KUGOMA DVD - José Cardoso

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Era Menino Era menino ainda quando aprendi a sonhar. E foi na adolescência da vida que me ofuscou a aurora do deslumbramento. Então, criei. Dei voz e palavra à imagem, à luz e ao movimento e então aconteceram estas histórias verdadeiras de desamor e revolta, no limitado e humilde espaço de uma película de oito milímetros. E então cresci e me fiz adulto.

Em 2012, o KUGOMA iniciou a Secção de Arquivos e decidiu exibir “O Anúnico” na sua Sessão de Abertura.

In 2012, the KUGOMA Forum started an Archives Section and decided to screen “ The Advertisement” for the Opening Ceremony.

O contacto com o realizador foi também o início de uma amizade verdadeira, que levou a longas e animadas conversas em casa dos Cardoso, com o José e a Laura, sobre os filmes, a cidade da Beira, o seu percurso pelo INC, os tele-filmes, a literatura. Nos últimos anos, José Cardoso já não filmava, mas transpunha as ideias para o computador, escrevendo fervorosamente e com muito espírito. E juntava à escrita inúmeras partidas de xadrez, ora com o computador como adversário, ora com algum amigo mais corajoso!

The connection established with the film director gave rise to a sincere friendship leading us to countless chats at the Cardoso's place, with José and Laura, regarding films, the city of Beira, his journey through the INC, the telefilms and his writings. Once José Cardoso was no longer directing films, he concentrated on writing feverishly and full of spirit. He added to it his daily chessboard game, opposing either his computer or some of his bravest friends!

Algumas dessas conversas foram filmadas, outras publicadas em entrevistas, e a maioria delas estão registadas para sempre na memória. É essa Memória que nos transporta agora até esta edição, rigorosamente trabalhada com o próprio realizador, antes do seu desaparecimento físico, em 2013, e com o técnico de som, Álvaro Simões, que continuou a acompanhar o trabalho até estar concluído. Queremos que fique registado, que este não foi um t ra b a l h o p e n s a d o p a ra o h o m e n a g e a r postumamente. Pelo contrário, foi um trabalho de equipa feito em vida! O nosso agradecimento a todos os indivíduos e instituições que nos apoiaram. Património Audiovisual. Arquivo, preservação, restauro e acesso são os seus pilares. E este, de certa forma, é o nosso - primeiro - contributo. Estes filmes estavam guardados, carinhosamente mas em risco, nas gavetas do Cardoso e, agora, poderão ser vistos, coleccionados, pesquisados e analisados em qualquer canto do planeta.

Some of those chats were recorded on film others were published as interviews, most of them remain carefully kept in my memory. That same Memory which brought us about this edition, carefully thought and prepared with the director himself, before he passed away, in 2013, and also with the sound technician, Álvaro Simões, who has assisted the whole procedure till we got it ready. We want to make it clear, that this work has not been intended to represent any sort of posthumous tribute. No! On the contrary, it was all but team work, accomplished while he was still alive! We want to express our gratitude to all individuals and institutions without whom this job would have not been possible. Audiovisual Heritage. Archives, preservation, restoration and access are its pillars. This one is, somehow, our - first - contribution. These films were affectionately kept, though at risk, in Cardoso's drawers and now they 'll be ready to be watched, collected, researched and looked into, everywhere on the planet.


Extractos da obra INÉDITA MEMÓRIAS DE UMA VIDA (3º volume) de José Cardoso - Maputo, 2005/2006 (…) Paralelamente à exibição e debate regular dos filmes pelo “Cine-Clube”, no “Auditório”, a secção de Cinema de Amadores ensaiava as primeiras produções cinematográficas em 8mm., com os realizadores José Morais, Afonso dos Santos e eu próprio, respectivamente com os filmes, "Sortilégio", "Barcos e Homens" e "O Anúncio", e promovia a divulgação desta modalidade cinematográfica, com a realização regular de festivais de cinema amador a nível nacional e com reuniões de estudo sobre a linguagem e a técnica cinematográficas. (…) Foi no 2-º Festival de Cinema de Amadores, a 22 de Agosto de 1966, realizado na Beira e a nível nacional que, entre as obras dos já consagrados realizadores, como o Francisco Saalfeld, Vasco Branco e Vieira da Fonseca de Portugal, os filmes beirenses, "Sortilégio" e "O Anúncio", se apresentaram pela primeira vez em público e se sujeitaram à apreciação de um júri, que os classificou e lhes atribuiu, na categoria de enredo, ao “Sortilégio” o 3º prémio e ao “O Anúncio” o 2º e o prémio especial do melhor tema. (…)A outros festivais nacionais e internacionais, eu procurei, na medida do possível, estar sempre presente com os filmes "O Anúncio", "Raízes" e "Pesadelo", que considerava de entre outros os mais representativos, tendo cada um deles um palmarés invejável, que mais adiante descrevo, assim como uma ou outra apreciação crítica, que penso ser importante registar, quanto mais não seja para reviver esses tempos ímpares, de plenitude criativa e de luta.

Extracts from the UNPUBLISHED written piece MEMORIES OF A LIFETIME (3rd volume) by José Cardoso - Maputo, 2005/2006 (…) Along with the regular screenings and debates the Cine-Clube usually exhibited at the auditorium, our Amateurs Section was trying to set up 8mm film production. This included the first works by José Morais, Afonso dos Santos and myself, namely 'Boats and men' and 'The Advertisement' and promoting awareness of such an artistic field, by means of regular national film festivals and study groups on subjects such as film language and techniques. (…) In August 1966, during the 2nd Edition of the Amateurs Film Festival in Beira, which screened countrywide, we could watch, for the first time, well known works by acclaimed Portuguese film directors like Francisco Saalfeld, Vasco Branco and Vieira da Fonseca and two movies produced in Beira: “Sortilégio” and “Advertisement”. Screened for the first time, these movies were subjected to the scrutinium of a jury who conferred the 3rd prize script to “Sortilégio”, the 2nd to “Advertisement”, and a special award for best subject. (…) I've always tried to be present at national and international events, with my 3 films “Advertisement”, “Roots” and “Nightmare” - because I consider them representative of my work and will eventually come back to these subjects to refer the fame they were holding then, adding occasional critical remarks, which I believe, will bring to life those times of creativity and struggle.


(…) Fernando Gonçalves Lavrador, residente na cidade de Aveiro, autor do livro “Estudos de Semiótica Fílmica” - que em 1988 tive a honra de receber das suas mãos, com uma dedicatória que registava uma amizade recente - reconhecido e respeitado crítico de cinema, na revista "Vértice" nº. 291, de Dezembro de 1967, tecia algumas considerações sobre o I Festival Nacional de Cinema de Amadores de Aveiro: "O Anúncio”, da equipa “Beira-64”, sob a direcção de José Cardoso, foi a película mais apreciada pelo público, que lhe conferiu um prémio por votação. Trata-se de um filme de construção muito clássica e linear, simples e límpido no seu desenvolvimento, parafraseando num tom chaplinesco, uma canção de José Afonso, com a qual abre e finaliza. Eis uma obra que se deve apontar como um exemplo a todos os amadores. Não só pela beleza formal, mas (...) pela mensagem humana, pela verdade e simplicidade da situação dramática de um homem sem horizonte, perdido na indiferença duma festa carnavalesca. Do ponto de vista formal, apresenta qualidades que vão desde uma utilização inteligente e adequada da banda sonora e de oportunas elipses integradas (...) Até uma interpretação simples e sóbria, (...) através da qual se sugere uma realidade crua e indiferente aos dramas individuais num ritmo e numa sucessão de imagens em que se mostra toda a intuição dum verdadeiro cineasta.” José Cardoso e Álvaro Simões na cidade da Beira, década ‘70. José Cardoso and Álvaro Simões in Beira city, in the 70’s.

(…) Fernando Gonçalves Lavrador, who lived in Aveiro, author of “Studies on Film Semiotics” - an essay I got from his own hands, in 1988, with a nice note on our recent friendship - and a well known cinema analyst wrote, in December 1967, for “Vértice” magazine n.291, some fine lines about the 1st National Amateurs Film Festival in Aveiro: “The Advertisement”, by the “Beira 64” film crew, under the direction of José Cardoso, was the most appreciated by the general public, having been appointed for a special award (...). It's a movie with quite a classical structure, straight, simple and clear in its development that paraphrases both in terms of pictures and a kind of 'Chaplinean' tone, a song by José Afonso, which opens and ends the film. Here's a work that should be referred to as an example to all amateurs. Not only for its structural beauty but (...) for the humanistic message underlying the true, simple and dramatic condition of a man with no perspectives, lost in the careless atmosphere of a Carnival party. From a structural point of view, this movie presents obvious features, ranging from an intelligent and proper sound track to suitable ellipsis of a very direct and unbiased narrative (see the W.C. scene), the unpretending and discreet performance, rich in meaningful small details. José Cardoso, himself, plays the role of the main character, through a remarkable succession of scenes, (...) The instinct of a true film-maker is clearly proven. This particular sequence sets up one of the highest moments of the whole festival…”


A 29 de Novembro de 1970, no nº. 11 da revista "Tempo", sob o título ”Um grande cineasta da Beira”, escrevia a jornalista Maria Lourdes Torcato: “Em "Anúncio", pequena história à maneira neo-realista, muito bem contada e com sequências de extraordinário conteúdo dramático e originalidade, o próprio José Cardoso interpreta a figura de um pobre diabo que após um dia desesperante à procura de emprego em vão, solitário e com fome, se vê compelido por um grupo de foliões a participar numa festa de Carnaval. O filme tem como fundo sonoro uma balada de José Afonso e uma conhecida canção do filme "Orfeu Negro". "Raízes" é um filme um pouco hermético, cheio de simbolismos, mostrando influências do cinema checo e polaco. Tem belíssima fotografia a preto e branco. "Pesadelo" é uma pequena obra-prima. É um filme difícil, que não deixa margem a dúvidas quanto ao talento do seu autor. A guerra é tenebrosa e povoa os pesadelos das crianças. (...) É maravilhoso como pode transmitir-se uma grande mensagem pacifista num pequeno filme de 8mm. O filme social está afinal ao alcance do cineasta amador".

José Cardoso com o elenco de “Anúncio” e numa sequência de “Raízes”. José Cardoso with the cast from “Advertisement” and in a sequence from “Roots”.

Later in 1970, on the 11th issue of “Tempo” magazine, 29th November, Maria de Lurdes Torcato, wrote: “In “Advertisement”, a well written neo-realistic short story, with sequences of original and dramatic meaning, José Cardoso performs the character of a poor wretch who, by the end of a useless day - searching for a job, starving and lonely - finds himself compelled into a Carnival party by a group of revelers. The sound track is a ballad by José Afonso and a well known song from the movie “Black Orpheus” (Orfeu Negro). The other film, “Roots”, is a bit hermetic. Full of symbolism and reflecting the influence of the Czech and Polish cinema, in black and white beautiful photography. As for “Nightmare”, it's a masterpiece on its own. (...) confirming (...) the author's talent. The war is dreadful and fills children's nightmares. (...) packed with symbols. It is wonderful to realize how a great pacifist message can be passed on in a short 8mm film. To make movies with a social purpose is, after all, at reach of every amateur film-maker.”


José Cardoso numa apresentação na UEM, Maputo/ José Cardoso during a presentation at University Eduardo Mondlane, Maputo

Estes três filmes, que distingo de outras produções anteriores, porque marcaram o início de um estilo, forma e linguagem, condizentes com a minha maneira de ser e de estar, sensível e atento aos problemas do homem e do mundo, tiveram a colaboração valiosa na sonoplastia: de Álvaro Simões, que buscou e quantas vezes “inventou” genialmente os efeitos sonoros, que contribuíram para um todo harmónico na linguagem e estética das obras; do Gil Delgado como meu assistente e operador de câmara em "O Anúncio", além de outros “técnicos” de ocasião e inúmeros actores, adultos e crianças, que souberam assumir os seus papéis, tal como o faziam no quotidiano das suas vidas. Em todos, a escolha dos temas, o argumento, a direcção de técnicos e actores, a montagem ou edição, eram da minha autoria, inclusive a fotografia e o trabalho de câmara em "Raízes" e "Pesadelo". Na fase de finalização de "O Anúncio", tive o prazer de receber no Cine Clube, o meu querido e saudoso amigo José Afonso - o Zeca como era conhecido entre nós, irmão do Afonso dos Santos, também um amigo e companheiro especial, por quem tive e ainda tenho consideração e respeito, como homem e cineasta sensível aos problemas que nos rodeiam e como proeminente advogado. A sua opinião como artista (...) constituía para mim e naquele momento, a nota de passagem no exame a que havia sido submetido pelo também professor muito querido do nosso Liceu. (...) O Zeca demonstrou tal entusiasmo pelo filme, que me surpreendeu com a proposta de compor uma canção (...) Que poderia ser integrada na respectiva banda sonora se o desejasse. Quem o não desejaria?... Aceitei e agradeci lisonjeado pela importância que ele dava ao meu filme e que culminou com a apresentação em casa do Álvaro, poucos dias volvidos, da inspirada e hoje muito conhecida balada "Vejam bem". Hoje, não posso conceber o filme sem a canção do Zeca e vice-versa. Uma e outro se complementam porque foram criações simultâneas de uma época que nos marcou e nos definiu como fazedores de uma arte que servisse o homem e a humanidade em geral. A imagem, a palavra na voz do Zeca e a melódica balada, consubstanciam (...) a vida e o drama de um homem sem emprego e perante esse drama, a indiferença de uma sociedade hipócrita e egoísta, que não se compadece nem se solidariza com quem sofre este, em particular, e muitos outros dramas de que padece o mundo.


Those three films that I highlight among other previous productions - because they point the beginning of a style, structure and language in my work - match my personal sensitive and caring being and lifestyle, in face of human troubles. For them, I relied on Álvaro Simões, soundtrack specialist, who searched and brilliantly 'invented' sound effects which build up the language and the esthetics of those works. As my camera and assistant I counted on Gil Delgado for “The Advertisement”, as well as many other casual 'specialists', actors adults and children - who carefully played their roles as if they were living their own lives. Theme choices, scripts, actors and direction, as well as stage design and editing, were all of my own responsibility, and in “Roots” and “Nightmare” even photography and camera functions were mine. By the time we finished “The Advertisement”, my dear and remembered friend José Afonso rendered me a visit. Zeca, as he was known among us, was the brother of Afonso dos Santos, a good friend and very special companion, whom I always considered and respected, as a sensitive film-maker and man (...) not to mention, a prominent lawyer. He insisted in being present at all the adjourned sessions of editing, showing sincere interest,

José Cardoso projectando “O Anúncio” no documentário “Xadrez da Vida”, de Licínio Azevedo. José Cardoso screening “The Advertisement” for the documentary “Life’s Chess”, by Licínio Azevedo.

Gil Delgado durante a rodagem de “O Anúncio”, nas ruas da Beira. Gil Delgado during the shootings of “The Advertisement”, in the streets of Beira.

and such an enthrallment, that made me feel honored and touched. His opinion as an artist, his refined feelings and noble character - recognized by all of us - were like getting a good mark in the exams I had been submitted to, by our also dear teacher, over our high-school years. (…) Zeca Afonso showed such an enthusiasm for this film, that it rather amazed me when he called in proposing to write and compose a song on the subject, which I could use as main soundtrack, if I wished so. And who wouldn't?... I accepted and thanked, flattered with the importance he had given to my film. A few days later - at Alvaro's place - Zeca presented us the inspired and well known ballad “Vejam bem”. Today, I can no longer imagine this film without Zeca's song. They complement each other. They were simultaneous creations of a time that left strong marks on all of us and determined the path we would follow from then on, asserting ourselves as professionals of an art that could serve the whole humanity. Image, lyrics and the melodic ballad in Zeca's voice, all reveal the life and drama of a jobless man, and the detachment of a hypocritical and selfish society, that sympathizes neither with this specific drama, nor with any other drama of the world we live in.


Análise do universo simbólico nos filmes de José Cardoso por Marilú da Conceição Principiava o Inverno em Maputo, quando recebi o convite para fazer análises de curtametragens para o KUGOMA. A ideia inicial era, que de um leque com cerca de vinte filmes de diversos realizadores africanos, me dedicasse a analisar um ou dois, de diferentes realizadores. Faltei com a palavra, analiso neste ensaio três filmes do mesmo realizador: “Anúncio” (1966), “Raízes” (1968) e “Pesadelo” (1969), de José Cardoso. A indisciplina por mim cometida é resultante do facto de considerar o referido trio como peças soltas de um mesmo filme. Este ensaio é referente ao conteúdo fílmico. Dá maior relevo às interpretações que se podem fazer a partir dos teores, predominantemente simbólicos, neles expostos. O primeiro momento é dedicado a um breve enquadramento comparativo da linguagem cinematográfica impressa nos filmes. De seguida, parto para a interpretação deste filme, decomposto em três partes, fazendo um recuo para perceber o contexto histórico-social em que foram produzidos, os pilares ideológicos da época e do realizador. E utilizo estes elementos como base para o que se segue. As imagens, a preto e branco, são um dos maiores charmes cinematográficos. Aquilo que é consequência de um falta tecnológica dos primórdios do cinema transformou-se num elemento da linguagem. O drama visto a preto e branco parece-me sempre, de alguma forma, mais profundo. O pesadelo de Cardoso (“Anúncio”, “Raízes” e “Pesadelo”) não foge à regra. Encenado por personagens mudas, o realizador não está preocupado com o que elas dizem, mas com o que fazem. Há uma ênfase na música que auxilia na configuração certa para cada cena. Por tudo isto, se torna evidente em Cardoso uma forte semelhança com as fórmulas narrativas utilizadas por Charles Chaplin. Para além de ambos participarem nos seus próprios filmes como actores e partilharem um mesmo quadro temático - uma acentuação humorística, sarcástica e reveladora da condição humana nas sociedades modernas. Mas Cardoso distancia-se de Chaplin em “Raízes” e “Pesadelo”, pelo uso de grande carga simbólica. Mostra-se mais complexo e, por isso, interessante. Confunde, atordoa, provoca e desafia. “Raízes” lembra o realizador italiano Frederico Fellini, pela intenção de mostrar um espaço onde nada se passa numa narrativa crua de quotidianos aparentemente desconexos. Este, e “Pesadelo”, exigem-nos uma capacidade de imaginação sociológica maior. Um dos primeiros realizadores moçambicanos (1930-2013), Cardoso é filho de um Moçambique colonial onde a dignidade humana era autorizada e mensurada em função da raça. Uma sociedade que respirava injustiças sociais. E contra elas lutou, usando também a


À esquerda um frame de “Raízes” e à direita, a foto do holocausto com que abre “O Anúncio”. On the left a frame from “Roots” and on the right, the holocaust photo which opens “The Advertisement”.

sua arma mais poderosa, indestrutível e para compreensão de poucos, o cinema. Desde os seus 16 anos ligou-se aos ideais do socialismo comunista, que defendeu até à morte. Numa entrevista ao jornal “A Verdade” disse: “Essa luta consiste na construção de um mundo melhor, de justiça social, em que as riquezas nacionais de cada país sejam divididas entre os povos desse país e não roubadas por meia dúzia de sanguessugas e ladrões que andam sempre à caça das migalhas do povo para gerar a sua riqueza. (…) o capitalismo, contra o qual eu luto o tempo inteiro é o regime do salve-se quem puder” (ALBINO, 2013). Aqui estão as linhas mestras para descortinar o universo simbólico construído nos seus filmes. Por isso, afirmar que “Anúncio” é sobre a problemática universal do desemprego, torna-se redutor de toda a temática que o filme aborda. O desemprego é apenas um pretexto, assim como Cardoso não é personagem principal neste filme. O sociólogo francês Alain Touraine, em Sociedade programada e Sujeito, afirma: “nas modernas sociedades o ser humano mede-se pelo trabalho que tem e dinheiro que produz. Imperam a constante produção material e cultural, a dependência tecnológica e a sensação de que tudo já está projectado. Os agentes sociais da contemporaneidade passam a preocupar-se com os fins e com as utilidades do que é produzido.” (RAMOS, sd). Inicia-se, portanto, em “Anúncio”, a crítica ao lugar do humano na modernidade, um questionamento profundo que tem lugar, essencialmente, no campo da sociologia e da filosofia. Uma criança olha atentamente um coqueiro que alberga corvos nas suas folhas. Uma mão adulta dá bofetada no menino e os pássaros fogem. A seguir aparece um adulto que sorri por motivo nenhum, com um ar vagamente imbecil. Assim são as primeiras cenas de “Raízes”. Cardoso faz uma analogia entre a criança e o homem na transição para uma sociedade moderna, os corvos enfileirados no coqueiro representam os valores socialistas onde prospera uma maior solidariedade. Quando o adulto bate na criança é o momento da proposta de uma nova organização, a moderna capitalista. E, como é lógico, os corvos voam nesse instante. O jogo, o cigarro, a insegurança púbica, a ostentação, as desigualdades sociais e desvalorização da vida humana, o sexo e objectivação da mulher. Sobre esta última, Cardoso presta uma maior atenção, é-me claro a sua indignação perante a exposição do corpo feminino.


O filme “Pesadelo”, para além de ter rendido ao realizador alguns prémios internacionais (tal como os outros), foi motivo de sua apreensão pela PIDE (polícia política fascista portuguesa), no tempo colonial, sob a alegação de que estava a fazer apologia à luta de guerrilha que, embora injusta, não era de todo infundada. Em “Pesadelo”, Cardoso fala-nos do medo e da necessidade de enfrentá-lo. Podemos identificar neste filme, o nascimento daquilo que veio a ser, o maior fenómeno de reivindicação social na modernidade: os movimentos sociais. O sociólogo polaco, Zygmunt Bauman no seu livro Confiança e Medo na Cidade, afirma que, ao confinar pobres e ricos no mesmo espaço, a arquitectura da cidade contribui para o sentimento de insegurança que se vive. “A cidade”, reflecte Bauman (2009), “que emergiu como um espaço para proteger as pessoas dos “outros”, que não faziam parte do “nós”, parece agora perder sua função, sendo dominada por uma cultura do medo. (...) Os muros altos atravessados por cercas electrificadas, as grades e os condomínios fechados, as câmaras de segurança. São marcas de uma sociedade onde os ricos procuram assegurar que os seus bens não serão pilhados e os pobres lutam para mudar esta condição. Portanto, nunca é possível estar totalmente seguro.” No filme, o objecto do medo é representado por um Homem que caminha em perseguição das crianças (Homem moderno). O medo não tem cara, sendo que o sujeito moderno é incapaz de identificar com precisão a verdadeira razão de seu amedrontamento. De facto, são múltiplas as razões e medos. “A crença exacerbada de que a ciência traria abundância e felicidade para todos ruiu. O que se viu foi a convivência entre o desenvolvimento científico e a persistência da privação, tanto material quanto cultural, de extensos segmentos populacionais, assim como as lutas étnicas, religiosas e toda sorte de práticas discriminatórias e xenófobas, ou seja, o avanço da ciência não trouxe maior tolerância dian

Em cima, Cardoso e parte da equipa de “O Vento sopra do Norte”. Em baixo, um dos muito prémios que recebeu enquanto cineasta amador. Above, Cardoso and part of the team from “The wind blows from the North”. Below, one of the many prizes he received while still an amateur.


diante da diversidade, nem tampouco atingiu, amplamente, a humanidade.” (SILVA, 2008). Se “Raízes” termina com uma dança de sombras, para enfatizar a dúvida sobre o futuro da humanidade, em “Pesadelo” temos o que pode ser chamado de final feliz. Assim, o realizador faz uma antevisão de que os modernos enfrentarão os seus medos e triunfarão. Porém, esta é apenas uma representação do que se prevê ser o futuro. Na realidade, o pesadelo de Cardoso (condição desumana nas modernas sociedades capitalistas) avança, prospera e reinventa-se. É um pesadelo vivo, que acontece todos os dias e cada um de nós partilha. O simbólico abre espaço para novas e até mesmo contraditórias interpretações. Portanto, encontrar um sentido uníssono e acabado para cada um e, principalmente, para o trio que compõe o pesadelo de Cardoso, é uma ambição desmedida, que não possuo. As minhas, aqui expostas, valem mais pelo prazer imenso de ter encontrado em Cardoso a arte vanguardista cinematográfica moçambicana em seu mais elevado horizonte.

Referências Bibliográficas MENEZES, Daniel Gonçalves de. «Confiança e medo na cidade», de Zygmunt Bauman. In: Resenha n.07, pag. 351-355, 2012 ALBINO, Inocêncio.“Eu fui, sou e serei sempre comunista” José Cardoso (1930 – 2013). In: JORNAL A VERDADE (13-10-2013). Disponível em: http://www.verdade.co.mz/tema-de-fundo/35themadefundo/40743-eu-fui-sou-e-serei-sempre-comunista. Visto a 05-06-14. SILVA, Maria Salete. «Democracia e sujeito: uma relação indissociavél na obra de Alan Touraine» 2008 in: Emancipação, Ponta Grossa, 8(2): 21-34, 2008. Disponível em: http://www.uepg.br/emancipacao. visito a 12-06-14. RAMOS, Rubia A.. «SOCIEDADE PROGRAMADA: A sociologia de Alain Touraine sobre a modernidade», Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Guarulhos-SP. Disponível em: www.uff.br/.../PPGSD2014%20-%203.Bibl_Especifica%20(Dir.Humanos_Just).pdf

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Um passo no sentido de participar no esforço de divulgação e preservação do acervo audiovisual nacional, o KUGOMA inicia aqui um caminho para levar ao público, em DVD, alguns filmes moçambicanos menos divulgados ampliando o acesso, as oportunidades de estudo e o conhecimento sobre estes trabalhos E os seus autores. Pretendemos que este seja o primeiro de uma colecção de material nunca antes editado e que refaz o percurso audiovisual moçambicano. Uma edição colaborativa entre O realizador José Cardoso, o responsável pelo som Álvaro Simões e o KUGOMA, este DVD contou com a experiência da Arcadia Produktions, na Alemanha. With this first endeavour to take part in the promotion and preservation of the national audiovisual heritage, the KUGOMA gets off on a new path, bringing about to the public, on DVD, some of the least known Mozambican films, as such broadening not only the access but also the research opportunities and the overall awareness of those works and their authors. We wish this to be the first of a collection of unpublished materials to redesign the course of the Mozambican audiovisuals. A collaborative edition by the director José Cardoso, the sound engineer Álvaro Simões and KUGOMA, this DVD has benefitted from the expertise of Arcadia Produktions, in Germany.

Este DVD inclui 3 filmes de curta-metragem, uma breve entrevista e extras. This DVD includes 3 short films, an interview and extras.