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Antonio Valter Kuntz

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1a. Edição


Copyright © 1995 Antonio Valter Kuntz

antoniokuntz@hotmail.com http://twitter.com/kntz

Capa, diagramação e revisão http://kntz.com.br

A reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio, somente será permitida com a autorização por escrito do autor. (Lei 9.610 de 19/2/1998)

Kuntz, Antonio Valter Mundo sem Dono - Lady Power Fundação Biblioteca Nacional - Ministério da Cultura Registro número 150.921 - Livro 247 - Folha 4.


“Nós, índios dos Andes e das Américas, decidimos aproveitar sua visita para devolver-lhe sua Bíblia, porque em cinco séculos ela não nos deu nem amor, nem justiça, nem paz. Por favor, Santidade, tome de novo sua Bíblia e devolva-a para nossos opressores, porque eles necessitam de seus preceitos morais mais do que nós.” Ramio Reynaga, líder indígena, na ocasião da visita do Papa João Paulo II à Bolívia em 1985, século XX.


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Retrato dos fins dos tempos. Um elogio frequente ouvido nos conselhos internacionais era a inexistência de muçulmanos famintos. Nessas regiões, mais do que países ou nações, a caridade não sofria monopólio estatal ou institucional, era uma obrigação direta do cidadão e pedir esmolas se tornara um ofício respeitável. No ocidente, uma maioria de Estados falidos mas plenos de aristocracias milionárias confiava a administração da economia a uma entidade supranacional. A Fundação Jus. Ela não tinha acesso a qualquer um dos muitos organismos filantrópicos do Islão, e nenhum controle direto das fortunas sob os olhos de Maomé. Enquanto no Islão havia concorrência entre as instituições de caridade, a América Continental e Europa enchiam os cofres de um Estado paralelo que impedia o fim dos bolsões de miséria do hemisfério sul. Seu poder chegava a tanto que William F. Jus havia conseguido pessoalmente a aprovação nos congressos dos Estados Unidos, Canadá e México de leis que isentavam do pagamento de imposto de renda os cidadãos que contribuíssem para a Fundação.

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Dos nove bilhões e meio de pessoas que habitavam o mundo mais da metade viviam com problemas nutricionais sérios. A expansão demográfica havia se tornado negativa uma década atrás e os mais favorecidos admitiam que essa era a melhor resposta natural para a sobrevivência da espécie. Mas a redução da população perdia a corrida para a redução da produção de bens. A Fundação Jus se alimentava da proliferação da miséria e conduzia a distribuição de riqueza através da seleção de famílias remananescentes dos conglomerados evangélicos e católicos. Seu poder vinha muito dos fundos privados de proteção à herança familiar, invenção empresarial que surgira para proteger filhos e netos diante da falência crescente dos Estados e suas moedas em decadência.

Substituindo as leis e os poderes de Estado de diversos países, a moral e a justiça nas ruas, a Fundação Jus concordava que a redução da natalidade contribuiria para o equilíbrio ecológico mas não apoiava financeiramente seu controle com métodos anticoncepcionais bioquímicos ou físicos. “Os pobres têm direito de nascer” era um de seus bordões publicitários. E num mundo dividido desde o colapso financeiro de 2027, seu domínio era quase total. Quase porque se limitava aos países de tradição cristã. Devido à expansão islâmica, as antonio valter kuntz


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nações teocráticas sob o domínio da Sharia estavam livres dos programas da Fundação mas à mercê dos experimentos genéticos de massa desenvolvidos na China e no Japão. Do paraíso não havia restado nem a lenda.

Assim, no final do Século XXI, o hemisfério ocidental mantinha suas ruínas, o Oriente Médio estava em paz, grande parte da Ásia e Oceania em equilíbrio econômico. A história do mundo corria em seu fluxo normal. Mas num tempo próximo, sete porta-aviões gigantescos e completamente armados estariam paralisados no Oceano Pacífico diante de uma frota, flutuando no céu, de esferas blindadas e escuras. E a história seria outra.

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Anno domini, 2045. Mantendo as pernas abertas, suadas, molhadas ao pelo, Melina Evren deu o melhor de si a Juan, a Carlos, a Castañeda, a Péricles, a Hugo, a Smith, a Mussolini e a quem mais importasse desde os treze anos. Bumbum para cima, mamilos esculpidos. Sua boca larga e prestativa fazia de seus amantes, idiotas. Alguns, mais submissos, sucumbiam a um simples olhar. E assim ela havia conseguido o posto de primeira dama no último 8 de agosto, aos 38 anos de idade sem celulite, rugas, estrias ou sinal de barriga.

Nova Iorque. Descendo o zíper das calças, Juan Canarió afrouxou a cinta sobre o estômago flácido enquanto se lembrava do dia em que decidiu ser Melina a mulher de sua vida. Ela mesma, que ora estava no banheiro enchendo as bochechas de água e pasta de dente, esborrifando espuma sobre o enorme espelho da parede. O mármore polido do chão refletindo sua beleza nua, vermelha, deliciosa... “Que delícias!” Que delícias o esperariam após aquela tarde. Juan ditou o número do consulado, e do outro lado uma voz feminina, secretarial e velha atendeu educadamente. Anotou as ordens de Juan e desligou o telefone. Por sua vez, a secretária, olhando para si mesma diante da janela de vidro, retocou o batom, limantonio valter kuntz


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pou a mancha vermelha que borrara o microfone e vislumbrou sua panorâmica do sétimo andar até o horizonte cinza azulado. “Mais um,” pensou a mulher esquecida pelo tempo, entre um cacoete e outro. Juan havia pedido a confirmação de seu encontro com Hervé e também das reservas para o vôo de partida. Japão.

Do outro lado do mundo, mas não muito, Kiruo terminava sua experiência de número 76 do ano, sem auxiliares há dois meses, sem verba, contrato vencido com a agência espacial japonesa e num laboratório de terceira classe no prédio mais antigo da universidade. Com metal intrapolido e elétrons nos lugares certos, a carcaça supercondutiva com 150 kg de massa e peso negativo se ergueu a meio metro do chão. Conferiu alterações de massa, temperatura, registrando as alternativas de potência em relação aos movimentos horizontal e vertical. A carcaça assim oscilava para frente, para trás e para os lados obedecendo a focos de laser de diferentes cores e graduações. Um sorriso nipônico brotou da boca feminina. Nova Iorque.

Aquilo acontecia todas as manhãs. O sol se abria e, como todas as mulheres, ela fechava as pernas. A luz entrava iluantonio valter kuntz


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minando grãos de poeira e o homem que deixava o leito tentava apanhá-los nas mãos. Ser o centro do universo era o limite máximo. A angústia matinal o tirou da cama e, ainda nu, escancarou as janelas e aspirou a brisa do mar. “Jus, fecha isso!”, ela murmurou escondendo a cabeça sob o travesseiro. Jus se voltou, viu a beleza exagerada no dorso da criança e sorriu. Sentiu uma onda de ternura. Da qual ele tinha consciência de que duraria apenas um instante, mas era satisfatória. Felicidade era coisa efêmera em sua vida.

Pronto. O instante acabara. O display do criado-mudo piscou e a voz baritonal do UVC1 anunciou um novo dia. Sete e meia, primeiro de fevereiro. A fome continuava no mundo e Jus tinha o que fazer. Às oito em ponto, Ketrin teclava o código de acesso à rede mundial permitindo o universo entrar no escritório. Alguns segundos depois centenas de canais de comunicação exibiam a voz e as imagens sintetizadas de Ketrin atendendo todas da mesma maneira: “Fundação Jus, Bom dia. Aguarde um momento, por favor.” A central identificava a origem de cada ligação e repetia a frase no idioma mais adequado, dirigindo em seguida a ligação para o interlocutor da Fundação Jus para o assunto requerido, às vezes um humano, às vezes apenas uma unidade UVC. A maioria da ligações partia de empresas coligadas e instituições filantrópicas, o que provocava um círculo vicioso en1

Universal Virtual Computer

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tre acordos operacionais e barganhas, sob a intermediação da Fundação Jus. A sede central da indústria da miséria, da fome e da caridade havia se desenvolvido e encontrado seu mais poderoso benfeitor. William F. Jus era responsável pela manutenção dos sistemas de equilíbrio.

Seu talento principal era ter se transformado no símbolo máximo da caridade cristã no hemisfério ocidental após a expansão árabe sobre a Europa mediterrânea. Ex-padre, pastor evangélico aos quarenta anos, ele começou a carreira de personalidade internacional liderando as primeiras das muitas passeatas transcontinentais, levando grupos humanos a pé através de fronteiras de países inimigos, unindo miseráveis e ricos, pagãos e religiosos. Reunindo centenas de milhares de cristãos africanos, russos, turcos, eslavos e latino-americanos para exigir melhores condições de saúde e trabalho nos piores anos da crise. O Primeiro Mundo ficara mais pobre e o império dos desassistidos pela sorte floresceu. Em menos de uma década, William F. Jus capitalizava cento e trinta bilhões de eurodólares ao dia. Mais que suficiente para se orgulhar cada vez que atravessava o portal eletrônico do Christmas Building, ponto nevrálgico da Fundação Jus - mantenedora de mais de cem mil agroindústrias de produção alimentar, administradora majoritária em 14 transnacionais, englobando a indústria aeroespacial, petróleo e redes de telecomunicações, antonio valter kuntz


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colaborando com auxílio financeiro e tecnológico países inteiros como também dando suporte ao poder eclesiástico remanescente, aglutinando sob a mesma bandeira as centenas de seitas e cultos evangélicos e sincréticos. Enfim, era a mantenedora das forças armadas da América Continental e representante oficial do bloco ocidental norte. A verdadeira raiz de um império.

“Bom dia, Ketrin.” “Bom dia, Jus. O representante do comitê internacional das crianças carentes está à sua espera tem uns vinte minutos. Eu tomei a liberdade de permitir que ficasse em seu escritório. Ele está possesso e não vi outro jeito de tranquilizálo.” Ketrin terminou de falar erguendo as sobrancelhas e os ombros. Jus esticou os lábios, passou as mãos pelas têmporas, respirou fundo e entrou no escritório. A porta mal havia se fechado e ele ouviu o forte sotaque do homem: “Filho da Puta!” Foram as primeiras palavras de Herculano Valente, europortuguês de tendências maniqueístas e deputado eleito pelo partido cristão popular com apoio da Fundação. Diante dele estavam alguns macroposters 3-D, emoldurados em vidro, de crianças pálidas e pardas. Em cada pôster lia-se Feed Me, e logo abaixo o número de uma conta bancária internacional com as iniciais FJ. “Nós tínhamos feito um acordo a respeito, Jus. E você o quebrou. Eu consegui a verba a fundo perdido, a impressão e a distribuição de mais de doze milhões de cartazes iguais a este em treze idiomas diantonio valter kuntz


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ferentes. O Congresso Livre Europeu me deu carta branca confiando no sucesso do empreendimento. Eu contribui para o rejuvenescimento desta campanha. Apostei minha carreira nisso. E agora, vejo este número absurdo impresso no meu pôster! A conta original deveria ser 315597-81, aqui está escrito 315597-91!. Como eu vou explicar uma coisa dessas ao corpo de deputados?” “Diga a verdade”, disse Jus, apertando os ombros de Herculano, num gesto fraternal, antes de se sentar. “Nós trabalhamos em nome do Bem e não em nome de lucros. Um número diferente de uma conta bancária não vai trazer alterações a nossos objetivos principais. Use isso para você se afirmar diante da opinião pública caso seus companheiros tentem minar alguma de suas ações. Você os têm nas mãos e a Fundação não irá cobrar por este presente. Aliás, a Fundação nunca cobra. Apenas dá o que recebe.”

“Presente?!” Reagiu Herculano a ponto de balançar o enorme papo e as bochechas. “Mudar o número da conta bancária nos pôsteres, impedindo o meu acesso às contribuições não foi um presente, foi uma traição. Todos os contratos que fechei contavam com o meu gerenciamento desta conta. Você amarrou minhas mãos. Com os diabos, afinal a ideia foi minha. A Fundação teria 60% dos fundos. Era mais do que merecido, era mais do suficiente.” Jus respondeu com as mãos postas em oração: “Suficiente? O que é suficiente antonio valter kuntz


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para os pobres deste planeta? Eles precisam de tudo. Cem por cento de tudo. Você devia se dar por contente em ajudálos. Eu tenho sido um bom provedor nos últimos anos. Leve minha garantia. Quando você precisar de dinheiro para manter seu status, você o terá...”

Herculano baixara os olhos e apertava os punhos de encontro a mesa. Jus continuou em um tom mais afável: “Bem, com este assunto resolvido, por que não aproveitamos e fazemos o registro da primeira contribuição agora? Com a divulgação da lista de samaritanos o seu nome estará no topo... Quanto você tem no banco?” “Existe uma coisa que supera sua inteligência, Jus - seu cinismo.” Herculano levantou rápido para os seus 76 anos e tomou a direção da porta, esta se abriu sem ruído. Antes que a porta deslizasse de volta, Herculano ainda teve tempo de se voltar e ver Jus esboçar um sorriso, aproveitar as mãos unidas e levá-las para trás até apoiar a nuca e se recostar na cadeira macia. A porta se fechou antes de Jus colocar os pés sobre a mesa e falar para si mesmo: “Vá em paz.” Martírio

Na Quinta Avenida Hugo jogou um dólar verdadeiro perto de uma mulher gorda e negra sentada na calçada e entrou em um velho táxi com motor movido a hidrogênio. O motoantonio valter kuntz


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rista fez questão de sair do carro e fechar a porta para aquele garoto cheio da nota. Naqueles tempos de dinheiro eletrônico digital, papel-moeda se tornara um souvenir para bilionários e um privilégio para os pobres. Ligou o rádio e perguntou qual estação o moço queria ouvir. Hugo apenas disse um endereço sem olhar para o homem. O carro partiu num solavanco. O garoto bem vestido olhou a gola puída do motorista e lembrou que teria de dar uma gorjeta caprichada quando chegasse. Da janela ele assistia a cidade velha passar até surgirem as construções reluzentes da Nova Manhattan. Abriu sua Bíblia de bolso e leu com o dedo o Eclesiastes. Exultante, começou a rasgar as páginas e atirar os pedaços pela janela. O motorista espiava pelo retrovisor e se pôs a calcular o tamanho da multa por jogar papel na ruas que poderia vir para o seu táxi. Se ele queria jogar ouro fora fizesse dentro do carro. Mesmo sem registro, qualquer dia desses seu táxi poderia ser localizado. Na certa um policial qualquer iria anotar aquilo. Quando o carro parou em frente à igreja, Hugo pediu para esperar e lhe deixou uma carteira cheia. O suficiente para não dar para contar quanto dinheiro tinha sem perder alguns minutos. Hugo subiu as escadas até ter à sua frente uma visão de todo o interior de um templo lotado de fiéis. Lá dentro as pessoas levantavam os braços, fechavam os olhos e esqueciam de si mesmas. O assistente do pastor fazia sinais para o DJ subir ou descer o volume, aumentar a antonio valter kuntz


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equalização e achar o equilíbrio do canto entre os efeitos especiais de eco e luzes. O homem no púlpito gritava pelos nervos da garganta: “Jesus é o Senhor! Aleluia! Jesus é Amor! Jesus é Caridade! Jesus é Liberdade! Entregue seu coração. Deixe o amor de Deus entrar dentro de você e saciar a sede da alma. Jesus quer você. Agora! Aleluia!” “Aleluia!” Hugo gritou alucinadamente sem ser notado. Gritou mais uma vez e mais uma vez, colocando os pulmões para fora e por alguns momentos interrompendo a onipresença do Senhor. Os braços dos fiéis continuaram levantados e os olhos fechados enquanto Hugo caminhava pela nave em direção ao Pastor. A saliva brotava branca pelos cantos da boca do orador. O suor escorria da testa do jovem Hugo. De cada palavra a náusea sem vômito sem espalhava na platéia. Hugo engolia em seco, sob as axilas o suor encharcava, esfKuwaito pela brisa vinda das portas da igreja. Ele ergueu o braços e apertou os olhos - “Aleluia! Aleluia!” Ninguém notou, ninguém desviou a atenção do próprio êxtase. O jovem que caminhava pela nave do templo emudeceu contrito, fixou os olhos nos olhos do pastor que percebeu o brilho nas mãos do penitente, bem que esse poderia ser o exemplo de conversão do dia. O pastor preparou o abraço da fé e sentiu a lâmina fria lacerar suas entranhas, sentiu o sangue escapar em intervalos. Nenhuma dor. O ódio. Nenhuma dor. O teto desabando, o chão subindo. Um jovem antonio valter kuntz


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de mãos vermelhas correndo para fora da igreja. Os fiéis de olhos fechados. Uma mulher magra da primeira fila pronta para gritar o desespero. O fim. A pele negra perdendo o viço.

Do lado de fora, o motorista não havia terminado de contar o dinheiro quando Hugo pulou para dentro do carro e fugiu cantando os pneus. O homem parou de contar o dinheiro, viu seu táxi indo embora e percebeu que tinha ficado no lucro. Quatro brutamontes da equipe de segurança do templo passaram por ele como se não existisse. Dali ele foi até a estação do metrô mais próxima e só ia saber o que havia acontecido pelos jornais do outro dia. Se assistisse TV ou resolvesse gastar sua fortuna com algum supérfluo do mesmo nível, é claro. Japão.

Kiruo voltou para a casa minúscula a doze andares do chão. Escolheu uma lata qualquer da dispensa e abriu. Regou as plantas com a água do feijão em lata. Espalhou os grãos no prato, misturou azeitonas e assistiu as notícias da TV. Como sempre, não havia recados no serviço interativo para encontros, mas daquela noite em diante ela não se sentiria mais só. Os microanéis no intrapolimento do metal em nível molecular eram realidade agora. Ela conseguira antes de todos - sem ajuda - o controle da força da gravidade. A inércia era antonio valter kuntz


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um anacronismo escolar e o campo unificado uma teoria de utilização concreta. Nunca mais ela iria precisar mendigar verbas ou dar aulas àquela juventude medíocre. Seu desejo agora era se livrar da vida monástica e da sina de pesquisadora improdutiva. Permanecer no país seria morrer no anonimato e atrasar mais alguns anos a história da humanidade. A idade média moderna iria descobrir uma nova renascença. A energia deixaria de ser um valor que dividia o mundo entre miseráveis e mesquinhos. A sua descoberta pertencia a todos e o único caminho que poderia seguir para universalizar a bem aventurança era o de começar anonimamente. Longe dos grandes centros. Perto das grandes populações. Nova Iorque.

A limusine desceu pela avenida em direção à periferia da grande, velha e podre maçã, de onde os conglomerados financeiros começavam a se mudar em ritmo de fuga. Ali se daria o encontro de Juan Canarió com Hervé Dorneles, o executivo máster da conexão Madri-Paris, para um almoço de negócios. Depois de uma semana, estar sozinho e vestido na limusine parecia estranho a sua natureza. Sentia falta visceral do contato morno e úmido de Melina. Tudo mais era desinteressante. Antirejuvenescedor. O mundo exterior deixava de ser importante... “Pare o carro.” Resmungou Juan e sua figura ilustre desceu sem esperar o chofer abrir a antonio valter kuntz


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porta. Dois seguranças deixaram o carro que seguia atrás e foram para mais perto do Chefe de Estado. Os batedores impediram o fluxo de trânsito continuar. Diante das fachadas muito brancas Juan contrastava sua pele rubra de sol com o dia nublado. “Está se sentindo bem, Senhor?” Perguntou o chofer com os dedos apertando uns aos outros. Juan abriu o paletó, afrouxou o colarinho e respondeu num sorriso: “Jovem, jamais acredite que sabe tudo da vida. A surpresa é sempre a única certeza.” Entrou novamente no carro, apanhou seu porta-documentos e começou a andar. A equipe de segurança acompanhou em cortejo. Mais alguns passos e Juan estaria quebrando todas as regras. O chefe de segurança não havia antecipado aquilo e temia as consequências, embora não houvesse precedentes de que havia risco de violência em relação àquela personalidade. Juan continuou até entrar numa pequena galeria onde viu uma floricultura. Escreveu um bilhete do próprio punho e registrou um débito on line expressivo para pagar as flores que enviaria a Melina. Duas dúzias a cada meia hora. Depois voltou para o carro e assumiu novamente seus ares de velho senhor. Melina, naquele momento, passava as mãos pelas pernas para esticar e fixar as meias. Olhou o relógio e pediu um carro sem motorista para sair. A velha secretária de Juan teve a coragem de perguntar para onde ela pretendia ir mas ficou sem resposta: “Uma mulher intratável”, pensou. antonio valter kuntz


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“As ações subiram Sr. Presidente”, assobiou a voz artificial vinda da mesa de Jus. Sentado, ele digitou as informações necessárias e verbalizou um comando de listagem para compra e venda. Em menos de três minutos órgãos da imprensa especializada tentavam entrar em contato com ele. O líder religioso assassinado incentivou a liberação das verbas adicionais para o programa de cristianização do extremo oriente. Mais e mais investidores contavam com os dividendos, congestionando as linhas de seus corretores. Trilhões de eurodólares entre centenas de pessoas e instituições mudavam de mãos em menos de dois segundos. Apenas uma notícia vulgar estava salvando o dia da Fundação Jus. A morte hedionda do pastor lembrou aos centros econômicos a importância de permitir a evangelização horizontal para o florescimento do mercado global. Quanto mais cristãos o Oriente tivesse, maior a garantia da sobrevivência da indústria ocidental. Sem contrariedade, a Fundação fazia a sua parte, ainda assim Jus se perguntava a razão por que Hugo teria agido com aquele fervor personalizado. Totalmente fora dos padrões. Absolutamente, não era o estilo combinado. Hugo estava desorientado. Na corrida doida com o táxi ele atropelou de morte mais duas crianças e acabou enfiando o carro na fachada de uma loja de eletrodomésticos. Estilhaçou a vitrine, arrebentou aparelhos de som e fez algumas multitelas estourarem. Quase passa por cima de um dos transeuntes antonio valter kuntz


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que via de relance as últimas notícias: a morte do Pastor Jefferson no Distrito Negro da Nova Manhattan e a tendência de fechamento positivo da bolsa até o início da tarde. Enfrentando um congestionamento de curiosos ciclistas, o destacamento paramilitar veio logo em seguida mas não encontrou ninguém. O último registro do táxi na Central tinha mais de 8 anos sem renovação e nenhuma característica proveitosa para a identificação imediata do motorista. Os cadáveres da duas crianças foram sendo recolhidos enquanto o transeunte inocente se fazia de desentendido e tinha pressa para ir embora. A loja de eletrodomésticos tinha seguro. E o carro esporte, dirigido por uma mulher, recolhendo um rapaz bem vestido com manchas de sangue por toda a roupa - foi como veio - silencioso e discreto como qualquer outro modelo eletroturbocompressor com design espanhol. “O mundo moderno não tem mais espaço para homens ingênuos”, confessava Herculano a uma grande amiga de duas décadas, a atual secretária das finanças do governo norte americano. “Hoje eu aprendi mais uma lição dessa geração sem sonhos, sem ilusões, sem objetivos senão a própria sobrevivência. Aquele homem tem o poder de mudar o mundo mas, classicamente, ele não cuspirá no prato em que come, por mais nojento e sujo que este prato possa estar. Meggie, minha princesa, a História nunca acaba bem quando a trajetória dos acontecimentos está nas mãos de gente assim. antonio valter kuntz


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Eu temo, embora eu já não tenha mais nada a perder e nem veja sentido em lutar contra as circunstâncias.”

Do outro lado da linha, Meggie suspirou: “Você está ficando velho, meu amigo. Alguma coisa vai acontecer e mudar as coisas. Sempre acontece. Para melhor ou para pior, depende do lado em que se vai estar. Por isso, não fique preocupado. Pegue o seu avião que eu vou falar com a grande chefe. Nossos interesses estão em jogo também. Já recebi informações do envio de divisas além das cotas permitidas. Dependendo do destino dessas quantias adicionais poderemos sensibilizar o congresso para um maior controle das ações de caridade da Fundação Jus dentro do país.” “A pouca vida que me resta está em jogo, querida Meggie. Eu confio em você.” “Seu velho fora de moda. Cale a boca e desligue sua linha, o código de decodificação criptográfica é o do dia 13.”

Um clique ressoou e a classe sulista da Sra. Margareth desapareceu do monitor de Herculano. A única gravação possível daquela conversa estaria destruída em segundos. Margareth tirou da base do monitor um frágil cartão do tamanho de seu polegar e o quebrou facilmente com os dedos. Os cacos de plástico foram para o lixo misturando-se aos demais.

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http://clubedeautores.com.br/book/10672--Mundo_ antonio valter kuntz

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As primeiras 25 páginas de “Mundo sem dono”, uma combinação entre ficção sociológica-científica e literatura fantástica com filosofia moral....

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