Issuu on Google+

Literatas Sai às Terças-feiras

Não conhecemos o preço da palavra. Envie esta revista a um amigo

Literatas agora é no SAPO

literatas.blogs.sapo.mz Encontre-nos no facebook Literatas

Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona Director editorial: Eduardo Quive * Maputo * 25 de Outubro de 2011 * Ano 01 * Nº 15 * E-Mail: kuphaluxa@sapo.mz ENTREVISTA COM AUTOR DO LIVRO “A Cidade SUBTERRÂNEA”

Pobre

Não Presta? Hinos à nudez Pág. 2


2  BLA BLA BLA  Exero 01, 5555

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

https://literatas.blogs.sapo.mz

2

Em primeira

Dos Frutos do Amor e Desamores até à Partida de Adelino Timóteo:

Amor e Utopia Lucílio Manjate* - maputo

1.

Dos frutos do amor

“Tudo que sei dizer-te é que és nua: E lenta a flor, como o Sol, eis que de múltiplas formas te desabrochas em mim: as tuas mãos de vidro, lentas, os teus lábios húmidos, quentes, à forma como me beijam. Caída chegas-me pelo corpo, pela alma. És lenta, e nua explodes, como uma mina aberta à memória. És alta como pólen, a doce lentidão como me chegas, vagarosa pela boca, a vocação com que o fazes: lenta no beijo, até ao tutano, lenta às carícias, até às trompas de falópio. Tua a lentidão uma fonte de água, sem rumor, incessante. Tua a vertigem, repetitiva como me chegas, quente, suave, febril.” – p. 11 Ao apresentar a nova obra de Adelino Timóteo, gostaria de destacar dois signos de enunciação poética que me parecem representar os fundamentais núcleos semânticos da obra. Primeiro, o da identificação irónica do “eu” poético em relação à entidade que interpela. Segundo, o facto de essa identificação ser co-referencial em relação à “nudez”, palavra-tema que ao longo da obra ora é dessacralizada ora sacralizada. As noções de “identidade” e “identificação” são recorrentes nos estudos literários e culturais. A noção de “identidade” é, muitas vezes, entendida em primeiro grau, como aquela que é cunhada a partir de dados empiricamente verificáveis, como a cor da pele, o sexo, atc. Em segundo grau, a palavra “identidade” remete-nos para uma construção simbólica no próprio processo de sua determinação; tratase de uma entidade que não se concretiza em função de um único referente empírico, mas de vários, num processo reflexivo que possui uma dimensão de exterioridade. Nessa aceitação do que é exterior, um Eu não nega um Outro, pelo contrário, aceita que a sua “personalidade” é forjada na tensão entre dois olhares, o seu e o do Outro. Há-de ser por causa desta relação dialéctica entre o interior e o exterior que Derrida afirma que “Uma identidade nunca é dada, recebida ou atingida: só permanece o processo interminável, indefinidamente fantasmático da identificação”. Hoje sabemos que o sexo já não identifica nem homem nem mulher. Hoje percebemos que somente o diálogo, a abertura para o Outro, permite perceber que interagirmos com homens que na verdade são mulheres ou mulheres que na verdade são homens, ou ainda homens e mulheres que nem são homens nem são mulheres. Ora este diálogo não é identidade, mas identificação. O livro que Adelino Timóteo hoje nos apresenta é composto por dois momentos. O primeiro momento, Dos Frutos do Amor; o segundo, Desamores até à Partida. A obra é uma interpelação ao leitor, mas uma interpelação

em segundo grau, momento em que deixamos de identificar na obra o tema do amor canal – como veremos – e passamos a interlocutores de um processo de identificação que tem como mote esse tema do amor sexual. Na primeira parte do livro, Dos Frutos do Amor, ao interpelar a entidade a quem se dirige, ironicamente o “eu” poético identifica-se: “Tudo que sei dizer-te é que és nua … Caída chegas-me pelo corpo, pela alma.” Não será tudo o que sabemos dizer a soma das experiencias sensoriais, a síntese do que ouvimos, do que vemos, do que sentimos, do que cheiramos, do que provamos? E

Não será esta síntese, portanto, o universo metaforizado na palavra “Tudo” que “eu” poético diz? Se assim for, o “eu” poético do Adelino Timóteo diz o seu universo sensorial ao mesmo tempo que o interpela. “Tudo que sei dizer-te é que és nua… Caída chegasme pelo corpo, pela alma.”. Tudo que sabe dizer, ou seja, tudo o que ouve, vê, sente, cheira, prova, é nu. A “nudez” há-de ser, portanto, o núcleo habitacional da enunciação poética desta obra. A interpelação que o “eu” poético faz à entidade a quem se dirige inaugura uma relação de identificação que o autor dá o nome de Amor, talvez porque acredita que todos nós sabemos – ou pensamos saber – o que essa palavra significa. Mas, de facto, o Amor aqui é apenas exemplo dessa relação superior. Não se trata de uma relação de amor, desse amor que povoa o nosso imaginário, apesar de o “eu” poético interpelar uma mulher, fonte desses sentidos que lhe chegam pelo corpo, pela alma. É mais uma relação de identificação que tem no imaginário que construímos sobre o Amor a sua metáfora. É a partir dessa metáfora do Amor, de um “eu” poético que se afirma em função de um Outro concretizado e poetizado, que Adelino nos convida ao entendimento do conceito de identificação como tema superior do seu livro, uma espécie de arquétipo de todas as relações. Para tal, o poeta serve-se, estrategicamente, da “nudez”, e de um imaginário que associa a nudez à disposição sexual, como confirmam as ilustrações feitas à obra, de Silvério Sitoe: “Tudo que sei dizer é que és nua … Caída chegas-me pelo corpo, pela alma.”.

“Posso escrever-te a tua húmida flor, a rosa côncava, carnosa, em seu fundo negro sem fim: A tua flor é a língua do fogo, a borda alongada das pétalas, o fio volátil em meus lábios. Chega-me lenta pelo pavio, no mar sem fim dos meus lábios, na água sem fim das palavras, onde cada gesto teu se repete como um refrão, com graça. Posso escrever-te a tua flor: aberta como uma asa és lenta, lenta que me fazes vibrar. E tu és feita de silêncios, de telegramas que se me chegam pelos teus beijos, cartas e telexes que me chegam pela ponta da língua, às digitais, esmerada no que te encarregas pela tua boca. Posso escrever-te a tua flor: trazes-me aos lábios os fios de uma aranha tecedeira, a lentidão da abelha e o mel num cântico com que transcendes à lua, a Marte venial, divinal.” – p. 12 De facto, a nudez é o signo que Adelino Timóteo elegeu para celebrar o amor carnal. Com efeito, as imagens eróticas desfilam, gradativas e lentas, num filão descritivo desse desejo sexual que se vai celebrando e cujo êxtase encontra na voluptuosidade da palavra, na expressão libidinosa que progride sempre lenta pelo corpo nu da mulher, a sua representação suprema. Parece-me que a primeira parte deste livro diz respeito a esta celebração. A celebração do universo-mulher, da mulher nua, ao qual o sujeito poético irremediavelmente se entrega, porque somente assim se define, nu. Mas aqui o perigo, o de pensarmos que Adelino Timóteo apresenta-nos poemas eróticos. O erotismo nestes versos não é um fim em si mesmo, mas um ponto de chegada que tem no conceito de identificação o ponto de partida, onde ou quando precisamos ser Outro para sermos Nós. É o ideal da fusão de todos os sentidos. Ora Adelino Timóteo confunde-nos exactamente ao apresentar essa relação como sexual. Na verdade, o poeta acaba dessacralizando esse amor feito de carne, como quando queremos “fazer amor”, ou mesmo quando não queremos. Ora o acto de dessacralização é também um acto de sacralização. E sacralizar é tornar sublime. E sublime é esta entrega do “eu” poético à essa imagem da mulher nua que se torna o

seu universo. Por isso é que o conceito de identificação em Adelino Timóteo é um espaço sublime e uma vocação a ser seguida, a vocação de sermos a totalidade de um Outro para sermos Nós. Uma vocação que nos coloca na eminência de sucumbirmos se o Outro, que faz de Nós o que somos, deixar de existir, como acontece na segunda parte do livro – Desamores até à Partida.

2.

Desamores até à Partida

“Eras lenta, amorosa, para lá do limite da paciência. Como uma sinfonia dos oboés, ritual me acariciavas que não te fartavas, delicada que me alongavas os bornais, firme a saliva pela língua. … Aquele amor cândido. Aquelas amoras dóceis. Era só uma lembrança, pois então quebraram-se as asas e nenhum de nós os dois voa. E o silêncio a si se interpela. Já não é. E sempre era de noite quando volvia aos teus prumos. E a pergunta com que o silencio se me interpela se cristalizará com o tempo. Eis mais este presente dilacerado que nos sobrou. Delicada a chuva sobre a celha dos rostos até à partida.” – p. 46 Obviamente que já não se trata aqui dessa fusão de sentidos a que o “eu” poético recorre para se definir. Mas aqui percebe-se que a tese que Adelino Timóteo formula na primeira parte do seu livro é a de que a abnegação, pura e verdadeira, natural e sincera, a que nos votamos quando amamos carnalmente ou sexualmente é a manifestação da noção de identificação enquanto arquétipo a ser realizado, utopia a alcançar, pois agora lembramo-nos de que palavra “nudez” denota também os sentidos simplicidade, singeleza, verdadeiro, sincero, natural. O desamor que se regista na segunda parte da obra reforça esta ideia, a identificação como processo de construção identitária exige de nós essa nudez que teimosamente camuflamos. Tal como quando fazemos amor, nascemos todos nus. E o que há de comum entre fazer amor e estar nu é o encontro com o universo. Ou seja, o universo do Homem nunca deixou de ser a nudez. Conceber a nudez como ponto de encontro, de naturalidade, de sinceridade, de verdade e pureza, e assim, olharmo-nos sempre nus, ainda que vestidos, seria a mais genuína, a mais sublima expressão de identificação, onde e quando somos todos iguais, ainda que diferentes

*Lucílio Manjate é docente de Literatura na Faculdade de Letras e Ciências Sociais na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e é escritor.


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Exero 01, 5555  BLA BLA BLA  3

https://literatas.blogs.sapo.mz

3

Em primeira

Havia uma dança no meio do caminho Dançando com chuva: Um bailado escrito por Eduardo White

Marcelo Panguana* - Maputo O bailado começa com algum cenário que se pode considerar sombrio: A luminosidade dos relâmpagos. O ribmbar dos trovões. A chuva incessante que cai. Uma tempestade. Depois a imagem de um homem quase sinistro perdido no meio da intempérie, a chuva molhando-lhe o corpo de alma. Depois uma rua qualquer vestida de latas de lixo, de pedras atiradas ao acaso. Sem dúvida nenhuma com o cenário tendente a evidenciar o enorme desconforto que a alma humana, às vezes, medra. Fica-nos, logo à partida, essa sensação de desolação e de abandono. É uma certa moçambicanidade que se instala e se revela, com alguns dos seus símbolos e traços.

Por isso a surge este bailado para atenuar essa desolação. Com uma forma de aprendizagem. Com descoberta. Com catarse. Com reencontro do homem

com tudo aquilo que até um determinado momento julgava perdido.

E por essa razão, pela beleza dessa descoberta, o homem sinistro que nos primeiros cenários se encontra, chora, chora convulsamente, enquanto a dança acontece em seu redor e ele próprio se envolve nela. Como toda a manifestação artísticas interventiva, “Dança com a chuva”, na sua linguagem musical e contemporânea, pretende se assumir como expressão de ideias e sentimento, ou se quisermos, uma critica a nós mesmos enquanto indivíduos à busca da perfeição. E a arte é uma das expressões maiores dessa busca. Quer dizer: a dança e a música acasalada à poesia. É isso que Eduardo White pretende transmitir neste breve e mavioso bailado

*Marcelo Panguana é escritor moçambicano e director da Revista Proler

A modos de dizer qualquer coisa

Quero dizer, eu era, obviamente, um temporal de vibrações magnéticas intensas, de viagens paranormais a planos irreais de mim... tar, sempre desprevenidamente, desarruma o outro que sou, os lugares que habita, os amores que ama. Espalhaos desordenada e positivamente. Muitas vezes me faz Quando resolvi escrever o livro “O Homem, a Sombra e a bem, mas em grande maioria delas, desestabiliza-me Flor”, que sobre o qual se inspira este bailado, todo o acto criativo foi uma tempestade interior que em mim convocava um bailado mágico, colorido, ritmado de sons e vozes vibrantes na matéria do corpo e do sangue. O momento era celebrativo de paisagens anteriores que eu tinha vivido ou percorrido em algum espaço temporal da minha vida. Forte, devastador, arrepiante. Eu mesmo, nessa altura, era palco de muitas coisas que se perguntavam e me enduvidavam. A planura das respostas inexistia, o sufoco esgotante da alma se me tempestuava, a ponto tal, que eu era todo transe, todo matéria relampejante e evolava-me para espaços que desconhecia da minha própria alma. Em nenhum momento eu mesmo permiti-me a descansos, a pausas de que pudessem resultar harmoniosas calmas, a inervosos estados de espírito. Quero dizer, eu era, obviamente, um temporal de vibrações magnéticas intensas, de viagens paranormais a planos irreais de mim. O transe transbordava como um mar que chega nervoso a uma margem qualquer do planeta. Vi pessoas que era, planos individuais que se materializavam, mortos que fora em outros tempos desconhecidos e que agora me positivamente. viviam. Confesso-vos, e isto é uma confissão que passei a fazer Escrevi o texto num ápice assustador de tempo. Melhor, nos últimos escritos que vou tornando públicos e que é descrevi o que vivia de um espaço territorial delas que mais gritante neste livro que agora lanço em simultâneo eu próprio me tornava. Lembro-me que eu suava e a com o bailado, “A mecânica lunar e a escrita desassossfome batia-me esgotantemente. Devo ter fumado, du- egada”, que tais momentos de tão intensos que são, de rante o tempo que isso ocorreu, três maços de cigarros. tão arrebatadores que se me tornam, resultam sempre E bebido bastante. Sempre fui propenso a esses estados num estado de reversão de que demoro demasiado a de alma. Revelo-vos agora, a propósito deste bailado. recompor-me. Saio quase sempre dolorido, amassado e Quando escrevo se me sobrepõe um Eduardo White que descaracterizado. não sou comummente. Aquele que vivo todos os dias. É sempre assim. Sinto, durante algum tempo anterior à O “Dançando com a Chuva” é a história desse sujeito escrita, que esse indivíduo me vem chegando. Altero-me no plano do amor e que, através deste, é remetido para por completo, torno-me outras dimensões a que a maio- todos os outros. Porém, como sabem, o amor é um esria dos meus amigos e não só, as apelidam de loucuras. tado que altera todos os outros, ou quando começa, ou No entanto, é bem real esse personagem que vos estou quando termina. Revoluciona e transforma, combusdescrevendo. Tem vida e personalidade próprias, e, con- tiona e mistura. O personagem principal deste bailado trariamente ao nativo indivíduo Eduardo White, mais conta, desta maneira, a história um homem que desapatemerário, contido, introvertido e tímido, o outro White, ixonado pela vida, que desacreditado do amor, encontra é um tempestuoso sonhador, um inebriado aventureiro, nessa sua desarrumação uma tempestade da qual bebe um recipiente de alucinações fantásticas, um destemido uma viagem interior a si mesmo. Despido dele, deste provador de experiências. Quando me chega para habi- modo, torna-se o espaço do caos e evolui, ele próprio,

Eduardo white* - Maputo

para o caos em que se tornou. No entanto, essa desordem é o momento fulgurante para que tudo nele se recomponha, se redescubra e se interrogue. A chama, há muito apagada do amor e que é a causa desse estado decomposto das coisas,

reacende-se em si próprio, dando lugar a um sentimento de descoberta e de renovação, dados mutantes para que perceba que antes de amar qualquer outra coisa forçoso é que se ame a si próprio. E essa sombra sua, que se transforma a partir dele no sujeito do seu amor, é a resposta até a uma outra pergunta que, interiormente, não se cansa de fazer: Mas e onde está o amor e por que esse caos que é a sua solidão? A transformação da sombra nessa mulher por quem se vai apaixonar, essa metamorfose toda que ele vive, torna-se, então, na viagem extasiante que nele adubará o conhecimento da mulher que tem em si, como ideal, e que vai descobrindo nascer como realidade. Toda esta trama - se mo se me permite dizer- é a tempestade que sobre si desaba e que se torna e que, efusivamente, o leva ao apogeu da descoberta daquele sentimento, primeiro nele mesmo, depois, em tudo o que o circunda. Afinal, a comprovação de que toda e qualquer ordem nascem da própria dinâmica do caos

Eduardo White é poeta moçambicano


4  BLA BLA BLA  Exero 01, 5555

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

LITERATURA MOÇAMBICANA

4

A Poesia Epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze do Atirador das Verdades

Um poema assim é árduo/ sem cola e na vertical/ pode levar uma eternidade. ‘’ARMÊNIO VIERA’’ Ao Sangare Okapi e Lúcilio Manjate Amosse Mucavele - Maputo Amin Nordine nasceu em Maputo aos 17 de fevereiro

de 1969 e perdeu a vida aos 5 de fevereiro de 2011,e autor de apenas 3 livros, o que não tem importância porque a literatura não se assemelha a uma competição, onde quem publica muitas obras sai vencedor (assim sendo existem escritores que tem sido felizes nesta maratona aliando a quantidade versus qualidade como o seu cavalo de batalha e tem se notabilizado como verdadeiros campeões ex: Mia Couto, António Lobo Antunes, Pepetela, Moacyr Scliar…), bastando lembrar-se do Luís B. Honwana, Noémia de Sousa, Gulamo Khan, e Lilia Momple para sustentar a tese de

fatalismo que voa em voo rasante sobre as angústias de um passado melancólico, e um presente envenenado. E do futuro o que se espera? O futuro não será isto!’’… superlotada receita galgando o vento/com as mãos no coração do destino.’’ O que é do lado da ala-B? o leitor descobrirá que esta no lado mas vil de um jovem país com os seus problemas, e é neste lado onde reside o poeta solitário nas suas abordagens anti-heróicas, mas das multidões na sua mordacidade social, um verdadeiro maquinista do comboio dos duros, um autêntico vomito da babalaze de um poeta bêbedo do seu dia-a-dia. Detentor de uma caligrafia rebelde, com versos quentes como o fogo e cortantes como a espada afiada, onde eclodem temáticas de afrontamento de um certo tempo histórico (ex: carta ao meu amigo Xanana, banqueiros de banquetes, bandeira galgada aos 25, (c)anibalizinhos…) Talvez o outro lado da ala destes poemas, não! Isto ultrapassa a dimensão poética, ou por outra destes melancólicos dissabores que despertam os filhos desta pátria que nos pariu deste manancial de barbaridades versus mentiras, que transformam o sonho de estar livre da opressão em um pesadelo, não será esta a voz do povo? Estes melancolias dissabores são a pólvora contida na’’ bala’’(ala-B) desta poesia que o autor preferiu chamar de’’ arma da vitória’’ que dispara esta bala certeira onde a cada estrofe vai abatendo o seu alvo. Dai nasceu este livro embrulhado por uma crítica social. A título de exemplo o poema ‘’barbearia dos cabrões (‘‘queixos barbudos engravatados/ barbearia dos cabrões/ que deixa todo chão careca/ e ao alto mastro hasteiam bandeira/ para Celso Manguana pag.14- aos meus pais - Pátria que me pariudesfraldarem o corpo nu do povo…’’) 2006. ‘’Apesar da irrequietude e da impertinência, algumas vezes virulentas que caracterizam esta poesia ou das entremeadas doses de apurada ironia ou de compaixão pelos desafortunados, o que sobressai nesta forma particular da escrita e um virtuosismo estimulador da sensibilidade da razão,(…),nessa brevidade desafiadora da nossa capacidade leitoral e estética.’’( F.NOA-o prefaciador). Segundo Zenão a brevidade e um estilo que contêm o necessário para manifestar a realidade. Esta brevidade encaixa-se na poesia do Amin Nordine onde nota-se uma presença massiva de traços inter-textuais da obra do poeta Celso Manguana cidadãos da mesma esquina (ambos eram jornalistas culturais do semanário Zambeze) guerreiros da poesia epigramática, e soldados da mesma trincheira. Amin Nordine exilou-se na morte, Celso Manguana exilouse na loucura, e eu procuro exílio na memória destes 2 poemas:

custa amar uma bandeira assim? tem o amargo do asilo

almoço de pão com badjias sabem bem todos dias.’’

‘’ Se por tanto tivesse ser capaz

moça - pátria deste amor que refrega seja o meu coração a minha entrega escrever-te a cerca duma paz

e alto levante-se da vez que nega

não é para o povo o discurso assaz nenhum político, milagroso ás

é tamanho o sofrimento que chega!

para o povo aumentem um quinhão

que qualidade nem sempre rima com a quantidade. Publicou – Vagabundo Desgraçado (1996), Duas Quadras para Rosa Xicuachula (1997), e Do lado da ala-B. Amin Nordine e um militante de uma escrita sólida em todos lados seja o da ala- A ou da ala- B, isenta de qualquer submissão política, caracterizada pelo inconformismo da realidade que o circunda e pela revolta social, esta poesia epigramática e uma revelação de um

FICHA TÉCNICA

venha do vosso governo mais pão

‘’Sonâmbula esta pátria cresce nas estatísticas e acorda com fome

burilada a página da história apagar a sua triste memória fazemos o país livre da escória!!!’’

Amin Nordine -pag.50-soneto da paz-Do lado da ala-B-2003

Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Sede: Centro Cultural Brasil-Moçambique* AV. 25 de Setembro nº 1728, Maputo, Caixa Postal nº 1167 * Celulares: (+258) 82 27 17 645 e (+258) 84 57 78 117 * Fax: (+258) 21 02 05 84 * E-mail: kuphaluxa@sapo.mz Director Editorial: Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Coordenação: Amosse Mucavele, Japone Matias e Mauro Brito Redacção: David Bamo, Nelson Lineu, Mauro Brito, Izidine Jaime, Japone Arijuane. Colaboradores: Maputo: Osório Chembene Júnior * Xai-Xai: Deusa D´África * Tete: Ruth Boane * Nampula: Jessemusse Cacinda * Lichinga: Mukurruza* Brasil:Balneário Camboriú - Pedro Du Bois * Santa Catarina: Samuel da Costa * Nilton Pavin * Marcelo Soriano * Portugal: Victor Eustaquio e Joana Ruas. Design e páginação: Eduardo Quive


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

A sentença para um prostituto Dany wambire - beira O Maconha era um jovem culto de conhecimentos universais. Mas brincava com as mulheres, solteiras ou casadas, de qualquer modo, sem a devida circunspecção. Um dia, despertou da cama, com um ar diferente. Queixava-se de dores incontornáveis, no abdómen. Tinha a sensação de que algo estivesse esforçadamente a subir por ele. Como se fosse um elevador a transportar pesos pesados e a descarregá-los no pescoço daquele miserável. Assustada, a esposa mandou chamar os dois grandes amigos do infeliz, para que o ajudassem a serenar a sua intranquilidade. Vieram logo, graças à disponibilidade dos seus velocípedes. E inteiraram-se da apoquentação do amigo. Tiveram informações de que, antes do sucedido, a esposa do Maconha tinha travado uma acesa querela com uma certa Maria, a amante do seu marido. Maconha tinha conseguido o contacto telefónico da amante, e tinha-a contactado, só para matar saudades. Maria vivia, agora, a cento e sessenta quilómetros, da sua antiga moradia. Durante a conversa, o marido da amante de Maconha, soube, erradamente, que a Maria estava a conversar com um seu irmão. E pediu para conversar com ele. E assim aconteceu. A conversa era excitante e agradável, mas, a dado momento, a toalha foi para o chão. Aquele coitado descobriu que o homem, com quem dialogava, não era nada o seu cunhado, mas sim o amante da sua parceira. Afinal, Maria tinha o traído. Trocaram impressões abomináveis. Maconha, o amante da Maria, afirmou ao seu esposo infeliz que a gravidez a pesar no ventre da infiel lhe pertencia. A informação encolerizou o esposo da adúltera, e levantou-se um clima de altíssima tensão. Já não havia condições para a paz. Então, a grávida fez as malas e foi para a paragem, à espera de um transporte, que a levasse para a palhota da sua origem. As lágrimas acres humidificavam-lhe o corpo e o traje. O transporte tomou-a. E a sua raiva coagia implicitamente os pés do motorista a afundar o acelerador. Dias depois, a Maria contou a triste cena aos familiares, que não a levaram a sério. Teve que aguentar sozinha. Mas aconselharam-na a ir apresentar queixa à polícia. Não foi à polícia, apenas discutiu com a esposa do Maconha, o qual, por consequência, passou momentos dificultosos para a sua saúde, como resultado das ameaças verbais de o liquidar fisicamente. Não se sabia, ao certo, quem seria o concretizador daquela maldade demoníaca: se seria a adúltera grávida, ou se seriam talvez os que instigavam a discussão, em satisfação do seu mero sadismo. Transportaram o Maconha para o centro de saúde próximo, desabitado de enfermeiros, por algumas horas. Mas teve o apoio duma ajudante, que lhe administrou um antibiótico. Mas o antibiótico não era a solução e acabou por lhe piorar a doença. A coisa estava ainda mais agudizada. O comprimido não resolvia o problema. Tiveram que tentar a medicina tradicional. Pediram a vinda duma curandeira ao hospital, pois tinham medo de levar o doente de volta a sua casa. A ajudante havia de receber réplicas fortes dos técnicos da Saúde. Mas a vinda da curandeira teve que ser corajosa, libertando o doente para o kush-kush. As operações espirituais da curandeira ganharam dinâmica, e o Maconha não tardou a melhorar, porque reconheceu e confessou as acusações feitas pela curandeira, sobre o seu envolvimento em relações sexuais com mulheres alheias, sem as pagar, entre outras ilicitudes tradicionais. Para ele melhorar definitivamente, teve a curandeira que chamar Maria, a amante do Maconha, para ela dizer o que desejava como pagamento. E foi assim que finalmente o problema ficou ultrapassado

Vó fia- Brasil

MARIA MARCHA A RÉ

O maior sonho de Maria era possuir um carro Chevrolet vermelho, nem precisava ser novo, podia ser usado, mas mesmo para um modesto carro velho, as finanças dela eram incompatíveis; Maria era pobre, mas tão pobre que esse era um sonho irrealizável, mas ela continuava sonhando. De suas tarefas de lavadeira, ela mal conseguia tirar o suficiente para o arroz e feijão de cada dia, as roupas que usava eram doações feitas por suas patroas, ela não podia nem pensar em adoecer, pois não teria dinheiro para médicos e remédios, e o pior era a solidão em que vivia, pois seus pais morreram durante sua infância, não tinha irmãos e nenhum outro parente vivo. Para completar as desventuras da coitada, ela era bem feia e desajeitada, por isso nunca conseguiu um namorado, afinal a vida de Maria era um completo desastre; mas ela continuava alimentando seu sonho impossível e de tanto sonhar com aquele Chevrolet vermelho, ela passou a misturar sonho e realidade, e o tal carro passou a existir de verdade. Para ela o carro era tão real, que ela chegava a procurar oficinas mecânicas, para contratar concertos no imaginário veiculo; no principio do desvario de Maria as pessoas achavam graça, esticavam a conversa para que ela falasse sobre o carro, ai sua imaginação voava longe e ela elogiava o desempenho do amado Chevrolet, e como ele era econômico e rápido. De repente a situação mudou para pior, porque ela passou a beber litros de cachaça e endoidou de vez, brigava com as pessoas que esbarrava em seu carro invisível, atirava pedras e dizia dúzias de palavrões; o povo daquele lugar agüentou a situação ao maximo, e quando não deu mais pediram providencias as autoridades, que prometeram resolver o caso. Prometer naquele fim de mundo era fácil, mas resolver era difícil porque lá não havia recursos para nada, e ficou tudo como estava e a pobre mulher só piorando, até que ela passou a andar de marcha à ré e isso resolveu a situação da pior maneira possível, na sua eterna marcha à ré ela atropelava as pessoas e brigava se reclamassem, até o dia em que ela atropelou exatamente um Chevrolet vermelho e morreu; estava acabado o sonho, as bebedeiras e a loucura da infeliz, Maria Marcha a Ré

CRÓNICA / CONTO Filosofonias

Exero 01, 5555  BLA BLA BLA  5

5

Rapsódicas

Marcelo Soriano - Brasil

m.m.soriano@gmail.com

Nota preliminar: Antes de prosseguir com este artigo, lembro ao leitor que me dirijo à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), portanto, podemos encontrar gerúndios, futuros do pretérito, expressões etnocêntricas, familiares a certos leitores, porém, inusitadas a outros. Oxalá, que esta peculiaridade não seja pretexto para correções, mas para integrações e enriquecimentos léxicos e culturais entre nós. Marcelo Soriano. Santa Maria - RS - BR. 14/07/2011.

[V E R - S Ó I S] Introdução Numa noite acordei para o dia. E outro dia. Outro dia. Sol a sol, fui tecendo o manto da vida, enquanto esperava a morte, que não veio...

4º [VER-SÓ] POEMA DO VER O VERSO DO LER A LEITURA DO SER A LETRA DO EU QUE DOEU QUEDO EU E NÃO DÓI MAIS PORQUE VER-SÓ (Continua na próxima edição...)

...........................................................................

OS CORVOS

Os outros... Os mesmos... Os novos... As covas... Os corvos... .....................................................................................

ESPÓLIOS Antigamente, os chapéus duravam mais que as cabeças, assim como os óculos e os relógios. O único pertence que sempre sumiu antes do dono foi o guarda-chuva. ....................................................................

FRASE CAIXA ALTA: GRITA QUE O MUNDO CALA. CALA QUE O MUNDO GRITA


6  BLA BLA BLA  Exero 01, 5555

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

https://literatas.blogs.sapo.mz

6

- Discurso directo

“Cidade de Quelimane está enterrada”

Considera o escritor Élio Martins Mudender, autor da obra “A Cidade Subterrânea” em entrevista exclusiva a Literatas

Eduardo Quive - Maputo

quando a pessoa chega lá, sente que de facto está mal. ”

Será uma coincidência dos factos ou o autor refere a si mesmo? Élio Mudender: Isto é uma obra de arte. Uma ficção. Uma

“A Cidade Subterrânea”, título de um livro publicado há dias em Maputo, tem como palco a cidade Quelimane. Aliás, segundo o autor, Élio Martins Mudender, Quelimane é “A Cidade Subeterrânea” retratada nesta obra, que trás revelações sobre vários problemas sociais, pois, “há muitos problemas de desemprego, habitação, muitos quadros naturais de Quelimane querem regressar à cidade, mas não há condições, acabando por regressar à capital, ou rumam para outros cantos do País a procura de melhores condições de vida, que lá não é possível encontrar, e isto faz com que eu me refira a uma cidade que está enterrada”. Mudender que é também psicólogo e natural de Quelimane, alongou a sua viagem, revelou em exclusivo nesta entrevista que, não é ele a personagem principal do livro, como se pensa, mas que na sua literária abordagem, despe o que sente pelas terras que lhe viram a nascer. “Eram pessoas a reclamar por tudo e por nada. É a miséria de um povo. Isso é verdade. Quer dizer, sem comentários, porque é de facto uma verdade: há muita fome, há miséria, e isso cria muita dor e nostalgia que

construção artística. Isto é, não tem necessariamente a ver Eduardo Quive: Como é que surge o título “A Cidade comigo. Entretanto, quando um escritor faz uma projecção

Subterrânea”? élio mudender: É “A Cidade Subterrânea”, pois, na minha

opinião a cidade de Quelimane está a viver uma situação que me leva a acreditar que está enterrada, no sentido em que muitas coisas que por lá acontecem, sujeitam-na a uma situação de pôr em causa o desenvolvimento da sociedade e do bem estar do povo zambeziano. Mas não só o povo desta região, é uma maneira metafórica de fazer uma apreciação sobre a situação duma cidade que está num nível de desenvolvimento muito péssimo, o que pode não ser só Quelimane, podemos encontrar a mesma situação em qualquer outra cidade no mundo. Portanto, é uma metáfora para referir toda aquela cidade, todo aquele povo, que pela ironia do destino ou pelas condições sociopolíticas, culturais e toda essa dinâmica, faz com que o seu desenvolvimento esteja parado. Se formos para a própria cidade de Quelimane, há muitos problemas de desemprego, habitação, muitos quadros querem regressar à cidade, mas não há condições, acabam voltando a capital ou rumam para outros cantos do País a procura de melhores condições de vida, que lá não é possível encontrar. Isto faz com que eu me refira a uma cidade que está enterrada.

artística, em algum momento, acaba reflectindo parte de si. Certamente que esta é minha obra, isso faz parte de mim como pessoa, e da minha personalidade. Entretanto, embora eu seja de Quelimane e formado em psicologia, não quer dizer que refiro-me a mim mesmo. Apenas foi um exercício literário, e nisso procurei aplicar um exemplo de jovens formados, que depois disso querem empreender, mas muitas vezes, a dinâmica da vida e a conjuntura social, não permitem, quer dizer, dum lado temos o discurso de que é preciso sermos empreendedores, inovar e ter o autoemprego, mas muitas vezes, a realidade mostra que não é isso, e o jovem vive um dilema, em que quer empreender, mas não consegue por causa da conjuntura. Daí que, este dilema preocupa não só ao jovem de Quelimane mas, os de outros cantos do País. eduardo quive: Portanto, é uma obra em que estabelece

uma ponte entre o real e o irreal. Mas as personagens como é que são constituídas? No caso particular de uma prostituta com o nome Maria Consolo – é Consolo porque consola o jovem recém-chegado à cidade, ou porque é o seu nome verdadeiro? élio martins: Eu aprecio muito o truque em que se usa,

onde procuramos criar personagens que não só entram eduardo quive: Na introdução da obra chega a contar em rede com a história, mas o nome em si transmite uma

que um jovem que acabava de se licenciar em psicologia, decide voltar à sua terra natal (Quelimane) para investir em alguma área e desenvolver a sua localidade, facto que não chega a acontecer. O Élio Martins, autor deste livro, é psicólogo e a sua terra natal é Quelimane também.

mensagem. De facto, para mim, Maria é símbolo de mãe, mulher e, por sinal a minha mãe se chama Maria. Mas esta é Consolo, porque o papel dela vai se assemelhar ao que consola, protege, ainda que ao longo da história descobrimos outras fazes da personagem: é uma boa


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011 pessoa, prostituta e espiã. Mas eu quero com isso, reflectir sobre vários problemas que significam na sociedade. Sabe-se que para a construção duma sociedade, há várias necessidades, e é, exactamente isso, que procuro reflectir. Não se trata de algo que aconteceu na realidade, mas é um exercício artístico, mas fazendo uma ponte sobre aquilo que a imprensa fala, aquilo que o povo fala, e nos bastidores também falado, é um exercício artístico. Um escritor deve fazer esse exercício aquilo que é a realidade, no entanto que tal, aquilo que é a realidade artística, para depois produzir um objecto, por isso que é arte. E eu faço isso entre a realidade e a ficção. Acredito que este exercício é alma de um povo, e eu tento engrandecer a cultura através desta obra. eduardo quive: Mas em geral, qual é o seu processo de cria-

https://literatas.blogs.sapo.mz figura moralmente muito forte e que, dá ensinamentos, mas por outro lado, em muitas fases, esses mesmos sacerdotes apresentam uma postura aquém daquilo que é o padrão de comportamento que se exige dele. E há uma luta muito grande sobre o celibato dos religiosos. Existem certos religiosos que defendem que o celibato deve ser abolido. Do ponto de vista psicológico e ideológico, o sexo é muito prático para o estabelecimento do equilíbrio do indivíduo, e o sacerdote decide abdicar-se do sexo. E isso é um desafio muito grande para os que seguem essa vida, por isso que, existem muitos problemas como a pedofilia e homossexualidade. Com esta reflexão, estamos perante um apelo, para que se tome uma medida no sentido de o padre casar-se. Para mim é algo necessário, do que obrigar muitos a fingir. Eu já estive no seminário e sei que isso acontece. É mais uma reflexão que eu faço. Isso é um problema social que interessa a todos, e é por isso que eu faço uma viagem metafórica.

ção dos personagens, pois, encontrarmos na obra pessoas que se complementam: primeiro a Maria Consolo, depois o Padre Jaime (primo do jovem) e o Guarda da igreja (um antigo combatente), os quais acompanham a personagem eduardo quive: E quanto a aparição nesta obra de principal nas suas acções… uma catorzinha, que chega até a apontar nomes como élio mudender: É preciso encarnar. Aquilo que em Psicolo- Marcelino, como um dos tais adultos que circula com gia chama-se Empatia – procurar colocar-se no lugar deles, catorzinhas? Também fala-se muito dos acontecimentos de 1 e 2 de Setembro? a protagonizar o acto. Para mim uma verdadeira obra de arte para ser uma construção artística, deve trazer algo de novo, criar suspence, élio mudender: Ao citar as catorzinhas, baseio-me uma situação em que o leitor sinta-se convidado a ler e a naquilo que tem acontecido. Andamos na rua e ouvimos viajar na história. Isto faz de um escrevedor um escritor. E muito comentario sobre a questão destas. Temos conumas das particularidades na criação literária são as perso- hecimento a partir de alguns bem posicionados na fase nagens. Elas devem ser sujeitos que protagonizam várias adulta, que saem com meninas por troca de alguns bens acções, e devem o fazer duma maneira muito emblemática, e meios financeiros, isso prejudica a sociedade. Eu penso de modo a dar um peso acrescido à própria obra. que um homem, maduro e moralmente são, deveria se A figura do Guarda: para mim ele é um indivíduo que nesta colocar na situação de ver a sua filha a ser instrumentalobra procura mostrar o dilema dos antigos combatentes, izada sexualmente por um adulto, em troca de alguns que estão insatisfeitos, pois apesar de ter combatido não se bens. Penso que isto retira a sanidade duma sociedade. sente enquadrado, e está frustrado. Por isso, o personagem Se queremos construir uma sociedade sã, que seja um diz na obra, que existem na realidade muitos antigos com- espaço que cria segurança, tranquilidade e sossego para batentes nessa situação. Portanto, não é uma invenção, é todos, devíamos acautelar situações como estas, que muita das vezes, é uma manifestação de autêntico abuso umas realidades que vivemos. O Padre: para mim o padre é uma figura emblemática. Não de poder, não dá para aceitar.

Exero 01, 5555  BLA BLA BLA  7

7

esse cenário para se ter de novo uma sociedade saudável e digna para todos, onde todos sejamos filhos da mesma casa. Ainda que de facto a igualdade de oportunidade seja algo que se pareça difícil de se realizar, há uma verdade nisso: é preciso que haja a criação de condições para uma satisfação generalizada, ou melhor, não é possível construirmos uma sociedade em que todos sejamos iguais. De facto, somos uma sociedade marcada por classes sociais diferentes, e com oportunidades e outras coisas, mas o mais importante para mim é que, hajam condições que permitam que todos os indivíduos satisfaçam as necessidades básicas, temos que lutar seriamente pela situação de habitação para os jovens, aumento do emprego, e criar condições sociais sustentáveis para todos os moçambicanos. Nós somos um País com muitas riquezas. Então, que essas riquezas sejam usadas para o bem do povo. Essa é a minha posição. Todos devem se beneficiar, e com isso, acabarmos com a situação em que uns se beneficiam e outros não. Somos todos moçambicanos, pagamos impostos e não nos beneficiamos disso. Assim haverá satisfação. eduardo quive: Em alguns capítulos do seu livro encontra-

mos símbolos, cujo significado acaba aparecendo durante o desenrolar da história, sendo ameaças de morte, chantagens e perseguição. Há algo de verídico nisso? élio mudender: De verídico no entanto que tal, não. Mas

procurei mostrar que muitas vezes, os serviços secretos têm os seus códigos que servem como um modelo de comunicação entre eles. Devo dizer que aprecio muito, alguns filmes com abordagem de cenas policiais, e onde se faz o uso da inteligência. E quis trazer isso na nossa literatura, como forma de contribuir para que haja algo de novo. Neste mesmo capítulo, vamos encontrar a abordagem sobre as mudanças. Quanto a mim, todos sistemas não se mantêm eternamente. Uma construção social é algo dinâmica, e se é assim, a qualquer altura pode mudar, porque só a mudança cria o desenvolvimento. Então vou arrolando sob a questão da Líbia, Egipto, Zimbabwé e de outros países. eduardo quive: o psicólogo que é o Élio Martins Mudender,

não conseguiu dissociar-se do escritor? Élio mudender: É difícil separar as pessoas

fragmentando-as. Se eu sou psicólogo, escritor e professor, está claro. Quero dizer que é muito difícil dividir-me, porque a minha unidade como personalidade é constituída por esses. Agora, é verdade que podemos procurar agir de modos diferentes, de um lado como escritor, como professor, e doutro como psicólogo. Mas essa visão é mais didáctica do que necessariamente táctica. Mas o que procurei abordar nesta obra, é este misto de confusões em que as pessoas vivem. Por exemplo, uma pessoa que chega num sítio e hospeda-se numa pensão…numa pensão há prostitutas que estão a procura do pão: são nossas irmãs, filhas, a procura de pão, prostituindo-se a preço de banana. Não é ter prazer de sexo, é fome – não há saco que fica de pé vazio. Isto é um grito de alerta, pedindo socorro. Mas não vale a pena olharmos para os outros como a solução para os nossos problemas. A teoria de Compló deve desaparecer. Nós temos que olhar para nós mesmos como a razão dos nossos problemas, e daí tentarmos melhorar e inverter o cenário, do que, olharmos para os outros nomeadamente os políticos, como a solução dos nossos problemas. E nós? Isto também serve de apelo à todos, para que nos engajemos na construção duma cidade boa e melhor, não só uma cidade, mas o Moçambique todo. Pode notar-se em alguns capítulos do seu livro

tenho nenhum primo chamado Jaime, nem um primo padre. É apenas uma criação. Mas há uma coisa muito interessante. No livro, com esta personagem, faço a reflexão sobre o sacerdócio, não só em Moçambique, mas em qualquer parte do mundo. Nós sabemos que o padre católico não deve casar, mas conhecemos muitos padres que tem filhos, e que até namoram. Então estamos a viver uma situação delicada, em que de um lado, temos o padre como aquela figura que representa Deus, uma

Mas por outro lado, temos a situação dos dias 1 e 2

de Setembro, que todos nós ouvimos e vivemos o que aconteceu, e sabemos que aquilo vem de uma insatisfação generalizada da população. Não inventei, todos sabem disso. Para mim a ideia é que, havendo situações como estas, é necessário que os que tomam decisões à dianteira na direcção do País, prestassem atenção a tais tipos de sinais, pois havendo estes sinais, é necessário que se tome a medida correcta no sentido de se inverter

que os acontecimentos estão datados. Quanto tempo levou para escrever este livro? - Na verdade não sei quanto tempo levei para escrever o livro. Mas não foi muito tempo. Foi num período em que estava de férias, e foi nesse mesmo tempo que escrevi. De facto o romance não teve muito tempo a escrever. Mas eu escrevo há já muito tempo, então este é um exercício que mais faço com prazer. Há pessoas que já leram, e pensam que levei muito tempo para escrever este romance, por causa da qualidade, mas foi pouco tempo. Todas as pessoas que me ligam dizem, “não sabíamos que em Quelimane temos um escritor a sério” e eu não me considero como tal. Mas as pessoas dizem que acaba de nascer um escritor que deve vir para ficar, e mesmo por causa disso, acabei por ser convidado a lançar o livro em Quelimane. As vendas estão


8  BLA BLA BLA  Exero 01, 5555

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

https://literatas.blogs.sapo.mz

8

boas em Maputo, as críticas são boas. Depois desse convite, também convidaram-me a traduzir o livro para Francês. No livro chega a abordar a questão da apreensão das madeiras em contentores, numa altura em que isso está a acontecer. É algo que já era do seu conhecimento e quis denunciar? - Eu estava a prever. Uma das características de um bom escritor – eu aprendi isso – deve saber prever. O prognóstico é importante como uma sociologia artística. Por outro lado, sabemos que a Zambézia está a ser abocanhada, a madeira está a ser delapidada. Este romance fiz em Quelimane, onde passei as férias: caminhava pela cidade, inclusive fui a Domela, onde nasci, embora tenha saído de lá muito cedo, e prossegui até Nicoadala. E eu vi este cenário. As florestas estão a ser devastadas. Existem pessoas que estão a delapidar a madeira. Isso é uma verdade. Antes disso, escrevi um ensaio, numa altura em que a imp-

medo de pisar o chão. Mas no fundo foi um exercício que fiz para expulsar as personagens. E mesmo a falar disso, quais foram as dificuldades tidas para dar vida a cada personagem do livro? - Certamente que isto é um exercício muito forte. Mas o grande desafio de um escritor é produzir algo que tenha interesse para o público e é por causa disso que entramos para o mais profundo, de modo a criarmos o suspence que motiva o leitor. Outra coisa interessante, há uma frase no livro que diz “ o pobre não presta?”. Isto porque nós vivemos num mundo em que o pobre é aquele coitadinho, está na miséria, é pisado e não interessa a ninguém. Mas aqui, procuro dizer que todos nós somos importantes na face da terra. Para mim a vida é um teatro, e cada um vai encaixando-se no seu papel. Todos somos um manancial de potencialidades, somos um tesouro e, devemos ser lapidados, devemos nos respeitar. Todos merecemos

recém-formado. É porque não se sabe se esse indivíduo promete ou não. E muitos não estão dispostos a arriscar. As obras que ainda não publiquei, ganharam prémio sim, mas parecendo que não, estão engavetadas. Tenho muitas histórias que escrevi e que estão nas gavetas. Há muita coisa boa que se esconde, e é por ser de qualidade, que ficam nas gavetas, ou melhor, é por sermos bons que as portas não se abrem. Sem querer exagerar. Mas agora que as portas abriram-se estou aqui e até outros livros que tenho vão sair. Gostaria de chamar atenção às pessoas que gostam de mim, e já agora, apreciam a minha obra, que fiquem a espera de mais novidades. Espero abrir o próximo ano com um livro. Tenho mais um livro que estou a escrever, intitulada “

rensa estava a reportar casos de madeiras apreendidas em Nacala. Mas também, numa situação em que estão a ser apreendidos contentores, supostamente, de brinquedos, enquanto outras vozes dizem que são armas e drogas. São verdades que muitas vezes não sabemos, e porque talvez, não convêm que as pessoas saibam, e por causa disso, nunca sabemos qual é a verdade. Mas é uma realidade em que de facto, alguma coisa não está bem, e as pessoas sabem disso. Portanto, procuro registar isso, e marcar como facto histórico, porque sendo uma obra, certamente que, será lida por muita gente e isto poderá passar de geração em geração, e o meu esforço é registar os acontecimentos. Claro que os dou um toque literário, mas vagueando por aquilo que é a realidade. Acaba de dizer que chegou a ir a Domela, sua terra natal, e isto está exposto na obra. Aliás, chega até a referir-se das potencialidades que Zambézia perdeu, e ao chegar à terra natal, debate-se com vários problemas expostos pelo povoado… - Eram pessoas a reclamar por tudo e por nada. É a miséria de um povo. Isso é verdade. Quer dizer, sem comentários, porque é de facto uma verdade: há muita fome, há miséria, e isso cria muita dor e nostalgia, que quando a pessoa chega lá, sente que de facto está mal. Como contador desta história, que justificação dá às mortes de algumas principais personagens do romance, no caso de Joel, Maria Consolo e o guarda da igreja, este último que ajudava na decifração dos símbolos? - Por falar dessas mortes, devo dizer que foi numa situação em que me debatia com dificuldades de continuar com as personagens. Perguntava para mim mesmo “para onde levo estas personagens?” e não achava caminhos para os levar e então, levei-os à morte. Foi uma maneira que tive de resolver o conflito interior na construção da história, por um lado, se olharmos a subjectividade. Mas também foi para referenciar a questão das mortes. Sabese que muitas gente morre e sem sabermos como. Essas situações levam-nos a insegurança (medo). Ficámos com

dignidade, respeito e consideração, então que nos valorizemos a todos, e não medir a pessoa por aquilo que tem, mas por aquilo que é. Estamos a viver uma época em que muitas vezes as pessoas são valorizadas por aquilo que tem, e não efectivamente, por aquilo que somos. Penso que temos que resgatar um valor nobre da vida, que é valorizar a própria vida. Todos nós somos importantes. Quais são as suas influências literárias? - Para ser franco, em Moçambique, aprecio mais o Mia Couto, penso que ele é um escritor extraordinário. Por isso aprecio e leio muito a sua obra. A nível internacional, o escritor que muito me marca é Dan Brawn. O que me faz admirar este escritor é que, ele tem uma abordagem sobre as coisas, muito interessante. Procura explorar a dimensão real, dando um toque artístico e que de facto, dá-nos a impressão de que, estamos diante de um escritor de grande mérito. Para além desses, leio muito as obras de Tabor, Tomaz Hinderbet, José Saramago – muito me impressiona – o Jorge Amado, entre outros. Em mim, o espírito crítico, nasceu da leitura às obras de Jorge Amado “Os subterrâneos da verdade”, foi uma trilogia de romances em que ele provou em mim que, estava diante de um escritor de alto nível em cabe o meu espírito. Olhando para o seu percurso, noto que começa a escrever não hoje. Já tem a obra “As notícias duma cidade ensaguentada” que embora destacado num prémio, não chegou a lançar, e mais um de poesia. Porquê preferiu lançar primeiro a desconhecida obra “A cidade subterrânea? Será que esta é uma outra versão do título que me referi “As notícias duma cidade ensaguentada”? - A maior dificuldade de um jovem escritor é de aparecer. Isso não só acontece com o escritor, mesmo com outros artistas, isso nota-se. Muitas vezes precisamos encontrar gente que nos dê um voto de confiança. Podemos registar isso também nas empresas, os empregadores tem dificuldades em confiar num

As cicatrizes do Amor” - é um romance. Vai dar que falar. No livro procuro fazer uma abordagem sobre o amor, mas não no sentido romântico, mas do ponto de vista psíquico, olhando para a questão social. Nessa obra vou falar da questão dos mega - projectos. A publicação dessa obra mudou em algum aspecto a sua vida? - Muita coisa mudou. Agora a minha vida está a centrarse neste livro, onde passo, seja na avenida, supermercado, portagem, as pessoas apontam-me e até já me chamam “A Cidade Subterrânea.” Algo interessante. Isto mostra que o livro teve um bom impacto. Não vou parar nesta cidade que já é conhecida. Como escritor, penso que as pessoas tem uma expectativa e não queria frustrar essas expectativas. Vou continuar a escrever, e dar o meu contributo para o desenvolvimento da literatura moçambicana. Penso que Moçambique, com a literatura também pode ir longe, como foi no atletismo, através da Lurdes Mutola, na política, com Samora Machel e Mondlane, e claro, literariamente, com o José Craveirinha e Mia Couto. Também pode ir com o Élio. Eu estou a fazer a minha parte. Embora tenha começado com um romance, em que género literário se encontra? - Eu sempre escrevi poesia, contos e romance. Mas descobri que a minha grande pátria é o romance, e queria desenvolver muito isso. Tenho poesia escrita e contos, mas quero trabalhar muito o romance. É preciso ter pátria artística e a minha é o romance. Vou fazer isso, pesquisando mais, lendo mais e fazendo mais o exercício da escrita. A escrita, exige muita leitura, domínio da língua, esforço e acima de tudo criatividade e imaginação


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

https://literatas.blogs.sapo.mz

Outras margens Desfazer Pedro do bois - brasil Numero acontecimentos desordenadamente. Capitulo ao extremo desgosto das arrumações: a cama os objetos a comida o banho retiro da estante o livro instantaneamente convertido em acompanhante: desarrumo os fatos e os distribuo pela casa: a história forjada de reis e reinos: a desabilitação das fábulas moralizam o animal que teima sua liberdade.

Vivo morrendo Francisco júnior - Maputo A morte sussurra silencio no meu ouvido, E eu invoco vida em palavras que lavro em papel virgem. Construo uma nova dimensão da existência em versos, Me multiplicando em vários eu ‘s a cada estrofe que desenho. Vivo essa imensidão dos eu ‘s que vão batalhando contra a ignorância, Que vão construindo novas vidas. Que vão parindo novos edifícios. Fora dessa poesia fico um vazio, Pois já não sei ser nada fora dos outros que incorporo. É assim que vivo, Morrendo a cada ponto final do poema

Mil Nomes

Niltom Pavim-Brasil Perdeste a oportunidade de falar com o homem O homem que vive onde ninguém vive O homem que vive onde todos querem viver O homem vive Onde você vai viver? Eu quero viver com o homem que vive lá! Todos querem ir pra lá, pois a casa do homem Igual não existe e todos a imitam Imitam a casa do homem que vive só, Porém acompanhado e rodeado por vários seres Seres que subiram infinitos degraus Da escada da absolvição e da compreensão Pois dizem que o homem é gentil, nobre e a todos conhece O homem vive lá, entre nuvens e estrelas Entre o luar e os raios solares Todos com ele querem viver, ninguém quer mais sofrer Todos querem no seu quintal azul brincar Eu vou viver com ele, Combinamos encontros Nas noites de solidão Nos dias em que o vento uiva Nas manhãs frias e coloridas de cinzas Nas tardes que o sol não brilha Nas andanças pelas trilhas da bênção Continuar a viver quero eu Tu queres continuar a viver? Ou preferes deitado ficar eternamente Eu em pé ficarei e com meus versos com ele falarei Eu já o conheci quando nasci A seu lado vivia, noite e dia, inverno ou verão, minguante e nova...

Quando soube que viajaria, deu-me uma lição e um perdão Ele sempre foi assim, de singrar os mares, terras, azuis... E a todos conquistar com seu refulgir O meu lugar reservado está. E o seu? Reservaste? Não vejo a hora da casa retornar Sonho esse sonho há mais de cinquenta anos Sonho e sonho e vivo a sonhar... À casa voltar Voltarei Ao meu lar Voltarei À casa Espere por mim Em breve acordarei do sonho E voltarei À casa Do homem de mil nomes

Algures no tempo Lucília Guedes - Porto

Eu e Muitos Japone Arijuane-Maputo Eu e muitos Andamos a deriva por ai… Como bando Em busca de oportunidades Que só existem na gaiola

Eu e muitos Andamos em cardume Em busca de mantimentos Subjugados democraticamente Ou no anzol ou no estômago dos tubarões Eu e muitos Rugimos na selva da vida a fome Cujo banquete esta servido na jaula Do emprego Eu e muitos andamos, corremos Em busca de felicidades Que pagamos com a nossa própria liberdade Eu e muitos alegramos os nossos rostos Para felicidade de outros

A morte sussurra silencio no meu ouvido, Sentada no jardim da solidão, desatava as fitas de seda que envolviam as suas memórias. Ansiosa estava de beber esperança, nos olhos da serra nas suas histórias. Mas, o frio mordia-lhe os ossos empedernidos, avivando-lhe feridas profundas do caminho das pedras. Estava no ciclo dos últimos, no tempo das vedras.

Exero 01, 5555  BLA BLA BLA  9

9

Negra da Terra Decio Mateus - Angola Negra de carapinha dura Não estraga teus cabelos, Me jura. (Teta Landu*) Minha negra brinca a gingar Magia da kianda Negra anda-que-anda E ginga-que-ginga Andar de negra é banga Andar de negra é cântico do mar! Minha negra ginga elegante Nas curvas duma viola Nas ondulações duma mbunda Negra ginga e rola E encanta gente Ginga e rola a negra linda! Ginga de negra é cântico do mundo Não usa coisas de tissagem Usa tranças de bailundo A negra jovem E ginga-que-ginga a dançar Ginga nas ondas do mar! Minha negra mulher cristalina Não usa coisas de postiços Usa carapinha E tranças de linha E tem magia de feitiços A preta africana! Minha negra beleza genuína Ginga-que-ginga Dança-que-dança a preta angolana Minha negra mulher da terra Mulher negra Penteado à africana! Minha negra mulher formosa, mulher cheia Mbunda farta Não conhece cabeleireira alheia Usa carapinha de preta E traz na voz a tradição negra Traz na voz o pulsar da terra! in Xé Candongueiro! *Teta Landu: músico angolano.

Poesia nas Acácias izidine jaime - maputo Poema vestido de árvore Cai em geito de folhas Um verso verde sem ramos ... Voa nas sílabas do vento Poema vestido de árvore Não sabe que raíz Amadurece o silêncio. Entrega-se num papel Beija o caule Inventa num olhar despido Segredos da palavra Poema vestido de árvore Tem folha branca Caule pintado de letras Flor que vence a noite Projecto sem portas Grito sem eco. Arte Luz Amor Tem um sonho de letras Vendido de graça No corpo das acácias.

Espaço para divulgação de poetas dos países LUSÓFONOS. Envie os seus textos para: kuphaluxa@sapo.mz


10  BLA BLA BLA  Exero 01, 5555

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Noites d ´Álma https://noitesdalma.blogspot.com

Lua

XIGUIANA DA LUZ

Nossa herança Fortuna perdida nos trópicos Unida à África nossa Espelha-se na vaidade da gente Dispersa-se nas matas selvagens Encarnada nas águas que nos alimentam Escorre por esta mãe África rezando Lua Aos nossos braços Estende a sua mão da liberdade Dê nova postura as flores deste jardim Que aos seus olhos não murchem Que aos seus olhos, nasçam e floresçam

https://literatas.blogs.sapo.mz

10

Em outras palavras VII Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus – CRÔNICAS Edição em homenagem a escritores baianos 1 - O Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus visa estimular novas produções literárias e é dirigido a candidatos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil ou no exterior, desde que seus trabalhos sejam escritos em língua portuguesa. 2 – As inscrições acontecem de 01 de janeiro a até 30 de novembro, através do e-mail valdeck2007@ gmail.com (CRÔNICAS de até 20 linhas, minibiografia de até cinco, endereço completo, com CEP e fone de contato, com DDD). Os textos devem vir DENTRO do corpo do e-mail. Inscrições incompletas serão desclassificadas. Vale a data de postagem no e-mail. Não serão aceitas inscrições pelos correios. 3 - A crônica deve ser inédita, versando sobre qualquer tema (exceto apologia ao uso de drogas, conteúdo racista, preconceituoso, propaganda política ou intolerância religiosa ou de culto). Terão preferências os textos sobre escritores baianos da contemporaneidade. Entende-se como escritores contemporâneos aqueles cuja obra ainda não foi lançada por grandes editoras e que não são conhecidos do grande público. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado ao direito autoral. A inscrição implica concordância com o regulamento e cessão dos direitos autorais apenas para a primeira edição do livro. 4 - Uma equipe de escritores faz a seleção de apenas um texto por autor. A premiação é a publicação do texto selecionado em livro, em até seis meses do encerramento das inscrições. Os escritores selecionados devem criar um blog gratuito, após a divulgação do resultado do concurso, para dar visibilidade ao trabalho de todos os participantes. Os casos omissos serão decididos soberanamente pela equipe promotora. 5 - O autor que desejar adquirir exemplares do livro deverá fazê-lo diretamente com a editora ou com o organizador do prêmio. Os primeiros dez classificados receberão um exemplar gratuitamente. Os demais podem receber, a critério da organização do evento e da disponibilidade de recursos financeiros.

Modelo de ficha de inscrição: Paulo Pereira dos Santos Rua Santo André, 40 – Edf. Pedra – Apt. 201 35985-999 – Portão Belo Horizonte-MG (31) 3366-9988, 8877-8999

Modelo de minibiografia:

Lua Serena lua Olhai este berço Deixe a nossa África Mergulhar-se nua de lágrimas no seu leito De corpo e alma Na busca da vida

Paulo Pereira dos Santos é natural de Santana-PB. Escritor, poeta e jornalista, tem dois livros publicados: “Antes de tudo” e “Até amanhã”. Paticipa de cinco antologias de poesias. Graduado em comunicação social. Menção honrosa em diversos concursos de poesia, tem dois livros no prelo e pretende lançá-los em 2012.

Projeto publicado no site do PNLL do Ministério da Cultura MAIS INFORMAÇÕES: Valdeck Almeida de Jesus Tel: (71) 8805-4708 E-mail: valdeck2007@gmail.com Site do Organizador: www.galinhapulando.com

NOTA: Neste concurso podem também participar pessoas de outros países de língua portuguesa, incluindo moçambique, sendo que na impossíbilidade destes em falar de escritores baianos, podem falar dos contemporânios dos seus países.


Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

https://literatas.blogs.sapo.mz

Exero 01, 5555  BLA BLA BLA  11

11

Agendado

Diversas faces da poesia na

10ª Bienal do Livro da Bahia José inácio vieira de melo - bahia

A Praça de Cordel e Poesia vem com todo o ímpeto e com todo o encanto que são característicos da linguagem poética. Nesta edição, contempla, mais uma vez, as diversas faces da poesia baiana contemporânea, além de apresentar ao público alguns poetas de outros estados e até de outro país. Ao todo serão 86 artistas da palavra que farão, ao longo das dez noites de bienal, um grandioso espetáculo. A cada noite, a partir das 18 horas, acontecerão três sessões de poesia. Cada uma com dois ou três artistas e com duração de 50 minutos. Poetas consagrados, como Ruy Espinheira Filho e Luís Antonio Cajazeira Ramos, e jovens estreantes, como Vanny Araújo e Darlon Silva, estarão na Praça da Poesia recitando seus versos. Representando a cultura popular, estarão presentes cordelistas de grande valor, como é o caso de Antonio Barreto, Jotacê Freitas e Franklin Maxado. A ligação da poesia com a música também será explorada. E a palavra cantada ecoará através da voz e da emoção das cantoras Flávia Wenceslau e Lane Quinto, e de outros intérpretes e compositores. De Portugal para a Praça da Poesia, virá o poeta Luís Serguilha. E de outros rincões do Brasil, estarão presentes os poetas paulistas Mariana Ianelli e Luiz Roberto Guedes, o paraibano Babilak Bah, o mineiro Ronaldo Cagiano e os pernambucanos Ivan Maia e Wellington de Melo – nomes que abrilhantarão ainda mais esse grande encontro poético que, certamente, proporcionará ao público da Bienal do Livro da Bahia momentos de beleza e de pura magia. *José Inácio Vieira de Melo Coordenador e curador da Praça da Poesia Poeta, jornalista e produtor cultural

PROGRAMAÇÃO DA PRAÇA DE CORDEL E POESIA DE 28 DE OUTUBRO A 06 DE NOVEMBRO DE 2011 28/10 (sexta-feira) 18 horas Clarissa Macedo Manuela Barreto Vanny Araújo 19 horas Daniela Galdino Edmar Vieira Rita Santana 20 horas Douglas de Almeida Walter Cesar 29/10 (sábado) 18 horas Georgio Rios Marcia Tude Ricardo Thadeu 19 horas Franklin Maxado (cordelista) Sapiranga (cantador) 20 horas Luís Antonio Cajazeira Ramos Ruy Espinheira Filho

20 horas Antonio Barreto (cordelista) Babilak Bah 31/10 (segunda-feira) 18 horas Bernardo Almeida Moacir Eduão Ronaldo Cagiano 19 horas Clotilde Ribeiro Lita Passos Nívia Maria Vasconcellos Wesley Correia 20 horas Everton Lima Flávia Wenceslau (cantora) Gabriel Gomes

Lidiane Nunes Raiça Bomfim

01/11 (terça-feira) 18 horas Caio Rudá Oliveira José Ricardo Vidal Vânia Melo 19 horas Inaê Luís Serguilha Mayrant Gallo

19 horas Carlos Barbosa Claudina Ramirez Marcus Vinicius Rodrigues 20 horas Lane Quinto (cantora) Luís Pimentel Luiz Roberto Guedes

30/10 (domingo) 18 horas Daniel Farias Emmanuel Mirdad Fabrício de Queiroz Venâncio

20 horas Adriano Eysen Aleilton Fonseca Sandro Ornellas 02/11 (quarta-feira)

19 horas Elizeu Moreira Paranaguá Iolanda Costa Martha Galrão

18 horas Gibran Sousa

03/11 (quinta-feira)

Bastos Goulart Gomes Mônica Menezes 20 horas Alberto Lima (cordelista) Maviael Melo (cordelista) Tina Tude

João Vanderlei de Moraes Filho Fabrício Brandão Vladimir Queiroz Max Fonseca Vitor Nascimento Sá 05/11 (sábado) 18 horas Edson Oliveira Érica Azevedo Karina Rabinovitz

04/11 (sexta-feira) 18 horas André Guerra Gildeone dos Santos Oliveira Wellington de Melo

19 horas Fabrícia Miranda Ivan Maia Lívia Natália

20 horas 19 horas Mariana Ianelli Ângela Vilma José Inácio Vieira de Melo Hélio Alves Teixeira (cordelista) Júlio Lucas 06/11 (domingo) 19 horas Ana Cecília de Sousa 20 horas Cleberton Santos 18 horas 18 horas Alexandre Coutinho Darlon Silva Priscila Fernandes

19 horas Edgar Velame Marcos Peralta Tiago Oliveira 20 horas Mariana Ianelli J o t a c ê Freitas(cordelista) Amadeu Alves (músico) Fabrício Rios (músico)


Revista de Literatura Mocambicana e Lusofona