurso – trabalho dactilografado – devem ser encerradas em envelope opaco e fechado, no rosto do qual deve ser escrita a palavra «Obra»; b) Em envelope com as características indicadas na alínea anterior, no rosto do qual deve constar a identificação, morada e pseudónimo do concorrente, devem ser incluídos documentos que contenham os seguintes elementos: 1. Fotocópia do Bilhete de Identidade; 2. Indicação de morada, nº. de telefone e e-mail; 3. Indicação do Estabelecimento de Ensino e número de aluno; 4. Declaração de renúncia a qualquer pagamento a título de direitos de autor, no caso de a obra vir a ser publicada pela ―Karingana Wa Karingana‖ ou por a quem esta ceda os direitos de publicação; c) No caso de se tratar de concorrente menor é obrigatória a apresentação de uma declaração assinada pelos pais ou por quem detenha a tutela do participante, autorizando a sua participação no concurso e expressando o seu acordo com o presente regulamento. Esta declaração deverá ser acompanhada por cópia bem legível dos pais ou tutor(es) do participante; d) Os envelopes a que se referem as alíneas anteriores são encerrados num terceiro, igualmente opaco e fechado, que se denominará «Invólucro exterior», para ser remetido sob registo ou entregue pessoalmente, contra recibo. e) Os trabalhos deverão ser enviados, até 31 de Maio de 2012 (inclusive) – a comprovar pela data no carimbo do correio e/ou do correio electrónico – para: 1. ‖Prémio Literário Karingana Wa Karingana – Universidade do Minho‖ Rua Patrice Lumbumba nº 899, Maputo, Moçambique 2. e em suporte digital, para: premio@karinganawakaringana.org f) Os exemplares dos trabalhos apresentados não serão devolvidos aos concorrentes. g) Serão excluídos todos os trabalhos que não respeitem as disposições deste regulamento. Artigo 9º (Composição do Júri) A atribuição do Prémio será decidida por um Júri composto por: a) Presidente do Júri – Mia Couto. b) Representante da Karingana Wa Karingana Associação. c) Representante da Universidade do Minho. d) Representante da Sociedade de Língua Portuguesa. e) Três personalidades Moçambicanas a designar pelos promotores. Existirá um Júri de Selecção, caso o número de trabalhos apresentados o justifique, que será indicado pelos promotores do prémio referidos no artigo 1º. Artigo 10º (Deliberação do Júri) O Prémio será atribuído por unanimidade ou, em caso de impossibilidade, por maioria de votos; O Júri poderá não atribuir o Prémio, caso entenda que nenhuma das obras a concurso o justifica. A decisão do Júri é definitiva e, da mesma, não haverá recurso. Artigo 11º (Divulgação do premiado) O resultado do concurso será anunciado pelo Júri na primeira quinzena de Setembro de 2012. A entrega solene do “Prémio Literário Karingana Wa Karingana – Universidade do Minho‖ ocorrerá na Universidade do Minho no dia 17 de Novembro de 2012 (dia mundial do estudante). Artigo 12º (Direitos de Autor) a) Os participantes no concurso cedem os direitos de autor das obras a concurso, para todo o Mundo, à ―Karingana Wa Karingana Associação‖ ou a quem esta os ceda, comprometendo-se o autor, ou os seus representantes legais, a assinar contratos de edição, de acordo com legislação de propriedade intelectual, bem como os demais documentos que se revelem necessários para esse fim. No caso de publicação, a obra deve indicar ―Prémio Literário Karingana Wa Karingana - Universidade do Minho‖. b) Os vencedores autorizam expressamente a utilização do seu nome e da sua imagem, com fins publicitários, em quaisquer actos de apresentação e/ou material de promoção, que os promotores considerem pertinentes com vista à difusão do Prémio. Artigo 13º (Disposições Finais) A participação neste concurso implica, de forma automática, a aceitação plena dos presentes termos deste regulamento.

Revista Literatas  

Revista de Literatura Mocambicana e Lusofona

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